MARCAS DO NAZISMO EM FAZENDAS DO INTERIOR DE SÃO PAULO

José Ricardo Rosa, 55, conhecido como "Tatão" segurando um tijolo com a suástica nazista; após herdar a fazenda Cruzeiro do Sul na cidade de Campina do Monte Alegre ele encontrou por acaso tijolos com o sinal nazista usados na construção -

José Ricardo Rosa, 55, conhecido como “Tatão” segurando um tijolo com a suástica nazista; após herdar a fazenda Cruzeiro do Sul na cidade de Campina do Monte Alegre ele encontrou por acaso tijolos com o sinal nazista usados na construção -Fonte Folha de São Paulo –  Carlos Cecconello

Escombros de fazenda no interior paulista revelam passado de admiração ao nazismo

Os tijolos que hoje se desprendem de uma velha capelinha da fazenda Cruzeiro do Sul, servem como pistas para rastrear como um integrante de um abastado clã do Rio de Janeiro transformou sua propriedade num testemunho de admiração ao nazismo nos anos 1930.

Nessa fazenda, os blocos de barro eram feitos com uma suástica estampada.

José Ricardo Rosa segura um tijolo com a suástica nazista - Folha de São Paulo

José Ricardo Rosa segura um tijolo com a suástica nazista – Folha de São Paulo – Carlos Cecconello

Alguns desses tijolos viraram material para pesquisadores, assim como fotografias de bois marcados a ferro quente com o símbolo nazista, bandeiras e uma série de outros documentos encontrados na propriedade. 

No início do século 20, a família carioca Rocha Miranda adquire uma extensa área de terra no interior do estado de São Paulo. Os Rocha Miranda eram na época proprietários do Hotel Glória, da Casa Bancária Rocha Miranda e da companhia de aviação Panair, entre outras empresas do Rio de Janeiro, então capital da República. Ao lado dos Guinle e dos Leal, eram uma das famílias mais ricas do Brasil.

A exploração dessas áreas do interior paulista teve início no fim do Império. Elas foram parte do presente de D. Pedro I (1798-1834) ao brigadeiro Raphael Tobias de Aguiar (1794 – 1857), fundador da Polícia Militar de São Paulo, por seu casamento com a Marquesa de Santos (1797 – 1867), oficializado em 1842. Em 1906, o brigadeiro as vendeu para Luis Rocha Miranda.

José Ricardo Rosa segura um tijolo com a suástica nazista - Carlos Cecconello/Folhapress

José Ricardo Rosa segura um tijolo com a suástica nazista – Carlos Cecconello/Folhapress

As terras abarcavam as fazendas Santa Albertina, Cruzeiro do Sul, Retiro Feliz, Mandaçaia, Cavalinho e Sobradinho, em uma área de 40 mil hectares na região de Buri. É dentro dessas terras que se encontra a Guatambu, fazenda-sede da Agropecuária Guatambu Ltda. 

As terras teriam sido compradas para a prática da caça a perdizes, aves características daqueles campos. Contam-se muitas histórias sobre as caçadas que os Rocha Miranda realizavam ali, junto aos numerosos amigos que traziam do Rio de Janeiro em composições fretadas da Estrada de Ferro Sorocabana. Integradas por carros-dormitório, carro-restaurante e carro-sala de estar, especialmente decoradas, essas composições permaneciam em uma estação construída pelos Rocha Miranda e hoje conhecida como Estação Hermilo, em Angatuba (SP). Terminada a temporada de caça, o luxuoso trem os levava de volta para o Rio de Janeiro.

Em 1934 a família Rocha Miranda dá início, nessas terras, à criação e seleção de gado Nelore. Com a morte do patriarca seus três filhos, Sérgio, Oswaldo e Renato Rocha Miranda, tomam posse das propriedades.

Aloysio Silva, 89, foi uma das crianças trazidas de um orfanato do Rio de Janeiro na decada de 30 para trabalhar na Fazenda Santa Albertina de propriedade de Oswaldo Rocha Miranda; ele afirma ter sido submetido a normas e costumes escravagistas - Carlos Cecconello/Folhapress

Aloysio Silva, 89, foi uma das crianças trazidas de um orfanato do Rio de Janeiro na decada de 30 para trabalhar na Fazenda Santa Albertina de propriedade de Oswaldo Rocha Miranda; ele afirma ter sido submetido a normas e costumes escravagistas – Carlos Cecconello/Folhapress

Sérgio Rocha Miranda cuidava da fazenda Cruzeiro do Sul. A propriedade vizinha, a Santa Albertina, ficava sob os cuidados de seu irmão, Oswaldo Rocha Miranda. Nela, funcionava uma espécie de fazenda-orfanato para 50 meninos mantidos em um regime quase escravo.

Com idades entre 9 e 12 anos, esses garotos (somente dois deles brancos) foram entregues a Oswaldo em 1933 e 1934, após decisão judicial.

Todos haviam sido abandonados no orfanato católico Educandário Romão de Mattos Duarte, no Rio, e foram retirados de lá por Oswaldo com a promessa de terem uma vida melhor, segundo Aloysio Silva, 89, o “menino número 23″ da lista de 50.

“Era uma vida diferente da prometida. Era castigo por tudo, trabalhava muito, até de fazer a mão sangrar”, conta Aloysio, o número 23.

Quero saber da minha mãe, pai e irmãos antes de morrer. É muito triste ficar velho sem saber quem é nossa família. Como não conheci ninguém, sou assim meio revoltado. Dá um negócio assim…Uma revolta danada daquela vida na fazenda.

Dessa forma, Aloysio Silva, 89, pai de sete filhos e morador de Campina do Monte Alegre (SP), reage sobre os quase dez anos vividos na Fazenda Santa Albertina.

Silva foi transferido do Educandário Romão de Mattos Duarte, no Rio, para a Santa Albertina em 1933. Lá, por dez anos, deixou de ser Aloysio para ser o “23”.

Aloysio Silva foi uma das 50 crianças trazidas para trabalhar na fazenda, todas atendiam por números e não pelos nomes, Aloysio era o número 23 - Carlos Cecconello/Folhapress

Aloysio Silva foi uma das 50 crianças trazidas para trabalhar na fazenda, todas atendiam por números e não pelos nomes, Aloysio era o número 23 – Carlos Cecconello/Folhapress

“Os bichos tinham documento e nome na fazenda. E nós éramos tudo número, como se nós fôssemos gado”, diz ele. “O cumprimento na fazenda era sempre ‘Heil Hitler’ ou ‘Anauê’ [saudação dos integralistas], mas a gente nem sabia o que era esse negócio de nazismo.”

Segundo os documentos do orfanato, Silva foi abandonado pela mãe, Maria Augusta da Silva, quando tinha três anos. O local era conhecido como “Casa da Roda”: do lado de fora, familiares colocavam bebês e crianças em uma portinhola que girava até as freiras, do lado de dentro.

Além do nome da mãe, Silva também sabe o de uma irmã, Judith, mas nunca conseguiu localizá-las. “A família vivia ali por onde hoje é o aterro do Flamengo. Só sei disso, mas queria achar alguém.”

Na fazenda, Silva se notabilizou por ser um corajoso “domador de bois, cavalos e burros bravos” e como um dos melhores jogadores de futebol do time dos Rocha Miranda.

A vida na fazenda era sofrida demais. Tinha castigo por tudo. (…) As traquinagens de moleque sempre terminavam com castigo. Era no silo [tanque de armazenamento de cereais] que eles deixavam a gente, como se fosse cadeia“, relembra. “A palmatória tinha uns buracos. Quando batia na mão da gente, sugava tudo. Doía muito.

Reprodução de foto encontrada nas fazenda da família Rocha Miranda em Campina do Monte Alegre interior de São Paulo, em que gados eram marcados com a suástica nazista

Reprodução de foto encontrada nas fazenda da família Rocha Miranda em Campina do Monte Alegre interior de São Paulo, em que gados eram marcados com a suástica nazista

Já os irmãos Maurício e Ângela Rocha Miranda, herdeiros de parte da fazenda Santa Albertina, contestam as versões que colocam seus tios-avôs como simpatizantes de práticas nazistas nas fazendas da família.

Segundo Maurício, o apoio de Sérgio Rocha Miranda ao nazismo durou somente até o momento em que descobriu as reais intenções de Adolf Hitler, por volta de 1934.

Sérgio era um homem viajado, que gostava da boa vida. Era, sim, simpatizante do nazismo no início da década de 1930, como diversas pessoas na sociedade brasileira também eram. Havia um partido nazista no Brasil.”

Parte da fazenda Cruzeiro do Sul está em ruína. (Foto: Divulgação)

Parte da fazenda Cruzeiro do Sul está em ruína. (Foto: Divulgação)

No entanto, diz Maurício, no fim de 1934, com a ascensão de Hitler ao poder, Sérgio deixou de flertar com o nazismo e eliminou a suástica como símbolo da fazenda.

Sobre os 50 meninos trazidos do orfanato por Oswaldo Rocha Miranda, ele afirma que o tio-avô o fez, “com aval do governo da época“, para atender o pedido de sua mulher de “dar escola, educação e profissão aos órfãos”.

Era uma fazenda aberta e eles tinham de ser controlados, mas jamais foram castigados, punidos ou escravizados“, afirma.

Maurício e Ângela captam em vídeo depoimentos de ex-funcionários e de frequentadores das fazendas para mostrar como os Rocha Miranda são bem conceituados nas cidades que se desenvolveram ao lado de suas terras.

Ainda segundo Maurício, o historiador Sidney Aguilar Filho nunca procurou ouvir a versão da família para sua tese de doutorado. Sidney disse não ter conseguido contato com os Rocha Miranda.

Tijolos com a suastica nazista encontrados na fazenda Cruzeiro do Sul - Carlos Cecconello/Folhapress

Tijolos com a suastica nazista encontrados na fazenda Cruzeiro do Sul – Carlos Cecconello/Folhapress

As fazendas, que se espalhavam por área que hoje alcança três municípios. As primeiras marcas do nazismo foram descobertas em 1997 pelo tropeiro José Ricardo Rosa Maciel, 55, o Tatão. Dono de espessa barba branca, ele narra a descoberta.

Teve uma briga da porcada, que derrubou a parede do chiqueiro. Quando vi o estrago, achei os tijolos com a marca nazista. Passaram anos me chamando de louco, mas agora tá tudo comprovado pelos estudos do doutor Sidney.

Tatão se refere ao historiador Sidney Aguilar Filho, 45. Em 1998, ele dava aula para a enteada de Tatão quando ela revelou que, na fazenda onde vivia, havia tijolos com aquele “símbolo alemão” das aulas de história. Sidney investigou por mais de uma década e, em 2011, apresentou sua tese de doutorado na Unicamp sobre a exploração do trabalho e a violência à infância no país no período de 1930 a 1945.

Por muitos anos, aqueles meninos foram submetidos a um regime de trabalho como se fossem adultos, sem remuneração, sem liberdade de ir e vir e estudando pouco. Mas aquilo era aceito pela sociedade”, diz ele.

Anos mais tarde, o tenente da Força Aérea Brasileira Renato Rocha Miranda Filho viria a tornar-se o único herdeiro de todo o patrimônio.

A professora Ana Maria Dietrich, doutora em história, fala que a maior célula nazista no Brasil ficava no estado de São Paulo. “A principal organização era na capital, mas outros núcleos existiram em Santo André, Santos, Campinas, Jundiaí, Presidente Bernardes, Presidente Venceslau e Assis”, fala.

Tijolos com a suástica nazista encontrados na fazenda Cruzeiro do Sul de propriedade de Sergio Rocha Miranda, que era simpatizante do nazismo durante a década de 30 e 40 - Carlos Cecconello/Folhapress

Tijolos com a suástica nazista encontrados na fazenda Cruzeiro do Sul de propriedade de Sergio Rocha Miranda, que era simpatizante do nazismo durante a década de 30 e 40 – Carlos Cecconello/Folhapress

Apesar dessa presença marcante com esses núcleos, Dietrich explica que a pior parte da ideologia nazista não atravessou o oceano Atlântico. “No Brasil só existia o fascínio. Não tinha o terror que acontecia na Alemanha”, finaliza.

A partir de material coletado através de reportagem produzida pelo jornalistab ANDRÉ CARAMANTE
Fonte:http://www.folhadedourados.com.br/noticias/brasil-mundo/escombros-de-fazenda-revelam-passado-de-admiracao-ao-nazismo

http://www.guatambu.com.br/historia.html

http://www.controversia.com.br/blog/marcas-do-nazismo-chamam-a-atencao-no-interior-de-sao-paulo/

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2 opiniões sobre “MARCAS DO NAZISMO EM FAZENDAS DO INTERIOR DE SÃO PAULO

  1. Bravo! Morei num bairro carioca próximo ao bairro de “Rocha Miranda” e ainda conheci esse tal educandário Romão de Matos, que existe até hoje no bairro do Flamengo.

    • Obrigado Mestre Durval,
      Agradeço sua mensagem.
      Aqui em Natal, quando você vier nós visitar, vou te mostrar um bar no velho bairro da ribeira, chamado “Consulado”, antigo consulado italiano e bolsa de valores de nossa cidade, onde o piso é composto de desenhos com suásticas nazistas. Acho que você vai gostar de conhecer.
      Forte abraço.
      Rostand

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