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LAMPEÃO É BALEADO NA FAZENDA TIGRE

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Foto colorizada de cangaceiros. Realizada a partir de um original em preto e branco, é uma arte do professor Rubens Antônio, que realiza um primoroso trabalho nesta área.

Por Sálvio Siqueira

É sabido por todos que estudam o tema cangaço, fase lampiônica, que o mesmo sempre procurava andar a pé e próximo a alguma elevação natural para, se preciso fosse, subir e ficar em posição que lhe desse vantagem sobre seus inimigos, assim como ser mais fácil apagar os vestígios de sua passada, pois os mesmos andavam em fila indiana.

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Vaqueiros do sertão do Pajeú – Foto Rostand Medeiros

Porém, em certos planos idealizados por ele, quando tinha, por algum motivo, se locomover com maior rapidez, usava animais como montaria. Temos de lembrar como era o sertão nordestino naqueles tempos, sem quase estradas de rodagem, e quando havia, era ligando uma cidade a outra, nunca uma sítio ou uma fazenda a outra, e, em muito lugares, só havia mesmo uma vereda, trilha por onde muitos da região passavam para fazerem a viagem mais rápida.

Lampião, na segunda metade do ano de 1926, com mais de uma centena de homens, todos montados em cavalos, burros e jumentos, entram na região do Pajeú das Flores com uma meta planejada. Antes da execução das suas missões, após vários estudos sobre como ocorreram, notamos que ele assim procedia, o chefe mor dos cangaceiros, além de seu principal ‘alvo’, conhecedor como era do terreno, sempre tentou fazer uma espécie de ‘arrastão’, para melhor se sair financeiramente, já que tinha que esconder-se e deixar a poeira baixar antes de praticar nova incursão.

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Sempre de olho, mesmo tendo um só, via mais que os dois dos outros, ele calculava tudo que pudesse dar errado. Estudava as vias de escape assim como as vias por onde poderiam surgir inimigos. Sempre mantinha alguns mais informados do que os restantes, e esses, escolhidos a dedos, tinham que o defender até mesmo se alguém dentre eles quisesse eliminá-lo, o eu poderia acontecer.

Como sempre, Virgolino usa seus colaboradores para suas ações. Dessa vez ele chega com seu bando completo na fazenda Monte Sombrio. Propriedade do seu amigo Xandinho, Alexandre Gomes de Sá. Tem uma pequena prosa com ele e parte em direção ao destino escolhido. Antes, porém, chama um dos cangaceiros  de confiança, dessa feita foi o cangaceiro Moita Braba, passa algumas ordem e deixa com ele, alguns cabras da cabroeira, afim de, se ocorresse algum imprevisto, o mesmo deveria levar os homens e atacar o inimigo pela retaguarda.

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Lampião seguia em direção a fazenda Tigre, sendo alto sustentável, de propriedade da viúva Santinha Gomes de Sá, conhecida em toda a região por “Santinha do Tigre”. Mulher forte, que ao perde o marido, não esmoreceu e tomou as rédeas da administração da grande fazenda.

Mesmo tomando todas as precações possíveis, Lampião e sua horda não passam despercebidos. Um dos moradores da fazendo, estava cuidando da lida em algum recanto da propriedade e avista aquele ‘exército’ de cangaceiros rumando na direção da sede da fazenda. Sabendo onde se encontrava, ele encurta o caminho, pega um e chega muito antes, e dá à notícia a patroa. Essa fica preocupada, está apenas com um de seus filhos em casa, e, é mesmo pensando nele, que a preocupação aumenta.  Ela então ordena que Miguel, seu filho, vá para a casa, fazenda, dos vizinhos e deixa-se que ela toparia o “Rei dos Cangaceiros”. Pois bem, em vez de seguir as ordens da mãe, ele faz que vai, da uma volta e escolhe um local alto e com mato, esconde-se e fica a observar o que aconteceria.

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O tempo passa, mas para aquela senhora, parece estar parado. Muitos pensamentos vinham e iam, iam e vinham, tornando angustiante aquela situação. Por fim, já quando o sol inclemente não deixa que plantas e objetos façam sombra, surge no terreiro da sua casa um bando de terríveis cangaceiros. A nata dos mais falados cangaceiros estavam diante dela, tais como Esperança, Sabino Gomes, Corisco, Sabiá, Jararaca, Luiz Pedro, chá Preto, Pai Véio e mais uma ruma deles, além, é claro, do mais temido, Virgolino Ferreira, o Lampião.

Um cavaleiro cutuca as esporas na barriga da montaria, se adianta dos outros e se apresenta. Era Lampião. Após se apresentar, o ‘Capitão’ diz:

“ “- Dona Santinha, quero uma coisa da senhora.”

“- Diga, pois não, o que é que o senhor quer?” (respondeu perguntando a viúva)

“- Eu quero um arrancho aqui, quero descansar meu pessoal, botar abaixo aqui, demorar, fazer almoço e passar o resto do dia.” (esclarece o chefe cangaceiro)

“- Tudo bem, não tem problema nenhum. A casa tá às ordens, passe  o tempo que você quiser. O cercado taí, bote os cavalos na roça, tem legumes nos vasos pra fazer almoço, tudo bem, mas eu quero garantia pra minha casa e pra meu povo.” (diz corajosamente a dona da fazenda)

“- Num se preocupe, Dona Santinha, que aqui num se bole com ninguém. Tá garantido, aqui ninguém mexe com a senhora, pode ficar despreocupada.” (termina por dizer o “Rei Vesgo”) (“AS CRUZES DO CANGAÇO – Os fatos e personagens de Floresta – PE” –  SÁ, Marcos Antônio de (Marcos de Carmelita) e FERRAZ, Cristiano Luiz Feitosa (Cristiano Ferraz). 1ª Edição. Floresta, 2016)

A situação nos faz dizer e fazer determinadas coisas, que nós mesmos, depois que passa o momento, não acreditamos. Creio que foi o passou pela mente daquela senhora. Em seguida ela passa a dar ordens para as mulheres da ‘casa’ cuidarem em aprontar comida para todo o bando. Satisfeito com aquela receptividade, Lampião e seu ‘Estado Maior’, na ocasião, Antônio seu irmão, Sabino Gomes, Luiz Pedro e outros, ficam arranchados na própria sede, os demais vão se acomodando aonde achavam melhor.

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Por coincidência, ou ironia do destino, uma volante sob o comando do cabo Domingos Cururu, Domingos de Souza, estava dando uma batida próximo àquela região por ordens do Capitão Antônio Muniz de Farias, e a mesma encontrava-se nas terras da fazenda Laje, propriedade de um dos filhos de Dona Santinha, conhecido por Yoyô do Tigre, Sério Corrêa,  não distando mais que 1/5 de quilômetro da sede onde se encontravam os cangaceiros. Como a fazenda Tigre era muito extensa, definiu-se, acreditamos que pela Matriarca, que uma faixa de terra passava a ‘pertencer’ ao filho. A volante era formada pelo comandante, dois Aspeçadas e trinta soldados. A tropa estando acampada no riacho que leva o mesmo nome da fazenda de Yoyô, e estando tão próxima a sede, dois homens da volante são incumbidos de irem até a casa e se abastecerem com água e, ao mesmo tempo, tentar saber de alguma informação sobre cangaceiros. Era de praxe, todo volante andar com cuidado aos sinais deixados no solo árido da caatinga. Assim, os dois homens seguem, mas em silencio e em busca de algum vestígio quando de repente notam a movimentação dos bandidos pra lá e pra cá no terreiro da casa sede. Abaixam-se, e retornam para junto do restante da tropa, relatando em seguida o que notaram ao comandante, o qual traça um plano e ordena que avancem cautelosamente formando um semicírculo em direção a casa grande.

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Lampião parece se sentir em casa. Tranquilo, abre um dos bornais, retira alguns papéis, senta-se numa cadeira da mesa e começa a rabiscar alguma coisa nos ditos papéis. Tudo isso é meticulosamente observado pela dona da fazenda. Com certeza o que escrevia o chefe cangaceiro seria cartas, ou bilhetes, extorsões endereçadas (os) aos homens que tinham dinheiro na região. De repente, ele estanca com o que está fazendo, levanta-se e vai em direção aporta da sala. Retorna e, de repente, solta a goela no mundo dando o alarma aos seus homens que estavam cercados pelos ‘macacos’.

A partir desse momento, tendo perdido o fator surpresa, pois não estavam totalmente posicionados, os soldados procuram responder os tiros que vinham de várias direções onde se encontravam os cabras de Lampião. Lampião, dentro da casa, escolhe uma janela e começa a manda bala dali. O interessante é que não dando tempo de cercar totalmente a casa sede, a coluna do cabo Domingos Cururu, fica exclusivamente diante da frente, com isso, a parte de trás, fica totalmente sem ter ataque, no entanto, alguns cangaceiros que lá estavam, danam bala para o alto com a nítida intenção de afugentarem a tropa.

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Trabalho de colorização de Rubens Antônio.

O tempo se fecha e o tiroteio se acirra a cada minuto. Dona Santinha e as outras mulheres procuram a todo custo um local para se protegerem. Notando a agonia delas, Lampião grita vendo que elas adentravam em um dos quartos da casa:

“- Dona Santinha fique ai e num se preocupe que aqui ninguém bole cum a senhora.” (Ob. Ct.)

Escutando o barulho dos disparos, moita Brava grita para seus homens e, junto ao dono da fazenda, seguem para tentarem pegar a volante pela retaguarda como previra seu chefe.

Um dos soldados no meio ao tiroteio, nota que um dos cangaceiros não muda de posição. Atira e depois se abaixa. Tornando a atirar e repetindo  aquele movimento. Espera um instante e faz fogo. Nota quando o cabra tomba e desaparece.

Lampião não muda de lugar e, atirando feito um alucinado, dá, de quando em vez ordens aos seus cabras incentivando-os a briga. Só saindo da linha de tiro na janela, quando se faz necessário recarregar seu fuzil. De repente, ao recarregar sua arma, ergue-se e sente uma dor horrível na altura do peito, do lado direto do tórax. A força do projétil é imensa e o atira no chão da casa.

A bala vinda do fuzil do soldado acerta o ‘batente’ da janela, perde um pouco sua velocidade, desvia e atingi o “Rei dos Cangaceiros”.

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Lampião está estendido no chão da casa sede da fazenda Tigre e seu irmão corre para tentar socorre-lo. O ferimento parece ser grave e Virgolino começa a perder bastante sangue. Nesse momento, aqueles que estavam dentro da casa se apavoram um pouco pensando seu chefe estar morrendo. O “Rei Vesgo”, devido a grande perda de sangue, começa a ficar pálido e perde os sentidos deixando mais apavorados ainda seu Estado Maior.

“(…) Se por acaso Lampião morresse ali, Antônio sabia que tudo acabaria. Sem o comando, a astúcia e a genialidade de Virgulino, além do seu conhecimento com os poderosos Chefes Políticos e Coronéis do Sertão, seria o começo do fim (…).” (Ob. Ct.)

Os homens apressam-se a pegarem bastante panos e envolveram o corpo do chefe para que, além de aquecê-lo, não permitisse que o sangue caísse no piso da casa deixando a prova que alguém teria sido alvejado dentro dela.

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A FOTO DE ANTÔNIO FERREIRA – O CANGACEIRO ESPERANÇA

Moita Brava chega já atirando e o amigo de Lampião, Xandinho, mostra-se um combate arrojado, conseguindo chegar a casa e entrar nela. Vai direto para onde se encontra seu amigo desmaiado e se agacha junto dele. Lampião vai recobrando os sentidos e, já com seu cérebro em pleno funcionamento, pedem ao amigo para retira-lo daquela arapuca, principalmente por ele conhecer bem a região. Em seguida, diz a seu irmão para tomar as rédeas do grupo, saltar para fora da casa e apertasse o tiroteio até colocar a tropa em fuga. Para que ele pudesse ser levado dali.

Desse momento em diante a cangaceirama parece ter ingerido alguma droga, pois ficaram como que alucinados e o fogo aumentou consideravelmente. Xandinho salta para fora de casa e se mostra um dos mais valentes homens que esse sertão já pisou. Parecia que ele iria topar sozinho toda tropa atacante. Por fim, sentido o desesperado ataque dos homens de Lampião, os militares resolvem recuar. Lascam os pés no meio da mata e somem na caatinga.

Lampião chama a dona da fazenda e lhe faz um pedido. Que ela não comentasse com ninguém o ferimento que sofrera, pois se assim procedesse, ele voltaria e mataria todos que pudesse. Xandinho chega perto do amigo e pergunta para onde ele que ser levado. Lampião diz querer ir para a fazenda Caraíbas, onde pretendia restabelecer-se.

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Formando duas filas com os animais, os homens de Lampião o colocam-no no meio. Assim ele estaria protegido se algum ataque ocorresse e ninguém o veria naquelas condições. Xandinho leva o chefe mor do cangaço, o cangaceiro Lampião por entre os tabuleiros, serras e baixios do Pajeú das Flores… Até chegarem aos limites da fazenda pretendida.

Fonte/foto “AS CRUZES DO CANGAÇO – Os fatos e personagens de Floresta – PE” –  SÁ, Marcos Antônio de (Marcos de Carmelita) e FERRAZ, Cristiano Luiz Feitosa (Cristiano Ferraz). 1ª Edição. Floresta, 2016

A DESINFORMAÇÃO! MAIS UMA ESTRATÉGIA USADA POR “LAMPEÃO”

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O início da divisão do bando em subgrupos

Por Sálvio Siqueira

Longe de nós leitores, estudantes, pesquisadores e escritores do tema cangaço fazermos apologia ao crime nem a criminosos. Pelo contrário. Pesquisamos, estudamos e lemos obras sobre o Fenômeno Social que existiu desde meados do século XVIII até seu desaparecimento no início dos anos 1940, quase meados do século XX.

No decorrer dos estudos nos são apresentados os fatos, com os atos ocorridos e suas personagens, os quais estão afixados nas barreiras do riacho permanente da história. Sendo a imaginação humana por demais fértil, principalmente em prol de si própria, logicamente que a narração desses acontecimentos foram, e são, alterados ao longo do tempo, para mais ou para menos, e até foram algumas fantasias, causos, lutas e combates, criadas por alguns. Infelizmente, dentre os próprios escritores, pesquisadores e historiadores vemos em suas entre linhas, inúmeras criações fantasiosas sobre o tema cangaço.

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Os grandes inimigos dos cangaceiros – Grupo de volantes comandados por Manoel Neto, que está de óculos na extrema direita.

Cada um tem sua ‘maneira’ de ver a história. Muitas vezes ela segue para determinado ponto, e esses só a vem em outra direção.

Uma das coisas ocorridas no desenrolar desse Fenômeno Social que nos chama por demais a atenção, referindo a era lampiônica, são as artimanhas, táticas e estratégias planejadas, montadas e executadas por um sertanejo nascido no Pajeú das Flores, região do sertão pernambucano, que pouco frequentou escola alfabetizadora, na infância, e nunca, jamais, esteve em uma escola militar. No entanto, usou práticas de guerrilhas em sua guerra particular contra as Forças Militares de vários Estados da Região Nordeste que o perseguia que são por demais admiráveis.

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Memorial da Resistência em Mossoró, Rio Grande do Norte – Foto – Rostand Medeiros

Lampião e seu bando estão ‘curando’ as feridas da derrota sofrida em Mossoró, RN, na cidade cearense de Limoeiro do Norte. Seu bando a partir daí, já bastante desfalcado, começa a desmantelar-se por inteiro. Nos dias vindouros, após a estada naquela metrópole cearense, muitos são pegos e presos, outros são mortos e vários debandam, tendo ainda aqueles que resolvem se entregarem. Por fim, resta apenas cinco ‘cabras’ e ele. Decidido a continuar no ‘trono’, resolve o “Rei dos Cangaceiros” transpor as águas do Velho Chico e, em terras baianas, dá sequência a seu reinado. Esse ocorre no ano de 1928. Lá estando, entra em contato direto com Corisco, cangaceiro que atuou em seu grupo em terras pernambucanas.

Mais ou menos um ano que estavam no Estado da Bahia, Lampião resolve recomeçar suas extorsões, roubos e mortes, só que, dessa vez, ele muda seu modo de agir. Em determinadas cidadelas baianas, ele não permite que seus homens façam alguma ‘travessura’, já em outras, a coisa coloca-se como uma verdadeira carnificina.

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Após estarem juntos, o grupo de Lampião e o pequeno grupo do “Diabo Louro”, fazendo um só bando, isso já no ocaso de 1929, o chefe mor dos cangaceiros dá instruções a seu, agora, lugar tenente, Corisco, para ele ir com parte do bando para determinada região do sertão baiano, comece a fazer muitas estripulias por lá, usando  a rapidez nos ataque e, principalmente, nas retiradas, sem nem mesmo terem o tempo de roubarem algo, só com o intuito de chamar a atenção das autoridades estaduais. Começando assim, a ação dos subgrupos, propriamente dito.

“(…) a atuação do subgrupo por ele (Corisco), comandado, naquele momento, tem a finalidade exclusiva de confundir a polícia e nisso o récem-nomeado ‘chefe’ vem obtendo sucesso (…).” (“CORISCO – A Sombra de Lampião” – DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. 1ª Edição. Natal, RN. 2015)

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A ação é muito bem praticada por Corisco. Além de atacar determinados povoados e pequenas cidades, ele manda ‘avisos’ que atacará outros (as). Com isso são formadas, às pressas, defesas para as mesmas e as autoridades são informadas. O plano dá resultado positivo, tanto que a própria imprensa também cai nele, e sabedora do conteúdo dos boletins militares, publica notícias de por onde estão os cangaceiros atuando.

O Diabo Louro ataque Rio do Peixe, depois segue pra Vila de Saúde, aí trava combate com volantes, solta a ‘notícia’ que atacará Caem, depois que irá até Jacobina… E assim Corisco vai cumprindo a missão determinada pelo “seu capitão”. Segue fazendo destino a Vila de Riachuelo, nessa é formada uma tropa de combate que vai para a mata, de encontro o bando que está vindo. Mas, mais uma vez, são boatos. A turba segue para outra ‘freguesia’. Em 16 de outro de 1929.  Corisco está as portas da cidade de Miguel Calmon. Muda de rumo e seguindo de noite adentro, cai em um piquete armado pela polícia baiana, isso já no município de Morro do Chapéu, em um povoado chamado Tábuas. Em pouco tempo, dias apenas, há notícias de Corisco vinda de uma estação ferroviária em um Distrito denominado Barrinha. São comunicadas as autoridades de Jaguarari e Bonfim e a imprensa começa a cobrar mais participação da Força. E assim seguiram aqueles cangaceiros chamando atenção, muito mesmo, por onde passara.

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Lampião e seu bando

Com todos os olhares das autoridades, imprensa e população voltadas para as ações praticadas por Corisco e seus cangaceiros, Lampião está prestes a cumprir uma promessa que fizera aos trabalhadores de uma estrada rodagem num lugar chamado Carro Quebrado. Virgolino, anteriormente havia prevenido que, se retornasse a ver homens trabalhando na construção da dita estrada, a qual ligaria Juazeiro a Santo Antônio da Glória, mataria todos, aqueles que estivessem trabalhando bagariam com a vida. No dia 18 de outubro de 1929, Lampião executa a tiros e sangrados, nove trabalhadores que trabalhavam na construção da estrada. O crime é bárbaro e desnecessário. Chama bastante atenção. Após mais outras investidas do “Rei Vesgo”, a imprensa começa e as autoridades começam a desconfiar do porquê do ‘furacão’ que Corisco andou levantando bem distante de onde começava agir seu chefe. Ocorrem ataques, roubos, extorsões e mortes em lugares muito distantes e ao mesmo tempo.

““ Convencida, agora, de que os bandidos se acham, efetivamente, divididos em dois grupos, do que lhe deu certeza terem ocorrido, quase nas mesmas horas, o tiroteio de Morro do Chapéu a a façanha de Carro quebrado, a chefia da Polícia, ao que sabemos, vai mudar de plano, já tendo, nesse sentido, telegrafado aos comandantes das forças volantes dando as necessárias instruções”. (Diário de Notícia, outubro de 1929)”(Ob.Ct.)

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Corisco e seus cachorros

Mas, para as autoridades começarem a agirem dividindo as tropas, se faz necessário algum tempo para adaptação. Enquanto isso, os dois grupos continuam agindo em pontos longínquos.

No mês seguinte a chacina dos trabalhadores, novembro de 1929, Lampião faz visitas amigáveis as cidades de Nossa Senhora das Dores e Capela, no Estado sergipano. De volta a terras baianas, já em dezembro do mesmo ano, Lampião ataca a vila de Cansanção e, em seguida pratica mais uma chacina na de Queimadas, onde executam sete militares, execuções essas que até os dias de hoje, não sabemos seu significado, razão ou motivos. Em Queimadas, uma pequena vila na época, Lampião dá prosseguimento ao plano anteriormente arquitetado, soltando para os quatro ventos, que matou Corisco por ele estar querendo tomar seu poder. Se pesquisarmos as datas das ações cometidas pelos dois grupos, veremos que haverá delas, terem ocorridos fatos no mesmo dia, e até mesma hora, ou próxima a essa, só que muito distante uma da outra.

“(…) fora uma ação planejada com intuito de confundir a polícia. O intento, claro, fora conseguido (…).” (Ob. Ct.)

Com as ações executadas com total êxito pelos dois bandos, de repente, todos os cangaceiros somem do ‘mapa’. Todos se refugiam dentro da imensidão do Raso da Catarina, e por lá permanecem por vários e vários dias… Nas quebradas do Sertão baiano.

Fonte “CORISCO – A Sombra de Lampião” – DANTAS, Sérgio Augusto de Souza.