O LUTO DE ROOSEVELT PELO SKYMASTER QUE NUNCA CHEGOU A NATAL

Autor – Rostand Medeiros

Como é de conhecimento geral, durante a Segunda Guerra Mundial a cidade do Natal abrigou uma grande base aérea dos Estados Unidos, que servia de importante ponto de apoio para milhares de aeronaves que seguiam para a África, sul da Europa, Oriente Médio, Índia, China e outros locais.

Em janeiro de 1943 a balança da guerra começava a pender em favor dos aliados e neste mesmo mês foi marcada uma grande reunião entre os principais líderes aliados na cidade de Casablanca, no Marrocos. Lá o inglês Winston Churchill, o russo Joseph Stalin e o norte americano Franklin Delano Roosevelt, entre outras figuras, conversariam sobre o futuro do conflito.

Douglas C-54 Skymaste

Em 13 de janeiro decolou da cidade de Miami, na Flórida, um avião quadrimotor Douglas C-54 Skymaster, número de registro 42-32939, pertencente ao ATC (Air Transport Command ou Comando de Transporte Aéreo). Este era um órgão da USAAF (United States Army Air Force ou Força Aérea do Exército dos Estados Unidos) que se destinava a operar um sistema de transporte aéreo em todo o mundo para os militares daquele país.

C-54 em operação no Oriente Médio durante a Segunda Guerra Mundial

Neste C-54 seguiam trinta e cinco passageiros, sendo dez tripulantes, quinze militares e dez civis. Apesar do avião ser militar a tripulação era toda da empresa aérea TWA (Trans Word Airlanes) e comandado pelo experiente piloto Benjamin Hart Dally, que possuía mais de 7.000 horas de voo. Havia ainda dez civis, todos eles membros do FBI e quinze militares. Estes últimos eram comandados pelo major Eric Mowbray Knight, uma verdadeira celebridade, pois antes da guerra foi o autor do romance que gerou a série de filmes “Lassie”, que mostrava como heroína uma cadela da raça Collie e fez muito sucesso em todo o mundo, inclussive no Brasil.

Eric Mowbray Knight e seu mais famoso personagem

Mesmo tendo nascido na Inglaterra, lutado na Primeira Guerra Mundial pelo Canadá, O major Mowbray estava servindo no exército americano. Trabalhava diretamente na Casa Branca, junto aos mais altos escalões militares e muito próximo a Roosevelt. Experiente em escrever romances, roteiros para cinema, era um dos homens que produzia o material que mostrava a figura do presidente Franklin Roosevelt em cinejornais.

O seu avião seguia em uma operação secreta, destinada a dar apoio ao presidente Roosevelt na chamada Conferência de Casablanca. Roosevelt por sua vez, havia deixado Washington sob grande segredo em outro Douglas C-54, dois dias antes do avião que saiu de Miami. Além deste apoio, no avião do major Mowbray seguia uma grande soma de dinheiro e documentos secretos codificados para o general britânico Sir Harold Alexander.

A viagem a partir de Maimi seguia tranquila, quando surgiram rumores da existência de uma bomba a bordo, razão que alegadamente teria forçado o piloto Benjamin Dally a pousar em Weeler Field, na ilha de Trinidad, uma colônia britânica, hoje independente como Trinidad & Tobago. No entanto nenhuma bomba foi encontrada, mas estranhamente foi achada uma chave de fendas próxima a um instrumento de navegação aérea, que poderia alterar sua leitura, fazendo com que o piloto perdesse a sua rota programada.

Foto em Weeler Field, na ilha de Trinidad, do mesmo avião que depois se acidentaria no atual Suriname. Este material fez parte da investigação

Avião revisado, reabastecido o Skymaster decolou à noite com destino a Belém do Pará e depois Natal. Na capital potiguar, como era normal a estes aviões que seguiam para a África, a aeronave seria mais uma vez reabastecida, revisada, onde todos que estavam a bordo descansariam na grande base de Parnamirim Field, ou no Grande Hotel do bairro da Ribeira, e no outro dia seguiriam viagem sobre o Oceano Atlântico.

Mas este C-54 jamais chegou a nossa cidade.

Em uma área pantanosa, a 30 quilômetros de Paramaribo, capital da então colônia holandesa da Guiana, atual Suriname, no Distrito de Commewijne, o avião caiu matando todos os seus passageiros. Na época este foi um dos piores desastres aéreos em número de mortos.

Área do acidente na atualidade

Logo tiveram início as investigações. As tripulações de dois idênticos aviões C-54 Skymaster que haviam decolado apenas meia hora depois do avião perdido, informaram aos investigadores terem visto o que parecia fogo antiaéreo, proveniente de um possível submarino inimigo. Especulou-se que submarinos nazistas confundiram a aeronave em que viajava o major Mowbray, com o avião do presidente e abriram fogo. Mas se assim foi, a informação transmitida a tripulação do pretenso submarino estava bastante equivocada.

Outras especulações foram, além da forte suspeita de sabotagem, problemas mecânicos, falhas estruturais, até mesmo um possível engano de um navio da marinha americana, que naquela noite teria disparado contra aviões, mas sem saber  quem realmente eram seus alvos.

Foto da fuselagem destruída do C-54, no material da investigação do acidente

O desastre do C-54 na Guiana Holandesa foi manchete nos principais jornais dos Estados Unidos. O próprio presidente Roosevelt se deixa fotografar em Casablanca com uma braçadeira preta no seu braço em sinal de luto pelos mortos neste desastre.

O luto de Roosevelt

Embora as autoridades prometessem uma investigação detalhada sobre a causa, nenhuma conclusão oficial foi dada pelo Governo dos Estados Unidos.

Após o fim da Conferência de Casablanca, na manhã do dia 28 de janeiro de 1943, Franklin Roosevelt, em seu retorno aos Estados Unidos, realizou uma parada em Natal. Aqui manteve um encontro com o então presidente brasileiro Getúlio Dorneles Vargas e foram feitos acordos que culminaram, entre outras coisas, na participação de soldados brasileiros no teatro de operações da Itália.

Vargas e Roosevelt em Natal. O presidente americano ainda ostentava a braçadeira de luto pelos mortos do C-54 Skymaster

Os presidentes Roosevelt e Vargas visitaram instalações militares brasileiras e americanas sediadas em Natal, onde circulam pela cidade e são vistos por várias pessoas. Entre estes estava a jovem Alda Ivanoska, filha do Secretário Geral do Estado do Rio Grande do Norte, o Dr. Aldo Fernandes Raposo de Melo. Ela estava com uma irmã na Praça Pedro Velho, quando viu as duas figuras passarem em um jipe e jamais esqueceu o fato.

No outro dia pela manhã Roosevelt parte de Natal.

Em um cemitério nos Estados Unidos a lápide alusiva aos mortos do C-54

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2 comentários em “O LUTO DE ROOSEVELT PELO SKYMASTER QUE NUNCA CHEGOU A NATAL”

  1. Sou fanático por histórias que são ilustradas com fotografias. Como eu trabalhei muitos anos em tipografia, para mim, uma foto fala por cem palavras, e muito me prende por eu saber que vou lendo e vendo os personagens que figuram nas histórias.

    Neste período da guerra da década de 40 do século XX, meu pai, que falecera no dia dez deste mês, 4 dias do seu falecimento, com 89 anos de idade, foi um dos combatentes. E por ter participado do movimento, recebeu patente de 2º. tenente do Exército Brasileiro.

    Meu pai não participou diretamente, pois quando já estava dentro do navio para viajarem, Natal recebeu a informação que a guerra havia terminado.

    Disse-me meu pai, que isso foi uma das suas maiores alegrias que receberá na vida, pois não iria por vontade, e sim, obrigado.

    Valeu Rostand!
    Uma excelente história.

    José Mendes Pereira – Mossoró-RN

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    1. Mendes,
      Primeiramente receba minhas sinceras condolências pelo passamento do seu pai.
      Só posso lhe dizer que ele estava mais do que certo.
      Como coloquei aqui no nosso blog, desenvolvo um livro que conta a história de um americano, Emil Anthony Petr, que desde 1963 mora em Natal e durante a II Guerra foi oficial aviador de um bombardeiro e passou um bom tempo prisioneiro de guerra. Escutando o que Emil me fala, o seu pai estava coberto de razão.
      Ninguém precisa de um uniforme, uma arma e uma medalha no peito para ter honra.
      Meu abraço e força.
      Rostand

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