DELMIRO GOUVEIA – UM HOMEM ALÉM DO SEU TEMPO E O PIONEIRO DA INDUSTRIALIZAÇÃO NORDESTINA

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Delmiro Augusto da Cruz Gouveia

Por Sálvio Siqueira

Fotos sem indicações – Sálvio Siqueira e Sales Siqueira, Ob. Ct.

Leonila Flora da Cruz Gouveia, tinha 14 anos quando foi raptada por Delmiro Porfírio de Farias, de 34 anos. Foram e viveram no interior do Estado cearense.

Dessa ‘união’ um tanto perturbada, nasceram dois filhos, em dezembro de 1861 nasce a primogênita Maria Augusta e em 5 de junho de 1863, em Ipu, CE, vem ao mundo aquele que seria um dos que mais trabalharam no progresso nordestino, Delmiro Augusto da Cruz Gouveia.

O pai de Delmiro Gouveia, Delmiro Porfírio, parte e vai lutar na Guerra do Paraguay, onde é morto. A viúva, D. Leonila, sua mãe, após esse fato, migra para o Estado pernambucano com seus filhos. A D. Leonila morre nas terras do Leão do Norte em outubro de 1878.

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O próprio destino armou essa ‘emboscada’ para o jovem, o deixando órfão na Veneza brasileira. Começa então a trabalhar desde cedo como cobrador de trens, depois passa a ser despachante de barcaças e, por fim, começa a negociar. Viagens e viagens ele faz pelo interior dos Estados nordestino em busca de comprar peles dos animais abatidos e algodão.

Nessas idas e vindas pelas poeirentas estradas dos sertões e caatingas, depara-se com a jovem Anunciada Cândida de Melo Falcão. Com quem, após um rápido namoro, vem a casar-se, em 1883 e passam a residir na cidade do Recife, capital de Pernambuco.

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Delmiro Gouveia foi um homem que tinha visão muito além do seu tempo. Continuando seu comércio, ele, em outubro 1891, cria uma sociedade denominada Levy & Delmiro. Dois anos depois, em 1893, dissolve a sociedade e assume como majoritário.

A empresa norte- americana J. H. Rossbach Brothers, vendo o potencial do jovem, entra em cooperação comercial com a empresa de Delmiro. Os americanos fornecem capital alto para o empreendimento. Desse momento em diante, Delmiro começa a construir um rendoso, lucrativo e muito próspero comércio de exportação de peles e couros de animais.

Ele fora, também, uma pessoa que gostava muito de festas, músicas e diversões. Constrói para moradia uma Mansão, a qual dar-lhe o nome, em homenagem a esposa, “Vila Anunciada”.

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Firma uma sociedade com Martins Fiuza, donde constitui a empresa “Fiúza & Cia.”. Com José Coelho Cintra, Prefeito da cidade do Recife, faz um contrato, em 1898, para a construção do Mercado do Derby. O qual é considerado como sendo o primeiro Shopping Center do Brasil, por não ter similares até então, e ser o mais moderno da América do Sul.

O sucessor de Cintra, Esmeraldino Bandeira, tem em sua base política, um grupo de comerciantes que é contrário ao comércio no grande mercado por que o mesmo “oferecia produtos nacionais e estrangeiros a preços abaixo da concorrência”, sendo a primeira providência, tomado pelo chefe do executivo municipal, criar empecilhos quanto ao transporte das mercadorias para abastecimento das prateleiras do Mercado do Derby. Isso causa um desentendimento, há mais, entre Delmiro e ele.

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Delmiro viaja para a Capital do País, Rio de Janeiro, para relatar ao atual Vice Presidente da República, Rosa e Silva. Porém o Vice Presidente não dá a devida atenção aos relatos do empresário nordestino o que lhe deixa muito zangado, pois também era homem de pavio curto. Devido a falta de consideração de Rosa e Silva, Delmiro dar-lhe umas bengaladas em plena rua, “(…)com quem se encontrou em plena Rua do Ouvidor. Rosa e Silva não deu atenção às palavras de Delmiro, que insistia em explicar o ocorrido. Foi então que, na tarde de 17 de junho de 1899, Delmiro lhe deu umas bengaladas e Rosa e Silva teve que se refugiar em uma chapelaria para escapar das agressões(…).” (leiturasdahistoria.uol.com.br)

Tomando esse fato como bases, os adversários de Delmiro Gouveia, em Pernambuco, atearam fogo no prédio do Mercado do Derby na madrugada do dia 2 de janeiro de 1900.

Delmiro Gouveia e a primeira esposa
Delmiro e Anunciada Cândida Falcão – Fonte – http://histormundi.blogspot.com.br/2012/11/coronel-delmiro-gouveia.html

Devido a casos e casos amorosos, Delmiro finda por separar-se da esposa, D. Anunciada Falcão, e após o incêndio do mercado, e, passados esses, terríveis, acontecimentos parte para terras europeias.

No entanto, os opositores a Delmiro, continuam com suas “machadinhas de guerra” nas mãos e, não se contentando com a queima do maior mercado da América do Sul, de tudo fazem para acabar, de uma vez por todas, com tudo que ele conseguiu adquirir. Suas empresas e sua fortuna são destroçadas, acabadas, propriamente falando.

Sua viagem à Europa surte efeito e ele consegue arrumar quem lhe faça novos empréstimos financeiros. Trata-se de dois italianos, Guido Ferrário e Lionelo Iona. Porém, não havendo como reerguer seu comércio na Capital pernambucana, Delmiro se dirige para terras inexploradas industrialmente no Estado das Alagoas, em 1902.

Repetindo o que o pai, Delmiro Porfírio, tinha feito, o filho, Delmiro Gouveia, rapta uma jovem de 16 anos de idade, Carmela Eulina do Amaral Gusmão, e vai viver com ela. Carmela era filha de Sigismundo Gonçalves, na ocasião, governador de Pernambuco e aliado a Rosa e Silva. Dessa “união”, nasceram três filhos, Noêmia, Noé e Maria Augusta.

Delmiro Gouveia e a segunda esposa
Carmela Eulina do Amaral Gusmão – Fonte – http://histormundi.blogspot.com.br/2012/11/coronel-delmiro-gouveia.html

Nas Alagoas, Gouveia fica a hospedar-se nas casas de ‘coronéis’, amigos seu, no município de Matinha de Água Branca. Pouco tempo depois, dirige-se para o vilarejo de Pedra, onde seu olhar de homem de negócios, ver o que ninguém tinha visto, até então. Além de outras, Delmiro nota a localidade da Vila, que se localiza, estrategicamente, nas junto as divisas  de quatro Estados. Que são, Alagoas, Pernambuco, Bahia e Sergipe, e ainda onde passava a linha férrea de Paulo Afonso, BA.

Em 1903, compra uma pequena casa para servir de armazém onde monta, novamente, seu negócio de peles. Compra uma fazenda e fixa morada na pequena Pedra, AL. A empresa norte-americana, conhecedora da capacidade do empreendedor cearense, torna a investir um alto capital para o negócio. Além do seu principal negócio, peles e couro, Delmiro consegue fazer um dos maiores rebanhos bovinos da região. Além de bovinos, ele passa a ser criador de caprinos e suínos. Antes, porém, arquiteta e planta uma imensa área rural com um tipo palma forrageira, do gênero Nopalea , mais conhecida como “palma doce”, para servir de alimento para seus rebanhos.

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Em 1904, um tenente pernambucano, o prende, na estação ferroviária da Pedra, ainda pelo rapto da jovem de 16 anos. Mas, políticos e a alta sociedade alagoana interferem e ele logo é libertado.

Em meados de 1912, Delmiro constitui a Cia. Agro Fabril Mercantil. E passa a assumir responsabilidades financeiras na construção de uma fábrica de linhas de coser.

Para que esse novo empreendimento tivesse condições de funcionamento, era necessário ter-se energia elétrica. É quando o “Homem além do seu Tempo”, novamente nos mostra sua capacidade intelectual.

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Propaganda da fábrica de Delmiro, publicada em jornal de Mossoró-RN – Fonte – https://tokdehistoria.com.br/tag/delmiro-gouveia/

Aproveitando as águas do Rio São Francisco, ele consegue usar a força da queda das águas da “Cachoeira de Paulo Afonso”, e na face do penhasco,  no imenso abismo deito pelas águas do “Velho Chico”, constrói uma Usina Hidrelétrica, dando o nome a mesma de “Angiquinho”. E essa, meus amigos, é a primeira hidrelétrica do Nordeste brasileiro. Em 26 de janeiro de 1913, ela é inaugurada, levando eletricidade para o vilarejo da Pedra, AL.

Quase tudo estava pronto, então, ele dá continuidade à construção da fábrica de linhas, a Cia. Agro Fabril Mercantil, outro arrojado plano, pois, bateria de frente com empresas multinacionais.

A Fábrica de Linhas da Pedra começa empregando mil funcionários, com jornada de 8 horas diárias e descanso, folgam, aos domingos. Isso, em meados do ano de 1914, data em que ela “abre” suas portas, o que se torna mais uma visão empreendedora inédita para aqueles dias do saudoso empresário.

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Fonte – https://tokdehistoria.com.br/tag/delmiro-gouveia/

A Cia. Agro Fabril Mercantil lança, no mercado nacional, seu produto com a marca “Estrela” e, no exterior, com a da “Barrilejo”.

Delmiro tinha, e tinha que ter um autoritarismo quase sem limites. E usava com todos aqueles que com ele trabalhavam.

 Ele tinha, naturalmente, um alto perfil de empreendedorismo, o que o levou, sempre, a inovar e ser ousado.

Determina uma vastidão de regras ‘duras’ para que seus trabalhadores a seguissem. E ai daquele que ‘quebrasse’ alguma. Era punido com advertências e multas. Tendo aqueles que trabalhavam para ele nas rédeas, ficava mais fácil controlar todos.

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Talvez por ter viajado pelo mundo afora, em suas determinações, constava que não podia-se cuspir no chão da fábrica têxtil, vender bebidas alcóolicas na Vila, feita para seus trabalhadores, fumar em pra pública, usar chapéus dentro das casas e proibia os jogos de azar.

Apesar de ser conhecido como grande namorador, ele determinou que  “Os namoros fossem constantemente monitorados, e o casal flagrado em suave deleite era “punido” com o casamento”.

Na Vila de Delmiro, não havia prostituição, assaltos e/ou roubos.

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Tanto a fábrica como a vila e o restante do núcleo, era cercada com arame. Desobedecer jamais poderia. As mais ou menos seis pessoa pessoas que dependiam dele para trabalharem e ganharem o sustento.

“(…) Nesse regime, definido sob o ranço escravocrata da nascente burguesia nacional, os métodos rígidos de monitoramento se estendiam a toda vila operária da Pedra, que, hermeticamente edificada, facilitava o controle sobre os moradores (…).” (Ob Ct.)

Quem fora seu trabalhador, tinha que cumprir sua ‘regras’, porém, também tinham aqueles benéficos que ele lhes proporcionava tais como “atendimento médico, água encanada, iluminação gratuita, telégrafo, teatro, cinema, banda de música, cassino, farmácia, açougue, chafarizes, feira local sem cobrar imposto, além de erguer casas e escolas para os operários”.

“Com o tempo, as linhas e peles tiveram crescimento significativo nas exportações nos anos seguintes, impulsionadas pela 1ª Guerra Mundial (1914-1918).” (Ob. Ct.)

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DELMIRO GOUVEIA – O PIONEIRO DA INDUSTRIALIZAÇÃO NORDESTINA

 Delmiro com isso, esse total desenvolvimento dos sertões nordestino, “introduziu o automóvel no sertão e construiu estradas com subvenção do governo alagoano”, por incrível que pareça, arruma mais inimigo. Tanto que, em uma de suas várias viagens, certa feita, pras bandas do Uruguai, confidencia a um jovem Deputado Federal,  José Augusto Bezerra de Medeiros, que representava o Estado do Rio Grande do Norte, pelo que foi eleito, : “Estou certo de que não poderei sobreviver ao cerco que me fazem. Os atentados à minha vida são constantes. Não creio que partam de inimigos políticos ou de malquistos cidadãos. Acredito que serei vítima, dentro de dois anos, dos efeitos do progresso da minha indústria.” (Ob. Ct.)

Quando dessa confidência ao jovem político, corria o ano de 1915, ele foi morto dois anos depois, na varanda da sua casa, enquanto lia um jornal.

“(…) diante do progresso dos negócios, não demorou até que o monopólio escocês Machine Cottons Limited se constituísse obstáculo imperialista às Linhas Estrela, usando medidas desleais, a exemplo do dumping. Como era do seu feitio, o empreendedor dava o troco em propaganda ousada e nacionalista. Mas, após a morte do empresário ocorrida em 1917, a Machine Cottons comprou a Fábrica da Pedra, em 1929, e destruiu os maquinários, arremessando-os na cachoeira de Paulo Afonso (…)”. (Ob. Ct.)

Findamos a história, bem resumida, da vida desse cidadão cearense que investiu no comércio, indústria, bem estar social e, uma ruma de outras coisas, nos Estados do Nordeste brasileiro. Passamos agora, a tentar contar-lhes o que a inveja, a vaidade, a mentira, o fuxico e a desonestidade de alguns, terminaram por ceifar a vida de Delmiro Gouveia, um homem muito, mas, muito mesmo, além do seu tempo.

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“(…) Certa noite, soaram tiros e o cangaceirismo tirava a vida do inquieto empreendedor. Cercado de mistério, o pérfido assassinato de Delmiro Gouveia, vitimado por uma bala no coração, em 10 de outubro de 1917, quando lia jornal na varanda de seu chalé na Vila da Pedra, constituiu-se enigma para a Justiça e enredo para a história. Essa morte violenta e até hoje sem solução definitiva lhe renderia, além do seu enfrentamento com grupos estrangeiros, o epíteto de “mártir da indústria nacional”. Três homens foram presos e condenados: Róseo Moraes, José Ignácio “Jacaré” e Antônio Félix. Mas, em 1983, foram absolvidos post mortem, uma vez que serviram apenas de “bodes expiatórios” para o crime (…).” (Ob. Ct.)

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Manchete da morte de Delmiro – Fonte – https://tokdehistoria.com.br/tag/delmiro-gouveia/

Hoje, chegamos a entristecer e ficamos indignados com as autoridades do poder público da cidade de Delmiro Gouveia, no Estado alagoano. Pois, se não fazem como os seus concorrentes desleais que atiraram as máquinas da sua fábrica nas águas do rio São Francisco, fazem pior, pois deixam, lá onde ele tanto desenvolveu o progresso, até de pagarem as contas da água e da luz do minimuseu que conta a história da própria cidade, levando as empresas fornecedoras a cortarem o fornecimento. 

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Fonte – https://tokdehistoria.com.br/tag/delmiro-gouveia/

(…) Muitos intelectuais ficaram admirados com a obra de Delmiro. Assis Chateaubriand, em visita ao núcleo fabril, disse que “Pedra era uma resposta a Canudos de Antonio Conselheiro”. Gilberto Freyre, barão Homem de Mello, Oliveira Lima, Monteiro Lobato e Mário de Andrade também se deslumbraram ao conhecer o trabalho do industrial. Por fim, o escritor Graciliano Ramos acentuou que “algum tempo depois, Gouveia recebeu um tiro de emboscada no coração. […]. E os cavalos, despertos por Gouveia, adormeceram de novo na cachoeira magnífica, celebrada em prosa, imortalizada em verso, apontados com orgulho, sinal da nossa grandeza” (…).”

Fonte “A Saga Empreendedora de Delmiro Gouveia”. SILVA, Davi Roberto Bandeira Da.

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