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HISTÓRIA DE LAMPIÃO DEVE GANHAR TRILOGIA GRAVADA NOS MOLDES DE O SENHOR DOS ANÉIS

4-Lampião gostava de mostrar-se um homeme inteligente perante as câmeras
Lampião

Diretor planeja filmar simultaneamente os três longas que irão compor épico nordestino

Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, já foi retratado algumas vezes no cinema, como em Baile Perfumado (1997) e A luneta do tempo (2016). E, no próximo ano, o mais célebre dos cangaceiros deve ganhar a tela grande em projeto ambicioso: uma trilogia gravada no Sertão nordestino, com lançamento do primeiro filme em 2018. 

“É um resgate histórico”, diz o diretor estreante Bruno Azevedo, que já atuou como assistente de direção e esteve à frente de curtas e documentários. “A ideia é fazer como Peter Jackson em O senhor dos anéis e O hobbit“, explica o cineasta sobre a proposta de gravar os três longas simultaneamente, como ocorreu nas filmagens dos épicos inspirados na obra de J.R.R. Tolkien. 

E, assim como nas duas séries de fantasia, a produção dos filmes de Lampião deve ser de grandes proporções. “Somente na parte técnica, deve envolver mais de 300 pessoas”, afirma Azevedo, que espera iniciar as filmagens ainda em 2017, para estrear o primeiro filme a tempo do aniversário dos 80 anos de morte de Virgulino Ferreira, em junho do próximo ano. A intenção é lançar segunda e terceira partes em 2019, com alguns meses de diferença. 

O diretor pretende rodar os filmes nos locais por onde o bando de Lampião passou, incluindo a cidade natal do cangaceiro, Serra Talhada, no sertão de Pernambuco. Atualmente a trilogia está em desenvolvimento e a pré-produção deve ter início em setembro.

EXISTE NO YOU TUBE UMA ENTREVISTA DE 2015 SOBRE ESTE FILME, COM O DIRETOR.

FONTE – http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2017/03/22/internas_viver,695372/historia-de-lampiao-deve-ganhar-trilogia-gravada-nos-moldes-de-o-senho.shtml

O GRANDE ATOR CRISTOPHER LEE E A SUA PARTICIPAÇÃO NA II GUERRA

Christopher Lee 1922 - 2015 - Fonte - www.independent.co.uk
Christopher Lee 1922 – 2015 – Fonte – http://www.independent.co.uk

Christopher Frank Carandini Lee, ou simplesmente Christopher Lee, nasceu em Belgravia, na área de Westminster, Londres, em 27 de maio de 1922. Era filho da bela Condessa Estelle Carandini di Mari Sarzano, de origem italiana, e do Tenente-Coronel Geoffrey Trollope Lee, um condecorado oficial inglês que serviu na Primeira Guerra Mundial.

Os pais de Lee se separaram quando ele era ainda muito jovem, então ele permaneceu sob os cuidados de sua mãe e foram viver na Suíça. Depois sua família mudou-se para Londres e sua mãe uniu-se ao banqueiro Harcourt “Ingle” Rose, tio do escritor Ian Fleming, criador de James Bond.

Anos depois Lee estudou no Eton College, onde ganhou uma bolsa de estudos para se especializar em Estudos Clássicos. Grande fã dos esportes, participou de equipes de cricket, futebol, hóquei, squash e natação. Ao terminar seus estudos começou a excursionar por vários países europeus. De acordo com sua própria autobiografia, testemunhou em junho de 1939 a morte de Eugen Weidmann, último homem executado publicamente pela guilhotina na França.

Lee durante a Segunda Guerra Mundial - Fonte - www.reddit.com
Lee durante a Segunda Guerra Mundial – Fonte – http://www.reddit.com

Como muitos de sua geração Christopher Lee lutou na Segunda Guerra Mundial. No entanto, a sua história é muito mais fascinante do que a maioria dos soldados que lutaram e está envolta até hoje em mistério.

Primeiramente ele se apresentou no corpo de voluntários que apoiaram a Finlândia na Guerra de Inverno que este país lutou contra a União Soviética, embora a sua unidade não chegasse a entrar em combate. Lee então se alistou na RAF – Royal Air Force, onde recebeu treinamento como piloto, mas eventualmente alguns problemas de visão o deixaram longe de um caça. Lee foi então designado para o 260 Squadron RAF, na África do Norte. Em uma ocasião nesta região Lee quase foi morto quando o aeródromo do seu esquadrão foi bombardeado pelos alemães.

Um detalhe interessante – este 260 Squadron RAF era a mesma unidade militar onde serviu o Flight Sergeant Dennis Copping, que em 1942 despereceu no deserto da África do Norte com seu caça P-40. Este avião foi encontrado no início de 2012 por uma equipe de prospecção de petróleo polonesa e foi destaque na mídia mundial. Para saber mais veja sobre a história deste piloto e seu P-40, clique aqui https://tokdehistoria.com.br/2012/06/09/aviao-p-40-da-segunda-guerra-mundial-encontrado-no-deserto-do-saara-70-apos-seu-desaparecimento/

Caças P-40 do 260 Squadron da RAF - Fonte - www.acesofww2.com
Caças P-40 do 260 Squadron da RAF – Fonte – http://www.acesofww2.com

Lee mencionou que em 1941 foi designado para operações especiais e de inteligência no Special Operations Executive (SOE), onde teve um papel ativo, a tal ponto que muitas das suas missões ainda continuam classificados como secretas. Atuou junto ao Long Range Desert Group (LRDG-Grupo de Longo Alcance do Deserto), uma unidade de combate especial que atacava a retaguarda inimiga com jipes e caminhões, utilizando o deserto para deslocamento e proteção.

Muito embora os detalhes sobre as informações das operações em que Lee participou permanecem até hoje classificadas como secretas e sem o público ter acesso aos arquivos, alguns registros mostram os feitos de Lee atrás das linhas inimigas, principalmente destruindo aeródromos da temida Luftwaffe. Lee nunca gostou muito de comentar sua participação na Guerra.

Muitas décadas mais tarde, durante as filmagens da série cinematográfica O Senhor dos Anéis, em uma cena dirigida por Peter Jackson, o veterano de guerra comentou que “esse não é o som emitido por um ser humano ao morrer com uma facada nas costas”. Jackson tomou isso como uma piada, mas Lee comentou que tinha servido nos serviços de inteligência e ações de combate especiais durante a guerra e teve de matar pessoas. Em meio à estupefação geral no estúdio, Peter Jackson decidiu pesquisar e investigar e descobriu que Lee falou a verdade.

Lee atuando como Saruman - Fonte - www.theguardian.com
Lee atuando como Saruman – Fonte – http://www.theguardian.com

Após a Campanha no Norte da África, a unidade militar de Lee seguiu para a Sicília e depois o sul da Itália. Por esta época Lee já havia sido acometido seis vezes com malária e testemunhou a Batalha de Monte Casino. Nessa época quase morreu em um acidente, quando o avião em que estava caiu durante a decolagem.

Em relação aos últimos meses de seu serviço, Lee, que falava fluentemente francês e alemão, além de outras cinco línguas, foi destacado para uma unidade que rastreava e caçava criminosos de guerra nazistas. 

Nos últimos anos Lee marcou muitos jovens em todo planeta com a sua interpretação do mago Saruman em “O Senhor dos Anéis”, mas poucos percebem o quanto ele estava bem preparado para o papel.

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Lee tem uma longa história com os livros de John Ronald Reuel Tolkien, conhecido internacionalmente por J. R. R. Tolkien. Depois de deixar a RAF em 1945, quando “A Sociedade do Anel“, foi publicado, Christopher Lee leu este trabalho com muita atenção e também teve a experiência de conhecer o próprio Tolkien, sendo o único membro de todo o elenco de “O Senhor dos Anéis” a ter tido este privilégio.

Lee narrou que conheceu o escritor em um pub e comentou que Tolkien era um homem de aspecto benigno, que fumava um cachimbo, aparentando ser um típico inglês do seu tempo e um gênio de grande conhecimento intelectual.

Christopher Klee era, em todos os sentidos, um homem do mundo. Bem versado nas artes, política, literatura, história e ciência. Ele era um estudioso, um cantor, um contador de histórias extraordinárias e, é claro, um ator maravilhoso. Sua carreira como ator começou em 1948 com o filme “Corridor of Mirrors” e seu último trabalho foi no filme“The 11th” em produção e que está previsto a ser lançado ainda em 2016.

Conhecido por sua versatilidade e longevidade cinematográfica, isso trouxe a Lee um impressionante recorde – o de ator mais prolífico. Sua participação no cinema soma o record de 207 filmes no cinema, em filmes de sucesso como Star Wars, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça e vários filmes de Conde Drácula. Estas interpretações deste personagem de terror o tornaram mundialmente famoso. Ele repetiu o personagem em onze filmes, o primeiro feito em 1958.

Dono de uma voz forte e impressionante, Lee também atuou como cantor de opera e inusitadamente de Heavy Metal. Tendo feito dueto com Fabio Lione, vocalista do Rhapsody of Fire.

Lee recebendo do principe Charles o título de Cavaleiro Real - Fonte - www.reddit.com
Lee recebendo do príncipe Charles o título de Cavaleiro Real – Fonte – http://www.reddit.com

Em 2009, recebeu o título de Cavaleiro Real, a mesma ordem que o professor Tolkien fez parte em 1972.  Em 2011 Sir Christopher Lee recebeu o prêmio BAFTA em reconhecimento a sua grande carreira e foi aplaudido com louvor.

Finalmente, no dia 7 de junho de 2015, aos 93 anos, descansou.

Fontes – http://tolkienbrasil.com/noticias/sobre-filmes/sir-christopher-lee-falece-aos-93-anos/

https://www.fayerwayer.com/2015/06/muere-el-legendario-actor-y-agente-secreto-de-la-segunda-guerra-mundial-cristopher-lee/

PELOS CAMINHOS DE LAMPIÃO

11- Após a derrota em Mossoró, o bando em Limoeiro do Norte-CE

DOCUMENTÁRIO “CHAPÉU ESTRELADO – OS CAMINHOS DE LAMPIÃO NO OESTE POTIGUAR” COMEÇARÁ SUAS FILMAGENS EM BREVE

Yuno Silva – Repórter, jornal Tribuna do Norte, edição de 10 de abril de 2015

A passagem meteórica de Virgulino Ferreira da Silva pelo Rio Grande do Norte, em junho de 1927, vai muito além da histórica derrota sofrida em Mossoró. Eterno rei do cangaço, temido e amado por muitos, Lampião circulou 96 horas por terras potiguares deixando um rastro de violência que o tempo não foi – e muito provavelmente não será – capaz de apagar. É no encalço dessa rota, que durou apenas quatro dias, que o documentário em longa-metragem “Chapéu Estrelado – Os caminhos de Lampião no Oeste Potiguar” cai na estrada a partir do dia 22 de abril. A data de lançamento ainda não está definida, mas a intenção da equipe é lançar ainda este ano.

Com direção do cineasta carioca Silvio Coutinho, roteiro do escritor e artista plástico Iaperi Araújo, produção executiva do crítico de cinema Valério Andrade (FestNatal) e pesquisa de Rostand Medeiros, o filme refaz o caminho que o bando de Lampião (1898-1938) trilhou entre 10 e 14 de junho de 1927 pelo interior do Ceará, Paraíba e RN. Período que marcou o início do fim do reinado do Capitão Virgulino pelo Sertão nordestino. 

Tribuna do Norte, edição de 10 de abril de 2015
Tribuna do Norte, edição de 10 de abril de 2015

A proposta do ‘road movie’, cujas imagens serão capturadas com equipamento de tecnologia 4k (resolução quatro vezes superior ao padrão ‘Full HD’), é registrar a memória de herdeiros diretos, gente que está na faixa dos 80 anos, daqueles que testemunharam episódios envolvendo o famoso cangaceiro. Entre os depoimentos, imagens antigas e comentários de historiadores e estudiosos do tema.

scan7Sem amparo de leis de incentivo ou editais, com alguns apoios locais, o documentário será rodado de 22 de abril a 6 de maio na zona rural de cidades como Luis Gomes, Major Sales, Marcelino Vieira, Antônio Martins, Caraúbas, Apodi, Felipe Guerra, Governador Dix-Sept Rosado, Mossoró e Baraúnas – em 1920 o caminho dos cangaceiros atravessava seis municípios, hoje são 19.

“Nosso ponto de partida será a fazenda de Ipueira, em Aurora no Ceará, onde Lampião foi acolhido pelo Coronel Isaías Arruda. Foi lá que ele conheceu o pistoleiro (e dublê de cangaceiro) Massilon, que seria seu guia pelo RN. O alvo do bando era Mossoró”, disse Rostand Medeiros, escritor e autor da pesquisa que embasou o projeto “Nas Pegadas de Lampião” encomendada pelo Sebrae-RN em 2010. Saindo de Aurora, o filme segue Lampião pela Paraíba, sobe a ‘tromba do elefante’ e termina na cidade de Limoeiro do Norte também no CE.

Dinheiro e vingança

“A resistência em Mossoró é um fato histórico muito importante, mas a curta passagem de Lampião pelo RN vai além”, garante Rostand, que já percorreu todo o percurso de moto para se aproximar da trilha original feita à cavalo. O pesquisador ressalta que Lampião tinha pretensões puramente financeiras na empreitada, enquanto Massilon e o Cel Isaías Arruda também tinham motivação pessoal, política e de vingança. “Quando Virgulino percebeu que estava sendo usado era tarde, o estrago estava feito. O plano dos cangaceiros era subir sem alarde até Mossoró, queriam manter o elemento surpresa, mas Massilon tocou o terror logo no primeiro povoado (Canto do Feijão, atual Santa Helena na PB) matando o delegado do lugar”.

Jornal de Caicó repercutindo o ataque de Lampião e seu bando a Mossoró
Jornal de Caicó repercutindo o ataque de Lampião e seu bando a Mossoró

Sobre o combate em Mossoró, Rostand informa que há um entendimento de que Lampião não foi para a linha de frente propriamente dita, e sim enviou subgrupos comandados por Massilon (que conseguiu fugir do massacre), e os cangaceiros Sabino, Colchete e Jararaca – este último capturado, executado e que hoje é tido como santo para devotos que visitam seu túmulo todo Dia de Finados na capital do Oeste.

Em 2010, realizando uma consultoria para o SEBRAE-RN, percorri junto com o amigo Solón Rodrigues Netto o caminho de Lampião no Rio Grande do Norte, baseando a rota no trabalho de Sergio Dantas,  Já naquele período este trabalho havia sido notícia no jornal natalense Tribuna do Norte
Em 2010, realizando uma consultoria para o SEBRAE-RN, percorri junto com o amigo Solón Rodrigues Netto o caminho de Lampião no Rio Grande do Norte, Já naquele período este trabalho havia sido notícia no jornal natalense Tribuna do Norte.

“Mossoró utiliza, com razão, muito a memória desse ataque, mas tem muita coisa no caminho”, avisa Rostand, citando o exemplo da igreja de São Sebastião construída no alto da Serra de Veneza, em Antônio Martins, por pessoas que conseguiram escapar do bando e que prometeram rezar uma missa anualmente se sobrevivessem.

Diretor Silvio Coutinho - Fonte festnatal2013.blogspot.com
Diretor Silvio Coutinho – Fonte festnatal2013.blogspot.com

“Até hoje essa missa é rezada”, acrescenta o pesquisador, que ainda não conhece Silvio Coutinho pessoalmente, mas tem trocado ligações telefônicas frequentes com o diretor que chegam a durar horas.

Iaperi Araújo 

O roteiro de Iaperi Araújo, que também assina parte da trilha sonora original, teve como base, além das pesquisas, os três livros publicados por ele sobre o assunto: “A Cabeça do Rei – A morte e a morte de Virgulino Ferreira da Silva Lampião” (2007), “No Rastro dos Cangaceiros” (2009) e “Angico 1938” (2013).

O escritor e artista plástico Iaperi Araújo é o roteirista de “Chapéu Estrelado – Os caminhos de Lampião no Oeste Potiguar”
O escritor e artista plástico Iaperi Araújo é o roteirista de “Chapéu Estrelado – Os caminhos de Lampião no Oeste Potiguar”

“Há um tempo escrevi um roteiro de ficção sobre Lampião no RN. Acabou não vingando, aí surgiu essa oportunidade do documentário. Quando Silvio Coutinho esteve em Natal, em 2013, para o FestNatal, conversamos e ele ficou muito animado com a ideia”, lembrou Iaperi. “Pediu o básico do básico (passagem aérea, hospedagem e alimentação) pois acredita no potencial do projeto”.

Visão do Diretor

“Não conhecia a dimensão dessa passagem de Lampião aí pelo RN, fiquei fascinado com o que ouvi e me ofereci para ajudar a levar essa história para o cinema”, contou o diretor Silvio Coutinho por telefone ao VIVER. “Estamos fazendo tudo com muito cuidado, muito carinho. O projeto está sendo conduzido com seriedade e acredito muito nesse filme”.

Coutinho adiantou que o formato do documentário, que conta com parceria da produtora Locomotiva Cinema de Arte (RJ), será moderno, dinâmico. “Vamos explorar bastante a paisagem dos três estados onde vamos filmar (CE, PB e RN) e ouvir herdeiros dessa memória pelo caminho”.

A produção executiva deste documentário esta a cargo de Valério Andrade, crítico jornalista e diretor do Festnatal.
A produção executiva deste documentário esta a cargo de Valério Andrade, crítico jornalista e diretor do Festnatal.

O cineasta carioca ressalta que o prioridade “máxima” é que a primeira exibição pública seja no RN, “pelo menos” em Natal e Mossoró.  “pelo menos”. O plano é lançar ainda em 2015, mas a data não foi definida. “Depois do lançamento, e antes de chegar ao circuito comercial, pretendemos fazer o circuito de festivais nacionais e internacionais. O cangaço é um tema internacional e continua atual, vide o filme ‘A Luneta do Tempo’, de Alceu Valença, que aborda o cangaço de forma lúdica e poética”

Em 2010, percorrendo o caminho de Lampião no RN e entrevistando aqueles que tinham historias inesquecíveis daquele junho de 1927, que o Rio Grande do Norte jamais esquecerá.
Em 2010, percorrendo o caminho de Lampião no RN e entrevistando aqueles que tinham historias inesquecíveis daquele junho de 1927, que o Rio Grande do Norte jamais esquecerá.

Ele destaca que, apesar de contar com apoio de instituições potiguares, grande parte do investimento é próprio. “Apostamos na repercussão do filme, por isso resolvemos rodar sem esperar por editais e captação via lei de incentivo. Tudo para não perder, como diz Iaperi, ‘o trem da história’. Essa memória da passagem de Lampião pelo RN ainda está muito impregnada nas pessoas, na paisagem, e através do cinema podemos compartilhar com um público maior”.

Colaborou: Cinthia Lopes – editora 


AOS LEITORES E VISITANTES DO BLOG TOK DE HISTÓRIA – DEVIDO A MINHA PARTICIPAÇÃO NESTE DOCUMENTÁRIO, FAREMOS UMA PAUSA NAS PUBLICAÇÕES DO NOSSO BLOG. CONTAMOS COM A COMPREENSÃO DE TODOS E EM BREVE VOLTAREMOS.

UM GRANDE ABRAÇO!

ROSTAND MEDEIROS

“AOS VENTOS QUE VIRÃO”, UTILIZA O CANGAÇO PARA RETRATAR UM NORDESTE EM TRANSFORMAÇÃO

Fonte - http://www.guilhermefernandes.com/2014/07/aos-ventos-que-virao-critica.html
Fonte – http://www.guilhermefernandes.com/2014/07/aos-ventos-que-virao-critica.html

Após ser supervalorizado e, depois, deixado de lado, o cangaço volta às telas de cinema pelas mãos de Hermano Penna com Aos Ventos Que Virão. O cineasta cearense, conhecido por Sargento Getúlio, de 1983, parte de uma premissa bastante interessante para seu novo trabalho, qual o destino de um cangaceiro depois da morte de Lampião, apresentando assim um leve panorama da situação sócio-política do nordeste na primeira metade do século XX. Em uma pequena cidade, mais precisamente Poço Redondo, no interior de Sergipe, o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, foi assassinado.

Com a sua morte, morrem também o Cangaço e uma parte da história do Brasil. Tem início uma perseguição aos cangaceiros remanescentes, que não possuem mais uma liderança e nem pra onde ir. Mas o jovem Zé Olimpio (Rui Ricardo Diaz) decide mudar sua história, ele busca se casar com sua noiva Lucia, vivida por Emanuelle Araújo, e viver tranquilamente na cidade de Poço Redondo, em Sergipe. Porém, ele logo percebe que isto é impossível, já que o Sargento Isidoro (Edlo Mendes), assim como grande parte dos policiais do nordeste, está disposto a matar todos que participaram do bando de Virgulino Ferreira.

Emanuelle Araújo em cena de "Aos Ventos que Virão", de Hermano Penna
Emanuelle Araújo em cena de “Aos Ventos que Virão”, de Hermano Penna 

Assim, o casal decide largar tudo e tentar a vida em São Paulo. O Cangaceiro acaba se somando aos milhares de nordestinos que migram para o sudeste e o centro-oeste brasileiro e acaba indo trabalhar na construção civil. No sudeste, Olimpio percebe que mesmo não sofrendo os mesmos riscos de antes, sua vida não tem tanta possibilidade de melhorar, principalmente por conta do preconceito dos empresários contra os jovens nordestinos. E é neste momento que a luta de Zé Olímpio começa. Seus inimigos, o preconceito, um subemprego e a intolerância.

Com a morte de seu pai, Zé Olimpio retorna a sua cidade e, diante dos desmandos dos políticos locais e já sem o grande risco de perder a vida, decide ficar e entrar para a política. Porém, ele logo percebe que a vida na política não é muito diferente daquela que tinha no bando de Lampião. É quando descobre a corrupção e a injustiça, ao ver um juiz impedir que seus eleitores possam votar. Revoltado, ele passa a ter atitudes agressivas como protesto. No site http://brcine.com.br/especial/critica/aos-ventos-que-virao/ comenta que o principal destaque de Aos Ventos Que Virão fica com o trabalho de Penna com os atores. As interpretações, com toques teatrais, dá uma leveza ao filme que não traz nenhum grande recurso.

O diretor e as crianças do sertão
O diretor e as crianças do sertão 

Os diálogos, principalmente no início da trama, ajudam a cativar o espectador para a história de amor entre Zé Olímpio e Lucia, e pelo ímpeto do herói em sempre ajudar os seus conterrâneos. No entanto, o filme acaba não segurando o ritmo e vai perdendo a força com o tempo. Se as atuações e a proposta do filme animam, a forma como é conduzido deixa a desejar, pela quantidade de temas que acabam sendo contemplados. Aos Ventos Que Virão peca por tentar transformar a história de Zé Olimpio em uma saga e não segurar com a mesma força do início, principalmente pela dificuldade de apresentar ao espectador as passagens de tempo.

Em momentos, o público é surpreendido em um ou outro dialogo que determinada cena se passa anos após a cena anterior, causando certa confusão na compreensão geral. Mesmo com a ousadia de tentar contar a saga de um homem durante décadas, não se pode dizer que Aos Ventos Que Virão seja um filme pretensioso, pelo contrário. E é justamente a simplicidade do projeto que acaba conquistando o espectador que acompanha as idas e vindas de Zé Olimpio.

Com “Aos Ventos Que Virão”, Hermano Penna mostra que o sertão ainda é relevante e que existem boas historias para serem contadas sobre nosso povo. Basta que tenhamos coragem, compromisso com a verdade e estômago forte para encararmos nossos próprios contrassensos.

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Filme: Aos Ventos Que Virão Direção: Hermano Penna 2014, Brasil, 94′, Drama Roteiro: Hermano Penna, Jaqueline Tavares, Paulo Sacramento Elenco: Rui Ricardo Diaz, Emanuelle Araújo, Luis Miranda, Lucio Tranchesi, Edlo Mendes, Marat Descartes, Francisco Gaspar Hermano Penna responde tambem pelo roteiro de Aos ventos que virão, que estreou dia 24 de julho no Espaço Itaú de Cinema, em São Paulo. É conferir!

Fontes – http://brcine.com.br/especial/critica/aos-ventos-que-virao/

http://www.itaucinemas.com.br/novidade/477-Aos-Ventos-que-Viraordquo_-de-Hermano-Penna_-retrata-um-nordeste-em-transformacao

http://www.guilhermefernandes.com/

A ENTREVISTA DE GLAUBER ROCHA COM ZÉ RUFINO, O MATADOR DE CORISCO

O cangaceiro Corisco

Autor – Rostand Medeiros

Como um grande apreciador da sétima arte e um curioso sobre a história do cangaço, seria inevitável que um dia eu viesse a assistir as obras cinematográficas de Glauber Rocha, onde este baiano utilizou o cangaço como parte de suas temáticas.

Obras como “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e o “Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, se não foram os primeiros filmes a mostrar este fenômeno de banditismo, certamente foram películas marcantes, principalmente fora do Brasil.

Jornal “Diário de Notícias”, edição de 21 de fevereiro de 1960

Eu sempre me perguntei de onde veio a inspiração para Glauber Rocha ter criado estas obras. Perguntava-me que tipo de envolvimento ele teve com livros clássicos sobre o assunto? Ou quantas outras películas cinematográficas sobre o cangaço marcaram a sua mente para realizar estes trabalhos?

Um tempo atrás chegou as minhas mãos a edição número 30, da “Revista da USP”, onde nas páginas 290 a 306, a professora Josette Monzani, da Universidade Federal de São Carlos, trás um interessante artigo intitulado “Glauber e a Cultura do Povo” e eu encontrei uma parte da resposta que desejava.

Glauber Jornalista?

A acadêmica aponta que para Glauber Rocha realizar as suas obras ele teria reunido um levantamento da visão popular do cangaço. O cineasta teria utilizado cordéis, recortes de jornal e cantigas para compor personagens marcantes como Corisco, interpretado por Othon Bastos e Antônio das Mortes, conduzido pelo ator Mauricio do Valle.

Glauber Rocha – Fonte – http://www.omni-bus.com

Além do material documental, a autora do artigo apontava que Glauber Rocha utilizou de “entrevistas” para criar seus trabalhos.

Mas que entrevistas eram estas?

Então descobri que em 1960, o irrequieto Glauber Rocha, então com 21 anos de idade, enfrentou os ainda duros trajetos em direção a cidade baiana de Jeremoabo, como repórter do jornal “Diário de Notícias”, de Salvador, onde realizou uma interessante entrevista com um dos mais eficientes caçadores de cangaceiros, o oficial da polícia baiana José Rufino.

Achei que realmente eu precisava ler este material.

Havia no artigo da professora uma reprodução fotográfica da reportagem do jornal “Diário de Notícias”. Mas, infelizmente, como é comum em obras de cunho acadêmico, a foto estava com uma resolução tão ridícula que impossibilitava a visualização. Assim desisti de conhecer momentaneamente um pouco mais daquele trabalho.

José Osório de Farias, o Zé Rufino – Fonte – http://blogdodrlima.blogspot.com

Entretanto, mesmo sem ter acesso ao material, achei fantástico descobrir que Glauber havia largado o conforto da beira mar de Salvador e encarou poeira, sol, desconfiança e inúmeras dificuldades para entrevistar o próprio José Rufino, ou Zé Rufino, o comandante de volante que matou o cangaceiro Corisco.

Um Início com Muita Desconfiança

Tempos depois fui a Salvador, cidade que adoro, onde tive a oportunidade de procurar com calma o exemplar do jornal “Diário de Notícias” e finalmente foi possível ler e digitalizar a dita reportagem.

Igreja Matriz de São João Batista, em Jeremoabo, Bahia – Fonte – Coleção do autor

Chama logo a atenção no texto que Glauber não seguiu para este trabalho jornalístico com no máximo um fotógrafo, como seria de esperar na função de repórter. Ele foi a Jeremoabo com mais três amigos.

Além do futuro diretor de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, estavam juntos o cineasta Trigueirinho Neto, um paulista radicado na Bahia que naquele ano lançaria seu único longa-metragem, “Bahia de todos os santos”.[1]

O ator baiano Geraldo Del Rey – Fonte – http://www.filmologia.com.br

Outro membro era o ator Geraldo Del Rey, um baiano da cidade de Ilhéus, que em 1960 já tinha participado de dois trabalhos cinematográficos e era considerado um dos mais promissores atores que atuavam no chamado “Ciclo Baiano” de cinema.[2]

Finalmente entre os membros da comitiva de Glauber em Jeremoabo estava o jovem acadêmico Antônio Guerra.[3]

Não é para menos que os quatro amigos fossem inicialmente recebidos com muita reserva e desconfiança por parte de Zé Rufino.

Enfim, depois de tudo que Rufino havia feito na vida de caçador e matador de cangaceiros, receber a visita de um grupo de quatro homens desconhecidos, certamente faria o ex-policial imaginar que aquilo poderia ter mais jeito de ser uma emboscada do que uma entrevista.[4]

A desconfiança foi desfeita quando Glauber falou que tinha como um amigo comum do antigo lutador das caatingas, um membro da família Sá, de forte influência e tradição política na região de Jeremoabo. A partir daí o guerreiro sertanejo “Deu confiança”, nas palavras de Glauber e desandou a contar sua incrível história.

Zé Rufino e a sua esquerda o ex-rastejador ““Bem-te-vi”, na década de 1960 – Fonte – Coleção do autor

Rufino é descrito como sendo “Alto, queimado pelo fogo do sol nordestino, corpo rijo, dobrando a casa dos cinquenta (anos)”.

Foram encontrar a lendária figura na salinha de sua casa, de calça, paletó sem gravata e fumando um cigarro atrás do outro. Afirmou o irrequieto cineasta que Zé Rufino era um homem bem estabelecido em Jeremoabo, “Com boas fazendas e duas mil cabeças de gado”.

O cineasta nascido em Vitória da Conquista afirmou que a patente do pernambucano Zé Rufino era a de major e assim o designou durante toda a entrevista.

E o major foi logo adiantando que;

-Conheço esse mundo com a palma da mão. Tirava 18 léguas na perna e nunca soldado meu se deitou para fazer fogo. A briga era em pé e eu gostava de lutar com o velho – o velho é Lampião, cuja a sombra lendária continua a desfilar pelas serras e campos do Nordeste-

Um Repórter, ou Diretor de Cinema?

Apesar de fazer a função de repórter, Glauber sempre foi um cineasta e nas letras da reportagem ele já qualificava Zé Rufino como um “-Um ator perfeito”.

A conversa fluía aberta e franca e o entrevistador viajava com a mente de cineasta diante da verdadeira lenda viva. Para ele, a narrativa de Zé Rufino foi totalmente realizada na melhor linguagem de um autêntico “Western” e deixaria um John Ford “Suspirando de emoção”.[5]

Esta emoção vinha principalmente da qualidade do narrador. Rufino descrevia os combates com voz vibrante, repassando detalhes dos campos de luta, narrando biografias e voltando sem receio a um passado em que muito sangue jorrou no sertão.

Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião – Fonte – http://www.pernambuco.com

Interessante foi que Zé Rufino descreveu que na sua juventude detestava a polícia e os policiais. Comentou que isso se devia à violência que alguns militares praticavam de forma desenfreada contra os civis. Por conta desta opinião, mesmo tendo vários parentes como membros do aparato de segurança do Estado, Rufino quase chegou a fazer parte do bando de Lampião, cujo nome real era Virgulino Ferreira da Silva.

Para o antigo guerreiro havia uma admiração pelo seu maior inimigo, que Rufino descreveu como sendo “-Magro, boa estatura, sempre de óculos, com uma lágrima escorrendo no olho quase cego e usando dois galões de capitão nos ombros”.

Ele narrou que em algumas ocasiões se encontrou com Lampião frente a frente. Em um destes momentos, quando o chefe cangaceiro estava acompanhado com cerca de 80 homens, Lampião chamou Rufino para lhe acompanhar pela terceira vez. O convite foi assim descrito:

-Rufino, já duas vezes lhe chamei para ser meu cabra e você nunca quis. Agora é hora Rufino!

Rufino afirmou que em um primeiro momento recusou, mas viu que Lampião não havia gostado nada de sua decisão. Para sair daquela situação disse que seguiria com o “Rei do Cangaço”, mas não naquele momento. Informou que tinha “Uns negócios” para resolver junto a sua mãe. Por incrível que pareça, a demonstração de responsabilidade de Rufino em relação a sua genitora fez o cangaceiro refrear seu ímpeto e Lampião deixou o jovem seguir seu caminho.

O ex-militar afirmou a Glauber que o grupo partiu devagar, com Lampião transmitindo ordens aos seus chefes de subgrupos para que partissem ordenadamente, tal como uma força militar tradicionalmente organizada.

O próximo encontro entre os dois valentes pernambucanos seria de fuzil na mão e cada um do seu lado mandando bala.

Guerra nas Caatingas

Glauber Rocha recordou (sem referenciar) o paraibano José Lins do Rêgo, que dizia que no Nordeste daqueles tempos “Quem não era cangaceiro, soldado, ou beato, padecia na seca, ou sofria de fome, ou de violência”.

Zé Rufino, o primeiro em pé e a esquerda, junto com os membros de sua volante na época do cangaço – Fonte – Coleção autor

Rufino afirmou que preferiu ser policial a cangaceiro. Pois estes “Faziam miséria com o povo, tendo o fuzil na mão e o nome de Deus na boca”.

Narrou sem desassombro que deu muito prejuízo a Lampião e seus cangaceiros, pois quando pegava um deles “Cortava a cabeça, botava num saco e trazia nas costas para Jeremoabo”.

Atual Delegacia de Polícia Civil de Jeremoabo, o antigo aquartelamento de Zé Rufino – Fonte – Rostand Medeiros

Afirmou que nesta época a cidade baiana tinha cerca de 800 policiais de prontidão. Segundo o ex-militar, Lampião esteve em uma serra próxima, mas não entrou em Jeremoabo.[6]

Zé Rufino, o primeiro a direita, junto a antigos companheiros de lutas – Fonte – Coleção do autor

Quando saía para a luta Rufino afirmou que sempre a frente de sua volante de policiais seguia o rastejador “Bem-te-vi”, que nunca perdia o rastro. Havia longas caminhadas, com os espinhos dilacerando tudo, rasgando roupas, mas logo que a volante topava com os cangaceiros a luta era dura.

Para Rufino seus soldados deveriam de lutar em pé, mesmo que fosse a cinco metros de distância dos oponentes. Tinham de mostrar valentia, pois os inimigos eram fortes, conheciam o terreno e nos confrontos os cangaceiros pareciam fantasmas saltando para fugir das balas, com as suas “Cabeleiras voando”.

Membros do bando do cangaceiro Corisco – Fonte – Coleção do autor

Em uma ocasião, no meio da refrega violenta, um policial gritou e caiu no chão. Os cangaceiros recuaram, o tiroteio diminuiu gradativamente de intensidade e finalmente cessou. Ao retornar para junto dos companheiros Zé Rufino narrou que sentiu alguma coisa mole no rosto e nos braços. Eram os “miolos”, a massa encefálica do soldado caído. O morto era seu primo carnal, que havia levado um balaço de fuzil bem no meio da testa.

O próprio rastejador de Zé Rufino, o veterano “Bem-te-vi” estava presente no encontro com os quatro rapazes vindos da capital baiana. Este demonstrou um enorme respeito pelo feroz adversário. Disse que era mentira em relação a uma versão que afirmava ter sido Lampião um “Matador de crianças”. O rastejador disse que Lampião “Tinha remorso de atirar em passarinho, nunca de matar um sujeito ruim”.

Corisco, o primeiro a esquerda, tendo ao seu lado a companheira Dadá e integrantes do seu grupo – Fonte – Coleção do autor

“Bem-te-vi” mostrava um respeito sincero pelos seus adversários. Como só os verdadeiros guerreiros que participaram da boa luta, da luta valente, do combate realizado frente a frente, no campo da honra dos nossos sertões.

Interessante foram as afirmações de Rufino em relação à força da religiosidade entre os cangaceiros e mesmo entre seus camaradas de farda. Todos eles sempre tinham “O nome de Deus na boca”. Reconheceu que “Entre todos aqueles que botaram o fuzil no ombro, não tinha um que não se benzia”. Os lutadores foram em suas declarações “Um povo beato até os fios dos cabelos”.

Mas indubitavelmente para o major Zé Rufino, o seu maior feito na luta contra os cangaceiros foi a morte de Corisco.

A Caçada e Morte do “Diabo Louro”

Zé Rufino começou a sua narrativa afirmando que “Não queria matar Corisco”. Disse que o eliminou porque foi alvejado primeiro. Tanto assim que, mostrando suas intenções, não deixou que seus homens exterminassem Dadá, onde garantiu a sua vida até Salvador, onde ela foi tratada.

Para o antigo caçador de cangaceiros, Corisco e Dadá eram definidos como “Um casal bonito”.

Ele via Corisco, conhecido como “Diabo Louro”, como um homem de fibra e achava que ele “Morreu feliz”, pois era um valente que não aguentaria viver em uma penitenciária. Corisco era uma figura que Zé Rufino nutria um enorme respeito, mesmo passados quase vinte anos do confronto que havia provocado a sua morte e o ferimento que fez Dadá perder parte de sua perna direita.

Dadá era uma “-Mulher linda e valente” aos olhos de Rufino. Em sua opinião a companheira de Lampião era “Pequena” diante de Dadá.

Corisco e Dadá, um “casal bonito” na opinião de Zé Rufino – Fonte – Coleção do autor

Glauber aproveita a fundo a conversa com José Rufino, principalmente a descrição do porte físico do cangaceiro e da indumentária, que muito lhe ajudariam no futuro a compor um dos principais personagens de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”.

Na reportagem Zé Rufino, talvez com exagero,  diz que “Os cabelos de Corisco eram grandes, e quando ele jogava as mechas por cima dos ombros pareciam duas bandeiras amarelas. Quando Corisco cortou os cabelos, cada pedaço dava para fazer uma grande trança”.

Corisco e seus cães – Fonte – Coleção do autor

Se havia respeito e admiração a distância, tudo se acabava quando os canos dos fuzis ficavam frente a frente.

Rufino afirmou que deu muito fogo, muito combate, contra Corisco e que este era doido para lhe matar. Aparentemente nos momentos finais do chefe cangaceiro, que gostava de ser tratado como “capitão”, este não reconheceu Zé Rufino e lhe perguntou o nome. Desejava ir para a eternidade sabendo quem o derrubou. O antigo major afirmou a Glauber Rocha que no momento que Corisco soube quem o pegou, este nitidamente demonstrou irritação e deu o último suspiro.

Glauber transcreveu a afirmação do major Rufino contando este fato, e colocou esta parte com destaque no início da reportagem;

Estou ferida meu velho – gritou Dadá pulando no ar, baleada na perna. Mais fortes são os poderes de Deus – respondeu Corisco e fez fogo feroz contra o Major Rufino. O Major continuava correndo e disparava seguidamente no Diabo Louro que fugia para o horizonte. Uma bala rompeu os intestinos, as tripas de Corisco saltaram. O Major se aproximou, viu o homem no chão, calmo, sem medo, sem dores: – Por que você não se entregou Corisco? – Sou homem de morrer, num nasci pra ser preso. Cumé seu nome? – José Rufino. Então o rosto do capitão se contorceu e ele mordeu os lábios com fúria. Eram 5 da tarde em ponto, no mês de maio, 1940-

O que o militar José Osório de Farias, o Zé Rufino se esqueceu de comentar com Glauber Rocha foi que Cristino Gomes da Silva Cleto, o famigerado Corisco, natural de Matinha de Água Branca, nas Alagoas, estava praticamente aleijado de ambos os braços naquele combate. Sua deficiência era fruto de balaços que havia recebido anteriormente.

Fraco e debilitado, ele tentava com sua mulher Dadá, como era conhecida entre os cangaceiros a jovem Sérgia Ribeiro da Silva, alcançar discretamente o sul da Bahia. Seguiam acompanhados do cangaceiro Rio Branco e da jovem mulher deste.

A cangaceira Dadá ferida junto a Zé Rufino – Fonte – Coleção do autor

Mas em um sábado, 25 de maio de 1940, Zé Rufino e seus homens apareceram em um sítio em Brotas de Macaúbas e a história se desenrolou.[7]

Final de Um Grande Encontro

Independente dos fatos reais eu creio que esta parte da narrativa realizada pelo antigo caçador de cangaceiros mexeu de verdade com a cabeça do cineasta baiano. Pois muito do que está descrito nesta reportagem publicada no jornal “Diário de Notícias”, edição de 21 de fevereiro de 1960, um domingo, Glauber Rocha reproduziu magistralmente em suas obras cinematográficas.

Zé Rufino em uma foto feita provavelmente por Glauber Rocha ou algum companheiro de entrevista – Fonte – Coleção do autor

Consta que a entrevista entrou pela noite adentro. Logo a matéria aponta que o Geraldo Del Rey mostrava que havia material suficiente para uma trilogia, só com as memórias de Zé Rufino.

Trigueirinho Neto convida então o antigo combatente das caatingas para ser ator. Logo “Bem-te-vi” também é convidado a fazer parte do elenco do filme. Zé Rufino afirma na sequência, em um diálogo que demonstra camaradagem  e tranquilidade, que vai chamar os antigos perseguidores dos cangaceiros ainda vivos para participarem da película, com a intenção que tudo seja reconstituído “Como reza a verdade e o mito”.

E a entrevista se encerra.

Foto principal do cartaz do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha – Fonte – http://www.pop4.com.br

Hoje quem percorre os aproximadamente 380 km que distancia Jeremoabo e Salvador, seguindo pela BR-110, realiza o trajeto uma boa estrada asfaltada e com conforto.

Mas quando Glauber, Trigueirinho, Geraldo Del Rey e Antônio Guerra realizaram esta viagem, aparentemente o caminho que ligava Jeremoabo a Salvador era todo, ou em grande parte, de barro. Talvez já houvesse luz elétrica devido a proximidade com a Usina de Paulo Afonso, mas as notícias eram através dos velhos rádios valvulados. Ou seja, o sertão não era igual ao do tempo de Lampião, mas apenas 20 anos de diferença ainda não havia mudado tanto a triste realidade daquela gente sofrida.

O personagem Antonio das Mortes, interpretado pelo ator Maurício do Valle, baseado em Zé Rufino – Fonte – http://npdorlandovieira-aju.blogspot.com

Em meio a todo este cenário, tão distinto do belo litoral Soteropolitano, Glauber ficou fascinado com aquela narrativa.

O interessante é que apenas no final da reportagem, e em mais nenhuma outra parte da matéria, o cineasta baiano afirma que, além do trabalho jornalístico para o “Diário de Notícias”, aquela viagem seria também para realizar uma avaliação do que havia de interessante, de belo, de produtivo no sertão baiano no sentido de desenvolvimento cinematográfico.

Certamente que ao viajar com amigos que participavam do movimento cinematográfico baiano do início da década de 1960, Glauber já tinha mil ideias funcionando dentro da sua cabeça e logo o vulcão que ele era, seguiria despejando grandes obras de arte cinematográficas, que chamariam atenção principalmente na Europa.

Tudo isso resultaria na criação de um movimento chamado Cinema Novo e alavancaria a carreira de um cineasta que era antes de tudo ousado, determinado e genial nas suas abordagens.

Não sei proporcionalmente o quanto o contato com Zé Rufino e “Bem-te-vi” contribuiu para a realização, quatro anos depois, do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”.

Mas certamente a ida daqueles quatro amigos ao sertão não foi em vão.

NOTAS


 

[1] Este filme apresentava um painel político e social do país na era do governo Getúlio Vargas, seria intensamente aclamado pela crítica, ficando marcado pela expressiva fotografia Guglielmo Lombardi e estrelado pelo ator Geraldo Del Rey.

[2] Geraldo Del Rey consegue projeção nacional e internacional ao participar ao lado de Leonardo Villar e Glória Menezes no filme de Anselmo Duarte, O Pagador de Promessas (1962), que seria premiado com a Palma de Ouro em Cannes. Mas é sob a direção de Glauber Rocha e sob as lentes do Cinema Novo que o ator de olhos verdes, chamado por alguns de Alain Delon tupiniquim, finca para sempre o seu nome no cinema brasileiro, participando dos antológicos e históricos filmes de Glauber. Geraldo Del Rey integrou o núcleo fundador do Festival de Cinema de Gramado, em 1973, dando muito de seu prestígio e apoio para que o evento ganhasse repercussão nacional. Em 2004, em reconhecimento a essa colaboração o 32º Festival de Cinema de Gramado prestou uma Homenagem Especial pela sua participação e contribuição ao cinema nacional. Faleceu de câncer no dia 25 de abril de 1993. Fonte – http://virtualia.blogs.sapo.pt

[3] Posso estar enganado, mas acredito que o Antônio Guerra relatado pelo diretor de cinema na matéria de 1960, não é outro se não Antônio Guerra Lima, advogado e ex-procurador-geral do Estado da Bahia, mais conhecido como “Guerrinha” e grande amigo de Glauber Rocha e de sua família.

[4] Consta que em muitas publicações sobre o cangaço a patente de Zé Rufino seria a de coronel. Entretanto decidi deixar conforme está no texto de Glauber Rocha.

[5] John Ford (1894-1973) foi um diretor de cinema norte-americano de grande sucesso. Tendo atuado entre as décadas de 1930 a 1960, conhecido principalmente pelos seus westerns. Em 51 anos de carreira Ford dirigiu 133 filmes.

[6] Ao visitar a cidade de Jeremoabo em 2010, esta história do respeito de Lampião pela localidade foi largamente comentada. Já a elevação onde ficaram os cangaceiros foi a Serra da Cruz. Percebe-se igualmente em Jeremoabo um enorme respeito em relação à memória da figura de Zé Rufino.

[7] Rufino transmitiu a Glauber a raiva que sentiu em relação a um jornalista baiano que afirmou que ele “Havia roubado o ouro de Corisco”. O antigo caçador de cangaceiros revidou a este repórter afirmando que Corisco levava “Um quilo” de metal precioso e que entregou tudo a Dadá, que estava viva na época “Para confirmar”. Comentou que sua promoção para major veio “Devagar” e foi a última a ser efetivada na escala hierárquica da Polícia Militar da Bahia daquele período. Talvez este episódio anterior com a imprensa explique a animosidade e desconfiança de Zé Rufino no início da entrevista com Glauber Rocha.

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