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A SERRA DO RODEADOR E A IRMANDADE DO SENHOR BOM JESUS DA PEDRA

Vista da Serra do Rodeador – Foto – Rostand Medeiros.

Um movimento sebastianista em Pernambuco na primeira metade do século XIX

Autor – Alexandre Alves Dias*

Fonte – Suplemento Cultural. Estado de Pernambuco. Ano XII. Outubro/Novembro 1997, pág. 26.

Nestes últimos anos se tem comemorado o centenário de fundação do Arraial do Belo Monte, mais conhecido como Canudos, e agora, em 1997, as festividades se concentrarão no centenário de destruição do mesmo.

Marco na história do Brasil, Canudos representou o grito das populações sertanejas, expropriadas do acesso a terra e a uma vida mais digna. Derrotando as diversas expedições enviadas para submetê-los a República que se ia então tentando consolidar, os habitantes do Belo Monte, guiados por Antônio Conselheiro, implantaram uma utopia sertaneja que incomodou aos senhores da terra, por esvaziar lhes da força de trabalho, que se iam ajuntando no crescente Arraial.

Mas Canudos não foi a primeira, nem a única manifestação de insatisfação

da população rural nordestina, através da religião como esteio dessa união. Foi uma das maiores. Mas houve duas anteriores. Uma das primeiras registradas aconteceu em Pernambuco, uns sessenta anos antes.

Vista da cidade de Bonito, Pernambuco – Foto – Rostand Medeiros.

Por volta de 1817, um homem vindo das bandas da Comarca das Alagoas (nesta época Alagoas fazia parte de Pernambuco, vindo a ter autonomia administrativa em 1819), chegou ao Povoado do Bonito, em Pernambuco. Chamava-se Silvestre José dos Santos.

Encontrando paragens mais tranquilas nas terras em torno da Serra do Rodeador, lá se instalou, com permissão dos proprietários, passando a viver da agricultura de subsistência. À noite,  depois de encerradas as obrigações entregavam-se a rezas, acompanhado pela família (irmãos, as mulheres destes e os filhos).

Os anos foram passando, e os ritos noturnos iam crescendo em fama e quantidade de fiéis que vinham entregar-se à fé.

Por volta de 1820, o ajuntamento de fiéis que comparecia para rezar já ultrapassava a casa das centenas de pessoas, entre homens, mulheres e crianças. Soldados abandonavam o serviço obrigatório nas tropas auxiliares de ordenanças e milícias, para se juntarem aos agricultores, que vinham das propriedades vizinhas e do povoado do Bonito, para ouvir o que ali se dizia.

Região do Rodeador – Foto – Rostand Medeiros.

Silvestre José dos Santos, tido por uns como homem santo, e por outros como embusteiro, erigira na base da Serra um grande mocambo, que era utilizado como capela, onde ele guardava, dentro de uma caixa de madeira, uma pequena imagem de Nossa Senhora, além de outra de Nosso Senhor Jesus Cristo e alguns santos. Criara a Irmandade do Senhor Bom Jesus da Pedra. Cobrava duas patacas (640 réis) dos solteiros, e quatro dos casais, para que estes pudessem receber os respectivos documentos de entrada na Irmandade.

Após ter-se confessado com o padre do Bonito, qualquer um poderia entrar nela.

Admitidas na Irmandade, essas pessoas podiam subir de posição, recebendo quatro fitas coloridas, cada uma delas com um significado específico; verde, significando esperança em um mundo melhor e na salvação; vermelho, o sangue derramado na guerra aos infiéis; azul, paz, e negro, luto pelos mortos na Guerra Santa. Um homem ou mulher dedicado poderia acumular as quatro juntas.

Foto – Rostand Medeiros.

Mas, o que afinal atraía tanta gente, fazia soldados desertarem, trabalhadores braçais virem às centenas? Silvestre ouvia instruções da Nossa Senhora guardada na caixinha de madeira. Ela lhe dizia que ali haviam de começar o Paraíso Terreal, bem ali aos pés da Serra. O próprio dono das terras doou-as à Irmandade, para engrandecimento daquela obra divina, além de ter comprado de seu bolso algumas medidas de tecidos para enfeitar a capela improvisada no mocambo maior.

Silvestre anunciava que vindo para ajudá-los estava D. Sebastião, acompanhado de mais dois reis portugueses, D. Antônio e D. João, para juntos com o exército que eles traziam reconquistarem a Terra Santa. Dizia mais, que se tropas viessem contra eles, estas passariam para o lado deles, pois que, quando se preparassem para fazer fogo, todos da Irmandade ficariam invisíveis, sendo, portanto, impossível derrotá-los.

Silvestre empolgava-se e dizia mais: iriam ao próprio Governador da Capitania de Pernambuco, Luís do Rego Barreto, para exortá-lo a unir-se na Empreitada Santa da Reconquista. Caso este recusasse, seria morto e fariam duas cuias com seu crânio, uma para o próprio Silvestre, e a outra para quem a reclamasse primeiro. Iriam depois convidar a D. João VI para acompanhar a expedição.

As autoridades militares do Bonito foram as primeiras a tentar descobrir o que acontecia, já que muitos soldados estavam desertando. As patrulhas que iam tentar prender os desertores eram forçadas a retroceder de mãos vazias, já que eram recebidas por homens armados de bacamartes.

Mandados para espionar, os soldados descobriram que havia a prática de exercícios militares com armas de fogo e espada. Que tinha ferreiros fabricando canos, carpinteiros especializados confeccionando coronhas. Já bastante preocupados, os oficiais do Bonito reportaram o que acontecia ao governador.

Havia tropas no sertão que tinham ido dar combate a um grande grupo de ladrões, e foi fácil mandá-las ao Rodeador. Saíram algumas também do Recife. Pelo menos uma dessas tropas marchou sobre efeito da aguardente, para poder chegar logo ao cenário do combate que poderia acontecer, segundo alegou o seu comandante, o major de 1ª linha José de Moraes Madureira Lobo.

Na noite do dia 26 de outubro de 1820, enquanto cerca de 200 mulheres, 300 crianças e uns cem homens, dos quais 75 armados de bacamartes rezavam, as tropas cercaram a Serra do Rodeador. Nessa mesma noite. Silvestre dissera que a Santa mostraria os sinais tão esperados para começar a Guerra Santa.

Bacamarte típico da primeira metade do século XIX – Fonte – https://www.videohistoria.com.br/2019/02/quem-matou-gertrudes-pedra-carneiro-leao.html

Os clarões das tochas dos soldados foram confundidos com esses sinais. Um dos homens da Irmandade vendo os soldados fez fogo sobre eles. Silvestre os havia instruído para só atirar se, e quando, ele ordenasse. Os soldados, que não estavam devidamente posicionados, após terem sido divididos em dois grupos, abriram fogo sobre o lado do  disparo, atingindo o grupo de soldados que vinha progredindo naquela direção.

Estabelecida a confusão, as mulheres e crianças foram abrigar-se na capela de palha, os homens fizeram fogo sobre os dois grupos de soldados, e estes continuaram atirando contra seus companheiros e contra os da Irmandade. Com o raiar do dia, os soldados finalmente perceberam quem era o inimigo, e passaram a fazer carga sobre eles.

Estando em inferioridade numérica, os homens da Irmandade largaram as armas e renderam-se. O comandante da expedição de ataque, enfurecido com o curso dos acontecimentos, tendo lutado contra os próprios companheiros durante as primeiras três horas antes do raiar do sol, mandou passar a fio de espada alguns dos homens já rendidos e desarmados. Insatisfeito, ordenou que se ateasse fogo aos mocambos de palha, onde estavam mulheres e crianças.

Vitória de Santo Antão, Pernambuco, primeira metade do século XIX, autor Luís Schlappriz – Fonte- https://www.brasilianaiconografica.art.br/obras/18556/s-antao-cidade-de-victoria-na-provincia-de-pernambuco

Os prisioneiros, 200 mulheres e 300 crianças, além de uns poucos homens, foram conduzidos ao Recife, após uma parada em Vitória de Santo Antão. No processo de investigação que se seguiu, constatou-se que a Irmandade em nada ofendia à religião católica nem ao Imperador. As mulheres e crianças, andrajosas, ficaram largadas pelas ruas do Recife, num espetáculo deprimente, até que se decidiu a sua sorte. As crianças órfãs seriam adotadas pelas famílias mais notáveis da capital. As mulheres e seus filhos seriam enviadas para viver sob observação das autoridades de Vitória de Santo Antão, após receberem uma esmola, espécie de indenização, proibidas de saírem daquele lugar.

D. João VI não foi tolerante nem indulgente com os homens. Aqueles em situação de servirem nas tropas seriam enviados para Santa Catarina, e lá engajados. Os que ensinavam exercícios militares seriam degredados por cinco anos em Angola, e Silvestre José dos Santos a degredo perpétuo, também em Angola.

Silvestre não foi preso. Durante as investigações, descobriu-se que ele já havia praticado outros embustes religiosos, em Alagoas, antes de fugir de lá para o Bonito. Alguns dos homens da Irmandade o viram encaminhar-se para dentro da capela, no começo do tiroteio. O grosso dos frequentadores da irmandade era composto por agricultores, a maioria deles homens de cor.

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*Alexandre Alves Dias possui mestrado em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1997). Atualmente é assistente técnico – Arquivo Público Municipal Antonino Guimarães. Tem experiência na área de História, com ênfase em História e na área de Arquivo, com ênfase em fotografia e documentação colonial. Informações – https://www.escavador.com/sobre/4777890/alexandre-alves-dias

A GUERRA NO SERTÃO E O NOVO CANGAÇO: 86 MORTOS EM 15 BATALHAS ENTRE POLICIAIS E QUADRILHAS

Ciosac, atual Bepi: inspiração nas volantes que combateram o cangaço para enfrentar criminalidade no Sertão pernambucano – Foto: Rafael Furtado/ Folha de Pernambuco

Utilizando o levantamento realizado pelo Portal OP9, vemos uma verdadeira guerra entre policiais e assaltantes de bancos no Nordeste deixou rastro de quase 90 mortes, sendo 79 suspeitos, seis inocentes e um policial.

Fonte primária – https://www.op9.com.br/ne/noticias/novo-cangaco-86-mortos-em-14-batalhas-entre-policia-e-quadrilhas/

Fonte secundária – https://paraibaonline.com.br/2019/07/oito-envolvidos-em-assalto-sao-assassinados-no-cariri-da-paraiba-veja-imagens/

Utilizar o termo “Novo Cangaço”, como vem sendo chamado o fenômeno dos grupos criminosos fortemente armados que atacam instituições financeiras e comerciais, quase nada tem haver com o Cangaço dos tempos de Lampião. Talvez a imprensa nordestina utilize em abundância esse termo para buscar uma referência que possa enquadrar, classificar essa violência atual. Mas é uma referência que acredito ser muito pouco utilizável quando observamos o que foi o Cangaço e o que é essa bandidagem dos dias atuais. Não vejo nenhuma ligação mais expressiva, com exceção de uma coisa que para mim é bem clara – O medo que esses meliantes criam na população sertaneja, tal como acontecia na época dos cangaceiros.

E o medo é real, presente, forte e cada vez mais violento. Com certos aspectos, equipamentos, armas e números que não me fazem lembrar o combate aos cangaceiros que ocorria em tempos passados, mas algo mais próximo de uma conflagração. A situação atual é muito pior!

Talvez seja exagero de minha parte, mas tendo como base o interessante material produzido pelo Portal OP9, do Grupo Opinião de Comunicação, onde são apontados a morte de pelo menos 79 suspeitos de participação em quadrilhas de assaltos a bancos, carros-fortes e comércios, em confrontações contra forças policiais em cidades do interior do Nordeste desde setembro de 2017. O levantamento do Portal OP9 contabilizou 15 ocorrências fatais envolvendo policiais e integrantes desse chamado “Novo Cangaço”.

Seis pessoas inocentes e um soldado da PM também foram vítimas fatais da guerra contra os assaltantes.  Do total de mortes, 55 foram registradas entre 2017 e 2018, e 31 em 2019.

O último e sangrento episódio dessa verdadeira guerra ocorreu em 2 de julho de 2019, uma terça-feira, quando uma quadrilha formada por oito pessoas foram mortos durante operação conjunta das polícias militares de Pernambuco e da Paraíba.

De acordo com as autoridades o grupo era composto por seis homens, um deles um adolescente de 17 anos, e duas mulheres e faziam parte de um bando armado especializado em investidas contra bancos e comércios.

Uma parte do grupo era formada por suspeitos da participação de assaltos contra um mercadinho e uma casa lotérica na cidade pernambucana Santa Cruz do Capibaribe e do assassinato do policial militar André José da Silva. Fatos esses ocorridos na segunda-feira (1º). Já outra parte das pessoas envolvidas no caso tentava realizar o resgate dos comparsas na região. Ainda segundo as autoridades alguns integrantes desse grupo eram pessoas de uma mesma família e havia igualmente a viúva de um assaltante de banco.

Treinamento de policiais no sertão nordestino. Treinamento, capacitação, equipamentos adequados, apoio, valorização do policial, retaguarda tranquila são algumas das ações primordiais para o bom desenvolvimento da atividade – Fonte – https://www.facebook.com/ciosac.noticias/photos/pcb.343799999529916/343796366196946/?type=3&theater

A ação que culminou na morte dessas oito pessoas teve início quando os quatro suspeitos de praticarem os assaltos e o assassinato do policial em Santa Cruz do Capibaribe fugiram e se encontravam escondidos nas terras do Sítio Boi Brabo, localizado no limite entre os municípios de Riacho de Santo Antônio e Barra de São Miguel, ambos na Paraíba, e próximo a fronteira com Pernambuco. Os fugitivos foram localizados por volta das 3h30 pelos serviços de inteligência das policias estaduais, em uma área de matagal.

De acordo com o tenente-coronel Lúcio Flávio de Campos, comandante do 24° Batalhão da Polícia Militar de Pernambuco, quando outros quatro suspeitos chegaram ao local em dois carros para resgatar os demais. Nesse momento os policiais buscaram capturar o grupo, quando foram recebidos a tiros no local e se iniciou o confronto. Segundo o tenente-coronel Lúcio Flávio de Campos tentou-se a rendição, mas “Como já é uma prática desse tipo de criminosos, eles atentaram contra a vida dos policiais. Socorremos feridos para uma unidade de pronto atendimento, mas não resistiram. Eram extremamente perigosos”, afirmou o, comandante do 24° Batalhão da PM.

A Polícia Civil de Pernambuco informou que foram apreendidos com a quadrilha o dinheiro dos assaltos em Santa Cruz do Capibaribe, duas pistolas calibre 380, dois revólveres calibre 38 e uma espingarda de repetição calibre 12, além de munição. 

Viatura policial atingidas por vários disparos de arma de fogo — Foto: WhatsApp/Reprodução – Fonte – https://www.portaldiario.com.br/noticias/policial/425420/oito-suspeitos-de-envolvimento-na-morte-de-pm-sao-mortos-na-paraiba-vereador-faz-parte-do-grupo.html

Um dos mortos na operação foi o vereador da cidade pernambucana de Betânia, Andson Berigue de Lima, conhecido como Nanaca, do Partido Progressista. Ele teria ido resgatar o irmão, conhecido como Galego de Lena, suspeito de participação no crime em Santa Cruz do Capibaribe. Esse era o líder do grupo, formado ainda por um primo desses irmãos, conhecido como Edys de Gevan.

Ainda segundo a Polícia Civil de Pernambuco, além desses três, um dos mortos é um homem conhecido como Wellington Cabeludo, também da cidade de Betânia, e uma mulher identificada apenas como Jácia de Siba, que manteria um relacionamento amoroso com Galego de Lena. Wellington e Galego possuíam mandados de prisão expedidos em ações criminosas contra bancos.

Os corpos de seis homens e duas mulheres foram empilhados na caçamba de uma picape e levados pelos policiais até a UPA de Santa Cruz do Capibaribe. No caminho até a unidade de saúde, a população aplaudiu o comboio com os cadáveres enquanto os PMs respondiam acenando para os moradores. Em tom de desabafo, o comandante do 24º Batalhão chegou a discursar e foi bastante aplaudido. Ele disse que os criminosos reagiram à abordagem e que foram socorridos pelos policiais. Os corpos foram levados ao IML de Caruaru na tarde desta terça-feira (2).

A estratégia policial de atirar para matar vem dando resultados geralmente comemorados pelos secretários de Defesa Social do Nordeste. Também não é a primeira vez que os corpos dos suspeitos são empilhados em caçambas de veículos. Bastante descentralizadas e fortemente armadas, as quadrilhas de assaltos a bancos não costumam atuar no estado de origem, o que dificulta o trabalho de investigação.

Mortes em conflitos entre quadrilhas e policiais no Nordeste:

1 – Entre Janduís e Campo Grande (Rio Grande do Norte) – 03 de setembro de 2017.

As Polícias Militares da Paraíba e do Rio Grande do Norte apreenderam três fuzis, entre eles um AK-47, três espingardas calibre 12, duas pistolas, vários explosivos, sete coletes e dois carros, após um confronto que teve mais de meia hora de intensa troca de tiros, entre as cidades de Janduís e Campo Grande, Oeste do Estado do Rio Grande do Norte. Na ação, quatro criminosos que receberam os policiais a tiros foram baleados, ainda chegaram a ser socorridos pela própria PM, mas não resistiram e morreram. Eles fazem parte da quadrilha responsável por atacar, por volta das 4h40 da manhã, a agência do banco do Bradesco da cidade de Brejo do Cruz, no sertão da Paraíba.

2 – Lagoa Grande (Pernambuco) – 08 de novembro de 2017

Dois integrantes de uma quadrilha de assaltos a bancos e carros-fortes morreram em confronto com policiais da Companhia Independente de Policiamento Especializado na Caatinga (CIPE-Caatinga), da Bahia. Os suspeitos transitavam num veículo e foram interceptados na PE-555, em Lagoa Grande (PE), no Sertão do São Francisco. Durante a troca de tiros, três homens conseguiram fugir. A quadrilha vinha sendo monitorada pela Polícia Federal (PF) e a operação contou também com a participação da CIOSAC, equipe da Polícia Militar pernambucana especializada em combater a criminalidade no sertão.

Armas também foram apreendidas com suspeitos de ataques a bancos no interior de Alagoas — Foto: Ascom/Polícia Civil – Fonte – https://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/operacao-tem-mortes-e-prisoes-de-suspeitos-de-roubo-a-banco-em-agua-branca-al.ghtml

3 – Água Branca (Alagoas) – 14 de abril de 2018.

Dois homens suspeitos de envolvimento em assalto a agências bancárias morreram durante confronto com a polícia no município de Água Branca, Sertão de Alagoas. três pessoas foram presas, além disso, quatro fuzis, escopetas, dinamites e espoletas também foram apreendidos. Os detidos e o material foram levados para a delegacia em Delmiro Gouveia.-AL.

4 – Amontadas (Ceará) – 26 de julho de 2018.

Um confronto entre policiais civis e criminosos acusados de tráfico, assalto a banco, homicídios e furtos, terminou com três mortos e um agente ferido de raspão. A operação aconteceu em Amontada, Município localizado na Zona Norte do Estado do Ceará. De acordo com a Polícia Civil, a ocorrência tinha como objetivo capturar o trio, que já vinha sendo investigado pela Delegacia de Roubos e Furtos (DRF), e estava escondido na zona rural dessa cidade.

5 – Japaratuba (Sergipe) – 4 de setembro de 2018.

Uma troca de tiros entre policiais civis e um grupo suspeito de realizar assaltos em Sergipe deixou sete mortos na cidade de Japaratuba, além disso, foi apreendida uma grande quantidade de armas. A Secretaria de Segurança de Segurança Pública de Sergipe (SSP/SE), informou que ação policial tem ligação com a investigação de um assalto realizado a uma agência bancária na cidade Itabaianinha-SE, realizado no início do mês de agosto.

6 – Salgueiro (Pernambuco) – 26 de setembro de 2018.

Seis homens foram mortos e um ficou ferido quando tentavam roubar um avião de transporte de valores na pista de pouso do aeroporto de Salgueiro. O dinheiro seria utilizado para abastecer um banco da cidade. De acordo a Polícia Federal, os assaltantes invadiram a pista no momento da aterrissagem do avião e abordaram o os vigilantes dos carros-fortes que transportariam o dinheiro. Os suspeitos atiraram no piloto e o obrigaram a parar a aeronave. Com os suspeitos mortos, a polícia encontrou seis fuzis e uma metralhadora ponto 50 que estava instalada em um dos veículos utilizados. 

7 – Santana de Ipanema (Alagoas) – 8 de novembro de 2018.

Uma operação da Divisão Especial de Investigação e Capturas (Deic) de Alagoas, ocorrida na zona rural de Santana do Ipanema deixou 11 mortos.  O grupo estava envolvido em um assalto a uma agência do Bradesco, ocorrido na madrugada desta quinta-feira, em Águas Belas, no agreste de Pernambuco. Na operação, foram apreendidos explosivos, armas, dinheiro e uma caminhonete.

8 – Quixeré (Ceará) – 23 de novembro de 2018.

Uma tentativa de assalto a um carro-forte terminou com sete suspeitos mortos num confronto com a polícia em Quixeré. Seis fuzis e munições de diversos calibres, explosivos, coletes balísticos e outros artefatos foram apreendidos. O grupo criminoso estava dividido em três carros, em direção ao Rio Jaguaribe, para interceptar o carro-forte. O Gate foi ao local e foi recebido com disparos. Uma aeronave da Coordenadoria Integrada de Operações Aéreas (Ciopaer) deu apoio aos policiais em terra. A maior parte dos criminosos transitava entre São João do Jaguaribe, Limoeiro do Norte, Tabuleiro do Norte, Quixeré e Morada Nova. Dois eram potiguares.

9 – Bacabal (Maranhão) – 25 de novembro de 2018.

Um grupo de criminosos calculado em 50 homens assaltou duas agências bancárias, ateou fogo em veículos e atacou um quartel militar na noite deste domingo (25) na cidade de Bacabal (MA), que fica a cerca de 240 km de São Luís, capital do estado. Três suspeitos foram mortos no confronto com policiais, sendo um deles do Tocantins.

10 – Milagres (Ceará) – 07 de dezembro de 2018

Uma tentativa de assalto a duas agências bancárias na cidade de Milagres, distante 482 km de Fortaleza, no estado do Ceará, deixou doze mortos, sendo seis suspeitos do crime e seis reféns, cinco destes de uma mesma família. Antes da investida em Milagres, a mesma organização já tinha participado de assaltos a bancos, incluindo um em Belo Jardim e outro em Santa Cruz do Capibaribe,  ambas em Pernambuco. Esse crime foi o de maior número de mortos envolvendo civis. 

11– Arapiraca (Alagoas) – 24 de fevereiro de 2019.

Quatro suspeitos foram mortos durante confronto com a Polícia Militar na madrugada do dia 24 de fevereiro após ação criminosa na agência dos Correios no município de Arapiraca, em Alagoas. Eles são suspeitos de integrar uma quadrilha de roubo a banco em Mato Grosso com atuação em outros estados. Outros três membros da quadrilha foram presos em Maceió.

12- Lauro de Freitas (Bahia) – 13 de maio de 2019.

Três suspeitos de fazer parte da quadrilha que atacou a agência do Banco do Brasil na cidade de Barreiras, oeste da Bahia, foram mortos na tarde do dia 13 de maio em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador. A PM baiana informou que os suspeitos estavam em uma pousada e reagiram quando foram baleados.

13- Cocal (Piauí) – 5 de maio de 2019.

Seis suspeitos foram mortos em confronto com a polícia na zona rural de Cocal, no Norte do Piauí. Outros três foram localizados em um acampamento na região da cidade de Barras e o resultado foi o mesmo. Os grupo faria parte de uma quadrilha de roubos a bancos de Minas Gerais e teriam participado do assalto a duas agências bancárias que ocorreu no dia 30 de março, na cidade de Campo Maior, também no Piauí. Outros cinco membros do grupo foram presos.Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Piauí, todos foram mortos após reagirem à prisão.

14 – Lagarto (Sergipe) – 03 de abril de 2019.

O Complexo de Operações Policiais Especiais (Cope) da Polícia Civil e a Polícia Militar de Sergipe desencadearam no município de Lagarto uma operação que resultou na prisão de três integrantes de uma quadrilha baiana especializada em assaltos a banco. Seis integrantes da organização criminosa reagiram à prisão e foram mortos em confronto. Segundo investigação, eles pretendiam explodir as agências bancárias do município de Simão Dias, e se esconderam em uma casa no Povoado Açu Velho, na cidade de Lagarto, onde houve o confronto com a polícia.

15- Barra de São Miguel (Paraíba) – 02 de julho de 2019.

Um policial militar e oito suspeitos morreram durante uma ação de uma quadrilha de assaltos a bancos no Agreste de Pernambuco no dia 1º de julho. Após parte da quadrilha assassinar um soldado da PM, oito integrantes do grupo foram mortos pelas PMs da PB e de PE em Barra de São Miguel, na Paraíba.

O OP9 é o portal que integra o maior grupo de comunicação do Nordeste. Cinco emissoras de TV e uma de rádio compõem o Sistema Opinião: TV Clube/Record (Pernambuco), TV Ponta Negra/SBT (Rio Grande do Norte), TV Borborema/SBT (Campina Grande), TV Manaíra/Band e Rádio Band News FM (João Pessoa) e TV Ponta Verde/SBT (Alagoas). Esse grupo de comunicação alcança mais de 50 milhões de pessoas mensalmente, em média.

Ver – https://www.op9.com.br/

OS RASTEJADORES DO SERTÃO – PROFISSÃO DE CORAGEM E DE RISCO

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Odiados e Respeitados, os Rastejadores Sertanejos Marcaram a História do Nordeste Desde a Época dos Escravos, Passando Pelos Cangaceiro e até na Morte do Pistoleiro Floro Gomes Novais

Rostand Medeiros – Escritor e Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Em poucas ocasiões no sertão do Nordeste eles foram ovacionados e na maioria das vezes intensamente odiados. Mas sempre foram muito respeitados pelo que sabiam fazer!

Para muitos estes homens nada mais eram do que uma sórdida escória, uma ralé, que pontuou de forma nefasta a História do sertão nordestino. Eles eram comparados a cães, que só serviam para caçar os que perturbavam a doce tranquilidade senhorial dos seus poderosos donos. Mas também poderiam está realizando seus serviços para o outro lado dessa moeda sangrenta.

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Quando não estavam percorrendo as trilhas sertanejas em alguma missão, geralmente os rastejadores não recebiam por parte dos poderosos, do governo e de seus policiais a atenção merecida. Além de bem poucas benesses pecuniárias que lhes eram creditadas, ou de algum butim aferido quando abatiam um criminoso, pouco lhes era dado. Entretanto quando o serviço surgia, aqueles homens analfabetos, que nunca realizaram algum tipo de treinamento formal, eram extremamente requisitados e respeitados pelas suas capacidades no ambiente natural e de mostrarem aos “homens da lei” os caminhos para capturar aqueles que perturbavam a ordem vigente.

Os rastejadores do sertão não eram adivinhos e nem mágicos, porém, sertanejos com conhecimentos privilegiados. Se uma missão lhes era dada, procuravam com invulgar intensidade a sua “caça”. Inconscientes de suas capacidades técnicas atribuíam o próprio sucesso a algo sobrenatural, “coisa do outro mundo”. Dizia-se que os rastejadores sertanejos eram tão dedicados ao que faziam que “enquanto vivos” iriam procurar o seu alvo e recuperar o que havia sido levado. Fosse honra ou ouro!

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O famoso comandante de volantes Zé Rufino e a sua esquerda o rastejador conhecido como Juriti – Fonte – Coleção do autor

Para os que viviam à margem da lei naquele sertão arcaico, estes caçadores de bichos e de homens eram aqueles que prioritariamente deveriam ser abatidos. Se possível da forma mais cruel e sangrenta existente e imaginável.

Trabalho Atencioso

A classe dos rastejadores do sertão sempre foi formado por um grupo de pessoas provenientes dos extratos mais simples da sociedade brasileira, isso desde os tempos da Colônia, do Império e chegando até a República.

Seguramente os primeiros rastejadores foram indígenas, os grandes conhecedores da natureza, grandes caçadores de animais e a mata não lhes tinha segredo. Quando aculturados, normalmente utilizavam suas técnicas especiais para capturar sua própria gente.

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Retirada da Laguna – Fonte – http://datasefatoshistoricos.blogspot.com.br/search?q=retirada+da+laguna&x=11&y=13

Na História do Brasil, durante a Guerra do Paraguai, no terrível episódio da Retirada da Laguna, ficou famoso o trabalho do Guia Lopes e do seu filho. Quem lê o clássico A Retirada da Laguna, de Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay, primeiro e único visconde de Taunay, percebe a atenção que este nobre militar deu a estes homens simples, que possuíam muito mais conhecimento da região onde se deu os episódios da retirada, do que os estrategistas do Exército Brasileiro.

FOTOGRAFIA O GUIA LOPES

Em junho de 1868, com a ajuda dos Lopes, um efetivo com cerca de 700 homens, de um grupo original de 3.000, retornaram alquebrados pela doença e pela fome às linhas brasileiras em Coxim.

Os rastejadores do sertão não tinham letras, mas eram Mestres da natureza sertaneja, donos de uma capacidade invulgar, onde o mínimo graveto quebrado, ou uma pequena pedra deslocada por uma leve pisada, poderia apresentar a estes homens o caminho percorrido por toda sorte de gente considerada malfeitores.

desconhecido
Fonte – chickenorpasta.com.br

Normalmente era uma figura que realizava seu trabalho sozinho e que seguia por caminhos ermos e difíceis. Na hora de sua estranha labuta andava sempre meio curvado pelas veredas e no meio do mato, como que procurando algo no chão. Seus passos eram leves, macios, silenciosos. Em algumas ocasiões era seguido por outros, que estavam ali para ajudar no seu objetivo, mas que nada entendiam de sua odiada e, ao mesmo tempo, respeitada função.

Todos os sentidos de seu magro corpo, queimado pelo sol ardente do sertão funcionavam como verdadeiras antenas que captavam qualquer coisa que fosse estranha em relação à indolente natureza a sua volta. Caçavam vestígios. Procuravam quaisquer alterações na ressequida ecologia que o cercava. Ao se debruçarem sobre um rastro davam notícia se era novo, ou velho, de dias, e de quantos dias.

Vaqueiros - OpenBrasil.org
Foto: Carla Belke Paisagens do Seridó – OpenBrasil.org

Tinham os olhos quase sempre cerrados, com se estivesse mirando um alvo que só eles sabiam onde estava e vendo coisas que ninguém via e nem percebia. Quase nunca falavam e se assim fazia era baixinho, quase sussurrando. Os ouvidos estavam sempre atentos para o mínimo ruído, perscrutando tudo a sua volta e qualquer som estranho era devidamente analisado em átimos de segundos. Queria encontrar algum pequeno indício da passagem do mais violento de todos os seres viventes que andava na terra criada por Deus – O Homem!

Chico Sapateiro e o Escravo Assassino

No período da escravatura no Brasil não faltou trabalho para esses homens, que atuavam juntos aos capitães do mato na caça aos negros escravos fujões, ou quando estes cometiam algum crime.

O cearense Gustavo Adolfo Luiz Guilherme Dodt da Cunha Barroso, o conhecido Gustavo Barroso, que assinava seus textos sobre a região Nordeste e os nordestinos com o pseudônimo de João do Norte, transcreveu na revista carioca Fon-Fon, em setembro de 1937, um texto sobre um trágico episódio ocorrido quase cem anos antes na cidade cearense de Sobral e que envolveu um afamado rastejador sertanejo[1].

SOBRAL ANTIGA
Foto da antiga Praça da Sé, Sobral, Ceará – Foto Joscel Vasconcel

Em 2 de maio de 1841, por volta das dez horas da noite, o negociante Joaquim Francisco do Rego foi assassinado pelo seu escravo Sebastião, que lhe desfechou certeiramente uma forte facada no estômago, que deixou a vítima com um mortal ferimento de polegada e meia de comprimento.

Joaquim era homem de posses em Sobral, sendo conhecido como “doutor Rego” por ter cursado até o terceiro ano da Academia de Direito em Pernambuco, seu estado natal.

Evidentemente que um crime como esse era algo inadmissível naquela sociedade escravocrata e mereceu intensa atenção das autoridades. O juiz de paz Miguel Francisco do Monte convocou Luciano e Sabino, dois respeitados capitães do mato da região para empreitada de caça ao escravo Sebastião. Já um compadre e conterrâneo do falecido, o major Manuel Francisco de Moraes, aparentemente pagou uma certa quantia para que o célebre rastejador Chico Sapateiro apoiasse com a sua capacidade de homem do mato os afamados “homens da lei”. Talvez o rastejador Chico Sapateiro fosse assim conhecido não por produzir calçados, mas por caminhar bem de leve e silenciosamente pelas trilhas.

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A busca de escravos fugitivos foi um grande negócio para os rastejadores no período da escravatura no Brasil.

O major Manuel queria se garantir no serviço, reforçando o aparato que buscava o assassino de seu amigo.

O texto narra que os três homens ganharam os matos muito bem armados, certamente de punhais e armas de fogo de alma lisa. Palmilharam a região durante quatro dias até encontrarem Sebastião escondido na Lagoa das Pedras, perto do Riacho das Itans, e trouxeram o fugitivo amarrado.

Durante o interrogatório Sebastião afirmou que roubou um pouco de aguardente da dispensa de “doutor Rego” e estava bêbado quando esfaqueou e matou seu dono. E tudo ocorreu por medo de ser castigado em razão do seu delito, fato que ocorrera outras vezes. O escravo Sebastião foi condenado a forca e sua execução deveria ocorrer ás nove da manhã do dia 16 de junho do mesmo ano.

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Na execução, algoz subia nos ombros do condenado para acelerar morte. Parece que faltou alguém para fazer no escravo Sebastião isso que a ilustração apresenta.

No dia marcado o condenado saiu da cadeia de cabeça erguida, sendo assistido pelo Reverendíssimo Padre Antônio da Silva Fialho, com escolta de doze guardas nacionais formando alas e comandados por um tenente. Um oficial apregoava pelas ruas de Sobral o delito de Sebastião, sendo acompanhado pelo juiz de paz que seguia a cavalo.

Tudo ocorreu como mandava o figurino da época, mas em certo momento aconteceu uma situação um tanto estranha.

Começou que o carrasco, um outro condenado, não conseguiu executar a pena de tanto chorar e foi o próprio Sebastião, sem nenhuma demonstração de medo, que colocou a corda no pescoço e saltou do patíbulo. O problema foi que ele ficou “algumas horas” se contorcendo pendurado pelo pescoço, até morrer de uma asfixia agoniante.

Nunca mais aconteceu outra execução pública e oficial em Sobral.

O Primeiro Tiro Foi Para o Rastejador

No tempo que os cangaceiros percorriam as veredas das caatingas sertanejas, o rastejador era na maioria das vezes a figura mais importante de uma tropa policial volante e foi contra esses bandidos encourados que os rastejadores fizeram sua fama.

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Antônio Silvino

Não é a toa que os cangaceiros tinham extremado ódio aos rastejadores, que muitas vezes serviram de guias para as forças governamentais que combatiam os celerados nas caatingas. E eram para estes que os cangaceiros dirigiam as primeiras balas no meio de uma peleja.

Em 1910 o pernambucano Antônio Silvino, o conhecido “Rifle de Ouro”, atemorizava os sertões de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. No final de maio daquele ano o famoso chefe de bando seguia com seus cangaceiros pelo interior da Paraíba, na região da cidade de Taperoá, quando soube que em sua perseguição vinha o oficial de polícia Antônio Maurício Pereira de Mello e sua tropa volante[2].

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Xilogravura com a figura de Antônio Silvino

O pesquisador e escritor potiguar Sérgio Dantas comenta em seu livro Antônio Silvino, O Cangaceiro, O Homem, O Mito, que o afamado chefe tinha nutrido ódio a este oficial, tido e havido como valente, cruel e perigoso.

E era para ter cuidado mesmo!

Em 25 de maio, após Maurício receber a notícia que os cangaceiros iriam invadir a pequena urbe de Taperoá, seguiu a caça de Silvino e seus cangaceiros com dezoito homens armados, sendo dois deles, Vicente Pedro Miguel e José do Couto, afamados rastejadores sertanejos. Maurício aparentemente partiu com muita confiança e bem armado, tendo até mesmo em seu poder um artefato explosivo, que seria uma granada militar, ou uma bomba de dinamite. Esperava sem dúvida vencer Antônio Silvino. Mas a notícia da invasão era na verdade uma isca que o cangaceiro espalhou na região, com a ideia de Maurício e sua volante partirem ao seu encalço e caírem em uma emboscada.

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Cidade de Santo André na atualidade – Foto – Thiago Reis da Silva

Os policiais percorreram vários quilômetros até a pequena povoação de Santo André, onde compararam mantimentos e receberam a informação que os cangaceiros se encontravam em uma fazenda dois quilômetros adiante. Enquanto os homens da lei seguiam para o campo de luta, Silvino e seus homens armaram uma emboscada no local denominado Lagoa de Pedras, entre as povoações de Santo André e Timbaúba do Gurjão.

Mas, talvez por excesso de confiança, o oficial dividiu equivocadamente sua tropa, ficando apenas com mais cinco militares e o rastejador Vicente Pedro Miguel[3].

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Em meio às caminhadas e a busca pelos rastros dos bandidos, Maurício e seus homens, mesmo com pouca água e alimentos, pernoitarem embaixo de um umbuzeiro e só retomaram a pista dos cangaceiros nos primeiros raios de sol do dia 26.

O rastejador, segundo reportagem publicada no Jornal Pequeno, seguia a frente de Maurício, do cabo Manoel Albido (ou Albino) e dos soldados Pedro Salustiano, Antônio Beduíno, Manoel Pereira e Antonio José d’Andrade. Enquanto isso, em meio a um local com pedras soltas e paredões transversais, Silvino espalhou seus homens e calmamente aguardou a volante. Quando a tropa ficou na alça de mira dos cangaceiros, foi o rastejador Vicente o primeiro que recebeu um balaço que atravessou sua cabeça. Em meio à fuzilaria na Lagoa de Pedras, o oficial Mauricio ainda tentou incitar a tropa, mas também acabou varado com um tiro na cabeça disparado por Antônio Silvino. A ação de emboscada dos bandidos foi de tal maneira bem feita e executada, que o oficial nem conseguiu lançar seu propalado artefato explosivo contra os inimigos.

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Após a balaceira, que no entender do cangaceiro Cobra Verde foi “fogo grande”, o chefe do bando decidiu deixar um recado bem dado aos seus perseguidores. Munido de uma pesada pedra espatifou a cabeça do comandante da volante, cortou sua carótida e deixou várias perfurações de punhal em seu corpo.

Apesar das informações contidas sobre o episódio no ótimo livro de Sérgio Dantas e no texto do Jornal Pequeno nada comentarem, eu acredito que o corpo do rastejador Vicente deve ter recebido as mesmas “honrarias cangaceiras” prestadas ao oficial Maurício[4].

Lampião Sofre no Piancó com o rastejador João Montenegro

Seguindo por trilhas, “assuntando” o terreno com simples toques de seus dedos em seixos e cascalhos, apontando com segurança a um comandante de volante por onde seguiram os bandoleiros, muitas vezes eram estes rastejadores que poderiam trazer grandes problemas para os cangaceiros, inclusive para o maior deles – Lampião.

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Alguns marcaram época perseguindo Lampião, como, por exemplo, José Felix dos Santos, que serviu na volante do tenente Menezes, da polícia baiana, ou o pernambucano Antônio Cassiano, comentados por Ranulfo Prata em seu livro Lampião[5].

Em julho de 1927, praticamente um mês após o fracassado ataque de Lampião a Mossoró, quando ele e seus homens aterrorizaram o Rio Grande do Norte, ele se encontrava em franca debandada, bastante acossado pelos policiais e com o bando reduzido de 80 e poucos cangaceiros para algo em torno de 30 homens.  Além dos combates que teve de travar após Mossoró, dos prejuízos financeiros, das traições, Lampião perdeu homens do quilate de um Sabino, de um Jararaca e muitos outros cangaceiros desertaram de suas fileiras. Tentando recompor o bando e lamber as feridas de suas derrotas, Lampião buscou refúgio na região onde as fronteiras da Paraíba, Pernambuco e Ceará se encontram e daí chegar no seu Pajeú natal. 

Na noite quase enluarada de 12 de julho, uma terça feira, o chefe vem à frente de um grupo composto que para alguns seria de 32, e para outros de 24 cangaceiros. Vinham todos montados em alimárias e chegaram ao sul da zona rural da cidade de Conceição de Piancó, mais precisamente na localidade de Santa Inês. No seu trajeto haviam passado nas proximidades da Serra da Pintada.

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Não sabemos se houve alterações no povoado, mas aparentemente nada de errado aconteceu, pois a notícia corrente foi que o bando seguiu com suas montarias para se arrancharem ás margens de um riacho, que nas épocas de chuva formava uma corredeira conhecida como Cachoeira do Inferno. Os cangaceiros descansavam da verdadeira peregrinação para tentar chegar até o apoio de bons coiteiros[6].

Mas naqueles dias o que menos o grande chefe cangaceiro teria era tranquilidade!

Não sabemos se era por vingança, ou somente por dever de ofício, mas os jornais da época relatam que o rastejador João Montenegro foi quem levou José Leite, o delegado de Conceição do Piancó, o sargento Themistocles, da polícia paraibana, e Raimundo Quintino, o subdelegado da cidade, até a Cachoeira do Inferno. Além destes foi formado um grupo com cerca de 50 homens armados da região de Conceição para dá combate a Lampião e seus cangaceiros[7].

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O grupo partiu da cidade do extremo oeste da Paraíba por volta do meio dia de 13 de julho, percorrendo os 24 quilômetros até a região da Cachoeira do Inferno. Certamente seguiram com muito cuidado, atentos e nervosos com o que poderia acontecer. Por volta do meio da tarde os homens de Conceição chegaram no rancho dos cangaceiros e a bala comeu!

Sérgio Dantas aponta no seu livro Lampião no Rio Grande do Norte – A História da Grande Jornada que o grupo combateu os invasores com rara coragem. E deve ter sido mesmo, pois os cangaceiros fugiram deixando para trás todos os seus animais de montaria.  Mesmo entrincheirados os cangaceiros não aguentaram a força da investida. Depois de uma hora de renhido e feroz tiroteio, eles fugiram correndo no meio do mato. Fugiram para as Serras da Barrinha e do São Lourenço. Certamente a habilidade de João Montenegro também ajudou, pois colocou aquele grupo de homens valentes do Piancó em uma posição onde eles puderam surpreender os cangaceiros e atacar com sucesso[8].

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No mesmo dia em Santa Inês, por volta das quatro da tarde, o grupo de paraibanos se encontrou com a volante do sargento José Alves, da polícia pernambucana. Os dois grupos uniram forças e subiram as serras em busca dos cangaceiros, mas eles conseguiram fugir[9].

Com o passar dos anos o Cangaço acabou. Com a evolução tecnológica, a melhoria das estradas e dos veículos de  transporte, das armas de fogo e do uso das comunicações via rádio no combate contra a criminalidade, muitos membros das forças policiais nordestinas deixaram de buscar os tradicionais saberes dos afamados rastejadores sertanejos para caçarem toda sorte de gente ruim.

Os Últimos Rastejadores – O Caso Floro Gomes Novais

Mas houve um caso em especial, ocorrido em 24 de fevereiro de 1971 , onde as forças policiais voltaram a utilizar os poucos rastejadores sertanejos ainda na ativa. O caso em questão foi a morte do mais famoso pistoleiro do Nordeste na época – Floro Gomes Novais.

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Este era para muitos dos seus aliados era um justiceiro, que só matava por vingança. Já para os inimigos era um cruel e frio pistoleiro de aluguel, com mais de 120 mortes nas costas.

Floro nasceu em 15 de janeiro de 1931, no distrito de Prata, em Garanhuns e sua vida de crimes realmente começou após o assassinato de seu pai, o marchante Ulisses Gomes Novais, ocorrida em 4 de dezembro de 1951, em uma emboscada no lugar Capelinha, em Santana do Ipanema, município vizinho a Olivença, Alagoas.

Enéas Vieira era o líder político de Olivença e desejava comandar a política no lugar onde Floro morava com sua família e isso levou a uma desavença com seu pai e um outro amigo da família chamado Manoel Roberto. Logo seu pai e Roberto foram assassinados. Para evitar morrer Floro foi para São Paulo, mas prometeu voltar.

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Floro Novais atirava muito bem e utilizava pequenos alvos, no caso da foto com uma lagartixa, para treinar sua destreza com um 38.

Não demorou muito o jovem retornou e foi logo matando dois dos assassinos de seu pai. Um deles – João José – morreu na bodega de seu primo Bida, em Capelinha. Em 1957 foi tocaiado por três pistoleiros e matou todos eles. Um dos atingidos por Floro, antes de morrer, confessou que o grupo havia sido contratado por Enéas Vieira. Floro chegou mesmo a atacar Enéas Vieira em uma feira, atingindo-o com um tiro e só não o retalhou a peixeradas pela intervenção do padre do lugar. Em outra ocasião emboscou Enéas e um irmão (alguns apontam que era um sobrinho) em uma estrada, mas errou o acusado de ser o mandante da morte de seu pai e matou seu parente que o acompanhava. Contudo foi seu irmão Antônio, o caçula da família, que em setembro de 1970 matou sozinho Enéas Vieira diante de uma barbearia em Olivença.

Mas na quarta feira de cinzas de 1971, Floro foi assassinado a tiros nas caatingas da sua fazenda Mamoeiro, em Itaíba, sertão de Pernambuco. Sabia-se que ele tinha sido convidado para uma caçada, mas a caça foi ele!

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Casa sede da fazenda Mamoeiro, em Itaíba, sertão de Pernambuco.

Ocorre que a morte de Floro causou extrema repercussão em Pernambuco e um delegado especial foi designado, era o Dr. Severino Torres Galindo. Em meio às investigações para a prisão dos assassinos de Floro, as polícias civis e militares de Pernambuco e Alagoas, em conjunto com vinte agentes da Polícia Federal sob o comando do inspetor David Sales, realizaram uma verdadeira “varredura no terreno” em busca de pistoleiros implicados em vários outros processos.

Muitas fazendas das zonas rurais de Itaíba, Águas Belas (Pernambuco), Santana do Ipanema e Jacaré dos Homens (Alagoas) foram extensivamente vasculhadas. Muitas destas fazendas eram verdadeiros “covis de pistoleiros” e os acessos a estes locais um inferno. Mas deu resultado positivo, com a prisão de trinta e tantos matadores de aluguel e seus coiteiros.

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Policiais civis, militares e federais, com o apoio de rastejadores, na caça aos assassinos de Floro Gomes Novais em 1971 no sertão de Pernambuco.

Setores da imprensa divulgaram, de maneira bem discreta, que os policiais estaduais e federais utilizaram os serviços de alguns dos velhos rastejadores pernambucanos. Mesmo com toda discrição, aparentemente o uso destes rastejadores chegou a imprensa do sul do país. Em dezembro de 1971 a extinta Revista Realidade publicou uma interessante reportagem produzida pelo jornalista José Leal da Silva, com fotografias do francês Jean Solari, onde trouxe a baila as histórias das pessoas que perseguiam bandidos com métodos bem peculiares e pitorescos. 

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Entre esses rastejadores se encontravam Serra Azul. Este era um octogenário índio da tribo Fulniô, que contou ter perseguido Lampião e quase foi morto pelo chefe cangaceiro, mas que um dia chegou a um acordo com ele e selaram a paz. Disse que era rastejador, mas também “tinha sido soldado, cangaceiro e criminoso”. Morava na aldeia Fulniô perto da cidade de Águas Belas, Pernambuco, e para conseguir pegar os fugitivos sempre rezava para Edjaú, a entidade máxima da religião de sua tribo.

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Outro rastejador famoso entrevistado foi José Gomes dos Santos, o João Bolandeira. Este era um orgulhoso pai de 27 filhos que “vingaram” (ou que sobreviveram a seca e a fome) e em 1971 morava em uma casa de chão batido no lugar Riacho das Lajes, também em Pernambuco. Bolandeira tinha fama de ter capturado mais de cem assassinos e ladrões. Entre seus métodos infalíveis para capturar os meliantes estava o de rezar para as almas do outro mundo em busca de orientação. Se o “causo” era complicado ele acendia sete velas, em sete encruzilhadas diferentes, sempre da última para primeira. E quando a situação era periclitante mesmo, pedia ajuda externa. João Bolandeira recorria então a amiga Liquinha, ou madrinha Lica, uma rezadeira de Garanhuns que considerada infalível e vivia em uma humilde casa nesta bela cidade serrana pernambucana.

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Outro dos famosos foi Manuel Matias, o conhecido Tôta. Este só seguia o rastro dos “cabras de peia” depois de limpar o corpo com um banho que incluía na sua composição água de colônia e alecrim. Além disso fazia a assepsia em um quarto com incenso e terminava o ritual vestindo roupas bem limpas. Dizia que tinha ao seu lado um guia de luz, do qual nunca declinou o nome e que o protegia durante o rastejo. O certo é que ele foi responsável pela prisão de muitos pistoleiros, entre estes o perigosíssimo Antônio do Algodão, que juntamente com seu filho Luís Marco, verdadeiramente tocaram o terror nas caatingas entre a Paraíba e Pernambuco. Pai e filho pistoleiros tinha assassinado o vaqueiro Manuel Mariano, no lugar Serra Queimada, perto do município de Iati, Pernambuco. O fato se deu no cabaré de Zé Cazuza e ocorreu apenas pelo fato do vaqueiro está bebendo em uma mesa junto a Luísa, mulher que o pistoleiro Antônio do Algodão considerava sua propriedade. Injuriado com uma morte tão covarde Tôta se armou de um Papo amarelo 44, rezou muito e foi à caça dos dois assassinos. E não deu outra, Tôta prendeu os dois e os levou para a delegacia do povoado de Santo Antônio do Tará, perto da cidade de Pedra, no Agreste Pernambucano.

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A reportagem de 1971 mostravam homens que pareciam deslocados do tempo, exercendo um ofício que parecia mais não se encaixar nos tempos modernos.

Sobre os rastejadores do sertão se criaram ideias fáceis e praticamente fixas sobre seu modo de ser e de viver. Pelo seu trabalho e sua condição de vida estes homens foram geralmente desprezados ao longo de décadas pelos estudiosos do sertão nordestino. Estes não perceberam que ao redor destas figuras existia um intenso manancial de impressionantes informações sobre a natureza, sobre a gente, a religiosidade e a História desta peculiar região do Brasil.

P.S. – Gostaria de esclarecer que as informações sobre o pistoleiro Floro Gomes Novais me foram transmitidas por pessoas da região do Pajeú, em Pernambuco.


NOTAS

[1] Ver Revista Fon-Fon, Rio de Janeiro-RJ, edição de 18 de setembro de 1937, pág. 36. O líder integralista e notório antissemita Gustavo Barroso copiou este texto, sem dar nenhum crédito, de um texto produzido pelo magistrado, jornalista, historiador e político Paulino Nogueira Borges da Fonseca. Intitulado “Execuções de pena de morte no Ceará”, foi publicado na Revista Trimestral do Instituto do Ceará, ano VIII, Tomo VIII, 1º e 2º trimestres de 1894. Apesar do tema ser pesado e difícil, o texto de Paulino Nogueira possui uma narrativa ágil e interessante, onde o autor, em mais de 150 páginas, enumera as execuções oficiais ocorridas no Ceará desde 1632. Diante de uma verdadeira praga de criminalidade que vivemos nos dias atuais o texto mostra que em um país chamado Brasil a pena de morte seria algo sem a mínima condição de funcionar corretamente.

[2] Com relação a história do munícipio paraibano de Taperoá, em 1873, por lei provincial nº 475, de 06 de outubro, a localidade de Batalhão foi elevada a categoria de Distrito de Paz. Já Herculano de Souza Bandeira, Presidente da Província da Parayba do Norte, através da Lei nº 829, de 06 de outubro de 1886, elevou a povoação à categoria de vila. Em 1905, através de Lei Municipal, a comunidade teve a denominação mudada para Taperoá. Em 31 de dezembro de 1943, o decreto-lei estadual nº 520, oficializou a antiga denominação de Batalhão. Mas a comunidade se insurgiu e menos de dois anos depois, em 07 de janeiro de 1945, a lei estadual nº 318 restabeleceu o topônimo Taperoá. O termo nitidamente bélico para esta comunidade estaria ligado a uma grande peleja ocorrida entre os remanescentes dos índios cariris e os primeiros brancos que penetraram na região, ou a uma batalha travada em 1824 entre os republicanos da Confederação do Equador, que tentavam uma retirada para o Ceará, e as forças legalistas. http://www.taperoa.pb.gov.br/a_cidade/historia

[3] Atualmente as cidades paraibanas de Santo André e Gurjão.

[4] Ver DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. Lampião e o Rio Grande do Norte: A história da grande jornada. Natal: Cartgrat Gráfica Editora, 2005. Págs. 141 a 145. Ver igualmente Jornal Pequeno, Recife-PE, edição de sábado, 18 de junho de 1910, página 2. Este periódico recifense reproduziu a matéria publicada em 12 de junho daquele ano no jornal 15 de Novembro, de Campina Grande, Paraíba. Em um texto muito detalhista, é nítida a ideia de enaltecer o falecido oficial Maurício, mas percebe-se sem maiores problemas o seu grave erro ao dividir a tropa e a grande capacidade de combate de Antônio Silvino e seus homens.

[5] Ver Prata, Ranulfo. Lampião. São Paulo: Editora Traço, 1985, pág. 151.

[6] A cidade paraibana de Conceição de Piancó, atualmente é apenas conhecida como Conceição e se encontra na área da Região do Vale do Piancó e fica a 482 quilômetros da capital João Pessoa. Existe atualmente ao sul de Conceição o município de Santa Inês, emancipado Pela lei estadual nº 5908, de 29 de abril de 1994.

[7] Raimundo Quintino era um homem valente e brigador. Em junho de 1926 ele havia entrado em combate contra o grupo de Sabino nas proximidades de Conceição do Piancó, que deixou fora de combate três cangaceiros, entre estes João Mariano. A volante de Raimundo conseguiu alguns troféus interessantes dos bandoleiros, entre estes consta um ferro de marcar com as letras “J J” e que teria pertencido ao cangaceiro José Juriti. Outro material que chamou atenção foi um punhal de três quinas, com 35 centímetros de comprimento na lâmina, que teria sido um presente do próprio Lampião ao seu companheiro Sabino. O grande punhal trazia oito marcas na lâmina, que teria sido creditado a oito “sangramentos” praticados pelo temível e violento Sabino. Um jornal carioca reproduziu um texto publicado pelo Jornal do Commercio, de Recife, sobre estes materiais, suas procedências e a quem eles haviam pertencido. Consta na nota que este material ficou em exposição na sede do periódico na Rua do Imperador, no bairro de Santo Antônio, centro da capital pernambucana. Ver O Imparcial, Rio de Janeiro-RJ, edição de quarta feira, 25 de agosto de 1926, pág. 5.

[8] Sobre a narrativa do combate ver DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. Lampião e o Rio Grande do Norte: A história da grande jornada. Natal: Cartgrat Gráfica Editora, 2005. Págs. 323 e 345. E o jornal Correio da Manhã, Rio de Janeiro-RJ, edição de terça feira, 19 de julho de 1927, pág. 2.

[9] O sargento Alves telegrafou ao seu comandante, o então major Theophanes Torres Ferraz, dando ciência do ocorrido. Sobre o telegrama ver o jornal A Província, Recife-PE, edição de sexta feira, 15 de julho de 1927, pág. 1.

DOS FUNDADORES DO SERIDÓ PORTUGUÊS

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Serra da Rajada, Seridó Potiguar – Fonte – Rostand Medeiros

Autor – Fernando Antonio Bezerra – Potiguar do Seridó. Iniciante no ofício de escrever sobre fatos e personalidades do Seridó amado. É advogado e membro do Instituto de Genealogia do Rio Grande do Norte.

Fonte – http://www.substantivoplural.com.br/87364-2/

José Augusto Bezerra de Medeiros, além de político, foi um grande pesquisador a respeito das coisas do Seridó. Felizmente deixou vários apontamentos impressos que servem de pesquisa e, de fato, ajudam a estabelecer o elo entre o presente e o passado. De início, confirmando outros tantos estudos já feitos, José Augusto comenta que “na zona do Seridó, por exemplo, certo e seguro é afirmar que todo movimento povoador decorreu da necessidade de encontrar espaço para a localização de fazendas de criação de gado”. Acrescenta, ainda, que, durante algum tempo, foi o Rio Grande do Norte o principal fornecedor de carne bovina para as Capitanias da Paraíba e Pernambuco. Presente, portanto, desde o início, nossa vocação para a pecuária e, de certa forma, o longo aprendizado que nos permite, mesmo diante de secas inclementes, criar e manter rebanhos bovinos no Seridó que a gente ama.

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Fonte – http://www.elo7.com.br/brasao-da-familia-medeiros/dp/3A367E

E os primeiros grandes núcleos familiares se estabeleceram, em regra, em função da pecuária. José Augusto menciona o que chama de fundadores das primeiras famílias do Seridó: 1) Araújo, com Tomaz de Araújo Pereira e Maria da Conceição Mendonça; 2) Dantas, com Caetano Dantas Correia e Josefa de Araújo Pereira; 3) Medeiros, com Rodrigo de Medeiros e Apolônia Barbosa; Sebastião de Medeiros e Antonia de Morais Valcacer; 4) Galvão, com Cipriano Lopes Galvão e Adriana de Holanda Vasconcelos; 5) Garcia, com Antonio Garcia de Sá e Maria Dorneles Bitencourt; 6) Bezerra, com José Bezerra Menezes e Maria Borges de Sacramento; 7) Monteiro, através de Manuel Pereira Monteiro e Teresa Tavares de Jesus; 8) Nóbrega, com Manuel Alves de Nóbrega e Maria José de Medeiros; 9) Silva, com Francisco Gomes da Silva e Maria Joaquina dos Santos Dantas; 10) Faria, com Joaquim Álvares Gomes de Faria e esposa; 11) Azevedo, com Antonio de Azevedo Maia e Josefa Maria de Almeida; 12) Fernandes, com Cosme Damião Fernandes e Isabel Maria de Araújo Fernandes. Outras famílias – Brito, Álvares, Pires, Alves dos Santos, Batista, Queiroz, Vale, por exemplo – também são antigas no nosso lugar, entretanto, o trabalho de pesquisa de José Augusto não investiga os fundadores dos primeiros núcleos, lacuna que já foi preenchida por outros pesquisadores, sobre os quais em outro momento conversaremos.

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Fonte – http://www.substantivoplural.com.br/87364-2/

De todo modo, particularizando a família Medeiros, numerosíssima em todo o Seridó, José Augusto reafirma que os irmãos Rodrigo e Sebastião são portugueses e se instalaram na Região, proximidades do Sabugi, nos limites do que hoje é Santa Luzia, na Paraíba. Os irmãos Medeiros conseguiram casamento por aqui com Apolônia e Antônia, irmãs entre si, filhas de Manuel Fernandes Freire e de Antônia de Morais. Uma pesquisa mais aprofundada da Família Medeiros/Dinoá complementa, sem contrariar os apontamentos de José Augusto, que Rodrigo e Sebastião são filhos de Manuel Afonso de Matos, Alferes, e Maria de Medeiros Pimentel, naturais da Ilha de São Miguel, nos Açores, Portugal e, por lá, eram da família Matos. Migraram para o Brasil na primeira metade do século XVIII, passaram a usa r o sobrenome Medeiros e deixaram aqui numerosa descendência.

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Os laços e abraços entre as famílias do Seridó são intensos. Por muitos anos, inclusive, a preferência das famílias era o casamento entre parentes. Razões para tanto não faltavam. Desde a preservação do patrimônio até o fato de que a população era menor, os eventos sociais raros, as distâncias maiores, enfim, muitas vezes não existia sequer a oportunidade do encontro entre os jovens. Ademais, de um tempo para frente, o fluxo migratório inverteu, ou seja, deixamos de receber outras famílias. Ao contrário, começamos a sair para outros centros e espalhar o sangue bom do Seridó em lugares como Natal, Recife, Campina Grande, São Paulo e Brasília, dentre outros onde os núcleos seridoenses são mais visíveis. Aliás, é relativamente comum em Natal encontrarmos descendentes de famílias seridoenses em uma mesma roda de conversa e, não raro, um ser parente do outro e não saber. Mas, mesmo não tendo o parentesco próximo, o laço de estima à Região nos une e, ao nos unir, é comum a batida no peito e a palavra de orgulho: ei, mas eu também sou do Seridó!

ENTRE PEDRAS E CAMINHOS – O SERTÃO NORDESTINO NA VISÃO DE SÉRGIO AZOL

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O pequeno resumo de uma ótima viagem.

Rostand Medeiros

Acho que foi em novembro de 2015 que a minha mãe, Creuza de França Medeiros, uma pessoa bastante interessada em artes e pinturas, me comentou sobre uma exposição que estava acontecendo em Natal, no velho e suntuoso Solar Bela Vista, no bairro da Ribeira.

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Ela me falou que um jovem pintor estava apresentando vários quadros sobre Lampião e o Cangaço, mas que estes eram criados de uma forma diferenciada, com uma apresentação bastante interessante e que certamente eu gostaria de ir lá ver.

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Bom, como eu frequentemente não sou de discordar da minha mãe e como estes temas nordestinos sempre me interessaram desde que me entendo por gente, eu não perdi tempo e fui lá visitar a exposição.

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Realmente para alguém muito pouco ligado aos pincéis, como é o meu caso, os quadros que encontrei no velho Solar eram bem diferentes do que eu já havia visto. Vi trabalhos de variadas dimensões, com muito colorido, pinceladas livres, que na minha visão possuíam algo de muito interessante, belo e poético.

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Logo fui apresentado ao artista plástico Sérgio Azol pelo jornalista Thiago Cavalcanti, que realizava a assessoria de imprensa do evento. Na conversa, para minha surpresa, descobri que Azol conhecia o nosso blog TOK DE HISTÓRIA, que era de Natal e que havíamos estudado em turmas deferentes no velho Salesiano da Ribeira, na época do ensino colegial.

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No contato soube que a família de Sérgio Azol possui profundas raízes sertanejas, que ele tem um forte sentimento de orgulho em relação a estas origens e a sua arte tem muito dessa ligação afetiva com a sua história familiar.

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Apesar disso ele me comentou que cedo deixou Natal, viveu em grandes cidades do sul do Brasil e nos Estados Unidos e pouco conhecia do sertão. Ele desejava ter um maior contato com a região, principalmente na área aonde o chefe cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, atuou mais fortemente junto com seus homens.

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Comentei-lhe que compartilhávamos origens parecidas e que tenho o mesmo sentimento de orgulho em relação ao fato de ser um nordestino. Daí o papo correu solto e logo estávamos planejando uma viagem que pudesse abranger, em um espaço determinado de tempo, o máximo de locais que lhe proporcionasse descortinar muito da intensa vida deste cangaceiro.

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Na estrada. Aqui realizando uma visita ao Museu do Artesanato de Bezerro e agradecendo o profissionalismo do pessoal.

Este planejamento ocorreu sem maiores alterações, pois, além de escritor e pesquisador de temas nordestinos, eu sou um Guia de Turismo credenciado pelo Ministério do Turismo, com mais de quinze anos de experiência e já possuo muitos quilômetros de estradas percorrendo o Nordeste.

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Neste sentido o objetivo ficou centrado principalmente na região do Pajeú Pernambucano, área de nascimento de Lampião. Depois seguiríamos para a cidade de Piranhas, no oeste do estado de Alagoas, as margens do Rio São Francisco e próximo da Grota do Angico, local da morte de Lampião e localizado no belo estado de Sergipe.

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Em Floresta estivemos juntos dos maravilhosos amigos (da esq. para dir.) Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, Djanilson Pedro e Marcos Antonio de Sá, o conhecido como “Marcos De Carmelita”.

Logo contatei pessoas maravilhosas, grandes amigos, que se colocaram a disposição para ajudar no que fosse necessário. Entre estes estava Carmelo Mandu, da cidade paraibana de Princesa Isabel e André Vasconcelos, em Triunfo, Pernambuco. Já da bela cidade de Floresta, também em Pernambuco, os escritores e pesquisadores Marcos Antonio de Sá, conhecido como “Marcos De Carmelita”, e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, autores do livro “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE”, recentemente lançado, se prontificaram a ajudar.

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Apesar deste contato extremamente positivo, por diversas razões o “OK” para iniciarmos esta viagem demorou um pouco mais do que planejamos. Mas finalmente a ordem de partida foi dada e caímos na estrada.

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Saí de Natal para me encontrar com Azol em uma segunda-feira de madrugada, seguindo para Recife, onde ele desembarcaria no Aeroporto dos Guararapes. Ocorre que cheguei na capital de todos os pernambucanos em um dia que esta cidade literalmente ficou debaixo d’água. Trechos que levaria 20 minutos para percorrer foram completados em uma hora e meia e era tanta água que cheguei a duvidar se conseguiria mesmo alcançar ao aeroporto. Graças a Deus deu tudo certo.

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Partimos com uma paisagem e um clima que mais lembravam a Serra Gaúcha, do que o agreste pernambucano. Mas foi legal para ambientar Azol e lhe contar aspectos da história da expansão da cultura canavieira e como se deu à ocupação do sertão pelos portugueses, a origem dos cangaceiros e vários outros temas.

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O papo ia rolando, a BR-232 se abrindo na nossa frente e isso tudo com o som do carro tocando o Mestre Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, Quinteto Armorial e o Quinteto da Paraíba, Zé Ramalho, Elomar, Fagner, Genival Lacerda, Alceu Valença, Antônio Nóbrega, Mestre Ambrosio e muito mais.

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Inspirado, logo Azol foi pedindo para que eu realizasse várias paradas para executar muitas fotos. Muitas delas estão aqui para os leitores do TOK DE HISTÓRIA.

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Pelos dias seguintes estivemos nas cidades de Bezerros, Belo Jardim, Arcoverde, Serra Talhada, São José de Belmonte, no local da mística Pedra do Reino, na região da cidade de Floresta, nas ruínas da casa onde nasceu Lampião, em Piranhas, navegamos pelo Rio São Francisco, caminhamos pela trilha que leva até a Grota do Angico. Depois retornamos por Garanhuns, Caruaru e Recife. Infelizmente, devido ao tempo curto que dispúnhamos e da necessidade de realizar muitas paradas, não foi possível visitar Princesa Isabel e Triunfo. Peço desculpas aos amigos Carmelo Mandu e André Vasconcelos.

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Mas percorremos muitas estradas de barro em plena caatinga braba. Paramos para conversar com sertanejos, com vaqueiros e outros mais. Conversamos com pessoas que sabem transmitir, com narrativas extremamente dignas, várias histórias sobre Lampião, sobre outros cangaceiros, sobre as volantes policiais, as sangrentas guerras de famílias no sertão, sobre as secas, as enchentes e outros temas. Foi possível apresentar o rico artesanato, a culinária e a história desta região extremamente singular e representativa desta parte do Brasil.

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Para mim (e acredito que igualmente para Sérgio) os momentos particularmente mais interessantes foram em Floresta.

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Conhecendo o gosto do cacto “Coroa de frade”.

Maravilhosamente apoiados pelos escritores e pesquisadores Marcos Antonio de Sá e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, percorremos inúmeros locais que foram palco de lutas entre valentes florestanos contra Lampião e seus cangaceiros.

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Marcos de Carmelita explicando a Sérgio Azol aspectos históricos da luta travada na Tapera dos Gilo em 1926.

Entre estes locais o mais significativo sem dúvida alguma foi à visita a propriedade da Tapera dos Gilo, local do maior massacre da história do Cangaço. Nesta propriedade conhecemos o nobre sertanejo Djanilson Pedro, o conhecido “Pané”, descendente dos membros da família Gilo.

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Cemitério onde descansam eternamente os membros da família Gilo massacrados por Lampião em 1926.

Em razão de um ardiloso e nefasto estratagema orquestrado por um inimigo, esta família foi atacada no dia 26 de agosto de 1926 pelo bando de Lampião e um grupo em torno de 120 cangaceiros. Neste dia sangrento mais de 10 pessoas foram mortas na propriedade e nas redondezas pelos bandoleiros das caatingas. Tivemos a oportunidade de ouvir a narrativa oral que é transmitida pela família de Djanilson sobre os episódios de 1926, sua opinião sobre aquele momento extremamente difícil para sua família, as consequências disso e foi possível visitar os locais de luta. Foi um dia muito positivo e produtivo, que só engrandeceu a nossa busca pelo conhecimento.

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Djailson relatando a tradição oral referente ao massacre da família Gilo.

Eu acredito que o mais importante em qualquer viagem não é o destino, mas o caminho e não existe coisa melhor na profissão de Guia de Turismo do que conhecer pessoas. Principalmente pessoas que amam aprender viajando e que gostam de transmitir aquilo que conhecem. E isso fica ainda melhor quando a estrada é percorrida junto de alguém que possui muita humildade, algo fundamental em um bom viajante.

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E por isso considero Sérgio Azol é um ótimo viajante…

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INSPIRADO EM RECORDAÇÕES, ARTISTA POTIGUAR RETRATA COTIDIANO DO SERTANEJO

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Pintura de uma festa junina em Currais Novos (Foto: Assis Costa) – Fonte – G1

‘Não podemos negar nossas origens’, diz o curraisnovense Assis Costa.
Para pintar, ele lembra das brincadeiras de criança e dos banhos de açude.

Nascido na cidade de Currais Novos, no Seridó potiguar, o artista plástico Assis Costa retrata o cotidiano do sertanejo através das próprias recordações. Prestes a fazer 40 anos, o pintor ainda lembra da sensação única de construir os próprios brinquedos, tomar banho de açude e subir em árvores.

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Circo na cidade (Foto: Assis Costa) – Fonte – G1

O gosto pela arte começou cedo. “Quando eu era criança, comecei a experimentar e usar tintas, além de desenhar. Fiz um curso e, com 14 anos, comecei a vender minhas telas”, disse. Hoje, ele vive da venda das obras.

Com mais de 15 exposições durante a carreira, Assis tem uma preferida. Em 2012, fez uma mostra chamada ‘Seridós’. Ao portal G1, ele disse que foi uma maneira marcante de expor a cidade para quem não conhecia. “Quero ressaltar meu respeito pela cultura potiguar. O que eu vejo é que a religião é muito forte no interior, principalmente a católica. A fé, a paisagem e o povo sertanejo são minhas maiores inspirações”.

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Paisagem do Seridó (Foto: Assis Costa) – Fonte – G1

Os trabalhos sobre o Seridó continuam. “Minha memória reflete em tudo que produzo. Uma das minhas telas mostra como era quando um circo chegava a cidade. Era extraordinário. Toda a população assistia os espetáculos. E é esse o sentimento que procuro demonstrar”, relembrou.

Assis também lembra de situações engraçadas que serviram de inspiração. “Eu estava tomando vinho na casa de um amigo e ele me disse ‘rapaz, você está bebendo muito e daqui a pouco você não vai saber com o que está pintando’, e eu comecei a experimentar o vinho como tinta. E deu certo! Resultou em uma exposição chamada Dom Quixote de Las Manchas de Vinho”, emendou.

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Teatro de João Redondo (Foto: Assis Costa) – Fonte – G1

Não há dúvidas sobre o futuro. “Sempre fui artista e vou continuar sendo. Apesar de morar no interior, pretendo mostrar minhas obras para pessoas do Brasil inteiro, quem sabe até de outros países. Não podemos negar nossas origens. E é por isso que retrato minha cidade com tanto carinho”, afirmou Assis.

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Ceia dos Meninos (Foto: Assis Costa) – Fonte – G1

FONTE – http://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2016/07/inspirado-em-recordacoes-artista-potiguar-retrata-cotidiano-do-sertanejo.html

 

A POÉTICA GEOGRAFIA DO CANGAÇO

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Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Capa. Reprodução

Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou [Vento Leste, 2016, 104 p.] é um encontro único: as elegâncias das fotografias de Márcio Vasconcelos e do texto de Frederico Pernambucano de Mello, a exuberância das paisagens, a grandeza dos personagens e o imenso legado cultural deixado pelo bando liderado por Virgulino Ferreira da Silva.

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Casa de dona Jocosa. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

O maranhense Márcio Vasconcelos embrenha-se na geografia sui generis do Nordeste para refazer os caminhos percorridos por Lampião e seus cangaceiros, da invenção do bando à execução de seu líder, em 1938, na Grota do Angico, em Poço Redondo/SE, ao lado de Maria Bonita e outros nove homens.

Apenas duas fotos não são de sua autoria, espécie de tributo ao fotógrafo Benjamim Abraão, que retratou o bando de Lampião em vida, saga contada por Paulo Caldas e Lírio Ferreira em Baile perfumado [1996], com imagens do acervo do fotógrafo sírio-libanês e trilha sonora puxada pela turma do manguebit.

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Um dos habitantes atuais dos lugares por onde Lampião passou há quase um século. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

A trilha por que o fotógrafo nos conduz ao longo das páginas do livro, finalista do prêmio Conrado Wessel de Fotografia 2011 e vencedor do XI Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, passa por cinco estados e entre os personagens que ele encontra estão Dona Minó (1923-) – filha de Zé Saturnino, tido como o inimigo número um de Lampião –, Elias Matos Alencar (1914-2013) – membro da volante do Tenente João Bezerra, responsável pela execução de Lampião e seu bando –, e Manuel Dantas Loiola, vulgo Candeeiro (1916-2013), cangaceiro do bando de Lampião, além de atuais habitantes dos lugares.

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A devoção a Padre Cícero. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

As paisagens remontam à rima involuntária beleza/pobreza, com vantagem para a primeira, eterna sina de grande parte do Nordeste e sua população. É particularmente comovente uma sequência de fotos em que uma mulher comum chora a morte de um jumento, abraçando-o como a um ente querido. A devoção (sobretudo a Padre Cícero, mas não só) também é elemento importante ao olhar de Márcio Vasconcelos.

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A grota do Angico, onde Lampião, Maria Bonita e outros nove cangaceiros foram executados em 1938. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

O trunfo do encontro entre palavras e imagens está justamente em umas não quererem explicar as outras: enquanto o fotógrafo percorre hoje caminhos pisados por Lampião há quase um século, Frederico Pernambucano de Mello, historiador, membro da Academia Pernambucana de Letras, reivindica ao ícone do cangaço o status de artista: “pelo orgulho, pela sobranceria, pela vaidade, pelo desassombro da imagem ostensiva, pela força de formação de uma subcultura à base de derivações nada desprezíveis na música, na poesia, na dança, na culinária, no artesanato, na medicina, nos costumes, na moral, na religiosidade, na arte militar intuitiva e mesmo na arte de expressão plástica, a partir da herança pastoril, o cangaço sumaria, aos olhos do brasileiro de hoje, a franja de todas as insurgências, sua saga confundindo-se com a própria ideia de resistência contra poderosos”, anota.

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Os textos deste maravilhoso trabalho foram do amigo Frederico Pernambucano de Mello.

Outra grandeza que merece destaque é não quererem tirar conclusões. Muito já foi dito sobre o cangaço e particularmente Lampião é fartamente biografado. “Os cangaceiros não foram heróis nem bandidos. Foram homens que disseram não à situação”, anota Vasconcelos na legenda da foto da Grota do Angico.

FONTE – https://zemaribeiro.wordpress.com/2016/04/27/a-poetica-geografia-do-cangaco/