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ESTÁ ACESSIVEL ONLINE UMA DAS MAIORES COLEÇÕES DE OBRAS LUSO-BRASILEIRAS EXISTENTES NO MUNDO

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Campus da Catholic University of America, em Washington – Fonte – http://dailysignal.com/2015/03/20/should-catholic-schools-be-forced-to-fund-lgbt-student-groups/

Na Catholic University of America, localizada em Washington, capital dos Estados Unidos, se encontra uma das maiores coleções impressas de obras de arte portuguesas e brasileiras no mundo e que agora está digitalizada e acessível online.

Estamos falando mais precisamente da Biblioteca Oliveira Lima, criada em 1920, com materiais foram reunidos pelo escritor e diplomata pernambucano Manoel de Oliveira Lima (Recife, 25/12/1867 – Washington, 24/3/1928). Oliveira Lima passou grande parte de sua vida viajando em trabalhos diplomáticos e angariando um grande acervo principalmente sobre o período da colonização portuguesa no Brasil.

Em 1919 Oliveira Limaele visitou o Rio Grande do Norte e o relato de sua visita foi publicado aqui no TOK DE HISTÓRIA (https://tokdehistoria.com.br/2016/02/03/uma-visita-ao-rio-grande-do-norte/ ).

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Manoel de Oliveira Lima – Fonte – www-fernandomachado-blog-br.jpg

Homem dedicado aos livros, ao falecer foi enterrado no cemitério Mont Olivet, em Washington e em sua lápide não consta seu nome, mas a frase “Aqui jaz um amigo dos livros“.

Segundo Thomas Cohen, diretor do acervo “-O objetivo da biblioteca é fornecer acesso a uma rica coleção de materiais impressos e artísticos para a comunidade internacional de pesquisa. Além de colaborar com outras instituições, promover o interesse em Portugal e no Brasil como um novo recurso para pesquisas e ampliar o interesse do público interessado para a pesquisa da colonização e exploração portuguesa no Brasil”.

Ao longo das décadas, Oliveira Lima reuniu milhares de obras, a maioria focada na história, cultura, política e economia portuguesa e brasileira. Amante das fontes originais, Oliveira Lima também colecionou centenas de primeiras edições de livros e manuscritos, incluindo a literatura do antigo Império Brasileiro.

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Uma paisagem brasileira pintada pelo holandês Frans Post em torno de 1669.

Cohen, que é o terceiro diretor da biblioteca e professor associado de história da Catholic University of America, escreveu um guia sobre a coleção e colaborou com especialistas para catalogação da maioria das obras existentes na biblioteca. Como diretor, possui amplo conhecimento do material ali arquivado e de seus conteúdos.

Segundo Cohen “Oliveira Lima era hipermétrope. Ele não apenas coletava livros raros, mas também coisas efêmeras (itens de papel). Então, temos uma grande coleção de panfletos, recortes de notícias, postais… até os guias e menus dos lugares que visitou como um diplomata”.

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Materiais da coleção Oliveira Lima – Fonte – http://publicaffairs.cua.edu/releases/2015/lima-library.cfm

As raridades e memorabilia fornecem uma visão histórica significativa sobre a política, cultura, sociedade e economia da vida portuguesa e brasileira. Constituem a maior parte da coleção desde o primeiro relato escrito da descoberta do Brasil- Portugal reivindicou a posse do Brasil em 1500 – até o primeiro relato escrito da luta pela independência por parte dos brasileiros. Oliveira Lima também inclui relatos de viajantes estrangeiros ao Brasil no início do século XIX, cartas de missionários jesuítas e biografias dos primeiros mártires jesuítas no país.

As cartas, os relatos e os panfletos formam um retrato completo da conquista, da colonização e da história da Igreja Católica em Portugal e nas suas colonias.

Os artefatos religiosos, incluindo pinturas de guerras, figuras religiosas e eventos religiosos, combinados com a coleção de cartas, dão um olhar interessante sobre o colonialismo e à evangelização pelos jesuítas em Portugal e no Brasil. A biblioteca muitas vezes realiza empréstimos de seus materiais para museus em todo o mundo.

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Um retrato do Rei Dom João VI de Portugal em 1808. A biblioteca é o lar de uma coleção de manuscritos, livros raros, panfletos, mapas e artefatos religiosos.

A biblioteca também contém livros e panfletos do século XVII sobre a invasão holandesa em 1624 e sua colonização no norte do Brasil. Possui também materiais sobre a independência brasileira, a ata da primeira assembleia representativa e os registros dos legisladores brasileiros desde 1823. O Brasil declarou sua independência de Portugal em 1822 e essa ação só foi formalmente reconhecida com um tratado assinado pelo Brasil e Portugal no final de 1825, existindo vários materiais no acervo sobre este tratado.

A biblioteca, no entanto, não se limita apenas a livros e outras obras impressas. Possui mapas do século XVIII e abriga uma vasta coleção de aquarelas raras e outras pinturas, incluindo uma paisagem de 1669 pintada pelo mestre holandês Frans Post, que foi o primeiro artista europeu a pintar paisagens das Américas.

Mas a grande notícia é que parte da coleção foi digitalizado e está acessível on-line para visualização pública. Embora a maior parte da coleção ainda não tenha sido digitalizada, muitos dos textos e outros materiais estão disponíveis através do link específico da Biblioteca Oliveira Lima (http://libraries.cua.edu/oliveiralima/) ou através do catalogo online da Washington Research Library Consortium, através do link – http://catalog.wrlc.org/search/index.php

FONTE – http://stcloudvisitor.org/2016/07/12/library-holds-one-largest-collections-portuguese-brazilian-works/

PRINCESA ISABEL: A PRIMEIRA MULHER NO PODER

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As duas são filhas de Pedros. Uma nasceu em 1846; a outra, em 1947. Uma tinha pai brasileiro e mãe estrangeira; a outra, mãe brasileira e pai estrangeiro. Uma veio ao mundo em berço nobre e virou plebeia pela força das armas; a outra nasceu plebeia e empunhou armas antes de virar “nobre”. A primeira terminou sua carreira pública nos anos 1880; a segunda começou a sua nos anos 1980. Uma foi tirada do cargo pela República; a outra ganhou o seu por causa dela. Ambas herdaram o poder: uma do pai imperador, a outra do padrinho presidente. No entanto, embora entre semelhanças e coincidências inversas suas biografias se encontrem nos desvãos da História, coube a nascida em 1846 a primazia de ser a primeira representante do sexo nem-tão-frágil-assim a governar de fato o Brasil independente. Isabel de Orleans e Bragança foi oficialmente Regente do Império em três ocasiões entre 1871 e 1888, durante viagens de Pedro II ao exterior. Tornou-se chefe de Estado em exercício – esquentando o trono para o retorno do pai ausente.

A rigor a rigor, o bastão de pioneira seria da avó da Princesa Isabel, Leopoldina, nomeada chefe do Conselho de Estado e regente interina pelo ainda príncipe D. Pedro quando este viajou a São Paulo em agosto de 1822, véspera da Independência. No fatídico 7 de setembro, data de nascimento do novo país, era Leopoldina quem respondia oficialmente pela direção do governo no Rio de Janeiro, enquanto D. Pedro ainda estava em terras paulistas. Mas, com o marido a poucos dias a cavalo da capital, pode-se dizer que a futura imperatriz apenas fazia o meio de campo enquanto o futuro imperador não retornava para dar as ordens. Já Isabel, com o pai ausente a um ou dois continentes de distância, ficou no cargo por 3 anos e 4 meses – quase um mandato presidencial.

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Não que o tempo a mais e a distância do pai imperador tivessem feito grandes diferenças. Segundo historiadores, a princesa – embora contasse com poderes garantidos pela Constituição de 1824 – não tinha gosto pelo exercício do governo, e ateve-se a um papel mais tradicional para uma mulher do século XIX.

– Ela sempre se encarregou da regência a contragosto, mantendo-se fiel e dócil ao sistema e estilo de governo do seu pai – disse ao GLOBO, de Vancouver, no Canadá, o brasilianista Roderick Barman, historiador do Departamento de História da Universidade da Colúmbia Britânica e autor da biografia “Isabel, Princesa do Brasil”. – Seu marido, o conde d’Eu, é quem escrevia as cartas aos ministros e tomava para si o estudo dos documentos apresentados pelo Gabinete.

Despertada pelo abolicionismo

Mas diferentemente da Presidente Dilmaeleita, que já deu mostras de sobra de sua vontade de tomar nas mãos as rédeas das decisões e teve papel de virtual primeira-ministra no governo Lula, a princesa Isabel teria sempre mostrado apatia em relação ao poder nas duas primeiras regências, em 1871 e 1876. Apenas na terceira, em 1888, com o país inflamado pelo abolicionismo, da qual era uma fervorosa defensora, Isabel teria resolvido exercer de fato suas prerrogativas de regente. E aí fez História com H maiúsculo.

A Princesa Isabel do Brasil, seu marido Gastão de Orléans, Conde d'Eu e o neto Pedro Henrique.
A Princesa Isabel do Brasil, seu marido Gastão de Orléans, Conde d’Eu e o neto Pedro Henrique.

Decidida a apressar a libertação dos escravos, mas encontrando resistência obstinada por parte do chefe do Gabinete, o barão de Cotegipe, a regente finalmente meteu o pé na porta. A gota d’água foi a violenta repressão policial a uma passeata abolicionista no Rio de Janeiro em março de 1888. “Há tempos minhas ideias divergiam das do Ministério”, explicou em carta ao pai, na Europa, relatando como forçou a demissão do Gabinete. “Não me arrependo do que fiz (…) e em consciência não devia continuar com um Ministério, quando eu por mim mesma sentia e estava convencida de que ele não preenchia as aspirações do país nas circunstâncias atuais”. A regente, então, escolheu pessoalmente o novo chefe do Gabinete, João Alfredo, dando-lhe carta branca para agir, e deixando claro que não aceitaria mais protelações.

Uma defensora do voto feminino

No dia 13 de maio de 1888, colocou o trono na linha de tiro ao assinar a Lei Áurea, que aboliu a escravidão no país, mas tirou da monarquia seu último sustentáculo: a aristocracia cafeeira do Vale do Paraíba. Instada pelo marido a não assinar a lei aprovada pelo Parlamento, por seu potencial de perigo à Coroa, Isabel não titubeou: “É agora ou nunca!”. E ao barão de Cotegipe, que ao cumprimentá-la pelo ato, disse que a regente “libertou uma raça, mas perdeu o trono”, a princesa também foi categórica: “Mil tronos tivesse, mil tronos daria para libertar os escravos do Brasil”.

– O movimento abolicionista despertou nela um gosto pelos assuntos públicos – ressalta Barman. – A abolição teria acontecido mais dia menos dia, mas a ação da regente foi indispensável para o desfecho rápido e pacífico da crise.

A Princesa Isabel e seu marido, em foto autografada de 1919, dois anos antes de sua morte.
A Princesa Isabel e seu marido, em foto autografada de 1919, dois anos antes de sua morte.

A abolição renovou o prestígio da monarquia, e a nova Isabel, moldada na luta abolicionista, gostou do resultado que suas ações poderiam trazer ao país. Numa carta ao visconde de Santa Victoria em agosto de 1889, três meses antes do golpe de Estado da Proclamação da República, deixou claras suas intenções para o momento – que nunca chegaria – em que se tornaria imperatriz. Já removida da regência pelo retorno de D. Pedro II em agosto de 1888, a princesa deu seu apoio à indenização dos ex-escravos para que pudessem se estabelecer como agricultores, e também à revolucionária ideia do sufrágio feminino – que nenhum país da época instituíra. “Quero agora dedicar-me a libertar as mulheres do cativeiro doméstico. Se a mulher pode reinar, também pode votar”.

– Ainda há um desconhecimento muito grande sobre quem foi a Princesa Isabel – aponta Bruno de Cerqueira, do Instituto D. Isabel I a Redentora. – É um grande erro falar somente de sua atuação pela Lei Áurea, quando ela foi uma personagem muito mais rica.

Autor – Flávio Henrique Lino

Link – http://jovensnahistoria.blogspot.com.br/2010/11/princesa-isabel-primeira-mulher-no.html

Jornal: O GLOBO Autor:

Editoria: Rio Tamanho: 603 palavras

Edição: 1 Página: 26

Coluna:  Seção:

Caderno: Primeiro Caderno

© 2001 Todos os direitos reservados à Agência O Globo

QUADRINHOS BRASILEIROS

Conheça a história de Ângelo Agostini, o pai da história em quadrinhos no Brasil

Quem não gosta de histórias em quadrinhos? No Brasil, a primeira delas foi publicada em 30 de janeiro de 1869, por um italiano que resolveu se mudar para cá e se naturalizou brasileiro. Seu nome era Ângelo Agostini e a história se chamava As aventuras Nho Quim ou as impressões de uma viagem à corte.

 

A primeira edição de Nho Quim foi publicada em 30 de janeiro de 1869. Clique para ampliar. (foto: Wikimedia Commons)
A primeira edição de Nho Quim foi publicada em 30 de janeiro de 1869. Clique para ampliar. (foto: Wikimedia Commons)

Este ano, comemoramos os 145 anos desse importante lançamento! A publicação contava a história de Nho Quim, um rapaz nascido em Minas Gerais e descrito como um ‘caipira’. Ele foi parar no Rio de Janeiro, onde entrou em contato com a complicada vida social da época – uma civilização que estava se tornando urbana, mas ainda mantinha suas tradições rurais.

Pela ingenuidade de Nho Quim, Agostini fazia críticas ao Império, à Igreja, à desigualdade social, às condições precárias de saúde e à escravidão. Tudo isso sem perder o bom humor!

Ângelo Agostini veio para o Brasil com 16 anos e resolveu ficar por aqui, onde se naturalizou. (foto: Wikimedia Commons)
Ângelo Agostini veio para o Brasil com 16 anos e resolveu ficar por aqui, onde se naturalizou. (foto: Wikimedia Commons)

A história foi publicada na revista Vida Fluminense, no Rio de Janeiro, da qual Agostini era editor. O fato colocou esse italiano não só como pioneiro dos quadrinhos em terras brasileiras, mas também como pioneiro em todo o mundo. É que ele foi um dos primeiros artistas a realizar uma narrativa desenhada em sequência de quadros e com um personagem fixo.

Segundo Marcelo Bolshaw, cientista social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e especialista em quadrinhos, ainda há muito que podemos aprender com Agostini e Nho Quim. “A principal lição é que podemos aliar divertimento e crítica da realidade em uma única narrativa”, diz o especialista. “Agostini não deseja nem retratar o mundo nem reinventá-lo, mas sim representeá-lo com bom humor e inteligência”.

Com seus desenhos, Agostini sempre lutou pela proclamação da república e pelo fim da escravidão. E também se preocupava com as crianças: foi um dos fundadores da primeira revista infantil editada no Brasil, O Tico-tico, cujo primeiro número foi publicado em 1905.

Logotipo da revista O Tico-tico. (foto: Wikimedia Commons)
Logotipo da revista O Tico-tico. (foto: Wikimedia Commons)

A revista era famosa por conter diversas histórias em quadrinhos, tanto brasileiras como estrangeiras. Foi em suas páginas, por exemplo, que o famoso Mickey Mouse apareceu pela primeira vez em nosso país. Em 1956, no entanto, Tico-tico fechou. Mesmo assim, podemos dizer que ela abriu caminho para que, mais tarde, outras revistas infantis ganhassem o Brasil.

Fonte – http://chc.cienciahoje.uol.com.br/quadrinhos-brasileiros/

Autor – Gabriel Toscano, estagiário do Instituto Ciência Hoje

SABINADA

Salvador no séc. XIX - Fonte - http://arquivoetc.blogspot.com/2007/10/um-muulmano-no-brasil-do-sculo-xix.html

INTRODUÇÃO

O Período regencial é visto tradicionalmente como um período de crise, tendo de um lado a elite moderada do sudeste pretendendo consolidar seu modelo de independência, e de outro, as elites regenionais e as camadas populares contestando a centralização, com projetos variados, ou até mesmo sem um projeto político definido. Nesse quadro encaixa-se a SABINADA, ocorrida na Bahia entre 1837 e 38.
O texto que se segue, de Júlio José Chiavenato, procura explicar esse movimento de contestação, comparando-o inclusive com outros movimentos da época.

O MOVIMENTO

A independência oficial do Brasil, prevalecendo sobre a libertação sonhada pelos patriotas – para usar uma palavra em voga na época – frustrou grande parte da população. A independência oficial sedimentou uma estrutura econômica e política herdada da Colônia, pouco alterando a situação das massas e, por adotar um centralismo autoritário, pressionava também o sistema político nas províncias.
A oportunidade perdida de democratizar a prática política, de um lado, e a insistência em manter inalterado o instituto da escravidão, de outro, praticamente fizeram aflorar todo o anacronismo do Estado brasileiro, provocando várias reações. Entre elas a Sabinada, na Bahia, e a Farroupilha, no Rio Grande do Sul.
Os sabinos, mesmo manifestando fidelidade monárquica, proclamaram uma república provisória. Marcavam seu desejo de separação do govemo central respeitando o rei-menino, como demonstra seu programa, proclamado quando tomam Salvador em 7 de novembro de 1837:
“A Bahia fica desde já separada, e independente da Corte do Rio de Janeiro, e do Govemo Central, a quem desde já desconhece, e protesta não obedecer nem a outra qualquer Autoridade ou ordens dali emanadas, enquanto durar somente, a menoridade do sr. dom Pedro II.”
Apesar da aparente participação popular na Sabinada, prevalecia entre os revoltosos a classe média. Foi a insurreição mais discutida da história do Brasil, enquanto se processava. Curiosamente, apesar de tanta discussão nos inúmeros jomais baianos da época, hoje é geralmente desprezada pelos historiadores.
Há pontos em comum entre os sabinos e os farrapos. O líder farroupilha Bento Gonçalves esteve preso em Salvador, onde influiu sobre o ânimo dos baianos. Ao contrário dos gaúchos, porém, os baianos agiram menos e falaram mais.
Esta constatação não diminui os sabinos: marca o tom das duas revoltas. Identificavam-se principalmente com o anticentralismo imperial: os sabinos, mais retoricamente ideológicos, e os farrapos, mais pragmáticos.
É sintomático que um dos motivos imediatos da eclosão do movimento baiano seja a fuga de Bento Gonçalves da cadeia, facilitada por seus companheiros de idéias em Salvador. É que o líder baiano, o médico Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira, que deu o nome à insurreição, cumprira pena no Rio Grande do Sul: um degredo por assassinar o político conservador Ribeiro Moreira, em 1834. No Rio Grande, Sabino conviveu com as idéias farroupilhas e ficou amigo de Bento Gonçalves, que, por sua vez, seguiu preso para a Bahia em 1837.

Imagem do seculo XI, mostrando Salvado ao fundo - Fonte - http://multirio.rio.rj.gov.br/historia/modulo02/rev_norte.html

Só em 1836 é que Sabino voltara à Bahia. Se as idéias se assemelham, a prática é outra. Os baianos são letrados e propagam seu ideário pelos jornais. Tentam convencer o povo da justiça de sua causa. E lutam, pode-se dizer, com uma elegância revolucionária clássica – se isso existe… Os gaúchos falam para justificar suas ações, as palavras pouco têm que ver com a realidade e, na guerra, desprezam tudo o que impede a vitória.
Paradoxalmente, são os gaúchos que conseguem mais povo na sua guerra: talvez pela visão senhorial da sociedade, encarando os pobres, especialmente os negros escravos, como massa de manobra a quem não devem explicações e obrigam a seguir seus donos.
A Sabináda obtém a vitória em 7 de novembro de 1837, com a adesão de parte das tropas do govemo. As autoridades imperiais fogem de Salvador e é proclamada a república. Os sabinos não conseguem, porém, convencer o interior da Bahia, especialmente o Recôncavo, a aderir ao movimento. São os grandes senhores do Recôncavo que ajudam o govemo imperial a sufocar a insurreição.
O Império contra-ataca e vence, em 15 de março de 1838. O comandante Crisóstomo Calado excede-se na repressão, deixando mais de mil mortos e três mil feridos. Incendeia Salvador e joga nas casas em fogo os defensores da república baiana. Muitas vezes armavam fogueiras para queimar vivos os vencidos. Os que escapam com vida são julgados pelos grandes senhores rurais, os júris de sangue.
Se gente do povo é queimada, só três dos líderes são condenados à morte. Mas ninguém é executado: o próprio Sabino tem a pena comutada para degredo intemo e morre pacificamente em Mato Grosso.
Para alguns historiadores parece estranho que um movimento como a Sabinada, que não chegou a apresentar o perigo de autonomia popular como a Cabanagem, por exemplo, tenha merecido tão violenta repressão. Bem mais violenta que a dedicada aos farrapos, que ameaçaram mais gravemente a coesão do Império.
Porém, se na Sabinada não houve a mesma participação popular da Cabanagem, nem o vigor da Farroupilha, ela foi muito mais nítida ideologicamente. As idéias que a nortearam, quase todas da Revolução Francesa, eram veiculadas nos jomais por intelectuais competentes, dentro de uma tradição retórica que ensaiava impor-se na práxis política. Com os farrapos era possível um acordo – Porongos à parte, como veremos – mas com os sabinos era diferente: eles tinham convicção ideológica.

Militares na época do movimento - Fonte - http://medicosilustresdabahia.blogspot.com/2011_01_01_archive.html

Talvez a “vingança” se explique pela perda de controle dos líderes sobre os setores mais “franceses” da insurreição. No decorrer da luta surgiram correntes agredindo a aristocracia, divulgando na imprensa suas perigosas idéias. Estas idéias são bem marcadas num dos hinos publicados:
Defende o altar e o trono,
Derruba a aristocracia.
Porém essa confusão ideológica – altar e trono sem aristocracia – não significa ascensão do povo. É uma reação contra o apoio que a aristocracia baiana dá ao lmpério, fornecendo gente para sufocar a rebelião. Nem por isso deixou de assustar as classes dominantes, que agiram para “cortar o mal pela raiz”.
Mais uma vez a história repete-se como tragédia: uma lição do poder, com sua pedagogia do terror, para que seu núcleo ideológico não seja posto em questão.
Os fatos, às vezes, são menos importantes que sua interpretação – como ousadamente propôs Edward Carr, em um dos seus ensaios sobre histórias. As idéias perrnanecem; os fatos podem ser sepultados em documentos… que pouco dizem, se não são severamente interrogados, como ensina o historiador Marc Bloch.
Será que por falarem melhor do que agem, os sabinos deixam uma lição mais profícua ao povo?
Será isto que o Império, melhor que os historiadores, entendeu?

Texto extraído do livro “As lutas do povo brasileiro” Júlio José Chiavenato da Ed. Moderna

Fonte – http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=13