Todos os posts de Rostand Medeiros

Rostand Medeiros é de Natal, Rio Grande do Norte, escritor e pesquisador sobre a história da aviação, a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial e aspectos históricos do Nordeste do país. Em 2009 foi coautor do livro "Os Cavaleiros do Céu: A Saga do Voo Ferrarin e Del Prete", que conta uma história de 1928, sobre o primeiro voo sem escalas entre a Europa e a América Latina. Este trabalho foi apoiado pela Embaixada da Itália no Brasil, a Força Aérea Brasileira (FAB) e a Universidade Potiguar (UNP). No ano seguinte trabalhou como consultor do SEBRAE – RN, participando do projeto “Território do Apodi - Nas pegadas de Lampião”, que trata de aspectos históricos e culturais sobre a passagem do cangaceiro Lampião pelo Rio Grande do Norte em 1927. Em 2011 lançou o livro "João Rufino-Um Visionário de Fé”, a biografia do criador do grupo industrial 3 Corações, uma das maiores empresas de torrefação de café da América Latina. Nesta obra o autor mostra como um homem simples, mas com muita capacidade para o trabalho e fé, foi capaz de desenvolver na cidade de São Miguel, interior do estado do Rio Grande do Norte, uma grande indústria que possui atualmente sete fábricas no Brasil e mais de 6.000 colaboradores. Neste trabalhou travou um amplo contato com a população da região, sempre permeado por muito respeito e admiração. Ainda em 2011 participou junto com outros autores potiguares de um livro de crônicas intitulado "Travessa da Alfândega". No ano de 2012 produziu os seguintes livros "Fernando Leitão de Moraes-Da Serra Canaviais uma Cidade do Sol" e "Eu Não Sou Herói-A História de Emil Petr”. Este último livro é uma biografia de Emil Anthony Petr, um agricultor nascido em Nebraska, Estados Unidos, que durante a Segunda Guerra Mundial foi aviador em um bombardeiro B -24 e se tornou prisioneiro dos alemães. Após a guerra, o livro narra a relação de Emil com o povo brasileiro, a terra para a qual decidiu viver a partir de 1963 quando passou a realizar trabalhos para a Igreja católica no Rio Grande do Norte. Possui artigos publicados em jornais e revistas potiguares. Foi fundador da ONG SEPARN – Sociedade para Pesquisa e Desenvolvimento Ambiental, Histórico e Cultural do Rio Grande do Norte, onde trabalha desenvolvendo projetos de pesquisas para o desenvolvimento de outros livros... Rostand Medeiros vive em Natal, Rio Grande do Norte, Brasil. Email - rostandmedeiros2@gmail.com BLOG- https://tokdehistoria.com.br/ Rostand Medeiros was born in Natal, Rio Grande do Norte. He is a researcher and expert in producing biographical works. Also does researches in history of aviation, participation of Brazil in World War II and in regionalist aspects of Northeast Brazil. His member of Genealogy Institute of Rio Grande do Norte – IGRN and SBEC – Brazilian Society for the Study of Cangaço. In 2009, he was co-author of "Os Cavaleiros dos Céus – A Saga do Voo de Ferrarin e Del Prete” (in free translation, “The Knights of the Sky: The Saga of Ferrarin and Del Prete Flight”), a book that tells a story from 1928, of the first nonstop flight between Europe and Latin America. This book was supported by the Italian Embassy in Brazil, Brazilian Air Force (FAB) and Potiguar University (UNP). In 2010, Rostand was a consultant of SEBRAE – Brazil's Micro and Small Business Support Service, participating of the project “Território do Apodi – nas pegadas de Lampião” (in free translation, “Apodi Territory – In the footsteps of Lampião”), which deals with historical and cultural aspects of rural areas in Northeast Brazil. In 2011, Rostand Medeiros launched the book "João Rufino – Um Visionário de Fé” (“João Rufino – A visionary of Faith”), a biography of the founder of industrial group Santa Clara / 3 Corações, a large coffee roasting company in Latin America. The book shows how a simple man, with a lot of hard work, was able to develop, in Rio Grande do Norte state, a large industry that currently has seven units and 6,000 employees in Brazil. Also in 2011, he wrote, with other authors, a book of short stories entitled “Travessa da Alfândega” (in free translation, “Customs Cross Street”). In 2012, Medeiros produced the following books: "Fernando Leitão de Moraes – Da Serra dos Canaviais à Cidade do Sol” (“Fernando Leitão de Moraes – From Sugarcane Mountains to Sun City”) and "Eu Não Sou Herói – A História de Emil Petr” (“I’m not a hero – The Story of Emil Petr”). This latest book is a biography of Emil Anthony Petr, a farmer who was born in Nebraska, United States. During World War II, he was an aviator in a B-24 bombing and became a prisoner of the Germans. This work shows the relationship of Emil with Brazilian people, whose with he decided to live from 1963, when he started to work for Catholic Church. He also published articles in "Tribuna do Norte", newspaper of the city of Natal, and in "Preá", cultural magazine published by Rio Grande do Norte State Government. He founded SEPARN – Society for Research and Environmental, Historical and Cultural Development of Rio Grande do Norte. Currently, is working in development other books. Rostand Medeiros is married, has one daughter and lives in Natal, Rio Grande do Norte, Brazil. Email - rostandmedeiros2@gmail.com BLOG- https://tokdehistoria.com.br/

“JOÃO RUFINO-UM VISIONÁRIO DE FÉ” NO BLOG DO MIRANDA GOMES

Recebi um carinhoso e-mail do Dr. Carlos Roberto de Miranda Gomes, me informando que havia publicado no seu blog (http://cmirandagomes.blogspot.com/2011_04_17_archive.html) uma resenha sobre nosso livro “João Rufino-um visionário de fé”.

Fiquei particularmente emocionado pelo enorme respeito que tenho ao Dr. Carlos e decidi reproduzir este material no nosso “Tok de História”, acrescentando algumas outras fotos do evento ocorrido em São Miguel no último sábado, 23 de abril de 2011, um dia verdadeiramente inesquecível.

Área da entrada do evento

“Com esta expressão o escritor ROSTAND MEDEIROS lança, hoje, na cidade de São Miguel, o livro que conta a vida exemplar de JOÃO RUFINO.

A obra nos mostra a história de um homem simples, onde desponta em seus ditos, gestos e ações “a expressão da alma despida de ansiedade e necessidade, preparada desde cedo para ouvir e compreender a linguagem de Deus e dos homens.” (Sueli Alves)
“Seu João é um homem singular, simpático, singelo e simples, mas de gestos largos e uma generosidade imensurável, sem medida mesmo.” (José Gaudêncio Torquato)
“A vida deste ser humano sublime só nos renova a crença em Deus e na sabedoria do trabalho do homem. No caso de Seu João Rufino, devemos ressaltar a enorme capacidade de vencer com seu próprio esforço e dedicação em fazer o bem.” (Raimundo Fagner)

Show de Raimundo Fagner na noite de 23 de abril.

Esses depoimentos dos seus amigos foram devidos à perspicácia e dedicação com que Rostand Medeiros os colheu, num trabalho elogiável, que registra de forma perene a saga de um homem do interior que vence toda a adversidade possível e se torna o patriarca de uma grande família e de um pequeno império empresarial representado pelo Grupo 3 Corações, originário da torrefação “Nossa Senhora de Fátima”, que se tornou “Grupo Santa Clara”, tudo construído com o maior exemplo de honestidade, dignidade, amor e solidariedade.

Tive a grande satisfação de receber o livro, delicadamente oferecido pelo autor e que tive a honra de fazer a sua leitura antes do lançamento. APROVO, mas preciso de uma complementação. No seu retorno da festa, meu Caro Rostand, me traga um pacotinho do “Abençoado Café de Seu João Rufino”, daquele que ainda se faz na heróica Serra de São Miguel.”

Sobre o Dr. Carlos Roberto de Miranda Gomes;

Natalense, Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela tradicional Faculdade de Direito da Ribeira/UFRN, turma de 1968. Especialização em Direito Civil e Comercial na UFRN, Mestre em Direito Público (Ordem Constitucional) pela Universidade Federal do Ceará-UFC. Ex-Conselheiro do Conselho de Recursos Fiscais do Estado do Rio Grande do Norte. Ex-Conselheiro-substituto do Conselho de Contribuintes do Município de Natal. Foi presidente da OAB/RN e Ex-Juiz do TER/RN. Professor aposentado da UFRN, na cátedra de Direito Financeiro e Tributário. Atualmente é Membro Honorário Vitalício da OAB/RN, sócio efetivo do IHGRN e membro da Academia de Letras Jurídicas do Rio Grande do Norte, cadeira 14, membro e Assessor de assuntos jurídicos da UBE/RN, sócio e Secretário da AMINN, sócio do Instituto Norte-riograndense de Genealogia, sócio efetivo do Rotary Club de Natal-Sul desde 1984.

O autor junto a Pedro Lima, filho de João Rufino, Diretor do Grupo Santa Clara/3Corações e grande incentivador da criação do livro "João Rufino-Um Visionário de Fé".

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LANÇAMENTO DO LIVRO “JOÃO RUFINO – UM VISIONÁRIO DE FÉ” NA TRIBUNA DO NORTE

Reportagem na Tribuna do Norte

No último dia 22 de abril, sexta feira, o jornal natalense Tribuna do Norte publicou uma reportagem sobre o lançamento do livro de minha autoria “João Rufino, um visionário de fé”. O lançamento desta obra ocorreu nesta bela cidade serrana no último sábado, da qual detalharei em outros materiais futuros.

Segue o texto publicado com algumas fotos que consegui com a ajuda do grande Tasso…

Livro traz história do café no RN

“Era dali daquela esquina que uma chaminé incensava as manhãs enevoadas de inverno e despejava o cheiro matinal do café torrado que impregnava o ar e a fumaça se encarregava de espalhar por toda a cidade.” As palavras do arquiteto José Gaudêncio Torquato sintetizam a atmosfera que permeia a biografia “João Rufino, um visionário de fé”, criador do Café Santa Clara nos idos dos anos 1950, na pequena cidade serrana de São Miguel. O livro, escrito pelo pesquisador Rostand Medeiros, será lançado com grande festa neste Sábado de Aleluia, dia 23, naquele município localizado no extremo Oeste do RN, distante cerca de 440km da capital potiguar – lugar onde tudo começou.

Junto a Seu João e Dona Joana Rêgo.

O adjetivo ‘grande’ não é mero subterfúgio linguístico, e pode ser entendido como ‘intenso’ devido à programação agendada para o acontecimento: além do tradicional coquetel de lançamento, marcado para às 19h, com direito a sessão de autógrafos do autor; na mesma hora e local também haverá abertura da exposição fotográfica “São Miguel, minha terra”, composta de 300 imagens históricas e atuais que contextualizam a biografia. Em seguida, às 22h, no palco montado na praça Pedro Rufino, a cidade será brindada com show do cearense Raimundo Fagner, amigo pessoal do homenageado desde a mocidade (o cantor nasceu em Orós, CE, cidade situada a pouco mais de 80km de São Miguel). Fagner e Gaudêncio, igualmente amigo de infância da família, assinam o prefácio.

Com pouco mais de 22 mil habitantes (IBGE 2010), a cidade de São Miguel, distante dos principais centros regionais (Natal e Fortaleza), ganhou contornos históricos de independência. Esse isolamento geográfico deu margem para o empreendedorismo do biografado: “Na década de 1950, Seu João (Rufino) Alves de Lima ia comprar café em Minas Gerais e na Bahia e trazia para torrar em São Miguel”, disse Rostand Medeiros. “Ele torrava o café em um imóvel no centro da cidade, com as portas abertas para mostrar que não misturava nada”, complementa o pesquisador.

Junto aos prefaciadores do nosso trabalho, os grandes Raimundo Fagner e Zé Gaudêncio Torquato

Detalhe: em São Miguel não tem “pé de café nem para tirar foto”, mas a família de Seu João Rufino coordena uma das maiores empresas do ramo no mundo. Inicialmente batizada de Café Nossa Senhora de Fátima, a empresa familiar passou a se chamar Santa Clara por questões mercadológicas e, desde o início de 2010, após acertar parceria com outra empresa familiar de Israel, passou a responder pela denominação Grupo 3Corações. “O livro conta toda essa trajetória”, adianta Medeiros.

Durante os dez dias que passei em São Miguel tive o enorme prazer de assinar muito dos mais de 9.000 livros que lá foram distribuídos gratuitamente para toda população. Como na casa do amigo Eliziário Neto, no bairro de Santa Tereza. Neto é proprietário de uma pequena confecção e fez questão de chamar vários vizinhos para que eu assinasse seus exemplares. Foi tudo muito positivo e só tenho agradecimentos.

A minuciosa pesquisa de Rostand durou cerca de dois anos, e o resultado pode ser visto ao longo das 380 páginas e 270 fotografias: “A pesquisa revelou detalhes da personalidade de Seu João Rufino, que ainda mora em São Miguel, é casado com Dona Joana Rêgo e leva uma vida simples. Até hoje, apesar do êxito empresarial, é visto pelas pessoas do lugar do mesmo jeito: humilde, amiga e caridosa. É conhecida por sua religiosidade e perseverança”.

Palco do grande show de Fagner

De acordo com o autor, a biografia está sendo distribuída na cidade, um exemplar por residência. “É emocionante ver no rosto dos mais antigos a surpresa ao relembrar do passado a partir das fotos. Estou muito satisfeito com o resultado”, comemora Rostand, convidado para escrever a biografia após a publicação de seu primeiro livro “Os Cavaleiros dos Céus – A Saga do Vôo de Ferrarin e Del Prete”, lançado pela Fundação Rampa em 2009. Com tiragem inicial de oito mil exemplares, a biografia é, muito provavelmente, o livro lançado no RN em 2011 de maior edição.

Na noite do lançamento e do show de Fagner, junto com o grande João Rufino

Uma das histórias contadas em “João Rufino, um visionário de fé” remete à década de 1960, quando Rufino foi tido como louco por distribuir parte de sua produção: “Seu método estava à frente do seu tempo, era tudo uma instintiva jogada comercial. Hoje a empresa é comandada por seus filhos, possuiu sete fábricas e mais de quatro mil funcionários. Sem dúvida a história de Seu João Rufino é um exemplo de fé para qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo. Uma história universal do homem que teve um sonho e conseguiu realizá-lo”, finaliza.

Assinando o livro para os amigos de São Miguel

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“OS QUINTOS DOS INFERNOS”

A HISTÓRIA DO COMBATE ENTRE O CANGACEIRO

MOITA BRABA E O ALFERES CASCUDO EM SÃO MIGUEL-RN 

Em 1889, após a proclamação do regime republicano, o Rio Grande do Norte teve aclamado como seu primeiro governador o médico e jornalista Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, onde o mesmo passou apenas 19 dias à frente desta função. Este foi surpreendido com a nomeação do bacharel Adolfo Afonso da Silva Gordo para chefe do executivo potiguar e teve de deixar o governo.

Pedro Velho

Seguiu-se um período de instabilidade política, muito prejudicial ao desenvolvimento do estado. Sucederam a Pedro Velho oito governadores e uma junta governativa durante dois anos e três meses, até que este retorna ao poder, eleito pelo Congresso do Estado em 22 de fevereiro de 1892.

Este novo governo representou o fim da instabilidade política, consolidando o regime republicano no Rio Grande do Norte e criando as bases para Pedro Velho dar início a atuação da oligarquia Albuquerque Maranhão.

Em meio a toda esta efervescência, com esta alternância de lideranças no executivo estadual, alguns setores políticos do Rio Grande do Norte, buscando ampliar, ou ocupar espaços nas cidades do interior, passaram a agir de forma agressiva contra seus adversários na luta pelo poder, chegando a casos de práticas de violências contra seus opositores e a terem sob suas ordens grupos de cangaceiros.

Um destes locais foi à cidade de São Miguel.

A Conflituosa Cidade na Serra

A região onde se localiza a cidade potiguar de São Miguel, antigamente conhecida como vila de São Miguel de Pau dos Ferros, está fincada no alto da serra do mesmo nome. A evolução política tem início em junho de 1859, quando o lugar passa a ter um Distrito de Paz, e chega a município com a Lei estadual n° 776, de 11 de dezembro de 1876, desmembrando-se de Pau dos Ferros.

Foto aérea da cidade de São Miguel na atualidade. Fonte-Prefeitura Municipal de São Miguel

A cidade e a região sempre foram marcadas por inúmeros casos que estiveram envoltos em violência e sangue. Na história do lugar não faltaram exemplos de assassinatos por questões políticas, lutas pela posse de terras, uso de pistoleiros abatendo inimigos em tocaias e ataques de cangaceiros.

Várias são as razões para explicar a ocorrência de conflitos no alto da serra.

Entre estes podemos citar a luta pela posse das terras férteis, que umedecidas pela altitude elevada, facilita o desenvolvimento de uma produção agrícola em épocas de seca e consequentemente a ganância dos latifundiários. (1)

Outro ponto a ser levado em consideração está associado à localização geográfica de São Miguel. Estando posicionada entre três estados, esta cidade sempre foi um local de passagem de forasteiros, de boa ou má índole. Para aqueles que tinham contas com a justiça, à região possuía inúmeros locais de difícil acessibilidade, proporcionando a existência de diversos esconderijos naturais. Outro facilitador para ocorrência destes casos está relacionado à distância de quase quinhentos quilômetros que separam esta cidade da capital do estado, Natal, e das autoridades constituídas.

Quem mais se beneficiou com esta situação foram os coronéis locais, que sem maiores esforços, conseguiam contratar farta “mão de obra especializada” composta de homens violentos, que “há muito estavam debaixo do cangaço”. Formando verdadeiras milícias, fortemente armadas, mostrando aos inimigos a força de determinada facção e deixando a população em permanente clima de terror.

Várias fontes oficiais relatam os problemas ligados à violência na região. Em 1853, o então Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Antônio Francisco Pereira de Carvalho, comenta que “Esta província, confinando com a do Ceará e Paraíba, em longa extensão e lugares, por onde se desfilam algumas serras, é o valhacouto de quantos malfeitores há no seu limite”, conforme se lê abaixo (2).

Trecho de um relato governamental sobre a criminalidade na região

Já outro antigo dirigente potiguar, Olynto José Meira, na sua Mensagem de 1863, ao justificar a designação de um delegado para impor a ordem na região, declarou que “a comarca de Pau dos Ferros, limítrofe com as províncias da Paraíba e do Ceará, um dos menos ordeiros, ou talvez o mais turbulento de toda província, aonde desde longa data sei que os furtos de cavalos, as ofensas físicas e os assassinatos têm sido praticados quase em larga escala” (3).

1 – O ponto culminante do Rio Grande do Norte, a Serra de São José, com 831 metros de altitude está localizado entre os atuais municípios de Luiz Gomes, São Miguel, Coronel João Pessoa e Venha Ver. Segundo o Anuário Estatístico do Rio Grande do Norte, edição 2004 e publicado pelo IDEMA – Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte.

2 – Ver a Mensagem do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Antônio Francisco Pereira de Carvalho, 1853, pág. 04.

3 – Ver a Mensagem do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Olynto José Meira, 1863, págs 58 e 59. Por esta época, o então município de São Miguel tinha a sua comarca baseada no vizinho município de Pau dos Ferros.

Valentia

A situação em São Miguel e região eram tão peculiares que em algumas ocasiões, os fortes do lugar se sentiam tão poderosos no alto da serra, que chegavam a criar tremendos embaraços para as autoridades constituídas.

Como exemplo temos a controversa figura de Francisco Moreira de Carvalho, comandante do Partido Conservador em São Miguel. Notícias dão conta que desde 1868, Carvalho havia praticado, ou influenciado os seus correligionários a agir de forma arbitrária e violenta contra os integrantes do Partido Liberal na região. Ele foi julgado e condenado por homicídio, mas devido a sua posição e ligações políticas, estava livre e protegido pelos outros poderosos locais.

Em 1874, o então presidente da província, João Capistrano Bandeira de Mello Filho, conhecido como “Doutor Bandeirinha”, ordenou um basta à situação e mandou prender o alferes. Em sua “Fala” a Assembleia Legislativa, o presidente teceu fartos elogios ao 2º sargento José Paz da Silva Banda, pela detenção do alferes (4).

Mas se Carvalho realmente foi preso, passou pouco tempo, pois durante a grande o período da chamada “seca de 77” (entre os anos de 1876 e 1879), mais precisamente em 27 de janeiro de 1879, vamos encontrá-lo à frente de um grupo de moradores de São Miguel, na cidade de Areia Branca, para reivindicar a entrega de gêneros alimentícios aos flagelados da sua região. Ao chegar à cidade salineira, o líder dos flagelados busca as autoridades, mas os gêneros alimentícios não são entregues. Entretanto ele toma conhecimento que em um depósito de mercadorias do governo havia alimentos em abundância e que certas pessoas estavam desviando o que lhe fora prometido. Liderando um grupo de retirantes, Carvalho incita uma revolta, sendo necessário à vinda de uma força policial com quarenta militares de Mossoró e dezenas de civis fortemente armados. Houve enfrentamento e derramamento de sangue, deixando um saldo de vinte mortos e inúmeros feridos. Entre as vítimas estava o delegado de Mossoró, Manuel Rodrigues Pessoa, além de alguns soldados e o maior número de vítimas foi registrado no lado dos mais necessitados. O então presidente da Província do Rio Grande do Norte, Eliseu de Souza Martins, enviou para Areia Branca o Chefe de Polícia, Joaquim Tavares da Costa Miranda, com uma tropa formada por cem policiais e assim foi possível controlar a situação.

Se para alguns a figura de Francisco Moreira de Carvalho é de um déspota, autoritário, um marginal que zombava das autoridades com a sua impunidade, para muitos outros ele era tido como um herói. O escritor Raimundo Nonato, sem citar fontes, informa que antes do episódio sangrento em Areia Branca, ainda durante o período da Guerra do Paraguai, Carvalho arregimentou sessenta filhos da serra de São Miguel para combaterem o ditador Solano Lopez. Ele mesmo teria se oferecido para lutar em terras paraguaias e por esta razão recebeu do império o título de “alferes”. Ainda segundo Raimundo Nonato, outra boa ação do alferes Carvalho foi ele ter sido um entusiasta abolicionista na região, apoiando os surtos libertários ocorridos no Ceará e Rio Grande do Norte em 1883 (5).

O alto da serra sempre se caracterizou por produzir valentes, que em situações extremas realizaram ações que marcaram época e chegaram até nossos dias, não como relatos de frios assassinatos, mas quase como lembranças de antigas gestas medievais.

Luís da Câmara cascudo em 1923

É Câmara Cascudo quem comenta, sem especificar a data, nem a razão, que um certo pistoleiro de nome José Brasil, matou e esquartejou em vários pedaços José Francisco de Carvalho, o rico proprietário do sítio “Potó” e depois fugiu.

O filho do falecido, Antônio Monteiro de Carvalho, sem coragem para perseguir o assassino, utilizou um artifício verdadeiramente interessante para “lavar a honra”. Ele procurou Manoel Joaquim de Amorim para resolver a situação. Amorim, um dos valentes de São Miguel, era apaixonado pela filha do falecido fazendeiro, mas aparentemente não tinha muitas esperanças de seus desejos de união com a jovem serem realizados. Monteiro de Carvalho sabendo desta situação propôs ao esperançoso Amorim que se este prendesse a João Brasil, teria a honra de desposar sua irmã.

Segundo Cascudo, Amorim saiu então “pelo oco do mundo”, “com uma determinação que impulsiona os apaixonados”. Acabou por prender o assassino, segundo uma versão em Pedras de Fogo, na Paraíba e segundo outra, na cidade pernambucana de Goiana. O certo é que Amorim, coberto com a glória dos valentes, trouxe o matador a São Miguel.

Houve festas e danças pela captura do sicário, que assistia a tudo amarrado em um tronco. Com o dia amanhecendo levaram José Brasil para uma pedra chata, perto da capela do padroeiro São Miguel. O assassino então pede um padre para se confessar, mas rispidamente Antônio Carvalho nega, alegando a Brasil que ele “não deu confessor a meu pai!” e fuzila sumariamente o matador diante de numerosa plateia.

A promessa a Amorim é cumprida e este se casa com Anna Fausta de Carvalho (6).

4 – Ver a Mensagem do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, João Capistrano Bandeira de Mello Filho, 1874, pág. 12. Sobre a passagem do “Doutor Bandeirinha” como chefe do executivo potiguar, ver Cascudo, Luís da Câmara. “História do Rio Grande do Norte”, MEC, 1955, pág. 182.

5 – Sobre o conflito em Areia Branca ler a Mensagem do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Rodrigo Lobato Marcondes Machado, 1879, pág. 4. Outra fonte é a Dissertação de Mestrado em Meio Ambiente, apresentada pelo Bacharel em História, Francisco José Pereira da Silva, da UERN – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Sobre a participação de Francisco Moreira de Carvalho na Guerra do Paraguai e no apoio a luta abolicionista na região, ver Nonato, Raimundo. “Os revoltosos em São Miguel (1926)”. Rio de Janeiro, Ed. Pongetti, 1966, págs. 19 e 22.

6 – Ver o jornal “A Republica”, edição de 31 de agosto de 1934, pág. 01. Câmara Cascudo visitou São Miguel no mesmo ano da publicação desta reportagem, quando percorreu várias cidades do interior potiguar como participante da comitiva do Interventor Mario Câmara, que realizava esta viagem com o intuito de inaugurar obras realizadas em sua gestão. Como resultado desta viagem, Cascudo escreveu o livro “Viajando o Sertão”, mas não comenta nada sobre sua visita a São Miguel. Esta interessante reportagem aponta outras valiosas informações sobre esta cidade serrana.

As Lutas Políticas em São Miguel e o Cangaceiro Moita Braba

Alguns anos depois da união com a família Carvalho, Manoel Joaquim de Amorim alcança o poder de uma das facções políticas da cidade serrana, o que significava criar ou entrar em confusões, e decide montar uma espécie de guarda para sua proteção. Entre os membros do seu séquito de segurança está um cangaceiro que todos chamam de Moita Braba (7).

Para Luís da Câmara Cascudo ele se chamava Antônio Moita Braba, já Raimundo Nonato informa que ele seria Manuel Joaquim Moita Braba. Mas os dois escritores potiguares concordam que este cangaceiro era perigoso, violento, astuto e valente. Teria nascido na Paraíba, mais precisamente na cidade de Sousa. Era mameluco, tinha em torno de trinta anos e desde os dezesseis já era um “homem de armas”, tendo praticado em torno de quinze mortes.

O aspecto dos cangaceiro da época de Moita Braba deveria ser próximo do cangaceiro aqui apresentado

Sua área de atuação sempre foi pequena, bem como o número de membros do seu bando. Quando uma região estava fervilhando de soldados a sua procura, passava a fronteira e buscava esconderijo em outra região. Desde o início da década de 1880 circulava entre Sousa, Belém do Arrojado (hoje a cidade de Uiraúna), e as vilas da região do Rio do Peixe, na Paraíba, passando por Luís Gomes, Pau dos Ferros e São Miguel, no Rio Grande do Norte, até o Pereiro e Icó, no Ceará.

Era sempre protegido pelos poderosos do lugar, trabalhando para quem melhor lhe pagasse, sendo útil para impor a lei dos mais fortes nas épocas eleitorais e assegurando o poder aos seus chefes, entre eles Manoel Joaquim de Amorim. Contudo, nunca foi um vassalo que se prendia exclusivamente a quem lhe pagava, era fiel até o momento em que ele achava que valia a pena ser fiel. (8).

Apesar da sua “extensa ficha” já ser certamente conhecida das autoridades, somente em 1892 Moita Braba passa a chamar a atenção dos mandatários do governo em Natal.

Eram dez da manhã de uma segunda-feira, dia 14 de novembro, quando o rico fazendeiro José Bezerra de Medeiros, conhecido como “Bezerra matuto”, acompanhado de dois advogados e alguns seguranças, chegavam à sede da intendência da vila de São Miguel para participar de uma audiência. Antes de entrar no local estas pessoas são atacados por um grupo de dez homens, mas apenas o fazendeiro é sumariamente alvejado e morto. Os matadores seguiam ordens de Amorim em pessoa, tendo Moita Braba como o segundo em comando (9).

Velha igreja de São Miguel, onde se rezou muito pelo fim da violência

As razões da morte de “Bezerra matuto” são as de sempre; terras, lutas pelo poder local, demonstrações de força, etc.

O mandante Amorim é pronunciado em março de 1893, mas em flagrante ato de desrespeito a justiça, continua a viver tranquilamente na sua fazenda Quintos, localizada a dezessete quilômetros de São Miguel. Amorim gozava da proteção de políticos do lugar, além de contar com a falta de empenho das autoridades judiciárias de Pau dos Ferros em cumprir com suas obrigações, no caso o juiz Paulino de Araújo Guedes e o delegado de São Miguel e grande “defensor da legalidade”, o controverso alferes Francisco Moreira de Carvalho (10).

7 – Sei que no livro “Flor de Romances Trágicos”, de Luís da Câmara Cascudo, no capítulo onde ele comenta sobre a morte deste cangaceiro, ele nomeia este celerado como “Moita Brava”. Entretanto, em janeiro de 2007, quando estive na região buscando garimpar alguma informação sobre estes episódios, mesmo depois de 113 anos, só escutei os moradores locais nomeando-o “Moita Braba” e assim preferi mantê-lo. Ainda durante as pesquisas na região, pude perceber que poucas pessoas conhecem sobre os episódios ocorridos na Fazenda Quintos e sobre a morte de Moita Braba. As informações que consegui, através do relato de poucas pessoas idosas, muito pouco, ou quase nada acrescentaram ao que as antigas fontes escritas me proporcionaram.

8 – As informações mais detalhadas sobre este cangaceiro se encontram nos livros de Nonato, Raimundo. “Os revoltosos em São Miguel (1926)”. Rio de Janeiro, Ed. Pongetti, 1966, págs. 19 e 22 e Cascudo, Luís da Câmara. “Flor de romances trágicos”. Natal, EDURF, 1999, págs. 85 a 90.

9 – Na Mensagem do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Pedro Velho de Albuquerque Maranhão apresenta em 1893, na sua página 4, informa que o tiroteio ocorreu no dia 10 de novembro, uma quinta-feira. Contudo o relatório do então Chefe de Polícia Interino, Olympio Manoel dos Santos Vital, apresentado praticamente um ano depois, na primeira página da edição de “A Republica”, de 10 de novembro de 1894, comenta que a data do incidente foi o dia 14. Em minha opinião sigo o relatório do Chefe de Polícia, pois o mesmo esteve apurando os fatos na região dos conflitos. Já os protetores de “Bezerra matuto”, segundo Nonato, R. Op. Cit., pág. 20, eram cangaceiros cearenses do grupo do chefe “Peixoto”.

10 – Nonato, R. Op. Cit., pág. 20, informa que Manoel Joaquim de Amorim chegou a ir a julgamento, que o mesmo não resultou em nada. Entretanto, o então Chefe de Polícia Interino, Olympio Manoel dos Santos Vital, em seu relatório ao governador Pedro Velho e apresentado em “A Republica”, de 10 de novembro de 1894, nada comenta sobre este possível julgamento. Igualmente as edições dos jornais editados em Natal na época, tampouco fazem alusão a este fato. Já a pífia atuação das autoridades judiciárias no caso Amorim é igualmente comentada e fortemente criticada no mesmo relatório de Olympio Vital. Na Mensagem que Pedro Velho apresenta em 1893, na relação dos delegados de polícia designados pelo governador Pedro Velho, consta o nome do alferes Carvalho como o titular desta função na cidade de São Miguel.

“Os Quinto dos Infernos”

Entretanto este crime é a gota d’água para o governador potiguar Pedro Velho. Este passa a exigir mais empenho das autoridades para dar um basta à situação de desordem e intranquilidade na região (11).

Somente no fim da tarde de 31 de julho de 1894, oito meses após a morte de “Matuto bezerra”, o alferes Carvalho parte de São Miguel para a fazenda Quintos. Junto à “autoridade” seguem Firmino José Bezerra de Medeiros, conhecido como “Néo Bezerra” e filho de “Bezerra matuto”, além de outros nove homens que “vão cumprir a lei”.

Estas pessoas possuíam um histórico um tanto estranho para a função. Entre eles estava Joaquim Avelino, pronunciado por crime de defloramento, outros tidos como desordeiros e o próprio Moita Braba.

Seja por alguma desavença com seu agora ex-patrão Amorim, por esperteza, ou outra razão, o certo é que este cangaceiro fez parte do grupo que sitiou a fazenda Quintos e tentou prender seu proprietário. O mais estranho é que o cerco da fazenda Quintos põem lado a lado o filho do assassinado “Bezerra matuto” e alguns membros do mesmo grupo que perpetraram o assassinato do seu pai.

Já é noite quando “os homens da lei” cercam a propriedade e intimam o velho Amorim a se entregar. Mesmo cercado ele não se intimida, manda chumbo como resposta a ordem de prisão e o tiroteio estoura, seguindo por toda à noite.

Pela manhã outras dezessete pessoas se juntam ao grupo do alferes Carvalho, cresce então o conflito e o cerco à propriedade ganha força. Lá dentro Amorim busca proteger uma filha, uma neta, dois netos, um genro e um empregado. Os homens válidos fazem fogo através das “torneiras” existentes nas paredes (12).

O pipocar das armas ecoa pelas serras, a população da região fica irrequieta para saber o que está acontecendo, é o assunto em voga.

Segundo a tradição oral da região, esta seria a velha casa da fazenda Quintos, local do combate.

Dentro da casa os defensores fazem fogo ao menor sinal do surgimento de algum atacante na sua alça de mira. Amorim possui estoque de munição e mantimentos para lhe assegurar alguns dias de resistência, um túnel oferece acesso à água de um açude próximo. Já os atacantes têm todo tempo do mundo. Atiram em toda casa, nas grossas janelas e portas de madeira. Buscam alvejar algum defensor que se mostre de alguma forma e a troca de ofensas e impropérios é constante.

Literalmente a fazenda Quintos se transforma nos “Quintos dos Infernos”.

Acredita-se que Amorim contava com a possibilidade de algum aliado atacar o pessoal do alferes Carvalho pela retaguarda, mas o próprio fato do seu ex-segurança Moita Braba está ao lado dos atacantes, aponta como provavelmente o valente Amorim já não possui o mesmo poder de outrora.

O certo é que depois de cinco longos dias após o início do cerco, com a munição escasseando e a tensão no limite, Amorim e outros companheiros fogem pelo dito túnel, alcançando um local onde aparentemente existia um engenho de rapadura e de lá, encobertos pela vegetação, conseguem fugir.

Os que permaneceram na casa gritam solicitando garantia de vida ao alferes Carvalho. Este concede o salvo conduto, mas como se acompanhava de homens motivados tanto pela vingança, quanto pelo desejo da rapinagem, a sede da fazenda Quintos é invadida. Objetos são então roubados, baús são arrombados, móveis quebrados e outras coisas destruídas. Até as alimárias existentes na propriedade são utilizadas para o transporte dos produtos do saque e finalmente o grupo de atacantes incendeiam a sede da propriedade. Entre os prisioneiros de destaque estão Ismael José de Carvalho e Olympio Cesário de Moura, respectivamente genro e neto do proprietário dos Quintos.

Região da fazenda Quintos

Amorim busca abrigo em uma fazenda nas imediações do município potiguar de Luís Gomes, provavelmente sob a proteção de algum poderoso do lugar. A população desta cidade limítrofe com a Paraíba fica assustada com a sua presença, este então segue para o estado vizinho e as autoridades desconhecem o seu paradeiro.

Firmino Bezerra, um irmão e outros que participaram do cerco, talvez até acompanhados de Moita Braba, partem armados para várias localidades da região com um recado bem claro; aqueles que fornecerem abrigo ao assassino do seu pai e seus asseclas vão ter que enfrentar a fúria de suas armas.

A região está vivendo um clima de terror. Vários buscam armas para a defesa de suas propriedades. Já outros que vivem mais isolados buscam juntar-se a parentes em sítios mais povoados ou nas pequenas vilas e cidades (13).

11 – Quase dois meses depois da morte de Moita Braba, quando os ânimos na região estavam mais tranquilos, os jornais publicam uma nota emitida pelo governador Pedro Velho, informando que desde setembro de 1894, a população da região solicitava um maior empenho por parte do governo para pôr fim ao clima de medo que imperava na vila de São Miguel. A população estava particularmente apreensiva com a “presença de cangaceiros, circulando livremente pelas ruas, em grupos e fortemente armados”. Ver o jornal “A Republica”, edição de 16 de fevereiro de 1895, p. 01.

12 – Amorim já contava com 73 anos na época do tiroteio. As chamadas “torneiras” eram aberturas feitas, ou “broqueadas” como se dizia, nas paredes das antigas propriedades dos coronéis do sertão, onde se destinava a obter um campo de visão para parte externa, visando realizar disparos contra os adversários com uma arma de fogo.

13 – Sobre o cerco, a consequente depredação da fazenda Quintos e a fuga de Amorim, ver principalmente Nonato, R. Op. Cit., págs. 20 a 23 e o relatório de Olympio Vital publicado em “A Republica” em 10 de novembro de 1894.

A Ação de Pedro Velho e o Fogo Contra Moita Braba

Ao receber as notícias da região, Pedro Velho toma uma decisão drástica, decide mandar para a região o próprio Chefe de Polícia Interino, o desembargador Olympio Manoel dos Santos Vital. Este vai acompanhado de uma força policial com 30 homens, sob o comando do capitão Joaquim Lustosa de Vasconcelos, tendo como subcomandante o alferes Francisco Justino de Oliveira Cascudo.

Justino Cascudo, sua esposa e seu filho Luís

Esta força partiu da capital em meados de setembro, todos comissionados, equipados e sabiam que não havia prazo determinado para retornarem. Isto tudo em uma época na qual a forma mais rápida de transporte para São Miguel era embarcar em um navio a vapor até Areia Branca e o resto do percurso feito através de toscas estradas de barro, em cima de um cavalo (14).

O desembargador Olympio Vital era um calejado conhecedor das práticas jurídicas e administrativas, com uma extensa e respeitável folha de serviços prestados ao país. Tinha então 55 anos, era baiano, natural de Feira de Santana, formado pela Faculdade de Direito de Recife desde 1860, exerceu diversos cargos de respeitabilidade no período monárquico, tais como Promotor Público em Salvador, Chefe de Polícia no Ceará e por cinco meses foi Presidente da Província de Sergipe. Com a proclamação do regime republicano foi nomeado desembargador do recém-criado Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, tendo sido designado presidente interino desta instituição (15).

Olympio Vital chega à região em 2 de outubro de 1894 e o seu relatório mostra as enérgicas ações impetradas por ele.

Foi aberto um inquérito sobre o caso da fazenda “Quintos”, o alferes Carvalho foi sumariamente destituído do cargo de delegado de polícia de São Miguel, tendo sido nomeado como seu substituto o alferes Cascudo. Já em Pau dos Ferros e Luís Gomes, respectivamente são designados como delegado o capitão Joaquim Lustosa e o cidadão Joaquim Moreira da Silveira.

Casa onde funcionou a cadeia pública de São Miguel

O teor do relatório é duro, onde Olympio aponta a nefasta ação do alferes Carvalho, sobre a proteção que os políticos ofereceram a Amorim e a ineficiência das autoridades judiciárias. Além da preocupação que havia na região por Amorim estar solto, ameaçando várias pessoas. O Chefe de Polícia aponta que se perdeu uma ótima oportunidade de prendê-lo. Ele solicita então o apoio das polícias da Paraíba, Pernambuco, Ceará e Piauí para a prisão do fazendeiro.

Moita Braba e seu grupo é outra preocupação de Olympio. Este continuava circulando pelas fronteiras estaduais e pelas serras, extorquindo mantimentos dos fazendeiros em troca de tranquilidade. Impetuoso e valente, o cangaceiro e seu diminuto bando afrontam de forma clara as autoridades estaduais na noite de 14 de outubro, quando é relatado a Olympio que o grupo havia chegado armado em uma casa próxima de São Miguel e até mesmo circulado tranquilamente pelas ruas do lugar. A polícia é mandada em seu encalço, mas Moita Braba e seus homens já haviam saído da pequena urbe (16).

Após o retorno de Olympio Vital a Natal, o alferes Cascudo continuava mantendo suas funções junto com a sua força policial (17). Seu braço direito era o veterano policial, cabo Sebastião Gomes Cajueiro (18). Apesar da presença da polícia, o clima era tenso e apontava para outro conflito.

Na noite de 22 de dezembro Moita Braba, acompanhado dos cangaceiros José Rufino e Joaquim Avelino, chegam primeiramente a casa de Felisberto de Paula Monte, um pouco afastada do centro de São Miguel. Mesmo sabendo da presença da coluna policial, o destemido cangaceiro comenta para as pessoas do lugar, com muita fanfarronice, que estava ali para “-Dar uma surra de peia no oficial”.

Depois o grupo segue para a residência de um vizinho de Felisberto, Remígio Moreira de Carvalho, que buscou demover o cangaceiro desta ideia e fazê-lo ir embora com seus homens. A casa de Felisberto ficava próxima ao chamado “cemitério novo” e possuía muitas janelas.

Sabendo da “visita” de Moita Braba a São Miguel, o alferes Cascudo ordena ao seu grupo de policiais se aprontarem e seguir para o combate. O oficial, junto com o cabo Cajueiro e mais oito soldados cercam a casa e intimam o cangaceiro e seus companheiros a se renderem. A resposta foi um tiro certeiro e mortal no peito do soldado Teodósio Francisco do Nascimento. O tiroteio começa, em meio a bravatas, palavrões, cantigas e ameaças, com os dois lados trocando chumbo. O grupo de Moita Braba ofereceu tenaz resistência e acordam toda a serra com os disparos.

Nota sobre a morte de Moita Braba

Segundo Câmara Cascudo, vinte minutos após o início do combate, Moita Braba pede ao Alferes que deixasse sair da casa as mulheres da família de Felisberto. Este atende prontamente e o grupo deixa a morada. No meio destes, vestido com roupas femininas e carregando uma criança, segue Joaquim Avelino. O irônico é que este mesmo cangaceiro, anteriormente pronunciado por crime de defloramento, fugia utilizando as mulheres da casa como escudo. Consta que o mesmo saiu para buscar ajuda e realizar um ataque pela retaguarda da polícia. Se assim foi, ele não cumpriu a sua parte e desapareceu.

Como os tiros que saiam de dentro da casa cada vez mais se espaçavam, a polícia invade o local. Dentro encontram José Rufino morto, já Moita Braba estava coberto de sangue, com três ferimentos, a arma destruída por um balaço, agonizando e vomitando sangue. Câmara Cascudo, através do relato do seu pai, comenta que o cangaceiro ostentava no peito ensanguentado uma imagem de ouro com a esfinge de São Francisco e ainda teve forças para ameaçar: – “Num entre qui morre….” (19).

14 – Sobre o teor da nota do governador Pedro Velho, sobre o envio do Chefe de Polícia e da tropa de apoio para a região, ver o jornal “A Republica”, edição de 26 de janeiro de 1896, p. 01.

15 – Ver Gosson, Eduardo Antônio, “Sociedade e Justiça – História do poder judiciário no Rio Grande do Norte”, DEI- Departamento Estadual de Imprensa, Natal, 1998. Págs. 67 a 74.

16 – Relatório de Olympio Vital publicado em “A Republica” em 10 de novembro de 1894. Pág. 01. Interessante notar que logo na publicação deste relatório, na sua parte final, o desembargador Olympio informa publicamente que a longa viagem havia debilitado a sua saúde e solicitava a sua saída do cargo de Chefe de Polícia Interino. Ele é então substituído pelo também desembargador Francisco Salles de Meira e Sá.

17 – O então alferes Francisco Justino de Oliveira Cascudo é atualmente mais conhecido como “coronel Cascudo”, sendo lembrado basicamente como pai do folclorista Luís da Câmara Cascudo, que muito enalteceu a sua figura. Mas ele fez uma interessante carreira na Polícia Militar do Rio Grande do Norte. Nascido no município potiguar de Campo Grande, no dia 26 de novembro de 1863, foi mascate na região de Mossoró. Em julho de 1892, com o apoio do líder político de Campo Grande, Luís Pereira Tito Jácome, foi designado alferes do então Batalhão de Segurança, sendo logo designado para missões no interior. Algum tempo depois do combate em São Miguel, em 1899, o alferes Cascudo participa da ação que desmobiliza o movimento messiânico que tem início na Serra do João do Vale. Deixa a polícia em 1900, torna-se comerciante em Natal, depois deputado estadual, proprietário de jornal na cidade e de outros negócios. Foi a primeira pessoa a abrir um comércio exclusivamente destinado a venda de automóveis na cidade (marca Ford) e participou de vários movimentos comerciais, políticos e sociais de Natal. Falece em 1935. Ver “400 nomes de Natal”, coordenação de Rejane Cardoso, edição da Prefeitura Municipal de Natal, 2000. Págs. 157 e 158.

18 – Um ano depois do tiroteio com o bando de Moita Braba, o valente cabo Cajueiro participa de mais um combate contra um pretenso bando de cangaceiros errantes. Em 24 de dezembro de 1895, às nove da noite, em meio às comemorações pelo nascimento de Jesus Cristo, na pequena vila de Triunfo, atual município de Campo Grande, um grupo de quinze indivíduos invade o local. Eles são comandados por Izidoro, “celebre criminoso”, como afirmam os documentos da época, de Brejo da Cruz, Paraíba. Estes atacam o pequeno destacamento de quatro militares que realizava uma patrulha pelas ruas do lugar. Os militares não se intimidam e o grupo é rechaçado. Como resultado o chefe Izidoro é morto, cinco outros membros do bando são feridos e presos. Já entre os policiais ficam feridos o soldado Manoel Izidoro de Nascimento e o cabo Cajueiro, que não resiste e morre no dia 9 de janeiro de 1896. Ver a Mensagem do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Joaquim Ferreira Chaves Filho, 1896, pág. 05 e o jornal “A Republica”, edição de 15 de janeiro de 1896, p. 02.

19 – Sobre o combate e a morte de Moita Braba, ver Cascudo, Luís da Câmara. “Flor de romances trágicos”. Natal, EDURF, 1999, págs. 85 a 90. O jornal “A Republica”, edição de 31 de agosto de 1934, pág. 01. Mensagem do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, 1893, págs. 3 e 4.

Novos Arranjos, Velhos Problemas

Com a morte de Moita Braba, a entrada do novo ano de 1895 encontra a região em uma situação mais calma.

As autoridades em Natal decidem fazer mudanças na região. Coloca o juiz de Pau dos Ferros, Paulino de Araújo Guedes em disponibilidade e iniciam o processo de escolha do novo juiz para a comarca a qual São Miguel pertencia. Para o seu lugar, em seção ocorrida em 13 de março de 1895, sob a presidência do desembargador Jeronymo Câmara, a escolha recaí sobre o então promotor de Canguaretama, João Dionísio Filgueira (20).

Apesar do passado violento, a população da cidade de São Miguel prima por receber da melhor forma os visitantes, onde a vida segue calma e tranquila.

Chama a atenção à escolha de um juiz com apenas 25 anos, diplomado pela Faculdade de Direito do Recife há apenas um ano, que então exercia suas funções de promotor em uma cidade localizada a pouco menos de cem quilômetros da capital e é transferido para exercer esta nova atividade em uma cidade situada a mais de quatrocentos. Entretanto Dionísio era natural de Pau dos Ferros e de família influente. Era filho de Dr. Manoel Hemetério Raposo de Melo e de Dona Umbelina Fernandes de Melo, proeminentes membros da sociedade local. Ele conhecia a região, as pessoas, e contava com o apoio do governador Pedro Velho.

Para quem pesquisa nas páginas dos antigos jornais potiguares do período, observa que a nomeação e transferência de juízes e promotores eram notícias que não chamavam a atenção e poucas eram vistas nas primeiras páginas dos periódicos. Entretanto a nomeação e transferência de Filgueira ocasionaram várias notas nas primeiras páginas de “A Republica”, onde o teor das mesmas são basicamente fartos elogios à figura do novo magistrado e externando os parabéns pela sua nomeação. Ele tinha sessenta dias para assumir o seu cargo, a partir da data da publicação de sua nomeação pelo governador Pedro Velho, dia 14 de março de 1895 (21).

Vale ressaltar que naquela época, o jornal “A Republica” era o periódico do governo, onde este servia tanto para a edição de notícias do dia a dia, bem como realizava as funções de publicações de atos governamentais, tal como hoje é feito pelo “Diário Oficial”.

Mesmo com toda carência em relação à questão de transportes, além da urgência que o caso exigia quarenta e três dias após sua nomeação, os jornais informam que o juiz Filgueira chegava a Pau dos Ferros e novamente ele foi notícia nos jornais da capital. Um correspondente local comentou que “no sábado, 27 de abril, chegou a esta vila o novo juiz de direito”, que o mesmo havia sido recebido “com entusiásticas manifestações de festas e regozijo”. Tecia fartos elogios e informava que já no dia 1 de maio de 1895, que na época ainda não era feriado nacional dedicado ao dia do trabalhador, o juiz estaria em São Miguel para visitar o lugar.  Vemos através do teor da nota, como a elite política de Pau dos Ferros e região desejava uma solução para os conflitos na serra de São Miguel.

Aparentemente o governador Pedro Velho buscava através do principal jornal que circulava no estado, mostrar a importância que a nomeação do juiz Filgueira tinha para o governo, fortalecendo a posição do magistrado junto aos políticos da conturbada comarca, imprimindo uma nova ordem para a região, buscando acomodar as forças políticas locais e debelar o medo que existia (22).

Durante algum tempo a região de São Miguel some das páginas dos periódicos e dos documentos oficiais, mas muitas feridas continuam abertas e no futuro outros conflitos vão existir.

Em 16 de agosto de 1899, o filho de “Bezerra matuto”, Firmino José Bezerra de Medeiros, consegue pessoalmente matar com dois tiros Manoel Joaquim de Amorim, o assassino do seu pai e proprietário da fazenda Quintos. A honra de sua família foi “lavada com sangue”.

Notícia da morte do Coronel João Pessoa

Coincidentemente os futuros proprietários da fazenda Quintos morreram todos de forma violenta, efetuadas ou por disparos de arma de fogo, ou a ponta de faca. Em 24 de maio de 1928 é assassinado o líder político João Pessoa de Albuquerque e em 23 de junho de 1934, o novo proprietário, Manoel Ferreira de Carvalho é igualmente morto em luta. (23)

Estas velhas lutas marcaram a serra de São Miguel, tanto que até hoje, o povo da região denomina a antiga propriedade Quintos como “Quintos dos Infernos” e quando alguém está nervoso ou irritado, eles logo comentam; “-Tá igual ao Moita Braba”.

20 – A forma de escolha deu-se através dos votos dos desembargadores, onde em uma lista tríplice constava, além do nome do promotor Dionísio Filgueira, os então promotores de Macau e da própria Pau dos Ferros, respectivamente Manoel Xavier da Cunha Montenegro e Caetano Guimarães de Sá Pereira. Ver “A Republica”, edição de 31 de março de 1895, p. 02.

21 – Sobre a nomeação do juiz Filgueira em “A Republica”, na parte de “Actos Offciaes”, e notícias de sua transferência nas edições dos dias 16 e 23 de março de 1895.

22 – Ver edição de 31 de maio de 1894, de “A Republica”, pág. 01.

23 – Ver O jornal “A Republica”, edição de 31 de agosto de 1934, pág. 01.

Conclusão

Lendo os jornais da época, bem como os relatórios oficiais, percebe-se que a enérgica ação por parte do governador Pedro Velho no problemas de São Miguel, alterou os métodos políticos da região. Mesmo sem maiores detalhes, as antigas fontes de pesquisa deixam claro que os coronéis buscaram se resguardar diante das autoridades, desfazendo os bandos de capangas e cangaceiros que gravitavam ao sabor dos cobres dos fazendeiros.

O caso de São Miguel é interessante de analisar, pois mostra que o principal governador potiguar do início do período republicano, aparentemente não aceitava tão facilmente à utilização de violências, armas e capangas por parte dos coronéis em suas demonstrações de poder e proteção. Neste caso em particular, como se observa pelo tom das notas existentes nas mensagens governamentais e nos jornais, nitidamente havia o repúdio quando estes poderosos do sertão utilizavam, como “mão de obra especializada”, o serviço de cangaceiros oriundos de outros estados.

De certa forma estes fatos ocorridos em São Miguel,  ajudam a explicar a razão do porque o fenômeno do cangaceirismo não proliferou tão fortemente no Rio Grande do Norte como em outros estados.

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MEU NOVO LIVRO – “JOÃO RUFINO – UM VISIONÁRIO DE FÉ”

Há quase dois anos, após o lançamento do meu primeiro livro “Os Cavaleiros dos Céus – A Saga do Voo de Ferrarin e Del Prete”, fui contatado sobre a possibilidade de desenvolver a biografia de um homem da cidade de São Miguel, no extremo oeste do Rio Grande do Norte. O mais interessante sobre ele foi que um dia ele teve um sonho e conseguiu realizá-lo.

Capa do nosso novo livro

O nome deste cidadão é João Alves de Lima, mais conhecido na sua região como João Rufino e seu sonho foi criar uma empresa com muita fé trabalho e luta, sempre tendo muita devoção a Deus.

A princípio, em 1959, o nome deste sonho foi “Café Nossa Senhora de Fátima, depois se transformou em “Café Santa Clara” e desde o início de 2010 passou a ser conhecido como 3Corações.

Para quem não sabe, hoje o Grupo 3Corações é tão somente a maior empresa de café do Brasil e um e das maiores neste ramo em todo o mundo. Escrever sobre João Rufino, este grande potiguar, é para mim um grande motivo de orgulho.

Tive o privilégio de conhecer um ser humano especial, que nasceu em uma região do Rio Grande do Norte tão pouco conhecida dos habitantes da capital e tão cheia de coisas positivas. Mesmo João Rufino tendo dado o pontapé inicial para a criação desta grande empresa, mesmo que este empreendimento tenha se desenvolvido em uma região onde não se encontram plantações de café, nem para serem fotografadas, este homem é basicamente lembrado e reconhecido em sua comunidade pela sua enorme capacidade de trabalhar, pelos seus gestos de bondade, pela sua religiosidade, sua caridade, pelo apoio aos necessitados, pela amizade, carinho pela natureza e, principalmente, pela enorme dedicação aos que o cercam.

Igreja matriz

Percebi que o fato de João Rufino nunca se gabar do que possui, do que construiu ou do que seus filhos desenvolveram é o que mais chama a atenção no povo da Serra de São Miguel em relação à sua pessoa, à sua família.

Para a gente do lugar, eles continuam a ser as mesmas pessoas.

Não mudaram, não alteraram seu comportamento nem a maneira de tratar a todos. João Rufino e seus familiares, apesar de todo o sucesso, de ganharem o mundo, continuam a ser simplesmente micaelenses.

E ser de São Miguel, do extremo oeste do Rio Grande do Norte, é ser diferente. Distante dos grandes centros de decisões regionais, fincado no alto de uma grande serra, o povo dessa região possui antes de tudo um forte sentido de independência, de muito orgulho do seu lugar, de suas origens, da beleza de sua terra e da sua força. Isso tudo é associado a uma grande valorização do sentido de honra, de dever cumprido, de gratidão e respeito.

Praça principal de São Miguel

Foi desta terra que veio João Rufino.

A sua vida de luta é um exemplo. Como poderemos conhecer em sua história, não faltaram coragem, determinação, força de vontade e perseverança para trabalhar e vencer.

Antes de tudo, seu maior desejo foi dar as melhores condições para que seus filhos tivessem um futuro melhor. Com exceção disso, praticamente tudo o que ele quis conquistar foi desapegado de ambição material.

João Rufino sempre teve a saudável pretensão de desenvolver um produto de qualidade. “Abençoado”, como ele diz. Um café que todos gostassem, que indicasse a sua vontade de acertar junto à sua comunidade, de se mostrar competente e ser reconhecido por isso. Era mais a motivação de proporcionar algo bom do que o simples desejo de desenvolver um produto para ter condições de “possuir”.

Essa sua falta de ambição pelos bens materiais levantou diversas críticas de concorrentes. Alguns chegaram até a lhe chamar de louco por distribuir parte do seu produto gratuitamente.

O que o povo da região não percebia era que o seu método estava à frente do seu tempo, se considerarmos as características comerciais do início da década de 1960, quando o caderninho com as contas dos clientes era a prática normal. Apesar disso, ele nunca se importou com a opinião dos outros e ainda realizava seu trabalho sempre dotado de muita fé.

Durante nossas pesquisas

Mesmo com o fato dos empreendimentos tocados pelos seus filhos estarem em um patamar que João Rufino nunca imaginou alcançar, ao visitar algumas das unidades fabris do atual Grupo 3 Corações percebe-se nitidamente que a mesma filosofia de trabalho criada por ele em 1959 é seguida até hoje pelos mais de 4.000 colaboradores da empresa.

Depois de muita pesquisa, muita estrada, muita gravação, muita digitação e muita satisfação pelo trabalho realizado, no próximo dia 23 de abril, feriado de sábado de aleluia, a cidade de São Miguel reviverá sua história de força e beleza registrada em imagens e palavras em um grande evento denominado “São Miguel, Minha Terra”.

Convite para o evento "São Miguel Minha Terra"

Às 19h, acontecerá o coquetel de lançamento do nosso livro “João Rufino, um visionário de fé”, com sessão de autógrafos. O livro conta com 270 fotos, em 382 páginas e conta com uma tiragem de 8.000 exemplares, impressos na Halley Gráfica e Editora, de Teresina, Piauí.

Sobre os trabalhos técnicos deste livro; a coordenação editorial é de José Correia Torres Neto e a revisão de textos de Kaline Sampaio de Araújo. O projeto gráfico e diagramação inicialmente foi de José Carlos Santos e depois assumido pela Promosell Comunicação da cidade de Fortaleza. Coube ainda a Promosell Comunicação a elaboração da capa (http://www.promosell.com.br/). Já o tratamento de imagens ficou a cargo do competente fotografo Cláudio Pedroso (http://claudiopedroso.fot.br/). Finalmente a consultoria editorial e gráfica ficou a cargo de Kelly Mota.

Após ocorrerá a abertura da Exposição Fotográfica “São Miguel, Minha Terra”. São mais de 300 fotos ilustrarão a história de São Miguel nesta exposição fotográfica. É um verdadeiro presente para a cidade. Inspirada no nosso livro “João Rufino, um visionário de fé”, a exposição exibe vários painéis de fotos restauradas; todas provenientes do acervo pessoal da família, de amigos e de historiadores. A exposição também estará aberta ao público durante o domingo, dia 24, das 10h às 22h.

Finalmente, para abrilhantar o evento, o grande amigo de São Miguel, o cantor Raimundo Fagner, fará um show na Praça de Shows Pedro Rufino a partir das 22h. Os micaelenses vão cantar juntos em homenagem à São Miguel e se emocionar com os versos do renomado artista. A página oficial deste cantor na web já informa sobre o show (Ver http://www.fagner.com.br/).

Durante a elaboração deste trabalho tive oportunidade de conhecer o quanto este ícone da Música Popular Brasileira gosta de São Miguel. Juntamente com José Gaudêncio Torquato, o cantor Raimundo Fagner é um dos prefaciadores deste livro.

O nosso biografado entre seus prefaciadores. Vemos Fagner, João Rufino e José Gaudêncio Torquato.

Para aqueles que lá estiverem vai ser uma grande celebração.

Como Pedro Lima coloca em relação ao seu pai João Rufino, “ele nunca perdeu a inocência nem a fé na vida e nas pessoas”.

Por esta e inúmeras outras razões, obrigado por ter tido a oportunidade de conhecê-lo e de ter tido a honra e o privilégio de escrever sobre sua vida.

Rostand Medeiros

Natal, 14/04/2011

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NESTE CABIAM SEIS PESSOAS

Propaganda do Buick 1941 no Brasil

Os Buick Sedan nunca foram capazes de competir em vendas contra os sedans das marcas Ford, Chevrolet e Plymouth, pois estes possuíam preço mais baixo. Mas neste ano a classe média americana apostou neste carro e mais de 350.000 foram vendidos nos limiares da Segunda Guerra Mundial.

O motorzão V8 tinha potencia para levar seis pessoas com conforto e tranquilidade. A linha 1941 Buick incluiu diversas melhorias de desempenho como a ideia de montar dois carburados em linha. Estes eram conectados por uma articulação progressiva, que permitia que um trabalhasse continuamente e o outro entrasse em ação apenas nas altas acelerações.

Modelo preservado na Alemanha

Afirma-se que com a saída dos militares norte americanos da grande base aérea de “Parnamirim Field”, eles deixaram alguns destes carros de primeira qualidade para serem vendidos por baixo preço. A maioria eram vendidos com a cor verde oliva e tinham uma estrela branca na porta.

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NATAL E SEUS INTELECTUAIS NA VISÃO DE MARIA EUGÊNIA CELSO

Autor – Rostand Medeiros

Ela tinha um nome prá lá de pomposo. Típico de quem pertencia a elite imperial brasileira. Filha de Conde, neta do Visconde de Ouro Preto, o mesmo que presidia o Gabinete Imperial quando da deposição do Imperador Pedro II, a mineira Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça foi uma mulher que marcou época muito mais pela sua poesia, do que pela sua genealogia.

Maria Eugênia Celso

De extrema sensibilidade poética, atualmente esquecida do grande público, Maria Eugênia Celso viveu grande parte de sua vida na imperial cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro.

Casada com um funcionário de carreira do Ministério da Fazenda, já mãe de dois filhos, iniciou carreira no jornalismo. Teve grande desenvoltura na imprensa carioca, onde publicava uma coluna diária no “Jornal do Brazil” e teve várias de suas poesias estampadas nas revistas “O Galo”, “Fon-Fon” e “Revista da Semana”, onde assinava com o pseudônimo de “Baby-Flirt”. Enveredou pelo rádio, onde desenvolveu e apresentou vários programas nas emissoras “Nacional”, “Sociedade” e “Jornal do Brazil”. Seu programa “Quartos de Hora Literária” marcou época em um país onde proporcionalmente se lia muito mais do que agora.

Maria Eugênia Celso era funcionária de carreira do Ministério da Educação e Cultura e participou ativamente do Movimento Feminista, em favor da emancipação política e social da mulher. Nesta luta ombreou junto com a cientista Bertha Lutz, grande líder feminista brasileira.

Sobre sua visita ao RN

Devemos recordar que em 1928, o Rio Grande do Norte foi o estado pioneiro na liberação do voto feminino, fato este que trouxe Bertha Lutz a Natal. Aqui ela proferiu palestras viajou pelo interior para apoiar a luta pela emancipação do voto feminino no estado. Certamente a ação de Bertha no Rio Grande do Norte, ajudou a Luíza Alzira Soriano Teixeira se tornar a primeira mulher a ocupar um cargo eletivo na América Latina. Em 1 de janeiro 1929 Alzira Soriano tomou posse como prefeita do município de Lages, obtendo 60% dos votos.

Posse de Alzira Soriano

Não sei se foi por conta deste contato com Bertha Lutz, que fez Maria Eugênia Celso vir a Natal em maio de 1930. Mulher literata e de fina cultura, na edição de 13 de junho de 1930, do jornal natalense “A Republica“, reproduzindo uma página do “Jornal do Brazil”, a autora de “Em pleno sonho”, “De relance” e “Vicentinho” (estes dois últimos publicados pela Editora Monteiro Lobato), faz um interessante relato de sua visita a capital potiguar e outras capitais do nordeste.

1ª edição de Vicentinho, em 1925

Se hoje um turista observa Natal principalmente pela ótica do mar (onde muitos pensam que a cidade se resume a Ponta Negra e Genipabu), naqueles tempos era o Rio Potengi a principal beleza natural que marcava a visão daqueles que vinha de fora. Isso talvez por ser no velho cais da Tavares de Lira que eles desembarcavam dos navios da “Companhia Nacional”, ou do “Lloyd”. Ou vai ver que Maria Eugênia Celso desembarcou na hora de um belo por do sol. Mas o certo é que ela se deslumbrou com “A deliciosa cidadezinha a beira rio”.

“A deliciosa cidadezinha a beira rio”

Chamou atenção da poetisa duas situações que, para época, eram sinônimos de modernidade e não passavam despercebidos aos olhos de pessoas de outras paragens; o plano geral de sistematização urbana, elaborado pelo arquiteto italiano Giacomo Palumbo e o trânsito de aviões estrangeiros pela cidade. Para Eugênia a topografia, as ruas largas, arborizadas, e o ir e vir dos roncos dos motores aéreos era um extraordinário elemento de progresso, “Digna capital da terra das asas”.

Campo de Parnamirim

Sua “introdutora diplomática” sobre as coisas do Rio Grande do Norte foi Palmyra Wanderley, que Maria Eugênia Celso chamou de “a moça mais popular e querida do Nordeste”. Mas a poetisa de Petrópolis teve oportunidade de se entrosar mais fortemente com o clã dos Wanderley, onde figuravam outros proeminentes intelectuais da província. Maria Eugênia Celso participou de momentos literários e entusiasticamente aplaudiu as declamações de Carolina e Jayme Wanderley.

Mas seus elogios a Palmyra são enormes. Para ela, a potiguar era uma digna representante da intelectualidade feminina do Nordeste, onde a igualava a várias poetisas e autoras, entre estas uma adolescente cearense chamada Raquel de Queiroz, que possuía em suas letras “um saborosíssimo cunho regional”.

Raquel de Queiroz

Além de Palmyra, certamente a poetisa teve como cicerone o então governador Juvenal Lamartine, ou então alguém ligado ao seu governo, pois fez uma visita ao Aeroclube do Rio Grande do Norte. No local conheceu seus aeroplanos, o instrutor Djalma Petit e os alunos da escola de aviação. Naquele mesmo mês de maio de 1930, no dia 28, um dos alunos que estiveram junto a poetisa morreria em um acidente aéreo. (Ver https://tokdehistoria.wordpress.com/2011/03/13/edgar-dantas-o-primeiro-civil-a-morrer-pilotando-um-aviao-no-brasil/)

Em um tempo onde viajar era uma descoberta e, descobertas não se fazem as carreiras, em nossa terra Maria Eugênia Celso passou doze encantadores dias.

Ao longo dos anos a poetisa se dedicou fortemente ao assistencialismo junto a várias entidades.

Pela sua luta junto à causa da adoção do voto feminino no Brasil, em 1931 foi nomeada representante do nosso governo no II Congresso Internacional Feminista . Um ano depois o país adotava o voto para as mulheres.

Maria Eugênia Celso faleceu em 1963.

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MASSACRES NO RIO GRANDE DO NORTE – JÁ VIMOS ESSE TIPO DE DESGRAÇA

Autor – Rostand Medeiros

Diante da terrível tragédia ocorrida na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, na manhã desta última quinta-feira, quando aquele ex-aluno invadiu o prédio e matou 11 jovens, passei a me questionar, como milhões de brasileiros, a razão deste massacre.

Massacre do Realengo

O negócio foi tão sério, que até nossa forte presidenta extravasou sua emoção e chorou em público. Como pai, senti um forte aperto no coração pelos pais das vítimas do massacre do Rio.

Dilma chora pelos jovens mortos no Rio

Em meio a estes pensamentos, me lembrei de que o Rio Grande do Norte deve ser o único estado brasileiro que possui um feriado (comemorado em 3 de outubro), onde se relembra as vítimas de dois massacres ocorridos durante a ocupação holandesa desta parte do país.

Mas outros fatos tenebrosos ocorreram na terra potiguar e não faz muito tempo.

O Terror em uma Fazenda de Cruzeta

Amigos e amigas, eu confesso que pelejei, pelejei, mas não consegui chegar a saber o ano que aconteceu o fato que vou narrar. Mas acredito que este triste episódio se desenrolou entre o final da década de 1960 e o início da década seguinte.

No Sítio Margarida, localizado a poucos quilômetros da cidade potiguar de Cruzeta (220 km de Natal), por volta das três da manhã, o agricultor José Emídio se levantou para ordenhar algumas vacas.

Enquanto isso na sua casa um dos seus cinco filhos, que acredito ter sido o mais novo, chorava pedindo para mamar.

Emídio teria dito a sua mulher que realizasse o desejo da criancinha. Mas Severina Maria da Conceição, provavelmente impaciente, respondeu imprudentemente que “-Deixasse chorar, pois o filho não é seu”.

Os mortos e o assassino de Cruzeta

Aparentemente calado como estava, calado Emídio ficou. Remoeu o ódio da traição dentro do peito e tomou uma decisão fatídica.

Foi à cozinha, pegou um facão amolado e, sem maiores considerações, gritarias, ou choradeiras típicas de quem é traído, matou todo mundo que estava dentro da simples vivenda.

Consta que José Emídio desconfiava que fosse traído pela esposa. Na sua concepção de homem “macho”, a afirmativa de Severina selou sua vida e de seus filhos.

Além de Severina, a crueldade de José Emídio deixou sem vida Manoel, Josenir, Francisco, Josileide e Josemar. Este último era o mais velho, tinha oito anos e ainda foi socorrido com vida para o hospital da cidade de Currais Novos, aonde veio a falecer. No total foram seis pessoas eliminadas.

O cordel sobre o caso

Segundo o cantador “Craúna do Norte”, autor do cordel “O Bárbaro Acontecimento das Mortes em Cruzeta”, assim ocorreu o enterro;

Oh que cena comovente

Em lembrar os funerais

Um caixão grande na frente

E cinco pequenos atrás

Reinava um certo mistério

Em rumo ao cemitério

Morada do desengano

E a multidão que seguia

Quem visse não choraria

Só se fosse desumano

A princípio José Emídio quis negar a polícia, mas depois confessou tudo.

Não tenho maiores informações sobre este caso.

O Monstro de Capim Macio

Corria o ano de 1975. Eu não tinha nem dez anos de idade e até mesmo pelo meu então curto tempo de vida, eu não poderia saber maiores detalhes.

Mas me lembro do clima de medo e de surpresa que se instalou entre meus familiares e de como eu ia dormir assustado com as histórias do “Monstro de Capim Macio”. Esta figura era, no meu pensamento de criança, um ser enorme, demoníaco, que poderia chegar a qualquer momento e me levar da casa dos meus pais.

Área de Ponta Negra, década de 1970, próximo a Capim Macio

No dia 8 de agosto, na área de Capim Macio, então um lugar onde ainda se encontravam granjas, havia uma propriedade que pertencia a uma professora alemã chamada Ruth Carolina Marta Loomam. Ela morava com sua mãe Alexe Flena Maria Reymann, de 60 anos, com suas duas filhas, Carla, de 13 anos e Anthonieta, de 11 anos e ainda a empregada doméstica de nome Ana Lídia, então com 14 anos, e que estava grávida.

E havia o caseiro. Ele se chamava José Vilarim Neto, com 25 anos, sendo descrito como um homem baixo, moreno, taciturno, mas prestativo e considerado um bom ajudante de serviços pesados.

Nesta noite, por motivos até hoje desconhecidos, Vilarin adentrou a casa e começou uma orgia de sangue. Matou as pequenas Carla e Anthonieta, a avó e a empregada Ana Lídia. Para realizar sua crueldade, ele utilizou um rifle calibre 22. Consta que teria praticado necrofilia com uma das meninas.

Segundo a reportagem do jornal Diário de Pernambuco, de 8 de maio de 1980, feito isso Vilarin foi ao quintal da casa e cavou um grande buraco, onde pretendia colocar os corpos. Mas a professora chegou com sua filha mais nova, Astrid. Vilarin tentou matar a dona da granja, desferindo dois disparos que lhe atingiram o maxilar e o ombro.

Mesmo ferida, a professora Ruth partiu para cima de Vilarim e, com mais força física, conseguiu desarmar o assassino, entrou na casa, se trancou e ele fugiu.

Ruth e Astrid buscaram ajuda e foram encaminhadas para o Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel.

Vilarim passou a ser caçado. A capital potiguar estava estupefata com a crueldade do evento e ele passou a ser denominado como “O Monstro de Capim Macio”.

Dias depois Vilarim foi capturado em uma granja próximo a Macaíba. Depois de algemado não explicou o motivo para a matança, não falava coisa com coisa e parecia desnorteado. Os jornais deram muitas páginas para este assunto e Natal ficou aliviada com a captura da “fera”.

Foi uma chacina sem precedentes na história policial da capital potiguar. Segundo o jornal Diário de Natal, na edição de domingo, 10 de agosto de 1975, Vilarim não era mais o caseiro de Ruth. Mas o jornal não aponta se o fato de Vilarin não ser mais funcionário da professora seria uma possível razão para ele ter cometido os nefastos crimes.

Quase cinco anos depois Vilarin sentou no banco dos réus, sendo acusado da prática de quatro homicídios, necrofilia e lesão corporal.

Capim Macio na atualidade

Depois de 12 horas no plenário do júri, “O Monstro de Capim Macio”, então com 29 anos de idade, foi condenado a 132 anos de prisão e mais 2 anos de medida de segurança. Consta que esta foi a maior sentença já aplicada na história da justiça criminal do Rio Grande do Norte.

O jornal pernambucano anteriormente citado informa que Vilarim ouviu sua sentença na maior indiferença e não comentou nada com os jornalistas.

Vilarin e Capim Macio (atualmente uma área superpovoada), foram durante muito tempo nomes que evocavam terror e medo.

Não tenho ideia do que ocorreu com as sobreviventes deste trágico episódio e nem com o “Monstro”.

Noite de Terror na Periferia de Natal

Da mesma forma como ocorreu em Cruzeta, seria uma boataria que ascenderia o estopim de uma noite de sangue em 1997.

Ele era um rapaz de baixa estatura, de complexão forte, que vivia em Santo Antônio dos Barreiros (hoje conhecida como Santo Antônio do Potengi). Um tranquilo distrito da cidade de São Gonçalo do Amarante, a 11 quilômetros de Natal.

“Neguinho de Zé Ferreira”

Seu nome era Genildo Ferreira de França, mais conhecido como “Neguinho de Zé Ferreira”. Consta que em 1990 Genildo serviu o Exército, salvo engano no Batalhão de Engenharia de Natal, onde se destacou e recebeu prêmios pela sua perícia como atirador. Afirma-se que devido a este período passado no meio militar, Genildo tinha uma grande idolatria por armas de fogo e militaria.

Considerado um bom rapaz, era casado e tido como um exemplar pai de família. Após sair do Exército montou um barzinho utilizando um dos cômodos de sua casa.

Neste meio tempo sofreu uma grande decepção, quando seu primeiro filho morreu atropelado.

Não sei se foi devido a este fato, mas logo ele se separou da primeira mulher. Contudo existe uma certeza por parte daqueles que o conheceram que, após estes acontecimentos negativos, Genildo passou a apresentar sutis sinais de perturbação. Entre estes, comentava que um dia iria se vingar do motorista atropelador.

O templo católico do lugar

Para muitos ele ainda tentou dar um rumo na sua vida. Casou pela segunda vez com Mônica Carlos de França.

Mas o casamento não deu certo. Havia muita briga e ele agredia a nova mulher constantemente. Em certo momento Genildo afirmou que Mônica, para tentar forçar uma separação, dizia a amigos que teria flagrado o marido na cama com um homem. Ele culpava os parentes de sua mulher, que estariam espalhando a acusação que ele era homossexual e assim apressar a separação do casal. Logo a boataria correu solta na pequena comunidade de 5.000 habitantes e Genildo era apontado na rua.

Estava montado o palco da desgraça.

Genildo começa a planejar tudo em detalhes, onde desejava exterminar pelo menos 20 pessoas.

Muito do que ele ganhava em seu comércio servia para comprar armas e munições. Logo era dono de um revólver da marca Rossi, calibre 38, niquelado e equipado com um potente silenciador. Além desta arma, ele tinha uma pistola da marca Taurus, no calibre 7,65 m.m. e muita munição.

Revólver 38 e silenciador

Na noite de 21 para o dia 22 de maio de 1997, Genildo começou a sua vingança.

Antes de começar a matança encontrou Francisco de Assis Ramos dos Santos, e uma adolescente chamada Valdenice e os obrigou a acompanhá-lo em vários crimes.

A primeira vítima foi a esposa Mônica, que levou três balaços. Por causa do silenciador instalado no cano do revólver, ninguém na comunidade ouviu nada e a matança continuou.

Chamou o taxista Francisco Marques Carneiro, com a desculpa de realizar um trajeto até Natal. Em um local afastado matou o motorista e passou a utilizar o veículo para praticar várias mortes. Segundo Valdenice houve farto consumo de maconha durante os assassinatos.

Maquiavélico, Genildo utilizou de vários artifícios para atrair suas vítimas. Em um disse que era para realizar algum serviço. Em outro foi um convite para beber. Teve ainda o chamado para uma farra em um cabaré. Consta que perto de amanhecer o dia ele dispensou os pretextos e entrava nas casas atirando sem piedade. Ao matar o trabalhador rural Edilson Nascimento, disse aos gritos que o fazia para mostrar que não era homossexual.

Existe uma versão que durante a noite ele parou certo cidadão e colocou a arma na sua cabeça, mas ao reconhecê-lo o dispensou. Afirmou que não lhe matava “- Pois ele não lhe havia caluniado”.

Na época a imprensa comentou que em meio a selvagem matança, uma guarnição da Polícia Militar foi chamada para prestar socorro a uma das vítimas. Logo houve o encontro dos policiais com Genildo e este não titubeou, matou o sargento comandante da viatura, feriu um dos policiais e se apossou de uma submetralhadora modelo PM-12. Em relação a este caso existem controvérsias. Para alguns o sargento estaria de folga e foi no local saber o que acontecia, armado com um revólver e em trajes civis e foi morto. Para outros ele estaria em uma parada de ônibus e foi morto. Independente da versão, aparentemente foi com a morte do sargento que a notícia chegou a capital e outros policiais foram deslocados para a região.

Conforme o dia amanhecia, a polícia ia tomando conhecimento da dimensão da tragédia que se desenrolava, na medida que encontrava mais corpos. Logo a imprensa acordava Natal com a notícia do massacre.

Recordo-me perfeitamente de estar naquela manhã no bairro da Ribeira, em Natal, resolvendo alguma coisa. Dentro do meu carro escutava tranquilamente alguma rádio FM. Quando estava parado em um semáforo, percebi que o motorista do lado estava visivelmente impressionado com algo que estava sendo transmitido no seu rádio. Ele percebeu que eu lhe observava e me perguntou se eu estava ouvindo “-O que acontecia em São Gonçalo?”. Eu disse que não e ele me falou para sintonizar na faixa AM.

Quase não pude acreditar o que era transmitido pelo meu surrado “Roadstar Cara Preta”, através do plantão policial da extinta Rádio Cabugi.

Na área do massacre, em certo momento Genildo passou a levar como refém a sua própria filha, Gislaine, de apenas cinco anos.

Creio que por volta das nove da manhã, depois de 12 horas de mortandades, o cerco apertou e os policiais encurralaram Genildo na empresa Cerâmica Potengi. Sem saída ele mandou que Valdenice fugisse com sua filha. Depois teria dado um tiro no próprio peito. Para as autoridades ele foi morto pela ação policial.

Assim terminou um dia de fúria, com um total de 15 mortos.

Velório de duas das vítimas de Genildo

A tragédia se transformou em um grande espetáculo da mídia e diferentes razões para a ação de Genildo foram levantadas pelos jornalistas e especialistas. Igual como ocorre atualmente no caso da escola do Rio.

Até mesmo um documentário sobre o massacre em Santo Antônio do Potengi foi criado. Dirigido pelos potiguares Mary Land Brito e Fábio DeSilva, “Sangue do Barro” fez parte da consagrada série Doc Tv.

Os que conhecem a mente humana afirmam que nunca se sabe onde outro psicopata pode aparecer e realizar suas ações maléficas.

Esperemos que daqui prá frente isso seja coisa do passado.

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