COMO O PARAGUAI PLANEJAVA LIQUIDAR O BRASIL

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A Batalha do Riachuelo, uma das mais importantes da Guerra do Paraguai | Crédito: Wikimedia Commons

Quando o ditador paraguaio declarou guerra a um país dez vezes maior, não foi loucura; ele tinha boas razões para acreditar na vitória

AUTOR – Fabio Marton

Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/ha-153-anos-solano-lopez-declarava-guerra-ao-brasil.phtml#.Wk63Ld-nHXN

Em 13 de dezembro de 1864, o Paraguai declarou guerra ao Brasil, iniciando o que seria o conflito mais sangrento da América Latina, em que mais de 300 mil vidas se perderiam dos dois lados, entre batalhas, fome e doenças. O Paraguai seria aniquilado na guerra: perdeu 75% de sua população adulta e reduziu seu papel geopolítico a pouco mais que um estado-tampão entre Argentina e Brasil, oscilando entre ser dominado politicamente por um ou outro.

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A batalha representada em obra de Pedro Américo

O ditador do Paraguai, Francisco Solano López, entrou na guerra conhecendo alguns fatos. A população do Brasil era dez vezes maior que a do Paraguai, cerca de 8 milhões de habitantes, contra 800 mil. A Argentina, forte aliada do Brasil, tinha cerca de 2,5 milhões. Ambos os países tinham acesso desimpedido ao Oceano Atlântico para comprar armas, navios e o que mais precisassem da Europa e dos Estados Unidos, enquanto o único acesso ao mar do Paraguai era por meio dos rios Paraná e Prata, cruzando o território argentino.

À primeira vista, e sabendo como a guerra terminou, López parece ter sido um louco suicida. Ele era impulsivo e autoritário. Mas suicida ele não era. E tinha um plano – ou pelo menos uma aposta. E, no seu jogo, conquistar acesso ao mar era fundamental.

Tríplice Aliança ao contrário

A primeira coisa sobre o plano de López é que ele não esperava ter de enfrentar Brasil, Uruguai e Argentina, situação que se consolidou com a criação da Tríplice Aliança, em 1º de maio de 1865. Ao contrário, esperava ter Uruguai e Argentina a seu lado e quem sabe unificar os 3 países ao fim da guerra e criar uma grande nação nas fronteiras do antigo vice-reino do Rio da Prata, do Peru à Patagônia. “López imaginava uma Tríplice Aliança ao contrário”, diz Francisco Doratioto, autor de Maldita Guerra e Osório.

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Francisco Solano López – Fonte – military.wikia.com

Os uruguaios eram aliados de López, e a guerra só começou, tecnicamente, porque o Brasil invadiu o Uruguai, em guerra civil desde 19 de março de 1863, em apoio ao ex-presidente Venâncio Flores e 1,5 mil voluntários do Partido Colorado, que desafiou o governo de Montevidéu, controlado pelo Partido Nacional (ou Blanco). Os brasileiros, que formavam um terço da população do Uruguai, apoiavam Flores e passaram a sofrer ataques dos partidários blancos. Em 30 de agosto de 1864, o Paraguai havia mandado um ultimato ao Brasil: invadir o Uruguai seria um ato de guerra.

O Brasil ignorou o ultimato e declarou guerra ao governo blanco em 10 de novembro de 1864, com o apoio tácito da Argentina. “Nem Argentina nem Brasil acreditavam que o Paraguai reagiria a um ataque ao Uruguai”, diz Moacir Assunção, autor de Nem Heróis, Nem Vilões: Curepas, Caboclos, Cambás, Macaquitos e Outras Revelações da Sangrenta Guerra do Paraguai. Mas López cumpriu a ameaça e atacou o Brasil. Não na fronteira com o Uruguai, mas em Mato Grosso, em dezembro de 1864.

López não contava só com o apoio dos blancos. Havia recebido promessas de Justo José Urquiza. Governador da província de Entre Rios, Urquiza era o maior proprietário rural da Argentina, presidente entre 1854 e 1860, e inimigo do presidente argentino, Bartolomé Mitre. O plano de López era invadir o país ao norte, juntar-se às forças de Urquiza ao sul e seguir para Buenos Aires. Se tudo funcionasse, os 3 aliados – Paraguai, Uruguai e Argentina – atacariam o Brasil.

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A Batalha de Riachuelo

A mão (invisível) do Tio Sam

Além de Urquiza e dos blancos uruguaios, havia outro personagem soprando confiança nos ouvidos de López. Ninguém menos que os Estados Unidos da América. Segundo o livro de Moacir Assunção, “no Paraguai, o cônsul americano Charles Ames Washburn ofereceu apoio ao país contra o Brasil ainda antes da guerra e chegou a instigá-lo a iniciar o conflito”.

Washburn era cônsul desde 1861, ainda no governo do pai de Solano, Carlos Lopes. E o que ele prometia não era completamente infundado: Brasil e EUA andavam às turras desde o início da Guerra de Secessão (1861-1865). Os americanos unionistas, do Norte, viam os brasileiros como uma monarquia europeia implantada na América e um país profundamente escravocrata, ambas verdades que os brasileiros não gostavam de ouvir. Artigos na imprensa durante a guerra eram principalmente antibrasileiros, quando não idealizando López como um libertador republicano contra uma monarquia de escravos.

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Militar brasileiro Francisco do Rego Barros – Fonte – http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=64329

Já os brasileiros não ocultavam suas simpatias pelos confederados do Sul, escravocratas, agrários e aristocráticos como eles. Isso levou a alguns incidentes, em que brasileiros recebiam calorosamente os navios confederados, que atacavam navios unionistas na costa brasileira impunemente, enquanto os navios unionistas eram quase proibidos de frequentar portos do Brasil. Em 1864, o ataque de um navio unionista a um confederado em águas brasileiras quase comprometeu as relações diplomáticas.

Em duas ocasiões, Washburn quase fez com que sua promessa a López fosse cumprida. Quando a guerra começou, o diplomata estava em férias no seu país. Em 1866, o navio americano Shamokin tentou furar o bloqueio da Marinha brasileira e levá-lo a Assunção. O comandante prometeu que só seria interrompido “por força maior”, o que fez os brasileiros cogitarem abrir fogo.

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O brasileiro Symphonio dos Santos uniformizado para combater na Guerra do Paraguai – Fonte –

Washburn caíria em desgraça e seria torturado pelas forças de López, que havia ficado paranoico com a possibilidade de conspiração. Em 1868, outro navio foi enviado para retirá-lo – e, desta vez, falaram abertamente em guerra com os brasileiros. Em ambas as situações, os brasileiros engoliram seu orgulho, evitando o pior.

Blitzkrieg paraguaia

A aposta paraguaia não era apenas diplomática. O Exército paraguaio era muito maior que o brasileiro no começo da guerra. Os paraguaios tinham uma força de 64 mil homens, e os preparativos para a guerra começaram meses antes da declaração, enquanto as tensões entre Brasil e Uruguai se acumulavam. O Exército brasileiro tinha 18 mil efetivos, mal-armados e malvestidos, informações que os blancos uruguaios fizeram questão de levar ao ditador paraguaio. Segundo Doratioto, López queria fazer uma blitzkrieg do século 19. “Ele tinha um plano inteligente e bem estruturado. Era um ataque-relâmpago, uma coisa à frente do seu tempo.”

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Retirada da Laguna – Fonte – http://datasefatoshistoricos.blogspot.com.br/search?q=retirada+da+laguna&x=11&y=13

A blitzkrieg paraguaia também contava com outra manobra inteligente: fazer os brasileiros acreditarem que os paraguaios atacariam por outra região, causando um imenso problema logístico. A ofensiva em Mato Grosso envolveu duas colunas e 9 mil homens, que conquistaram cidades como Albuquerque, Coxim e Corumbá até abril de 1865. Os brasileiros esperavam um ataque à capital da província, Cuiabá, que nunca aconteceu. Sem estradas que chegassem à região, a contraofensiva brasileira levou de abril a dezembro de 1865 para se mover de Minas Gerais ao Mato Grosso. Quando finalmente alcançaram a província, os paraguaios simplesmente se retiraram – exceto de Corumbá, onde resistiram até junho de 1867.

Enquanto os brasileiros se perdiam no próprio Brasil, López preparava seu verdadeiro ataque. O Paraguai declarou guerra à Argentina em 18 de março de 1865. Em 13 de abril, um contingente enorme de tropas paraguaias – 37 mil homens – invadiu a província de Corrientes pelo rio Paraná. Com Corrientes capturada quase sem resistência, em maio, as tropas se dividiram. Cerca de 12 mil ficaram na cidade e 25 mil rumaram para o Rio Grande do Sul, onde tomaram São Borja, em 12 de junho, e Uruguaiana, em 5 de agosto. Era o plano de López em ação.

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Antônio Carlos Mariz e Barros, comandante da corveta Belmonte em 1862, que visitou Natal e foi morto na Guerra do Paraguai.

Traição na Argentina

A primeira má notícia para López aconteceu no início da invasão à Argentina. Comandando as tropas para a retomada de Corrientes, apareceu ninguém menos que Justo José Urquiza. O caudilho havia feito promessas a López, mas havia recebido outra visita. O general e senador brasileiro Manuel Luís Osório, com quem teve uma conversa estratégica. “Os brasileiros compraram Urquiza”, diz Assunção.

Ele foi convencido por Osório de que lucraria muito mais apoiando Brasil e o governo argentino. Para a surpresa de López, o ex-presidente argentino conduziu suas tropas com rara ferocidade. A decisão de Urquiza também surpreendeu muitos argentinos, e vários desertaram a favor do Paraguai nos primeiros meses da campanha.

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Guerra do Paraguai – Imagem meramente ilustrativa

De forma que, em 25 de maio de 1865, quando uma tropa argentina conseguiu reconquistar a cidade de Corrientes, a glória durou menos de 24 horas: os argentinos recuaram, deixando a cidade pronta para ser reconquistada pelos paraguaios. Ainda assim, López destituiu do comando o general Resquín, líder da invasão, que seria executado em janeiro de 1866.

Baixas de uma ditadura

O plano de López começou a naufragar, literalmente, no arroio Riachuelo, em 11 de junho de 1865. A ideia era tomar a esquadra brasileira, de 9 vapores, atacando-os por meio de abordagem – os soldados saltam para dentro do navio inimigo de forma a capturá-lo intacto. A chave do ataque era o fato de os navios brasileiros serem a vapor.
À noite, apagavam-se as caldeiras, acesas novamente de manhã. Levava uns 20 minutos até a água ferver e o navio estar em condições de se mover. Assim, os navios paraguaios – também a vapor, e em mesmo número que os brasileiros – poderiam se aproximar da frota nacional.

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A guerra não era uma unanimidade no Brasil. Conflito armado entre militares e civis brasileiros, no período da Guerra do Paraguai.

Uma avaria, no entanto, atrasou o ataque. E aqui o autoritarismo político do Paraguai se mostrou uma desvantagem. “Ninguém ousava contrariar López, que havia ordenado um ataque para aquele dia”, diz Doratioto. Com medo do ditador, os paraguaios atacaram com dois navios a menos e só às 9h30, quando os barcos brasileiros estavam totalmente operantes. As abordagens foram repelidas a canhonaços. Ao fim do dia, a esquadra paraguaia jazia no fundo do rio Paraná. A Batalha de Riachuelo foi um desastre que isolou o país do resto do mundo.

Quando os paraguaios invadiram o Rio Grande do Sul, já era tarde para os blancos uruguaios. Em 20 de fevereiro de 1865, brasileiros e colorados haviam conquistado Montevidéu e Venancio Flores assumiu um governo pró-Brasil. Em 18 de agosto, duas semanas após tomar a cidade, os paraguaios se renderam em Uruguaiana, diante de dom Pedro II, Bartolomeu Mitre e Venâncio Flores.

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Coronel Joca Tavares (terceiro sentado, da esquerda para a direita) e seus auxiliares imediatos, incluindo José Francisco Lacerda, mais conhecido como “Chico Diabo” (terceiro em pé, da esquerda para a direita). Imagem: Wikipedia, Domínio Público. In: Salles, Ricardo. Guerra do Paraguai: memórias & imagens. Rio de Janeiro: Edições Biblioteca Nacional, 2003. ISBN 85-333-0264-9 (p.180)

Foi o fim da ofensiva do sul. Em 31 de outubro, as tropas paraguaias em Corrientes se retiraram. A partir daí, a guerra seria uma longa e agonizante defensiva para Solano López, culminando com a captura de Assunção, em 1º de janeiro de 1869. A fuga do ditador pelo interior do país acabou em 1º de março de 1870. Numa emboscada à última tropa paraguaia em Cerro Corá, o cabo brasileiro Chico Diabo atingiu o ditador com uma lança. Sem se render, López foi morto a balas ali mesmo.

GUERRA DO PARAGUAI – SOFRIMENTO INVISÍVEL – NA FRONTEIRA DO MATO GROSSO, MULHERES TORNARAM-SE ALVO DA VIOLÊNCIA DOS INVASORES

A imagem publicada na Semana Ilustrada, em 1865, mostra as vivandeiras da Guerra do Paraguai: mulheres que acompanhavam os deslocamentos das tropas de infantaria, vendendo alimentos e outros artigos aos soldados. (Imagem: FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL)
A imagem publicada na Semana Ilustrada, em 1865, mostra as vivandeiras da Guerra do Paraguai: mulheres que acompanhavam os deslocamentos das tropas de infantaria, vendendo alimentos e outros artigos aos soldados. (Imagem: FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL)

Autora – Maria Teresa Garritano Dourado

Fonte – http://revistadehistoria.com.br/secao/capa/sofrimento-invisivel 

Mães, esposas, prostitutas, viúvas, enfermeiras, soldadas, andarilhas, vivandeiras, prisioneiras, escravas. As mulheres desempenharam os mais diferentes papéis durante a Guerra do Paraguai (1864-1870). Presentes nos quatro exércitos envolvidos na batalha – brasileiro, argentino, paraguaio e uruguaio – elas se tornaram indispensáveis ao garantir a realização de vários serviços necessários para o funcionamento de um exército em campanha: socorriam feridos, cuidavam das crianças, da alimentação, das roupas e comercializavam os produtos vendidos às tropas. Muitas outras sofreram com a violência em suas regiões e dentro de seus lares. Tiveram que lidar com graves provações físicas e psicológicas, mostrando resistência e inventividade. 

Com raras exceções, essas figuras femininas foram esquecidas pela história. Suas vidas dissolveram-se na vida dos homens, os guerreiros armados e seus grandes comandantes, que ocupam o centro da cena. Às mulheres restam as entrelinhas, um espaço casual nas narrativas das grandes batalhas. Mas nem tudo se perdeu. Por meio da análise de relatórios de refugiados e de documentos oficiais, ordens do dia, cartas, memórias, reminiscências e diários (inclusive em língua francesa, inglesa e espanhola), é possível conhecer, por exemplo, as dificuldades vividas pelas brasileiras que foram aprisionadas pelo inimigo na região fronteiriça do Mato Grosso. 

Guerra do Paraguai - Imagem meramente ilustrativa
Guerra do Paraguai – Imagem meramente ilustrativa

Os documentos revelam como elas reagiram diante da inesperada invasão, como se organizaram, as formas de fuga e os recursos utilizados para sobreviver, quando detidas. Falam ainda dos mecanismos de que dispunham para sua defesa, assim como do sofrimento de esperar pelo socorro das autoridades brasileiras competentes. O suplício das mulheres, bem como a visão das autoridades brasileiras sobre o inimigo paraguaio ficam evidentes nos ofícios do governo de Mato Grosso durante o conflito: “sendo castigadas corporalmente com laços e com espadas, e metidas em ferro sempre que cometiam qualquer falta […] os paraguaios, sendo eles de natureza bruta e sem a menor educação e moralidade, muito maltratavam as famílias prisioneiras com suas habituais imoralidades”. 

Em Corumbá, uma das regiões fronteiriças, a população viu-se sozinha diante do brusco ataque do exército paraguaio. Acreditando que a região lhes pertencia, as tropas inimigas penetravam e ocupavam o território que estava em litígio com o Brasil. Diante da impossibilidade de resistência, os habitantes, civis e militares, tornaram-se alvo fácil para prisões e saques. Muitos fugiam de modo desesperado, desordenado e precipitado, tentando alcançar Cuiabá, capital da província. Centenas de pessoas acreditavam que as zonas rurais poderiam oferecer refúgio e proteção. 

Guerra do Paraguai - Imagem meramente ilustrativa
Guerra do Paraguai – Imagem meramente ilustrativa

Contando com poucos recursos, fugindo a pé por trilhas ou embarcando em canoas, mulheres foram capturadas e aprisionadas pela tropa paraguaia, que percorria as fazendas saqueando, violentando, levando o gado e tudo mais que tivesse algum valor. Igualmente indefesos, velhos e crianças também se tornaram presas fáceis de hostilidades e crueldades. As mulheres que não conseguiam fugir e se escondiam em matas próximas acabavam por voltar à vila de Corumbá, fustigadas pela fome. Encontravam suas casas completamente saqueadas, eram presas, interrogadas (muitas vezes sob tortura) e mortas. Diante de um inimigo que costumava utilizar até a degola para manter o terror, passavam fome e frio, eram mantidas a ferros e castigadas constantemente. Muitas foram assassinadas ao tentar fugir. 

As que se mantinham a salvo dos invasores tinham que sustentar a si e aos seus plantando, lavando, cozinhando e transportando mercadorias, sob a angústia e o medo de encontrar uma patrulha paraguaia. O trânsito constante das mulheres pela fronteira levantava suspeitas nos soldados inimigos. Sempre preocupados com a reação brasileira, eles procuravam informações e notícias. Para isso, muitas vezes usavam de violência em seus interrogatórios. Fontes francesas detalham alguns casos, como o de Marcelina, Luisa e Isabel, condenadas a levar 60 golpes de chicote por não terem informações relevantes. Marta e Severina, menores de idade, receberam 25 chicotadas. Depois de ser presa e submetida a julgamento sumário, a uruguaia Maria Buscapé foi condenada a 30 golpes por ter declarado seu desejo de voltar ao país de origem. Após as punições essas mulheres foram soltas, mas com a advertência de que poderiam ser mortas caso omitissem informações. 

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Guerra do Paraguai – Imagem meramente ilustrativa

A historiografia tradicional não se dedicou a narrar a agonia e o pânico que as famílias brasileiras foram obrigadas a enfrentar, inclusive pela incerteza do futuro e pela angústia da perda ou do desaparecimento dos familiares e amigos. A descoberta de evidências documentais nos últimos anos permite o exercício a inúmeros pesquisadores, possibilitando a recuperação da história da participação das mulheres, seus espaços e seus papéis na Guerra do Paraguai que, no fim das contas, diz respeito não apenas àquela batalha, mas ao protagonismo feminino na construção do país. Contar a História do Brasil pelo olhar das mulheres é certamente um meio de redescobri-lo.

Maria Teresa Garritano Dourado é autora de “Mulheres comuns, senhoras respeitáveis: a presença feminina na Guerra do Paraguai” (UFMS, 2005) e A História esquecida da Guerra do Paraguai: fome, doenças e penalidades (UFMS, 2014).

Saiba Mais

CARVALHO, Maria Meire. Vivendo a verdadeira vida: vivandeiras, mulheres em outras frentes de combates. Tese de Doutorado em História, UnB, Brasília, 2008. 

LASSERRE, Dorothea Duprat de. Memórias de Mme. Dorothea Duprat de Lasserre. Rio Grande: Livraria Americana, 1893.

MATOS, Kelma. Jovita Feitosa. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2001.

TAUNAY, Alfredo D’Escragnolle. Cartas da Campanha de Mato Grosso (1865-1866). Rio de Janeiro: Editora Biblioteca Militar, 1944.

DOCUMENTO QUE REGISTRA EXTERMÍNIO DE ÍNDIOS É RESGATADO APÓS DÉCADAS DESAPARECIDO

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Relatório de mais de sete mil páginas que relatam massacres e torturas de índios no interior do país, dado como queimado num incêndio, é encontrado intacto 45 anos depois

Um dos documentos mais importantes produzidos pelo Estado brasileiro no último século, o chamado Relatório Figueiredo, que apurou matanças de tribos inteiras, torturas e toda sorte de crueldades praticadas contra indígenas no país – principalmente por latifundiários e funcionários do extinto Serviço de Proteção ao Índio (SPI) – ressurge quase intacto.

Supostamente eliminado em um incêndio no Ministério da Agricultura, ele foi encontrado recentemente no Museu do Índio, no Rio, com mais de sete mil páginas preservadas e contendo 29 dos 30 tomos originais.

Em uma das inúmeras passagens brutais do texto, a que o jornal Estado de Minas teve acesso e publicou na data em que se comemora o Dia do Índio, um instrumento de tortura apontado como o mais comum nos postos do SPI à época, chamado “tronco”, é descrito da seguinte maneira: “Consistia na trituração dos tornozelos das vítimas, colocadas entre duas estacas enterradas juntas em um ângulo agudo. As extremidades, ligadas por roldanas, eram aproximadas lenta e continuamente”.

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Entre denúncias se encontra relatos de caçadas humanas promovidas com metralhadoras e dinamites atiradas de aviões, inoculações propositais de varíola em povoados isolados e doações de açúcar misturado a estricnina, o texto redigido pelo então procurador Jader de Figueiredo Correia ressuscita incontáveis fantasmas.

A Pedido do Ministro e Notícia no Exterior

A investigação, feita em 1967, em plena ditadura, a pedido do então ministro do Interior, o general Afonso Augusto de Albuquerque Lima, tendo como base comissões parlamentares de inquérito de 1962 e 1963 e denúncias posteriores de deputados, foi o resultado de uma expedição que percorreu mais de 16 mil quilômetros, entrevistou dezenas de agentes do SPI e visitou mais de 130 postos indígenas.

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Ministro Afonso de Albuquerque era cearense

Jader de Figueiredo e sua equipe constataram diversos crimes, propuseram a investigação de muitos mais que lhes foram relatados pelos índios, se chocaram com a crueldade e bestialidade de agentes públicos. Ao final, no entanto, o Brasil foi privado da possibilidade de fazer justiça nos anos seguintes. Albuquerque Lima chegou a recomendar a demissão de 33 pessoas do SPI e a suspensão de 17, mas, posteriormente, muitas delas foram inocentadas pela Justiça.

Os únicos registros do relatório disponíveis até hoje eram os presentes em reportagens publicadas na época de sua conclusão, quando houve uma entrevista coletiva no Ministério do Interior, em março de 1968, para detalhar o que havia sido constatado por Jader e sua equipe. A entrevista teve repercussão internacional, merecendo publicação inclusive em jornais como o New York Times. No entanto, tempos depois da entrevista, o que ocorreu não foi a continuação das investigações, mas a exoneração de funcionários que haviam participado do trabalho. Quem não foi demitido foi trocado de função, numa tentativa de esconder o acontecido. Em 13 de dezembro do mesmo ano o governo militar baixou o Ato Institucional nº 5, restringindo liberdades civis e tornando o regime autoritário mais rígido.

“Eu tinha certeza de que ele tinha sido queimado”

“O relatório é uma bomba atômica na história recente do país. Tinha muita gente importante envolvida. Essa é uma das melhores notícias que já recebi nos últimos 40 anos”, se emociona o advogado Jader de Figueiredo Correia Júnior, ao saber que o relatório produzido por seu pai, o procurador Jader de Figueiredo, em 1968, sobre violação de direitos humanos de indígenas, foi encontrado quase intacto, depois de mais de 40 anos desaparecido.

HISTÓRIA - Jáder Figueiredo Júnior (com a foto do pai): denúncias de violência contra os índios - Fonte - http://www.istoe.com.br/reportagens/294080_A+VERDADE+SOBRE+A+TORTURA+DOS+INDIOS
HISTÓRIA – Jáder Figueiredo Júnior (com a foto do pai): denúncias de violência contra os índios – Fonte – http://www.istoe.com.br

“Eu tinha certeza de que ele tinha sido queimado. Diziam na época que tinha sido proposital”, lembra o advogado, que reclama de o trabalho do pai ter sido escondido e ignorado na história do país, perpetrando as injustiças constatadas. “Era uma voz solitária na ditadura, contra o AI-5 e contra um regime que censurava a imprensa”, diz.

O vice-presidente do Tortura Nunca Mais de São Paulo e coordenador do projeto Armazém Memória, Marcelo Zelic, um dos principais atores na recuperação do material, concorda: “Jader de Figueiredo foi uma figura republicana superinteressante, apagada injustamente da história”.

Em 1977, uma comissão parlamentar de inquérito foi aberta na Câmara para investigar violações de direitos humanos dos índios. No ano anterior, o procurador que produziu o relatório morreu em acidente de ônibus, aos 53 anos. Perguntado se a morte do pai pode ter sido provocada por opositores, o filho considera: “Eu nunca tinha pensado nisso, eu tinha 14 anos incompletos na época. Pode ser. Meu pai morreu em um acidente que nunca foi esclarecido”.

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Jader Figueiredo Júnior relembra o transtorno que a divulgação do relatório trouxe à família e diz que seu pai chegou a ser ameaçado de morte. “Ele sofreu atentados, foi perseguido por pistoleiros durante a investigação. Nossa família vivia sob segurança da Polícia Federal”, relembra. Ele destaca que o pai não era uma pessoa vaidosa e não gostava de aparecer. “Ele se indignava de pensar que seu trabalho podia ficar no ‘dito pelo não dito’. Viu muita injustiça, muita crueldade. E morreu na esperança de seu trabalho aparecer de novo, de algum jeito. Onde ele estiver agora, estará feliz”, acredita o filho.

“Nos Estados Unidos foi um massacre, aqui foi genocídio”

Jader Júnior relata uma passagem que o pai costumava contar em casa, sobre uma índia que foi morta e cortada ao meio em público. Segundo ele, quando o procurador chegou à aldeia, encontrou a mulher amarrada entre duas estacas pelos pés, de cabeça para baixo, partida longitudinalmente ao meio por piques de facão.

“O brasileiro costuma assistir a filmes de Hollywood onde caubóis matam índios e acha bonito. O que o americano fez com os índios foi brincadeira em relação ao que foi feito aqui. Lá foi uma matança, aqui foi genocídio. Uma coisa nazista, hitlerista. E o brasileiro não tem consciência disso. Isso é uma coisa que o mundo precisa saber”, revolta-se o filho.

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A perplexidade do pai está indelével no relatório recuperado: “Os criminosos continuam impunes, tanto que o presidente dessa comissão viu um dos asseclas desse hediondo crime (assassínio de Cintas Largas, no Mato Grosso) sossegadamente vendendo picolé a crianças em uma esquina de Cuiabá (MT)”.

Catalogação

Marcelo Zelic expressou grande alegria pela descoberta do documento. “Eu o achei inteirinho”, exclama o pesquisador, que percebeu que os papeis ilegíveis eram o famoso Relatório Figueiredo, que ficou batizado com o nome do procurador.

Ele descreve que foi chamado ao Museu do Índio em agosto do ano passado para analisar documentação que estava em posse da entidade desde 2008 e havia sido catalogada em 2010. Das 62 páginas finais entregues ao ministro Albuquerque Lima pelo procurador Jader de Fiqueiredo, 15 estavam em estado precário de preservação. O ativista garante, porém, que os trabalhos desenvolvidos pelo Museu do Índio, Tortura Nunca Mais de São Paulo, Comissão Justiça e Paz de São Paulo, Konoinia Presença e Serviço, Associação Juízes para a Democracia e Armazém Memória, com apoio da deputada Luíza Erundina (PSB-SP), conseguiu recuperar todas elas, que estão sendo catalogadas.

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Dois dos questionamentos que o relatório pode suscitar são em relação à posse de terras – como a dos índios kadieus, em Mato Grosso – e a acusados de crimes não apurados. Em uma das páginas entregues a Albuquerque Lima, por exemplo, quatro nomes são citados como responsáveis por diversos crimes. São eles: Abílio Aristimunho, Acir Barros, Airton de França e Alan Kardec Martins Pedrosa.

Filho de procurador diz que pai é personagem esquecido da história

“Meu pai, hoje, é um personagem convenientemente esquecido da história, apesar de seu trabalho, na época, ter tido repercussão internacional”, declarou em entrevista a Agência Brasil no ano de 2012, o advogado Jader de Figueiredo Correia Junior ao falar sobre o pai.

“Meu pai foi ameaçado várias vezes. A Polícia Federal teve que garantir a segurança da minha família por todo o tempo que durou o trabalho dele. Policiais acompanhavam a mim e a minha mãe quando eu ia à escola. No caso da minha irmã, que é seis anos mais velha, os agentes permaneciam próximos à escola até o fim das aulas e a levavam de volta para casa. Por medo, minha mãe mantinha uma arma em casa”, conta Júnior, que tinha 5 anos na época.

No Brasil ainda existem tribos não contatadas, como a que mostra na foto. O que devemos fazer com eles? Matá-los? levar nossa fé? Nossos valores? Ou deixá-los em paz?
No Brasil ainda existem tribos não contatadas, como os da foto. O que devemos fazer com eles? Matá-los? Levar nossa fé? Nossos valores? Utilizá-los como atração turística? Ou  simplesmente deixá-los em paz?

“Lembro-me de algumas coisas que meu pai conversava em casa. Lembro-me de ele falar sobre a matança de índios, de cenas que ele descrevia. Era tudo muito brutal. Ele falava sobre o genocídio de aldeias inteiras. Meu pai contava ter chegado a aldeias e encontrado toda uma comunidade morta por envenenamento, pelo contato (com os não índios) ou por outros meios. Lembro de ele contar que em uma aldeia o grupo encontrou uma índia amarrada a duas árvores pelos pés, de cabeça para baixo e cortada a facão”, conta o advogado, garantindo que, por questão de segurança, seu pai não guardava cópias dos documentos em casa.

Uma das páginas do relatório recuperadas no Museu do Índio, assinada por Jader de Figueiredo Correia (Foto: Museu do Índio)
Uma das páginas do relatório recuperadas no
Museu do Índio, assinada por Jader Figueiredo
Correia (Foto: Museu do Índio) – Fonte – G1

Suplícios

O contexto desenvolvimentista da época e o ímpeto por um Brasil moderno encontravam entraves nas aldeias. O documento relata que índios eram tratados como animais e sem a menor compaixão. “É espantoso que existe na estrutura administrativa do país repartição que haja descido a tão baixos padrões de decência. E que haja funcionários públicos cuja bestialidade tenha atingido tais requintes de perversidade. Venderam-se crianças indefesas para servir aos instintos de indivíduos desumanos. Torturas contra crianças e adultos em monstruosos e lentos suplícios”, lamentava Figueiredo. Em outro trecho contundente, o relatório cita chacinas no Maranhão, em que “fazendeiros liquidaram toda uma nação”. Uma CPI chegou a ser instaurada em 1968, mas o país jamais julgou os algozes que ceifaram tribos inteiras e culturas milenares.

Fontes – http://www.istoe.com.br/reportagens/294080_A+VERDADE+SOBRE+A+TORTURA+DOS+INDIOS

http://www.em.com.br/app/noticia/politica/2013/04/19/interna_politica,373440/documento-que-registra-exterminio-de-indios-e-resgatado-apos-decadas-desaparecido.shtml#.UXLaF7Vx4h0.facebook

P.S. – Como o leitor de uma revista comentou, certamente os fatos narrados neste relatório devem ter ocorrido. Muitos comentarão que o móvel destas denuncias não é desejo de justiça, mas sim instrumentalizar a miséria alheia para adquirir poder. Para outros remexer nestes papeis é trazer de volta velhos fantasmas que nada trazem de bom para o momento atual do Brasil.

Pessoalmente reconheço a gravidade do relatório, melhor seria se o governo tivesse encarado o problema de frente na época e buscado alguma solução. Mas a velha prática do Estado brasileiro de esconder a nossa documentação histórica embaixo do tapete é que gera a triste situação das gerações atuais terem de conhecer estes acontecimentos desta maneira.

CONHEÇA SASHA SIEMEL

Sasha Siemel e uma de suas vítimas
Sasha Siemel e uma de suas vítimas

TALVEZ ELE TENHA SIDO A PRIMEIRA PESSOA A GANHAR DINHEIRO COM TURISMO NAS SELVAS DO BRASIL, MAS DE UMA MANEIRA TOTALMENTE SANGUINÁRIA

 Autor – Rostand Medeiros

Existem algumas figuras que passam por este mundo de meu Deus e não deixam história nenhuma. Já outras deixam mais do que histórias, viram lendas. É o caso de Alexander “Sasha” Siemel, conhecido como o maior caçador de onças que já existiu e que ganhou muito dinheiro trazendo gringos abastados para matar estes animais na região do Pantanal.

Conta-se que ele caçou com sucesso nas selvas de Mato Grosso, mais de 300 destes que são considerados os maiores felinos do hemisfério ocidental e o terceiro em tamanho no mundo.

Sasha Siemel nasceu em Riga, capital da atual Letônia em 1899, quando o seu país ainda era parte do Império Russo. Migrou em 1907 para os Estados Unidos, onde permaneceu apenas dois anos. Depois seguiu para a Argentina, onde foi empregado em uma loja de impressão em Buenos Aires e no ano de 1914 ele chega ao Brasil.

A direita na foto vemos Sasha com uma zagaia na mão, junto com um cliente e o resultado do seu trabalho - Fonte - http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf
A direita na foto vemos Sasha com uma zagaia na mão, junto com um cliente, o resultado do seu trabalho e a tradicional pose de caçador – Fonte – http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf

Não sei como aconteceu, mas Sasha trabalhou como armeiro e mecânico em campos de mineração de diamantes no Mato Grosso. Consta que na região pantaneira ele se encantou com a natureza viva e praticamente intocada. Ali conheceu um nativo que lhe ensinou a se tornar um caçador tradicional de onças, daqueles que mata o bicho armado apenas com a famosa zagaia, uma lança com dois metros de comprimento ou mais. Consta que foi no ano de 1925 que ele matou seu primeiro felino.

Logo as habilidades do caçador louro, de sotaque estrangeiro e olhos claros foi reconhecida no Pantanal. Siemel trabalhou contratado por fazendeiros na função de matar onças para proteger os rebanhos de gado. A informação que um europeu matava onças nas impenetráveis e misteriosas selvas brasileiras também chegaram aos ouvidos do chamado “mundo civilizado”.

Em 1931 foi lançado um livro intitulado “O Inferno Verde”, escrito por Julian Duguid, que juntamente com dois amigos aventureiros empregaram Siemel como guia em uma viagem pelo Pantanal no ano de 1929. Na obra são detalhados os acontecimentos e Siemel é apelidado como “Tiger Man”.

O caçador de onças estrangeiro, que não era besta de forma alguma, logo incentivou o maravilhado Duguid a realizar  várias palestras sobre a sua viagem em clubes de exploradores existentes em todo o mundo, preferencialmente levando o guia e caçador de onças junto.

Em uma época muito anterior aos fantásticos documentários do Discovery Channel, da National Geografic e do Animal Planet. Estas palestras faziam o público perder o folego e o caçador Sasha Siemel conseguiu obter novos e fascinados clientes para conhecer o nosso Pantanal.

Barco utilizado em uma das expedições - Fonte - http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf
Barco utilizado em uma das expedições – Fonte – http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf

Em 1937, enquanto participava de uma palestra na Filadélfia, Siemel conheceu Edith Bray, uma jovem fotógrafa que mais tarde se juntou a ele no Pantanal. Três anos depois, com a idade de 47 anos, casou-se com Edith e os dois permaneceram no Pantanal enquanto nasciam seus filhos. Os Siemels viviam numa casa flutuante as margens do Rio Miranda, junto com seus cães de caça e outros bichos.

Sasha Siemel, Edith e seus filhos mudaram-se para o sudeste da Pensilvânia em 1947 e comparam uma propriedade rural que foi batizada de “Bom Retiro”, em português mesmo. Consta que neste mesmo ano foi editado e comercializado um filme chamado “The Jungle Family”, que rodou o mundo. Além de mostrar Sasha e sua família no “inferno verde” do nosso Pantanal, uma das cenas mostra Sasha armado apenas com uma zagaia, em luta de contra uma onça.

Sasha Siemel levava uma vida tranquila, onde se dividia entre palestras e caríssimas expedições à América do Sul. Ele falava seis línguas: letão, russo, alemão, inglês, espanhol e português.

Vai que de repente o cliente poderia se cansar de matar onças, poderia variar matando uma "cobrinha" como a que aparece na foto - Fonte - http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf
Vai que de repente o cliente poderia se cansar de matar onças, então era possível variar matando uma “cobrinha” como a que aparece na foto – Fonte – http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf

Não se pode negar que Siemel era um homem de visão e sabia utilizar os holofotes em seu favor e a favor do seu negócio. Ele lançou quatro livros sobre suas aventuras, um deles em coautoria com a esposa. Participou de séries cinematográficas sobre as caçadas de onças pantaneiras, esteve atuando em um filme no ano de 1946 e montou em  Perkiomenville, Pensilvânia, um museu. Em um antigo moinho, Siemel mostrava aos visitantes sua coleção de troféus de caça, obras de arte, curiosidades, minerais, conchas, moedas, armas, utensílios indígenas, equipamentos utilizados na caça e captura de onças e muitos outros itens.

Outra situação verdadeiramente interessante era que durante as viagens pelo Pantanal, o arrojado Sasha poderia providenciar para que seus clientes tivessem a sua aventura filmada. Evidentemente que o pacote ficava bem mais caro.

O museu fechou em 1969, após a última viagem de Siemel ao Pantanal, no qual ele guiou um grupo de geólogos pela região. O aventureiro morreu em Montgomery County, Pensilvânia, em 1970, com a idade de 80 anos.

Fonte - www.outdoorlife.com
Fonte – http://www.outdoorlife.com

Provavelmente o letão Aleksandrs Ziemelis, este era o verdadeiro nome de Sasha, foi a primeira pessoa a ganhar grana, dólares, atuando turisticamente junto a exuberante natureza brasileira. Ele seria então o primeiro empreendedor do turismo aventureiro em terras Tupiniquins?

Realmente eu não sei.

Mas sei que evidentemente a sua forma de fazer turismo era manchada de muito sangue dos nossos mais nobres animais e, por mais gente boa que ele fosse, certamente os nativos que o ajudavam deviam receber a menor fatia do bolo.

Mesmo com a caça de onças proibida por lei federal desde 1967, esta forma de turismo ainda ocorre clandestinamente no Pantanal e isso se deve em grande parte a volta das onças.

Até o início da década de 1990 era preciso muita sorte e paciência de ermitão para ver uma onça na região. Mesmo nas áreas mais distantes, era necessário muito tempo para encontrar uma pegada do felino. Atualmente é muito fácil ver estes animais nas margens dos rios e inclusive o número de pessoas atacadas por onças voltou a subir. Outra ideia aponta que muitas áreas do Pantanal, anteriormente utilizadas para a criação de gado, tornaram-se inacessíveis e foram abandonadas. A ausência do homem teria permitido que as onças se multiplicassem.

Fonte - olhares.uol.com.br
Fonte – olhares.uol.com.br

Conhecida como onça-pintada, Jaguar ou Jaguará  (Panthera onca), é um animal do gênero Panthera, membro da família dos felinos, mamífero da ordem dos carnívoros. A onça é ágil, arisca, paciente, silenciosa, veloz e muito feroz. Sobe em árvores com facilidade e atravessa rios a nado, pois é excelente nadadora. Sabe agitar a sua cauda sobre a superfície dos rios para atrair os peixes, que ela pesca com uma patada. Possui hábitos diurnos ou noturnos, mais para caçar prefere a escuridão da noite. Satisfaz seu apetite alimentando-se com um cardápio variado que inclui antas, peixes, capivaras, jacarés, jiboias, serpentes, veados e outros mamíferos de pequeno porte.

Enquanto alguns dos grandes felinos atacam diretamente no pescoço, as onças, graças as suas mandíbulas poderosas, atacam principalmente nas cervicais. Esses felinos podem frequentemente matar mordendo diretamente o crânio, de um jeito um tanto incomum, sendo o único da sua espécie a realizar esta ação. Tem uma mordida excepcional e poderosa mesmo em relação aos outros grandes felinos, isso permite que ele fure a casca dura de uma tartaruga.

Sasha e um bom dia de caça - Fonte - eloir-mario.blogspot.com
Sasha e um ótimo dia de caça – Fonte – eloir-mario.blogspot.com

A gestação das onças fêmeas dura em média 95 a 110 dias e elas podem dar a luz a uma ninhada de até quatro filhotes. Os pequenos felinos nascem completamente cegos e passam a enxergar com duas semanas de vida. A fêmea da onça normalmente só cria dois filhotes, permanecendo junto a eles por até dois anos. Enquanto as fêmeas alcançam a maturidade sexual aos dois anos, os machos atingem a maturidade em torno dos três anos e pelas pesquisas em cativeiro as onças podem viver até 20 anos. Já o acasalamento ocorre em qualquer época do ano.

As onças são animais que se deslocam sempre com a cabeça baixa e as manchas do seu corpo são uma perfeita camuflagem. A coloração é a mesma tanto para os machos como para fêmeas, mais ocorrem variação de indivíduos. São de coloração amarelo avermelhadas, com manchas pretas meio redondas que se distribuem simetricamente pelo corpo.

Fisicamente esses felinos manchados se assemelham aos leopardos, embora a onça seja mais resistente e maior, além da sua cabeça ser proporcionalmente maior em relação ao corpo. Um exemplar adulto pode alcançar até 2,60 metros de comprimento, chegando a pesar em torno de 115 kg, embora em média os machos pesem 90 kg e as fêmeas 75 kg.

Fonte - lojaplus.blogspot.com
Fonte – lojaplus.blogspot.com

Infelizmente com o retorno do grande felino e o contato com os humanos e seus animais de criação, voltam os problemas. Pessoas tem sido mortas no Pantanal, no Paraná e onças tem atacado o gado em cidades do interior. Até nos vizinhos estados da Paraíba e do Ceará, problemas com felinos selvagens estão acontecendo. Em 2012, na cidade paraibana de Bonito de Santa Fé , algumas suçuaranas, uma parente menor da onça pintada, atacaram animais de criação. No Ceará notícias informam que em uma localidade a 337 km de Fortaleza, um agricultor foi atacado e quase morto por um destes animais.

Na Argentina eles tentam manter o número de onças pintadas e suçuaranas controlados através da prática da caça legalizada, fiscalizada e paga. Lá, para se matar uma onça pintada deve-se desembolsar mais de R$ 4.000,00 reais.

Talvez eu não seja a melhor pessoa para comentar sobre estes animais. Vale frisar que a única onça que vi na vida era um exemplar deste belo animal que ficava confinado em uma minuscula jaula na entrada da casa noturna “Royal Salute”, que ficava no subsolo do extinto Grande Hotel, na Praia do Meio, lá na metade da década de 1980. Por razões obvias, se estivesse no meio do mato e me deparasse com uma pintada faminta, preferia que ela estivesse mortinha da silva, ou então eu seria o almoço do felino.

Não sei se aqui no Brasil a caça controlada daria certo, mas algo deve ser feito para se evitar novas mortes de humanos e a extinção destes animais. Mas evidentemente nunca mais da forma como Sasha Siemel realizava.

Fontes-http://cefaprocaceres.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=575&Itemid=76

http://veja.abril.com.br/200900/p_096.html

http://en.wikipedia.org/wiki/Sasha_Siemel

http://eloir-mario.blogspot.com.br/2011/08/um-pouco-de-sasha-siemel.html

http://www.animatronic.com.br/2007/sasha-siemel-o-cacador-de-oncas/

http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf

1830 – O REGISTRO DE BATISMO DE ANTÔNIO CONSELHEIRO

O PRIMEIRO DOCUMENTO OFICIAL DE UM GAROTO CEARENSE QUE MUDOU A HISTÓRIA DO BRASIL

O Conselheiro

Rostand Medeiros – IHGRN

O documento que vou apresentar no nosso Tok de História é como está documentado o batismo de Antônio Vicente Mendes Maciel, que ficaria conhecido na história do Brasil como Antônio Conselheiro.

Esta é a íntegra do texto;

“Aos vinte e dois de maio de mil oitocentos e trinta batizei e pus os Santos Óleos nesta Matriz de Quixeramobim ao párvulo Antônio, pardo, nascido aos treze de março do mesmo ano supra, filho natural de Maria Joaquina. Foram padrinhos, Gonçalo Nunes Leitão e Maria Francisca de Paula. Do que, para constar, fiz este termo, em que me assinei.

O Vigário, Domingos Álvaro Vieira”

– Livro de Assentamentos de Batizados da Paróquia de Quixeramobim, Livro 11, fl. 221 v.

O registro de batismo de Antônio Conselheiro

Este documento já a muito havia sido pesquisado pelo cearense Ismael Pordeus, que inclusive já havia publicado na íntegra, no periódico cearense “O Nordeste”, na edição de quinta feira, 6 de julho de 1949.

Mas lendo com calma o que está escrito no Livro de Assentamentos algumas equenas e interessantes informações surgem.

Visão que a imprensa conservadora do final do séc. XIX tinha de Antônio Conselheiro

Primeiramente temos que registrar que Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu em Quixeramobim, Ceará, em 13 de março de 1830, uma quinta feira, em um ano considerado seco.

Casa onde nasceu Atônio Conselheiro, ainda preservada na rua Cônego Aureliano Mota, nº 210, próximo à Praça Dias Ferreira, Quixeramobim, Ceará – Fonte – Magno Lima

Era filho do comerciante Vicente Mendes Maciel e de Maria Joaquina de Jesus. Para outros o nome da sua mãe era Maria Joaquina do Nascimento, tinha o apelido de Maria Chana e ainda Maria Maciel (In Benício, Manuel. O Rei dos Jagunços, Rio de Janeiro, Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997, Págs. 8 e 9, 2ª Ed. / Levine, Robert. O sertão prometido-O massacre de canudos, São Paulo, EDUSP, 1995, Págs.181 a 183, 1ª Ed.).

Dois meses depois do nascimento do jovem Antônio Maciel, no dia 22 de maio de 1830, um sábado, ele foi batizado na Matriz de Quixeramobim, uma majestosa igreja construída em 1755, cujo padroeiro é Santo Antônio, sendo considerado o primeiro templo religioso da região do Sertão Central do Ceará.

Matriz de Quixeramobim – Fonte – Walter Leite

Coincidentemente, o dia em que o jovem Antônio Maciel foi batizado é dedicado pela Igreja católica a devoção da monja agostiniana batizada como Rita, que morreu na cidade de Cássia, no ano de 1457, na província de Umbria, Itália. Mas não existe nenhuma indicação que a mãe de Antônio Maciel, Dona Maria Joaquina, fosse devota desta santa e decidiu batizar seu filho neste dia.

Certo é que ao lemos o Livro de Assentamentos de Batizados da Paróquia de Quixeramobim, Livro 11, fl. 221 v., atualmente pertencente à Diocese da cidade cearense de Quixadá, vemos que somente o jovem Antônio foi batizado naquele sábado.

Capa do livro de Assentamentos, onde está o registro de Antônio Conselheiro

Primeiramente chama atenção na foto do registro, logo abaixo do nome “Antônio”, a designação de sua cor como sendo “Pardo”, o que aponta o alcance das designações raciais no Nordeste do Brasil daquela época.

Percebemos a ausência do pai no registro e, provavelmente, na própria cerimônia.

Para aqueles que estudam a vida do Conselheiro, a ausência documentada de Vicente Maciel naquele livro de registro e a possível ausência na cerimônia de batismo de seu único filho varão não é nenhuma novidade.

Vicente era tido como um homem direito, trabalhador, mas muito complicado, como se diz atualmente. Estava no segundo casamento, era parcialmente surdo, considerado taciturno, que ocasionalmente realizava péssimos negócios que geravam dívidas e era alcoólatra. Em uma ocasião, quando bêbado, havia espancado a primeira mulher quase até a morte.

Analisando as folhas de batismo dos meses anteriores e posteriores ao batizado de Antônio Maciel, o seu registro é o único que não consta o nome do pai.

Teria havido problemas com o vigário local?

Ou alguma alteração séria teria ocorrido na época, a ponto de indispôr Vicente com o meio social do seu lugar e comprometer sua participação no evento?

Ou estaria vergado de cachaça, sem condições físicas para participar da cerimônia?

A razão não se sabe. Mas seu nome não consta do documento.

Igualmente nada sabemos dos padrinhos Gonçalo Nunes Leitão e Maria Francisca de Paula.

Outra situação interessante diz respeito ao nome do vigário. Para muitos o nome do representante da igreja em Quixeramobim que batizou Antônio Maciel seria Domingos Álvaro Vieira. Mas analisando a sua assinatura, o nome que surge é Domingos Alvares Vieira. Na foto da assinatura do vigário é possível distinguir nitidamente o “S” de Alvares.

Assinatura do vigário Domingos Alvares Vieira

Sendo este o nome correto do vigário, encontramos a figura de Domingos Alvares Vieira, um religioso católico nascido na cidade pernambucana de Goiana e batizado em 22 de outubro de 1795. Era filho de José Alvares Vieira e de Francisca Lourenço. Ordenou-se em Olinda e depois foi vigário no Ceará (Em Quixeramobim?).

Depois tornou-se lente do Liceu da Paraíba. Teve participação política, onde foi Deputado Provincial da Paraíba, na 1.ª Legislatura, cuja sessão de instalação ocorreu no dia 7 de abril de 1835. Foi Deputado à Assembleia Geral, pela Paraíba, na 3.ª Legislatura, de 3 de maio de 1834 a 15 de outubro de 1837.

Após esta experiência política, o sacerdote Vieira voltou a Goiana de onde foi vigário durante muitos anos. Foi Conselheiro do Governo de Manuel de Carvalho e ainda vivia em 1849. (In Pio, Fernando. Apontamentos Biográficos do Clero Pernambucano (1535 – 1935). Recife, Arquivo Público, 1994, 2 volumes).

Seria o religioso Vieira, que foi Deputado Provincial, o mesmo que anos antes batizou uma criança que se tornaria Antônio Conselheiro?

O registro do jovem Antônio Maciel é o primeiro da folha esquerda

Infelizmente é outro questionamento sem uma resposta.

Sobre o local de nascimento de Antônio, segundo material contido no site http://meltingpot.fortunecity.com/hornsey/372/evolucao.htm, informa que Quixeramobim primeiramente surgiu a partir de uma propriedade denominada Santo Antônio. Depois o lugarejo foi paulatinamente evoluindo pra a pequena povoação denominada Santo Antônio do Boqueirão, ou Santo Antônio de Quixeramobim.

Consta que oficialmente o lugarejo  pertenceu primeiramente à Vila de São José de Ribamar do Aquiraz até a sua elevação a vila, o que se confirma mais uma vez com asa transcrições que se seguem: Ao ouvidor Manuel de Magalhães Pinto de Avelar de Barbedo “coube-lhe instalar a Vila de Campo Maior de Quixeramobim, até então pertencente a Aquiraz, a 13 de junho de 1789”.

O site ainda aponta que os sertões de Quixeramobim eram constituídos de vastos campos que se estendiam pelas planícies adjacentes. Porém, sobre o nome Campo Maior a verdade histórica aponta que por orientação do marquês de Pombal, primeiro ministro de D. José I, foi expedida uma Carta Régia, datada de 6 de maio de 1758, determinando que toda vila a serem criada no Brasil-Colônia, teriam que receber nomes de localidades existentes em Portugal. Essa medida perdurou até metade do ano de 1803, quando deixou de ser cumprida.

Quixeramobim atualmente – Fonte – Magno Lima

Ao ser elevada a categoria de vila, o lugarejo teve seu nome mudado para Vila de Campo Maior, devido à determinação contida na lei acima. O nome de Vila de Campo Maior não foi bem aceito pela população, que continuou a fazer uso do termo Quixeramobim, isto é, Vila de Quixeramobim e, raramente, Vila de Campo Maior de Quixeramobim.

Outra visão do texto original

Na época do nascimento de Antônio Vicente Mendes Maciel, a comunidade já era conhecida apenas como Quixeramobim e assim está descrito nos autos do batismo.

O resto da história de Antônio Conselheiro é bem conhecido e todos sabem o seu desfecho.

P.S. – Um agradecimento todo especial aos membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, sede de Natal,  pelo apoio na realização deste artigo. (http://www.lds.org.br)

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OS TERREMOTOS E O RIO GRANDE DO NORTE

Em relação aos terremotos, existem alguns estados do Brasil nas quais este tipo de notícia causa nas pessoas apreensão e um arrepio, daqueles que começam bem lá no “pé” da espinha cervical.

Entre estes estados, seguramente um deles é o Rio Grande do Norte.

Uma Velha Convivência com Terremotos

O maior terremoto já registrado no Brasil ocorreu na Serra do Tombador, no Mato Grosso, em 1955. Atingiu 6.6 pontos na escala Richter e foi sentido a 600 quilômetros de distância do epicentro. No caso do Rio Grande do Norte, pelo menos em termos de registro, o maior ocorreu em 1986, quando na região da antiga Baixa Verde, hoje município de João Câmara, a 80 quilômetros de Natal, foi sentido uma pancada de 5.3 pontos da escala Richter, que chegou até na Bahia, sendo considerado o terceiro maior terremoto da história do Brasil.

E o pior é que não faltam ocorrências deste fenômeno geológico na história potiguar.

Nas amareladas folhas de papel do “Almanaque Brasileiro Garnier”, de 1909, nas páginas 458 a 461, temos a informação que as oito da manhã de uma segunda feira, 8 de agosto de 1808, nos “Sertões do Assu”, ocorreram fortes tremores de terra que fizeram louças balançar nos armários dos casarões do sertão e pessoas cairam no chão desequilibradas.

Em 2 de dezembro de 1852, entre uma e duas horas da tarde, na cidade de Aracati, no vizinho Ceará, estado quede vez em quando “treme nas bases”, um abalo muito forte rachou as casa e foi fortemente sentido em Areia Branca, Mossoró e parte da região oeste potiguar.

Dois anos depois, no dia 10 de janeiro de 1854, uma terça feira, durante mais de um minuto o chão tremeu, derrubou telhas das casas e foi sentido principalmente na Vila de Touros, a beira-mar. Ainda bem que não vieram ondas fortes.

Segundo o pesquisador e escritor Elísio Augusto de Medeiros e Silva, em um artigo publicado no Jornal de Hoje, em 20 de janeiro de 2011, este abalo de terra não teve muita importância em Natal, visto ter tido maior intensidade em Touros, onde foi forte, aterrador, com diferença de poucos segundos para Natal. Informa o pesquisador que entre os antigos moradores de Touros, reza a tradição que o estrondo teria sido no Touro Grande, cabeça de pedra existente no mar. Em Natal, o estrondo foi mais sentido na Ribeira, Redinha e praias da região norte.

Recorremos novamente a Elísio para informar que em 1879, em meio a uma seca que devastava o Nordeste, a famosa seca de 1877 a 1879, houve um abalo, que em Natal chegou a derrubar algumas moradias no bairro da Ribeira, sem maiores consequências.

Abalos em Luís Gomes em 1928

Há poucos anos, creio que em 2007, muitas pessoas se espantaram em saber que na comunidade do Sítio Arara, a cerca de dez quilômetros da cidade de Luís Gomes, no oeste do Rio Grande do Norte, vários tremores de terra ocorreram ao longo de meses.

O espanto é que se imaginava que este fenômeno estava restrito a região de João Câmara, mas a história mostra que não.

Na sua página 3 do jornal potiguar “A Republica”, edição de 17 de abril de 1928, uma terça feira, informa nas suas notas policiais que o tenente Napoleão de Carvalho Agra, então delegado de Luís Gomes, comunicou que por volta das dez da noite, um forte abalo sísmico foi sentido na pequena cidade, que na época tinha em todo o município, segundo o Censo de 1920, 5.661 habitantes.

Agra informa não informa sobre nenhum estrago, nem a reação da população, que certamente deve ter passado por um susto muito grande.

Estive na área rural de Luís Gomes em 2009, na área do Sitio Arara, como parte de um trabalho realizado para o SEBRAE-RN. Ao conversar com as pessoas tive uma percepção que, diferentemente de João Câmara, não existe uma sensação de que este tipo de fenômeno possa se repetir. Para eles se trata de um caso extra, sem perspectivas de repetição.

Mas as páginas do velho jornal aparentemente mostram que não.

Segundo os geólogos, o Nordeste é a região do país que mais sente os abalos sísmicos. Em 1980, a região de Pacajus e Cascavel, no Ceará, sofreu um abalo que chegou a 5.2 de magnitude. Mas outros abalos já foram sentidos São Caetano e Caruaru, em Pernambuco, Cascavel e Jaguaribara, no Ceará, Tabuleiro Grande e Apodi, no Rio Grande do Norte.

João Câmara – 1986 – Eu Estive Lá

A cidade de João Câmara cresceu junto com os trilhos da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte. Era um lugar inicialmente denominado “Matas”, mas seu desenvolvimento justificou que em 29 de outubro de 1928, fossem desmembradas terras dos municípios de Touros, Taipu e Lajes. Tudo sacramentado pela Lei nº 697, que oficialmente criou o município de Baixa Verde.

A Antiga Baixa Verde. Fonte-http://joaocamararn.multiply.com/

Quem é da região tem alguma história sobre tremores de terras. É coisa comum e frequente, tanto que o pessoal de Natal inventou que João Câmara é a terra do “treme, treme”.

Segundo o site Wikepédia (que possui algumas informações que valem a pena), consta que os fenômenos de 1986, foi a sequência de abalos sísmicos mais bem documentadas no Brasil.

O primeiro abalo ocorreu em 21 de agosto, alcançou magnitude 4.3, e foi sentido em Natal, mas sem maiores repercussões. Em setembro ocorreram dois tremores, respectivamente 4.3 e 4.4 de magnitude na escala Richter e foram acompanhados por várias réplicas. Depois as coisas pareciam ter se acalmado.

Fonte-http://joaocamararn.multiply.com/

Mas aí veio o maior abalo. Cravou 5.1 pontos na escala Richter, ocorreu oficialmente às cinco e dezenove da manhã, de 30 de novembro de 1986, de um domingo que prometia praia. Depois ocorreram outros tremores, todos na faixa de 4.0 ou superior.

Quem tem mais de 30 anos, vive neste estado e sentiu o tremor, nunca vai esquecer aquela noite. Pessoalmente me acordei com a minha irmã Carla Régia assustada, com as janelas da nossa antiga casa batendo. Nada caiu, mas depois foi engraçado ver toda a vizinhança da Rua Hemetério Fernandes, no Tirol, de pijamas, quase amanhecendo o dia, no meio da rua, esperando coisa pior e sentindo outros pequenos tremores. Em uma rodinha de amigos rolou até café e cachaça. Era para passar o frio e o sono. Ou seria para espantar o medo?

Em João Câmara, além dos danos materiais, houve o pavor e isto eu assisti.

No mesmo dia 30 de novembro fui a esta cidade para testemunhar os fatos.

Naquele domingo, após o almoço, peguei meu fusquinha cinza 1.300 e segui devagarinho a região.

Conforme chegávamos perto da cidade, dava para ver uma “carreata” de ônibus pertencentes a empresa “Expresso Cabral”, saindo da cidade lotados de gente. Mudanças eram feitas em carroças puxadas por jumentos, carros pequenos, camionetes ¾, caminhões 1113 e o que desse para carregar os “teréns”. Era uma verdadeira fuga em massa.

Fonte-http://joaocamararn.multiply.com/

Contabilizaram duas dezenas de casas destruídas e mais de mil foram parcialmente danificadas. Faltaram em um primeiro momento luz, água e telefone, mas depois foi restabelecido. Como não existia celulares, a sensação de medo e desamparo era muito acentuada pela falta de comunicações. Vimos uma grande rachadura na igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe dos Homens e pessoas ajoelhadas rezando para que o templo sagrado não caísse.

Vimos várias casas rachadas, sem uma parede, as ruas desertas, tudo fechado e havia policiais ligadaços, circulando em “Rurais” pintadas de azul e branco. Um cenário que jamais vou esquecer. Pena não ter levado uma máquina fotográfica.

Fonte-http://joaocamararn.multiply.com/

Em pouco tempo os órgãos públicos, tanto a nível estadual quanto federal, se fizeram presentes e a coisa amenizou. Até Sarney, o presidente da República na época, pouso na cidade com um helicóptero Puma da FAB e foi visitar os estragos.

Não é o “Se”, Mas o “Quando”

O que ocorreu em João Câmara é um exemplo de que o Brasil não está imune aos terremotos.

A pior sensação de presenciar estes fenômenos da natureza é a total condição de impotência e o despreparo para saber o que fazer. Passado o susto vem a velha questão; quando virá o próximo?

Pode parecer exagero, mas é que as pessoas que vivem em terras potiguares não ficam paradas pensando nestas coisas (se não endoidam). Mas para quem mora por aqui, esta questão de haver terremotos é tão certa que o que importa não é o “se”, mas o “quando”. O problema, segundo especialistas, é que não há como prever quando vai acontecer um terremoto, nem mesmo qual será a magnitude do sismo.

Não podemos esquecer que em 2010 foram registrado dois tremores, um de magnitude 3.0 e outro dois dias depois, de 4.3, que atingiram quatro estados da região Nordeste.

Mas como Deus é brasileiro, certamente vai proteger estas terras para aproveitar suas praias. Assim espero!

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OS POTIGUARES E A GUERRA DO FIM DO MUNDO

COMO A GUERRA DE CANUDOS MARCOU

O RIO GRANDE DO NORTE

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Algum tempo atrás fiquei curioso em saber o que a Guerra de Canudos representou para o Rio Grande do Norte na época, além de suas variáveis no contexto histórico.

Não consegui descobrir quando a primeira notícia sobre Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, chegou aterras potiguares, mas já a partir de fevereiro de 1897, esta singular figura começa a ser conhecida e divulgada com maior frequência.

Em um artigo, o Conselheiro era comparado a Zumbi, e Canudos ao Quilombo dos Palmares. Chamava a atenção o fato dos seguidores do Conselheiro queimarem as cédulas da República e utilizarem o dinheiro da época do imperador. As notícias informavam que o número de fanáticos seria em torno de 5.000, mas que eles eram uns “pobres diabos, que buscavam confusão diante das armas do exército”. Entretanto, as notícias já propalavam, com certa surpresa, a força, a motivação e a tranquilidade como os fanáticos do Conselheiro iam para a luta.

A partir da derrota da Segunda Expedição do exército brasileiro, comandada pelo major Febrônio de Brito, e o início da marcha da Terceira Expedição, comandada pelo tenente-coronel Moreira César, as notícias sobre Canudos se tornam semanais. Cópias de  relatórios passam a ser divulgados, se tornam mais alarmistas as notícias, mas o assunto, ainda não frequentava com assiduidade as páginas de o “Diário de Natal” e “A Republica”, os principais jornais de Natal naquela época. Parecia apenas um simples entrevero entre a forte força militar do Exército, e um grupo de “despojados”, onde o resultado era mais do que previsível.

Cresce o conflito

Tudo muda a partir de 10 de março de 1897, quando os jornais locais noticiam que sete dias antes, a coluna comandada por Moreira César, fora fragorosamente derrotada pelos conselheiristas.

Notícia no jornal natalense A República, sobre a derrota da expedição comandada pelo coronel Moreira César.

Após a surpreendente derrota, a elite brasileira estava histérica e exigia medidas drásticas do governo para uma rápida solução do conflito. Esta então se torna uma ação, que mobiliza toda a nação.

Em Natal tem início à preparação do quartel federal existente na cidade, o 34º Batalhão de Infantaria. Em 13 de março, assume o comando da guarnição o major Antônio Ignácio de Albuquerque Xavier, cujo primeiro ato, foi mandar publicar nos jornais da cidade, uma convocação que traz em suas letras uma colocação peculiar; “foi autorizado a aceitar voluntários que queiram servir somente durante a expedição de Canudos, dando-lhe baixa após sua terminação, caso não queiram continuar a servir o Exército, pelo que convida a todos os cidadãos que desejarem alistar-se apresentarem-se no quartel do 34º Batalhão de Infantaria, a qualquer hora do dia ou da noite”.

O interessante, é que esta nota deixa transparecer que o efetivo do batalhão, ou era reduzido para a crise que ocorria, ou aparentemente havia resistências na população de Natal para o alistamento voluntário.

Área do centro de Natal, na Praça André de Albuquerque, como se encontrava entre o final do Século XIX e início do XX.

Outra notícia informa que em algumas comunidades do interior do estado, havia apreensão em relação ao recrutamento. Temia-se uma reprise do que ocorrera na Guerra do Paraguai, onde o recrutamento era obrigatório, e os “voluntários”, eram presos e enviados para frente de guerra sob escolta.

O governador potiguar, Joaquim Ferreira Chaves.

Todos buscavam ajudar. Uma nota mostra que o pagamento aos quais os oficiais tinham direito antes de embarcar, seria efetuado pela Alfândega Federal, mas como esta repartição estava desprovida de recursos, foi o próprio governador Ferreira Chaves que adiantou o soldo da oficialidade do 34º Batalhão.

No domingo 21 de março, o 34º Batalhão realizava manobras militares na Praça André de Albuquerque. Já na cidade de Macaíba, foi realizado um comício patriótico onde Eloy de Souza e Tavares de Lyra, enalteciam a participação do batalhão potiguar e protestavam contra os “inimigos da República”.

Eloy de Souza

Apesar de todo o patriotismo, nem todos desejavam ir para a guerra. O soldado André Cavalcante de Albuquerque desertou do batalhão e se refugiou em Cuitezeiras, atual município de Pedro Velho. Apenas em março de 1898 ele foi capturado e entregue aos militares.

No sábado, 29 de março, o padre João Maria de Britto, celebrou missa solene na Matriz, para o bom êxito da expedição. Praticamente todos os militares e suas famílias, estiveram presentes ao principal templo católico da cidade.

A Partida

Às 13h de uma segunda-feira, 29 de março de 1897, os militares estavam formados diante do quartel. Compareceu à solenidade o então governador Ferreira Chaves e houve muitos discursos dos políticos e de intelectuais como Ferreira Itajubá. O poeta Segundo Wanderley declamou um verso produzido para enaltecer o feito dos potiguares. As bandas da Polícia Militar e da Escola de Aprendizes de Marinheiros tocaram para os companheiros do exército.

Ferreira Itajubá.

Segundo Manoel Rodrigues de Melo, em artigo escrito em 1978, para a revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, uma multidão estimada em 5.000 pessoas, compareceu ao embarque do 34º Batalhão. Este fato é significativo quando se sabe que nesta época, Natal era uma cidade com pouco mais de 15.000 habitantes. Neste dia, o comércio fechou as portas.

Após as solenidades oficiais, o batalhão embarcou no Vapor “Una”, da Companhia Pernambucana de Navegação. Após zarpar, ao passar ao lado da antiga Fortaleza dos Reis Magos, os passageiros do “Una” foram homenageados pelo farol que lá existia, através de uma mensagem visual em código Morse.

O 34º Batalhão de Infantaria seguiu para Canudos, com um contingente composto de quatro companhias, possuindo um efetivo de 36 oficiais e graduados, além de 225 “inferiores”, como eram chamados os cabos e soldados. Sua arma de combate eram as carabinas alemães da marca “Mannlichers”.

A guerra passa então a ser assunto corrente e notícia diária de primeira página nos jornais de Natal.

Organização

Em 5 de abril de 1897 é publicada a Ordem do Dia criando a Quarta Expedição Militar contra Canudos. Organizou-se então, a maior de todas as expedições, formada por tropas de 17 estados, equipadas com os mais modernos armamentos da época.

O efetivo militar era composto de seis Brigadas, cada uma com três batalhões, divididas em duas colunas que investiam sobre Canudos por direções opostas, sendo o comandante central, o general Artur Oscar.

A Primeira Coluna ficava sob o comando do general Silva Barbosa e a Segunda Coluna era comandada pelo general Cláudio Savaget, por isso ficou conhecida como Coluna Savaget.

A Segunda Coluna se concentrará em Aracaju, partindo para o interior em tropas isoladas, se agrupando em Jeremoabo, já na Bahia, e depois seguem para Canudos. Entre os batalhões que compunham a Segunda Coluna estava o 34º Batalhão de Infantaria.

Após sair de Natal, o 34º Batalhão seguiu primeiramente para Recife, onde ficou alojado no Quartel do Largo do Hospício. Desfilou pela capital pernambucana, juntamente com os batalhões 35º (do Piauí) e 40º (do Pará). Estas unidades militares formavam então a 5ª Brigada da Segunda Coluna. O comando desta Brigada estava a cargo do coronel Julião Augusto de Serra Martins.

A 23 de abril a 5ª Brigada embarca nos vapores “Una” e “Itanema”, em direção a Aracaju e a Guerra de Canudos efetivamente tinha início para os potiguares.

Brigada Faz Seu Batismo de Fogo em Cocorobó

Após o desembarque, a ida para a área de combate deu-se de forma lenta, tanto que o contingente do 34º Batalhão apenas chegou a Jeremoabo no dia 8 de junho, segundo informações do alferes potiguar João Augusto, secretário do coronel Silva Teles.

Euclides da Cunha informa que a 25 de junho, a 5ª Brigada da Coluna Savaget fez o seu batismo de fogo oficial, atacando o desfiladeiro de Cocorobó. Neste dia a vanguarda da força de Savaget fez alto uns quinhentos metros antes daquela barreira.

Um esquadrão de lanceiros do 40º Batalhão descobrira o inimigo, tendo seguido em seu encalço, ficando o 34° e o 35°, além de elementos da 4ª Brigada como unidades de reforço, mas logo todos atacavam.

Neste combate, segundo Euclides da Cunha, “mais de oitocentos homens ao mando do coronel Serra Martins, iniciavam o ataque num tiroteio nutrido, em que os fogos irregulares da linha de atiradores se intermeavam das descargas rolantes dos pelotões, que a reforçavam mais de perto, revidando vigorosamente aos tiros dos antagonistas. Estes sustentaram o choque com valor”.

O então jornalista paulista descreve outros detalhes do combate; “A 5ª Brigada foi admirável de disciplina, afrontando-o por duas horas, na posição em que estacara, à margem do Vaza-Barris, abrigando-se entre os ralos arbustos que a revestem”.

Após chegarem à periferia de Canudos, na região da Favela, as forças militares passam a ter outros fortes inimigos; a fome ocasionada pela falta de mantimentos, que ainda se mantinham distantes na retaguarda.

O desânimo diante de uma guerra estranha, a surpresa frente a um inimigo forte, perspicaz e totalmente desconhecido. Mas que no fundo eram irmãos, eram todos brasileiros.

Enquanto isso em Natal, no final de junho, era noticiado em “A Republica” uma nota repudiando alguns boatos comentados na cidade, sobre fortes baixas no contingente do 34º Batalhão. Se estes boatos tinham fundamento os jornais não comentam.

Os militares decidem realizar no dia 18 de julho um grande ataque à cidadela do Conselheiro, onde entrariam em ação 3.349 homens, repartidos em cinco brigadas. Mas o 34º Batalhão não estava listado para o combate. Euclides da Cunha comenta que o 34º era um dos quatro batalhões que protegiam o Quartel General do comandante Artur Oscar.

Neste combate de 18 de julho, os jornais locais listam o primeiro potiguar oficialmente morto no conflito. Era o alferes João Mafaldo de Oliveira Praxedes, natural da cidade de Martins, nascido no sitio Lagoa Nova, filho de Dona Antônia Mafalda de Oliveira Praxedes e Vicente Praxedes. Este oficial fazia parte do 30º Batalhão de Infantaria, do Rio Grande do Sul.

Mesmo os jornais não publicando a lista dos mortos do 34º Batalhão eles existiam, tanto assim que no dia 6 de agosto são publicados pela primeira vez os nomes de pessoas da sociedade que estavam doando dinheiro para ajudar “as viúvas e vitimas de Canudos”. Entre os doadores estavam Hemetério Fernandes, Manoel Dantas, Augusto Leite, Ferreira Chaves e outros.

Na frente de batalha, Euclides da Cunha narra que o 34º Batalhão participa de um contra ataque a um grupo de jagunços, que às seis da manhã de 23 de julho, tentam atacar a retaguarda das forças militares. Quinze conselheiristas são mortos e uma “cabocla” é aprisionada.

Estrada do Calumbi

Mas para o famoso escritor, a ação mais importante realizada pelo 34º Batalhão na Guerra de Canudos, em conjunto com os cariocas do 22º Batalhão e os baianos do 9º Batalhão, foi à tomada da estrada do Calumbi. Para Euclides esta ação, ocorrida em 4 de setembro, foi “um movimento mais sério; talvez a ação realmente estratégica da campanha”.

Através de informações de vaqueiros leais, os militares souberam da existência de um caminho pelo Cambaio, que diminuía em um dia a viagem a Monte Santo, facilitando a chegada de mantimentos, onde as tropas poderiam partir para o ataque final a Canudos. Comandados pelo major Lídio Porto, os combatentes tomaram esta estrada e apertou mais ainda o cerco final a cidadela do Conselheiro.

No ato final da tragédia, novamente o 34º estaria no palco dos acontecimentos, juntamente com os batalhões que tomaram a estrada do Calumbi, os potiguares protegeram um dos flancos do ataque final, que teve inicio em 1 de outubro.

Depois os potiguares combateram de casa em casa, onde cada morada era uma fortaleza que cobrava um preço alto pelo avanço.

Para Euclides “os sertanejos invertiam toda a psicologia da guerra: enrijavam-nos os reveses, robustecia-os a fome, empedernia-os a derrota”.

Tudo acabou em 5 de outubro, quando Canudos não se rendeu. Em “Os Sertões” o fim ficou assim registrado “Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados”.

Jornal dos Estados Unidos comentando a vitória das forças legais em Canudos.

A Volta Para Casa

Enquanto os sobreviventes do 34º se preparavam para voltar, os natalenses se mobilizavam. Em 11 de setembro, Alberto Maranhão realizou uma festa de caridade para arrecadação de fundos, tendo sido apurados 333 mil réis e estes entregues diretamente ao governador Ferreira Chaves.

Os municípios do interior participam. De Acari foi arrecadado e enviado 101$800 mil réis, de Jardim do Seridó 88$000, de Currais Novos 968$200, de Martins 182$000 mil réis.

Com o eminente retorno do Batalhão, tinha inicio os preparativos para uma grande recepção festiva. No dia 6 de novembro o 34º seguia de navio da capital baiana para Natal, mas devido a problemas de transporte, apenas em 10 de dezembro eles chegariam a capital potiguar.

A tropa voltou no mesmo vapor “Una” que os levaram oito meses antes. Às onze e meia da manhã, em torno de 4.000 pessoas, aguardavam o desembarque, depois seguiram para a Matriz para uma missa, havendo uma quase interminável seção de discursos no quartel e finalmente para as suas casas.

Os jornais comentam, com uma sutileza típica da impressa na época, que muitos soldados voltaram “doentes e inutilizáveis”. No outro dia a tropa e a população da cidade inauguraram o monumento aos mortos da guerra no cemitério do Alecrim.

Uma atitude honrada, que chamou a atenção da população, foi a publicação nas primeiras páginas dos jornais locais, do pedido do alferes Ezequiel Medeiros, que desejava entregar a quantia de 10$000 mil réis a família do soldado Euclides Celestino Baracho, que na hora da morte lhe pedira para entregar esta quantia a sua família que vivia em Ceará-Mirim.

As manifestações de apreço continuaram por alguns dias, contudo, logo os oficiais do 34º foram surpreendidos por diversas ordens de transferência, para várias unidades militares em todo Brasil e alguns são enviados para o longínquo Mato Grosso.

A principal igreja de Canudos destruída.

Os jornais de Natal publicam sérias criticas a atitude do governo federal. Já o novo comandante, major Martiniano de Oliveira, ferido em Canudos, vinha transferido de Recife. Aparentemente a ideia do governo Prudente de Moraes era  enfraquecer a criação de um “exército de salvadores da pátria”, e debelar possíveis voos políticos dos novos heróis.

Para o presidente, a melhor situação era que Canudos caísse no esquecimento.

Deliberado Esquecimento

Quanto às viúvas e familiares dos mortos potiguares da Guerra de Canudos, estranhamente os jornais declaram que estas só vieram a receber os apoios e as doações apenas em 18 de julho de 1898, um ano após o primeiro grande ataque das forças do governo, no valor de 12$000 mil réis, mas apenas em apólices do governo do estado e não em dinheiro vivo.

Na edição de “A Republica” de 17 de julho, estão listados os nomes dos mortos, seus beneficiários e suas patentes.

Ao ler a lista, salta aos olhos um fato interessante; dos 41 integrantes do 34º Batalhão de Infantaria listados pelo jornal como mortos no conflito, não há um único oficial. No total são 3 sargentos, 9 cabos, 3 anspeçadas (patente atualmente extinta), 3 músicos (corneteiros) e 23 soldados.

Quem se debruça sobre a história de Canudos, sabe que houve unidades militares onde a quase totalidade de seus oficiais foi morta em combate. Não foram poucos os oficiais de patente graduada que pereceram no conflito. O próprio Euclides da Cunha lista vários.

A razão deste fato é motivo para novas pesquisas.

Antes mesmo de Euclides da Cunha lançar o livro “Os Sertões” e mostrar as crueldades do conflito, percebe-se que a Guerra de Canudos é totalmente esquecida dos círculos oficiais. Seja pela ação do governo, ou pelo próprio horror da guerra, o certo é que não são visíveis nos jornais comemorações posteriores. Estas ocorrem timidamente apenas no primeiro ano.

Nos anos seguintes, é mais comum vermos nos jornais potiguares notícias sobre a realização de festas comemorativas a feitos militares ocorridos na Guerra do Paraguai.

Atualmente em Natal, temos poucas lembranças deste conflito. No Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte encontra-se a bandeira que foi doada ao 34º Batalhão, em substituição a original, que voltou esfarrapada da guerra. Já no cemitério do Alecrim, ainda existe o monumento aos mortos potiguares do conflito.

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