A REDESCOBERTA DA GRUTA DOS TAPUIAS

Uma Aventura que Começou com uma Notícia

Publicada há Mais de Oitenta Anos

Autor – Rostand Medeiros

Folheando a coleção de jornais antigos do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, me deparei com uma interessante notícia, de bastante interesse para a espeleologia e a arqueologia potiguar.

Jornal “Diário de Natal”, edição de 7 de abril de 1928.

Na primeira página, da edição de 19 de abril de 1928, do antigo jornal potiguar “Diário de Natal”, encontra-se um artigo intitulado “A Gruta dos Tapuias”, onde um articulista que se intitulada apenas “Dapraia”, escrevia da cidade costeira de Touros, no dia 7 de abril de 1928 e narrava a visita que havia realizado a uma gruta, na zona rural de Santana do Matos, que ele afirmava ter sido um dos últimos abrigos indígenas que habitaram nosso sertão.

Uma descrição rara

Seu artigo, bem escrito e repleto de detalhes, mostra que no final do século XVIII, os portugueses dominavam praticamente toda a região. Nas vizinhanças de um arraial denominado São Miguel, próximo a Vila de Santana dos Matos, viviam refugiados em uma gruta, no alto de uma serra, um dos últimos grupos de índios Tapuias que viviam em liberdade. O narrador informava que a gruta estava situada a três quilômetros da estrada que dava acesso a Serra de Santana, consistindo de um abrigo de granito, com duas fendas verticais, onde em seu interior poderia se abrigar um grupo de até vinte pessoas, que ficariam satisfatoriamente protegidas dos raios do sol e da chuva. O local onde se localizava o abrigo estava em um ponto que proporcionava uma excelente visão da região, sendo um ótimo ponto estratégico.

Ainda segundo “Dapraia”, sem fornecer quem, ou de onde conseguiu as informações, os indígenas que habitavam a gruta no alto da serra, sobreviviam através do comércio que mantinham com um mestiço (que em uma parte mais adiante do texto, é tratado como “negro”) que procedia da várzea do rio Açu em direção a região do Brejo Paraibano. Na passagem deste almocreve, os índios trocavam carnes, couros e peles de diversos animais que eles caçavam, por fumo, cachaça, pequenos espelhos, alguma louçania e outras quinquilharias. O acordo mantido entre os Tapuias e o negociante era o sigilo absoluto, para evitar a prisão e morte destes indígenas.
Um dia, sem uma razão aparente, o negociante denuncia a existência do grupo e os habitantes da região realizaram uma expedição que culmina no total extermínio do grupo. Ainda segundo o articulista “Hoje ninguém conhece aquele rochedo escalvado e nu, e pesado e negro, como a traição que simboliza quase lendário, a não ser algum caçador que se vá abrigar dos raios inclementes do sol, ou algum turista ousado que, como eu, fui reviver uma página do passado, em momentos deliciosos, no augusto silêncio das grutas abandonadas”.
O autor deste antigo artigo não comenta qual a origem do grupo sitiado, nem maiores informações.

O homem que procura pinturas rupestres

Diante de tão interessante e controverso relato, como praticante da espeleologia há mais de vinte anos no Rio Grande do Norte, não poderia deixar de tentar chegar a este lugar e conferir se a Gruta dos Tapuias existia ou era um logro deste antigo articulista.

A caminho de Santana dos Matos.

Observando mapas atuais, percebi que realmente existe ao sul de Santana do Matos, uma estrada que sobe a Serra de Santana e a partir de outros caminhos, é possível chegar a região do Brejo Paraibano. Esta era uma boa indicação, pois sabia que muitas das atuais estradas vicinais existentes pelo interior do sertão nordestino, são as mesmas estradas que eram utilizadas no passado. Seria a estrada no mapa, a mesma do antigo jornal?
Reuni-me ao companheiro da SEPARN – Sociedade para Pesquisa e Desenvolvimento Ambiental Cultural e Histórico do Rio Grande do Norte, Jeová Costa França e seguimos para a região de Santana do Matos, cidade a qual não conhecia. A única referência que possuía eram algumas notícias vinculadas na imprensa, que comentavam sobre um cidadão que “descobria pinturas rupestres” no meio do sertão e trabalhava com os pesquisadores da arqueologia da UERN – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, de Mossoró.
Já na zona rural do município de Santana dos Matos, fomos informados que próximo ao lugarejo conhecido como Residência, na propriedade denominada Cruzeiro, morava um senhor conhecido como “Antônio de Mariquinha” e seu filho Gilson, que poderiam informar algo sobre esta gruta.

Igreja Matriz de Santana dos Matos, dedicada a Nossa Senhora Santana.

De Residência a propriedade Cruzeiro, à distância percorrida gira em torno de quatro quilômetros, em estrada carroçável de boa qualidade. Fomos bem recepcionados pela família do Sr. Antônio, onde conhecemos o seu filho, Gilson Luis da Silva, de 35 anos, considerado o maior conhecedor dos sítios arqueológicos existentes na região.
Gilson nos contou que trabalhava na agricultura, ajudando a família na labuta do dia a dia, quando conheceu o professor da UERN, Valdecir dos Santos Junior, mestre em arqueologia e diretor do Núcleo de Arqueologia desta universidade. A partir daí criaram uma parceria e o trabalho entre eles se iniciou no ano de 2002. Até o final de 2007, foram cadastrados 82 sítios arqueológicos existentes na região, junto ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). A maioria destes locais possui registros rupestres na forma de pinturas da denominada Tradição Agreste, sendo todos na região rural de Santana dos Matos, apontando para uma concentração muito grande destes sítios com vestígios arqueológicos neste município. Para efeito de comparação, os municípios vizinhos de Cerro-Corá e Angicos, possuem respectivamente 16 e 18 sítios arqueológicos.

As informações sobre a gruta

Buscamos mostrar a Gilson e sua família as informações que possuíamos sobre a Gruta dos Tapuias. Mas para nossa decepção e surpresa, Gilson não conhecia o local, nem sequer tinha ouvido falar desta gruta, mas sabia de uma pessoa em Santana dos Matos que poderia nos ajudar.

Seguimos em direção à cidade, que fica a 30 quilômetros da propriedade Cruzeiro. Onde Gilson buscava um amigo por nome de Pedro das Virgens, funcionário da prefeitura local, que gostava de “dar umas caçadas” na região e conhecia muita coisa. Encontramos um senhor na faixa de cinquenta anos, tranquilo, com um largo sorriso no rosto e que indicou, para nossa alegria, que a informação da gruta era verídica. Descrevendo o antigo relato ao nosso informante, este confirmou que as informações do desconhecido articulista “Dapraia”, escritas há oitenta anos, só poderiam ter sido feitas por alguém que esteve no local. O que nosso antigo escritor chamou de “arraial”, é na verdade a fazenda São Miguel, onde em suas terras está situada a gruta, sendo esta uma das maiores propriedades da região.
Seguimos o caminho indicado, onde deixamos nosso carro à beira da estrada de terra batida, no inicio da “Ladeira da Coãn” que sobe a Serra de Santana. Com uma altitude máxima de 840 metros, o visual da imponente serra é espetacular.

A pedra circular, no centro da foto e no alto da serra, é o bloco de granito onde está a Gruta dos Tapuias.

Gilson comentou que a partir desta ladeira, os antigos viajantes poderiam escolher entre três estradas para alcançar a região do Seridó potiguar e depois a Paraíba, eram as estradas do Cabugizinho, Fervedeira e Jaú, muito utilizadas por almocreves e comboieiros no passado, que utilizavam tração animal para o transporte de mercadorias.
Observando a região com a ajuda de binóculos, confirmamos que “Dapraia” realmente visitou o local, pois calculamos a distância da estrada a da região da gruta, em torno de três a quatro quilômetros. Transportávamos oito litros de água e uma rapadura e iniciamos o caminho para a gruta quase as onze da manhã.

As Surpresas do Caminho

A trilha existente segue primeiramente em declive, depois vai beirando um riacho que estava completamente seco na ocasião. É uma região de caatinga fechada, onde se deve andar com cuidado e atenção. Muitos mandacarus, facheiros, com seus pontiagudos espinhos, estão às margens da picada.

Caminho para a gruta.

Em certo ponto da caminhada, nos deparamos com uma grande parede de pedra, com mais ou menos sete metros de altura, e quase dois metros de espessura. Gilson comentou que a estrutura fazia parte de uma antiga barragem privada, da qual não sabia o nome, construída em 1941 e destruída durante as enchentes de 1958. Exploramos o local e fiquei imaginando o trabalho que foi construir esta obra, utilizando braços humanos e tração animal.

Restos da antiga barragem.

Seguimos a caminhada agora em aclive, devagar, em meio a um caminho de pedras soltas, que compõem o leito seco do rio que abastecia a antiga barragem. Ao meio-dia o calor era insuportável, mas a ideia de conhecer este estranho lugar animava o grupo. Durante esta parte do caminho, contemplamos muitos lajedos de pedras, que na época do inverno se transformam em corredeiras. Mais um declive para aliviar e depois mais um aclive para penalizar e o altímetro do GPS marcando uma altitude de 430 metros.

O Ponto a ser alcançado no alto da serra.

Em dado momento paramos para descansar e já contemplávamos a pedra onde se encontra a Gruta dos Tapuias. Iniciamos a ultima parte da nossa subida. Próximo ao final, a vegetação da área já não era tão fechada, mostrando que existe retirada de madeira no local. Com a vegetação mais rala, o sol cobrava um preço alto pela nossa aventura. Agora era só ascensão, de vez em quando parávamos um pouco, seguindo devagar, mas sempre progredindo. Conforme subíamos tínhamos uma bela visão da região.

A Gruta dos Tapuias

Finalmente o grupo chegou ao grande bloco de granito que compõem a Gruta dos Tapuias, sendo esta rocha uma estrutura que possui em torno de 20 metros de altura e uns 3.500 m² de área. Como descreve “Dapraia”, duas fendas servem de entrada, onde uma pequena escalada coloca a pessoa dentro de uma parte da gruta.

Pedra dos Tapuias

Como ponto de observação, quem está neste local, não perde nada do que ocorre na região, em nenhuma das direções.
Durante nossa exploração, infelizmente não foi encontrado nenhum registro de pinturas rupestres, ou de material lítico, ossos ou de outros vestígios que indicassem ter sido o local utilizado em tempos passados e que ali ocorreu uma grande atrocidade. Existe um local onde o solo é composto de sedimentos e uma escavação poderia, ou não, comprovar se o abrigo foi utilizado pelo grupo descrito no antigo artigo. Neste local, a leitura do altímetro do GPS confirmou 743 metros de altitude.

Fendas de acesso a gruta.

Espeleologicamente a Gruta dos Tapuias é um abrigo formado pelo deslocamento, ou desgaste, de grandes rochas graníticas, que ao longo de milhões de anos, se acomodaram de tal forma, que foram criados naturalmente pequenos abrigos, sendo esta a característica normal da formação de cavernas graníticas nesta região.

Vista da parte externa, a partir da entrada da Gruta dos Tapuias.

Ficamos explorando tranquilamente o local e o silêncio no alto da serra foi quebrado pela presença de um bando de macacos-prego, que ruidosamente chamava nossa atenção por ocupar seu território.
Após um tempo para descanso, iniciamos o retorno. Durante o trajeto, tal era o nosso desgaste, que todo nosso estoque de água acabou tornando mais penosa à caminhada e só alcançamos o nosso veículo às cinco e meia da tarde.

Através da leitura de obras como as produzidas por Olavo Medeiros, Fátima Martins Lopes e outros, percebi que não seria impossível, no final do século XVIII, um pequeno grupo de indígenas dos Tarairiú continuar a sua luta pela sobrevivência em um local como a Gruta dos Tapuios. Estes indígenas poderiam ser das tribos Genipapo, dos Paiacu, dos Panacu-Açu, Caratiú, Ariú, ou os aguerridos Janduís, os Canindés, os Coremas, Panatis ou dos Pegas, que furtivamente buscavam manter um modo de vida fadado à extinção, em uma terra ocupada por brancos europeus, seus descendentes mestiços, seus gados e suas lavouras. Li também que estes mesmos brancos não precisariam de muito estímulo, nem teriam maiores problemas de consciência, para massacrar um grupo errante de indígenas e manter as suas posses.
Mesmo comprovando que o articulista “Dapraia” havia estado no local, pois as suas descrições são extremamente fiéis ao local visitado, não concluímos se a história sobre o abrigo indígena era real, ou uma fantasia de um aventureiro, em um momento idílico, há oitenta anos. Infelizmente não consegui descobrir a identidade do autor do artigo, se habitava realmente em Touros e o porquê da sua visita a Gruta dos Tapuias.

Fim da aventura.

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O CARNAVAL ESTÁ CHEGANDO

Relembrando o Lança Perfume

Consta que foi no início do século XX que a empresa Rhodia da Argentina começou a fabricar um desodorante aromatizado, composto quimicamente por éter, clorofórmio, cloreto de etila e uma essência perfumada. Essa mistura era colocada em tubos de latão sob forte pressão e quando entrava em contato com o ar, evaporava rapidamente.

No Brasil a ideia de quem importou este produto para o carnaval, era repetir nos salões da elite o que acontecia nas ruas, quando os foliões mais humildes jogavam águas perfumadas uns nos outros. Rapidamente aceito nas festas de carnaval de todo o país, servia para aromatizar as batalhas de confete, os corsos e os bailes carnavalescos. Nos nobres salões de momo, o lança perfume serviu para aproximar as pessoas, onde alguém lançava a substância em outra pessoa, dando a sensação fria e perfumada. Isso se tornou um símbolo do carnaval, principalmente o carioca e ninguém pensava em inalar o produto.

Nos carnavais que se seguiram o lança perfume virou uma praga de norte a sul do Brasil. Nos salões eram travadas verdadeiras batalhas de esguichos, sem distinção de sexo e sem maiores consequências graves. O produto era vendido em lojas de brinquedos, ou em bazares de produtos carnavalescos, onde era encontrado junto com mascaras e serpentinas.

Mas com o tempo o pessoal começou a inalar e a situação começou a virar um problema.

Como os jornais viam um típico usuário de lança perfume.

Após algumas mortes por inalação excessiva, associada à embriaguez, ou casos de pessoas que morreram em quedas devido ao estado de alteração produzido pelo lança perfume, o polêmico jornalista carioca Flavio Cavalcanti inicia uma campanha pela proibição do produto. Flavio se tornou conhecido pela sua maneira de falar agressivamente na extinta TV Tupi e de tirar e colocar os óculos constantemente. Sua campanha moralizadora é bem aceita pelo não menos polêmico Jânio Quadros, que em 1961 era o presidente do Brasil. Logo um decreto acabou proibindo a importação do produto para o Brasil.

O lança perfume é considerado uma droga, onde o seu uso ou porte pode levar à prisão por posse ou tráfico. Apesar de não causar dependência física, não significa que deixe causar problemas. Depois de absorvidos pela mucosa pulmonar, suas substâncias são levadas para o sistema nervoso central, fígado, rins, medula óssea e cérebro, causando neste último o bloqueio da transmissão nervosa. Quando inalado acelera a frequência cardíaca, podendo o coração chegar até 180 batimentos por minuto. Tem capacidade de destruição de células do cérebro, pode levar o usuário a ter desmaios ou em caso extremos até à morte através de parada cardíaca.

Fonte-Livro "100 anos de propaganda", pág. 35, Abril Cultural.

LUÍS da CÂMARA CASCUDO e os QUIRÓPTEROS

Autor – Rostand Medeiros

Quem nasce no Rio Grande do Norte, gosta de ler livros interessantes, de aprender sobre fatos, pessoas e coisas que valham a pena serem conhecidos, dificilmente vai deixar de ler alguma referência, algum livro, ou mesmo episódios da vida de Luís da Câmara Cascudo (1898-1986).

Luís da Câmara Cascudo

Felizmente para este leitor, ele estará diante de toda uma plêiade de obras que vão dos estudos folclóricos, as pesquisas históricas, antropológicas, etnológicas, sociológicas e de outras áreas do conhecimento.

Este grande pesquisador das manifestações culturais brasileiras deixou um extenso material cujo conjunto é considerável em quantidade e qualidade, onde mais de trinta dos seus livros são listados como essenciais ou no mínimo importantes para muitas áreas da pesquisa.

Mesmo tendo passado toda sua vida na provinciana Natal, distante dos grandes centros culturais do país, Cascudo obteve reconhecimento nacional, internacional e sua obra ainda não foi superada.

Romance de Costumes

Como leitor contumaz do “Mestre Cascudo”, como ele é conhecido pelos potiguares, na sua vasta produção li poucas referências às cavernas, a espeleologia e seus assuntos correlatos. Até então tinha lido somente pequenos apontamentos sobre lendas envolvendo cavernas, a utilização de nomes ligados a espeleologia na toponímia de pontos geográficos pelo Brasil afora e outras referências. Imaginava que para Cascudo, a espeleologia e o universo de assuntos que rodeiam esta área do conhecimento eram limitados. Talvez um assunto que não tenha despertado o seu interesse?

Foi então que um amigo me apresentou um livro que o próprio autor definia como um “romance de costumes”, o único escrito por ele. Este livro é “Canto de Muro”.

A primeira edição em 1959.

Confesso que depois de ler “Geografia dos Mitos Brasileiros”, “História da Cidade do Natal”, “Dicionário do Folclore Brasileiro”, “Viajando o Sertão”, “Vaqueiros e Cantadores” e outras maravilhas do universo de Cascudo, aos quais tenho como referências obrigatórias em minhas pesquisas, eu não me animei em conhecer este “Canto de Muro”. Imaginava esta obra como sendo uma viagem literária do pesquisador, por uma área das letras “nunca d’antes navegada”.

Comecei a folhear o livro, onde os personagens que se apresentavam a minha frente eram um escorpião chamado “Títius”, ou a aranha “Licosa”, ou ainda a lagartixa “Vênia” e outros. Após o exame inicial, fiquei com vontade de devolver na mesma hora o objeto oferecido.

Mas como este amigo havia tido a gentileza de me emprestar seu livro, me entregando com um largo sorriso de satisfação no rosto, tive vergonha de devolvê-lo.

Em todo caso imaginei ir para casa aproveitar o “Canto de Muro” para contar algumas “historinhas de animais” para minha filha Tainá, de apenas sete anos de idade e entretê-la na hora de dormir.

Ao folhear mais calmamente o romance de Cascudo, imaginando a “historinha” mais interessante para contar, quem verdadeiramente foi ficando no “Canto do Muro” fui eu.

O livro é verdadeiramente maravilhoso.

Cascudo fez um “romance de costumes”, mas de animais.

E que animais são estes? A maioria são justamente as espécies menos enaltecidas pelo homem. São aquelas que vivem literalmente no “Canto de Muro”. Passeiam por suas páginas aranhas, besouros, ratos, baratas, cobras, escorpiões e outros que vivem escondidos nos quintais das casas velhas, entre troncos decaídos, buracos, ripas, tijolos quebrados e em outros locais que são rejeito e entulho da desenvolvida humanidade.

O autor age unicamente como um narrador, em meio a uma primorosa escrita, aonde vai trazendo de forma romanceada, os aspectos naturais destes animais. Os capítulos se seguem como se fossem uma descrição feita em uma caderneta de campo de um pesquisador atento e minucioso. Cascudo comentou que desde cedo fora seduzido pela história natural, que foi se aprimorando quando captou, e anotou os episódios da vida dos protagonistas do livro. Ele realizou estas anotações, principalmente nos jardins e quintais da casa paterna, a chamada “Vila Cascudo”.

Com o passar do tempo, o homem crescia, mudanças surgiram em sua vida, seus caminhos literários se expandiam, mas nunca deixou de observar e anotar, desinteressadamente, o comportamento de alguns animais.

“Quiró”

Para minha satisfação, entre os animais observados e descritos por Cascudo, está o mais representativo membro da fauna cavernícola, os morcegos.

No terceiro capítulo vamos encontrar “O Mundo de Quiró”, onde o autor inicia com a citação de certo “Sr. Hemenegildo”, proprietário de um pomar em Natal, que resoluto questionava;

“- Faça-me o favor de dizer: para que Nosso Senhor fez o morcego?

Logo após o escritor mostra uma das características mais conhecidas dos quirópteros, a forma como descansam;

“Quiró está com as unhas dos pés fincadas numa saliência da parede, voltado para ela, e com a cabeça para baixo, dormindo. Não sei de outro vivente que durma desta maneira. Dorme todo o dia e detesta a luz e mesmo as cores garridas e atraentes.”

Vai descrevendo de forma clara e simples o único mamífero voador, comparando-o a outros animais e de como utilizava suas características naturais.

Em meio a deliciosas informações biológicas, que certamente podem fazer muitos cientistas desta área torcerem o nariz, Cascudo afirmou que suas observações sobre os morcegos foram feitas em expedições noturnas no centro de Natal, nos bancos da tradicional Praça Sete de Setembro, defronte ao antigo Palácio do Governo.

Cascudo não estava escrevendo um chato, monótono e, como muitos realizam, inútil texto acadêmico. Suas informações fluem de uma maneira tranquila  fazendo com que o leitor, de forma fácil, conheça sobre o peculiar mundo destes animais.

Como de praxe em suas obras não faltam citações explicativas de figuras históricas, como a do naturalista e escritor francês, George Louis Buffon, que tinha o título de conde de Leclerc (1707 – 1788), que afirmava serem os quirópteros “mais um capricho que uma obra regular do Criador”.

Lembrava o jesuíta e naturalista italiano, Lazzaro Spallanzani (1729 – 1799), aquele que em 1756 cegou quatro morcegos, colocou todos em um quarto escuro, com uma teia de fios verticais embebidos em forte visgo, para assim prender os pequenos animais ao menor esbarrão e, mesmo sem compreender, percebeu que os morcegos conseguiam se desviar dos finos obstáculos.

Ou uma citação do também naturalista francês, Georges Cuvier (1769 – 1832), que descreveu aspectos da gênese destes mamíferos e em 1797 batizou a família dos morcegos com o termo “quiróptero”.

Afirmava que o mamífero estava em terras brasileiras desde o início dos tempos, mas comentava com certa decepção que estes animais não tinham mito, ou lenda na memória popular no Brasil, servindo “apenas para fantasias de carnaval”.

Cascudo não procurou desfazer a triste lenda que afirmava “serem os morcegos, uma evolução dos roedores mortos”. Mostrava inclusive as ligações que havia entre os termos “morcego” e “rato” nos idiomas inglês, alemão e francês. Mas não fechou a questão da falsa evolução voadora dos roedores e deixava o tema em aberto.

Outra faceta dos quirópteros que o autor comentou, foi em relação ao sentido de orientação destes animais. Apontando que milhares de anos antes, estes já possuíam um radar.

Cascudo, a Cobaia dos “Morcegos-Vampiro”

Entre as espécies deste mamífero, a que mais chamou a atenção do folclorista foram os membros da família dos morcegos-vampiro (Desmodus rotundos). Cascudo buscou detalhar a forma como estes estranhos animais agiam em busca do seu alimento. Lembrou que foi o cronista português Gabriel Soares de Sousa, em seu “Tratado Descritivo do Brasil em 1587”, o primeiro estudioso a analisar a ação dos morcegos-vampiro.

Cascudo chega a afirmar que em algumas ocasiões, em locais onde proliferavam estes mamíferos, o famoso folclorista chegou a dormir despido da cintura para cima, na intenção de se transformar em cobaia. Seu desejo era conhecer os mecanismos do analgésico que estes animais utilizam para manter a vítima adormecida enquanto retiravam sangue.

Devido à tez bastante clara da sua pele e sua compleição forte, o pesquisador era um alvo fácil para estes quirópteros. Mas afirmava decepcionado que nunca foi mordido. Ele não podia então “dar seu depoimento pessoal sobre a ação destes mamíferos”.

Contudo informa que em uma ocasião viu um destes animais “saborear” o sangue de um jumento “Catolé” e este nem dar atenção ao banquete que faziam nele. Relembrou que no antigo Brasil colonial, os homens do campo atribuíam ao “Saci-Pererê”, a responsabilidade pelas sangrias nos pescoços e dorsos dos diversos tipos de alimárias que eram utilizados nas antigas fazendas.

Para quem gosta da espeleologia e não tem medo de quirópteros, o terceiro capítulo de “Canto de Muro” é uma ótima pedida de leitura.

Luis da Câmara Cascudo, nas últimas páginas, confessa que esta obra parecerá estranha aos que haviam lido seus trabalhos anteriores. Ele não pensava em publicá-lo, se assim o fizesse seria com um pseudônimo. O amigo e editor José Olympio aceitou as condições, mas a família e outros amigos convenceram-no a assinar o “Canto de Muro”.

Lançado em 1959, quando o autor tinha então setenta e três anos foi um sucesso e uma surpresa para a intelectualidade brasileira. Este livro teve mais três edições, todas acolhidas de forma positiva por parte do grande público, principalmente aqueles que não se entregam ao cotidiano, que com olhos atentos sempre focalizam as coisas naturalmente interessantes. Mesmos as pequenas.

P.S. – Desde 1990 que participo de grupos dedicados ao conhecimento e preservação de cavidades naturais no Rio Grande do Norte, visitando estes ambientes na Região Oeste do estado e vendo muitos morcegos. Na foto abaixo estou na Gruta Três Lagos, no município de Felipe Guerra.

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O RICO MANUEL MACHADO E A SUA VIÚVA

Autor – Rostand Medeiros

Dizem que no início do século XX, o comerciante Manuel Machado, nascido em Portugal era o homem mais rico de Natal. Consta que sua prosperidade econômica vinha principalmente do seu comércio.

Pela propaganda que vemos mais adiante, dá para ver que ele trabalhava com importação e exportação de uma grande gama de produtos, muitos de primeira necessidade, e ainda tinha uma participação em negócios marítimos.

Logicamente que apenas esta propaganda não explica o poder econômico deste comerciante. Aparentemente são os investimentos em terras, onde ele tinha muita visão na hora das aquisições, que fez aumentar seus rendimentos. Era casado com a natalense Amélia Duarte Machado, que lhe proporcionou uma longa união, mas que não deixou filhos.

Manuel Machado faleceu na metade da década de 1930 e começa uma interessante história envolvendo a sua mulher, que passa a ser conhecida apenas como a Viúva Machado.

Ela se torna muito rica, que vive de uma polpuda renda deixada pelo espólio do marido. Mas que ao invés de abrir seu suntuoso palacete (construído em 1910) para a provinciana sociedade natalense, localizado próximo a Igreja do Rosário, ela se fecha em sua residência. Consta que ela recebia poucas visitas, saia muito pouco de casa (até porque tinha uma igreja na porta) e ainda sofria de uma estranha doença, onde se afirma que suas orelhas eram muito grandes.

Palacete da Viúva Machado.

Daí as pessoas de Natal associavam este estranho fato ao de não ter filhos, dela ser viúva e diziam que isto tudo seria um “castigo divino”. Outros comentavam que a Viúva Machado teria realizado um “pacto com o cão” para ficar rica e agora pagava pelos seus erros com esta doença.

Em meio à ignorância reinante, as pessoas tolas e invejosas perceberam que a Viúva Machado, talvez para compensar a ausência de filhos naturais, adorava conviver com crianças dos poucos amigos e dos seus parentes.  Não demorou muito e se espalhou na cidade ela comia o fígado (ou o “fígo”) de crianças. Consta que Amélia teria sido até mesmo agredida verbalmente e sido alvo de chacota publicamente.

Muitas mães de Natal, ao longo de muitos anos, aproveitaram a deixa para espalhar o terror entre seus rebentos, dizendo que se eles não se aquietassem, “a Viúva Machado vinha comer seu fígado, para evitar que suas orelhas crescessem”. A coitada da viúva passou a ser conhecida como “papafigo” e isso só aumentou seu isolamento. Amélia Duarte Machado faleceu no início da década de 1960.

Provavelmente ela sofria de uma rara doença denominada Síndrome de Treacher Collins. Esta nada mais é que um distúrbio genético que gera defeitos no crânio e nas características faciais do seu portador. Descrita em 1900 pelo cirurgião inglês Edward Treacher Collins, esta doença afeta o tamanho e o formato das orelhas, pálpebras, maças do rosto, maxilar inferior e superior. A Síndrome de Treacher Collins pode ser grave em alguns casos e a maioria dos que são afetados não possuem problemas mentais.

Pessoalmente acredito que além de sua rara doença, Amélia Duarte Machado padeceu de duas enfermidades típicas existentes entre a sociedade de Natal; a inveja e a eterna mania de dar conta da vida alheia.

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O ÁS DA AVIAÇÃO ALEMÃ NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL QUE TRABALHOU EM NATAL

Autor – Rostand Medeiros

A história da aviação em Natal, no período anterior a Segunda Guerra Mundial, é emocionante e inigualável. Entretanto, pouco destes fatos históricos são conhecidos do público em geral. Poucos são os livros que contam as aventuras dos aviadores durante as décadas de 1920 e 1930, quando eles cruzavam os céus em suas precárias máquinas aéreas, viajando através do Atlântico Sul quase sem equipamentos e chegando a nossa provinciana capital.

Ao realizar uma pesquisa no Arquivo Público do Rio Grande do Norte, acabei me deparando com um extenso arquivo contendo fichas de pedido de vistos, para passaportes de vários pilotos estrangeiros que vinham trabalhar em Natal. Pesquisando em outros centros de informações, descobri que um destes pilotos viria a se tornar um dos principais ases da aviação de caça noturna alemã na Segunda Guerra Mundial, superaria a derrota da Alemanha e terminaria sua carreira como general da nova Força Aérea Alemã, na então Alemanha Ocidental.

Um dos aviões Dornier DO-26 sendo posicionado no Rio Potengi. Ao fundo a Praia da Redinha.

Os alemães chegam a Natal

Esta história tem início com a chegada da aviação comercial alemã no Brasil em 1926, quando foram iniciados estudos técnicos para implantação de linhas aéreas. Neste mesmo ano, um hidroavião Dornier Wall, chegava ao Rio de Janeiro, realizando o primeiro vôo comercial no país. Diferentemente dos franceses, os alemães pouco deram atenção à região Nordeste no início de suas operações, tanto que a empresa Sindikat Condor, estabeleceu em 1927 linhas aéreas entre Porto Alegre e o Rio de Janeiro e outras rotas para o interior do estado gaúcho, com serviços de transportes de passageiros e cargas.

Apenas em 1930, conduzido pelo diretor Fritz Hammer, o hidroavião “Guanabara” chegava a Natal. Este alemão vinha com a missão de instalar uma base de hidroaviões na cidade. O então governador Juvenal Lamartine apoiou incondicionalmente o projeto, isentou de taxas a empresa e cedeu uma área para a instalação de uma base próxima à foz do rio Potengi, na conhecida Praia da Limpa (Montagem). Em fevereiro de 1930 é inaugurada a linha entre Natal e Porto Alegre e em Março deste mesmo ano tem início os planejamentos para uma ligação entre a América do Sul e a Europa.

Em 3 de fevereiro de 1934, a Deutsche Lufthansa implanta o primeiro serviço aéreo transoceânico do Mundo, onde em dois dias e meio uma carta viajava entre Berlin e o Rio de Janeiro, sendo este um avanço espantoso para a época. O defeito deste sistema estava no fato das aeronaves vindas da Europa necessitarem amerissarem no meio do Oceano Atlântico, para depois ser içada por um navio-catapulta, abastecida e depois catapultada em direção a Natal. Algum tempo depois este sistema foi desativado com a entrada de novos aviões com maior raio de alcance.

A atuação dos alemães crescia fortemente na região, chegando a ponto de, em 1936, estarem transportando quase 16.000 pessoas. Sobre este dado é importante lembrar que a capacidade de muitas aeronaves neste período, não era superior a 20 passageiros.

Horário da Condor em Natal.

Condor tinha vôos semanais para Rio e Buenos Aires

Em Natal os vôos da Condor eram semanais, com o fechamento da mala postal às dezoito horas da quarta-feira e a partida na quinta, sempre às cinco da manhã. A empresa prometia que o passageiro estaria no Rio de Janeiro em um dia. Para Buenos Aires se chegava em dois dias. Já o serviço transatlântico era uma operação conjunta Condor-Lufthansa, com saídas ás dezoito horas da quinta-feira e chegada em quatro dias a Europa, com escalas em Bathust (na atual Gâmbia), Las Palmas (Ilhas Canárias), Sevilha, Barcelona (Espanha) e Frankfurt (Alemanha). Muitas vezes os horários e dias de partida mudavam, onde a propaganda nos jornais locais sempre solicitava aos interessados, entrar em contato com o agente das empresas na cidade, que em 1935, tinha esta função exercida pela firma Filgueira & Cia, que ficava na Rua Quintino Bocaiuva, próximo à igreja do Rosário.

Em 1939, os alemães implantaram o avião que provou ser o mais confortável, o mais silencioso e o mais caro do mundo na sua época, o quadrimotor Focker Wulf 200. Transportava quatro tripulantes, vinte e oito passageiros e era considerado um fantástico salto de qualidade em termos de viagens aéreas. Para efeito de comparação seria como Natal, nos dias de hoje, fosse rota normal para o novo super-avião Airbus A-380.

O piloto Ernst Wilhelm Modrow.

Alemães se mantinham à distância

Em 2 de janeiro de 1939, o piloto Ernst Wilhelm Modrow, de 30 anos, natural de Stettin (atualmente Szczecin, na Polônia), recebia a sua autorização de viagem para Natal. Provavelmente este não era o primeiro pedido de ingresso de Modrow em Natal, pois desde 1930 ele já trabalhava na América do Sul, primeiramente na empresa aérea colombiana SCADTA, uma empresa de aviação com controle alemão, e a partir de 1937, como responsável pelas rotas turísticas da Lufthansa.

Neste período, a aviação se profissionalizava cada vez mais. Em Natal o movimento de aviões seguindo para o sul do país, ou em direção a Europa, fazia parte do dia a dia, bem como a presença de pilotos e equipes de apoio na cidade. Muitos deles aproveitavam as benesses da cidade, principalmente às praias de águas quentes.

Ficha de entrada no Brasil do futuro ás alemão.

Lendo os jornais da época, percebe-se que os aviadores alemães, talvez pela sua própria natureza mais comedida, não interagiam tão fortemente com a população. Diferentemente dos franceses e italianos, os germânicos ficavam alojados na sua base na Praia da Limpa, mais distantes da convivência direta com a cidade.

Em relação à Modrow, poucas foram às informações sobre a estada deste piloto em Natal. Era apenas mais um dos muitos aviadores estrangeiros de passagem pela cidade. Seu trabalho na América do Sul durou até agosto de 1939.

A partir de setembro, com a eclosão da guerra, Modrow é convocado para a Força Aérea Alemã (Luftwaffe). Segue primeiramente para a frente norueguesa, servindo em um esquadrão de transporte, o KGr. Z.B.V. 108, que utilizava o hidroavião Dornier DO-26. Primeiramente efetuou missões de reconhecimento e de abastecimento de tropas na região de Narvik. Em maio de 1940 seu avião havia amerissado para descarregar equipamentos no fiorde Rombakken, quando foi atacado por caças Spitfire, da Força Aérea Britânica (RAF), e destruído. Mesmo ferido, Modrow foi o único sobrevivente da tripulação.

O hidroavião Blohm & Voss Bv 222

Após sua recuperação, passa um período como instrutor de vôo, seguindo ao encontro de sua unidade, que em 1942 se encontrava sediada na Itália. A ele é destinado o grande hidroavião de seis motores Blohm & Voss Bv 222, um dos maiores aviões de transporte da Segunda Guerra Mundial. Tinha a missão de realizar vôos para a África do Norte, no abastecimento das tropas alemãs do Afrika Korps e retirada de feridos. Modrow concretiza mais de 100 missões de transporte, sendo esta quantidade de missões considerada um verdadeiro prodígio, pois devido a suas dimensões e baixa velocidade, o BV 222 era considerado um alvo fácil para os caças aliados.

Devido as suas habilidades, em 1943 é transferido para um grupo de caça noturna, que tinha a função de destruir bombardeiros ingleses que atacavam diretamente o coração da Alemanha. É designado para o II Grupo do esquadrão NJG 1, baseado em bases na França ocupada.

Símbolo do NJG 1.

Em uma noite de março de 1944, Modrow faria sua primeira vítima sobre a localidade de Venlo, Holanda, provavelmente um caça noturno bimotor do tipo “Mosquito”. Sua segunda vítima é um bombardeiro quadrimotor britânico “Halifax”, seguido por outro bombardeiro quadrimotor do tipo “Lancaster”, também britânico.

Um caçador de Aviões aliados, nos céus noturnos da Europa

O Hauptmann (capitão) Modrow.

O caça de Modrow era um Heinkel HE 219, uma das melhores aeronaves na categoria de caças noturnos já fabricados. No chão a sua aparência não era das melhores, pois a aeronave fora construída com um grande e desajeitado trem de pouso, um conjunto de antenas na parte dianteira e a cabine para piloto e operador de radar bem à frente da aeronave.

Mas esta aparência era enganadora, no ar este avião era quase imbatível. Possuía um moderno sistema de radar frontal FuG 212C-1 “Lichtenstein”, que servia para a localização dos lentos bombardeiros noturnos aliados. Para derrubá-los, o HE 219 utilizava um revolucionário e inovador modelo de canhões duplos conhecido como “Schräge Musik”, tradução para “Jazz Music”, numa alusão ao ritmo acelerado das bandas de swing norte-americanas.

Heinkel HE 219

Era uma arma impressionante, cujo diferencial estava no fato dela disparar para o alto. Tratava-se de dois canhões de calibre 30 milímetros, instalados na parte traseira da fuselagem, possuindo uma inclinação de 65 graus e disparavam contra a parte baixa e desprotegida dos bombardeiros ingleses.

A ação de caça ocorria normalmente da seguinte maneira; um piloto de caça noturno alemão voava sozinho na noite, sempre apoiado por radares em terra que tinham a função de localizar um bombardeiro. Após marcarem o alvo, transmitiam para o operador de radar do avião atacante a posição da vítima. O piloto do avião caçador seguia para área de ataque, localizava visualmente o alvo, posicionava-se atrás e abaixo de sua presa, passava exatamente sob a “barriga” da desprotegida aeronave, abria fogo e o alvo normalmente era destruído.

Modrow vai desenvolvendo sua capacidade de caçador de forma notável, tanto que em junho de 1944, em duas noites distintas, derruba sete bombardeiros quadrimotores, sendo condecorado com a Ritterkreuz (Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro). Os combates prosseguiram nos meses seguintes e ele novamente obteria grande sucesso na noite de 23 para 24 de setembro de 1944, derrubando quatro quadrimotores ingleses, próximo a Düsseldorf, Alemanha. De suas 34 vitórias confirmadas, 33 foram durante o ano de 1944. Em janeiro de 1945 ele seria condecorado com a Deutsches Kreuz (Cruz Germânica), uma das mais elevadas honrarias da Força Aérea Alemã na Segunda Guerra.

Deutsches Kreuz (Cruz Germânica).

Na noite de 1 de fevereiro de 1945, seu avião HE-219 teve problemas, Modrow e o seu auxiliar, Alfred Staffa, utilizaram o novo sistema de assento ejetável, sendo uma das primeiras tripulações a usar esta nova invenção. Este ás alemão abateria sua última vítima na noite de 5 para 6 de janeiro de 1945, vindo a se render para os aliados ocidentais quando da assinatura do Armistício, em maio daquele ano.

Ao ás Modrow foi creditado 34 vitórias, em 259 missões, incluindo 109 missões como piloto de caça noturno. Na década de 1950, com a reconstrução das Forças Armadas Alemãs, Modrow juntou-se à Bundesluftwaffe, a nova Força Aérea Alemã, onde permaneceu até sua aposentadoria em 1964, quando passou para a reserva no posto de tenente-coronel.

Com relação a sua aeronave de caça, atualmente existe apenas um exemplar do HE 219 sobrevivente em todo o mundo e encontra-se no famoso Museu Smithsonian, em Washington, capital dos Estados Unidos.

Ernst-Wilhelm Modrow faleceu de causas naturais na cidade portuária de Kiel (Alemanha) aos 82 anos de idade, em 10 de setembro de 1990.

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O “PEGA-PINTO” DA RIBEIRA

Autor – Rostand Medeiros

Calma caros leitores deste blog. Não estamos baixando o nível do nosso informativo, nem muito menos recorrendo a baixaria para chamar a sua atenção.

A propaganda

É que em uma antiga edição de “A Republica”, infelizmente sem a data, mas certamente das décadas de 1920 e 1930, encontrei uma sugestiva propaganda de um estabelecimento comercial que ficava na Avenida Tavares de Lyra, número 50, no bairro da Ribeira e possuía o sugestivo nome de “Pega-Pinto”.

Acredito que se não for, deve ser uma das primeiras lanchonetes da cidade. Digo acredito, pois o proprietário Raimundo Medeiros sequer utilizava a palavra “lanchonete” para designar o seu ponto comercial. Talvez o termo lanchonete não fosse utilizado nesta propaganda, pois ainda não era popular e ninguém sabia o significado.

O que encontrei sobre o termo que designa as pequenas refeições nos jornais antigos é a palavra “launch”. Que era escrito assim mesmo, com aspas e em inglês. Era normal nesta época as notícias envolvendo eventos políticos e acontecimentos sociais da elite terem alguma nota do tipo “então foi oferecido um lauto “launch” para os presentes”.

Mas voltando ao “Pega-Pinto” do Sr. Raimundo Medeiros. O local era bem sortido, onde se vendiam cigarros e charutos, junto com coco verde, caldo de cana, leite, “Nescáo”, “Toddy” e outras coisas.

Avenida Tavares de Lyra

Mas o que chama atenção é o designativo do empreendimento. Certamente para o Sr. Raimundo Medeiros colocar a propaganda do seu “Pega-Pinto” no principal jornal da cidade, mostra que seguramente ele tinha conhecimento junto à sociedade e dinheiro para a publicação.

Evidentemente que o termo “Pega-Pinto” não tinha o mesmo significado de duplo sentido que possui atualmente.

Outra vista desta avenida no passado.

Até porque, entre as décadas de 1920 e 1930, a questão dos bons costumes era levada muito a sério em Natal. Além do mais, o major Luís Júlio, então comandante da Polícia Militar (e natural da mesma Acari de onde são oriundas as minhas raízes), mandaria fechar o estabelecimento e trazer o dono para a antiga Chefatura de Polícia, “debaixo de peia” se fosse necessário, para prestar contas a autoridade policial sobre o indiscreto nome do seu estabelecimento.

Se assim não ocorreu, é porque o “Pega-Pinto” do Sr. Raimundo Medeiros, não fazia mal a ninguém.

P.S.- Infelizmente não encontrei nenhuma indicação em relação de como a sociedade da época compreendia o termo “Pega-Pinto”.

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1922 – O POEMA DE PALMYRA WANDERLEY AOS AVIADORES

Autor – Rostand Medeiros

AVIADOR

Por ocasião da viagem aérea de Sacadura e Coutinho, de Portugal ao Brasil.

Alonga o voo. A imensidão recorta.

Domina assim o espaço, o Azul domina,

Já que o seio da terra não comporta,

O grandioso ideal que te fascina.

 

Sonha! Teu próprio sonho te transporta.

Acima de ti mesmo – Asas empinam!

Es quase um Deus! Ser homem pouco importa.

Se a conquista do céu, faz-se divina.

 

Ser como as águias. Voa nas alturas.

Transpõem o etéreo, as siderais planuras,

Da Via Láctea a célica mansão.

Sobe ainda mais, num frêmito inaudito.

-Percorre as cordilheiras do infinito.

Heroico bandeirante da amplidão.

Palmyra Wanderley

Em 1922 o mundo voltou seus olhos para dois oficiais da marinha portuguesa, que tentavam em um frágil aeroplano monomotor e anfíbio, cruzar pela primeira vez a parte sul do grande Oceano Atlântico. Estes dois homens eram Carlos Viegas Gago Coutinho e Artur Sacadura Freire Cabral.

Gago Coutinho e Sacadura Cabral.

O voo teve início no dia 30 de março, em Lisboa, e só se encerrou, depois de muitas peripécias e problemas, em 17 de junho, no Rio de Janeiro. Apesar de toda esta quantidade de tempo para realizar um voo, que atualmente um moderno jato de passageiros realiza em oito ou nove horas, os dois portugueses são merecedores de todos os méritos.

Natal, que na época tinha pouco mais de trinta mil e seiscentos habitantes, sonhava em ver o hidroavião Fairey F III-D Mk2 pousando tranquilamente nas águas calmas do Rio Potengi e assim ter a oportunidade de conhecer o que era uma máquina “mais pesada que o ar”. Os jornais da época mostram toda uma expectativa que se criava na cidade, conforme a empreitada aérea avançava através do Oceano Atlântico. Mas depois da perda do aparelho nas proximidades do arquipélago de São Pedro e São Paulo e da reposição por parte do governo português de um novo Fairey para completar a jornada, os natalense imaginavam que, após a passagem por Fernando de Noronha, os dois aviadores lusos sobrevoariam a capital potiguar. Mas tal fato não ocorreu.

Fosse pelo atraso da viagem ou pelo desconhecimento das condições que Natal oferecia como ponto de apoio, Gago Coutinho e Sacadura Cabral seguiram para a capital pernambucana, onde tiveram uma recepção apoteótica. Finalmente em 17 de junho de 1922 chegaram ao Rio de Janeiro, onde a consagração foi total.

Reprodução em Lisboa do hidroavião utilizado pelos portugueses. Fonte-Wikipédia

Para a capital do Rio Grande do Norte sobrou os belos versos da poetisa Palmyra Wanderley, publicado no jornal “A Republica”, no dia 16 de junho, um dia antes da chegada dos portugueses ao Rio.

Jornal “A Republica”, 16 de junho de 1922.

A natalense Palmyra Guimarães Wanderley nasceu no dia 6 de agosto de 1894, no seio de uma família de intelectuais. Mesmo vivendo em uma sociedade provinciana e extremamente elitizada, ela possuía um pensamento aberto e um maravilhoso talento para a poesia. É considerada uma precursora do jornalismo feminino no Rio Gande do Norte, pois aos vinte anos criou, junto com sua prima Carolina Wanderley e outras “senhorinhas”, uma revista denominada “Via-Láctea”. Esta foi a primeira publicação periódica dirigida ao público feminino potiguar e se tornou um ótimo espaço para a difusão da produção cultural feminina local.

Palmyra colaborou em diversos jornais e revistas. Seu primeiro livro, “Esmeralda”, foi publicado em 1918. Em 1929 foi a vez de “Roseira Brava”, obra que lhe valeu menção honrosa no Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, além de uma ampla repercussão nos meios literários do país. Ela ainda contribuiu na realização da opereta “Festa das Cores” e foi membro da Academia de Letras do Rio Grande do Norte, onde ocupou a cadeira nº 20.

Em seus poemas exalta Natal, seus acontecimentos, suas formas, sua fauna, flora e tipos da terra, sendo considerada como a “poetisa oficial” da cidade do Natal.

Palmyra Wanderley

Esta mulher, uma das maiores referências da cultura potiguar, faleceu no dia 18 de novembro de 1978, em Natal e segundo seus biógrafos, pobre e solitária.

Apesar que, afora Nevaldo Rocha, quem é realmente rico nesta terra cheia de gente que come cuscuz e arrota caviar?

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