NO SÉCULO XIX, SONHO DE PORTUGUÊS ERA SER “BRASILEIRO”

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Portugueses que prosperaram na ex-colônia: roupas mostravam riqueza; no topo, palacete construído por um ‘brasileiro’ em uma vila no Norte do país – Divulgação/José Abilio Coelho

Imigrantes voltavam ricos da antiga colônia e atuavam como filantropos na terra natal

Autor – Renato Gradelle

Fonte – http://oglobo.globo.com/sociedade/historia/no-seculo-xix-sonho-de-portugues-era-ser-brasileiro-16307678#ixzz4KQYHCpbR

BRAGA, PORTUGAL — José Francisco Correia não tinha mais do que dez anos quando, em 1863, embarcou na terceira classe de um navio que deixou o Norte de Portugal. Passou um mês e meio à base de sopa e bolacha e dormindo entre malas, até chegar a uma fábrica de cigarros em Niterói. O irmão de um padre de São Lourenço de Sande, sua cidade natal, contratou-o como segurança e faxineiro. Aos 18, já tinha seu próprio negócio — o Imperial Estabelecimento de Fumos Veado. Este ficou tão famoso que, tempos mais tarde, mereceu uma visita do então presidente Campos Sales. Os louros de Correia renderam um pacote de benesses para os antigos vizinhos. Ele fundou escolas, reformou a igreja, doou dinheiro para tuberculosos. Foi recompensado com o título de Conde de Agrolongo. Era um verdadeiro “brasileiro”, como seus compatriotas definiam quem, a partir de meados do século XIX, migrava para a antiga colônia nas Américas e voltava bem-sucedido.

Conforme o tráfico negreiro perdia força, o Brasil ganhava cada vez mais crédito entre seus antigos conquistadores. Arrasado por uma guerra civil, com governo cambaleante e economia decadente, Portugal foi reduzido a uma porta de saída para o Atlântico. Na semana passada, em um festival de História no Norte do país, pesquisadores lembraram os dois tipos de personagens que procuraram futuro nos trópicos. Aqueles que voltavam endinheirados, os “brasileiros”, colecionaram títulos de nobreza, bancaram obras do governo e atuaram como mecenas e educadores. Já quem desembarcava em terras lusitanas de bolsos vazios era o “abrasileirado” — em sua jornada pela antiga colônia, estes conseguiam apenas o necessário para o próprio sustento.

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— A Inglaterra, principal potência mundial, exercia desde 1810 uma forte pressão para que o Brasil abolisse o tráfico negreiro — destaca André Roberto de Arruda Machado, professor de História da Unifesp. — O imperador Dom Pedro I comprometeu-se a tomar esta medida em 1831. Não o fez, mas a entrada de escravos caiu significativamente, até ser proibida em 1850. Isso abriu espaço para a importação da mão de obra europeia.

POLÊMICA NA CORTE

Os portugueses tornaram-se a população mais engajada em tentar a vida do outro lado do oceano.

— As crianças aprendiam a ler, escrever e fazer contas e, logo depois, migravam para o Brasil — lembra José Abílio Coelho, pesquisador da Universidade do Minho, em Portugal. — Essa mão de obra era fundamental para bancar a exploração agrícola daquela terra imensa.

A imigração em massa provocava reações ambíguas na Corte portuguesa. Sem trabalhadores, a economia nacional estava estagnada. No entanto, quem chegava ao Brasil, ou voltava do país, patrocinava projetos que, sozinho, o Estado não tinha condições de manter.

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Fonte – http://www.etnicosbrasil.com.br

— Um escritor da época afirmava que os famintos portugueses, instalados no Brasil, pagavam as contas do desgoverno português — conta Jorge Alves, professor do Departamento de História e de Estudos Políticos e Internacionais da Universidade do Porto e autor de “Brasil, terra de esperanças” (editora Quasi).

De acordo com Alves, o sonho dos portugueses era voltar “irreconhecíveis”, cultos e de vestuário elegante, ganhando respeito e reputação que nunca teriam se não tivessem deixado a terra natal.

— Milhares de portugueses, após alguns anos de ausência, voltavam transformados a tal ponto que mesmo os pais duvidavam de sua identidade — assinala Alves. — Assim se ampliava a imigração, os candidatos a “brasileiros”. O Brasil era o país ideal: quem trabalha ganha uma recompensa justa.

Os “brasileiros” que voltavam para as aldeias portuguesas não precisavam de muitos esforços para exibir seus ganhos. Bastava dar um novo gás à atividade agrícola da família e erguer um edifício para o funcionalismo público. Outros procuraram as grandes cidades — Lisboa e Porto, principalmente — e tornaram-se sócios e acionistas de bancos, seguradoras e empresas de transporte. Em ambos os ambientes, a posse de capital era coroada no altar, onde os novos ricos selavam casamentos arranjados com pretendentes de famílias tradicionais da elite.

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Pontes Câmara com a mulher e as duas filhas mais velhas, Elisa e Elvira – Divulgação/José Abilio Coelho

Normalmente a troca de alianças era feita com trintões — empreendedores que, apesar da pouca idade, já haviam acumulado mais de 20 anos de riquezas na antiga colônia. Não era uma regra, mas os ricos de meia-idade costumavam ser mais reclusos e, por isso, resistentes a promover benevolências. Nestes casos, o trato mudava. Por maiores que fossem suas riquezas, se não resultassem em um leque de boas ações aos necessitados, o milionário era rebaixado ao status de mero “abrasileirado”. Mas estes eram exceções. A maioria estava disposta a dividir uma generosa parte de suas fortunas.

— (Os novos ricos) compravam ou mandavam construir magníficos palacetes e, em suas terras de origem, ofereceram estradas, igrejas e capelas, casas de espetáculos, escolas, asilos e hospitais — assinala Coelho. — Com estes atos filantrópicos, eles ganhavam reconhecimento da igreja, comendas civis, e às vezes títulos de viscondes.

CONDE CONSTRUIU 120 ESCOLAS

A educação era uma das áreas que mais sensibilizaram os novos ricos. Semianalfabetos em sua chegada ao Brasil, eles voltaram para Portugal dispostos a evitar que as novas gerações passassem pelos mesmos perrengues. Um deles, o Conde de Ferreira, construiu 120 escolas.

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Fonte – imigracaoportuguesa.blogspot.com

Para Coelho, um dos principais quadros na galeria dos afortunados foi Manuel de Pontes Câmara. Nascido na Ilha da Madeira, território português no Atlântico, ele migrou para o Brasil em 1829, aos 14 anos. Antes dos 18, já havia arriscado negócios em ramos como louças, peixes e cereais. Não gostou muito dos resultados modestos. Mas foi o início de um império comercial que, em meio século, desenvolveu ao lado de 40 sócios.

— Ele dedicou-se a negócios de peixe fresco, carnes, cereais, fabrico de chapéus, trapiches, tapiocas e refinação de açúcar e botequins, entre outros — revela Coelho. — Mas seu maior empreendimento foi o café. Na época, o Brasil era o maior exportador do produto, que tornou-se a bebida da moda em todo o mundo.

Pontes Câmara morreu em um naufrágio, a caminho de Lisboa, em 1882, aos 67 anos, acompanhado de mais de 15 mil sacos de seu produto mais lucrativo. Deixou um terço de sua fortuna para ações de caridade, incluindo a construção de uma capela em Madeira. Na época, com o reerguimento da economia portuguesa, a figura dos “brasileiros” era, aos poucos — e desmerecidamente — apagada da História do país.

— Em determinados meios, como os de jornalistas e poetas, a designação de “brasileiro” era sinônimo de agiota, imbecil, analfabeto — condena Coelho. — Mas o tempo desconstruiu essa imagem e hoje, quando falamos de “brasileiros”, nos referimos a um grupo de portugueses admiráveis, dados a enormes gestos de filantropia, e cultos muito acima da média de seu tempo.

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3 opiniões sobre “NO SÉCULO XIX, SONHO DE PORTUGUÊS ERA SER “BRASILEIRO””

  1. Sei que a vida de imigrante não é fácil, já fui imigrante e conheçon as dificuldades de uma pessoa que sai do seu país de origem.
    Tenho uma página no facebook, nela dá pra conhecer melhor Portugal a realidade da vida Num Pais estrangeiro… deixei o link pra vocês conhecerem.

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