POESIA COM O CARIMBO POPULAR

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No Brasil, a xilogravura se disseminou como técnica de expressão à medida que foi associada à literatura de cordel

Beliza Áurea de Arruda Mello

No princípio era a voz que se fez letra e, depois, xilogravura. Esta é a gênese do cordel no Brasil. A voz da poesia cantada que depois vira letra impressa no folheto e, por último, é acompanhada da xilogravura como ilustração. A história da xilografia, aqui, se mistura com a do cordel. Não há como desvincular uma da outra.

O folheto de cordel nasceu como forma de imprimir os versos entoados pelos cantadores-poetas do povo que interpretam os desafios. O primeiro folheto de que se tem notícia apareceu em Recife, em 1865, impresso na Tipografia de F. C. Lemos e Silva, com o título imenso de Testamento que faz um macaco especificando suas gentilezas, gaitices, sagacidade, etc. Mas foi a partir da abolição da escravidão do Brasil, em 1888, que houve o fortalecimento dessa nova forma de expressão.

Os ex-escravos podiam agora ser integrados ao mercado de trabalho formal e assalariado. Entre as novas profissões, proliferava a de vaqueiros, encarregados de transportar o gado pelos sertões do Nordeste. Muitos desses vaqueiros eram poetas do povo que entoavam aboios, canto típico do trabalho para tanger o boi; ou desafios, uma disputa poética cantada de improviso; ou ainda pelejas, outra espécie de luta poética de improviso em horas de trabalho, de folga e de festa. Os poetas, nascidos em zona rural, estavam “livres” e tinham certa autonomia para deslocamentos físicos.

Um dos primeiros e mais conhecidos poetas populares do Nordeste foi Leandro Gomes de Barros, nascido em 1865, na cidade de Pombal, no sertão da Paraíba. Em seus folhetos é possível encontrar narrativas sobre bois muito recorrentes nos sertões nordestinos, como O Rabicho da Geralda. A história é tão comum que o escritor José de Alencar chegou a classificá-la de “poemeto sertanejo”.São dele célebres folhetos de cordel, como O cavalo que defecava dinheiro, que inspirou o Auto da Compadecida, do escritor Ariano Suassuna, e a Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, um clássico baseado no tema do rei Carlos Magno e sua luta com o diabo. Pela qualidade dos seus cordéis, ele foi chamado por Carlos Drummond de Andrade de o “príncipe dos poetas”.

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Outros pioneiros – todos paraibanos – são: Silvino Piruá de Lima, nascido em 1848, que escreveu A História de Zezinho Mariquinha; Francisco das Chagas Batista, nascido em 1882, que em 1902 publicou Saudades do sertão; e João Martins de Athayde, nascido em 1880, autor de O preto e o branco apurando qualidade, de 1908, e responsável por introduzir ilustrações nas capas dos folhetos de cordel no Brasil. Tanta ebulição cultural na Paraíba produziu, em 1913, a Popular Editora, uma casa de cordéis criada pelo poeta Francisco das Chagas Batista – tão importante para a expressão cultural do Brasil que Mário de Andrade chegou a dizer que merecia ser “célebre no país inteiro, se nós fossemos verdadeiros patriotas”.

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Mas além das ilustrações trazidas por João Martins de Athayde, os poetas queriam mais inovações – e é aqui que o casamento entre cordel e gravura é celebrado. Começaram a usar esta antiga técnica de impressão principalmente por ser barata e simples: desenha-se uma imagem em madeira macia, como a cajazeira e a imburana, árvores nativas da caatinga nordestina, ou até mesmo em borracha de pneus usados; depois se escavam as partes destinadas a ficarem brancas; joga-se a tinta, que fica depositada nas partes mais salientes da matriz e, ao comprimir a madeira no papel, aparece a imagem, num processo semelhante ao do carimbo. É o mesmo processo usado na Idade Média europeia. Trata-se de uma técnica ancestral que provavelmente se originou na China, no século II a.C. No extremo Oriente, ela era utilizada para a impressão em tecidos, além do papel. Na Europa, foi amplamente empregada para ilustrações e impressão de cartas de baralho, imagens de santos, guerreiros, reis e rainhas, e cenas de calendários.

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A xilogravura ajudava a fazer a “propaganda” dos fatos que interessavam à população. Era tão popular nos século XIV, XV e XVI que passou a ilustrar os romances de cavalaria, e até os autos de Gil Vicente – peças teatrais curtas sobre temas religiosos e cômicos, que também influenciaram Ariano Suassuna no seu Auto da Compadecida.

No Brasil, a xilogravura passou a ser produzida em 1808 pela imprensa, que fazia pequenos anúncios de publicidade em jornais, revistas, e também em ilustração de livros.A técnica propagou-se rapidamente no Nordeste. Quase um século depois, em 1907, apareceu o primeiro cordel ilustrado com uma xilogravura: A história de Antônio Silvino,escrito por Francisco das Chagas Batista.

O desenho da capa é baseado no retrato de Antônio Silvino, cognome de Manoel Batista de Morais, nascido em 1875, na cidade de Afogados da Ingazeira, sertão do Pernambuco. Sua história é típica de cangaceiros. Seu pai, em virtude de brigas políticas com o governador de Pernambuco, decidiu formar um bando de homens que espalhava terror pelos sertões do Nordeste.Quando um dos elementos do bando foi preso, Manoel Batista assumiu o comando do cangaço e mudou o seu primeiro nome para Antônio e o segundo para Silvino, em homenagem ao tio, ex-chefe do bando, por quem nutria admiração. Passou a ser conhecido pelo nome de guerra, Antônio Silvino, e pelo apelido de “Rifle de Ouro”. Antes de Lampião, foi o cangaceiro mais famoso e temido do sertão nordestino.

Se a Paraíba é o estado dos pioneiros do cordel, o Ceará é um celeiro de bons xilógrafos, alavancados por José Bernardo da Silva, o maior editor de literatura de cordel durante os anos de 1940 a 1960. José Bernardo chegou a Juazeiro do Norte, no Ceará, na década de 1920, e logo iniciou suas atividades como folheteiro – como eram conhecidos os vendedores de cordel. Em 1932, comprou sua primeira máquina (uma rudimentar impressora de pedal) e fundou a Tipografia Lira Nordestina. Sua atividade editorial alcançaria o apogeu em 1950 por causa da ilustração em xilogravura de muitos folhetos do cordel: Alonso e MarinaJuvenal e o dragãoJoão Grilo e Donzela Teodora, entre muitos outros. Logo, a xilo passou a ser o grande atrativo dos cordéis. Graças ao incentivo de José Bernardo, outros grandes xilógrafos, como Mestre Noza, Antônio Relojoeiro e Expedito Sebastião da Silva, ficaram conhecidos. A tradição da gravura no Ceará se mantém até os nossos dias, com Abrão Batista, ilustrador dos seus próprios cordéis, e com o poeta e xilógrafo José Louzeiro.

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Também representante da nova geração de poetas de cordel e da xilogravura popular, o pernambucano Marcelo Soares alia o desenho da tradição ao design da modernidade. Bebeu nas fontes populares por influência de seu pai, José Soares (1914-1981), um renomado cordelista conhecido como “O poeta repórter”. Marcelo aprendeu a técnica da xilogravura fazendo capas para folhetos e participou de novas experiências com esta técnica no Rio de Janeiro, onde fez curso de xilogravura na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Expandiu suas atividades, criando capas e ilustrações para livros, discos, cartazes para cinema, shows, teatro e outros eventos.

A xilogravura, como imagem ilustrativa de folhetos de cordel, tem traços firmes e identitários da cultura nordestina, e é facilmente vinculada com o público popular. O trabalho em capas de folhetos de cordel mapeia a história da xilografia popular no Brasil. Vai além do universo dos poetas populares e se expande, com seus temas, para os gravuristas urbanos. O percurso da xilogravura no nordeste do Brasil é longo e rico. Sua relação com o folheto de cordel, além de informativa sobre histórias contadas, é a de capturar o olhar do leitor a partir da imagem da capa. Além de contar a história, contribui para gravá-la, mais facilmente, na memória.

Beliza Áurea de Arruda Mello é professora da Universidade Federal da Paraíba e autora de “Poética de um poeta popular: travessia da memória” (Sapienza, Recife, n. 1, 2009).

Do amor à guerra

Os folhetos de cordel são uns pequenos livrinhos em folhas de papel jornal. Podem ter dois tamanhos, dependendo da extensão da narrativa contada. Quando ela é curta, o folheto mede 11 x 36 cm e contém oito páginas; quando a narrativa é mais extensa, ele mede 13 x 18 cm e pode ter até 64 páginas.

Os temas são variados: seca, histórias de encantamentos, cangaço, gracejos, carestia, política, narrativas engraçadas para o povo rir, sátira. As narrativas mais extensas contam histórias de guerra e aventuras de amor, em poesia cantada e impressa. São os chamados romances. Originam-se do Romanceiro, um gênero poético oral de origem medieval, datado de 1421, que sempre narrava sobre algo que havia acontecido numa época concreta.

A memória desses romances vive nos cantos das brincadeiras de roda e nos folhetos de cordel que, quando começaram a circular no Brasil, não tinham nenhuma ilustração em suas capas. Na parte superior havia o título em grande destaque, com letra maior e com adornos; desenho centralizado, contornado com uma frisa tipográfica, uma espécie de pequeno traço colocado em torno do título para dar-lhe maior destaque; na parte inferior há indicação do local, data e nome da tipografia.

SAIBA MAIS

CARVALHO. Gilmar de. Desenho gráfico popular. Catálogo das matrizes xilográficas de Juazeiro. São Paulo: IEB/ USP, 1998.

SANTOS, Idelette Muzart Fonseca dos. “A imagem do folheto”. In: ___. Memórias das vozes: cantoria, romances & cordel. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo. Fundação do Estado da Bahia, 2006. p. 84-92.

SOUZA, Liêdo Maranhão de. O folheto de cordel, sua capa e seus ilustradores. Recife: Massangana, 1981.

Internet

Fundação Casa de Rui Barbosa – Literatura de cordel

http://www.casaruibarbosa.gov.br/interna.php?ID_S=99

Centro Nacional do Folclore – Xiloteca

http://www.cnfcp.gov.br/interna.php?ID_Secao=64 

 

1926 – O FILME “JOASEIRO DO PADRE CÍCERO” EM RECIFE

Autor – Rostand Medeiros

Nos primeiros dias do mês de junho de 1926, as colunas informativas sobre cinema, exibidas nos inúmeros jornais da capital pernambucana, traziam a notícia que em breve seria exibido um “film” que era considerado pelos jornalistas especializados como “diferente” e “interessante”.  Era a apresentação de “Joaseiro do Padre Cícero”, um documentário que mostrava a mítica figura do padre Cícero Romão Batista.

Jornal recifense “A Província”, edição de 3 de junho de 1926.

Durante as décadas de 1910 e 1920, fotos tradicionais do padre Cícero, com a sua inconfundível batina negra e seu cajado, freqüentemente eram estampadas nas páginas dos jornais recifenses. Mas normalmente estas imagens vinham acompanhadas de uma pródiga quantidade de críticas e comentários ácidos sobre a figura e a trajetória política do conhecido “Padim Ciço”. Não faltavam nas páginas dos jornais adjetivos como “líder de fanáticos”, ou “comandante de um valhacouto de facinorosos”. Com este fluxo de notícias, associado ao interesse do público local pelos acontecimentos da cidade cearense de Juazeiro, a exibição desta película nos cinemas de Recife chamou atenção de muitas pessoas.

Fachada do Cinema Moderno, em Fortaleza. A partir do livro “Ah, Fortaleza!”, vários autores, 1ª edição, página 143.

Realizado em 1925, a película foi rodada em 35 milímetros, sendo dividida em cinco partes e a direção coube ao cearense Adhemar Bezerra de Albuquerque.  Sua primeira exibição ocorreu no Cinema Moderno, em Fortaleza, no mesmo ano de sua produção. Depois de seu lançamento, a película peregrinou por várias capitais brasileiras, através da ação de Godofredo Castro, então deputado estadual no Ceará, e do presidente da Associação de Jornalistas de Fortaleza, Lauro Vidal. A intenção destas apresentações era criar uma propaganda positiva em relação à ação política e social do padre Cícero, além de mostrar o crescimento da cidade de Juazeiro.

Em Recife “Joaseiro do Padre Cícero” foi apresentado ao público local na última semana de maio de 1926, onde ficou em cartaz durante dois dias no tradicional Cinema Royal, localizado na Rua Nova. No dia 2 de junho foi exibido no Cinema São José. Segundo a edição do jornal recifense “A Província”, de 3 de junho de 1926, em uma reportagem sobre o filme, os propagandistas Castro e Vidal afirmaram que este projeto teria custado a soma avultada de “40 contos de réis”. Para se ter uma idéia do que significava este valor naquela época, na mesma edição deste matutino, temos um anúncio da loja “Oscar Amorim e Cia.”, localizada na Rua da Imperatriz, número 118, onde era oferecido o modelo mais barato da linha de automóveis da marca Ford, por cinco contos e seiscentos mil réis.

Ademar Bezerra de Albuquerque

Já a crítica, de uma maneira geral, se apresentou positiva em relação à obra de Adhemar Albuquerque e esta aparentemente chamou a atenção da elite cultural recifense. O próprio diretor do jornal “A Província”, Diniz Perilo de Albuquerque Melo assistiu a película e teceu comentários. Para o conceituado jornalista “Joaseiro do Padre Cícero” foi apontado como sendo um filme “nítido”, que servia para mostrar positivamente o “expoente da admirável feição moderna de Juazeiro, da sua vida intensa e dos seus aspectos naturais”. Entretanto ele não considerou “admissível o fanatismo” que era apresentado.

Os jornais mostram que “Joaseiro do Padre Cícero” não foi classificado como um filme “cansativo”, com várias cenas que surpreenderam os jornalistas. Entre estas são comentadas as que mostravam o imponente açude do Cedro, as cidades de Juazeiro em dia de feira, Crato, Barbalha e paisagens da região do Cariri. Da capital Fortaleza foi focalizado o seu porto, o passeio Público, o Parque da Liberdade, entre outros locais. Mas a figura mais destacada era o padre Cícero Romão Baptista. Conforme vemos nas páginas do jornal “A Notícia”, de 3 de junho de 1926, ora o popular sacerdote era aclamado pelo povo, ora era apresentado na sua casa, mostrando seu trabalho como prefeito de Juazeiro e sempre junto aos seus fiéis seguidores.

Não conseguimos apurar a rota seguida por “Joaseiro do Padre Cícero” pelas capitais brasileiras. Mas têm-se notícias que foi exibido  na então Capital Federal, em setembro daquele mesmo ano. Ocorreu sessão dupla na Sala Parisiense e o filme teria recebido fortes críticas da revista carioca “Cinearte”. Outra exibição confirmada por pesquisadores da história cinematográfica brasileira, mostra que esta película foi exibida no Cinema Politeama, no dia 30 de novembro de 1926, em Manaus.

O periódico pernambucano “O Jornal do Comércio”, na sua edição de 2 de dezembro de 1926, informa que houve uma segunda exibição em Recife. Um interessante detalhe que não foi comentado por nenhuma das colunas cinematográficas dos jornais recifenses de junho daquele ano, da conta que aparentemente haviam sido inseridas para a segunda exibição, algumas fotos do grupo de cangaceiros do chefe Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Se esta informação é correta, estas fotografias certamente seriam as chapas obtidas em março de 1926, pelo fotógrafo Pedro Maia, quando da polêmica passagem do famoso bando de cangaceiros pela cidade de “Padim Ciço”.

Independente desta questão, observando as notas dos jornais recifenses sobre o filme, não se pode negar que aparentemente este projeto alcançou o resultado que era desejado pelos seus idealizadores e financiadores. Ou seja, a de desmitificar para as classes dirigentes e formadoras de opinião dos  principais centros urbanos do Brasil, da segunda metade da década de 1920, que o padre Cícero era sim um líder carismático, que tinha um grande número de seguidores, mas ao mesmo tempo era um homem inteligente, sério, cumpridor das leis, que buscava tão somente o desenvolvimento de sua querida Juazeiro. Não temos informações sobre o destino desta película.

Já Adhemar Bezerra de Albuquerque, o diretor de “Joaseiro do Padre Cícero”, possui o justo reconhecimento de ser cultuado como um dos principais pioneiros e expoentes do cinema cearense, que produziu muitos documentários em 35 milímetros, onde são principalmente apresentados aspectos e acontecimentos da capital Fortaleza e de outras cidades do Ceará. A este homem empreendedor se deve a criação da famosa empresa ligada ao ramo fotográfico “Aba Film”, até hoje em funcionamento e pertencendo a seus descendentes.

Benjamim Abrahão, Maria Bonita e Lampião

Sobre esta empresa, não podemos deixar de comentar o famoso episódio ocorrido em 1936, que envolveu o emigrante Benjamin Abrahão Botto e a filmagem do bando de Lampião em plena caatinga. Com o apoio de Adhemar Albuquerque, o libanês de Zahelh, esteve em duas ocasiões com o “Rei do cangaço”, realizando uma proeza inédita e que se mostrava promissora em termos financeiros.

Mesmo gerando toda uma expectativa entre o público, em pouco tempo a película é confiscada por ordem do governo de Getúlio Vargas. O Brasil se encontrava então em pleno período da ditadura do Estado Novo, que entre outras ações na região Nordeste, desejava exterminar definitivamente Lampião e o cangaço. Assim o filme de Abrahão seguia totalmente na contramão das ações governamentais, criando uma possível propaganda favorável aos cangaceiros e todo o projeto foi sumariamente encerrado. Logo depois, em maio de 1938, Benjamin Abrahão seria morto a facadas em uma pequena cidade do interior de Pernambuco. Após alguns meses, as margens de um pequeno grotão, próximo ao “Velho Chico”, em território sergipano, Lampião caia fulminado de balas, junto com sua Maria Bonita e outros companheiros.

Do filme sobre os cangaceiros pouco restou. Entretanto se não fosse à iniciativa do libanês Abrahão e o apoio correto de Adhemar Bezerra de Albuquerque, não existiria nenhuma imagem cinematográfica de Lampião e seu bando.

O DC-3 QUE SE TRANSFORMOU EM UMA OBRA DE ARTE DE ROMERO BRITTO

 

O DC-3 pintado pelo artista plástico Romero Brito, no pátio da AESO, em Olinda, Pernambuco.

O DC-3 pintado pelo artista plástico Romero Brito, no pátio da AESO, em Olinda, Pernambuco.

Quando eu tinha uns dez anos, em uma ocasião que participava de uma excursão escolar a Recife e Olinda, na hora que o nosso ônibus estava seguindo por uma estrada perto do mar, tive a surpresa (na verdade um susto) de ver um grande avião bimotor no pátio externo de uma casa. Fiquei realmente impressionado com aquilo. Um dos professores explicou que ali era um bar e tinha como atração aquele antigo avião. Mas o Mestre não sabia de que tipo era.

Apesar da pouca idade eu já sabia que ali estava um DC-3. Aquele era o clássico avião de transporte fabricado pela empresa norte-americana Douglas Aircraft, que praticamente revolucionou em todo o planeta o transporte aéreo comercial nas décadas de 1930 e muitos anos após. A versão militar deste clássico dos céus era o C-47, verdadeiro burro de carga das tropas Aliadas em toda a Segunda Guerra Mundial e do qual a FAB utilizou as dezenas.

Bem, o tempo passou e depois eu soube que o bar fechou. Já sobre o dito avião, eu acreditava que o mesmo havia sido desmantelado em algum ferro velho.

Assinatura de Romero Britto na deriva do DC-3.

Assinatura de Romero Britto na deriva do DC-3.

Recentemente soube que o destino da aeronave foi bem mais nobre!

A história deste DC-3 é típica das aeronaves que realizavam voos comerciais no seu tempo. Seus primeiros voos foram nos céus dos Estados Unidos, onde teve como primeiro operador a empresa American Airlines e a matrícula NC15592. Uma interessante característica desta aeronave é que ela foi concebida como um DC-3 DST (Douglas Sleeper Transport) tendo a porta de acesso principal disposta no lado direito. Como foi também utilizado para transporte executivo, possuía outras modificações: as carenagens do trem de pouso e o nariz alongado para alojar um radar.

Consta que em 1954 este avião veio para o Brasil e foi utilizado pela extinta VASP, até 1959. Depois ostentou as cores da também extinta empresa Real Linhas Aérea. Na sequência serviu de avião executivo para a diretoria da montadora Willys Overland e depois para a subsidiária da Ford no Brasil, com a matrícula PT-BFU. Existem informações, não comprovadas, que esta majestosa aeronave pertenceu a Coca-Cola de Fortaleza, no Ceará.

Depois o DC-3 foi para o município de Paulista, Pernambuco, mais precisamente na área da praia de Maria Farinha, para uma função onde não necessitaria mais voar, a não ser na imaginação das pessoas. O velho avião passou a ser parte principal da decoração de um bar e restaurante.

Praia de Maria Farinha PE - Cervejaria Campo de Pouso 1995 - Foto aérea de João Tercio Solano Lopes.

Praia de Maria Farinha PE – Cervejaria Campo de Pouso 1995 – Foto aérea de João Tercio Solano Lopes.

A aeronave ficou por vários anos na parte frontal na Cervejaria Campo de Pouso, que marcou época na região. Dizem que além do DC-3 o bar chamava atenção por um maravilhoso petisco conhecido como “Tubalhau”.

A ideia de utilizar uma aeronave como tema para esta cervejaria era uma vontade antiga de seu idealizador, Silvio Amorim, que também era piloto privado e entusiasta da aviação. A casa refletia um clima de um aeroporto, ou de um “campo de pouso”, mas sem a pista de aterrissagem. Tinha biruta, sinalização, fonia de torre de controle e as mesas ficavam embaixo das asas. Na parte construída da cervejaria havia vários pôsteres de propagandas antigas das principais companhias aéreas do mundo e uma seleção de fotos do clássico DC-3.

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Um dia o bar fechou e o destino do avião foi bem interessante e inusitado.

O bimotor deixou a área da antiga Cervejaria Campo de Pouso em 2001, tendo sido doado por Sílvio Amorim para as Faculdades Integradas Barro Melo – AESO, no bairro de Peixinhos, em Olinda, onde foi transformado em uma obra de arte através das mãos do pernambucano Romero de Britto ( http://www.britto.com/ ).

Para alguns o fato de Romero ter utilizado este avião como uma tela, na verdade sua maior obra de arte, foi um erro. Muitos têm a ideia que este avião “merecia ser respeitado na sua originalidade”. Discussões a parte é inegável que Britto, artista plástico internacionalmente conhecido, realizou um belo trabalho eternizando o DC-3. A velha ãguia hoje é o símbolo da instituição de ensino que a preserva.

Existe um interessante documentário chamado “AESO DC-3: A história de um avião”, cuja direção é de João Barbalho e a obra foi realizada pelos alunos do curso de Radio, Tv e Internet da AESO. Creio que o mais interessante neste doc é ver como a mudança deste avião, desde o bar para esta universidade, mexeu com tanta gente e criou tantas histórias e estórias. (Ver – http://kidswithgun.wordpress.com/2012/06/06/aeso-dc3-a-historia-de-um-aviao/ )

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Silvio Amorim é advogado, foi vereador do Recife, secretário de Educação, delegado do MEC em Pernambuco e diretor da Rede Federal de Educação e Tecnologia do Ministério da Educação. Hoje é membro do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco (IAHGP). Al~em disso possui livros publicados, como “Deixe-me dizer…”, que reúne uma coletânea de artigos, crônicas e outras obras, tendo sido lançado em 2007.


P.S. – Pode parecer pretensão da minha parte comentar que, mesmo sendo ainda uma criança, já sabia que aquela aeronave era um DC-3. Mas não é mentira. Eu realmente sabia! Pois desde que me entendo de gente nunca deixei de olhar para uma aeronave que passa nos céus, de querer saber de que tipo era e buscar mais informações sobre a máquina alada. Neste aspecto agradeço muito aos meus pais, Calabar e Creusa, que nunca me deixaram ficar sem a possibilidade de aprender cada vez mais sobre o mundo e a vida.

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ARQUITETURA DO SERTÃO

Casa da fazenda Sabugi, no Rio Grande do Norte - Foto - Nathália Diniz

Casa da fazenda Sabugi, no Rio Grande do Norte – Foto – Nathália Diniz

Estudo revela a arquitetura rural do século XIX no interior do Nordeste

Juliana Sayuri | Edição 216 – Fevereiro de 2014

Fonte- http://revistapesquisa.fapesp.br/2014/02/12/outros-sertoes/

O sertão é do tamanho do mundo, dizia Guimarães Rosa. Dizia como ainda dizem os que se enveredam pelos tortuosos caminhos dos rincões nordestinos em busca de histórias, respostas, saberes. Não raro, porém, muitos retornam dessas terras ainda mais intrigados com novas questões. A pesquisadora Nathália Maria Montenegro Diniz mergulhou diversas vezes nesse território. Ali nasceram a dissertação de mestrado Velhas fazendas da Ribeira do Seridó (defendida em 2008) e a tese de doutorado Um sertão entre tantos outros: fazendas de gado nas Ribeiras do Norte (em 2013), ambas realizadas sob orientação de Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Nessas empreitadas, ela encontrou não apenas respostas a seus estudos sobre a arquitetura rural do século XIX sertão adentro, mas também questionamentos novos que deram fôlego para um novo projeto de pesquisa, vencedor da 10ª edição do Prêmio Odebrecht de Pesquisa Histórica – Clarival do Prado Valladares, divulgado em dezembro. O projeto O conhecimento científico do mundo português do século XVIII, de Magnus Roberto de Mello Pereira e Ana Lúcia Rocha Barbalho da Cruz, também foi premiado. Os vencedores foram escolhidos entre 213 trabalhos inscritos pela originalidade dos temas. O prêmio inclui a produção e publicação de um livro, sem valor predeterminado.

É difícil desvencilhar a história pessoal de Nathália Diniz de seu itinerário intelectual. De uma família de 11 filhos originária de Caicó, na região do Seridó, interior do Rio Grande do Norte, ela foi a primeira a nascer na capital potiguar. Em 1975, a família mudou-se para Natal – professores de matemática por ofício, os pais pretendiam oferecer melhores condições educacionais para os filhos. Nas férias e feriados todos retornavam à pequena cidade, onde ficavam em uma das casas das fazendas que pertenceu ao tataravô da pesquisadora. “Logo cedo pude notar as visões diferentes construídas sobre o sertão nordestino. As casas que eu via não eram as mesmas retratadas nas novelas de época, da aristocracia rural. Era outro sertão”, lembra.

Graduada em arquitetura e urbanismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Nathália quis explorar os outros sertões esquecidos no século XIX, mais especialmente no Seridó, uma microrregião do semiárido que ocupa 25% do território do estado. Lá o povoamento se iniciou no século XVII com as fazendas de gado e o cultivo de algodão. Ainda estudante, deu o primeiro passo nessa direção quando participou de um projeto de extensão que investigou os núcleos de ocupação original do Seridó a partir de registros fotográficos e fichas catalográficas feitas por estudantes e pesquisadores. Descobriram, assim, que essas casas, posteriores ao período colonial, mantinham características herdadas da arquitetura colonial ao lado de elementos ecléticos modernos.

Uma vez bacharel, Nathália viajou a São Paulo para participar de um encontro de arquitetos e deparou com o processo seletivo para mestrado na FAU. Decidiu, então, despedir-se do Nordeste para estudar na capital paulista. “Foi preciso partir para poder redescobrir os sertões”, diz ela. Para seu projeto de dissertação, a jovem arquiteta tinha um trunfo: a originalidade da pesquisa sobre as casas de Seridó. “Quase ninguém conhece aquele patrimônio. Quis apresentar essa realidade nas minhas pesquisas.”

Acervo arquitetônico

Nathália investigou o acervo arquitetônico rural do Seridó, de formas simples e austeras, sem o apelo estético de outros exemplares do litoral nordestino. Essas construções, entre casas de famílias, casas de farinha e engenhos, representam um tipo de economia do século XIX alicerçado no pastoreio e no cultivo de algodão. Embora fundamental para a identidade da região, segundo o estudo, esse acervo composto por 52 edificações conta com poucas iniciativas concretas para tornar viável sua preservação.

Casa da fazenda Almas de Cima, também no Rio Grande do Norte: preservação ainda precária - Fonte - Nathália Diniz

Casa da fazenda Almas de Cima, também no Rio Grande do Norte: preservação ainda precária – Fonte – Nathália Diniz

No início do século XVII, com o povoamento do interior do Rio Grande do Norte, sesmeiros pernambucanos fincaram raízes no Seridó. Foi no século XVIII que surgiram as casas na região feitas de taipa, com madeiramento amarrado com couro cru, chão de barro batido e térreas, com telhado de beira e bica. Lentamente, as casas de taipa passaram a alvenaria, com tijolos apenas na fachada. Por fim, no século XIX, o Seridó ficou marcado pela construção de grandes casas de fazenda, habitadas pelo proprietário, familiares, agregados e escravos.

No doutorado, a arquiteta expandiu horizontes, territoriais e teóricos. Por um lado, debruçou-se sobre a arquitetura rural vinculada às fazendas de gado nos sertões do Norte (atuais estados da Bahia, Paraíba, Pernambuco, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte). Ela mapeou um acervo de 116 casas-sede a partir de levantamentos arquitetônicos do Piauí, Ceará e Bahia. A fim de melhor compreender o patrimônio material e imaterial nas habitações rurais dessa região, entrou nos campos da história social e da história econômica.

Do inventário de 116 casas-sede alicerçadas em pedra bruta, erigidas em diferentes ribeiras (Ribeira do Seridó, do Piauí, da Paraíba, dos Inhamuns e do São Francisco e Alto Sertão Baiano), a pesquisadora notou a heterogeneidade das construções arquitetônicas nas rotas do gado no Nordeste, que mantinham um mercado interno agitado, embora desconhecido, no calcanhar da economia do litoral exportador. Eram ainda construções pensadas para a realidade sertaneja, com sótãos e outras estruturas propícias para arejar os ambientes castigados pela alta temperatura e pelo tempo seco.

A casa da fazenda Santa Casa - Foto - Nathália Diniz

A casa da fazenda Santa Casa – Foto – Nathália Diniz

Contornando ribeiras e atravessando sertões, Nathália Diniz construiu suas investigações a partir de vestígios de tijolo, pedra e barro. Muitas casas de taipa, mencionadas nos arquivos, não resistiram ao tempo e desapareceram. Restaram fazendas formadas por casas-sede e currais. Entre as características da maioria das construções estavam à disposição dos ambientes: os serviços nos fundos do terreno, com tachos de cobre, pilões, gamelas; e a intimidade da vida doméstica no miolo das edificações, com mobiliário trivial, como mesas rústicas e redes, assentos de couro e de sola, baús e arcas de madeira. Em muitas fazendas, em paralelo a criação de gado, cultivaram-se cana-de-açúcar e mandioca, de onde viriam a rapadura e a farinha, que, ao lado da carne de sol, tornaram-se a base da alimentação sertaneja. “A arquitetura rural não segue modelos”, diz Nathália. “Os primeiros proprietários dessas casas eram filhos dos antigos senhores de engenho do litoral. Se a arquitetura rural tivesse um modelo, eles teriam construído casas similares às de seus pais no litoral, o que não ocorreu. A arquitetura dos sertões mostra a formação de uma sociedade a partir da interiorização dos sertões do Norte, de uma economia marcada pelo gado.”

Depois do doutoramento em São Paulo, a pesquisadora retornou a Natal, onde é professora de história da arte e de arquitetura no Centro Universitário Facex. Seu projeto atual é aprofundar a análise arquitetônica das casas-sede, explorando uma lacuna na historiografia brasileira sobre as relações sociais e suas consequências materiais nos sertões, ainda hoje um universo inóspito e incógnito, marcado por longas distâncias e imensos vazios. Esses territórios ficaram esquecidos, apesar de presentes na literatura e nos relatos memorialistas. Daí brotaram generalizações sobre o Nordeste e sua arquitetura rural, ainda compreendida a partir dos padrões dominantes da Zona da Mata pernambucana e do Recôncavo Baiano – o que, nas palavras da pesquisadora, não condiz com a realidade.

Exemplos da arquitetura sertaneja na Paraíba: sede da fazenda Sobrado - Foto - Nathália Diniz

Exemplos da arquitetura sertaneja na Paraíba: sede da fazenda Sobrado – Foto – Nathália Diniz

Originalidade do tema

O novo trabalho será bancado com o prêmio ganho em dezembro e desenvolvido com o apoio de Beatriz Bueno, da FAU-USP. “O projeto de Nathália foi escolhido pela originalidade do tema e pela oportunidade que nos proporciona de compreender o processo de ocupação do sertão brasileiro e suas dimensões econômica, histórica e social”, diz o coordenador do Comitê Cultural da Odebrecht, Márcio Polidoro. Na economia, ela destacará o ferro que marcava o gado e que permitia identificar a fazenda à qual pertencia – até agora, a pesquisadora já coleciona 653 desenhos de ferro diferentes. “Num sertão disperso, sem fronteiras claramente visíveis, pontuado por tribos indígenas inimigas, o gado carregou a representação do território e da própria propriedade dos que vinham de outros lugares”, define. Na sociedade, ao cruzar os inventários post-mortem encontrados nos arquivos e nas casas, pretende compreender e revelar a vida cotidiana do sertanejo que se desenrolava a morosos passos no século XIX. Fará novas viagens para refazer fotografias e rever anotações. Mais uma vez, um retorno às suas raízes e às terras, tão diferentes das que via nas novelas na sua infância. “Ainda procuro o que buscava desde o início: quero mostrar o que eram esses outros sertões. Nós conhecemos a riqueza da arquitetura litorânea, a arquitetura do açúcar e do café. Falta a arquitetura sertaneja”, conclui.

Projeto-Paisagem cultural sertaneja: as fazendas de gado do sertão nordestino (nº 2009/09508); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisadora responsável Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno; Bolsista Nathália Maria Montenegro Diniz; Investimento R$ 130.587,92 (FAPESP).

SÚPLICA CEARENSE

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Decifre se for capaz! Requerimento assinado em 1744 por padre de vila no Ceará pede ao rei de Portugal, D. João V, para comprar ornamentos e paramentos para a igreja da vila, em situação de miséria devido à seca 

Autor – Expedito Eloísio Ximenes

O original deste documento, datado de 20 de agosto de 1744, encontra-se no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa. Mas não é difícil acessar sua versão fac-similada nos arquivos públicos dos estados brasileiros.

O texto se inicia pelo vocativo Senhor abreviado, e as 22 linhas do documento são preenchidas até o fim da margem direita, com espaços regulares entre as linhas, ao fim das quais aparece a assinatura do reverendo padre João Saraiva de Araújo. Na margem esquerda inferior, há uma informação que parece escrita por outra mão. Na margem superior, dois despachos do Conselho Ultramarino – com seis rubricas dos conselheiros no primeiro, e quatro no segundo. À esquerda, mais duas informações escritas por outras pessoas.

A escrita é a humanista, em vigor desde o século XVI, de fácil leitura por sua simplicidade, apesar das variações conforme o grau de conhecimento e o estilo de quem escreve. O traçado é regular e inclinado para a direita, mas as hastes de algumas letras são caídas para a esquerda – caso da letrad. Em finais de palavras, a letra sapresenta uma cauda longa para a esquerda, semelhante ao formato doj interno, como nas palavras paramentos e hajão. No início e no meio de palavras, porém, o s tem formato diferente. O f tem formato semelhante ao L maiúsculo, como na palavra Leal, masé escrito da linha para cima, enquanto o L é da linha para baixo; da parte inferior do traçado vertical puxa-se outro para a esquerda formando um ângulo reto, como em falta e fallencia. A letra h tem forma de E maiúsculo, o grafemar no início de palavra tem formato grande e muitas vezes se confunde com maiúsculo.

Os escribas costumavam juntar as palavras clíticas – pronomes oblíquos, preposições e conjunções – com as palavras que seguem. A conjunção aditivae se emenda à palavra seguinte em casos como eoutros, e a preposição de, em degadosedoque.

O requerimento é bem escrito, com linguagem culta e um discurso convincente. A grafia não apresenta muitas variações, pois o autor tem bom domínio da língua por tratar-se de um padre com boa formação. Há falta de acentuação em algumas palavras e uso de letras maiúsculas desnecessárias, ocorrências típicas do período em que não havia normas ortográficas.

Expedito Eloísio Ximenes – é professor da Universidade Estadual do Ceará e autor de Fraseologias Jurídicas: estudo filológico e linguístico do período colonial (Appris, 2013).

Igreja de Nossa Senhora da Expectação (Matriz de Icó) na década de 1920. Construção que remonta ao século XVIII

Igreja de Nossa Senhora da Expectação (Matriz de Icó) na década de 1920. Provavelmente foi neste local que este documento histórico pode ter sido produzido. A construção deste templo remonta ao século XVIII

Quando a seca é real

O requerimento assinado pelo padre João Saraiva de Araújo, da vila do Icó, no centro-sul do Ceará, é um pedido ao rei de Portugal, D. João V, para comprar ornamentos e paramentos para a igreja da vila, em situação de miséria devido à seca. Ele pede melhores condições de trabalho para administrar a vida espiritual dos vassalos de Sua Majestade, para que não lhes falte o “pasto espiritual”. O Ceará era uma das capitanias mais pobres do Brasil Colônia.

Além da situação caótica da vila do Icó, o documento é um testemunho da relação entre Igreja e Estado, quando os religiosos eram funcionários da Coroa e dela dependiam para tudo. O monarca era quase onipresente em qualquer rincão de seus domínios.

Primeira construção edificada na cidade de Icó, por volta de 1709. Época de grandes agitações e bravas lutas, entre as famílias, Montes e Feitosas, que com prestígios e bravura defendiam suas terras. Por ocasião de uma destas lutas, a filha do coronel Francisco Monte e Silva, foi assassinada. A esposa deste bravo pioneiro, sensibilizada por sepultar sua filha em pleno campo doou 1 légua de terra e mandou erigir uma capelinha para servir de túmulo a sua filha, sob invocação de Nossa Senhora do Ó. Também por essa época, o lugar antes chamado Icó dos Montes passou a ser conhecido como Arraial, depois Sítio Nossa Senhora do Ó. Hoje a capelinha que serviu de túmulo para os dominantes daquela época, é a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Expectação. Duas grandes reformas sofreu a capela para se tornar a então matriz de hoje, uma em 1785 e outra em 1911. No ano de 2000 a Igreja Matriz foi restaurada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, e devolvida à comunidade local em 15 de abril e 2000. A sua padroeira é Nossa Senhora da Expectação. Faz parte do Patrimônio Histórico Nacional.  Fonte:http://cdlico.com - Fonte da foto - aldecyalves.blogspot.com.br/2012/01/igrejas-do-ceara-vii-patrimonio.html

Primeira construção edificada na cidade de Icó, por volta de 1709. Época de grandes agitações e bravas lutas, entre as famílias, Montes e Feitosas, que com prestígios e bravura defendiam suas terras. Por ocasião de uma destas lutas, a filha do coronel Francisco Monte e Silva, foi assassinada. A esposa deste bravo pioneiro, sensibilizada por sepultar sua filha em pleno campo doou 1 légua de terra e mandou erigir uma capelinha para servir de túmulo a sua filha, sob invocação de Nossa Senhora do Ó. Também por essa época, o lugar antes chamado Icó dos Montes passou a ser conhecido como Arraial, depois Sítio Nossa Senhora do Ó. Hoje a capelinha que serviu de túmulo para os dominantes daquela época, é a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Expectação. Duas grandes reformas sofreu a capela para se tornar a então matriz de hoje, uma em 1785 e outra em 1911. No ano de 2000 a Igreja Matriz foi restaurada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, e devolvida à comunidade local em 15 de abril e 2000. A sua padroeira é Nossa Senhora da Expectação. Faz parte do Patrimônio Histórico Nacional.
Fonte:http://cdlico.com – Fonte da foto – aldecyalves.blogspot.com.br/2012/01/igrejas-do-ceara-vii-patrimonio.html

Solução do “Decifre”

Haja vista o procurador da fazenda. Lisboa, 23 de janeiro de 1745.

[Rubricas dos conselheiros do Conselho Ultramarino]

Informe o provedor da fazenda real de Pernambuco

com seu parecer. Lisboa, 10 de fevereiro de 1745.

[Rubricas dos conselheiros do Conselho Ultramarino]

Este requerimento é de

graça a que Sua Majestade

deferirá como for servido.

[Rubrica – não é possível identificar]

Senhor

Provido no benefício de cura desta freguesia de Nossa Senhora da

Expectação do Icó, capitania do Ceará Grande, por provimento

de meu Prelado e Excelentíssimo Bispo de Pernambuco, entrei a exercer

o ofício pastoral, e tomando posse do curato no ano de mil sete-

centos e quarenta e dois achei a Igreja Matriz tão falta de

ornamentos, e paramentos necessários para cinco altares com o maior

e outras tantas portas com a principal, e um púlpito, que já

os não tem capazes com que se celebrem os sacrifícios nas festas

solenes, e ofícios funerais, sendo motivo e causa a grande pobre-

za desta terra, na qual suposto hajam alguns efeitos de gados

vacum e cavalar, estes há bastante anos não rendem dinheiro pela

falência do negócio, além de estar muito destruída, e vexada com secas

e esterilidades que tem experimentado, à vista do que brevemente ficará

o povo sem o pasto espiritual, se Vossa Majestade como monarca tão

zeloso do culto divino não posar os olhos de sua benigna piedade

e clemência em tanta necessidade, provendo a dita matriz com os ditos

ornamentos, e paramentos por esmola, para maior honra de Deus,

e salvação de seus católicos vassalos. Vila do Icó, 20 de agosto

de 1744.

Os pés de Vossa Real Majestade

os beija o mais  reverente  e leal vassalo

João Saraiva de Araújo

Do cura do Icó

Fonte – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/decifre/suplica-cearense

Sobre a Igreja Matriz de Icó – CE – http://iconacional.blogspot.com.br/2008/10/ic-cear-brasil-igreja-de-nossa-senhora.html

O CANGAÇO E OS CANGACEIROS EM BELAS E COLORIDAS PINTURAS

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AUTOR-Rostand Medeiros

Recentemente recebi com enorme satisfação um e-mail do pintor paraibano Manoel Perigo Neto. Onde ele gentilmente me enviou algumas fotografias de suas obras de arte. Atualmente residindo em Fortaleza, Ceará, Perigo Neto possui uma habilidade muito interessante com os pinceis e seus quadros chamam atenção pelo intenso colorido.

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Após vários anos afastado das exposições, Perigo Neto retorna com a exposição “CANGACEIROS”, com maravilhosos óleos sobre tela focando um dos mais interessantes fenômenos da história nordestina. Participaram da promoção desta exposição a Secretaria de Cultura de Patos e a revista OPOP, cujo lançamento foi realizado nesta progressista cidade paraibana no último dia 13 de setembro.

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Perigo Neto morou até os 25 anos em Patos, tendo começado na pintura realizando as ornamentações das festas regionais, principalmente no período carnavalesco. Tem como destaque naquela cidade 12 murais executados na antiga rodoviária local inaugurada em 1972 e que estão preservados até hoje.

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Em 1976 o pintor foi morar em Recife onde participou de algumas exposições, com destaque para o Salão de Novos de Olinda, um dos eventos de arte mais concorridos na época.

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Em 1983 ele foi transferido para Fortaleza, onde atualmente reside e é servidor público do Ministério do Trabalho. Nesta cidade também participou de várias exposições, inclusive na antiga TELEMAR, quando um dos seus quadros foi escolhido para ser capa das listas telefônicas norte e sul da referida empresa.

O Cangaceiro

Foi selecionado para o 50° Salão de Abril, o mais tradicional salão de artes do Estado do Ceará.

Fica aqui o meu agradecimento a este pintor pelo envio deste interessante e belo material.

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Perigo Neto 20

1997 – NO SERTÃO CENTRAL DO CEARÁ – PROJETO DO POLO DE ECOTURISMO DO SERTÃO

AGOSTO DE 1997 – ESTE FOI UM DOS MELHORES PROJETOS QUE PARTICIPEI. FOI O MAPEAMENTO DA REGIÃO DO POLO DO SERTÃO CENTRAL, PARA UTILIZAÇÃO ECOTURÍSTICA, NOS MUNICÍPIO DE QUIXADÁ E QUIXERAMOBIM, NO CEARÁ. FORAM 20 DIAS BEM PROVEITOSOS E ESPECIAIS. COM OS AMIGOS ADEILTON RIGAUD E JOAQUIM DAS VIRGENS NETO

Autor – Rostand Medeiros

Os monólitos da Região Central do Ceará. Bela paisagem. Em Quixadá.

Os monólitos da Região Central do Ceará. Bela paisagem. Em Quixadá, Ceará.

Subida da Serra dos Macacos. Só no lombo de animal.

Subida da Serra dos Macacos. Belo local, mas a subida só no lombo de animal.

Açude da Faz. Logradouro

Açude da Faz. Logradouro

Eu e o velho Joaca tentando mostrar aos caçadores, sem muito sucesso, o erro de caçarem mocós. Não havia seca na época, mas as condições de vida deste pessoal não dava margem para debater sobre preservacionismo em meio a fome.

Eu e o velho Joaca tentando mostrar aos caçadores, sem muito sucesso, o erro de caçarem mocós. Não havia uma seca muito pesada nesta na época, mas as condições de vida deste pessoal não dava margem para debater muito sobre preservacionismo em meio ao espectro da fome.

Depois de trocar o pneu do Troller, em meio aos monólitos

Depois de trocar o pneu do Troller, em meio aos monólitos, com o guia Dagoberto, gente muito fina.  No Troller com motor VW 2.0 e caixa de marcha de D-20. Era uma máquina e tanto na época.

As perneiras que utilizávamos não era para aparecer bonito nas fotos, mas para proteger das picadas de cascavéis.

As perneiras que utilizávamos não era para aparecer bonito nas fotos, mas para proteger das picadas de cascavéis.

No alto da serra dos Cacos, horas a cavalo.

No alto da serra dos Cacos, horas a cavalo.

Com o pessoal da Secretária de Turismo do Estado do Ceará, transmitindo os dados de vinte dias de campo.

Com o pessoal da Secretária de Turismo do Estado do Ceará, transmitindo os dados de vinte dias de campo. Ao meu lado direito os amigos Adeilton Rigaud (sentado), atualmente na Petrobrás do Espirito Santo e Joaquim das Virgens Neto (em pé), atualmente no CPRM do Piauí

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