1922 – AS COMEMORAÇÕES EM NATAL PARA A PRIMEIRA TRAVESSIA AÉREA DO ATLÂNTICO SUL

Sacadura Cabral e Gago Coutinho em seu hidroavião - Fonte - http://gagocoutinho.wordpress.com/

Autor – Rostand Medeiros

Amigos leitores deste simples blog que busca divulgar um pouco de história, vamos puxar um pouco pela imaginação para contar uma incrível façanha.

Imagine se você fosse convidado a ir para Portugal para participar de uma aventura aérea.

Aparentemente parece um interessante convite. Mas imagine que quem lhe chamou para esta empreitada lhe informa que a viagem aérea será em direção ao Brasil, atravessando o Oceano Atlântico em um hidroavião monomotor, onde além de você seguiria apenas mais uma pessoa.

A aeronave em questão seria construída principalmente de madeira e coberta com lona. Vocês iriam viajar sem GPS, sem radiocomunicação e sistemas de navegação modernos.

Hidroavião monomotor FAIREY F III-D MKII - Fonte - Coleção do autor

Para não se perderem na imensidão do mar, o principal instrumento seriam réguas de navegação, que são utilizadas pelos homens do mar desde sei lá quando. Afora isso o instrumento mais sofisticado seria um sextante de navegação adaptado para ser usado em um avião.

Para ajudar haveria apenas a certeza que no meio de um dos maiores e mais poderosos oceanos da Terra, haveria três navios ao longo do caminho para dar uma força.

Detalhe, a máquina alada desenvolveria uma velocidade de cruzeiro de “estonteantes” 115 quilômetros por hora (Meu carro 1.0 faz mais do que isso brincando, sem forçar o motor).

E aí, você toparia esta parada?

Eu acho que não!

Mas em 1922, dois portugueses de fibra e coragem toparam encarar o desafio e conseguiram vencer esta dura empreitada.

Sacadura Cabral - Fonte - Coleção do autor

Em 30 de Março de 1922, o hidroavião monomotor FAIREY F III-D MKII, com Artur de Sacadura Freire Cabral como piloto e Carlos Viegas Gago Coutinho nas funções de navegador, decolou do Rio Tejo, em Lisboa, com destino ao Rio de Janeiro.

Foi uma empreitada duramente planejada. Gago Coutinho inclusive havia criado, e empregaria durante a viagem, um instrumento chamado horizonte artificial, que era utilizado em conjunto com um sextante de navegação, para determinar o ângulo ou a inclinação de um corpo em relação ao horizonte. Com isto era estabelecido com uma linha, ou plano paralelo, a altura dos astros. Era uma invenção que revolucionou a navegação aérea à época.

Gago Coutinho - Fonte - http://gagocoutinho.wordpress.com/

Cinco dias antes (a 25 de Março) zarparam da capital portuguesa os navios de guerra “República”, “Cinco de Outubro” e “Bengo”, que iriam prestar assistência ao voo.

A travessia realizou-se em várias fases, no intervalo das quais os hidroaviões eram assistidos. Contudo, consideram-se quatro etapas na viagem, devido a problemas mecânicos, condições naturais adversas e foram utilizados três hidroaviões.

Manchete do "Diário de Pernambuco, edição de 31 de março de 1922, informando sobre a decolagem do avião de Cabral e Coutinho - Fonte - Coleção do autor

A primeira etapa da viagem decorreu sem maiores percalços, durando 8 horas e 17 minutos de Lisboa até Las Palmas da Grã-Canária, embora tenha sido notado pelos tripulantes um excessivo consumo de combustível. Das Canárias os dois aeronautas portugueses  voaram para Guando, a fim de conseguirem melhores condições de descolagem. Todavia o traçado do percurso teve ainda de ser revisto porque a quantidade de combustível não seria suficiente para um voo sem escala de Cabo Verde a Fernando Noronha.

A segunda etapa teve início na madrugada de 5 de Abril, da ilha de Guando, alcançando São Vicente de Cabo Verde após 10 horas e 43 minutos, amerissando em mar calmo e sem dificuldades. Apesar do sucesso destas duas primeiras fases de voo do avião batizado como “Lusitânia”, perceberam os tripulantes ser praticamente impossível um voo direto entre São Vicente e o Arquipélago de Fernando de Noronha, devido aos elevados consumos de combustível. Perante a vontade de continuar a viagem e provar a precisão do voo aéreo, bem como a cientificidade dos instrumentos utilizados, Gago Coutinho e Sacadura Cabral decidiram fazer escala nos Penedos de São Pedro e São Paulo, onde o “República”, cruzador da marinha portuguesa, lhes prestaria assistência.

Fonte - http://gagocoutinho.wordpress.com/

Na terceira etapa da viagem, cuja partida ocorreu em 18 de Abril, persistiam as dificuldades a nível do combustível e o vento não ajudava numa decolagem mais rápida do avião. Apesar disto, o voo ocorreu sem maiores problemas e a precisão dos cálculos de Gago Coutinho permitiu que o avião iniciasse a sua descida até aos penedos quando apenas restavam dois a três litros no tanque.

Acidente nos Penedos de São Pedro e São Paulo - Fonte - http://gagocoutinho.wordpress.com/

Foi realizado um pouso forçado sobre um mar com muitas ondas e um dos flutuadores foi arrancado no choque. Na sequência o hidroavião se inclinou para bombordo e começou a afundar.Os tripulantes do cruzador “República” socorreram os aviadores, salvando também livros, o sextante, o cronómetro e outros instrumentos. Em seguida Gago Coutinho e Sacadura Cabral foram levados para Fernando Noronha.

Para perpetuar o ocorrido, os aviadores deixaram nos Penedos de São Pedro e São Paulo uma placa de chapa de ferro, onde está cravado a letras de latão: “Hidroavião Lusitânia – Cruzador República”.

Como foi retratado por uma revista o que ocorreu nos Penedos - Fonte - http://gagocoutinho.wordpress.com/

A Nação portuguesa entrou em delírio e o clima emocional levou o Governo a enviar outro avião, oferecido pelo Ministério da Marinha.

Durante estes contratempos, os dois heróis ficaram ancorados em Fernando de Noronha, a bordo do “República”, onde decidiram que a nova etapa não devia iniciar naquela ilha, sendo preciso voltar atrás e sobrevoar os Penedos de São Pedro e São Paulo e depois seguir o rumo ao Brasil.

Cruzador português "República" - Fonte - Coleção do autor

O novo Fairey, levantou voo da ilha de Fernando Noronha, na manhã de 11 de Maio.

O voo prosseguiu sem maiores problemas, mas, após sobrevoar os Penedos e já em direção ao Brasil, o motor parou. Eles então realizaram uma amerissagem de emergência.

Cargueiro inglês "Paris-City" - Fonte - http://www.photoship.co.uk

Embora esta tenha sido perfeita e em mar calmo, a longa espera por auxílio teve como consequência uma situação mis complicada, na qual entrou bastante água em um dos flutuadores, fazendo o aparelho afundar lentamente O comandante do “República” solicita que o cargueiro britânico “Paris-City”, da empresa Reardon Smith Line e comandado pelo capitão Albert Edward Tamlyn, em rota de Cardiff, Escócia, para o Rio de Janeiro, que socorra os aviadores.

Mais uma vez os pilotos foram resgatados e, consequentemente, louvados na sua pátria. Diante da situação, o Governo Português foi novamente procurado para enviar outro avião e não teve como negar, pois os dois aviadores haviam se tornado heróis nacionais.

Homenagem prestada ao capitão Albert Edward Tamlyn, do "Paris-City - Fonte - http://gagocoutinho.wordpress.com/

A quarta e última etapa teve início com o envio do Fairey batizado na sua esquadrilha com o número 17, o único de que dispunha a Aviação Naval Portuguesa. Era uma aeronave com uma autonomia mais reduzida do que os outros, mas considerado suficiente para que a viagem prosseguisse até ao Rio de Janeiro.

No dia 5 de Junho, Sacadura Cabral e Gago Coutinho levantaram voo de Fernando de Noronha e iniciaram o final desta histórica e gloriosa viagem, já sem quaisquer problemas ou incidentes mecânicos. Logo os aviadores chegariam a Recife.

Voo dos portugueses sobre os Penedos de São Pedro e São Paulo - Fonte - http://gagocoutinho.wordpress.com/

Enquanto os heróis lusitanos seguiam em sua viagem épica, a pequenina Natal, capital potiguar que a época não tinha sequer 35.000 habitantes, acalentava o sonho de ser pela primeira vez sobrevoada por uma máquina “mais pesada do que o ar”, como eram descritos os aviões no começo do século XX.

Mas Natal não teve este privilégio. Entretanto a sua população não deixou de comemorar.

Edição de sexta feira, 9 de junho de 1922, do jornal recifense “Diário de Pernambuco”, sobre as comemorações em Natal - Fonte - Coleção do autor

Segundo a edição de sexta feira, 9 de junho de 1922, do jornal recifense “Diário de Pernambuco”, segundo informações transmitidas pelo seu “Correspondente Especial”, comentou que após a cidade saber que os portugueses haviam chegado ao Recife por volta do meio dia de 5 de junho, os escoteiros do bairro do Alecrim, sob o comando do professor Luís Soares, sairam as ruas da cidade para convidar a população para uma “Passeata Cívica” a ser realizada naquela noite.

Na hora acertada os escoteiros, acompanhados dos alunos da Escola de Aprendizes de Marinheiros e estudantes de outas escolas locais saíram as ruas em direção ao bairro da Ribeira, mais precisamente até a estátua do aeronauta potiguar Augusto Severo, onde houve grande concentração popular. No local ocorreram vários discursos e representando a colônia portuguesa falou o advogado, futuro deputado federal e senador Kerginaldo Cavalcanti.

Quartel do Exército Brasileiro em Natal nas primeiras décadas do século XX - Fonte - http://mediocridade-plural.blogspot.com/

Após a parte dita oficial, os escoteiros, os aprendizes de marinheiro, estudantes e o povo em geral saíram pelas ruas da cidade acompanhados das bandas da Polícia Militar e do 29º Batalhão de Caçadores, a unidade do Exército Brasileiro que existia em Natal naquela época.  Um carro foi conseguido, sendo totalmente enfeitado. Duas jovens natalenses desfilaram no automóvel representando Portugal e o Brasil.

Mesmo sendo o dia 5 de junho uma segunda-feira, que tinha tudo para ser normalmente modorrenta, a chegada dos aviadores lusos a Recife fez a capital potiguar se agitar como não seria normal para aquele dia. O cortejo seguiu até a casa do representante diplomático de Portugal em Natal, o Sr. Antônio Martins e depois foram se concentrar na Praça 7 de Setembro, defronte ao Palácio do Governo. Consta que a festa se prolongou até tarde da noite.

No dia 18 de junho, o jornal natalense “A Republica” estampava na sua primeira página, um belo poema intitulado “Aviador”, produzido por uma das mais importantes poetisas que o Rio Grande do Norte já conheceu, Palmyra Wanderley.

Poema de Palmyra Wanderley aos aviadores lusos – Fonte – Coleção do autor

Depois do descanso na capital pernambucana, Sacadura Cabral e Gago Coutinho seguiram para Salvador, Porto Seguro, Vitória, e, finalmente, Rio de Janeiro, onde o Fairey, batizado de “Santa Cruz”, desce no começo da tarde de 17 de Junho na Baía da Guanabara, levando os portugueses e brasileiros a bater palmas alvoroçadamente e em uníssono.

Trajeto do épico voo de 1922 - Fonte - http://gagocoutinho.wordpress.com/

CARACTERISTICAS DO HIDROAVIÃO FAIREY F III-D MKII

  • Material: madeira, revestida em tela
  • Comprimento: 10,92 metros
  • Envergadura: 14,05 metros
  • Altura: 3,70 metros
  • Peso vazio: 1800 quilogramas
  • Peso equipado: 2500 quilogramas
  • Velocidade de cruzeiro: 115 quilômetros/hora
Homenagem do presidente de Portugal a Gago Coutinho e Sacadura Cabral - Fonte - http://gagocoutinho.wordpress.com/

NUMEROS FINAIS DO “RAID”

Locais

Data

Partida

Chegada

Duração

Distância

Vel. média

Lisboa-Las Palmas

30 de Março

7h00m

15h37m

8h37m

703 milhas náuticas

62m/ph

Las Palmas- Gando

2 de Abril

11h13m

11h34m

0h21m

15 milhas náuticas

Gando – S. Vicente

5 de Abril

8h35m

19h18m

10h43m

849 milhas náuticas

79m/ph

São Vicente-São Tiago

17 de Abril

17h35m

19h50m

2h15m

170 milhas náuticas

77m/ph

São Tiago-Penedos

18 de Abril

7h55m

19h16m

11h21m

908 milhas náuticas

80m/ph

Fernando de Noronha- Mar

11 de Maio

11h01m

17h35m

6h34m

480 milhas náuticas

72m/ph

Fernando de Noronha-Recife

5 de junho

10h48m

15h20m

4h32m

300 milhas náuticas

67m/ph

Recife-Salvador

8 de Junho

11h05m

16h35m

5h30m

380 milhas náuticas

69m/ph

Salvador-Porto Seguro

13 de Junho

10h30m

14h33m

4h03m

212 milhas náuticas

52m/ph

Porto Seguro-Vitória

15 de junho

10h55m

14h35m

3h40m

260 milhas náuticas

71m/ph

Vitória-Rio de Janeiro

17 de Junho

12h42m

17h32m

4h50m

250 milhas náuticas

52m/ph

Tudo em horas médias de Greenwich.

Quadro do artista plástico Igor de Loyola, em exposição no Museu do Ar, em Alverca, Portugal - Fonte - http://www.igordeloyola.com/

Total: 4527 milhas náuticas, em 62h26m, com velocidade média de 72,5 milhas náuticas por hora

Fontes – http://www.citi.pt/cultura/historia/personalidades/gago_coutinho/percurso_da_viagem.html

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