A PITORESCA VIOLÊNCIA DA VELHA NATAL

Autor – Rostand Medeiros

Nos dias atuais, sem sombra de dúvidas, o crescimento da violência em Natal é uma dos principais motivos de preocupação dos seus habitantes. Todos os dias ocorrem sucessões de atos de violência, que de tão comuns, já nem chamam mais a nossa atenção. O medo passou a ser parte da rotina diária do cidadão natalense, que necessita viver na condição de prisioneiro em seu próprio lar.

Fonte:http://www.natalpress.com.br

São muros altos, cercas elétricas, vigilância 24 horas e todo um aparato que mostra as faces de um “progresso” do crime que ninguém desejaria que ocorresse. Isto tudo não é novidade e com o crescimento da cidade, as perspectivas não são nada positivas.

Vivendo na cidade e padecendo das mesmas preocupações, decidi pesquisar e conhecer como nossos antepassados, em diferentes momentos da história de Natal, viam a violência urbana.

Evidente que o pesquisador que procurar informações sobre este assunto, através das informações existentes nos jornais natalenses editados entre as décadas de 1890 e 1930, vai encontrar toda uma condição social, econômica, cultural, populacional, que não admite a mínima comparação com nosso tempo atual. Mas não deixa de ser interessante ver o que mais chamava a atenção da crônica policial da época.

O Roubo de 107 Contos de Réis

Naqueles calmos tempos a vida na pequena Natal era muito tranquila, mas isto não significa dizer que a violência não existia. Os crimes de agressões não eram incomuns, mas chamavam a atenção principalmente quando havia a motivação política e envolviam pessoas abonadas. Mais raros eram os crimes de morte, sejam motivados por vinganças, ou a chamada “defesa da honra”, eram notícias para muitos dias. Era principalmente o arrombamento, o furto, a “gatunagem”, o “lance”, ou o chamado “descuido” que mais causavam furor na população e nas autoridades policiais.

O grande acontecimento policial do início do século XX

Na antiga crônica policial, mais precisamente em junho de 1913, houve o caso de uma dupla de arrombadores estrangeiros que agiram na cidade que foi muito comentado na época. O alemão Henrique Brunner e o mexicano Emilio Zaneti chegaram à cidade, se hospedaram no Hotel Internacional, na Avenida Tavares de Lyra e de lá saiam tranquilamente pelas ruas, conhecendo os recantos e transmitindo muita simpatia na sua língua arrevesada. Diziam serem comerciantes, onde buscavam fazer amizades para abrir um negócio na cidade. Entre os novos amigos, os gringos travaram contato com Olivar Von Sohsten, caixa da casa comercial de Julius Von Sohsten, uma das maiores da cidade na época. Os meliantes descobriram onde o funcionário morava e na noite de 10 de junho entraram na sua casa e furtaram as chaves da casa comercial. A firma ficava na Rua do Comércio (atual Rua Chile), onde a dupla agiu tranquilamente.

Pela manhã foi descoberto o roubo de 107 contos de réis, uma verdadeira fortuna para época. A cidade parou, uma multidão esteve na casa comercial, até mesmo o governador Alberto Maranhão foi ao local. O Chefe de Polícia, Joaquim Soares Raposo da Câmara, juntamente com a participação do tenente João Fernandes de Almeida, conhecido como “Joca do Pará” iniciou as investigações. “Joca do Pará”, uma verdadeira lenda dentro da PM potiguar, logo pôs os olhos sobre os estrangeiros. Utilizando paciência e astúcia, conseguiu pegar o rastro dos meliantes que, apertados pelo policial, confessaram o roubo. Segundo os jornais, depois de retirarem o dinheiro, os dois ladrões foram para a “floresta negra do Monte Petrópolis”, então um local ermo e pouco habitado, onde enterraram a fortuna em um vaso de ágata. Brunner e Zaneti já eram fugitivos da polícia do Rio de Janeiro, onde aplicaram o mesmo tipo de golpe. “Joca do Pará” possuía uma determinação que granjeou respeito dos seus comandados, onde galgou o posto de capitão e chegou a comandar o esquadrão de cavalaria da polícia.

Apesar de todo o empenho da polícia, em novembro do mesmo ano Brunner e Zaneti fugiram da penitenciária de Petrópolis, mas foram capturados três dias depois nas matas das “Quintas”, por dois caçadores, que rapidamente se tornaram os heróis da cidade.

Articulista de “A Republica”, na edição de 12 de novembro de 1913, comenta a impressão que causou o retorno destes dois marginais a penitenciária. Os dois estrangeiros caminharam desde as “Quintas”, acompanhados de uma escolta policial e uma grande multidão. Eles seguiam amarrados, de cabeça baixa, com chapéus de palha, roupas de algodão grosseiro e alpercatas de couro, o traje dos prisioneiros na época. Considerados de “extremo perigo”, a sua recaptura causou alívio na cidade.

O caso destes dois estrangeiros é um exemplo raro para quem pesquisa os boletins da Chefatura de Polícia, que eram publicados diariamente nos jornais naquele período. Normalmente a passagem de estrangeiros e forasteiros não criavam muitos problemas para os habitantes da cidade.

O Astucioso “Pedro Gato”

Na maioria das vezes, eram os filhos da terra que produziam as notícias de maior impacto no meio policial. Durante certo tempo, o “terror da cidade” era um arrombador que tinha a alcunha de “Pedro Gato” e foi uma verdadeira sensação na sua época. Seu verdadeiro nome era Pedro Ignácio, consta ter nascido em Natal, morava nas Rocas, era filho de pescador, tendo ficado famoso pela astúcia e esperteza como adentrava nas casas das pessoas mais abonadas e deixava a toda a cidade sobressaltada. Era também conhecido como “Pedro Melado”, pois se dizia que escapava das frestas das casas como se estivesse “bezuntado de mel”. A ação de crimes de “Pedro Gato” foi desbaratada em 1916 pelo mesmo “Joca do Pará”, infatigável e competente nas suas funções.

As ações de Pedro Gato nos jornais

Após a captura de “Pedro Gato” este foi condenado a 10 anos de prisão e a história deste criminoso parecia ter um final. Contudo a sua carreira não havia chegado ao fim. Segundo o jornal “A Notícia”, de 16 de julho de 1921, “Pedro Gato”, mesmo estando detido na penitenciária, havia voltado às velhas práticas. Com a conivência de um sargento, um soldado e um carcereiro, “Pedro Gato” saia na calada da noite e agia com a mesma “qualidade no serviço”. Infelizmente este tipo de coisa ainda acontece.

Desta vez, entre as casas visitadas pelo meliante, estava a do comerciante Francisco Cascudo, pai do folclorista Câmara Cascudo, que teve subtraído de sua residência um relógio de ouro. Outra residência assaltada foi a do engenheiro Eduardo Parisot, então chefe do distrito de Obras Contra as Secas. O jornal comenta que durante seu depoimento ao delegado, chamou a atenção o “cinismo revoltante” como “Pedro Gato” respondia as perguntas e o teor das declarações que incriminaram os seus cúmplices.

Se atualmente uma minoria de maus policiais se aproveita do corporativismo imprudente para agir erradamente, naquele tempo os jornais mostram outra realidade.

Diante das declarações de “Pedro Gato”, chama a atenção à ação enérgica do então Chefe de Polícia na época, Sebastião Fernandes de Oliveira, que ordenou a abertura de inquéritos e apuração rigorosa dos fatos. Algum tempo depois os jornais apontam que os militares foram expulsos da polícia e o carcereiro sumariamente demitido.

Os Ladrões que Foram Presos Roubando a Casa do Delegado

Para minha surpresa, diante do que vivemos nos dias atuais, as antigas notícias da ação dos meliantes e seus atos de violência em Natal chegam a ser hilárias de tão simplórias.

Em 1932 ouve um caso que chama a atenção pelo ridículo de como dois marginais foram descobertos e a polícia conseguiu debelar uma série de furtos e roubos praticados na calada da noite. Segundo a edição de “A Republica”, de 3 de agosto, dois dias antes, Manoel Pereira de Lima, o perigoso “Manoel Jucá”, acompanhado do “célebre Manoel Belo”, foram presos ao adentrarem uma residência para roubá-la.

O problema era que a casa pertencia ao tenente Abílio Campos, então delegado do 1º distrito policial da cidade. O tenente Abílio reagiu atirando na dupla, que escapuliu. O militar então passa a persegui-los junto com a patrulha noturna e conseguem capturá-los às seis da manhã no Passo da Pátria. “Manoel Jucá” reagiu à prisão e acabou hospitalizado no Jovino Barreto, o hospital de referência da época.

O interessante é que a nossa cidade tinha pouco mais de 45.000 habitantes e apenas cinco bairros. Mesmo assim, os dois “gatunos” foram justamente roubar a casa do delegado.

Nesta foto, mesmo sem confirmação, estaria o aspecto típico do uniforme do policial militar na década de 1930 no Rio Grande do Norte. Muito marcial, mas de eficiência duvidosa.

Nesta mesma reportagem, entre os objetos utilizados pela dupla para seus “trabalhos”, não vemos materiais que seriam típicos de arrombadores, mas uma lista que parece mais servir para o ofício de um marceneiro. Constam entre outros um serrote, uma plaina, três chaves de fenda, uma talhadeira e uma marreta. Neste caso fica a pergunta; como é que esta dupla adentrava nas casas dos natalenses, utilizavam este “maquinário” e saiam sem serem ouvidos?

Outro ponto que chama a atenção no caso destes dois “perigosos ladrões”, como o jornal os definia, foi à relação de produtos encontrados com a amásia de “Manoel Jucá”. Estavam listados muitas roupas, oito baralhos, onze aparelhos de barbear, duas “cuecas de bramante”, um guarda-chuva, uma escova de dente e outras tantas quinquilharias. De objetos de luxo e dinheiro, apenas dois relógios, duas correntes de ouro e 25$600 (vinte e cinco mil e seiscentos réis).

Em seus esclarecimentos, os marginais comentaram ao tenente Abílio que revendiam todos os objetos aos que “viviam na pobreza”, não faltando fregueses. Deve-se lembrar de quem em 1932 o Brasil vivia uma acentuada crise política, econômica e social, onde esta “perigosa” dupla, ao buscar roubar coisas que hoje são básicas e baratas para o nosso tempo, aparentemente “abastecia” uma determinada parcela da sociedade de Natal, que vivia em um acentuado estado de pobreza.

Ao se estudar estes aspectos da história da nossa cidade, se abre o leque de conhecimento sobre a realidade daquele período.

Entretanto, diante da violência que vivemos hoje em dia, estas histórias do passado mostram como não deveríamos ter “evoluído” neste sentido.

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A PRIMEIRA ELEITORA DO SERIDÓ POTIGUAR

O ano de 1927 seria marcante, extremamente interessante na história potiguar. Em meio à chegada de primitivos aviões que atravessavam o Atlântico, a passagem de Lampião e seus cangaceiros atacando Mossoró, ocorria em nosso estado uma forte campanha para ser concedido legalmente o direito das mulheres terem o direito ao sufrágio universal, fato este que tornaria estas mulheres às primeiras eleitoras a votar no Brasil e na América do Sul.

Nos final dos anos 20 do século passado, crescia fortemente no país a idéia do voto feminino, mas estas idéias não alcançavam a devida atenção das classes dominantes.

Bertha Maria Júlia Lutz

As mulheres partiam para a luta, com a criação de entidades de apoio à causa do sufrágio feminino, uma destas entidades era a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, que através da sua Presidente, a cientista brasileira Bertha Maria Júlia Lutz, buscava deputados federais que apoiassem a criação de um projeto de lei dando vez ao voto das mulheres.

A Luta pelo Voto Feminino

No Senado Federal, o senador potiguar Juvenal Lamartine de Faria apoiava a intenção à idéia do voto feminino, mas encontrava pouco apoio dos seus pares. Quando este deputado, membro da elite dominante da política potiguar entre os anos de 1910 e 1930, teve o seu nome apontado para a sucessão de José Augusto Bezerra de Medeiros, já pleiteava pioneiramente em seu programa de governo, lançado em 9 de abril de 1927, a idéia das mulheres terem o direito a votar e serem votadas em território potiguar.

Ainda em 1926, estava sendo revista à lei eleitoral do Rio Grande do Norte, quando a redação final estava quase pronta, Juvenal Lamartine manda um telegrama do Rio de Janeiro mandando acrescentar um artigo que abria uma real possibilidade para a efetivação do voto feminino.

Oficialmente, em 27 de outubro de 1925, era sancionada a lei nº 660 que “Regula o Serviço Eleitoral do Estado”, onde no artigo 77 das Disposições Gerais estava escrito “No Rio Grande do Norte poderão votar e ser votados, SEM DISTINÇÃO DE SEXO, todos os cidadãos que reunirem condições segundo a lei”. A lei foi sancionada pelo Governador José Augusto e referendada pelo então Secretário Geral, Anfilóquio Carlos Soares da Câmara.

Em poucos dias esta lei repercutia fortemente na Capital Federal, mais precisamente na Câmara dos Deputados, provocando acalorados debates, onde os deputados potiguares, principalmente Dioclécio Duarte, defendiam a iniciativa. Em pouco tempo na notícia corria todo o Mundo, sendo aclamado em vários jornais feministas.

Para votar, as mulheres necessitariam ser maior de 21 anos, ter uma profissão que lhes garantisse renda, não ser analfabeta, nem estar vivendo na mendicância e não ser religiosa com voto de obediência.

Os jornais potiguares todos os dias traziam novas notícias sobre os debates em relação ao voto feminino em várias partes de país.

As Primeiras Eleitoras

Com a vigência da lei, logo algumas mulheres buscaram o seu alistamento e começou uma espécie de corrida para saber quem seria a primeira.

Celina Guimarães Vianna

Coube a Mossoró a honra de ter a primeira mulher oficialmente alistada e a primeira a receber um título eleitoral na América do Sul. Coube a professora Celina Guimarães Vianna, com 29 anos, que teve seu alistamento eleitoral publicado no Diário Oficial, em 25 de novembro 1927. A jovem professora foi notícia em todo Brasil e teve seu nome registrado em vários jornais pelo Mundo afora.

Logo depois, na Argentina, mais precisamente na província de Santa Fé, movimento igual ao ocorrido em terras potiguares se repetiria, tornando a nação platina à segunda no continente a sufragar o direito do voto feminino.

Mas voltando ao Rio Grande do Norte, no dia 29 de novembro de 1927, Beatriz Leite de Morais, também de Mossoró, teria a publicação do seu alistamento estampada no Diário Oficial e se tornaria segunda eleitora inscrita.

Júlia Alvs e o juiz Montenegro

Em Natal, a professora Julia Alves Barbosa requereu seu alistamento no dia 24 de novembro, mas entre o parecer do juiz eleitoral da capital, J. Manuel Xavier Montenegro e a publicação no Diário Oficial, em 1 de dezembro, transcorreram nove dias e a eleitora da capital se tornava a terceira se alistar corretamente.

As congratulações do políticos a primeira eleitora de Natal

Enquanto isto no Seridó, mais precisamente em Acari, a professora Marta Maria de Medeiros, de 24 anos, nascida e morando na Fazenda Rajada, filha do fazendeiro e coronel nomeado da Guarda Nacional Joaquim Paulino de Medeiros e da senhora Maria Florentina de Medeiros (conhecida como Dona Maricota), buscava junto ao Juiz da cidade, João Francisco Dantas Sales, o seu alistamento eleitoral, pois preenchia todas as condições para a inscrição. O Dr. Sales era irmão do também juiz Celso Dantas Sales, pai dos Cadeais Dom Eugênio de Araújo Sales e Dom Heitor Sales.

Marta Maria de Medeiros

A decisão do juiz Sales, ante o pedido da professora, foi publicada oficialmente no dia 10 de dezembro de 1927, tornando-a a quarta eleitora do Rio Grande do Norte e a primeira da região do Seridó.

Vitória

Em um documento pontuado por diversas razões de ordem histórica para argumentar sua decisão, o juiz aponta que “Não há motivo para se recusar à mulher o direito a voto. A história de todos os povos e de épocas, lida atenciosamente encerra em cada página a eloqüência de um vulto feminino. A mulher foi sempre à inspiradora do homem: teve sempre uma influência incontestável nos assuntos políticos e sociais”. (Mais adiante neste artigo temos a íntegra da decisão do juiz Sales, mantida na grafia original).

Mas este seria apenas a primeira batalha, faltava a votação. Esta viria a ocorrer quase quatro meses depois, na vaga aberta para o Senado Federal, com a eleição de Juvenal Lamartine para Governador. Era o momento das mulheres sufragarem seu direito.

Grupo de eleitoras. Marta Medeiros seria a primeira que está sentada, a esquerda do grupo. Foto da revista "A Cigarra"

O candidato único ao Senado, como era praxe naquele período de eleições com uma conotação partidária distinta, foi o ex-governador José Augusto. Era na prática, uma troca entre correligionários.

Independente do sistema eleitoral em vigor neste período, no dia 5 de abril de 1928, das vinte eleitoras inscritas em todo Rio Grande do Norte, quinze exerceram pela primeira vez no Brasil o direito do sufrágio político.

Julia Medeiros votando em Caicó

Tempos depois Marta Medeiros teve a oportunidade de conhecer Bertha Lutz, quando a mesma visitou o interior do Rio Grande do Norte e recebeu a líder sufragista em Acari. Vale ressaltar que Marta foi à primeira eleitora oficial do Seridó. Contudo, a primeira mulher a efetivamente realizar o gesto de colocar um voto em uma urna eleitoral na região, diante dos representantes dos partidos, do juiz e ter este fato registrado fotograficamente, foi a caicoense Julia Medeiros. A foto que mostra esta ocasião é a que ilustra este artigo.

Página do primeiro número da revista "A Cigarra", de 1928, mostrando a ação das mulheres que batalhavam pelo voto

Para a poetisa Palmyra Wanderlei, o comparecimento das mulheres as urnas foi chamado por ela de “os votos de páscoa”, pela coincidência das eleições de 5 de abril serem realizadas próximas a Semana Santa de 1928. A poetisa escreveu em “A Republica”, de 13 de abril, que o sufrágio feminino “Chegou com a Aleluia. E cheira a rosa fresca de uma madrugada de um dia de Ressurreição”.

Reações ao Voto Feminino no Rio Grande do Norte e a Primeira Prefeita da América do Sul

Estas mulheres poderiam comemorar esta votação tão importante, mas logo viria a já esperada reação. Em 18 de maio, a toda poderosa Comissão de Poderes do Senado, exclui os votos femininos da eleição de José Augusto, mas mesmo assim proclama-o senador pelo Rio Grande do Norte.

Elas foram às primeiras eleitoras da América do Sul a votar e as primeiras a terem os votos anulados.

Julia Alves Barbosa

Mas nem tudo eram flores. A eleitora Julia Alves Barbosa, assinando um artigo com suas iniciais “JAB”, na segunda página da edição de domingo, 15 de abril de 1928, do jornal “A Republica”, fazia uma severa crítica a falta de vontade das próprias mulheres potiguares em se alistar. Dizia “Porque tanta timidez quando se trata de alistamento eleitora?”. Julia apontava que havia as que não participavam e ainda criticavam o movimento feminista. “As mulheres, no Rio Grande do Norte, sem entusiasmo, muitas até ridicularizado o movimento emancipador, não vem com bons olhos suas vinte ou trinta companheiras interessadas na campanha feminista. Indagando a causa, vejo, com pesar, outra não ser, senão o tal preconceito social”. Para ela a raiz deste “preconceito social” estaria no fato de muitas não desejarem “desgostar seus maridos, noivos, irmãos, etc”.

O artigo apontava que dentro dos lares e nas rodas sociais, as críticas as feministas eram extremamente severas e preconceituosas. Para Julia era conveniente aos homens que as mulheres fossem “suas inferiores-escravas humildes, nas senzalas de seus lares”.

A manchetes sobre o voto feminino era quase diárias em Natal

Independente desta questão, a luta continuou e novas conquistas vieram. Como a lei 660 dava o direito a votar e ser votado, em 1929, a Senhora Alzira Soriano venceu o pleito eleitoral para prefeitura da cidade potiguar de Lages, obtendo 60% dos votos e derrotando o Senhor Sérvulo Pinheiro Neto Galvão. Tornando-se a primeira prefeita eleita da América do Sul.

Como as eleitoras que tiveram os títulos anulados, Alzira Soriano viria a ostentar o negativo título de primeira prefeita cassada por uma revolução. Isso ocorreria no movimento revolucionário de 1930, que a depôs, juntamente com o governador Juvenal Lamartine.

Mas a semente fora lançada e cada vez mais as mulheres conquistariam seus direitos eleitorais neste país.

Orgulho

A inscrição de Marta Medeiros foi um motivo de extremo orgulho para sua família. Uma das razões que muito ajudou a jovem professora a se alistar foi apoio do seu irmão mais velho, Joaquim Paulino de Medeiros Filho, meu avô, mais conhecido como Jaco. Este era um homem de muita cultura e de espírito extremamente rebelde. Jaco havia abandonado, por divergências políticas junto a seus professores, a Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Mesmo sendo filho de um fazendeiro importante na sua região, era simpatizante do Partido Comunista, tendo atuado junto à causa e sido preso e condenado pela sua participação na Intentona Comunista de 1935.

“O Seridoense”, edição de 23 de dezembro de 1927

A única cópia existente e integral da sentença do despacho do Juiz João Francisco Dantas Sales, está em um exemplar do jornal “O Seridoense”, publicado em Caicó, na edição de 23 de dezembro de 1927. O mesmo se encontra na coleção de jornais antigos do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

JURISPRUDÊNCIA

Juiz de Direito da Comarca de Acary

Alistamento eleitoral. A Senhorita Martha de Medeiros, diplomada pela Escola Domestica de Natal, requer sua inclusão no alistamento eleitoral do município de Acary.

Despacho-Vistos, etc. – A Senhorita Martha Maria de Medeiros, com 24 annos de idade, natural deste Estado, filha legitima de Joaquim Paulino de Medeiros, solteira, professora particular, residente no sítio “Rajada”, deste Município, exhibindo os documentos flas. a (ilegível) requer a sua inclusão no alistamento eleitoral.

O sufrágio feminino tem agitado a imprensa e os parlamentos dos povos mais cultos do mundo. E já foi adoptado pela legislação de quasi todas as nações civilisadas. As mulheres exercem direitos eleitoraes em trinta e nove paízes.

Na Europa, quem primeiro agitou no seio de uma assembléa legislativa o voto das mulheres foi o grande Stuatt Mill, que, pleiteando essa medida, exclamara em pleno parlamento inglez: “É necessario dar a essas escravas uma protecção legal, porque nos sabemos muito bem qual a protecção que os escravos podem esperar quando as leis são feitas pelos seus senhores.”

Para os antigos a missão da mulher era toda obediência, passividade, sacrifício.

Era a submissão incondicional, era um ente secundario e cujo unico destino se encarnava na maternidade. A mulher não tinha direitos. Era um animal inferior e despresivel, tendo apenas deveres, os mais rudes, os mais dolorosos, os mais humilhantes.

Actualmente, porem, a mulher desempenha dentro das repartições, dos ministérios, as mesmas funcções dos homens.

A lei eleitoral veda acesso politico às mulheres, pergunta Augusto de Lima, deputado federal pelo Estado de Minas Gerais.

Absolutamente não, responde o mesmo deputado, se o vedasse, infrigeria a Constituição, que não o veda, nem o poderia vedar, porque é uma Constituição democrática.

Alei eleitoral, copiando a Constituição, concede o direito ao voto aos “cidadões brasileiros, maiores de 21 annos, exceptuados: 1º os analfabetos; 2º os mendigos; 3º as praças; 4º os religiosos de ordens monásticas e outros, sujeitos a votos de obediencia ou outra qualquer renuncia ou restricção da liberdade.”

Os cidadãos brasileiros, portanto, maiores de 21 annos, que não estiverem capitulados nestas restricções prohibitivas, são alistáveis, como eleitores, e juiz nenhum pode, sem prevaricar, denegar-lhes o direito de incricção, diz Augusto Lima.

As mulheres são cidadãos brasileiros? Pergunta o mesmo deputado.

Se não fossem, seriam extrangeiros, mas pertencentes a que paíz, interroga Augusto Lima.

Constituição é clara e explicita; São considerados cidadãos brasileiros: a) os nascidos no Brasil.

A mulheres nascidas no Brasil são, pois, cidadão brasileiros: e, desde que não estejam incluídas em nenhuma das excepções que privam os cidadãos brasileiros do exercício do voto, não se pode deixar de reconhecer-lhe o direito de alistar-se como eleitor.

Ouçamos, agora, a opinião do Dr. Tito Fulgencio.

Este escritor em seu livro “Carteirinha o Alistando e do Eleitor” assim se expressa: “O que é da verdade mais verdadeira é que o direito de se inscreverem as mulheres entre os que formam o corpo de eleitores do paíz está regiamente garantido no texto expresso da Constituição: cidadãos são ellas, e está escrito no Artigo 69 da Constituição tanto que exercem direitos políticos, participando aos olhos de toda gente, no exercicio de funcções publicas, e desde que saibam ler e escrever, e não sejam mendigas, nem de ordem religiosa com voto de obediencia, eleitores são, e assim o diz o artigo 70 da Le Fundamental. O juiz brasileiro, continua Tito Fulgencio, que em verdade o queira ser, não exclue, não cercêa, não restringe direitos, senão quando isso lhe é soado aos ouvidos pelo teor da lei, pela sua expressão verbal.

Por argumentos, por subtilezas, por conveniencias… isso não, que é forma especifica de denegação de justiça”.

“Si a lei quizesse excluir a mulher do sulfragio politico, o teria expressado do mesmo modo que expressou quanto aos analfabetos, as praças, aos mendigos, aos religiosos”.

Demais é principio immutavel de interpretação juridica que em direito não se restringe por inducção, conforme affirma o senador Juvenal Lamartine, em sua “Plataforma” e mesmo porque “UBI LEX NON DISTINGUIT. NEC INTERPRES DISTIGUERE DEBET”. (Do latim – Quando a lei não distingue, tampouco o intérprete deve distinguir).

Não ha motivo para se recusar á mulher o direito do voto.

A historia de todos os povos e epoca, lida atenciosamente, encerra, em cada pagina, a eloquencia de um vulto feminino. A mulher foi sempre a inspiradora do homem: teve sempre uma influencia incontestavel nos assunptos políticos e sociaes.

Desde Catharina Paraguaçu, auxiliando com efficiencia a aproximação de duas raças: Clara Camarão e Dona Maria de Souza, as protagonistas da restauração de Pernambuco: Barbara Heliodora, que tudo sacrificou pelo dever e pela virtude, tomando parte saliente na Conjuração Mineira: Anita Garibaldi, do Rio Grande do Sul, fazendo quase toda a campanha da “Guerra dos Farrapos”: Dona Anna Nery, a valorosa baiana constituindo-se enfermeira nos campos de batalha da guerra do Paraguay: Dona Rosa da Fonseca, içando a bandeira nacional na frente de sua casa para festejar a victoria de Itororó, na qual succumbira seu filho Eduardo, até Bertha Lutz, que representa no Brasil a mais alta expressão o feminismo, batendo-se desassombradamente pela emancipação politica do sexo feminino, a mulher tem dado provas irrefragáveis de seu valor intellectual no seio da sociedade brasileira, onde tem sido representada com brilhantismo no magisterio, na litteratura, no jornalismo, no commercio, na lavoura, na burocracia, na medicina, na engenharia, na advocacia, na pintura e na musica.

Num regimem democratico como é o nosso, diz o senador Juvenal Lamartine, é absurdo que se prive metade da população brasileira de exceser de seus direitos políticos, quando a mulher vem collaborando em todas as resoluções do paíz, agindo pela palavra, pela penna, em seu esforço constante e dedicado, para que se effective as grandes aspirações collectivas.

Isto posto é:

Considerando que o artigo 77, da lei 660, de 25 de outubro do corrente anno, que regula o serviço eleitoral do Estado, (ilegível) que “No Rio Grande do Norte, poderão votar e ser votados, sem distincção de sexo, todos os cidadãos que reunirem condições exigidas por lei.”

Considerando que, segundo prescreve o artigo (ilegível), do Decreto nº (ilegível), de (ilegível) de Novembro de 192(ilegível), o requerimento para o fim de alistamento eleitoral deve ser instruído com a prova de edade maior de 21 annos, renda que assegure a subsistencia e residencia no Municipio pelo praso de quatro meses ininterruptos.

Considerando que a requerente prova a edade de 21 annos com a certidão extrahida do registro civil e exibida as fls…, a renda e residencia com as fls. a fls. Estando as firmas dos mesmos devidamente reconhecida por tabellião pubblico, conforme exige o inciso 42, letra D, do artigo (ilegível) do referido decreto:

Considerando que fica expendido e (ilegível) dos autos:

Defiro o requerimento de Dona Martha Maria de Medeiros, e mando que se lhe insira o nome no alistamento eleitoral deste Municipio, expendindo-lhe o competente titulo.

Sem custas.

Acary, 10 de dezembro de 1927.

João Francisco Dantas Sales.                  

Conclusão

Marta Maria de Medeiros era tia do meu pai, mas todos a nós a chamávamos de “Tia Marta”. Era uma mulher forte, mas percebi que o preconceito que ela sofreu ao longo da sua vida, pela sua decisão de se tornar eleitora, a transformou em uma pessoa severa consigo mesma e muito sofrida. Outros reveses, como o brutal assassinato do seu irmão Jaco, crime que abalou Acari em 1952, a tornariam muito reservada a estranhos.

Nunca casou e nem teve filhos. Era extremamente católica, muito educada e, apesar de todos os reveses, era comunicativa com os amigos e os membros da família.

Por toda a vida se orgulhava de ter sido a primeira eleitora de sua amada região e isso eu a vi comentar várias vezes. Era um dos poucos momento que me recordo de ver o seu sorriso. Faleceu aos 81 anos, no dia 12 de setembro de 1984.

Três anos antes de sua morte, na época em que minha família tinha uma casa de veraneio na praia de Búzios, a cerca de 30 quilometros ao sul de Natal, aconteceu para mim algo muito especial. Eu me lembro bem que por por pura diversão e sem maiores intenções, gravei em antigas fitas K7 um longo papo que tive com Tia Marta.

Neste diálogo ela me contou praticamente toda sua vida. Desde a infância na “Rajada”, sobre seus pais, a pequena Carnaúba dos Dantas, sobre Acari, sua formatura na Escola Doméstica, o assalto dos cangaceiros de Chico Pereira a Fazenda Rajada (em fevereiro de 1927), a luta pelo voto, o rompimento político com a família Lamartine, a adesão a Mário Câmara, a prisão do irmão na Intentona de 1935, o assassinato do meu avô e as consequencias desta tragédia para nossa família.

Creio que grande parte da minha paixão pela história venha destas fitas que guardo com muito carinho.

Toda a luta de Tia Marta pelo seu voto causa imenso orgulho para a nossa família, sendo tudo isso muito positivo. Entretanto, apesar da falta que ela faz, fico feliz que ela não veja o quanto o título eleitoral, pelo qual tanto lutou, tenha perdido o seu valor em meio a tanta picaretagem política.

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O GRANDE FOGO DA CAIÇARA E A DESCONHECIDA “MISSA DO SOLDADO”

Autor – Rostand Medeiros

Segundo os principais autores que trataram do ataque de Lampião a Mossoró, no dia 10 de junho de 1927, após o bando do cangaceiro Lampião haver cruzado a fronteira potiguar, seguiu em direção norte, visando a cidade de Mossoró.

Homenagem ao soldado Matos, o herói do “Fogo da Caiçara”

Próximo à povoação de Vitória, atual município de Marcelino Vieira, atacaram as primeiras casas do sítio conhecido como “Caiçara, ou “Caiçara dos Tomaz”. Entre estas estavam as vivendas de Francisco Tomaz de Aquino e de Antônio Dias de Aquino, onde praticaram saques, ameaças aos proprietários e seus familiares, invasão, depredação e outros crimes. Neste local eles libertaram o agricultor Antônio Higino, que havia sido forçado a guiar o bando por terras estranhas e Antônio Dias de Aquino assume a espinhosa função.

Na Vila de Vitória, às sete da manhã do dia 10 de junho, em meio aos preparativos para a festa do padroeiro do lugar, São Francisco, foi disseminada a terrível notícia “-Corre que Lampião vem aí”.

Em meio ao temível rumor o coronel José Marcelino de Oliveira, líder político local, organiza a resistência. Piquetes são montados, sentinelas armadas são fixadas em pontos estratégicos, buscam-se armas e munições para a defesa e o telégrafo transmite um pedido de socorro à cidade de Pau dos Ferros, distante quase 30 quilômetros.

Por volta das nove horas da manhã, chega à vila um automóvel trazendo o tenente Napoleão de Carvalho Agra e alguns outros policiais.

Entre as missões atribuídas a este oficial estava primeiramente organizar a defesa em Vitória, através da criação de um grupo misto de policiais militares, alguns recém-incorporados, e civis da vila. Outra missão era procurar entrar em contato e combater a coluna de cangaceiros. Diante da celeridade, Agra organiza a tropa.

Buscando ganhar tempo, ele solicita mais dois veículos na Vila de Alexandria. Enquanto aguarda a chegada dos automóveis, em meio a informações fornecidas por tropeiros, que no sítio Aroeira o bando teria sequestrado a mulher do proprietário do lugar. O tenente Agra então ordena ao cabo Porfírio que siga a pé com o grupo de combatentes, em torno de vinte homens, pelo caminho que segue em direção a esta propriedade.

Em meio ao alarido e a movimentação da tropa mista, um jovem soldado recém-incorporado a Polícia Militar do Rio Grande do Norte, ainda sem uniforme padrão, negro, baixo, natural de Pernambuco, de nome José Monteiro de Matos, em meio a provocações de colegas e de outras pessoas pronunciou:

– Eu morro! Mas não corro!

Sobre as águas do açude da Caiçara, ou açude do Junco, está o local original do combate de 10 de junho de 1927

O grupo de combatentes seguiu marchando pelo caminho empoeirado. Algum tempo depois, com a chegada dos dois veículos vindos de Alexandria, o tenente Agra segue em busca do adiantado grupo de policiais e civis arregimentados. Logo o oficial alcança seus comandados, onde a maioria embarcou nas três viaturas e continuam o trajeto em direção ao sítio Aroeira.

A distância entre a antiga vila de Vitória e a Aroeira é superior a vinte quilômetros. Provavelmente esta aparente e segura distância do bando, associada a uma possível falta de maiores informações da real quantidade de cangaceiros e acrescidos de excesso de confiança da tropa novata, pode ter causado uma distensão na vigilância dos policiais. Pois em pouco tempo, nas terras do sítio Caiçara, os dois grupos combatentes se encontraram de maneira inesperada e o tiroteio tem início.

Os ditos “Defensores da legalidade”, levou extrema desvantagem em relação a vanguarda dos cangaceiros. O guia Antônio Dias de Aquino aproveita a confusão para fugir, mas um cangaceiro percebe sua intenção e abre fogo contra o agricultor. O tiro lhe atinge a região torácica e ele cai no chão. Mesmo ferido com gravidade ele consegue sobreviver. Pelo resto de sua vida este sertanejo vai carregar a marca, nunca totalmente cicatrizada, do balaço de fuzil que levou.

Com o desenrolar do combate, as outras frações dos cangaceiros se unem à vanguarda e a relação numérica entre os dois grupos beligerantes faz a balança pender favoravelmente a favor dos bandoleiros.

Memorial do “Fogo da Caiçara”, na Comunidade Junco, em Marcelino Vieira

A munição começa a escassear junto à tropa de Agra. Diante da situação inevitável o oficial ordena a retirada. O soldado José Monteiro de Matos se encontrava ferido com gravidade, mas continuou atirando. Se ele não escutou a ordem de recuo, se não teve condições de se retirar, ou se não quis abandonar o seu posto de combate e assim da à cobertura necessária para a fuga dos companheiros, isso nunca ficou totalmente esclarecido. O certo é que os outros policiais nunca esqueceram a frase que ele pronunciou ainda na vila de Vitória e, querendo ou não, cumpriu o que disse.

Depois da debandada dos homens comandados pelo tenente Agra, logo os cangaceiros passam a seviciar o corpo do soldado Matos, incendeiam os três automóveis e a linha telegráfica que passava nas proximidades foi cortada. Outro resultado do tiroteio, que durou quase uma hora, foi à morte do cangaceiro Patrício de Souza, o Azulão. Outro membro do grupo de bandoleiros, o cangaceiro Cordeiro, foi ferido com certa gravidade. Azulão foi enterrado em cova rasa e Cordeiro, mesmo ferido, seguiu adiante com o bando.

Durante nossa pesquisa em Marcelino Vieira, percebemos nitidamente que para as pessoas que habitam a região, os fatos mais marcantes em termos da memória sobre a passagem do bando de Lampião, estão relacionados ao combate conhecido como “Fogo da Caiçara” e a valente postura do soldado José Monteiro de Matos. Em vários locais, tanto antes do local do combate, como após, a população local repete exaustivamente a história do “-Eu morro! Mas não corro!”.

Capela da Comunidade Junco, onde atualmente, sempre na data de 10 de junho, se realiza a “Missa do Soldado”

Para muitas pessoas que habitam o sertão nordestino, ainda se mantêm muito forte a percepção sobre a postura que alguém assume, diante de questões de sangue, honra e valentia. Quando um cidadão é marcado por alguma violência e “lava a honra com sangue” é exaltado. Quando, por exemplo, não vinga a morte de um parente, ou foge desta “responsabilidade”, é execrado. Estes pontos continuam presentes no dia a dia, mesmo diante da crescente modernização e acessibilidade a variados meios de informações.

No passado então estas características eram ainda mais fortes.

Não foi surpresa que membros da comunidade local, no dia 10 de junho de 1928, apenas um ano após o combate na região da Caiçara, decidissem realizar uma missa em honra a memória do valente militar. Segundo Francisco Assis da Silva, proprietário de um restaurante na comunidade do Junco, as margens do açude da Caiçara, foram seus avôs, junto com outras pessoas da região, que de forma espontânea e apoiadas pelas lideranças locais deram início a um singelo ato religioso pela alma do soldado.

No começo ele ocorria no mesmo ponto onde se desenrolou o combate. Segundo o nosso entrevistado, ele recorda quando criança, que o evento sempre atraiu um número considerável de pessoas, passando a ser conhecida como “A Missa do soldado”.

Aspecto atual da cidade de Marcelino Vieira, antiga comunidade conhecida como Vitória, na Zona Oeste do Rio Grande do Norte

Para o Secretário de Cultura de Marcelino Vieira, o professor Romualdo Antônio Carneiro Neto, apesar da inexistência de documentação comprobatória, os variados relatos coletados no município apontam que a primeira cerimônia foi realmente realizada em 1928 e continua até hoje sem interrupções. Romualdo, árduo pesquisador da história local, comenta que entre os grandes incentivadores para a existência e a manutenção anual desta singela cerimônia, figuram os comerciantes João Medeiros e seu filho Antônio, já falecidos.

Com o passar do tempo à missa continuou crescendo e se tornou uma das mais importantes tradições religiosas de Marcelino Vieira e da Comunidade do Junco. Até mesmo a classe política, tanto a nível local, quanto estadual, diante do crescimento em número de participantes e da repercussão positiva do evento religioso e histórico, buscou angariar simpatia junto à comunidade e aproveitar a concentração de eleitores fora do período de votação.

No dia 10 de junho de 1957, quando o “Fogo da Caiçara” e a morte do soldado Matos completavam trinta anos, o Rio Grande do Norte era então governado por Dinarte de Medeiros Mariz, sendo ele o responsável pela edificação de um marco para apontar o local do combate. Neste monumento foram fixadas uma cruz e uma placa de mármore, onde está escrito; “Aqui morreu a 10-06-1927, em luta contra os cangaceiros de Lampião, o soldado José Monteiro de Matos. Homenagem do governo do Rio G. do Norte. Sr. Dinarte Mariz”. Este marco passou a ser conhecido então como “O Cruzeiro do soldado”.

Em 1981 foram iniciadas as obras para a construção do açude da Caiçara. Diante da inundação da área original do tiroteio, e como a Comunidade do Junco já possuía uma capela, foi para junto deste templo que os habitantes removeram o marco, o cruzeiro e a placa comemorativa. Desde então “A Missa do soldado” é realizada neste local.

Nos primeiros tempos, ainda na outrora Vitória, a cerimônia tinha início na igreja de Santo Antônio, na sede do município, onde uma procissão percorria os quase seis quilômetros que separam Marcelino Vieira, do local do combate. Era normal ocorrerem à apresentação de músicos locais e queima de fogos de artifício.

Da esquerda para direita vemos o Secretário de Cultura de Marcelino Vieira, o professor Romualdo Antônio Carneiro Neto, o professor da rede municipal de ensino Ênio Almeida, o comerciante Francisco Assis da Silva, descendente dos primeiros incentivadores e organizadores da “Missa do Soldado” e o autor

Atualmente foi abolida a procissão, mas a missa permanece, cada vez mais atraindo um número maior de participantes. Além das questões envolvendo o heroísmo e valentia do soldado Matos, uma das razões para este evento conseguir completar em 2011 seus oitenta e quatro anos de realização ininterrupta, segundo as pessoas com quem tivemos oportunidade de dialogar em Marcelino Vieira, está relacionada à proximidade da “Missa do Soldado” com a principal data religiosa da cidade, a festa do padroeiro Santo Antônio.

AINDA SOBRE ESTE TEMA VEJA  NO TOK DE HISTÓRIA

https://tokdehistoria.com.br/2011/08/15/trilhando-o-mesmo-caminho-de-lampiao-no-rio-grande-do-norte/

https://tokdehistoria.com.br/2011/10/25/o-grande-fogo-da-caicara-inicio-da-resistencia-ao-bando-de-lampiao-no-rn/

https://tokdehistoria.com.br/2011/03/25/o-ataque-do-bando-de-cangaceiros-de-lampiao-ao-sitio-juazeiro/

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1928-PARA GANHAR CASTANHA-UM POEMA DE JORGE FERNANDES

Na histórica revista A Cigarra, publicada em Natal durante os anos de 1928 e 1930, encontramos um verso do poeta potiguar Jorge Fernandes, que aqui reproduzo.

PARA GANHAR CASTANHA

Já apareceu na rua

Com uma muleta andando largo

Com uma perna só…

-Mutilado da Grande Guerra-

É toda vida um menino antigo

Jogando academia pelas calçadas…

-Primeiro ano…

(Volta o caquinho com bem cuidado

Prá não ficar no risco)

E o mutilado que nunca foi a Grande Guerra

Da Europa joga de novo o segundo ano…

E assim ele joga até o sexto ano para se formar…

E o mutilado que nunca foi a Guerra

É toda vida uma criança antiga

Jogando o jogo antigo de academia

Empurrando o caquinho com o pé só

Prá se formar

-Mutilado da grande guerra-

Da grande guerra de todo o mundo-

SOBRE JORGE FERNANDES

Jorge Fernandes

Na página  http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_grande_norte/jorge_fernandes.html encontramos uma pequena biografia sobre este interessante poeta;

JORGE FERNANDES de ????j?Oliveira(1887-1953) nasceu em Natal-RN. É considerado um dos precursores da poesia moderna no Brasil. Jorge Fernandes com seu “LIVRO DE POEMAS”, de versos modernos, editado em 1927. 

“A poesia, no Rio Grande do Norte, apresenta dois momentos culturais  da maior plenitude literária e (anti) literária: a publicação do Livro de poemas, de Jorge Fernandes, em 1927, e o lançamento local da poesia concreta, em 1966, com o seu posterior desdobramento no poema/processo. (…) no espaço literatizante inaugurado por Jorge Fernandes, levantar a problemática da vanguarda, ou seja, da poesia (abstração: sentimento) ao poema (concreção: fisicalidade).”  Moacy Cirne

“O poema jorgiano contém, em seu bojo, a simbolização onomatopaica (vide Manhecença…, Briga do teju e a cobra, Viva o sol!…Tetéu, etc.), o recurso caligramatizante (Rede), o espaçamento verbal (Tetéu),  a metacrítica ao parnasianismo. No meio de tanta versalhada, que então se publicava, o nome de Jorge Fernandes — cuja poesia, até 1959/1960, ainda seria bastante atual — é um monumento literário. Nas palavras de Mário de Andrade, seuLivro de poemas conserva uma memória guardada nos músculos, nos nervos, no estômago, nos olhos, das coisas que viveu”” Moacy Cirne em A POESIA E O POEMA DO RIO GRANDE DO NORTE. Natal: Fundação José Augusto, 1979.

Nesta mesma página encontrei o poema de Jorge Fenandes que mais gosto e que de vez em quando leio para minha filha Tainá, embalando ela em uma gostosa rede.

LIVRO DE POEMAS

(1927)

  REDE

Emboladora do sono…

Balanço dos alpendres e dos ranchos…

Vai e vem nas modinhas langorosas…

Vai e vem de embalos e canções…

Professora de violões…

Tipóia dos amores clandestinos…

Grande…  larga e forte…  pra casais…

Berço de grande raça.

 S                                  A

U                        S

S               N

P       E

Guardadora de sonhos

Pra madona ao meio-dia

Grande… côncava…

Lá no fundo dorme um bichinho…

—  Balança o punho da rede pro menino dormir.

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A HARLEY DAVIDSON E NATAL-UMA ANTIGA HISTÓRIA

Nos últimos anos não é tão incomum o natalense visualizar pelas suas esburacadas e mal pavimentadas ruas, belos exemplares das míticas motocicletas da marca Harley-Davidson Motor Company.

Incrivelmente belas, potentes, com um ronco característico e com uma história bem antiga em relação a Natal. Nas páginas dos velhos jornais da nossa cidade, no ano de 1925, encontrei um anúncio de venda destas motocicletas. Mas o interessante é que a loja ficava na então Capital Federal, o Rio de Janeiro. Não encontrei nenhuma indicação que havia uma loja ou um agente revendedor em Natal.

Provavelmente os empresários cariocas que espalharam estes anúncios de venda das Harley-Davidson no Brasil, utilizando os principais jornais das capitais dos estados, focavam como público alvo as elites destes locais. E não é difícil de compreender a razão.

Nos velhos jornais natalenses podemos ler que naquela época, os embarques efetuados pelos natalenses no velho cais da Avenida Tavares de Lira, nos vários navios que transportavam carga e passageiros, se destinavam principalmente para Recife, Manaus e Rio de Janeiro.

Para o Rio de Janeiro seguiam os mais abonados e aqueles ligados a elite política da época. O público certo para os revendedores destas motos.

Não é difícil imaginar o desembarque de alguma Harley-Davidson no nosso porto e depois sair circulando pelas ruas da Ribeira com seu ronco inconfundível.

Mas se algumas destas maravilhosas máquinas viessem encaixotadas do Rio, provavelmente seria montada na oficina de Seu Nezinho Cavalcante, o melhor mecânico de Natal.

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A PRISÃO DE JUAREZ TÁVORA PELOS POTIGUARES NO PIAUÍ

Autor – Rostand Medeiros

Nos últimos dois anos, em razão da pesquisa do meu livro “João Rufino-Um visionário de fé”, estive várias vezes na cidade de São Miguel (RN).

Nesta pitoresca localidade, seguramente um dos seus principais acontecimentos históricos ocorridos durante o século XX, foi a passagem no ano de 1926 do grande grupo revolucionário que ficaria conhecido como “Coluna Prestes”.

Juarez Távora

Durante a pesquisa que realizei nos velhos jornais do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, percebi o quanto a passagem deste grupo foi marcante nos vários estados da região Nordeste onde eles estiveram. Conhecidos em sua época como “Revoltosos”, os membros deste grupo tinham como uma de suas principais lideranças um cearense chamado Juarez Távora. Este fazia parte da revolta desde o seu início, mas foi preso no Piauí. E quem o prendeu foram policiais potiguares que estavam neste estado ao lado da “legalidade”, ou do governo, para combater a “revolta”.

Lendo as páginas dos jornais antigos percebi uma história pouco conhecida.

Os Revoltosos e Juarez Távora

Sem nenhuma dúvida a Coluna Prestes foi um dos movimentos militares mais importantes da história do Brasil no século XX. Era formada por militares que tinham como objetivo derrubar do seu cargo o então presidente da República, Arthur Bernardes.

Para muitos os revoltosos buscavam a queda de Bernardes em nome da solução dos problemas sociais que afetavam a chamada República Velha. Para outros o movimento rebelde, não obstante seu espetacular deslocamento pelo interior do Brasil, no fundo não passava de uma ação conservadora e elitista, por ter sido criado no interior das academias militares do Exército Brasileiro, ambiente onde proliferava o pensamento positivista oriundo das ideias do francês Augusto Comte.

Independente desta questão, desde 1922, principalmente os tenentes do Exército conspiravam contra o governo e chegaram a realizar ações, como a Revolta do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, que foram violentamente reprimidas.

O garboso oficial Távora

Já Juarez do Nascimento Fernandes Távora nasceu na fazenda do Embargo, no município de Jaguaribemirim, atual Jaguaribe (CE), no ano de 1898. Estudou na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, graduando-se aspirante a oficial em 1919. Participa das várias revoltas militares do período. Foi preso e julgado, tendo sido condenado a três anos de prisão. Acabou perdendo sua patente no Exército e daí desertou. Participou da rebelião em São Paulo de 1924, onde morreu seu irmão Joaquim Távora. Diante da derrota neste estado Juarez segue com seus comandados em direção ao Paraná e se junta a coluna de revoltosos sob o comando do capitão Luís Carlos Prestes, que vinham do Rio Grande do Sul onde igualmente promoveram revoltas.

Luís Carlos Prestes

Com a unificação dos grupos rebeldes estes saíram a pé e a cavalo pelo país afora. Ocorreram apoios por parte da sociedade e os combatentes utilizavam a tática da “guerra em movimento”, para combater as tropas governamentais que não lhes davam trégua.

Durante o trajeto dos revoltosos o militar cearense foi um dos seus principais líderes, fazendo parte de seu Estado Maior.

Envio dos Potiguares e o Tiroteio em Flores

As forças do governo perseguiam fortemente os revoltosos. O presidente Bernardes solicitou a participação de forças de vários estados para engrossarem o combate aos homens de Prestes. Haviam forças policiais estaduais, onde se tinha a ideia que estes elementos possuíam um melhor conhecimento do terreno a ser percorrido no combate aos revoltosos. Mas no caso do então Regimento de Polícia Militar do Rio Grande do Norte, a solicitação de Bernardes ao mandatário do executivo potiguar na época, José Augusto Bezerra de Medeiros, foi de enviar um contingente da nossa polícia ao Maranhão.

Membros da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, diante do antigo quartel próximo ao centro de Natal

Segundo o jornal “A Republica”, o principal de Natal na época, as cinco da tarde do dia 14 de dezembro de 1925 partia do porto de Natal no vapor “Pará”, uma companhia composta de quase 100 homens, comandados pelo capitão Apolônio Seabra de Melo e mais cinco oficiais. Dias depois a tropa policial potiguar chegou ao Maranhão e se uniu aos homens do 29º Batalhão de Caçadores do Exército, que igualmente haviam saído de Natal. No dia 25, em plena comemoração natalina, a tropa seguiu primeiramente para Caxias e depois o seu destino foi a cidade de Flores, atual Timon, na fronteira do Piauí, próximo a Teresina.

Quando as tropas das duas instituições militares baseadas em Natal chegaram a Flores, a capital do Piauí sofria um cerco por parte dos revoltosos desde o dia 23 de dezembro e a ação das forças potiguares, juntamente com outras unidades do Exército e de policíais estaduais, era romper as linhas de Prestes.

Na noite de ano novo na pequena Flores, os policiais potiguares foram severamente atacados pelos rebeldes. No livro “História do Batalhão de Segurança”, de Rômulo C. Wanderley (1969 – págs. 60 a 69), segundo o relato do então aspeçada (patente atualmente extinta) Pedro Silvio de Moraes, em meio a uma forte chuva e trovoadas ocorreu este combate, que se prolongou até às dez horas da manhã do dia seguinte e os rebeldes chegaram a utilizar armas automáticas.

A refrega foi violenta. Do lado potiguar caiu ferido o cabo Dário Correia e morreu varado por vários balaços o 2º sargento Augusto Azevedo de Souza. Este foi postumamente promovido a 2º tenente. Neste mesmo combate, segundo uma nota publicada em “A Republica”, de 20 de janeiro de 1926, intitulada “Em defesa da legalidade”, o jovem Elias Ferreira de Mello, cabo do 29º Batalhão de Caçadores e natural da então Vila da região seridoense de Parelhas, foi promovido por bravura.

Notícia sobre a luta na cidade de Flores, hoje Timón, no Maranhão

O cerco a Teresina durou nove dias e se prolongou até 1 de janeiro de 1926.

A Prisão de Juarez Távora

Consta no livro de Rômulo C. Wanderley que após o tiroteio, Juarez Távora foi fazer um reconhecimento do terreno e teria se equivocado na direção de onde estavam seus comandados. Como consequência teria se encontrado com uma tropa legalista potiguar, comandada pelo cabo José Paulino de Medeiros. Diante da surpresa e na eminência do confronto, Távora se entregou sem resistência.

Na edição de 22 de fevereiro de 1926, o jornal recifense “A Provincia” transcreveu um artigo do padre, jornalista, escritor e membro da Academia Carioca de Letras, o cearense Assis Memória, sobre uma visita que fez ao conterrâneo Juarez Távora. Este era prisioneiro da Marinha na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro e comentou com o padre que foi detido nas margens do rio Parnaíba.

Texto do Padre Assis Memória sobre Távora

No livro “A Coluna Prestes no Piauí” (2009), o jornalista piauiense Chico Castro defende outra tese: Juarez Távora não foi capturado, ele se entregou. Para o autor, em uma entrevista a Agência Senado quando do lançamento do seu livro, comentou que “A elucidação da suposta prisão de Juarez Távora é importante porque, a partir desse episódio, a Coluna Prestes perdeu forças e, ao invés de avançar para o norte do Brasil, recuou em direção à Bolívia para o exílio. No livro eu contesto a versão do próprio Juarez, de que ele foi preso. Na verdade ele praticamente se entregou”.

Logo após sua prisão Juarez Távora foi enviado para São Luís, capital do Maranhão, para embarcar em um navio em direção a então Capital Federal, o Rio de Janeiro.

No livro Rômulo C. Wanderley, João Paulino comentou que durante o trajeto o prisioneiro se manteve imperturbável e com exceção de um copo de leite não aceitou alimento algum. Durante o trajeto o Capitão Apolônio Seabra teria conversado com Juarez, buscando demovê-lo de sua luta e voltar ao Exército. Mas este pediu ao capitão para “não estragar suas palavras”, pois ele era “um idealista” e assim morreria.

Foto pouco conhecida de Juarez Távora detido, provavelmente em São Luiz. O militar sorridente ao seu lado não foi indentificado, mas pode ser o cabo João Paulino que o deteve.

Em São Luís, o prisioneiro Távora embarcou no vapor “Rodrigues Alves”, junto com o companheiro de revolta e igualmente membro do Estado Maior revoltoso, o capitão Paulo Krugger da Cunha Cruz, capturado no Maranhão. Segundo nota do jornal recifense “A Notícia”, de 18 de janeiro de 1926, estes prisioneiros de alto valor para o Exército estavam incomunicáveis, sob escolta de militares do 21º Batalhão de Caçadores, comandados pelo capitão Leal Ferreira.

Nota sobre a passagem de Távora e Paulo Krugger por Recife

O Que Ocorreu Depois

Depois da prisão de Juarez Távora a Coluna Prestes seguiu pelo Piauí, sempre perseguidos pelas tropas legalistas. Passaram pelos municípios de Altos, Alto Longá, Campo Maior, Castelo, Piripiri, Pedro II, Valença, Oeiras, Picos, Pio IX, Simões, Jaícós e Uruçui. Depois seguiram para o Ceará e adentraram no Rio Grande do Norte pelo município de São Miguel, na sequência estiveram na cidade de Luís Gomes e seguiram para a Paraíba.

Em 1927 a Coluna Preste se dissolve depois de percorrer mais de 24.000 quilômetros. Muitos dos seus participantes, que ficaram ao lado de Luiz Carlos Prestes até o fim, conseguiram asilo político por parte do governo da Bolívia.

Depois de sua captura, Juarez Távora foi enviado ao Rio de Janeiro, onde ficou prisioneiro na ilha de Trindade e depois na ilha das Cobras. Deste local conseguiu fugir e viajou com uma identidade falsa para o Uruguai. Ele continuou na sua luta pela revolução e se dirigiu para o Nordeste. Na região começou as articulações com as forças políticas e militares, onde ele comandaria a conhecida Revolução de 30 entre os nordestinos.

À exceção de Prestes, os outros integrantes da Coluna mais tarde estariam aliados a Getúlio Dorneles Vargas, no golpe de 1930. Consta que Prestes, após receber dinheiro de Lindolfo Collor e Osvaldo Aranha para organizar forças que participariam do golpe de 1930, tomou outro caminho. Foi para Moscou, onde passou a integrar os quadros da Internacional Comunista.

Mas isso é outra história.

Ele retornou ao Brasil na ilegalidade e com identidade falsa. Aqui organizou uma tentativa fracassada de golpe comunista em 1935.

Já os policiais do Rio Grande do Norte desembarcaram em Natal, mais precisamente no Cais da Tavares de Lira, no dia 25 de fevereiro de 1926, em meio a um grande júbilo por parte das autoridades e do povo da cidade.

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O VOO DE ARTURO FERRARIN E CARLO DEL PRETE A NATAL EM 1928 E O NOSSO MAIS IMPORTANTE PRESENTE

Dentre os inúmeros “raids” de aviação que utilizaram Natal como ponto de apoio, durante as décadas de vinte e trinta do século passado, um deles deixou como legado histórico para a nossa cidade, um presente que apenas outra cidade do Novo Mundo tem orgulho de ostentar. Uma legítima coluna de mármore, vinda do Capitólio Romano, com 2.000 anos de idade.

Coluna Capitolina

E este emblemático presente foi conseguido apenas com um gesto que é típico, comum e totalmente natural para quase todos os potiguares; sempre, ajudar e acolher dignamente aqueles que nos visitam.

Foi isto que ocorreu na então pequena Natal de 35.000 habitantes, em 1928, quando recebemos dois pilotos italianos que aqui chegaram com a intenção de bater um importante recorde, na época em que voar era uma ação pioneira e perigosa.

Mas como Natal foi incluída neste trajeto e porque da nossa cidade foi contemplada com este presente?

As Causas 

Durante a segunda metade dos anos vinte do século passado, a Itália estava dando muita atenção e patrocinando empreitadas aéreas pelo mundo afora.

O país chegaria até mesmo a investir em explorações aéreas no ainda pouco conhecido Polo Norte. Em 15 de abril de 1926 o ditador italiano Benito Mussolini patrocinou a ida do dirigível batizado como “Itália”, comandado por Umberto Nobile e composto de uma tripulação de militares e cientistas. Após alcançar o Pólo Norte, no dia 28 de maio, o “Itália” cai no gelo. Uma grande e frenética expedição de socorro, com a participação de vários países foi organizada. Caberia ao quebra-gelo “Krassin”, da extinta União Soviética, resgatar parte do grupo.

Benito Mussolini

Na visão governamental a expedição de Nobile foi um vexame. Para Mussolini ver o nome do país em um dirigível caído na banquisa polar não era nada positivo para seu governo, que era pra lá de personalista e extremamente nacionalista. Todos estes fatos levam o Governo Italiano a responsabilizar severamente Nobile pelos problemas ocorridos, sendo ele acusado de abandonar seus companheiros.

Para alcançar novos feitos aeronáuticos enaltecendo a força do seu governo, Mussolini convoca o Secretário da Aeronáutica Ítalo Balbo, para idealizar novos projetos aéreos que possam apagar dos noticiários a tragédia do dirigível “Itália”.

Ítalo Balbo

Um destes empreendimentos gera um novo aeroplano na fábrica Savoia-Marchetti, em Sesto Calende, na província de Varese. Este avião tinha a missão era bater dois recordes aeronáuticos de reconhecimento mundial: o de voo em distância e duração em circuito fechado e o recorde de distância em vôo em linha reta.

Este último recorde estava em poder dos pilotos norte americanos Clarence D. Chamberlin e Charles A. Levine, que entre os dias 4 e 6 de junho de 1927 decolaram de Nova York com destino a Berlim, mas são obrigados a pousar pôr falta de gasolina em Eisleben (Alemanha). Mas estes pilotos conseguem completar a espantosa marca para a época de 6.294 quilometros de distância percorrida.

Na Itália são escolhidos os dois homens para bater esta marca. Serão os experientes aviadores Arturo Ferrarin e Carlo Del Prete.

Os pilotos e Sua Máquina Aérea

Arturo Ferrarin

Arturo Ferrarin era conhecido pelo apelido de “IL Moro” (o mouro), pôr possuir pele morena. Nasceu em 13 de fevereiro de 1895 na cidade de Thiene, província de Vicenza, na região do Veneto e a sua paixão pela aviação começa cedo. Com a Primeira Guerra Mundial é incorporado ao Batalhão de Aviação, sendo enviado a 75º esquadrilha de caça, participando primeiramente como metralhador de cauda. Em 1916 consegue seu brevê e em 1917 é incorporado a 82º esquadrilha de caça. Ao terminar o conflito Ferrarin ostenta duas cruzes de mérito, uma medalha de bronze e uma de prata de valor militar. Com o desenvolvimento da aviação e o surgimento dos “raids”, Ferrarin decide realizar, ao lado do piloto Guido Masiero, um percurso inédito entre a Itália e o Japão. Será utilizado na aventura um simples biplano italiano SVA, de estrutura de madeira, coberto com lona, cabina aberta e sem radiocomunicação. Este “raid” foi idealizado pelo poeta italiano Grabielle D’Annunzio, durante uma fase de intenso intercâmbio entre os dois países. Os dois pilotos partiram no dia 14 de fevereiro de 1920, percorrendo 18.000 km, em quarenta e duas etapas cheias de contratempos, durante 106 dias e chegando ao país do sol nascente no dia 31 de maio. No Japão foram recebidos como heróis, tendo inclusive o imperador japonês entregue aos aviadores espadas de samurai em reconhecimento pelo esforço.

No retorno a Itália, os dois pilotos foram praticamente ignorados pelo Governo e pela imprensa. Para Ferrarin a dor só não foi pior pela intensa manifestação positiva realizada em Thiene, sua cidade natal.

Em 1926 e 1927 Ferrarin participa como membro da equipe italiana, de duas edições da então famosa Copa Schneider. Esta era uma competição de velocidade para aviões em circuito fechado. Após sua participação em 1927, ele é convocado para bater o recorde em direção ao Brasil.

Carlo Del Prete

Já Carlo Del Prete nasceu em Fivizzano, na província de Lucca, em 21 de agosto de 1897. Aos 15 anos já é ingresso na Academia Naval de Livorno, alcançando o posto de guarda-marinha e embarca na nave “Giulio Cesare” para participar da Primeira Guerra Mundial. Depois é transferido para o setor de submarinos e participa de várias ações de combate. A partir de 1917 passa a interessar-se pela aeronáutica, tendo conseguido seu brevê de piloto aviões em 6 de outubro de 1922. No ano seguinte forma-se em engenharia mecânica e eletrotécnica e tempos depois sofre um grave acidente aéreo no Golfo Della Spezia. Mesmo depois de uma recuperação lenta e penosa, Del Prete não desiste da aviação e entre fevereiro e junho de 1927, participa com o Marquês Francesco De Pinedo da dupla travessia do Atlântico no avião “Santa Maria”.

Este “raid” o traria pela primeira vez a Natal e sendo justamente esta visita que definiria a rota a ser seguida. Del Prete não chegou nem a desembarcar do hidroavião pousado no Rio Potengi, mas compreendeu as vantagens da capital potiguar em relação a ser o melhor ponto de apoio no Brasil para quem atravessa de aeroplano o Oceano Atlântico.

Savoia-Marchetti S-64

Em Sesto Calende o engenheiro Alessandro Marchetti desenvolveu uma aeronave com 21,50 metros de área de asa, peso total de 6.800 quilos, com 27 tanques de combustível, que lhe conferia um peso de combustível de 3.850 quilos. A nave possuía uma rudimentar estação de rádio que transmitia em código Morse, mas não captava ninguém. Para manter o avião no ar ele possuía um motor FIAT A22T, com 12 cilindros e 550 HP de potência, que proporcionava uma velocidade media de 163 km/h, tudo acondicionado em um único monobloco de madeira. Ela foi batizada com o Savoia-Marchetti S-64.

O S-64, seus engenheiros e pilotos

A Rota e o Início do Voo 

Del Prete sabia que os ventos em direção a Natal são mais os favoráveis para a missão desejada. Tem o conhecimento que a cidade possui certa infraestrutura de apoio, comunicação e que um novo campo de pouso criado pelos franceses está em operação, em um lugar que ficaria mundialmente conhecido como Parnamirim.

Visita de Mussolini e Balbo a Ferrarin e Del Prete

Outro fator que teria estimulado a rota em direção a Natal foi o episódio envolvendo os espanhóis do avião “Jesus Del Grand Poder”. Estes tinham fracassado ao tentarem bater o mesmo recorde de distância dos Norte-americanos Chamberlin e Levine, utilizando, entretanto uma rota em direção ao oriente. A desistência ocorreu pôr conta de uma forte e inesperada tempestade de areia sobre o Iraque, que danificou o aeroplano espanhol. Apesar da travessia sobre o Atlântico, este episódio mostrou que a rota para Natal era muito mais tranquila.

Mapa de época com o trajeto para a quebra do recorde em circuito fechado

Mas antes do “raid” para o Brasil, os dois pilotos batem na Itália o recorde de duração e de distância de voo em circuito fechado. Este evento constituía de decolar o avião, circular por uma área pré-determinada pelo máximo de tempo possível, sendo toda hora observados por juízes. Era uma prova de resistência que foi efetuada entre os dias 31 de maio e 2 de junho de 1928, onde os dois italianos percorreram uma distância de 7.667 km, em um tempo total de 58 horas e 34 minutos, a uma velocidade média de 139,2 km/h.

Del Prete ovacionado com a quebrado recorde em circuito fechado

Animados pôr este feito, um mês depois, no campo de aviação de Montecelio, próximo a Roma, numa pista com 1.200 metros de extensão, construída propositadamente com inclinação acentuada para facilitar a decolagem, o Savoia-Marchetti S-64 alça voo no dia 3 de julho de 1928, ás 18:51 no horário local.

Decolagem do S-64 de sua pista especial

Ferrarin e Del Prete seguiram então sem maiores problemas para a costa mediterrânea da África. Eles sobrevoaram sem paradas a colônia britânica de Gibraltar, depois Casablanca, Villa Cysneiros, Lãs Palmas, São Vicente, Porto Praia e depois iniciaram a travessia do grande Oceano Atlântico.

A Chegada em Touros 

Já no dia 27 de junho os jornais de Natal informaram a partida de Ferrarin e Del Prete da Itália e a partir de então crescia a tensão para a chegada dos pilotos.

O S-64 em voo

Conforme nos conta Paulo Pinheiro de Viveiros, em seu livro “História da aviação no Rio Grande do Norte”, na manhã do dia 5 de julho a estação de rádio da Marinha, localizada em Réfoles, as margens do Rio Potengi, captou a informação que os italianos estavam a apenas 50 milhas náuticas do Arquipélago de São Pedro e São Paulo. Depois de ser confirmada a notícia por uma estação telegráfica particular, não houve mais informações sobre os aviadores.

A população natalense prestava bastante atenção aos céus, aguardando com ansiedade a chegada do Savoia-Marchetti S-64. Por ironia do clima e para dificultar a situação dos italianos, desde o dia 3 de julho chovia muito forte no nosso litoral. Durante todo dia 5, Natal estava coberta pôr pesadas nuvens e o povo já dava como certo que o avião italiano seguiria para Recife.

Após alcançarem o litoral os aviadores vagaram por várias áreas, existindo a suspeita que chegaram até mesmo a alcançar estados vizinhos. Retornaram a região onde avistaram primeiramente a costa brasileira e finalmente, ás 16:10 da tarde, sobrevoaram Natal. Da cabine Ferrarin e Del Prete viram as pessoas que acenavam com lenços brancos das ruas.

Após sobrevoarem Natal, buscaram o campo de Parnamirim, que sabiam ficar ao lado de uma estrada de ferro, mas sem resultado positivo. Seguiram então a baixa altitude em direção norte, passando sobre as praias em busca de um local de pouso. Ao sobrevoarem a praia de Genipabu foi observado pôr um fazendeiro, que prontamente reportou o fato para a sede do jornal “A Republica” e para as autoridades da cidade.

Sejam motivadas pelo relato deste observador, ou pela falta de maiores notícias, as autoridades da cidade aprestaram rapidamente o rebocador do porto de Natal, o “Lucas Bicalho”, para tentar ajudar os italianos que estariam em alguma das então desertas praias do litoral norte. Faziam parte da tripulação o engenheiro Décio Fonseca, chefe do porto de Natal, o comandante da Escola de Aprendizes de Marinheiros, Nereu Chalreu, o piloto da Marinha do Brasil, Djalma Petit e outros.

O rebocador estava preste a partir quando a tripulação foi informada que o aeroplano e seus aviadores encontravam-se na cidade costeira de Touros, hóspedes do vigário local, o padre Manuel da Costa.

Na manhã seguinte, dia 6 de julho, um avião Breguet XIV, número 158, da C. G. A. (Compagnie Generale Aeropostale) pilotado pelo francês André Depecker, acompanhado pelo mecânico Chaulat, decolou do aeródromo de Parnamirim, seguindo a linha litorânea até Touros, a 80 quilômetros de Natal.

As autoridades locais e os visitantes foram ao encontro do avião que estava a dois quilômetros da pequena cidade litorânea, sobre uma área de dunas, entre 600 metros e a um quilômetro da beira mar.

O S-64 pousado em Touros

O aposentado Geraldo Lopes de Oliveira, nascido no então vilarejo de Touros, tinha oito anos à época do pouso forçado do Savoia-Marchetti S-64 naquela localidade. Em declarações ao jornal “Diário de Natal” (25/01/1998), disse que “acompanhou de perto a chegada dos pilotos italianos”. Declarou que na ocasião “o vilarejo tinha cerca de 800 habitantes e o barulho causado pela aeronave assustou a população local”.

No outro dia, já mais repousados, os aviadores italianos conseguiram que dois pescadores ficassem como vigias junto ao avião, até que pudesse o mesmo ser transportado. Essa tarefa coube aos pescadores Antônio Marcolino e Antônio Pereira, segundo relato do Sr. Geraldo. Em troca, os improvisados vigias poderiam consumir a farta alimentação trazida a bordo, juntamente com seus familiares. Esta alimentação, com estoque para 15 dias de viagem, fora preparada pelo renomado restaurante “Casina Valadier”, localizado na área da Villa Borghese, mais precisamente na Piazza Bucarest, em Roma.  Seguramente foi uma degustação bem diferente a qual as famílias dos improvisados vigias estavam acostumadas.

O S-64 na beira mar de Touros

Com o auxílio de cerca de 80 homens da cidade, foi aberta uma picada que possibilitou o deslocamento da aeronave do local do pouso à praia. No dia 7 de julho, Del Prete e Ferrarin estavam a bordo do rebocador “Lucas Bicalho” com o objetivo de transportar o Savoia-Marchetti S-64 para Natal e submetê-lo aos reparos necessários. Como o rebocador não tinha condições de aproximar-se da praia, o avião foi primeiramente colocado numa balsa e depois atado ao valente “Lucas Bicalho”. Em seguida iniciou-se o lento e cuidadoso deslocamento para a capital potiguar.

Em Natal 

O S-64 as margens do Rio Potengi, nas proximidades da área do prédio histórico da Rampa

Enquanto o avião era consertado os dois heróis foram muito homenageados. Eles foram os únicos aviadores estrangeiros deste período que receberam títulos de “Cidadão Natalense” em solenidade realizada no palácio do Governo. Eles foram entusiasticamente saudados pela comunidade e autoridades, entre elas o então governador Juvenal Lamartine.

Rota do S-64 da Itália para o Brasil

Foram remetidas notícias para todo o mundo do pouso dos italianos em Touros. No total foram completados 7.158 quilômetros de distância, em 58 horas e 30 minutos de voo ininterrupto, a uma velocidade média de 175 km/h. Os recordes foram homologados a partir de cálculos fixados pela Comissão Técnica do Aeroclube do Brasil e encaminhados ao Embaixador da Itália no Brasil, através de ofício datado de 9 de julho de 1928. Os resultados foram também comunicados ao Real Aeroclube da Itália e à Federação Aeronáutica Internacional, para fins da necessária homologação.

Os pilotos ficaram hospedados no Palace Hotel, no bairro da Ribeira, sendo carinhosamente assediados pela população local e recebendo diversas homenagens. Naquele momento a cidade também recebia a visita da líder feminista brasileira Bertha Lutz, que promovia a campanha do voto feminino. Os pilotos tiveram um encontro com a Senhorita Lutz e explanaram a necessidade das mulheres participarem da aviação, no que foram muito elogiados nos jornais locais.

Natal. Av. Rio Branco em 1928

Ferrarin e Del Prete encantaram a população potiguar pelo extremo cavalheirismo e atenção, participando de diversas atividades sociais.

S-64 sendo içado para reparos no porto de Natal

Levaram vários dias para o Savoia-Marchetti S-64 ficar em condições para realizar uma decolagem e seguir em direção sul. O jornal “A República” informa que o hidroavião batizado como “Potyguar”, pertencente à empresa Sindicato Condor, trouxe do Rio de Janeiro as peças e os mecânicos para ser feita à manutenção e realizar uma nova decolagem. Este mesmo jornal relata que o Savoia-Marchetti S-64 ficou na Gamboa Jaguaribe, no lado esquerdo do Rio Potengi, próximo ao Porto do Cajueiro. Tudo indica que o concerto do avião foi realizado neste local, onde o terreno é plano, mas o solo não é muito rígido. Na pressa de seguirem o Rio de Janeiro, então a Capital Federal, os italianos decidiram arriscar a decolagem nesta área. Quando procediam à manobra, o trem de pouso enterrou na areia e pôr pouco o avião não capotou.

O S-64 “atolado” no outro lado do Rio Potengi

Diante do ocorrido e passados vinte e três dias após a chegada ao Rio Grande do Norte, Ferrarin e Del Prete viajaram de Natal para o sul do país a bordo de um avião Bréguet, da Aeropostale.

No dia 1 de agosto de 1928, os jornais locais informam que o avião S-64 será transportado para o Rio de Janeiro no vapor “Macapá”. Tudo indica que esta aeronave foi doada ao Governo Federal, sendo a informação não confirmada.

Ferrarin e Del Prete ovacionados no Rio de Janeiro

Na então Capital Federal, os aviadores eram os heróis do momento, mas o destino lhes seria cruel e traria uma nova e triste situação.

A Tragédia

Em uma ocasião, em companhia do Suboficial Raul Inácio de Medeiros, os pilotos italianos decolaram com um aeroplano Savoia-Marchetti S-62 (similar ao S-64), para um voo de testes. Os três tripulantes ocuparam os seus lugares, cabendo a Del Prete a pilotagem. Foi dada a partida no motor, o Savoia-Marchetti afastou-se lentamente do atracadouro e iniciou a decolagem tomando o rumo sul da Baía de Guanabara.

A aeronave evoluía numa altura calculada em 50 metros quando subitamente, numa curva fechada para o lado direito, projetou-se contra as ondas. Rapidamente foram providenciados socorros, deslocando-se diversas lanchas da Escola de Aviação Naval da Marinha do Brasil ao local do acidente.

Desenho do quarto do hospital onde agonizava Del Prete, publicado em um jornal carioca e reproduzido pela imprensa recifense

Os três tripulantes foram encaminhados imediatamente à enfermaria para receberem os primeiros socorros.

O ferido mais grave era Del Prete, que tinha fraturado ambas as pernas, além de se queixar de fortes dores no tórax. A notícia do acidente rapidamente tomou conta da cidade, sendo várias vezes transmitidas em boletins especiais das rádios locais. A imprensa passou a acompanhar o assunto, divulgando entrevistas, editoriais e matérias especiais.

O suboficial brasileiro ferido na queda do avião, sendo visitado por Ferrarin

Na Casa de Saúde São Sebastião, Del Prete sofreu algumas cirurgias, mas seu estado foi piorando gradativamente. A amputação da perna direita não impediu que a infecção se generalizasse e Carlo Del Prete faleceu ao amanhecer do dia 16 de agosto, oito dias após o acidente.

As Homenagens e o Legado da Aventura 

O corpo foi embalsamado, levado a Embaixada Italiana, onde ocorreu o velório. A romaria à representação diplomática foi impressionante para a época. Cálculos efetuados mostraram que cerca de dez mil pessoas passaram em frente à urna funerária, em um último adeus ao herói que deu a vida na conquista de um ideal. Seguiu-se a missa de corpo presente, após foi realizado o cortejo a pé, saindo do Bairro das Laranjeiras, passando pelo Catete, Flamengo, cruzando a Avenida Rio Branco para chegar à Praça Mauá, onde se encontrava atracado o navio italiano “Conte Rosso”. Este transatlântico estava casualmente de passagem pelo Rio de Janeiro, tendo Gênova, na Itália, como ponto de destino.

Pôr onde o cortejo passava, as ruas estavam repletas. Um jornalista comentou que “O ambiente era de irresistível sugestão dolorosa e a população ali estava presente, pois o nome do herói, desde a ocasião do acidente, havia alcançado a simpatia do povo, comovida e triste com o desenlace”.

Com o retorno de Ferrarin a Itália, o mesmo passou a se dedicar a descrever sua viagem em companhia de Del Prete. Logo lançou um livro intitulado “Voli por il Mondo” (Voando pelo mundo), que foi um estrondoso sucesso de vendas. Em sua obra Ferrarin enaltece a atenção recebida dos brasileiros, especialmente os fatos ocorridos em Touros e o tempo em que estiveram em Natal, criando na Itália a ideia de presentear o Rio Grande do Norte pelo apoio ofertado aos seus pilotos.

Capa do livro de Ferrarin

Para o governo de Mussolini, a morte de Del Prete significou o fim dos “raids” com apenas uma aeronave. No futuro, apenas esquadrilhas italianas seriam patrocinadas pelo governo e, desta forma, Natal receberia a sua “Coluna Capitolina”.

Em 1931, comandada por Ítalo Balbo, uma esquadrilha de aviões “Savoia” amerissava no Rio Potengi, enquanto um navio de guerra italiano transportava no seu porão o nosso mais importante regalo presenteado a Natal por uma nação estrangeira.

Quadro existente na Itália, mostrando a chegada de Balbo a Natal

Tempos depois, em outro famoso “raid”, Balbo e outra numerosa esquadrilha de “Savoias”, visitaram os Estados Unidos, mais precisamente a cidade de Chicago. Esta cidade receberia idêntico presente que anteriormente fora ofertado a Natal. Vale frisar que Chicago é uma cidade que possui uma das maiores colônias de imigrantes italianos nos Estados Unidos, sendo compreensível à oferta do presente. Já Natal, com tão poucos imigrantes italianos entre a sua população, recebeu o distinto artefato unicamente pela disposição de ajudar seus visitantes, qualidade natural do seu povo.

Pode-se argumentar que neste período o governo Italiano desejava uma aproximação diplomática mais forte com o governo brasileiro e que a Coluna nada mais era que um “mimo” para sacramentar esta relação. Mas já que a ideia era esta, por que então não doar a antiga Coluna para a Capital Federal, o Rio de Janeiro? O monumento ficaria ótimo em alguma praça de Copacabana.

Postal italiano mostrando a Coluna Capitolina em seu primeiro local de exibição em Natal, próximo ao porto

Outra argumentação poderia ser que a Coluna Capitolina foi doada pelos italianos a Natal para “amaciar” a instalação de uma futura agência de aviação comercial daquele país na cidade. Com isso os italianos desejavam marcar sua posição em uma das mais importantes estações de aviação a nível mundial, fazendo companhia as empresas de aviação de franceses, alemães e norte-americanos já instaladas por aqui. Mas este fato só ocorreria alguns anos depois.

Daí surge uma questão; para conseguir a instalação deste ponto de apoio aeronáutico, os italianos necessitariam se doar um dos seus preciosos artefatos históricos com 2.000 anos?

Mesmo sem receber igual homenagem, em novembro de 1999, a Prefeitura do Rio de Janeiro inaugurou um busto homenageando o piloto Carlo Del Prete, em uma praça que leva o seu nome, no bairro das Laranjeiras.

Já em Natal, até há pouco tempo, a Coluna Capitolina, nosso maior presente, estava embaixo de um viaduto e apenas por iniciativa dos membros do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, esta peça atualmente repousa ao lado desta casa que preserva a memória da nossa terra.

O Livro “Os Cavaleiros dos Céus-

A Saga do Voo de Ferrarin e Del Prete 

Em 2009, quando fazia parte da Fundação Rampa, junto com Fred Nicolau criamos o livro “Os Cavaleiros dos Céus-A Saga do Voo de Ferrarin e Del Prete”. Esta obra possui 184 páginas, mais de oitenta fotos e mapas, com tiragem de 1.150 exemplares, projeto e coordenação editorial de José Correia Torres Neto e está inscrito na Biblioteca Nacional com ISBN 978-85-909424-0-5, com direitos autorais pertencentes aos autores.

Este trabalho contou com o apoio da Força Aérea Brasileira, Embaixada da Itália no Brasil, UNP-Universidade Potiguar, Prefeitura Municipal de Touros, entre outros.

Para maiores detalhes sobre este trabalho, sugiro aos leitores verem os links abaixo;

http://tribunadonorte.com.br/noticias/114722.html

http://www.dnonline.com.br/ver_noticia/13358/

http://www.thaisagalvao.com.br/tg/visualizar/11461/blog

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