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GUERRA DO PARAGUAI – SOFRIMENTO INVISÍVEL – NA FRONTEIRA DO MATO GROSSO, MULHERES TORNARAM-SE ALVO DA VIOLÊNCIA DOS INVASORES

A imagem publicada na Semana Ilustrada, em 1865, mostra as vivandeiras da Guerra do Paraguai: mulheres que acompanhavam os deslocamentos das tropas de infantaria, vendendo alimentos e outros artigos aos soldados. (Imagem: FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL)
A imagem publicada na Semana Ilustrada, em 1865, mostra as vivandeiras da Guerra do Paraguai: mulheres que acompanhavam os deslocamentos das tropas de infantaria, vendendo alimentos e outros artigos aos soldados. (Imagem: FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL)

Autora – Maria Teresa Garritano Dourado

Fonte – http://revistadehistoria.com.br/secao/capa/sofrimento-invisivel 

Mães, esposas, prostitutas, viúvas, enfermeiras, soldadas, andarilhas, vivandeiras, prisioneiras, escravas. As mulheres desempenharam os mais diferentes papéis durante a Guerra do Paraguai (1864-1870). Presentes nos quatro exércitos envolvidos na batalha – brasileiro, argentino, paraguaio e uruguaio – elas se tornaram indispensáveis ao garantir a realização de vários serviços necessários para o funcionamento de um exército em campanha: socorriam feridos, cuidavam das crianças, da alimentação, das roupas e comercializavam os produtos vendidos às tropas. Muitas outras sofreram com a violência em suas regiões e dentro de seus lares. Tiveram que lidar com graves provações físicas e psicológicas, mostrando resistência e inventividade. 

Com raras exceções, essas figuras femininas foram esquecidas pela história. Suas vidas dissolveram-se na vida dos homens, os guerreiros armados e seus grandes comandantes, que ocupam o centro da cena. Às mulheres restam as entrelinhas, um espaço casual nas narrativas das grandes batalhas. Mas nem tudo se perdeu. Por meio da análise de relatórios de refugiados e de documentos oficiais, ordens do dia, cartas, memórias, reminiscências e diários (inclusive em língua francesa, inglesa e espanhola), é possível conhecer, por exemplo, as dificuldades vividas pelas brasileiras que foram aprisionadas pelo inimigo na região fronteiriça do Mato Grosso. 

Guerra do Paraguai - Imagem meramente ilustrativa
Guerra do Paraguai – Imagem meramente ilustrativa

Os documentos revelam como elas reagiram diante da inesperada invasão, como se organizaram, as formas de fuga e os recursos utilizados para sobreviver, quando detidas. Falam ainda dos mecanismos de que dispunham para sua defesa, assim como do sofrimento de esperar pelo socorro das autoridades brasileiras competentes. O suplício das mulheres, bem como a visão das autoridades brasileiras sobre o inimigo paraguaio ficam evidentes nos ofícios do governo de Mato Grosso durante o conflito: “sendo castigadas corporalmente com laços e com espadas, e metidas em ferro sempre que cometiam qualquer falta […] os paraguaios, sendo eles de natureza bruta e sem a menor educação e moralidade, muito maltratavam as famílias prisioneiras com suas habituais imoralidades”. 

Em Corumbá, uma das regiões fronteiriças, a população viu-se sozinha diante do brusco ataque do exército paraguaio. Acreditando que a região lhes pertencia, as tropas inimigas penetravam e ocupavam o território que estava em litígio com o Brasil. Diante da impossibilidade de resistência, os habitantes, civis e militares, tornaram-se alvo fácil para prisões e saques. Muitos fugiam de modo desesperado, desordenado e precipitado, tentando alcançar Cuiabá, capital da província. Centenas de pessoas acreditavam que as zonas rurais poderiam oferecer refúgio e proteção. 

Guerra do Paraguai - Imagem meramente ilustrativa
Guerra do Paraguai – Imagem meramente ilustrativa

Contando com poucos recursos, fugindo a pé por trilhas ou embarcando em canoas, mulheres foram capturadas e aprisionadas pela tropa paraguaia, que percorria as fazendas saqueando, violentando, levando o gado e tudo mais que tivesse algum valor. Igualmente indefesos, velhos e crianças também se tornaram presas fáceis de hostilidades e crueldades. As mulheres que não conseguiam fugir e se escondiam em matas próximas acabavam por voltar à vila de Corumbá, fustigadas pela fome. Encontravam suas casas completamente saqueadas, eram presas, interrogadas (muitas vezes sob tortura) e mortas. Diante de um inimigo que costumava utilizar até a degola para manter o terror, passavam fome e frio, eram mantidas a ferros e castigadas constantemente. Muitas foram assassinadas ao tentar fugir. 

As que se mantinham a salvo dos invasores tinham que sustentar a si e aos seus plantando, lavando, cozinhando e transportando mercadorias, sob a angústia e o medo de encontrar uma patrulha paraguaia. O trânsito constante das mulheres pela fronteira levantava suspeitas nos soldados inimigos. Sempre preocupados com a reação brasileira, eles procuravam informações e notícias. Para isso, muitas vezes usavam de violência em seus interrogatórios. Fontes francesas detalham alguns casos, como o de Marcelina, Luisa e Isabel, condenadas a levar 60 golpes de chicote por não terem informações relevantes. Marta e Severina, menores de idade, receberam 25 chicotadas. Depois de ser presa e submetida a julgamento sumário, a uruguaia Maria Buscapé foi condenada a 30 golpes por ter declarado seu desejo de voltar ao país de origem. Após as punições essas mulheres foram soltas, mas com a advertência de que poderiam ser mortas caso omitissem informações. 

Guerra do Paraguai - Imagem meramente ilustrativa
Guerra do Paraguai – Imagem meramente ilustrativa

A historiografia tradicional não se dedicou a narrar a agonia e o pânico que as famílias brasileiras foram obrigadas a enfrentar, inclusive pela incerteza do futuro e pela angústia da perda ou do desaparecimento dos familiares e amigos. A descoberta de evidências documentais nos últimos anos permite o exercício a inúmeros pesquisadores, possibilitando a recuperação da história da participação das mulheres, seus espaços e seus papéis na Guerra do Paraguai que, no fim das contas, diz respeito não apenas àquela batalha, mas ao protagonismo feminino na construção do país. Contar a História do Brasil pelo olhar das mulheres é certamente um meio de redescobri-lo.

Maria Teresa Garritano Dourado é autora de “Mulheres comuns, senhoras respeitáveis: a presença feminina na Guerra do Paraguai” (UFMS, 2005) e A História esquecida da Guerra do Paraguai: fome, doenças e penalidades (UFMS, 2014).

Saiba Mais

CARVALHO, Maria Meire. Vivendo a verdadeira vida: vivandeiras, mulheres em outras frentes de combates. Tese de Doutorado em História, UnB, Brasília, 2008. 

LASSERRE, Dorothea Duprat de. Memórias de Mme. Dorothea Duprat de Lasserre. Rio Grande: Livraria Americana, 1893.

MATOS, Kelma. Jovita Feitosa. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2001.

TAUNAY, Alfredo D’Escragnolle. Cartas da Campanha de Mato Grosso (1865-1866). Rio de Janeiro: Editora Biblioteca Militar, 1944.

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DOCUMENTO QUE REGISTRA EXTERMÍNIO DE ÍNDIOS É RESGATADO APÓS DÉCADAS DESAPARECIDO

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Relatório de mais de sete mil páginas que relatam massacres e torturas de índios no interior do país, dado como queimado num incêndio, é encontrado intacto 45 anos depois

Um dos documentos mais importantes produzidos pelo Estado brasileiro no último século, o chamado Relatório Figueiredo, que apurou matanças de tribos inteiras, torturas e toda sorte de crueldades praticadas contra indígenas no país – principalmente por latifundiários e funcionários do extinto Serviço de Proteção ao Índio (SPI) – ressurge quase intacto.

Supostamente eliminado em um incêndio no Ministério da Agricultura, ele foi encontrado recentemente no Museu do Índio, no Rio, com mais de sete mil páginas preservadas e contendo 29 dos 30 tomos originais.

Em uma das inúmeras passagens brutais do texto, a que o jornal Estado de Minas teve acesso e publicou na data em que se comemora o Dia do Índio, um instrumento de tortura apontado como o mais comum nos postos do SPI à época, chamado “tronco”, é descrito da seguinte maneira: “Consistia na trituração dos tornozelos das vítimas, colocadas entre duas estacas enterradas juntas em um ângulo agudo. As extremidades, ligadas por roldanas, eram aproximadas lenta e continuamente”.

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Entre denúncias se encontra relatos de caçadas humanas promovidas com metralhadoras e dinamites atiradas de aviões, inoculações propositais de varíola em povoados isolados e doações de açúcar misturado a estricnina, o texto redigido pelo então procurador Jader de Figueiredo Correia ressuscita incontáveis fantasmas.

A Pedido do Ministro e Notícia no Exterior

A investigação, feita em 1967, em plena ditadura, a pedido do então ministro do Interior, o general Afonso Augusto de Albuquerque Lima, tendo como base comissões parlamentares de inquérito de 1962 e 1963 e denúncias posteriores de deputados, foi o resultado de uma expedição que percorreu mais de 16 mil quilômetros, entrevistou dezenas de agentes do SPI e visitou mais de 130 postos indígenas.

Ministro Afonso de Albuquerque era cearense
Ministro Afonso de Albuquerque era cearense

Jader de Figueiredo e sua equipe constataram diversos crimes, propuseram a investigação de muitos mais que lhes foram relatados pelos índios, se chocaram com a crueldade e bestialidade de agentes públicos. Ao final, no entanto, o Brasil foi privado da possibilidade de fazer justiça nos anos seguintes. Albuquerque Lima chegou a recomendar a demissão de 33 pessoas do SPI e a suspensão de 17, mas, posteriormente, muitas delas foram inocentadas pela Justiça.

Os únicos registros do relatório disponíveis até hoje eram os presentes em reportagens publicadas na época de sua conclusão, quando houve uma entrevista coletiva no Ministério do Interior, em março de 1968, para detalhar o que havia sido constatado por Jader e sua equipe. A entrevista teve repercussão internacional, merecendo publicação inclusive em jornais como o New York Times. No entanto, tempos depois da entrevista, o que ocorreu não foi a continuação das investigações, mas a exoneração de funcionários que haviam participado do trabalho. Quem não foi demitido foi trocado de função, numa tentativa de esconder o acontecido. Em 13 de dezembro do mesmo ano o governo militar baixou o Ato Institucional nº 5, restringindo liberdades civis e tornando o regime autoritário mais rígido.

“Eu tinha certeza de que ele tinha sido queimado”

“O relatório é uma bomba atômica na história recente do país. Tinha muita gente importante envolvida. Essa é uma das melhores notícias que já recebi nos últimos 40 anos”, se emociona o advogado Jader de Figueiredo Correia Júnior, ao saber que o relatório produzido por seu pai, o procurador Jader de Figueiredo, em 1968, sobre violação de direitos humanos de indígenas, foi encontrado quase intacto, depois de mais de 40 anos desaparecido.

HISTÓRIA - Jáder Figueiredo Júnior (com a foto do pai): denúncias de violência contra os índios - Fonte - http://www.istoe.com.br/reportagens/294080_A+VERDADE+SOBRE+A+TORTURA+DOS+INDIOS
HISTÓRIA – Jáder Figueiredo Júnior (com a foto do pai): denúncias de violência contra os índios – Fonte – http://www.istoe.com.br

“Eu tinha certeza de que ele tinha sido queimado. Diziam na época que tinha sido proposital”, lembra o advogado, que reclama de o trabalho do pai ter sido escondido e ignorado na história do país, perpetrando as injustiças constatadas. “Era uma voz solitária na ditadura, contra o AI-5 e contra um regime que censurava a imprensa”, diz.

O vice-presidente do Tortura Nunca Mais de São Paulo e coordenador do projeto Armazém Memória, Marcelo Zelic, um dos principais atores na recuperação do material, concorda: “Jader de Figueiredo foi uma figura republicana superinteressante, apagada injustamente da história”.

Em 1977, uma comissão parlamentar de inquérito foi aberta na Câmara para investigar violações de direitos humanos dos índios. No ano anterior, o procurador que produziu o relatório morreu em acidente de ônibus, aos 53 anos. Perguntado se a morte do pai pode ter sido provocada por opositores, o filho considera: “Eu nunca tinha pensado nisso, eu tinha 14 anos incompletos na época. Pode ser. Meu pai morreu em um acidente que nunca foi esclarecido”.

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Jader Figueiredo Júnior relembra o transtorno que a divulgação do relatório trouxe à família e diz que seu pai chegou a ser ameaçado de morte. “Ele sofreu atentados, foi perseguido por pistoleiros durante a investigação. Nossa família vivia sob segurança da Polícia Federal”, relembra. Ele destaca que o pai não era uma pessoa vaidosa e não gostava de aparecer. “Ele se indignava de pensar que seu trabalho podia ficar no ‘dito pelo não dito’. Viu muita injustiça, muita crueldade. E morreu na esperança de seu trabalho aparecer de novo, de algum jeito. Onde ele estiver agora, estará feliz”, acredita o filho.

“Nos Estados Unidos foi um massacre, aqui foi genocídio”

Jader Júnior relata uma passagem que o pai costumava contar em casa, sobre uma índia que foi morta e cortada ao meio em público. Segundo ele, quando o procurador chegou à aldeia, encontrou a mulher amarrada entre duas estacas pelos pés, de cabeça para baixo, partida longitudinalmente ao meio por piques de facão.

“O brasileiro costuma assistir a filmes de Hollywood onde caubóis matam índios e acha bonito. O que o americano fez com os índios foi brincadeira em relação ao que foi feito aqui. Lá foi uma matança, aqui foi genocídio. Uma coisa nazista, hitlerista. E o brasileiro não tem consciência disso. Isso é uma coisa que o mundo precisa saber”, revolta-se o filho.

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A perplexidade do pai está indelével no relatório recuperado: “Os criminosos continuam impunes, tanto que o presidente dessa comissão viu um dos asseclas desse hediondo crime (assassínio de Cintas Largas, no Mato Grosso) sossegadamente vendendo picolé a crianças em uma esquina de Cuiabá (MT)”.

Catalogação

Marcelo Zelic expressou grande alegria pela descoberta do documento. “Eu o achei inteirinho”, exclama o pesquisador, que percebeu que os papeis ilegíveis eram o famoso Relatório Figueiredo, que ficou batizado com o nome do procurador.

Ele descreve que foi chamado ao Museu do Índio em agosto do ano passado para analisar documentação que estava em posse da entidade desde 2008 e havia sido catalogada em 2010. Das 62 páginas finais entregues ao ministro Albuquerque Lima pelo procurador Jader de Fiqueiredo, 15 estavam em estado precário de preservação. O ativista garante, porém, que os trabalhos desenvolvidos pelo Museu do Índio, Tortura Nunca Mais de São Paulo, Comissão Justiça e Paz de São Paulo, Konoinia Presença e Serviço, Associação Juízes para a Democracia e Armazém Memória, com apoio da deputada Luíza Erundina (PSB-SP), conseguiu recuperar todas elas, que estão sendo catalogadas.

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Dois dos questionamentos que o relatório pode suscitar são em relação à posse de terras – como a dos índios kadieus, em Mato Grosso – e a acusados de crimes não apurados. Em uma das páginas entregues a Albuquerque Lima, por exemplo, quatro nomes são citados como responsáveis por diversos crimes. São eles: Abílio Aristimunho, Acir Barros, Airton de França e Alan Kardec Martins Pedrosa.

Filho de procurador diz que pai é personagem esquecido da história

“Meu pai, hoje, é um personagem convenientemente esquecido da história, apesar de seu trabalho, na época, ter tido repercussão internacional”, declarou em entrevista a Agência Brasil no ano de 2012, o advogado Jader de Figueiredo Correia Junior ao falar sobre o pai.

“Meu pai foi ameaçado várias vezes. A Polícia Federal teve que garantir a segurança da minha família por todo o tempo que durou o trabalho dele. Policiais acompanhavam a mim e a minha mãe quando eu ia à escola. No caso da minha irmã, que é seis anos mais velha, os agentes permaneciam próximos à escola até o fim das aulas e a levavam de volta para casa. Por medo, minha mãe mantinha uma arma em casa”, conta Júnior, que tinha 5 anos na época.

No Brasil ainda existem tribos não contatadas, como a que mostra na foto. O que devemos fazer com eles? Matá-los? levar nossa fé? Nossos valores? Ou deixá-los em paz?
No Brasil ainda existem tribos não contatadas, como os da foto. O que devemos fazer com eles? Matá-los? Levar nossa fé? Nossos valores? Utilizá-los como atração turística? Ou  simplesmente deixá-los em paz?

“Lembro-me de algumas coisas que meu pai conversava em casa. Lembro-me de ele falar sobre a matança de índios, de cenas que ele descrevia. Era tudo muito brutal. Ele falava sobre o genocídio de aldeias inteiras. Meu pai contava ter chegado a aldeias e encontrado toda uma comunidade morta por envenenamento, pelo contato (com os não índios) ou por outros meios. Lembro de ele contar que em uma aldeia o grupo encontrou uma índia amarrada a duas árvores pelos pés, de cabeça para baixo e cortada a facão”, conta o advogado, garantindo que, por questão de segurança, seu pai não guardava cópias dos documentos em casa.

Uma das páginas do relatório recuperadas no Museu do Índio, assinada por Jader de Figueiredo Correia (Foto: Museu do Índio)
Uma das páginas do relatório recuperadas no
Museu do Índio, assinada por Jader Figueiredo
Correia (Foto: Museu do Índio) – Fonte – G1

Suplícios

O contexto desenvolvimentista da época e o ímpeto por um Brasil moderno encontravam entraves nas aldeias. O documento relata que índios eram tratados como animais e sem a menor compaixão. “É espantoso que existe na estrutura administrativa do país repartição que haja descido a tão baixos padrões de decência. E que haja funcionários públicos cuja bestialidade tenha atingido tais requintes de perversidade. Venderam-se crianças indefesas para servir aos instintos de indivíduos desumanos. Torturas contra crianças e adultos em monstruosos e lentos suplícios”, lamentava Figueiredo. Em outro trecho contundente, o relatório cita chacinas no Maranhão, em que “fazendeiros liquidaram toda uma nação”. Uma CPI chegou a ser instaurada em 1968, mas o país jamais julgou os algozes que ceifaram tribos inteiras e culturas milenares.

Fontes – http://www.istoe.com.br/reportagens/294080_A+VERDADE+SOBRE+A+TORTURA+DOS+INDIOS

http://www.em.com.br/app/noticia/politica/2013/04/19/interna_politica,373440/documento-que-registra-exterminio-de-indios-e-resgatado-apos-decadas-desaparecido.shtml#.UXLaF7Vx4h0.facebook

P.S. – Como o leitor de uma revista comentou, certamente os fatos narrados neste relatório devem ter ocorrido. Muitos comentarão que o móvel destas denuncias não é desejo de justiça, mas sim instrumentalizar a miséria alheia para adquirir poder. Para outros remexer nestes papeis é trazer de volta velhos fantasmas que nada trazem de bom para o momento atual do Brasil.

Pessoalmente reconheço a gravidade do relatório, melhor seria se o governo tivesse encarado o problema de frente na época e buscado alguma solução. Mas a velha prática do Estado brasileiro de esconder a nossa documentação histórica embaixo do tapete é que gera a triste situação das gerações atuais terem de conhecer estes acontecimentos desta maneira.

CONHEÇA SASHA SIEMEL

Sasha Siemel e uma de suas vítimas
Sasha Siemel e uma de suas vítimas

TALVEZ ELE TENHA SIDO A PRIMEIRA PESSOA A GANHAR DINHEIRO COM TURISMO NAS SELVAS DO BRASIL, MAS DE UMA MANEIRA TOTALMENTE SANGUINÁRIA

 Autor – Rostand Medeiros

Existem algumas figuras que passam por este mundo de meu Deus e não deixam história nenhuma. Já outras deixam mais do que histórias, viram lendas. É o caso de Alexander “Sasha” Siemel, conhecido como o maior caçador de onças que já existiu e que ganhou muito dinheiro trazendo gringos abastados para matar estes animais na região do Pantanal.

Conta-se que ele caçou com sucesso nas selvas de Mato Grosso, mais de 300 destes que são considerados os maiores felinos do hemisfério ocidental e o terceiro em tamanho no mundo.

Sasha Siemel nasceu em Riga, capital da atual Letônia em 1899, quando o seu país ainda era parte do Império Russo. Migrou em 1907 para os Estados Unidos, onde permaneceu apenas dois anos. Depois seguiu para a Argentina, onde foi empregado em uma loja de impressão em Buenos Aires e no ano de 1914 ele chega ao Brasil.

A direita na foto vemos Sasha com uma zagaia na mão, junto com um cliente e o resultado do seu trabalho - Fonte - http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf
A direita na foto vemos Sasha com uma zagaia na mão, junto com um cliente, o resultado do seu trabalho e a tradicional pose de caçador – Fonte – http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf

Não sei como aconteceu, mas Sasha trabalhou como armeiro e mecânico em campos de mineração de diamantes no Mato Grosso. Consta que na região pantaneira ele se encantou com a natureza viva e praticamente intocada. Ali conheceu um nativo que lhe ensinou a se tornar um caçador tradicional de onças, daqueles que mata o bicho armado apenas com a famosa zagaia, uma lança com dois metros de comprimento ou mais. Consta que foi no ano de 1925 que ele matou seu primeiro felino.

Logo as habilidades do caçador louro, de sotaque estrangeiro e olhos claros foi reconhecida no Pantanal. Siemel trabalhou contratado por fazendeiros na função de matar onças para proteger os rebanhos de gado. A informação que um europeu matava onças nas impenetráveis e misteriosas selvas brasileiras também chegaram aos ouvidos do chamado “mundo civilizado”.

Em 1931 foi lançado um livro intitulado “O Inferno Verde”, escrito por Julian Duguid, que juntamente com dois amigos aventureiros empregaram Siemel como guia em uma viagem pelo Pantanal no ano de 1929. Na obra são detalhados os acontecimentos e Siemel é apelidado como “Tiger Man”.

O caçador de onças estrangeiro, que não era besta de forma alguma, logo incentivou o maravilhado Duguid a realizar  várias palestras sobre a sua viagem em clubes de exploradores existentes em todo o mundo, preferencialmente levando o guia e caçador de onças junto.

Em uma época muito anterior aos fantásticos documentários do Discovery Channel, da National Geografic e do Animal Planet. Estas palestras faziam o público perder o folego e o caçador Sasha Siemel conseguiu obter novos e fascinados clientes para conhecer o nosso Pantanal.

Barco utilizado em uma das expedições - Fonte - http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf
Barco utilizado em uma das expedições – Fonte – http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf

Em 1937, enquanto participava de uma palestra na Filadélfia, Siemel conheceu Edith Bray, uma jovem fotógrafa que mais tarde se juntou a ele no Pantanal. Três anos depois, com a idade de 47 anos, casou-se com Edith e os dois permaneceram no Pantanal enquanto nasciam seus filhos. Os Siemels viviam numa casa flutuante as margens do Rio Miranda, junto com seus cães de caça e outros bichos.

Sasha Siemel, Edith e seus filhos mudaram-se para o sudeste da Pensilvânia em 1947 e comparam uma propriedade rural que foi batizada de “Bom Retiro”, em português mesmo. Consta que neste mesmo ano foi editado e comercializado um filme chamado “The Jungle Family”, que rodou o mundo. Além de mostrar Sasha e sua família no “inferno verde” do nosso Pantanal, uma das cenas mostra Sasha armado apenas com uma zagaia, em luta de contra uma onça.

Sasha Siemel levava uma vida tranquila, onde se dividia entre palestras e caríssimas expedições à América do Sul. Ele falava seis línguas: letão, russo, alemão, inglês, espanhol e português.

Vai que de repente o cliente poderia se cansar de matar onças, poderia variar matando uma "cobrinha" como a que aparece na foto - Fonte - http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf
Vai que de repente o cliente poderia se cansar de matar onças, então era possível variar matando uma “cobrinha” como a que aparece na foto – Fonte – http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf

Não se pode negar que Siemel era um homem de visão e sabia utilizar os holofotes em seu favor e a favor do seu negócio. Ele lançou quatro livros sobre suas aventuras, um deles em coautoria com a esposa. Participou de séries cinematográficas sobre as caçadas de onças pantaneiras, esteve atuando em um filme no ano de 1946 e montou em  Perkiomenville, Pensilvânia, um museu. Em um antigo moinho, Siemel mostrava aos visitantes sua coleção de troféus de caça, obras de arte, curiosidades, minerais, conchas, moedas, armas, utensílios indígenas, equipamentos utilizados na caça e captura de onças e muitos outros itens.

Outra situação verdadeiramente interessante era que durante as viagens pelo Pantanal, o arrojado Sasha poderia providenciar para que seus clientes tivessem a sua aventura filmada. Evidentemente que o pacote ficava bem mais caro.

O museu fechou em 1969, após a última viagem de Siemel ao Pantanal, no qual ele guiou um grupo de geólogos pela região. O aventureiro morreu em Montgomery County, Pensilvânia, em 1970, com a idade de 80 anos.

Fonte - www.outdoorlife.com
Fonte – http://www.outdoorlife.com

Provavelmente o letão Aleksandrs Ziemelis, este era o verdadeiro nome de Sasha, foi a primeira pessoa a ganhar grana, dólares, atuando turisticamente junto a exuberante natureza brasileira. Ele seria então o primeiro empreendedor do turismo aventureiro em terras Tupiniquins?

Realmente eu não sei.

Mas sei que evidentemente a sua forma de fazer turismo era manchada de muito sangue dos nossos mais nobres animais e, por mais gente boa que ele fosse, certamente os nativos que o ajudavam deviam receber a menor fatia do bolo.

Mesmo com a caça de onças proibida por lei federal desde 1967, esta forma de turismo ainda ocorre clandestinamente no Pantanal e isso se deve em grande parte a volta das onças.

Até o início da década de 1990 era preciso muita sorte e paciência de ermitão para ver uma onça na região. Mesmo nas áreas mais distantes, era necessário muito tempo para encontrar uma pegada do felino. Atualmente é muito fácil ver estes animais nas margens dos rios e inclusive o número de pessoas atacadas por onças voltou a subir. Outra ideia aponta que muitas áreas do Pantanal, anteriormente utilizadas para a criação de gado, tornaram-se inacessíveis e foram abandonadas. A ausência do homem teria permitido que as onças se multiplicassem.

Fonte - olhares.uol.com.br
Fonte – olhares.uol.com.br

Conhecida como onça-pintada, Jaguar ou Jaguará  (Panthera onca), é um animal do gênero Panthera, membro da família dos felinos, mamífero da ordem dos carnívoros. A onça é ágil, arisca, paciente, silenciosa, veloz e muito feroz. Sobe em árvores com facilidade e atravessa rios a nado, pois é excelente nadadora. Sabe agitar a sua cauda sobre a superfície dos rios para atrair os peixes, que ela pesca com uma patada. Possui hábitos diurnos ou noturnos, mais para caçar prefere a escuridão da noite. Satisfaz seu apetite alimentando-se com um cardápio variado que inclui antas, peixes, capivaras, jacarés, jiboias, serpentes, veados e outros mamíferos de pequeno porte.

Enquanto alguns dos grandes felinos atacam diretamente no pescoço, as onças, graças as suas mandíbulas poderosas, atacam principalmente nas cervicais. Esses felinos podem frequentemente matar mordendo diretamente o crânio, de um jeito um tanto incomum, sendo o único da sua espécie a realizar esta ação. Tem uma mordida excepcional e poderosa mesmo em relação aos outros grandes felinos, isso permite que ele fure a casca dura de uma tartaruga.

Sasha e um bom dia de caça - Fonte - eloir-mario.blogspot.com
Sasha e um ótimo dia de caça – Fonte – eloir-mario.blogspot.com

A gestação das onças fêmeas dura em média 95 a 110 dias e elas podem dar a luz a uma ninhada de até quatro filhotes. Os pequenos felinos nascem completamente cegos e passam a enxergar com duas semanas de vida. A fêmea da onça normalmente só cria dois filhotes, permanecendo junto a eles por até dois anos. Enquanto as fêmeas alcançam a maturidade sexual aos dois anos, os machos atingem a maturidade em torno dos três anos e pelas pesquisas em cativeiro as onças podem viver até 20 anos. Já o acasalamento ocorre em qualquer época do ano.

As onças são animais que se deslocam sempre com a cabeça baixa e as manchas do seu corpo são uma perfeita camuflagem. A coloração é a mesma tanto para os machos como para fêmeas, mais ocorrem variação de indivíduos. São de coloração amarelo avermelhadas, com manchas pretas meio redondas que se distribuem simetricamente pelo corpo.

Fisicamente esses felinos manchados se assemelham aos leopardos, embora a onça seja mais resistente e maior, além da sua cabeça ser proporcionalmente maior em relação ao corpo. Um exemplar adulto pode alcançar até 2,60 metros de comprimento, chegando a pesar em torno de 115 kg, embora em média os machos pesem 90 kg e as fêmeas 75 kg.

Fonte - lojaplus.blogspot.com
Fonte – lojaplus.blogspot.com

Infelizmente com o retorno do grande felino e o contato com os humanos e seus animais de criação, voltam os problemas. Pessoas tem sido mortas no Pantanal, no Paraná e onças tem atacado o gado em cidades do interior. Até nos vizinhos estados da Paraíba e do Ceará, problemas com felinos selvagens estão acontecendo. Em 2012, na cidade paraibana de Bonito de Santa Fé , algumas suçuaranas, uma parente menor da onça pintada, atacaram animais de criação. No Ceará notícias informam que em uma localidade a 337 km de Fortaleza, um agricultor foi atacado e quase morto por um destes animais.

Na Argentina eles tentam manter o número de onças pintadas e suçuaranas controlados através da prática da caça legalizada, fiscalizada e paga. Lá, para se matar uma onça pintada deve-se desembolsar mais de R$ 4.000,00 reais.

Talvez eu não seja a melhor pessoa para comentar sobre estes animais. Vale frisar que a única onça que vi na vida era um exemplar deste belo animal que ficava confinado em uma minuscula jaula na entrada da casa noturna “Royal Salute”, que ficava no subsolo do extinto Grande Hotel, na Praia do Meio, lá na metade da década de 1980. Por razões obvias, se estivesse no meio do mato e me deparasse com uma pintada faminta, preferia que ela estivesse mortinha da silva, ou então eu seria o almoço do felino.

Não sei se aqui no Brasil a caça controlada daria certo, mas algo deve ser feito para se evitar novas mortes de humanos e a extinção destes animais. Mas evidentemente nunca mais da forma como Sasha Siemel realizava.

Fontes-http://cefaprocaceres.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=575&Itemid=76

http://veja.abril.com.br/200900/p_096.html

http://en.wikipedia.org/wiki/Sasha_Siemel

http://eloir-mario.blogspot.com.br/2011/08/um-pouco-de-sasha-siemel.html

http://www.animatronic.com.br/2007/sasha-siemel-o-cacador-de-oncas/

http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf