QUANDO KIRK DOUGLAS BRINCOU O CARNAVAL COM UM CHAPÉU DE VAQUEIRO E DORMIU EM UMA REDE POTIGUAR

Durante o Carnaval de 1963, Kirk Douglas, Um dos Maiores Astros de Hollywood, Conheceu e Descansou em Uma Típica Rede de Dormir Feita no Rio Grande do Norte, Usou um Chapéu de Couro e Conheceu a Cultura Nordestina Através do Natalense Sylvio Piza Pedroza, Ex-Prefeito de Natal e Ex-Governador Potiguar, Um Político Que Muito Valorizou a História da Sua Terra.

Rostand Medeiros – IHGRN

No início do ano de 1963 o Brasil era um país que vivia sob o signo da intranquilidade, principalmente no campo político. O gaúcho João Goulart, o Jango, era o Presidente do Brasil e ele ocupava o Palácio do Planalto há um ano e cinco meses, depois da nação ficar assombrada com a intempestiva renúncia do paulista Jânio Quadros.

Já a maioria da população brasileira ainda não possuía em suas residências os serviços básicos necessários para uma boa qualidade de vida, havia uma pesada crise econômica e a insatisfação de setores da sociedade com os rumos do governo Goulart fazia com que nuvens negras surgissem no horizonte político de Brasília.

Brasília, a nova capital brasileira – Fonte – https://conhecimentocientifico.r7.com/

Se dentro do país a situação se tornava complicada e seu povo vivia em meio a muitos problemas, a visão do Brasil no exterior até que não era das piores. No ano anterior a nossa seleção havia conquistado o bicampeonato de futebol no Chile, a Bossa Nova era cantada e elogiada em várias partes do mundo, o Cinema Novo começava a chamar atenção fora do país e Brasília encantava os estrangeiros com o arrojo de sua construção e sua bela arquitetura.

É nesse cenário que desembarcaram em Brasília o ator de cinema norte-americano Kirk Douglas e sua esposa Anne, que nascera na Bélgica e era produtora cinematográfica. 

Carnaval Em Brasília e Com Um Chapéu De Vaqueiro Nordestino

Esse astro de Hollywood, nessa época vivendo o auge de sua carreira, havia sido convidado para conhecer o nosso país e aproveitar os principais bailes de carnaval da novíssima capital federal e do Rio de Janeiro. O casal desembarcou na madrugada de sexta para o sábado de carnaval, dia 22 de fevereiro de 1963, no avião da Pan American Airways. Entre as figuras que aguardavam Kirk Douglas estava Luiz Severiano Ribeiro Junior, dono da maior rede de salas de cinema do país, e José Tjurs, proprietário do Hotel Nacional de Brasília. 

Kirk Douglas no Palácio do Planalto – Fonte – http://www.memoriascinematograficas.com.br

Na tarde de sábado o casal se encontrou com o prefeito Ivo de Magalhães e passearam por Brasília na companhia de Israel Pinheiro da Silva, o primeiro prefeito da cidade. Foram até mesmo ao Palácio do Planalto, mas o presidente João Goulart havia viajado para o Rio Grande do Sul (Correio Braziliense, 23/09/1963, págs. 3 e 8). Kirk Douglas se impressionou com a capital brasileira e comentou que “Para fazer isto tem que ter peito”. Vale ressaltar que o cargo de prefeito em Brasília foi extinto em outubro de 1969, passando os governadores do Distrito Federal a atuarem na prática como dirigentes da capital.

Capa da revista O Cruzeiro (Ed. 23/03/1963)

À noite o casal Douglas foi para o II Baile da Cidade, no Hotel Nacional, onde o carnaval rolou solto. O astro hollywoodiano, talvez por se encontrar na capital do país, foi vestido para o baile de maneira muito formal, envergando um bem talhado smoking. Mas na cabeça estava com um típico chapéu de couro do vaqueiro nordestino. Inclusive o astro foi fotografado com a indumentária sertaneja, beijando sua mulher Anne e a foto foi capa da revista O Cruzeiro (Ed. 23/03/1963), uma das principais do Brasil naquela época.

Dormindo Em Uma Tradicional Rede Potiguar, Mais Macia Que Sua Cama em Beverly Hills

No outro dia Kirk Douglas e Anne foram para uma casa alpendrada, feita de tábuas de madeira, as margens do Lago Paranoá, onde o ator de Hollywood foi fotografado tranquilamente dormindo em uma tradicional rede confeccionada no Rio Grande do Norte.

Revista O Cruzeiro, Ed. 16/03/1963 – Foto – Roberto Stuckert

Em outras fotos ele aparece sorrindo e abraçado a sua esposa Anne. Algumas pessoas estão sentadas em cadeiras e observam o casal. Na época essas fotos foram creditadas a Henri Ballot, mas na edição seguinte da revista houve uma retificação e o crédito passou ao jovem paraibano Roberto Franca Stuckert, então com 19 anos.

Revista O Cruzeiro, Ed. 16/03/1963 – Foto – Roberto Stuckert

A casa, pelo menos nas fotos, parece bem simples e rústica e segundo o crítico de cinema Ely Azeredo, que assinou o pequeno texto existente na revista O Cruzeiro (Ed. 16/03/1963, págs. 108 a 111), Kirk Douglas “experimentou pela primeira vez as delícias de uma rede no alpendre da casa de campo do Comodoro do Iate Clube Silvio Pedroso”. 

Mas o texto de Ely Azeredo possui um pequeno erro, pois o então Comodoro do Iate Clube de Brasília não era “Silvio Pedroso”, mas o ex-prefeito de Natal e ex-governador do Rio Grande do Norte Sylvio Piza Pedroza.

O PresiPresidente Juscdente Juscelino visitando o Iate Clube de Brasília em 1961, próximo ao final do seu mandato. Sylvio Pedroza está a sua esquerda – Fonte – www6.iateclubedebrasilia.com.br

Sylvio tinha então 45 anos de idade, era subchefe da Casa Civil da Presidência da República, cargo que assumiu ainda no governo Juscelino Kubitschek (1956 a 1961), passou pelo curto período de Jânio Quadros (1961) e continuava na função no governo João Goulart.

Provavelmente pela natureza do seu cargo e, quem sabe, pela sua fluência no idioma inglês foi que Sylvio Pedrosa se aproximou de Kirk Douglas e eles acabaram nas margens do Lago Paranoá.

Revista O Cruzeiro, Ed. 16/03/1963 – Foto – Roberto Stuckert

Talvez essa proximidade explique o chapéu de vaqueiro usado pelo astro de Hollywood no baile de carnaval no Hotel Nacional. Isso é bem possível, já que Sylvio Pedroza ficou conhecido no Rio Grande do Norte por sempre valorizar suas tradições e principalmente a história de sua terra.

E Kirk Douglas parecia bem à vontade naquela tradicional rede potiguar e naquela casa de aparência rústica e simples. O que não seria nenhuma novidade para um filho de imigrantes pobres nos Estados Unidos, que fugiram das perseguições e dos pogroms contra os judeus no Império Russo.

Revista O Cruzeiro, Ed. 16/03/1963 – Foto – Roberto Stuckert

O ator nasceu na cidade de Amsterdam, no estado de Nova York, em 9 de dezembro de 1916 e foi batizado como Issur Danielovitch. Aprendeu iídiche antes do inglês e conviveu com um pai alcoólatra e fisicamente abusivo, que bebia o pouco dinheiro que ganhava recolhendo lixo e deixava sua mãe e suas seis irmãs na miséria. Mesmo assim Douglas avançou nos estudos e conseguiu entrar na universidade, onde se formou em Direito em 1939. Durante a Segunda Guerra Mundial foi tenente a bordo de um pequeno caça submarinos no Pacífico, um tipo de barco que ficou conhecido na Marinha do Brasil como “Caça ferro”. Após ser dispensado devido a um acidente na sua embarcação, Kirk Douglas voltou para Nova York e começou a trabalhar no rádio, teatro e comerciais. Em 1946, fez sua estreia nas telas em The Strange Love of Martha Ivers e teve uma carreira de enorme sucesso no cinema, ganhando três indicações ao Oscar e um Oscar pelo conjunto de sua obra. Em 1960 atuou no papel principal do elogiado filme Spartacus, dirigido por Stanley Kubrick e ganhador de quatro Oscars, E foi pelo seu papel em Spartacus que Kirk Douglas foi bastante referenciado nessa visita ao Brasil.

Revista O Cruzeiro, Ed. 16/03/1963 – Foto – Roberto Stuckert

Antes que esqueça!

Kirk Douglas gostou tanto da rede de dormir fabricada em terras potiguares, que em um texto que escreveu para a revista O Cruzeiro (Ed. 23/03/1963, pág. 9) comentou…

“Pela primeira vez experimentei uma rede brasileira, mais confortável e macia do que minha cama em Beverly Hills”.

Tradição Potiguar

Para Sylvio Pedroza também não houve nenhum problema em oferecer ao astro de Hollywood uma típica rede potiguar, um hábito comum no Rio Grande do Norte, principalmente nos alpendres das casas existentes nas nossas belas praias.

Sylvio Pedroza, quando Prefeito de Natal, em uma solenidade na Escola Doméstica em homenagem ao Presidente da República João Café Filho, p único potiguar a chegar a esse cargo.

Nascido em Natal no dia 18 de março de 1918, Sylvio Piza Pedroza era filho de Fernando Gomes Pedroza e Dona Branca Toledo Piza Pedroza. Seu pai foi um agropecuarista e tido como um dos mais abastados comerciantes do Rio Grande do Norte. Sylvio estudou na Inglaterra e no Rio de Janeiro, onde se formou em Direito e ali morou por vários anos. Durante a Segunda Guerra retornou para Natal e em abril de 1945 foi nomeado membro do Conselho Administrativo do Estado do Rio Grande do Norte. No ano seguinte, quando tinha apenas 26 anos, foi indicado prefeito de Natal e foi sendo empossado pelo interventor federal Ubaldo Bezerra de Melo em abril de 1946. Ficou no cargo até fevereiro de 1950.

Posse de Sylvio Pedroza na Prefeitura de Natal

Durante as eleições de outubro de 1950 elegeu-se vice-governador do Rio Grande do Norte, assumindo a chefia do governo quando o então mandatário potiguar Jerônimo Dix-Sept Rosado Maia faleceu em um trágico acidente aéreo em Sergipe. Ficou no cargo até 1956, quando assumiu funções no Banco do Nordeste e depois tentou uma vaga ao Senado Federal, mas não se elegeu.

Ouvi de velhos políticos que Sylvio Pedroza atuou com simplicidade, sem pedantismo e que sabia ouvir os mais simples de sua terra. Além disso, incentivou o desenvolvimento de obras que trataram sobre a história potiguar, principalmente através de uma parceria com Câmara Cascudo.

Em 7 de março de 1947 Cascudo entregava ao jovem prefeito os primeiros exemplares do livro História da Cidade do Natal, até hoje uma referência sobre o tema (A Ordem, o9/03/1947, pág. 3). A parceria seria repetida em 1955, quando Sylvio Pedroza era governador potiguar e conseguiu com o Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Cultura a impressão dos exemplares do livro História do Rio Grande do Norte. Uma obra com 524 páginas e cujos primeiros exemplares foram entregues ao governador em abril de 1956 (O Poti, 17/04/1956, pág. 16).

Para seus críticos Sylvio Pedroza utilizou esse apoio a Cascudo apenas como um estratagema para consolidar seu nome e torná-lo mais conhecido no Estado. Pelo fato dele ser considerado como alguém “de fora”, por apenas ter nascido em Natal e morado por muitos anos distante da terra potiguar, Pedroza não era conhecido da população local e nem do meio político e por isso a aproximação. Ouvi de velhos políticos que, se isso realmente aconteceu quem ganhou foi o povo potiguar com a qualidade do material produzido por Cascudo. Para esses homens Sylvio Pedroza atuou politicamente com simplicidade, sem pedantismo e que sabia ouvir os mais simples de sua terra.

Sylvio Pedroza e Getúlio Vargas em 1954

Câmara Cascudo, em seu livro Rede de Dormir: Uma pesquisa etnográfica (MEC, 1957, 1ª Ed. págs. 31 e 32), comentou que essa relação dos políticos do Rio Grande do Norte com as redes de dormir é coisa bem antiga.

“Muita rede foi enviada de presente aos companheiros do Sul. E era lembrança local apreciada, ”souvenir” dos deputados gerais e senadores do Império aos seus colegas meridionais. O Visconde de Mauá possuiu uma grande e confortável rede, dada pelo deputado pelo Rio Grande do Norte, Amaro Carneiro Bezerra Cavalcanti, Amaro Bezerra, o “Tintureira” bonachão e violento nas últimas décadas imperiais. Na República, o deputado Augusto Severo, que morreu na explosão do dirigível Pax em Paris (12 de maio de 1902), voltava do Natal para a Câmara levando um carregamento de redes de dormir e queijos de manteiga do Seridó, ofertas disputadas pelos seus amigos do Parlamento. O senador Pedro Velho obrigava a instalação de sua rede inseparável nos hotéis onde morava no Rio de Janeiro, rede em que Rui Barbosa se deitou, sorridente, e Pinheiro Machado balançava-se, enrolando palha de milho com fumo negro de Goiás.”

Sylvio Pedroza

E De Que Cidade Veio a Rede?

No início desse texto imaginava que essas redes que existiam na “casa de campo” de Sylvio Pedroza as margens do Lago Paranoá eram oriundas de Caicó. Pois na minha meninice dormi em ótimas redes vindas dessa cidade seridoense e ouvia falar da fama que esses materiais produzidas por lá tinham em relação a qualidade.

Mas recorrendo aos conhecimentos e a experiência do meu amigo Adauto Guerra Filho, para mim o maior historiador vivo do Seridó Potiguar e morador de Caicó, na época do episódio em Brasília realmente existiam boas redes, com ótima qualidade e sendo produzidas na Capital do Seridó. Mas eram em pequeno número e a produção estava em crise.

Mestre Adauto Guerra Filho, o maior historiador vivo do Seridó Potiguar, autor de quinze livros, grande conhecedor da história de sua região. É um homem humilde, solicito e amigo. Faz tempo que é merecedor de reconhecimento maior.

A informação de Mestre Adauto encontra respaldo em Câmara Cascudo, no livro Rede de Dormir: Uma pesquisa etnográfica, de 1957.

Cascudo informou que através do apoio do seu amigo Aderbal de França, que trabalhava na Inspetoria Regional de Estatística Municipal no Rio Grande do Norte, em 1950 existiam por aqui 42 fábricas de redes e em 1956 o número se reduziu a somente 4, sendo três em Mossoró e apenas uma em Currais Novos. No último período uma das fábricas mossoroenses produziu 20.000 e outra 6.304 redes.   

Dos tempos áureos da produção de redes no Rio Grande do Norte, segundo descobri pesquisando no site da Biblioteca Nacional, as indústrias nessa área que mais se destacaram no Rio Grande do Norte foram a Fábrica de Redes Potiguar, de J. Oliveira & Cia., de Natal e localizada no bairro da Ribeira, próximo ao Teatro Alberto Maranhão (A Ordem, 29/10/1938, pág. 1). Já em Mossoró se destacou a Fábrica de Redes São Vicente, de Osmídio & Cia. Ltda., que ficava na Rua Coronel Saboia (Almanak Laemmert, edição 1937, pág. 1.606). No final da década de 1940 mereceu registro a Fábrica de Redes e Tecidos Santa Maria, de José Dhalia da Silveira, com sede na Rua dos Pajeús, 1.713, bairro do Alecrim, em Natal (A Ordem, 21/06/1948, pág. 3).

Kirk “Spartacus” Douglas sendo “atacado” no Baile do Municipal do carnaval de 1963 no Rio de Janeiro

Independente da cidade potiguar que fabricou a rede que Kirk Douglas dormiu em Brasília, aparentemente ele descansou bastante. Aliás, ele precisou descansar, pois no domingo de carnaval partiu com na sua esposa para o Rio de Janeiro, onde participou, juntamente com mais de 5.000 foliões, no famoso Baile do Municipal. O ator foi fantasiado de Spartacus e caiu na farra. Apesar do “ataque” das cariocas ao astro de Hollywood, ele não desgrudou de Anne e chamou atenção no Rio pelo comportamento positivo e atencioso ao lado da esposa.

Kirk e Anne Douglas – Fonte – G1

Caso raro em Hollywood, o casal Douglas mantiveram-se unidos até a morte de Kirk, que ocorreu em fevereiro de 2020, quando ele estava com a idade de 103 anos. Já sua esposa Anne faleceu em sua casa em Beverly Hills, dias após seu 102º aniversário, em abril de 2020.  

O “CINE JORNAL” DE 1924

O PRIMEIRO LONGA-METRAGEM REALIZADO NO RIO GRANDE DO NORTE FOI UM DOCUMENTÁRIO

Rostand Medeiros – IHGRN

Sou um entusiasta pela sétima arte, onde, obrigatoriamente, busquei no excelente livro do jornalista potiguar Anchieta Fernandes, “Écran Natalense”, conhecer a história do cinema no Rio Grande do Norte.

Desejava que uma curiosidade fosse satisfeita ao ler este livro; qual foi o primeiro longa-metragem produzido em terras potiguares?

Em uma das páginas, uma pequena nota apontava para um documentário produzido pelo governo do estado, no início dos anos de 1920. Busquei maiores detalhes sobre este projeto cinematográfico e encontrei uma interessante história: Em uma edição do jornal “A Republica”, de 25 de julho de 1924, temos uma reportagem sobre a criação de um “film” que mostrava a “vida actual” e “as possibilidades econômicas do Rio Grande do Norte”. Informava “que o Dr. Amphilóquio Carlos Soares da Câmara estava com a missão de dirigir, e naquele momento, acompanhava no Rio de Janeiro a conclusão do material para posterior exibição”.

Ligação com um Livro

Lendo a reportagem detalhada sobre a película, me recordei que já tinha tido oportunidade de ler um livro chamado “Scenarios Norte-Riograndenses”, de 1923, de autoria do mesmo Amphilóquio Câmara, que mostrava as diversas regiões, os potenciais econômicos, as cidades, as características e particularidades do Rio Grande do Norte dos anos 20 do século passado. Este livro fora preparado visando mostrar aos potiguares o que o estado possuía e como as nossas riquezas foram vistas na Exposição Nacional do Centenário da Independência, em 1922, quando o próprio Amphilóquio havia sido designado delegado do Rio Grande do Norte para este evento.

Palácio do Governo e Praça 7 de setembro. A imagem foi captada do primeiro andar do Palácio Felipe Camarão, sede da Prefeitura Municipal de Natal, onde acredito que o cinegrafista Junqueira filmou o mesmo cenário em 1924.

Comparando a descrição e as fotos existentes no livro, e lendo a reportagem sobre o documentário existente em “A República”, pude perceber que o livro e a película tinham ligação concreta. Mostrando como os conhecimentos de Amphilóquio Câmara estavam sendo utilizados na execução deste projeto cinematográfico.

Governador José Augusto Bezerra de Medeiros.

O então governador José Augusto Bezerra de Medeiros apoiou a ideia de Amphilóquio, que buscou contratar um dos melhores cinegrafistas existentes no país, o mineiro Aristides Junqueira, autor do curta-metragem “Reminiscências”, hoje considerado o filme brasileiro mais antigo (1909) ainda disponível. Ficou decidido que o título da película seria, “Cine-Jornal do Rio Grande do Norte”.

Iniciam as Filmagens

Junqueira e Amphilóquio iniciaram o trabalho no final de 1923, tendo sido rodados quatro mil metros de película. Foram feitas, segundo o relato existente no jornal, imagens da capital com seus bairros, avenidas principais, igrejas, praças, a vida cotidiana, vistas do mar e imagens do dia-a-dia. Um dos exemplos foi uma panorâmica em 360° da cidade, feita a partir da torre da Igreja Matriz, na Praça André de Albuquerque, então o ponto mais elevado de uma Natal que possuía uma população em torno de 25.000 pessoas.

Foto da antiga igreja matriz de Nossa Senhora da Apresentação, na Praça André de Albuquerque, centro de Natal. No início do século XX era normal que escoteiros ficassem no alto da torre e desfraldassem bandeiras quando um barco era visto se dirigindo para o porto da cidade. Estas bandeiras possuíam cores distintas para diferenciar se os barcos vinham do norte, ou do sul. Durante anos este foi o local mais elevado da cidade, de onde fotógrafos registraram a evolução da cidade. Certamente no alto dessa torre Junqueira deve ter colocado sua câmara.

Como a principal área urbanizada da cidade, praticamente se restringia ao Centro e a Ribeira, provavelmente nesta tomada, Junqueira filmou toda a área da capital potiguar. Igualmente foram filmados ações de governo, prédios públicos, escolas, obras de saneamento da cidade, hospitais, sanatórios e outros.

Fatos sociais foram mostrados, um deles foi o desembarque de José Augusto em Natal, na manhã de 24 de dezembro de 1923. Foi um evento concorrido, onde várias autoridades e figuras sociais estavam presentes no cais da Tavares de Lyra.

José Augusto chegava do Rio de Janeiro, então Capital Federal, para tomar posse como governador. Toda a solenidade foi filmada tanto fora, como dentro do palácio de governo. Outro evento mostrado foi à inauguração da sede da Associação dos Escoteiros de Natal.

O governador decidiu que seriam realizadas filmagens no interior do estado. Para esta empreitada, além de Amphilóquio e Junqueira, uniu-se ao grupo o advogado Dioclécio Duarte. Estes seguiram visitando e filmando aspectos sociais e econômicos de Macaíba, Ceará-Mirim, a praia de Muriú, Macau, Mossoró, Areia Branca e Grossos. Em Macaíba, as lentes de Junqueira apontaram para o então Campo de Demonstração Agrícola.

Em Ceará-Mirim, o alvo foi a produção de cana-de-açúcar, onde uma das tomadas foi realizada em um ponto elevado do engenho “Villa Bella”. No engenho “União” foi realizada cenas da moagem da cana, do trabalho tradicional e da casa do seu proprietário, o “coronel” Felismino Dantas.

Em Muriú, a saída dos pescadores em tradicionais jangadas, foi apresentada para o grupo que realizava o documentário.

A cidade de Macau na década de 1920.

Em Macau foram filmadas solenidades na cidade, os aspectos da indústria salineira, com imagens da salina “Conde Pereira Carneiro” e o transporte do sal para os barcos salineiros impulsionados pela força dos ventos. Na povoação de “Independência” (atual Pendências), foi apresentado ao grupo à cultura da carnaúba e alguns vastos carnaubais.

Mossoró era apresentado como o “maior empório comercial do estado, com sua população de 20.000 habitantes”. Foi realizada uma panorâmica da cidade, feita a partir da torre da igreja de São Vicente. Praças, igrejas, ruas, prédios públicos, com destaque para a Escola Normal, foram capturados pela lente de Junqueira.

Já Grossos e Areia Branca tiveram destaques pelas salinas e o porto. Segundo as notícias, as fortes chuvas ocorridas no primeiro semestre de 1924, impossibilitaram que fossem filmadas outras cidades do interior do Estado.

Escola Normal de Mossoró, na década de 1920. Quando governador do Rio Grande do Norte, José Augusto Bezerra de Medeiros valorizou muito a educação. É possível que em sua visita a Capital do Oeste o cinegrafista Junqueira tenha filmado esse local.

Além das notícias publicadas no jornal “A Republica”, uma referência sobre este filme pode ser lida na própria mensagem governamental de José Augusto, no ano de 1924, onde nas páginas 67 e 68, no tópico “Museu Agrícola e Commercial”, o governador afirmava a necessidade de se fazer propaganda dos recursos do Estado, utilizando esta película, neste museu que estava sendo criado pelo Governo Federal.

Outros Trabalhos de Junqueira

O trabalho do cinegrafista Aristides Junqueira parece ter-se prolongado mais tempo no Rio Grande do Norte. Na edição de 12 de novembro de 2000 da “Tribuna do Norte”, em uma reportagem sobre pesquisas e catalogação do material relativo a Intentona Comunista, existente no próprio Arquivo Público do Estado, existem cartas de Junqueira comentando sobre o levante de 1935. Na reportagem, a então diretora do Arquivo, Vanilde de Souza Rêgo, comenta que o cineasta fez relatos de como ocorreu o movimento comunista na região salineira, algo então desconhecido para muitos. Em uma das cartas, Junqueira afirmava estar “cavando com a machina cinematographica o pão nosso de cada dia…”, onde ele filmaria “as salinas para os meus jornalecos quando estourou o movimento comunista em Natal”.

Teria o cinegrafista Junqueira continuado trabalhando frequentemente com filmagens no Rio Grande do Norte?

Cine Royal.

Ou este cineasta mineiro teria retornado ao estado, apenas para uma nova refilmagem da região salineira e, coincidentemente, estava na área quando ocorreu a Intentona Comunista? Haveria outros antigos documentários sobre o Rio Grande do Norte?

Esta película é certamente o primeiro trabalho cinematográfico, em longa-metragem, no formato de um documentário, realizado de forma profissional no Rio Grande do Norte e desenvolvido por um dos melhores cinegrafistas existentes no Brasil da década de 1920. Foi um projeto executado como uma ação de governo, apresentando a nossa realidade social e econômica, em meio a um país eminentemente agrícola.

È difícil, mas é possível acreditar na possibilidade de que existam alguns fotogramas desta película, talvez algo mais completo do filme, bastando para isto pesquisar de forma correta e trabalhar sério.

Praça Augusto Severo, seguramente um dos locais filmados por Junqueira em Natal.

Encontrar o que sobrou deste material é rever uma Natal e um Rio Grande do Norte que não existem mais.

Não é necessário muito esforço para imaginar a importância que a descoberta material desta película teria para a história iconográfica do Rio Grande do Norte e para nossa história de maneira geral.

Apresentações

Após as filmagens, foi realizada a preparação das imagens no Rio de Janeiro, onde houve uma primeira exibição do “Cine-Jornal do Rio Grande do Norte” e a película volta ao estado. No dia 18 de outubro de 1924, o documentário começou a ser anunciado nos jornais locais. Era informado que este seria um “filme que interessa a todo riograndense do norte”.

Motivo de orgulho de um Rio Grande do Norte pobre e esquecido no sul do país na década de 1920, acredito que as alunas da Escola Doméstica de Natal foram focadas por Junqueira. Na foto as jovens aparecem em uma aula na horta do educandário – Fonte – http://www.skyscrapercity.com

A exibição ocorreu nas duas principais salas de exibição existentes em Natal, o Royal e o Polytheama, onde o material cinematográfico foi dividido em duas exibições, em 13 partes distintas. Na primeira apresentação foram expostas seis partes, no dia posterior, outras sete partes foram exibidas, tendo sido a película repetida por mais uma semana e de forma contínua.

Na primeira exibição o valor da entrada foi de 1$100 (um mil e cem réis), na segunda exibição o valor foi de 2$000 (dois mil réis).

Ainda segundo a opinião dos redatores de “A Republica”, o filme causou uma boa impressão na cidade. Entretanto, Américo Gentile, o proprietário das duas salas de projeção, baixou o preço da entrada para 1$000 réis.

Após estas apresentações, não se encontram notícias sobre outras exibições do documentário nos jornais e ele é esquecido.

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100 ANOS DA FEIRA DO ALECRIM, A MAIS ANTIGA E TRADICIONAL DE NATAL

Rostand Medeiros – IHGRN

O Alecrim como bairro foi oficialmente criado em 24 de setembro de 1911, sendo o quarto da capital potiguar, mas antes mesmo de sua criação oficial, já nos primeiros anos do século XX, na área do Alecrim existiam pequenas chácaras e sítios que produziam alimentos que ajudaram no desenvolvimento daquela parte da cidade e logo serviram de entreposto comercial com produtos que vinham do interior. Essa integração essencial fez o Alecrim transforma-se na porta de entrada daqueles que procuravam Natal.

Logo algumas pessoas simples, mas com forte capacidade no tocante a iniciativas coletivas, decidiram criar no Alecrim uma feira livre para popularizar, facilitar e incrementar principalmente a venda de produtos alimentícios.  

1912, feira na região do Passo da Pátria, anterior a Feira do Alecrim. Existiram algumas feiras livres na capital potiguar, mas a que realmente despontou foi a do Alecrim.

Consta no livro do Professor Itamar de Sousa a reprodução de um texto produzido pelo historiador Luís da Câmara Cascudo, publicado no jornal A República, edição de 19 de outubro de 1948, onde Cascudo detalhou a inauguração dessa feira livre[1].

A primeira vez que a Feira do Alecrim ocorreu foi em um domingo, 18 de julho de 1920 e a iniciativa partiu de João Estevam de Andrade e de Balbino José dos Passos. Naquele domingo o encontro dos vendedores aconteceu no que hoje é a casa de número 1297, no encontro da Rua Presidente Quaresma com a Avenida Coronel Estevão (onde atualmente existe uma farmácia).

Para Cascudo o movimento logo chamou atenção da cidade e nesses primeiros anos a feira continuou a acontecer sempre aos domingos. Outros que colaboraram para que aquela ideia tivesse êxito foram Francisco das Chagas Dantas, José Francisco, Francisco Justino, Sabino Duarte, José de Lima, Enéas Café, José dos Santos, José Alexandre, João Ferreira, Joaquim Vicente de Andrade, Genésio Pinheiro, Laurentino Moraes, José Barbosa e outros. 

Outra pessoa que muito ajudou no desenvolvimento da Feira do Alecrim foi o Professor Luís Soares. Esse homem magro, mas de um espírito e vontade enérgicos, já tinha sob sua batuta a direção do Grupo Escolar Frei Miguelinho e da Associação de Escoteiros do Alecrim, mesmo assim apoiou os feirantes e realizou a ponte entre aqueles pequenos empreendedores e a Intendência Municipal. Luís Soares falou por eles junto a Teodósio Paiva e Fortunato Aranha, respectivamente presidente e vice-presidente da Intendência de Natal[2]. O professor mostrou com seu contagiante entusiasmo o nascimento daquele movimento comercial popular, realizado por aqueles pequenos empreendedores que dificilmente poderiam adentrar as portas do Palácio Felipe Camarão sem que surgissem olhares de desconfiança.

Desenvolvimento

Em 1924 a feira livre do Alecrim já havia se tornado um hábito entre os natalenses e sua força econômica já se fazia sentir entre os membros da sociedade e do comércio.

Segundo um artigo publicado na primeira página do jornal natalense A República, em sua edição de sexta-feira, 14 de março de 1924, a feira dominical do Alecrim era algo extremamente positivo para a economia da cidade e que deveriam ser criadas outras feiras livres em Natal. Entre outros fatores apontados para a criação desses novos locais de venda estavam a distância dos bairros centrais da cidade em relação ao Alecrim e que essas feiras poderiam ocorrer em dias alternados, facilitando a vida de natalenses que viviam em uma época onde a conservação de alimentos em refrigeradores era algo quase inexistente na cidade.

Um dos locais apontados para a criação de novas feiras seria na então Praça Pio X, no centro da cidade, onde hoje se encontra a moderna Catedral Metropolitana de Natal. Já outro local seria na Esplanada Silva Jardim, no bairro da Ribeira, para atender os habitantes daquela que era a mais importante região comercial da cidade, além dos moradores das Rocas, que só se transformaria oficialmente em bairro através da Lei 251, promulgada em 5 de outubro de 1947[3].

Segundo os autores do texto, que acredito ser algum dos redatores do jornal na época (Manoel Dantas, José Vicente e Lélio Câmara), a cidade de Natal vivia então uma crise alimentícia. Para o autor (ou autores) do texto os preços praticados no Mercado Público de Natal eram elevados e a existência de feiras livres espalhadas pelos bairros tanto ajudariam no abastecimento, como na diminuição dos valores.

Ao ler o texto jornalístico fica claro que a Intendência Municipal de Natal desejava que a venda de produtos básicos ficasse concentrada no Mercado Público, com a desculpa que era um local com melhor condição de arrecadar impostos[4].

Vendas e Movimento

Um artigo publicado sobre o tema aponta que “as feiras livres se constituem em um ponto ou nó de encontro de fluxos de pessoas, mercadorias, informações, capitais, com diferentes dimensões socioespaciais, realizadas ao ar livre, em ruas, praças ou terrenos baldios, com produtos expostos em barracas ou no chão, intercaladas geralmente no intervalo de uma semana, ou num interstício menor, que podem ter uma área de influência local ou regional. A feira livre é, portanto, uma instituição econômica e uma prática social, constituída de uma notória dimensão geográfica”. A Feira do Alecrim era e ainda é exatamente isso[5].

Um jornalista deixou um testemunho onde informou que nos dias de movimento, na medida que crescia o volume de pessoas, igualmente crescia o número de cavalos e burros para levar as mercadorias. Comentou também que a região se tornava local de realização de diversos negócios, não apenas de venda de produtos alimentícios. Inúmeros comércios se formaram ao redor da feira livre que cada vez mais crescia.

A balburdia era enorme, com vendedores oferecendo produtos aos gritos, produzindo entonações de suas vozes para alcançar o maior número de clientes. O berreiro do regateio também era franco e extremamente intenso.

Os jornais antigos mostra que não eram raros no início da história da Feira do Alecrim os problemas com preços, qualidade dos alimentos e alterações de pesos de balanças.

As barracas eram pequenas, mas nelas se encontram farinha, milho, feijão. Carne de sol, queijos de coalho e de manteiga vinha do sertão no lombo de animais. Galinhas eram vendidas vivas, penduradas pelos pés em uma vara, devendo ser abatidas (torcendo o pescoço) e depenadas pelos fregueses em suas casas. Quando a carne verde estava cara, o negócio era partir para o toucinho de porco. Quando esse produto estava a peso de ouro o jeito era ir para os miúdos bovinos, como coração, língua, fígado, mocotó e tripas. O jornalista apontou que certamente no domingo tudo era misturado em uma suntuosa feijoada nas casas do Alecrim[6]

Mas além do comércio, a Feira do Alecrim era um local de extrema convivência social, principalmente das classes menos favorecidas da cidade. Não demora e a região da feira também serve para jogatinas, conforme podemos ver na nota que segue adiante.

Conflitos

A Feira do Alecrim também podia ser um lugar de conflitos sérios. Como o que aconteceu em agosto de 1935 e provavelmente possui ligação com a Intentona Comunista, deflagrada em 23 de novembro daquele mesmo ano.

Por volta das duas da manhã do domingo, 18 de agosto, um grupo de cinco praças do Exército bebiam café em uma das bancas que serviam comida antes da feira começar. De repente, três homens fardados como militares chegam correndo, com facas e punhais na mão e, sem a menor discursão, passam a atacar os desprevenidos militares com violentas cutiladas. Morreu o militar José Costa e ficaram gravemente feridos Raimundo Bernardo de Souza e José Olyntho da Silva. Já Pedro Paulino da Silva e um quinto membro do grupo tiveram ferimentos leves. Adaucto Rodrigues, então delegado de polícia do Alecrim, mandou chamar uma patrulha do 21º Batalhão de Caçadores para assumir o caso, já que todas as vítimas eram oriundas desse quartel. A patrulha veio e depois seguiu em diligência na busca dos atacantes, mas não conseguiu prendê-los. Segundo o jornal A Ordem esse crime na Feira do Alecrim repercutiu bastante em Natal, mas estranhamente não saiu uma linha sobre o caso no jornal A República, o periódico oficial do Governo do Estado[7].

Aparentemente esse caso teria relação com um outro ataque que ocorreu pouco tempo depois, dessa vez contra o tenente do exército Francisco Rufino de Santana.

Por volta de seis da noite de 16 de novembro de 1935, após o expediente e ao retornar para sua casa, esse oficial levou vários de tiros no braço ao descer de um bonde na Avenida Hermes da Fonseca, resultando em ferimentos graves. Ocorre que o tenente Santana participava de um inquérito militar que investigava alguns militares daquele quartel e que certamente provocaria a expulsão desses homens. Homero Costa aponta em seu livro que esse inquérito estava relacionado a assaltos contra bonde praticados por um soldado e um cabo do Exército, em conluio com dois sargentos da Polícia Militar. Esses marginais atacavam suas vítimas uniformizados e, para não serem reconhecidos, utilizavam máscaras. No livro de Homero não existe nenhuma referência se a investigação do inquérito que ocasionou o atentado contra o tenente Santana teria alguma relação com o conflito ocorrido na feira do Alecrim. Mas a proximidade das datas e seus praticantes parece apontar nesse caminho[8].

Ainda segundo Homero Costa, a notícia de dispensas no 21º Batalhão de Caçadores, como era de se esperar, gerou insatisfações. Na segunda-feira, dia 25 de novembro, haveria continuidade do inquérito, com as dispensas que seriam anunciadas. Mas antes disso, às 19h30 de sábado, 23 de novembro, os militares lotados no quartel do Exército Brasileiro em Natal deflagraram o que ficou conhecido como Intentona Comunista[9].

Quartel da Força Policial, conhecido como “Quartel de Salgadeira”, em Natal, após ser metralhado durante a Intentona Comunista – Foto – toxina1.blogspot.com

Para mim a associação de problemas políticos de âmbito nacional e estadual, em meio a uma época de extremo radicalismo político, foi o que provocou a deflagração da Intentona Comunista em Natal. A existência desse inquérito e a possível exclusão de militares do 21° Batalhão de Caçadores, apenas foi mais combustível para a execução desse movimento extremista na capital potiguar.

A Mudança Para os Sábados

O movimento da Feira do Alecrim aos domingos, mesmo com restrições, vinha seguindo normalmente, mas as mudanças nas leis trabalhistas no Brasil alteraram a data da feira livre do Alecrim e até mesmo os aspectos da relação trabalhista do comércio em Natal.

As conquistas sociais em relação ao trabalho no Brasil são tardias, porque nosso desligamento com a escravidão se deu próximo do início do século XX, bem como as nossas indústrias só começaram a se instalar em maior número nessa mesma época. Em 1930, com a chegada de Getúlio Vargas ao poder, este passou a buscar um maior equilíbrio em relação aos direitos trabalhistas. Com a Constituição de 1934 foi previsto o salário mínimo, jornada de trabalho de oito horas, repouso semanal, férias remuneradas e assistência médica e sanitária[10]. Vale ressaltar que todas essas conquistas trabalhistas foram implantadas em um período onde o poder do Governo Federal era imenso e extremamente forte.

Mas em Natal as mudanças parecem ter ocorrido de forma muito lenta, pois quase no início da Segunda Guerra Mundial esses eram os horários normais de trabalho dos comerciários na capital potiguar.

Foi quando o então prefeito Gentil Ferreira de Souza decidiu alterar várias situações ligadas aos horários de trabalho. Em 1º de agosto de 1939 ficou determinado que não haveria mais trabalho no comércio da cidade de Natal aos domingos[11].

Um dos setores que realmente vibrou com a nova ideia foi a Igreja Católica, pois agora o domingo poderia ser totalmente dedicado a Deus[12]. Obviamente quem não gostou nem um pouco dessa decisão foram os feirantes do Alecrim, pois ficou decidido que o dia de funcionamento da feira livre mais importante da cidade deveria passar a ser na segunda-feira. 

Lendo os jornais do período percebe-se que a mudança não foi aceita tranquilamente nem pelos feirantes, nem muito menos pelos consumidores e certamente criou problemas para o prefeito Gentil Ferreira. Percebemos que a Feira do Alecrim, ou uma parte dela, ocorreu no domingo. Como consequência os fiscais da então Inspetoria Regional do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio em Natal, que tinha sob seu comando Amílcar de Faria Cardoni, multaram vários feirantes.

No jornal católico A Ordem de 6 de agosto de 1939 temos a publicação de telegramas trocados por Amílcar Cardoni e o Prefeito Gentil Ferreira. Inclusive na manchete de primeira página que dá publicidade a essas correspondências, esse jornal utilizou a palavra “Alvitre” para o conteúdo da missiva emitida pelo Prefeito Gentil Ferreira. Mas o Prefeito de Natal apenas apontou para Amílcar que eles deveriam aguardar o retorno do Interventor Federal Rafael Fernandes Gurjão, que então realizava uma viagem ao interior do Rio Grande do Norte, para debaterem sobre o melhor horário de funcionamento da Feira do Alecrim e que a Inspetoria sustasse quaisquer ações fiscais.

A resposta de Amílcar Cardoni ultrapassa os limites da arrogância e foi típica de funcionários públicos federais superiores em períodos de ditaduras no Brasil, como no caso do Estado Novo nesse tempo. Na sua missiva o barnabé federal procurou ensinar ao Prefeito de Natal as suas funções, utilizando a frase “Definindo com clareza nossas atribuições, em face do citado assunto” e chega mesmo ao ponto de resumir como era o funcionamento do órgão federal onde trabalhava[13].

Não sabemos como a querela entre os poderes municipal e federal prosseguiu e nem se a Feira do Alecrim alterou seu dia de atuação para as segundas, como desejava o prefeito. Mas o certo é que somente um ano depois o problema obteve uma solução definitiva e satisfatória para todos os envolvidos.

No dia 23 de agosto de 1940 houve uma reunião na sede da repartição comandada por Amílcar Cardoni, onde estiveram presentes o prefeito Gentil Ferreira e Paulo Pinheiro de Viveiros, Diretor do Departamento Administrativo do Governo do Rio Grande do Norte. Saiu na imprensa que “Após animados debates transcorridos em ambiente de cordialidade”, ficou decidido que a Feira do Alecrim ficaria sendo realizada no sábado.

E finalmente no dia 14 de setembro de 1940, há pouco mais de oitenta anos, pela primeira vez a Feira do Alecrim funcionou no sábado.

Um Dos Locais Mais Populares e Tradicionais de Natal

A Feira do Alecrim se tornou a maior e mais importante referência do bairro onde ela se realiza. E, além do comércio, percebi lendo os velhos jornais que ao longo de muitos anos a Feira do Alecrim foi um local de intensa atividade de grupos folclóricos, que se apresentavam para os consumidores. Infelizmente nos dias de hoje a maioria dessas manifestações folclóricas ou não são mais executadas, ou não recebem por parte da nossa sociedade o mesmo interesse que havia nesse período. E isso é porque estamos na terra onde nasceu Luís da Câmara Cascudo, o maior folclorista brasileiro!

E falando em folclore, foi na administração de um prefeito natalense que muito deu valor ao folclore e a cultura em geral, que um dos fundadores da Feira do Alecrim foi homenageado.

O Prefeito Djalma Maranhão sancionou em 12 de junho de 1958 a Lei nº 823-E, que estabelecia que fosse colocada na casa número 1297, na esquina da Rua Presidente Quaresma com a Avenida Coronel Estevão, uma placa de bronze com o nome de João Estevam de Andrade, apontando-o como o homem que idealizou e incentivou a feira livre a partir do dia 18 de julho de 1920[14]. Naquele ano a Feira do Alecrim completava 38 anos de existência e as informações para a criação dessa Lei foram oriundas do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN, do extinto Concelho de Turismo e da Câmara Municipal de Natal.

E por falar em turismo, durante anos o autor dessas linhas atuou profissionalmente como Guia de Turismo em Natal, cadastrado pela Ministério do Turismo. Trabalhei diretamente com o público que era proveniente da Península Ibérica e em algumas ocasiões tive o privilégio de apresentar para, sei lá quantos portugueses e espanhóis, a Feira do Alecrim. Para mim sempre foi uma experiência incrível ver aqueles estrangeiros embasbacados com as cores, os cheiros, os sabores e a alegria da nossa gente. Eles se encantavam com a gentileza e humildade dos feirantes, o gosto das nossas frutas, a maneira como as pessoas anunciavam seus produtos. 

Nasci morando no bairro das Rocas, mas me entendi por gente vivendo na Rua Borborema, perto da Base Naval de Natal, no Alecrim. Hoje moro no Barro Vermelho, a poucas quadras do final da Feira do Alecrim, aonde quase todos os sábados estou presente para comprar frutas e verduras.

Em uma época onde em Natal não faltam alguns modernos e interessantes shopping centers, chama minha atenção como algumas pessoas ditas cultas e inteligentes dessa cidade, com uma interessante formação acadêmica, comentam de maneira arrogante que “-Como é possível em pleno século XXI existir algo como a Feira do Alecrim?”. Essas pessoas transparecem uma grande aversão e um completo desconhecimento sobre a importância e, principalmente, a história de um dos mais antigos locais em atividade comercial contínua de Natal e onde existe uma das maiores interações comerciais e sociais da capital potiguar.

Mas a Feira do Alecrim estará lá, aberta aos sábados, esperando por vocês!

NOTAS


[1] Ver Nova História de Natal, de Itamar de Souza, 2ª ed. ver. atual. Natal-RN, Departamento Estadual de Imprensa, 2008, págs. 549 a 552.

[2] Intendência Municipal é o que hoje chamamos de Prefeitura Municipal.

[3] Ver Nova História de Natal, de Itamar de Souza, 2ª ed. ver. atual. Natal-RN, Departamento Estadual de Imprensa, 2008, pág. 326.

[4] Ver jornal A República, Natal-RN, edição de 14 de março de 1924, pág. 1. O antigo Mercado Público de Natal se situava na Avenida Rio Branco, onde atualmente se localiza a agência centro do Banco do Brasil.

[5] Sobre o tema ver o interessante artigo As feiras livres e suas (contra)racionalidades: Periodização e tendências a Partir de Natal-RN-Brasil, de Francisco Fransualdo de Azevedo e Thiago Augusto Nogueira de Queiroz, ambos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e publicado na Revista Bibliográfica de Geografía y ciencias sociales, Universidade de Barcelona, Vol. XVIII, nº 1009, 15 de janeiro de 2013. Esse artigo pode ser visualizado na internet através do endereço eletrônico – http://www.ub.edu/geocrit/b3w-1009.htm

[6] Ver jornal A Ordem, Natal-RN, edição de 18 de junho de 1949, pág. 4.

[7] Ver jornal A Ordem, Natal-RN, edição de 20 de agosto de 1935, pág. 4.

[8] Ver A insurreição comunista de 1935, de Homero Costa, Natal-RN, EDURF, 2015, págs. 167 a 169.

[9] O livro A insurreição comunista de 1935, de Homero Costa, é leitura obrigatória para conhecer melhor esse momento da história do Rio Grande do Norte.

[10] Antes das mudanças apoiadas por Getúlio Vargas, entre o final do século XIX e início do século XX foram estabelecidas normas que previam férias (quinze dias por ano) e alguns tipos de direito em relação aos acidentes de trabalho, mas sem uma regulamentação mais ampla. Com relação aos horários e dias da semana utilizados para o trabalho, o que vigorava era o regulamento de cada comércio ou fábrica, e alguns trabalhadores chegavam a trabalhar entre 14 e 18 horas por dia. Data dessa época a organização dos primeiros sindicatos e as primeiras greves, que tinham entre as principais reivindicações a restrição da duração do trabalho. Ver https://www.politize.com.br/direitos-trabalhistas-historia/

[11] Ver jornal A República, Natal-RN, edição de 23 de julho de 1939, pág. 1.

[12] Ver jornal A Ordem, Natal-RN, edição de 23 de julho de 1939, pág. 4.

[13] Ver jornal A Ordem, Natal-RN, edição de 6 de agosto de 1939, pág. 1.

[14] Na Lei nº 823-E não faz nenhuma referência a nenhuma outra pessoa que tenha sido fundador da Feira do Alecrim. Igualmente não sei se a placa foi colocada.

OS PRIMEIROS ANOS DO BAIRRO DO ALECRIM E UMA OUTRA VERSÃO SOBRE A ORIGEM DO SEU NOME

Uma Carta Produzida por um dos Primeiros Moradores do que Se Tornaria o Bairro do Alecrim Informa Uma Outra Versão Sobre a Sua Toponímia e Quem Teria “Batizado” um dos Mais Tradicionais Bairros de Natal

Rostand Medeiros – IHGRN

Segundo o historiador Luís da Câmara Cascudo, antes da existência do que hoje conhecemos como Cemitério Público do Alecrim, as pessoas em Natal eram enterradas na parte interna, ou nas proximidades das igrejas católicas[1]. E isso eram um baita de um problema.

Cemitério Público do Alecrim na década de 1920.

Podemos perceber essa necessidade através do registro de uma sessão da Assembleia Legislativa Provincial, ocorrida em 29 de julho de 1851, quando João Ignácio de Loyola Barros debateu com José Moreira Brandão Castelo Branco se uma verba de 500$000 (quinhentos mil réis) seria destinada para a iluminação pública ou para a construção de um cemitério. Ganhou a iluminação[2].

Quanto ao cemitério público, segundo Câmara Cascudo, somente em 8 de fevereiro de 1856, o Presidente da Província Antônio Bernardo dos Passos fechou um contrato com o mestre Manuel da Costa Reis para a construção de um cemitério pelo valor de 3.400$000 (três contos e quatrocentos mil réis), “na esplanada que fica no caminho das Quintas” [3]. Como podemos perceber o valor aumentou bastante em relação do que se previu gastar com a mesma obra em 1851. E a razão para o aumento dos gastos é bem clara e transparente, pois 1856 foi o ano da cólera[4].

Região do Baldo no início do século XX.

Câmara Cascudo aponta que nesse tempo Natal tinha cerca de 5.000 habitantes, que a capital perdeu 215 vidas e o Rio Grande do Norte pagou o alto preço de 2.563 mortos. O Presidente Passos então proibiu enterros fora do cemitério e João Estevão Barbosa tomou posse como primeiro administrador do Cemitério Público em 11 de abril de 1856 e ganhava 40$000 (quarenta mil réis) por mês. Segundo Câmara Cascudo, diante do poder aquisitivo da moeda vigente no Império do Brasil, aquele valor era uma verdadeira fortuna. Quem sabe se não seria complementado por uma espécie de “adicional de insalubridade”?

Outra ação do Presidente Passos nessa época foi construir um Lazareto para abrigar os doentes pobres. Sobre a importância histórica desse local, um texto acadêmico aponta que “Os primórdios da psiquiatria potiguar se inserem na construção, em 1857, de um hospital Lazareto”[5]. Tudo indica que em 7 de setembro de 1882, o então Presidente da Província Francisco de Gouveia Cunha Barreto ou começou a ampliação desse local, ou derrubou o prédio velho e construiu uma nova edificação, que foi concluída em 1885 e passou a ser denominado de Lazareto da Piedade[6].

Certamente pelo medo de propagação do cólera e de outras doenças a partir dos corpos em decomposição, foi que o Presidente Passos escolheu o local do Cemitério Público em um ponto bem distante da área central de Natal, o que provocou novos problemas. Cascudo comentou que para atenuar essa situação, o Presidente da Província mandou comprar em Recife um carro fúnebre no valor de 750$000 (setecentos e cinquenta mil réis). Entretanto, quase quarenta anos depois do ataque do cólera em Natal, uma nota de jornal transparece como a distância para o Cemitério Público continuou sendo grande para a população local. Em 24 de agosto de 1891 o jovem Manoel Adélio Emerenciano faleceu de causas desconhecidas e foi enterrado no Cemitério do Alecrim. Seu pai, José Idelfonso Emerenciano, mesmo em meio a tragédia da perda do seu filho, fez questão de publicar uma nota agradecendo aqueles que se dignaram a acompanhar o velório até o cemitério[7].

Origem do Nome

Em sua interessante obra História da Cidade do Natal, Câmara Cascudo informou que uma senhora que habitava nas proximidades do cemitério público costumava enfeitar com pequenos ramos de alecrim os ataúdes das crianças que eram ali sepultadas. Não sabemos se essa mulher, conhecida como Velha do Alecrim, realizava essa caridosa tarefa por piedade, ou para pagar alguma promessa. Nem sabemos se sua ação ocorreu na época da epidemia do cólera, ou começou depois. Assim como nada ficou registrado sobre seu nome e sua história pessoal. Mesmo sem maiores referências, essa é a versão mais conhecida para a criação da toponímia do bairro do Alecrim[8].

Já na edição de 4 de agosto de 1948 (pág. 2) do jornal católico natalense A Ordem, encontramos um interessante relato feito por um oficial do Exército Brasileiro ao Monsenhor Paulo Herôncio de Melo (1901 – 1963), sobre os primeiros anos do que hoje é o bairro do Alecrim e um certo elemento, nem um pouco piedoso e caridoso, que supostamente teria batizado o bairro.

Reinaldo F. Lourival nasceu em Natal, sendo um dos dezenove filhos legítimos de Lourival Eduvirges de Mello Açucena (1827 – 1907), o renomado poeta Lourival Açucena[9]. Esse verdadeiro ícone da poesia potiguar teve três mulheres e ainda foi responsável pela vinda ao mundo de outros treze rebentos bastardos, perfazendo trinta e dois filhos no total. Apesar dessa situação, nada incomum em muitas famílias brasileiras na virada dos séculos XIX e XX, Reinaldo cresceu tendo acesso a uma boa qualidade de vida, o que lhe proporcionou entrar no Exército e seguir a carreira militar. Ele fez o curso de oficial na extinta Escola Militar da Província do Rio Grande do Sul[10].

Igreja de São Pedro Apóstolo, na área da Praça Pedro II. Nessa área é onde acreditamor ter sido construída a casa de Reinaldo Lourival.

Em 1948 Reinaldo Lourival escreveu para o Monsenhor Paulo Herôncio comentando que retornou do Rio Grande do Sul em abril de 1892, passando a residir na Rua Padre Pinto, antiga Rua do Fogo. Depois comprou um terreno que ficava além da região do Baldo, próximo da atual Praça Pedro II, onde construiu uma casa. Depois, na mesma área, edificou uma vivenda para sua mãe Dona Flora Clarindo de Vasconcelos Lourival, a segunda esposa de Lourival Açucena. Ele informou que naqueles primeiros momentos do Alecrim, afora algumas poucas casas ao redor do seu terreno, do cemitério e do lazareto, ou de algum rancho mais afastado, o resto era basicamente mato.

Câmara Cascudo faz eco ao texto de Reinaldo Lourival, apontando que antes de 1892 a região era ainda mais desabitada, onde comentou que “Raríssimas pessoas habitavam o descampado. Era terra de roçados de mandioca e de milho, zona de caçada para os morros. Umas quatro casinhas de taipa, cobertas de palha, sem reboco, denominadas capuabas, estavam dispersas num âmbito de légua quadrada”. Já em relação aos moradores da região onde atualmente se localiza a Praça Pedro II, Cascudo comentou que essa praça “teve as honras das iniciais filas de casas”. Ele apontou que entre os primeiros moradores que ali viviam estava Flora Lourival, mãe do militar Reinaldo Lourival[11].

Voltando ao texto produzido pelo militar em 1948, Reinaldo informou que batizou a área onde morava como “Alto da Santa Cruz”. Segundo ele a aprovação desse nome contou com o apoio de ninguém menos que o Padre João Maria Cavalcanti de Brito. E o bondoso e caridoso padre teria lhe dito que “Coloque lá uma cruz, que é o símbolo do Cristianismo”. Se o militar chantou essa cruz, eu não descobri.

Tempos depois, por volta de fevereiro ou março de 1895, um cidadão chamado Manuel dos Prazeres vendeu sua residência, que ficava após o cemitério e o lazareto. O comprador foi um negro conhecido Manuel Peregrino, que foi escravo de um rico comerciante chamado Joaquim Inácio Pereira. Após a sua libertação Peregrino, tido como “pândego”, montou uma “pensão” em uma antiga artéria de Natal chamada Rua do Morcego (anteriormente conhecida como Rua do Sebo) [12]. Um ambiente que, segundo Reinaldo, promovia bailes e batuques e a “gente do meretrício e do álcool” circulava tranquilamente. Sempre tarde da noite era servido pelo proprietário uma suculenta Panelada e uma ótima Mão de vaca, para levantar a moral e o espírito dos frequentadores, tidos pelo autor como uma “baixa e temível freguesia”.

Ocorre que o negócio de Peregrino estava perturbando a vizinhança da Rua do Morcego e o ex-escravo foi devidamente “convidado” a se retirar do setor pelas autoridades. Consta que ele pagou um bom dinheiro pela sua nova casa, mas o problema é que Manuel Peregrino levou para a região próxima do “Alto da Santa Cruz”, do cemitério e do lazareto o seu ganha pão, seu batuque, sua clientela, sua Panelada e a Mão de vaca.

Não demorou e começaram o que o militar classificou de “orgia e desordem”. Um dia o filho de Lourival Açucena testemunhou Peregrino atacar violentamente um ex-escravo do coronel Bonifácio Câmara a cacetadas. O fato ocorreu no meio da rua e na frente de todos, sem ter sido divulgada a razão do ataque[13].

Na revista carioca Fon Fon, edição de 11 de dezembro de 1916, na página 26, encontramos essa foto, onde o militar fardado é Reinaldo F. Lourival, atuando como juiz de uma luta de esgrima. O que mostra sua mudança para o Rio deJaneiro.

Reinaldo Lourival informou na carta publicada no jornal A Ordem que foi o próprio Manuel Peregrino que lhe confessou em uma ocasião que “batizou de Alecrim o novo bairro” e que isso ocorreu “de parceria com seus convivas, sentindo talvez o cheiro da planta aromática, que certamente em casa tinha”. O militar apontou que Peregrino fez isso “talvez ignorando o que eu tinha proposto”, que foi chamar a região de “Alto da Santa Cruz”, com a anuência do Padre João Maria.

Apesar do Relato Interessante, Seria Essa História Verdadeira?

Será que Manuel Peregrino, por talvez possuir ramos da popular planta aromática no seu negócio, decidiu junto com sua a sua gente bem destrambelhada chamar de “Alecrim” a área onde estava a sua dita “pensão”?

Realmente a única referência sobre essa versão de onde surgiu o nome Alecrim para o bairro, é a carta desse militar ao Monsenhor Paulo Herôncio e publicada na edição de 4 de agosto de 1948 (pág. 2) do jornal católico natalense A Ordem.

Parece não haver dúvidas que a planta alecrim (Salvia rosmarinus) era uma planta abundante e popular na capital potiguar. Encontramos inúmeras citações do seu uso entre os moradores de Natal nos jornais do final do século XIX. Certamente ela proliferava desde a região onde hoje se encontra a Praça Pedro II, até o Cemitério Público e o setor onde foi construído o antigo Lazareto da Piedade. Quem sabe se bem antes de existir o cemitério e a Velha do Alecrim com a sua caridosa ação, ou o “pensão” onde Manuel Peregrino vendia sua Panelada e a Mão de vaca, de alguma forma toda aquela região já era conhecida pelo nome da popular planta que ali proliferava?

Realmente eu não sei!

O que sei é que a história das cidades e de seus bairros é algo extremante dinâmico e interessante, cuja existência segue adiante independente de meras questões toponímicas.

Já nos primeiros anos do século XX existem várias referências sobre uma área, aparentemente um logradouro não oficial, denominado “Rua Alecrim”, cuja localização era “alguns passos além do campo santo”.

Essa referência encontramos na edição do jornal natalense A República, de 30 de julho 1902 (pág. 1), que afirmava ser a dita “Rua Alecrim” um dos locais perigosos de Natal. Um setor onde “a língua, as armas e a cachaça estão elevadas ao último grau”. Inclusive essa nota informava sobre o caso de um homem chamado Belarmino Bezerra Borges, que tinha sua horta composta de jerimuns, quiabos, macaxeiras, feijão de corda e outros legumes, sendo continuamente roubada e destruída por um certo Francisco de Oliveira, que acabou preso.

Outras referências deixam claro que a área no entorno da “Rua do Alecrim” era realmente “quente”. Poucos meses antes do roubo a Belarmino Bezerra Borges, encontramos a designação de José Pereira Neves como “Inspector de Quarteirão” da “Rua Alecrim” e da “Travessa Barro Vermelho, conforme está descrito na edição de 4 de fevereiro de 1902 (pág. 4) de A República,[14].

Região do Baldo. A avenida a direita na foto segue em direção a Praça Pedro II.

Apesar dos problemas envolvendo violências nessa área da capital potiguar, encontramos um indicativo de crescimento habitacional na região da “Rua Alecrim”. Ainda em 1902 foi publicado um convite feito por Godofredo Xavier da Silva Brito, Presidente da 1ª Seção de Alistamento Eleitoral, conclamando as pessoas que habitavam nas localidades “Pirangí”, “Ponta Negra”, “Quintas”, “Réfoles” e “Rua Alecrim”, para comparecerem na sede da Intendência Municipal e se registrarem como eleitores. Vale recordar que nessa época nem mulheres e analfabetos eram aceitos como eleitores e a fraude era uma constante nas votações. Já o que se chamava de Intendência Municipal, ou simplesmente Intendência, é algo que hoje denominamos como Prefeitura[15].

Logo a designação “Alecrim” começou a aparecer também em documentação oficial do Governo do Estado. Na página quatro do relatório da diretoria do Hospital de Caridade, entregue ao governador Alberto Frederico de Albuquerque Maranhão e anexado a sua mensagem ao Congresso Legislativo do Estado de 1904, o futuro bairro aparece como “Alto do Alecrim”.

E parece que a área foi crescendo, se ramificando e parindo outros logradouros com a denominação “Alecrim”. Em 1907 o Sr. Lucio Ferreira do Nascimento requereu na Intendência Municipal de Natal o aforamento de um terreno de sua propriedade na área da Praça Pedro Américo[16]. Nessa nota essa praça é também referenciada como “antiga do Alecrim”[17].

Bonde da linha o bairro do Alecrim.

Essa região, considerada periférica na época, continuou crescendo e em 23 de outubro de 1911, através da Resolução número 151, promulgada pela Intendência Municipal de Natal, é criado o bairro do Alecrim, o quarto bairro da cidade do Natal.

NOTAS


[1] Sobre a história do Cemitério do Alecrim ver Cascudo, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Natal-RN. IHGRN, 3ª Ed., págs. 263 a 266, 1999.

[2] O tribuno Loyola torcia que a verba se destinasse a iluminação e Brandão pelo cemitério. Apesar da Lei 225 ter sido promulgada em 9 de agosto de 1851, com a devida autorização para a compra de quinze lampiões que utilizavam azeite, ela não foi cumprida. Natal só veio a ter seu primeiro sistema de iluminação pública em 1859. Ver Cascudo, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Natal-RN. IHGRN, 3ª Ed., págs. 299 e 300, 1999.

[3] Sobre esses interessantes debates ocorridos na Assembleia Legislativa Provincial, ver o jornal Argos Natalense, Natal-RN, ed. 07/09/1851, pág. 2 e a edição de 20/09/1851, na pág. 4.

[4] Nesse mesmo ano de 1856 o Presidente Passos ergueu o Hospital da Caridade. Esse hospital ficava localizado na rua que ficou conhecida como Caridade e hoje se chama Presidente Passos, na Cidade Alta. Ver Cascudo, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Natal-RN. IHGRN, 3ª Ed., pág. 206, 1999.

[5] Reforma psiquiátrica em Natal-RN: evolução histórica e os desafios da assistência de enfermagem. Autores – Fernando de Souza Silva, Clélia Albino Simpson e Rita de Cássia Dantas. Publicado originalmente na SMAD, Revista Eletrônica de Saúde Mental, Álcoo e Drogas.(ED. Port.) vol.10no.2 Ribeirão Preto-SP ago. 2014.

[6] Segundo placa comemorativa ao centenário do prédio, onde hoje funciona o CEI Leste II, localizado no Alecrim, em 1921 o antigo Lazareto da Piedade se transformou no Hospital dos Alienados, depois foi construído no local o Centro de Saúde do Alecrim e hoje é o Centro de Saúde Reprodutiva Prof. Leide Morais, na Rua Fonseca e Silva.

[7] O carro fúnebre foi adquirido ainda em 1856. Sobre a nota publicada por José Idelfonso Emerenciano, ver o jornal O Santelmo, Natal-RN, ed. 06/09/1891, 1ª pág.

[8] Ver Cascudo, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Natal-RN. IHGRN, 3ª Ed., pág. 356, 1999.

[9] Foi Luís da Câmara Cascudo, com a ajuda de Joaquim Lourival, filho do poeta, que recolheu o que foi possível de seus poemas, publicando um volume em 1927. Este filho do bardo foi igualmente uma figura muito conhecido na capital potiguar, sendo proprietário de uma escola particular e chamado por todos de “Professor Panqueca”. Mais sobre a vida de Lourival Açucena ver https://tokdehistoria.com.br/2017/09/09/lourival-acucena-o-grande-artista-de-natal/

[10] Entre os filhos de Lourival Açucena ao menos três deles seguiram a carreira militar no Exército. Foi o caso do coronel Reinaldo F. Lourival, que anos depois do episódio aqui comentado passou a residir no Rio de Janeiro, e do major Pedro Lourival, que passou a residir em Pelotas, Rio Grande do Sul. Já o cadete Carlos Lourival, outro filho de Lourival Açucena, morreu com 21 anos em decorrência do “uso imoderado de morfina”. Este jovem nascido em Natal era fruto do segundo casamento do poeta, morava em São Paulo e estava lotado no 10° Regimento de Cavalaria, onde faleceu na madrugada de 4 para 5 de julho de 1889. Ver https://tokdehistoria.com.br/2017/09/09/lourival-acucena-o-grande-artista-de-natal/

[11] Ver Cascudo, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Natal-RN. IHGRN, 3ª Ed., pág. 355 e 356, 1999.

[12] Não consegui descobrir onde se localizava essa antiga artéria natalense.

[13] Alguém pode estranhar que Reinaldo F. Lourival, um oficial do Exército Brasileiro durante a Primeira República, uma época onde os militares detinham muito poder político em meio a sérias crises institucionais no Brasil, tenha aceitado a existência desse tipo de “ambiente” em uma área não muito distante da sua casa e a da residência de sua mãe. Entretanto, apesar de todo movimento, parece que nem o militar e nem sua família se sentiram atingidos pelo o que ocorria no lugar de trabalho de Manuel Peregrino, pois em seu longo relato não encontrei a menor referência desse militar utilizar a polícia contra esse lugar. Ainda segundo o texto publicado no jornal natalense A Ordem, na edição de 4 de agosto de 1948 (pág. 2), nessa época Reinaldo F. Lourival estava aposentado no posto de coronel e vivia no Rio de Janeiro. Por essa época morava em Natal um filho seu chamado Mauro, que havia estado na Itália, como 1º tenente-médico e integrante do contingente da Força Expedicionária Brasileira – FEB.

[14] Um “Inspector de Quarteirão” era uma pessoa designada, sem remuneração, como auxiliar do delegado municipal. Ficavam encarregados do policiamento em locais normalmente mais afastados dos centros urbanos, onde cabia-lhes lidar com situações diversas, sendo responsáveis pela solução de problemas localizados em seus setores, ou realizar o encaminhamento dos envolvidos para as Delegacias de Polícia. Segundo o historiador Anderson Szeuczuk, em um artigo publicado na Revista Saber Acadêmico (edição nº 28, dezembro de 2019) da Faculdade Presidente Prudente, informa que os quarteirões designados ao seus respectivos inspetores deveriam normalmente ter no mínimo 25 casas, o que poderia indicar um número relativo aos primeiros habitantes do bairro do Alecrim.

[15] Ver jornal A República, Natal-RN, ed. 23/04/1902, pág. 2.

[16] A antiga Praça Pedro Américo é chamada nos dias atuais de Praça Pedro II.

[17] Ver jornal A República, Natal-RN, 23/01/1907, 1ª pág.

A HISTÓRIA DA LEALDADE DOS CÃES CAÇADORES DE ONÇAS DE LAJES, RIO GRANDE DO NORTE

Rostand Medeiros – IHGRN

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A onça-pintada está até hoje entre os animais mais caçados no Brasil (Foto: Reprodução) – Fonte – https://davidarioch.com/author/davidarioch/page/18/?ak_action=reject_mobile

Quase sempre a morte de um cãozinho fornece o primeiro contato de muitas pessoas com o fim da existência terrena. O mesmo fim ao qual todos que estão lendo esse texto estão sujeitos. Essa situação ajuda muitas pessoas a aceitar a fragilidade da vida e a inevitabilidade de nossa própria mortalidade. 

Embora não saibamos se os cães compreendem quando morremos, não faltam exemplos pelo mundo afora de reações caninas a estes acontecimentos. E elas variam do comovente ao bizarro. 

Descobri que na época que a atual cidade de Lajes ainda era uma propriedade rural, ocorreu uma situação envolvendo dois cachorros que chamou a atenção da comunidade e se mantém até hoje no imaginário de algumas pessoas da região.

Os Cães Entendem a Morte?

Sabe-se que os cães são os melhores amigos de quatro patas do homem e ele ficará ao seu lado, não importando o que aconteça. Mas você realmente sabe até onde vai a lealdade de um cachorro? 

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O recente caso do vira-lata ‘Capitán’, que durante dez anos zelou pelo túmulo do seu dono na cidade argentina de Villa Carlos Paz, na província de Córdoba, chamam atenção de todos – Fonte – G1

Talvez você possa ter ouvido falar da história de Hachiko, o cão que esperou o retorno de seu mestre humano, mesmo depois dele ter morrido. Mas há muitos outros caninos cujas façanhas foram extraordinárias de alguma forma. Eles fizeram o inesperado, realizando coisas surpreendentes. A fim de honrar a memória desses animais, muitas estátuas de cães foram erguidas em todo o mundo, representando a devoção dos homens a esses animais de estimação. 

O professor de psicologia da Universidade da Columbia Britânica, Stanley Coren, disse à IFLScience que “Todas as nossas pesquisas atuais tendem a mostrar que os cães têm uma mente que é aproximadamente equivalente a de uma criança humana entre dois e três anos de idade”. Os cientistas acreditam que os nosso melhor amigo é mais do que capaz de sentir dor, tristeza e até depressão, mas provavelmente eles não possuem inteligência para compreender a existência e a permanência da morte. Afirma Stanley Coren que “Antes dos cinco anos de idade as crianças não entendem alguns conceitos básicos sobre a morte e a principal coisa que para elas é incompreensível se relaciona ao fato da morte ser irreversível”.

Isso não quer dizer que os cães não tenham algum grau de percepção sobre isso. Um grupo cada vez maior de pesquisadores em cognição canina indica que eles são animais emocionalmente complexos e com um alto grau de inteligência social. Por exemplo, estudos recentes revelaram que os cães conseguem compreender alguns sons do vocabulário humano, ao mesmo tempo em que julgam o tom da voz de uma pessoa para decifrar o verdadeiro significado do que estão dizendo. É essa intuição social que permite aos cães formarem relações tão próximas com os humanos. Essa proximidade pode em muitos casos ser extremamente fortes e pungentes, gerando por parte desses animais de estimação interessantes situações quando seus donos morrem.

Navy SEAL Killed In Afghanistan Mourned By Dog
Em 2011, na cidade de Mason City, Iowa, Estados Unidos, o cachorro Hawkeye não saiu do lado do esquife do seu dono, o membro do SEAL Jon Tumilson, morto em ação de combate no Afganistão em 6 de agosto daquele ano, quando seu helicóptero foi abatido durante uma missão destinada a ajudar as tropas que foram atacadas por insurgentes. Foi um dos ataques mais mortais contra as forças dos Estados Unidos naquela guerra de 10 anos. Foto de Lisa Pembleton, Getty Images.

No entanto, Stanley Coren insiste que a capacidade de compreender conceitos abstratos como a morte pode estar além da capacidade dos caninos, sendo essa situação limitada a humanos e possivelmente a um pequeno número de outros animais altamente cognitivos, como elefantes e alguns primatas. O cientista afirma “Os cães são extremamente sociáveis ​​e estão altamente conscientes da perda de um indivíduo que é importante em sua vida, mas eles não têm a ideia de que eles necessariamente desaparecerão para sempre”, diz ele.

Em relação aos casos de cães que esperam fielmente por seus donos ao lado de seus túmulos por anos a fio, Coren diz que eles provavelmente estão esperando por eles voltarem, em vez de lamentar sua perda. “Eu não acho que o cachorro ficaria particularmente surpreso se seu mestre saísse daquela caixa”, explica ele[1].

Ok, tudo bem!

Mas diante de um caso que aconteceu aqui no Rio Grande do Norte, ainda na época do Brasil Imperial, me pergunto se é comum cães sentirem e até mesmo “homenagearem” outros um cães após a morte deste?

Não sei! Mas leiam sobre esse caso…

Um promissor Potiguar

Nossa história se inicia com um fazendeiro da Região Central do Rio Grande do Norte.

Segundo consegui apurar, através dos escritos do professor e poeta João Bosco da Silva, da cidade potiguar de Pedro Avelino, e publicados no blog “Fernando – A Verdade”, do blogueiro Fernando Soares, Juvêncio Tassino Xavier de Menezes era filho do Major Francisco Xavier de Menezes e de Dona Maria de Fontes Taylor, nascida na Inglaterra. O jovem Juvêncio Tassino estudou em Recife onde se destacou em língua portuguesa, inglês, francês, matemática e latim. Depois de retornar ao seu estado natal, o promissor potiguar foi chamado pelo empresário e industrial Fabrício Pedrosa, o conhecido “Senhor dos Guarapes”, para exercer o cargo de procurador de sua poderosa empresa, atuando como representante do comércio exterior na venda de açúcar durante a Guerra Civil dos Estados Unidos, a chamada Guerra da Secessão (ocorrida entre 1861 e 1865).

Mesmo sem comentar a data, o professor João Bosco informa que Olinto José Meira de Vasconcelos, que foi presidente da província do Rio Grande do Norte entre 30 de julho de 1863 a 21 de agosto de 1866, nomeou Juvêncio Tassino professor público, onde ele serviu em Taipu, Angicos, Mossoró e Caicó. Depois conseguiu a patente de Alferes da Guarda Nacional, mostrando sua ascensão na sociedade em que vivia. Entretanto, consta que Juvêncio abandonou tudo e decidiu morar na sua fazenda Livramento, na cidade de Angicos, localizada na Região Central do Rio Grande do Norte. Durante a conhecida “Seca dos dois sete”, que na verdade durou de 1877 a 1879, esse fazendeiro perdeu todos os seus bens para a calamidade climática. Decidiu então sair do sertão e morar no fértil Vale do Ceará-Mirim, onde com muita luta Juvêncio conseguiu recuperar seu patrimônio. Existe a informação que ele foi juiz distrital no município paraibano de Guarabira e fundador do Partido Republicano do Rio Grande do Norte, juntamente com Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, o primeiro governador republicano em terras potiguares. Juvêncio Tassino foi um homem de vasta influência política, onde conseguiu trazer para os municípios da Região Central escolas e muitos açudes.

O professor e poeta João Bosco da Silva informa ainda que em 1913, Juvêncio Tassino veio para sua fazenda São Miguel, em um lugar chamado “Gaspar Lopes” e que está enterrado no “Cemitério do Logradouro, em São Miguel”. Era tido como um homem pacífico, bondoso, que acolheu antigos escravos, como por exemplo, ”Mãe Chica e Joana”[2].

Mas eu descobri que Juvêncio Tassino não apenas acolheu ex-escravos, ele também os ouvia e, melhor, anotou e transmitiu alguns dos relatos dos antigos cativos em interessantes crônicas no principal jornal natalense do início do Século XX.

Pai Mané, os Dois Parrudos e as Onças

Na edição de terça-feira do jornal A República, dia 4 de dezembro de 1917, na terceira página, mais precisamente na coluna “Solicitadas”, Tassino apresenta sua crônica com o seguinte titulo “História verídica de um cão, vitima admirável do amor paternal, passada nas Lajes, hoje Villa florescente d’este Estado”. Ele informa que o episódio ocorreu ainda na época do Brasil Império, quando o sistema escravista era vigente e o atual município de Lajes era uma antiga e grande fazenda que havia pertencido a Miguel Ferreira de Mello, homem rico, que tinha até mesmo casa comercial em Recife.

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Miguel Ferreira tinha como vaqueiro e seu procurador na propriedade José Antônio de Mello, um provável parente. Este por sua vez foi casado com uma senhora que era irmã do avô paterno de Juvêncio Tassino. Não sei se o narrador conviveu com os envolvidos nessa história, ou apenas ouviu relatos de quem conviveu com os mesmos.

Em seu texto Juvêncio relatou que José Antônio de Mello possuía entre seus “bens de fortuna” um casal de escravos vindos da África, cujo homem se chamava Manoel, mas era conhecido de todos como “Pai Mané”, sendo considerado de extrema confiança e tinha total atenção e estima do seu dono.

Um dia José Antônio entregou a Manoel um cachorro bem novo, que este último lhe chamou de “Parrudo”. Mesmo sem informar a raça desse cão, o nome dá ideia de ser um animal de porte respeitável e certamente bem forte. Talvez um da raça Fila Brasileiro?

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Antiga gravura que mostra Cães Fila de orelhas cortadas(que podem ser o brasileiro, ou o cão de fila de são miguel) acuando uma onça-pintada – Fonte – https://pt.wikipedia.org/wiki/Fila_brasileiro

Parrudo logo se mostrou um cachorro especial, pois apresentou notável destreza e capacidade nas caçadas de onças, que nesse tempo provocavam grande destruição entre o plantel de gado dos fazendeiros da região.

A onça pintada e seus parentes próximos são os animais que mais força e representatividade possuem no imaginário dos brasileiros, sendo as dos tipos pintada e a parda os únicos animais comparados aos grandes felídeos africanos. Já sua caçada dependia (e ainda depende em algumas regiões do Brasil) do uso de cachorros com enorme capacidade para a perseguição. Os cachorros farejavam o rastro das onças e quando os caçadores se aproximavam, a tendência desses animais era correr. Mas a onça pintada é um animal pesado, que não aguenta correr muito. O cachorro é muito mais resistente. Então, a onça se cansava e subia nas árvores ou buscava uma loca de pedra procurando segurança, quando então se tornava um alvo fácil para os caçadores.

Não sei no caso de Pai Mané, o texto nada comenta, mas naqueles tempos de trabalho servil no Brasil certamente eram poucos os escravos que caçavam esses animais com armas de fogo. Então o apetrecho de caça das onças grandes era uma espécie de lança chamada “zagaia” e quem utilizava essa arma era o “zagaieiro”. E o caçador tinha de possuir muita coragem e muita destreza, pois após a onça ser acuada por Parrudo, o escravo Pai Mané tinha de chegar bem perto do forte felino, levar a zagaia com a ponta rente ao chão sem jamais poder levantá-la, pois a onça poderia dá uma patada na zagaia que deixaria o caçador indefeso e certamente o animal lhe atacaria.

“Homenagem”

Mas o tempo foi passando e Parrudo começou a dá sinais de velhice. Pai Mané decidiu então colocar seu companheiro de caçadas para cruzar com uma cadela, da qual Juvêncio Tassino não informa nada em relação à origem e sua raça. Nasceu então uma ninhada onde se destacou um macho que foi adotado pelo escravo e chamado “Novo parrudo”.

O neófito animal se mostrou apto para o negócio de caçadas de onças, tão bom quanto seu pai. Logo a destreza e capacidade do trio fez ainda mais fama na Região Central e em outras áreas do Rio Grande do Norte.

Juvêncio Tassino nos conta que eles chegaram a caçar na região do Seridó, onde foram chamados para matar onças pelo “inteligente e grande reformador Capitão Thomaz de Araújo”, talvez algum descendente de Thomaz de Araújo Pereira (1765-1847), 3º do nome e 1º presidente da província do Rio Grande do Norte. O certo é que Pai Mané e Parrudo pintaram o sete na caçada às onças seridoenses.

Mas quis o destino que um dia, no meio da mata e durante uma das caçadas, o velho Parrudo fosse mordido por uma cascavel. O animal só durou umas duas horas e o desolado escravo trouxe nas costas o cadáver do companheiro de labuta. Na casa grande da fazenda o já velho escravo pediu licença ao seu senhor para enterrar o estimado animal. José Antônio de Mello deu a autorização e seu escravo levou o cadáver do cachorro para ser sepultado na várzea direita de um rio que, segundo Juvêncio Tassino, ficava “bem confronte aonde existe o Cemitério Público”. Certamente o mesmo cemitério que é facilmente visível por quem hoje passa por Lajes, utilizando a rodovia BR-304, a mesma que liga Natal a Mossoró.

Caça à onça, Rugendas
Índios caçando onças durante o período colonial, em quadro de Johann Moritz Rugendas – Fonte – https://martaiansen.blogspot.com/2014/03/como-os-indios-cacavam-oncas.html

A partir desse ponto da história começaram a acontecer situações estranhas, que fizeram com que esse relato permanecesse por décadas na memória de muitas pessoas da região.

O jovem Parrudo seguiu Pai Mané e o cadáver do velho Parrudo soltando ganidos estridentes, uivando fortemente e agindo de maneira muito estranha. Enquanto o velho escravo cavava a cova, o jovem animal passava a pata com carinho no animal morto, como querendo chamá-lo para a vida. Depois de cavar uma cova bem funda e enterrar o velho Parrudo, o animal mais jovem colocou-se sobre o local do enterramento e continuou ganindo e uivando.

Juvêncio informou em seu texto de 1917 que Pai Mané tentou de tudo para trazer o jovem Parrudo para casa, mas foi em vão. No final do dia o escravo trouxe o cachorro amarrado e a força. Mas logo que foi solto, voltou rapidamente para a cova do velho Parrudo e lá ficou. Para piorara a situação e deixar o povo da região impressionado, o animal não aceitou nenhum tipo de comida e teimava em ficar sobre a tumba. Logo a notícia se espalhou e outras pessoas vieram ver o que acontecia. Muitos tentaram trazer o animal para a choupana do escravo, mas presenciavam seu retorno ao local do enterramento. Foram oito dias de agonia e tentativas de demover o jovem animal daquele verdadeiro martírio. Mas nada adiantou e o Parrudo novo morreu naquele oitavo dia de fome e tristeza.

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Em meio a muita contrariedade ao Pai Mané não sobrou outra coisa a fazer do que enterrar aquele cachorro ao lado do velho Parrudo. Ele jurou nunca mais caçar onças e criar outros cachorros para esse fim. Segundo Juvêncio Tassino Manoel, o Pai Mané, cumpriu sua promessa até a morte.

Ao final do relato transcrito em A República de 4 de dezembro de 1917, Juvêncio fez questão de escrever – “Garanto a verdade do facto mesmo sob juramento”.

Esse material eu fotografei em 2005, nos velhos exemplares de A República existentes no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Norte, quando lá realizei uma pesquisa como aluno do curso de história da UFRN. Fotografei esse exemplar do jornal mais pela singularidade do relato e não porque fosse o foco da minha pesquisa. 

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Em recente pesquisa de campo na região de Lajes, São Tomé e Cerro Corá.

Passados treze anos, nesse ano de 2018 eu estive realizando um trabalho de levantamento de campo na região da Serra do Feiticeiro, em uma área onde se encontram as fronteiras dos atuais municípios de Lajes, São Tomé e Cerro Corá. Em um dos momentos que realizava esse trabalho estive no sítio Serra Verde, próximo ao Rio Poço dos Cavalos e da Serra da Macambira, não muito distante da cidade de Bodó.

Ali encontrei a Senhora Maria das Dores da Silva, moradora do lugar, pessoa simples e humilde e tendo cerca de 60 anos de idade. Ela é de descendência negra, possui mãos calejadas pelo trabalho no campo e uma enorme alegria ao receber seus visitantes. Em meio a um cafezinho, ao lhe perguntar histórias “dos mais antigos da região”, para minha surpresa ela me narrou o mesmo episódio que encontrei no exemplar de A República de 1917.

Maria das Dores me disse que essa história lhe foi contada pelo seu pai, já falecido, que ouviu de seus avôs e certamente dos seus antepassados mais distantes. Ela não sabe me dizer se é descendente do escravo africano Manoel, o Pai Mané, mas que essa história era transmitida como uma maneira dos mais velhos mostrarem aos mais novos como os cachorros, os melhores amigos dos homens, merecem atenção e respeito.  

NOTAS


[1] Ver https://www.dailymail.co.uk/news/article-2202509/Loyal-dog-ran-away-home-dead-masters-grave–stayed-years.html

http://worldtoptop.com/top-famous-loyal-dogs/

Top 10 Famous Loyal Dogs in the World

[2] Ver http://fernando-averdade.blogspot.com/2011/09/espaco-das-grandes-figuras-legado-dos.html

DOS FUNDADORES DO SERIDÓ PORTUGUÊS

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Serra da Rajada, Seridó Potiguar – Fonte – Rostand Medeiros

Autor – Fernando Antonio Bezerra – Potiguar do Seridó. Iniciante no ofício de escrever sobre fatos e personalidades do Seridó amado. É advogado e membro do Instituto de Genealogia do Rio Grande do Norte.

Fonte – http://www.substantivoplural.com.br/87364-2/

José Augusto Bezerra de Medeiros, além de político, foi um grande pesquisador a respeito das coisas do Seridó. Felizmente deixou vários apontamentos impressos que servem de pesquisa e, de fato, ajudam a estabelecer o elo entre o presente e o passado. De início, confirmando outros tantos estudos já feitos, José Augusto comenta que “na zona do Seridó, por exemplo, certo e seguro é afirmar que todo movimento povoador decorreu da necessidade de encontrar espaço para a localização de fazendas de criação de gado”. Acrescenta, ainda, que, durante algum tempo, foi o Rio Grande do Norte o principal fornecedor de carne bovina para as Capitanias da Paraíba e Pernambuco. Presente, portanto, desde o início, nossa vocação para a pecuária e, de certa forma, o longo aprendizado que nos permite, mesmo diante de secas inclementes, criar e manter rebanhos bovinos no Seridó que a gente ama.

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Fonte – http://www.elo7.com.br/brasao-da-familia-medeiros/dp/3A367E

E os primeiros grandes núcleos familiares se estabeleceram, em regra, em função da pecuária. José Augusto menciona o que chama de fundadores das primeiras famílias do Seridó: 1) Araújo, com Tomaz de Araújo Pereira e Maria da Conceição Mendonça; 2) Dantas, com Caetano Dantas Correia e Josefa de Araújo Pereira; 3) Medeiros, com Rodrigo de Medeiros e Apolônia Barbosa; Sebastião de Medeiros e Antonia de Morais Valcacer; 4) Galvão, com Cipriano Lopes Galvão e Adriana de Holanda Vasconcelos; 5) Garcia, com Antonio Garcia de Sá e Maria Dorneles Bitencourt; 6) Bezerra, com José Bezerra Menezes e Maria Borges de Sacramento; 7) Monteiro, através de Manuel Pereira Monteiro e Teresa Tavares de Jesus; 8) Nóbrega, com Manuel Alves de Nóbrega e Maria José de Medeiros; 9) Silva, com Francisco Gomes da Silva e Maria Joaquina dos Santos Dantas; 10) Faria, com Joaquim Álvares Gomes de Faria e esposa; 11) Azevedo, com Antonio de Azevedo Maia e Josefa Maria de Almeida; 12) Fernandes, com Cosme Damião Fernandes e Isabel Maria de Araújo Fernandes. Outras famílias – Brito, Álvares, Pires, Alves dos Santos, Batista, Queiroz, Vale, por exemplo – também são antigas no nosso lugar, entretanto, o trabalho de pesquisa de José Augusto não investiga os fundadores dos primeiros núcleos, lacuna que já foi preenchida por outros pesquisadores, sobre os quais em outro momento conversaremos.

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Fonte – http://www.substantivoplural.com.br/87364-2/

De todo modo, particularizando a família Medeiros, numerosíssima em todo o Seridó, José Augusto reafirma que os irmãos Rodrigo e Sebastião são portugueses e se instalaram na Região, proximidades do Sabugi, nos limites do que hoje é Santa Luzia, na Paraíba. Os irmãos Medeiros conseguiram casamento por aqui com Apolônia e Antônia, irmãs entre si, filhas de Manuel Fernandes Freire e de Antônia de Morais. Uma pesquisa mais aprofundada da Família Medeiros/Dinoá complementa, sem contrariar os apontamentos de José Augusto, que Rodrigo e Sebastião são filhos de Manuel Afonso de Matos, Alferes, e Maria de Medeiros Pimentel, naturais da Ilha de São Miguel, nos Açores, Portugal e, por lá, eram da família Matos. Migraram para o Brasil na primeira metade do século XVIII, passaram a usa r o sobrenome Medeiros e deixaram aqui numerosa descendência.

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Os laços e abraços entre as famílias do Seridó são intensos. Por muitos anos, inclusive, a preferência das famílias era o casamento entre parentes. Razões para tanto não faltavam. Desde a preservação do patrimônio até o fato de que a população era menor, os eventos sociais raros, as distâncias maiores, enfim, muitas vezes não existia sequer a oportunidade do encontro entre os jovens. Ademais, de um tempo para frente, o fluxo migratório inverteu, ou seja, deixamos de receber outras famílias. Ao contrário, começamos a sair para outros centros e espalhar o sangue bom do Seridó em lugares como Natal, Recife, Campina Grande, São Paulo e Brasília, dentre outros onde os núcleos seridoenses são mais visíveis. Aliás, é relativamente comum em Natal encontrarmos descendentes de famílias seridoenses em uma mesma roda de conversa e, não raro, um ser parente do outro e não saber. Mas, mesmo não tendo o parentesco próximo, o laço de estima à Região nos une e, ao nos unir, é comum a batida no peito e a palavra de orgulho: ei, mas eu também sou do Seridó!

UMA VISITA AO RIO GRANDE DO NORTE

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Jornal “A República”, Natal-RN, 3 de dezembro de 1919

Manuel de Oliveira Lima foi um ilustre escritor, crítico, embaixador do Brasil em diversos países, professor-visitante na Universidade de Harvard e membro fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL). Em novembro de 1919 ele esteve em terras potiguares e o blog TOK DE HISTÓRIA traz na íntegra o interessante relato do próprio Oliveira Lima sobre essa visita.

NOTA – Este material foi originalmente publicado no site http://www.consciencia.org/

É um ótimo sinal quando se chega a uma terra que não é uma terra de arte como a Itália ou a Grécia, ou uma terra de incomparáveis belezas naturais como o Japão ou a Suíça, e as coisas que há a mostrar ao estrangeiro são escolas e hospitais.

Quer isto dizer que essa terra acalenta as preocupações sociais sem as quais qualquer comunidade se torna improgressiva e infecunda do ponto de vista humano. Como o Rio Grande do Norte parece precisamente que nutre e dá, pelo que verifiquei, expansão a semelhantes preocupações, sendo isso tanto mais de admirar quanto é um dos Estados mais pobres da Federação.

www.fernandomachado.blog.br
Manuel de Oliveira Lima – Fonte – http://www.fernandomachado.blog.br

É clássica a pilhéria de que os vencimentos dos seus empregados públicos se pagavam em parte com jerimuns, cuja abundância era notável ao lado da escassez do numerário. As circunstâncias decerto mudaram: os jerimuns devem ter diminuído ao ponto que os não vi e achei pouco delicado perguntar por eles, e o numerário, se não cresceu muito, tem sido aproveitado com tamanha felicidade que tem chegado para dotar-se o Estado de boas escolas, entre elas notáveis grupos escolares, e atender-se a serviços de assistência aos doentes, aos loucos e aos desvalidos.

Ao aproximarmo-nos de Natal, ao largo da linha negrft dos arrecifes, antes de dobrarmos a fortaleza dos Reis Magos, inofensiva hoje mas sempre pitoresca, que a patina secular embeleza e o senso da tradição faz conservar, e de subirmos o amplo Potengi, avista-se no cimo de um morro, a cavaleiro da praia onde se quebram as ondas e com um horizonte de colinas cobertas de uma vegetação escura, um grupo de construções. São o hospital, a cadeia e o asilo, o primeiro e o último já remodelados de maneira a preencherem adequadamente os seus fins.

O desvelo manifestado por semelhantes assuntos de pedagogia e de assistência honra o espírito público dos dirigentes. Mas também os dirigidos se distinguem pela sua cordura e urbanidade.

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Coleção TOK DE HISTÓRIA

Tem-se a impressão de lidar com gente boa, de sentimentos mais pacíficos, e de fato o sertão do Rio Grande do Norte destoa dos sertões vizinhos em não apresentar essa feição peculiar do banditismo. A população acusa, portanto, uma superior disposição moral. Por quê? Não saberia dizê-lo, nem me deram disso a razão. O Rio Grande do Norte tem ainda falta de sociólogos. A superior mentalidade feminina que observei deverá ser, antes do que causa, resultado daquela condição do meio.

É curioso verificar esse maior desenvolvimento intelectual da mulher, que se sente como se sente que já vem de longe o favor que merece o ensino. A primeira formação espiritual da notável escritora que foi Nísia Floresta fez-se no agreste de Papari, desabrochando das brenhas essa flor de civilização. Outras senhoras continuam e zelam semelhante tradição, que dota a inteligência do seu sexo de uma maior independência e de uma maior amplidão. A Escola Doméstica de Natal, da qual não é exagero quanto se disser de bom que não tem sua parelha no Brasil, nem mesmo noutros países, havia forçosamente de adaptar-se ao meio, nele se sentido à vontade.

Ouvi que exerceram grande influência em Natal na sua atividade de educadoras duas americanas, Miss Reed e Miss Porter, se não me engano. Miss Leora James, a diretora incomparável da Escola Doméstica, que pela organização e pela disposição parece um pedaço dos Estados Unidos encravado no Rio Grande do Norte, não faz mais do que seguir-lhes as pegadas na esfera que lhe proporcionou a lúcida iniciativa do Governo.

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Alunas da Escola Doméstica de Natal em uma aula na horta do educandário – Fonte – http://www.skyscrapercity.com

A educação americana é útil pelo seu espírito prático adequado às vicissitudes da vida, pelo bom humor que preside ao seu desenvolvimento, por uma tonalidade que não é apenas jovial mas altamente eficiente. Considero-a vantajosa para a nossa mentalidade mais formalista e mais pautada pelas convenções. Nos discursos pronunciados na festa literária pelas alunas graduadas da Escola Doméstica pode perfeitamente notar-se esse influxo americano. Nem sentimentais, nem bombásticos, esses discursos, por elas elaborados, foram todos repassados de um humour que se casa perfeitamente com a saudade descrevendo um, com a franqueza da despedida, episódios da vida escolar, esboçando outro com uma ponta de malícia mas sem maldade os perfis dos mestres com os seus cacoetes, dando outro a conhecer um testamento muito espirituoso, formulando ainda outro com graciosa ironia o programa que por magia cada uma dessas moças se traçara para a existência. Esta última produção é da aluna Isabel Dantas, que teve o prêmio de viagem.

A Escola Doméstica não tem desviado sua atenção do fim essencial da sua ação, que é ajudar o progresso social da comunidade, dando às moças, que serão amanhã mães de família, além dos conhecimentos gerais indispensáveis à vida da inteligência, o preparo necessário para desempenharem conscientemente, isto é, cientificamente, as diferentes categorias de atividade em que até aqui procediam empiricamente, quer dizer, instintivamente. Assim é que para a aula de puericultura existe anexa uma creche com seis crianças, de dois dias a cinco anos, cuja evolução fisiológica e psicológica pode, portanto, ser diretamente observada.

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Oliveira Lima assistiu uma tradicional vaquejada, com vaqueiros trajando sua característica vestimenta de couro, como apresentada nesta foto do início do século XX. Fonte – Coleção TOK DE HISTÓRIA

A essa chamada e verdadeira medicina do lar agregam-se cursos que debalde se procurariam noutras instituições: o de educação social, a cargo de Henrique Castriciano; o de educação estética, comportando a decoração da casa, uma arte simples e encantadora mas ainda rara no nosso meio; de direito usual, para que as mulheres não ignorem nem os seus direitos civis, nem o que seja uma hipoteca ou outra qualquer transação sobre propriedade, assim evitando que pela vida adiante venham a ser logradas nos seus bens.

Não há por enquanto na Escola um campo de tennis. Entretanto, o sport não é alheio ao belo sexo do Rio Grande do Norte: pela mais gentil das deferências, baixei a terra numa embarcação tripulada por adestradas remadoras do Clube Náutico feminino. Outros desportos florescem: não posso dizer se também o football entre os homens. É mais que provável, se bem que sem o furor que noutro Estado do norte divide a sociedade local em campos irreconciliáveis, sendo por exemplo vedado ao membro ou partidário de um dos dois clubes fazer negócio com o do outro clube, extremando-se o comércio nesses antagonismos e chegando não raro os desaguisados de opinião à pancadaria.

Ao sertão não alcançaram, porém, ainda esses exercícios físicos americanos e o seu desporto principal continua a ser a vaquejada nacional. Assisti a uma na Fazenda Santa Rita, em que tomaram parte oitenta e tantos artistas, na maior parte profissionais vestidos de couro — a vestia, o dianteiro, as perneiras, o chapéu de abas e as meias-luvas — alguns, porém, amadores, como um negociante da Serra Caiada que me confessou que dava a alma por essa corrida em disparada atrás do animal que o cavaleiro trata de segurar pela cauda e desse modo derrubá-lo, para o que se requer força e agilidade. Já noutras ocasiões tinha partido um braço, uma perna e uma clavícula; concertara tudo e lá estava numa das filas de cavaleiros, esperando a saída do bicho do curro.

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Antiga sede da Escola Doméstica de Natal – Fonte – tribunadonorte.com.br

Se já não tivesse quatro filhos, não perdia uma, rematou. E eu dava-lhe razão, porque a vaquejada deve ali operar como a tourada no espírito dos que se criaram assistindo a elas e interessando-se por quanto lhes diz respeito.

A Escola Doméstica de Natal representa uma soma incalculável de esforço e de tenacidade. Não faltavam preconceitos a disputar-lhe o passo. Foi ela combatida como pouco pudica por ter uma seção de puericultura, a qual entretanto é de natureza a prestar relevantes serviços, ajudando a cruzada do saneamento da população nacional, empreendida por alguns espíritos previsores e generosos. Nós sabemos quanto é avultada no país a mortalidade infantil e que a razão disto está mais que tudo na falta, não de carinho, mas de cuidados inteligentes dados à alimentação e à higiene das crianças.

Ciência ou arte, a puericultura deve adquirir-se como qualquer outra, e é como se procede hoje nos Estados Unidos, que tão grande atenção estão prestando a esse gênero de questões.

A Escola foi ainda increpada de fútil por pretender ensinar a coser, a lavar e engomar, a cozinhar, a fabricar manteiga e queijos, a tratar de galinhas, a cuidar de jardins e de hortas. Ora, um minuto de reflexão basta para indicar quanta utilidade envolve tudo isso. Ensina-se a costura e a cozinha naquele estabelecimento de instrução com o máximo do gosto e o máximo da economia. No Brasil os pobres sofrem de falta de alimentação substancial mais do que na Europa: em compensação, porém, os que podem gastar, e mesmo os remediados, comem demasiado, considerando uma mesa opípara ou pelo menos muito farta a primeira das condições do conforto. O nosso jantar comum de família compõe-se de dois e três pratos de meio, quando um bastaria, com uma sopa e uma sobremesa. E o desperdício no preparar iguala o desperdício no consumir. O banquete que me foi oferecido pela Escola Doméstica, todo de execução das alunas graduadas, auxiliadas pelas do segundo ano, consistia numa boa sopa, um peixe excelente, galinha com salada de legume e sorvete de abacaxi.

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Henrique Castriciano de Souza foi um dos que estiveram junto de Oliveira Lima na sua visita ao Rio Grande do Norte – Fonte – Coleção TOK DE HISTÓRIA

As alunas aprendem a compor o seu orçamento culinário como outro qualquer e a respeitarem esses orçamentos: assim fizessem os governos. Os vestidos das graduadas, para a festa da formatura, por elas próprias executados, custaram, fazenda e enfeites, 47$000 cada um. Também para os trajes se faz orçamento, o que constitui uma magnífica promessa de tranquilidade nos casais. A modéstia é de rigor na vestimenta escolar. Trajam todas igualmente de branco, sem sacrifício da elegância compatível com a simplicidade, e não usam joias, para não estabelecer diferenças de fortuna assinalando-as por esse meio.

Compreende-se a vantagem que o fabrico dos laticínios pode emprestar a muitas raparigas, filhas de criadores, cujas manadas de vacas dão muito mais leite do que podem consumir suas famílias e que só aproveitam as sobras em uma espécie tradicional de requeijão. A avicultura é outra ciência de grandes benefícios, como também a pomicultura e a horticultura. Tudo isso, aliás, distrai dos trabalhos puramente mentais e varia o programa escolar, contribuindo para completar uma educação feminina. A vida no internato faz-se assim tão aprazível, dada também a suavidade da direção, a qual não exclui a disciplina, apenas trata de torná-la consciente, que não há por assim dizer aluna que não deixe a escola com vivas saudades da atmosfera de bem-estar e de cordialidade que em redor delas soube criar a ótima educadora a quem em boa hora a Liga do Ensino confiou semelhante tarefa.

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Na época da visita de Oliveira Lima a Natal, a cidade tinha uma população com pouco mais de 30.000 habitantes. Na foto vemos o então Teatro Carlos Gomes, atual Teatro Alberto Maranhão – Fonte – Coleção TOK DE HISTÓRIA

Nessa vivenda adrede construída, em boa parte segundo as indicações da mesma diretora, passa-se uma existência muito mais de família que de colégio, na velha acepção do termo, cumprindo cada qual seus deveres com satisfação e não se regateando as ocasiões de agradável intercurso, participando as alunas da administração comum, vivendo portanto do espírito da casa que é de método ao mesmo tempo que de liberdade, e é sobretudo de autonomia no pensar e no sentir. Pelo que pude ver, as alunas adquirem desembaraço sem contraírem desenvoltura.

A festa da Escola terminou por uma alegoria à paz, a qual expulsa do palco a guerra, enquanto os Estados Unidos e o Brasil se unem num amplexo de aliança. Os educadores norte-americanos, longe de quererem suscetibilizar o sentimento patriótico das nações da América do Sul, fazem o que está ao seu alcance para avivá-lo, no interesse mesmo da cooperação e solidariedade visadas. A sua ação redunda igualmente na disseminação do espírito associativo, que faz parte integrante do feitio americano. A seção culinária da Escola Doméstica de Natal já está ensaiando uma espécie de “extensão” entre as famílias; mediante o preparo, pelas matronas que aderem aos clubes gratuitos, de conservas de legumes e frutas com que aproveitar o produto de umas estações em outras, também de bolos e doces.

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Oliveira Lima em seu local de trabalho – Fonte – http://www.cafecolombo.com.br

De tudo quanto me foi dado observar na minha rápida visita ao Rio Grande do Norte, eu trouxe a impressão consoladora para um espírito brasileiro de que no seu governo e nos agentes que lhe personificam a ação existe mais pronunciado do que noutros pontos do território nacional o sentimento do dever cívico que se desdobra no dever humanitário para com os nossos semelhante. O fato deixará de parecer surpreendente a quem tiver em mente que o vulto histórico para quem vão todas as simpatias locais, todo o culto da comunidade, foi não um agitador ou um demagogo, mas um homem essencialmente de caráter.

O Padre Miguelinho foi um sacerdote instruído e meigo, professor querido dos seus discípulos e espírito não só ilustrado como preocupado de conciliação e de concórdia; mas o que sobretudo o torna grande entre as vítimas generosas da revolução de 1817 foi a sua inquebrantável lealdade para com os companheiros de revolução e sobretudo para com a sua fé política. Nessa figura tocante, que resistiu ao apelo à vida que lhe estendiam, é que se concentra a devoção patriótica dos rio-grandenses do norte. O influxo de tal devoção não podia deixar de ser salutar para uma sociedade.

Parnamirim, dezembro de 1919

Fonte: Oliveira Lima – Obra Seleta – Conselho Federal de Cultura, 1971. Através do link – http://www.consciencia.org/uma-visita-ao-rio-grande-do-norte

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Fonte – pt.wikipedia.org

Manuel de Oliveira Lima (Recife, 25 de dezembro de 1867 – Washington, Estados Unidos, 24 de março de 1928).

Oliveira Lima começou a trabalhar como jornalista com catorze anos de idade. Em seus artigos constantemente criticava o domínio das oligarquias sobre a recém-fundada República e por isso ganhou fama de monarquista.

Formou-se em letras na Faculdade de Lisboa em 1887, e em 1890 começou a trabalhar para o Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Atuou como diplomata em Portugal, Bélgica, Alemanha, Japão e Estados Unidos.

Foi encarregado de negócios da primeira missão diplomática brasileira no Japão. Em 1901 deu parecer contrário ao projeto brasileiro de recebimento de imigrantes japoneses. Escreveu então ao Ministério das Relações Exteriores alertando sobre o perigo de o brasileiro se misturar com “raças inferiores”.

Chegou a ser falado para a embaixada brasileira em Londres mas o Senado não aprovou sua indicação. Oliveira Lima era malvisto pelo governo britânico por defender que o ideal de que o Brasil permanecesse neutro na Primeira Guerra Mundial e por sua proximidade intelectual com a Alemanha.

Também fez inimigos dentro do país, em parte por não aprovar a atitude expansionista da República em situações como a anexação do Acre realizada pelo Barão do Rio Branco. Ele dizia que o território nacional já era vasto e muito mal fiscalizado e que a verdadeira expansão do Brasil só viria através do comércio.

Oliveira Lima sempre gostou de ler e escrever. publicou numerosas obras de história, entre elas: Memória sobre o descobrimento do BrasilHistória do reconhecimento do ImpérioElogio de F. A. VarnhagenNo JapãoSecretário Del-ReiDom João VI no Brasil. Sobre esta última obra de história que Oliveira Lima publicou é importante destacar sua importância para o rearranjo da historiografia brasileira, pois ela é considerada como sendo um clássico da historiografia nacional segundo o Lima um intelectual que têm variadas conferências sobre a formação da nacionalidade brasileira. A ilustre obra “Dom João VI no Brasil” é considerada como sendo uma das grandes obras do autor Oliveira Lima. Essa avaliação é feita por muitos estudiosos e autores relacionados a questões significativas sobre o Brasil. Alguns autores e escritores como Gilberto Freyre, Octavio Tarquínio de Souza e Wilson Martins já tiveram a oportunidade de escrever sobre os relatos de Oliveira Lima contidos nesta obra de grande prestígio para a historiografia brasileira. 

Em 1913 quando já morava nos Estados Unidos, Oliveira Lima doou sua descomunal biblioteca à Universidade Católica de Washington por temer que a coleção não recebesse os cuidados adequados no Brasil. Impôs a condição de que ele próprio fosse o primeiro bibliotecário e organizador do acervo, função que desempenhou por quatro anos.

Em 1924 foi apontado professor honorário da Faculdade de Direito do Recife.

Morreu em 1928 e foi enterrado no cemitério Mont Olivet, Washington. Em sua lápide não consta seu nome, mas a frase “Aqui jaz um amigo dos livros“.

FONTE – https://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_de_Oliveira_Lima

MAIS SOBRE OLIVEIRA LIMA – http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Oliveira+Lima&ltr=o&id_perso=413

SOBRE O SITE http://www.consciencia.org/

Este site é um espaço virtual de estudo, pesquisa e ensino. Tradicional site de filosofia, que ampliou o leque temático para abranger outras ciências humanas: História do Brasil, História Geral, Literatura, Antropologia, Sociologia, Linguística e áreas afins. Foi criado em 1997, pelo filósofo Miguel Lobato Duclós (1978-2015). Segundo seu pai, Nei Duclós, o trabalho desenvolvido por Miguel Lobato Duclós proporcionou a criação de um vasto acerto virtual de conhecimento, um trabalho pioneiro num país onde a universidade ainda possui um forte preconceito contra a internet. O espaço virtual consciência.org atrai milhares de estudantes e é responsável pela introdução à Filosofia e atualização do conhecimento para mais de uma geração de alunos, que se mostram admirados e agradecidos, como atestam as inúmeras cartas recebidas e publicadas neste website.

O blog TOK DE HISTÓRIA homenageia Miguel Lobato Duclós como verdadeiro pioneiro da democratização da informação intelectual em espaço virtual.

 

 

NATAL – PRAÇAS E CAMINHOS DE HISTÓRIAS PERDIDAS

Sabe qual é a primeira rua de Natal? Veja e compare as mudanças que ocorreram no local ao longo dos anos

Dois cruzeiros demarcaram, em 1599, a área onde deveria nascer Natal. A história está guardada em livros de Câmara Cascudo e de arquitetos como João Maurício, que dedicou maior parte de sua vida profissional a organizar registros históricos das mudanças paisagísticas da Capital . Quem não recorrer a esse escritos e, por curiosidade, percorrer os 878 metros que separam a Praça das Flores da Praça da Santa Cruz da Bica (onde foram fixados os dois monumentos iniciais) dificilmente vai conseguir traduzir e perceber a importância histórica de prédios, ruas e monumentos que registraram a história da cidade.  Atualmente, o projeto que promete reverter essa falta de cuidado é o PAC Cidades Históricas que desde 2013 aprovou 10 projetos para Natal. O investimento previsto em obras de restauração é de R$ 43,4 milhões e beneficia nove prédios e 13 praças do Centro Histórico, espaço compreendido entre a Cidade Alta e a Ribeira. Os projetos foram elaborados e inscritos pelo Iphan-RN, Governo do Estado, Prefeitura do Natal e UFRN. Nenhum foi concluído e poucos iniciaram a parte burocrática.

Na Praça das Mães, nem mesmo o cruzeiro existe mais - Foto - Alex Régis
Na Praça das Mães, nem mesmo o cruzeiro existe mais – Foto – Alex Régis – CLIQUE PARA AMPLIAR AS FOTOS

Falta de preservação causa “apagão” histórico

Em 1599, quando foi fundada, Natal passou por uma verdadeira ‘peleja’: a dificuldade de povoar o sítio escolhido para receber  a ‘nova cidade’. Durante as três primeiras décadas, documentos oficiais citados em livros históricos dão conta de um lugarejo fundado no papel, mas não de fato. Em 1631, existiam apenas 60 casas entre os dois crucifixos usados para demarcar os limites da cidade. A área da Natal antiga é para a cidade de hoje o palco de uma nova ‘peleja’: garantir algum tipo de preservação de prédios e monumentos antigos. Quem percorre as vias que ligam os dois pontos que inicialmente delimitavam a cidade não consegue encontrar com facilidade informações de que está pisando na principal área histórica do RN.

Sabe aqueles cafés charmosos em prédios antigos, galerias de arte, museus, monumentos bem conservados, pontos turísticos, ônibus com turistas e suas máquinas fotográficas com direito a pau-de-selfie? Pois é… a área antiga de Natal não tem esse cenário comum a qualquer cidade que tem no turismo um setor importante da economia. 

Sem a devida preservação, a história da Natal antiga vai se perdendo em cada prédio  antigo demolido, reformado ou inutilizado. 

Praça da Santa Cruz da Bica está abandonada - Foto - Alex Régis
Praça da Santa Cruz da Bica está abandonada – Foto – Alex Régis

Esta semana a reportagem da Tribuna do Norte percorreu os 878 metros que separam as duas áreas onde foram chantados os dois primeiros marcos que delimitavam a área da cidade. Dois cruzeiros de posse foram usados: um ao Norte, onde hoje está a Praça das Mães; e o segundo, localizado ainda hoje na Praça Santa Cruz da Bica.

Nesse passeio pelo terreno histórico, além de informação, também faltam conservação, limpeza, iluminação e segurança.
O arquiteto João Maurício, referência no estudo da transformação arquitetônica de  Natal lamenta a falta de cuidado com a história. Em 2014 ele lançou o livro “Natal Foto-Gráfico: Do Passado ao Presente” e comenta: “Vendo essas fotografias, concluímos que muita coisa que tinha que ser preservada não foi. Estamos apagando a memória”, lamenta.

Antiga Igreja do Rosário, no Centro de Natal.
Antiga Igreja do Rosário, no Centro de Natal. Construída pelos escravos entre 1706 e 1714.

Poucos imóveis da primeira rua de Natal (que liga os cruzeiros) resistiram ao tempo.  Embora a estrutura das edificações ainda permaneça a mesma – prédios sem recuos laterais, telhados altos de duas águas – as fachadas foram grotescamente reformuladas. E os poucos imóveis que ainda mantém formatos originais estão sem qualquer preservação ou plano de manutenção. 

No número 55 da Praça João Tibúrcio, uma casinha chama a atenção por ainda preservar a fachada. Há mais de 20 anos, a família do comerciante José Neto mora no local. A calçada da casa ainda possui piso antigo. No interior do imóvel, o piso e telhado não são mais originais. “Nunca veio ninguém aqui querendo saber detalhes desse imóvel ou para me contar o valor histórico da casa. Sei que tem história, sei que é antigo, mas não conheço os detalhes”, afirma o comerciante de 35 anos. A estrutura da casa está bastante abalada e, atualmente, está passando por uma reforma na parte de trás. “Estamos tentando evitar que parte do telhado venha abaixo”, explica. A parte de trás da antiga casa tem vista para a Casa do Estudante e Rio Potengi.

Praças

Nos 878 metros percorridos na última quinta-feira (27), a equipe da Tribuna do Norte encontrou as quatro praças existentes no percurso com problemas de infraestrutura. A mais conservada, a das Mães, não tem referências sobre o início da cidade. “Conheço essa história porque tive acesso às obras de Cascudo. Mas, realmente, essa é uma área que merecia, e merece, total atenção para garantir a preservação da história”, afirma o advogado Cleto Barreto. Há 25 anos ele adquiriu um casarão deteriorado em frente à praça, reformou e instalou seu escritório. 

A Praça João Tibúrcio está destruída. Muretas que sustentam os desníveis do terreno estão sem manutenção e estrutura está comprometida - Foto - Alex Régis
A Praça João Tibúrcio está destruída. Muretas que sustentam os desníveis do terreno estão sem manutenção e estrutura está comprometida – Foto – Alex Régis

No outro extremo, a praça Santa Cruz da Bica, onde ainda existe o cruzeiro que delimitava a cidade em 1599, a área chama a atenção pelo abandono e acúmulo de lixo. Lá, também, não há nenhuma informação sobre a relevância histórica do cruzeiro. “É uma área insegura, escura, suja… Não condiz com a importância histórica. Infelizmente, é a realidade”, desabafa a taróloga Indira Ivanovichi, que mora a 200 metros do cruzeiro.

Na praça João Tibúrcio, que ainda guarda cenário residencial, a situação é a mais precária. Toda a estrutura de alvenaria, que sustenta os desníveis da área, está deteriorada e até representa perigo a quem circula na área. “Eu brinco com meus amigos que vivo na área nobre e aristocrata da cidade. Mas tenho que reconhecer que a história e a infraestrutura estão abandonadas”, afirma e lamenta o empresário Wagner Franco, que nasceu e mora até hoje na área histórica da cidade.

Na André de Albuquerque, monumentos que indicam a fundação da cidade estão pichados e sem placas de informações - Fot - Alex Régis
Na André de Albuquerque, monumentos que indicam a fundação da cidade estão pichados e sem placas de informações – Fot – Alex Régis

Já a Praça André de Albuquerque não tem cenário diferente, mesmo sendo considerada o marco zero da cidade. Bancos estão quebrados e as placas que dariam algum tipo de informação sobre sua importância histórica foram arrancadas ou estão pichadas.

Poucos conhecem referências

Moradores, comerciantes, pedestres. População em geral desconhece fatos históricos sobre a formação da cidade, mas defende que haja trabalho de conservação e recuperação urbana.

Indira Ivanovichi

“Moro aqui há mais de uma década e nunca vi qualquer trabalho de recuperação da área. Hoje, o que me assusta é a violência. Também acho que não há informação sobre a importância histórica”

Antiga Ribeira
Antiga Ribeira

Wagner Franco
“Nasci e me criei aqui nessa área histórica. Acho que a cidade perde muito quando não preserva os monumentos. Trabalho com turismo, mas reconheço que sem estrutura essa área tem potencial pouco explorado” 

Max Willian

“Não tinha o menor conhecimento de que essa área era a mais antiga da cidade. Sempre venho aqui ver prédios mais antigos, mas não há informações sobre essas histórias. Agora vou olhar com mais atenção”

Josimário Diniz

“Tenho essa lanchonete da Metropolitana há 24 anos. Mas confesso que não sabia dos detalhes do início da cidade. Sabia que era por aqui, mas não onde. Aqui não há manutenção. Esperam cair para reconstruir”

Emanuel Januário 

Vendo comida de milho aqui todos os dias. Mas nunca ouvi falar que Natal começou aqui. Acho interessante. Vou dizer para minha família que ficou no interior que eu trabalho na rua onde nasceu Natal”
Cleto Barreto

 “Conheço a importância dessa área porque sempre tive acesso à obra de Câmara Cascudo, mas concordo que falta iniciativa para preservar e divulgar a importância histórica de linda região”.

Em João Pessoa-PB, uma das principais atrações turísticas da cidade é um conjunto de edificações históricas. Esta é a fachada principal do atual Centro Cultural, que funciona em um complexo arquitetônico formado pela Igreja e Convento de Santo Antônio, a Capela da Ordem Terceira de São Francisco, a Capela de São Benedito, a Casa de Oração dos Terceiros (chamada de Capela Dourada), o Claustro da Ordem Terceira
Em João Pessoa-PB, uma das principais atrações turísticas da cidade é um conjunto de edificações históricas. Esta é a fachada principal do atual Centro Cultural, que funciona em um complexo arquitetônico formado pela Igreja e Convento de Santo Antônio, a Capela da Ordem Terceira de São Francisco, a Capela de São Benedito, a Casa de Oração dos Terceiros (chamada de Capela Dourada), o Claustro da Ordem Terceira

Memória

– Fundação – Em 25 de dezembro de 1599, a Cidade do Natal foi fundada oficialmente.

– Escolha – O chão elevado e firme da área ao redor da hoje Praça André de Albuquerque foram as características consideradas para a escolha da posse do terreno para o surgimento da cidade.

– Demarcação – Dois cruzeiros de posse foram usados para demarcar a área da cidade. Um chantando onde hoje está localizada a Praça das Mães; e outro, à margem do rio do Baldo (antigo rio da Bica, rio de Beber). O primeiro cruzeiro não existe mais e não há referências dele na praça. O segundo, ainda está no local, na Praça Santa Cruz da Bica.

1601
Para tentar povoar a nova cidade, o capitão-mor João Rodrigues Colaço ofereceu parte da área como dote de Izabel Alvares. O bombardeiro do Forte dos Reis Magos casou com a moça com o compromisso de povoar a área em três anos. Um ano depois do casamento, abandonou o terreno por ser “terra não proveitosa”.

1608
Governador Geral do Brasil, Diogo de Meneses, escreve a Portugal em 4 de dezembro informando que no Rio Grande, “a povoação que está feita não tem gente”.

1614
A nova cidade tem nessa época 12 casas erguidas na área entre os cruzeiros.

1631
Nessa época, a igreja matriz era a principal construção da cidade (embora fosse uma construção bem humilde). Era o ponto de contro dos que viviam em sítios ao redor de Natal e movimentava a pequena comunidade aos domingo. Os livros de história apontam existir 60 casas entre os dois cruzeiros.

1633
Cascudo descreve que os 34 primeiros anos da cidade foram “lentos, difíceis e paupérrimos” e que Natal era “cidade apenas no nome”.

1722
Capital-Mor Pereira da Fonseca calculava a cidade com trezentas casas. 

1746
Bispo de Olinda, Dom Frei Luiz de Santa Tereza relata que a cidade “de tão pequena que além do título de Cidade, Igreja Paroquial e poucas casas, nada tem que represente a forma de cidade”.

1777
Ouvidor da Paraíba descreve os limites da cidade. Nessa época, um retângulo de 800 por 110 metros, limitados: cruzeiro da antiga Rua da Cruz (norte); cruzeiro do córrego do Baldo (sul); Rua da Conceição (leste); e rua que margeava as praças André de Albuquerque e João Tibúrcio (oeste).  

1805
Primeiro mapa da população tem data de 31 de dezembro de 1805. Das 6.393 pessoas vivendo em Natal. Três anos depois um novo censo, com 1.484 pessoas a menos. Não há explicação para a diferença. 

1810
Censo mostra população de 5.977 pessoas. Causas de morte (além das naturais), duas: tiro e cobra cascavel.

FONTE – 

Autora – Cledivânia Pereira
Editora Executiva Jornal Tribuna do Norte

Fonte – http://tribunadonorte.com.br/noticia/praa-as-e-caminhos-de-hista-rias-perdidas/323122

NAS VEREDAS DA COLUNA PRESTES: PREPARANDO A MEMÓRIA PARA OS 90 ANOS DA PASSAGEM DOS REVOLTOSOS

Percorrendo o caminho da Coluna Prestes no município de Luís Gomes - RN. parada para um cafezinho no Sítio Imbé, aqui o alto comando da Coluna Prestes, os
Percorrendo o caminho da Coluna Prestes no município de Luís Gomes – RN. parada para um cafezinho no Sítio Imbé, aqui o alto comando da Coluna Prestes, os “Revoltosos” para os sertanejos, esteve e foi recebida por Baltazar Meireles.

Município de Luís Gomes – RN se movimenta para lembrar a passagem dos “Revoltosos” – Feliz em saber que nosso trabalho está ajudando esta empreitada, que agora apresento no nosso Tok de História

No próximo ano de 2016 completa-se 90 anos da passagem da Coluna Prestes, maior marcha da história mundial, pelo Rio Grande do Norte, pelos municípios de São Miguel e de Luís Gomes. Apenas estes foram palco e cenário deste acontecimento histórico, marcante na memória coletiva de muitas gerações que presenciaram o fato ou que cresceram ouvindo os relatos orais.

Junto ao Sr. Antônio Belo, do Sítio Tigre, que em agosto de 2009 me deu um fantástico depoimento
Junto ao Sr. Antônio Belo, do Sítio Tigre, que em agosto de 2009 me deu um fantástico depoimento

Nas aulas de campo das disciplinas de História do Brasil, Geografia e Cultura do RN, decidimos seguir os passos da Coluna Prestes, conhecer os lugares por ela invadidos, as construções da época e sua localização geográfica. Inicialmente chegamos ao pequeno povoado do Barro Vermelho, que embora não fizesse parte do roteiro da Coluna de Revoltosos, não podia ficar de lado. Segundo a tradição moral, quando o senhor Otávio de Andrade Nunes foi construir a capela do povoado em honra a Nossa Senhora dos Milagres, ao cavar o barro para usar na construção da capela, encontrou um antigo cemitério de escravos. Também segundo a mesma tradição há entre a capela e a casa deste falecido senhor uma marca de pedras que seria uma antiga base para uma igreja que seria construída pelos escravos.

Após essa pesquisa em que os alunos se sentiram arqueólogos ao tocarem as pedras e as ruínas, demos continuidade a aventura.  Seguimos para o Imbé no sentido de conhecer o secular casarão que hospedou o Estado-Maior Revolucionário da Coluna Prestes no dia 4 de fevereiro de 1926. O casarão que pertencia ao Major Baltazar Meireles na época da passagem ainda guarda traços arquitetônicos do tempo da revolução. As paredes largas chamaram a atenção dos alunos, as portas, batentes, os quartos antigos, o alpendre recorada um grupo de homens armados que lá pernoitaram. Na passagem pelo Imbé, segundo o professor e folclorista Raimundo Nonato em seu livro Os Revoltosos em São Miguel – 1926 , obra que deve ser referencia nos estudos de história e cultura do nosso estado, os revoltosos se desentenderam com o proprietário da antiga fazenda e quase o fuzilaram.

Antônio Belo, quase centenário em 2009, fumando seu cigarrinho de palha na sua rede.
Antônio Belo, quase centenário em 2009, fumando seu cigarrinho de palha na sua rede.

O major e alguns homens tinham ido fazer a defesa da vila de Luís Gomes quando um portador da sua fazenda foi chamá-lo avisando que os revoltosos estavam em sua casa sede da fazenda. N manhã do dia 5 ao chegar a casa se aproximam do major Miguel Costa, Prestes, Siqueira Campos e Moreira Lima que explicam a devida situação. Depois mandar prender em um quarto Baltazar juntamente com 15 homens, filhos de moradores da fazenda e do sítio vizinho Monte Alegre, junto com o sub-delegado Pedro Rufino Isto ocorreu na manhã do dia 5. À tarde os prisioneiros forma chamados e foi explicado o objetivo da coluna diante da situação do Brasil. Após esse diálogo começaram a subir a serra, ficando ainda na fazenda grupos menores que se consideravam pouco armados. No Imbé haviam saqueado da casa sede e do armazém legumes, rapaduras e mataram gado bovino e galinhas.

Na cidade continuaram as ações revolucionárias, saqueando casas comerciais, como a loja de tecidos de Gaudêncio Torquato. As famílias haviam se retirado da vila e só voltaram após a conversa do comerciante Sinfrônio Campelo com um dos revoltosos, em que concluíram que na vila as famílias estariam mais seguras. Na vila histórica de Feira do Pau, hoje Aparecida um grupo de 100 rebeldes roubaram o dinheiro do posto fiscal da divisa entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba e retiraram os selos, que depois deixaram no telégrafo e foram encaminhados legalmente. Cotavam os mais velhos que na ocasião o capitão Luís Carlos Prestes foi entrevistado pela professora Ozelita Cascudo do Grupo Escolar Coronel Fernandes. O escritor Rostand Medeiros narra em seu livro João Rufino, um visionário da fé que:

Mercado de Luís Gomes-RN
Mercado de Luís Gomes-RN

Após saírem deste lugarejo, a coluna de revoltosos seguiu em direção aos Cacos (ou Cactos), e após passarem pela Ladeira dos Miuns, estiveram nos sítios Tigre, Imbé, São Bernardo, Feira do Pau e na pequena área urbana da cidade de Luís Gomes.

Em Luís Gomes se repetiram as “ações revolucionárias”, com uma sequência de saques de casas residências e comerciais. Foram provocados incêndios no cartório e na agência dos correios. Já no dia 6 de fevereiro, os revoltosos deixaram Luís Gomes e o Rio Grande do Norte, adentrando na Paraíba (MEDEIROS, 2011, p. 276-277).

2016 - 100 anos da Coluna Prestes no Rio Grande do Norte.
2016 – 100 anos da Coluna Prestes no Rio Grande do Norte.

O noventenário da Coluna Prestes não pode deixar de ser comemorado em nossas escolas. Em 2007 a Escola Estadual Coronel Fernandes e seus professores Luciano Pinheiro, Margarida Belo e Wilca Oliveira realizaram importante resgate por meio de um projeto intitulado A história e a cultura dos povos da Serra do Bom Jesus em que entrevistaram pessoas que presenciaram o fato, como o senhor Pedro Belo morador do sítio Tigre.

A proposta pedagógica do nosso Educandário Raízes do Saber busca inscrever a história local e regional na história nacional. Equivocadamente muitas escolas trabalham em separado, como se o que acontecesse no país não se refletisse no interior ou como se os acontecimentos do interior nordestino não fizessem parte da história do Brasil. Rememorar a passagem da Coluna Prestes em nossa região é inscrever a nossa história na memória dos brasileiros.

Autor – Ciro Leandro- Doutorando em Letras (UERN)

Fonte – http://lgemdia.com/?p=3698

TOK DE HISTÓRIA NAS PÁGINAS DA TRIBUNA DO NORTE

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Hoje tivemos a satisfação de ver estampado nas páginas da TRIBUNA DO NORTE, o principal jornal do Rio Grande do Norte uma interessante reportagem sobre algumas fotos produzidas pelo fotógrafo lituano Ivan Dimitri, que esteve em Natal em 1944. O material produzido por este fotógrafo, de maneira bastante interessante, mostra em vivas cores o que foi o impacto daqueles dias em Natal e Parnamirim Field. 

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A reportagem foi feita pelo jornalista Yuno Silva, a quem demos uma pequena declaração sobre a importância deste material e, principalmente, a importância da democratização histórica de imagens como estas para o público em geral, principalmente no Rio Grande do Norte. 

Recentemente estas fotos bombaram em alguns blogs pela internet, alcançou picos de visualização muito positivos, batendo todos os recordes do TOK DE HISTÓRIA (Ver o link – https://tokdehistoria.com.br/2014/06/23/fotos-coloridas-dos-americanos-em-natal-durante-a-segunda-guerra-mundial/ ).

Temos a clara convicção, mesmo com fortes críticas que recebo com certa frequência, que a nossa ideia de democratizar a informação histórica é extremamente válida. 

TN-27-06-2015 (4)

Este tipo de informação é um gerador de várias coisas positivas, até mesmo na questão da formação da identidade de um povo. Acredito que material histórico guardado por poucos ditos “doutos”, ou dentro de muros de instituições monolíticas que só olham para o próprio umbigo, ou entre pessoas que esperam que governos criem instituições com a ideia exclusiva de geração de recursos próprios e vantagens políticas, é algo verdadeiramente nefasto e complicado.

Estas 22 fotos de alta qualidade, coloridas, com ótima resolução, que mostram Natal e Parnamirim Field, foram conseguidas através do site http://www.buzfeed.com, a quem agradecemos por haver publicado este material tão interessante para a história de Natal. 

A publicação destas fotos foi possível através da dica da amiga Andreza Diniz. Mais uma vez valeu amiga!

PROFESSOR LANÇA LIVRO QUE DETALHA FORMAÇÃO DO SERIDÓ

Professor Muirakitan de Macêdo pesquisou a fundo a cultura seridoense e vem publicando rico material sobre o tema - See more at: http://www.novojornal.jor.br/noticias/cultura/professor-lanca-livro-que-detalha-formacao-do-serido#sthash.iMlXvSud.dpuf - Fonte - Eduardo Maia / NJ
Professor Muirakitan de Macêdo pesquisou a fundo a cultura seridoense e vem publicando rico material sobre o tema – See more at: http://www.novojornal.jor.br/noticias/cultura/professor-lanca-livro-que-detalha-formacao-do-serido#sthash.iMlXvSud.dpuf – Fonte – Eduardo Maia / NJ

 Autor – Igor Jácome

Contar a formação de um Seridó onde as casas dos ricos também eram feitas de taipa e até uma enxada inutilizada era listada em inventário. Terra de escravos quase livres e de uma religiosidade que ainda hoje permanece pungente. Essa é a intenção do historiador e professor Muirakytan Kennedy de Macêdo ao lançar, hoje, em Natal, o livro “Rústicos Cabedais: Patrimônio e cotidiano familiar nos sertões da pecuária (Seridó – Séc. XVIII)”, editado pela Flor do Sal e impresso pela Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

A obra é resultado de uma releitura da tese de doutorado do autor caicoense, apresentada em 2007. “O Seridó é uma das regiões coloniais mais antigas do país. Com a proibição da pecuária nas áreas mais próximas ao litoral, por causa da cana de açúcar, ela se interiorizou. No livro, a gente começa a contar a formação do Seridó a partir da sedentarização da pecuária, no século 18, após a Guerra dos Bárbaros ”, explica. 

Fazenda Caiçara, Acari, do Coronel Antônio Galdino de Medeiros
Fazenda Caiçara, Acari, do Coronel Antônio Galdino de Medeiros

O livro parte da formação das sesmarias – pedaços de terras cedidos aos colonos para que a cultivassem ou utilizassem na pecuária – até chegar ao cotidiano dos primeiros seridoenses. “Eu fiz um enquadramento na sesmaria e depois a gente vai fazendo como um ‘zoom’, em quadros cada vez menores. Partimos da sesmaria; dentro dela, vamos para a fazenda de gados, falamos o que é que se criava, os ovinos, bovinos, os cavalares. Depois vamos para dentro da casa daquelas pessoas, os cômodos e suas relações até de hierarquia, até chegarmos, enfim, às gentes – como eles falavam e seu cotidiano”, detalha Muirakytan.

Professor do curso de graduação em História, no campus da UFRN em Caicó e do mestrado da instituição em Natal, o autor trabalhou na pesquisa durante quatro anos e afirma que se surpreendeu com a quantidade de documentação preservada da época.

Além de arquivos da Torre do Tombo (arquivo geral do Reino), localizada em Portugal, o professor utilizou documentos cartoriais e da Igreja Católica Romana, como os livros de nascimento, casamentos e óbitos. “Todo o império era fundamentado na união entre Igreja e Estado. Até a República, quando isso mudou, o Estado não precisava de funcionários para fazer esse trabalho. A igreja registrava, nascimento, casamento, morte, todos os sacramentos, que eram muito importantes para o convívio social. Havia uma vigilância muito grande, representavam, de certa forma, a salvação das pessoas. Tinham que ter todos”, revela.

Serra da Rajada, expressiva paisagem do Sertão do Seridó Potiguar
Serra da Rajada, expressiva paisagem do Sertão do Seridó Potiguar

A abordagem utilizada por Macêdo é basicamente historiográfica e antropológica. Apesar de não utilizar personagens na trama histórica, nem focar em famílias importantes da região, o autor busca fazer um relato do cotidiano do primeiro Seridó. A realidade daqueles tempos, aponta, tem total relação com o Seridó de hoje. “É todo o princípio de identidade. A pecuária é a origem, por exemplo, de produtos que hoje são marcas da região”, avalia, citando o queijo e a carne de sol. O autor também utiliza gráficos, mapas e fotos para auxiliar no detalhamento das informações.

Serviço

O lançamento do livro “Rústicos Cabedais: patrimônio e cotidiano familiar nos sertões da pecuária (Seridó – Séc. XVIII)” ocorre hoje (16) na galeria do Núcleo de Arte e Cultura, localizado no Centro de Convivência da UFRN, onde também ocorre a sessão de autógrafos, a partir das 19h. A obra custa R$ 50.

Fonte -http://www.novojornal.jor.br/noticias/cultura/professor-lanca-livro-que-detalha-formacao-do-serido#sthash.iMlXvSud.dpuf

UMA NOITE MÁGICA NO TEATRO DO BARRO VERMELHO

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Autor – Rostand Medeiros 

Em um passado já distante, quando Natal ainda era uma pequena capital, antes até da existência do Teatro Alberto Maranhão, ocorreu um espetáculo teatral na região do Barro Vermelho que marcou época e ficou na mente dos natalenses por décadas. Como foi este espetáculo e um pouco da vida de Joaquim Lourival, um dos atores desta apresentação e um homem que foi uma grande fonte de informações históricas para Luís da Câmara Cascudo.

História do Teatro em Natal

O historiador Cláudio Augusto Pinto Galvão, em seu maravilhoso sobre a história do Teatro Alberto Maranhão, intitulado “100 anos de arte e cultura – Teatro Carlos Gomes – Teatro Alberto Maranhão” (Natal : Ed. RN, 2005), informa que a mais antiga notícia documentada sobre uma encenação na cidade de Natal deve-se a uma correspondência de D. João V, rei de Portugal, datado de 23 de agosto de 1730 e dirigida ao Governador e Capitão-general da Capitania de Pernambuco, em que informa que o Capitão-mor do Rio Grande (do Norte), em carta dirigida à Sua Majestade, comunica que, ao tomar conhecimento do casamento do príncipe português D. José com a princesa espanhola Dona Maria Ana, fez festejar devidamente o evento nessa capitania, com nove dias sucessivos com comédias e várias festas de cavalo e outras celebridades iluminando-se três noites todas as casas da dita cidade avantajando-se nas ruas, pois se acendiam nela oitenta luzes cada noite sendo toda esta despesa a sua custa, assim descreve o documento.

As imagens que aqui apresentam teatros e peças teatrais do século XIX, são da coleção da Biblioteca Nacional, mas servem apenas de caráter ilustrativo. Nenhuma delas mostra teatros em Natal no século XIX.
As imagens que aqui apresentam teatros e peças teatrais do século XIX, são da coleção da Biblioteca Nacional, mas servem apenas de caráter ilustrativo. Nenhuma delas mostra teatros em Natal no século XIX.

Segundo Luís da Câmara Cascudo, no seu livro “História da cidade do Natal” (Páginas 215 a 217, 3ª Ed. Natal, 1999), os documentos existentes sobre o teatro em Natal apontam que em 1841, havia um barracão de palha onde funcionava a Sociedade do Teatro Natalense. Este simples local de apresentação teatral foi construído na antiga praça Gonçalves Ledo, onde atualmente se encontra o prédio do antigo Dispensário “Sinfrônio Barreto”. Sob a batuta de Matias Carlos de Vasconcelos Monteiro, era uma sociedade amadora, onde mulheres não participavam das peças teatrais e que em pouco tempo teve o barraco de palha incendiado. Matias Carlos tentou conseguir apoio governamental, mas quando este saiu em 1843, a sociedade já tinha sido desfeita. Cláudio Galvão aponta que nem são conhecidas as razões da desistência e não há mais notícia do “teatro” da Sociedade de Teatro Natalense[1].

Devido ao autor do texto não possuir fotos de Natal na década de 1880, as ilustrações utilizadas para mostrar a capital potiguar são dos anos finais do século XIX e as primeiras décadas do século XX.
Devido ao autor do texto não possuir fotos de Natal na década de 1880, as ilustrações utilizadas para mostrar a capital potiguar são dos anos finais do século XIX e as primeiras décadas do século XX.

Outros grupos teatrais surgiram em vários locais da cidade, com peças continuando a serem realizadas em simples barracões de palhas. No mesmo local onde a Sociedade do Teatro Natalense construiu seu primitivo local de apresentação, um novo barracão foi construído por outro grupo teatral e novamente queimado em 31 de dezembro de 1853. Iluminar estas apresentações com lampiões a querosene era fogo, literalmente falando!

No ano seguinte, a Sociedade Theatral Apóllo Riograndense alugou uma casa ao negociante português Manoel dos Santos Martins Romano. Aparentemente na capital potiguar esta foi a primeira casa onde se realizou uma peça teatral feita de alvenaria. Cláudio Galvão aponta que o imóvel localizava-se onde se encontra o Instituto Histórico e Geográfico, com a frente para a Rua Grande, atual Praça André de Albuquerque. Consta que lá ocorreram apenas duas apresentações[2].

A (12)

Outras casas, por outros grupos teatrais amadores foram alugadas e espetáculos eram realizados com muito improviso.

Em 1860 foi realizada uma tentativa oficial de criação de um teatro, o que mostra que havia um anseio, talvez uma cobrança, da população natalense por uma casa de espetáculos digna do nome. Mas esta tentativa não deu certo.

Entre 1865 e 66, em pleno período da Guerra do Paraguai (que ocorreu entre 1864 e 1870), no mesmo local onde o teatro da Sociedade de Teatro Natalense havia sucumbido ao fogo, um terceiro teatro de palha foi construído. Aparentemente esta casa seguia seu curso de apresentações de maneira positiva, proporcionando ao natalense um pouco de diversão entre os dias modorrentos de cidade provinciana e as notícias da guerra. Mas em uma noite de espetáculo o alferes Rolim Cavalcanti de Albuquerque cercou o local com uma patrulha militar e prendeu seis homens que foram levados a força para o Quartel local e encaminhados para combater os paraguaios nos batalhões de Voluntários da Pátria[3].

Conflito armado entre militares e civis brasileiros, no período da Guerra do Paraguai. Esta cena poderia ser parecida com a ocorrida no conflito do antigo teatro.
Conflito armado entre militares e civis brasileiros, no período da Guerra do Paraguai. Esta cena poderia ser parecida com a ocorrida no conflito do antigo teatro.

Logo o barracão de palha foi queimado. Existem duas versões para o episódio. Em uma o fogo realizado a mando do Alferes Rolim, como castigo para aqueles que deixavam as obrigações militares para assistir funções teatrais. Já a outra versão, a mais aceita, foi que o teatro de palha foi queimado pelo povo de Natal para evitar que o local servir-se de nova “ratoeira” para levar jovens para a guerra.

Um Recanto Natalense

O Barro Vermelho é hoje um dos bairros centrais da nossa cidade, ainda com muitas casas antigas, mas que vai se verticalizando rapidamente. Luís da Câmara Cascudo aponta na página 257, do seu livro “História da cidade do Natal” (3ª Ed. Natal, 1999), que esta região de Natal foi uma “Antiga área de sítios, casas de veraneio, longe do mar e da mata, onde aconteceram festas memoráveis e maravilhosas festa juninas”[4].

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Um destes sítios pertencia ao Vigário Bartolomeu Fagundes de Vasconcelos, conhecido como padre Memeuzinho. Homem que gostava das artes, maçom, foi o padre que abriu as portas de sua propriedade para que no dia do nascimento de Jesus Cristo de 1886, ali ocorresse as apresentações teatrais[5].

Quase 33 anos depois, o Professor Joaquim Lourival Soares da Câmara, conhecido popularmente como Professor Panqueca, concedeu uma entrevista sobre aquele memorável espetáculo que ficou na mente dos antigos natalenses. Lourival era conhecido na pequena Natal por ser um homem que tinha uma memória prodigiosa, que lhe proporcionava um vasto e profundo conhecimento dos costumes de outrora, que via o presente como um fardo insuportável e que tinha nas recordações do passado um dos consolos da vida. Mas além de tudo isso, Joaquim Lourival foi um dos atores daquele espetáculo.

Parte do relato do conhecido Professor Panqueca, publicado com destaque na primeira página da edição de 14 de dezembro de 1911 do jornal natalense “A República”
Parte do relato do conhecido Professor Panqueca, publicado com destaque na primeira página da edição de 14 de dezembro de 1911 do jornal natalense “A República”

O relato foi publicado com destaque na primeira página da edição de 14 de dezembro de 1911 do jornal natalense “A República”[6].

Recordações de Uma Noite Maravilhosa

O autor do texto de 1911 utilizava o pseudônimo de Paulo da Terra. Este encontrou o velho Professor na sua casa, no final da tarde, descansando na sua velha espreguiçadeira e com uma bíblia na mão, livro ao qual ele denominava holofote dos céus.

Rio Potengi
Rio Potengi

Em uma Natal onde existiam mais cata-ventos para retirar água dos poços artesianos, do que automóveis circulando pelas ruas esburacadas, Joaquim Lourival vivia no final da poeirenta Rua dos Tocos, atual Avenida Princesa Isabel, já nas proximidades da igualmente contemporânea Avenida Deodoro.

Em meio a uma prosa reproduzida em parte pelo jornal, Paulo da Terra perguntou a Joaquim Lourival, homem nascido no ano de 1849, como ele via as mudanças em uma Natal que crescia muito para os padrões da época. Para o velho Mestre o presente lhe invadia a alma de tristeza, enquanto o passado lhe trazia consolação[7]. Preferia o passado, pois não era um homem de deixar amores velhos por novos. Dispensava concertos de palácios para ouvir modinhas cantadas por Botelho, ao som do violão de Heronildes. Era um homem que ainda gostava das Lapinhas e recordava com extrema satisfação as ocasiões em que ia para os “pagodes” da praia da Redinha e dos teatros do Barro Vermelho[8].

Nesse ponto o articulista Paulo da Terra buscou mais informações sobre estes espetáculos teatrais e comentou que não era primeira vez que ouvia falar destas apresentações.

O teatro possuía uma enorme importância na sociedade brasileira na década de 1880.
O teatro possuía uma enorme importância na sociedade brasileira na década de 1880.

A apresentação trouxe uma grande multidão, que para o jovem ator Lourival deixou o perímetro da cidade “sem ninguém”. Era o dia 25 de dezembro de 1868, um sábado, era o Presidente da Província, o governador da época, Manuel José Marinho da Cunha, que havia tomado posse do cargo a menos de dois meses e este se fez presente a função com toda seu séquito[9].

Joaquim Lourival tinha entre 17 e 18 anos e foi o protagonista do drama “Camila no subterrâneo ou os alteadores do Montenegro”, do italiano Camillo Frederici[10]Era a primeira tentativa de se fazer teatro ao ar livre em Natal, aproveitando a noite de lua clara e muitos colaboraram com candeeiros para iluminar o local. Não houve incêndios!

Claudio Galvão, em sua tese de doutorado em história intitulada “Alguns compassos – Câmara Cascudo e a musica (1920 – 1960)”, na página 19, traz um texto do folclorista Câmara Cascudo, através dos relatos do Professor Joaquim Lourival, sobre a peça apresentada no sítio do Barro Vermelho e publicada em um dos capítulos do livro “Histórias que o tempo leva” (1ª ed. Editora Monteiro Lobato, S. Paulo, 1924).

Devido aos preconceitos e as regras sociais da época, nenhuma jovem natalense aceitou o convite de fazer parte do grupo teatral e coube a um jovem ator fazer o papel de uma protagonista da peça. Mas ele foi dublado por uma veterana atriz chamada Maria Epiphania, a quem Câmara Cascudo conheceu pessoalmente e faleceu idosa em 1918. Talvez ela não tenha participado deste evento no Barro Vermelho devido a sua idade e por exigência do roteiro, pois já havia encenado esta mesma peça dez anos antes.

Pouco antes de iniciar a função teatral, mesmo sem explicar a razão, descobriram que não tinha como ser apresentada nenhuma música. Foi o Senhor José Macabeu de Vasconcelos que se lembrou que em casa tinha um realejo de corda e correu a sua residência para pegar o instrumento e salvar o espetáculo. Em sua entrevista ao articulista Paulo da Terra, Joaquim Lourival fala deste realejo, mas informa que também havia flautas, um violino e a apresentação seguiu tranquila para deleite dos antigos natalenses. Houve grande alegria com a apresentação teatral ao ar livre.

A apresentação teatral de 25 de dezembro de 1886 terminou com fogos e balões, quase uma festa junina.
A apresentação teatral de 25 de dezembro de 1886 terminou com fogos e balões, quase uma festa junina.

Era alta madrugada quando o espetáculo terminou. Foram soltos balões e disparados vários fogos de artificio.

Diferenças Deixadas de Lado

Mas enfim, porque este espetáculo marcou época em Natal?

Ocorreu um grande afluxo de autoridades e de pessoas do povo ao Barro Vermelho. Aquele congraçamento coletivo, com a presença do presidente da província (o que garantia que ações como a realizada pelo alferes Rolim não se repetissem), igualmente aliviava as tensões.

Não podemos esquecer que a Guerra do Paraguai estava no seu quarto ano e filhos da terra morriam, ou ficavam aleijados em terras distantes. Para aliviar o fardo da saudade nada melhor do que assistir na noite de natal a um belo trabalho teatral, de forma coletiva e democrática.

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Aparentemente foram deixadas de lado as provincianas diferenças de classe existentes na pequena Natal e todos que ali estavam aproveitaram muito aquela noite do nascimento de Jesus Cristo em 1868.

Foi uma noite onde as coisas funcionaram a contento, mesmo com certas doses de improviso. E não ocorreram incêndios!

Evidentemente que o trabalho daqueles que estavam no palco e nos bastidores deve ter sido singular. A produção, mesmo sendo tida como simples, parece ter sido muito bem trabalhada pelos atores e a peça do italiano Camillo Frederici caiu no gosto popular.

A (11)

Joaquim Lourival comentou que a repercussão foi tanta que nos dias posteriores o poeta e acadêmico Manoel Quintiliano dedicou um poema ao espetáculo, que foi publicado com destaque nos jornais de Natal. Em 1911 o velho Professor ainda lembrava das estrofes.

Claudio Galvão aponta, em outro escrito de Câmara Cascudo no livro “Histórias que o tempo leva”, que ocorreu a realização de uma reprise atendendo a inúmeros pedidos, no mesmo local, a 1º de janeiro de 1869.

Parece que Dionísio, o deus grego do teatro, ajudou para que aquela noite de natal, em Natal, fosse mágica e inesquecível!

O Destino de Um Amante da História

Na primeira página do jornal “A República”, de 13 de setembro de 1926, temos a notícia do falecimento de Joaquim Lourival.

Em um longo obituário soubemos que o fato ocorreu na sua casa, às 22 horas de 10 de setembro e houve grande consternação em Natal. Ao seu velório compareceram o governador José Augusto Bezerra de Medeiros e várias autoridades. Tinha o velho Mestre 77 anos de idade, era filho do poeta Lourival Açucena e foi também Professor do poeta Ferreira Itajubá. Era membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, Grau 33 da Maçonaria potiguar e estava aposentado. Mas não inativo!

“A República”, de 13 de setembro de 1926,  notícia do falecimento de Joaquim Lourival.
“A República”, de 13 de setembro de 1926, notícia do falecimento de Joaquim Lourival.

Temos a notícia que a sua casa era sempre procurada por aqueles que desejavam saber mais da história da capital potiguar, desde tempos coloniais, sendo ele considerado “tradição viva” da cidade. Grande sabedor da cultura popular, dono de uma memória prodigiosa, Joaquim Lourival Soares da Câmara foi um grande informante de Cascudo e de outros pesquisadores sobre a Natal antiga.

Nas década de 1880, a imagem mais comum ao período natalino estava sempre focada na figura de Jesus Cristo.
Nas década de 1880, a imagem mais comum ao período natalino estava sempre focada na figura de Jesus Cristo.

Pessoas como o Professor Joaquim Lourival Soares da Câmara, o conhecido Professor Panqueca, merecem todo nosso respeito e admiração. Principalmente por não deixarem a história morrer e democratizarem a esta informação junto aos mais jovens que valorizam o conhecimento do passado.

COM ESTA HISTÓRIA SOBRE UM INTERESSANTE MOMENTO DAS ARTES NA MINHA MARAVILHOSA CIDADE E A LEMBRANÇA DE UM HOMEM QUE AMAVA A HISTÓRIA, DESEJO A TODOS QUE FREQUENTAM O NOSSO BLOG UM FELIZ NATAL!


NOTAS

[1] Ver Relatório apresentado à Assembleia Provincial do RN pelo Vice-Presidente André de Albuquerque Maranhão no dia 7 de setembro de 1843.

[2] Ver “Acta Diurna”, de Luís da Câmara Cascudo. O teatro em Natal. “A República”, Natal, 15 de agosto de 1940.

[3] Quando a Guerra do Paraguai teve início, aproveitando o patriotismo que tinha tomado conta do país, muitos voluntários se apresentaram para lutar espontaneamente. O governo assegurava vantagens aos voluntários como prêmio em dinheiro, terras, preferência nos empregos públicos, patentes de oficiais honorários, liberdade a escravos, assistência a órfãos, viúvas e mutilados de guerra. Com o passar do tempo, o aumento da mortandade em combate e a diminuição do entusiasmo popular, o governo imperial passou a exigir dos presidentes das províncias cotas de voluntários, que deveriam recrutar. Cada Província foi solicitada prover, no mínimo, 1% da sua população. Essa foi a razão da ação do alferes Rolim no teatro. Por outro lado, havia várias formas de se escapar da convocação: os aquinhoados faziam doações de recursos, equipamentos, escravos e empregados para lutarem em seu lugar; os de menos posses alistavam seus parentes, filhos, sobrinhos ou agregados; aos despossuídos só restava a fuga para o mato. O Rio Grande do Norte formou o 28º Corpo de Voluntários da Pátria (28º CVP) e no 55º CVP os potiguares se uniram aos piauienses. Por razões que não sei explicar, o 28º CVP foi dissolvido durante a guerra e seus homens incorporado aos 34º CVP (Pará) e ao 36º CVP (Maranhão).

[4] A região do Barro Vermelho era assim conhecida já em fins do século XVIII, quando um antigo documento aponta que o sargento João Antônio Freitas era morador do “Barro Vermelho” e requereu mais outros pedaços de terra até a “Lagoa Seca”.

[5] Bartolomeu Fagundes de Vasconcelos nasceu em 1815, na localidade de Vila Flor, no Rio Grande do Norte. Viveu num ambiente onde a política e a religião eram assuntos preponderantes e foi ordenado em 1839, no seminário de Olinda. Além da formação religiosa recebeu também influências de Padres-Maçons que sonhavam com um Brasil livre e governado por Brasileiros. Homem de caráter firme e sentimentos nobres contrariou o poderoso Bispo Dom Vital por não ter abjurado à maçonaria. Serviu ao sacerdócio por 34 anos e a maçonaria por 37. Foi político, chefe de partido e Vice-Presidente de Província. Faleceu em 1877. Texto de Luís Soares de Lima, exibido no endereço eletrônico http://vigariobartolomeu.org/o-patrono/

[6] Segundo Claudio Galvão, o apelido Panqueca se deveu a um personagem que interpretara, ele que fora ator amador na maioria das sociedades teatrais em atividade na Natal do século XIX.

[7] Certamente o rápido crescimento populacional da capital potiguar dos primórdios do século XX, trouxe para o Professor Panqueca a ideia que o passado lhe trazia mais consolo na vida. Mas não é difícil compreender esta situação quando nos debruçamos sobre os números frios do crescimento estatístico de Natal entre 1900 e 1920 (em 1910 não ocorreu o censo demográfico). Observamos que em vinte anos a cidade saltou de 16.056 para 30.696 habitantes. Pode parecer pouco aos olhos de hoje a proporcionalidade deste crescimento, mas ao observarmos o resultado do censo de 1890, quando Natal tinha 13.725, seu crescimento populacional em dez anos foi de meros 2.331 habitantes. Ao passo que entre 1900 e 1920, este crescimento foi de 14.640 pessoas. Mesmo levando em consideração o hiato de tempo entre os levantamentos estatísticos, a forma de coleta destes dados, é perceptível um aumento da população natalense. Em grande parte isso se ocorreu pelo incremento de novas vias de transporte (principalmente ferroviário). Ver – http://pt.wikipedia.org/wiki/Natal_%28Rio_Grande_do_Norte%29

[8] No início do século XX era normal a população de Natal assistir muitos folguedos populares tradicionais, fato que perdurou com maior força até a década de 1930. Provavelmente a Lapinha que Joaquim Lourival assistia era a da velha Rosário, na Santa Cruz da Bica, próximo a atual sede da COSERN. A Lapinha era uma dança tipicamente religiosa, parecida com o Pastoril, mas que divergia em pontos essenciais de sua execução. Os repertórios eram inspirados em motivos religiosos, onde tinham como figura central o “Pastorzinho”, que dançava junto com as pastoras. Vestiam-se de maneira discreta. Ver Deífilo Gurgel, in “Espaço e tempo do folclore potiguar”, págs. 105 e 106 e 112, Natal, FUNCART, 1999.

[9] Manuel José Marinho da Cunha foi presidente da província do Rio Grande do Norte entre 1 de setembro de 1868 a 10 de março de 1869. Ver – http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Jos%C3%A9_Marinho_da_Cunha

[10] Camillo Federici, nasceu em Garessio, Itália, em 9 de abril de 1749 e morreu em Padova no dia 23 de dezembro de 1749. Foi um dramaturgo e ator de teatro, cujo verdadeiro nome era Giovanni Battista Viassolo.

HENRIQUE CASTRICIANO E O CANGAÇO

Henrique Castriciano de Souza em um flagrante no almoço oferecido em honra a Rafael Fernandes, na antiga Escola Doméstica na década de 1930
Henrique Castriciano de Souza em um flagrante no almoço oferecido em honra a Rafael Fernandes, na antiga Escola Doméstica na década de 1930

Autor – Rostand Medeiros 

Henrique Castriciano de Souza é considerado uma das maiores inteligências que o Rio Grande do Norte já teve. Nascido em 15 de março de 1874, na cidade de Macaíba, exerceu durante sua vida uma enorme gama de atividades; diplomado pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro em 1904, foi jornalista, poeta, ensaísta, critico literário, secretário de governo, vice-governador, presidente da Assembléia Legislativa, deputado estadual e outras atuações que mostram um espírito que impressionam os que se debruçam sobre sua vida e sua obra. 

Jornal “A Republica”, em 25 de abril de 1908
Jornal “A Republica”, em 25 de abril de 1908

Foi um incentivador cultural, criando a primeira lei de incentivo cultural no Rio Grande do Norte. Criou escolas, adorava a pesquisa, tendo viajado a Europa buscando os caminhos por onde andou Nísia Floresta, escritora nascida em 1810 em Papary (atual município de Nísia Floresta) e falecida na França em 1885. Nísia, como Castriciano, foi uma autora de vasta obra. 

Em 1908, Castriciano frequentava quase diariamente as páginas do periódico “A Republica”, produzindo suas crônicas, com comentários sobre os mais diversos assuntos. No dia 25 de abril daquele ano publicou uma crônica dedicada exclusivamente ao cangaço. 

Antonio Silvino
Antonio Silvino

Provavelmente este trabalho foi realizado diante da repercussão negativa do ataque promovido pelo bando de Antônio Silvino ao povoado Machados, localizado a 18 quilômetros do município de Bom Jardim, Pernambuco. 

Neste ataque, ocorrido no dia 15 de fevereiro, à uma hora da tarde, em pleno dia de feira, Silvino e seus cangaceiros entraram sem alteração no lugar. O chefe quadrilheiro vinha na intenção de ir a um comércio do lugar e acertar certas contas com o proprietário. 

Silvino estava resolvendo esta situação, quando recebeu voz de prisão do Inspetor policial do lugar. Este chegou à mercearia acompanhado com um grupo de quatro paisanos, que voluntariamente se colocaram prontos a auxiliar o Inspetor para prender o bando. 

Jornal “A Republica”, em 21 de fevereiro de 1908
Jornal “A Republica”, em 21 de fevereiro de 1908

Os jornais da época e os autores que trataram da vida de crimes do cangaceiro Antônio Silvino, não detalham com clareza o que ocorreu, mas o resultado foi o extermínio da tropa voluntária e do Inspetor. Após o tiroteio, Silvino e seu bando saquearam o comércio de Machados em 400$000 réis e fugiram em direção aos Lugares Pedra Fria e Palma (O ataque a Machados foi reproduzido na primeira página do jornal “A Republica”, em 21 de fevereiro de 1908).

Diante deste fato de forte repercussão, principalmente em Pernambuco, na Paraíba e no Rio grande do Norte, Estados frequentados por Antônio Silvino, Castriciano busca mostrar aos leitores do litoral potiguar, as diferenças entre as populações do sertão e do litoral, a dureza das regiões quentes e as origens e peculiaridades do banditismo “boêmio”. 

Comenta de forma clara a figura de Jesuíno Brilhante, que a época cada vez mais se mitificava, assumindo a figura de um “Dom Quixote vermelho”, que “andava por toda a região sertaneja, distribuindo justiça a seu modo”. Observava como o tempo fazia o povo esquecer suas atitudes de um bandoleiro não tão romântico assim e apontava como “as gentes do centro”, como Castriciano designava o sertanejo e o sertão, via esta singular figura de bandido. Interessante é o comentário que Castriciano faz, quando narra sua experiência ao segurar o crânio de Jesuíno Brilhante. 

Antonio Silvino em desenho a bico de pena
Antonio Silvino em desenho a bico de pena

Já sua visão de Silvino é de um sanguinário, um terror dos sertões, tacha-o de “moralmente muitíssimo inferior”, de gostar da atenção da platéia popular e comenta a sua brutalidade. 

Em uma época em que Virgulino Ferreira da Silva, o futuro “Lampião”, ainda brincava de baladeira na região da Serra Vermelha, Castriciano já apontava as diferenças e as sutilezas entre os cangaços de Brilhante e Silvino. Da mesma forma que, anos depois, muitos apontariam as diferenças entre Silvino e Lampião, apresentando “O rifle de ouro” quase como um “gentleman” e o “cego de Vila bela”, como a encarnação do “cão do quinto livro”. 

O mais interessante da crônica de Henrique Castriciano é a sua analise sobre a popularidade do Antônio Silvino, através do livreto de cordel do cantor popular Francisco das Chagas. 

Denominando esta obra apenas de “folheto”, Castriciano aponta este material como o “melhor espelho do estado mental e moral das nossas populações”. Mostra (às vezes de forma preconceituosa) a visão dos sertanejos ante o fracasso das perseguições do aparato governamental a Silvino, destacando a “ironia, a gargalhada do povo rude em face da impotência dos governos”. 

Silvino após sua captura em 1914
Silvino após sua captura em 1914

Entre irônicas tiradas contra a justiça oficial de então, existe espaço neste cordel para “planos de governo” de Antônio Silvino, com apontamentos socialistas, divisão da terra e até criticas a atuação de estrangeiros pelo sertão afora, no caso os ingleses e suas estradas de ferro. 

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Neste maravilhoso trabalho, Henrique Castriciano utilizou como era normal no período, o pseudônimo de “Mario Valle”. Segundo Manoel Rodrigues de Melo, no livro “Dicionário da Imprensa no Rio Grande do Norte 1909 – 1987”, página 259, Castriciano era pródigo em criar pseudônimos. Este autor narra nove deles, desde um simples “H.C.” ao interessante “Erasmo van der Does”. 

Henrique Castriciano faleceu em 26 de julho de 1947. 

CRÔNICAS – Jornal “A Republica”, sábado, 25 de abril de 1908. 

O Nosso clima, as brutas arestas do sertão, o solo escalvado que constituem grande parte da zona do Norte, todo este conjunto de fatores ásperos, gera, de quando em quando, tipos totalmente sintéticos, recapitulações da psicologia por vezes mórbida da sub-raça que se agita nessa parte do território brasileiro. 

São interessantíssimos os representantes máximos e diretos da plebe entre nós: os cantadores ambulantes, o vaqueiro heróico, e, mais do que todos, devido à agilidade perversa e a concepção anarquista que forma do mundo, os criminosos boêmios que, às vezes durante anos, percorrem léguas matando e destruindo a vontade. 

Há uma grande diferença física entre a gente do agreste e do sertão; diferença que se afirma na singular energia da população da última destas zonas, em contraste com a meiguice humilde dos habitantes da primeira. 

Todos os criminosos notáveis aparecidos nos Estados setentrionais do Brasil são gerados nas plagas sertanejas, produto agressivo de gerações e gerações em eterno combate com a natureza, casos teratológicos de uma gente até no crime forte e excepcional. 

Eles são bons filhos das terras em que nasceram. Assim como nestas, ao lado das várzeas e dos rios pródigos, existem a montanha pedregosa e a campina estéril, assim também, na sociedade que lá vive, surge de quando em quando, dentre centenas de seres educados na bondade enérgica e sofredora, as almas tingidas de vermelho, os corações golpeados de ódio que se chamam Jesuíno Brilhante e Antônio Silvino, símbolos da anarquia física desse meio hostil, cardos humanos nascidos entre aquela branca seara de almas, como os espinhos do mandacaru entre os imbuzeiros carregados de frutos e ninhos. 

Henrique Castriciano
Henrique Castriciano – Fonte – blogeloydesouza.blogspot.com

E, fato singular; quaisquer dos bandidos acima citados são, como o solo sertanejo, uma perene contradição, uma extraordinária messe de coisas que se repelem. 

A vida do primeiro surpreende pelo contraste, pela diversidade dos meios postos em prática, pela serie infinita de atos profundamente maus e de ações reveladoras de profundo desprendimento. 

Jesuíno brilhante é uma figura típica do herói popular, de Dom Quixote vermelho. A existência desta singularíssima figura representa o que a de mais doce na alma humana e o que a de mais feroz. 

Alguém poderoso ou não, tentara contra a honra da desvalida moça? 

Ei-lo em campo, armado até os dentes. 

O sedutor reparava a falta ou morria. E andava por toda a região sertaneja, distribuindo justiça a seu modo, justiça absolvente de animal primitivo, girando entre o roubo e a morte. 

Para ele, como para todos que cumprem igual destino, a propriedade era da comunhão. Daí o grande ódio que votava as autoridades constituídas, especialmente aos soldados, como representantes da lei. 

Um médico do centro, o meu distinto amigo Dr. Almeida Castro, guarda o crânio deste desgraçado.  Vi-o a cerca de doze anos, estive com ele entre as mãos, como Hamlet sustentando nos dedos a caveira de Iorick e, como o desditoso príncipe, filosofei acerca do miserando ser, sentindo no intimo um frêmito de compaixão. 

Quem sabe até onde iria a coragem deste rebelado se outros fossem o meio e o tempo em que viveu? 

Os heróis não são feitos de temperamento diverso; creio que foi Victor Hugo que os chamou de uma variedade de assassino…. 

O tempo tornou a sua figura legendária; das depredações que fez já ninguém se recorda; e as gentes do centro falam dele como de um justo que, nos dias de fome, assaltava as tropas guardadoras dos comboios que conduziam a farinha destinada pelo rei ao seu povo, mas que os magnatas das aldeias queriam transformar em fortuna própria.   

Com Antonio Silvino, moralmente muitíssimo inferior, está se dando o mesmo. O celerado anda por aí quase à vontade, sentido em torno de si o respeito e a estima da plebe, com quem reparte cavalheirescamente o que recolhe dos inimigos. 

Este é brutal, sem um raio de estrela na sua alma tenebrosa, sem as crises de bondade do outro, sem penas de garça nas asas de corvo. 

Mas as multidões o acarinham, porque vem nele um forte. E sem perceber que a sua generosidade é apenas um gesto hábil, já o está glorificando pela boca dos poetas campônios. Tenho sob a vista um folheto do cantor popular Francisco das Chagas. Há muito não vejo melhor espelho do estado mental e moral das nossas populações; as 16 páginas a que me refiro, valem um compendio de psicologia. 

Quem, de futuro, quiser saber o pensamento da gente analfabeta, que povoa o nosso solo não tem mais do que abrir este livrinho; aí encontrará a ironia, a gargalhada do povo rude em face da impotência dos governos que ele vaia gostosamente, na sua qualidade de mosquito zumbidor. 

Encontrará o ódio que vota ao empregado público, aos partidos, as autoridades, colocando-se, já se vê, ao lado de Antonio Silvino, em quem contempla a síntese da anarquia que lavra no seio das sociedades incultas do centro. 

Não sei se os senhores sabem que o bandido teve por companheiro uma fera de nome Cocada. Teve. 

E um dia, desconfiado dele, expulso-o do rebanho maldito.  

A fera, perseguida pela polícia, não pode ser alcançada, vindo a morrer as mãos de um senhor Pica-pau, sequioso de vingança, e de sangue. 

O poeta Chagas narra o fato com a sua meia língua de trovador rural e, legitimo interprete do zé-povo, termina com esta gargalhada cuspida a face da justiça; 

Na povoação da Serrinha,

Aonde a morte se deu,

A polícia, por milagre,

Ao tal Pica-pau prendeu,

E encontrou as orelhas

De Cocada em poder seu,

 

Não conseguindo a polícia

Prender o ex-valentão,

Ao pegar suas orelhas

Meteu-as numa prisão:

Encarceradas num frasco

Ficaram elas então….

 

Dizem os filhos da Candinha

Que já estão processadas

As orelhas do bandido,

Que em breve serão julgadas

E que as galés perpétuas

Elas serão condenadas. 

Dificilmente um poeta culto encontraria sarcasmo tão pungente para caracterizar o seu desprezo em face de uma justiça que o não garante bem. 

O livrinho termina com a exposição da Política de Antonio Silvino: 

Há doze anos que vivo

Com o governo em questão

Sem que ele conseguisse

Vencer minha oposição:

Vou agora experimentar

Se ganho-lhe uma questão.

 

Ao meu lado tenho todos

Os chefes oposicionistas:

Já pleiteei mais vinte

Candidatos governistas,

E antes das eleições

Farei inda outras conquistas. 

O programa seria o tentado por qualquer pessoa do povo se viesse a governar; 

Mesa de rendas uma só

Não deixarei, isso eu juro!

Livros de arrecadação

Mando deitar no monturo. 

Intendência em município

Acabarei com as que houverem:

Empregado pede esmolas!

Os que assim não fizerem

Vão trabalhar alugados

Para bacalhau comerem! 

Promotores, delegados,

Inspetor de quarteirão,

Todos eu demitirei

Com uma surra de facão…. 

Inglês onde eu dominar

Não contará pabulagem;

Para o trem poder correr

Há de pedir-me homenagem,

Consentirei que o trem corra

Mas ninguém paga passagem. 

É a tendência igualitária dos vencidos, o socialismo inconsciente das classes pobres. 

A terra será comum

Todos se apossarão

Ninguém pagará mais foro

Para fazer plantação;

Não haverá nesse tempo

Nem criado, nem patrão. 

Será geral a igualdade

Todos hão de ter direitos

O que foi rico terá

Ao que foi pobre respeito

O grande senhor de engenho

Irá trabalhar no eito. 

A nota característica da poesia popular no Brasil é o sarcasmo; porém á neste livrinho alguma coisa que não é somente isto. 

E não entristece ver, em mais de um Estado e na hora presente, o povo do centro encarnando os seus ideais na pessoa de Antônio Silvino? 

Mario do Valle

 

MARACAJAÚ E RIO DO FOGO – ANTIGOS CEMITÉRIOS DE BARCOS DA COSTA POTIGUAR

Yet he held his hould

Ao longo da história de duas belas praias do litoral potiguar, ocorreram vários relatos de afundamentos até hoje praticamente desconhecidos

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Na história do Rio Grande do Norte sempre foi muito pouco relevante os fatos ligados às questões náuticas e a série de problemas que aqui existiam para quem navegava.

Era um período de navegações heroicas e arriscadas, onde os homens se aventuravam por costas ainda não totalmente mapeadas, ou passando por áreas sem os faróis para o auxílio à navegação. Coisas como as atuais maravilhas tecnológicas de navegabilidade sequer povoavam as mentes dos novelistas mais criativos. Conduzir um barco a vela, através dos oceanos era então uma tarefa que exigia muita atenção e a experiência de navegação dos seus comandantes era fundamental para uma boa viagem.

É bem verdade que já se utilizava bússolas, mapas de navegação conhecidos, sextantes, cronômetros marítimos e outras ferramentas que ajudavam na navegação. Mas nada era totalmente seguro.

A Complicada Costa Potiguar

Localizado no “cotovelo” da América do Sul, a posição geográfica do Rio Grande do Norte sempre se caracterizou para a navegação pela existência de ventos fortes em certas épocas do ano, correntes marítimas complicadas e algumas perigosas áreas com recifes de corais.

Antigos instrumentos de navegação - maxinecooper.wordpress.com
Antigos instrumentos de navegação – maxinecooper.wordpress.com

Apesar dos perigos isso não impediu que portugueses, espanhóis, franceses, holandeses e marujos de outras nacionalidades navegassem no nosso litoral e muitos naufrágios marcam a nossa história.

O interessante site Naufrágios do Brasil (http://www.naufragiosdobrasil.com.br) possui uma página específica para os afundamentos em águas potiguares. A relação traz os nomes de mais de 100 barcos e alguns aviões que repousam no fundo do mar. O mais antigo registro existente neste site é de um barco, provavelmente uma caravela portuguesa, com o nome “São João e Almas”, que se perdeu na região do Cabo de São Roque no longínquo ano de 1677.

Ao longo dos séculos seguintes não era tão raro a notícia de algum afundamento em águas costeiras do Rio Grande do Norte, especialmente nas regiões onde se encontram recifes de corais, principalmente na área das conhecidas praias de Maracajaú e Rio do Fogo.

Área de recifes de corais, ou parrachos de Maracajaú e Rio do Fogo, costa do Rio Grande do Norte
Área de recifes de corais, ou parrachos de Maracajaú e Rio do Fogo, costa do Rio Grande do Norte

Atualmente estas praias são locais de destinação turística e de veraneio, possuindo ambos os locais tradicionais comunidades de pescadores. Mas a maioria dos naufrágios ali ocorridos é desconhecida e envoltos em histórias onde o destino da carga era mais importante que a vida dos tripulantes.

Uma Região Perigosa Para um Velho Brigue Inglês

Há quase 174 anos o velho brigue inglês Orion, de 198 toneladas, bateu e afundou nos recifes de coral diante da praia potiguar de Rio do Fogo, onde nesta época já existia uma povoação de pescadores.

Construído em 1804, no estaleiro pertencente a John Holt Jr. e John Richardson, em Whitby, o terceiro maior centro de construção naval da Inglaterra, depois de Londres e Newcastle, o Orion serviu a Royal Navy (Marinha Real Britânica) como barco de transportes nos combates contra as forças de Napoleão. Este brigue, um barco que possuía normalmente dois mastros maiores, uma tripulação variável de oito a quinze homens, uma média de 40 a 90 metros de comprimento e uma tonelagem que variava de 160 a 1.150, foi depois vendido para uma empresa de transportes marítimos de Londres e já se encontrava a 36 anos navegando pelos sete mares quando encontrou seu fim no dia 30 de março de 1840, uma segunda feira.

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Na hemeroteca do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, encontramos nas páginas amareladas do velho jornal Publicador Natalense, edição de sábado, 2 de maio de 1840, as notícias do Expediente do Governo provincial potiguar, cuja a presidência era exercida por Manoel de Assis Mascarenhas. Nesta páginas, uma espécie de Diário Oficial da época, consta que o juiz de paz de Touros, na época um município emancipado desde 1833, trazia notícias sobre o acidente do Orion, dando conta que o mesmo vinha carregado de café do sul do Brasil.

Encontramos a informação que havia sido negado ao juiz de paz de Touros, cujo nome não foi divulgado, o seu pedido para que os jangadeiros de Rio do Fogo ficassem de posse da metade dos objetos e da carga do brigue acidentado. O pedido do juiz ia de encontro ao Artigo 18 do Tratado firmado entre os reinos do Brasil e da Inglaterra, sobre o destino das cargas de naves naufragadas.

O Presidente da Província Manoel de Assis Mascarenhas, que deixaria o cargo em julho de 1841, exigia que o juiz de Paz de Touros, que possuía jurisdição sobre Rio do Fogo, arrecadasse com os jangadeiros da localidade tudo que eles haviam salvado do Orion. Entretanto no mesmo despacho percebemos que o Presidente não parecia confiar no juiz de paz e nem estava brincando em relação a suas ordens, pois ordenava ao “Inspetor interino da Thesouraria da Fazenda” que enviasse um oficial e guardas da Alfandega para arrecadarem e inventariarem os objetos salvos. Para que a ordem ficasse mais bem transmitida, no mesmo despacho o Presidente abonava o soldo de cinco guardas do Corpo de Polícia para seguirem a Touros para participarem desta missão.

Típico brigue inglês
Típico brigue inglês

Neste caso do Orion não sabemos nada do que causou a destruição do brigue, o que houve com a tripulação e nem se os jangadeiros de Rio do Fogo, ao salvarem os objetos e a carga do barco sinistrado agiram na ânsia de conseguirem vender o que arrecadaram a revelia da tripulação e das autoridades, ou se eles foram incitados a salvarem este material pela tripulação inglesa, com a promessa de ficarem com a metade do que conseguiram tirar das águas e depois tiveram a sua parte no acordo retirado a força pelas autoridades comandadas pelo Presidente Manoel de Assis Mascarenhas.

A Barca Norte Americana Destruída em Maracajaú

Onze anos após o desastre do brigue Orion, uma barca, ou “bark” em inglês, uma nave com três ou mais mastros, com um comprimento que poderia variar de 35 a 60 metros, foi totalmente destruída nos belos recifes de coral de Maracajaú. Estes recifes de corais são conhecidos na região como parrachos.

A edição existente na internet do tradicional jornal The New York Times, de 30 de outubro de 1851, da conta que os seus jornalistas haviam recebido a notícia que a barca Ruth, que seguia do porto norte-americano de Baltimore para o Rio de Janeiro, havia se perdido em “Patagonia”, próximo “ao Cabo de São Roque”, mas a tripulação se encontrava a salvo. Parece que as informações geográficas dos jornais americanos desta época eram bem complicadas.

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No periódico O Argus Natalense, existente na hemeroteca do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, na sua edição de sábado, 11 de outubro de 1851, que encontramos uma notícia mais abalizada sobre o acidente da Ruth, com o destino da sua carga envolta em um rumoroso inquérito judicial.

Consta que a Ruth vinha dos Estados Unidos com 2.600 “barricas” contendo farinha de trigo, tendo se chocado com os parrachos de Maracajaú nos primeiros dias do mês de setembro de 1851. Este era um barco novo, tinha 337 toneladas e havia sido lançado ao mar em Baltimore no dia 27 de julho de 1847, sendo um dos 80 barcos construídos nos estaleiros daquele porto durante aquele ano.

Já no dia 15 daquele mês o “Inspector” da Alfandega da Cidade do Natal Manoel Pedro Alvares, informava que Antônio Francisco Nobre Câmara, o subdelegado de Maracajaú, havia firmado com John Llufrio, o capitão da barca, um norte americano de 43 anos de idade e natural de Rhode Island, um acordo onde os jangadeiros de Maracajaú e proximidades receberiam 50% da carga salva. Mas o inspetor Pedro Alvares acusava que o subdelegado Nobre Câmara participava e dava apoio ao extravio de mercadorias da barca naufragada, sem o conhecimento do capitão Llufrio.

Porto de Baltimore, quadro de Fitz Hugh Lane
Porto de Baltimore, quadro de Fitz Hugh Lane

Como a farinha de trigo é um produto que se transforma no contato com a água, tudo indica que a Ruth bateu nos parrachos e ficou com parte do casco fora da linha d’água, deixando muito de sua carga intacta. O inspetor Pedro Alvares informou, entre outras coisas, que todos os dias “de 100 a 200 barricas” desembarcavam na praia de Maracajaú, que os sete soldados do Corpo de Polícia de Maracajaú participavam do “roubo” e revendiam as barricas de farinha de trigo. Outra acusação dava conta que uma barcaça (nome e origem não mencionados) havia seguido para “portos do norte” com 120 barricas e que apenas 200 das 2.600 barricas, menos de 10% da carga, estavam sob a guarda da autoridade alfandegaria.

O inspetor Pedro Alvares informou também que contratou jangadeiros para salvarem barricas da Ruth, pagando 1.600 réis por unidade salva, mas parece que os jangadeiros preferiam realizar o transporte das barricas para um destino mais rentável. Pois no mesmo relato o inspetor pedia a seu chefe em Natal, João Bernardino Nunes, que pelo menos 30 praças do Corpo de Polícia fossem enviados para Maracajaú para evitar o extravio da carga, pois a entrega indevida deste material já se estendia por “mais de uma légua” ao longo da costa.

Pelo que está transcrito em O Argus Natalense, aparentemente o inspetor Pedro Alvares desejava cumprir o seu papel de fiscal da fazenda pública e cobrar as taxas alfandegarias pelos salvados da Ruth, independente do acordo feito pelo subdelegado Nobre Câmara com o capitão John Llufrio. Mas parece que seus esforços foram em vão.

Outros Acidentes

Quase dez anos depois do sinistro da Ruth, entre dezembro de 1860 e janeiro do ano seguinte uma pequena escuna norte americana chamada Madshler, de 350 toneladas, cujo comandante era o capitão Henshel, naufragou em Maracajaú com sua carga de ossos de animais, uma mercadoria que na época era destinada a ser reciclada como ração animal. Estas são praticamente as únicas indicações deste sinistro, que está registrado no periódico carioca Diário do Rio de Janeiro, edição de quarta feira, 30 de janeiro de 1861 e preservado na hemeroteca da Biblioteca Nacional.

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No mesmo jornal, na edição de 25 de maio de 1869, uma terça feira, na segunda página, na seção destinada às notícias vindas de Pernambuco, dá conta que no dia 10 de abril daquele ano um barco brasileiro chamado Santa Cruz, do tipo iate, ou “hiate” na grafia da época, registrado em Recife, havia partido da capital pernambucana com uma carga de fazendas e outros gêneros, a maioria desta pertencente ao rico comerciante Pedro José Gonçalves da Silva, para a cidade cearense de Aracati.

Dois dias depois, as oito da manhã de uma segunda feira, em meio a uma tempestade, o Santa Cruz encalha defronte ao povoado de Maracajaú. Ao bater nos parrachos foi aberto um rombo no casco de madeira, o barco encalhou e passou quatro horas enchendo de água e perdendo grande parte de sua carga. Contam que pouco foi salvo e que não se perdeu foi vendido em Natal “por conta do seguro”.

Talvez por ser um barco de pequeno porte, ou pela natureza de sua carga, ou quem sabe por ser o mesmo oriundo de um porto nordestino, as notícias sobre o sinistro desta embarcação são limitadas. Não sabemos quem era seu capitão, ou “Mestre”, nem o número de tripulantes. Desta vez nada temos sobre a participação da comunidade local no salvamento da carga e não existem problemas envolvendo agentes públicos e a carga sinistrada.

Entretanto sabemos que o frete entre Recife e Aracati foi de parcos 600 mil réis e que a avaliação do sinistro ficou na casa dos 120 contos. Consta na nota deste jornal uma forte crítica pelo uso de barcos limitados como o Santa Cruz, em detrimento da utilização de vapores no transporte de cargas.

Parrachos de Maracajaú, um afamado destino turístico
Parrachos de Maracajaú, um afamado destino turístico

Oito meses depois do sinistro do Santa Cruz, o próximo barco a sofrer danos nos parrachos de Maracajaú é a barca inglesa Gabalva. Era o dia 11 de janeiro de 1870, uma terça feira, a barca Gabalva tinha 479 toneladas, era comandada pelo capitão W. Hyde, transportava uma carga de vinhos, móveis, fazendas e outras mercadorias. A nave era registrada em Londres, seguia de Boston (outras fontes apontam Baltimore), nos Estados Unidos, em direção à cidade australiana de Melbourne. Este acidente, tudo indica, ocorreu a noite, em meio a uma tempestade.

Apesar da carga valiosa e útil, nada foi comentado sobre problemas envolvendo o recolhimento indevido da carga deste barco.

Afundamentos Desconhecidos e Cargas Típicas de Uma Época

A barca americana chamada T. Jeffie Southard, de 830 toneladas, comandada pelo capitão G. R. Handy, que seguia de Nova York a São Francisco através do Cabo Horn, sul da Argentina, foi destruída por choque com os parrachos de Maracajaú no dia 18 de março de 1882. Logo foi despachado para a região o pessoal do serviço alfandegário de Natal e membros da Força Pública para evitar o desvio da carga. O registro deste afundamento se encontra no periódico cearense Gazeta do Norte, de 15 de abril de 1882, existente na hemeroteca da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro.

Típico padrão de uma barca americana
Típico padrão de uma barca americana

Pouco mais de um ano após este sinistro, na metade de junho de 1883, outro barco se tornou uma nova vítima dos parrachos de Rio do Fogo. Mas a nacionalidade, nome, tonelagem, nome do capitão, quantidade e destino dos tripulantes ficaram totalmente desconhecidos. Mas o jornal carioca Gazeta de Notícias, edição de sábado, 30 de junho de 1883, aponta que novamente as autoridades locais se apresavam em garantir os salvados deste barco misterioso.

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Quase no final do século XIX é a vez do patacho holandês Catherine Klesin  ir de encontro aos parrachos de Maracajaú. Os patachos eram barcos de dois mastros e tonelagem variando de 40 a 100. No caso da Catherine Klesin ela era comandada pelo capitão J. Douwes, junto com uma tripulação de quatro marinheiros (todos se salvaram) e bateu nos parrachos às três da manhã. O patacho Catherine Klesin ficou totalmente destruído, mas parte do carregamento foi salvo. Ainda sobre o que a Catherine Klesin temos a informação que o material que ela transportava era uma miscelânea de produtos que tinham sua importância no final do século XIX; carvão de pedra, malte, garrafas vazias, coque, ferro em barras, vergalhões, sal, ácido sulfúrico, tintas, cortiça e sabão de potassa.

O acidente se deu em 5 de março de 1898 e ficou registrado nas páginas do jornal natalense A República, edição do dia 8 de março.

Conclusão

Os relatos dos afundamentos em Maracajaú e Rio do Fogo ao longo do século XIX, pelas características dos barcos e de suas cargas, pouco tem do charme envolvendo as histórias dos galeões espanhóis que afundaram no Caribe abarrotados de ouro e prata. Mas o conhecimento destes sinistros mostram características praticamente desconhecidas dos problemas marítimos na costa potiguar, a relação das autoridades com estes fatos e como as comunidades tradicionais de pescadores interagiam com estes acidentes.

Relato do afundamento da barca americana T. Jeffie Southard
Relato do afundamento da barca americana T. Jeffie Southard

Através dos relatos existentes nestes jornais antigos conseguimos informações sobre oito naufrágios ocorridos entre 1840 e 1898, de diferentes nacionalidades, transportando mercadorias variadas, provavelmente ainda latente na mente e na tradição oral dos pescadores de Maracajaú e Rio do Fogo, o que pode revelar muito mais sobre estes sinistros, se bem trabalhadas e com uma pesquisa histórica mais profunda.

E não podemos esquecer que as áreas de navegação de Maracajaú e Rio do Fogo, mesmo com todo avanço tecnológico, ainda provocam acidentes. – Ver – http://portalnoar.com/policia-divulga-video-do-resgate-a-naufragos-no-litoral-norte-do-rn/

VER NO TOK DE HISTÓRIA – https://tokdehistoria.wordpress.com/2011/06/15/o-naufragio-do-sao-luiz/

Fontes – http://freespace.virgin.net/suesteph.baines/williamholt1752.html

http://www.bbc.co.uk/northyorkshire/content/articles/2005/04/04/coast05walks_stage1.shtml

http://fultonhistory.com/Newspapers%206/New%20York%20NY%20Tribune/New%20York%20NY%20Tribune%201851%20Nov%20-%20Jan%201852%20Grayscale/New%20York%20NY%20Tribune%201851%20Nov%20-%20Jan%

http://postingsfromthepast.blogspot.com.br/2006/08/baltimore-daily-news-november-19-1978.html

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QUANDO AS PEDRAS CAÍRAM DO CÉU NO RIO GRANDE DO NORTE

Casos de Quedas de Corpos Celestes no Rio Grande do Norte

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

O Rio Grande do Norte, desde que a sua história passou a ser registrada através de documentação escrita, guarda poucos informes de fatos naturais que, de tão incomuns, marcaram o momento em que ocorreram, fazendo com que os homens do passado registrassem para a posteridade estes acontecimentos insólitos.

Um dos fenômenos naturais incomuns que mais chamavam a atenção dos antigos habitantes das terras potiguares eram os tremores de terra. Comuns até os dias atuais, estes acontecimentos geológicos ocorrem principalmente na região da antiga Baixa Verde, atual município de João Câmara. Desde o final do século XVIII, antigos cronistas já registraram a impressão que os tremores deixaram junto aos antigos habitantes. Quem está na faixa dos 30 anos de idade, certamente deve se lembrar do terremoto ocorrido em 1986, que abalou a região, alcançando a magnitude de 5.3 na escala Ritcher e que marcou profundamente a história potiguar e chama a atenção dos geólogos.

Se ocasionalmente os potiguares sentem o solo tremer, muito mais raros são os registros de bólidos vindos do céu, de meteoros despencando com estrondo na nossa região. Entretanto, estes fenômenos já ocorreram.

Uma chuva de meteoritos em Macau

Nos anais do VIII Simpósio de Geologia do Nordeste, realizado em 1977, em Campina Grande, Paraíba, encontramos o resumo de uma pesquisa realizada pelos geólogos brasileiros Celso de Barros Gomes, da USP (Universidade de São Paulo), W. S. Crurvello, do Museu Nacional do Rio de Janeiro acompanhado dos cientistas norte-americanos K. Kiel, da Universidade do Novo México e E. Jarosewich, do Instituto Smithsonian, de Washington, que estiveram na região de Macau e Açu, em busca de restos de um meteorito, que caiu do céu no dia 11 de novembro de 1836.

A queda deste bólido ocorreu ás cinco da tarde, nas imediações da foz do rio Açu, em uma área territorial que então pertencia ao município de Macau. Segundo os relatos da época devido ao impacto no solo, morreram algumas vacas e a queda do objeto celeste foi acompanhada de um forte clarão e ribombos. Aparentemente o meteorito se fragmentou em vários pedaços, alguns maiores e outros tocaram o chão no formato de uma chuva de pequenas pedras. Fontes pesquisadas por estes cientistas relataram que o clarão produzido pela queda deste meteoro foi visto por uma embarcação que se encontrava a 324 milhas náuticas, ou cerca de 600 quilômetros de distância, da costa potiguar. Consta que os tripulantes relataram a passagem do objeto seguindo em direção a costa, que não era visível aos tripulantes a esta distância.

Durante as pesquisas de campo, foram encontrados restos do meteorito, que foi recolhido e transportado para o sul do país, onde análises detalhadas apontaram a existência principalmente de ferro-níquel na sua composição.

O resumo deste trabalho científico não informa de qual fonte histórica provinham estes dados, mas aparentemente este é o primeiro relato conhecido, descrevendo a queda de meteoritos no Rio Grande do Norte.

Um juiz informa a queda de um meteorito em Açu

Dezenove anos depois, coincidentemente a mesma região anteriormente atingida seria o local da queda de outro meteorito.

Na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, volume XIV, de 1916, encontra-se a transcrição de um documento datado de 28 de agosto de 1855, produzido pelo então juiz de direito de Açu, João Valentim Dantas Pinagé, que informa ao então Presidente da Província, Antônio Bernardo dos Passos, que ele estava enviando a capital da província algumas amostras de um meteorito que havia caído na região de Açu. Informava o magistrado que as amostras apresentadas pesavam juntas “duas arroubas”, equivalente a 30 quilos, e sua queda havia deixado o povo da região assombrado com o fato que aquelas rochas “pudessem vir do céu”.

Aldeões e agricultores indianos posam em 2019 ao lado de uma cratera de meteorito 
(AFP / Getty Images)Fonte – https://www.independent.co.uk/news/science/india-meteorite-bihar-nasa-farmers-mahadeva-a9020716.html

O juiz informava que o objeto foi visto desde as “praias”, provavelmente entre as áreas territoriais dos atuais municípios litorâneos de Guamaré, Macau e Porto do Mangue, e por outros locais da Comarca de Açu. Durante a sua queda, o meteorito foi visto vindo da direção nordeste, seguindo em descendente na direção sudoeste e sendo testemunhado por várias pessoas na região.

Infelizmente o juiz Pinagé não informou exatamente a data do ocorrido, nem o local exato do impacto, mas indica que recebeu as amostras que remetia para Natal “quatro dias depois da passagem do meteoro”.

Tarcísio Medeiros, em seu ótimo livro “Aspectos geopolíticos e antropológicos da história do Rio Grande do Norte”, comenta sobre este fato.

Um “corisco” assombra Santana do Matos

Quarenta e dois anos depois, no dia 8 de abril de 1897, a primeira página do jornal “A Republica”, estampava uma nota intitulada “Aerólito”, onde uma “pessoa de fé, ultimamente chegada do sertão”, informava que no dia 21 de março, um domingo, pelas cinco e meia da tarde, foi visto por diversas pessoas, tanto na área urbana e na zona rural da pequena Santana do Matos, um objeto incandescente, em formato de um ”globo brilhante caindo do céu”.

“A Republica”, 8 de abril de 1897.

As testemunhas comentaram que durante a queda o objeto se mostrava extremamente luminoso e soltava fagulhas. No impacto, segundo o informante, o estrondo foi ouvido a uma distância de oito léguas, equivalente a cinquenta quilômetros. O fenômeno natural chamou a atenção de todos, tendo um grupo de pessoas se deslocado ao ponto onde ocorreu à queda.

Segundo a nota, o impacto se deu na região da “serra de São João”, a sudeste da sede do município de Santana do Matos, onde as pessoas do lugar informaram que um grande “bálsamo”, provavelmente alguma árvore frondosa, fora reduzida a “estilhaços”, mas nenhuma parte do “aerólito” foi encontrado.

A não existência de uma cratera de impacto, que houvesse deixado uma marca mais permanente no solo da região, deixa a entender que o bólido poderia ser classificado como um meteorito de pequenas dimensões. Provavelmente durante a queda, com o atrito junto à atmosfera terrestre, esta rocha foi perdendo massa, criando fagulhas e ao tocar o solo teve força suficiente apenas para destruir esta possível árvore frondosa. O que de toda maneira causou um tremendo espanto aos habitantes da região.

No final do século XIX, ainda era comum a utilização por parte da imprensa do termo aerólito, em detrimento a meteoro ou meteorito. Para o homem simples do campo, e a nota registra isto, a pedra caída do céu era tão somente um “corisco”.

Extremamente econômico na discrição, o relato não cita fontes, nome do informante e outras informações mais apuradas. Mas tudo indica que o local da queda seja localizado no município de Jucurutu, próximo a fronteira com Santana do Matos, na área da fazenda conhecida como “São João”, ou “Saco de São João”, onde existe uma serra homônima.

Um corpo celeste ilumina a noite de Caraúbas

Passados seis anos da queda deste meteorito, o Rio Grande do Norte, foi novamente “visitado” por outra rocha vinda do céu. Na edição do jornal “A Republica”, de 23 de outubro de 1903, o correspondente baseado na cidade de Caraúbas, remeteu uma série de notícias referentes ao município. Entre estas constam informes da seca que assolava a região e sobre o benemérito trabalho do senhor Benevenuto Simões, em perfurar poços na busca do precioso líquido. Em meio a notas políticas, sobre casamentos e de viagens de membros da elite local ao Rio de Janeiro, uma pequena nota, novamente intitulada “Aerólito”, informava ter sido “nossa vila espectadora de um lindo drama”.

“A Republica”, 23 de outubro de 1903.

Por volta das nove horas da noite do dia 30 de setembro, uma quarta-feira, foi visto um brilhante meteorito que percorreu todo o firmamento, deixando um rastro luminoso em sua queda e produzindo uma forte iluminação sobre a pequena cidade. O bólido foi visto vindo da direção sudoeste, seguindo descendentemente na direção oeste, e que após cinco minutos produziu um forte estrondo.

Devido à diferença de tempo entre a visualização do meteorito e o estrondo produzido pelo impacto, partindo do princípio que o correspondente calculou corretamente o tempo, este bólido caiu em uma área distante da sede municipal e a nota do jornal não especifica o ponto exato da queda.

Mesmo sendo um fenômeno raro, chama a atenção à economia de informações do correspondente, onde é mais provável que o mesmo não tenha sido testemunha direta dos fatos, anotando informações prestadas por terceiro, mas nada mais sobre este fato foi comentado.

Os meteoritos

Os meteoritos são classificados de fragmento de um meteoroide que resistiu ao impacto com a atmosfera e alcançou a superfície da Terra ou de outro planeta antes de se consumir. Eles podem ter desde poucos quilos e dimensões mínimas a serem pesadas pedras voadoras de várias toneladas. Quase todos os meteoritos são fragmentos procedentes dos asteroides ou cometas. Podem ter em suas composições minérios como ferro-níquel, silicatos ou ferro metálico. Os meteoritos têm geralmente uma superfície irregular e uma camada exterior carbonizada, fundida. Todos os dias a terra é bombardeada por uma chuva de pedras vindas do espaço, a maioria são inofensivos micrometeoritos. Acredita-se que por ano, caiam sobre a terra seis toneladas de rochas.

Os maiores meteoros, quando se chocam com a Terra, sempre deixam suas marcas, criando crateras profundas.

Acredita-se que o maior meteorito que atingiu a atmosfera da terra, mas sem comprovação definitiva, ocorreu no dia 30 de junho de 1908, na bacia do rio Podkamennaya Tunguska, a 64 quilômetros ao norte de Vanavar, na Sibéria, Rússia. Acreditam os cientistas que um meteorito de 30 metros de comprimento, explodiu a 10 quilômetros de altitude, tendo produzido uma onde de choque sentida a mais de 1.000 quilômetros de distância. O maior meteorito conhecido, que se chocou contra a superfície terrestre, foi encontrado em Hoba West, próximo a Grootfontein, na Namíbia, África, com 59 toneladas.

Estima-se que ao longo de 600 milhões de anos, o planeta Terra tenha sido atingido em mais de duas mil ocasiões por asteroides de grande peso. A maior cratera do mundo, comprovadamente criada pela queda de um meteorito, é chamada Coon Butte, ou Cratera Barringer, localizada próximo à cidade de Winslon, Arizona, nos Estados Unidos.

Pedra de Bendegó

Em 1784, no sertão da Bahia, próximo a região de Canudos, caiu próximo a uma serra, um meteorito de 5.360 quilos, conhecida como Pedra de Bendegó. Este corpo celeste, com muito sacrifício, foi transportado em 1888 para o Rio de Janeiro e encontra-se até hoje exposto no Museu Nacional. Contudo, cientistas descobriram que o maior meteorito que já tocou o solo brasileiro, ocorreu na divisa entre Goiás e Mato Grosso, é conhecido como “Domo de Araguainha”, deixou uma marca na forma de uma cratera de 40 quilômetros e este impacto ocorreu à cerca de 350 milhões de anos.

Os impactos ocorridos no Rio Grande do Norte e aqui relatados, certamente não foram os únicos casos de impacto destes corpos celestes em solo potiguar, que apesar de possuir uma superfície territorial pequena, não está isento de receber novas “visitas celestes”.

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A SAGA DO CANGACEIRO RIO PRETO

Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Prazeres, em Goianinha, Rio Grande do Norte

Autor – Rostand Medeiros

– Este artigo é dedicado ao amigo Antônio Ferreira da Silva Neto, que em breve vai receber no seu lar um presente de Deus.

Em um dia do início do mês de fevereiro de 1906, chegou a cidade potiguar de Goianinha um desconhecido casal. A mulher era uma bonita moça, branca, aparentando ter a jovem uns 18 anos de idade, que se chamava Ana Maria da Conceição e vinha acompanhada de um homem negro.[1]

A comunidade não sabia, mas aquele homem era um conhecido e temível cangaceiro acunhado como Rio Preto.

Surpreendentemente o desconhecido procurou o delegado local, Manoel Ottoni de Araújo Lima, para conseguir trabalho como agricultor ou em alguma outra função. O delegado não lhe deu serviço, mas indicou-lhe o engenho “Bosque” cujo proprietário era o padre João Alípio da Cunha, este igualmente lhe negou trabalho, mas o despachou para o engenho “Jardim”, onde o administrador Manoel Lúcio Peixoto admitiu o aparente e inofensivo trabalhador[2].

A DESCONFIANÇA

Os primeiros dias de Rio Preto como trabalhador do campo seguiam tranquilos. Contudo, entre a comunidade, a desconfiança era geral. Chamava muita a atenção o fato daquele humilde trabalhador rural, acompanhado de uma mulher considerada bonita e além de tudo branca.

Estação telegráfica de Goianinha que avisou as autoridades nem Natal sobre a prisão de Rio Preto

Para a sociedade do Rio Grande do Norte, que até hoje ainda não se livrou de atitudes preconceituosas e racistas com relação aos negros, este casal inter-racial, chegando à provinciana vila de Goianinha de 1906, chamou muito a atenção do lugar.

Na noite de segunda-feira, 19 de fevereiro de 1906, um grupo armado atacou uma propriedade distante12 quilômetros de Goianinha. Os bandidos chegaram de surpresa, anunciaram o assalto e em seguida passaram a arrombar a porta da sede da fazenda. O proprietário Carlos de Paiva Rocha consegue fugir com uma irmã para os matos. O grupo de bandidos, senhores da casa, praticam de extrema violência contra o vaqueiro Antonio Gomes, para este dar conta dos objetos de valor ali existentes. Os celerados levam jóias, outros objetos pessoais, roupas e três cavalos para a fuga, deixando um prejuízo superior a um conto de réis. Em meio às ameaças, um dos bandidos afirma ser o “célebre Antônio Silvino, o Rifle de Ouro”. Logo a notícia se espalha e a região fica em estado de alerta.

Antônio Silvino em uma xilogravura

Aparentemente o trabalhador negro, que todos desconheciam ser Rio Preto não tinha ligação com o assalto ocorrido na propriedade “Martelos”. Mas não é difícil supor que naquele momento, todo forasteiro passasse a ser considerado suspeito[3].

Estas desconfianças fizeram o administrador da fazenda “Jardim” buscar “jeitosamente”, como afirma o jornal “A Republica”, junto ao seu novo empregado maiores informações sobre seu passado, prometendo-lhe proteção em troca da verdade. Rio Preto, sem desconfiar, abriu o jogo sobre suas andanças no cangaço e sua participação no bando de Antônio Silvino. O administrador Manoel Lúcio promete guardar segredo.

A PRISÃO E A CHEGADA EM RECIFE

Em pouco tempo Manoel Lúcio Peixoto, procurou discretamente o delegado e relatou tudo que o disfarçado cangaceiro tinha lhe falado[4].

Em 19 de fevereiro, sem esboçar resistência, o temível cangaceiro Rio Preto foi detido pelo delegado Ottoni. Rapidamente foi providenciado o transporte do cangaceiro para a capital do estado através do trem da Great Western.

Prisão vira notícia

Houve um princípio de alteração quando Rio Preto soube que viria para Natal sem sua companheira Ana Maria. Esta por sua vez foi levada para a delegacia de Goianinha, onde em seu depoimento, declarou ter sido raptada pelo cangaceiro, desvirginada por ele e passou a segui-lo espontaneamente[5].

No dia 20 de fevereiro, Rio Preto foi apresentado ao Chefe de Polícia do Rio Grande do Norte (cargo equivalente hoje ao de Secretário de Segurança), Heliodorio Fernandes de Barros, que telegrafou ao Chefe de Polícia de Pernambuco, Santos Moreira, que exultou com a notícia e organizou a transferência do detento[6].

No dia 23 o prisioneiro seguiu para Recife no vapor “Una”, da Companhia Pernambucana de Navegação, escoltado pelo cabo André Avelino Bezerra e os soldados Artur Florentino e José Fonseca. Não ocorreram alterações durante o trajeto.

Ao chegar a capital pernambucana, as seis da manhã do dia 25 de março, foi grande à quantidade de pessoas que foram ver o desembarque do cangaceiro no cais da “Linqueta”. Foi o auxiliar de polícia, major Augusto Jungmann, auxiliado por mais quatro policiais pernambucanos, juntamente com a escolta potiguar, que retiraram a fera do vapor. Em meio ao alvoroço, o grupo embarcou em uma lancha que os transportou pelo rio Capibaribe, passando pelas pontes Recife e Santa Isabel.

Cais da Lingueta, Porto de Recife, 1904 – http://www.fotolog.com.br/tc2/25688752

Durante o trajeto, Rio Preto seguia ereto, ostentando uma despreocupação insolente, encarando o populacho que enchia as pontes e as margens do velho rio. Ele vestia paletó e caças brancas, camisa de linho ordinária, chapéu de massa preto e botinas pretas de “bezerro”.

Os jornais pernambucanos assim descreveram o cativo cangaceiro: “É negro fulo de estatura mediana, magro, rosto comprido e ossudo, olhos pequenos e muito inquietos, lábios grossos, e ligeiro buço; sua fisionomia não é simpática, como algumas pessoas pretendiam em comentários feitos a passagem da lancha”.

Desembarcaram na Rua da Aurora, na rampa mais próxima da chefatura de polícia. Para desgosto da multidão, Rio Preto ficou incomunicável.

O INTERROGATÓRIO

Como a chegada do cangaceiro movimentou a cidade e qualquer pessoa que falasse que conhecia Rio Preto, chamaria a atenção do povo e das autoridades.

Foi o que aconteceu com o barbeiro Antônio Barbosa, proprietário de um estabelecimento na vila de Machados, nas proximidades da cidade pernambucana de Bom Jardim, onde afirmava ter muitas vezes feito a barba não apenas neste cangaceiro, mas em Cocada e no próprio Antônio Silvino.

Rapidamente a notícia chegou aos ouvidos do Chefe de Polícia, Dr. Santos Moreira e logo uma guarnição trouxe o barbeiro à chefatura, onde ele ficou frente a frente com o cangaceiro. Guardada as circunstâncias, foi como um encontro de dois velhos amigos, estando assim confirmada a identidade de Rio Preto.

Destaque nos jornais

O interrogatório do detido encerrou às seis da noite, mesmo assim havia uma multidão calculada em 400 pessoas na porta da chefatura. Para evitar distúrbios, o preso foi retirado pela porta dos fundos, na Rua União, sendo levado a pé para o posto policial da Boa Vista, lá foi fotografado por Luís Santiago.

O cangaceiro seria interrogado mais duas vezes, sempre interrogatórios longos. Uma coisa chamou a atenção dos jornalistas pernambucanos; um enorme patuá que era usado pelo cangaceiro[7].

Alguns dias depois foi trazido para uma acareação com Rio Preto, o cangaceiro conhecido pela alcunha de “Relâmpago”, que estava detido em Timbaúba.[8]

A ENTRADA NO BANDO E AS PRIMEIRAS LUTAS

Seu nome era Firmo José de Lima, nasceu em 1882, no lugar São Vicente, pertencente então ao município pernambucano de Timbaúba, a 98 quilômetrosda capital.[9]

São Vicente Ferrer, Pernambuco, na atualidade

Segundo Rio Preto, quando tinha 17 anos e trabalhava na propriedade “Junco”, de Manoel Francisco, em Umbuzeiro, Paraíba, provavelmente entre o segundo semestre de 1901 e o primeiro de 1902, chegou Antônio Silvino acompanhado de nove cangaceiros e assaltou a casa do seu patrão, que foi bastante surrado. Então para não morrer, o jovem Firmo teria, segundo sua versão, teria sido forçado a seguir com o bando e se transformou em Rio Preto, devido a sua cor.

Dois anos depois, em uma estrada nas proximidades do lugar “Mogeiro de Cima”, Rio Preto afirmou que Antônio Silvino lhe ordenara surrar três viajantes, sem razão para isto. Houve uma discussão e os dois só não foram às vias de fato devido à intervenção de Cocada, o mais respeitado componente do bando de Silvino, que mesmo assim ficou ao lado de Rio Preto na contenda.

Este entrevero deu lugar a uma cisão, na qual Cocada seguiu com os “cabras” Rio Preto, Relâmpago, Nevoeiro e Barra Nova. Junto a Antônio Silvino permaneceram Tempestade, Ventania, Baliza e Dois Arroz, sendo o grupo de Cocada ampliado com outros homens aos quais ele não declinou os nomes.[10]

Um fato interessante declarado por Rio Preto foi que, mesmo com a cisão, quando Antônio Silvino tinha um “trabalho” importante para fazer, que exigia gente experiente e decidida, mandava chamar Cocada e seu bando para participarem. Após a realização do trabalho, Antônio Silvino sempre marcava um novo encontro com Cocada em um mês ou dois meses.

Antônio Silvino

Entre as particularidades de Antônio Silvino, Rio Preto comentou que ele dormia muitas vezes nos canaviais, nas matas, em local sabido pelos companheiros, mas fazia questão de dormir separado do grupo. Informou que suas armas eram um rifle com 16 tiros, uma pistola “mause” e um punhal, “medindo dois palmos de lâmina”.[11]

VIDA DE CANGACEIRO

Uma das façanhas narradas por Rio Preto foi o assalto a Manoel Belo, no lugar “Mácapá, onde os grupos de Cocada e Antonio Silvino se uniram. [12]

Cocada estava no lugar “Gitó”, quando foi chamado por Silvino para roubar e matar Manoel Belo, mas Cocada afirmou que iria para o roubo e não para matar o fazendeiro, tendo Antônio Silvino aceitado com muita relutância. Chegando ao pequeno arruado, Cocada, Rio Preto, Relâmpago, Baliza e Tempestade, invadiram a pequena casa que servia de delegacia, um deles desarmou o único militar presente, um cabo, e o obrigaram a servir de guia até a casa de Manoel. Na casa, Silvino anunciou que era o sargento de Timbaúba, Lopes de Macedo e que queriam café. O iludido fazendeiro abriu a porta e teve um rifle apontado diante do seu rosto. Os cangaceiros passaram ao saque e conduziram o produto do roubo em um cavalo. Saindo de “Macapá”, seguiram para o lugar “Pirauá” e lá dividiram o saque e os grupos partiram por caminhos distintos.

O bando de Cocada passou a sofrer forte perseguição, sendo necessário dissolvê-lo por um período. Cocada homiziou-se no engenho “Pagi”, em Nazareth, já Rio Preto seguiu para o engenho “Barrocas”, com recomendações do major Philomeno Nestor e José Rezende, tendo deixado com este último um fuzil Comblain, que lhe foi fornecido pelo major Philomeno. [13]

Fuzil Comblain

Esta parte do interrogatório mostra a relação promiscua que havia entre os grupos de cangaceiros e alguns proprietários de engenhos da Zona da Mata de Pernambuco. Esta relação muitas vezes era uma forma de defesa dos proprietários de terra e tática de sobrevivência dos cangaceiros.

Em outro caso narrado pelo capturado cangaceiro, ele conta que dois anos antes, Antônio Silvino e Cocada foram à casa do Sr. João Guilherme, proprietário do engenho “Jundiaí”, em Bom Jardim, Pernambuco, onde Silvino entrou e Cocada ficou fora aguardando por duas horas a saída do grande cangaceiro. Foram dormir no canavial, saindo do local por volta das quatro da manhã, seguindo para o lugar Olho D’água. Não sabe Rio Preto o que Antônio Silvino tratou com este fazendeiro, mas nunca sua propriedade foi atacada.

Sobre a procedência de armamentos, Rio Preto comentou que não sabe quem forneceria este material a Antônio Silvino, mas narrou que um comerciante de Campina Grande, conhecido apenas como “Frederico”, havia entregue doze ou treze caixas de cartuchos de rifles. Os fornecedores de armas e munições para cangaceiros, tanto no período de atuação de Antônio Silvino, como na época de Lampião, continua sendo um mistério até hoje, mas mostra como era dúbio e tênue o papel das autoridades e homens de poder, junto a estes bandoleiros.[14]

Coronel José Belém de Figueiredo – http://afamiliamarcos.blogspot.com

Outro caso desta relação é exemplificado quando Rio Preto conta que soube ter Antônio Silvino conseguido colocar três dos seus cangaceiros, Dois Arroz, Pau Reverso e Manoel Ventura, nas fileiras da própria polícia do Ceará, através do intermédio do coronel Belém, da cidade do Crato[15].

COMBATES

Algum tempo depois, ainda homiziado no engenho “Barrocas”, Rio Preto soube que sua identidade era conhecida de muitos e seguiu para a Paraíba, no lugar “Aroeira”, onde reencontrou Cocada e Antônio Silvino.

Unidos os grupos, tomaram destino para “Fagundes”, ainda na Paraíba, para matar um empregado do fazendeiro José Alves, por ser atribuída a este morador a delação que levou a morte do cangaceiro “Papa-mel”, do grupo de Silvino. Após este ato, seguiram para o lugar “Surrão”, onde Antônio Silvino tomou do negociante Manoel de Mello um rifle e presenteou a Cocada.

Foi no “Surrão”, que anos antes Antônio Silvino e Cocada travaram um cerrado tiroteio com as forças do Alferes Paulino Pinto, da polícia da Paraíba e o capitão Angelin, da polícia de Pernambuco. Rio Preto conta que neste combate, os cangaceiros ali entrincheirados estavam em número de 50 e o mesmo não participou desta luta por estar doente[16].

As ações de Antônio Silvino eram sempre estampadas nos jornais nordestinos

Rio Preto contou que Antônio Silvino assassinou, na madrugada de 15 de fevereiro de 1903, o subdelegado Francisco Antônio Sobral, crime praticado na casa da vitima, pela razão deste militar ter travado um tiroteio com o quadrilheiro no lugar “Torres”, próximo a “Aroeira”. Pela mesma razão, Marcos dos Pinhões e Severino de tal, tiveram igual sorte. Após estes crimes, os cangaceiros foram almoçar na casa de Antônio Poggy, nas “Guaribas”[17]

Comentou Rio Preto que no lugar “Mogeiro”, do fazendeiro conhecido por major Nô, Antônio Silvino e seu bando assassinaram o ex-sargento da Força Pública da Paraíba Manoel Paes, que quando a serviço do governo, perseguia os cangaceiros[18].

Outro fato narrado foi o assalto a Pilar, na Paraíba, onde os dois grupos, tendo Antônio Silvino à frente, trajando um uniforme de capitão e todos os cangaceiros se dizendo policiais, atacaram a cadeia do lugar. Em seguida prenderam o carcereiro, tomaram as armas de dois soldados e soltaram os presos. Passaram a fazer uma arrecadação no lugar, tendo o comerciante Joaquim Pio Napoleão, chefe político local, fornecido a maior quantia[19].

AS MULHERES E O “RIFLE DE OURO”

Entre uma série de façanhas narradas pelo prisioneiro, cometidas pelo bando de Antônio Silvino e o subgrupo de Cocada, Rio Preto narra dois casos singulares, envolvendo a figura do grande chefe bandoleiro e as mulheres.

O primeiro caso é comentado em uma reportagem publicada no mesmo periódico “A Província”, no dia 4 de abril, onde o detido afirmou que a cerca de dois anos, o chefe havia, em duas ocasiões distintas, encontrado refúgio por mais de quinze dias no engenho pernambucano de “Palmas”, ou “Palmas de Orobó” nas proximidades do lugar Bizarra, as margens do rio Orobó e a poucos quilômetros da cidade homônima.

Sabia Rio Preto que a propriedade pertencia a uma mulher conhecida como “Dona Zezé”, mas não informava se Silvino utilizava o engenho como “refúgio”, ou havia alguma relação mais íntima com a proprietária. Finalizava o detido informando que ao deixar o grupo de Cocada, soubera que Silvino e a “Dona Zezé” estavam intrigados e tratavam-se como inimigos.

Já o outro caso envolvia um fato que adquiriu certa repercussão em Pernambuco. Alguns meses antes da prisão de Rio Preto, no dia 21 de fevereiro de 1906, o jornal pernambucano “A Província”, publica matéria onde traz a tona o suposto caso entre o chefe cangaceiro e a jovem Antônia Francisca de Paula. Esta bonita mulher, com 19 anos, juntamente com dois irmãos, foram detidos para serem interrogados na cidade de Cortês, Pernambuco. A polícia buscava esclarecer a existência de uma possível ligação entre Antônia e sua família, com Silvino. Ela afirmou conhecer Antônio Silvino há apenas dois meses, declarando não ter nenhum tipo de relação com chefe quadrilheiro e sabia apenas que o mesmo tinha uma amásia de nome “Sebastiana”.

A cidade de Côrtes, Pernambuco, na atualidade. http://www.promata.pe.gov.br/

Já Rio Preto contou situação bem distinta. Afirmou o prisioneiro que conhecia Antônia, tendo tido oportunidade de encontrá-la, em agosto de 1905, na casa de um velho conhecido como “Cabeça Branca”. Neste lugar, a jovem Antônia teria participado de uma festa com os cangaceiros, tendo dançado e tocado um instrumento musical por toda à noite. Comentou Rio Preto que pela noite de alegria, Cocada lhe teria dado 10R$000 (dez mil réis). Já  sobre Antônio Silvino, o opinião era que o chefe “não gosta de dançar, é inimigo de sambas”.

A reportagem finaliza comentando, sem maiores detalhes, que foi apresentado a Rio Preto uma foto de Antônia e que o mesmo reconheceu a mulher.

O COMPANHEIRO COCADA E A SAÍDA DO BANDO

Sobre Cocada, o seu companheiro de lutas, Rio Preto afirmou que seu nome verdadeiro era Manoel Marinho, sendo natural de Guarita, vila localizada a menos de dez quilômetros da cidade paraibana de Itabaiana e teria cerca de 40 anos em 1906.

Foto meramente ilustrativa da ponte ferroviária no próximo a vila da Guarita, Itabaiana, Paraíba. Foi nesta vila que nasceu o cangaceiro Cocada – http://estacoesferroviariaspb.blogspot.com

Mário Souto Maior comenta, sem informa datas, que Cocada morreu em combate no lugar chamado Serrinha, na Paraíba. No seu local de morte, o povo ergueu um cruzeiro. O folclorista Evandro Rabelo, ao passar pelo local, viu depositado na base da cruz, alguns ex-votos de pessoas que obtiveram graças por intermédio deste cangaceiro.

Durante o interrogatório, transcrito pelos jornais, percebe-se uma tendência de Rio Preto em demonizar a figura de Antônio Silvino e ele pouco relata os crimes praticados por Cocada.

Um único caso é comentado sobre este cangaceiro e seu bando; Cocada, Rio Preto, Relâmpago e Nevoeiro atacaram a propriedade de Francisco Paes, morador do lugar “Massapê”, que teria respondido com uma ameaça ao pedido de dinheiro de Cocada. Em meio ao saque, Relâmpago, a mando de Cocada, assassinou friamente o filho do fazendeiro. Depois deste ato, Rio Preto deixa o bando em dezembro de 1905, buscando sua companheira e seguindo em direção norte.

Em Mamanguape esteve trabalhando para uma senhora conhecida como Dona Aninha, mas se retirou desta área quando soube que o delegado local estava a sua procura para esclarecer se sua mulher estava com ele por livre vontade ou fora raptada.

Com esta desconfiança, decidiu Rio Preto seguir mais para norte, para o Rio Grande do Norte, mais precisamente em Goianinha, onde foi preso.

Casa de Detenção do Recife, início do século XX – http://www.ibamendes.com

Rio Preto depois seria recambiado para a Casa de Detenção de Recife, onde em agosto de 1907 foi condenado a nove anos de prisão. Dois anos depois da prisão de Rio Preto, o mesmo morreu de uma ferida na penitenciária de Recife.

Este caso, apesar de se já ter sido comentado em livros sobre a vida de Antônio Silvino, possui outros detalhes que são pouco conhecidos dos que se debruçam sobre o tema cangaço.

NOTAS


[1] A descrição da mulher que acompanhava Rio Preto, se encontra respectivamente  em Dantas, S. A. de S., op. cit., 2006, p.p. 96. e nos jornais “A Republica”, Natal, de 30 de março de 1906, p. 2. e “A Provincia”, Recife, 4 de abril de 1906

[2] Segundo Jornal “A Provincia”, Recife, 27 de março de 1906, p. 1.

[3] Ver “A Republica”, edição de 6 de março de 1906, na seção “Secretaria de Polícia”, onde esta notícia vem publicada em um ofício desta repartição, datado de 23 de fevereiro de 1906, p. 1. Já a edição de “A Republica”, de 9 de fevereiro, informa que fora remetido para a cadeia de Goianinha, João Antonio de Oliveira, preso em Santo Antonio, onde confessou seu envolvimento neste assalto. Os jornais pesquisados que comentam a prisão de Rio Preto sejam do Rio Grande do Norte ou de Pernambuco, não apresentam nenhum comentário, ou transcrição de documentos oficiais que indiquem a participação deste cangaceiro neste assalto. Em outros documentos oficiais, igualmente não encontrei menção a este fato.

[4] A Republica, 30/06/1906, p. 2.

[5]A Província”, de 27/03/1906, p. 1, indica que a prisão ocorreu na segunda-feira, 19 de fevereiro e aponta detalhes sobre o relacionamento do cangaceiro e Ana Maria.

[6] Em ofício da Secretaria de Polícia, de 20 de fevereiro e publicado na edição de “A Republica”, de 25/03/1906, constam maiores detalhes da prisão em Goianinha.

[7]A Província”, de 27/03/1906, p. 1.

[8] “Relâmpago” se chamava José do Carmo Felipe dos Santos, já era um cangaceiro velho, com mais de 50 anos quando foi preso, junto com seu filho Francisco do Carmo Santos. Foi descrito como “pardo escuro, de olhos pequenos e turvos, baixo, velho, de 55 anos presumíveis (…) Não é inteiramente antipático. Mostra-se humilde e fala compassada e brandamente”. Quando da sua prisão, Relâmpago fez comprometedoras declarações sobre as relações entre Antônio Silvino com policiais, a sua rede de protetores e até seus hábitos pessoais. Ver Dantas, S. A. de S., op. cit., 2006, p.p. 91 e 92.

[9] Atual município pernambucano de São Vicente Férrer.

[10] Ver Dantas, S. A. de S., op. cit., 2006, p.p. 76 e 77. Já Fernandes, R. op. Cit. p. 57, informa que cisão no grupo ocorreu pelo fato de Cocada ter torturado e violentado uma mulher, caindo no desagrado do chefe Silvino.

[11] Em relação às armas de fogo mencionadas, o rifle de 16 tiros provavelmente deveria ser da marca Norte-americana Winchester, em calibre 44, modelo mais conhecido no Nordeste como “talo de mamão” devido às dimensões do cano. Já a pistola deveria ser de procedência belga, marca FN, em calibre7,65 m.m. Estas armas eram muito difundidas no Brasil nesta época, bem como os tipos de munições utilizadas.

[12] Atual município pernambucano de Macaparana.

[13] Atual município pernambucano de Nazaré da Mata.

[14] Provavelmente o Frederico indicado deveria ser o coronel Frederico Lundgren, de origem dinamarquesa, comerciante e industrial em Campina Grande, figura de grande destaque nesta importante cidade paraibana.

[15] Este coronel Belém não é outro senão o coronel José Belém de Figueiredo, que no começo de 1904 rompeu no Crato a aliança política entre ele e o coronel Antonio Luís Alves Pequeno, com declaração de uma guerra entre as duas facções. Deste conflito ocorrido no sul do Ceará, participou ativamente membros da família Carvalho de Serra Talhada, onde um grupo de “cabras” comandado por Antônio Clementino de Carvalho (conhecido como Antônio Quelé, ou Quelé do Pajeú), contribuiu decisivamente para a vitória do coronel Antônio Luís. Segundo Rio Preto, aparentemente Antônio Silvino teria contribuído com a facção do coronel Belém, cedendo seus “cabras”, conseguido vantagens para seu bando, mesmo não participando diretamente deste conflito. Sobre os contatos de Antônio Silvino e de membros do seu bando no Ceará, ver Fernandes, R. op. Cit. P. 55, e Dantas, S. A. de S., op. cit. 2006, p. 99.

[16] O combate do Surrão ocorreu no dia 23 de junho de 1900, em território paraibano, entre Itabaiana, a Vila de Ingá e a fronteira com Pernambuco. A força policial conjunta teria em torno de 110 homens. O grupo de Silvino abre fogo e o grupo de policiais paraibanos avança corajosamente, o Alferes Paulino recebe três disparos, mas continua a combater. Provavelmente incentivados pela demonstração de coragem do oficial paraibano, o restante dos policiais aumentam a força do ataque, matando e capturando vários bandoleiros. Só uma pequena do bando escapou. Para Silvino, o combate do Surrão lhe deixou um saldo negativo de 15 cangaceiros mortos. Destes seis morreram em combate e nove foram cruelmente executados, um de cada vez, a golpes de punhais, o conhecido “sangramento”. O Alferes Paulino, mesmo ferido, participou do ato bárbaro e covarde “até cansar o braço”. No outro dia, devido à gravidade dos seus ferimentos, o oficial faleceu. O número de 50 homens, ao qual Rio Preto comente ter o bando de Antônio Silvino, aparenta ser exagerado. Sobre este combate, ver Dantas, S. A. de S., op. cit., 2006, p.p.43 a 45 e José Joffily, in “Revolta e Revolução”, p.p. 60 e 61 (Ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro / RJ, 1979, 454 pgs.).

[17] Em Dantas, S. A. de S., op. cit., 2006, p.p. 62 e 63, encontra-se a narrativa deste acontecimento, que foi assim romanceado pelo poeta João Martins de Athayde;

“A quinze de fevereiro,

De novecentos e três.

No povoado Filgueiras.

Encontrei um mal freguês.

Francisco Antônio Cabral,

E matei-o dessa vez.” 

No livro “A literatura de cordel no Nordeste do Brasil – Da história escrita ao relato oral”, de autoria da professora da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), Julie Cavignac (Editora EDURFN, Natal / RN, 2006. 363 pgs.), na página 297, informa que o poeta paraibano João Martins de Atahyde (1878 a1959), foi um poeta popular que chegou a tornar-se proprietário de uma empresa de impressão gráfica em Recife. Conheceu pessoalmente Antônio Silvino, utilizou fartamente sua saga como tema para suas poesias, sempre defendendo as atuações deste cangaceiro.

[18] Mário Souto Maior, no livro “Antônio Silvino – Capitão de trabuco”, na página 37 (Edições Bagaço, Recife / PE, 2001, 125 pgs.), comenta sobre esta morte.

[19] Ver Maior, M. S., op. Cit., 2001, p.p. 37 e 38

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1928 – FOTOS DA INAUGURAÇÃO DO ESTÁDIO JUVENAL LAMARTINE

Estádio Juvenal Lamartine sendo cercado pela verticalização do bairro do Tirol – Fonte – Google Earth

Rostand Medeiros – IHGRN

Hoje vemos a “modernidade” em Natal colocando em risco um patrimônio histórico extremamente importante para a história desportiva potiguar.

Comento sobre a polêmica existente sobre o fim do estádio Juvenal Lamartine, a primeira praça esportiva potiguar, destinada exclusivamente a prática do futebol e do atletismo.

A ideia do atual governo potiguar é construir na Zona Norte de Natal um novo estádio de futebol, de porte médio para Natal, com capacidade para receber um público máximo de dez a doze mil espectadores.

Consta que os estudos realizados pela equipe do Governo ser inviável a proposta de recuperação do estádio localizado no valorizado bairro do Tirol, pela inviabilidade – técnica e econômica – no atendimento a diferentes exigências normas de segurança e de funcionalidade.

No último dia 26 de outubro, o deputado estadual Fábio Dantas, do PHS, sugeriu a transformação do estádio de futebol numa grande área de lazer no bairro Tirol. O político apresentou requerimento à governadora potiguar, Rosalba Ciarlini com reivindicação nesse sentido.

Este deputado, segundo foi divulgado na imprensa, comentou que vender o estádio por 20 milhões de reais “-É muito pouco, em função da valorização de áreas do bairro de Natal”. Ele solicita ao governo do Estado que o Juvenal Lamartine seja transformado numa grande área de lazer.

De acordo com o deputado Fábio Dantas, ocorrendo essa transformação, o governo do Estado terá o reconhecimento da sociedade e dará uma alavancagem na administração. (http://www.givva.com.br)

Arquibancadas do estádio Fonte – http://www.clicrn.com.br

Houve outra iniciativa de preservação deste patrimônio histórico. Recentemente o vereador Franklin Capistrano propôs transformar o velho estádio do Tirol em Patrimônio Histórico e Cultural da cidade de Natal. O vereador acredita que com o tombamento conseguiria livrar o valioso terreno do assédio das construtoras que desejam aquele espaço valorizado para a construção de condomínios.

Aparentemente alguns os políticos potiguares estão se movimentando para salvar o velho Juvenal e o que sobrou da identidade futebolística. (http://www.diariodenatal.com.br/2011/10/27/esportes1_0.php)

Através do site http://www.mp.rn.gov.br, ficamos sabendo que no próximo dia 14 de novembro de 2011 vai ocorrer uma Audiência Pública proposta pelo Ministério Público, sobre a importância histórica do Estádio Juvenal Lamartine. A princípio esta Audiência Pública vai ocorrer na sede da Procuradoria Geral de Justiça, às 10 da manhã, sendo uma iniciativa da 28ª Promotoria de Justiça da Comarca de Natal.

A reunião vai contar com a participação da população, de técnicos no assunto e de representantes da Procuradoria Geral do Estado, da Assembleia Legislativa e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (SEMURB), que vão debater a proposta do Governo do Estado em vender o estádio para custear a construção de um hospital.

Além dos debates, a Promotora de Justiça Rossana Mary Sudário fará uma breve exposição das propostas do Ministério Público acerca da conservação e utilização do espaço. O que possibilitará firmar um possível Termo de Ajustamento de Conduta com os órgãos responsáveis.

Bom, como posso contribuir neste tema?

Como gosto de história, nada melhor que mostrar as fotos publicadas na revista “Cigarra”, de 1928, sobre a inauguração do velho “Stadium do Tyrol”. Espero que a divulgação deste material mostre de forma mais clara a importância histórica deste patrimônio.

Revista “Cigarra”, número 1, novembro de 1928, páginas 62 e 63
Parte da arquibancada no dia da inauguração, 12 de outubro de 1928
Aspectos da arquibancada
Entrada principal
Juvenal Lamartine (com chapéu de palha na mão esquerda) e os presidentes dos clubes presentes a festa
A equipe do América Futebol Clube
O time do ABC F.C.
O Alecrim Futebol Clube
O time do Paysandu

Segundo reportagem publicada no jornal “Tribuna do Norte” (http://tribunadonorte.com.br/noticia/juvenal-lamartine-perto-de-virar-um-oitentao/70220), temos os seguintes aspectos referentes a inauguração do estádio Juvenal Lamartine.

“Governava o Rio Grande do Norte um político habilidoso, filho de Serra Negra, membro de uma família importante, como eram os Lamartine. O líder da família, governador  Juvenal Lamartine de Faria, entre tantos atributos, o de ser um desportista, com forte inclinação pela aeronavegação, Tanto que, é um dos fundadores ao Aero Clube do Rio Grande do Norte, por coincidência também completando 80 anos de fundação este ano. 

Convidado pelos dirigentes da LNDT para dar o chamado “ponta pé” num torneio disputado no Tirol, Juvenal Lamartine ficou penalizado com a pobreza das instalações do campo de futebol, cujos vestiários eram de taipa, o terreno bastante arenoso, sem qualquer outra instalação física.  De imediato, entrou em contato com o arquiteto natalense Clodoaldo Caldas, que residia no Rio, onde prestava serviços como servidor público federal.

Aceito o convite, em seis meses o estádio estava pronto, com instalações modestas mas aconchegante e suficiente para os primeiros torneios oficiais. Constava de uma arquibancada de madeira (hoje, ainda de pé), com capacidade para 800 a 1000 pessoas sentadas, com o restante do público, em pé, protegido por uma mureta bem trabalhada em cimento armado. O  estadinho do Tirol era murado, com fachada estilo barroco,  lamentavelmente desfigurada na ampliação, hoje ocupada por pequenas lojas . No estádio todo, cabiam entre 3 e 4 mil assistentes, dos quais apenas os que estavam na arquibancada de madeira sentiam-se protegidos do sol e da chuva.

Na inauguração, estava a fina flor da sociedade natalense,  os homens usando chapéu de palhinha, paletó e gravatinha borboleta, enquanto as senhorinhas desfilavam com os longos generosos no volume de tecido, chapéu de grandes abas. Natal, já tinha um colunista social, que era Aderbal de França, assinando a coluna diária  com o pseudônimo de Danilo. A revista “A Cigarra”, semestral, trouxe ampla reportagem (com fotos) da festejada inauguração. Era o dia 12 de outubro de 1928. No gramado, ABC, América, Paysandu e o Cabo Branco, de João Pessoa. Antes do futebol, equipes femininas realizaram evoluções e aconteceram pequenas provas de atletismo. Segundo ainda “A Cigarra”. Foi um dia inteiro de festas.

Segundo as várias informações existentes, o torneio inicial no estádio Juvenal Lamartine foi entre as equipes potiguares do América, ABC e Alecrim. Juntou-se aos times locais o Cabo Branco da Paraíba.

Então qual seria o time do “Paysandu” apresentado na reportagem?

É bem verdade que havia uma equipe denominada “Paysandu Sport Club” que seria uma dissidência dentro do América de Natal. Mas acredito que ocorreu um erro na composição da revista “Cigarra”.

Espero que esta história não se perca na poeira da modernidade.

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1830 – O REGISTRO DE BATISMO DE ANTÔNIO CONSELHEIRO

O PRIMEIRO DOCUMENTO OFICIAL DE UM GAROTO CEARENSE QUE MUDOU A HISTÓRIA DO BRASIL

O Conselheiro

Rostand Medeiros – IHGRN

O documento que vou apresentar no nosso Tok de História é como está documentado o batismo de Antônio Vicente Mendes Maciel, que ficaria conhecido na história do Brasil como Antônio Conselheiro.

Esta é a íntegra do texto;

“Aos vinte e dois de maio de mil oitocentos e trinta batizei e pus os Santos Óleos nesta Matriz de Quixeramobim ao párvulo Antônio, pardo, nascido aos treze de março do mesmo ano supra, filho natural de Maria Joaquina. Foram padrinhos, Gonçalo Nunes Leitão e Maria Francisca de Paula. Do que, para constar, fiz este termo, em que me assinei.

O Vigário, Domingos Álvaro Vieira”

– Livro de Assentamentos de Batizados da Paróquia de Quixeramobim, Livro 11, fl. 221 v.

O registro de batismo de Antônio Conselheiro

Este documento já a muito havia sido pesquisado pelo cearense Ismael Pordeus, que inclusive já havia publicado na íntegra, no periódico cearense “O Nordeste”, na edição de quinta feira, 6 de julho de 1949.

Mas lendo com calma o que está escrito no Livro de Assentamentos algumas equenas e interessantes informações surgem.

Visão que a imprensa conservadora do final do séc. XIX tinha de Antônio Conselheiro

Primeiramente temos que registrar que Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu em Quixeramobim, Ceará, em 13 de março de 1830, uma quinta feira, em um ano considerado seco.

Casa onde nasceu Atônio Conselheiro, ainda preservada na rua Cônego Aureliano Mota, nº 210, próximo à Praça Dias Ferreira, Quixeramobim, Ceará – Fonte – Magno Lima

Era filho do comerciante Vicente Mendes Maciel e de Maria Joaquina de Jesus. Para outros o nome da sua mãe era Maria Joaquina do Nascimento, tinha o apelido de Maria Chana e ainda Maria Maciel (In Benício, Manuel. O Rei dos Jagunços, Rio de Janeiro, Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997, Págs. 8 e 9, 2ª Ed. / Levine, Robert. O sertão prometido-O massacre de canudos, São Paulo, EDUSP, 1995, Págs.181 a 183, 1ª Ed.).

Dois meses depois do nascimento do jovem Antônio Maciel, no dia 22 de maio de 1830, um sábado, ele foi batizado na Matriz de Quixeramobim, uma majestosa igreja construída em 1755, cujo padroeiro é Santo Antônio, sendo considerado o primeiro templo religioso da região do Sertão Central do Ceará.

Matriz de Quixeramobim – Fonte – Walter Leite

Coincidentemente, o dia em que o jovem Antônio Maciel foi batizado é dedicado pela Igreja católica a devoção da monja agostiniana batizada como Rita, que morreu na cidade de Cássia, no ano de 1457, na província de Umbria, Itália. Mas não existe nenhuma indicação que a mãe de Antônio Maciel, Dona Maria Joaquina, fosse devota desta santa e decidiu batizar seu filho neste dia.

Certo é que ao lemos o Livro de Assentamentos de Batizados da Paróquia de Quixeramobim, Livro 11, fl. 221 v., atualmente pertencente à Diocese da cidade cearense de Quixadá, vemos que somente o jovem Antônio foi batizado naquele sábado.

Capa do livro de Assentamentos, onde está o registro de Antônio Conselheiro

Primeiramente chama atenção na foto do registro, logo abaixo do nome “Antônio”, a designação de sua cor como sendo “Pardo”, o que aponta o alcance das designações raciais no Nordeste do Brasil daquela época.

Percebemos a ausência do pai no registro e, provavelmente, na própria cerimônia.

Para aqueles que estudam a vida do Conselheiro, a ausência documentada de Vicente Maciel naquele livro de registro e a possível ausência na cerimônia de batismo de seu único filho varão não é nenhuma novidade.

Vicente era tido como um homem direito, trabalhador, mas muito complicado, como se diz atualmente. Estava no segundo casamento, era parcialmente surdo, considerado taciturno, que ocasionalmente realizava péssimos negócios que geravam dívidas e era alcoólatra. Em uma ocasião, quando bêbado, havia espancado a primeira mulher quase até a morte.

Analisando as folhas de batismo dos meses anteriores e posteriores ao batizado de Antônio Maciel, o seu registro é o único que não consta o nome do pai.

Teria havido problemas com o vigário local?

Ou alguma alteração séria teria ocorrido na época, a ponto de indispôr Vicente com o meio social do seu lugar e comprometer sua participação no evento?

Ou estaria vergado de cachaça, sem condições físicas para participar da cerimônia?

A razão não se sabe. Mas seu nome não consta do documento.

Igualmente nada sabemos dos padrinhos Gonçalo Nunes Leitão e Maria Francisca de Paula.

Outra situação interessante diz respeito ao nome do vigário. Para muitos o nome do representante da igreja em Quixeramobim que batizou Antônio Maciel seria Domingos Álvaro Vieira. Mas analisando a sua assinatura, o nome que surge é Domingos Alvares Vieira. Na foto da assinatura do vigário é possível distinguir nitidamente o “S” de Alvares.

Assinatura do vigário Domingos Alvares Vieira

Sendo este o nome correto do vigário, encontramos a figura de Domingos Alvares Vieira, um religioso católico nascido na cidade pernambucana de Goiana e batizado em 22 de outubro de 1795. Era filho de José Alvares Vieira e de Francisca Lourenço. Ordenou-se em Olinda e depois foi vigário no Ceará (Em Quixeramobim?).

Depois tornou-se lente do Liceu da Paraíba. Teve participação política, onde foi Deputado Provincial da Paraíba, na 1.ª Legislatura, cuja sessão de instalação ocorreu no dia 7 de abril de 1835. Foi Deputado à Assembleia Geral, pela Paraíba, na 3.ª Legislatura, de 3 de maio de 1834 a 15 de outubro de 1837.

Após esta experiência política, o sacerdote Vieira voltou a Goiana de onde foi vigário durante muitos anos. Foi Conselheiro do Governo de Manuel de Carvalho e ainda vivia em 1849. (In Pio, Fernando. Apontamentos Biográficos do Clero Pernambucano (1535 – 1935). Recife, Arquivo Público, 1994, 2 volumes).

Seria o religioso Vieira, que foi Deputado Provincial, o mesmo que anos antes batizou uma criança que se tornaria Antônio Conselheiro?

O registro do jovem Antônio Maciel é o primeiro da folha esquerda

Infelizmente é outro questionamento sem uma resposta.

Sobre o local de nascimento de Antônio, segundo material contido no site http://meltingpot.fortunecity.com/hornsey/372/evolucao.htm, informa que Quixeramobim primeiramente surgiu a partir de uma propriedade denominada Santo Antônio. Depois o lugarejo foi paulatinamente evoluindo pra a pequena povoação denominada Santo Antônio do Boqueirão, ou Santo Antônio de Quixeramobim.

Consta que oficialmente o lugarejo  pertenceu primeiramente à Vila de São José de Ribamar do Aquiraz até a sua elevação a vila, o que se confirma mais uma vez com asa transcrições que se seguem: Ao ouvidor Manuel de Magalhães Pinto de Avelar de Barbedo “coube-lhe instalar a Vila de Campo Maior de Quixeramobim, até então pertencente a Aquiraz, a 13 de junho de 1789”.

O site ainda aponta que os sertões de Quixeramobim eram constituídos de vastos campos que se estendiam pelas planícies adjacentes. Porém, sobre o nome Campo Maior a verdade histórica aponta que por orientação do marquês de Pombal, primeiro ministro de D. José I, foi expedida uma Carta Régia, datada de 6 de maio de 1758, determinando que toda vila a serem criada no Brasil-Colônia, teriam que receber nomes de localidades existentes em Portugal. Essa medida perdurou até metade do ano de 1803, quando deixou de ser cumprida.

Quixeramobim atualmente – Fonte – Magno Lima

Ao ser elevada a categoria de vila, o lugarejo teve seu nome mudado para Vila de Campo Maior, devido à determinação contida na lei acima. O nome de Vila de Campo Maior não foi bem aceito pela população, que continuou a fazer uso do termo Quixeramobim, isto é, Vila de Quixeramobim e, raramente, Vila de Campo Maior de Quixeramobim.

Outra visão do texto original

Na época do nascimento de Antônio Vicente Mendes Maciel, a comunidade já era conhecida apenas como Quixeramobim e assim está descrito nos autos do batismo.

O resto da história de Antônio Conselheiro é bem conhecido e todos sabem o seu desfecho.

P.S. – Um agradecimento todo especial aos membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, sede de Natal,  pelo apoio na realização deste artigo. (http://www.lds.org.br)

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A HISTÓRIA DO PRIMEIRO JOGO INTERNACIONAL DE FUTEBOL NO RIO GRANDE DO NORTE

QUANDO O AMÉRICA F.C. GANHOU DO MELHOR TIME DE FUTEBOL DA MARINHA INGLESA

Rostand Medeiros – Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Em uma tranquila tarde de uma quinta feira, dia 27 de agosto de 1931, a capital potiguar, que na época era uma cidade que nem sequer possuía 40.000 habitantes, seguia a vida sem maiores novidades.

A monotonia foi quebrada pelo surgimento de um navio de guerra, na cor cinza, que se prostrou diante da barra do Rio Potengi.

Este era o cruzador H.M.S. Dauntless que realizava a sua primeira visita ao Brasil e a capital potiguar havia sido escolhida como sua primeira parada em terras tupiniquins.

O cruzador Dauntless entrando em um porto na década de 1930

A chegada deste poderoso navio parou a nossa cidade. Segundo informações dos tripulantes ingleses, ao longo da margem do Rio Potengi se debruçavam mais de 5.000 natalenses, observando extasiados, no final da tarde, aquele barco de 144 metros de comprimento, que entrava vagarosamente no rio, ostentando a bandeira inglesa na sua proa.

O Dauntless era comandado pelo oficial da Marinha de Sua Majestade John Guy Potheroe Vivian, mais conhecido como capitão J. G. P. Vivian, um veterano comandante naval, calvo, com 44 anos, alto e extremamente educado.

Jornal “A Republica”, edição de 28 de agosto de 1931

Este foi recebido no cais pelo Vice Cônsul inglês em Natal, o Sr. Eric Gordon, que apresentou o capitão do H.M.S. Dauntless ao então comandante do Regimento Policial Militar, o tenente coronel Sandoval Cavalcanti de Albuquerque, que representava Herculino Cascardo, o então Interventor Federal. Cascardo era um oficial da Marinha do Brasil, com apenas 31 anos de idade, que governava o Rio Grande do Norte desde julho daquele ano por indicação de Getúlio Vargas, seguindo a ordem vigente com a deflagração da Revolução de outubro de 1930.

A chegada do cruzador foi noticiada pelos jornais da época como sendo “Uma tranquila visita de cortesia de 400 oficiais e marinheiros da marinha de Sua Majestade”.

Capitão John Guy Potheroe Vivian

Para os ingleses o local que visitavam era conhecido como “Port Natal”. Eles acharam os edifícios da cidade bem construídos e bastante modernos, mas as ruas eram muito ruins. Realmente nesta época Natal tinha poucas ruas calçadas e como eles estavam chegando ao final de agosto, de um ano de chuvas regulares no litoral, as nossas artérias deveriam estar em péssimo estado de conservação.

Os marujos estrangeiros se espantaram com a grande quantidade de pessoas que frequentavam o porto para ver os hábitos e a rotina dos membros do Dauntless.

Natal, Avenida Duque de Caxias, Ribeira, década de 1930

No sábado, dia 29 de agosto, entre as duas e às seis da tarde os tripulantes abriram seu cruzador a visitação e mais de 5.500 natalenses estiveram a bordo do H.M.S. Dauntless. O estranho para os marujos foi mostrar o que havia no navio apenas por meio de gesticulações. Nesta noite os ingleses colocaram sua banda para tocar no convés e uma multidão foi atraída pela música, passeando pelo cais do porto e aplaudindo entusiasticamente a seleção musical apresentada.

Jornal “A Republica”, edição de 30 de agosto de 1931

Não faltaram nesta visita recepções que movimentaram a capital potiguar, com um baile a bordo do cruzador e outras festividades. Entre estas foi organizada uma festa em honra a visita dos ingleses no Aero Clube, considerado pelos visitantes como o principal local de encontro da sociedade de Natal.

Logo os tripulantes do cruzador souberam que havia poucos cidadãos da terra de Sua Majestade na cidade e que a maioria destes trabalhava junto a empresas que exportavam algodão, a nossa principal matéria prima. Mas havia um comércio que chamou a atenção dos marujos estrangeiros; o de peles de cobra e de lagarto para a fabricação de calçados femininos.

Entrada do “Juvenal Lamartine”, entre o final da década de 1920 e início da seguinte. A imagem mostra, conforme se apresentam as bandeiras hasteadas, que provavelmente estava ocorrendo um clássico entre o América e o ABC.

Os homens do H.M.S. Dauntless acharam que a população natalense mantinha um padrão de vida muito baixo. Entretanto consideraram a cidade muito calma, onde e as pessoas ficavam na rua no máximo até as dez e meia da noite e depois tudo era silêncio. Mas em compensação a cerveja era de boa qualidade, muito barata e abundante.

Outro dado interessante desta visita foi que os marujos ingleses informaram que não existiam cabarés na cidade em 1931. Se a afirmação era correta, ocorreriam muitas mudanças em pouco mais de dez anos, quando Natal receberia milhares de militares americanos e iria conhecer a paraibana Maria Alves Barros, a famosa Maria Boa.

Mas se não havia cabarés, havia futebol e logo os ingleses se animaram para jogar.

Parte da Frota da Marinha de Sua Majestade. Na foto são navios baseados no Mar Mediterrâneo

Em pouco tempo foi organizado para o domingo, dia 30, um jogo entre os membros do time do H.M.S. Dauntless com os jogadores do América Futebol Clube, campeão estadual do ano anterior e considerado a melhor equipe potiguar naquela época.

Logo a edição matutina do jornal “A Republica” do dia 30 de setembro de 1931, anunciava o sensacional “Match” que ocorreria naquela tarde. O jornal informava que a cidade se encontrava em grande euforia com aquele jogo. E não era para menos, pois iria se realizar o primeiro embate entre uma equipe de futebol potiguar e um time de outra nação.

Jogo de Gala

O confronto seria realizado no Estádio Juvenal Lamartine, ou campo do Tirol, também conhecido como campo da Liga de Desportos Terrestres. A antiga Liga é a atual Federação Norte-Rio-Grandense de Futebol, que naquele ano era dirigida pelo Dr. Potiguar Fernandes e tinha Eliseu Leite como tesoureiro.

Um detalhe interessante é que nenhum momento, as reportagens sobre o jogo indicam o nome do campo como “Stadium Juvenal Lamartine”, batizado em honra a este conhecido governador potiguar. A razão foi a deposição de Juvenal em 5 de novembro de 1930, como parte do processo revolucionário desencadeado em outubro do ano anterior.

A tranquilidade da Avenida Rio Branco Na década de 1930

Estaria presente ao espetáculo o Dr. Gentil Ferreira de Souza, então delegado da Confederação Brasileira de Desportos, a extinta CBD (atual CBF) e futuro prefeito de Natal. Gentil Ferreira havia sido nomeado para este cargo por Renato Pacheco, presidente da CBD na época, conforme podemos comprovar em nota publicada na primeira página da “A Republica”, edição de 2 de julho de 1931.

Haveria uma preliminar, que começaria as escaldantes duas da tarde, onde Aparício Martins estaria na arbitragem entre o time do Força e Luz S. C. e um clube que possuía o estranho nome de “Morte F.C.”.

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Aspectos da arquibancada

Mas o que ninguém queria perder era o jogo entre o campeão local e aquele que foi propagado pelos jornais como o “melhor time de toda a armada britânica”.

Através de informações fornecidas pelos ingleses, no cruzador Dauntless a prática esportiva era tão incentivada, que ele mais parecia um ginásio olímpico flutuante do que uma arma de guerra naval. Os dados apontam que além do futebol, a bordo havia equipes de críquete, rúgbi, polo aquático e hóquei sobre a grama.

O time de futebol do barco de guerra da Royal Navy (Marinha Real) utilizava uma combinação um tanto estranha para seu uniforme; camisa azul escura e calção kaki. O calção chamou a atenção de todos na cidade, pois possuía a mesma coloração utilizada pela força policial na época.

A12 - Copia

Mas independente do que vestiam, os marujos deveriam se sentir extremamente superiores no trato com a bola.

Segundo dados fornecidos pelos próprios ingleses, O Dauntless pertencia nesta época a Divisão de Cruzadores do Atlântico e eles afirmavam serem os campões de futebol deste setor da marinha inglesa. Aquele era o terceiro cruzeiro do navio pelos mares Atlânticos e, até aquela data, haviam realizado 23 paradas em diversos portos da América do Norte e Central, onde realizaram 37 jogos de futebol. Destes haviam vencido 22 partidas, tiveram 8 empates e sofreram 7 derrotas. A equipe do cruzador havia marcado incríveis 116 gols e sofrido apenas 29 tentos dos adversários.

Como havia uma rivalidade muito grande entre as tripulações dos navios da marinha de Sua Majestade, para os homens do Dauntless a vitória mais importante, pelo placar de 2 a 1, foi contra a equipe do cruzador inglês H. M. S. Dheli, em um embate ocorrido durante uma parada em Nova York, Estados Unidos.

Nesta época a Marinha da Inglaterra era a maior do mundo em número de navios de guerra, com diversas frotas atuando em todos os oceanos do planeta e o futebol era extremamente incentivado entre seu pessoal.

Símbolo da Royal Navy Football Association

Para organizar campeonatos entre as várias frotas, só com uma entidade própria, no caso uma associação. A Royal Navy Football Association havia sido criada em fevereiro de 1904 e tinha a sua sede na Base Naval de Portsmouth, uma das maiores daquela marinha.

Não é difícil de imaginar que naquela época, esta entidade futebolística era maior e tinha uma atuação muito mais ampla que a própria FIFA.

Mas agora os marujos da terra de Sua Majestade se batiam pela primeira vez com sul-americanos, representados pelos brasileiros do América de Natal.

O jogo foi marcado para as três e meia da tarde, com dois tempos de 45 minutos e o apito ficou a cargo do Dr. Aníbal Azevedo. Estariam presentes na tribuna de honra do campo o Interventor Cascardo, o capitão Vivian, o Cônsul Gordon e outras autoridades.

Um exemplo do engajamento dos marinheiros ingleses em atividades esportivas ao redor do mundo. Na foto vemos membros da tripulação do encouraçado “H.M.S. Hood” com uma taça a ser disputada em um jogo no Rio de Janeiro, em setembro de 1922

Jack Romaguera, diretor da Companhia Força e Luz, responsável pelos transportes urbanos na capital potiguar, mandou aumentar o número de bondes e ônibus para trazer a maior quantidade de torcedores para apoiarem a equipe do América.

Segundo o amigo Ricardo Argm, de Recife, Pernambuco, Jack Romaguera nasceu em Liverpool e chegou ao Brasil, junto com a família, por volta de 1905, estabelecendo-se no Recife onde, tempos depois, ingressou na The Pernambuco Tramways, empresa inglesa (depois adquirida pela americana General Eletric) que operou o transporte público e distribuição de energia elétrica na capital pernambucana até 1962. Posteriormente, adotou a cidadania brasileira, casou e transferiu-se para Natal onde manteve sólidos vínculos, construídos desde a época em que dirigiu a Companhia de Força e Luz na capital potiguar. Um dos seus amigos, até o fim da vida, foi Teodorico Bezerra que, no início da amizade, não era o empresário e político famoso que veio a se tornar anos depois. O Sr. Jack, ao adotar a cidadania brasileira, retirou o sobrenome britânico e passou a usar apenas o da família paterna de origem espanhola e até hoje com descendentes em Pernambuco e Rio de Janeiro. 

Mas voltando ao jogo sabemos que os preços dos ingressos para assistir o espetáculo seriam de 3.000 réis a arquibancada. As senhoras, crianças e o pessoal da “geral”, pagariam 1.000 réis e quem fosse de carro, era cobrado o valor de 2.000 réis por pessoa. Aqui acredito que ainda não havia um muro lateral no campo e o pessoal mais abonado da cidade assistia o jogo de seus veículos.

Seria entregue ao vencedor uma taça denominada “Eric Gordon”, em honra ao Vice Cônsul inglês, o grande incentivador da realização do jogo.

O comentário nos jornais foi que a taça havia sido adquirida pelo próprio Gordon, sendo definida como uma bela e caríssima peça de decoração de sua residência em Petrópolis, mas diante de tão importante acontecimento ele decidiu ceder o objeto para o campeão da peleja desportiva. O belo troféu havia sido comprado em uma visita recente que Gordon havia feito a Amsterdam, na Holanda e era considerada pelos jornalistas locais como “Uma beleza em bronze, confeccionada de maneira nobre”.

Jornal “A Republica”, edição de 30 de agosto de 1931

Apesar de todo o característico cavalheirismo inglês, a fanfarronice deles estava a toda e tinham a certeza da vitória.

O time do cruzador  Dauntless entraria com o artilheiro naval Blake como “goalkeeper” (goleiro), o timoneiro Kelleway e o sinaleiro Barrington eram os “backs” (beques). Já ao telegrafista Pay não era apontada a sua posição no campo, mas comentavam ser competente no que fazia. O marinheiro Cartland era um bom “center half” (centro de meia), já o baixinho Castlelman era tido como “ligeiro” e havia o ponta Giblin, que no navio exercia a função de cozinheiro. O artilheiro naval Hillier era considerado muito bom driblador, ótimo cobrador de escanteios e era uma espécie de líder do time. Já o mecânico naval Robson e o marujo Hall eram os armadores. O marujo Lynch era um bom driblador sendo considerado o craque da equipe inglesa. Já a função de técnico estava a cargo do tenente A. B. R. Sands.

O H.M.S. Dauntless

Já o nosso América Futebol Clube era um time ainda considerado amador, que se reunia de forma voluntária para jogar pelo amor ao desporto e a camisa. Na época, através dos jornais locais, os jogadores eram “convidados” a comparecerem aos treinos e aos jogos. O jornal não fala em nenhum momento que seriam ofertados prêmios em dinheiro para os jogadores do Mecão.

A escalação do time para o importante jogo era composta dos “Players” Milton (goleiro), Everardo de Barros Vasconcelos, Hemetério e Canuto (beques), Jeremias Pinheiro Junior, João Teixeira de Carvalho e Reynaldo Praça (linha média), Glicério, Neném, Baltazar e Acióli (atacantes). Não foi divulgada aqueles que ficaram na “grade”, como era conhecido aqui em Natal, o pessoal que estavam no banco de reservas.

Lendo os jornais do período percebemos que a imprensa natalense, proporcionalmente não dava maiores detalhes sobre a equipe alvirrubra, ou sobre a sua preparação, o espirito reinante no grupo e nem abordava maiores informações sobre os jogadores.

Arquibancada coberta do “Stadium” Juvenal Lamartine

Certamente que os ingleses eram uma força respeitável, merecia destaque como visitantes e os nossos jornais pareciam não acreditar no time vermelho. Além disso, havia o caso do último jogo do campeonato brasileiro.

Naquela época a extinta CBD promovia um “Campeonato Brasileiro de Foot-ball”, entre as seleções dos estados. Em 9 de julho de 1931, desembarcam do paquete “Pará” os jogadores da seleção de futebol cearense para um grande jogo contra os potiguares, criando uma enorme movimentação na cidade. Até o juiz da partida, o pernambucano Lindolfo Altino, designado pela CBD, veio de Pernambuco em um avião de linha da companhia Sindicato Condor.

Havia uma grande discussão nos jornais da cidade sobre a formação do time potiguar, que seguia para a pugna contra os cearenses apenas com jogadores americanos e abecedistas. Houve até mesmo um equilíbrio na convocação do time, onde cinco jogadores rubros foram chamados; Neném, Pinheiro, Hemetério, Acióli e Glicério.

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HMS Dauntless – Fonte – https://www.pinterest.co.uk

Mas o resultado do jogo, realizado no domingo, 12 de julho, foi um desastre. O time potiguar perdeu de 8 a 5 para os cearenses.

Na crônica sobre o jogo, publicado em “A Republica”, em 14 de julho, vemos que a imprensa local foi muito dura em suas críticas aos jogadores rubros. Pinheiro foi tratado como “O mais fraco dos atacantes”, Glicério “Pouco produziu”. Acióli, mesmo tendo marcado um tento, sendo classificado como “esforçado”, foi criticado por ter chutado pouco contra o gol cearense.

Não seria nenhuma surpresa que estas críticas marcaram os atletas americanos que participaram daquele jogo e eles aguardaram o momento para mostrar ao público potiguar que tinham o seu valor.

Mas voltando ao jogo do time rubro contra os ingleses, sabemos que o campo, ou “Field”, do Tirol lotou. Mas antes teve a preliminar.

E a “Morte” venceu o Força e Luz S.C.

O placar foi 3 tentos a 2, com os gols da equipe vencedora sendo marcados por Montenegro (2) e Toseli (1), em meio a muita correria. É informado que a equipe com uma denominação que evoca tanta negatividade tinha um uniforme totalmente preto. Foi ofertado ao time vencedor a taça “Jack Roamguera”, entregue pelo próprio diretor da Companhia Força e Luz, teoricamente “dono” do time perdedor. Mas não é comentada a sua opinião sobre a derrota.

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Foto do time americano, campeão estadual em 1919 – Fonte – https://curiozzzo.com/2017/05/06/como-o-futebol-comecou-no-rio-grande-do-norte/post-como-comecou-historia-futebol-no-rn-escalacao-america-fc-1919/

Às três e meia da tarde entraram no campo os atletas do América e do Dauntless e foram intensamente aplaudidos pela enorme assistência. Não encontrei indicações que a torcida abecedista se reuniu para torcer pelo “Team” do navio de guerra inglês.

No centro do campo a moeda foi jogada para o alto pelo juiz Aníbal Azevedo e coube ao representante do time americano escolher a “Barra de baixo” como o lado onde a equipe alvirrubra potiguar iniciaria a disputa.

Com menos de dez minutos ocorre uma situação extremamente positiva. Após o segundo ataque realizado pela equipe potiguar, Acióli marca o primeiro gol rubro.

Aparentemente os marinheiros ingleses sentem a pancada, mas não desistem, bem como o time americano. Logo Hemetério sai lá da defesa rubra e obriga o goleiro Blake a realizar uma boa defesa.

Depois Jeremias Pinheiro Junior, conhecido como Pinheirão, rouba a bola de Robson, mecânico naval e armador do time estrangeiro, passa para Neném, que toca rasteiro para Glicério, que em um bom arremate marca o segundo gol para a equipe potiguar, que ocasiona verdadeiro delírio da torcida presente.

Foto ilustrativa que mostra as vestimentas dos jogadores e do juiz, na final da Taça Jules Rimet, quando o Uruguai se sagrou campeão sobre a Argentina, um ano antes do jogo entre o América e a equipe do “Dauntless”

Com este novo tento, a imprensa informa que os ingleses vieram para cima com força total em dois ataques. No primeiro Canuto salva o América de levar um gol e Hillier chuta forte para fora.

O time estrangeiro domina a partida, mas o América reage. Analisando o material descritivo do jogo, esta fase foi um dos momentos mais dinâmicos de todo o embate. Hillier chuta duas vezes para fora, mas em um ataque inglês, Acióli marca uma penalidade máxima. Tensão nas arquibancadas enquanto o juiz Aníbal apita para o jogador inglês correr para pelota e bater contra o gol de Milton.

Em uma atitude atualmente impensada, em um verdadeiro gesto de cavalheirismo, o batedor inglês dispara a bola propositadamente para longe da meta americana. Ele é muito aplaudido pelo gesto.

Logo o juiz assinalou o fim do primeiro tempo.

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HMS Dauntless – Fonte – https://www.pinterest.co.uk

A segunda fase do espetáculo começou com os ingleses vindo para cima com toda a força. O América responde com um escanteio, que foi desperdiçado por Teixeira.

Os ingleses voltam para as imediações da grande área americana e, numa furada de Canuto, Lynch chuta forte e marca o primeiro gol dos marujos do “Dauntless”.

Aquele gol acorda a equipe rubra que parte a toda para o ataque, perigosamente adentrando o campo adversário pelo lado direito. Baltazar escapa e centra “por fora” e Hemetério marca o terceiro gol americano.

Podemos compreender que houve mudanças no ataque do time potiguar e estes acuaram os ingleses. Entretanto, em nenhuma página dos jornais pesquisados, foi encontrada alguma referência se a equipe americana possuía uma pessoa desempenhando a função de técnico.

Nova saída e, apesar de uma reação inglesa, o time potiguar não se deixa envolver e continua atacando e realizando boas investidas com Neném, Hemetério e Glicério.

Mas então Cartland, em uma rápida descida, faz um ótimo passe a Hillier, que entrega a Lynch, que dribla Canuto e passa a Robson, que marca o segundo gol inglês.

Notícia do triunfo americano. Jornal “A Republica”, edição de 1 de setembro de 1931

A partida pega fogo. Os ingleses com a esdrúxula combinação de azul escuro e kaki correm bastante para marcar o gol de empate. Mas a defesa rubra, principalmente com Canuto, Teixeira e Pinheirão seguram o esforço inglês de marcar um gol contra a trave do time potiguar.

Com a segurança atrás, o ataque americano parte em contra ataque, obrigando Blake a realizar difícil defesa. Mas a sua meta seria novamente atacada, desta vez por Acióli, que dispara para o gol adversário. Quando o defensor inglês tenta interceptar, acaba provocando um gol contra. Era o quarto tento americano. A torcida local delira diante do marcador.

Ocorre o quarto reinício de partida por parte dos jogadores do “Dauntless” e o jogo não para. Os ingleses investem pela direita, onde Reynaldo Praça evita um gol de Hills.

O time Rubro continua buscando o ataque e ocorre uma penalidade máxima a favor do time americano. Neném, o comandante do ataque rubro vai para a marca do pênalti, mas, tal qual havia feito o adversário inglês, ele joga a bola distante da meta do time estrangeiro. Segundo o jornal “A Republica”, neste momento o público aplaudiu com forte intensidade o gesto do jogador americano.

Logo o árbitro apitou o final do jogo, com o América vencendo a equipe do “Dauntless” por 4 a 2.

Reportagem sobre o jogo entre o Sport Club Natal e a tripulação do “Dauntless”. Jornal “A Republica”, edição de 4 de setembro de 1931

Infelizmente os jornais foram extremamente econômicos em trazer maiores relatos sobre o pós-jogo. Sabemos que na parte da tarde ocorreu no cruzador um tradicional “chá das cinco”, tipicamente inglês, onde se reuniram os oficiais britânicos e as autoridades potiguares. Mas sobre o jogo nada foi comentado nas páginas dos jornais.

Na terça feira, 2 de setembro, a equipe do Dauntless se bateu com o time de futebol do tradicional Sport Club de Natal. Este clube de remo da capital potiguar, fundado em 1915, tinha nesta época uma equipe de futebol.

O Dauntless no Canal do Panamá

Por alguma razão sem explicação nos jornais, a peleja estava marcada para começar às três e meia da tarde, mas só teve início as quatro e dez. Ficou definido que a partida teria dois tempos de 35 minutos, visto o Campo do Tirol não ter iluminação e a partida terminou debaixo de forte polêmica.

Para o jornalista de “A Republica” o jogo foi considerado muito bom e terminou empatado em 2 a 2. Mas este mesmo periodista definiu como “uma coisa imaginária” o segundo gol do time inglês.  Em sua opinião, em um lance de ataque dos jogadores do “Dauntless”, a bola nem sequer passou da linha do gol do Sport. Mas o juiz que referendou o tento era membro da tripulação do cruzador. O mesmo marujo deixou de marcar um pênalti a favor do Sport Club de Natal e ainda apontou duas vezes a marca do pênalti a favor do time estrangeiro, uma delas convertida em gol.

Para se ter uma ideia como era simples o nosso futebol nesta época, os jogadores americanos Milton, Praça, Pinheiro e Neném atuaram com a camisa rubro negra do Sport, sem que isso gerasse polêmicas nem constrangimentos.

Logo o Dauntless levantou ferros de Natal deixando uma boa lembrança.

Seu destino posterior foi Recife, onde sua chegada e permanência, ao menos ao visualizarmos as páginas do “Diário de Pernambuco”, foi muito mais discreta e pouco chamou atenção. Mesmo assim os ingleses jogaram bola na capital pernambucana.

A equipe do Dauntless preferiu se bater contra equipes de empresas inglesas com sucursais em Recife, onde inclusive havia uma numerosa colônia de cidadãos do país de Sua Majestade. Os adversários foram as equipes do “British Country Club”, da “Transport and Motor Traction Comporation” e da “Telephone Company”, onde respectivamente venceram as duas primeiras equipes de 5×0 e 6×0 e empataram com a última por 2×2.

Tripulação do H.M.S. Daunless

Aparentemente, depois do ocorrido em Natal, a turma do cruzador evitou confrontos com equipes recifenses, como os tradicionais times do Náutico, Santa Cruz e Sport.

Lendo as velhas páginas amareladas percebemos um forte senso de responsabilidade entre os jogadores do time rubro, onde prevalecia a ideia que eles não estavam apenas representando Natal, ou o Rio Grande do Norte, mas todo o país.

Evidentemente que a equipe de futebol do Dauntless não era um time profissional e alguns podem nem sequer considerá-lo uma equipe futebolística na acepção da palavra. Mas para os súditos de Sua Majestade, o futebol sempre foi algo muito sério, mais ainda no interior de uma força naval respeitada e poderosa como era a Marinha Inglesa da época, onde o esporte era intensamente incentivado e desenvolvido.

Neste sentido, esta vitória do América F.C., na primeira partida de futebol contra uma equipe estrangeira realizada no Rio Grande do Norte, não pode ser esquecida.

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1917 – UMA “QUASE” BATALHA NAVAL NA COSTA POTIGUAR

A PRESENÇA DE NAVIOS DE GUERRA ALEMÃES NAS NOSSAS PRAIAS DURANTE A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Em janeiro de 1917, a Primeira Guerra Mundial iria completar três anos de um banho de sangue que assombrava todo o Mundo.

De um lado temos os Aliados, formados pelo Império Britânico, França, Japão, Rússia, Bélgica, Montenegro e Sérvia. Todos contra os Impérios Alemão, Austro-húngaro e Otomano. Na sequência mais de vinte países vão se envolver no conflito.

As marinhas aliadas organizam um forte bloqueio naval, onde a ideia é simplesmente fazer a Alemanha cair de fome. Mas seus comandantes navais criam um plano ousado para um tipo de guerra no mar diferente, onde a mente e a capacidade da tripulação de um navio corsário trabalhava melhor que a força bruta de um encouraçado com várias baterias de canhões.

Pintura mostrando um combate naval na Primeira Guerra Mundial

Navios civis alemães foram armados e batizados pomposamente como “Cruzadores Auxiliares” e despachados pelos mares com a intenção de destruir quantas naves de carga dos aliados fosse possível. Era a chamada “Guerra de Corso”.

Como estes “Cruzadores Auxiliares” possuíam a aparência de pacíficos navios de carga, onde seus canhões eram camuflados atrás de chapas e paredes falsas e ostentavam bandeiras de outros países, a sua letalidade só era descoberta no último momento.

Este atacante, que geralmente navegava mais rápido, se aproximava de sua indefesa vítima, onde mandava uma mensagem, ou abria fogo a frente da proa (parte dianteira dos navios), dando um aviso de parada. Na sequência o navio corsário mandava um sinal e enviava um grupo armado para a abordagem, onde retiravam da presa o que desejavam.

Frota naval alemã em 1914. O navio corsário sempre seguia sozinho

Buscavam normalmente documentos navais, armas, água potável, comida, combustível e outras necessidades. Depois a tripulação capturada saía geralmente só com a roupa do corpo, indo direto para os porões do navio atacante. O navio capturado ou era afundado com dinamite. Igualmente podiam colocar uma pequena guarnição a bordo, que seguia com a nave aprisionada como butim de guerra para a Alemanha.

Não podemos esquecer que esta era uma época onde nem todos os navios possuíam radiocomunicação. Já coisas como radar, imagens de fotografia feitas por satélites girando ao redor da Terra, computadores, e sinais de localização através de GPS, certamente só existiam na cabeça de H. G. Wells.

Com esta situação, um capitão com forte espirito de liderança e uma tripulação bem preparada, poderiam fazer misérias e causar um forte prejuízo a navegação comercial inimiga pelos mares do Mundo.

Uma Babel Flutuante

Em janeiro de 1917 o Brasil ainda se encontrava neutro, mas os tambores de guerra já se faziam sentir próximo as nossas praias.

Quadro – The last man Falklands 1914 – Fonte – http://www.ourlifeboat.org

Primeiramente os jornais brasileiros haviam dado muito destaque a grande batalha das Falklands, as mesmas ilhas reivindicadas pelos argentinos e por eles chamadas de Malvinas. Em dezembro de 1914 ali aconteceu uma fragorosa derrota de unidades navais alemãs, contra navios da esquadra inglesa comandados pelo almirante Sturdee e que ocasionou a morte do almirante alemão, o Conde Maximilian Von Spee.

Tempos depois foi noticiado que o navio “Karslruhe” estava vagando pelo mar, onde teria inclusive se aproximado da costa potiguar e afundado navios aliados. Mas a marinha inglesa havia dado cabo deste intruso.

Nesta época, onde o transporte de carga e passageiros por navios era o principal meio de ligação entre as capitais brasileiras, onde os horários de partida e chegada dos navios era notícia de destaque nos jornais e assunto corrente nas avenidas e ruas, tudo que dizia respeito a navegação chamava atenção. Mais ainda em meio a um conflito em escala mundial, onde o afundamento de navios civis era um meio de se alcançar a vitória.

Por isso foi uma enorme surpresa em Recife, quando às quatro horas da tarde da segunda feira, 15 de janeiro de 1917, um estranho e inesperado navio chegou ao ancoradouro externo do porto da capital pernambucana.

Logo o já obsoleto Cruzador Torpedeiro “Tymbira”, da Marinha do Brasil, saiu ao encontro do navio desconhecido. Em pouco tempo chegava a notícia que o estranho barco queria aportar, pois a bordo trazia muitos sobreviventes de navios atacados por um corsário alemão.

“Hudson Maru” – Fonte – http://smsmoewe.com

O prático do porto, Francisco Costa, o representante da Alfândega, Hilário de Souza, e outras autoridades portuárias foram ao encontro da estranha nave, que ostentava a bandeira do Sol Nascente. Era o navio “Hudson Maru”, da empresa Tatsuma Kisen Goshi Kaisha, da cidade de Kobe, sendo este o primeiro navio japonês a ancorar em Recife.

E não era mentira. Dentro do navio com pouco mais de 100 metros de comprimento, havia mais de 300 homens. O capitão T. Takeshima informou que seu navio havia sido capturado no dia 4, a cerca de 350 milhas náuticas da costa brasileira. Durante oito dias o “Hudson Maru” foi controlado pelos alemães e obrigado a acompanhar o corsário na captura de outros cargueiros.

No dia 7 de janeiro foi a vez do mercante inglês “Radnorshire” (afundado a 110 milhas de Pernambuco) e no dia 9 foram capturados os também ingleses “Minieh” e “Netherby Hall”. No dia 12 o capitão Takeshima recebeu a bordo mais de 300 homens e lhe foi ordenado que seguisse diretamente para Recife, onde chegou três dias depois.

Inteligentemente os alemães deixaram a dispensa do “Hudson Maru” praticamente vazia, onde a melhor alternativa era seguir para a capital pernambucana.

Segundo a edição do dia 16 de janeiro do jornal “Diário de Pernambuco”, aquela babel flutuante era formada por tripulantes de dezoito navios atacados. Havia principalmente ingleses e franceses, mas se encontravam alguns noruegueses, americanos, indianos, mexicanos e pessoas de outras nacionalidades.

Os ”Turistas” em Recife

Os cônsules dos países que estavam a bordo se fizeram presente no navio japonês, junto com as autoridades navais brasileiras e providenciaram primeiramente água e comida, que já havia acabado.

Destaque que a imprensa pernambucana deu ao caso do corsário alemão

O jornal informa que a fedentina era a terrível, a moral estava baixa entre os homens, as condições de higiene um caos e as roupas dos antigos prisioneiros estavam já bem sujas.

No outro dia o “Hudson Maru” aportou e Recife recebeu um contingente com mais de 300 “turistas”.

As representações diplomáticas na cidade, principalmente as da Inglaterra e da França, se transformaram em um tumulto. Tripulantes relatavam o que aconteceu no mar, relatórios eram despachados para os países informando o ocorrido, hotéis e hospedarias eram procurados para acomodar a todos.

Cais do Porto de Recife Fonte – Life Magazine, através de http://www.meus365dias.com

Os recifenses ajudavam como podiam, onde roupas eram distribuídas e os marítimos recebiam o carinho da população da capital pernambucana.

O “Jornal Pequeno” informou que os tripulantes andavam pelas ruas entre atordoados e felizes pelo desfecho daquele episódio. Outra informação deste periódico dava conta que os lupanares próximos ao cais estavam abarrotados. Prostitutas locais davam carinho e aconchego aos sobreviventes, onde certamente muitos deles já eram velhos conhecidos. Já o pagamento da “função”, mais do que necessária naquele momento tortuoso, era deixado no “prego”, pois a maioria estava sem dinheiro.

O mais importante era que de Recife saíram notícias para todo o Mundo. Havia informações que o navio corsário se chamava “Vineta”, mas outros sobreviventes diziam ser o “Möwe”. Mas o certo era que este navio estava fazendo um grande estrago.

O Corsário

Pelo Brasil afora a notícia causou sensação, pois muitos dos navios afundados eram habitualmente vistos em nossos portos. No Rio de Janeiro a informação foi profusamente comentada, onde não faltavam preciosos detalhes das abordagens e afundamentos.

“S.M.S. Möwe” Fonte – http://smsmoewe.com

Se a nacionalidade do corsário era ponto passivo, faltava saber qual seria o nome do navio atacante? De onde veio e, principalmente, para onde havia seguido?

O navio era chamado Möwe (Gaivota), sendo comandado pelo aristocrático e inteligente Koverttenkapitän Nicholas Burggraf, Conde de Dohna-Schlodien. Este comandante, tido como nobre e democrático, estava na marinha desde 1896, sendo nomeado tenente em 1902.

Koverttenkapitän Nicholas Burggraf, Conde de Dohna-Schlodien

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, a Marinha Imperial Alemã requisitou da empresa “Fruchtkompanie Afrikanische”, de Munique, o seu cargueiro de transporte de frutas “Pungo”, devido à sua velocidade e do grande tamanho de seus porões e o transformou no Cruzador Auxiliar “S.M.S. Möwe”.

O Conde de Dohna-Schlodien começa o seu serviço nesta nave no dia 1 de novembro de 1915.

De dezembro a março de 1916, o “Möwe” vai realizar uma missão pelo Atlântico. De saída foram colocadas 262 minas explosivas, em condições climáticas desfavoráveis, no Estrito de Pentlant, perto da grande base naval inglesa de Scapa Flow, onde um encouraçado foi a pique devido esta ação.

O “Möwe” em nada se parecia com um navio de guerra

O corsário segue pelo Atlântico onde consegue o extraordinário resultado de vinte e um navios afundados ou capturados.

A forma de ataque desfechado pelo corsário, disfarçado como um navio de carga neutra para poder chegar perto de suas presas, causou forte repreensão por parte dos inimigos. Talvez para compensar, uma marca do Conde de Dohna-Schlodien era que ele sempre fazia questão de resgatar todos os sobreviventes de qualquer navio atacado.

No retorno a pátria os tripulantes do “Möwe” receberam um tratamento digno dos grandes heróis. Toda a tripulação foi condecorada pelo Kaiser.

Entre junho e agosto de 1916 realizam uma patrulha no Mar Báltico, mas só afundam um cargueiro inglês.

Em 23 de novembro de 1916 partem do porto alemão de Wilhelmshaven e seguem para o Atlântico Sul, onde suas vitórias vão tornar a história deste navio uma verdadeira lenda.

A caçada se inicia com a destruição do cargueiro inglês “Voltaire”, no dia 2 de dezembro.

A Marinha Inglesa Caça os Alemães na Costa Nordestina

Cinco dias depois da chegada do “Hudson Maru”, entrava às cinco e meia da manhã no porto um velho conhecido dos recifenses. Era o cruzador inglês “H.M.S. Glasgow”, sob o comando do capitão Aubrey Smith. O comandante recebeu as visitas brasileiras de praxe, entre estas o governador pernambucano, Manoel Antônio Pereira Borba. Mas a principal visita foi o pessoal do consulado ingles, que certamente trouxe os relatos dos homens que desembarcaram do cargueiro japonês.

O “H.M.S. Glasgow” em 1915 Fonte – http://www.ourlifeboat.org

Abastecido e bem informado, logo e de forma discreta, o “Glasgow” deixou Recife a caça do corsário alemão.

Esta nave seguiu ao encontro do Cruzador Auxiliar “Amethist”, dos Cruzadores Ligeiros “Macedonia”, “Edimburg Castle” e “Orama”, todos com poder de fogo suficiente para enviar o “Möwe” para uma viagem sem volta do fundo do mar.

O “Glasgow” em Recife

Para corroborar esta ideia, notícias procedentes do Rio de Janeiro e publicadas no “Diário de Pernambuco” e o periódico natalense “A Republica”, davam conta que o “Amethist” havia zarpado de Salvador no dia 18 de janeiro. Já o “Edimburg Castle” teria partido do Rio de Janeiro no dia 21, de forma rápida, e seguiu em direção norte.

Mais navios no mar para caçar o corsário alemão

Se algo haveria de ocorrer no alto mar, seria através da ação dos vasos de guerra da Marinha Real da Inglaterra, a conhecida “Royal Navy”.

Na Costa Potiguar?

Após a partida do cruzador inglês “Glasgow”, estoura nas páginas da imprensa brasileira uma estranha notícia.

Ela dava conta que um telegrama vindo da cidade potiguar de Macau para o Rio de Janeiro, informava que um grupo de cinco navios estava ancorado diante do canal da povoação de Jacaré, perto da cidade de Touros. O informe publicado nas notas de “Última Hora” comentava que não se sabia a nacionalidade das naves e que esta era a terceira vez que tais navios eram vistos nesta região pouco habitada da costa potiguar. A nota não trazia o nome do, ou dos informantes.

Estranha notícia

Logo o então Ministro da Marinha, almirante Alexandrino Faria de Alencar, era cobrado pelos jornais cariocas sobre a presença da nossa força naval no meio de toda esta confusão.

A autoridade informou pelos jornais que estava enviando o Cruzador “Rio Grande do Sul” e o já caquético Encouraçado Guarda Costa “Deodoro”, para patrulharem uma área que abrangia desde o Arquipélago de Fernando de Noronha e a costa entre o Rio Grande do Norte e Pernambuco. Não que o “Deodoro” fosse tão velho assim, pois ainda não tinha nem vinte anos de mar e era a nau capitânia da “Força Naval do Norte”. Mas era completamente obsoleto e despreparado para o conflito que ocorria.

O nosso obsoleto “Deodoro” Fonte – http://www.naviosbrasileiros.com.br Reprodução do livro A Marinha por Marc Ferrez – 1880-1910 – Rio de Janeiro, RJ, Brasil – 1986, Editora Index – VEROLME.

É bem verdade que a Marinha do Brasil nesta época contava com algumas respeitáveis naves de guerra, mas a maioria dos seus melhores navios estavam concentrados no Rio de Janeiro. Além do mais, diante de uma costa verdadeiramente continental como no caso do Brasil, a nossa desaparelhada marinha de guerra, por mais que se esforçasse em “mostrar a nossa bandeira”, pouco poderia fazer.

Navio suspeito

Outra notícia, novamente emanada do Rio de Janeiro, e publicada no “Diário de Pernambuco”, edição de 23 de janeiro, informava que cinco corsários alemães haviam sido vistos entre “os lugares Cajueiro e Rio do Fogo, se mantendo a sota-vento e aproveitando os recifes existentes na costa como abrigo”.

Logo outra nota, publicada em “A Republica”, informava que um navio de quatro chaminés fora visto na costa do Rio Grande do Norte.

Poderia ser o Mowe?

Era possível, pois os tripulantes deste corsário poderiam alterar seu formato, acrescentando falsas chaminés e mastros, além da mudança de cores e inclusão de outros materiais visuais. Mas não havia maiores informações.

Novas informações

Outra informação veio do vapor brasileiro “Maranhão”, em viagem para Recife informou ter avistado um navio suspeito em nossas praias, mas sem maiores detalhes.

Logo estas notícias foram destaque na imprensa mundial, sendo estampada em diversos jornais europeus e norte-americanos. Como podemos ver aqui na reprodução da edição de 22 de janeiro de 1917, do “Washington Post”.

Notícia que chamou atenção da imprensa internacional

Mas era o jornal “Diário de Pernambuco” que alertava para um possível encontro destes navios beligerantes e um provável confronto na costa potiguar, apostando que isso ocorreria mais facilmente na altura de Macau. O articulista do “Diário de Pernambuco” apontava para as possíveis consequências desta pretensa batalha naval, diante da neutralidade brasileira em meio ao sangrento conflito.

Mas Onde Estava o “Möwe”?

As notícias sobre a presença do “Möwe” na costa potiguar eram totalmente falsas.

O esquivo “Möwe” Fonte – http://smsmoewe.com

Após o desembarque dos prisioneiros do “Hudson Maru” no porto de Recife, o “Möwe” procurou sair de perto da costa do Nordeste do Brasil. O navio passou praticamente um mês navegando de forma lenta, atravessando o Atlântico Sul em direção a costa sul africana, onde cruzou ao sul da Ilha de Santa Helena, procurando não chamar atenção e sem atacar nenhum cargueiro aliado.

No dia 15 de fevereiro o corsário alemão voltava a se aproximar novamente do Brasil, onde afundou o cargueiro inglês “Brecknockshire”, a 490 milhas a leste de Cabo Frio, no Rio de Janeiro. No dia seguinte, na mesma região, mais duas vítimas inglesas entravam nas estatísticas.

A partir deste ataque, o “Möwe” começa a retornar a Alemanha.Mas continuava caçando, capturando e destruindo navios mercantes aliados.

Outros seis navios serão destruídos até a chegada ao porto de Kiel, na Alemanha, em 22 de março de 1917, onde outra grande leva de tripulantes aliados capturados foi colocada em um campo de prisioneiros até o fim da guerra.

Prisioneiros do “Möwe” desembarcando em Kiel Fonte – http://smsmoewe.com

A missão de combate do “Möwe” foi um retumbante sucesso. Vinte e oito navios foram destruídos, totalizando 123.265 toneladas de meios flutuantes aliados que foram para o fundo do mar.

Mas o melhor resultado foi o medo imposto entre os meios de navegação dos inimigos e a necessidade do deslocamento de navios de guerra para buscarem este solitário corsário alemão, tirando-os de outras missões de combate.

Conclusão

No meu entendimento, as falsas notícias supostamente transmitidas de Macau e recebidas pelas agências de notícias do Rio de Janeiro, informando que o “Möwe” se encontrava próximo a costa potiguar, é uma possível mostra de como a espionagem alemã estava atuante no Brasil durante a Primeira Guerra Mundial.

Além de espiões, havia no próprio governo brasileiro pessoas que defendiam o Império Alemão, como o ministro das Relações Exteriores Lauro Müller, de origem germânica e que poderiam influenciar a publicação deste tipo de notícia.

O autor deste blog na região do litoral potiguar onde pretensamente o corsário “Möwe” teria sido visto. Até hoje uma área pouco habitada

Diante da repercussão na imprensa internacional, chama atenção a falta de informações mais apuradas por parte dos jornais potiguares, que diante das notícias emanadas das agências do Rio de Janeiro, não buscaram maiores esclarecimentos através de contatos com as autoridades municipais em Macau ou Touros. Não se pode esquecer que nesta época estas cidades já possuíam agências telegráficas.

Já os membros do governo potiguar, tendo a frente o governador Joaquim Ferreira Chaves, não se pronunciaram de forma alguma sobre o episódio, pelo menos através da imprensa potiguar.

Não sabemos se o ardil serviu para desviar as belonaves inglesas para esta parte despovoada da costa potiguar, enquanto o “Möwe” seguia para a costa africana. Mas o certo é que o corsário alemão escapou.

O “Möwe” não voltou mais a combater no mar. Para os alemães seria uma péssima propaganda de guerra a sua destruição ou captura por forças aliadas e a nave foi desarmada.

O “Möwe” na mãos dos ingleses após o fim da guerra Fonte – http://smsmoewe.com

Depois da guerra o navio foi enviado para a Inglaterra como reparações de guerra e ali convertido em um cargueiro chamado “Greenbrier”. Em 1933 o antigo “Möwe” retornou a Alemanha e foi batizado com “Oldenburg” e serviu como navio de carga durante praticamente toda a Segunda guerra Mundial.

Foi torpedeado perto da localidade norueguesa de Vadheim em 7 de abril de 1945.

Já o Conde de Dohna-Schlodien deixou a marinha depois do fim da Primeira Guerra Mundial, trabalhando em uma empresa de Hamburgo.

Devido ao seu comportamento correto em relação aos seus prisioneiros, e o seu distanciamento em relação aos nazistas, quando as tropas aliadas invadiram a área da Baviera em 1945, a família do Conde Dohna-Schlodien, através de instruções especiais emitidas pelo comando aliado, foi respeitosamente tratada e puderam permanecer em sua casa sem restrições.

O Conde morreu de um ataque cardíaco aos 77 anos.

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ANTÔNIO SILVINO E A POLÍTICA POTIGUAR

QUANDO UMA VISITA DESTE CANGACEIRO A

CIDADE DE JARDIM DO SERIDÓ MOVIMENTOU NOSSOS POLÍTICOS

Autor – Rostand Medeiros

Há exatamente um século, em um ano de muita seca, na cidade de Jardim do Seridó, na região do Seridó Potiguar, em uma noite comum de terça-feira, por volta das sete do dia 15 de agosto de 1911, entrou na pequena localidade um grupo de homens armados, trazendo chapéus de aba quebrada, com punhais atravessados na cintura e carregando rifles Winchester.

Desenho com a figura de Antônio Silvino

A frente da tropa vinha um homem bigodudo, natural da região do Pajeú pernambucano e que era conhecido em todo o sertão como Antônio Silvino.

Em 28 de agosto de 1911, uma segunda feira, Ttreze dias depois do fato, circulava na capital potiguar a edição matutina do jornal “A Republica” com uma grande notícia publicada na primeira página, informando detalhadamente o ocorrido.

Consta que o afamado bandoleiro das caatingas, alcunhado “Rifle de Ouro”, se dirigiu sem maiores delongas para a casa de um maioral do lugar, o major João Alves de Oliveira. Com era do seu feitio, Antônio Silvino chegou tranquilo, se apresentou e “solicitou” ao major que buscasse arrecadar com os abonados da pequena cidade a quantia de seiscentos mil réis para ele e seu bando. Descaradamente Silvino afirmava que não podia trabalhar devido às perseguições do governo e então solicitava um “apoio” dos amigos.

Nota sobre a "visita" de Antônio Silvino e seu bando a Jardim do Seridó

Evidentemente que embutido no pedido de dinheiro, estava uma discreta ameaça. Caso não houvesse o devido retorno, Jardim do Seridó sofreria as consequências. Mas não era isso que Antônio Silvino queria, pois afinal esta era a sua segunda “visita” naquela urbe seridoense, abençoada por Nossa Senhora da Conceição.

Sem condições de reação, o major João Alves saiu a solicitar as pessoas do lugar, que estavam entre assombradas com o que poderia acontecer e curiosas com a presença daquela gente no seu pacato lugar, o que pudesse ser arrecadado para evitar problemas. Ele foi ao encontro do fiscal de rendas do governo estadual lotado na cidade, Sidronyo Pio da Silveira Vidal, para que este retirasse o dinheiro da repartição para ajudar na cota de Silvino. Pio afirmou, inclusive temendo represálias, que o caixa da repartição só possuía meros cinquenta mil réis.

Enquanto acompanhava o major João Alves, o cangaceiro Silvino solicitou a presença de uma banda de música local e de jovens da comunidade para, no retorno da arrecadação, todos tocarem para ele e seus homens “modinhas e lundus alegres”.

Algum tempo depois, sem maiores alterações, Antônio Silvino deixou Jardim do Seridó.

No final da reportagem de “A Republica”, informava que o governo do estado estava preparando uma tropa da polícia para seguir ao Seridó e dar combate aos cangaceiros.

Evidentemente que casos como este, para quem já se debruçou sobre a vida de Antônio Silvino, são contados as centenas. Especificamente em relação a este caso, seus biógrafos dedicaram pouquíssimas linhas nos livros que trataram da vida do bandoleiro.

Mas o que importa foi o que ocorreu depois.

Silvino Movimenta o Meio Político

Nesta época o Rio Grande do Norte era governado por Alberto Frederico de Albuquerque Maranhão, membro da então poderosa oligarquia Maranhão, que utilizava o jornal “A Republica” como seu principal meio de divulgação das atividades do seu governo e do seu grupo político.

No outro lado estava uma oposição que utilizava o periódico “Diário de Natal” como principal meio de comunicação e possuía nomes como Almeida Castro, Érico Souto, Homem de Siqueira, Virgílio Bandeira, João Gurgel e outros. Neste período cabia a Augusto Leopoldo Raposo da Câmara atacar e responder ao governo nas páginas do “Diário de Natal”.

Augusto Leopoldo era natural de Ceará Mirim-RN, nasceu em 22 de agosto de 1856. Ingressou no curso de Ciências Jurídicas e Sociais da Faculdade de Direito do Recife em 1876, bacharelando-se em 1880. Apos seu regresso a Natal, trabalhou como advogado, jornalista e na militância política. Ocupou os cargos de secretário e de líder de seu partido, destacando-se pelo espírito combativo com que defendia os interesses públicos e os direitos das minorias.

O clima político era pesado, com acusações de ambas as partes fazendo parte do dia a dia dos periódicos de Natal.

Após a publicação da notícia da “visita” de Antônio Silvino a Jardim do Seridó, a pena de Augusto Leopoldo entrou em ação. No “Diário de Natal” de 29 de agosto, ele veementemente que a notícia era inverídica. Passou a acusar o governo de utilizar a desculpa da passagem de Antônio Silvino para enviar uma força policial a região, para realizar pressão eleitoral junto às populações sertanejas. Para corroborar sua tese, Augusto Leopoldo afirmava que Antônio Silvino “apesar de cangaceiro”, não era um “homem mau” e, “afora solicitar algum dinheiro”, praticamente “não fazia desatinos contra a população potiguar”.

Leopoldo sabia que em 30 de janeiro de 1912, em menos de seis meses, seriam realizadas as eleições para a escolha de deputados federais, onde ele era um dos candidatos. O envio de uma força policial com muitos homens ao Seridó, com as práticas típicas da oligarquia dominante no Rio Grande do Norte, poderia ser um problema.

Antônio Silvino

No outro dia, na reportagem intitulada “Começou cedo!”, o jornal do governo contra atacava.

Na época a redação de “A Republica” era capitaneada pelo deputado federal Sergio Barreto, que começava declarando que “a oposição buscava desculpas para a futura derrota do mês de janeiro”. A nota dizia que os membros do jornal governista se declaravam “estupefatos” diante da opinião do bacharel em direito, que desprezava o furo jornalístico, conseguido pelos repórteres junto aos membros do Tesouro do Estado sobre a passagem de Antônio Silvino por Jardim do Seridó.

Briga Pelos Jornais

Augusto Leopoldo continuou através do jornal “Diário de Natal” a atacar o envio de tropas.

Mas o jornal governista, em nota intitulada “Pela Verdade-Leopoldo e Antônio Silvino”, em meio a pesadas respostas as acusações do advogado nascido em Ceará-Mirim, enaltecimentos a ação governamental de Alberto Maranhão, o jornal do redator chefe Sergio Barreto criticava a posição de Augusto Leopoldo, afirmando a necessidade da ida e permanência das tropas policiais no sertão potiguar, pois Antônio Silvino “ainda gravitava pelo interior” do Rio Grande do Norte e “poderia ser perigoso como havia sido no passado”.

A imprensa potiguar não esquecia que no ano de 1901, quando Antônio Silvino estava sendo caçado pela polícia paraibana desde a região da cidade de Santa Luzia, acabou adentrando o Rio Grande do Norte pelo atual território da cidade seridoense de Ouro Branco e seguiu para a Fazenda Pedreira, a certa distância de Caicó, onde ocorria uma festa de casamento. Mesmo a contragosto, o cangaceiro e sua gente foram recebidos pelos proprietários. Mas a polícia paraibana vinha no encalço e ocorreu um combate que ficou conhecido como “Fogo da Pedreira”, de grande repercussão em todo estado.

Antônio Silvino, que certamente não tinha ideia de como seu nome estava sendo tão comentado nos dois principais jornais natalenses da época, continuava seu trajeto em terras potiguares e novos fatos eram estampados em “A Republica”.

Através de carta recebida de “pessoa fidedigna”, afirmava que Antônio Silvino estivera na fazenda de Joaquim das Virgens Pereira, onde as informações apontavam que ele havia sido bem recebido, tinha tratado todos bem, mas para o jornal não era por isso que o governo de Alberto Maranhão deveria dar trégua ao cangaceiro pernambucano.

Apesar de toda a reclamação e toda a polêmica nos jornais, em 30 de janeiro de 1912 ocorreram as eleições e Augusto Leopoldo Raposo da Câmara foi eleito com 2.462 votos apurados em todo o estado. No futuro Leopoldo seria vice-governador do estado entre 1924 e 1927, durante a gestão de José Augusto Bezerra de Medeiros. Veio a falecer no Rio de Janeiro, a 11 de dezembro de 1941.

Segundo Tarcizio Dinoá de Medeiros, autor de um ótimo site sobre genealogia do Seridó Potiguar (http://tarciziomedeiros.com.br), João Alves de Oliveira era paraibano de Picuí, onde nasceu a 11 de fevereiro de 1860. Mudou-se para Jardim do Seridó onde foi fazendeiro, comerciante, comprador de algodão e chefe político, tendo desempenhado nos anos de 1899 a 1901 os cargos de Delegado de Polícia e Prefeito Municipal e foi major da Guarda Nacional. Faleceu naquela cidade, de problema cardíaco, a 28 de abril de 1912, aos cinquenta e dois anos de idade. Era casado com Francisca Paulina de Oliveira.

João Alves foi contemporâneo e amigo do meu bisavô, Joaquim Paulino de Medeiros, dono da Fazenda Rajada, em Acari.

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DIANTE DA COSTA POTIGUAR, UM SEPULTAMENTO EM ALTO MAR

Aspecto de cerimonial de sepultamento em alto mar, com toda as honras militares de praxe, durante a Segunda Guerra Mundial

Autor – Rostand Medeiros

Morrer, mesmo que não desejemos, é a coisa mais certa que temos em nossas vidas e todos vamos encarar isso um dia.

E para nós, que vivemos em um país de maioria cristã, depois de alguém partir para um plano superior, a sequência dos acontecimentos envolve quase sempre o velório, o enterro, as missas de sétimo e trigésimo dia, além de muita dor, tristeza e saudades.

Em épocas passadas, quando alguém falecia dentro de um navio em alto mar, a forma mais prática existente era jogar o corpo no mar.

Foi o que aconteceu às cinco da manhã do dia 9 de agosto de 1903, um domingo, quando o corpo do potiguar Francisco Antônio Bastos, militar de baixa patente do 40º Batalhão de Infantaria do Exército Brasileiro, foi arriado no mar, na altura da Ponta do Tubarão, nas proximidades de Macau.

Bem, o que poderia ser uma pequena história de um falecimento, aponta algumas situações interessantes sobre como as pessoas das camadas mais populares eram tratadas nestes casos.

O pobre militar viajava na terceira classe do luxuoso Paquete Alagoas, na companhia de sua mãe, a senhora Tereza Maria de Jesus, e a causa da sua morte foi diagnosticada como sendo beribéri, que nesta época era considerada uma doença contagiosa.

O jornal natalense “A Republica”, edição de 10 de agosto de 1903, informou que o comandante do Paquete Alagoas “na intenção de se evitar a propagação de doenças”, em menos de 24 horas após o falecimento, decidiu sepultar o militar no mar. Para evitar evidentes transtornos aos passageiros mais abonados, o corpo de Francisco Antônio Bastos, envolto em uma manta de chita, com pesos de chumbo presos aos seus pés, foi lançado ao mar bem cedinho pela manhã. Não existe nenhuma referência de que alguma mínima cerimônia tenha sido realizada.

O Paquete Alagoas. Fonte-http://www.naviosbrasileiros.com.br

Na época do acontecido, o Paquete Alagoas pertencia a companhia de navegação Lloyd Brasileiro e durante a sua história este luxuoso navio foi temporariamente incorporado à Marinha do Brasil para conduzir à Família Imperial ao exílio na Europa.

Segundo o site “Navios de Guerra Brasileiros” (http://www.naviosbrasileiros.com.br) o Paquete Alagoas partiu do Rio de Janeiro com o Imperador Pedro II e sua família no dia 17 de novembro de 1889, sob o comando do Capitão-de-Longo-Curso José Maria Peixoto, sendo comboiado pelo Encouraçado Riachuelo. Chegou a Lisboa em 7 de dezembro.

Cabine do Imperador no Paquete Alagoa. Fonte-http://www.naviosbrasileiros.com.br

Já em relação a doença que vitimou o militar potiguar diante das praias do seu estado de origem, para o qual ele retornava, o artigo “Beribéri: Revisão Histórica e documental na Marinha do Brasil”, de autoria do Comandante de Mar e Guerra Regis Augusto Maia Frutuoso, traz algumas informações interessantes.

O termo beribéri, adotado na terminologia médica, provém do cingalês e seu significado é “fraqueza”. Este mal foi um grande enigma na época das antigas naus, permanecendo durante muito tempo sem que a sua etiologia fosse definida, atemorizando os tripulantes. Finalmente, no século XX, ficou esclarecido que a enfermidade era consequência de um estado de carência nutricional, desencadeado pela diminuição e não reposição das reservas de vitamina B, importante para várias reações químicas do organismo, principalmente na condução dos impulsos nervosos. (Frutuoso RAM. Beribéri: revisão histórica e documental na Marinha do Brasil. Arq Bras Med Naval. 2010 jan/dez;71(1):8-13.)

Para os homens do mar do início do século XX, doenças a bordo eram consideradas situações de perigo e não poderiam perturbar o bom curso de uma viagem.

Só não sei se os passageiros da primeira classe eram sepultados de forma tão rápida quanto os da terceira.

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JESUÍNO BRILHANTE E A FURNA DOS PORCOS – OUTRO ESCONDERIJO DESTE CANGACEIRO NA SERRA DE PATU?

Autor – Rostand Medeiros

É fato conhecido, inclusive comentado neste blog, que as pesquisas anteriormente realizadas na cidade de Patu pela SEPARN – Sociedade para Pesquisa e Desenvolvimento Ambiental do Rio Grande do Norte, na gruta que serviu de esconderijo ao famoso cangaceiro Jesuíno Brilhante, trouxeram ao conhecimento geral vários aspectos representativos sobre a utilização desta cavidade localizada na Fazenda Cajueiro.

Os resultados deste trabalho foram apresentados no 27º Congresso Brasileiro de Espeleologia, ocorrido na cidade mineira de Januária e promovido pela SBE – Sociedade Brasileira de Espeleologia. (Ver https://tokdehistoria.wordpress.com/2011/05/19/a-gruta-do-cangaceiro-jesuino-brilhante-patu-rn/ e http://www.sbe.com.br/anais27cbe/J1-03.pdf).

A Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores e a bela Serra de Patu

Este projeto, que contou com o apoio da SBEC – Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço e Fanny Carlos (Secretário de Turismo de Patu).

Localização da cidade de Patu no mapa potiguar

Entre as novas atribuições da SEPARN na época estavam a pesquisa sobre a área de atuação deste cangaceiro na região específica do grande maciço da Serra de Patu e região, a demarcação de trilhas históricas percorridas pelos cangaceiros, a análise da existência de novas grutas que eventualmente serviram para abrigo deste bando e apoiar outros pesquisadores. A equipe da SEPARN era composta pelo autor deste artigo (Espeleólogo inscrito na SBE Nº. 1528), por Natalia Edith Petersen (Biomédica e Espeleóloga inscrita na SBE sob o Nº. 1374) e o Jeová Costa França (Espeleólogo da SEPARN).

Contando com um perfeito apoio da comunidade local, foram mapeadas quatro trilhas no alto da serra e foi possível fazer o reconhecimento preliminar de uma cavidade conhecida como Furna dos Porcos, que a tradição oral aponta como outro refúgio do cangaceiro Jesuíno Brilhante.

O Caminho até o Mirante 47

Acompanhados dos guias locais Manoel, Zé Pequeno e o famoso “Zé Doido”, a equipe da SEPARN seguiu para a região da Serra de Patu, passando pela área do Santuário do Lima e seguindo para o Sítio Canto. Nesta localidade foram demarcadas as trilhas para o conhecido Mirante 47 e a Furna dos Porcos.

Estas duas trilhas podem ser utilizadas de forma conjunta ou percorridas separadamente. A trilha do Mirante 47 tem início na estrada carroçável diante da residência principal do Sítio Canto e prolonga-se até este mirante. A trilha da Furna dos Porcos tem início a partir de uma bifurcação da primeira trilha.

Na sede do Sítio Canto, com Dona Maria Zuíla na foto

Na propriedade rural denominada Sítio Canto, encontramos a Sra. Maria Zuíla, que além de nos receber da melhor maneira, ainda comentou que entre seus antepassados havia a referência que a Furna dos Porcos há muito tempo é conhecida dos moradores do alto da serra, que os “antigos” informaram ter sido este local um ponto de abrigo dos cangaceiros do bando de Jesuíno Brilhante e, mais recentemente, de caçadores da região que em algumas ocasiões capturavam Porcos do Mato, ou Caititu (Tayassu tajacu), na atualidade praticamente extintos na região.

Aspecto da cobertura vegetal existente nas trilhas

Da casa do Sítio Canto iniciamos nossa marcha em direção a cavidade natural, sempre acompanhados por uma bela paisagem serrana da região e passando por pequeno trecho de mata. Nesta área de mata, onde o altímetro do GPS apontava a altitude de 691 metros, encontra-se uma rocha próxima a um umbuzeiro, logo depois, a direita existe uma bifurcação, que será o início da Trilha da Furna dos Porcos. A partir deste último, tem-se uma caminhada em descendente para o chamado Mirante 47.

No Mirante 47

Com altitude de 670 metros, este belo mirante é um ponto da Serra de Patu sem vegetação, com mais de 100 m² de área, com vista panorâmica da região do Médio Oeste Potiguar. Possui uma fantástica beleza, de fácil acesso, onde na trilha podem-se visualizar os dois lados da serra. Sempre com clima agradável. A questã