UM NAVIO PIRATA EM FLORIANÓPOLIS


Exploradores lutam para preservar e estudar destroços de embarcação espanhola que foi capturada por britânicos e naufragou no litoral catarinense no século XVII

Em 1989, o mergulhador Alexandre Viana encontrou uma botija antiga em uma parte rasa do mar da praia dos Ingleses, em Florianópolis. O aspecto do objeto o fez pensar em um naufrágio, mas ele não podia imaginar aonde o achado o levaria. Com o tempo, novas botijas e vários outros objetos começaram a surgir, e Alexandre fundou, junto com Narbal Corrêa e Marcelo Lebarbenchon Moura, o Projeto de Arqueologia Subaquática (PAS), para investigar a origem das misteriosas peças. Os anos de pesquisa levaram a uma constatação surpreendente: as botijas vinham de um navio que havia naufragado no litoral de Santa Catarina no século XVII.

Sede do PAS, que está catalogando as partes encontradas do navio- (C) Victor Carlson

O primeiro a levantar essa hipótese foi o historiador Amílcar D’Avila de Mello. Ele suspeitou que os destroços eram de uma embarcação espanhola tomada pelo pirata inglês Thomas Frins que naufragou em 1687 na atual praia dos Ingleses.

Com o tempo, os exploradores subaquáticos encontraram peças que corroboram essa tese, endossada ainda por pesquisas realizadas pelo arqueólogo Francisco Silva Noelli sobre artefatos de embarcações do período. “Esses piratas ficaram vários anos saqueando as colônias espanholas na costa do Pacífico e conseguiram um barco para encontrar outro grupo, ao todo 900 homens” – explica Viana. “Há relatos pontuais desses ataques. E achamos fragmentos de conchas e moluscos do Pacífico no lastro.”

Ao que tudo indica, havia também índios e negros a bordo, pois os mergulhadores encontraram fragmentos de ossos humanos, sugerindo batalha antes do afundamento da nau. De fato, Frins e seus homens foram capturados por Francisco Dias Velho, o bandeirante que fundou a cidade de Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis), e enviados a São Paulo para ser interrogados. O documento que atesta a captura, infelizmente, perdeu-se, mas seria, ao que tudo indica, o melhor endosso de todas as interpretações. O assassinato de Dias Velho pode ter sido cometido por Thomas Frins, que, solto, foi vingar-se.

Desenho esquemático dá uma ideia de como era a nau, que foi a pique em 1687- (C) Victor Carlson

Hoje, o PAS tem a guarda de um notável acervo. Essas peças atualmente passam por um processo de restauro e conservação em contêineres montados na praia dos Ingleses, que servem também de laboratório e espaço para exposição ao público. Seu livro de visitas conta com mais de 25 mil assinaturas. O projeto recebe apoio do governo estadual e financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc). Além disso, seus integrantes obtiveram a primeira autorização da Marinha para exploração. Pode-se falar em êxito até aqui.

Imagem ilustrativa. Fonte-http://www.google.com.br/imgresMCoasM

Esse tipo de acervo, porém, demanda técnicas de análise e conservação específicas e continua em tratamento, à espera de um destino à altura da descoberta, dos esforços de desvendamento e do patrimônio. “Vamos definir o que é preciso para instalações adequadas e exposição”, afirma o atual presidente do PAS, Narbal Corrêa, que precisará, sem dúvida, do apoio das autoridades. Trata-se da preservação de um achado arqueológico que o acaso tornou relíquia de Santa Catarina e do Brasil. É a luta presente dos integrantes do PAS.

Autora – Mônica Cristina Corrêa – Doutora em língua e literatura francesa pela USP, tradutora e representante cultural da Succession Saint-Exupéry em Santa Catarina.

Fonte – http://www2.uol.com.br/historiaviva/noticias/um_navio_pirata_em_florianopolis.html

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