ESPÓLIOS DE LAMPIÃO

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Por Sálvio Siqueira

Pesquisador, São José do Egito – PE

É sabido por todo pesquisador que os cangaceiros levavam consigo a maioria dos seus ‘pertences’. Também se sabe que em casos, ou em alguns casos, eles emprestavam, a juros altíssimos, algum dinheiro para as pessoas.

Citam alguns autores que o coronel Zé Pereira, de Princesa Isabel, PB, devia uma grande soma ao “Rei dos Cangaceiros”, e, para não saldar tal dívida, aproveitou o ataque de seu bando, ele não participa, a cidade de Souza, em solo paraibano, convidado pelo jovem cangaceiro Chico Pereira, para colocar seus capangas, e o coronel mantinha um contingente de jagunços maior do que o contingente da Polícia da Paraíba, em seus calcanhares.

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Outra citação é que, ao transpor as água do Velho Chico, Lampião diz “levar muito dinheiro, balas e coragem…” para terras baianas. Na Bahia, há referências de que o chefe de subgrupo, o cangaceiro Zé Baiano, o “Pantera Negra”, vivia a emprestar dinheiro a juros para o pessoal.

Logicamente não se pode negar que, principalmente na ‘fase baiana’, foi a ‘maneira de ganhar’ dinheiro que fascinou tantos jovens, principalmente sergipanos, a adentrarem nos bandos. Sabe-se, através das entrelinhas dos escritores, que o pernambucano José Osório de Farias, o comandante Zé Rufino da Força Pública baiana, comprou algumas fazendas, isso dito por ele, após deixar a Polícia, e foi com os espólios retirados dos corpos dos cangaceiros mortos por sua volante. Além das promoções na hierarquia militar, das recompensas pelas ‘cabeças’ de alguns cangaceiros, que quem matasse um teria direito ao seu espólio.

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Aqui a pulseira, atualmente pertencente a acervo particular, gravada “Maria”, identificando a esposa de Virgulino Ferreira, o Lampeão, identificada e fotografada pelo estudioso Orlins Santana.

O caso mais intrigante, até hoje, não poderia deixar de ser, exatamente, sobre os espólios de Lampião, Maria Bonita, sua companheira, e os outros nove cangaceiros abatidos na grota do riacho Angico em julho de 1938.

A pergunta que não cala é onde foram, ou com quem ficou os espólios dos maiores, mais antigos e mais ‘ricos’ cangaceiros da época?

Seguindo a rota que as cabeças seguiram, conseguimos seguir parte desses ‘tesouro’ até a sede do comando da Força Pública, II Batalhão, na cidade de Santana do Ipanema, AL. Ali, o restante daquilo que fora um dia os espólios dos cangaceiros mortos em Angico, fora divido entre os comandantes. “Restante” por, antes ter sido ‘repartida’ várias coisas entre a tropa, coisa que causou até brigas entre os soldados. Além das cabeças, foram decepadas mãos, dedos e a parte do corpo dos abatidos que estivesse alguma joia ou coisa de valor, dentre outras profanações.

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“(…) Além das cabeças dos cangaceiros, alguns dedos e mãos também foram decepados para a retirada de anéis, bornais foram revirados e até brigas aconteceram pela disputa (…).” (“LAMPIÃO – Sua morte passada a limpo” – BASSETTI, José Sabino. e MEGALE, Carlos Cesar de Miranda. 1ª edição. 2011)

Após a morte dos cangaceiros no riacho Angico, foi designado um Delegado Federal, Dr° Joel Macieira de Aguiar, para apurar o caso do “tesouro” dos cangaceiros. Em sua investigação descobre que havia pessoas de várias esferas sociais a colaborar com Lampião, na sociedade sergipana, porém, como foram saqueados os pertences dos cangaceiros, até documentos que ajudariam a provar, ou comprovar, a participação dessas pessoas, foi retirada. O interventor do Estado de Sergipe, Dr° Manoel de Carvalho Barroso, é orientado pelo delegado a pedir a seu colega das Alagoas uma verificação por parte da Secretaria de Segurança Pública sobre essa documentação. Porém, nada fora catalogado daquilo que se encontrava em poder do “Rei dos Cangaceiros” e seus asseclas naquele coito.

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Notícia da morte de Lampião e dos membros do seu bando sendo notícia em todo Brasil.

“(…) Não existe, pelo menos de conhecimento público, um inventário oficial e verdadeiro, onde esteja catalogado todo o espólio dos cangaceiros mortos em Angico (…).” (Ob. Ct.)

A coisa, na época, não era de brincadeira. Não poderia, de maneira alguma, vir a público nome de pessoas influentes dos Estados em que Lampião estendeu sua malha e concretizou seu reinado.

“(…) dizem até que, foram encontrados em um dos bornais de Lampião, “um arquivo”, com correspondências de coronéis, políticos e fazendeiros, além de uma fotografia de um oficial comandante de volante, com dedicatória e tudo ao Rei do Cangaço. E tudo foi devidamente “abafado inclusive na imprensa” (…).” (Ob. Ct.)

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Tenente João Bezerra – O matador de Lampião

Devemos lembrar que na época, o País estava sob um Regime ditatorial. A Ditadura Vargas estava em pleno exercício. Um, ou mais um, escândalo desses, o primeiro sobre o caso fora o filme de Benjamin Abrahão, não seria visto de bom grado…

Existe, dentre os pesquisadores/escritores, aqueles que acham difícil haver prova escrita de alguns ‘poderosos’ nos espólios do “Rei dos Cangaceiros”. No entanto, poderia ter sim, alguns nomes dos fornecedores e colaboradores escritos em algum papel… Que Lampião recebia colaboração de pessoas influentes é fato, porém, saber quem realmente eram, é mais uma incógnita do incógnito tema, o qual, seus nomes, parece jamais saberemos.

Na famosa foto, onde ficou registrada parte dos espólios junto às cabeças dos cangaceiros na escadaria da Prefeitura da cidade alagoana de Piranhas, de cara notamos uma ‘arrumação’ quando vemos máquinas de costuras e até um cilhão, sela exclusiva e apropriada para mulheres…

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Sentado e vestido totalmente de branco vemos o oficial João Bezerra e a sua esquerda um dos seus visitantes estende o lenço que estava com Lampião no momento de sua morte.

Sabe-se que foi encomendada uma máquina para que, com ela, fosse ‘produzida’ a indumentária de Zé Ferreira, sobrinho do ‘Capitão’, que estava há poucos dias junto à cabroeira e o tio o faria mais um cangaceiro, o mais novo “Ferreira” no cangaço, mas, não deu tempo. E o que danado fazia uma sela de montaria naquele coito?

Relatos de ex volantes deixam registros de que o comandante da Força Pública alagoana que pôs fim a vida do “Rei Vesgo”, sua ‘Rainha” e parte dos seus cabras, apossou-se da maior parte dos espólios.

“(…) Os soldados são unânimes em afirmar que João Bezerra (tenente comandante da tropa) levou para casa quase tudo de valor que foi encontrado, inclusive dinheiro, prometendo dividir com todos no dia seguinte.

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Facão curto de Lampião: Gavião guarnecido por cachorro, 1938. Coleção privada. In Estrelas de Couro – A estética do cangaço pág. 134.

Os ex-militares José Panta de Godoy, Elias Marques de Alencar e Antônio Vieira, estão entre os que afirmaram em entrevista que havia muita coisa, mas que nada receberam e, acusaram João Bezerra e Ferreira de Melo de terem ficado com quase tudo. João Bezerra e Ferreira de Melo pegaram ainda em Piranhas o que quiseram, pois tiveram tempo suficiente para escolher e separar tudo de valor material e “sentimental” que acharam interessante guardar (…)”. (Ob. Ct.)

Com o passar do tempo, obras literárias trazem em suas entrelinhas a notícia de que partes desses objetos foram adquiridos pelos escritores, comprados mesmo e, pasmem, é através de uma dessas obras que começa-se a descobrir-se que parte daqueles objetos que estão a mostra em museu, não são verdadeiros…

… Os pesquisadores/historiadores, com seu ‘faro’ descobridor, terminam por verem, notarem, que muito das peças expostas em museus, não fizeram parte da tralha do cangaceiro mor.

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“(…) Na época, nenhuma desconfiança foi levantada por alguém quanto a uma possível farsa relacionada aos pertences de Lampião. Mas passaram-se os anos e, pesquisadores mais atentos tiveram sua atenção voltada para o mosquetão que fora apresentado em 1938 como sendo o de Lampião. Frederico Pernambucano de Mello foi um desses pesquisadores, e, afirma em seu livro lançado em 1993, “Quem foi Lampião”, na página 107, ser falso o mosquetão que ora repousa naquele Instituto (Instituto Geográfico e Histórico de Maceió)(…).” (“LAMPIÃO – SUA MORTE PASSADA A LIMPO” – BASSETTI, José Sabino. e MEGALE, Carlos César de Miranda. 1ª edição. 2011)

A partir do momento, ou do descobrimento, da falsa arma, os olhos e sentidos dos pesquisadores se aguçam mais detalhadamente nesse sentido. O mosquetão usado por Lampião era modelo do ano de 1922, e a imagem do que aparece sendo sua arma, desde a foto das escadas da Prefeitura, em Piranhas, AL, seria modelo 1908. Para leigos no assunto, a coisa passaria despercebida, porém, há dentre os pesquisadores, verdadeiros experts em identificação de armas. E vejam só onde está a diferença:

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De cima para baixo o fuzil metralhadora Hotchkiss 1921, submetralhadora Bergmann 1918, submetralhadora Royal e submetralhadora Bergmann 1934, armas de tecnologia avançada que combateram e destruíram o Cangaço.

“(…) vemos na frente da cabeça de Lampião, um mosquetão sem a presilha dupla no cano, peça encontrada somente no modelo 1908. O modelo 1922 de fabricação belga possui presilha única, mais estreita e braçadeira. Até mesmo os enfeites da bandoleira do mosquetão da foto tirada em Piranhas, são diferentes dos que aparecem na foto do livro “Bandoleiros das Caatingas” e que foi entregue a Melchiadas da Rocha para ser exposto no Rio de Janeiro (…).” (Ob. Ct.)

Uma testemunha ocular, que com Lampião conviveu, andou, lutou e quase morreu junto ao mesmo, no dia do ataque em Angico, em meados de 1938, foi o senhor Manoel Dantas Loyola, no cangaço tinha a alcunha de Candeeiro, que após ter cumprido sua pena passou a morar em sua terra natal no município de Buique, PE, relatando ao pesquisador José Sabino Bassetti que o “Rei Vesgo”, usava um mosquetão de modelo 1922.

“(…) O ex cangaceiro Candeeiro afirmou que havia poucas armas deste tipo entre os grupos e que, Lampião realmente possuía um mosquetão modelo 1922 com a madeira da coronha em tonalidade clara (…).” (Ob. Ct.)

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Tenente José Bezerra e outros oficiais da volante de acabou com Lampião e suas armas.

No discorrer dos acontecimentos descritos, segundo a obra literária pesquisada, encontramos uma citação, retirada do livro “Quem foi Lampião”, de autoria do sociólogo, pesquisador/historiador Frederico Pernambucano de Mello, onde o mesmo afirma ter comprado objetos que pertenciam a Lampião.

“(…) No mesmo livro e na mesma página 107, Frederico Pernambucano de Mello informa que além da família de João Bezerra, comprou também da família de Teodoreto Camargo do Nascimento, joias que pertenceram a Lampião. Vejamos o que diz:

“Parte das joias, antigos acervos dos comandantes volantes João Bezerra e Teodoreto Camargo do Nascimento, compõem hoje a Coleção Frederico Pernambucano de Mello, destinada a servir de base ao futuro Museu do Cangaço do Nordeste. Dela fazem parte ainda lenços de pescoço, cartucheiras, lapiseira, algemas e alpercatas de Lampião”.

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O autor de “Quem foi Lampião” comprou da família de João Bezerra, o lenço de pescoço que o Rei do Cangaço usava na hora da morte, joias, bornais, um par de alpercatas e também os mosquetões que pertenceram aos cangaceiros Quinta-Feira e Sabonete. Da família de Teodoreto Camargo do Nascimento, adquiriu o punhal que pertenceu a Luiz Pedro, um vestido de Maria Bonita, um lenço de pescoço de lampião, além de joias (…).” (Ob. Ct.)

O ataque aos cangaceiros no coito do riacho Angico foi pela manhã do dia 28 de julho, uma quinta-feira, de 1938. Nessa mesma manhã, foram levadas as cabeças e os espólios dos cangaceiros abatidos, mais o corpo da única baixa militar que teve no ataque, o corpo do soldado Adrião, para a cidade de Piranhas, AL.

Após serem as cabeças devidamente colocadas nos degraus da escada da Prefeitura, junto aos aparatos ‘arrumados’, não sabemos informar, pois não encontramos, ainda, o local onde passaram a noite daquele dia. Só na mahã do dia seguinte, 29 de julho daquele ano, uma sexta-feira, ao romper da aurora, é que chega a Piranhas, AL, o comandante do II Batalhão que ficava em Santana do Ipanema, AL, coronel José Lucena de Albuquerque.

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O mesmo segue em caminhão com o cortejo macabro em direção a Pedra de Delmiro, de lá, após outras paradas breves nas cidades, vilas ou povoados na estrada, chegam ao seu destino primeiro onde o esperava o Comandante Geral da Polícia Militar de Alagoas, coronel Teodoreto Camargo do Nascimento.

Naquela cidade, Santana do Ipanema, na sede do II Batalhão, os comandantes, segundo os autores da obra pesquisada, fizeram um ‘conselho de guerra’ com determinação da ‘partilha’ daquilo que fora encontrado no acampamento dos cangaceiros.

“(…) Foi aí que João Bezerra expos aos dois comandantes a totalidade, ou quem sabe até, parte de tudo que conseguiu arrecadar em Angico (…).” (Ob. Ct.)

Pelo que notamos após a narração dos pesquisadores, o montante em joias e dinheiro não fora pouco.

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Havia, naquele tempo, um fazendeiro, grande latifundiário que era um dos maiores colaboradores de Lampião, Audálio Tenório de Albuquerque, que era primo do coronel José Lucena. E é das mãos do primo do comandante do II Batalhão que vemos surgir outros objetos que pertenceram ao cangaceiro mor. Esse primo do coronel Lucena, certa feita vai a capital pernambucana a fim de consultar um oftalmologista, Dr° Isaac, afim de saber qual medicação daria a Virgolino Ferreira, pois o mesmo estava enfermo da vista esquerda, única que tinha.

“(…) O ex militar José Panta de Godoy  afirma que o Tenente Coronel José Lucena “não quis ficar com nenhum objeto que tenha pertencido aos cangaceiros”, mas, quanto ao dinheiro nada comentou. Não disse como soube deste fato, mas, acertou quando afirmou que houve uma divisão do butim entre os comandantes. Na verdade, o coronel Lucena ficou com alguns objetos que foram depois repassados ao amigo e primo Audálio Tenório de Albuquerque e, hoje, também pertencem a coleção de Frederico Pernambucano de Mello (…).” (Ob. Ct.)

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Joaquim Resende sendo entrevistado por Melchiades da Rocha em Santana do Ipanema

O cangaceiro, mistificado, produzido e aparentado por Lampião, diferenciava-se daqueles que os antecederam. Suas vestimentas não eram para camuflarem-se, pelo contrário, havia uma necessidade de mostrar-se, aparecer e ser visto pelas pessoas, exibindo-se mesmo. Com isso, muitas foram às pessoas que viram as peças artesanais, moedas e enfeites de algum metal precioso servindo de adorno para testeiras, barbicachos e bandoleiras das armas longas.

O tenente que comandou o ataque aos cangaceiros na grota do riacho Angico, o pernambucano João Bezerra, não negou nem escondeu que tinha em seu poder os objetos que outrora pertencera a Lampião e seu bando. No entanto, sempre discordou, quando citavam que tivesse ficado com algum montante em contos e mil réis.

Já o comandante Ferreira de Melo, deu entrevista citando sobre o assunto…

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A riqueza do ‘tesouro’ dos cangaceiros é, principalmente hoje, incalculável. Além dos objetos históricos, tinha a quantia em dinheiro, o ouro e as joias.

O comandante Ferreira de Melo, em entrevista, fala sobre eles:

“(…) Era grande a riqueza em poder dos bandidos, principalmente em face dos anéis e medalhas de ouro e prata que quase todos possuíam. Fiquei com alguma coisa, como todos ficaram, porém, quase de nada me serviu, de vez que vendi quase de graça, por preço muito aquém do verdadeiro valor. Outros souberam aproveitar e se saíram muito bem graças a Deus. Outros pertences, documentos diversos, retratos, etc, o “Rei do Cangaço”, os conduzia em uma latinha, com tampa, feita dessas latas de óleo vegetal, vendidos em toda parte. Fiquei com algumas fotografias, das quais algumas ainda figuram em meu álbum como única recordação, que se junto às tristes recordações que conservo dos idos que espero jamais venham a ressurgir. ­– GAZETA DE ALAGOAS – 14 de dezembro de 1965.(…).” (Ob. Ct.)

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Fonte – canalcienciascriminais.com.br

Na declaração do comandante Ferreira de Melo, notamos que os espólios, realmente, fora em uma quantidade grande. Chama-nos a atenção quando o mesmo refere a ‘lata de óleo vegeta’, e nela estarem guardado “documentos”, não citando que tipo de documentação seria. Nesses documentos, estaria a resposta para as inúmeras perguntas que pairam no ar? Neles, estaria ou estão guardados tudo aquilo que desvendaria o tão grande mistério que ainda envolve a morte do chefe cangaceiro? Difícil responder, pois o comandante refere que ficou com algumas fotografias, no entanto, sobre os documentos, nada citou na entrevista, pelo menos a que fora publicada.

Outros pesquisadores/historiadores, de renomes, dentro da historiografia cangaceira também tiveram contatos com os comandantes da derrocada final.

Em princípios de 1969, o pesquisador/historiador Antônio Amaury Correa de Araújo, tendo vindo da terra da garoa, vai à cidade de Garanhuns, no Estado do Leão do Norte, fazer uma visita/pesquisa na casa daquele que fora o comandante do ataque ao acampamento dos cangaceiros na grota do riacho Angico, em meados de 1938, então coronel João Bezerra.

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Desenho de Ronald Guimarães – Fonte – http://marvel-nat.forumeiros.com/t186-trama-base-do-forum

O historiador nos relata os objetos que vira no acervo particular do comandante, aos quais dá o nome de troféus.

“(…) Armas curtas; vários fuzis; punhais; duas máquinas de costuras do tipo manual; um par de algemas, um jogo de bornais; uma corrente de ouro, bastante grossa e pesada, pendente da mesma um medalhão e um crucifixo de ouro; uma aliança larga e pesada, de ouro puro (…).” ( “ASSIM MORREU LAMPIÃO” – ARAÚJO, Antônio Amaury Correa de.)

O escritor paulista, narra à beleza que viu em uma peça que pertencera ao “Rei Vesgo”. Trata-se de um facão, muito bem trabalhado em sua lâmina e no seu cabo. Tratando-se de uma verdadeira obra de arte. Logicamente a pergunta que todos faziam veio à mente do pesquisador, e ele a fez ao comandante:

“(…) Perguntamos sobre o ouro e o dinheiro que Lampião trazia consigo (…).” (Ob. Ct.)

4-Lampião gostava de mostrar-se um homeme inteligente perante as câmeras
Lampião

Sempre que fora inquirido sobre essas coisas, ouro e dinheiro de Lampião, conta-nos os escritores que o coronel dava respostas evasivas, contraditórias, sentindo-se incomodado com o assunto. Ao ser inquerido pelo pesquisador Dentista, João Bezerra respondeu, segundo o historiador:

“(…) que tinha sido carregado pelos que escaparam (…).” (Ob.Ct.)

Não estando convencido, nem contentado, com a resposta do coronel, o autor de “Assim Morreu Lampião”, procura seus familiares e faz a mesma pergunta. A resposta dos familiares nos mostra a quantidade e incalculável valor do que fora os espólios dos cangaceiros.

“(…) No mesmo dia, porém, por familiares do nosso hospedeiro, fomos informados que o mesmo (João Bezerra) arrecadara ouro, joias, anéis em quantidade suficiente para encher duas pequenas bacias. Dinheiro também, parece que mais de 100 contos, quantia bastante elevada na época (…)”. (Ob. Ct.)

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Fonte – nosrevista.com.br

A ordem expressa para acabar de vez com Lampião e seu bando, partiu diretamente do Palácio do Catete, na Capital do País, Rio de Janeiro, pelo então Presidente da República, Getúlio Vargas. Após ter cumprido a ordem, o comandante João Bezerra da Silva e sua esposa, D. Cyra Brito, são convidados e aceitam para jatarem com o Presidente Vargas e sua esposa, D. Darci. Lá estando, João Bezerra dá de presente à primeira dama do país, joias que pertenceram a “Rainha dos Cangaceiros”.

Ele mesmo, João Bezerra, na época já tendo sido promovido a Capitão, no livro da escritora Aglae L. de Oliveira, “Lampião, Cangaço e Nordeste”, na página 35, relata para autora:

“- Numa dessas visitas ao Catete (Palácio do Catete, sede do Governo Federal na cidade do Rio de Janeiro), lembro-me de que D. Darci Vargas(primeira Dama da Nação) disse, no momento em que lhe mostrei as joias: “Que broche lindo! Capitão este é lindo!” Eu imediatamente lhe fiz presente.”

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 João Bezerra

A pesquisadora/escritora Aglae L. de Oliveira, também nos relata, através de seu livro “ Lampião, Cangaço e Nordeste”, uma entrevista, ou parte dela, que teve com o comandante Bezerra.

A.O. = Aglae Oliveira

J.B. = João Bezerra

(A.O) “- Coronel Bezerra, o sr. é acusado de ter desviado o dinheiro de Lampião?”

(J.B.) “– Sim, estou. Dizem que o meu interesse de persegui-lo era para ficar com o dinheiro.”

(A.O.) “– Quantas joias aproximadamente apreenderam?”

(J.B.) “– Davam para encher duas bacias. Eu fiquei ferido e os soldados foram donos de tudo. Para mim os objetos dele davam azar.”

(A.O.) “– O senhor guardou alguma coisa? Refiro-me a joias.”

(J.B.) “– Eu tinha uma caixinha cheia. Quando os amigos mostravam desejo de possuir uma, eu dava de presente. Minha esposa quis ficar com várias, inclusive uma tesoura de unhas toda de ouro. Não consenti que ela usasse.”

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Lampião – Fonte – lounge.obviousmag.org

O ataque aos cangaceiros ocorreu na manhã do dia 28 de julho, no riacho Angico, município de Poço Redondo, SE, e nessa mesma manhã, a tropa sobe a correnteza do “Velho Chico”, chegando com as cabeças dos cangaceiros abatidos, o corpo do soldado Adrião e o que foi ‘arrecadado’, na cidade de Piranhas, AL. No dia 29 de julho, espólios e cabeças, troféus macabros, chegam à cidade de Santana do Ipanema, AL, na sede do II Batalhão e, somente no dia 31 do mês de julho de 1938, chegam a Capital alagoana. Vejam bem, o que levaram para Maceió, capital das Alagoas, e lá chegaram no dia 31 de julho, só é catalogado a mando do Comandante Geral da PMAL, no dia 9 de agosto do mesmo ano, como mostra o boletim militar de número 176 de 09 de agosto de 1938.

O jornalista Melchiades da Rocha solicita um inventário dos Espólios dos Cangaceiros mortos na grota do Angico, a fim de leva-los, ou parte deles, e expô-los na Capital do País, Rio de Janeiro.

“(…) Coincidentemente, foi no dia 09 de agosto que foi feito o “inventário” dos objetos de Lampião que foram entregues ao jornalista Melchiades da Rocha para serem expostos no Rio de Janeiro (…).” (“LAMPIÃO – SUA MORTE PASSADA A LIMPO” – BASSETTI, José Sabino. e MEGALE, Carlos César de Miranda. 1ª edição)

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O já conhecido anúncio de recompensa por Lampião, pretensamente oferecido pelo governo baiano.

Fica evidente que boa parte das armas, o dinheiro, as joias e o ouro que estavam em posse dos cangaceiros foram arrematados em Santana do Ipanema, AL, ou mesmo antes. Lembremos que as cabeças chegaram a Piranhas, AL, no dia 28 e só no outro dia, numa sexta-feira, 29 de julho de 1938, é que seguiram para a sede do II Batalhão.

Não esperavam os comandantes, tanta repercussão sobre a morte dos bandidos que há muito tempo aterrorizavam os sertões nordestinos. Autoridades de outros Estados, a imprensa e a população geral, queriam ver os objetos que pertenceram ao bando de Lampião. Não existindo outra forma, naquele momento, fora colocado armas e outros objetos substituindo os verdadeiros, como forma de dar uma satisfação a todos. E, naquele momento, teve êxito. Quanto aos objetos de valor, ouro joias e o dinheiro, não ocorreram substituições, apenas teve-se notícias de uma joia aqui, outra ali… E assim sucessivamente.

Cangaco foto colorida - Cpia
Cangaceiros mortos em Angicos. Foto colorida por Rubens Antônio – Fonte – http://www.jeremoabo.com.br/web/index.php/noticias/21-politica/1866-semana-do-cangaco-de-piranhas-sera-de-24-a-27-de-julho

“(…) baseados em documentos da Polícia Militar de Alagoas, entrevistas de ex-militares e nos relatos do jornalista Melchiades da Rocha, podemos afirmar que a grande maioria dos objetos de Lampião, Maria Bonita e dos demais cangaceiros, fez o trajeto de Piranhas até a sede do II Batalhão em Santana do Ipanema onde, desprezando-se completamente a lei, houve a divisão entre os comandantes (…).” (Ob. Ct.)

Após tantas informações notamos a confusão que se deu no comando militar, depois que é concedido ao jornalista o direito de levar os objetos para ficarem em exposição. A pressa é inimiga da perfeição, e mais uma vez, isso nos é confirmado quando o ‘procedimento de carga’ desse Espólio fora feito. Não fora incluído no mesmo a quantidade, tipo, nem a numeração. Segundo os autores, Bassetti e Megale, até fora dada saída em objetos que não tinham sido catalogados na entrada, ou seja, apreendidos.

Não somos ‘donos’ da verdade, porém, procuramos ir buscá-la aonde ela encontra-se. A história muda a cada dia, devido a descobertas de novos fatos ocorridos em cada período.

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Xilogravura de J. Miguel, famoso artista popular nordestino – Fonte – http://marcosnogueira-2.blogspot.com.br/search?q=Pombal

Fonte “LAMPIÃO – Sua morte passada a limpo” – BASSETTI, José Sabino. e MEGALE, Carlos César de Miranda. 1ª edição.

Foto Armas On-Line, História Militar Online, Lampiãoaceso.com, Cangaçonabahia.com e Jornal Extra de Alagoas, Ob. Ct.

 

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