LOTERIAS – UMA VELHA PRÁTICA

Li em um site uma situação interessante; “Por toda parte do mundo onde existem cidades com populações grandes o bastante para suportar uma cadeia ou um tribunal, tem também uma casa lotérica”.

Realmente as loterias estão aí fazendo parte do nosso dia a dia a muito tempo, como mostram estes cartazes da década de 1930.

Para quem não joga nada (meu caso), as casas lotéricas são sinônimos de pagamento de todo tipo de conta e muitas vezes só escuto falar destes locais quando bandidos entram armados de 38 e praticam assaltos. Mas, como agora é moda em Natal, logo vão começar a explodir estes ambientes.

Eu não sabia, mas formas primitivas de sorteios existiam entre muitos povos antigos, entretanto foi no ano de 1538, na França, que o governo promoveu sorteios e concursos em prol de cofres públicos.

No nosso país a primeira loteria foi criada em Minas Gerais em 1784 e rapidamente as loterias se disseminaram. O governo colonial e, depois da independência, o nosso império, concediam o direito de realização de sua exploração preferencialmente às Santas Casas, aos orfanatos e aos hospitais para evitar abusos, mas também a particulares.

Somente depois de sessenta anos de criação da primeira loteria no país, foi promulgado pelo imperador D. Pedro II, o decreto nº 357, de 27 de Abril de 1844, que regulamentou o funcionamento desta atividade.

No século XX as loterias se aperfeiçoaram e grande parte da administração desta atividade era feita por particulares, selecionados por concorrência pública e o prazo de duração da concessão era normalmente de cinco anos.

Esta situação perdurou até 1961, quando o então presidente Jânio Quadros, que de besta não tinha nada, determinou que apenas e tão somente o Governo da União seria o único a legislar sobre o sistema de sorteios e a Caixa Econômica Federal ficou designada como exploradora exclusiva das loterias.

Recentemente a loteria da Caixa completou 40 anos. Dizem que ela se tornou uma importante fonte de recursos para programas sociais e assistenciais do governo federal, mas nunca conheci ninguém que me disse que fiscalizou isso, ou viu a cor deste dinheiro.

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1903 – O FIM DE UM COCO DE ZAMBÊ NA PRAÇA PEDRO VELHO?

Onde hoje está instalado o Colégio da Imaculada Conceição, na Av. Deodoro da Fonseca, número 540, no atual bairro da Cidade Alta, era o fim das residências da Natal dos primeiros anos do século XX. Uma cidade que contava nesta época com apenas dezesseis mil habitantes.

De onde está localizado o tradicional colégio da elite natalense, em direção ao mar e as dunas mais altas, tudo era mato, área sem maiores atrativos para uma parte da população. Havia algumas picadas que levavam as casa dos pescadores nas Praias do Morcego e de Areia Preta. Esta região era então conhecida como Belo Monte, Belmonte, ou simplesmente Monte.

Área da Praça Pedro Velho-Fonte-Livro 380 anos de história foto-gráfica da cidade de Natal 1599-1979

Câmara Cascudo, no seu livro “História da Cidade de Natal” (1999, pág. 351), informa que nesta época ainda havia gente caçando aos domingos.

Os mais abastados da cidade, buscando outros ares, se dirigiram para esta área, onde construíram suas chácaras para descanso e veraneio. Estas propriedades tinham nomes diferenciados, tais como “Betânia”, “Solidão”, “Senegal”, “Pretória”, “Covadonga”, “Quinta dos Cajuais” e outros.

Um destes proprietários era o ex-governador e líder político Pedro Velho, que denominava a região como Cidade Nova e sonhava com a expansão de Natal nesta direção.

A Cidade Nova

Quem realmente deu o pontapé inicial para o crescimento desta região foi o então Presidente do Conselho de Intendência Municipal, cargo atualmente equivalente ao de prefeito, Joaquim Manoel de Teixeira Moura.

Chamada de uma das muitas resoluções publicadas pela Intendência de Natal nos primeiros anos do século XX

Através da Resolução número 55, publicada no dia 30 de dezembro de 1901, o bairro de Cidade Nova foi criado, ao menos no papel, sendo este o terceiro da cidade. No livro “Nova história de Natal” (2008, pág. 383), do professor Itamar de Souza mostra que nesta resolução, no bairro de Cidade Nova, existiriam quatro avenidas, cortadas por seis ruas e duas praças, sendo uma delas a Praça Pedro Velho.

Área da Praça Pedro Velho-Fonte-Livro 380 anos de história foto-gráfica da cidade de Natal 1599-1979

Segundo o documento, no seu inciso segundo, havia terrenos que poderiam ser dados em concessão, mas que não podiam passar de trinta metros de frente.

O problema era que na nova área de expansão da elite natalense, que vivia o auge da sua “Belle Epoque”, já existiam moradores. Eram os representantes das camadas sociais mais pobres da cidade. Gente que havia fugido das secas no interior e estavam na “periferia”, nos ”matos do Belo Monte”, talvez para não se misturar com o que Natal tinha de “bom”, seja lá o que fosse.

Para a região eram levados os excluídos de Natal. Pessoas que sofriam de doenças como varíola e só contavam com a ajuda do quase santo Padre João Maria para sobreviver.

Mas a cidade precisava crescer. Cabia a maior autoridade municipal seguir nos planos e os “mocambos”, “casinholas” e “ranchos” teriam de sair.

O Fim de um “Samba”

O jornal “A Republica” da época, órgão oficial do governo estadual, que neste período estava nas mãos de Alberto Frederico de Albuquerque Maranhão, muito pouco divulgou do drama que ocorreu na região. Mas aqui e acolá é possível perceber que a coisa não foi tão simples.

Naquele longínquo ano, a Praça Pedro Velho era um grande espaço aberto, muito maior do que conhecemos atualmente. Praticamente sem nenhuma estrutura e ainda existiam casas humildes na área destinada ao espaço público.

Na edição de 8 de julho de 1903, uma quarta feira, temos uma notícia sobre um “samba” na Praça Pedro Velho.

Jornal “A Republica”, edição de 8 de julho de 1903

Em uma das casas que, segundo o jornal, era “um casebre em ruínas” e “uma ameaça a segurança e higiene públicas”, se reuniu de “sábado até a manhã do dia 3 de julho”, uma “súcia de vadios”, que promoveram um “samba”, com “gritos infernais”.

Afirma a nota que o problema não era novo e o local era utilizado para “Práticas imorais”.

Se o tal “samba” já vinha perturbando anteriormente, não consegui apurar, mas a nota do dia 8 solicita, em uma linguagem incisiva, que os seus usuários “deveriam respeitar o ato da Intendência Municipal”.

Não consegui apurar o que ocorreu com este local nas páginas do jornal.

Mas Afinal de Contas o que Seria esse Local de “Práticas imorais”?

Uma coisa é certa, a área comentada no jornal, não tinha nenhuma relação com o ritmo musical que tanto sucesso faz no carnaval do Rio de Janeiro.

O termo utilizado por “A Republica”, muito comum nas páginas deste periódico, era como normalmente a elite designava um lugar onde pessoas, normalmente pobres e negras, se divertiam na provinciana Natal do início do século XX. O tal “Samba” seria um baile de gente simples, equivalente a uma função, um pagode, arrasta-pé, ou um forrobodó.

Mas cruzando esta nota de 8 de julho de 1903, com os textos contidos no livro “O Ritual Umbandista”, de autoria de Renato Sérgio Santiago de Melo e publicado em 1973, encontramos uma interessante informação.

Na sua página 16, lemos que nas “Campinas do Camboim”, local atualmente situado na região da Rua Professor Fontes Galvão (a mesma que se inicia defronte ao portão principal do Colégio Marista, no bairro do Tirol), morava um preto velho, antigo escravo, nascido na África, conhecido como Paulo Africano.

Segundo Sérgio Santiago, através de informações conseguidas com a neta de Paulo Africano, Alzira de Oliveira, encontrada pelo pesquisador no início da década de 1970 e vivendo no Bairro de Lagoa Seca, seu avô tinha uma casa onde se dançava o mais puro Coco de Zambê.

O nome deste homem era Paulo José de Oliveira, sendo considerado “bem quisto” e “bom pai de família”. O livro afirma que Paulo Africano havia se identificado tanto com o Coco de Zambê, a ponto de fazer desta manifestação cultural “uma espécie de religião”.

Sérgio Santiago informa que seu próprio sogro, Lupicínio Ramos, morador do Bairro da Ribeira, fazia questão de ir com alguns amigos, sempre aos sábados, para assistir o Zambê que acontecia na casa de Mestre Paulo.

Apesar do Coco de Zambê apresentado na casa de Paulo Africano ser tido pela sociedade local como uma festa, era na verdade uma manifestação do sincretismo afro-brasileiro, distorcida pela ação policial que existia.

Para o autor de “O Ritual Umbandista”, o Coco de Zambê era uma dança africana de significação religiosa. Esta tese foi originalmente proposta pelo médico alagoano e antropólogo Arthur Ramos de Araújo Pereira.

Conclusão

Sabendo a localização aproximada da vivenda de Mestre Paulo e tendo o conhecimento que a mesma estava a menos de um quilômetro da região da Praça Pedro Velho, é possível deduzir que o tal “Samba” ameaçado pelo poder público não seria de Paulo Africano?

Se não, então de quem seria?

E o que era tocado neste “casebre em ruínas”, tão depreciado na nota de “A Republica” de 8 de julho de 1903? Seria mais um local de apresentação do tradicional Coco de Zambê?

Coco de Zambê. Na atualidade esta dança praticamente não é mais executada em Natal

O motivo da perseguição do “Samba” da Praça Pedro Velho, era a música ou a religiosidade afro-brasileira?

Não temos as respostas, mas neste artigo vemos como naquela época a necessidade de espaço, exigido pela elite de Natal, fez com que as classes menos providas de recursos fossem “empurradas” de suas áreas tradicionais, sem o devido respeito, nem as suas tradições e manifestações culturais.

Ainda segundo o livro do professor Itamar de Souza, no relatório que Joaquim Manoel Teixeira de Moura apresentou ao Conselho Municipal em 1905, afirmou que “perto de trezentas casinholas e ranchos foram indenizados e removidos do trajeto das ruas do referido bairro”.

Mas as arbitrariedades praticadas contra a população pobre da Cidade Nova foram tantas, que o ferrenho oposicionista do governo da época, o jornalista Elias Souto, rebatizou a região como “Cidade das Lágrimas”.

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1918 – QUANDO A GRIPE ESPANHOLA ATACOU NATAL

Em 1918, a pequena Natal seguia sua vida tranquila, em meio a um mundo que há quatro anos se esmagava em uma guerra com um nível de crueldade até então nunca testemunhado.

Os natalenses acompanhavam a Primeira Guerra Mundial através dos jornais locais, que traziam cotidianamente notícias dos combates, histórias pitorescas de soldados e da incrível ação das novas armas como os aviões e os submarinos. Apesar do natalense ler sobre o conflito, este se mantinha distante, sem alterar o dia a dia da cidade.

Esta sensação foi alterada quando navios brasileiros foram torpedeados por submarinos alemães e o país declarou guerra a este país em 26 de outubro de 1917.

Em todo país cresce o ufanismo e o orgulho de participar da “Grande Guerra”. O presidente Wenceslau Brás decide compor uma frota de navios da marinha de guerra, para ajudar no esforço dos aliados.

Somente sete meses depois, em maio de 1918, parte do Rio de Janeiro a pomposa frota naval, batizada de DNOG (Divisão Naval de Operações de Guerra). Em julho, esta frota composta de oito navios aporta no rio Potengi e a cidade se encanta com o aparato militar. Teve recepção, missa campal e até hino de Palmyra Wanderley para os combatentes que iam para além mar, foi declamado.

Hino de Palmyra Wanderley aos membros da DNOG.

Após a partida da DNOG em direção à África, os quase 29.000 habitantes da capital voltam ao seu ritmo tradicional e tranquilo.

Pouca gente prestou a mínima atenção quando o jornal “A Republica” publicou na sua edição de terça-feira, 24 de setembro de 1918, uma pequena nota intitulada “Influenza”. Esta dava conta que o ministro do exterior, Nilo Peçanha, havia recebido a notícia que vários marinheiros da DNOG morreram em conseqüência da “influenza” ou “gripe espanhola”.

A Primeira Morte

Após a primeira notícia, começam a chegar novas informações que deixavam claro que uma epidemia estava crescendo pelo mundo afora, tornando-se o que a ciência classifica de pandemia, uma doença em escala global.

No Rio de Janeiro, ainda na segunda quinzena de setembro de 1918, após a chegada de navios de carreira, com passageiros infectados, começam a ocorrer às primeiras mortes no país.

Ação da Gripe espanhola em larga escala

Logo depois, em 30 de setembro, “A Republica” informa que havia diversos casos da “influenza” em Recife, então a doença começa a ser mais destacada nos jornais da nossa capital. Estes reproduziam não medidas profiláticas, ou algum tipo de preparação para enfrentar a doença, mas informes de autoridades médicas, que buscavam amenizar os efeitos da gripe, classificando-a de uma “gripe comum”.

De forma geral a imprensa local não anunciava com mais ênfase o alastramento da gripe espanhola, noticiava-se com mais destaque o início do primeiro campeonato potiguar de “Foot boll”.

Mas gradativamente a situação vai mudando.

Quem lê os jornais do período, percebe como aos poucos a gripe espanhola entra no cotidiano da população de Natal. Praticamente de uma hora para outra surgem nas páginas de anúncios dos jornais inúmeras propagandas de remédios, tais como a “Kolyohimbina”, “Puritol”, ou o “Balsamo Philantropico”, que prometiam a “cura milagrosa contra o mal espanhol”.

Jornal "A Republica", 8 de outubro de 1918

Aparentemente, a primeira morte em decorrência da gripe espanhola ocorrida em Natal foi a do comerciante cearense Mozart Barroso, a bordo do navio “Pará”, que estava ancorado no porto da cidade. O jornal “A Republica”, na edição de 15 de outubro, informa que o falecimento ocorreu devido a uma “moléstia” contraída em Recife, vindo a falecer o comerciante em decorrência da viagem.

Se Mozart Barroso morreu ou não da gripe espanhola, os jornais não esclarecem. Entretanto, quatro dias depois, o respeitado médico Januário Cicco escreve em “A Republica”, uma coluna visando “auxiliar na defesa da saúde publica contra a epidemia de gripe ou influenza espanhola, que celeremente se disseminou por toda parte”.

O Dr. Januário recomendava então o uso da “quinina”, informando ter distribuído pelas farmácias da cidade, comprimidos deste produto. Este médico solicitava que “os poderes competentes”, ordenassem aos funcionários da Inspetoria de Higiene que fossem visitar as “choupanas dos mais pobres, distribuindo quinina, aconselhando a melhorar os aspectos de higiene, escolher uma alimentação sadia, beber água de procedência e evitar aglomerações”.

Enquanto isso chegava notícias que no Rio de Janeiro, a 19 de outubro, fora decretado um feriado de cinco dias de duração, na tentativa de se evitar aglomerações e o pânico. Em 21 de outubro morreria o primeiro doente na cidade de São Paulo. Até dezembro de 1918, entre 12.000 a 17.000 pessoas, morreriam na então capital federal e entre 5.400 e 12.300 sucumbiriam em São Paulo.

Nem é preciso dizer que o primeiro campeonato de futebol do estado do Rio Grande do Norte foi adiado.

O Medo se Propaga

Em meio à apreensão causada pelo alastramento da gripe, o comércio se adequava como podia a triste novidade. A farmácia Torres anunciava que por 1$800 (um mil e oitocentos réis) era vendido um preservativo que poderia ser utilizado no ato sexual, mesmo em meio ao surto de gripe, “prevenindo pessoas que dele fazem uso com vantagem”. Para outras atividades a situação era mais complicada; a fábrica de gelo da Força e Luz, a única da cidade, parou suas atividades durante a ocorrência do surto.

Surgem boatos que os soldados do 40º Batalhão de Caçadores, a unidade do exército brasileiro existente em Natal na época, teriam contraído a doença em larga escala, mas estes boatos não tinham fundamento.

Medicação vendida pelo comerciante Manuel Machado.

Percebe-se pelos jornais que setores da sociedade passam a cobrar dos órgãos governamentais uma maior atenção com as questões de higiene pública, onde surgem cobranças para a extinção de lamaçais existentes nas ruas da cidade, ou contra o abate de animais em residências, além da providência de se enterrar com urgência as carcaças. A 23 de outubro, a diretoria do Colégio da Conceição decidiu encerrar o ano letivo, “sem entrega de diplomas e sem festas”, devido à “epidemia”.

Conforme o medo do alastramento da doença crescia, medidas profiláticas eram recomendadas, com algumas ações que pareciam saídas de algum tratado de bruxaria; lavagens intestinais com água morna, chá de pimenta d’água com duas gotas de glicerina, ou tomar um vidro de magnésia fluida, com vinte gotas de “briônia” e dez gotas de “tintura de beladona”.

Outro medicamento popular na época

O interior não se mostrava imune aos efeitos da pandemia, de Areia Branca vinha à notícia que a gripe havia atacado a cidade. De Nova Cruz, Mario Manso, o Presidente da Intendência (cargo que atualmente equivale ao de prefeito), informava que se recuperava da gripe. Já o Intendente de Mossoró, Jerônimo Rosado, informava que 38 pessoas morreram na cidade.

As Ações do Governo

O governo estadual não se pronunciava sobre a crise. Apenas em 1º de novembro, o então governador potiguar, Ferreira Chaves, anuncia através do jornal “A Republica”, que estava “agindo para acudir a pobreza desta cidade”, organizando na escola “Frei Miguelinho” uma comissão de apoio, que visava fornecer alimentação aos necessitados no bairro.

Este trabalho estava sob a direção do diretor da Inspetoria de Higiene, o Doutor Calistrato Carrilho, com a participação do professor Luís Soares, então diretor da escola “Frei Miguelinho”, do padre Fernando Nolte, do Dr. Antônio Soares, do tenente João Bandeira e do Senhor Laurentino de Moraes, contando com o apoio dos escoteiros. Desta comissão o governo criou então um Posto de Assistência do Alecrim, onde trabalhavam os médicos Varela Santiago e Marcio Lyra. A missão do Posto era fornecer remédios, alimentos e até mesmo querosene para iluminação.

Informativo publicado em jornais de Natal

Em meio aos carcomidos exemplares que restam dos antigos jornais natalenses na atualidade, chama a atenção um aviso publicado, pela Inspetoria de Higiene, no início de dezembro de 1918, intitulado “A influenza espanhola, conselhos ao povo”, onde entre outras coisas, solicitava “evitar aglomerações, não fazer visitas, evitar toda fadiga e excesso físico”.

Um indício de como estava à situação no bairro do Alecrim é apontada pela própria comissão, que em média atendia a um número superior de 350 pessoas por dia. Escoteiros percorreram diversas ruas do bairro, para entregar alimentos e remédios nas casas dos que não tinham sequer condições de se deslocarem para o colégio “Frei Miguelinho”.

As ações então cresciam; no bairro das Rocas, as “Damas de Caridade”, grupo ligado a Igreja Católica, atuavam neste bairro no apoio principalmente às famílias dos pescadores. De barco seguiu para as praias de Muriú e Maracajaú, o farmacêutico da Inspetoria de Higiene, Floriano Pimentel, com vários medicamentos. Os cinemas Royal e Polytheama, que estavam sem exibições cinematográficas desde outubro, foram rigorosamente desinfetados.

Outra notícia, sem detalhes estatísticos ou maiores referências, da conta que o governador Ferreira Chaves buscava atender, com as mirradas condições do tesouro estadual, os inúmeros pedidos das cidades e vilas do interior para o combate a pandemia.

As Mortes

Apesar da assistência oferecida, o número de mortos crescia na cidade. Discretamente, nas notas diárias dos jornais, surgem diversas notas de falecimentos, atribuindo abertamente a gripe espanhola à causa da morte de diversas pessoas, envolvendo principalmente representantes das classes menos abastardas da cidade.

São inúmeros os informes, tais como o do funcionário da Estrada de Ferro Central, José Calazans Carneiro, que perdeu dois filhos menores de idade. Já o capitão da polícia, Abdon Trigueiro, informava a morte do seu irmão, o sargento da polícia Othoniel Trigueiro. Ou o falecimento de Alfredo Costa, serralheiro da Ferrovia Great Western, que deixou numerosa família e a comerciário da empresa A. dos Reis & Cia., Miguel Medeiros, que morreu nas dependências do hospital Juvino Barreto e foi enterrado no cemitério do Alecrim.

Médicos visitando áreas carentes. Foto-Manuel Dantas.

Sem maiores dados é temerário afirmar se a classe mais abastarda da cidade na época, foi ou não atingida diretamente pela pandemia de gripe espanhola. Entretanto, entre os inúmeros necrológicos publicados no período temos os casos de falecimento do desembargador Vicente Simões Pereira de Lemos, ou do comerciante Alexandre de Vasconcelos, ou do professor Tertuliano da Costa Pinheiro. Contudo, em nenhum dos necrológicos das pessoas mais bem posicionadas socialmente, não consta à mínima referência que a causa de alguma destas mortes tenha sido atribuída à gripe espanhola.

É na tradicional mensagem ao Congresso Legislativo do estado, lida no dia 1 de novembro de 1919, que o governador Ferreira Chaves deixa transparecer que a gripe espanhola deixou marcas em todas as camadas sociais de Natal. Ele afirma que a pandemia, “mesmo não sendo tão mortífera como em outros lugares, roubou-nos muitas vidas preciosas e pesou cruelmente sobre todas as classes da sociedade”.

O Fim do Pesadelo. Ou Não?

No mês de dezembro de 1918, da mesma forma abrupta que este pesadelo chegou a Natal, ele estava deixando a nossa terra.

No dia 11 de dezembro, a Inspetoria de Higiene considerava praticamente extinta o surto de gripe espanhola em Natal.

Do interior do Rio Grande do Norte chegam notícias do declínio dos surtosclinio  noto surto de gripe espanhola em Natal. De Lajes, o Intendente Felix Teixeira informava o recuo da doença e agradecia o apoio do governador Ferreira Chaves.

Hospital da Caridade Juvino Barreto, o principal de Natal em 1918

No dia 15 de dezembro o governo decidiu encerrar as atividades do Posto de Assistência do Alecrim, o principal da cidade. Ao final houve homenagens, festas e comemorações para a Inspetoria de Higiene, aos que trabalharam e mantiveram ativo o Posto de Assistência do Alecrim e aos escoteiros, sendo todos recebidos com honras pelo mandatário estadual no palácio do governo.

Segundo informou o professor Luís Soares, em trinta dias de atividades, o Posto atendeu nada menos que 10.814 pessoas. Os escoteiros visitaram neste período 169 casas, atendendo 135 doentes que não puderam nem mesmo se deslocar para o local de assistência.

Infelizmente os jornais da época não explicam com maiores detalhes estes dados estatísticos. Não sabemos se destas 10.814 pessoas, todas estavam doentes, ou o grau de virulência a que foram submetidos e, principalmente, em nenhuma linha é divulgado quantos morreram neste período. Em Natal se repetiu o mesmo que ocorreu em outras partes do país; as autoridades deliberadamente escamotearam os dados sobre a doença.

Para uma cidade onde a população girava em torno de 29.000 pessoas, um surto epidêmico que leva ao atendimento de 10.814, mostra a dimensão do problema que foi a gripe espanhola. Para efeito de comparação, segundo o Censo 2007, o número de habitantes de Natal neste período, equivale atualmente à cidade de João Câmara.

Se, aparentemente, o número de mortos desta pandemia em Natal e no Rio Grande do Norte não foi tão grande, qual fator teria ajudado aos potiguares em relação a outras áreas do Mundo? Seriam os ventos que sopram no litoral, ou o clima seco do sertão?

O certo é que tivemos muita sorte, pois a gripe espanhola ceifou mais de 20 milhões de pessoas em todo planeta. Proporcionalmente na história da humanidade, nada foi mais terrível que esta pandemia. Este número é superior a soma de todos os soldados mortos em combate durante a Primeira e Segunda Guerra Mundial, Guerra da Coréia e Guerra do Vietnã.

O medo do H1N1 em 2009

Quando atualmente os brasileiros ainda morrem de febre amarela, dengue, ou malária, percebemos que o pesadelo não acabou. O quadro é ainda pior quando pelo mundo afora, aves migratórias transportam entre as fronteiras o vírus da chamada “H1N1”, parente próxima do vírus da gripe espanhola de 1918.

Assim percebemos que a questão não é saber se vai haver ou não outra pandemia, mas quando?

-P.S. – Em um recente e preocupante artigo publicado no site do MIT – Massachusetts Institute of Technology, intitulado “Keeping an eye on H1N1” (Mantendo um olho sobre o H1N1), mostra que a problemática do vírus H1N1 não está de forma alguma encerrada e novos desdobramentos podem ocorrer.

Link – http://web.mit.edu/newsoffice/2011/h1n1-mutation-0309.html

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A PRIMEIRA VISITA DE UM PRESIDENTE AMERICANO AO BRASIL

Autor – Rostand Medeiros

Em meio à badalada visita de Barak Obama ao nosso país, o Jornal Globo News ao realizar uma reportagem sobre o histórico de visitas de presidentes americanos ao Brasil, divulgou em seu site a seguinte nota; “Confira o histórico de visitas de presidentes americanos ao Brasil – O primeiro encontro entre um presidente americano e brasileiro aconteceu em 1943 e foi protagonizado por Getúlio Vargas e Franklin Roosevelt. Barack Obama é o nono presidente dos Estados Unidos a desembarcar no Brasil.”

Mas vários sites informam que a primeira visita oficial de um presidente dos Estados Unidos ao Brasil ocorreu em 1928. Informam que o presidente era , do partido republicano. O então presidente brasileiro era Washington Luís, que recebeu o americano e sua família no Rio de Janeiro.

Herbert Clark Hoover

O site da revista Exame, da Editora Abril, assim aponta este fato; “O primeiro presidente norte-americano a visitar o Brasil foi Herbert Hoover. Ele esteve no país em dezembro de 1928, na condição de presidente recém-empossado. O objetivo era conhecer melhor o país e apresentar-se como o novo governante da nação mais importante do mundo”. (http://exame.abril.com.br/economia/brasil/noticias/obama-e-o-10o-presidente-dos-eua-a-visitar-o-brasil?p=10).

Realmente Herbert Hoover veio ao Brasil em 1928, mas na condição de presidente eleito e não de recém-empossado, fato que só ocorreu no dia 29 de março de 1929, quando ele leu o juramento na Casa Branca. Até o jornal “A Republica”, da pequena Natal deu informações detalhadas desta histórica visita, como vocês podem ver adiante nas manchetes do dia 28 de dezembro de 1928. Mas afinal, presidente eleito é presidente de fato, ou não? Em minha opinião não. Até onde sei eleito é uma coisa, empossado é outra.

Mas certo é que Franklin Delano Roosevelt foi o primeiro presidente empossado a visitar o Brasil. Mas não em 1943, mas em 1936. Foi quando este seguia a Buenos Aires e realizou uma parada no Rio, tendo jantado com Getúlio Vargas e discursado no Congresso.

A cidade de Natal, palco da segunda visita deste mesmo presidente norte americano, assistiu um encontro com um grau de importância muito maior.

1943-Roosevelt e Vargas em Natal

O fato ocorreu no dia 28 de janeiro de 1943. O então ditador brasileiro, Getúlio Vargas e o presidente Franklin Delano Roosevelt participaram do que ficou conhecido como “Conferência de Natal”.

Embora curta esta visita foi de enorme importância, onde ocorreram acordos que resultaram, entre outras ações, na criação da FEB-Força Expedicionária Brasileira e no envio destas tropas para o teatro de operações na Itália.

O link da íntegra da reportagem da Globo News é o que segue – http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1463053-7823-CONFIRA+O+HISTORICO+DE+VISITAS+DE+PRESIDENTES+AMERICANOS+AO+BRASIL,00.html

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ERA BONITO, MAS MUITO ARROCHADO

O modelo do Volkswagen Karmann Ghia foi o primeiro modelo de veículo da fábrica alemã do pós Segunda Guerra Mundial, a ter linhas mais esportivas. Surgiu de uma ideia do alemão Wilhelm Karmann, que possuía uma firma de carrocerias na cidade de Osnabrück, Alemanha.

Karmann já havia trabalhado com a Volkswagen, em uma parceria que gerou o Fusca conversível. O sucesso deste empreendimento fez este empreendedor vislumbrar a criação de um veículo com desenho mais esportivo, mas que utilizasse o mesmo chassi e motor do Fusca. Para dar o toque de mestre o alemão procurou o consagrado estúdio italiano de design Ghia. Nascia um mito.

Em agosto de 1955 rodava o primeiro Karmann Ghia na Europa. O carro era produzido pela Karmann, desenhado pela Ghia, sendo comercializado pela Volkswagen, que fornecia as peças principais e assistência técnica.

O carro era feito a mão e possuía um acabamento esmerado. Em compensação custava relativamente caro, apertado e com teto baixo para o padrão do alemão comum. Mas vendeu feito doce em porta de colégio e isso era o que importava.

O primeiro Karmann Ghia produzido no Brasil foi em 1962 e agradou o gosto nacional.

A motorização inicial era fornecida pelo fraco motor VW 1.200, que mal fazia o carrinho chegar a 110 km/h. Depois ele foi equipado com o motor VW 1.500 e ele já chegava a mais de 130 km/h. Em 1970 os Karmann Ghia receberam um motor mais respeitável, o VW 1.600, que fazia o carro chegar a 140 km/h.

Fonte-www.santosplast.com.br

Mesmo com a colocação de freios a disco na dianteira, rodas de quatro furos com novas calotas, novos para-choques, quebra-ventos nas portas, a Volkswagen decidiu encerrar a produção em 1972.

Em dez anos de contínua produção, foi fabricado um número superior a 23.000 unidades do Karmann Ghia no Brasil. Destes, menos de 200 unidades eram do modelo conversível, uma raridade muito valorizada entre colecionadores.

Fonte-www.santosplast.com.br

Segundo ouvi falar, na Natal dos anos do final da década de 1960 e início de 1970, quando o melhor local para se namorar dentro de um carro na cidade era na Avenida Café Filho, junto à beira-mar, o Karmann Ghia chamou muito a atenção pelo desenho. Mas na hora do “vamos ver”, ele não emplacou porque era muito arrochado e a diversão era sofrida..

Certamente que a largura dos bancos traseiros de um Ford Gálaxie fazia muita diferença.

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KHL – IR DE NATAL PARA A EUROPA EM ALTO ESTILO

Natal hoje tem voo internacional para a Europa, o que é uma maravilha. Mesmo este voo não alcançando muitas cidades do velho continente, ninguém discute a enorme vantagem de se pegar um avião Airbus ou Boeing, jatos de alto padrão de segurança e conforto, para depois desembarcar em oito ou dez horas no seu destino. Às vezes é necessário sair de Natal e “descer” para Recife, Salvador, São Paulo, pegar uma conexão e atravessar o Atlântico. Dá um pouco mais de trabalho, mas se chega com enormes vantagens.

Não se pode desprezar a evolução das coisas, mas nada impede dar uma olhada no passado, para saber como nas primeiras décadas do século XX  um abonado natalense seguia para a Europa. Esta pessoa poderia até pegar algum barco de carga em Natal e se virar com o que houvesse. Mas o melhor era seguir para Recife, onde navios de grandes empresas de navegação e as melhores rotas, estavam disponíveis.

Propaganda do Lloyd Holandês publicada em Natal no ano de 1914.

No passado, os navios de passageiros brasileiros, os conhecidos navios de “Linha”, ou “Paquetes de Cabotagem”, pertencentes principalmente a Companhia Costeira e do Lloyd Brasileiro, serviam como o principal elo entre as capitais localizadas na costa do Brasil e os rios da região amazônica. Quem daqui seguia para a escala em Recife, pegava um destes barcos e na capital pernambucana fazia uma transferência para navios que impressionavam pelo tamanho, qualidade, conforto e detalhes.

Propaganda da KHL.

Uma destas empresas que ligavam a região Nordeste com a Europa, era conhecida como Lloyd Holandês, ou Koninklijke Hollandsche Lloyd, que tinha a sigla KHL. Esta empresa era representada em Recife pelo pernambucano de descendência holandesa Julius von Sohsten, que tinha fortes ligações com o Rio Grande do Norte, já tendo possuido na nossa cidade uma casa de comércio no bairro da Ribeira.

A KHL foi fundada em 1899, destinada a levar gado e outras mercadorias entre Amsterdam e a América do Sul, principalmente a Argentina. Devido à proliferação da febre aftosa no vizinho platino, a empresa passou a trabalhar com transporte de passageiros e carga. Seus navios levavam desde passageiros de alto poder financeiro, a pobres imigrantes desejosos de tentar uma nova vida no hemisfério sul.

Restaurante de um dos navios da KHL.

Viajar de navio, com a brisa soprando, a paisagem mudando como um filme, era uma situação bem interessante. Mas as viagens eram bem demoradas, bem ao estilo da velocidade em que o mundo vivia na época.Naqueles tempos a quantidade de passageiros transportadas dentro de um navio destes mal chegavam a 1.500 pessoas. As naves eram decoradas com extremo luxo e bom gosto, tinha em seus salões obras de artistas famosos e muito requinte.

Cabine de passageiros.

A empresa KHL chegou a criar em Amsterdam um local de hospedagem exclusivo para seus passageiros, e não apenas os mais ricos utilizavam este serviço. Este era o Lloyd Hotel, que foi concluído em 1921 e que custou oito vezes mais do que o planejado.

Lloyd Hotel na atualidade. Amsterdan, Holanda.

De certa forma este hotel foi utilizado como alojamento temporário para imigrantes, cuja a maioria era formada por judeus pobres da Europa Oriental, que fugiam de perseguições tanto na Alemanha, como na União Soviética. Estas naves partiam em média a cada vinte dias da Holanda e, enquanto aguardavam o momento do embarque, os passageiros ficavam no hotel.

Entre os navios da KHL, que faziam a escala de Recife, estavam o SS Frisia, o SS Gelria, o SS Zaanland e o SS Tubantia.

SS Zaanland

O SS Zaanland tinha 7.995 toneladas de peso, quase 135 metros de comprimento, foi lançado em 1910 e continuou em serviço na KHL até março de 1918. Durante a Primeira Guerra Mundial os norte-americanos o arrendaram e ele foi transformado em transporte de tropas. Voltou a servir a KHL até 1935.

SS Frisia

O SS Frisia tinha um porte de 7.400 toneladas, divididos em quase 130 metros de comprimento, com uma velocidade de até 13 nós e transportava 1.000 passageiros. Foi construído em 1909 e sua viagem inaugural começou em Amsterdan, depois seguiu para Boulogne, Plymouth, La Coruña, Lisboa, Las Palmas, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Santos e Montevidéu.

SS Gelria

Já o SS Gelria foi construído em 1913, deslocando 13.868 toneladas de porte bruto, em um comprimento de 170 metros. Tinha alojamentos para quase 1.500 pessoas. Foi vendido em 1935 a uma empresa italiana e foi utilizado como navio transporte de tropas na guerra da Abissínia e, ocasionalmente, como um navio hospital. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele foi tomada pelos alemães quando a Itália se rendeu e usado como um navio-hospital. Acabou sendo capturado por um submarino britânico em 1944 e levado para Alexandria, no Egito.

SS Tubantia

Mas de todos estes navio que aportavam no Nordeste, o que teve a pior sorte foi o SS Tubantia. Era uma nave  com dimensões e características semelhantes ao SS Gelria. Foi lançado ao mar em 1913, mas na madrugada do dia 16 de março de 1915,  na costa holandesa,  foi atingido por torpedos do submarino alemão UB-13 e afundou. Três navios responderam aos pedidos de socorro e todos a bordo foram salvos. Durante a Primeira Guerra Mundial a Holanda ficou neutra e seu serviço de transporte de passageiros e carga continuou, mas não para este navio. Foi a maior nave de um país neutro torpedeada e destruida neste conflito.

Capa de um prospecto, utilizado nos navio da KHL.

Devido às consequências do conhecido crash da bolsa de Nova York, em 1929, associada ao alto custo do Hotel Royal, fez com que a KHL fechasse suas portas e uma nova empresa de navegação foi criada.

Rotas da KHL

Não tenho maiores dados relativo a frequência com que os membros da sociedade potiguar utilizavam estes navios em viagens a Europa. Mas é normal vermos notas nos antigos jornais natalenses, onde pessoas da elite local faziam questão de anunciar que partiam, ou retornavam da Europa em naves da KHL.

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POR QUE NÃO RECONSTRUIR A CAPELINHA DOS REIS MAGOS?

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Durante mais de dez anos de trabalho como Guia de Turismo em Natal, tive inúmeras oportunidades de levar turistas brasileiros e estrangeiros para visitar as belezas da nossa cidade.

Forte dos Reis Magos, por Frans Post.

Na Fortaleza dos Reis Magos, o mais importante sítio histórico colonial de todo o Rio Grande do Norte, adoro percorrer o interior deste local verdadeiramente mágico. Como Guia de Turismo, é normal dar um tempo para que os turistas possam descansar, tomar uma água de coco e retomar a caminhada na passarela, normalmente debaixo de um sol bem forte, pegar algum veículo e sair conhecendo a “Cidade do Sol”, que um dia já foi conhecida como “Capital Espacial do Brasil”.

Nestes momentos em que os turistas relaxavam, eu aproveitava para descansar nos alicerces da velha Capelinha dos Reis Magos e, sabendo de sua história, ficava várias vezes me perguntando o porquê de não reconstruírem este interessante local histórico?

Fachada da Capelinha dos Reis Magos em ruínas.

Segundo os iluminares que narraram a história desta terra, que esquece tão rápido de seu passado, a antiga Capelinha dos Reis Magos foi oficialmente o primeiro lugar dedicado a Deus e local inicialmente santificado pela oração cristã em todo o Rio Grande do Norte.

Esta foto é de João Alves de Melo e foi feita em alguma data da primeira metade do século XX.

Em uma crônica antiga, Mestre Cascudo acreditava que a Capelinha dos Reis Magos foi construída junto com a Fortaleza dos Reis, onde seus defensores deveriam adorar primitivos oragos dos três reis, que certamente foram destruídos durante a invasão dos batavos.

Novamente recorremos a Câmara Cascudo (in “História da Cidade do Natal”, 1999, págs. 106 e 107) que mostra várias descrições deste sítio sagrado, feitas por cronistas do século XVII e aponta que a mesma foi destruída na derrota dos holandeses. Depois o local foi reconstruído e em 1755 recebeu as imagens dos três Reis Magos, um regalo de El Rei D. José, que atualmente se encontram na igreja de Santos Reis, onde são celebrados a cada dia 6 de janeiro, um dos feriados oficiais da capital potiguar.

Esta foto é provavelmente da década de 1960 e mostra a destruição do local.

Cascudo narra que até 1910, a população de Natal invadia a Capelinha cantando e orando o dia inteiro. Os fiéis disputavam a água salobra da cacimba existente no interior do antigo templo.

Bom, com tanta história creio que valeria a pena reconstruir o local.

O que resta atualmente.

Pelas fotos antigas que mostram o templo em ruínas, mesmo com baixa nitidez, creio que o trabalho para reerguer o antigo templo não seria nenhum sério problema.  Já pelas fotos modernas aqui apresentadas, vemos que a área de construção é muito pequena. Como não sou restaurador e a parte técnica não é do meu conhecimento, me resguardo de maiores comentários, mas até mesmo visualmente dá para ver que não precisaria de tanto dinheiro para reconstruir o local.

O velho alicerce virou um “banco de praça”.

Bom, mais aí tem a “burrocracia”, pois o lugar é “tombado”, tem que seguir este padrão “assim e assado”.

Mas a Capela de Cunhaú foi reerguida e foi um trabalho comparativamente bem maior.

Como natalense, sei que aquele velho forte, baluarte de criação da minha cidade, poderia ser muito melhor utilizado com ideias simples e práticas.

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