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LAMPIÃO NO CEARÁ – A VOLTA, NA VOLTA, DO “REI DO CANGAÇO”

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Lampião e seu aparato de guerra – Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/brutal-lampiao.phtml#.WWwJ3ojyvXP

A DURA SITUAÇÃO DO BANDO DE LAMPIÃO EM TERRAS CEARENSES, APÓS O FRACASSADO ATAQUE A MOSSORÓ

Autor – Sálvio Siqueira

Pesquisador do Cangaço, São José do Egito, Pernambuco – slimasiqueira@yahoo.com.br

Era a boca da noite do dia 13 de junho de 1927. Lampião, na estação ferroviária da cidade de Mossoró, Rio Grande do Norte, já estava sabendo de que perdera dois de seus melhores homens no confronto, além de estar ferido Moderno, seu cunhado, As de Ouro e outro, com o abdome aberto pelo projétil de um dos homens da resistência, se contorcia e soltava gemidos involuntários devido a enorme dor. Esse último com um ferimento gravíssimo. O cangaceiro Sabino, seu “tenente” na época, reportara para o mesmo a perda e a impossibilidade de levar o plano adiante. Recebe ordens de reagrupar o bando para deixarem a cidade…

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O pesquisador Sálvio Siqueira realizando suas pesquisas sobre o cangaço nordestino.

As sombras da noite os engolira de repente. Tomaram, sob as ordens do chefe maior, um itinerário diferente daquele usado quando da vinda para a cidade do sal. Todos com caras de poucos amigos, sem pilhérias nem brincadeiras de tipo algum. Naquele ocaso do dia, o silêncio estava a consumir cada um deles. O silêncio só era quebrado pelos gemidos do cangaceiro agonizante e o soar das alpercatas “Xô-boi” levantando a poeira em solo potiguar.

A sua frente aparece um muro de varas e estacas, uma enorme e longa cerca, mas, não podiam parar, transpõem com rapidez e seguem em busca de um lugar para “lamberem suas feridas” físicas e morais, todas em carne viva. Não sabem ao certo por onde estão. Despontam em uma casa solitária. Pedem à mulher que abriu a parte superior da porta água e sal, para lavarem os ferimentos. A mulher, dona Maria Liberata, que tinha um sitiozinho nos arredores da cidade, estava a morrer de medo envolto pelos cangaceiros. Seu medo era tanto que, não sabendo onde esconder sua filha, a fez entrar embaixo d’um monte de cascas de feijão que havia no recanto da parede da sala. A pilha de cascas não era tanta e ao socar-se embaixo dela, os pés da adolescente ficam de fora. Lampião percebe o medo da filha e a agonia da mãe, então tenta tranquilizar as duas, dizendo só querer água e sal, depois diz para a senhora que pode mandar sair de debaixo das cascas quem lá estivesse que suas vidas estavam garantidas.

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Onde hoje estão essas casas na cidade de Mossoró, na Avenida Alberto Maranhão, ficava a sede do Sítio Saco, local onde esteve o bando de Lampião antes e depois de atacar Mossoró – Foto – Rostand Medeiros.

“- Dona, a senhora pode tirar essa pessoa que está por debaixo das cascas! Ninguém quer fazer mal a ninguém aqui!” (Dantas, 2005)

Recebendo o que pedira, os cangaceiros misturam o sal na água e lavam seus ferimentos. Rapidamente, ao findar esse pequeno tratamento, Lampião ordena para que a cabroeira se levante e coloquem os pés no caminho. Por fim chegam ao local de onde partiram para o ataque frustrado – o sítio “Saco”.

DEIXANDO MOSSORÓ PARA TRÁS

O chefe pernambucano portava-se igual uma fera acuada. Não parava em lugar nenhum. Ia pra um lado e retornava no mesmo instante, reclamando com tudo e com todos, porém, seu maior aborrecimento era referido ao cangaceiro Massilon Leite, pelo fato dele o ter convencido a atacar uma cidade do porte de Mossoró. Instantes depois de terem chegado, imediatamente a um pequeno “tomar fôlego” ordena que seus homens subirem em suas montarias para, mais do que rápido, deixarem as terras do Rio Grande do Norte.

Do ponto em que se encontravam Lampião não poderia pegar o rumo do sul, transpondo os limites dos Estados do Rio Grande do Norte e penetrar na Paraíba, terreno do seu conhecimento, pois, além dos homens do coronel Pereira, de Princesa Isabel, que não eram poucos, estarem a sua procura, no seu encalce estavam várias volantes paraibanas determinadas, valentes e perigosas. Então, só havia uma rota de fuga: seguir rumo ao Oeste, pois no poente ficava o território cearense, terra do Padim Padre Cícero, lugar onde a Força Pública não o perseguiria.

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Manchete do jornal A República, de Natal, do dia 14 de junho de 1927, um dia após o ataque – Coleção Rostand Medeiros

Virgolino sabia que estavam sendo caçados vigorosamente. Começa a aplicar táticas de vai-e-vem, além de ordenar cortarem os fios do telégrafo, para dificultar a trilha percorrida e atrasar os perseguidores. Segue por um caminho e, de repente, entra no mato, transpõem lajedos, e seguem sem poderem parar um só instante. O “Rei do Cangaço” não conhecia o terreno que percorria, nunca havia estado naquele Estado, por isso levava um senhor da região, Seu Formiga, desde antes ao ataque, servindo-lhe de guia. Com a andada sem paradas, o Senhor formiga começa a cambalear, estava quase que totalmente sem forças para prosseguir. Lampião dispensa os serviços desse guia e captura um senhor e seu filho para que tomassem o lugar dele. E assim prosseguem sem pararem para nada, nem para cuidarem dos feridos. Ao dispensar Formiga, Lampião manda que esse vá falar com o coronel Antônio Gurgel, um de seus reféns. O coronel escreve um bilhete solicitando que familiares e amigos arrecadem certa quantia para que fosse libertado pelos cangaceiros, caso contrário, perderia sua vida, e pede ao Senhor Formiga que fizesse chegar até seu irmão, Tibúrcio Gurgel, para que o mesmo tomasse as devidas providências.

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Os novos guias levam a caterva rumo ao Ceará, seguindo os postes e fios do telégrafo. Assim percorrem léguas e léguas para ficar mais distante de Mossoró. Em determinado lugar, chamado sítio Baixa da Broca, Lampião ordena que parem e montam acampamento. Naqueles dias, os cangaceiros formavam um grande círculo fechando o perímetro. No centro, de um lado, ficavam o chefe e seus lugares tenentes, Sabino, Luiz Pedro, Moderno e etc., do outro os reféns sob a guarda de alguns cabras. Antes do alvorecer, os cangaceiros já estão bem longe daquelas paragens. Por volta das cinco da matina, cercam e invadem a fazenda chamada Jucuri, a qual tinha como proprietário o senhor Manoel Freire.

SUPLÍCIO NO JUCURI

Naquelas horas da manhã, o dono estava a ordenhar as vacas junto com seu vaqueiro Teófilo Lucas. Os dois são presos. O dono é obrigado a leva-los até a casa sede. Lá chegando, obrigam-no a chamar por sua esposa para que ela abrisse a porta. A casa é tomada imediatamente por uma horda de cangaceiros que começam a vasculhar cada centímetro do lugar. Além dessa bagunça toda, os cangaceiros exigem que se faça café para eles. Lampião e Sabino começam a apertar Manoel Feire pelos contos de réis. Freire responde que não tem. Sabino toma de conta do dono da fazenda e assume o interrogatório, ameaça-o de tudo quanto pode. O homem é valente e não diz onde está o dinheiro. Em vez de continuar só com a negativa, Manoel, a certa altura da coisa, faltando a paciência, diz:

“- Não tenho dinheiro para bandidos! Não tenho! Já disse!” (Dantas, 2005)

Rapaz, teria sido melhor ele não ter dito dessa maneira.

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Igreja na comunidade Jucuri, próxima a Mossoró – Foto – Rostand Medeiros.

Sabino, que já estava com o rebenque na mão, pequeno chicote de couro em forma de bengala para tocar a montaria, começou uma sessão de espancamento no pobre fazendeiro. Freire nada podia fazer a não ser levar as chibatadas e chorar de tanta dor. E quanto mais Manoel chorava, mais o cacete comia. Em certo momento, sua esposa, Dona Francisca, vendo que Sabino ia acabar matando seu esposo na chibata, resolveu interferir. Aí a coisa ficou pior. Tentar impedir que um homem como Sabino das Abóboras prosseguisse o que estivesse fazendo, era melhor nem tentar. Sabino em vez de atender àquela senhora, lhe solta a “macaca no lombo”, ou seja, bate nela sem piedade. A mulher gritava de dor e o meliante não cansava nem parava de bater. Até que os dois, marido e mulher, ficaram estendidos no piso da casa com suas peles rasgadas pela sola do chicote. Porém, o castigo em Manoel tem recomeço. O homem quase que nada mais dizia, soltava apenas sons pela boca, e a surra não parava.

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E Lampião? Ora, quem iria intrometer-se naquele meio contra Sabino? Nem ele! Enquanto o pau cantava nas costas do pobre fazendeiro, Virgolino, aproveitando o aperreio das filhas, começa a saquear suas joias. Após ter pego tudo que encontrou de valor dentro da casa ou com as pessoas, Lampião ordena que Sabino pare de bater no homem. Vai até ele e o condena a ser seu prisioneiro, sequestrando-o, estipula uma quantia para que fosse libertado.

“(…) Concluído o saqueio, o vesgo determinou ao subordinado a suspensão da muxinga (ação de bater; sova, surra). Segurou Freire pelo braço e sentenciou com autoridade:

– Olhe, o senhor vai com a gente! Sua liberdade vai custar dez contos de réis!

Em seguida tornou aos familiares do fazendeiro:

– Mandem alguém a Mossoró arranjar o dinheiro!

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O pesquisador Sérgio Dantas, autor de quatro importantes livros sobre o tema Cangaço, um deles intitulado LAMPIÃO E O RIO GRANDE DO NORTE – A HISTÓRIA DA GRANDE JORNADA, que considero o melhor sobre a história do ataque de Lampião a Mossoró e aborda o tema com grande profundidade e riqueza de detalhes. Os textos e algumas fotos deste livro serviram de base para a criação deste artigo – Foto – Rostand Medeiros.

O agricultor foi conduzido de forma ridícula, em roupas de pijama (…).” (“ Lampião e o Rio Grande do Norte – A história da grande jornada” – DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. 1ª Edição. Natal, 2005)

O FIM DO SOFRIMENTO DE DOIS DE OURO E O ATAQUE A FAZENDA VENEZA

Em seguida o chefe ordena que montem e partam em trote acelerado. O tempo urgia ficar o mais longe possível daquela cidade potiguar. Já não estava tão bem o cangaceiro ferido na altura da barriga. Com o trote forçado a coisa piora e alguns cangaceiros que estavam ao seu lado têm que parar para ver o que poderiam fazer em socorro ao companheiro. O sofrimento era tanto que o ferido suplica aos companheiros que tirem sua vida. Ninguém se habilita a tal coisa. As dores aumentam e ele retornar a suplicar que o matem. Havia, dentre os homens de Lampião, naquele instante, um com alcunha de Marreco. Esse vai até ele e diz que fará seu pedido. Arrastam o ferido para dentro do mato, levam-no até a sombra de uma grande árvore e lá, no meio do nada, Marreco o mata com um tiro.

(…) Afastaram o bandoleiro para lugar recatado, debaixo de velha quixabeira. Tiro seco e rápido tirou-lhe o resto de vida sacrílega.

Expiação finda, o corpo foi enterrado em cova rasa, à beira do caminho. Cruz tosca marcou o local(…)

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A tradição oral fixou que o cangaceiro enterrado nesse ponto da estrada foi o célebre Menino de Ouro. Tal não é verdade. O bandido em questão se quer saiu ferido do embate em Mossoró. Raimundo Lucena, em seu livro “Memórias”, refere-se à presença do bandoleiro-mirim na cidade de Limoeiro do Norte, no dia 15/06/27. Não morrera, pois. Teve, sim, longa sobrevida. Foi encontrado n década de noventa pelo pesquisador Hilário Lucetti. Menino de Ouro, o Alagoano ou Oliveira, morrerá somente em 23 de novembro de 1999, com vetusta idade de oitenta e sete anos. O homem sepultado nesse ponto do caminho – o que foi revelado pós a exumação – não era tão jovem. Provavelmente o corpo era do bandido “Dois de Ouro”. O resto é tradição verbal. Pura lenda.” (DANTAS, 2005)

A caterva prossegue rumo a terras cearenses. Antes da linha limítrofe, ainda em território potiguar, tinha uma fazenda chamada Veneza que tinha como administrador o senhor Childerico Fernandes.

Por ter uma vasta área desmatada em sua volta, a visão de quem se encontrava na casa pegava todo o derredor. Por isso, a esposa do administrador, dona Felisbela, ao escutar um tropel de cascos no solo duro, ergue e avista o bando de cangaceiros aproximando-se. Vai até onde se encontrava o marido e lhe diz o que estava vindo em direção a eles, a tempestade que vinha chegando.

Sendo comerciante, Childerico havia comprado um rebanho de reses a prazo, ou feito um empréstimo e comprado o gado, mais provável. De posse das reses, começa a engordá-las e vai vendendo e juntando a quantia para fazer o pagamento. Tanto a esposa como o marido treme nas bases, principalmente por saberem ter em casa a quantia de dez contos de réis, os quais seria utilizado para saldar a dívida. Avexam-se a procura de um local para esconderem a “botija de dinheiro”.

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Antiga sede do sítio Veneza, fotografada em 2010 e hoje parte de um assentamento rural – Foto – Rostand Medeiros

Lampião parecia já estar refeito da derrota em Mossoró, pois seu cérebro já tramava a mil por hora. Antes da aproximação da casa sede da fazenda Veneza, ele divide o bando, fica com alguns cangaceiros e os reféns. Envia Sabino com trinta cangaceiros a vivenda. Sem a preocupação dos reféns nem a marcha lenta dos guias como empecilho, a tropa liderada por Sabino esporeiam suas montarias e chegam muito rápido a casa e imediatamente a cercam, invadem e tomam conta de todo e qualquer recanto que havia nela. Na sala, estando Childerico, Sabino começa a fazer-lhe várias perguntas: onde estão, a qual Estado pertencem aquelas terras e por aí foi… O administrador ia respondendo a cada pergunta de acordo com a situação.

Dona Felisbela, de posse da grana junta, tinha tentado sair pela porta da cozinha para ir escondê-la, mas, não deu tempo. O cangaceiro apelidado de Coqueiro invade a casa por essa saída e impede que ela saia. Percebendo o nervosismo da senhora, o cangaceiro começa a procurar e acha tudo. Ela, sem ter outra opção, dispara pra sala onde se encontram seu marido, Sabino e vários cangaceiros, narrando o que tinha acontecido. Pelo que a senhora falou, Sabino, cangaceiro experiente, já sabia de quem se tratava e lasca o grito pra cima querendo a presença de Coqueiro imediatamente. De imediato o chefe ordena que lhe passe a grana. Ao receber nota a quantia e seus grandes olhos quase que saltam da face, sem acreditar direito no que via. O cabra das Abóboras afasta-se dos demais e começa a contar o volume de notas uma por uma. Fica meio que boquiaberto. Nunca pensara em encontrar naquela simples casa tanto dinheiro junto. A razão da soma, um tanto grande para a época, era simplesmente o acúmulo para pagar o que havia comprado, as reses, ou seja, aquele dinheiro não era de Childerico.

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Alpendre da antiga sede da propriedade Veneza, zona rural de Baraúna, Rio Grande do Norte – Foto – Rostand Medeiros

O restante do bando, ao ver a quantia de notas nas mãos de Sabinos, imediatamente começa a fazer uma varredura no local. Não deixando inteiros os poucos móveis que ali havia. O administrador, cheio de pena, lamentos e raiva por estar perdendo tudo quanto havia conseguido na vida, protestou com o chefe, Sabino das Abóboras, que lhe responde para que ele vá reclamar com o coronel José Pereira, chefe político da cidade de Princesa Isabel, Paraíba, o qual havia lhe ensinado o que acabara de fazer. Essa ligação entre José Pereira, Sabino Gomes de Gois, também conhecido como “Sabino das Abóboras” e o coronel Marçal Florentino Diniz, esse pai de Sabino com uma de suas empregadas, contaremos em outra oportunidade.

Pois bem, não contente, mesmo tendo encontrado a enorme soma, Sabino começa uma sessão de torturas no corpo de Childerico. Dessa vez, ele alterna os objetos que produziam as dores: usava o chicote e depois o punhal, voltava a usar o chicote e em seguida, novamente a ponta fina e dura da lâmina de aço. Assim o tempo passa, para Childerico, cada minuto parecia um tempo enorme… Uma eternidade!

O misticismo, catolicismo e messianismo foram, são e será uma válvula de escape sobre o sofrimento de parte da população mundial, arrancando daí uma fé às vezes doentia e entre os que usam dessa fé estão os sertanejos nordestinos. Em determinado momento, não aguentando ver o sofrimento de Childerico, sua esposa corre até o oratório, nicho ou armário com imagens religiosas; capela doméstica que surgiu desde a Idade Média no território europeu, como devoção popular tendo sido inserido em nosso convívio pelos europeus migrantes, pega uma imagem e a coloca na frente do rosto do cangaceiro. Tanto dona Felisbela, quanto o cangaceiro Sabino possuíam, não explicar como, a mesma fé interior. Ao deparar-se com tal imagem, o cangaceiro perverso larga do chicote, guarda o punhal na bainha e deixa Childerico de lado.

“(…) A essa altura, Dona Bebela (Felisbela), em prantos, correu ao oratório. Tomou nas mãos imagem de Nossa senhora e a colocou rente aos olhos do cangaceiro:

-Poupe nossas vidas! Já lhe demos todo dinheiro e nossos bens! Você não acredita em Deus; em Nossa senhora?

– Ora, deixe de choradeira! Já vem você com essa tapeação? Contrapôs Sabino, com sorriso amarelo.

A estratégia de alguma forma surtiu efeito. O cangaceiro – ignorante, fanático religioso por índole e cultura – temia as coisas do céu. Respeitava os Santos e reverenciava imagens. Teve, decerto, medo de sortilégio que podia advir de atitude tida por “herege”.

Sem mais discussão, largou Childerico (…) (DANTAS, 2005)

livro lampião e rio grande do norte
O livro de Sérgio Dantas.

Lampião estava acampado perto dali, havia combinado com Sabino que, tudo dando certo na fazenda ele enviasse um emissário com a senha “acabado o serviço”. Essa frase, para o chefe pernambucano significava que ele poderia aproximar-se com segurança. Virgolino percorre o a pequena distância entre seu acampamento e a casa, desmonta no terreiro da sala e entra na casa. A partir do momento da sua aproximação, desmonte e caminhada até onde estava o casal, não escutou som de voz alguma. Naquele momento, apenas sua presença fazia todos calarem-se. Um dos cangaceiros chega bem perto do sofrido administrado, agachasse e lhe pergunta se sabe quem seria aquele que estava em sua frente. Não entendendo o que o prisioneiro respondeu, pois até para falar doí-lhe tudo, o cabra insiste na pergunta. Depois termina lhe dizendo de que se tratava de Lampião.

O cangaceiro mor se aproxima mais ainda do prisioneiro, se abaixa e começa a fazer-lhe várias perguntas. Dentre essas, perguntou se seria parente do prefeito de Mossoró, coronel Rodolfo Fernandes. Acreditamos que nesse momento tanto Childerico Fernandes como dona Felisbela começaram a rezar fervorosamente, encomendando suas almas a Deus, pois ele era parente do Intendente de Mossoró, que organizou a resistência cívica naquela cidade.

Na historiografia do “Rei do Cangaço”, vemos fatos, ações e atitudes com tamanha distinção entre eles, que não sabemos do porque, agir daquela forma.

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Em vez de sacar a pistola e atirar na cabeça de Childerico, ou puxar seu grande punhal da bainha e sangrá-lo, Lampião começa por pedir que armassem redes para que ele, Sabino e o coronel Gurgel se deitassem. Depois começa a conversar, sem ameaças ou violência com o prisioneiro. Pede azeite para lubrificar as armas. Tanto fica dono da situação que o preso lhe oferece refeição de carne de gado. Meticuloso, Lampião diz querer comer galinha, as quais estavam no terreiro e todas foram mortas, a tiros, pelos cangaceiros. A comida é preparada e todos se empanturram de galinha cozinhada. Conversa vem, conversa vai, de súbito, Lampião ergue-se e ordena que a cabroeira monte que iam partir imediatamente. A coisa seria cômica, se não fosse tão trágica, pois, ao despedirem-se do casal prisioneiro, vão apertar-lhes as mãos e desejam-lhe felicidades.

Incrível essa maneira de mudar suas ações. Em repentino momento, muda da água para o vinho. Todos montados, apertam as pernas e aos sentirem as pontas pontiagudas das rosetas das esporas, os animais começam a caminhar para a terra dominada por Padre Cícero.

“(…) Os homens equiparam-se, apressados. Dirigiram palavras amáveis a Childerico e esposa. Apertaram-lhes as mãos. Ensaiaram, brevemente, atos de civilidade.

– Vamos embora! – insistia o líder supremo, algo nervoso.

A malta partia, satisfeita com refeição e sesta.

Em menos de hora cruzaram a fronteira cearense. Lampião alertou os carbonários. Deixou claro que a partir dali o comportamento deveria ser outro. Estavam nos domínios do Padre Cícero Rumão. Repetia e advertência:

– Aqui já é Ceará! Pra diante ninguém rouba mais, pois o Governo daqui não bole com a gente! (…) (LUCETTI e LUCENA, 1995,p. 210)

NO CEARÁ

Já em terras do Ceará, o cidadão Manoel Freire é libertado já em terras da fazenda Lagoa do Rocha, após de determinado portador ter entregue a Lampião a quantia por ele estipulada para o resgate. O proprietário dessa fazenda, Lagoa do Rocha, o senhor Anísio Batista dos Santos é informado de que um bando de cangaceiros seguia rumando à cidade de Limoeiro do Norte, o que teria de passar por a casa sede da mesma, ou bem próximo a ela, já que ficava um pouco ‘recuada’, dentro da mata. Resolveu ir até as autoridades e deixa-las ciente do que estava acontecendo em suas terras, à presença de Lampião e seus homens. Antes de partir, recomenda para seus familiares que não acendessem candeeiros ou lamparinas para não trair, mostrar, onde estavam com a claridade.

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Vista da região cearense por onde seguiu o bando de Lampião – Foto – Rostand Medeiros

Quando a noite encobre aquela região com seu negro manto, Anísio parte para cumprir sua missão. Mais tarde, já alta noite, as pessoas que estavam dentro da casa escutam um grande tropel de animais no terreiro da casa. De repente, alguém bate a porta…

“(…) La fora, bateu-se vigorosamente à porta:

– Pode abrir sem medo! É de paz!

– E quem é?? – quis saber a mulher.

– Capitão Virgolino Ferreira! A senhora está garantida! Quero só um lugar para passar a noite! (…)(DANTAS, 2005)

Como comentado anteriormente, quando estudarmos a história do cangaceiro Virgolino, notamos altos e baixos, constantes, em suas ações. A senhora abriu a porta e deixou que a cabroeira entrasse. Lampião foi totalmente educado, assim como seus homens ficaram todos comportados. Após todos comerem o “Rei do Cangaço” solicita a dona da casa que arme três redes para eles. Lampião, mesmo cansado, ainda saiu ao terreiro e foi rezar. Mais tarde o dono retorna da sua viagem, conversa com Lampião e esse pergunta se ele viu soldados perto daquelas paragens ou no caminho de Limoeiro até ali. Recebe resposta negativa do senhor Anísio, no entanto, ordena que se façam vigias, guardas, nas estradas para evitar surpresas.

Já era madrugada do dia 15 de junho de 1927, dois dias iam ser completados desde a derrota em Mossoró. Antes da aurora, todos fazem o desjejum e, tomando o senhor Anísio como guia e seguem ao encontro do seu destino. Lá pelas dez horas do dia chegam à fazenda Cacimba da Vaca, onde suas terras iam terminar nos arredores de Limoeiro do Norte. Ordenando que todos desmontassem, chama o novo guia Anísio Batista e, lhe entregando certa quantia, o envia a Limoeiro para fazer compras. Manda também que ele dê uma sondada vendo se havia policiais, os macacos, na cidadela. Além de lhe mandar procurar algum familiar do coronel Antônio Gurgel, um de seus reféns.

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Catedral da Imaculada Conceição, Limoeiro do Norte, Ceará – Foto – Rostand Medeiros.

O senhor Anísio, ao relatar que Lampião e seu bando estavam às portas da cidade, causa certo pavor na população. É realizada reunião urgente com as autoridades que se encontravam na cidade que, descartam de imediato formarem um grupo de resistência pois não havia armas nem munição, tão pouco gente suficiente e disposta. Nessa reunião ficou acordado que convidariam o “Rei do Cangaço” e seus cangaceiros para vir conhecer Limoeiro…

“(…) Ao fim das deliberações, encontrou-se solução bisonha, porém de inegável prudência: resolveu-se convidar o célebre prover do cangaço e seus sequazes para conhecerem a cidade (…). Fizeram saber ao guia o resultado dp debate de há pouco. Pediram-lhe que fosse ao encontro do cangaceiro e o informasse sobre as condições de uma possível visita à urbe:

– Diga a Lampião que pode entrar sem receio! O único soldado que havia nós mandamos embora! Pedimos, entretanto, que ele não faça nenhum mal a cidade! (…).” ((DANTAS, 2005)

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Lampião vai ser recebido pelo juiz de paz mais outra autoridades no caminho e na entrada da cidade. Bem recebido visita lugares. Os feridos são “remendados” e medicados. O chefe cangaceiro vai ao telégrafo  e etc..

Posam para fotos. Os homens se alimentam e fazem compras, pagando em dinheiro e recusando o troco e assim se passa o dia. Custódio Saraiva, juiz de paz e vice, ou subprefeito, de Limoeiro do Norte, o homem que recebeu Lampião, a noite, recebe um telegrama onde dizia que tropas volantes haviam partido das Russas em direção a sua cidade, assim como dois caminhões lotados de soldados também estavam no mesmo rumo. Temendo uma bagaceira pelas ruas de Limoeiro, Custódio conversa com Virgolino sobre ele deixar a cidade antes da chegada dos militares, para assim evitarem derramamento de sangue, o que é aceito pelo cangaceiro chefe.

A FOTO DA VOLTA 3A

Lampião pega seu apito e faz ouvir o seu silvo e todos já sabem o que fazer. Aprontam-se, montam e o pernambucano de Vila Bela agradece a acolhida e se despede de todos, tendo o Sr. Anísio como guia, as 11 da noite daquele dia partem rumo ao desconhecido…

O APOIO DOS GUIAS

Por já ser altas horas da noite, a caminhada é curta. Depois de mais ou menos caminharem 12 quilômetros, param para descasarem e dormirem um pouco. Já estavam nas terras do senhor José Tertuliano de Souza Vidal e nela acampam no ponto denominado Serrote dos Morros. Por ser noite de lua os cangaceiros notam silhuetas se movimentando próximo do morro. Lampião ordena que alguns cangaceiros façam as devidas investigações. Tratava-se de um idoso, o proprietário que estava procurando um local para esconder alguns animais, justamente para escaparem dos cangaceiros.

Além de pedir para ficar com os cavalos, trocando por aqueles que estavam cansados, Lampião “convoca” o velho para que sirva de guia, pois não conhecia o lugar. O velho dá sua palavra de que viria pelo amanhecer e o levaria. Pela manhã chega ao acampamento o velho Tertuliano acompanhado de um jovem, seu sobrinho Francisco Vidal. Chico Vidal veio para que se Lampião concordasse, servir de guia no lugar de seu tio, já idoso e cansado. Lampião aceita de bom grado. Com esse novo guia Virgolino libera Anísio Batista. Dá seus agradecimentos e lhe diz que se algum dia precisar dele, seja para o que fosse, era só mandar chamá-lo.

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Serrote à margem do rio, Morros, Limoeiro do Norte – Fonte – http://mapio.net/pic/p-45191421/

“(…) Lampião mandou chamar Anísio Batista. Explicou-lhe que a partir daquele ponto não iria mais precisar de seus préstimos. Agradeceu ao guia a atenção e esmero. Por fim, deu-lhe autorização para retornar à sua casa. Acrescentou que, àquela altura, sua família deveria estar aflita.

Por fim, deu-lhe algum dinheiro e – como prova maior de gratidão – anunciou-lhe bizarra recompensa:

– Quando precisar de mim é só mandar me chamar! Seja o que for! (…).” ((DANTAS, 2005)

O senhor Anísio é dispensado para retornar a sua moradia e o velho Tertuliano também. Francisco Vidal começa a guiar o bando por terras desconhecidas ao chefe, dando sequência a grande volta até as terras do Pajeú das Flores, no sertão pernambucano.

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Cordel de autoria do poeta Antonio Pádua Borges de Queiróz, contando a passagem de lampião e seus homens em Tabuleiro de Areira, atual município cearense de Tabuleiro do Norte – Fonte – http://paduadequeirozcordelearte.blogspot.com.br/2008/07/passagem-de-lampio-em-tabuleiro-do.html

O sol já estava alto, quando a turba chega ao povoado por nome de Taboleiro de Areia, hoje município de Tabuleiro do Norte. Nele os cabras de Lampião fazem compras. Numa grande feira, feita na bodega do senhor Antônio Alves Maia, eles colocam, além dos alimentos, “espelhos, lençóis de chita, meias de seda e duas dúzias de cerveja”, chegando ao total, toda a feira, de seiscentos mil réis. Após pagarem as despesas, Lampião monta em seu animal, seguido pelos demais, e despedem-se do dono da venda, reiniciando sua caminhada…

Duas horas depois, estavam todos descansando nos tabuleiros do sítio Armador. Lampião escolheu aquelas terras por serem altas e descampadas, assim teriam uma grande vista ao redor, além de ter água para reabastecerem suas reservas. Virgolino tinha conhecimento de que volantes paraibanas e cearenses estavam em seu encalce, porém, demonstrava confiança.

Depois de cinco horas de descanso, lá pelas três horas da tarde, Lampião dispensa os serviços de Francisco Vidal, lhe agradece e diz que só o estava soltando devido a serem homens honrados e sem mentiras.

“(…) Na porteira da propriedade Lampião dispensou Francisco Vidal:

– Você só volta porque seu tio não mentiu! Vocês são homens de palavra! (…).” ((DANTAS, 2005)

Daí por diante, duas horas de caminhada depois, chegam às terras da fazenda Araras. Num movimento de guerrilha Lampião dividiu parte do bando em três grupos.

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O cangaceiro Massilon – Fonte – http://lentescangaceiras.blogspot.com.br/2009/01/quem-foi-massilon.html

Chefia uma parte, Sabino e Massilon os outros dois. Atacam e dominam rapidamente o dono das terras João Roque Macedo. Após está diante do cangaceiro mor, este diz ao senhor João, seu genro Sinésio Magalhães e o vaqueiro José Pedro, que necessita dos seus serviços para que levassem uma carta ao Delegado da Vila de Pereiro, Hidelbrando Mourão, “solicitando” determinada quantia. O primeiro e o segundo encarregaram-se dos bilhetes, já o vaqueiro tem outra obrigação, servir de guia. Além da missiva de Lampião, o coronel Antônio Gurgel pede aos emissários para que entregassem uma dele aos amigos em Pereiro, Décio e Artur Holanda. Nela, Gurgel referia querer saber como estavam as coisas sobre a grana do seu resgate, assim como solicita o apoio e a colaboração dos mesmos.

Emissários a caminho de Pereiro, o chefe Virgolino ordena então que sigam todos para outro local, por dentro da chamada “Mata Branca”, tentando esconder seus rastros. Após algumas horas de caminhada dentro da caatinga, ao chegarem à beira de um grotão, ordena que se faça no mesmo, onde suas barreiras serviam de anteparo para proteção. Tudo em total silêncio.

A noite do dia 16 passa sem complicações. Na madrugada do dia 17, logo cedinho, o cantar do galo já encontra a caterva de caminho afora. Naquelas paragens, sem nem sonharem com tanto cangaceiro por perto, os sertanejos levavam suas vidas como dantes, empenhados na labuta de seu dia-a-dia. Vez por outra um dava de cara com o bando. Já pensaram?

A pessoa vai de caminho a fora e dar de cara com Lampião e seu bando? Não era moleza não. Ao encontrarem esses roceiros, eles os abordavam e Virgolino fazia uma série de perguntas, dentre elas a principal: se tinham avistado soldados por perto. Todos respondiam que sim, que tinham visto muitos soldados pela vizinhança…

“(…) Pelo rumo das conversas, a certeza insofismável da presença de militares na região:

– Tem polícia por aí que faz medo! – era a resposta que brotava em uníssono da boca dos sertanejos (…).” ((DANTAS, 2005)

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Padrão típico de uma volante policial nordestina nos tempos do cangaço, que sob o aspecto da vestimento e acessórios, possuía muita similaridade com as roupas dos cangaceiros – Fonte – https://tokdehistoria.wordpress.com

Em conversa, por certo, com o vaqueiro José Pedro, Lampião pede que esse o coloque em local que dê condições de enfrentarem qualquer ataque. Chegam e acampam nas terras do sítio Saco do Garcia. Escolhem um serrote com pedras e grotões, além de ter água em poços e “pias” de rocha, local ideal para acamparem. Lampião abate, a tiros, uma rês que pastava por perto. Os cangaceiros a sangram e tiram-lhe a pele, o couro, e fazem, preparam, a carne: salgam e a colocam no sol para desidratar e poderem colocar nos bornais para os dias vindouros. Ficou decidido que ali, naquele local, pela natureza das defesas naturais e a quantidade do líquido precioso, ficariam a esperar a resposta do delegado.

DRAMA DO CORONEL GURGEL

A maioria dessas informações ficaram registradas para a História através do diário do coronel Antônio Gurgel, que relata o que ocorria no bando, ou com o bando, nos terríveis dias do seu cativeiro.

O vaqueiro José Pedro, além de guia do bando, tornasse os “olhos e ouvidos” do “Rei do Cangaço”. Primeiro Lampião o envia a Vila de Alto Santo para averiguar como estava a situação, e se havia movimentação das volantes. Ao retornar, o vaqueiro reporta que havia um contingente com, mais ou menos, 150 homens na Vila. Notícia que coloca a pulga atrás da orelha de Virgolino. Este então manda mais uma vez que o colaborador vá a outras direções, vasculhe como se caça uma rês perdida na mata, por mais informações sobre a movimentação dos militares. Lá pela hora da Ave Maria Sertaneja, José Pedro retorna e com notícias negativas. Disse ao “capitão” que uma grande volante paraibana estava em seu encalce. Além de uma pequena tropa, uns vinte soldados, estava batendo em tudo que era lugar em busca de informações sobre ele. Nesse busca, relata o vaqueiro, os militares descem a macaca, roubam e praticam várias atrocidades contra os sertanejos.

3- O fazendeiro Antônio Gurgel e sua família. Ele foi sequestrado pelo bando, quando os cangaceiros segu
O fazendeiro Antônio Gurgel e familiares – Fonte – https://tokdehistoria.com.br

“(…) Acrescentou que, pelo caminho, os homens da milícia cometiam os maiores horrores – davam surras, seviciavam, roubavam sitiantes. Ressaltou José Pedro, por fim, que grande contingente paraibano parecia deslocar-se naquela direção. Lampião de imediato pressentiu algum perigo (…).” ((DANTAS, 2005)

Passa-se a noite do dia 17. Já no alvorecer do dia 18, Lampião envia, mais uma vez, o vaqueiro para que desse uma averiguada nas redondezas. O sol já havia pendido para o poente, o calor estava abrasador e nenhuma brisa soprava para diminuir o mormaço.

Sínésio Magalhães retorna trazendo junto o vaqueiro Manoel Alves. Esse trazia a quantia estipulada por Lampião pelo resgate do coronel Joaquim Moreira, outro de seus reféns das terras potiguares. Recebida  a grana o coronel Moreira e libertado. O chefe cangaceiro chama Sinésio e lhe pergunta sobre sua missão. Esse reporta que o Delegado Hidelbrando estava ciente e de que responderia dentro do prazo.

A FOTO DA VOLTA 5A

Toda vez que ocorria algo assim, ser solto, ou liberado, um companheiro refém, o coronel Antônio Gurgel ficava desesperado. Procurava saber o porquê de não terem mandado o resgate para sua libertação. Já pensaram que agonia passou esse cidadão? Sem mais saber o que fazer, apela para o vaqueiro que trouxera o dinheiro para liberta o coronel Moreira, para que o mesmo levasse uma carta na fazenda Brejo. Manoel Moreira diz que a fazenda fica totalmente ao contrário ao caminho que teria que seguir. O outro vaqueiro, José Pedro, prontifica-se para levar a carta do coronel no dia seguinte. Então o coronel Gurgel escreveu o ‘bilhete’ dessa forma, maneira:

“Muita reserva

Tilon:

Venho depositar em tuas mãos minha vida e liberdade.

Quando receber esta, sem perda de um minuto, monta a cavalo e corre até Mossoró para arrumares os 21:000$000 para meu resgate, o que farás com T. Filho e Jayme – Mesmo no caso de andar no mundo a outra remessa, consegue por tudo, meu irmão, a importância que te peço e regressa de automóvel para ganhar algumas horas. É muito importante e recomendo-te sobretudo o maior sigilo sobre essa informação, da qual ninguém por enquanto deverá saber, a não ser Tibúrcio e Jayme. Ouve bem: ninguém mais – além de vocês três, para evitar qualquer intervenção de autoridades, que neste caso só poderá me ser fatal. Quanto a este portador V. o guardará aí s/ qualquer pretexto até sua volta. Confio que terá maior cuidado nesta arrumação para que nada transpire e eu possa me livrar – pois tido agora depende de ti – do cuidado que empregares – sobretudo sigilo. O portador par vir com este poderá ser o velho Gaudêncio, ou se V. aí souber ou tiver um homem mais prático. Pensa bem na minha situação e faze tudo para conseguir minha liberdade. Ao Guedes que telegrafe a T. Bezerra pedindo meu saldo que apesar de pequeno serve. Age com presteza e que Deus se cpmpadeça de minha sorte.

Teu irmão am°

Antônio Gurgel do Amaral (FERNANDES, 1985,p. 257-258)”

As coisas caminham de uma só maneira no acampamento. A chegada da noite encontra o vaqueiro José transmitindo oralmente mais um relatório para o chefe, e dessa vez ele arrisca aconselhar Lampião. Lampião acata o que Pedro disse e lhe ordena que os guie para outro coito. Pedro os guia, mesmo durante a noite, por mais ou menos seis horas de mata adentro, onde os coloca em outra grota, distante. Ao amanhecer, tudo estava calmo. Porém, os alimentos começavam a acabar. Teriam que encontrar mais… Otílio retorna à tarde com uma boa compra. Por enquanto, estavam abastecidos de alimento.

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Muitas vezes foram os vaqueiros forçados a serem guias dos cangaceiros – Fonte – https://wordpress.com

Porém, esse mesmo coiteiro alerta Virgolino que soube que um certo vaqueiro os viu e passou a informação para as autoridades, as quais estavam seguindo para onde estavam. Mais uma vez o acampamento é levantado as presas. Aproveitam a noite para se distanciarem daquela paragem e vão se alojar nas perto da Serra do Palhano. Acampam e passam a noite sem novidades.

EMBOSCADA DO SERROTE DA RODA

As coisas começavam a piorar: quando tinha alimento, faltava água. Quando faltava os dois, a saída era os cactos. Levantam acampamento novamente e seguem de mata adentro. Acampam, desta vez na Serra da Micaela, onde pelo menos tinha água abundante. À noite dormia-se pouco, qualquer ruído na mata fazia aqueles homens ficarem com os nervos a flor da pele, prontos para guerrearem.

Pela manhã Lampião recebe mais informações sobre a movimentação militar. O cerco se fecha e, por mais que tentasse Virgolino não conseguia se afastar o suficiente dos perseguidores. A coisa estava se complicando. Dessa vez Lampião modifica a maneira de locomoverem-se. Ele divide o bando em pequenos grupos para assim se movimentam mais rápido e, se fossem atacados, os outros saberiam a tempo, eliminado uma grande emboscada por parte dos militares.

9-Jornal A Imprensa, de Natal, cujo o diretor era Câmara Cascudo
Os jornais, na medida do possível, acompanhavam a perseguição a Lampião – Coleção Rostand Medeiros.

O “Rei dos Cangaceiros” mais uma vez acertou em cheio. Bem próximo a eles estavam duas volantes, uma cearense e outra da Paraíba, comandadas por seus respectivos tenentes.

“(…)Ali bem perto, conglomerado de volantes, chefiadas pelos tenentes Luís Davi e João costa, das polícias cearense e paraibana, respectivamente, seguiam o rastro da chusma (…).” (Ob. Ct.)

O tenente Luís Davi escolhe o Serrote da Roda como local para arma uma “arapuca” para os cangaceiros. A geografia do serrote dava condições favoráveis para uma embosca ser bem sucedida. Se os cangaceiros, acostumados a situações deveras adversas estavam nervosos, os soldados estavam em pior situação. Mesmo estando entrincheirados, protegidos, não permaneciam quietos e a todo instante alguém mudava de lugar, ou dava uma espiada para ver se via alguma coisa. Todos os soldados já tinham escutado de como os cangaceiros lutavam, com acréscimos, provavelmente, e isso os deixavam mais nervosos ainda quando, de repente, avistam chapéus de couro de abas largas e quebradas para trás se aproximando do local em que estavam…

Preparados para a emboscada no Serrote da Roda, os soldados comandados pelo tenente Pereira já estavam comprimindo os gatilhos das armas, fazendo mira nos cangaceiros que se aproximavam. O tenente dá a ordem de abrir fogo. O tempo se fecha naquelas terras assoladas pelo sol abrasador de uma tarde do mês de junho. Os homens de Lampião vinham cansados, porém, eram feitos no traquejo do combate. Quase no mesmo instante em que a saraivada de balas partia da encosta do serrote, os cangaceiros, na planície, pulam, jogam-se de lado, para trás e começam a responder ao fogo.

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Lampião no Ceará era notícia nacional – Fonte – http://meneleu.blogspot.com.br/2014/10/lampiao-caminho-de-juazeiro-cidade-santa.html

Os homens que seguiam Lampião eram forjados na fome, na miséria do sertão nordestino onde, naquela época, a Lei era sempre protetora do mais forte, daqueles que podiam, tinham poder, nada comparado a eles, além das intempéries naturais em que os faziam beber líquido de cactos e comer alimentos que embrulhariam o estômago de qualquer outra pessoa. Cansaram de ver a morte de frente, mesmo sem ser em combate, e não seria naquela hora que não a enfrentaria com coragem.

Nossos estudos sobre o “Rei do Cangaço” não se iniciaram tentando desvendar se esse chefe cangaceiro seria herói ou bandido, mas, com a ideia de compreender o emprego de táticas de guerra e de seus movimentos em meio a nossa natureza rude, improvisadas dependendo da situação, do tempo, do terreno e outras condicionantes. Aqueles que seguiam Virgolino aprenderam a lhe obedecer cegamente, bastava ele dizer o que queria para que fosse cumprido rapidamente a sua vontade. Em meio ao som dos disparos, Lampião começa a gritar dando ordens dizendo como deveriam agir… E os homens obedeciam como se fossem automáticos impulsionados por um botão.

2-O bando de Lampião
O bando de Lampião anos depois do ataque a Mossoró e os combates no Ceará – Fonte – tokdehistoria.com.br

“(…) Homens que lhe obedeciam cegamente. Se submetiam, tal qual vassalos, à incomparável inteligência de um rei sem coroa. Conheciam com profundeza a astúcia e destreza da exponencial figura do cangaço. A liderança de lampião era sem dúvida algo inacreditável. E mais uma vez – à sombra do Serrote da Roda – provou a rara ascendência que detinha sobre a cabroeira.

Rápido, em simultâneo aos primeiros tiros da volante, ditou comando aos comparsas. Ao som de única palavra, os bandoleiros saltaram dos cavalos e buscaram refúgio nas pedras do terreno(…) Seguiram as ordens de Lampião como soldados treinados(…) Em segundos, já respondiam aos tiros dos militares, em cadência notável superior (…).” (“Lampião e o Rio Grande do Norte – A história da grande jornada” – DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. 1ª edição. Natal, 2005)

A papoqueira de balas se alastra levando seu som amedrontador de sertão afora. Os animais, antes utilizados pelos cangaceiros, saem em disparadas que nem bala conseguiu alcança-los. Feitos no combate, muitos dos homens de Virgolino rolavam de lado para outro, atirando e provocando seus adversários com pretensão desses se mostrarem para tornar-se um alvo fácil. A posição em que se encontravam os homens do tenente Pereira era privilegiada. Atiravam de cima para baixo. No entanto, sob o comando de Lampião, os cangaceiros conseguem, no momento do “pega-pra-capar”’, do “vamos-ver”, retirar essa vantagem. Quando as coisas estavam, mais ou menos nesse patamar, Surge uma fuzilaria parte na retaguarda da posição de combate dos bandoleiros. Era os homens comandados pelo sargento Eurico Rocha, da “Briosa” cearense que vinham em socorro dos seus companheiros. Com isso a coisa muda de figura e os bandoleiros sentem nitidamente, na pele, esse novo fogo adversário. O cerco aperta mais e mais. A coisa “nublou-se” pras bandas da cabroeira…

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Lampião – Fonte – lounge.obviousmag.org

Mas, como se viu em vários e vários combates entre seres humanos, é justamente nessas horas difíceis que emerge a capacidade, o dom de um líder.

Lampião vendo a coisa preta para seu lado e o de seus “meninos”, erguesse e, de arma nas mãos, atirando ligeiro com um raio, começa a esbravejar palavras de coragem para seus comandados, e, como num passe de mágica, consegue abrir uma brecha no “paredão” feito pelos soldados, por onde seus homens começam a deixar a “arapuca”. Contornam o serrote em seguida procuram embrenha-se na “Mata Branca”, na vegetação de caatinga, sua leal acolhedora em momentos como aquele.

ESPERANDO A FORÇA PARA BRIGAR

Aquela emboscada causou uma tremenda queda, no já caído, ânimo da cabroeira. Apesar de ter durado, mais ou menos uma três horas, os prejuízos para Lampião foram enormes. Com o barulho dos disparos os animais somem sem ninguém saber para onde e nem a distância que alcançaram os animais levaram em seus alforjes, coxins e coronas, alimentos, água, joias, dinheiro, armas e a “farda de major” que era de Sabino, o qual a tinha pego em uma residência na capital do oeste potiguar e tinha utilizado quando do ataque de 13 de junho em Mossoró. Além desse prejuízo um de seus homens, o cangaceiro Moreno, foi ferido em um dos braços. O projétil ao entrar em choque com o corpo do cangaceiro abre uma ferida de enorme tamanho, levando consigo parte do tecido mole, deixando a mostra parte do osso. Isso deixa seus líderes preocupados, pois se gangrenasse, teriam que sacrificar o companheiro.

As coisas iam de mal a pior para os bandoleiros. Estavam dentro da caatinga sem comida e água. Tinham que percorrer léguas, não sabiam como nem à distância exata que teriam que andar. Pois bem, daquele momento em diante, a cabroeira partiu sem rumo certo, tomando cuidados redobrados para que outro confronto não acontecesse, pois seria o fim de muitos deles que estavam a pé. Aquela viagem de volta pela caatinga estava colocando a prova todos os conhecimentos do líder do Pajeú das Flores, adquiridos desde os anos em que trabalhou como almocreve e vaqueiro. Aguçando seus sentidos, raciocinando com frieza, apesar dos problemas, Lampião prevê que seus adversários, as volantes, no intuito de lhe cortarem caminho, partiriam direto para a região do Cariri cearense, localizada no sul do Estado.

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Refazendo-se da agonia Lampião muda seus planos de imediato e segue, tomando todas as precauções e utilizando de despistes, como andar em sentido diferente na direção do município do Riacho do Sangue. Após algumas horas de caminhada ordena que se faça uma parada para descansarem.

Antes do raiar do dia 22 de junho, já estão de novo a caminhar numa busca desesperada por água. A situação se complica, ainda mais, depois que entram no leito de um riacho e esse estava mais seco do que suas gargantas. Autoriza uma parada e manda que alguém vasculhe as redondezas em busca de alguma coisa para comerem. Um dos cabras retorna trazendo a notícia de que havia uma casa e próximo a ela um riacho onde tinha uma cacimba com água. Dando-lhe dinheiro o chefe ordena que vá até a tapera, bata a porta e compre os queijos e rapaduras que lá tivesse. O homem vai e retorna com tudo que pode comprar, porém, para tanta gente, só deu uma refeição. Passaram o resto do dia e a noite naquele recanto de terra cearense.

Ao amanhecer do dia 23, dez dias após o ataque a Mossoró, partem sem saberem o que encontrariam pelo caminho, apenas de uma coisa tinham certeza, que a morte os rondava por perto. Na mata, a frente do grupo, escutam ruídos de cascos de um animal. Parando a cabroeira, Lampião começa a prestar atenção de onde vinha e se seria uma rês solta, o que significava alimento, ou se seria outro animal. De repente notam que se tratava de um homem encourado, um vaqueiro, que matinha a cabeça baixa ao andar da montaria, na certeza estava rastreando os rastros de uma rês desgarrada. O homem só vem perceber os cangaceiros bem perto, ao avistá-los, tenta virar o animal e dar o fora, no que é advertido pelos bandoleiros de que se assim fizesse morreria. Então o vaqueiro puxa as rédeas do animal que estanca.

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Sabino das Abóboras chegou rapidamente junto ao animal e manda que o homem desmonte. Nele foi colocado o cangaceiro ferido que não sabe-se como suportara tanta dor, pois seu membro superior já cheira mal, havia gangrenado.

Notamos a seguir a diferença de um líder que pensa e outro que só tinha em mente matar. O cangaceiro Sabino quer porque quer matar o pobre vaqueiro, dizendo que se ele vivo ficasse entregaria a polícia, a situação e posição deles. Lampião pensou mais além, sabia que necessitava de alguém que conhecesse as redondezas, então não autoriza a morte do homem.

“(…) O covarde suplício foi refutado por Lampião, justificando ao comparsa a extrema necessidade de um guia. Vagavam por região desconhecida.

       Sabino não mais criou caso.

       O matuto não coube em si de contentamento. Prostou-se de joelhos aos pés de Lampião:

– Obrigado “coroné”! Eu levo vocês até um esconderijo que conheço! Pode confiar na minha palavra! (…).” (DANTAS, 2005)

O novo guia os leva, agora numa marcha mais rápida, há um local com segurança. Dali, Massilon pega o vaqueiro e ordena que ele o leve a algum lugar para conseguir comida. Retornam ao anoitece com alguns punhados de farinha, queijos e um peru, coisa mínima para tanta gente esfomeada.

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Fonte – http://cariricangaco.blogspot.com.br/2011_06_01_archive.html

No coito, ou esconderijo, improvisado Virgolino começa a pensar nas volantes paraibanas, repletas de homens corajosos, astutos, corajosos e que “não abriam nem para um trem” e se questiona onde eles estariam? Com certeza em sua busca. Parece que estava adivinhando. Os cangaceiros estavam próximos do local onde se encontrava uma volante comandada pelo Oficial Germano Sólon de França, que tinha sob seu comando não paraibanos, mas uma Força cearense, que vinha escavacando tudo quanto era grotão, furnas, grutas, serras e serrotes, em todas as propriedades rurais, na busca de algum vestígio deixado pelos cangaceiros.

Sabino chama dois dos homens e sai à procura de mais alimentos. Encontra-se com um agricultor e fazem negócio em duas criações que serviriam de alimento para o bando. Preço acertado, Sabino puxa do dinheiro para pagar, quando, naquele momento nota a aproximação de soldados. Imediatamente caem fora, embrenham-se na mata e fogem. O dono das criações não consegue evadir-se, também não tinha por que, deve ter pensado. No entanto é preso e sumariamente torturado quando lhes conta o que estava fazendo. É tido como acoitador, colaborador, fica detido e preso.

“(…) Jeremias foi aprisionado. Não teve tempo de escapar. Sobre seus ombros pesou suspeita de ser coiteiro. De pronto passou por torturas e muito em breve pôs tudo a descoberto. Informou à polícia que Lampião estava próximo, acampado a mais ou menos três quilômetros, no sopé da Serra da Macambira (…).” ((DANTAS, 2005)

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Fonte – http://www.itribuna.com.br

Ao retornar para o acampamento Sabino reporta ao chefe tudo que havia se passado. Essas notícias só vieram confirmar as suspeitas de Lampião, principalmente quando é sabedor de uma grande volante circulava em seu encalço naquela zona. Lampião envia alguns homens, disfarçados, para sondarem se alguma volante estava seguindo para onde estavam. Cai à noite e Sabino chama seu chefe para darem no pé. Virgolino não aceita e diz que esperará aquela volante para dar uma brigada com ela.

“- O filho do velho disse que tinha uma força grande por aí! Acho que a gente deveria fugir!” (diz o cabra das Abóboras)

“- Não! Eu vou esperar essa força! Estou com disposição prá brigar! – reagiu Lampião. (DANTAS, pgs. 302 -303)

Sem darem um minuto de descanso aos cangaceiros, várias volantes, paraibanas e cearenses os perseguem dia e noite. Avançando durante a noite, já na madrugada do dia 25 de junho, um imenso cerco é formado em torno do acampamento onde se encontrava Lampião e seus homens. Aos poucos os volantes vão diminuindo o raio do perímetro, e o confronte teria início a qualquer momento.

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O lugar tenente de Lampião vai até onde estão os reféns Antônio Gurgel e dona Maria José, relata o que está para acontecer e os leva até uma grota funda que ficava perto e os deixam neste local onde estariam protegidos dos tiros. Junto aos reféns também fora deixado o cangaceiro Moreno que estava ferido. Os reféns sempre estiveram o tempo todo sob a guarda do cangaceiro Félix da Mata Redonda, cabra sério e que os demais o respeitavam, porém, dessa vez, ficaram dois a guardá-los.

Em volta de onde estavam os cangaceiros, a coisa estava fervilhando de soldados. Segundo historiadores, seria um contingente, aproximado, de 400 homens doidinhos para matarem cangaceiros.

“(…) Ali bem perto, tropas militares posicionam-se. O comando da operação fora confiado ao tenente cearense Manoel Firmo. Ao seu lado, alentado efetivo, com aproximadamente quatrocentos homens. Acompanhavam o Oficial-em-comando os tenentes cearenses José Bezerra, Osimo de Alencar Lima, Luiz Davi de Souza, Veríssimo Alves Gondim, Antônio Pereira, Germano Solon de França, além do tenente João da Costa e Silva, da polícia paraibana (FIGUEIREDO,s.d.)(…).”

Diferentemente de quando fora emboscado, no serrote da Roda, Lampião era quem estava numa posição favorável. Quando o dia clareia Virgolino observa o movimento tomado pela tropa. Em seguida passa as ordens para os seus homens se posicionarem em determinados lugares. As estratégias empregadas por Lampião, sempre foram fatos de admiração até mesmo entre seus maiores inimigos.

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Davi Jurubeba – Fonte – http://blogdodrlima.blogspot.com.br/2016/12/david-jurubeba-um-heroi-nazareno.html

O nazareno Davi Jurubeba, policial e ferrenho inimigo dos irmãos Ferreira, citou sobre as artimanhas de Lampião em combate e afirmou que ele sempre levou vantagem. Já o pesquisador Sérgio Augusto de Souza Dantas, que entrevistou Davi Jurubeba, trouxe em sua obra os seguintes apontamentos deste inimigo de Lampião:

“Lampião era de uma sagacidade sem nome. Era muito difícil pegar Lampião; ele não caía em emboscadas. Ele vinha de lá e de lá alguém nos avisava. Ficava um bocado esperando ele aqui. Grupos de quatro ou cinco volantes emboscados. Ele vinha, vinha, quando chegava a um ou dois quilômetros da emboscada, ele entrava pelo mato e desaparecia. Isso eu mesmo vi, não foi ouvindo contar não. Eu mesmo vendo. Não! Não sei o que é que ele era não. Não sei se era o Cão. Devia ser Satanás”.

O fogo rompe no Riacho da Fortuna. Cangaceiros colocados em lugares estratégicos “balançam suas armas”, atiram, em respostas aos tiros disparados pela tropa que cercara o local. O tiroteio primeiro dura por volta de hora e meia. Entre disparos e fumaça, escutava-se o vozerio daqueles que se digladiavam, cada um a sua maneira de provocar seu adversário. Xingamentos, palavrões e toadas cantadas no calor da luta…

Após o primeiro tiroteio, ao receberem um sinal do chefe, os cangaceiros param de atirar e ficam imóveis em seus lugares. Calados, sem moverem um músculo do corpo, permaneceram os cabras de Lampião. A tropa, talvez achando que seus adversários deram as costas, começam a sair de seus abrigos e avançarem na direção em que estavam posicionados os cangaceiros. Movimento errado e precipitado. Há um novo sinal do “Rei do Cangaço”, todos de balas nas agulhas das armas, os cangaceiros saem dos abrigos e abrem fogo contra a tropa exposta. Ao escutarem o silvo dos projéteis bem perto de suas cabeças, os soldados partem para bem distante, em busca de salvarem suas vidas adentram a mata ao contrário onde se realiza o confronto. Salta pra lá, corre pra cá, arrasta-se pra li e toda a organização da tropa se desfaz.

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O diário do coronel Gurgel foi uma grande fonte de informações sobre a ação dos cangaceiros antes e depois do ataque a Mossoró em 1927.

“(…) A debandada seguiu-se em desordem, aflita. Cada soldado tentava fugir  da melhor forma possível. Rastejaram, saltaram embrenharam-se no tabuleiro. À esmo, respondiam aos tiros da falange criminosa (…).”  ((DANTAS, 2005)

Aproveitando esse instante de desordem das volantes, Lampião dá outro sinal e todos partem seguindo o leito seco do riacho. Correm até perderem suas forças. Da parte dos cangaceiros, nesse confronto não ocorreu baixas, já do lado militar, a coisa foi terrível:

“Tombaram no teatro da luta os Cabos de Esquadra Raimundo José Augusto, Manoel da Silva Brito, José Felix do Monte e o soldado Aprígio José da Silva. Feridos com gravidade os praças Emídio José de Oliveira, Raimundo Rocha e José Casimiro.” (FIGUEIREDO, s.d.)

LIBERTAÇÃO DOS PRINCIPAIS REFÉNS E PERSEGUIÇÃO FEROZ

Descansando o suficiente, os cangaceiros empregam nova caminhada, saindo do leito do riacho, apagando seus sinais e começando a ação de despistar na caatinga. Lampião e seus companheiros sabiam que se topasse com outra tropa, e mais um confronto ocorresse, não haveria balas suficientes para tal. A preocupação aumenta entre o “estado-maior” de Lampião. O cangaceiro mor relata para os seus lugares-tenentes que chegara a hora de libertar os reféns. Durante o último confronto, Virgolino escutara por diversas vezes os soldados gritarem para que libertassem os reféns. Deixou eles cientes de que, libertando os reféns, a perseguição diminuiria e eles conseguiriam voltar para sua terra. Sabino foi o interlocutor para dar a notícia aos reféns, coronel Antônio Gurgel e dona Maria José, de que eles seriam libertados.

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Dona Maria José Lopes – Fonte – Blog do Mendes & Mendes

Lampião ao despedir-se deles manda que uma das cativas, Dona Maria José Lopes, levada da fazenda Aroeira (hoje na zona rural da cidade de Paraná-RN) que tome bastante cuidado, pois estavam com volantes nas proximidades e estas poderiam, por engano, atirar neles. O coronel Gurgel chega-se pra perto de Lampião e estende-lhe a mão. Antes de partir, recebe do “Rei do Cangaço“ duas moeda de ouro, duas libras esterlinas, deixando o coronel surpreso e boquiaberto com aquela atitude.

“Ao sair, recebeu duas moedas de ouro. Não conseguindo esconder a surpresa. Lampião justificou o ato:

– É para sua netinha!” (FERNANDES, 1985, p. 189) – Sobre o caso destas moedas ver – https://tokdehistoria.com.br/2017/06/23/o-ouro-dos-cangaceiros-para-yolanda/

O dia seguinte, 26 de junho, foi cheio de espectros que surgiam em cada moita, levantavam-se de trás de cada pedra… E sempre partiam ao encontro daquela horda faminta, cansada e sedenta. À noite era pior, pois não conseguiram pregar o olho.

A caminhada era incessante. Não poderiam parar para nada. Desciam serra, subiam morros, atravessavam baixos e prosseguiam numa louca tentativa de salvarem suas vidas. Já iam longe, na segunda metade do dia 27 de junho, no lugar chamado Cabeça do Boi, quando são atacados por uma Força paraibana. Lampião e seus “meninos” rompem mais esse ataque e embrenham-se na sua aliada natural, a caatinga. Dessa feita não há baixas em nenhum dos lados. Porém os nervos dos cangaceiros estavam, cada vez mais, em total frangalho.

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Clementino José Furtado, o Clementino Quelé – Fonte – https://tokdehistoria.com.br/2013/07/06/as-batalhas-entre-clementino-quele-e-lampiao-em-1924-em-santa-cruz-da-baixa-verde-pe/

No dia 29, após longa e sofrida volta ao rumo do Cariri cearense, os cangaceiros, sem notarem, estavam às voltas com os homens do antigo cangaceiro e companheiro de lutas Clementino José Furtado, o sargento Quelé, o conhecido “Tamanduá Vermelho”, agora comandante de uma volante paraibana e verdadeiro osso duro de roer.

Estavam eles, os cangaceiros, naquele momento sob os olhares dos homens da volante paraibana comandada pelo tenente Manuel Arruda Diniz. Diniz, segundo pesquisadores, não ordena que seus homens ataquem, e seria, ou teria sido, uma situação ímpar. O tenente distribuiu seus homens em duas fileiras, deixando um espaço que tinha condições dos cangaceiros passassem mesmo no meio da fila dupla de atiradores. Os cangaceiros passam e os soldados apenas os olham.

“(…) A emboscada preparada pelo tenente Manuel Arruda Diniz, da polícia paraibana, foi, entretanto, meramente figurativa.

Não houve tiro sequer.

O oficial – que no dia anterior (28 de junho) alardeava aos quatro cantos que iria arrasar o grupo – fez proposital vista grossa e os cangaceiros passaram incólumes entre as colunas (…).” (DANTAS, 2005)

Assim, volantes paraibanas, cearenses, pernambucanas e norte-rio-grandenses, passam a perseguir o bando de cangaceiros, desanimados, esfomeados e sem munição para enfrentar uma luta aberta contra tantos inimigos em comum.

Mas a coisa fica mesmo catastrófica, com a traição daquele a quem o “Rei do Cangaço”, caminha em busca de apoio e guarida, o coronel Izaías Arruda, da Fazenda Ipueiras…

A TRAIÇÃO DO CORONEL

O cerco ao bando de Lampião, em território cearense, a cada dia se fechava mais. Eles não tinham nem como descansar direito. Forças de três Estados estavam em seus calcanhares e não queriam “largar o osso”, pelo contrário, todos queriam era dar o golpe final. Acabar de uma vez por todas com o famigerado facínora que tanto lhes dava trabalho.

Para onde pendesse o bando encontra adversários. Uma grande tropa paraibana, comandada pelo tenente João Costa e pelo sargento Clementino Quelé, cercam o bando, ou o que restava dele na Serra do Velame. Nesse combate o pernambucano perde vários cangaceiros.

Procura refúgio e desça a encosta da serra. Ao chegarem próximos as margens do açude Velame, são novamente cercados e atacados pelos paraibanos que haviam dividido seus homens, deixando vários de seus combatentes na retaguarda. Mais vidas são perdidas e as baixas só aumentam. Nesse embate, não sabemos ao certo como, Virgolino consegue furar o cerco e cair fora com o restante de seus cabras. (LIRA, 1990)

Os cangaceiros estavam passando por uma prova que homens comuns não aguentariam. Além da perseguição constante das Forças Públicas de alguns dos Estados nordestinos, havia a fome e a sede que tirava os restos das suas resistências. A única coisa que sabemos que fora colaboradora de Lampião e sua turba naqueles dias, naquela volta terrível das terras potiguares, foi a sua aliada, a “mata Branca”. Quem respeita a caatinga e a conhece profundamente, tira proveito disso. Nela encontra-se o alimento e a água para matar a sede através da sua flora e fauna.

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Casa do coronel Izaías Arruda, Missão Velha, Ceará – Fonte – Rostand Medeiros.

A meta de Lampião, naqueles momentos terríveis, era uma só: chegar às terras de seu, até então, amigo coronel Izaías Arruda, na fazenda Ipueiras, sul do Cariri cearense. Na verdade, segundo vários autores, o plano para invadirem a cidade de Mossoró fora elaborado pelo coronel Izaías Arrudas e outros daquele meio, nas próprias terras que agora o “Rei do Cangaço” tentava alcançar em busca de amparo, proteção e com isso salvar sua vida.

Lampião, diferentemente do que muitos pensam, dependia e muito dos coronéis sertanejos, pois sem a colaboração e o apoio deles seu “reinado sangrento” não teria durado quase vinte anos. Só que a coisa era na base do “toma lá, da cá”. Nem os coronéis faziam algo sem verem o que conseguiriam em troca, nem Lampião fazia algo sem ver o que receberia pelo feito. A “amizade” e a lealdade deles se baseavam unicamente nesse sentido, ou seja, na verdade nem uma parte nem outra tinham confiança mútua.

A FOTO DA VOLTA 2C

Além do mais para os coronéis havia as questões políticas e para isso era bom manter amizade e, quando possível, usarem os serviços daqueles que viviam da espingarda na mão. Eles, os “coronéis”, os principais políticos de sua época, fizeram e desfizeram de muita coisa a margem da “Lei”. No entanto a própria “Lei” os protegiam e só condenavam os pobres lascados. Isso é fato!

Pois bem, o coronel Izaías Arruda recebe a notícia de que Lampião e seu bando se encontram no município de Missão Velha e ou Aurora. Lampião, com as vestes em frangalhos, assim como as dos seus homens, solicitam acolhida ao chefe político. Izaías envia Lampião e ao bando para as terras fazenda Vivenda, de seu parente e cúmplice José Cardoso. Era para eles ficarem na casa sede, porém, como a coisa estava “quente demais”, Lampião, em cima da hora, já avistando a casa sede, resolveu levar os cangaceiros para a margem de uma vargem e alojam-se debaixo dos pés de oiticica e juazeiro que lá havia. Próximo a eles tinha um grande canavial de um lado e do outro a mata bruta. O coronel Izaías Arruda, vendo a coisa ficando preta pra o lado do seu aliado, resolveu dá um jeito de eliminá-lo.

Vemos duas situações nesse gesto do coronel: uma seria que ele, o capitão Lampião, estando morto jamais poderia abrir a boca sobre quem, onde e como fora organizado e planejado o ataque à grande cidade do sertão potiguar. Em segundo Lugar Izaías Arruda não era bem visto pelas autoridades cearenses e paraibanas, devido ter conseguido muito, inclusive ser Prefeito da cidade cearense de Missão Velha, a base das armas. Daí, sendo ele o autor indireto da morte do famigerado cangaceiro pernambucano, a sua situação poderia mudar de figura diante das vistas das autoridades.

O vaqueiro Miguel Saraiva é encarregado pelo próprio coronel Izaías para que esse colocasse veneno na comida que levaria para os cangaceiros. Além disso o coronel envia seus jagunços, que não eram poucos, juntos com uma tropa militar para que dessem cabo do bando. Além disso o coronel ordena que se coloque fogo na plantação de cana próxima ao acampamento dos cangaceiros e por último a tropa e os jagunços que faziam o cerco matariam a tiros aqueles que não morressem envenenados ou queimados.

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Local onde aconteceu o incêndio da Ipueiras com o serrote dos Cantins ao fundo. Foto do competente pesquisador José Cícero, de Aurora, Ceará.

“(…)Tudo envolvido em conjunto na estratégia traçada na fazenda Ipueiras com vista a invasão de Mossoró, o ataque da volante sofrido no sítio Ribeiro( riacho do Bordão de Velhos dia 2 de julho) e por fim, o suculento banquete(envenenado) a cargo do vaqueiro Miguel Saraiva( da serra do Diamante e Coxá) oferecido na casa grande da fazenda-vivenda pertencente a José Cardoso, parente do famoso coronel Izaiais Arruda que terminaria com um cerco policial e o ato incendiário ao bando. Neste episodio marcante ocorrido em 7 de julho de 1927 próximo do meio-dia, cumpre destacar que em cima da hora, Lampião a 500 metros da residência, decidiu que o almoço fosse servido não mais na casa grande, mas ali mesmo, no baixio sob as sombras das Oiticicas e Juazeiros. Uma decisão providencial e salvadora(…).” (“A Traição de Izaias Arruda” – José Cícero)

“(…)Dr. Izaías Arruda queria mesmo, naquele dia, exterminar o rei do cangaço e o seu já desfalcado bando(…) Além do veneno, o Dr. Izapias armou mais dois tremendos laços para Lampião: um foi em mandar tocar fogo em todo canavial existente no roçado; o último foi em por toda a sua cabroeira no pé da cerca, para que, quem escapasse do veneno e do fogo, não escapasse das balas de sua gente (…).” (“Lampião – Memórias de um Soldado de Volante”- LIRA. João Gomes. 1ª edição. Recife,1990)

Alguns cangaceiros na verdade, ao comerem a comida envenenada, não morrem, apesar de passarem bastante mal. Aí surgiu o fogaréu na plantação. Não se sabe, mais uma vez, como danado foi que veio a ideia para que Lampião saísse do veneno e do fogo que consumia rapidamente a palha seca do canavial. Foi um momento, talvez raro, em que Lampião não estava prevenido, pois tinha o coronel Arruda como amigo e aliado, nunca esperava uma traição daquele tamanho. Mas ele consegue escapar!

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O major Moisés de Figueiredo, da polícia cearense, foi um dos que tiveram de se explicar sobre o fato de Lampião conseguir sair do Ceará – Coleção Rostand Medeiros

Lampião fora um bandoleiro das caatingas sertanejas que agiu em sete dos nove Estados da Região Nordeste, mas quando dava sua palavra ele a cumpria. No entanto, por achar que os outros também agiriam assim, perdeu a vida e a cabeça num leito de um riacho seco em terras sergipanas na segunda metade da década de 1930.

Aos trancos e barrancos, o “Rei Vesgo” consegue transpor os limites da linha divisória dos Estados do Ceará e de Pernambuco, ainda comandando um bando, bastante pequeno em relação ao que fora, não só pelas baixas, mas também pela separação dos homens do bando de Massilon Leite e deserções.

FIM DE UMA JORNADA E INÍCIO DE OUTRA

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Na sexta-feira, 22 de julho de 1927, o telégrafo estalou em Recife com a notícia da captura naquele mesmo dia do cangaceiro Serra do Umã, também alcunhado Mão Foveira. Ele se chamava Domingos dos Anjos de Oliveira, era negro, jovem, tido como valente e natural da grande Serra do Umã. Era irmão do cangaceiro Azulão, morto no Combate da Caiçara, em 10 de junho de 1927, próximo do atual município de Marcelino Vieira, Rio Grande do Norte. Foto do mesmo preso em Recife – Fonte – https://tokdehistoria.com.br/2014/09/12/cangaceiros-atras-das-grades-fim-da-ilusao/

Estando no município da cidade de Bom Nome, já em Pernambuco, um dos cabras de Lampião, o cangaceiro “Mão Foveira”, também conhecido como “Serra do Umã”, cujo nome real era Domingos dos Anjos de Oliveira, vinha se contorcendo de dores devido ao veneno ingerido, solicita ao chefe sua dispensa. Pra que aquele cabra fez aquele pedido? O filho de Vila Bela se irritou muito e perdeu as estribeiras. Pois bem, o chefe, em vez de deixa-lo ir, coloca uma bala na agulha da arma e diz que o deixaria, porém, morto. Não sabemos de outra perda de serenidade nos estudos sobre Lampião como esse. O cangaceiro começa a implorar pela vida e só não perde devido todos os outros ficarem a seu favor. Fato esse também raro, se não único, nos feitos do cangaço lampiônico, em que toda a cabroeira fica contrária ao chefe.

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Jornais repercutiram muito mal na época a forma como Lampião conseguiu sair do Ceará – Coleção Rostand Medeiros

“(…) Todo mundo contra Lampião, ficando todos ao lado do companheiro Mão foveira. Todo bando, por uma só voz falou a Lampião que, naquela jornada, por causa do veneno já havia morrido uma infinidade de companheiros, e, naquele momento, gritaram, dizendo que duvidavam como Lampião não atirava em Mão Foveira (…) Tendo, diante da forte recusa, Lampião desistido, deixando Mão Foveira com vida, apenas desprezado no meio da estrada, torcendo-se com as dores no intestino(…).” (Dantas, 2005)

Nos dias, semanas e meses seguintes as volantes não deixaram “a pista esfriar”. Aperto em cima de aperto e o bando, aos solavancos, vai diminuindo. Morrem alguns, outros desertam e outros se entregam as autoridades. Lampião então vai refugiar-se na Serra do Umã. Segundo o saudoso João Gomes de Lira, ex-volante: “A inviolável Serra do Umã era habitada por Caboclos, cangaceiros valentes”. Lá refugiado Lampião tenta curar suas feridas. Não dá tempo de sarar não, pois Manoel de Souza Neto, o comandando nazareno conhecido como Mané Neto e apelidado como “Mané Fumaça”, valente que só a gota serena, sobe a serra para matar e prende muita gente. No entanto, mais uma vez, apesar de estarem lascados, Lampião e alguns cangaceiros, incrivelmente, já haviam se mandado.

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Manoel de Souza Neto, o “Mané Neto” – Fonte – http://lampiaoaceso.blogspot.com.br/2016/07/

Nessa constante, de seguidas perdas de homens, apesar de alguns outros homens entrarem para o bando, as coisas não melhoraram em nada para o “Rei dos Cangaceiros”.

Acaba-se 1927, entra 1928 e as coisas continuam do mesmo jeito, as volantes não dão trégua a Lampião. Em março de 1928, seu lugar tenente Sabino das Abóboras é morto na fazenda Piçarra, terras pertencentes a um dos maiores coiteiros, citam alguns autores que também traiu a confiança de Lampião.

Durante o decorrer de 1928, o bando vai diminuindo, e chega a tal ponto de só ter o chefe Lampião e mais cinco homens – Ponto Fino, Moderno, Luiz Pedro, Mariano e Mergulhão.

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Lampião (primeiro a esquerda) em Pombal, Bahia – 1928 – Fonte – marcosnogueira-2.blogspot.com

Chega então, a hora do cangaceiro mor deixar as paragens entre Pernambuco, Paraíba, Ceará e o Rio Grande do Norte para ir à busca de novas terras em lugares distantes, para assim recomeçar seu sangrento “meio-de-vida”. As encontra no vizinho Estado da Bahia, após atravessar as águas do Rio São Francisco, o “Velho Chico”, e ir refugiar-se sob a proteção do coronel Petronilo Reis, que mais tarde, também vai trair sua confiança.

Mas, essa é outra história que depois a detalharemos…

Fontes

 “Lampião – Memórias de um soldado de Volante” – LIRA, João Gomes de. 1ª Edição. Recife, 1990.

Cangaceiros Cariri. Com

Blog de Aurora.com

Fotos “Lampião e o Rio Grande do Norte – A história da grande jornada” – DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. 1ª edição. Natal, 2005.

TokdeHistória.com

Cangaçonabahia.com

Cangaceiros Cariri. Com

Blog de Aurora.com

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O OURO DOS CANGACEIROS PARA YOLANDA

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Antônio Gurgel do Amaral – Fonte – http://www.blogdogemaia.com/detalhes.php?not=1032

Rostand Medeiros – Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Já faz algum tempo que uma manchete publicada no extinto jornal “A República”, na sua edição de 8 de outubro de 1933, um domingo, me chamou a atenção pelo destacado título “A História de um Cangaceiro”.

O artigo foi assinado pelo respeitado advogado Otto de Brito Guerra, sobrinho do coronel Antônio Gurgel do Amaral, o mesmo que foi capturado por membros do bando de Lampião quando este seguia comandando, em junho de 1927, um numeroso grupo de cangaceiros para o famoso ataque a Mossoró.

Diante desta privilegiada aproximação através do parentesco, o autor relata em seu artigo as diversas agruras que seu tio passou. Ali é descrito como o seu parente foi capturado, do valor exigido pela sua libertação, do ataque fracassado do bando a Mossoró, do carteado que utilizava munição de fuzil como fichas e outros pontos.

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O mossoroense Otto de Brito Guerra – Foto – http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/celebracao-destaca-o-jornalismo-de-otto-de-brito-guerra/224977

Muito do que Otto Guerra comenta neste artigo, foi fartamente pesquisado e divulgado ao longo dos anos, por diversos pesquisadores que se debruçaram na tentativa de conhecer mais em relação ao famoso combate na terra de Santa Luzia e a controversa presença da figura de Virgulino Ferreira da Silva em terras potiguares.

Conforme seguia lendo, não encontrava nenhuma informação nova sobre a permanência do coronel Gurgel em meio aos cangaceiros. Mas aí o autor passou a comentar sobre um “cabra” chamado Luís.

Um Cangaceiro Diferente

Era um jovem cangaceiro paraibano, um tipo alto, magro e moreno, que se apresentou como afilhado do famoso e famigerado Sabino, o violento braço direito de Lampião e por esta razão era conhecido como “Luiz Sabino”. Dizia este guerreiro encourado que havia entrado no cangaço no dia que seu padrinho realizou um “trabalho” para um potentado do sertão da Paraíba e daí não parou mais.

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A Republica, na sua edição de 8 de outubro de 1933.

Em um dia quente, ainda prisioneiro no Ceará, em meio às muitas cogitações sobre o seu destino, o coronel Gurgel percebeu o jovem Luís Sabino andando um pouco mais afastado do resto dos companheiros, de cabeça baixa e pensativo. Entretanto, ao procurar dialogar sobre o seu passado, o coronel Gurgel percebeu que não parecia haver uma boa receptividade por parte do jovem cangaceiro e logo ele buscou desviar o assunto. Em meio à conversa Luís perguntou.

– O coronel tem família?

– Tenho sim, pai, mãe, filhos… E até uma netinha…

– Já têm netos?

– Tenho.

Otto Guerra escreve que Luís Sabino fitou o prisioneiro uns instantes, daí abriu uma bolsa, “dessas arredondadas, cheias de compartimentos, o couro artisticamente bordado, que o sertanejo nordestino conduz a tiracolo”. Dela tirou um papel amarelado e entregou ao espantado coronel Gurgel uma reluzente moeda de ouro, da época do império brasileiro.

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– Tome coronel, quando se livrar daqui dê a sua netinha.

– Ora Luís, isso vale muito. Guarde.

– É… Já me falaram em sessenta mil réis. Porém eu sei que coisa de bandido não vale nada não… Tome.

Daí o jovem cangaceiro saiu cabisbaixo.

O coronel Gurgel relatou ao autor do artigo que o jovem cangaceiro, apesar de viver entre homens que tinham como característica comum à violência, a brutalidade e, além de tudo, ser afilhado logo de Sabino, era um membro do bando que estava sempre próximo aos prisioneiros levados, era extremamente atencioso e muitas vezes buscou de alguma forma amenizar as agruras dos cativos.

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Este seria o cangaceiro Luís Sabino.

Na famosa foto que registra o bando de cangaceiros de Lampião e os prisioneiros em Limoeiro do Norte, Ceará, obtida no dia 16 de junho, entre os membros listados pelo famigerado Jararaca, o cangaceiro que aparece com o número “31” grifado acima do chapéu de aba quebrada, foi apontado como sendo “L. Sabino”. Na época que listou os companheiros na famosa foto, Jararaca era então prisioneiro na cadeia de Mossoró e pouco tempo depois foi morto de maneira cruel e covarde pela polícia local.

Esta pequena história, simples, sem sangue nem disparos de fuzis, mostra um outro lado de um dos bandoleiros que vagavam pelos sertões, em meio a um grupo que vivia do saque e do roubo. Mas que em certo momento teve o total desprendimento pelo vil metal e mostrou um aspecto diferente do que normalmente é apresentado em relação e estes homens, que Frederico Pernambucano de Mello chamou de “Guerreiros do Sol”. E todo este fato contado através de uma reportagem escrita a oitenta e quatro anos atrás por um dos mais respeitados juristas potiguares.

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Entretanto…..

Mais Moedas de Ouro!!!

Sabemos pela descrição feita pelo próprio Antônio Gurgel do Amaral, em seu famoso diário, onde ele narra os vários dias de sofrimento junto a Lampião e seus homens, que o mesmo criou certos laços de amizade com um outro cangaceiro conhecido como “Pinga Fogo”. Gurgel descreve-o como um “rapaz de 24 anos, alvo, muito simpático, maneiroso”.

Terminantemente não se encontra nenhuma linha sobre Luís Sabino.

Bando de Lampião com prisioneiros em Limoeiro do Norte, junho 1927

Sabemos igualmente que no livro do conceituado médico Raul Fernandes, “A marcha de Lampião – Assalto a Mossoró”, na página 264, da 3ª edição, através de um relato da senhora Yolanda Guedes, a dita neta do coronel Gurgel, que informou ter o seu avô recebido do próprio Lampião não uma, mas duas moedas de ouro de libra esterlina e lhes deu as moedas de presente.

Foi uma suprema deferência, feita não por um cangaceiro qualquer, mas pelo próprio chefe caolho, que gentilmente regalou a netinha do seu sofrido sequestrado com estas duas reluzentes lembranças. Ademais as duas brilhantes peças metálicas nem eram da extinta realeza tupiniquim, mas da suntuosa Casa Real Britânica.

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A jovem Yolanda.

Raul Fernandes afirma que Yolanda Guedes lhe concedeu estas informações em uma entrevista ocorrida no Rio de Janeiro, em 1971.

Mas daí vem outra questão… E agora, em quem acreditar?

Dificuldades em Pesquisar

Raul Fernandes e Otto de Brito Guerra, já falecidos, eram naturais de Mossoró, oriundos de famílias tradicionais, foram consagrados professores nas suas respectivas áreas na UFRN, pesquisadores, escritores e durante suas vidas desenvolveram muitas outras atividades interessantes.

Se para estes dois iluminares das letras potiguares, homens consagrados no meio intelectual da terra de Felipe Camarão, contemporâneos ao ataque de Lampião a Mossoró, existe uma pequena divergência ao contarem sobre a história da “visita” do “Rei do Cangaço” ao nosso estado, imaginemos então os que buscam conhecer mais deste assunto noventa anos depois dos fatos.

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Na verdade, tudo que envolve este tema, que sempre foi tão calcado em referências orais, onde em determinados momentos vítimas e perseguidores, apaixonadamente se engalfinharam para fazer prevalecer suas versões dos acontecimentos, escrever sobre o cangaço é sempre um terreno escorregadio e perigoso para quem o adentra.

E ainda temos a figura dos ditos “intelectuais” tão desejosos dos holofotes, das adulações baratas, das bajulações desmedidas, que escrevem livros que foram produzidos praticamente sem nenhuma pesquisa de campo.

Ou ainda dos autores que se digladiam em querelas bobas e estéreis, sobre temas tão pequenos e inúteis, como o que acabei de aqui relatar, em um afã de superioridade desnecessária.

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Combatentes de Mossoró.

Eu tenho a minha hipótese para o caso das moedas; o coronel Gurgel era uma pessoa tão especial, tão interessante, que não recebeu nem uma e nem duas moedas de ouro dos cangaceiros, mas três. Uma de Luís Sabino e duas de Lampião, uma brasileira e duas inglesas.

Daí, se esta hipótese for correta, talvez o coronel Gurgel seja o primeiro caso de um sequestrado neste mundo que, apesar de passar vários dias com seus algozes, voltou para casa ganhando presentes dos seus algozes na forma de três moedas de ouro tilintando no bolso.

Mas aí, de repente, cada um pode criar a sua versão…..

NO RASTRO DAS CAVERNAS DO CANGAÇO NO SERTÃO PERNAMBUCANO

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Gruta do Morcego, Fazenda Colônia – Foto de Solon R. A. Netto.

Sólon R. A. Netto

Pesquisas históricas indicavam que na região do Sertão do Pajeú, em Pernambuco, uma grande quantidade de abrigos e possíveis cavernas formadas por blocos graníticos seriam antigos refúgios de bandoleiros famosos, que durante anos vagaram pelo sertão e hoje fazem parte do mais autêntico folclore nordestino. Aqueles locais espeleológicos associados à vida desses homens eram certamente sítios de grande importância histórica, os quais nunca foram documentados.

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Casa de Pedra de Cafundó, no Sítio Covoado, Vale do Cafundó, Flores, Pernambuco – Foto de Rostand Medeiros.

Tempos atrás percorremos em pouco mais de três dias quase dois mil quilômetros! Uma jornada puxada, com poucas horas de sono, para descobrir os esconderijos de Antônio Silvino, a gruta onde Lampião abrigara-se ferido e outro local bem interessante.

Início

Saímos altas horas da noite de Natal e seguimos para a fronteira da Paraíba, na área que esta se delimita com o Seridó Potiguar. O nosso grupo era composto por mim, Alex Gomes e Rostand Medeiros e horas depois estávamos avançando pelas últimas cidades da Paraíba e cruzando a divisa com Pernambuco. Quando as estrelas da madrugada foram ofuscadas pela alvorada, já íamos firmes ao primeiro objetivo: a Fazenda Colônia.

Esta propriedade está historicamente muito associada à cidade pernambucana de Afogados da Ingazeira, mas atualmente se localiza na zona rural do município de Carnaíba, a cerca de quatro quilômetros da fronteira com a Paraíba. Neste local nasceu o famoso chefe cangaceiro Antônio Silvino.

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Fazenda Colônia – Foto de Rostand Medeiros.

A história deste guerreiro das caatingas se inicia quando seu pai, o fazendeiro Pedro Batista Rufino de Almeida, conhecido popularmente como “Batistão”, foi assassinado por Desidério José Ramos e alguns de seus parentes em 3 de janeiro de 1897.

Meses depois os assassinos de “Batistão” são absolvidos em um júri controlado por famílias poderosas que apoiavam os seus matadores. A família de Antônio Silvino não desiste e impetra uma apelação e os acusados são recambiados à Casa de Detenção, em Recife. Quando os assassinos do fazendeiro são novamente trazidos escoltados para a região para um novo júri, o policial que comandava o grupo facilitou a fuga de todos. Revoltado, o jovem Manoel Batista de Moraes, então com 23 anos, e um irmão buscam fazer justiça com as próprias mãos. Para conseguir sua desejada vingança eles se tornam cangaceiros e entram em um bando comandado por um parente conhecido como Silvino Aires.

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Antônio Silvino.

Apenas um ano depois, em 1898, o chefe Silvino Aires é preso e Manoel Batista assume o bando, passando a ser conhecido como Antônio Silvino. O nome Antônio é uma referência ao santo de sua devoção, o mesmo da capela da Fazenda Colônia, e Silvino é uma homenagem ao parente que o recebeu nas hostes cangaceiras.

Conforme nos aproximávamos da Fazenda Colônia víamos que a geografia local consistia em elevações com trezentos metros de altura em média. Ao chegarmos a entrada da propriedade topamos com três cruzes.

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Foto de Alex Gomes.

Paramos para algumas fotos e logo um vaqueiro se aproximou. Quando indagado sobre aquele antigo marco ficamos sabendo que aquelas eram apenas algumas marcas de memória das muitas “mortes encomendadas” que já se fizeram na região. Segundo o nosso informante aquelas eram cruzes de três pessoas que foram mortas a mando de um dono de engenho, que mandou seus sicários matá-los ingerindo melaço quente. Logo à frente, surgiu um descampado central, revelando uma igreja e um imponente casario. Foi lá que conhecemos os irmãos Antônio e Damião Braz.

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Conhecendo as histórias da Fazenda Colônia com os irmãos Braz – Foto de Solon R. A. Netto.

Após os contatos iniciais e de explicações do porque viemos de tão longe para a Colônia, para nossa surpresa, os irmãos Braz informaram que não existia apenas uma gruta para visitarmos, mas quatro cavidades que os mais velhos afirmaram terem sido utilizadas pelo bando de cangaceiros do chefe Antônio Silvino.

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Vista da antiga casa sede da propriedade – Foto de Solon R. A. Netto.

Não havia condições de conhecer todos os locais comentados e decidimos, então, visitar as grutas do Morcego e a da Pedra Rajada, as mais próximas. Ambas estão localizadas em um setor da Serra da Colônia conhecido pelos moradores como Serra da Lagoa, mas dentro das terras da Fazenda Colônia.

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Iniciando o caminho para o alto da serra – Foto de Rostand Medeiros.

Passava do meio dia, quando nossos anfitriões se ofereceram para nos guiar até as cavernas que os cangaceiros de outrora haviam usado. De início, a trilha estava muito bem definida e seguíamos parando para admirar a fazenda que se perdia bem distante. Por certo ponto, a mata fechou e a subida tornou-se bem íngreme. Em meio às histórias, a caminhada alternava momentos mais íngremes com outros suaves. Chamou a atenção avistar árvores como “barrigudas de espinho” (Chorisia crispifolora), atualmente raras nos sertões potiguares.

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Nas trilhas da serra – Foto de Alex Gomes.

Ao chegar a um ponto onde alguns grandes blocos graníticos, rolados pelas intempéries, uniram-se ao longo de milênios para formar uma cavidade natural, nosso guia Damião foi logo avisando: “Essa daí é a que o povo chama de Gruta do Morcego e tem que entrar se entortando”. Vimos, então, em meio a uma cerrada vegetação típica da região, a entrada da cavidade, na forma de uma estreita fenda diagonal na junção dos matacões. Para espanto maior do grupo descobrimos que aquilo era muito mais do que um simples abrigo de grandes blocos de granito!

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Entrada da Gruta do Morcego – Foto de Rostand Medeiros.

Internamente encontramos um lugar amplo e arejado, com uma saída lateral que, no passado, certamente serviu como rota de fuga para outros locais. Os Braz comentaram que, ao longo dos anos, vários caçadores encontraram objetos na gruta e em seu entorno, inclusive estojos de munição deflagrados. Mostraram-nos talheres e estribos, além de três moedas de bronze do período colonial, sendo que, em uma delas, lê-se claramente o ano de “1781”. Encontrar tais moedas não é tão raro no Nordeste, mas as circunstâncias de sua descoberta, naquele local, podem apontar para uma série de possibilidades como, até mesmo, à utilização mais antiga do abrigo como possível esconderijo de bandoleiros.

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Gruta do Morcego, Fazenda Colônia – Foto de Solon R. A. Netto.

Saímos satisfeitos com aquela interessante cavidade e seguimos os guias em direção ao alto da serra e a Gruta da Pedra Rajada.

Nas Terras Que Viram Surgir Antônio Silvino

Segundo Antônio Braz os mais velhos narraram que os cangaceiros de Silvino se abasteciam em um antigo poço no alto da serra e ele nós levou até esse local. Atualmente nesse ponto existe uma cacimba e nós experimentamos da água cristalina e saborosa. Segundo os Braz, até hoje esse poço é utilizado pela população local. A água era realmente refrescante! Alguns goles e meia dúzia de cajus maduros nos fizeram repor a energia da subida.

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Antigo poço no alto da serra que, segundo a tradição oral local, é muito antigo e teria sido utilizado pelos cangaceiros de Antônio Silvino – Foto de Rostand Medeiros.

De lá pudemos observar uma espécie de grande piscina natural criado no solo rochoso, o tradicional “tanque” no linguajar dos sertanejos. No dia de nossa visita o local estava seco, mas segundo Damião era bastante frequentado durante os períodos de chuvas. O local é conhecido na região como “Lajedo do Tanque” ou “da Lagoa”.

Mais adiante chegamos ao ponto culminante daquela elevação, onde foi possível divisar toda a região, até mesmo a cidade de Afogados da Ingazeira, a cerca de vinte quilômetros de distância. Ficamos diante de uma bela vista da fazenda, com a igreja, pequena, parecendo uma casinha de brinquedo. A visão é maravilhosa e estratégica, mostrando que bastaria a Antônio Silvino colocar um homem vigilante naquele ponto para saber de toda a movimentação nos arredores.

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Os irmãos Braz comentaram que, ao longo dos anos, vários caçadores encontraram objetos na Gruta do Morcego e em seu entorno, inclusive estojos de munição deflagrados. Mostraram-nos talheres e estribos, além de três moedas de bronze do período colonial, sendo que, em uma delas, lê-se claramente o ano de “1781” – Foto de Alex Gomes.

Voltamos para a trilha em direção a Gruta da Pedra Rajada, porém o caminho simplesmente desapareceu em meio uma vegetação muito fechada. O trajeto era nítido aos guias, mas a nós, tudo se resumia a um contínuo esquivar-se de galhos e espinhos. Uma mata muito cerrada, escondendo o sol, e logo nos pusemos numa descida que se traduziu num escorrego brecado somente pelo cipoal. Foi desse modo que chegamos à Pedra Rajada, o segundo ponto a ser visitado, um abrigo de difícil acesso numa das encostas da serra.

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Abrigo da Pedra Rajada – Foto de Solon R. A. Netto.

Diferentemente da Gruta do Morcego, a Pedra Rajada não é uma caverna, mas apenas um abrigo granítico formado por uma das faces de um imenso bloco que se encontra com a lateral de outro matacão rolado. É bem protegido e um pequeno grupo de homens poderia se acomodar naquele local com o intuito de buscar um esconderijo de difícil acesso. Mas se aquele local foi realmente utilizado pelos cangaceiros, pela exuberância da vegetação existente atualmente, é fácil deduzir que desde a época de Silvino poucos se atreveram-se a chegar ao local.

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Capela de Santo Antônio da Fazenda Colônia. O nome Antônio é uma referência ao santo da devoção de Manoel Batista de Moraes, e Silvino é uma homenagem ao parente que o recebeu nas hostes cangaceiras. Foto de Solon R. A. Netto.

O retorno até a sede da fazenda deu-se nos mesmos moldes: uma descida medonha que, em diversos momentos, simplesmente se convertia em rolamentos ou escorregos. Era soltar o corpo, proteger o equipamento e livrar-se dos espinhos da caatinga misturada com árvores de grande porte. Coisas de serra.

Ao fim do primeiro dia, seguimos para a Paraíba, sendo recebidos na cidade de Manaíra pelo Senhor Antônio Antas Dias, nosso grande amigo e grande conhecedor das histórias dos cangaceiros na região. Ele então se juntou ao nosso grupo.

Em Busca da Serra do Catolé

No segundo dia, pela madrugada, já estávamos cruzando a fronteira da Paraíba com Pernambuco pelo barro, rumo a Santa Cruz da Baixa Verde. A meta era o município de São José do Belmonte, um dos locais mais interessantes do sertão pernambucano.

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Em São José de Belmonte visitamos a antiga morada do comerciante Luiz Gonzaga Gomes Ferraz, que em 1922 foi atacada pelo bando de Lampião, em parceria com um parente do chefe cangaceiro Sinhô Pereira, Crispim Pereira de Araújo, o “Ioiô Maroto” – Foto de Rostand Medeiros.

Inicialmente nesta cidade visitamos uma casa histórica, localizada na praça central desta cidade. Era a antiga morada do comerciante Luiz Gonzaga Gomes Ferraz, que em 1922 foi atacada pelo bando de Lampião, em parceria com um parente do chefe cangaceiro Sinhô Pereira, Crispim Pereira de Araújo, o “Ioiô Maroto”.

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Lampião – Fonte – lounge.obviousmag.org

Consta que Gonzaga mandou um oficial de polícia do Ceará, o tenente Peregrino Montenegro, e a sua tropa surrar Ioiô Maroto. Feita a desonra, Maroto jurou vingança, solicitando ajuda ao primo cangaceiro. Por essa época, Sinhô Pereira estava deixando a região para viver em Goiás e pediu para Lampião, seu antigo comandado e agora o chefe do bando, realizar a feitura “do serviço”.

Como não poderia deixar de ser, o ataque à residência de Gonzaga foi implacável. A resistência ofertada pelo proprietário e por policiais da guarnição de São José de Belmonte arrastou-se longo tempo, mas o local foi invadido e o comerciante sumariamente executado em sua própria sala.

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Distrito de Boa Esperança, São José de Belmonte – Foto de Rostand Medeiros.

Após esta visita seguimos para a zona rural de São José do Belmonte, em direção a área onde as fronteiras dos estados de Pernambuco, Ceará e Paraíba se encontram, tendo como destino o Distrito de Boa Esperança. Soubemos que ali vivia o Senhor Francisco Maciel da Silva, testemunha daqueles tempos difíceis.

Vivendo em uma casa simples do lugarejo, idoso, mostrou-se um homem de baixa estatura, lento nos gestos e utilizando um par de óculos com grossas lentes. Apesar disso, a firmeza da voz, a lucidez e o forte aperto de mão, não deixaram transparecer os noventa e sete anos de idade que ele tinha na época de nossa visita.

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Francisco Maciel da Silva, ainda fumando um cigarro de palha com quase cem anos de idade, deu uma interessante entrevista sobre o tempo do cangaço na sua região e na Serra do Catolé – Foto de Rostand Medeiros

Ele nos contou algumas histórias da época que viu os cangaceiros na sua região, que durante anos viveu no alto da Serra do Catolé e que, na sua propriedade, existia uma gruta que fora utilizada como esconderijo de cangaceiros. A cavidade é conhecida como Casa de Pedra, uma grutinha formada por grandes blocos na encosta da serra.

Já sua filha, Maria do Carmo Rodrigues da Silva, de sessenta e seis anos, informou que, quando moravam no alto da serra, muitas vezes seus filhos traziam daquela cavidade cápsulas de balas de fuzis, havendo, em uma ocasião, achado uma espécie de chave de fendas, aparentemente utilizada na manutenção de rifles. Dona Maria recordou passagens em que, noutro sítio da mesma serra, trabalhadores encontraram próximos a uma pequena gruta, dentre as rochas, “um mundo de rifles socados nas furnas”.

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Serra do Catolé – Foto de Alex Gomes.

Na época de nossa visita, devido à idade, o Senhor Maciel não pôde nos acompanhar, mas informou que um amigo por nome de Luiz Severino dos Santos, morador do Sítio Catolé, sabia muita coisa sobre os esconderijos.

Mais uma vez enfrentamos estradas quentes e poeirentas. Visto que o lugar era muito ermo e havia grande quantidade de casas abandonadas na beira do caminho, surgiu outra dificuldade: a de encontrar pessoas para prestar informações.

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Buscando informações em uma casa verdadeiramente “antenada” – Foto de Rostand Medeiros.

Seguimos mais de uma hora sem a noção exata de onde estávamos. No trajeto só casas abandonadas e portas fechadas. Pequenas passagens vicinais seguiam para lugarejos ignorados e logo ficamos perdidos. As poucas pessoas avistadas se mostravam arredias, desconfiadas com quatro estranhos em um carro. Era um jeito arisco e esquisito, tão diferente da receptividade tradicional do sertão e que talvez se explicasse pelo isolamento do local e a proximidade de três fronteiras estaduais, por onde “passa todo tipo de gente e bicho”, como nos disse um lavrador local, um dos poucos com quem conseguimos informações. Se hoje é assim, imaginemos, então, no tempo do cangaço.

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Os catolés da serra – Foto de Rostand Medeiros.

Apesar dos percalços, o horizonte fazia surgir a elevação imponente. Logo na subida, a Serra do Catolé mostrou-se mais extensa do alta, além de coberta por pequenas palmeiras conhecidas por coqueiro catolé (Syagus cromosa). Essa árvore, comum nos cerrados, é igualmente vista em praticamente toda a região Nordeste do Brasil, principalmente em locais com maior altitude.

Quando, enfim, chegamos ao cume da Serra do Catolé encontramos o Senhor José Marcos. Ele não somente nos ensinou o caminho, como também nos levou à propriedade de Luís Severino dos Santos.

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Bate papo com o Senhor Luís Severino dos Santos, no Sítio Catolé, neto do famoso chefe cangaceiro Luís Padre – Foto de Solon R. A. Netto.

Encontramos então um homem tranquilo, forte para sua idade, que nasceu e vive na serra. Desse local raramente se afasta, apenas para ir, ocasionalmente, até São José de Belmonte ou Serra Talhada. Para nossa surpresa, no começo do diálogo descobrimos que ele era neto de Luís Padre, um dos doutrinadores de Lampião, e que não havia apenas a Casa de Pedra para se conhecer, na verdade existem várias cavidades na Serra do Catolé, uma delas bem próximo de sua casa e que um dia abrigou um cangaceiro ferido.

Pedra de Dé Araújo

Segundo o Senhor Severino, a família de Luís Padre era dona do Sítio Catolé antes mesmo do início das “brigadas” contra os Carvalhos. Entre uma pausa e outra da luta, Luís Padre, Sinhô Pereira e o bando seguiam para aquele local, onde se refaziam para novos combates. Entre essas pausas, Luís Padre iniciou um relacionamento com a Ana Maria de Jesus. Desse encontro, nasceram duas filhas do célebre cangaceiro, Emília e Agostinha Pereira da Silva. A última foi a genitora do nosso informante, sendo ela quem narrou ao mesmo as peripécias e as andanças do seu pai no cangaço.

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Foto dos antepassados do Senhor Severino. O calvo a direita da foto é Luís Padre, seu avô – Foto de Rostand Medeiros.

As características de isolamento e as dificuldades naturais de acesso a serra, proporcionaram aos cangaceiros um verdadeiro local de descanso e apoio. Mas por medo da polícia descobrir esses locais, o Senhor Severino relatou que sempre a estadia do grupo era rápida e contida. Todos os caminhos eram muito vigiados, ninguém entrava ou saía sem que Luís Padre e Sinhô Pereira soubessem. Ali, estavam a somente dezoito quilômetros do Ceará e a três da Paraíba, mostrando que daquele ponto as fronteiras poderiam ser facilmente ultrapassadas, dificultando a atuação das forças estatais.

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Religiosidade sertaneja no Sítio Catolé – Foto de Solon R. A. Netto.

Em relação às cavidades, o Senhor Severino comentou sobre a existência de várias na região e que, segundo os mais velhos, os cangaceiros refugiavam-se nestes locais quando havia notícias da proximidade da polícia, ou quando algum dos cangaceiros estava ferido.

Devido ao nosso curto tempo, pedimos para conhecer alguma mais representativa e o Senhor Severino nos guiou, primeiramente, até a Pedra de Dé Araújo.

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Entrada da Gruta de Dé Araújo – Foto de Rostand Medeiros

Ele nos guiou, então, a um local que sua mãe, Agostinha da Silva, contou-lhe ter conhecido ainda criança, quando foi levada pelo pai para ver um dos companheiros de luta, que se recuperava de um balaço recebido.

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Na gruta do cangaceiro baleado – Foto de Solon R. A. Netto.

Nessa época, Dona Agostinha falou ao Senhor Severino que o cangaceiro se chamava “Dé Araújo” e que fora ferido no combate das “Piranhas”, havendo sido trazido pelos companheiros para ali ser tratado. A medicina daqueles guerreiros utilizava-se de uma erva nativa cicatrizante facilmente encontrada na serra, conhecida como “cipó de baleado”, o qual era pilado e posto sobre a ferida.

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Vista a partir da gruta – Foto de Rostand Medeiros.

A cavidade de Pedra de Dé Araújo é formada por um matacão granítico rolado e internamente bem desplacado, que se apoiara formando um vão abrigado, com vistas ao vale. No centro havia uma área arenosa e plana, onde sua mãe lhe apontou como o “leito” do cangaceiro Dé Araújo, que, mais tarde, voltaria plenamente recuperado à luta. Porém, o Senhor Severino não soube informar se o lugar onde o cangaceiro fora atingido era a referida Fazenda Piranhas, atacada pelo bando dos Pereiras em junho de 1917.

Lampião Baleado

Na sequência o Senhor Luís Severino dos Santos nos acompanhou, também, até à famosa Casa de Pedra, a alguns minutos de carro de sua propriedade.

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No ponto mais alto da Serra do Catolé, da esquerda para direita, Rostand Medeiros, Antônio Antas e Luiz Severino dos Santos – Foto de Alex Gomes

Segundo o nosso guia foi um agricultor chamado Chico Barbosa, que possuía uma pequena propriedade na Serra do Catolé e morava próximo ao Senhor Severino que revelou o momento em que chegou à região: foi na passagem do bando de Lampião pelo lugar, quando o chefe foi ferido no pé, uma dos momentos mais terríveis da vida desse líder cangaceiro.

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Salão da Gruta da Casa de Pedra, onde supostamente Lampião esteve durante alguns dias se recuperando de um ferimento – Foto de Rostand Medeiros

Chico Barbosa já faleceu, mas foi um grande amigo do Senhor Severino e lhe narrou ter sido durante algum tempo cangaceiro de Lampião. A razão da entrada no bando, de onde ele veio, ou “nome de guerra” que adotou, ou como saiu do cangaço, ele nunca declinou essas coisas ao amigo Severino e nem este lhe questionou. Ocasionalmente, quando queria, Chico Barbosa comentava ao vizinho suas andanças “nos tempos dos clavinotes”. Em um dos relatos narrou como o “Rei do Cangaço” veio parar naquela cavidade.

Os doutos estudiosos da vida de Virgulino Ferreira da Silva narram que em 23 de março de 1924, por volta das dez horas da manhã, uma volante comandada pelo major da polícia de Pernambuco, Theophanes Ferraz, teve um encontro com Lampião e outros cangaceiros nas proximidades da Lagoa do Vieira, distante cerca de cinco quilômetros da Serra do Catolé. Na luta, o cangaceiro foi seriamente atingido no pé e morta sua montaria, tombando o animal sobre sua perna. Apesar disso, o bandoleiro conseguiu fugir. Seu bando, então, seguiu para o alto de uma serra, onde o chefe iniciou sua recuperação. O boletim oficial feito pelo major Theophanes Ferraz, conta que, alguns dias após, às cinco e meia da tarde do dia 2 de abril, uma tropa do seu setor de ação atacou o acampamento dos cangaceiros e morreram dois perigosos bandidos, Lavadeira e Cícero Costa.

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Foto de Alex Gomes

Já Lampião, ao fugir, abriu o ferimento, iniciando-se uma séria hemorragia. O chefe se escondeu nas moitas, por pouco não sendo descoberto pela polícia. Durante três dias, padeceu ao relento, sem água ou alimentos, com a grave ferida aberta. Por sorte, um garoto o encontrou e chamou o pai, que começou a cuidar do cangaceiro.

Após se recuperar, Lampião mandou comunicar aos seus irmãos, cangaceiros como ele. Eles chegaram ao local com um bando calculado em cinquenta homens, dentre eles, Chico Barbosa. Nesse ínterim, a polícia sabendo do estado de saúde do cangaceiro, intensificou as buscas. Sem condições de seguir para algum local mais seguro, para um tratamento melhor, o grupo rumou em direção a Serra do Catolé. Chico Barbosa comentou que, assim, Lampião refugiou-se na gruta da Casa de Pedra.

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Foto de Alex Gomes

O que vimos a partir do ponto onde se encontra a gruta na Serra do Catolé foi era estonteante, sendo possível visualizar parte do Ceará e da Paraíba. Já a Casa de Pedra tratava-se da entrada da pequena e estreita gruta, um vão alargado no meio de dois blocos de granito, num dos cumes da serra.

Segundo o mesmo Chico Barbosa, Lampião foi transferido para outras cavidades na Serra do Catolé, como a Furna da Onça, localizada na Fazenda Ingá. Porém, foi na Casa de Pedra que ele passou mais tempo se recuperando. A razão era o isolamento do lugar e sua localização privilegiada.

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Da esquerda para direita – Alex Gomes, Solon Netto, Luiz Severino dos Santos, Antônio Antas e Rostand Medeiros.

Um mês após essa peregrinação, o chefe cangaceiro seguiu protegido por muitos homens, para a propriedade “Saco dos Caçulas”, em Princesa, na Paraíba, onde o fazendeiro Marcolino Diniz lhe deu todo o apoio. Lampião se recuperou desse grave ferimento e continuou combatendo por mais quatorze anos, até ser liquidado em julho de 1938, na Grota de Angicos, em Sergipe.

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Pedra do Reino – Foto de Rostand Medeiros.

Interessante apontar que a Casa de Pedra fica perto da famosa área histórica conhecida como Pedra do Reino, retratada no romance de Ariano Suassuna – O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. A Pedra do Reino foi palco, em 1838, de um massacre iniciado por messiânicos que pregavam a volta do rei português Dom Sebastião, desaparecido numa antiga batalha. Para os fanáticos seguidores do sertão pernambucano, era preciso tingir os dois imensos monólitos, que lá estão dispostos, com sangue humano, para que um reino encantado se iniciasse na Terra. O desfecho dessa história foi macabro, quando, após o sacrifício de mais de cinquenta pessoas, boa parte crianças, o grupo foi dizimado pela força policial.

Porém, dali, era imprescindível, ainda, procurar pela Lagoa do Vieira, lugar onde Lampião se ferira ao confrontar a polícia de Pernambuco. Seria muito longe da caverna o local onde se deu o ferimento do cangaceiro?

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Região da Lagoa do Vieira – Foto de Rostand Medeiros.

Continuamos na estrada até que, quase pelo final da tarde, chegamos a uma pequena comunidade rural nas margens de um baixio quase seco. Muito provavelmente, o cenário modificou-se pouco da época dos combates aos dias atuais. Assim, estava lá a lagoa, apenas a alguns quilômetros da Casa de Pedra da Serra do Catolé.

Memórias do Ataque de Sabino a Triunfo

À noite, voltamos por Triunfo, uma cidade serrana construída a quase mil metros de altitude para no dia seguinte, conhecer o Museu do Cangaço. Este estabelecimento funciona em um prédio histórico, bem conservado, abrigando importante acervo sobre o cangaceirismo, além de objetos criados pela cultura regional.

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Punhal de Corisco no Museu do Cangaço de Triunfo – Foto de Rostand Medeiros.

São peças antigas da história do Nordeste, fotografias de um tempo não tão distante, mas pouco abordado pelos livros de história geral. Vale anotar que, também em Triunfo, há pequenas grutas graníticas associadas ao cangaço, mas como o tempo da expedição era muito limitado, não fomos visitá-las.

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Rostand Medeiros e o Senhor Nelson Gonçalves Siqueira Campos, e,m Triunfo – Foto de Solon R. A. Netto.

Entretanto, nas cercanias do museu, pudemos conhecer e entrevistar o Senhor Nelson Gonçalves Siqueira Campos, que, apesar dos seus noventa e oito anos de vida e da fraca audição que ele tinha na época de nossa visita, com lucidez nos contou sua rica história, que foi toda gravada.

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Prédio onde funcionou a loja do pai de Seu Nélson – Foto de Rostand Medeiros.

Em maio de 1926, a loja de seu pai, Antônio Campos, foi atacada por um grupo de cangaceiros do bando de Lampião. A desavença teve origem numa dívida com Marcolino Diniz, fazendeiro e famoso coiteiro de cangaceiros. Diniz, então, acertou o crime com Sabino, bandido de maior confiança de Lampião, para que a loja fosse saqueada e o proprietário morto.

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Notícia do ataque do cangaceiro Sabino a Triunfo, fato presenciado pelo Senhor Nélson.

A guarnição policial de Triunfo era pequena e os cangaceiros adentraram destruindo tudo no estabelecimento. O Senhor Nelson, na época um adolescente, teve a ideia de atirar ao fogo uma caixa de fogos de artifício. Os cangaceiros, ao escutarem uma sequência de tiros e estampidos, acreditando tratar-se do reforço policial, bateram em retirada. Na verdade, o que se passou foi um grande engodo e o jovem foi aclamado como o herói que livrou a cidade dos bandidos.

O Vale do Cafundó de Flores 

No regresso para o Rio Grande do Norte paramos em Flores, a quarta cidade mais antiga de Pernambuco, onde buscávamos conhecer a Casa de Pedra de Cafundó, no Sítio Covoado, onde foi construído um casebre aproveitando-se de uma reentrância escarpada em um abrigo rochoso. Esse local nada tinha haver com histórias de cangaceiros, mas valeu a visita pelo interessante cenário.

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Casa de Pedra de Cafundó, no Sítio Covoado, Vale do Cafundó, Flores, Pernambuco.

Nosso guia, Luiz Gonzaga, conduziu o grupo ao Vale do Cafundó, onde a beleza natural da região nos encheu os olhos. Ficamos acima de um vale com dezenas de metros de profundidade, que se estendiam por uma vasta área, feições que lembraram Sete Cidades, no Piauí.

Certamente, no período das chuvas, muita água passaria pela bacia e, ante os enormes paredões de arenito capazes de fazer a vista perder-se, foi impossível deixar de pensar que deveriam existir inúmeras cavernas naquela região.

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Junto a Seu Zequinha Marinheiro – Foto de Solon R. A. Netto.

Fomos então apresentados a Zequinha Marinheiro, filho do homem que construiu a morada no abrigo do Cafundó. Ele contou que, apesar de não morar mais naquela casa, ainda a utiliza para estocar alimentos e, ocasionalmente, passar a noite. Relatou que a casa foi construída por volta de 1940, havendo morado lá por toda infância.

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Vale do Cafundó, Flores, sertão pernambucano – Foto de Solon R. A. Netto

O abrigo rochoso tornou a casa mais protegida dos elementos naturais. Mesmo após edificar uma forte residência mais próxima da estrada, até hoje o Senhor Marinheiro se vale da Casa do Cafundó, vez que a utiliza como depósito para colheitas ou mesmo refugiar-se nas horas mais quentes do dia.

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Vale do Cafundó – Foto de Alex Gomes.

E na trilha para o Cafundó, confirmando nossas expectativas, encontramos nossa primeira caverninha exatamente no vale! Ensaiamos uma incursão sem equipamentos, mas havia muitas vespas, que nos impeliram a sair apressadamente.

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Caverna do Cafundó – Foto de Solon R. A. Netto

A Caverna do Cafundó – como é conhecida – aparenta somente possuir duas entradas e (provável) curto desenvolvimento. Na rápida observação, percebemos um forte desnível positivo a partir da entrada principal.

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Foto de Solon R. A. Netto.

Mais alguns passos, ali perto, descortinou-se uma situação ímpar: construída na encosta de uma formação arenítica, vimos a fachada de uma casa perdida em meio a uma imensa parede de vale, dentro de um abrigo natural. Adentramos e, apesar do intenso calor nordestino, os cômodos apresentavam temperatura amena. Dentro, alguns utensílios da rude vida sertaneja e muitos grãos.

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Foto de Solon R. A. Netto.

Do lado de fora, cercados por cajueiros, ficamos sentados admirando a paisagem do rio que dividia o vale: um vasto serpenteio de areia muito fina e branca rasgando a caatinga. Diferentemente dos outros locais vistos, a Casa de Pedra do Cafundó não estava ligada ao cangaço. Era apenas um capricho da natureza, que escavou a rocha, do qual o homem se valeu para construir, dentro, um lar, perdido num rincão isolado. Ali, após décadas de edificada, servia ao mesmo propósito: nos proteger do calor.

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Foto de Solon R. A. Netto.

Eis que o sentimento, comum a todos os que entram em cavernas, foi nos invadindo: a sensação de que estávamos protegidos, de que aquela cavidade natural denotaria sempre uma ideia de casa ao ser humano. Justamente isso a ligava às cavidades que havíamos visitado nos dias anteriores, àquelas utilizadas pelos cangaceiros.

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Foto de Alex Gomes.

O Cafundó abre-se com grande potencial espeleológico e turístico a todos os amantes da beleza natural e resume o que as cavernas pernambucanas têm de mais precioso: a singularidade.

Após noites mal dormidas e dias tão intensos, encerrava-se uma viagem com grande bagagem histórica, espeleológica, fotográfica e um serviço à nossa cultura nordestina e brasileira.

O ATAQUE DOS CANGACEIROS DE LAMPIÃO A ANTÔNIO MARTINS – RN

4-Lampião gostava de mostrar-se um homeme inteligente perante as câmeras
Lampião

E o Exemplo De Uma Cidade Potiguar na Preservação de Um Dia Intenso

Autor – Rostand Medeiros

1927 foi um ano bem intenso na história do Rio Grande do Norte. Enquanto os sobrevoos de aeronaves vindas da Itália, Portugal, Estados Unidos e França faziam com que a capital potiguar marcasse presença em jornais de circulação mundial com, o nosso sertão era “visitado” pelo maior bandoleiro da história do Brasil, o cangaceiro pernambucano Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião.

Seu ataque às terras potiguares, junto com um numeroso e feroz bando de cangaceiros, aconteceu em junho daquele ano e tinha como principal objetivo a progressista cidade de Mossoró. Mas ao longo do trajeto algumas comunidades e muitas propriedades foram invadidas, ultrajadas, roubadas e saqueadas. Em um imemoriável frenesi de medo, terror, gritos, sangue e mortes.

O ataque de Lampião ao Rio Grande do Norte jamais foi esquecido nestas comunidades e em alguns destes locais existe uma luta muito interessante e louvável para preservar a memória daqueles dias estranhos e intensos.

Um destes locais é a cidade de Antônio Martins.

A Chegada dos Celerados

Em 2010 eu percorri pela primeira vez o caminho de Lampião no Rio Grande do Norte, passando pelos territórios de dezenove municípios potiguares, como parte de uma pesquisa para o SEBRAE-RN[1].

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Cidade de Antônio Martins

Quando estive em Antônio Martins eu conheci e recebi o apoio do escritor Chagas Cristóvão, que na época exercia o cargo de Secretário Municipal de Turismo e Cultura daquela cidade.

Competente pesquisador da história da sua comunidade, Cristóvão comentou que na época da invasão dos cangaceiros a atual cidade de Antônio Martins tinha a denominação de Boa Esperança. Era então uma pequena concentração de casas, onde viviam cerca de 350 a 400 habitantes, sendo parte do território da cidade serrana de Martins[2].

Em 11 de junho de 1927, dia da chegada do bando de cangaceiros a localidade, coincidiu com as celebrações da festa do padroeiro local, Santo Antônio.

De certa maneira esta situação de comemoração, novenas e alegria do povo do lugarejo foi muito útil para o grupo de celerados, pois pegou a todos na comunidade bastante desprevenidos, sendo a pequena urbe rapidamente ocupada. Aquela localidade era o primeiro núcleo urbano invadido pelo bando de cangaceiros de Lampião no Rio Grande do Norte.

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Justino Ferreira de Souza, fundador do povoado de Boa Esperança.

Naquele mesmo 11 de junho, o povo de Boa Esperança aguardava a chegada de uma banda de música da cidade paraibana de Catolé do Rocha. Mas por atraso da saída destes músicos da cidade fronteiriça, não ouve o encontro da banda musical com os cangaceiros. Para Cristóvão esta também é outra das razões para a população da cidade ter sido pega totalmente de surpresa quando da entrada do bando. Vale ressaltar que durante a entrada dos bandidos na vila, um deles fazia a função de corneteiro, tocando um destes instrumentos que havia sido capturado dos policiais batidos no combate da Caiçara[3].

Neste período o fundador do lugar e líder político era Justino Ferreira de Souza. Ele foi avisado da chegada do grupo, mas diante do fato consumado decidiu esperar e ver o que acontecia.

Logo o bando adentra a rua principal. Ao perceberem quem eram os cavaleiros o pânico se instalou. Pessoas correram para todo lado. Os cangaceiros atiravam para o alto, gritavam, urravam, batiam e galopavam invadindo e saqueando as casas do lugarejo.

Lampião estava particularmente raivoso. Entre as sandices cometidas em Boa Esperança temos o suplício de Vicente Teixeira de Lira.

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Aqui vemos Vicente Teixeira de Lira, que escapou por milagre de morrer nas garras de Lampião e dos seus homens.

O caso começou quando Lira deu uma resposta que o chefe cangaceiro pernambucano considerou insolente e foi “convocado” por Lampião. O humilde potiguar foi então obrigado a seguir à frente do bando, segurando na correia da alimária de Lampião. Em dado momento Lira escorregou no chão de terra e o cavalo do chefe dos bandidos quase lhe colocou no chão. Foi o que bastou para o pobre aldeão levar uma extensa cutilada de punhal. Para piorar sua situação, em frente à igreja de Santo Antônio, outros bandoleiros fizeram pouco caso de sua má sorte e o obrigaram a beber cachaça. Ele quase morreu.

Entre os locais de comércio que foram atacados estava a mercearia e a casa de Francisco Justino, onde os homens armados se abasteceram de vários gêneros e beberam muita cachaça. Com muita conversa, jeito, extremo tato, este pequeno negociante conseguiu que Lampião demovesse os seus seguidores de continuarem na sinistra depredação.

Alguns reféns anteriormente capturados pelos cangaceiros na passagem por propriedades que ficavam localizadas antes desta comunidade conseguiram fugir em meio a toda confusão reinante.

Na vila não faltaram ameaças, espancamentos e roubos de produtos em casas comerciais.

Uma Novaes no Rio Grande

Outro caso que ficou famoso foi no momento em que Sabino, o braço direito de Lampião na empreitada por terras potiguares, saqueava a loja e a residência de Augusto Nunes de Aquino. Sabino se preparava para levar a mulher do comerciante, Dona Rosina Novaes, como refém.

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Dona Rosina Novaes, mulher do comerciante Augusto Nunes de Aquino. O sobrenome desta pernambucana do Pajeú fez Lampião diminuir o ímpeto do ataque de seu bando a pequena vila.

No momento de ser colocada em um cavalo e seguir com a turba encourada, Dona Rosina desabafou com o perigoso Sabino, comentando detalhes de sua procedência e a origem do seu nome de família.  Sabino, ao escutar o relato da mulher, chamou o chefe na mesma hora.

Lampião descobriu, naquele longínquo lugarejo potiguar, estar diante de uma parenta de Elias e Emiliano Novaes, da cidade de Floresta, na época conhecida como Floresta do Navio, na mesma região do Pajeú. Emiliano Novaes era comerciante, membro de uma proeminente família, tido como amigo e coiteiro de Lampião. Consta que chegou a cavalgar de arma na mão ao lado de cangaceiros[4].

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Para muitos habitantes da região, a situação na vila de Boa Esperança durante a invasão do bando só não foi mais grave devido a Dona Rosina Novaes. Pelo fato dela possuir laços familiares com pessoas que Lampião respeitava e temia em Pernambuco, fez com que o ímpeto destrutivo do chefe em relação ao lugar fosse claramente abrandado. 

Lampião era muito valente, mas era antes de tudo inteligente. Evidentemente ele percebeu que quando retornasse para Pernambuco trazendo consigo a responsabilidade por algo negativo ocorrido a Dona Rosina Novaes, a temida e glorificada capacidade vingativa da família Novaes se faria sentir contra ele e seu bando. O melhor era deixar aquela mulher em paz.

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O comerciante Augusto Nunes de Aquino.

Diante da nova situação o chefe refreou os ímpetos violentos tanto dele, quanto do seu bando. Lampião chega ao ponto de se desculpar com Dona Rosina pelo ocorrido. Alegava desconhecer ser o lugar habitado por uma legítima representante do temido clã dos Novaes[5].

Desfeito o “mal entendido”, para Lampião o clima ficou mais tranquilo e ele chega a solicitar que Dona Rosina prepare algo para eles jantarem. Mais adiante, tranquilamente sentado na mesa, mais para se justificar diante dos seus atos e do seu bando, o cangaceiro comenta “o porquê de estar nesta vida” – Comenta aos presentes estar naquela vida bandida como fruto das perseguições que sofria, destilou seu ódio contra a polícia e outras razões.

Diante da esperada respeitabilidade que Lampião passou a demonstrar por Dona Rosina e seu marido Augusto Nunes de Aquino, este último assume o papel de protetor dos habitantes de Boa Esperança.

Por volta das sete e meia da noite, o chefe prepara seu bando e seguem viagem.

Cangaceiros Rezando na Igreja de Santo Antônio

Da época do ataque de Lampião a Boa Esperança, poucos são os locais que se encontram preservados atualmente.

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A primeira residência do atual município de Antônio Martins.

Um destes pontos invadidos pelos membros do bando de Lampião é uma interessante residência localizada na Rua Aureliano Saraiva, número 109. Construída em 1898, esta casa pertenceu a Justino Ferreira de Souza e na época servia como uma pousada para os viajantes que trafegavam na região. A casa se mantém original, sendo continuamente habitada e considerada a residência mais antiga e precursora da povoação de Boa Esperança.

Mário de Andrade e Luís da Câmara Cascudo no sertão, 1929
O potiguar Luís da Câmara Cascudo e o paulista Mário de Andrade em foto no sertão nordestino.

Ainda sobre este local, segundo Chagas Cristóvão, um ano e sete meses depois da passagem do bando pelo lugar, no dia 19 de fevereiro de 1929, ali chegava um carro transportando quatro homens que visitavam a região sertaneja. Entre estes estavam o folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo e o poeta e escritor paulista Mário de Andrade.

A passagem de um dos criadores do movimento modernista no Brasil pela Região Oeste Potiguar tinha como objetivo a observação dos costumes, das manifestações culturais e as características do povo do sertão nordestino. Mesmo passado quase dois anos do ataque de Lampião, chamou atenção do escritor paulista as marcas do medo da população de Boa Esperança diante da terrível “visita” de Lampião[6].

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Igreja de Santo Antônio.

Vizinho a esta antiga habitação se encontrava a igreja de Santo Antônio. Construída 1901, este pequeno templo religioso era no dia 11 de junho de 1927 o principal local de realização dos festejos relativo ao padroeiro local.

Até hoje nesta festa religiosa é tradicional a realização das chamadas “trezenas”, onde durante treze dias anteriores ao dia 13 de junho, a data consagrada a Santo Antônio, são realizadas missas, cantos de benditos, encontros e outras participações da comunidade neste templo católico.

Segundo Chagas Cristóvão havia algumas pessoas da comunidade reunidas no local quando os cangaceiros chegaram a Boa Esperança. Logo alguns cangaceiros ficaram diante do templo e, visivelmente embriagados, proibiram a saída dos fiéis do local. De dentro da igrejinha essas pessoas assistiram horrorizados os suplícios do jovem Vicente Lira, que apunhalado e sangrando abundantemente, era obrigado a engolir talagadas de cachaça.

Cristóvão comentou ainda que existe uma versão onde diante da igreja aberta, outros cangaceiros adentraram respeitosamente o local, se ajoelharam, rezaram, se benzeram e depois saíram sem perturbar os atônitos presentes[7]. 

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Velha casa do extinto sítio Alto da Ema, atualmente um bairro da cidade de Antônio Martins.

Na saída da zona urbana do atual município de Antônio Martins, temos a velha casa do sítio Alto da Ema, que então pertencia a um senhor conhecido como “Coqueiro” e hoje dá nome a um dos bairros da cidade. Neste ponto os comandados de Lampião procuraram adentrar residência assobradada, que se encontrava desocupado devido à fuga dos seus moradores. Eles utilizaram as coronhas dos seus fuzis na tentativa de derrubar a porta. Entretanto, fosse pela pressa em seguir adiante, ou pelo excesso de álcool, ou outra razão desconhecida, os cangaceiros não alcançaram seu intento e seguiram adiante no seu caminho de saque e terror. 

A Memória da Passagem de Lampião

Em 2007, durante a passagem dos oitenta anos do ataque de Lampião ao Rio Grande do Norte, a prefeitura local decidiu promover toda uma programação destinada a marcar este momento dentro da comunidade. Em uma bela praça de eventos localizada no centro da cidade foi fixada uma placa de bronze com a relação dos trinta e um habitantes da antiga vila de Boa Esperança que sofreram violências ao longo da passagem do bando.

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Placa comemorativa ao 80º aniversário da passagem de Lampião por Antônio Martins. Na placa de bronze estão inscritos os nomes de 31 pessoas que foram atacadas em 11 de junho de 1927.

Aos descendentes dos que foram atacados pelos cangaceiros, a Prefeitura Municipal de Antônio Martins outorgou uma insígnia honorífica, personalizada, no formato de uma pequena placa de acrílico, , alusiva aos fatos ocorridos. Esta condecoração foi entregue a alguns dos descendentes em praça pública, no dia 11 de junho de 2007.

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Insígnia entregue em 11 de junho de 2007, aos descendentes dos que estavam na povoação de Boa Esperança e sofreram com o ataque do bando de Lampião.

Igualmente nesta mesma data, passava pela cidade de Antônio Martins a cavalgada comemorativa aos 80 anos do ataque a Mossoró, onde foi repetido o mesmo ato simbólico ocorrido na zona rural de Marcelino Vieira, com o descerramento de outra placa comemorativa em relação à resistência ocorrida em Mossoró, quando da passagem do bando pelo Rio Grande do Norte.

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Placa da cavalgada dos 80 anos da resistência ao bando de Lampião em Mossoró, fixada em Antônio Martins.

Segundo Chagas Cristóvão a prefeitura de Antônio Martins desenvolveu um projeto visando a criação de um museu destinado a apresentar os principais aspectos da história municipal, onde seria inserido a história do ataque do bando de lampião aquela comunidade.

O museu estaria direcionado para um público local e regional, tendo como outros pontos focais a valorização das raízes locais e o desenvolvimento do turismo regional. Pessoalmente não tive mais informações se este museu foi inaugurado.

Mas louvo todas as iniciativas ali realizadas em relação a memória destes acontecimentos.

NOTAS


[1] Sobre este trabalho e o caminho de Lampião no Rio Grande do Norte veja – https://tokdehistoria.com.br/2015/04/11/pelos-caminhos-de-lampiao/

[2] O número da população de Boa Esperança na década de 1920 aqui apresentado é uma dedução feita a partir do texto existente sobre a história desta cidade existente no site http://www.wikipédia.org (https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B4nio_Martins), onde lemos que em 1920 havia “81 casas, com 327 moradores já estavam permanentes em Antônio Martins”. Esse número mostra que houve um aumento exponencial na população local, pois vinte e dois anos antes do ataque de Lampião a Boa Esperança, temos a informação que moravam neste lugar cerca de sessenta “fogos”, ou pessoas. Informação contida na mensagem do governador potiguar Augusto Tavares de Lyra, lida na Assembleia Legislativa em 1905 e publicada no ano seguinte, em um interessante detalhamento sobre o município de Martins, Ver “Mensagens lidas perante o Congresso Legislativo do Estado do Rio Grande do Norte”. Tipografia A República. Pág. 116, Natal-RN, 1906. Atualmente, utilizando as modernas rodovias BR-226 e RN-117, a distância entre Antônio Martins e Martins é de uns 35 quilômetros.

[3] Sobre este combate ver – https://tokdehistoria.com.br/2011/10/25/o-grande-fogo-da-caicara-inicio-da-resistencia-ao-bando-de-lampiao-no-rn/

[4] Um pouco sobre Emiliano Novaes, veja em https://tokdehistoria.com.br/2014/09/12/cangaceiros-atras-das-grades-fim-da-ilusao/

[5] Não é muito difícil na região do Oeste Potiguar encontrar inúmeras referências de famílias cujos antepassados eram provenientes do sertão do Pajeú, ou de outras áreas do sertão Pernambuco. Acreditamos que esse processo tem haver com o trânsito de pessoas e mercadorias, que seguiam principalmente em direção a Mossoró, em comboios de cargas transportados por mulas e jegues.

[6] O resultado desta empreitada sertaneja subsidiaria Mário de Andrade a escrever a obra “O turista aprendiz”.

[7] Durante todo nosso percurso pesquisando a passagem do bando de Lampião no Rio Grande do Norte em 2010 e em três outras viagens por este caminho em 2012, 2014 e 2015, esta foi a única informação que consegui sobre a presença de que alguns cangaceiros do bando teriam adentrado um templo católico com o intuito de rezar.

PELOS CAMINHOS DE LAMPIÃO

11- Após a derrota em Mossoró, o bando em Limoeiro do Norte-CE

DOCUMENTÁRIO “CHAPÉU ESTRELADO – OS CAMINHOS DE LAMPIÃO NO OESTE POTIGUAR” COMEÇARÁ SUAS FILMAGENS EM BREVE

Yuno Silva – Repórter, jornal Tribuna do Norte, edição de 10 de abril de 2015

A passagem meteórica de Virgulino Ferreira da Silva pelo Rio Grande do Norte, em junho de 1927, vai muito além da histórica derrota sofrida em Mossoró. Eterno rei do cangaço, temido e amado por muitos, Lampião circulou 96 horas por terras potiguares deixando um rastro de violência que o tempo não foi – e muito provavelmente não será – capaz de apagar. É no encalço dessa rota, que durou apenas quatro dias, que o documentário em longa-metragem “Chapéu Estrelado – Os caminhos de Lampião no Oeste Potiguar” cai na estrada a partir do dia 22 de abril. A data de lançamento ainda não está definida, mas a intenção da equipe é lançar ainda este ano.

Com direção do cineasta carioca Silvio Coutinho, roteiro do escritor e artista plástico Iaperi Araújo, produção executiva do crítico de cinema Valério Andrade (FestNatal) e pesquisa de Rostand Medeiros, o filme refaz o caminho que o bando de Lampião (1898-1938) trilhou entre 10 e 14 de junho de 1927 pelo interior do Ceará, Paraíba e RN. Período que marcou o início do fim do reinado do Capitão Virgulino pelo Sertão nordestino. 

Tribuna do Norte, edição de 10 de abril de 2015
Tribuna do Norte, edição de 10 de abril de 2015

A proposta do ‘road movie’, cujas imagens serão capturadas com equipamento de tecnologia 4k (resolução quatro vezes superior ao padrão ‘Full HD’), é registrar a memória de herdeiros diretos, gente que está na faixa dos 80 anos, daqueles que testemunharam episódios envolvendo o famoso cangaceiro. Entre os depoimentos, imagens antigas e comentários de historiadores e estudiosos do tema.

scan7Sem amparo de leis de incentivo ou editais, com alguns apoios locais, o documentário será rodado de 22 de abril a 6 de maio na zona rural de cidades como Luis Gomes, Major Sales, Marcelino Vieira, Antônio Martins, Caraúbas, Apodi, Felipe Guerra, Governador Dix-Sept Rosado, Mossoró e Baraúnas – em 1920 o caminho dos cangaceiros atravessava seis municípios, hoje são 19.

“Nosso ponto de partida será a fazenda de Ipueira, em Aurora no Ceará, onde Lampião foi acolhido pelo Coronel Isaías Arruda. Foi lá que ele conheceu o pistoleiro (e dublê de cangaceiro) Massilon, que seria seu guia pelo RN. O alvo do bando era Mossoró”, disse Rostand Medeiros, escritor e autor da pesquisa que embasou o projeto “Nas Pegadas de Lampião” encomendada pelo Sebrae-RN em 2010. Saindo de Aurora, o filme segue Lampião pela Paraíba, sobe a ‘tromba do elefante’ e termina na cidade de Limoeiro do Norte também no CE.

Dinheiro e vingança

“A resistência em Mossoró é um fato histórico muito importante, mas a curta passagem de Lampião pelo RN vai além”, garante Rostand, que já percorreu todo o percurso de moto para se aproximar da trilha original feita à cavalo. O pesquisador ressalta que Lampião tinha pretensões puramente financeiras na empreitada, enquanto Massilon e o Cel Isaías Arruda também tinham motivação pessoal, política e de vingança. “Quando Virgulino percebeu que estava sendo usado era tarde, o estrago estava feito. O plano dos cangaceiros era subir sem alarde até Mossoró, queriam manter o elemento surpresa, mas Massilon tocou o terror logo no primeiro povoado (Canto do Feijão, atual Santa Helena na PB) matando o delegado do lugar”.

Jornal de Caicó repercutindo o ataque de Lampião e seu bando a Mossoró
Jornal de Caicó repercutindo o ataque de Lampião e seu bando a Mossoró

Sobre o combate em Mossoró, Rostand informa que há um entendimento de que Lampião não foi para a linha de frente propriamente dita, e sim enviou subgrupos comandados por Massilon (que conseguiu fugir do massacre), e os cangaceiros Sabino, Colchete e Jararaca – este último capturado, executado e que hoje é tido como santo para devotos que visitam seu túmulo todo Dia de Finados na capital do Oeste.

Em 2010, realizando uma consultoria para o SEBRAE-RN, percorri junto com o amigo Solón Rodrigues Netto o caminho de Lampião no Rio Grande do Norte, baseando a rota no trabalho de Sergio Dantas,  Já naquele período este trabalho havia sido notícia no jornal natalense Tribuna do Norte
Em 2010, realizando uma consultoria para o SEBRAE-RN, percorri junto com o amigo Solón Rodrigues Netto o caminho de Lampião no Rio Grande do Norte, Já naquele período este trabalho havia sido notícia no jornal natalense Tribuna do Norte.

“Mossoró utiliza, com razão, muito a memória desse ataque, mas tem muita coisa no caminho”, avisa Rostand, citando o exemplo da igreja de São Sebastião construída no alto da Serra de Veneza, em Antônio Martins, por pessoas que conseguiram escapar do bando e que prometeram rezar uma missa anualmente se sobrevivessem.

Diretor Silvio Coutinho - Fonte festnatal2013.blogspot.com
Diretor Silvio Coutinho – Fonte festnatal2013.blogspot.com

“Até hoje essa missa é rezada”, acrescenta o pesquisador, que ainda não conhece Silvio Coutinho pessoalmente, mas tem trocado ligações telefônicas frequentes com o diretor que chegam a durar horas.

Iaperi Araújo 

O roteiro de Iaperi Araújo, que também assina parte da trilha sonora original, teve como base, além das pesquisas, os três livros publicados por ele sobre o assunto: “A Cabeça do Rei – A morte e a morte de Virgulino Ferreira da Silva Lampião” (2007), “No Rastro dos Cangaceiros” (2009) e “Angico 1938” (2013).

O escritor e artista plástico Iaperi Araújo é o roteirista de “Chapéu Estrelado – Os caminhos de Lampião no Oeste Potiguar”
O escritor e artista plástico Iaperi Araújo é o roteirista de “Chapéu Estrelado – Os caminhos de Lampião no Oeste Potiguar”

“Há um tempo escrevi um roteiro de ficção sobre Lampião no RN. Acabou não vingando, aí surgiu essa oportunidade do documentário. Quando Silvio Coutinho esteve em Natal, em 2013, para o FestNatal, conversamos e ele ficou muito animado com a ideia”, lembrou Iaperi. “Pediu o básico do básico (passagem aérea, hospedagem e alimentação) pois acredita no potencial do projeto”.

Visão do Diretor

“Não conhecia a dimensão dessa passagem de Lampião aí pelo RN, fiquei fascinado com o que ouvi e me ofereci para ajudar a levar essa história para o cinema”, contou o diretor Silvio Coutinho por telefone ao VIVER. “Estamos fazendo tudo com muito cuidado, muito carinho. O projeto está sendo conduzido com seriedade e acredito muito nesse filme”.

Coutinho adiantou que o formato do documentário, que conta com parceria da produtora Locomotiva Cinema de Arte (RJ), será moderno, dinâmico. “Vamos explorar bastante a paisagem dos três estados onde vamos filmar (CE, PB e RN) e ouvir herdeiros dessa memória pelo caminho”.

A produção executiva deste documentário esta a cargo de Valério Andrade, crítico jornalista e diretor do Festnatal.
A produção executiva deste documentário esta a cargo de Valério Andrade, crítico jornalista e diretor do Festnatal.

O cineasta carioca ressalta que o prioridade “máxima” é que a primeira exibição pública seja no RN, “pelo menos” em Natal e Mossoró.  “pelo menos”. O plano é lançar ainda em 2015, mas a data não foi definida. “Depois do lançamento, e antes de chegar ao circuito comercial, pretendemos fazer o circuito de festivais nacionais e internacionais. O cangaço é um tema internacional e continua atual, vide o filme ‘A Luneta do Tempo’, de Alceu Valença, que aborda o cangaço de forma lúdica e poética”

Em 2010, percorrendo o caminho de Lampião no RN e entrevistando aqueles que tinham historias inesquecíveis daquele junho de 1927, que o Rio Grande do Norte jamais esquecerá.
Em 2010, percorrendo o caminho de Lampião no RN e entrevistando aqueles que tinham historias inesquecíveis daquele junho de 1927, que o Rio Grande do Norte jamais esquecerá.

Ele destaca que, apesar de contar com apoio de instituições potiguares, grande parte do investimento é próprio. “Apostamos na repercussão do filme, por isso resolvemos rodar sem esperar por editais e captação via lei de incentivo. Tudo para não perder, como diz Iaperi, ‘o trem da história’. Essa memória da passagem de Lampião pelo RN ainda está muito impregnada nas pessoas, na paisagem, e através do cinema podemos compartilhar com um público maior”.

Colaborou: Cinthia Lopes – editora 


AOS LEITORES E VISITANTES DO BLOG TOK DE HISTÓRIA – DEVIDO A MINHA PARTICIPAÇÃO NESTE DOCUMENTÁRIO, FAREMOS UMA PAUSA NAS PUBLICAÇÕES DO NOSSO BLOG. CONTAMOS COM A COMPREENSÃO DE TODOS E EM BREVE VOLTAREMOS.

UM GRANDE ABRAÇO!

ROSTAND MEDEIROS

AS BATALHAS ENTRE CLEMENTINO QUELÉ E LAMPIÃO EM SANTA CRUZ DA BAIXA VERDE – PE

Lampião, o Rei do Cangaço
Lampião, o Rei do Cangaço

“HOJE SÓ SE SALVA QUEM AVÔA”

Autor – Rostand Medeiros

Em um dia de agosto de 2006, uma sexta feira, na cidade pernambucana de Santa Cruz da Baixa Verde, em Pernambuco, tivemos a oportunidade de conhecer um homem, nascido em 1912, que pela sua lucidez e saúde, foi como encontrar um verdadeiro tesouro da história oral do cangaço.

Clementino José Furtado, o Clementino Quelé.
Clementino José Furtado, o Clementino Quelé.

Seu nome era Antônio Ramos Moura, sua residência uma casa ampla no sitio Conceição e o assunto foi os dois ataques perpetrados por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e seus cangaceiros, contra a casa do seu antigo parceiro, Clementino José Furtado, o Clementino Quelé, que após estes embates se tornou um dos mais esforçados perseguidores do “Rei do Cangaço”.

Antônio Ramos Moura, então com doze anos, foi testemunha destes episódios e detalhou vários aspectos de sua vida na época e rememorou inúmeros fatos. 

A Santa Cruz 

O atual município de Santa Cruz da Baixa Verde está localizado na região do Sertão do Alto Pajeú, na fronteira com a Paraíba. Fica distante 455 quilômetros de Recife, possui um agradável clima serrano e a cidade se caracteriza por concentrar na atualidade a maior quantidade de engenhos de rapadura de Pernambuco. Já as origens do local são oriundas do antigo “sítio Brocotó” e a atual denominação tem origem na ação de um missionário nordestino que possui uma história extraordinária.

Nascido em 5 de agosto de 1806, na Vila de Sobral, Ceará, José Antônio Pereira Ibiapina teve uma origem confortável. Mas devido a participação do seu pai Francisco Miguel Pereira na insurgência conhecida como Confederação do Equador, este foi fuzilado em 1825, e o irmão Alexandre seguiu preso para a ilha de Fernando de Noronha, onde morreu pouco tempo depois. Ibiapina teve que assumir e manter financeiramente a família.

Imagem mais conhecida do Padre Ibiapina - Fonte - http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=852&Itemid=1
Imagem mais conhecida do Padre Ibiapina – Fonte – http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=852&Itemid=1

Algum tempo depois ingressou no Curso de Direito do Recife, concluindo em 1832. No ano seguinte exerce o cargo de professor substituto de Direito Natural na Faculdade de Olinda. Depois foi eleito Deputado Geral e nomeado, em dezembro, Juiz de Direito da Comarca de Campo Maior, no Ceará. Concluídos os trabalhos legislativos, em 1837, Ibiapina voltou para o Recife e resolve exercer a advocacia. No entanto, ele passa a trabalhar efetivamente na profissão no estado da Paraíba. Em 1840 volta ao Recife e continua sua luta junto aos tribunais.

A partir de 1850 Ibiapina resolve abandonar seus trabalhos forenses e inicia um período dedicado à meditação e exercícios de piedade. Após três anos de meditação e reflexão, Ibiapina decide-se pelo sacerdócio. Nesse sentido, em 12 de julho de 1853, aos 47 anos de idade, ele se torna o Padre Ibiapina. Logo após sua ordenação, o Bispo Dom João da Purificação o nomeia Vigário Geral e Provedor do Bispado, além de professor de Eloquência do Seminário de Olinda.

Mas contrariando seus superiores, opta pela vida missionária. Padre Ibiapina começou então seu trabalho missionário pelo interior do Nordeste. Em diversas vilas construiu casas de caridade, destinadas a moças pobres. Em cada lugar ele pregava, orientava, promovia reconciliações, construía açudes, igrejas, cemitérios, cacimbas e cruzeiros. Um destes cruzeiros foi erguido no sítio Brocotó e ficou conhecido como Santa Cruz, sendo esta a denominação na época do cangaço.

Região serrana de Santa Cruz da Baixa Verde, Pernambuco.
Região serrana de Santa Cruz da Baixa Verde, Pernambuco.

Com o passar do tempo, pelo fato da pequena urbe está no alto da Serra da Baixa Verde, o lugar passou a denominar-se Santa Cruz da Baixa Verde e pertencia administrativamente à bela cidade serrana de Triunfo.

Careta 

O pai do nosso entrevistado chamava-se Miguel Moura, tinha uma pequena bodega, além de trabalhar como tropeiro, ou almocreve. Tinha uma tropa de animais e fazia a linha entre as cidades de Triunfo, Serra Talhada e Arcoverde, na época denominada Rio Branco, trazendo e levando cereais. Antônio Ramos comentou que seu pai viajava para vários locais, transportando rapaduras. Inclusive o Rio Grande do Norte foi um dos seus destinos, onde esteve em Mossoró para comprar sal e também em Caicó.

O autor e o memorioso Antônio Ramos Moura.
O autor e o memorioso Antônio Ramos Moura.

Para nosso entrevistado Clementino Quelé, era chefe de sua família, tinha como irmãos Pedro, Quintino, Antônio, José e Manuel (nezinho), todos considerados homens dispostos, valentes e que “gostavam da espingarda”. Antônio Ramos comenta que na sua infância tinha um enorme respeito por aquele homem. Pouco falou com ele, mas obteve muitas informações sobre Quelé através de seu sogro Joaquim de Fonte, sobrinho do chefe da família Furtado.

Clementino é descrito como um homem forte, de tez acentuadamente branca, que realmente ficava com a pele vermelha quando tinha raiva e esta teria sido a razão de Lampião apelidá-lo pejorativamente como “Tamanduá Vermelho”.

praça principal da atual Santa Cruz da Baixa Verde, com a estátua do Padre Ibiapina em destaque.
praça principal da atual Santa Cruz da Baixa Verde, com a estátua do Padre Ibiapina em destaque.

Já para o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do Sol”, 2004, págs. 220 a 225), Quelé era natural da ribeira do Navio, onde seguiu jovem para Alagoas, afastando-se de Pernambuco por questões de disputa familiar. No retorno a sua família vem para Triunfo, no sítio Santa Luzia. O antigo membro de volante João Gomes de Lira (in “Lampião-Memórias de um soldado de volante”, 1990, págs. 123 e 124) comenta ser a Santa Luzia a morada do bravo pernambucano.

Fachada da igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em santa Cruz da Baixa Verde.
Fachada da igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em santa Cruz da Baixa Verde.

Para Antônio Ramos, na época das grandes “brigadas” de Quelé contra Lampião, ele morava no sítio Conceição.

Independente desta questão consta para nosso entrevistado que Quelé e seus irmãos eram analfabetos “-De tudo”. Do tipo que “-Não assinavam nem o A” e nem faziam “-Garrancho” do nome. Dizia Quelé ao tio de Antônio Ramos que ele era “careta”, outra denominação para seu analfabetismo. Pois quando olhava para qualquer texto escrito, franzia a testa, mostrava o rosto carregado, com uma careta, por não saber ler.

Mas se Quelé e seus irmãos não sabiam ler, sabiam atirar e muito bem. 

De Homem da Lei a Cangaceiro 

Para Mello (op. cit.), o bravo Quelé alcançou o posto de subdelegado do seu lugar e impunha a ordem, mas igualmente angariava inimigos. O autor informa que em uma diligência Quelé matou dois ladrões de cavalo, respondeu processo e foi destituído do cargo. Em seu lugar assumiu seu irmão Pedro José Furtado, ou Pedro Quelé.

Em 1922, para livrar o valente chefe da família Furtado do processo, o líder político Aprígio Higino D’Assunção solicita deste e de seus irmãos votos na próxima campanha eleitoral em Triunfo. Diante da recusa de Quelé em apoiá-lo, Aprígio ordena que uma força policial com um oficial e quatorze praças saíssem à caça do valente.

Na tranquilidade do alpendre de sua casa, o sertanejo Antônio Ramos contou que um dia, certo morador do lugar chamado Tomé Guerra, antigo amigo de Quelé, arranjou uma encrenca com o mesmo e entendeu de matá-lo. Tomé chamou outro morador do lugar, também “chegado na espingarda”, de nome Cícero Fonseca. Estes, juntos com um grupo de policiais, colocaram uma tocaia contra Clementino ás cinco da manhã, “-Para pegá-lo com as mãos”.

O "major" Aprígio Higino D’Assunção,  que por três ocasiões foi prefeito em Triunfo e dono de cartório.
O “major” Aprígio Higino D’Assunção,
que por três ocasiões foi prefeito em Triunfo e dono de cartório. Foto reproduzida a partir do livro “Triumpho, a corte do sertão”, de Duana Rodrigues Lopes, pág. 234.

Quelé ao perceber o ardil, pulou desviando dos tiros e respondeu ao fogo, atingindo certeiramente a cabeça de Cícero Fonseca, tendo o mesmo caído mortalmente ferido em um barreiro. Os outros membros da emboscada “botaram” em Quelé, que conseguiu fugir para sua casa. Clementino teria escapado através de um local onde havia um curral que pertencia a um cidadão conhecido como Sebastião Pedreiro e por uma área onde existia certa quantidade de cactos do tipo palma, utilizados como comida para o gado.

De paletó claro vemos  Aprígio Higino.  Para o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello ele foi o pivô que levou Clementino Quelé  a entrar no cangaço.  Foto reproduzida a partir do livro “Triumpho, a corte do sertão”, de Diana Rodrigues Lopes, pág. 373.
Aprígio Higino e parentes. Para o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello ele foi o pivô que levou Clementino Quelé a entrar no cangaço.
Foto reproduzida a partir do livro “Triumpho, a corte do sertão”, de Diana Rodrigues Lopes, pág. 373.

Mello (op. cit.) aponta que um “certo Tomé de Souza Guerra”, do sítio Santana e outros homens engrossaram a força policial que perseguia Quelé. Mas Cícero Fonseca era um companheiro de Quelé, onde os dois bebiam na bodega de Sebastião Pedreiro, quando a polícia cercou o lugar e deu voz de prisão. Na versão do respeitado pesquisador, que conseguiu suas informações através do relato de Miguel Feitosa, o antigo cangaceiro Medalha, o pobre Cícero ao colocar o pé para fora da bodega foi crivado de balas.

Vendo que a força policial e os paisanos não vinham para prendê-lo, mas para exterminá-lo, Quelé solicita aos gritos o apoio de amigos das proximidades, estes atenderam ao chamado e a balaceira foi grande. Diante da resistência inesperada a força policial e os paisanos batem em retirada. 

Independente de qual a versão correta, todos são unânimes em afirmar que a partir deste confronto os perseguidores passam a “apertar” Quelé, sendo esta a verdadeira razão para ele e seus irmãos entrarem no cangaço junto a Lampião. 

A Briga de Quelé com o Cangaceiro Meia Noite 

O comerciante e almocreve Miguel Moura nutria uma boa relação com Clementino, a quem chamava de “primo”. Este comentou com seu filho que a razão de sua saída do bando de Lampião foi uma briga com o valente cangaceiro “Meia Noite”. 

Este era alagoano, do lugar Olho D’água, atual Olho D’água do Casado, próximo a cidade de Piranhas. Seu nome verdadeiro era Antônio Augusto Correia e pelo fato de possuir a pele negra, recebeu a famosa alcunha. Para o genitor de Antônio Ramos, o negro Meia Noite foi o mais valente de todos os homens que andaram com Lampião, do tipo de gente que “-Dava medo só de olhar”.Segundo Mello (op. cit.), a razão da briga entre Quelé e Meia Noite foram dois irmãos cangaceiros chamados José e Terto Barbosa. Este último havia assassinado no Ceará o irmão de um chefe cangaceiro, tendo se refugiado com seu mano na serra do Catolé, a cerca de 30 quilômetros da cidade pernambucana de Belmonte, próximo às fronteiras do Ceará e da Paraíba.

A região montanhosa de Santa Cruz da Baixa Verde, a partir da estrada que liga esta a cidade ao vizinho município de Manaíra,  já na Paraíba.
A região montanhosa de Santa Cruz da Baixa Verde, a partir da estrada que liga esta a cidade ao vizinho município de Manaíra, já na Paraíba.

Em uma ocasião que os cangaceiros de Lampião e Quelé se encontravam na fazenda Abóbora, pertencente ao tradicional coiteiro Marçal Diniz, chegou uma mensagem de José e Terto para seus tios Neco e Chico Barbosa, igualmente cangaceiros do bando de Lampião. O que os dois sobrinhos solicitavam aos tios era uma maneira de salvarem a pele.

Neco e Chico sabendo que o chefe cangaceiro cearense, conhecido como “Casa Velha”, cujo irmão foi morto por Terto, era amigo de Lampião, acharam por bem pedir a Clementino Quelé que recebesse os dois sobrinhos. O chefe dos Furtados,  junto com seus irmãos, se sobressaía cada vez mais no cangaço e não pôs obstáculo à entrada dos dois rapazes no seu grupo.

Quando Meia Noite soube da história se colocou totalmente contrário, pois foi amigo do homem morto por Terto Barbosa e disse que se ele viesse para o bando iria atirar nele. O resumo da ópera foi que após Quelé tomar conhecimento da alteração de Meia Noite, este se coloca ao lado de Terto. Quelé corajosamente disfere uma saraivada de impropérios contra Lampião, Meia-Noite e os outros cangaceiros. Segundo Mello (op. cit), Clementino teria dito textualmente “-Que juntassem tudo que ele brigava do mesmo jeito”.

O chefe dos Furtados percebeu que após este fato, ficar ao lado de Lampião e seu bando seria o mesmo que praticar um suicídio, pois o mais famoso cangaceiro do Brasil era conhecido pelo seu rancor.

A região de Santa Cruz da Baixa Verde, a partir da PE-365, que liga Triunfo a Serra Talhada.
A região de Santa Cruz da Baixa Verde, a partir da PE-365, que liga Triunfo a Serra Talhada.

Já nosso informante Antônio Ramos transmitiu uma versão diferenciada. Na ocasião destes episódios, o chefe dos Furtados estava junto com Lampião e seu bando em um esconderijo próximo a povoação de Patos, já na Paraíba, onde o problema ocorreu no momento em os tios de Terto trouxeram uma carta dos sobrinhos para Quelé e lhe contaram o problema. Quelé então teria solicitado que alguém lesse a dita mensagem em voz alta. Nisto o cangaceiro Meia Noite ouviu sobre o conteúdo da missiva e desconfiou que Quelé fosse colocar aqueles indivíduos como integrantes do bando.

Vista da Serra do Catolé, em Belmonte, Pernambuco.
Vista da Serra do Catolé, em Belmonte, Pernambuco.

Segundo o entrevistado, Meia Noite conhecia os “Barbosas”, contra quem já havia brigado, era inimigo dos mesmos, principalmente de Terto. O negro alagoano ficou cismado que Quelé, ao colocar aquela turma de valentes no bando, seria um meio para Terto, dos “Barbosas da Serra do Catolé”, dar fim a sua vida.

Quelé ao saber do fato negou. Disse a Meia Noite que “-Gostava de homem valente”, que os “Barbosas” eram pessoas que ele tinha “-Para onde botar”. Meia Noite comentou que sendo Terto seu inimigo, se por acaso ele trouxesse os “Barbosas” para perto do bando, “-Sabia que ia ser uma desgraça, que nóis briguemo e ficou para quando nóis se encontrar, a bala cortar”. Antônio Ramos narrou que Quelé ponderou, afirmando que “-Quando o homem é valente, que pede uma proteção, eu gosto de amparar”.

A discussão entre estes guerreiros foi gradativamente aumentando de tom, crescendo na ferocidade, até que os dois valentes partiram para a luta corporal. Lampião chamou seus homens rapidamente dizendo “-Acode, acode, se não estes homens se matam” e conseguiram apartar a briga. Para o entrevistado Lampião disse a Quelé “-Que deixasse o negro Meia Noite com ele, pois parecia que ele tinha saído do inferno” e pediu a Clementino e seus irmãos para irem para o sítio Conceição. 

Antônio Ramos relata que depois da discussão, Quelé aparentemente não se satisfez com o posicionamento de Lampião e reclamou. No entendimento do chefe dos Furtados, Lampião “-Teria dado mais valor a um negro do que a ele”. Sentindo-se rebaixado no seu racismo tardio, Quelé abandonou a vida do cangaço e ficou marcado por Virgulino.Outra informação ouvida por Antônio Ramos dá conta que no momento em que Clementino Quelé e seus parentes saíram da região dos Patos e do bando de Lampião, um dos seus parentes, filho de certa “Luzia Lalau” e um tal de Ricardo, pessoas de Santa Cruz, ficaram no bando de Lampião.

Os tiroteios de Lampião contra Quelé 

Seja através de uma, ou de outra versão, o certo é que tempos depois desta desavença no seio do bando, o chefe Lampião, apoiado pelo fazendeiro Marcolino Diniz, filho do coronel Marçal, vem para Santa Cruz com o objetivo de matar Clementino e seus irmãos. Este encontro ocorreu no dia 5 de janeiro de 1924, um sábado.

Segundo informações coletadas em Santa Cruz da Baixa Verde, esta casa reformada teria sido a fortaleza de Clementino Quelé. Entretanto este dado ficou inconclusiva devido a divergências em relações a outras informações que foram apuradas na região.
Segundo informações coletadas em Santa Cruz da Baixa Verde, esta casa reformada teria sido a fortaleza de Clementino Quelé. Entretanto este dado ficou inconclusivo devido a divergências em relações a outras informações que foram apuradas na região.

Antônio Ramos informa que era um “-Meninote de doze anos”, que a sua casa antiga era próxima a sua atual morada e seu pai possuía uma bodega pequena, mas bem surtida. 

Era ainda de madrugada, quase amanhecendo, quando o jovem Antônio Ramos acordou com o barulho de muitas vozes de homens no oitão da sua casa. Era um grupo numeroso de cangaceiros. O garoto notou que todos vinham alegres, animados, equipados, armados e com muita munição. Muitos deles estavam embalados por aguardente e segundo suas próprias palavras, os cangaceiros pareciam estar “-Com fogo saindo pelas orelhas”.Eles pediram tudo que seu pai tivesse de comida no estabelecimento, além de mais cachaça. Este prontamente passou a servir o bando, especialmente Lampião. Os homens armados não fizeram nada com seu pai ou sua família nesta ocasião.

Antônio assistiu Lampião comendo uma rapadura com queijo e comentando alegremente com a rapaziada sobre a futura luta. Ele se apresentava animado, doido para brigar. Neste momento pronunciou uma frase que Antônio Ramos jamais esqueceu.

“-Da família de Quelé, hoje só se salva quem avoa”.

O Rei do cangaço ainda afirmou que “

 Hoje eu vou beber o sangue de todo mundo”.

Nesta ocasião, durante o nosso encontro, o nonagenário entrevistado alterou-se, ficando visivelmente emocionado. Ele recordou que se tremeu todo, no momento que escutou estas frases do famoso bandoleiro. Comentou veementemente que viu Lampião falar exatamente da forma anteriormente descrita e narrou este fato agarrando fortemente o braço do autor, tal a emoção.

Outra imagem da casa onde pretensamente ocorreu a batalha.
Outra imagem da casa onde pretensamente ocorreu a batalha.

Ele descreveu Lampião como sendo moreno, alto, rosto comprido, cego de um olho, não usava óculos naquele dia e que mesmo assim enxergava bem. Pouco tempo depois o bando saiu da bodega. 

A desproporção da luta que se avizinhava era enorme, pois Quelé tinha junto com ele apenas outros cinco companheiros para lhe ajudar. Para Antônio Ramos os cangaceiros seriam em torno de “-Uns cinquenta homens”. Já Carvalho (op. cit.) afirma que seriam quarenta e cinco.O pesquisador Geraldo Ferraz de Sá Torres Filho (in “Pernambuco no tempo do Cangaço-Volume I”, 2002, págs. 328 a 330) reproduz o “Boletim Geral nº 05”, emitido pela polícia pernambucana no dia 7 de janeiro de 1924, onde consta que o número de cangaceiros era de sessenta homens. 

Mas para os familiares de Antônio Ramos, naquele momento o que importava era buscar de alguma maneira se proteger dentro de casa diante do que iria acontecer e em pouco tempo “-A bala comeu”. Ele e seus familiares ficaram escutando o tiroteio, mas não lembra a duração, só comentou que “-Demorou muito”.

Falou que “-Quando deu fé”, chegou a sua casa um rapaz da família de Quelé com cerca de 16 anos, dizendo que estava dentro de um partido de mandioca quando os cabras chegaram e comentou que “-A bala tava cortando tudo”. Narrou que o rapazinho tinha escutado os gritos dos cangaceiros prometerem: “-Derrubar a casa” e o pessoal da casa avisando aos gritos para os atacantes que 

“- Se derrubar e entrar um, nóis mata na faca”.

A testemunha da batalha de 5 de janeiro de 1924 afirmou que este rapaz avisou que iria a Triunfo buscar uma volante. Nesta cidade o delegado era o tenente Malta e havia uma volante comandada pelo sargento Higino José Belarmino.

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Edição do jornal recifense “A Notícia”, de 14 de janeiro de 1924, existente na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, informando erroneamente sobre a ação da polícia, durante o segundo ataque de Lampião contra Quelé.
Edição do jornal recifense “A Notícia”, de 14 de janeiro de 1924, existente na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, informando erroneamente sobre a ação da polícia, durante o segundo ataque de Lampião contra Quelé.

O jovem disse que seguiria através de um caminho alternativo, evitando a vereda que levava normalmente para esta cidade, pois com certeza os cangaceiros deviam ter “-Botado uma emboscada aculá na frente”. O jovem deixou a casa de Ramos, seguindo em direção a serra dos Nogueiras, saindo no lugar chamado Gameleira e de lá para Triunfo.

Entretanto, para nosso entrevistado, a polícia ficou “insonando”. No seu linguajar típico, onde Antônio Ramos utilizava expressões difíceis de serem ouvidas atualmente no sertão nordestino, ele quis dizer que os homens da lei ficaram enrolando e só foram chegar a Santa Cruz por volta das 11 horas da manhã.

Esta volante levou várias horas para percorrer os seis quilômetros entre as duas localidades. Provavelmente para os policiais, a ocorrência em Santa Cruz era um problema entre bandidos e quanto mais deles se matassem entre si, melhor. Mas diante da resistência feroz realizada por Clementino e seus companheiros, a polícia se deslocou para evitar a pecha de conivência e covardia.

Apesar da evidente falta de vontade dos policiais de irem a lutar, ficamos imaginando o conflito dentro da própria volante, entre aqueles que queriam ir e dos que não queriam, pois certamente nem todos eram covardes e honravam a farda que vestiam.

Enquanto isso a família de Quelé, literalmente “comia chumbo” e o tiroteio não dava mostras de diminuir. A casa sofria diante da quantidade de tiros, em mais de seis horas de batalha ininterruptas. Antônio Ramos e seus familiares, até por razões bastante óbvias, não viram nada da refrega, apenas escutaram assustados a troca de disparos.

Nosso entrevistado comentou que nesta época morava na sua casa um primo chamado Augusto e foi este quem primeiro ouviu um tiro de fuzil. Esta arma possuía um som característico e bem diferente dos rifles Winchester, de calibre 44, ainda bastante utilizados pelos cangaceiros e pelo pessoal de Quelé. O som lhe chamou a atenção e mostrava que a polícia estava chegando, vindo pelo caminho que seguia para a pequena Santa Cruz, que nessa época era um simples arruado “-Com no máximo quatro casas”.

Aparentemente a Força Policial começou a atirar com seus fuzis muito antes de chegar ao local do confronto, esperando que assim os cangaceiros debandassem. Mas segundo o nosso informante, foi nesse momento que o tiroteio ficou ainda mais forte, “-Com a fumaça cobrindo tudo” e as balas “-Zunindo por riba de casa”, o que deixou os membros da sua família extremamente assustados. Podemos deduzir através de suas informações que, de alguma maneira, a sua casa ficou entre o fogo cruzado.

O aposentado coronel Higino José Belarmino,  em foto de Josenildo Tenório, de 1973.  Reprodução feita a partir da página 50 do livro “Lampião, o cangaceiro e o outro”, de Fernando Portela e Claudio Bojunga, edição 1982.
O aposentado coronel Higino José Belarmino,
em foto de Josenildo Tenório, de 1973.
Reprodução feita a partir da página 50 do livro “Lampião, o cangaceiro e o outro”,
de Fernando Portela e Claudio Bojunga, edição 1982.

Segundo Ferraz (op. cit.), no “Boletim Geral nº 05” encontramos a informação que o tiroteio morreu o irmão Pedro Quelé e Alexandre Cruz, ficando ferido Deposiano Alves Feitosa. Antônio Ramos narra que seu pai considerava Pedro Quelé como um homem valente. Na região ficou conhecido o fato que quando acabou a sua munição, este pediu garantias para sair, mas ao colocar a cabeça para fora da janela, foi impiedosamente morto.

Depois de toda uma batalha tenaz onde não tivera êxito, Virgulino Ferreira da Silva não refreou sua vontade de acabar com o atrevido Clementino Quelé.Ferraz (op. cit.) mostra que no “Boletim Geral nº 07”, da polícia pernambucana, emitido no dia 9 de janeiro de 1924, reproduz um bilhete do tenente Malta informando “Acha-se grupo de Lampião proximidade de Santa Cruz”. O militar ainda comentou na missiva que contava com “89 praças” para defender Triunfo e região.

Mesmo com esta força nas proximidades, seis dias depois, no dia 11 de janeiro, uma sexta-feira, Lampião e seus homens voltaram para aplicar uma segunda dose de chumbo em Quelé e seus companheiros.

Santa Cruz da Baixa Verde em 1951, durante uma visita de Frei Damião.
Santa Cruz da Baixa Verde em 1951, durante uma visita de Frei Damião.

Antônio Ramos recordou muito bem que em relação a este combate, percebeu que o sol já vinha saindo quando o tiroteio teve início e novamente a história se repetiu. De um lado os cangaceiros sedentos de sangue e do outro um pequeno grupo de homens se defendendo como podiam.

Segundo Lira (op. cit.), Lampião despejava todo tipo de impropérios e palavrões conhecidos contra o destemido Quelé e seu pessoal. Mas os sitiados respondiam, cantavam e assim irritavam o chefe dos cangaceiros.

Mesmo com uma força policial numerosa em Triunfo, novamente os agentes de segurança do Estado levaram outras seis longas horas para chegarem a Santa Cruz, repetindo-se o que ocorreu no domingo anterior. De toda maneira Clementino só conseguiu se safar pela chegada do destacamento policial baseado em Triunfo.
Para Antônio Ramos, consta que Quelé tinha um parente de nome José, apelidado “José Caixa de Fósforo”, que parece ter estado nos dois tiroteios.

Apesar do antigo cangaceiro de Lampião sair vivo nestes combates, a família Furtado foi praticamente exterminada. Segundo Mello (op. cit.), tanto neste, como em combates futuros, morreram três irmãos, dois genros e um sobrinho. Além destes seis parentes, segundo o pesquisador, mais cinco amigos do valente Quelé pagaram com a vida e inúmeros outras pessoas ligadas a Clementino ficaram feridos.

Casa antiga da região de Santa Cruz da Baixa Verde.
Casa antiga da região de Santa Cruz da Baixa Verde.

Em relação aos confrontos de janeiro de 1924, Antônio Ramos contou que uma das casas que foi palco dos dramas ainda existia e que na época era considerado um sítio afastado da então vila. Tentamos localizar o local. Chegamos a fotografar uma residência antiga, mas reformada. Entretanto houve divergências com outros informantes, que comentaram ter sido as casas da família de Quelé derrubadas há muito tempo. 

Independente da residência correta onde aconteceram os tiroteios, fomos informados por pessoas da região, nascidas anos após os episódios, que seus parentes mais velhos narravam que quando estes seguiam para capinar nas proximidades das antigas vivendas, a coisa mais comum era encontrar capsulas deflagrada de rifles e fuzis. 

O Vingador do Sertão 

Depois dos tiroteios, Quelé ficou meio perdido pela região, sendo protegido por Higino Berlarmino. Para Antônio Ramos, foi o coronel José Pereira, o chefe político da vizinha cidade paraibana de Princesa, que deu o apoio decisivo para Quelé se tornar um implacável caçador de Lampião.

Sentado vemos Marcolino Diniz e seus comandados durante a Guerra de Princesa.
Sentado vemos Marcolino Diniz e seus comandados durante a Guerra de Princesa.

Após o grande assalto de cangaceiros ocorrido na cidade de Sousa, em 27 de julho de 1924, Pereira exigiu que seu parente Marcolino Diniz não desse mais apoio a Lampião e o expulsasse da região dos Patos. Por indicação de alguém que Antônio Ramos não recorda, foi sugerido ao “dono” de Princesa o nome de Quelé, para que este servisse no comando de uma volante em perseguição a Lampião. A solicitação foi feita ao então governador paraibano João Suassuna e Clementino Furtado passa a ser conhecido como o Sargento Quelé. (Sobre um episódio envolvendo o Sargento Quelé na Guerra de Princesa ver – https://tokdehistoria.wordpress.com/2011/06/07/a-batalha-do-casarao-dos-patos/)

Sua volante, a famosa “Coluna Pente Fino”, ficou marcada na história do cangaço pela selvageria como combatia os cangaceiros e infligia o terror aos coiteiros. Muitos parentes fizeram parte do grupo. Se não faltam relatos de valentia do seu pessoal, infelizmente não faltam informações que inúmeros inocentes sofreram nas mãos dos homens de Quelé, além de inúmeros atos de pura rapinagem.

De toda maneira o “investimento” do governo da Paraíba em Quelé não foi em vão. Três anos e meio depois dos combates em Santa Cruz, no dia 14 de junho de 1927, ele e seus homens serão a primeira força policial a adentrar em Mossoró, após a fracassada tentativa de Lampião para conquistar a maior cidade do interior potiguar. Nesta ocasião consta que no currículo de combates de Quelé contra o Rei do cangaço, estavam listados vinte e um tiroteios.

Para Antônio Ramos, mesmo com toda coragem e capacidade para caçar cangaceiros, foi o analfabetismo de Quelé que deixou que ele permanecesse nas fileiras da polícia da Paraíba apenas com a graduação de sargento.

Provável túmulo do Sargento Clementino Quelé, na cidade da Prata, Paraíba.
Provável túmulo do Sargento Clementino Quelé, na cidade da Prata, Paraíba.

Quelé morreu já idoso na Paraíba, na cidade de Prata, próximo ao município de Monteiro. Segundo Antônio Ramos, ele sempre vinha visitar o sítio Conceição e a pequena Santa Cruz. (Ver – https://tokdehistoria.wordpress.com/2011/08/22/o-descanso-de-um-guerreiro-nordestino-no-riacho-da-prata/)

As histórias das lutas entre Clementino Quelé e Lampião se tornariam verdadeiras lendas no imaginário dos nordestinos. Aparentemente um destes que se encantou com as lutas de Quelé foi Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”. Em parceria com José Marcolino, o sanfoneiro de Exu compôs a música “No Piancó”, onde em um trecho diz;

“Lá viveu o Clementino / Que brigou com Lampião.”

Não posso garantir que o Clementino descrito na música do grande artista pernambucano, seja o mesmo homem que perseguiu implacavelmente Lampião.

Mas houve outro?

A morte do pai de Antônio Ramos

Um dia, em 1926, segundo o entrevistado, o terrível chefe bandoleiro Sabino, acompanhados dos cangaceiros Juriti, Ricardo e outros, vieram de um lugar próximo chamado Lagoa do Almeida, da família dos Marianos e seguiram para a casa do senhor Manuel da Cruz. Este era um fazendeiro, tendo sido comentado aos cangaceiros ser um homem que possuía muito dinheiro Como este não foi encontrado, os cangaceiros continuaram seguindo em direção a pequena povoação de Santa Cruz.

Sabino fotografado montado em 1927, na cidade cearense de Limoeiro do Norte,  logo após o fracassado ataque a Mossoró.
Sabino fotografado montado em 1927, na cidade cearense de Limoeiro do Norte,
logo após o fracassado ataque a Mossoró.

No caminho passaram adiante da casa de Miguel Moura. Como um dos cangaceiros era afilhado de batismo da mãe do entrevistado, por força do parentesco, pediu a Sabino, Juriti e Ricardo, que fossem na casa do sítio Conceição, ver se “arranjavam alguma coisa” com sua madrinha, que ele ficaria de fora.

A chegarem ao pequeno comércio, Sabino e os outros entram e passam a torturar Miguel Moura a ponta do punhal, para o mesmo dar conta do dinheiro que conseguia com o transporte nos burros. Na casa do pai do entrevistado se encontrava uma empregada da vizinha Isabel Correia, conhecida como Zabê e esta senhora foi a vivenda do entrevistado para moer milho. Os cangaceiros quiseram lhe arrebatar uma aliança, mas ela conseguiu tirar a joia do dedo e colocou-a na boca. Os cangaceiros exigiram o objeto de valor e a mesma recusou-se a entregar. Os bandidos passam a ação, tentando forçar a mulher a entregar a aliança e começa uma luta. A empregada lutou tão bravamente que teria quebrado o nariz do seu atacante. O próprio Sabino mandou soltá-la, tendo dito que “-Esta é uma desgraça que nem o diabo pode”. A mulher foi embora correndo com a aliança.Na casa da vizinha Zabê, que possuía certa quantidade de ouro, eles chegaram e arrastaram o que puderam, mandando inclusive a mulher tirar os brincos ou “-Cortariam com o pedaço da orelha”. O marido da mesma, Manuel Correia, foi chegando a casa e os cangaceiros o renderam com pistolas, que colocaram no pescoço do mesmo.

Para o pai do entrevistado a sorte não foi tão boa. Disseram que ele era rico, mas Miguel Moura comentou que gastava muito na propriedade. Daí Sabino ordenou que em oito dias ele conseguisse um conto de réis, sob pena de morrer.

O pai do entrevistado sofria do coração e diante de toda a tensão provocada pelas ameaças, veio a ter um ataque cardíaco. Sem assistência médica, que era muito difícil na época, morreu nove dias depois da “visita” dos cangaceiros.

Depois destes fatos, o nosso entrevistado e a família foram para Triunfo, onde perderam a roça e tiveram muitos prejuízos. Seguiram depois ao Juazeiro, para uma entrevista com o Padre Cícero, que os aconselhou a não voltar logo para casa.

Este fato foi testemunhado pela irmã de Antônio Ramos, criança a época, que se encontrava brincando defronte a casa no momento da passagem dos cangaceiros, tendo ela visto e escutado tudo.

Se para alguns, Sabino é apontado como “revolucionário”, para Antônio Ramos, ele é tão somente um arrogante bandido, cruel ladrão e frio assassino.

Me foi informado que esta antiga edificação amarela teria sido a casa comercial da família Campos em Triunfo, atacada por Sabino em 1926.
Me foi informado que esta antiga edificação amarela teria sido a casa comercial da família Campos em Triunfo, atacada por Sabino em 1926.

No dia 7 de julho de 1926, Sabino e seu grupo foram a Triunfo para assaltar a cidade. O bando fez muita bagunça, atacando a loja de tecidos de Antônio de Campos, o maior comerciante da cidade. Os cangaceiros levaram até um machado para furar o cofre, mas não conseguiram, passando a tocar fogo n estabelecimento. Segundo Ramos, na ocasião se encontravam na cidade dois soldados, de nome José Sabiá e José Piauí, que foram atacados pelo bando. O inusitado foi que Sabiá morreu com apenas um tiro e o Piauí, mesmo levando sete tiros, escapou com vida.

Início da extensa reportagem divulgada no jornal recifense “A Província”,  edição do dia 10 de julho de 1926, dando conta do ataque de Sabino a Triunfo.
Início da extensa reportagem divulgada no jornal recifense “A Província”,
edição do dia 10 de julho de 1926, dando conta do ataque de Sabino a Triunfo.

Para Lira (op. cit. pág.401) Sabino e seus homens entraram na cidade serrana quando se encontravam apenas quatro militares para protegê-la e corrobora a afirmação de Antônio Ramos quando escreve que “o soldado que foi morto tinha o apelido de Sabiá”.

A última vez que Antônio Ramos viu Lampião e seu bando

Depois que o nosso informante e sua família voltaram à antiga casa do sítio Conceição, eles procuraram seguir a vida. Mesmo diante da situação, o jovem Antônio Ramos não deixou de estudar. Em um dia de 1927, estava ele por volta das onze da manhã em uma escola nas proximidades de Triunfo, junto com um professor nascido na cidade de Floresta, quando chegou um grupo de cavalarianos armados e equipados. A princípio o mestre pensou que fossem policiais, mas o entrevistado comentou com segurança que “-Aquele ali é Lampião, eu conheço”. Segundo ele eram em torno de “-130 cangaceiros”, todos equipados, com chapéu de couro quebrado, cheio de medalhas, fuzis, cada um levando dois bornais e cartucheiras. Antônio Ramos ficou se perguntando como eles lutavam com tanto equipamento.

Antônio Ramos
Antônio Ramos

Entre os cangaceiros, nosso entrevistado conhecia um deles. Chamava-se Isaías Vieira, e era de um lugar conhecido como Xique-Xique. Havia sido ladrão de bodes, que após ser preso apanhou muito e havia entrado no cangaço por vingança.

Nesta ocasião todos os cangaceiros estavam a cavalo, pegando animais descansados e deixando os que estavam viajando. Comentou que apenas às seis da noite, uma volante da polícia de Alagoas passou na região seguindo o bando. Este grupo era comandado por um militar conhecido como “tenente Arlindo”. A ocasião desta visita foi próximo ao mesmo período em que ocorreu o ataque a Mossoró.

Cruz em Santa Cruz da Baixa Verde, que mostra um local onde alguém morreu de "morte matada".
Cruz em Santa Cruz da Baixa Verde, que mostra um local onde alguém morreu de “morte matada”.

A bibliografia mostra o quanto aparentemente nosso informante estava certo, mesmo com algumas pequenas alterações. O Pesquisador José Alves Sobrinho, da cidade de Serra Talhada, em Pernambuco (in “Lampião e Zé Saturnino-16 anos de luta”, 2006, pág. 112), comenta que na mesma época que Lampião seguia para Mossoró, passou na zona rural de Vila Bela, a antiga denominação do município de Serra Talhada, na fazenda Barreiras, de propriedade de Martins Venâncio Nogueira, conhecido como Martins da Barreira. Segundo o autor, o proprietário da fazenda Barreira conversou longamente com Lampião naquele dia e afirmou que junto ao chefe estavam “118 cangaceiros”. 

Segundo Lira (op. cit pág. 379.) comenta que em fins do mês abril de 1927, este grande grupo de cangaceiros estava sendo realmente sendo seguido por uma força volante comandada pelo militar Arlindo Rocha, que salvo engano seria da polícia pernambucana e possuía a patente de sargento. 

Antônio Ramos informou que nunca leu um livro sobre cangaço, que conta por que sabe e viu. Os fatos envolvendo Lampião e o cangaço era informação corrente na região. Tudo era narrado de boca em boca, nas feiras, nas ruas. Detalhes sobre a intriga dos Ferreiras com os Saturninos de Vila Bela, a história do chocalho, as brigadas e tudo mais que levou Lampião a entrar no cangaço, era muito repetido. Apenas em uma ocasião Antônio Ramos viu uma revista com a foto das cabeças cortadas em Piranhas, Alagoas, após o ataque que deu cabo de Lampião e acha que era ele mesmo.

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