A IMPONENTE CASA GRANDE DA FAZENDA TRIGUEIRO

Fazenda Trigueiro em 2005. Fonte - http://www.flickr.com/photos/53023424

EXEMPLO ÙNICO DAS VELHAS CASAS DO SERTÃO – PEREIRO, CEARÁ

Autor – Rostand Medeiros

Quando estava realizando a pesquisa para a elaboração do meu livro “João Rufino-Um Visionário de Fé”, em uma ocasião tive de seguir para a região do Jaguaribe no Ceará, na tentativa de compreender as origens da família do homem que criou o grupo industrial de torrefação de café chamado Santa Clara/3Corações.

Seguia nesta viagem com os amigos Francisco Pessoa Sobrinho, mais conhecido em São Miguel como Mazinho e o Técnico da Emater Joaquim Rêgo.

Ao adentrarmos o Ceará pela área territorial da cidade de Pereiro, que se limita com São Miguel, seguimos pela sinuosa estrada CE-138. Em certo ponto fui informado que uma casa de fazenda, pintada na cor branca, de estilo moderno, era a Fazenda Campos, pertencente ao pecuarista Mardônio Diógenes, na época ainda vivo. Este homem ficaria marcado na história da região por um sério conflito entre famílias, ocorrido entre as décadas de 1970 e 1980.

Lateral da grande casa

Quando mal começávamos a entabular um diálogo para que eu pudesse conhecer um pouco mais desta história, a nossa direita passou uma grande casa, que logo me chamou a atenção. Pelo aspecto, sem dúvida nenhuma era uma casa de fazenda bem antiga, mas que se mostrou bem conservada.

Surpreso, fui informado pelos meus companheiros de viagem que esta era a casa grande da propriedade Trigueiro, pertencente a família Diógenes e que a mesma era muito antiga, tendo sido erguida por escravos.

Guardei a informação para visitar o local em uma ocasião futura.

Período da Construção

Em abril de 2010, na época do lançamento do meu livro em São Miguel, quando tive oportunidade de passar vários dias naquela bela cidade serrana potiguar, decidi realizar uma visita a sede da Fazenda Trigueiro. Nesta ocasião, uma tarde de sábado, fui sozinho e, por não conhecer seus proprietários, não sabia se eles se interessariam de mostrar a sua residência para um estranho saído lá de Natal.

Parte frontal

Ao adentrar o pátio, a minha visão foi tomada pela grande altura da lateral da vetusta e imponente casa grande.  Certamente um dos poucos exemplares de sua época ainda de pé e sendo habitada por descendentes diretos da mesma família que construiu o local.

Do curral de gado saiu um cidadão de riso farto e semblante tranquilo, que me recebeu da melhor maneira possível. Este era José Dênis Vieira Diógenes, mais conhecido como Zé Dênis, que não colocou nenhum obstáculo em apresentar o velho casarão.

Em meio ao diálogo na grande mesa da sala de jantar, soube algumas interessantes informações daquele local preservado no tempo. Segundo Zé Dênis, a casa grande foi construída pelo seu antepassado Manoel Diógenes Maia e teria sido concluída em 1794, a 216 anos atrás. Toda a edificação foi realizada por escravos. Estes traziam a areia utilizada para a construção desde as margens do Rio Jaguaribe, distante da Fazenda Trigueiro 35 quilômetros. Consta que nesta época o proprietário possuía nada menos que 115 escravos.

Uma chave típica da parte interna do casarão

Um dado interessante é que a Fazenda Trigueiro foi edificada praticamente na mesma época em que a povoação que ficaria conhecida como Serra do Pereiro crescia.

Consta que em 1777 deu-se a chegada à região de Manoel Pereira e de sua família, atraídos pelas terras férteis propícias a agricultura, com inúmeras fontes naturais de água potável e clima agradável com chuvas regulares. As principais atividades econômicas que caracterizaram esta época era a plantação de milho, feijão e a criação de bovinos e esta produção seguia para o município vizinho de Icó. A área onde Manoel Pereira buscou para cuidar de sua família passa a ser conhecida primeiramente como Serra do Pereira, passando depois a Serra do Pereiro. Depois o lugar foi desmembrado de Icó e elevado à categoria de vila pela lei provincial nº 242, de 21 e outubro de 1842, com a denominação de Santos Cosme e Damião da Serra do Pereiro.

Uma das vistas da janela

Ao longo do século XIX houve na região o crescimento da plantação da cana e da produção de algodão. Ambos os produtos alcançaram altos índices de produtividade até a metade do século XX.  Consta que a rapadura produzida na serra do Pereiro era conhecida pela sua ótima qualidade

Imponência

No grande casarão de 38 cômodos e 45 portas e janelas, Zé Dênis narra que seu avô Napoleão Diógenes Paes Botão foi outro grande impulsionador do crescimento econômico da Fazenda Trigueiro e da região.

Napoleão Diógenes Paes Botão

Já seu pai, José Diógenes Maia, mais conhecido na região como “Coronel Zé Diógenes”, já falecido, foi político, mas deixou a atividade para se dedicar exclusivamente a agropecuária. Nesta área obteve muito sucesso, chegando a possuir quase trinta propriedades em várias localidades. Economicamente Zé Diógenes comandava a região que ia da fronteira com o Rio Grande do Norte até a localidade onde passa o Rio Figueiredo. Casado duas vezes, Zé Diógenes foi pai de quatorze filhos, sendo que o primeiro casamento, com a Senhora Tereza Dantas, trouxe ao mundo nove filhas.

Zé Diógenes, esposa e filhas

Mas voltando ao casarão, Zé Dênis não sabe dizer com exatidão se o telhado existente ainda é o original. Ele acredita que sim, em todo caso me apresentou uma pesada e grande telha, que lhe foi informado ser original do imóvel. É uma peça de uns 50 a 60 centímetros de comprimento, por uns 25 centímetros de diâmetros, com as marcas dos dedos de quem as fez, provavelmente a mais de duzentos anos.

Ele informa que a madeira existente no teto, linhas, ripas e escadas ou são originárias de pau d’arco, ou de aroeira, ou angico. Todas árvores nobres da flora nordestina, mas atualmente são praticamente extintas na região. Neste quesito ele não tem dúvida de afirmar que toda a madeira interna da casa é original, daquelas que “cupim não rói”. Já a madeira das pesadas e grossas ripas que compõem as portas e o assoalho do sótão são todas feitas de cedro.

Zé Dênis mostrando a largura das paredes externas da casa

O sótão da casa é um caso a parte de tão grande. Acaba sendo uma outra casa dentro da casa. No “olhômetro” eu nem me arrisco a dizer a metragem daquele enorme compartimento. Ali, segundo Zé Dênis, ficavam anteriormente os escravos. Depois do fim do regime de servidão, os Diógenes trouxeram para o sótão trabalhadores contratados e junto a estes viviam alguns homens que faziam a proteção da propriedade, os famosos “cabras” . Outra função do sótão era a guarda de grandes quantidades de produtos rurais em seis quartos, além de queijo.

Coisas do “Outro Mundo”

Desde o primeiro momento que vi a casa grande do Trigueiro, os amigos Mazinho e Joaquim Rêgo me falaram que na região se sabia que no lugar apareciam almas penadas, visagens, choros e barulhos sem motivo aparente. Durante meu período em São Miguel, se por acaso surgia em alguma conversa uma referência sobre coisas do “outro mundo”, era certo que as histórias da Fazenda Trigueiro entravam na conversa.

Sótão do casarão da Trigueiro

Durante a minha visita a casa Zé Dênis confirmou que os fatos eram reais e me passou algumas informações.

Não era raro os moradores ouvirem sons de instrumentos musicais sendo tocados, em “apresentações” que duravam horas. Ele comentou que os homens que faziam a proteção do lugar, gente disposta, que só andavam armados, se borravam de medo com estes fatos e não raro um desses “cabras machos” iam embora ligeirinho da fazenda. Zé Dênis me mostrou um dos cômodos da casa que, segundo contam, morreu no local de forma inexplicável uma pessoa que ali adentrou.

Local onde eram acondicionados os queijos produzidos na fazenda. As pequenas “meias luas” aqui mostradas, eram ali colocadas para evitar que ratos chegassem aos produtos

O negócio cresceu ao ponto de sua mãe, Delcides Vieira Diógenes, a segunda esposa de Zé Diógenes, ir procurar frei Damião de Bozano, em uma das ocasiões em que ele passou pela região serrana realizando uma de suas “Santas Missões”, lá pelos anos entre 1974 e 1976. O famoso frade capuchinho recebeu D. Delcides e então recomendou simpatias e missas para as “almas do outro mundo”. Logo a situação melhorou.

Uma das simpatias de frei Damião para afastar as aparições era derramar água benta em três cantos que ele indicasse na casa.

Orgulho e Luta

Outra visão do sótão da Fazenda Trigueiro. Uma grande estrutura em "L"

Zé Dênis e sua família tem um grande orgulho em viver neste local. Chama a atenção o nível de consciência que eles possuem sobre a importância da casa grande da Fazenda Trigueiro em termos históricos e sabem que locais como aquele são raros nos dias atuais. Eles se sentem muito bem em receber visitantes que desejam conhecer o bicentenário imóvel, principalmente alunos de universidades. Ocasionalmente a família Diógenes recebe visitas de membros de órgãos governamentais, que tem ideias de incluir a residência rural em roteiros turísticos. Mas na prática Zé Dênis e seus familiares não contam com a ajuda de ninguém para manter o histórico imóvel. Ele me informou que é uma luta manter uma casa tão grande.

A família sabe que, mesmo com toda a importância histórica e as características únicas da Fazenda Trigueiro, a burocracia brasileira é extremamente complicada quando o assunto é apoiar a manutenção de um imóvel privado. Mas Zé Dênis segue na esperança que possa ser dado a imponente casa um destino que seja positivo tanto para a família Diógenes, quanto ao imóvel, que possui inegável importância para a comunidade de Pereiro e o estado do Ceará.

Zé Dênis e seus familiares. Conciencia e orgulho em morar na Fazenda Trigueiro

Depois de fotografar o interior da casa fui embora tranquilo e feliz. Enfim, em um país com pouco mais de 500 anos de história pós descobrimento, não é todo dia que visito uma casa bicentenária, com tamanho peso histórico para a compreensão da vida privada da elite agrária sertaneja.

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28 opiniões sobre “A IMPONENTE CASA GRANDE DA FAZENDA TRIGUEIRO”

  1. Tenho grande fascínio por essas construções antigas. No Seridó ainda há algumas, porém não tão “imponentes” como vc, com toda razão, qualificou. Lembro de ter visto algumas casas grandes com sótão quando era criança em Parelhas.

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  2. Olá, sou um integrante dessa fazenda e da Família Diógenes, fico orgulhoso quando vejo cada reportagem ou citação dessa casa, passei minha infancia ai. Obrigado pela materia, existe uma página no facebook e uma comunidade no orkut, se puder se incluir fico agradecido. A data 08/07/2011 é recente, e estive lá, mas nao tive o prazer de te conhecer.

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    1. Amigo Victor,
      Eu é que agradeço sua mensagem.
      Só tenho a dizer que você deve sempre enaltecer o nome de sua família. Pois só mesmo uma família com muita honra e orgulho do seu passado para reconhecer o significativo patrimônio histórico existente naquela casa e lutar pela sua conservação. Isso tudo em um país que tanto despreza a sua história.
      Pode deixar que vou participar das comunidades.
      Mais uma vez obrigado.

      Um abraço.

      Rostand

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  3. Fico orgulhoso em saber que essas pessoas que residem na casa colonial ainda são herdeiros direto do primeiro dono. Isso é raro no Brasil. Geralmente os filhos se formam e v´~ao embora abandonando o patrimônio e a sua história. Parabéns para essa familia que valriza o valor cultural desse patrimônio.

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  4. fiquei maravilhado com esta construçao tenho pesquisado muito sobre estas casas antigas principalmente aqui no piaui,tenho muitas fotos, que belo trabalho,um abraço ,ari.

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  5. oi amigo sou também admirador de casas antigas que compõe a nossa historia conheço 2 grandes casas aqui perto de ribeirão preto sp seria legal uma pessoa como você fazer um documentário delas acho que existe moradores em uma delas quando interessar me contate se você as não conhecerem e claro.abços

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  6. olá amigo conheço muito bem esta casa pois fui um dos moradores deste sitio da epoca do finado jose diogenes
    meu pai roseiro do zé diogenes

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  7. Sempre que visito a cidade que nasci, São Miguel/RN, tenho o prazer de visitar a Fazenda Trigueiro, esta casa maravilhosa que traz sensações inexplicáveis. Tenho orgulho de pertencer a família Diógenes – neta de Lafaiete e Alzira Diógenes – filha de José Diógenes e Celina. Obrigada pelo interesse na história do povo Potiguar.
    Teresa Lenice Diógenes

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    1. Obrigado pela sua mensagem amiga Teresa.
      Realmente a sua terra é maravilhosa, que passei a admirar e amar quando lá estive para produzir o livro “João Rufino-Um Visionário de Fé”!, que trata da maravilhosa figura humana de Seu João Rufino, do Café Santa Clara.
      Na fazenda Trigueiro os membros da família Diógenes foram de uma gentileza fantástica com este forasteiro, encantado com aquela maravilhosa fazenda totalmente histórica.
      Um abraço.
      Rostand Medeiros

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  8. Olá Rostand, importante seu trabalho, vou mostrar estas fotos a minha mãe, q tem 98 anos lúcida ainda, q é sobrinha do Ze diogenes e passava as ferias qdo jovem, na fazenda Trigueiro, onde conheceu o meu pai,” hj com 101 anos” filho de Telmo Osorio Botão da vizinha fazenda Campos. Parabèns pelo seu trabalho. um forte abraço .

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  9. Uma belissima casa que teve a sorte de ate hj ser bem cuidada e preservada, mantendo seus habitantes e sua historia…em dias atuais com toda a dificuldade dos fazendeiros permanecerem em suas propriedades, e louvavel que eles la se mantenham, e com todo orgulho de seus antepassados. Sempre morei em propriedades que pertenceram aos meus ancestrais e sei o valor e a importancia de se manter as raizes e a memoria de quem tanto lutou nesses Sertoes do Nordeste !

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  10. Muito pertinente as informações contidas aqui.Esta família que preserva tão nobre patrimônio e que, é mesma que construio esta magnífica morada tem um valor inconmensurável.Tenho certeza que, o INPHAN ,colaborará em possíveis restaurações e conservações desta bela casa monunmento.A cidade de Icoh-Ce aqui citada,em sua Prefeitura,tem um orgão que deve ser acionado na busca de meios financeiros para as melhorias que se fizerem necessárias.

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  11. Agradeço ter tomado conhecimento sobre a belíssima casa grande da fazenda Trigueiro através deste veículo. Gostaria, entretanto, de pontuar que a casa apresenta um conjunto de aspectos formais e construtivos característicos de moradias do século 19, sobretudo da segunda metade, e não do século 18, o que não tira dela qualquer mérito, muito pelo contrário, pois a define como representante ilustre de um tipo construtivo refinado ao longo de mais de um século (considerando a ocupação dos sertões a partir do século 17) que atingiu seu apogeu por volta de 1870. Tais casas foram uma resposta excelente ao meio físico e social, conforme demonstram estudos que felizmente se vêm multiplicando nos últimos tempos (i.e. Feijó, Diniz). As narrativas frequentemente remetem a uma construção anterior – quase sempre menos alta e robusta – que teria havido no local e sobre a qual foi erguida (ou se foi erguendo em acréscimos sucessivos) o edifício do século 19.

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  12. Muito interessante. Apesar de não fazer parte da família Diógenes e nunca ter visitado a Fazenda Trigueiro, é muito bom saber algumas informações históricas sobre essa família tão influente no Vale do Jaguaribe.

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  13. Nossa, de repente me lembrei da minha infância, quando visitei essa fazenda com meus pais. Então fui procurar na net pra mostrar pra minha filha a grande chave. Me emociono em ver novamente. Meu pai é mais conhecido por Geraldo Sanfoneiro, natural da cidade de Pereiro. Eu nunca esqueci desse lugar, fiquei impressionada com a grande mesa que tinha várias gavetas e a guilhotina. Lembro que fiquei triste quando me contaram sobre os escravos. Parabéns pela matéria. E obrigado por me levar de volta a minha bela infância.

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  14. Estive ontem visitando este lugar histórico.
    Apesar de ser uma filha de são Miguel não tinha conhecimento, fotografei e filmei tudo que pude.
    Depois de 30 anos morando em são Paulo só agora em visita aos meus pais tive essa oportunidade.
    Estou encantada.

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