AS IMAGENS NAS PAREDES DAS ANTIGAS CASAS DO SERTÃO

Autor – Rostand Medeiros

Sempre que viajo ao sertão gosto de observar os costumes, o modo de vida, a forma como o sertanejo interage com o Mundo.

Aguço meus sentidos principalmente quando estou nos sítios, nos rincões, nas pequenas ou grandes propriedades rurais, sejam nas modernas ou nas antigas, com seus sótãos, suas grossas paredes e histórias.

Fique bem claro que ao fazer estas observações, nunca faço de modo pedante, superior, tipo “o cara da capital que olha de cima”, mas apenas pela ideia de poder ainda observar os últimos resquícios do velho sertão, que muda cada dia, cada vez mais rápido.

Não sou contra a evolução, o progresso, apenas tenho a utopia de ver o que Câmara Cascudo e Mario de Andrade viram em sua viagem pelo sertão, ou ver os costumes que Oswaldo Lamartine observou e transmitiu magistralmente.
Sei que agora, o que existe, é somente uma pálida visão deste antigo sertão.

Observei que mesmo nos sítios mais distantes, no interior das casas sertanejas, a velha iconografia existente nas paredes destas casas, está cada vez mais difícil de ser observada.

As figuras atualmente mostradas são muito distintas das imagens que os sertanejos orgulhosamente apresentavam, com sua variedade de contrastes, suas figuras santificadas, suas simpatias e outros temas. Sobram imagens inúmeras outras bandas de um forró de qualidade duvidosa, ou imagens de ídolos do futebol e da televisão.

Não que a figura santificada tenha deixado de existir, mas o espaço diminuiu e muito. Os políticos ainda se fazem presentes, mas diferente do passado, mais na época de eleição.

Neste sentido, no jornal “A Republica”, de 13 de março de 1923, em um artigo intitulado “A Iconographia Sertaneja”, já se apontava as mudanças da percepção iconográfica do sertanejo potiguar de então.

Naquele tempo, junto com a imagem do santo de devoção, já havia a figura do político. Entre as imagens mais vistas, até nas “mais humildes choças”, estava o retrato de Augusto Severo, depois as figuras de Pedro Velho, Ferreira Chaves e uma ou outra de Alberto Maranhão.

A figura do ex-senador Almino Afonso, outrora muito popular, estava deixando de ser vista. Fato semelhante ocorria com a figura do velho chefe político de Mossoró, Almeida Castro.

O retrato de Augusto Severo ainda era popular em 1923, devido à mitificação da sua figura como o “grande herói potiguar dos ares”. Em relação à ainda estarem fixados nas paredes sertanejas, as figuras da decadente oligarquia Maranhão e seus aliados, pode-se explicar no sentido que estas figuras políticas estavam, naquele período, deixando o cenário do poder, para a ascensão de José Augusto Bezerra de Medeiros e Juvenal Lamartine de Faria. Deve-se levar em conta que as informações naquele tempo demoravam muito a chegar aos rincões do nosso Estado.

Papa Leão XIII

Chama a atenção no artigo, o fato do autor comentar existirem muitas fotos do Papa Leão XIII e poucas dos seus sucessores, Pio X e Bento XV. Provavelmente isto se devia ao sucesso que este Papa obteve junto ao clero nordestino. O Papa Leão XIII ficou conhecido pelas suas doutrinas econômicas, nas quais ele argumentava a falha do capitalismo e do comunismo. Ficou famoso como o “papa das encíclicas”. A mais conhecida de todas foi a “Rerum Novarum”, de 1891, sobre os direitos e deveres do capital e trabalho. Ele introduziu mudanças fortes no pensamento social católico, que alcançaram o sertanejo de outrora e fizeram a sua figura ser um sucesso nas casas do sertão nordestino.

Outro ponto tocado pelo autor foi o fato de, em meio a um Brasil efervescente de revoltas e revoluções, não haver encontrado a foto de um “agitador das massas”, mostrando o conservadorismo das populações interioranas.

Já o santo mais visto nas casas não poderia ser outro que não São José, principalmente pela sua relação com o dia 19 de março, o dia decisivo, o dia da verdade, o dia quando o agricultor sabe se vai ter ou não chuvas, se o seu ano está salvo ou perdido. A figura deste santo existia em quadros de todos os tamanhos e formatos. Nossa Senhora, sobre qualquer invocação, era sempre muito popular.

Em um sertão de poucas letras, de poucos livros, onde as figuras ditas “letradas”, eram praticamente invisíveis nestes lares. O autor afirmou ter encontrado, em apenas uma casa, a figura do poeta Olavo Bilac.

Nos locais que moravam as pessoas mais idosas, ou que um venerável idoso era o comandante deste lar, era normal as imagens de D. Pedro II, com sua respeitável barba branca, e a da “Redentora”, a princesa Isabel.

Uma surpresa; Segundo o autor de “A Iconographia Sertaneja” neste época a figura do padre Cícero Romão Batista era extremamente popular no sertão, com muito prestígio e enorme influência. Para ele era difícil alguém de fora fazer até uma simples crítica ao “Padim Ciço do Joazeiro”.  Contudo, apesar de todo o prestígio do cura cearense poucas eram as imagens deste “santo” nas casas sertanejas visitadas.

Antigamente, ao se entrar em uma casa no sertão, era fácil conhecer o pensamento político, o santo de sua devoção e outras características. Hoje é diferente.

As duas fotos que apresento, foram conseguidas no interior da Paraíba, em duas localidades distintas e bem pequenas, próximas as fronteiras com o Ceará e Pernambuco. Foram as imagens que considerei mais bonitas e originais.

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