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LAMPIÃO NO CEARÁ – A VOLTA, NA VOLTA, DO “REI DO CANGAÇO”

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Lampião e seu aparato de guerra – Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/brutal-lampiao.phtml#.WWwJ3ojyvXP

A DURA SITUAÇÃO DO BANDO DE LAMPIÃO EM TERRAS CEARENSES, APÓS O FRACASSADO ATAQUE A MOSSORÓ

Autor – Sálvio Siqueira

Pesquisador do Cangaço, São José do Egito, Pernambuco – slimasiqueira@yahoo.com.br

Era a boca da noite do dia 13 de junho de 1927. Lampião, na estação ferroviária da cidade de Mossoró, Rio Grande do Norte, já estava sabendo de que perdera dois de seus melhores homens no confronto, além de estar ferido Moderno, seu cunhado, As de Ouro e outro, com o abdome aberto pelo projétil de um dos homens da resistência, se contorcia e soltava gemidos involuntários devido a enorme dor. Esse último com um ferimento gravíssimo. O cangaceiro Sabino, seu “tenente” na época, reportara para o mesmo a perda e a impossibilidade de levar o plano adiante. Recebe ordens de reagrupar o bando para deixarem a cidade…

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O pesquisador Sálvio Siqueira realizando suas pesquisas sobre o cangaço nordestino.

As sombras da noite os engolira de repente. Tomaram, sob as ordens do chefe maior, um itinerário diferente daquele usado quando da vinda para a cidade do sal. Todos com caras de poucos amigos, sem pilhérias nem brincadeiras de tipo algum. Naquele ocaso do dia, o silêncio estava a consumir cada um deles. O silêncio só era quebrado pelos gemidos do cangaceiro agonizante e o soar das alpercatas “Xô-boi” levantando a poeira em solo potiguar.

A sua frente aparece um muro de varas e estacas, uma enorme e longa cerca, mas, não podiam parar, transpõem com rapidez e seguem em busca de um lugar para “lamberem suas feridas” físicas e morais, todas em carne viva. Não sabem ao certo por onde estão. Despontam em uma casa solitária. Pedem à mulher que abriu a parte superior da porta água e sal, para lavarem os ferimentos. A mulher, dona Maria Liberata, que tinha um sitiozinho nos arredores da cidade, estava a morrer de medo envolto pelos cangaceiros. Seu medo era tanto que, não sabendo onde esconder sua filha, a fez entrar embaixo d’um monte de cascas de feijão que havia no recanto da parede da sala. A pilha de cascas não era tanta e ao socar-se embaixo dela, os pés da adolescente ficam de fora. Lampião percebe o medo da filha e a agonia da mãe, então tenta tranquilizar as duas, dizendo só querer água e sal, depois diz para a senhora que pode mandar sair de debaixo das cascas quem lá estivesse que suas vidas estavam garantidas.

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Onde hoje estão essas casas na cidade de Mossoró, na Avenida Alberto Maranhão, ficava a sede do Sítio Saco, local onde esteve o bando de Lampião antes e depois de atacar Mossoró – Foto – Rostand Medeiros.

“- Dona, a senhora pode tirar essa pessoa que está por debaixo das cascas! Ninguém quer fazer mal a ninguém aqui!” (Dantas, 2005)

Recebendo o que pedira, os cangaceiros misturam o sal na água e lavam seus ferimentos. Rapidamente, ao findar esse pequeno tratamento, Lampião ordena para que a cabroeira se levante e coloquem os pés no caminho. Por fim chegam ao local de onde partiram para o ataque frustrado – o sítio “Saco”.

DEIXANDO MOSSORÓ PARA TRÁS

O chefe pernambucano portava-se igual uma fera acuada. Não parava em lugar nenhum. Ia pra um lado e retornava no mesmo instante, reclamando com tudo e com todos, porém, seu maior aborrecimento era referido ao cangaceiro Massilon Leite, pelo fato dele o ter convencido a atacar uma cidade do porte de Mossoró. Instantes depois de terem chegado, imediatamente a um pequeno “tomar fôlego” ordena que seus homens subirem em suas montarias para, mais do que rápido, deixarem as terras do Rio Grande do Norte.

Do ponto em que se encontravam Lampião não poderia pegar o rumo do sul, transpondo os limites dos Estados do Rio Grande do Norte e penetrar na Paraíba, terreno do seu conhecimento, pois, além dos homens do coronel Pereira, de Princesa Isabel, que não eram poucos, estarem a sua procura, no seu encalce estavam várias volantes paraibanas determinadas, valentes e perigosas. Então, só havia uma rota de fuga: seguir rumo ao Oeste, pois no poente ficava o território cearense, terra do Padim Padre Cícero, lugar onde a Força Pública não o perseguiria.

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Manchete do jornal A República, de Natal, do dia 14 de junho de 1927, um dia após o ataque – Coleção Rostand Medeiros

Virgolino sabia que estavam sendo caçados vigorosamente. Começa a aplicar táticas de vai-e-vem, além de ordenar cortarem os fios do telégrafo, para dificultar a trilha percorrida e atrasar os perseguidores. Segue por um caminho e, de repente, entra no mato, transpõem lajedos, e seguem sem poderem parar um só instante. O “Rei do Cangaço” não conhecia o terreno que percorria, nunca havia estado naquele Estado, por isso levava um senhor da região, Seu Formiga, desde antes ao ataque, servindo-lhe de guia. Com a andada sem paradas, o Senhor formiga começa a cambalear, estava quase que totalmente sem forças para prosseguir. Lampião dispensa os serviços desse guia e captura um senhor e seu filho para que tomassem o lugar dele. E assim prosseguem sem pararem para nada, nem para cuidarem dos feridos. Ao dispensar Formiga, Lampião manda que esse vá falar com o coronel Antônio Gurgel, um de seus reféns. O coronel escreve um bilhete solicitando que familiares e amigos arrecadem certa quantia para que fosse libertado pelos cangaceiros, caso contrário, perderia sua vida, e pede ao Senhor Formiga que fizesse chegar até seu irmão, Tibúrcio Gurgel, para que o mesmo tomasse as devidas providências.

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Os novos guias levam a caterva rumo ao Ceará, seguindo os postes e fios do telégrafo. Assim percorrem léguas e léguas para ficar mais distante de Mossoró. Em determinado lugar, chamado sítio Baixa da Broca, Lampião ordena que parem e montam acampamento. Naqueles dias, os cangaceiros formavam um grande círculo fechando o perímetro. No centro, de um lado, ficavam o chefe e seus lugares tenentes, Sabino, Luiz Pedro, Moderno e etc., do outro os reféns sob a guarda de alguns cabras. Antes do alvorecer, os cangaceiros já estão bem longe daquelas paragens. Por volta das cinco da matina, cercam e invadem a fazenda chamada Jucuri, a qual tinha como proprietário o senhor Manoel Freire.

SUPLÍCIO NO JUCURI

Naquelas horas da manhã, o dono estava a ordenhar as vacas junto com seu vaqueiro Teófilo Lucas. Os dois são presos. O dono é obrigado a leva-los até a casa sede. Lá chegando, obrigam-no a chamar por sua esposa para que ela abrisse a porta. A casa é tomada imediatamente por uma horda de cangaceiros que começam a vasculhar cada centímetro do lugar. Além dessa bagunça toda, os cangaceiros exigem que se faça café para eles. Lampião e Sabino começam a apertar Manoel Feire pelos contos de réis. Freire responde que não tem. Sabino toma de conta do dono da fazenda e assume o interrogatório, ameaça-o de tudo quanto pode. O homem é valente e não diz onde está o dinheiro. Em vez de continuar só com a negativa, Manoel, a certa altura da coisa, faltando a paciência, diz:

“- Não tenho dinheiro para bandidos! Não tenho! Já disse!” (Dantas, 2005)

Rapaz, teria sido melhor ele não ter dito dessa maneira.

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Igreja na comunidade Jucuri, próxima a Mossoró – Foto – Rostand Medeiros.

Sabino, que já estava com o rebenque na mão, pequeno chicote de couro em forma de bengala para tocar a montaria, começou uma sessão de espancamento no pobre fazendeiro. Freire nada podia fazer a não ser levar as chibatadas e chorar de tanta dor. E quanto mais Manoel chorava, mais o cacete comia. Em certo momento, sua esposa, Dona Francisca, vendo que Sabino ia acabar matando seu esposo na chibata, resolveu interferir. Aí a coisa ficou pior. Tentar impedir que um homem como Sabino das Abóboras prosseguisse o que estivesse fazendo, era melhor nem tentar. Sabino em vez de atender àquela senhora, lhe solta a “macaca no lombo”, ou seja, bate nela sem piedade. A mulher gritava de dor e o meliante não cansava nem parava de bater. Até que os dois, marido e mulher, ficaram estendidos no piso da casa com suas peles rasgadas pela sola do chicote. Porém, o castigo em Manoel tem recomeço. O homem quase que nada mais dizia, soltava apenas sons pela boca, e a surra não parava.

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E Lampião? Ora, quem iria intrometer-se naquele meio contra Sabino? Nem ele! Enquanto o pau cantava nas costas do pobre fazendeiro, Virgolino, aproveitando o aperreio das filhas, começa a saquear suas joias. Após ter pego tudo que encontrou de valor dentro da casa ou com as pessoas, Lampião ordena que Sabino pare de bater no homem. Vai até ele e o condena a ser seu prisioneiro, sequestrando-o, estipula uma quantia para que fosse libertado.

“(…) Concluído o saqueio, o vesgo determinou ao subordinado a suspensão da muxinga (ação de bater; sova, surra). Segurou Freire pelo braço e sentenciou com autoridade:

– Olhe, o senhor vai com a gente! Sua liberdade vai custar dez contos de réis!

Em seguida tornou aos familiares do fazendeiro:

– Mandem alguém a Mossoró arranjar o dinheiro!

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O pesquisador Sérgio Dantas, autor de quatro importantes livros sobre o tema Cangaço, um deles intitulado LAMPIÃO E O RIO GRANDE DO NORTE – A HISTÓRIA DA GRANDE JORNADA, que considero o melhor sobre a história do ataque de Lampião a Mossoró e aborda o tema com grande profundidade e riqueza de detalhes. Os textos e algumas fotos deste livro serviram de base para a criação deste artigo – Foto – Rostand Medeiros.

O agricultor foi conduzido de forma ridícula, em roupas de pijama (…).” (“ Lampião e o Rio Grande do Norte – A história da grande jornada” – DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. 1ª Edição. Natal, 2005)

O FIM DO SOFRIMENTO DE DOIS DE OURO E O ATAQUE A FAZENDA VENEZA

Em seguida o chefe ordena que montem e partam em trote acelerado. O tempo urgia ficar o mais longe possível daquela cidade potiguar. Já não estava tão bem o cangaceiro ferido na altura da barriga. Com o trote forçado a coisa piora e alguns cangaceiros que estavam ao seu lado têm que parar para ver o que poderiam fazer em socorro ao companheiro. O sofrimento era tanto que o ferido suplica aos companheiros que tirem sua vida. Ninguém se habilita a tal coisa. As dores aumentam e ele retornar a suplicar que o matem. Havia, dentre os homens de Lampião, naquele instante, um com alcunha de Marreco. Esse vai até ele e diz que fará seu pedido. Arrastam o ferido para dentro do mato, levam-no até a sombra de uma grande árvore e lá, no meio do nada, Marreco o mata com um tiro.

(…) Afastaram o bandoleiro para lugar recatado, debaixo de velha quixabeira. Tiro seco e rápido tirou-lhe o resto de vida sacrílega.

Expiação finda, o corpo foi enterrado em cova rasa, à beira do caminho. Cruz tosca marcou o local(…)

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A tradição oral fixou que o cangaceiro enterrado nesse ponto da estrada foi o célebre Menino de Ouro. Tal não é verdade. O bandido em questão se quer saiu ferido do embate em Mossoró. Raimundo Lucena, em seu livro “Memórias”, refere-se à presença do bandoleiro-mirim na cidade de Limoeiro do Norte, no dia 15/06/27. Não morrera, pois. Teve, sim, longa sobrevida. Foi encontrado n década de noventa pelo pesquisador Hilário Lucetti. Menino de Ouro, o Alagoano ou Oliveira, morrerá somente em 23 de novembro de 1999, com vetusta idade de oitenta e sete anos. O homem sepultado nesse ponto do caminho – o que foi revelado pós a exumação – não era tão jovem. Provavelmente o corpo era do bandido “Dois de Ouro”. O resto é tradição verbal. Pura lenda.” (DANTAS, 2005)

A caterva prossegue rumo a terras cearenses. Antes da linha limítrofe, ainda em território potiguar, tinha uma fazenda chamada Veneza que tinha como administrador o senhor Childerico Fernandes.

Por ter uma vasta área desmatada em sua volta, a visão de quem se encontrava na casa pegava todo o derredor. Por isso, a esposa do administrador, dona Felisbela, ao escutar um tropel de cascos no solo duro, ergue e avista o bando de cangaceiros aproximando-se. Vai até onde se encontrava o marido e lhe diz o que estava vindo em direção a eles, a tempestade que vinha chegando.

Sendo comerciante, Childerico havia comprado um rebanho de reses a prazo, ou feito um empréstimo e comprado o gado, mais provável. De posse das reses, começa a engordá-las e vai vendendo e juntando a quantia para fazer o pagamento. Tanto a esposa como o marido treme nas bases, principalmente por saberem ter em casa a quantia de dez contos de réis, os quais seria utilizado para saldar a dívida. Avexam-se a procura de um local para esconderem a “botija de dinheiro”.

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Antiga sede do sítio Veneza, fotografada em 2010 e hoje parte de um assentamento rural – Foto – Rostand Medeiros

Lampião parecia já estar refeito da derrota em Mossoró, pois seu cérebro já tramava a mil por hora. Antes da aproximação da casa sede da fazenda Veneza, ele divide o bando, fica com alguns cangaceiros e os reféns. Envia Sabino com trinta cangaceiros a vivenda. Sem a preocupação dos reféns nem a marcha lenta dos guias como empecilho, a tropa liderada por Sabino esporeiam suas montarias e chegam muito rápido a casa e imediatamente a cercam, invadem e tomam conta de todo e qualquer recanto que havia nela. Na sala, estando Childerico, Sabino começa a fazer-lhe várias perguntas: onde estão, a qual Estado pertencem aquelas terras e por aí foi… O administrador ia respondendo a cada pergunta de acordo com a situação.

Dona Felisbela, de posse da grana junta, tinha tentado sair pela porta da cozinha para ir escondê-la, mas, não deu tempo. O cangaceiro apelidado de Coqueiro invade a casa por essa saída e impede que ela saia. Percebendo o nervosismo da senhora, o cangaceiro começa a procurar e acha tudo. Ela, sem ter outra opção, dispara pra sala onde se encontram seu marido, Sabino e vários cangaceiros, narrando o que tinha acontecido. Pelo que a senhora falou, Sabino, cangaceiro experiente, já sabia de quem se tratava e lasca o grito pra cima querendo a presença de Coqueiro imediatamente. De imediato o chefe ordena que lhe passe a grana. Ao receber nota a quantia e seus grandes olhos quase que saltam da face, sem acreditar direito no que via. O cabra das Abóboras afasta-se dos demais e começa a contar o volume de notas uma por uma. Fica meio que boquiaberto. Nunca pensara em encontrar naquela simples casa tanto dinheiro junto. A razão da soma, um tanto grande para a época, era simplesmente o acúmulo para pagar o que havia comprado, as reses, ou seja, aquele dinheiro não era de Childerico.

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Alpendre da antiga sede da propriedade Veneza, zona rural de Baraúna, Rio Grande do Norte – Foto – Rostand Medeiros

O restante do bando, ao ver a quantia de notas nas mãos de Sabinos, imediatamente começa a fazer uma varredura no local. Não deixando inteiros os poucos móveis que ali havia. O administrador, cheio de pena, lamentos e raiva por estar perdendo tudo quanto havia conseguido na vida, protestou com o chefe, Sabino das Abóboras, que lhe responde para que ele vá reclamar com o coronel José Pereira, chefe político da cidade de Princesa Isabel, Paraíba, o qual havia lhe ensinado o que acabara de fazer. Essa ligação entre José Pereira, Sabino Gomes de Gois, também conhecido como “Sabino das Abóboras” e o coronel Marçal Florentino Diniz, esse pai de Sabino com uma de suas empregadas, contaremos em outra oportunidade.

Pois bem, não contente, mesmo tendo encontrado a enorme soma, Sabino começa uma sessão de torturas no corpo de Childerico. Dessa vez, ele alterna os objetos que produziam as dores: usava o chicote e depois o punhal, voltava a usar o chicote e em seguida, novamente a ponta fina e dura da lâmina de aço. Assim o tempo passa, para Childerico, cada minuto parecia um tempo enorme… Uma eternidade!

O misticismo, catolicismo e messianismo foram, são e será uma válvula de escape sobre o sofrimento de parte da população mundial, arrancando daí uma fé às vezes doentia e entre os que usam dessa fé estão os sertanejos nordestinos. Em determinado momento, não aguentando ver o sofrimento de Childerico, sua esposa corre até o oratório, nicho ou armário com imagens religiosas; capela doméstica que surgiu desde a Idade Média no território europeu, como devoção popular tendo sido inserido em nosso convívio pelos europeus migrantes, pega uma imagem e a coloca na frente do rosto do cangaceiro. Tanto dona Felisbela, quanto o cangaceiro Sabino possuíam, não explicar como, a mesma fé interior. Ao deparar-se com tal imagem, o cangaceiro perverso larga do chicote, guarda o punhal na bainha e deixa Childerico de lado.

“(…) A essa altura, Dona Bebela (Felisbela), em prantos, correu ao oratório. Tomou nas mãos imagem de Nossa senhora e a colocou rente aos olhos do cangaceiro:

-Poupe nossas vidas! Já lhe demos todo dinheiro e nossos bens! Você não acredita em Deus; em Nossa senhora?

– Ora, deixe de choradeira! Já vem você com essa tapeação? Contrapôs Sabino, com sorriso amarelo.

A estratégia de alguma forma surtiu efeito. O cangaceiro – ignorante, fanático religioso por índole e cultura – temia as coisas do céu. Respeitava os Santos e reverenciava imagens. Teve, decerto, medo de sortilégio que podia advir de atitude tida por “herege”.

Sem mais discussão, largou Childerico (…) (DANTAS, 2005)

livro lampião e rio grande do norte
O livro de Sérgio Dantas.

Lampião estava acampado perto dali, havia combinado com Sabino que, tudo dando certo na fazenda ele enviasse um emissário com a senha “acabado o serviço”. Essa frase, para o chefe pernambucano significava que ele poderia aproximar-se com segurança. Virgolino percorre o a pequena distância entre seu acampamento e a casa, desmonta no terreiro da sala e entra na casa. A partir do momento da sua aproximação, desmonte e caminhada até onde estava o casal, não escutou som de voz alguma. Naquele momento, apenas sua presença fazia todos calarem-se. Um dos cangaceiros chega bem perto do sofrido administrado, agachasse e lhe pergunta se sabe quem seria aquele que estava em sua frente. Não entendendo o que o prisioneiro respondeu, pois até para falar doí-lhe tudo, o cabra insiste na pergunta. Depois termina lhe dizendo de que se tratava de Lampião.

O cangaceiro mor se aproxima mais ainda do prisioneiro, se abaixa e começa a fazer-lhe várias perguntas. Dentre essas, perguntou se seria parente do prefeito de Mossoró, coronel Rodolfo Fernandes. Acreditamos que nesse momento tanto Childerico Fernandes como dona Felisbela começaram a rezar fervorosamente, encomendando suas almas a Deus, pois ele era parente do Intendente de Mossoró, que organizou a resistência cívica naquela cidade.

Na historiografia do “Rei do Cangaço”, vemos fatos, ações e atitudes com tamanha distinção entre eles, que não sabemos do porque, agir daquela forma.

A FOTO DA VOLTA 7

Em vez de sacar a pistola e atirar na cabeça de Childerico, ou puxar seu grande punhal da bainha e sangrá-lo, Lampião começa por pedir que armassem redes para que ele, Sabino e o coronel Gurgel se deitassem. Depois começa a conversar, sem ameaças ou violência com o prisioneiro. Pede azeite para lubrificar as armas. Tanto fica dono da situação que o preso lhe oferece refeição de carne de gado. Meticuloso, Lampião diz querer comer galinha, as quais estavam no terreiro e todas foram mortas, a tiros, pelos cangaceiros. A comida é preparada e todos se empanturram de galinha cozinhada. Conversa vem, conversa vai, de súbito, Lampião ergue-se e ordena que a cabroeira monte que iam partir imediatamente. A coisa seria cômica, se não fosse tão trágica, pois, ao despedirem-se do casal prisioneiro, vão apertar-lhes as mãos e desejam-lhe felicidades.

Incrível essa maneira de mudar suas ações. Em repentino momento, muda da água para o vinho. Todos montados, apertam as pernas e aos sentirem as pontas pontiagudas das rosetas das esporas, os animais começam a caminhar para a terra dominada por Padre Cícero.

“(…) Os homens equiparam-se, apressados. Dirigiram palavras amáveis a Childerico e esposa. Apertaram-lhes as mãos. Ensaiaram, brevemente, atos de civilidade.

– Vamos embora! – insistia o líder supremo, algo nervoso.

A malta partia, satisfeita com refeição e sesta.

Em menos de hora cruzaram a fronteira cearense. Lampião alertou os carbonários. Deixou claro que a partir dali o comportamento deveria ser outro. Estavam nos domínios do Padre Cícero Rumão. Repetia e advertência:

– Aqui já é Ceará! Pra diante ninguém rouba mais, pois o Governo daqui não bole com a gente! (…) (LUCETTI e LUCENA, 1995,p. 210)

NO CEARÁ

Já em terras do Ceará, o cidadão Manoel Freire é libertado já em terras da fazenda Lagoa do Rocha, após de determinado portador ter entregue a Lampião a quantia por ele estipulada para o resgate. O proprietário dessa fazenda, Lagoa do Rocha, o senhor Anísio Batista dos Santos é informado de que um bando de cangaceiros seguia rumando à cidade de Limoeiro do Norte, o que teria de passar por a casa sede da mesma, ou bem próximo a ela, já que ficava um pouco ‘recuada’, dentro da mata. Resolveu ir até as autoridades e deixa-las ciente do que estava acontecendo em suas terras, à presença de Lampião e seus homens. Antes de partir, recomenda para seus familiares que não acendessem candeeiros ou lamparinas para não trair, mostrar, onde estavam com a claridade.

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Vista da região cearense por onde seguiu o bando de Lampião – Foto – Rostand Medeiros

Quando a noite encobre aquela região com seu negro manto, Anísio parte para cumprir sua missão. Mais tarde, já alta noite, as pessoas que estavam dentro da casa escutam um grande tropel de animais no terreiro da casa. De repente, alguém bate a porta…

“(…) La fora, bateu-se vigorosamente à porta:

– Pode abrir sem medo! É de paz!

– E quem é?? – quis saber a mulher.

– Capitão Virgolino Ferreira! A senhora está garantida! Quero só um lugar para passar a noite! (…)(DANTAS, 2005)

Como comentado anteriormente, quando estudarmos a história do cangaceiro Virgolino, notamos altos e baixos, constantes, em suas ações. A senhora abriu a porta e deixou que a cabroeira entrasse. Lampião foi totalmente educado, assim como seus homens ficaram todos comportados. Após todos comerem o “Rei do Cangaço” solicita a dona da casa que arme três redes para eles. Lampião, mesmo cansado, ainda saiu ao terreiro e foi rezar. Mais tarde o dono retorna da sua viagem, conversa com Lampião e esse pergunta se ele viu soldados perto daquelas paragens ou no caminho de Limoeiro até ali. Recebe resposta negativa do senhor Anísio, no entanto, ordena que se façam vigias, guardas, nas estradas para evitar surpresas.

Já era madrugada do dia 15 de junho de 1927, dois dias iam ser completados desde a derrota em Mossoró. Antes da aurora, todos fazem o desjejum e, tomando o senhor Anísio como guia e seguem ao encontro do seu destino. Lá pelas dez horas do dia chegam à fazenda Cacimba da Vaca, onde suas terras iam terminar nos arredores de Limoeiro do Norte. Ordenando que todos desmontassem, chama o novo guia Anísio Batista e, lhe entregando certa quantia, o envia a Limoeiro para fazer compras. Manda também que ele dê uma sondada vendo se havia policiais, os macacos, na cidadela. Além de lhe mandar procurar algum familiar do coronel Antônio Gurgel, um de seus reféns.

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Catedral da Imaculada Conceição, Limoeiro do Norte, Ceará – Foto – Rostand Medeiros.

O senhor Anísio, ao relatar que Lampião e seu bando estavam às portas da cidade, causa certo pavor na população. É realizada reunião urgente com as autoridades que se encontravam na cidade que, descartam de imediato formarem um grupo de resistência pois não havia armas nem munição, tão pouco gente suficiente e disposta. Nessa reunião ficou acordado que convidariam o “Rei do Cangaço” e seus cangaceiros para vir conhecer Limoeiro…

“(…) Ao fim das deliberações, encontrou-se solução bisonha, porém de inegável prudência: resolveu-se convidar o célebre prover do cangaço e seus sequazes para conhecerem a cidade (…). Fizeram saber ao guia o resultado dp debate de há pouco. Pediram-lhe que fosse ao encontro do cangaceiro e o informasse sobre as condições de uma possível visita à urbe:

– Diga a Lampião que pode entrar sem receio! O único soldado que havia nós mandamos embora! Pedimos, entretanto, que ele não faça nenhum mal a cidade! (…).” ((DANTAS, 2005)

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Lampião vai ser recebido pelo juiz de paz mais outra autoridades no caminho e na entrada da cidade. Bem recebido visita lugares. Os feridos são “remendados” e medicados. O chefe cangaceiro vai ao telégrafo  e etc..

Posam para fotos. Os homens se alimentam e fazem compras, pagando em dinheiro e recusando o troco e assim se passa o dia. Custódio Saraiva, juiz de paz e vice, ou subprefeito, de Limoeiro do Norte, o homem que recebeu Lampião, a noite, recebe um telegrama onde dizia que tropas volantes haviam partido das Russas em direção a sua cidade, assim como dois caminhões lotados de soldados também estavam no mesmo rumo. Temendo uma bagaceira pelas ruas de Limoeiro, Custódio conversa com Virgolino sobre ele deixar a cidade antes da chegada dos militares, para assim evitarem derramamento de sangue, o que é aceito pelo cangaceiro chefe.

A FOTO DA VOLTA 3A

Lampião pega seu apito e faz ouvir o seu silvo e todos já sabem o que fazer. Aprontam-se, montam e o pernambucano de Vila Bela agradece a acolhida e se despede de todos, tendo o Sr. Anísio como guia, as 11 da noite daquele dia partem rumo ao desconhecido…

O APOIO DOS GUIAS

Por já ser altas horas da noite, a caminhada é curta. Depois de mais ou menos caminharem 12 quilômetros, param para descasarem e dormirem um pouco. Já estavam nas terras do senhor José Tertuliano de Souza Vidal e nela acampam no ponto denominado Serrote dos Morros. Por ser noite de lua os cangaceiros notam silhuetas se movimentando próximo do morro. Lampião ordena que alguns cangaceiros façam as devidas investigações. Tratava-se de um idoso, o proprietário que estava procurando um local para esconder alguns animais, justamente para escaparem dos cangaceiros.

Além de pedir para ficar com os cavalos, trocando por aqueles que estavam cansados, Lampião “convoca” o velho para que sirva de guia, pois não conhecia o lugar. O velho dá sua palavra de que viria pelo amanhecer e o levaria. Pela manhã chega ao acampamento o velho Tertuliano acompanhado de um jovem, seu sobrinho Francisco Vidal. Chico Vidal veio para que se Lampião concordasse, servir de guia no lugar de seu tio, já idoso e cansado. Lampião aceita de bom grado. Com esse novo guia Virgolino libera Anísio Batista. Dá seus agradecimentos e lhe diz que se algum dia precisar dele, seja para o que fosse, era só mandar chamá-lo.

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Serrote à margem do rio, Morros, Limoeiro do Norte – Fonte – http://mapio.net/pic/p-45191421/

“(…) Lampião mandou chamar Anísio Batista. Explicou-lhe que a partir daquele ponto não iria mais precisar de seus préstimos. Agradeceu ao guia a atenção e esmero. Por fim, deu-lhe autorização para retornar à sua casa. Acrescentou que, àquela altura, sua família deveria estar aflita.

Por fim, deu-lhe algum dinheiro e – como prova maior de gratidão – anunciou-lhe bizarra recompensa:

– Quando precisar de mim é só mandar me chamar! Seja o que for! (…).” ((DANTAS, 2005)

O senhor Anísio é dispensado para retornar a sua moradia e o velho Tertuliano também. Francisco Vidal começa a guiar o bando por terras desconhecidas ao chefe, dando sequência a grande volta até as terras do Pajeú das Flores, no sertão pernambucano.

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Cordel de autoria do poeta Antonio Pádua Borges de Queiróz, contando a passagem de lampião e seus homens em Tabuleiro de Areira, atual município cearense de Tabuleiro do Norte – Fonte – http://paduadequeirozcordelearte.blogspot.com.br/2008/07/passagem-de-lampio-em-tabuleiro-do.html

O sol já estava alto, quando a turba chega ao povoado por nome de Taboleiro de Areia, hoje município de Tabuleiro do Norte. Nele os cabras de Lampião fazem compras. Numa grande feira, feita na bodega do senhor Antônio Alves Maia, eles colocam, além dos alimentos, “espelhos, lençóis de chita, meias de seda e duas dúzias de cerveja”, chegando ao total, toda a feira, de seiscentos mil réis. Após pagarem as despesas, Lampião monta em seu animal, seguido pelos demais, e despedem-se do dono da venda, reiniciando sua caminhada…

Duas horas depois, estavam todos descansando nos tabuleiros do sítio Armador. Lampião escolheu aquelas terras por serem altas e descampadas, assim teriam uma grande vista ao redor, além de ter água para reabastecerem suas reservas. Virgolino tinha conhecimento de que volantes paraibanas e cearenses estavam em seu encalce, porém, demonstrava confiança.

Depois de cinco horas de descanso, lá pelas três horas da tarde, Lampião dispensa os serviços de Francisco Vidal, lhe agradece e diz que só o estava soltando devido a serem homens honrados e sem mentiras.

“(…) Na porteira da propriedade Lampião dispensou Francisco Vidal:

– Você só volta porque seu tio não mentiu! Vocês são homens de palavra! (…).” ((DANTAS, 2005)

Daí por diante, duas horas de caminhada depois, chegam às terras da fazenda Araras. Num movimento de guerrilha Lampião dividiu parte do bando em três grupos.

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O cangaceiro Massilon – Fonte – http://lentescangaceiras.blogspot.com.br/2009/01/quem-foi-massilon.html

Chefia uma parte, Sabino e Massilon os outros dois. Atacam e dominam rapidamente o dono das terras João Roque Macedo. Após está diante do cangaceiro mor, este diz ao senhor João, seu genro Sinésio Magalhães e o vaqueiro José Pedro, que necessita dos seus serviços para que levassem uma carta ao Delegado da Vila de Pereiro, Hidelbrando Mourão, “solicitando” determinada quantia. O primeiro e o segundo encarregaram-se dos bilhetes, já o vaqueiro tem outra obrigação, servir de guia. Além da missiva de Lampião, o coronel Antônio Gurgel pede aos emissários para que entregassem uma dele aos amigos em Pereiro, Décio e Artur Holanda. Nela, Gurgel referia querer saber como estavam as coisas sobre a grana do seu resgate, assim como solicita o apoio e a colaboração dos mesmos.

Emissários a caminho de Pereiro, o chefe Virgolino ordena então que sigam todos para outro local, por dentro da chamada “Mata Branca”, tentando esconder seus rastros. Após algumas horas de caminhada dentro da caatinga, ao chegarem à beira de um grotão, ordena que se faça no mesmo, onde suas barreiras serviam de anteparo para proteção. Tudo em total silêncio.

A noite do dia 16 passa sem complicações. Na madrugada do dia 17, logo cedinho, o cantar do galo já encontra a caterva de caminho afora. Naquelas paragens, sem nem sonharem com tanto cangaceiro por perto, os sertanejos levavam suas vidas como dantes, empenhados na labuta de seu dia-a-dia. Vez por outra um dava de cara com o bando. Já pensaram?

A pessoa vai de caminho a fora e dar de cara com Lampião e seu bando? Não era moleza não. Ao encontrarem esses roceiros, eles os abordavam e Virgolino fazia uma série de perguntas, dentre elas a principal: se tinham avistado soldados por perto. Todos respondiam que sim, que tinham visto muitos soldados pela vizinhança…

“(…) Pelo rumo das conversas, a certeza insofismável da presença de militares na região:

– Tem polícia por aí que faz medo! – era a resposta que brotava em uníssono da boca dos sertanejos (…).” ((DANTAS, 2005)

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Padrão típico de uma volante policial nordestina nos tempos do cangaço, que sob o aspecto da vestimento e acessórios, possuía muita similaridade com as roupas dos cangaceiros – Fonte – https://tokdehistoria.wordpress.com

Em conversa, por certo, com o vaqueiro José Pedro, Lampião pede que esse o coloque em local que dê condições de enfrentarem qualquer ataque. Chegam e acampam nas terras do sítio Saco do Garcia. Escolhem um serrote com pedras e grotões, além de ter água em poços e “pias” de rocha, local ideal para acamparem. Lampião abate, a tiros, uma rês que pastava por perto. Os cangaceiros a sangram e tiram-lhe a pele, o couro, e fazem, preparam, a carne: salgam e a colocam no sol para desidratar e poderem colocar nos bornais para os dias vindouros. Ficou decidido que ali, naquele local, pela natureza das defesas naturais e a quantidade do líquido precioso, ficariam a esperar a resposta do delegado.

DRAMA DO CORONEL GURGEL

A maioria dessas informações ficaram registradas para a História através do diário do coronel Antônio Gurgel, que relata o que ocorria no bando, ou com o bando, nos terríveis dias do seu cativeiro.

O vaqueiro José Pedro, além de guia do bando, tornasse os “olhos e ouvidos” do “Rei do Cangaço”. Primeiro Lampião o envia a Vila de Alto Santo para averiguar como estava a situação, e se havia movimentação das volantes. Ao retornar, o vaqueiro reporta que havia um contingente com, mais ou menos, 150 homens na Vila. Notícia que coloca a pulga atrás da orelha de Virgolino. Este então manda mais uma vez que o colaborador vá a outras direções, vasculhe como se caça uma rês perdida na mata, por mais informações sobre a movimentação dos militares. Lá pela hora da Ave Maria Sertaneja, José Pedro retorna e com notícias negativas. Disse ao “capitão” que uma grande volante paraibana estava em seu encalce. Além de uma pequena tropa, uns vinte soldados, estava batendo em tudo que era lugar em busca de informações sobre ele. Nesse busca, relata o vaqueiro, os militares descem a macaca, roubam e praticam várias atrocidades contra os sertanejos.

3- O fazendeiro Antônio Gurgel e sua família. Ele foi sequestrado pelo bando, quando os cangaceiros segu
O fazendeiro Antônio Gurgel e familiares – Fonte – https://tokdehistoria.com.br

“(…) Acrescentou que, pelo caminho, os homens da milícia cometiam os maiores horrores – davam surras, seviciavam, roubavam sitiantes. Ressaltou José Pedro, por fim, que grande contingente paraibano parecia deslocar-se naquela direção. Lampião de imediato pressentiu algum perigo (…).” ((DANTAS, 2005)

Passa-se a noite do dia 17. Já no alvorecer do dia 18, Lampião envia, mais uma vez, o vaqueiro para que desse uma averiguada nas redondezas. O sol já havia pendido para o poente, o calor estava abrasador e nenhuma brisa soprava para diminuir o mormaço.

Sínésio Magalhães retorna trazendo junto o vaqueiro Manoel Alves. Esse trazia a quantia estipulada por Lampião pelo resgate do coronel Joaquim Moreira, outro de seus reféns das terras potiguares. Recebida  a grana o coronel Moreira e libertado. O chefe cangaceiro chama Sinésio e lhe pergunta sobre sua missão. Esse reporta que o Delegado Hidelbrando estava ciente e de que responderia dentro do prazo.

A FOTO DA VOLTA 5A

Toda vez que ocorria algo assim, ser solto, ou liberado, um companheiro refém, o coronel Antônio Gurgel ficava desesperado. Procurava saber o porquê de não terem mandado o resgate para sua libertação. Já pensaram que agonia passou esse cidadão? Sem mais saber o que fazer, apela para o vaqueiro que trouxera o dinheiro para liberta o coronel Moreira, para que o mesmo levasse uma carta na fazenda Brejo. Manoel Moreira diz que a fazenda fica totalmente ao contrário ao caminho que teria que seguir. O outro vaqueiro, José Pedro, prontifica-se para levar a carta do coronel no dia seguinte. Então o coronel Gurgel escreveu o ‘bilhete’ dessa forma, maneira:

“Muita reserva

Tilon:

Venho depositar em tuas mãos minha vida e liberdade.

Quando receber esta, sem perda de um minuto, monta a cavalo e corre até Mossoró para arrumares os 21:000$000 para meu resgate, o que farás com T. Filho e Jayme – Mesmo no caso de andar no mundo a outra remessa, consegue por tudo, meu irmão, a importância que te peço e regressa de automóvel para ganhar algumas horas. É muito importante e recomendo-te sobretudo o maior sigilo sobre essa informação, da qual ninguém por enquanto deverá saber, a não ser Tibúrcio e Jayme. Ouve bem: ninguém mais – além de vocês três, para evitar qualquer intervenção de autoridades, que neste caso só poderá me ser fatal. Quanto a este portador V. o guardará aí s/ qualquer pretexto até sua volta. Confio que terá maior cuidado nesta arrumação para que nada transpire e eu possa me livrar – pois tido agora depende de ti – do cuidado que empregares – sobretudo sigilo. O portador par vir com este poderá ser o velho Gaudêncio, ou se V. aí souber ou tiver um homem mais prático. Pensa bem na minha situação e faze tudo para conseguir minha liberdade. Ao Guedes que telegrafe a T. Bezerra pedindo meu saldo que apesar de pequeno serve. Age com presteza e que Deus se cpmpadeça de minha sorte.

Teu irmão am°

Antônio Gurgel do Amaral (FERNANDES, 1985,p. 257-258)”

As coisas caminham de uma só maneira no acampamento. A chegada da noite encontra o vaqueiro José transmitindo oralmente mais um relatório para o chefe, e dessa vez ele arrisca aconselhar Lampião. Lampião acata o que Pedro disse e lhe ordena que os guie para outro coito. Pedro os guia, mesmo durante a noite, por mais ou menos seis horas de mata adentro, onde os coloca em outra grota, distante. Ao amanhecer, tudo estava calmo. Porém, os alimentos começavam a acabar. Teriam que encontrar mais… Otílio retorna à tarde com uma boa compra. Por enquanto, estavam abastecidos de alimento.

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Muitas vezes foram os vaqueiros forçados a serem guias dos cangaceiros – Fonte – https://wordpress.com

Porém, esse mesmo coiteiro alerta Virgolino que soube que um certo vaqueiro os viu e passou a informação para as autoridades, as quais estavam seguindo para onde estavam. Mais uma vez o acampamento é levantado as presas. Aproveitam a noite para se distanciarem daquela paragem e vão se alojar nas perto da Serra do Palhano. Acampam e passam a noite sem novidades.

EMBOSCADA DO SERROTE DA RODA

As coisas começavam a piorar: quando tinha alimento, faltava água. Quando faltava os dois, a saída era os cactos. Levantam acampamento novamente e seguem de mata adentro. Acampam, desta vez na Serra da Micaela, onde pelo menos tinha água abundante. À noite dormia-se pouco, qualquer ruído na mata fazia aqueles homens ficarem com os nervos a flor da pele, prontos para guerrearem.

Pela manhã Lampião recebe mais informações sobre a movimentação militar. O cerco se fecha e, por mais que tentasse Virgolino não conseguia se afastar o suficiente dos perseguidores. A coisa estava se complicando. Dessa vez Lampião modifica a maneira de locomoverem-se. Ele divide o bando em pequenos grupos para assim se movimentam mais rápido e, se fossem atacados, os outros saberiam a tempo, eliminado uma grande emboscada por parte dos militares.

9-Jornal A Imprensa, de Natal, cujo o diretor era Câmara Cascudo
Os jornais, na medida do possível, acompanhavam a perseguição a Lampião – Coleção Rostand Medeiros.

O “Rei dos Cangaceiros” mais uma vez acertou em cheio. Bem próximo a eles estavam duas volantes, uma cearense e outra da Paraíba, comandadas por seus respectivos tenentes.

“(…)Ali bem perto, conglomerado de volantes, chefiadas pelos tenentes Luís Davi e João costa, das polícias cearense e paraibana, respectivamente, seguiam o rastro da chusma (…).” (Ob. Ct.)

O tenente Luís Davi escolhe o Serrote da Roda como local para arma uma “arapuca” para os cangaceiros. A geografia do serrote dava condições favoráveis para uma embosca ser bem sucedida. Se os cangaceiros, acostumados a situações deveras adversas estavam nervosos, os soldados estavam em pior situação. Mesmo estando entrincheirados, protegidos, não permaneciam quietos e a todo instante alguém mudava de lugar, ou dava uma espiada para ver se via alguma coisa. Todos os soldados já tinham escutado de como os cangaceiros lutavam, com acréscimos, provavelmente, e isso os deixavam mais nervosos ainda quando, de repente, avistam chapéus de couro de abas largas e quebradas para trás se aproximando do local em que estavam…

Preparados para a emboscada no Serrote da Roda, os soldados comandados pelo tenente Pereira já estavam comprimindo os gatilhos das armas, fazendo mira nos cangaceiros que se aproximavam. O tenente dá a ordem de abrir fogo. O tempo se fecha naquelas terras assoladas pelo sol abrasador de uma tarde do mês de junho. Os homens de Lampião vinham cansados, porém, eram feitos no traquejo do combate. Quase no mesmo instante em que a saraivada de balas partia da encosta do serrote, os cangaceiros, na planície, pulam, jogam-se de lado, para trás e começam a responder ao fogo.

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Lampião no Ceará era notícia nacional – Fonte – http://meneleu.blogspot.com.br/2014/10/lampiao-caminho-de-juazeiro-cidade-santa.html

Os homens que seguiam Lampião eram forjados na fome, na miséria do sertão nordestino onde, naquela época, a Lei era sempre protetora do mais forte, daqueles que podiam, tinham poder, nada comparado a eles, além das intempéries naturais em que os faziam beber líquido de cactos e comer alimentos que embrulhariam o estômago de qualquer outra pessoa. Cansaram de ver a morte de frente, mesmo sem ser em combate, e não seria naquela hora que não a enfrentaria com coragem.

Nossos estudos sobre o “Rei do Cangaço” não se iniciaram tentando desvendar se esse chefe cangaceiro seria herói ou bandido, mas, com a ideia de compreender o emprego de táticas de guerra e de seus movimentos em meio a nossa natureza rude, improvisadas dependendo da situação, do tempo, do terreno e outras condicionantes. Aqueles que seguiam Virgolino aprenderam a lhe obedecer cegamente, bastava ele dizer o que queria para que fosse cumprido rapidamente a sua vontade. Em meio ao som dos disparos, Lampião começa a gritar dando ordens dizendo como deveriam agir… E os homens obedeciam como se fossem automáticos impulsionados por um botão.

2-O bando de Lampião
O bando de Lampião anos depois do ataque a Mossoró e os combates no Ceará – Fonte – tokdehistoria.com.br

“(…) Homens que lhe obedeciam cegamente. Se submetiam, tal qual vassalos, à incomparável inteligência de um rei sem coroa. Conheciam com profundeza a astúcia e destreza da exponencial figura do cangaço. A liderança de lampião era sem dúvida algo inacreditável. E mais uma vez – à sombra do Serrote da Roda – provou a rara ascendência que detinha sobre a cabroeira.

Rápido, em simultâneo aos primeiros tiros da volante, ditou comando aos comparsas. Ao som de única palavra, os bandoleiros saltaram dos cavalos e buscaram refúgio nas pedras do terreno(…) Seguiram as ordens de Lampião como soldados treinados(…) Em segundos, já respondiam aos tiros dos militares, em cadência notável superior (…).” (“Lampião e o Rio Grande do Norte – A história da grande jornada” – DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. 1ª edição. Natal, 2005)

A papoqueira de balas se alastra levando seu som amedrontador de sertão afora. Os animais, antes utilizados pelos cangaceiros, saem em disparadas que nem bala conseguiu alcança-los. Feitos no combate, muitos dos homens de Virgolino rolavam de lado para outro, atirando e provocando seus adversários com pretensão desses se mostrarem para tornar-se um alvo fácil. A posição em que se encontravam os homens do tenente Pereira era privilegiada. Atiravam de cima para baixo. No entanto, sob o comando de Lampião, os cangaceiros conseguem, no momento do “pega-pra-capar”’, do “vamos-ver”, retirar essa vantagem. Quando as coisas estavam, mais ou menos nesse patamar, Surge uma fuzilaria parte na retaguarda da posição de combate dos bandoleiros. Era os homens comandados pelo sargento Eurico Rocha, da “Briosa” cearense que vinham em socorro dos seus companheiros. Com isso a coisa muda de figura e os bandoleiros sentem nitidamente, na pele, esse novo fogo adversário. O cerco aperta mais e mais. A coisa “nublou-se” pras bandas da cabroeira…

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Lampião – Fonte – lounge.obviousmag.org

Mas, como se viu em vários e vários combates entre seres humanos, é justamente nessas horas difíceis que emerge a capacidade, o dom de um líder.

Lampião vendo a coisa preta para seu lado e o de seus “meninos”, erguesse e, de arma nas mãos, atirando ligeiro com um raio, começa a esbravejar palavras de coragem para seus comandados, e, como num passe de mágica, consegue abrir uma brecha no “paredão” feito pelos soldados, por onde seus homens começam a deixar a “arapuca”. Contornam o serrote em seguida procuram embrenha-se na “Mata Branca”, na vegetação de caatinga, sua leal acolhedora em momentos como aquele.

ESPERANDO A FORÇA PARA BRIGAR

Aquela emboscada causou uma tremenda queda, no já caído, ânimo da cabroeira. Apesar de ter durado, mais ou menos uma três horas, os prejuízos para Lampião foram enormes. Com o barulho dos disparos os animais somem sem ninguém saber para onde e nem a distância que alcançaram os animais levaram em seus alforjes, coxins e coronas, alimentos, água, joias, dinheiro, armas e a “farda de major” que era de Sabino, o qual a tinha pego em uma residência na capital do oeste potiguar e tinha utilizado quando do ataque de 13 de junho em Mossoró. Além desse prejuízo um de seus homens, o cangaceiro Moreno, foi ferido em um dos braços. O projétil ao entrar em choque com o corpo do cangaceiro abre uma ferida de enorme tamanho, levando consigo parte do tecido mole, deixando a mostra parte do osso. Isso deixa seus líderes preocupados, pois se gangrenasse, teriam que sacrificar o companheiro.

As coisas iam de mal a pior para os bandoleiros. Estavam dentro da caatinga sem comida e água. Tinham que percorrer léguas, não sabiam como nem à distância exata que teriam que andar. Pois bem, daquele momento em diante, a cabroeira partiu sem rumo certo, tomando cuidados redobrados para que outro confronto não acontecesse, pois seria o fim de muitos deles que estavam a pé. Aquela viagem de volta pela caatinga estava colocando a prova todos os conhecimentos do líder do Pajeú das Flores, adquiridos desde os anos em que trabalhou como almocreve e vaqueiro. Aguçando seus sentidos, raciocinando com frieza, apesar dos problemas, Lampião prevê que seus adversários, as volantes, no intuito de lhe cortarem caminho, partiriam direto para a região do Cariri cearense, localizada no sul do Estado.

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Refazendo-se da agonia Lampião muda seus planos de imediato e segue, tomando todas as precauções e utilizando de despistes, como andar em sentido diferente na direção do município do Riacho do Sangue. Após algumas horas de caminhada ordena que se faça uma parada para descansarem.

Antes do raiar do dia 22 de junho, já estão de novo a caminhar numa busca desesperada por água. A situação se complica, ainda mais, depois que entram no leito de um riacho e esse estava mais seco do que suas gargantas. Autoriza uma parada e manda que alguém vasculhe as redondezas em busca de alguma coisa para comerem. Um dos cabras retorna trazendo a notícia de que havia uma casa e próximo a ela um riacho onde tinha uma cacimba com água. Dando-lhe dinheiro o chefe ordena que vá até a tapera, bata a porta e compre os queijos e rapaduras que lá tivesse. O homem vai e retorna com tudo que pode comprar, porém, para tanta gente, só deu uma refeição. Passaram o resto do dia e a noite naquele recanto de terra cearense.

Ao amanhecer do dia 23, dez dias após o ataque a Mossoró, partem sem saberem o que encontrariam pelo caminho, apenas de uma coisa tinham certeza, que a morte os rondava por perto. Na mata, a frente do grupo, escutam ruídos de cascos de um animal. Parando a cabroeira, Lampião começa a prestar atenção de onde vinha e se seria uma rês solta, o que significava alimento, ou se seria outro animal. De repente notam que se tratava de um homem encourado, um vaqueiro, que matinha a cabeça baixa ao andar da montaria, na certeza estava rastreando os rastros de uma rês desgarrada. O homem só vem perceber os cangaceiros bem perto, ao avistá-los, tenta virar o animal e dar o fora, no que é advertido pelos bandoleiros de que se assim fizesse morreria. Então o vaqueiro puxa as rédeas do animal que estanca.

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Sabino das Abóboras chegou rapidamente junto ao animal e manda que o homem desmonte. Nele foi colocado o cangaceiro ferido que não sabe-se como suportara tanta dor, pois seu membro superior já cheira mal, havia gangrenado.

Notamos a seguir a diferença de um líder que pensa e outro que só tinha em mente matar. O cangaceiro Sabino quer porque quer matar o pobre vaqueiro, dizendo que se ele vivo ficasse entregaria a polícia, a situação e posição deles. Lampião pensou mais além, sabia que necessitava de alguém que conhecesse as redondezas, então não autoriza a morte do homem.

“(…) O covarde suplício foi refutado por Lampião, justificando ao comparsa a extrema necessidade de um guia. Vagavam por região desconhecida.

       Sabino não mais criou caso.

       O matuto não coube em si de contentamento. Prostou-se de joelhos aos pés de Lampião:

– Obrigado “coroné”! Eu levo vocês até um esconderijo que conheço! Pode confiar na minha palavra! (…).” (DANTAS, 2005)

O novo guia os leva, agora numa marcha mais rápida, há um local com segurança. Dali, Massilon pega o vaqueiro e ordena que ele o leve a algum lugar para conseguir comida. Retornam ao anoitece com alguns punhados de farinha, queijos e um peru, coisa mínima para tanta gente esfomeada.

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Fonte – http://cariricangaco.blogspot.com.br/2011_06_01_archive.html

No coito, ou esconderijo, improvisado Virgolino começa a pensar nas volantes paraibanas, repletas de homens corajosos, astutos, corajosos e que “não abriam nem para um trem” e se questiona onde eles estariam? Com certeza em sua busca. Parece que estava adivinhando. Os cangaceiros estavam próximos do local onde se encontrava uma volante comandada pelo Oficial Germano Sólon de França, que tinha sob seu comando não paraibanos, mas uma Força cearense, que vinha escavacando tudo quanto era grotão, furnas, grutas, serras e serrotes, em todas as propriedades rurais, na busca de algum vestígio deixado pelos cangaceiros.

Sabino chama dois dos homens e sai à procura de mais alimentos. Encontra-se com um agricultor e fazem negócio em duas criações que serviriam de alimento para o bando. Preço acertado, Sabino puxa do dinheiro para pagar, quando, naquele momento nota a aproximação de soldados. Imediatamente caem fora, embrenham-se na mata e fogem. O dono das criações não consegue evadir-se, também não tinha por que, deve ter pensado. No entanto é preso e sumariamente torturado quando lhes conta o que estava fazendo. É tido como acoitador, colaborador, fica detido e preso.

“(…) Jeremias foi aprisionado. Não teve tempo de escapar. Sobre seus ombros pesou suspeita de ser coiteiro. De pronto passou por torturas e muito em breve pôs tudo a descoberto. Informou à polícia que Lampião estava próximo, acampado a mais ou menos três quilômetros, no sopé da Serra da Macambira (…).” ((DANTAS, 2005)

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Fonte – http://www.itribuna.com.br

Ao retornar para o acampamento Sabino reporta ao chefe tudo que havia se passado. Essas notícias só vieram confirmar as suspeitas de Lampião, principalmente quando é sabedor de uma grande volante circulava em seu encalço naquela zona. Lampião envia alguns homens, disfarçados, para sondarem se alguma volante estava seguindo para onde estavam. Cai à noite e Sabino chama seu chefe para darem no pé. Virgolino não aceita e diz que esperará aquela volante para dar uma brigada com ela.

“- O filho do velho disse que tinha uma força grande por aí! Acho que a gente deveria fugir!” (diz o cabra das Abóboras)

“- Não! Eu vou esperar essa força! Estou com disposição prá brigar! – reagiu Lampião. (DANTAS, pgs. 302 -303)

Sem darem um minuto de descanso aos cangaceiros, várias volantes, paraibanas e cearenses os perseguem dia e noite. Avançando durante a noite, já na madrugada do dia 25 de junho, um imenso cerco é formado em torno do acampamento onde se encontrava Lampião e seus homens. Aos poucos os volantes vão diminuindo o raio do perímetro, e o confronte teria início a qualquer momento.

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O lugar tenente de Lampião vai até onde estão os reféns Antônio Gurgel e dona Maria José, relata o que está para acontecer e os leva até uma grota funda que ficava perto e os deixam neste local onde estariam protegidos dos tiros. Junto aos reféns também fora deixado o cangaceiro Moreno que estava ferido. Os reféns sempre estiveram o tempo todo sob a guarda do cangaceiro Félix da Mata Redonda, cabra sério e que os demais o respeitavam, porém, dessa vez, ficaram dois a guardá-los.

Em volta de onde estavam os cangaceiros, a coisa estava fervilhando de soldados. Segundo historiadores, seria um contingente, aproximado, de 400 homens doidinhos para matarem cangaceiros.

“(…) Ali bem perto, tropas militares posicionam-se. O comando da operação fora confiado ao tenente cearense Manoel Firmo. Ao seu lado, alentado efetivo, com aproximadamente quatrocentos homens. Acompanhavam o Oficial-em-comando os tenentes cearenses José Bezerra, Osimo de Alencar Lima, Luiz Davi de Souza, Veríssimo Alves Gondim, Antônio Pereira, Germano Solon de França, além do tenente João da Costa e Silva, da polícia paraibana (FIGUEIREDO,s.d.)(…).”

Diferentemente de quando fora emboscado, no serrote da Roda, Lampião era quem estava numa posição favorável. Quando o dia clareia Virgolino observa o movimento tomado pela tropa. Em seguida passa as ordens para os seus homens se posicionarem em determinados lugares. As estratégias empregadas por Lampião, sempre foram fatos de admiração até mesmo entre seus maiores inimigos.

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Davi Jurubeba – Fonte – http://blogdodrlima.blogspot.com.br/2016/12/david-jurubeba-um-heroi-nazareno.html

O nazareno Davi Jurubeba, policial e ferrenho inimigo dos irmãos Ferreira, citou sobre as artimanhas de Lampião em combate e afirmou que ele sempre levou vantagem. Já o pesquisador Sérgio Augusto de Souza Dantas, que entrevistou Davi Jurubeba, trouxe em sua obra os seguintes apontamentos deste inimigo de Lampião:

“Lampião era de uma sagacidade sem nome. Era muito difícil pegar Lampião; ele não caía em emboscadas. Ele vinha de lá e de lá alguém nos avisava. Ficava um bocado esperando ele aqui. Grupos de quatro ou cinco volantes emboscados. Ele vinha, vinha, quando chegava a um ou dois quilômetros da emboscada, ele entrava pelo mato e desaparecia. Isso eu mesmo vi, não foi ouvindo contar não. Eu mesmo vendo. Não! Não sei o que é que ele era não. Não sei se era o Cão. Devia ser Satanás”.

O fogo rompe no Riacho da Fortuna. Cangaceiros colocados em lugares estratégicos “balançam suas armas”, atiram, em respostas aos tiros disparados pela tropa que cercara o local. O tiroteio primeiro dura por volta de hora e meia. Entre disparos e fumaça, escutava-se o vozerio daqueles que se digladiavam, cada um a sua maneira de provocar seu adversário. Xingamentos, palavrões e toadas cantadas no calor da luta…

Após o primeiro tiroteio, ao receberem um sinal do chefe, os cangaceiros param de atirar e ficam imóveis em seus lugares. Calados, sem moverem um músculo do corpo, permaneceram os cabras de Lampião. A tropa, talvez achando que seus adversários deram as costas, começam a sair de seus abrigos e avançarem na direção em que estavam posicionados os cangaceiros. Movimento errado e precipitado. Há um novo sinal do “Rei do Cangaço”, todos de balas nas agulhas das armas, os cangaceiros saem dos abrigos e abrem fogo contra a tropa exposta. Ao escutarem o silvo dos projéteis bem perto de suas cabeças, os soldados partem para bem distante, em busca de salvarem suas vidas adentram a mata ao contrário onde se realiza o confronto. Salta pra lá, corre pra cá, arrasta-se pra li e toda a organização da tropa se desfaz.

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O diário do coronel Gurgel foi uma grande fonte de informações sobre a ação dos cangaceiros antes e depois do ataque a Mossoró em 1927.

“(…) A debandada seguiu-se em desordem, aflita. Cada soldado tentava fugir  da melhor forma possível. Rastejaram, saltaram embrenharam-se no tabuleiro. À esmo, respondiam aos tiros da falange criminosa (…).”  ((DANTAS, 2005)

Aproveitando esse instante de desordem das volantes, Lampião dá outro sinal e todos partem seguindo o leito seco do riacho. Correm até perderem suas forças. Da parte dos cangaceiros, nesse confronto não ocorreu baixas, já do lado militar, a coisa foi terrível:

“Tombaram no teatro da luta os Cabos de Esquadra Raimundo José Augusto, Manoel da Silva Brito, José Felix do Monte e o soldado Aprígio José da Silva. Feridos com gravidade os praças Emídio José de Oliveira, Raimundo Rocha e José Casimiro.” (FIGUEIREDO, s.d.)

LIBERTAÇÃO DOS PRINCIPAIS REFÉNS E PERSEGUIÇÃO FEROZ

Descansando o suficiente, os cangaceiros empregam nova caminhada, saindo do leito do riacho, apagando seus sinais e começando a ação de despistar na caatinga. Lampião e seus companheiros sabiam que se topasse com outra tropa, e mais um confronto ocorresse, não haveria balas suficientes para tal. A preocupação aumenta entre o “estado-maior” de Lampião. O cangaceiro mor relata para os seus lugares-tenentes que chegara a hora de libertar os reféns. Durante o último confronto, Virgolino escutara por diversas vezes os soldados gritarem para que libertassem os reféns. Deixou eles cientes de que, libertando os reféns, a perseguição diminuiria e eles conseguiriam voltar para sua terra. Sabino foi o interlocutor para dar a notícia aos reféns, coronel Antônio Gurgel e dona Maria José, de que eles seriam libertados.

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Dona Maria José Lopes – Fonte – Blog do Mendes & Mendes

Lampião ao despedir-se deles manda que uma das cativas, Dona Maria José Lopes, levada da fazenda Aroeira (hoje na zona rural da cidade de Paraná-RN) que tome bastante cuidado, pois estavam com volantes nas proximidades e estas poderiam, por engano, atirar neles. O coronel Gurgel chega-se pra perto de Lampião e estende-lhe a mão. Antes de partir, recebe do “Rei do Cangaço“ duas moeda de ouro, duas libras esterlinas, deixando o coronel surpreso e boquiaberto com aquela atitude.

“Ao sair, recebeu duas moedas de ouro. Não conseguindo esconder a surpresa. Lampião justificou o ato:

– É para sua netinha!” (FERNANDES, 1985, p. 189) – Sobre o caso destas moedas ver – https://tokdehistoria.com.br/2017/06/23/o-ouro-dos-cangaceiros-para-yolanda/

O dia seguinte, 26 de junho, foi cheio de espectros que surgiam em cada moita, levantavam-se de trás de cada pedra… E sempre partiam ao encontro daquela horda faminta, cansada e sedenta. À noite era pior, pois não conseguiram pregar o olho.

A caminhada era incessante. Não poderiam parar para nada. Desciam serra, subiam morros, atravessavam baixos e prosseguiam numa louca tentativa de salvarem suas vidas. Já iam longe, na segunda metade do dia 27 de junho, no lugar chamado Cabeça do Boi, quando são atacados por uma Força paraibana. Lampião e seus “meninos” rompem mais esse ataque e embrenham-se na sua aliada natural, a caatinga. Dessa feita não há baixas em nenhum dos lados. Porém os nervos dos cangaceiros estavam, cada vez mais, em total frangalho.

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Clementino José Furtado, o Clementino Quelé – Fonte – https://tokdehistoria.com.br/2013/07/06/as-batalhas-entre-clementino-quele-e-lampiao-em-1924-em-santa-cruz-da-baixa-verde-pe/

No dia 29, após longa e sofrida volta ao rumo do Cariri cearense, os cangaceiros, sem notarem, estavam às voltas com os homens do antigo cangaceiro e companheiro de lutas Clementino José Furtado, o sargento Quelé, o conhecido “Tamanduá Vermelho”, agora comandante de uma volante paraibana e verdadeiro osso duro de roer.

Estavam eles, os cangaceiros, naquele momento sob os olhares dos homens da volante paraibana comandada pelo tenente Manuel Arruda Diniz. Diniz, segundo pesquisadores, não ordena que seus homens ataquem, e seria, ou teria sido, uma situação ímpar. O tenente distribuiu seus homens em duas fileiras, deixando um espaço que tinha condições dos cangaceiros passassem mesmo no meio da fila dupla de atiradores. Os cangaceiros passam e os soldados apenas os olham.

“(…) A emboscada preparada pelo tenente Manuel Arruda Diniz, da polícia paraibana, foi, entretanto, meramente figurativa.

Não houve tiro sequer.

O oficial – que no dia anterior (28 de junho) alardeava aos quatro cantos que iria arrasar o grupo – fez proposital vista grossa e os cangaceiros passaram incólumes entre as colunas (…).” (DANTAS, 2005)

Assim, volantes paraibanas, cearenses, pernambucanas e norte-rio-grandenses, passam a perseguir o bando de cangaceiros, desanimados, esfomeados e sem munição para enfrentar uma luta aberta contra tantos inimigos em comum.

Mas a coisa fica mesmo catastrófica, com a traição daquele a quem o “Rei do Cangaço”, caminha em busca de apoio e guarida, o coronel Izaías Arruda, da Fazenda Ipueiras…

A TRAIÇÃO DO CORONEL

O cerco ao bando de Lampião, em território cearense, a cada dia se fechava mais. Eles não tinham nem como descansar direito. Forças de três Estados estavam em seus calcanhares e não queriam “largar o osso”, pelo contrário, todos queriam era dar o golpe final. Acabar de uma vez por todas com o famigerado facínora que tanto lhes dava trabalho.

Para onde pendesse o bando encontra adversários. Uma grande tropa paraibana, comandada pelo tenente João Costa e pelo sargento Clementino Quelé, cercam o bando, ou o que restava dele na Serra do Velame. Nesse combate o pernambucano perde vários cangaceiros.

Procura refúgio e desça a encosta da serra. Ao chegarem próximos as margens do açude Velame, são novamente cercados e atacados pelos paraibanos que haviam dividido seus homens, deixando vários de seus combatentes na retaguarda. Mais vidas são perdidas e as baixas só aumentam. Nesse embate, não sabemos ao certo como, Virgolino consegue furar o cerco e cair fora com o restante de seus cabras. (LIRA, 1990)

Os cangaceiros estavam passando por uma prova que homens comuns não aguentariam. Além da perseguição constante das Forças Públicas de alguns dos Estados nordestinos, havia a fome e a sede que tirava os restos das suas resistências. A única coisa que sabemos que fora colaboradora de Lampião e sua turba naqueles dias, naquela volta terrível das terras potiguares, foi a sua aliada, a “mata Branca”. Quem respeita a caatinga e a conhece profundamente, tira proveito disso. Nela encontra-se o alimento e a água para matar a sede através da sua flora e fauna.

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Casa do coronel Izaías Arruda, Missão Velha, Ceará – Fonte – Rostand Medeiros.

A meta de Lampião, naqueles momentos terríveis, era uma só: chegar às terras de seu, até então, amigo coronel Izaías Arruda, na fazenda Ipueiras, sul do Cariri cearense. Na verdade, segundo vários autores, o plano para invadirem a cidade de Mossoró fora elaborado pelo coronel Izaías Arrudas e outros daquele meio, nas próprias terras que agora o “Rei do Cangaço” tentava alcançar em busca de amparo, proteção e com isso salvar sua vida.

Lampião, diferentemente do que muitos pensam, dependia e muito dos coronéis sertanejos, pois sem a colaboração e o apoio deles seu “reinado sangrento” não teria durado quase vinte anos. Só que a coisa era na base do “toma lá, da cá”. Nem os coronéis faziam algo sem verem o que conseguiriam em troca, nem Lampião fazia algo sem ver o que receberia pelo feito. A “amizade” e a lealdade deles se baseavam unicamente nesse sentido, ou seja, na verdade nem uma parte nem outra tinham confiança mútua.

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Além do mais para os coronéis havia as questões políticas e para isso era bom manter amizade e, quando possível, usarem os serviços daqueles que viviam da espingarda na mão. Eles, os “coronéis”, os principais políticos de sua época, fizeram e desfizeram de muita coisa a margem da “Lei”. No entanto a própria “Lei” os protegiam e só condenavam os pobres lascados. Isso é fato!

Pois bem, o coronel Izaías Arruda recebe a notícia de que Lampião e seu bando se encontram no município de Missão Velha e ou Aurora. Lampião, com as vestes em frangalhos, assim como as dos seus homens, solicitam acolhida ao chefe político. Izaías envia Lampião e ao bando para as terras fazenda Vivenda, de seu parente e cúmplice José Cardoso. Era para eles ficarem na casa sede, porém, como a coisa estava “quente demais”, Lampião, em cima da hora, já avistando a casa sede, resolveu levar os cangaceiros para a margem de uma vargem e alojam-se debaixo dos pés de oiticica e juazeiro que lá havia. Próximo a eles tinha um grande canavial de um lado e do outro a mata bruta. O coronel Izaías Arruda, vendo a coisa ficando preta pra o lado do seu aliado, resolveu dá um jeito de eliminá-lo.

Vemos duas situações nesse gesto do coronel: uma seria que ele, o capitão Lampião, estando morto jamais poderia abrir a boca sobre quem, onde e como fora organizado e planejado o ataque à grande cidade do sertão potiguar. Em segundo Lugar Izaías Arruda não era bem visto pelas autoridades cearenses e paraibanas, devido ter conseguido muito, inclusive ser Prefeito da cidade cearense de Missão Velha, a base das armas. Daí, sendo ele o autor indireto da morte do famigerado cangaceiro pernambucano, a sua situação poderia mudar de figura diante das vistas das autoridades.

O vaqueiro Miguel Saraiva é encarregado pelo próprio coronel Izaías para que esse colocasse veneno na comida que levaria para os cangaceiros. Além disso o coronel envia seus jagunços, que não eram poucos, juntos com uma tropa militar para que dessem cabo do bando. Além disso o coronel ordena que se coloque fogo na plantação de cana próxima ao acampamento dos cangaceiros e por último a tropa e os jagunços que faziam o cerco matariam a tiros aqueles que não morressem envenenados ou queimados.

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Local onde aconteceu o incêndio da Ipueiras com o serrote dos Cantins ao fundo. Foto do competente pesquisador José Cícero, de Aurora, Ceará.

“(…)Tudo envolvido em conjunto na estratégia traçada na fazenda Ipueiras com vista a invasão de Mossoró, o ataque da volante sofrido no sítio Ribeiro( riacho do Bordão de Velhos dia 2 de julho) e por fim, o suculento banquete(envenenado) a cargo do vaqueiro Miguel Saraiva( da serra do Diamante e Coxá) oferecido na casa grande da fazenda-vivenda pertencente a José Cardoso, parente do famoso coronel Izaiais Arruda que terminaria com um cerco policial e o ato incendiário ao bando. Neste episodio marcante ocorrido em 7 de julho de 1927 próximo do meio-dia, cumpre destacar que em cima da hora, Lampião a 500 metros da residência, decidiu que o almoço fosse servido não mais na casa grande, mas ali mesmo, no baixio sob as sombras das Oiticicas e Juazeiros. Uma decisão providencial e salvadora(…).” (“A Traição de Izaias Arruda” – José Cícero)

“(…)Dr. Izaías Arruda queria mesmo, naquele dia, exterminar o rei do cangaço e o seu já desfalcado bando(…) Além do veneno, o Dr. Izapias armou mais dois tremendos laços para Lampião: um foi em mandar tocar fogo em todo canavial existente no roçado; o último foi em por toda a sua cabroeira no pé da cerca, para que, quem escapasse do veneno e do fogo, não escapasse das balas de sua gente (…).” (“Lampião – Memórias de um Soldado de Volante”- LIRA. João Gomes. 1ª edição. Recife,1990)

Alguns cangaceiros na verdade, ao comerem a comida envenenada, não morrem, apesar de passarem bastante mal. Aí surgiu o fogaréu na plantação. Não se sabe, mais uma vez, como danado foi que veio a ideia para que Lampião saísse do veneno e do fogo que consumia rapidamente a palha seca do canavial. Foi um momento, talvez raro, em que Lampião não estava prevenido, pois tinha o coronel Arruda como amigo e aliado, nunca esperava uma traição daquele tamanho. Mas ele consegue escapar!

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O major Moisés de Figueiredo, da polícia cearense, foi um dos que tiveram de se explicar sobre o fato de Lampião conseguir sair do Ceará – Coleção Rostand Medeiros

Lampião fora um bandoleiro das caatingas sertanejas que agiu em sete dos nove Estados da Região Nordeste, mas quando dava sua palavra ele a cumpria. No entanto, por achar que os outros também agiriam assim, perdeu a vida e a cabeça num leito de um riacho seco em terras sergipanas na segunda metade da década de 1930.

Aos trancos e barrancos, o “Rei Vesgo” consegue transpor os limites da linha divisória dos Estados do Ceará e de Pernambuco, ainda comandando um bando, bastante pequeno em relação ao que fora, não só pelas baixas, mas também pela separação dos homens do bando de Massilon Leite e deserções.

FIM DE UMA JORNADA E INÍCIO DE OUTRA

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Na sexta-feira, 22 de julho de 1927, o telégrafo estalou em Recife com a notícia da captura naquele mesmo dia do cangaceiro Serra do Umã, também alcunhado Mão Foveira. Ele se chamava Domingos dos Anjos de Oliveira, era negro, jovem, tido como valente e natural da grande Serra do Umã. Era irmão do cangaceiro Azulão, morto no Combate da Caiçara, em 10 de junho de 1927, próximo do atual município de Marcelino Vieira, Rio Grande do Norte. Foto do mesmo preso em Recife – Fonte – https://tokdehistoria.com.br/2014/09/12/cangaceiros-atras-das-grades-fim-da-ilusao/

Estando no município da cidade de Bom Nome, já em Pernambuco, um dos cabras de Lampião, o cangaceiro “Mão Foveira”, também conhecido como “Serra do Umã”, cujo nome real era Domingos dos Anjos de Oliveira, vinha se contorcendo de dores devido ao veneno ingerido, solicita ao chefe sua dispensa. Pra que aquele cabra fez aquele pedido? O filho de Vila Bela se irritou muito e perdeu as estribeiras. Pois bem, o chefe, em vez de deixa-lo ir, coloca uma bala na agulha da arma e diz que o deixaria, porém, morto. Não sabemos de outra perda de serenidade nos estudos sobre Lampião como esse. O cangaceiro começa a implorar pela vida e só não perde devido todos os outros ficarem a seu favor. Fato esse também raro, se não único, nos feitos do cangaço lampiônico, em que toda a cabroeira fica contrária ao chefe.

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Jornais repercutiram muito mal na época a forma como Lampião conseguiu sair do Ceará – Coleção Rostand Medeiros

“(…) Todo mundo contra Lampião, ficando todos ao lado do companheiro Mão foveira. Todo bando, por uma só voz falou a Lampião que, naquela jornada, por causa do veneno já havia morrido uma infinidade de companheiros, e, naquele momento, gritaram, dizendo que duvidavam como Lampião não atirava em Mão Foveira (…) Tendo, diante da forte recusa, Lampião desistido, deixando Mão Foveira com vida, apenas desprezado no meio da estrada, torcendo-se com as dores no intestino(…).” (Dantas, 2005)

Nos dias, semanas e meses seguintes as volantes não deixaram “a pista esfriar”. Aperto em cima de aperto e o bando, aos solavancos, vai diminuindo. Morrem alguns, outros desertam e outros se entregam as autoridades. Lampião então vai refugiar-se na Serra do Umã. Segundo o saudoso João Gomes de Lira, ex-volante: “A inviolável Serra do Umã era habitada por Caboclos, cangaceiros valentes”. Lá refugiado Lampião tenta curar suas feridas. Não dá tempo de sarar não, pois Manoel de Souza Neto, o comandando nazareno conhecido como Mané Neto e apelidado como “Mané Fumaça”, valente que só a gota serena, sobe a serra para matar e prende muita gente. No entanto, mais uma vez, apesar de estarem lascados, Lampião e alguns cangaceiros, incrivelmente, já haviam se mandado.

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Manoel de Souza Neto, o “Mané Neto” – Fonte – http://lampiaoaceso.blogspot.com.br/2016/07/

Nessa constante, de seguidas perdas de homens, apesar de alguns outros homens entrarem para o bando, as coisas não melhoraram em nada para o “Rei dos Cangaceiros”.

Acaba-se 1927, entra 1928 e as coisas continuam do mesmo jeito, as volantes não dão trégua a Lampião. Em março de 1928, seu lugar tenente Sabino das Abóboras é morto na fazenda Piçarra, terras pertencentes a um dos maiores coiteiros, citam alguns autores que também traiu a confiança de Lampião.

Durante o decorrer de 1928, o bando vai diminuindo, e chega a tal ponto de só ter o chefe Lampião e mais cinco homens – Ponto Fino, Moderno, Luiz Pedro, Mariano e Mergulhão.

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Lampião (primeiro a esquerda) em Pombal, Bahia – 1928 – Fonte – marcosnogueira-2.blogspot.com

Chega então, a hora do cangaceiro mor deixar as paragens entre Pernambuco, Paraíba, Ceará e o Rio Grande do Norte para ir à busca de novas terras em lugares distantes, para assim recomeçar seu sangrento “meio-de-vida”. As encontra no vizinho Estado da Bahia, após atravessar as águas do Rio São Francisco, o “Velho Chico”, e ir refugiar-se sob a proteção do coronel Petronilo Reis, que mais tarde, também vai trair sua confiança.

Mas, essa é outra história que depois a detalharemos…

Fontes

 “Lampião – Memórias de um soldado de Volante” – LIRA, João Gomes de. 1ª Edição. Recife, 1990.

Cangaceiros Cariri. Com

Blog de Aurora.com

Fotos “Lampião e o Rio Grande do Norte – A história da grande jornada” – DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. 1ª edição. Natal, 2005.

TokdeHistória.com

Cangaçonabahia.com

Cangaceiros Cariri. Com

Blog de Aurora.com

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BRUTAL LAMPIÃO – DESPIDO DO MITO, CANGACEIRO ESTAVA MAIS PARA NARCOTRAFICANTE DO RIO QUE PARA ROBIN HOOD

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Em seu aparato de guerra | Crédito: Reprodução – Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/brutal-lampiao.phtml#.WWwJ3ojyvXP

AUTOR – Lira Neto

FONTE – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/brutal-lampiao.phtml#.WWwIlYjyvXP

Eles faziam do assassinato um ritual macabro. O longo punhal, de até 80 centímetros de comprimento, era enfiado com um golpe certeiro na base da clavícula – a popular “saboneteira” – da vítima. A lâmina pontiaguda cortava a carne, seccionava artérias, perfurava o pulmão, trespassava o coração e, ao ser retirada, produzia um esguicho espetaculoso de sangue. Era um policial ou um delator a menos na caatinga – e um morto a mais na contabilidade do cangaço. Quando não matavam, faziam questão de ferir, de mutilar, de deixar cicatrizes visíveis, para que as marcas da violência servissem de exemplo. Desenhavam a faca feridas profundas em forma de cruz na testa de homens, desfiguravam o rosto de mulheres com ferro quente de marcar o gado.

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Lampião, o segundo que está sentado da esquerda para direita, nos primeiros tempos do cangaço – Fonte – http://www.1000dias.com

Quase 80 anos após a morte do principal líder do cangaço, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, a aura de heroísmo que durante algum tempo tentou-se atribuir aos cangaceiros cede terreno para uma interpretação menos idealizada do fenômeno. Uma série de livros, teses e dissertações acadêmicas lançados nos últimos anos defende que não faz sentido cultuar o mito de um Lampião idealista, um revolucionário primitivo, insurgente contra a opressão do latifúndio e a injustiça do sertão nordestino. Virgulino não seria um justiceiro romântico, um Robin Hood da caatinga, mas um criminoso cruel e sanguinário, aliado de coronéis e grandes proprietários de terra. Historiadores, antropólogos e cientistas sociais contemporâneos chegam à conclusão nada confortável para a memória do cangaço: no Brasil rural da primeira metade do século 20, a ação de bandos como o de Lampião desempenhou um papel equivalente ao dos traficantes de drogas que hoje sequestram, matam e corrompem nas grandes metrópoles do país. Guardadas as devidas proporções, o cangaço foi algo como o PCC dos anos 1930. 

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Outro grande chefe cangaceiro foi Corisco, o primeiro a esquerda, tendo ao seu lado a companheira Dadá e integrantes do seu grupo – Fonte – Coleção do autor

Cangaceiros e traficantes

Foram os cangaceiros que introduziram o sequestro em larga escala no Brasil. Faziam reféns em troca de dinheiro para financiar novos crimes. Caso não recebessem o resgate, torturavam e matavam as vítimas, a tiro ou punhaladas. A extorsão era outra fonte de renda. Mandavam cartas, nas quais exigiam quantias astronômicas para não invadir cidades, atear fogo em casas e derramar sangue inocente. Ofereciam salvo-condutos, com os quais garantiam proteção a quem lhes desse abrigo e cobertura, os chamados coiteiros. Sempre foram implacáveis com quem atravessava seu caminho: estupravam, castravam, aterrorizavam. Corrompiam oficiais militares e autoridades civis, de quem recebiam armas e munição. Um arsenal bélico sempre mais moderno e com maior poder de fogo que aquele utilizado pelas tropas que os combatiam.

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“A violência é mais perversa e explícita onde está o maior contingente de população pobre e excluída. Antes o banditismo se dava no campo; hoje o crime organizado é mais evidente na periferia dos centros urbanos”, afirma a antropóloga Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autora do livro A Derradeira Gesta: Lampião e Nazarenos Guerreando no Sertão. A professora aponta semelhanças entre os métodos dos cangaceiros e dos traficantes: “A maioria dos moradores das favelas de hoje não é composta por marginais. No sertão, os cangaceiros também eram minoria. Mas, nos dois casos, a população honesta e trabalhadora se vê submetida ao regime de terror imposto pelos bandidos, que ditam as regras e vivem à custa do medo coletivo”.

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Lampião – Fonte – http://www.itribuna.com.br

Além do medo, os cangaceiros exerciam fascínio entre os sertanejos. Entrar para o cangaço representava, para um jovem da caatinga, ascensão social. Significava o ingresso em uma comunidade de homens que se gabavam de sua audácia e coragem, indivíduos que trocavam a modorra da vida camponesa por um cotidiano repleto de aventuras e perigos. Era uma via de acesso ao dinheiro rápido e sujo de sangue, conquistado a ferro e a fogo. “São evidentes as correlações de procedimentos entre cangaceiros de ontem e traficantes de hoje. A rigor, são velhos professores e modernos discípulos”, afirma o pesquisador do tema Melquíades Pinto Paiva, autor de Ecologia do Cangaço e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Homem e lenda

Virgulino Ferreira da Silva reinou na caatinga entre 1920 e 1938. A origem do cangaço, porém, perde-se no tempo. Muito antes dele, desde o século 18, já existiam bandos armados agindo no sertão, particularmente na área onde vingou o ciclo do gado no Nordeste, território onde campeava a violência, a lei dos coronéis, a miséria e a seca. A palavra cangaço, segundo a maioria dos autores, derivou de “canga”, peça de madeira colocada sobre o pescoço dos bois de carga. Assim como o gado, os bandoleiros carregavam os pertences nos ombros.

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Um dos precursores do cangaço foi o lendário José Gomes, o endiabrado Cabeleira, que aterrorizou as terras pernambucanas por volta de 1775. Outro que marcou época foi o potiguar Jesuíno Alves de Melo Calado, o Jesuíno Brilhante (1844-1879), famoso por distribuir entre os pobres os alimentos que saqueava dos comboios do governo. Mas o primeiro a merecer o título de Rei do Cangaço, pela ousadia de suas ações, foi o pernambucano Antônio Silvino (1875-1944), o Rifle de Ouro. Entre suas façanhas, arrancou os trilhos, perseguiu engenheiros e sequestrou funcionários da Great Western, empresa inglesa que construía ferrovias no interior da Paraíba.  

Bonnie e Clyde do sertão

O amor de Maria Bonita e Lampião provocou uma revolução no cotidiano dos cangaceiros

 

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Uma sertaneja amoleceu o coração de pedra do Rei do Cangaço. Foi Maria Gomes de Oliveira, a Maria Déa, também conhecida como Maria Bonita. Separada do antigo marido, o sapateiro José Miguel da Silva, o Zé de Neném, foi a primeira mulher a entrar no cangaço. Antes dela, outros bandoleiros chegaram a ter mulher e filhos, mas nenhuma esposa até então havia ousado seguir o companheiro na vida errante no meio da caatinga.

O primeiro encontro entre os dois foi em 1929, em Malhada de Caiçara (BA), na casa dos pais de Maria, então com 17 anos e sobrinha de um coiteiro de Virgulino. No ano seguinte, a moça largou a família e aderiu ao cangaço, para viver ao lado do homem amado. Quando soube da notícia, o velho mestre de Lampião, Sinhô Pereira, estranhou. Ele nunca permitira a presença de mulheres no bando. Imaginava que elas só trariam a discórdia e o ciúme entre seus “cabras”. Mas, depois da chegada de Maria Déa, em 1930, muitos outros cangaceiros seguiram o exemplo do chefe. Mulher cangaceira não cozinhava, não lavava roupa e, como ninguém no cangaço possuía casa, também não tinha outras obrigações domésticas. No acampamento, cozinhar e lavar era tarefa reservada aos homens.

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Lampião e Maria Bonita – Fonte – blogdomendesemendes.blogspot.com

Elas também só faziam amor, não faziam a guerra: à exceção de Sila, mulher do cangaceiro Zé Sereno, não participavam dos combates – e com Maria Bonita não foi diferente. O papel que lhes cabia era o de fazer companhia a seus homens. Os filhos que iam nascendo eram entregues para ser criados por coiteiros. Lampião e Maria tiveram uma filha, Expedita, nascida em 1932. Dois anos antes, aquele que seria o primogênito do casal nascera morto, em 1930.

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Cangaceiros – Fonte –  http://www.grupoimagem.org.br

Entre os casais, a infidelidade era punida dentro da noção de honra da caatinga: o cangaceiro Zé Baiano matou a mulher, Lídia, a golpes de cacete, quando descobriu que ela o traíra com o colega Bem-Te-Vi. Outro companheiro de bando, Moita Brava, pegou a companheira Lili em amores com o cabra Pó Corante. Assassinou-a com seis tiros à queima-roupa. A chegada das mulheres coincidiu com o período de decadência do cangaço.

Desde que passou a ter Maria Bonita a seu lado, Lampião alterou a vida de eterno nômade por momentos cada vez mais alongados de repouso, especialmente em Sergipe. A influência de Maria Déa sobre o cangaceiro era visível. “Lampião mostrava-se bem mudado. Sua agressividade se diluía nos braços de Maria Déa”, afirma o pesquisador Pernambucano de Mello. Foi em um desses momentos de pausa e idílio no sertão sergipano que o Rei do Cangaço acabou sendo surpreendido e morto, na Grota do Angico, em 1938, depois da batalha contra as tropas do tenente José Bezerra. Conta-se que, quando lhe deceparam a cabeça, a mais célebre de todas as cangaceiras estava ferida, mas ainda viva.

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Fonte – nosrevista.com.br

Lampião sempre afirmou que entrou na vida de bandido para vingar o assassinato do pai. José Ferreira, condutor de animais de carga e pequeno fazendeiro em Serra Talhada (PE), foi morto em 1920 pelo sargento de polícia José Lucena, após uma série de hostilidades entre a família Ferreira e o vizinho José Saturnino. No sertão daquele tempo, a vingança e a honra ofendida caminhavam lado a lado. Fazer justiça com as próprias mãos era considerado legítimo e a ausência de vingança era entendida como sintoma de frouxidão moral. “Na minha terra,/ o cangaceiro é leal e valente:/ jura que vai matar e mata”, diz o poema “Terra Bárbara”, do cearense Jáder de Carvalho (1901-1985).

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No mesmo ano de 1920, Virgulino Ferreira entrou para o grupo de outro cangaceiro célebre, Sebastião Pereira e Silva, o Sinhô Pereira – segundo alguns autores, quem o apelidou de Lampião. Como tudo na biografia do pernambucano, é controverso o motivo do codinome. Há quem diga que o batismo se deveu ao fato de ele manejar o rifle com tanta rapidez e destreza que os tiros sucessivos iluminavam a noite. O olho direito, cego por decorrência de um glaucoma, agravado por um acidente com um espinho da caatinga, não lhe prejudicou a pontaria. Outros acreditam na versão atribuída a Sinhô Pereira, segundo a qual Virgulino teria usado o clarão de um disparo para encontrar um cigarro que um colega havia deixado cair no chão.

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Sinhô Pereira (sentado) e Luiz Padre – Fonte – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/2012/08/sinho-pereira-o-comandante-de-lampiao.html

O cangaço não tinha um líder de destaque desde 1914, quando Antônio Silvino foi preso após um combate com a polícia. Só a partir de 1922, após assumir o bando de Sinhô Pereira, Virgulino se tornaria o líder máximo dos cangaceiros. Exímio estrategista, Lampião distinguiu-se pela valentia nas pelejas com a polícia, como em 1927, em Riacho de Sangue, durante um embate com os homens liderados pelo major cearense Moisés Figueiredo. Os 50 homens de Lampião foram cercados por 400 policiais. O tiroteio corria solto e a vitória da polícia era iminente. Lampião ordenou o cessar-fogo e o silêncio sepulcral de seu bando. A polícia caiu na armadilha. Avançou e, ao chegar perto, foi recebida com fogo cerrado. Surpreendidos, os soldados bateram em retirada.

1- Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião

A capacidade de despistar os perseguidores lhe valeu a fama de possuir poderes sobrenaturais e, após escapar de inúmeras emboscadas, de ter o corpo fechado. No mesmo mês da tocaia de Riacho de Sangue, Lampião e seu bando caíram em nova emboscada. Um traidor ofereceu-lhes um jantar envenenado, numa casa cercada por policiais. Quando os primeiros cangaceiros começaram a passar mal, Virgulino se deu conta da tramóia e tentou fugir, mas viu-se acuado por um incêndio proposital na mata. O que era para ser uma arapuca terminou por salvar a pele dos cangaceiros: desapareceram na fumaça, como por encanto.

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Alegria dos cangaceiros para a câmera

Mas o maior trunfo de Lampião foi o de cultivar uma grande rede de coiteiros. Isso garantiu a longevidade de sua carreira e a extensão de seu domínio. A atuação de seu bando estendeu-se por Alagoas, Ceará, Bahia, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe. Lampião chegou a comandar um exército nômade de mais de 100 homens, quase sempre distribuídos em subgrupos, o que dava mobilidade e dificultava a ação da polícia. Em 1926, em tom de desafio e zombaria, chegou a enviar uma carta ao governador de Pernambuco, Júlio de Melo, propondo a divisão do estado em duas partes. Júlio de Melo que se contentasse com uma. Lampião, autoproclamado “Governador do Sertão”, mandaria na outra.

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Lampião – Fonte – lounge.obviousmag.org

Há divergências – e discussões apaixonadas – em torno da figura histórica de Virgulino. Ele comandava sessões de estupro coletivo ou, ao contrário, punia indivíduos do bando que violentavam mulheres? Castrava inimigos, como faziam outros tantos envolvidos no cangaço? Há controvérsias. “Lampião não era um demônio nem um herói. Era um cangaceiro. Muitas das crueldades imputadas a ele foram praticadas por indivíduos de outros bandos. Entrevistei vários ex-cangaceiros e nenhum me confirmou histórias a respeito de estupros e castrações executadas pessoalmente por Lampião”, diz o pesquisador Amaury Corrêa de Araújo, autor de sete livros sobre o cangaço. 

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As narrativas de velhos cangaceiros contrapõem-se à versão publicada pelos jornais da época, que geralmente tinham a polícia como principal fonte. Com tantas histórias e estórias a cercar a figura de Lampião, torna-se difícil separar o homem da lenda. “Acho que está justamente aí, nessa multiplicidade de olhares e versões, a grande força do personagem que ele foi. É isso que nos ajuda inclusive a entender sua dimensão como mito”, explica a historiadora francesa Élise Grunspan-Jasmin, autora de Lampião: Senhor do Sertão (Edusp).

Bandido social?

Já foi moeda corrente entre os especialistas interpretar o “Rei do Cangaço” como um “bandido social”, expressão criada pelo historiador inglês Eric Hobsbawm para definir os fora-da-lei que surgiam nas sociedades agrárias em transição para o capitalismo.Em Bandidos (Forense Universitário), de 1975, Hobsbawn cita Lampião, Robin Hood e Jesse James como exemplos de nobres salteadores, vingadores ousados, defensores dos oprimidos.

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Marcas do cangaço – Cabeças cortadas e uma estética própria nos equipamentos – Na foto vemos as cabeças dos cangaceiros Mariano, Pai Véio e Zeppelin, mortos em 25 de outubro de 1936, na fazenda Cangalexo, Porto da Folha, Sergipe.

A imagem revolucionária começou a se desenhar em 1935, quando a Aliança Nacional Libertadora citou Virgulino como um de seus inspiradores políticos. A tese foi reforçada em 1963 com o lançamento de um clássico sobre o tema, Cangaceiros e Fanáticos, no qual o autor, Rui Facó, justifica a violência física do cangaço como uma resposta à violência social. Na mesma época, o deputado federal Francisco Julião, representante das Ligas Camponesas e militante político pela reforma agrária, declarava que Lampião era “o primeiro homem do Nordeste a batalhar contra o latifúndio e a arbitrariedade”.

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O responsável pelo blog TOK DE HISTÓRIA junto a Frederico Pernambucano de Mello.

“Lampião não era um revolucionário. Sua vontade não era agir sobre o mundo para lhe impor mais justiça, mas usar o mundo em seu proveito”, afirma a também a historiadora Grunspan-Jasmin, fazendo coro a um dos maiores especialistas do cangaço da atualidade, Frederico Pernambucano de Mello. Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e autor de Guerreiros do Sol: Violência e Banditismo no Nordeste Brasileiro, Mello diz que o cangaceiro e o coronel não eram rivais. Os coronéis ofereciam armas e proteção aos cangaceiros, que, em troca, forneciam serviço de milícia. Dois dos maiores coiteiros de Lampião foram homens poderosos: o coronel baiano Petronilo de Alcântara Reis e o capitão do Exército Eronildes de Carvalho, que viria a ser governador de Alagoas. “Aprecio de preferência as classes conservadoras: agricultores, fazendeiros, comerciantes”, disse Virgulino em uma entrevista de 1926.

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Marqueteiro da caatinga

A ideia de que Lampião fosse um vingador também é contestada por Mello. Ele argumenta que, em quase 20 anos de cangaço, Lampião nunca teria se esforçado para se vingar de Lucena e Saturnino, o policial e o antigo vizinho responsáveis pelo assassinato de seu pai. De acordo com um dos homens de Virgulino, Miguel Feitosa, o Medalha, Saturnino chegara a mandar um uniforme e um corte de tecido com o objetivo de selar a paz entre eles. Um portador teria agradecido por Lampião. O mesmo Medalha dizia que o ex-soldado Pedro Barbosa da Cruz propôs matar Lucena por dinheiro. “Deixe disso, essas são questões velhas”, teria respondido Lampião. Segundo o autor de Guerreiros do Sol, os cangaceiros usavam o discurso de vinganças pessoais e gestos de caridade como “escudos éticos” para os atos de banditismo.

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Exposição macabra de cangaceiros do bando de Lampião que foram mortos por civis liderados por Antonio Manuel Filho, o Tenente Antonio de Amélia, que cumpriu a promessa de vingar a morte de um amigo.Em pé amarrados a troncos de madeira estão os corpos dos quatro cangaceiros: Suspeita, Limoeiro, Fortaleza, Medalha e no caixão abaixo o corpo de Félix Alves, um civil que morreu durante o combate – Fonte – http://beradeirocurioso.blogspot.com.br/2014/08/10-fotos-marcantes-e-as-historias-por_24.html

Apesar da vida árdua, quem entrava no cangaço dificilmente conseguia (ou queria) sair dele. Havia um notório orgulho de pertencer aos bandos, revelado também na indumentária dos cangaceiros. O excesso de adereços, os enfeites nos chapéus, os bordados coloridos foram típicos dos momentos finais do cangaço. Lampião era um homem bem preocupado com sua imagem pública, o que colaborou para que permanecesse na memória nacional. O Rei do Cangaço também era o rei do marketing pessoal. Assim como adorava aparecer em jornais e revistas, deixando-se inclusive fotografar e até filmar, fazia de seu traje de guerreiro uma ostensiva e vaidosa marca registrada. “Nisso, talvez apenas o cavaleiro medieval europeu ou o samurai oriental possa rivalizar com o nosso capitão do cangaço”, escreveu Pernambucano de Mello.A antropóloga Luitgarde Barros enxerga aí um outro ponto em comum com a bandidagem atual: “Os traficantes também gostam de ostentar sua condição de bandidos e possuem um código visual característico, composto por capuzes e tatuagens de caveiras espalhadas pelo corpo”.

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A violência policial é outro aspecto que aproxima o universo de Lampião do mundo do tráfico. Como ocorre hoje nas favelas dominadas pelo crime organizado, a truculência dos bandoleiros sertanejos só encontrava equivalência na brutalidade das volantes – as forças policiais cujos soldados eram apelidados pelos cangaceiros de “macacos”. Nos tempos áureos do cangaço, não havia grandes diferenças entre a ação de bandidos e soldados. Não raro, eles se trajavam do mesmo modo – o que chegava a provocar confusões – e uns se bandeavam para o lado dos outros. Cangaceiros como Clementino José Furtado, o Quelé, abandonaram o grupo e foram cerrar fileiras em meio às volantes. O bandido Mormaço fez o movimento contrário. Havia sido corneteiro da polícia antes de aderir a Lampião.

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Cangaceiros mortos em Angicos. Foto colorida por Rubens Antônio – Fonte – http://www.jeremoabo.com.br/web/index.php/noticias/21-politica/1866-semana-do-cangaco-de-piranhas-sera-de-24-a-27-de-julho

Como é comum à história da maioria dos criminosos, uma morte trágica e violenta marcou o fim dos dias de Virgulino. Traído por um de seus coiteiros de confiança, Pedro de Cândida, que foi torturado pela polícia para denunciar o paradeiro do bando, Lampião acabou surpreendido em seu esconderijo na Grota do Angico, Sergipe, em 28 de julho de 1938. Depois de uma batalha de apenas 15 minutos contra as tropas do tenente José Bezerra, 11 cangaceiros tombaram no campo de batalha. Todos eles tiveram os corpos degolados pela polícia, inclusive Lampião e Maria Bonita. Durante mais de 30 anos, as cabeças dos dois permaneceram insepultas. Em 1969, elas ainda estavam no museu Nina Rodrigues, na Bahia, quando foram finalmente enterradas, a pedido de familiares do casal mais mitológico – e temido – do cangaço.

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Os verdadeiros cangaceiros.

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As estratégias e técnicas para despistar os inimigos

Embora seja inadequado referir-se aos cangaceiros como guerrilheiros – eles não tinham nenhum propósito político –, é inegável que lançaram mão de táticas típicas da guerrilha. Habituados a viver na caatinga, não eram presa fácil para a polícia, especialmente para as unidades deslocadas das cidades com a missão de combatê-los no sertão. Uma das maiores dificuldades de enfrentá-los era a de que preferiam ataques rápidos e ferozes, que surpreendiam o adversário. Também não tinham qualquer cerimônia em fugir quando se viam acuados. Houve quem confundisse isso com covardia. Era estratégia cangaceira.

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Lampião

 Tropa de elite: Os bandos eram sempre pequenos, de no máximo 10 a 15 homens. Isso garantia a mobilidade necessária para a realização de ataques-surpresa e para bater em retirada em situações de perigo.

 Calada da noite: Em vez de se deslocar a cavalo por estradas e trilhas conhecidas da polícia, percorriam longas distâncias a pé em meio à caatinga, de preferência à noite. Para evitar que novas vias de acesso ao sertão fossem abertas, assassinavam trabalhadores nas obras de rodovias e ferrovias.

 Os apetrechos: Todos os pertences do cangaceiro eram levados pendurados pelo corpo. Como não se podia carregar muita bagagem, dinheiro e comida eram colocados em potes enterrados no chão, para serem recuperados mais tarde.

 Raposas do deserto: Cangaceiros eram mestres em esconder rastros. Alguns truques: usar as sandálias ao contrário nos pés. Pelas pegadas, a polícia achava que eles iam na direção contrária (detalhe); andar em fila indiana, de costas, pisando sobre as mesmas pegadas, apagadas com folhagens; pular sobre um lajedo, dando a impressão de sumir no ar.

 Peso morto: Com exceção de sequestrados, quase nunca faziam prisioneiros em combate, pois isso dificultaria a capacidade de se mover com rapidez. Também não mantinham colegas feridos ou com dificuldade de locomoção.

 Seu mestre mandou: Para resolver discórdias internas no bando, Lampião sempre planejava um grande ataque. Todos os membros do grupo se uniam contra o inimigo e deixavam de lado as divergências entre si.

 Os infiltrados: Quem dava abrigo e esconderijo aos cangaceiros era chamado de coiteiro e agia em troca de dinheiro, de proteção armada ou mesmo por medo. Coiteiros que traíam a confiança eram mortos para servirem de exemplo.

 Rota de fuga: As principais áreas de ação do cangaço eram próximas às fronteiras estaduais. Em caso de perseguição, eles podiam cruzá-las para ficar a salvo do ataque da polícia local.

 Fogo amigo e inimigo: Durante os combates, havia uma regra fundamental: em caso de retirada, nunca deixar armas para o inimigo; nas vitórias, apoderar-se do arsenal dele.

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O bando de Lampião

A saga de Lampião na caatinga

1898: Virgulino Ferreira da Silva nasce em 4 de junho, na comarca de Vila Bela, atual Serra Talhada, Pernambuco. É o terceiro dos nove filhos de José Ferreira e Maria Lopes.

1915: Começa a briga entre a família Ferreira e a do vizinho José Saturnino.

1920: José Ferreira é morto. Virgulino e três irmãos (Ezequiel, Levino e Antônio) entram para o cangaço. Durante um tiroteio em Piancó (PB), ele é ferido no ombro e na virilha: são as primeiras cicatrizes de uma série que colecionará na vida.

 1922: Sinhô Pereira abandona o cangaço e Lampião assume o lugar do chefe. A primeira grande façanha é um assalto à casa da baronesa Joana Vieira de Siqueira Torres, em Alagoas.

1924: Toma um tiro no pé direito, em Serra do Catolé, município de Belmonte (PE).

1925: Fica cego do olho direito e passa a usar óculos para disfarçar o problema.

1926: Visita Padre Cícero no Ceará e recebe a patente de capitão do “batalhão patriótico”, encarregado de combater a Coluna Prestes. Em Itacuruba (PE) é ferido à bala na omoplata.

1927: Ataque do bando a Mossoró (RN). A cidade resiste. É uma das maiores derrotas de sua carreira.

1928: A ação da polícia de Pernambuco faz com que atravesse o rio São Francisco e passe a agir preferencialmente na Bahia e em Sergipe.

 1929: Primeiro encontro com Maria Bonita, na fazenda do pai dela, em Malhada do Caiçara (BA).

1930: Maria Bonita torna-se sua mulher e ingressa no bando. O governo da Bahia oferece uma recompensa de 50 contos de réis para quem o entregar vivo ou morto. Em Sergipe, é baleado no quadril.

1932: Nasce Expedita, sua filha com Maria Bonita.

 1934: Eronildes Carvalho, capitão do Exército e coiteiro de Lampião, é nomeado governador de Sergipe.

1936: O libanês Benjamin Abraão, ex-secretário de Padre Cícero, convence Virgulino a se deixar filmar no documentário Lampeão. O filme é recolhido pelo Estado Novo.

 1938: Em 28 de julho, o bando é cercado em Angico (SE). Lampião, Maria Bonita e nove cangaceiros são assassinados.


Saiba mais
Guerreiros do Sol: Violência e Banditismo no Nordeste Brasileiro, Frederico Pernambucano de Mello, 2004

Lampião: Senhor do Sertão, Élise Grunspan-Jasmin, 2006

O OURO DOS CANGACEIROS PARA YOLANDA

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Antônio Gurgel do Amaral – Fonte – http://www.blogdogemaia.com/detalhes.php?not=1032

Rostand Medeiros – Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Já faz algum tempo que uma manchete publicada no extinto jornal “A República”, na sua edição de 8 de outubro de 1933, um domingo, me chamou a atenção pelo destacado título “A História de um Cangaceiro”.

O artigo foi assinado pelo respeitado advogado Otto de Brito Guerra, sobrinho do coronel Antônio Gurgel do Amaral, o mesmo que foi capturado por membros do bando de Lampião quando este seguia comandando, em junho de 1927, um numeroso grupo de cangaceiros para o famoso ataque a Mossoró.

Diante desta privilegiada aproximação através do parentesco, o autor relata em seu artigo as diversas agruras que seu tio passou. Ali é descrito como o seu parente foi capturado, do valor exigido pela sua libertação, do ataque fracassado do bando a Mossoró, do carteado que utilizava munição de fuzil como fichas e outros pontos.

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O mossoroense Otto de Brito Guerra – Foto – http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/celebracao-destaca-o-jornalismo-de-otto-de-brito-guerra/224977

Muito do que Otto Guerra comenta neste artigo, foi fartamente pesquisado e divulgado ao longo dos anos, por diversos pesquisadores que se debruçaram na tentativa de conhecer mais em relação ao famoso combate na terra de Santa Luzia e a controversa presença da figura de Virgulino Ferreira da Silva em terras potiguares.

Conforme seguia lendo, não encontrava nenhuma informação nova sobre a permanência do coronel Gurgel em meio aos cangaceiros. Mas aí o autor passou a comentar sobre um “cabra” chamado Luís.

Um Cangaceiro Diferente

Era um jovem cangaceiro paraibano, um tipo alto, magro e moreno, que se apresentou como afilhado do famoso e famigerado Sabino, o violento braço direito de Lampião e por esta razão era conhecido como “Luiz Sabino”. Dizia este guerreiro encourado que havia entrado no cangaço no dia que seu padrinho realizou um “trabalho” para um potentado do sertão da Paraíba e daí não parou mais.

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A Republica, na sua edição de 8 de outubro de 1933.

Em um dia quente, ainda prisioneiro no Ceará, em meio às muitas cogitações sobre o seu destino, o coronel Gurgel percebeu o jovem Luís Sabino andando um pouco mais afastado do resto dos companheiros, de cabeça baixa e pensativo. Entretanto, ao procurar dialogar sobre o seu passado, o coronel Gurgel percebeu que não parecia haver uma boa receptividade por parte do jovem cangaceiro e logo ele buscou desviar o assunto. Em meio à conversa Luís perguntou.

– O coronel tem família?

– Tenho sim, pai, mãe, filhos… E até uma netinha…

– Já têm netos?

– Tenho.

Otto Guerra escreve que Luís Sabino fitou o prisioneiro uns instantes, daí abriu uma bolsa, “dessas arredondadas, cheias de compartimentos, o couro artisticamente bordado, que o sertanejo nordestino conduz a tiracolo”. Dela tirou um papel amarelado e entregou ao espantado coronel Gurgel uma reluzente moeda de ouro, da época do império brasileiro.

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– Tome coronel, quando se livrar daqui dê a sua netinha.

– Ora Luís, isso vale muito. Guarde.

– É… Já me falaram em sessenta mil réis. Porém eu sei que coisa de bandido não vale nada não… Tome.

Daí o jovem cangaceiro saiu cabisbaixo.

O coronel Gurgel relatou ao autor do artigo que o jovem cangaceiro, apesar de viver entre homens que tinham como característica comum à violência, a brutalidade e, além de tudo, ser afilhado logo de Sabino, era um membro do bando que estava sempre próximo aos prisioneiros levados, era extremamente atencioso e muitas vezes buscou de alguma forma amenizar as agruras dos cativos.

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Este seria o cangaceiro Luís Sabino.

Na famosa foto que registra o bando de cangaceiros de Lampião e os prisioneiros em Limoeiro do Norte, Ceará, obtida no dia 16 de junho, entre os membros listados pelo famigerado Jararaca, o cangaceiro que aparece com o número “31” grifado acima do chapéu de aba quebrada, foi apontado como sendo “L. Sabino”. Na época que listou os companheiros na famosa foto, Jararaca era então prisioneiro na cadeia de Mossoró e pouco tempo depois foi morto de maneira cruel e covarde pela polícia local.

Esta pequena história, simples, sem sangue nem disparos de fuzis, mostra um outro lado de um dos bandoleiros que vagavam pelos sertões, em meio a um grupo que vivia do saque e do roubo. Mas que em certo momento teve o total desprendimento pelo vil metal e mostrou um aspecto diferente do que normalmente é apresentado em relação e estes homens, que Frederico Pernambucano de Mello chamou de “Guerreiros do Sol”. E todo este fato contado através de uma reportagem escrita a oitenta e quatro anos atrás por um dos mais respeitados juristas potiguares.

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Entretanto…..

Mais Moedas de Ouro!!!

Sabemos pela descrição feita pelo próprio Antônio Gurgel do Amaral, em seu famoso diário, onde ele narra os vários dias de sofrimento junto a Lampião e seus homens, que o mesmo criou certos laços de amizade com um outro cangaceiro conhecido como “Pinga Fogo”. Gurgel descreve-o como um “rapaz de 24 anos, alvo, muito simpático, maneiroso”.

Terminantemente não se encontra nenhuma linha sobre Luís Sabino.

Bando de Lampião com prisioneiros em Limoeiro do Norte, junho 1927

Sabemos igualmente que no livro do conceituado médico Raul Fernandes, “A marcha de Lampião – Assalto a Mossoró”, na página 264, da 3ª edição, através de um relato da senhora Yolanda Guedes, a dita neta do coronel Gurgel, que informou ter o seu avô recebido do próprio Lampião não uma, mas duas moedas de ouro de libra esterlina e lhes deu as moedas de presente.

Foi uma suprema deferência, feita não por um cangaceiro qualquer, mas pelo próprio chefe caolho, que gentilmente regalou a netinha do seu sofrido sequestrado com estas duas reluzentes lembranças. Ademais as duas brilhantes peças metálicas nem eram da extinta realeza tupiniquim, mas da suntuosa Casa Real Britânica.

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A jovem Yolanda.

Raul Fernandes afirma que Yolanda Guedes lhe concedeu estas informações em uma entrevista ocorrida no Rio de Janeiro, em 1971.

Mas daí vem outra questão… E agora, em quem acreditar?

Dificuldades em Pesquisar

Raul Fernandes e Otto de Brito Guerra, já falecidos, eram naturais de Mossoró, oriundos de famílias tradicionais, foram consagrados professores nas suas respectivas áreas na UFRN, pesquisadores, escritores e durante suas vidas desenvolveram muitas outras atividades interessantes.

Se para estes dois iluminares das letras potiguares, homens consagrados no meio intelectual da terra de Felipe Camarão, contemporâneos ao ataque de Lampião a Mossoró, existe uma pequena divergência ao contarem sobre a história da “visita” do “Rei do Cangaço” ao nosso estado, imaginemos então os que buscam conhecer mais deste assunto noventa anos depois dos fatos.

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Na verdade, tudo que envolve este tema, que sempre foi tão calcado em referências orais, onde em determinados momentos vítimas e perseguidores, apaixonadamente se engalfinharam para fazer prevalecer suas versões dos acontecimentos, escrever sobre o cangaço é sempre um terreno escorregadio e perigoso para quem o adentra.

E ainda temos a figura dos ditos “intelectuais” tão desejosos dos holofotes, das adulações baratas, das bajulações desmedidas, que escrevem livros que foram produzidos praticamente sem nenhuma pesquisa de campo.

Ou ainda dos autores que se digladiam em querelas bobas e estéreis, sobre temas tão pequenos e inúteis, como o que acabei de aqui relatar, em um afã de superioridade desnecessária.

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Combatentes de Mossoró.

Eu tenho a minha hipótese para o caso das moedas; o coronel Gurgel era uma pessoa tão especial, tão interessante, que não recebeu nem uma e nem duas moedas de ouro dos cangaceiros, mas três. Uma de Luís Sabino e duas de Lampião, uma brasileira e duas inglesas.

Daí, se esta hipótese for correta, talvez o coronel Gurgel seja o primeiro caso de um sequestrado neste mundo que, apesar de passar vários dias com seus algozes, voltou para casa ganhando presentes dos seus algozes na forma de três moedas de ouro tilintando no bolso.

Mas aí, de repente, cada um pode criar a sua versão…..

A TRILHA DO CANGAÇO NO RN: CIDADES GUARDAM MARCAS DA PASSAGEM DE LAMPIÃO PELO ESTADO

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Lampião, o Rei do Cangaço

Reportagem percorreu mais de 600 quilômetros por onde passou Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

Por Ivanúcia Lopes e Hugo Andrade, G1 RN – Fonte – http://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/a-trilha-do-cangaco-no-rn-cidades-guardam-marcas-da-passagem-de-lampiao-pelo-estado.ghtml

O povo falava que Lampião tinha passado por aqui e tinha umas armas guardadas…”. Foi assim que dona Ilma de Oliveira começou a contar a história que sempre ouviu dos mais velhos. A senhora de cinquenta e poucos anos mora na casa que serviu de apoio aos cangaceiros em 10 de junho de 1927. Naquele dia de madrugada Lampião e seu bando entravam em terras potiguares. Eles chegaram pela Paraíba, cruzaram a divisa dos estados e apearam-se bem na casa onde dona Ilma criou os três filhos. A estrutura é quase a mesma: paredes largas, teto alto, tornos de madeira e caritós para guardar objetos. “Até um tempo desse os familiares do antigo dono ainda vinha aqui olhar e recordar”, conta.

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Foi nessa casa que Lampião se abrigou ao entrar no RN em 1927 (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

A casa que fica no sítio baixio, no pé da Serra de Luís Gomes, pertencia a familiares dos cangaceiros Massilon Leite e Pinga-fogo. Massilon era ‘os olhos e ouvidos’ do líder pelas bandas do sertão potiguar. Era ele o responsável por guiar os homens do cangaço no plano de atacar a cidade próspera de Mossoró.

A recepção durou pouco. Quando amanheceu os cangaceiros se embrenharam na caatinga. Galoparam por veredas, saquearam fazendas e fizeram prisioneiros. Na Fazenda Nova, onde hoje é o município de Major Sales, até o padrinho de Massilon, coronel Joaquim Moreira, foi sequestrado. Na fazenda vizinha de Aroeira, onde hoje é a cidade de Paraná, eles fizeram mais uma refém: a senhora Maria José foi levada pelo bando que seguia despistando a polícia e invadindo propriedades.

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“A passagem do bando de Lampião pelo RN está qualificada como banditismo, pois tem casos de assalto, assassinato e uma novidade que até então não tinha aqui que era o sequestro”, explicou o pesquisador Rostand Medeiros que já fez o mesmo trajeto de Lampião no RN algumas vezes. “Depois desses ataques na manhã do dia 10, o bando continuou subindo e praticando todo tipo de desordem”, lembrou.

Para seguirem sem alardes os cangaceiros evitavam a passagem por centros urbanos mais desenvolvidos e desviavam de estradas reais, aquelas por onde passava o gado e o movimento era maior. O objetivo era evitar confrontos para não desperdiçar munição e nem perder homens, já que ainda tinha muito caminho até Mossoró.

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Mapa mostra o percurso feito por Lampião em terras potiguares (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

Mais ataques 

Na tardinha do dia 10 de junho de 1927 o grupo chegava na Vila Vitória, território que hoje pertence ao município de Marcelino Vieira. No povoado ainda é possível encontrar casas remanescentes da época, e algumas até com sinais da violência praticada pelo bando. Na casa de dona Maria Emília da Silva, por exemplo, eles deixaram marcas de boca de fuzil. Era comum bater com as armas na madeira para assustar os donos da casa. “Eles só foram embora quando viram o retrato de Padre Cícero. Onde tinha retrato de Padre Cícero ele não fazia nada”, contou.

Na comunidade vizinha os cangaceiros saquearam a casa onde mora dona Terezinha de Jesus. A casa é antiga, do ano de 1904, mas ainda mantém a estrutura da época. A aposentada conta que o pai avistou de longe quando o bando chegava, mas não teve tempo de fugir. Na casa, eles procuraram joias, armas e dinheiro. “Eles iam a cavalo e armados. Papai dizia que para montar era um serviço grande porque estavam pesados com armas”, disse Dona Terezinha ao mostrar o quarto dos fundos onde ficam guardados os baús alvos dos cangaceiros. “Deixavam as roupas tudo no chão. Jogavam tudo atrás de dinheiro. Aí dinheiro não tinha. Naquela época era difícil, né? Mas se achassem podiam levar. Era o que diziam”, contou dona Terezinha enquanto acendia a lamparina para mostrar os objetos preservados.

Depoimentos de testemunhas e vítimas da vila Vitória compõem o processo contra Lampião que tramitou na Comarca de Pau dos Ferros.

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Em 1927 os pertences dos moradores eram guardados em baús (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

Fogo da Caiçara: O primeiro combate militar contra Lampião no RN 

A notícia de que o bando estava invadindo propriedades na Vila Vitória mobilizou a força militar. A polícia juntou homens para enfrentar os cangaceiros. O combate aconteceu no local onde hoje é o açude de Marcelino Vieira. “Por conta da seca é possível ver exatamente onde ocorreu o primeiro combate militar contra a invasão do bando no estado. Essas plantas que estavam cobertas de água ainda podem testemunhar esse fato”, disse o historiador Romualdo Carneiro ao mostrar as marcas de tiros que ficaram nos pés de canafístulas. 

Quando o combate começou a caatinga se acinzentou com a queima da pólvora dos rifles e espingardas dos dois grupos em guerra. O agricultor Pedro Felix ouviu o pai contar como foi: “Muito tiro. Muito tiro. Chega assombrava o povo que só pensava em fugir”.

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O antigo mausoléu mudou de local em 1989 quando o açude foi construído (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

O escritor Sergio Dantas, conta em seu livro “Lampião e o Rio Grande do Norte: a história da grande jornada”, que o tiroteio durou trinta minutos. Os cangaceiros, em maior número e treinados na guerrilha da caatinga, puseram a frota militar ao recuo.

No confronto morreram o soldado José Monteiro de Matos e um cangaceiro conhecido como Azulão.

 Os moradores da região até hoje se referem ao soldado como sendo um herói.

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O monumento atual fica próximo a capela onde é celebrada a tradicional missa do soldado (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

“Quando acabou a munição os outros foram embora, mas ele disse ‘eu morro, mas não corro!’ e morreu lutando.” contou seu Pedro ao apontar para os restos de tijolos do antigo monumento construído em homenagem ao soldado. “Era bem aqui que tinha uma cruz pra ele, mas quando fizeram o açude levaram lá pro outro lado”, explicou. 

Ainda hoje o local onde está o monumento recebe visitações. Todo dia 10 de junho a figura do soldado é homenageada pelos moradores que fazem celebrações. A missa do soldado virou um evento no povoado.

Fim da festa, não do medo 

Não demorou para o bando chegar ao povoado de Boa Esperança, local onde hoje é o município de Antônio Martins. O ataque aconteceu em frente a igrejinha da comunidade onde acontecia a festa de Santo Antônio. “Em vez de recepcionar a banda de música para a novena do padroeiro os devotos foram surpreendidos com a chegada dos cangaceiros que bagunçaram as casas, saquearam o comércio, quebraram melancia na cabeça do dono e acabaram com a festa”, contou o historiador Chagas Cristovão.

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O ataque aconteceu no pátio dessa capelinha construída em 1901 (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

O principal comércio da época ficava ao lado da Igrejinha. O prédio ainda guarda as características de antigamente. Relatos dão conta de que na tarde do ataque o bando só foi embora depois que uma senhora implorou. “Atendendo ao pedido de Rosina Maria, que era da mesma terra de Lampião, o bando deixou o vilarejo e seguiu rumo a Mossoró.”, concluiu o historiador.

Mesmo depois que os cangaceiros se debandaram o medo permaneceu entre os moradores. Houve até quem fizesse promessa para não sofrer as maldades do bando. Hoje dá pra avistar no alto da serra, uma capelinha construída para agradecer a proteção.

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Capelinha em homenagem a São Sebastião fica na Serra de Veneza (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

O massacre 

Eram altas horas da noite do dia 11 de junho quando o bando entrava na Vila de Lucrécia. Uma das casas invadidas na Fazenda Serrota continua preservada. Na janela estão as marcas de tiros e nas paredes os retratos daqueles que estiveram frente a frente com Lampião. “Quem morava aqui eram meus avós Egídio Dias e Donatila Dias. Eles amarraram Egídio Dias e levaram ele lá pro Caboré.”, contou o aposentado Raimundo Leite, que mora ao lado da antiga casa dos avós.

Caboré é um sítio que fica a poucos quilômetros da Fazenda. O prisioneiro teria sido levado por uma estrada de terra onde hoje é a RN 072. Os cangaceiros pediram dez contos de reis para poder soltar o fazendeiro. “Um grupo de mais de dez homens foi até lá pra tentar salvar Egídio, mas foi surpreendido por uma emboscada. Três homens acabaram mortos.”, relatou a pedagoga Antônia Costa.

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Fonte – canalcienciascriminais.com.br

No local do massacre foi construído um monumento em homenagem aos homens. Em Lucrécia eles são reconhecidos como heróis. “Todo dia 11 de junho tem programação na cidade em memória de Francisco Canela, Bartolomeu Paulo e Sebastião Trajano”, enfatizou a pedagoga.

Egídio Dias fugiu. Permaneceu várias horas no mato. Só depois que o bando foi embora ele conseguiu voltar para o convívio da família.

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Fonte – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br

O bando seguiu desafiando a caatinga. Os rastros de destruição ficavam pelas propriedades. Na manhãzinha do dia 12 eles entraram na Fazenda Campos, onde hoje é território de Umarizal. Na casa grande, que estava abandonada pelos donos amedrontados, eles ficaram pouco tempo até pegarem a estrada de novo. Uma marcha que parecia não ter fim.

Horas depois eles chegaram ao povoado de São Sebastião, hoje Governador Dix Sept Rosado. “Meu pai conta que Lampião passou na Estação de Trem e fez muita bagunça. Aí o povo do sítio era tudo no mato com medo. Meu pai mesmo dormiu muitas noites no mato, com medo”, relembra seu Maurilio Virgílio, aposentado de 75 anos que hoje mora pertinho da Estação alvo dos ataques.

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A estação foi alvo dos cangaceiros no povoado de São Sebastião (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

Os cangaceiros ainda saquearam o comércio, queimaram os vagões do trem e destruíram o telégrafo. Mas antes disso, um agente da Estação conseguiu mandar uma mensagem para Mossoró informando que o bando estava a caminho.

Foi o tempo de Mossoró se preparar para a luta. E a cidade tava mesmo preparada. Quando receberam o recado que Lampião e seu bando estava por vir, autoridades e outras personalidades da época se uniram, chamaram os moradores e começaram a montar as estratégias de defesa. Essas pessoas que venceram o combate 90 anos atrás são conhecidos como heróis da resistência.

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Tive a oportunidade de contribuir com este trabalho, junto com outros maravilhosos amigos. Parabéns as equipes da InterTV Cabugi de Mossoró e de Natal. Resultado maravilhoso.

“Foi um feito heroico de um grupo de cidadãos e cidadãs, que se juntou pra defender a cidade. Quando eu olho para a resistência ao bando de lampião, eu não vejo uma individualidade, vejo um ato de cidadania, de coragem que esse grupo frente à sua vida, à sua cidade”, diz o historiador Lemuel Rodrigues.

Noventa anos depois, os resistentes já se foram, mas ficou o legado. Ter um herói na família é motivo de orgulho para muitos mossoroenses. Algumas figuras estavam na linha de frente e lideraram a defesa da cidade contra o bando de Lampião. Tenente Laurentino, por exemplo, organizou as trincheiras e montou o plano de resistência com o apoio dos civis, todos liderados pelo prefeito Rodolfo Fernandes.

De acordo com os registros da época, o confronto entre os moradores e o bando de lampião durou cerca de quarenta minutos. Quase 170 homens participaram da defesa da cidade e ficaram espalhados em 23 trincheiras no centro de Mossoró. Uma delas teve papel fundamental para o sucesso do combate: a torre da capela de São Vicente que era o ponto mais alto de Mossoró. Do local, os resistentes tinham uma visão privilegiada. Três homens ficaram na torre e surpreenderam os cangaceiros.

“Manoel Felix, Tel Teófilo e Manoel Alves eram os três homens que estava no Alto da Torre. A partir daí, eles começaram a informar que os cangaceiros estavam vindo do lado de cá, na lateral da capela. E nesse momento, eles passam a ser revidados e deixam de ser atiradores para se tornarem alvos”, explicou o historiador Kydelmir Dantas.

Os homens que ficaram lá em cima não foram atingidos, mas as marcas dos tiros ainda permanecem no alto da torre. A capela que serviu de trincheira e guarda um dos maiores símbolos do combate de 13 de junho de 1927, dia em que Lampião e seu bando bateram retirada de Mossoró.

NO RASTRO DAS CAVERNAS DO CANGAÇO NO SERTÃO PERNAMBUCANO

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Gruta do Morcego, Fazenda Colônia – Foto de Solon R. A. Netto.

Sólon R. A. Netto

Pesquisas históricas indicavam que na região do Sertão do Pajeú, em Pernambuco, uma grande quantidade de abrigos e possíveis cavernas formadas por blocos graníticos seriam antigos refúgios de bandoleiros famosos, que durante anos vagaram pelo sertão e hoje fazem parte do mais autêntico folclore nordestino. Aqueles locais espeleológicos associados à vida desses homens eram certamente sítios de grande importância histórica, os quais nunca foram documentados.

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Casa de Pedra de Cafundó, no Sítio Covoado, Vale do Cafundó, Flores, Pernambuco – Foto de Rostand Medeiros.

Tempos atrás percorremos em pouco mais de três dias quase dois mil quilômetros! Uma jornada puxada, com poucas horas de sono, para descobrir os esconderijos de Antônio Silvino, a gruta onde Lampião abrigara-se ferido e outro local bem interessante.

Início

Saímos altas horas da noite de Natal e seguimos para a fronteira da Paraíba, na área que esta se delimita com o Seridó Potiguar. O nosso grupo era composto por mim, Alex Gomes e Rostand Medeiros e horas depois estávamos avançando pelas últimas cidades da Paraíba e cruzando a divisa com Pernambuco. Quando as estrelas da madrugada foram ofuscadas pela alvorada, já íamos firmes ao primeiro objetivo: a Fazenda Colônia.

Esta propriedade está historicamente muito associada à cidade pernambucana de Afogados da Ingazeira, mas atualmente se localiza na zona rural do município de Carnaíba, a cerca de quatro quilômetros da fronteira com a Paraíba. Neste local nasceu o famoso chefe cangaceiro Antônio Silvino.

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Fazenda Colônia – Foto de Rostand Medeiros.

A história deste guerreiro das caatingas se inicia quando seu pai, o fazendeiro Pedro Batista Rufino de Almeida, conhecido popularmente como “Batistão”, foi assassinado por Desidério José Ramos e alguns de seus parentes em 3 de janeiro de 1897.

Meses depois os assassinos de “Batistão” são absolvidos em um júri controlado por famílias poderosas que apoiavam os seus matadores. A família de Antônio Silvino não desiste e impetra uma apelação e os acusados são recambiados à Casa de Detenção, em Recife. Quando os assassinos do fazendeiro são novamente trazidos escoltados para a região para um novo júri, o policial que comandava o grupo facilitou a fuga de todos. Revoltado, o jovem Manoel Batista de Moraes, então com 23 anos, e um irmão buscam fazer justiça com as próprias mãos. Para conseguir sua desejada vingança eles se tornam cangaceiros e entram em um bando comandado por um parente conhecido como Silvino Aires.

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Antônio Silvino.

Apenas um ano depois, em 1898, o chefe Silvino Aires é preso e Manoel Batista assume o bando, passando a ser conhecido como Antônio Silvino. O nome Antônio é uma referência ao santo de sua devoção, o mesmo da capela da Fazenda Colônia, e Silvino é uma homenagem ao parente que o recebeu nas hostes cangaceiras.

Conforme nos aproximávamos da Fazenda Colônia víamos que a geografia local consistia em elevações com trezentos metros de altura em média. Ao chegarmos a entrada da propriedade topamos com três cruzes.

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Foto de Alex Gomes.

Paramos para algumas fotos e logo um vaqueiro se aproximou. Quando indagado sobre aquele antigo marco ficamos sabendo que aquelas eram apenas algumas marcas de memória das muitas “mortes encomendadas” que já se fizeram na região. Segundo o nosso informante aquelas eram cruzes de três pessoas que foram mortas a mando de um dono de engenho, que mandou seus sicários matá-los ingerindo melaço quente. Logo à frente, surgiu um descampado central, revelando uma igreja e um imponente casario. Foi lá que conhecemos os irmãos Antônio e Damião Braz.

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Conhecendo as histórias da Fazenda Colônia com os irmãos Braz – Foto de Solon R. A. Netto.

Após os contatos iniciais e de explicações do porque viemos de tão longe para a Colônia, para nossa surpresa, os irmãos Braz informaram que não existia apenas uma gruta para visitarmos, mas quatro cavidades que os mais velhos afirmaram terem sido utilizadas pelo bando de cangaceiros do chefe Antônio Silvino.

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Vista da antiga casa sede da propriedade – Foto de Solon R. A. Netto.

Não havia condições de conhecer todos os locais comentados e decidimos, então, visitar as grutas do Morcego e a da Pedra Rajada, as mais próximas. Ambas estão localizadas em um setor da Serra da Colônia conhecido pelos moradores como Serra da Lagoa, mas dentro das terras da Fazenda Colônia.

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Iniciando o caminho para o alto da serra – Foto de Rostand Medeiros.

Passava do meio dia, quando nossos anfitriões se ofereceram para nos guiar até as cavernas que os cangaceiros de outrora haviam usado. De início, a trilha estava muito bem definida e seguíamos parando para admirar a fazenda que se perdia bem distante. Por certo ponto, a mata fechou e a subida tornou-se bem íngreme. Em meio às histórias, a caminhada alternava momentos mais íngremes com outros suaves. Chamou a atenção avistar árvores como “barrigudas de espinho” (Chorisia crispifolora), atualmente raras nos sertões potiguares.

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Nas trilhas da serra – Foto de Alex Gomes.

Ao chegar a um ponto onde alguns grandes blocos graníticos, rolados pelas intempéries, uniram-se ao longo de milênios para formar uma cavidade natural, nosso guia Damião foi logo avisando: “Essa daí é a que o povo chama de Gruta do Morcego e tem que entrar se entortando”. Vimos, então, em meio a uma cerrada vegetação típica da região, a entrada da cavidade, na forma de uma estreita fenda diagonal na junção dos matacões. Para espanto maior do grupo descobrimos que aquilo era muito mais do que um simples abrigo de grandes blocos de granito!

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Entrada da Gruta do Morcego – Foto de Rostand Medeiros.

Internamente encontramos um lugar amplo e arejado, com uma saída lateral que, no passado, certamente serviu como rota de fuga para outros locais. Os Braz comentaram que, ao longo dos anos, vários caçadores encontraram objetos na gruta e em seu entorno, inclusive estojos de munição deflagrados. Mostraram-nos talheres e estribos, além de três moedas de bronze do período colonial, sendo que, em uma delas, lê-se claramente o ano de “1781”. Encontrar tais moedas não é tão raro no Nordeste, mas as circunstâncias de sua descoberta, naquele local, podem apontar para uma série de possibilidades como, até mesmo, à utilização mais antiga do abrigo como possível esconderijo de bandoleiros.

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Gruta do Morcego, Fazenda Colônia – Foto de Solon R. A. Netto.

Saímos satisfeitos com aquela interessante cavidade e seguimos os guias em direção ao alto da serra e a Gruta da Pedra Rajada.

Nas Terras Que Viram Surgir Antônio Silvino

Segundo Antônio Braz os mais velhos narraram que os cangaceiros de Silvino se abasteciam em um antigo poço no alto da serra e ele nós levou até esse local. Atualmente nesse ponto existe uma cacimba e nós experimentamos da água cristalina e saborosa. Segundo os Braz, até hoje esse poço é utilizado pela população local. A água era realmente refrescante! Alguns goles e meia dúzia de cajus maduros nos fizeram repor a energia da subida.

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Antigo poço no alto da serra que, segundo a tradição oral local, é muito antigo e teria sido utilizado pelos cangaceiros de Antônio Silvino – Foto de Rostand Medeiros.

De lá pudemos observar uma espécie de grande piscina natural criado no solo rochoso, o tradicional “tanque” no linguajar dos sertanejos. No dia de nossa visita o local estava seco, mas segundo Damião era bastante frequentado durante os períodos de chuvas. O local é conhecido na região como “Lajedo do Tanque” ou “da Lagoa”.

Mais adiante chegamos ao ponto culminante daquela elevação, onde foi possível divisar toda a região, até mesmo a cidade de Afogados da Ingazeira, a cerca de vinte quilômetros de distância. Ficamos diante de uma bela vista da fazenda, com a igreja, pequena, parecendo uma casinha de brinquedo. A visão é maravilhosa e estratégica, mostrando que bastaria a Antônio Silvino colocar um homem vigilante naquele ponto para saber de toda a movimentação nos arredores.

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Os irmãos Braz comentaram que, ao longo dos anos, vários caçadores encontraram objetos na Gruta do Morcego e em seu entorno, inclusive estojos de munição deflagrados. Mostraram-nos talheres e estribos, além de três moedas de bronze do período colonial, sendo que, em uma delas, lê-se claramente o ano de “1781” – Foto de Alex Gomes.

Voltamos para a trilha em direção a Gruta da Pedra Rajada, porém o caminho simplesmente desapareceu em meio uma vegetação muito fechada. O trajeto era nítido aos guias, mas a nós, tudo se resumia a um contínuo esquivar-se de galhos e espinhos. Uma mata muito cerrada, escondendo o sol, e logo nos pusemos numa descida que se traduziu num escorrego brecado somente pelo cipoal. Foi desse modo que chegamos à Pedra Rajada, o segundo ponto a ser visitado, um abrigo de difícil acesso numa das encostas da serra.

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Abrigo da Pedra Rajada – Foto de Solon R. A. Netto.

Diferentemente da Gruta do Morcego, a Pedra Rajada não é uma caverna, mas apenas um abrigo granítico formado por uma das faces de um imenso bloco que se encontra com a lateral de outro matacão rolado. É bem protegido e um pequeno grupo de homens poderia se acomodar naquele local com o intuito de buscar um esconderijo de difícil acesso. Mas se aquele local foi realmente utilizado pelos cangaceiros, pela exuberância da vegetação existente atualmente, é fácil deduzir que desde a época de Silvino poucos se atreveram-se a chegar ao local.

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Capela de Santo Antônio da Fazenda Colônia. O nome Antônio é uma referência ao santo da devoção de Manoel Batista de Moraes, e Silvino é uma homenagem ao parente que o recebeu nas hostes cangaceiras. Foto de Solon R. A. Netto.

O retorno até a sede da fazenda deu-se nos mesmos moldes: uma descida medonha que, em diversos momentos, simplesmente se convertia em rolamentos ou escorregos. Era soltar o corpo, proteger o equipamento e livrar-se dos espinhos da caatinga misturada com árvores de grande porte. Coisas de serra.

Ao fim do primeiro dia, seguimos para a Paraíba, sendo recebidos na cidade de Manaíra pelo Senhor Antônio Antas Dias, nosso grande amigo e grande conhecedor das histórias dos cangaceiros na região. Ele então se juntou ao nosso grupo.

Em Busca da Serra do Catolé

No segundo dia, pela madrugada, já estávamos cruzando a fronteira da Paraíba com Pernambuco pelo barro, rumo a Santa Cruz da Baixa Verde. A meta era o município de São José do Belmonte, um dos locais mais interessantes do sertão pernambucano.

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Em São José de Belmonte visitamos a antiga morada do comerciante Luiz Gonzaga Gomes Ferraz, que em 1922 foi atacada pelo bando de Lampião, em parceria com um parente do chefe cangaceiro Sinhô Pereira, Crispim Pereira de Araújo, o “Ioiô Maroto” – Foto de Rostand Medeiros.

Inicialmente nesta cidade visitamos uma casa histórica, localizada na praça central desta cidade. Era a antiga morada do comerciante Luiz Gonzaga Gomes Ferraz, que em 1922 foi atacada pelo bando de Lampião, em parceria com um parente do chefe cangaceiro Sinhô Pereira, Crispim Pereira de Araújo, o “Ioiô Maroto”.

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Lampião – Fonte – lounge.obviousmag.org

Consta que Gonzaga mandou um oficial de polícia do Ceará, o tenente Peregrino Montenegro, e a sua tropa surrar Ioiô Maroto. Feita a desonra, Maroto jurou vingança, solicitando ajuda ao primo cangaceiro. Por essa época, Sinhô Pereira estava deixando a região para viver em Goiás e pediu para Lampião, seu antigo comandado e agora o chefe do bando, realizar a feitura “do serviço”.

Como não poderia deixar de ser, o ataque à residência de Gonzaga foi implacável. A resistência ofertada pelo proprietário e por policiais da guarnição de São José de Belmonte arrastou-se longo tempo, mas o local foi invadido e o comerciante sumariamente executado em sua própria sala.

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Distrito de Boa Esperança, São José de Belmonte – Foto de Rostand Medeiros.

Após esta visita seguimos para a zona rural de São José do Belmonte, em direção a área onde as fronteiras dos estados de Pernambuco, Ceará e Paraíba se encontram, tendo como destino o Distrito de Boa Esperança. Soubemos que ali vivia o Senhor Francisco Maciel da Silva, testemunha daqueles tempos difíceis.

Vivendo em uma casa simples do lugarejo, idoso, mostrou-se um homem de baixa estatura, lento nos gestos e utilizando um par de óculos com grossas lentes. Apesar disso, a firmeza da voz, a lucidez e o forte aperto de mão, não deixaram transparecer os noventa e sete anos de idade que ele tinha na época de nossa visita.

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Francisco Maciel da Silva, ainda fumando um cigarro de palha com quase cem anos de idade, deu uma interessante entrevista sobre o tempo do cangaço na sua região e na Serra do Catolé – Foto de Rostand Medeiros

Ele nos contou algumas histórias da época que viu os cangaceiros na sua região, que durante anos viveu no alto da Serra do Catolé e que, na sua propriedade, existia uma gruta que fora utilizada como esconderijo de cangaceiros. A cavidade é conhecida como Casa de Pedra, uma grutinha formada por grandes blocos na encosta da serra.

Já sua filha, Maria do Carmo Rodrigues da Silva, de sessenta e seis anos, informou que, quando moravam no alto da serra, muitas vezes seus filhos traziam daquela cavidade cápsulas de balas de fuzis, havendo, em uma ocasião, achado uma espécie de chave de fendas, aparentemente utilizada na manutenção de rifles. Dona Maria recordou passagens em que, noutro sítio da mesma serra, trabalhadores encontraram próximos a uma pequena gruta, dentre as rochas, “um mundo de rifles socados nas furnas”.

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Serra do Catolé – Foto de Alex Gomes.

Na época de nossa visita, devido à idade, o Senhor Maciel não pôde nos acompanhar, mas informou que um amigo por nome de Luiz Severino dos Santos, morador do Sítio Catolé, sabia muita coisa sobre os esconderijos.

Mais uma vez enfrentamos estradas quentes e poeirentas. Visto que o lugar era muito ermo e havia grande quantidade de casas abandonadas na beira do caminho, surgiu outra dificuldade: a de encontrar pessoas para prestar informações.

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Buscando informações em uma casa verdadeiramente “antenada” – Foto de Rostand Medeiros.

Seguimos mais de uma hora sem a noção exata de onde estávamos. No trajeto só casas abandonadas e portas fechadas. Pequenas passagens vicinais seguiam para lugarejos ignorados e logo ficamos perdidos. As poucas pessoas avistadas se mostravam arredias, desconfiadas com quatro estranhos em um carro. Era um jeito arisco e esquisito, tão diferente da receptividade tradicional do sertão e que talvez se explicasse pelo isolamento do local e a proximidade de três fronteiras estaduais, por onde “passa todo tipo de gente e bicho”, como nos disse um lavrador local, um dos poucos com quem conseguimos informações. Se hoje é assim, imaginemos, então, no tempo do cangaço.

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Os catolés da serra – Foto de Rostand Medeiros.

Apesar dos percalços, o horizonte fazia surgir a elevação imponente. Logo na subida, a Serra do Catolé mostrou-se mais extensa do alta, além de coberta por pequenas palmeiras conhecidas por coqueiro catolé (Syagus cromosa). Essa árvore, comum nos cerrados, é igualmente vista em praticamente toda a região Nordeste do Brasil, principalmente em locais com maior altitude.

Quando, enfim, chegamos ao cume da Serra do Catolé encontramos o Senhor José Marcos. Ele não somente nos ensinou o caminho, como também nos levou à propriedade de Luís Severino dos Santos.

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Bate papo com o Senhor Luís Severino dos Santos, no Sítio Catolé, neto do famoso chefe cangaceiro Luís Padre – Foto de Solon R. A. Netto.

Encontramos então um homem tranquilo, forte para sua idade, que nasceu e vive na serra. Desse local raramente se afasta, apenas para ir, ocasionalmente, até São José de Belmonte ou Serra Talhada. Para nossa surpresa, no começo do diálogo descobrimos que ele era neto de Luís Padre, um dos doutrinadores de Lampião, e que não havia apenas a Casa de Pedra para se conhecer, na verdade existem várias cavidades na Serra do Catolé, uma delas bem próximo de sua casa e que um dia abrigou um cangaceiro ferido.

Pedra de Dé Araújo

Segundo o Senhor Severino, a família de Luís Padre era dona do Sítio Catolé antes mesmo do início das “brigadas” contra os Carvalhos. Entre uma pausa e outra da luta, Luís Padre, Sinhô Pereira e o bando seguiam para aquele local, onde se refaziam para novos combates. Entre essas pausas, Luís Padre iniciou um relacionamento com a Ana Maria de Jesus. Desse encontro, nasceram duas filhas do célebre cangaceiro, Emília e Agostinha Pereira da Silva. A última foi a genitora do nosso informante, sendo ela quem narrou ao mesmo as peripécias e as andanças do seu pai no cangaço.

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Foto dos antepassados do Senhor Severino. O calvo a direita da foto é Luís Padre, seu avô – Foto de Rostand Medeiros.

As características de isolamento e as dificuldades naturais de acesso a serra, proporcionaram aos cangaceiros um verdadeiro local de descanso e apoio. Mas por medo da polícia descobrir esses locais, o Senhor Severino relatou que sempre a estadia do grupo era rápida e contida. Todos os caminhos eram muito vigiados, ninguém entrava ou saía sem que Luís Padre e Sinhô Pereira soubessem. Ali, estavam a somente dezoito quilômetros do Ceará e a três da Paraíba, mostrando que daquele ponto as fronteiras poderiam ser facilmente ultrapassadas, dificultando a atuação das forças estatais.

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Religiosidade sertaneja no Sítio Catolé – Foto de Solon R. A. Netto.

Em relação às cavidades, o Senhor Severino comentou sobre a existência de várias na região e que, segundo os mais velhos, os cangaceiros refugiavam-se nestes locais quando havia notícias da proximidade da polícia, ou quando algum dos cangaceiros estava ferido.

Devido ao nosso curto tempo, pedimos para conhecer alguma mais representativa e o Senhor Severino nos guiou, primeiramente, até a Pedra de Dé Araújo.

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Entrada da Gruta de Dé Araújo – Foto de Rostand Medeiros

Ele nos guiou, então, a um local que sua mãe, Agostinha da Silva, contou-lhe ter conhecido ainda criança, quando foi levada pelo pai para ver um dos companheiros de luta, que se recuperava de um balaço recebido.

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Na gruta do cangaceiro baleado – Foto de Solon R. A. Netto.

Nessa época, Dona Agostinha falou ao Senhor Severino que o cangaceiro se chamava “Dé Araújo” e que fora ferido no combate das “Piranhas”, havendo sido trazido pelos companheiros para ali ser tratado. A medicina daqueles guerreiros utilizava-se de uma erva nativa cicatrizante facilmente encontrada na serra, conhecida como “cipó de baleado”, o qual era pilado e posto sobre a ferida.

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Vista a partir da gruta – Foto de Rostand Medeiros.

A cavidade de Pedra de Dé Araújo é formada por um matacão granítico rolado e internamente bem desplacado, que se apoiara formando um vão abrigado, com vistas ao vale. No centro havia uma área arenosa e plana, onde sua mãe lhe apontou como o “leito” do cangaceiro Dé Araújo, que, mais tarde, voltaria plenamente recuperado à luta. Porém, o Senhor Severino não soube informar se o lugar onde o cangaceiro fora atingido era a referida Fazenda Piranhas, atacada pelo bando dos Pereiras em junho de 1917.

Lampião Baleado

Na sequência o Senhor Luís Severino dos Santos nos acompanhou, também, até à famosa Casa de Pedra, a alguns minutos de carro de sua propriedade.

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No ponto mais alto da Serra do Catolé, da esquerda para direita, Rostand Medeiros, Antônio Antas e Luiz Severino dos Santos – Foto de Alex Gomes

Segundo o nosso guia foi um agricultor chamado Chico Barbosa, que possuía uma pequena propriedade na Serra do Catolé e morava próximo ao Senhor Severino que revelou o momento em que chegou à região: foi na passagem do bando de Lampião pelo lugar, quando o chefe foi ferido no pé, uma dos momentos mais terríveis da vida desse líder cangaceiro.

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Salão da Gruta da Casa de Pedra, onde supostamente Lampião esteve durante alguns dias se recuperando de um ferimento – Foto de Rostand Medeiros

Chico Barbosa já faleceu, mas foi um grande amigo do Senhor Severino e lhe narrou ter sido durante algum tempo cangaceiro de Lampião. A razão da entrada no bando, de onde ele veio, ou “nome de guerra” que adotou, ou como saiu do cangaço, ele nunca declinou essas coisas ao amigo Severino e nem este lhe questionou. Ocasionalmente, quando queria, Chico Barbosa comentava ao vizinho suas andanças “nos tempos dos clavinotes”. Em um dos relatos narrou como o “Rei do Cangaço” veio parar naquela cavidade.

Os doutos estudiosos da vida de Virgulino Ferreira da Silva narram que em 23 de março de 1924, por volta das dez horas da manhã, uma volante comandada pelo major da polícia de Pernambuco, Theophanes Ferraz, teve um encontro com Lampião e outros cangaceiros nas proximidades da Lagoa do Vieira, distante cerca de cinco quilômetros da Serra do Catolé. Na luta, o cangaceiro foi seriamente atingido no pé e morta sua montaria, tombando o animal sobre sua perna. Apesar disso, o bandoleiro conseguiu fugir. Seu bando, então, seguiu para o alto de uma serra, onde o chefe iniciou sua recuperação. O boletim oficial feito pelo major Theophanes Ferraz, conta que, alguns dias após, às cinco e meia da tarde do dia 2 de abril, uma tropa do seu setor de ação atacou o acampamento dos cangaceiros e morreram dois perigosos bandidos, Lavadeira e Cícero Costa.

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Foto de Alex Gomes

Já Lampião, ao fugir, abriu o ferimento, iniciando-se uma séria hemorragia. O chefe se escondeu nas moitas, por pouco não sendo descoberto pela polícia. Durante três dias, padeceu ao relento, sem água ou alimentos, com a grave ferida aberta. Por sorte, um garoto o encontrou e chamou o pai, que começou a cuidar do cangaceiro.

Após se recuperar, Lampião mandou comunicar aos seus irmãos, cangaceiros como ele. Eles chegaram ao local com um bando calculado em cinquenta homens, dentre eles, Chico Barbosa. Nesse ínterim, a polícia sabendo do estado de saúde do cangaceiro, intensificou as buscas. Sem condições de seguir para algum local mais seguro, para um tratamento melhor, o grupo rumou em direção a Serra do Catolé. Chico Barbosa comentou que, assim, Lampião refugiou-se na gruta da Casa de Pedra.

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Foto de Alex Gomes

O que vimos a partir do ponto onde se encontra a gruta na Serra do Catolé foi era estonteante, sendo possível visualizar parte do Ceará e da Paraíba. Já a Casa de Pedra tratava-se da entrada da pequena e estreita gruta, um vão alargado no meio de dois blocos de granito, num dos cumes da serra.

Segundo o mesmo Chico Barbosa, Lampião foi transferido para outras cavidades na Serra do Catolé, como a Furna da Onça, localizada na Fazenda Ingá. Porém, foi na Casa de Pedra que ele passou mais tempo se recuperando. A razão era o isolamento do lugar e sua localização privilegiada.

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Da esquerda para direita – Alex Gomes, Solon Netto, Luiz Severino dos Santos, Antônio Antas e Rostand Medeiros.

Um mês após essa peregrinação, o chefe cangaceiro seguiu protegido por muitos homens, para a propriedade “Saco dos Caçulas”, em Princesa, na Paraíba, onde o fazendeiro Marcolino Diniz lhe deu todo o apoio. Lampião se recuperou desse grave ferimento e continuou combatendo por mais quatorze anos, até ser liquidado em julho de 1938, na Grota de Angicos, em Sergipe.

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Pedra do Reino – Foto de Rostand Medeiros.

Interessante apontar que a Casa de Pedra fica perto da famosa área histórica conhecida como Pedra do Reino, retratada no romance de Ariano Suassuna – O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. A Pedra do Reino foi palco, em 1838, de um massacre iniciado por messiânicos que pregavam a volta do rei português Dom Sebastião, desaparecido numa antiga batalha. Para os fanáticos seguidores do sertão pernambucano, era preciso tingir os dois imensos monólitos, que lá estão dispostos, com sangue humano, para que um reino encantado se iniciasse na Terra. O desfecho dessa história foi macabro, quando, após o sacrifício de mais de cinquenta pessoas, boa parte crianças, o grupo foi dizimado pela força policial.

Porém, dali, era imprescindível, ainda, procurar pela Lagoa do Vieira, lugar onde Lampião se ferira ao confrontar a polícia de Pernambuco. Seria muito longe da caverna o local onde se deu o ferimento do cangaceiro?

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Região da Lagoa do Vieira – Foto de Rostand Medeiros.

Continuamos na estrada até que, quase pelo final da tarde, chegamos a uma pequena comunidade rural nas margens de um baixio quase seco. Muito provavelmente, o cenário modificou-se pouco da época dos combates aos dias atuais. Assim, estava lá a lagoa, apenas a alguns quilômetros da Casa de Pedra da Serra do Catolé.

Memórias do Ataque de Sabino a Triunfo

À noite, voltamos por Triunfo, uma cidade serrana construída a quase mil metros de altitude para no dia seguinte, conhecer o Museu do Cangaço. Este estabelecimento funciona em um prédio histórico, bem conservado, abrigando importante acervo sobre o cangaceirismo, além de objetos criados pela cultura regional.

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Punhal de Corisco no Museu do Cangaço de Triunfo – Foto de Rostand Medeiros.

São peças antigas da história do Nordeste, fotografias de um tempo não tão distante, mas pouco abordado pelos livros de história geral. Vale anotar que, também em Triunfo, há pequenas grutas graníticas associadas ao cangaço, mas como o tempo da expedição era muito limitado, não fomos visitá-las.

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Rostand Medeiros e o Senhor Nelson Gonçalves Siqueira Campos, e,m Triunfo – Foto de Solon R. A. Netto.

Entretanto, nas cercanias do museu, pudemos conhecer e entrevistar o Senhor Nelson Gonçalves Siqueira Campos, que, apesar dos seus noventa e oito anos de vida e da fraca audição que ele tinha na época de nossa visita, com lucidez nos contou sua rica história, que foi toda gravada.

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Prédio onde funcionou a loja do pai de Seu Nélson – Foto de Rostand Medeiros.

Em maio de 1926, a loja de seu pai, Antônio Campos, foi atacada por um grupo de cangaceiros do bando de Lampião. A desavença teve origem numa dívida com Marcolino Diniz, fazendeiro e famoso coiteiro de cangaceiros. Diniz, então, acertou o crime com Sabino, bandido de maior confiança de Lampião, para que a loja fosse saqueada e o proprietário morto.

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Notícia do ataque do cangaceiro Sabino a Triunfo, fato presenciado pelo Senhor Nélson.

A guarnição policial de Triunfo era pequena e os cangaceiros adentraram destruindo tudo no estabelecimento. O Senhor Nelson, na época um adolescente, teve a ideia de atirar ao fogo uma caixa de fogos de artifício. Os cangaceiros, ao escutarem uma sequência de tiros e estampidos, acreditando tratar-se do reforço policial, bateram em retirada. Na verdade, o que se passou foi um grande engodo e o jovem foi aclamado como o herói que livrou a cidade dos bandidos.

O Vale do Cafundó de Flores 

No regresso para o Rio Grande do Norte paramos em Flores, a quarta cidade mais antiga de Pernambuco, onde buscávamos conhecer a Casa de Pedra de Cafundó, no Sítio Covoado, onde foi construído um casebre aproveitando-se de uma reentrância escarpada em um abrigo rochoso. Esse local nada tinha haver com histórias de cangaceiros, mas valeu a visita pelo interessante cenário.

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Casa de Pedra de Cafundó, no Sítio Covoado, Vale do Cafundó, Flores, Pernambuco.

Nosso guia, Luiz Gonzaga, conduziu o grupo ao Vale do Cafundó, onde a beleza natural da região nos encheu os olhos. Ficamos acima de um vale com dezenas de metros de profundidade, que se estendiam por uma vasta área, feições que lembraram Sete Cidades, no Piauí.

Certamente, no período das chuvas, muita água passaria pela bacia e, ante os enormes paredões de arenito capazes de fazer a vista perder-se, foi impossível deixar de pensar que deveriam existir inúmeras cavernas naquela região.

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Junto a Seu Zequinha Marinheiro – Foto de Solon R. A. Netto.

Fomos então apresentados a Zequinha Marinheiro, filho do homem que construiu a morada no abrigo do Cafundó. Ele contou que, apesar de não morar mais naquela casa, ainda a utiliza para estocar alimentos e, ocasionalmente, passar a noite. Relatou que a casa foi construída por volta de 1940, havendo morado lá por toda infância.

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Vale do Cafundó, Flores, sertão pernambucano – Foto de Solon R. A. Netto

O abrigo rochoso tornou a casa mais protegida dos elementos naturais. Mesmo após edificar uma forte residência mais próxima da estrada, até hoje o Senhor Marinheiro se vale da Casa do Cafundó, vez que a utiliza como depósito para colheitas ou mesmo refugiar-se nas horas mais quentes do dia.

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Vale do Cafundó – Foto de Alex Gomes.

E na trilha para o Cafundó, confirmando nossas expectativas, encontramos nossa primeira caverninha exatamente no vale! Ensaiamos uma incursão sem equipamentos, mas havia muitas vespas, que nos impeliram a sair apressadamente.

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Caverna do Cafundó – Foto de Solon R. A. Netto

A Caverna do Cafundó – como é conhecida – aparenta somente possuir duas entradas e (provável) curto desenvolvimento. Na rápida observação, percebemos um forte desnível positivo a partir da entrada principal.

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Foto de Solon R. A. Netto.

Mais alguns passos, ali perto, descortinou-se uma situação ímpar: construída na encosta de uma formação arenítica, vimos a fachada de uma casa perdida em meio a uma imensa parede de vale, dentro de um abrigo natural. Adentramos e, apesar do intenso calor nordestino, os cômodos apresentavam temperatura amena. Dentro, alguns utensílios da rude vida sertaneja e muitos grãos.

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Foto de Solon R. A. Netto.

Do lado de fora, cercados por cajueiros, ficamos sentados admirando a paisagem do rio que dividia o vale: um vasto serpenteio de areia muito fina e branca rasgando a caatinga. Diferentemente dos outros locais vistos, a Casa de Pedra do Cafundó não estava ligada ao cangaço. Era apenas um capricho da natureza, que escavou a rocha, do qual o homem se valeu para construir, dentro, um lar, perdido num rincão isolado. Ali, após décadas de edificada, servia ao mesmo propósito: nos proteger do calor.

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Foto de Solon R. A. Netto.

Eis que o sentimento, comum a todos os que entram em cavernas, foi nos invadindo: a sensação de que estávamos protegidos, de que aquela cavidade natural denotaria sempre uma ideia de casa ao ser humano. Justamente isso a ligava às cavidades que havíamos visitado nos dias anteriores, àquelas utilizadas pelos cangaceiros.

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Foto de Alex Gomes.

O Cafundó abre-se com grande potencial espeleológico e turístico a todos os amantes da beleza natural e resume o que as cavernas pernambucanas têm de mais precioso: a singularidade.

Após noites mal dormidas e dias tão intensos, encerrava-se uma viagem com grande bagagem histórica, espeleológica, fotográfica e um serviço à nossa cultura nordestina e brasileira.

OS RASTEJADORES DO SERTÃO – PROFISSÃO DE CORAGEM E DE RISCO

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Odiados e Respeitados, os Rastejadores Sertanejos Marcaram a História do Nordeste Desde a Época dos Escravos, Passando Pelos Cangaceiro e até na Morte do Pistoleiro Floro Gomes Novais

Rostand Medeiros – Escritor e Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Em poucas ocasiões no sertão do Nordeste eles foram ovacionados e na maioria das vezes intensamente odiados. Mas sempre foram muito respeitados pelo que sabiam fazer!

Para muitos estes homens nada mais eram do que uma sórdida escória, uma ralé, que pontuou de forma nefasta a História do sertão nordestino. Eles eram comparados a cães, que só serviam para caçar os que perturbavam a doce tranquilidade senhorial dos seus poderosos donos. Mas também poderiam está realizando seus serviços para o outro lado dessa moeda sangrenta.

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Quando não estavam percorrendo as trilhas sertanejas em alguma missão, geralmente os rastejadores não recebiam por parte dos poderosos, do governo e de seus policiais a atenção merecida. Além de bem poucas benesses pecuniárias que lhes eram creditadas, ou de algum butim aferido quando abatiam um criminoso, pouco lhes era dado. Entretanto quando o serviço surgia, aqueles homens analfabetos, que nunca realizaram algum tipo de treinamento formal, eram extremamente requisitados e respeitados pelas suas capacidades no ambiente natural e de mostrarem aos “homens da lei” os caminhos para capturar aqueles que perturbavam a ordem vigente.

Os rastejadores do sertão não eram adivinhos e nem mágicos, porém, sertanejos com conhecimentos privilegiados. Se uma missão lhes era dada, procuravam com invulgar intensidade a sua “caça”. Inconscientes de suas capacidades técnicas atribuíam o próprio sucesso a algo sobrenatural, “coisa do outro mundo”. Dizia-se que os rastejadores sertanejos eram tão dedicados ao que faziam que “enquanto vivos” iriam procurar o seu alvo e recuperar o que havia sido levado. Fosse honra ou ouro!

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O famoso comandante de volantes Zé Rufino e a sua esquerda o rastejador conhecido como Juriti – Fonte – Coleção do autor

Para os que viviam à margem da lei naquele sertão arcaico, estes caçadores de bichos e de homens eram aqueles que prioritariamente deveriam ser abatidos. Se possível da forma mais cruel e sangrenta existente e imaginável.

Trabalho Atencioso

A classe dos rastejadores do sertão sempre foi formado por um grupo de pessoas provenientes dos extratos mais simples da sociedade brasileira, isso desde os tempos da Colônia, do Império e chegando até a República.

É quase certo que os primeiros rastejadores foram indígenas, os grandes conhecedores da natureza, grandes caçadores de animais e a mata não lhes tinha segredo. Quando aculturados, normalmente utilizavam suas técnicas especiais para capturar sua própria gente.

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Retirada da Laguna – Fonte – http://datasefatoshistoricos.blogspot.com.br/search?q=retirada+da+laguna&x=11&y=13

Na História do Brasil, durante a Guerra do Paraguai, no terrível episódio da Retirada da Laguna, ficou famoso o trabalho do Guia Lopes e do seu filho. Quem lê o clássico A Retirada da Laguna, de Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay, primeiro e único visconde de Taunay, percebe a atenção que este nobre militar deu a estes homens simples, que possuíam muito mais conhecimento da região onde se deu os episódios da retirada, do que os estrategistas do Exército Brasileiro. Em junho de 1868, com a ajuda dos Lopes, um efetivo com cerca de 700 homens, de um grupo original de 3.000, retornaram alquebrados pela doença e pela fome às linhas brasileiras em Coxim.

Os rastejadores do sertão não tinham letras, mas eram Mestres da natureza sertaneja, donos de uma capacidade invulgar, onde o mínimo graveto quebrado, ou uma pequena pedra deslocada por uma leve pisada, poderia apresentar a estes homens o caminho percorrido por toda sorte de gente considerada malfeitores.

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Fonte – chickenorpasta.com.br

Normalmente era uma figura que realizava seu trabalho sozinho e que seguia por caminhos ermos e difíceis. Na hora de sua estranha labuta andava sempre meio curvado pelas veredas e no meio do mato, como que procurando algo no chão. Seus passos eram leves, macios, silenciosos. Em algumas ocasiões era seguido por outros, que estavam ali para ajudar no seu objetivo, mas que nada entendiam de sua odiada e, ao mesmo tempo, respeitada função.

Todos os sentidos de seu magro corpo, queimado pelo sol ardente do sertão funcionavam como verdadeiras antenas que captavam qualquer coisa que fosse estranha em relação à indolente natureza a sua volta. Caçavam vestígios. Procuravam quaisquer alterações na ressequida ecologia que o cercava. Ao se debruçarem sobre um rastro davam notícia se era novo, ou velho, de dias, e de quantos dias.

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Foto: Carla Belke Paisagens do Seridó – OpenBrasil.org

Tinham os olhos quase sempre cerrados, com se estivesse mirando um alvo que só eles sabiam onde estava e vendo coisas que ninguém via e nem percebia. Quase nunca falavam e se assim fazia era baixinho, quase sussurrando. Os ouvidos estavam sempre atentos para o mínimo ruído, perscrutando tudo a sua volta e qualquer som estranho era devidamente analisado em átimos de segundos. Queria encontrar algum pequeno indício da passagem do mais violento de todos os seres viventes que andava na terra criada por Deus – O Homem!

Chico Sapateiro e o Escravo Assassino

No período da escravatura no Brasil não faltou trabalho para esses homens, que atuavam juntos aos capitães do mato na caça aos negros escravos fujões, ou quando estes cometiam algum crime.

O cearense Gustavo Adolfo Luiz Guilherme Dodt da Cunha Barroso, o conhecido Gustavo Barroso, que assinava seus textos sobre a região Nordeste e os nordestinos com o pseudônimo de João do Norte, transcreveu na revista carioca Fon-Fon, em setembro de 1937, um texto sobre um trágico episódio ocorrido quase cem anos antes na cidade cearense de Sobral e que envolveu um afamado rastejador sertanejo[1].

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Foto da antiga Praça da Sé, Sobral, Ceará – Foto Joscel Vasconcel

Em 2 de maio de 1841, por volta das dez horas da noite, o negociante Joaquim Francisco do Rego foi assassinado pelo seu escravo Sebastião, que lhe desfechou certeiramente uma forte facada no estômago, que deixou a vítima com um mortal ferimento de polegada e meia de comprimento.

Joaquim era homem de posses em Sobral, sendo conhecido como “doutor Rego” por ter cursado até o terceiro ano da Academia de Direito em Pernambuco, seu estado natal.

Evidentemente que um crime como esse era algo inadmissível naquela sociedade escravocrata e mereceu intensa atenção das autoridades. O juiz de paz Miguel Francisco do Monte convocou Luciano e Sabino, dois respeitados capitães do mato da região para empreitada de caça ao escravo Sebastião. Já um compadre e conterrâneo do falecido, o major Manuel Francisco de Moraes, aparentemente pagou uma certa quantia para que o célebre rastejador Chico Sapateiro apoiasse com a sua capacidade de homem do mato os afamados “homens da lei”. Talvez o rastejador Chico Sapateiro fosse assim conhecido não por produzir calçados, mas por caminhar bem de leve e silenciosamente pelas trilhas.

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A busca de escravos fugitivos foi um grande negócio para os rastejadores no período da escravatura no Brasil.

O major Manuel queria se garantir no serviço, reforçando o aparato que buscava o assassino de seu amigo.

O texto narra que os três homens ganharam os matos muito bem armados, certamente de punhais e armas de fogo de alma lisa. Palmilharam a região durante quatro dias até encontrarem Sebastião escondido na Lagoa das Pedras, perto do Riacho das Itans, e trouxeram o fugitivo amarrado.

Durante o interrogatório Sebastião afirmou que roubou um pouco de aguardente da dispensa de “doutor Rego” e estava bêbado quando esfaqueou e matou seu dono. E tudo ocorreu por medo de ser castigado em razão do seu delito, fato que ocorrera outras vezes. O escravo Sebastião foi condenado a forca e sua execução deveria ocorrer ás nove da manhã do dia 16 de junho do mesmo ano.

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Na execução, algoz subia nos ombros do condenado para acelerar morte. Parece que faltou alguém para fazer no escravo Sebastião isso que a ilustração apresenta.

No dia marcado o condenado saiu da cadeia de cabeça erguida, sendo assistido pelo Reverendíssimo Padre Antônio da Silva Fialho, com escolta de doze guardas nacionais formando alas e comandados por um tenente. Um oficial apregoava pelas ruas de Sobral o delito de Sebastião, sendo acompanhado pelo juiz de paz que seguia a cavalo.

Tudo ocorreu como mandava o figurino da época, mas em certo momento aconteceu uma situação um tanto estranha.

Começou que o carrasco, um outro condenado, não conseguiu executar a pena de tanto chorar e foi o próprio Sebastião, sem nenhuma demonstração de medo, que colocou a corda no pescoço e saltou do patíbulo. O problema foi que ele ficou “algumas horas” se contorcendo pendurado pelo pescoço, até morrer de uma asfixia agoniante.

Nunca mais aconteceu outra execução pública e oficial em Sobral.

O Primeiro Tiro Foi Para o Rastejador

No tempo que os cangaceiros percorriam as veredas das caatingas sertanejas, o rastejador era na maioria das vezes a figura mais importante de uma tropa policial volante e foi contra esses bandidos encourados que os rastejadores fizeram sua fama.

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Antônio Silvino

Não é a toa que os cangaceiros tinham extremado ódio aos rastejadores, que muitas vezes serviram de guias para as forças governamentais que combatiam os celerados nas caatingas. E eram para estes que os cangaceiros dirigiam as primeiras balas no meio de uma peleja.

Em 1910 o pernambucano Antônio Silvino, o conhecido “Rifle de Ouro”, atemorizava os sertões de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. No final de maio daquele ano o famoso chefe de bando seguia com seus cangaceiros pelo interior da Paraíba, na região da cidade de Taperoá, quando soube que em sua perseguição vinha o oficial de polícia Antônio Maurício Pereira de Mello e sua tropa volante[2].

Xilogravura de Antonio Silvino
Xilogravura com a figura de Antônio Silvino

O pesquisador e escritor potiguar Sérgio Dantas comenta em seu livro Antônio Silvino, O Cangaceiro, O Homem, O Mito, que o afamado chefe tinha nutrido ódio a este oficial, tido e havido como valente, cruel e perigoso.

E era para ter cuidado mesmo!

Em 25 de maio, após Maurício receber a notícia que os cangaceiros iriam invadir a pequena urbe de Taperoá, seguiu a caça de Silvino e seus cangaceiros com dezoito homens armados, sendo dois deles, Vicente Pedro Miguel e José do Couto, afamados rastejadores sertanejos. Maurício aparentemente partiu com muita confiança e bem armado, tendo até mesmo em seu poder um artefato explosivo, que seria uma granada militar, ou uma bomba de dinamite. Esperava sem dúvida vencer Antônio Silvino. Mas a notícia da invasão era na verdade uma isca que o cangaceiro espalhou na região, com a ideia de Maurício e sua volante partirem ao seu encalço e caírem em uma emboscada.

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Cidade de Santo André na atualidade – Foto – Thiago Reis da Silva

Os policiais percorreram vários quilômetros até a pequena povoação de Santo André, onde compararam mantimentos e receberam a informação que os cangaceiros se encontravam em uma fazenda dois quilômetros adiante. Enquanto os homens da lei seguiam para o campo de luta, Silvino e seus homens armaram uma emboscada no local denominado Lagoa de Pedras, entre as povoações de Santo André e Timbaúba do Gurjão.

Mas, talvez por excesso de confiança, o oficial dividiu equivocadamente sua tropa, ficando apenas com mais cinco militares e o rastejador Vicente Pedro Miguel[3].

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Em meio às caminhadas e a busca pelos rastros dos bandidos, Maurício e seus homens, mesmo com pouca água e alimentos, pernoitarem embaixo de um umbuzeiro e só retomaram a pista dos cangaceiros nos primeiros raios de sol do dia 26.

O rastejador, segundo reportagem publicada no Jornal Pequeno, seguia a frente de Maurício, do cabo Manoel Albido (ou Albino) e dos soldados Pedro Salustiano, Antônio Beduíno, Manoel Pereira e Antonio José d’Andrade. Enquanto isso, em meio a um local com pedras soltas e paredões transversais, Silvino espalhou seus homens e calmamente aguardou a volante. Quando a tropa ficou na alça de mira dos cangaceiros, foi o rastejador Vicente o primeiro que recebeu um balaço que atravessou sua cabeça. Em meio à fuzilaria na Lagoa de Pedras, o oficial Mauricio ainda tentou incitar a tropa, mas também acabou varado com um tiro na cabeça disparado por Antônio Silvino. A ação de emboscada dos bandidos foi de tal maneira bem feita e executada, que o oficial nem conseguiu lançar seu propalado artefato explosivo contra os inimigos.

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Após a balaceira, que no entender do cangaceiro Cobra Verde foi “fogo grande”, o chefe do bando decidiu deixar um recado bem dado aos seus perseguidores. Munido de uma pesada pedra espatifou a cabeça do comandante da volante, cortou sua carótida e deixou várias perfurações de punhal em seu corpo.

Apesar das informações contidas sobre o episódio no ótimo livro de Sérgio Dantas e no texto do Jornal Pequeno nada comentarem, eu acredito que o corpo do rastejador Vicente deve ter recebido as mesmas “honrarias cangaceiras” prestadas ao oficial Maurício[4].

Lampião Sofre no Piancó com o rastejador João Montenegro

Seguindo por trilhas, “assuntando” o terreno com simples toques de seus dedos em seixos e cascalhos, apontando com segurança a um comandante de volante por onde seguiram os bandoleiros, muitas vezes eram estes rastejadores que poderiam trazer grandes problemas para os cangaceiros, inclusive para o maior deles – Lampião.

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Alguns marcaram época perseguindo Lampião, como, por exemplo, José Felix dos Santos, que serviu na volante do tenente Menezes, da polícia baiana, ou o pernambucano Antônio Cassiano, comentados por Ranulfo Prata em seu livro Lampião[5].

Em julho de 1927, praticamente um mês após o fracassado ataque de Lampião a Mossoró, quando ele e seus homens aterrorizaram o Rio Grande do Norte, ele se encontrava em franca debandada, bastante acossado pelos policiais e com o bando reduzido de 80 e poucos cangaceiros para algo em torno de 30 homens.  Além dos combates que teve de travar após Mossoró, dos prejuízos financeiros, das traições, Lampião perdeu homens do quilate de um Sabino, de um Jararaca e muitos outros cangaceiros desertaram de suas fileiras. Tentando recompor o bando e lamber as feridas de suas derrotas, Lampião buscou refúgio na região onde as fronteiras da Paraíba, Pernambuco e Ceará se encontram e daí chegar no seu Pajeú natal. 

Na noite quase enluarada de 12 de julho, uma terça feira, o chefe vem à frente de um grupo composto que para alguns seria de 32, e para outros de 24 cangaceiros. Vinham todos montados em alimárias e chegaram ao sul da zona rural da cidade de Conceição de Piancó, mais precisamente na localidade de Santa Inês. No seu trajeto haviam passado nas proximidades da Serra da Pintada.

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Não sabemos se houve alterações no povoado, mas aparentemente nada de errado aconteceu, pois a notícia corrente foi que o bando seguiu com suas montarias para se arrancharem ás margens de um riacho, que nas épocas de chuva formava uma corredeira conhecida como Cachoeira do Inferno. Os cangaceiros descansavam da verdadeira peregrinação para tentar chegar até o apoio de bons coiteiros[6].

Mas naqueles dias o que menos o grande chefe cangaceiro teria era tranquilidade!

Não sabemos se era por vingança, ou somente por dever de ofício, mas os jornais da época relatam que o rastejador João Montenegro foi quem levou José Leite, o delegado de Conceição do Piancó, o sargento Themistocles, da polícia paraibana, e Raimundo Quintino, o subdelegado da cidade, até a Cachoeira do Inferno. Além destes foi formado um grupo com cerca de 50 homens armados da região de Conceição para dá combate a Lampião e seus cangaceiros[7].

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O grupo partiu da cidade do extremo oeste da Paraíba por volta do meio dia de 13 de julho, percorrendo os 24 quilômetros até a região da Cachoeira do Inferno. Certamente seguiram com muito cuidado, atentos e nervosos com o que poderia acontecer. Por volta do meio da tarde os homens de Conceição chegaram no rancho dos cangaceiros e a bala comeu!

Sérgio Dantas aponta no seu livro Lampião no Rio Grande do Norte – A História da Grande Jornada que o grupo combateu os invasores com rara coragem. E deve ter sido mesmo, pois os cangaceiros fugiram deixando para trás todos os seus animais de montaria.  Mesmo entrincheirados os cangaceiros não aguentaram a força da investida. Depois de uma hora de renhido e feroz tiroteio, eles fugiram correndo no meio do mato. Fugiram para as Serras da Barrinha e do São Lourenço. Certamente a habilidade de João Montenegro também ajudou, pois colocou aquele grupo de homens valentes do Piancó em uma posição onde eles puderam surpreender os cangaceiros e atacar com sucesso[8].

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No mesmo dia em Santa Inês, por volta das quatro da tarde, o grupo de paraibanos se encontrou com a volante do sargento José Alves, da polícia pernambucana. Os dois grupos uniram forças e subiram as serras em busca dos cangaceiros, mas eles conseguiram fugir[9].

Com o passar dos anos o Cangaço acabou. Com a evolução tecnológica, a melhoria das estradas e dos veículos de  transporte, das armas de fogo e do uso das comunicações via rádio no combate contra a criminalidade, muitos membros das forças policiais nordestinas deixaram de buscar os tradicionais saberes dos afamados rastejadores sertanejos para caçarem toda sorte de gente ruim.

Os Últimos Rastejadores – O Caso Floro Gomes Novais

Mas houve um caso em especial, ocorrido em 24 de fevereiro de 1971 , onde as forças policiais voltaram a utilizar os poucos rastejadores sertanejos ainda na ativa. O caso em questão foi a morte do mais famoso pistoleiro do Nordeste na época – Floro Gomes Novais.

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Este era para muitos dos seus aliados era um justiceiro, que só matava por vingança. Já para os inimigos era um cruel e frio pistoleiro de aluguel, com mais de 120 mortes nas costas.

Floro nasceu em 15 de janeiro de 1931, no distrito de Prata, em Garanhuns e sua vida de crimes realmente começou após o assassinato de seu pai, o marchante Ulisses Gomes Novais, ocorrida em 4 de dezembro de 1951, em uma emboscada no lugar Capelinha, em Santana do Ipanema, município vizinho a Olivença, Alagoas.

Enéas Vieira era o líder político de Olivença e desejava comandar a política no lugar onde Floro morava com sua família e isso levou a uma desavença com seu pai e um outro amigo da família chamado Manoel Roberto. Logo seu pai e Roberto foram assassinados. Para evitar morrer Floro foi para São Paulo, mas prometeu voltar.

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Floro Novais atirava muito bem e utilizava pequenos alvos, no caso da foto com uma lagartixa, para treinar sua destreza com um 38.

Não demorou muito o jovem retornou e foi logo matando dois dos assassinos de seu pai. Um deles – João José – morreu na bodega de seu primo Bida, em Capelinha. Em 1957 foi tocaiado por três pistoleiros e matou todos eles. Um dos atingidos por Floro, antes de morrer, confessou que o grupo havia sido contratado por Enéas Vieira. Floro chegou mesmo a atacar Enéas Vieira em uma feira, atingindo-o com um tiro e só não o retalhou a peixeradas pela intervenção do padre do lugar. Em outra ocasião emboscou Enéas e um irmão (alguns apontam que era um sobrinho) em uma estrada, mas errou o acusado de ser o mandante da morte de seu pai e matou seu parente que o acompanhava. Contudo foi seu irmão Antônio, o caçula da família, que em setembro de 1970 matou sozinho Enéas Vieira diante de uma barbearia em Olivença.

Mas na quarta feira de cinzas de 1971, Floro foi assassinado a tiros nas caatingas da sua fazenda Mamoeiro, em Itaíba, sertão de Pernambuco. Sabia-se que ele tinha sido convidado para uma caçada, mas a caça foi ele!

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Casa sede da fazenda Mamoeiro, em Itaíba, sertão de Pernambuco.

Ocorre que a morte de Floro causou extrema repercussão em Pernambuco e um delegado especial foi designado, era o Dr. Severino Torres Galindo. Em meio às investigações para a prisão dos assassinos de Floro, as polícias civis e militares de Pernambuco e Alagoas, em conjunto com vinte agentes da Polícia Federal sob o comando do inspetor David Sales, realizaram uma verdadeira “varredura no terreno” em busca de pistoleiros implicados em vários outros processos.

Muitas fazendas das zonas rurais de Itaíba, Águas Belas (Pernambuco), Santana do Ipanema e Jacaré dos Homens (Alagoas) foram extensivamente vasculhadas. Muitas destas fazendas eram verdadeiros “covis de pistoleiros” e os acessos a estes locais um inferno. Mas deu resultado positivo, com a prisão de trinta e tantos matadores de aluguel e seus coiteiros.

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Policiais civis, militares e federais, com o apoio de rastejadores, na caça aos assassinos de Floro Gomes Novais em 1971 no sertão de Pernambuco.

Setores da imprensa divulgaram, de maneira bem discreta, que os policiais estaduais e federais utilizaram os serviços de alguns dos velhos rastejadores pernambucanos. Mesmo com toda discrição, aparentemente o uso destes rastejadores chegou a imprensa do sul do país. Em dezembro de 1971 a extinta Revista Realidade publicou uma interessante reportagem produzida pelo jornalista José Leal da Silva, com fotografias do francês Jean Solari, onde trouxe a baila as histórias das pessoas que perseguiam bandidos com métodos bem peculiares e pitorescos. 

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Entre esses rastejadores se encontravam Serra Azul. Este era um octogenário índio da tribo Fulniô, que contou ter perseguido Lampião e quase foi morto pelo chefe cangaceiro, mas que um dia chegou a um acordo com ele e selaram a paz. Disse que era rastejador, mas também “tinha sido soldado, cangaceiro e criminoso”. Morava na aldeia Fulniô perto da cidade de Águas Belas, Pernambuco, e para conseguir pegar os fugitivos sempre rezava para Edjaú, a entidade máxima da religião de sua tribo.

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Outro rastejador famoso entrevistado foi José Gomes dos Santos, o João Bolandeira. Este era um orgulhoso pai de 27 filhos que “vingaram” (ou que sobreviveram a seca e a fome) e em 1971 morava em uma casa de chão batido no lugar Riacho das Lajes, também em Pernambuco. Bolandeira tinha fama de ter capturado mais de cem assassinos e ladrões. Entre seus métodos infalíveis para capturar os meliantes estava o de rezar para as almas do outro mundo em busca de orientação. Se o “causo” era complicado ele acendia sete velas, em sete encruzilhadas diferentes, sempre da última para primeira. E quando a situação era periclitante mesmo, pedia ajuda externa. João Bolandeira recorria então a amiga Liquinha, ou madrinha Lica, uma rezadeira de Garanhuns que considerada infalível e vivia em uma humilde casa nesta bela cidade serrana pernambucana.

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Outro dos famosos foi Manuel Matias, o conhecido Tôta. Este só seguia o rastro dos “cabras de peia” depois de limpar o corpo com um banho que incluía na sua composição água de colônia e alecrim. Além disso fazia a assepsia em um quarto com incenso e terminava o ritual vestindo roupas bem limpas. Dizia que tinha ao seu lado um guia de luz, do qual nunca declinou o nome e que o protegia durante o rastejo. O certo é que ele foi responsável pela prisão de muitos pistoleiros, entre estes o perigosíssimo Antônio do Algodão, que juntamente com seu filho Luís Marco, verdadeiramente tocaram o terror nas caatingas entre a Paraíba e Pernambuco. Pai e filho pistoleiros tinha assassinado o vaqueiro Manuel Mariano, no lugar Serra Queimada, perto do município de Iati, Pernambuco. O fato se deu no cabaré de Zé Cazuza e ocorreu apenas pelo fato do vaqueiro está bebendo em uma mesa junto a Luísa, mulher que o pistoleiro Antônio do Algodão considerava sua propriedade. Injuriado com uma morte tão covarde Tôta se armou de um Papo amarelo 44, rezou muito e foi à caça dos dois assassinos. E não deu outra, Tôta prendeu os dois e os levou para a delegacia do povoado de Santo Antônio do Tará, perto da cidade de Pedra, no Agreste Pernambucano.

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A reportagem de 1971 mostravam homens que pareciam deslocados do tempo, exercendo um ofício que parecia mais não se encaixar nos tempos modernos.

Sobre os rastejadores do sertão se criaram ideias fáceis e praticamente fixas sobre seu modo de ser e de viver. Pelo seu trabalho e sua condição de vida estes homens foram geralmente desprezados ao longo de décadas pelos estudiosos do sertão nordestino. Estes não perceberam que ao redor destas figuras existia um intenso manancial de impressionantes informações sobre a natureza, sobre a gente, a religiosidade e a História desta peculiar região do Brasil.

P.S. – Gostaria de esclarecer que as informações sobre o pistoleiro Floro Gomes Novais me foram transmitidas por pessoas da região do Pajeú, em Pernambuco.


NOTAS

[1] Ver Revista Fon-Fon, Rio de Janeiro-RJ, edição de 18 de setembro de 1937, pág. 36. O líder integralista e notório antissemita Gustavo Barroso copiou este texto, sem dar nenhum crédito, de um texto produzido pelo magistrado, jornalista, historiador e político Paulino Nogueira Borges da Fonseca. Intitulado “Execuções de pena de morte no Ceará”, foi publicado na Revista Trimestral do Instituto do Ceará, ano VIII, Tomo VIII, 1º e 2º trimestres de 1894. Apesar do tema ser pesado e difícil, o texto de Paulino Nogueira possui uma narrativa ágil e interessante, onde o autor, em mais de 150 páginas, enumera as execuções oficiais ocorridas no Ceará desde 1632. Diante de uma verdadeira praga de criminalidade que vivemos nos dias atuais o texto mostra que em um país chamado Brasil a pena de morte seria algo sem a mínima condição de funcionar corretamente.

[2] Com relação a história do munícipio paraibano de Taperoá, em 1873, por lei provincial nº 475, de 06 de outubro, a localidade de Batalhão foi elevada a categoria de Distrito de Paz. Já Herculano de Souza Bandeira, Presidente da Província da Parayba do Norte, através da Lei nº 829, de 06 de outubro de 1886, elevou a povoação à categoria de vila. Em 1905, através de Lei Municipal, a comunidade teve a denominação mudada para Taperoá. Em 31 de dezembro de 1943, o decreto-lei estadual nº 520, oficializou a antiga denominação de Batalhão. Mas a comunidade se insurgiu e menos de dois anos depois, em 07 de janeiro de 1945, a lei estadual nº 318 restabeleceu o topônimo Taperoá. O termo nitidamente bélico para esta comunidade estaria ligado a uma grande peleja ocorrida entre os remanescentes dos índios cariris e os primeiros brancos que penetraram na região, ou a uma batalha travada em 1824 entre os republicanos da Confederação do Equador, que tentavam uma retirada para o Ceará, e as forças legalistas. http://www.taperoa.pb.gov.br/a_cidade/historia

[3] Atualmente as cidades paraibanas de Santo André e Gurjão.

[4] Ver DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. Lampião e o Rio Grande do Norte: A história da grande jornada. Natal: Cartgrat Gráfica Editora, 2005. Págs. 141 a 145. Ver igualmente Jornal Pequeno, Recife-PE, edição de sábado, 18 de junho de 1910, página 2. Este periódico recifense reproduziu a matéria publicada em 12 de junho daquele ano no jornal 15 de Novembro, de Campina Grande, Paraíba. Em um texto muito detalhista, é nítida a ideia de enaltecer o falecido oficial Maurício, mas percebe-se sem maiores problemas o seu grave erro ao dividir a tropa e a grande capacidade de combate de Antônio Silvino e seus homens.

[5] Ver Prata, Ranulfo. Lampião. São Paulo: Editora Traço, 1985, pág. 151.

[6] A cidade paraibana de Conceição de Piancó, atualmente é apenas conhecida como Conceição e se encontra na área da Região do Vale do Piancó e fica a 482 quilômetros da capital João Pessoa. Existe atualmente ao sul de Conceição o município de Santa Inês, emancipado Pela lei estadual nº 5908, de 29 de abril de 1994.

[7] Raimundo Quintino era um homem valente e brigador. Em junho de 1926 ele havia entrado em combate contra o grupo de Sabino nas proximidades de Conceição do Piancó, que deixou fora de combate três cangaceiros, entre estes João Mariano. A volante de Raimundo conseguiu alguns troféus interessantes dos bandoleiros, entre estes consta um ferro de marcar com as letras “J J” e que teria pertencido ao cangaceiro José Juriti. Outro material que chamou atenção foi um punhal de três quinas, com 35 centímetros de comprimento na lâmina, que teria sido um presente do próprio Lampião ao seu companheiro Sabino. O grande punhal trazia oito marcas na lâmina, que teria sido creditado a oito “sangramentos” praticados pelo temível e violento Sabino. Um jornal carioca reproduziu um texto publicado pelo Jornal do Commercio, de Recife, sobre estes materiais, suas procedências e a quem eles haviam pertencido. Consta na nota que este material ficou em exposição na sede do periódico na Rua do Imperador, no bairro de Santo Antônio, centro da capital pernambucana. Ver O Imparcial, Rio de Janeiro-RJ, edição de quarta feira, 25 de agosto de 1926, pág. 5.

[8] Sobre a narrativa do combate ver DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. Lampião e o Rio Grande do Norte: A história da grande jornada. Natal: Cartgrat Gráfica Editora, 2005. Págs. 323 e 345. E o jornal Correio da Manhã, Rio de Janeiro-RJ, edição de terça feira, 19 de julho de 1927, pág. 2.

[9] O sargento Alves telegrafou ao seu comandante, o então major Theophanes Torres Ferraz, dando ciência do ocorrido. Sobre o telegrama ver o jornal A Província, Recife-PE, edição de sexta feira, 15 de julho de 1927, pág. 1.

NATAL, 1935: QUATRO DIAS SOVIÉTICOS

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A bandeira de Natal com a estrela, a foice e o martelo | Crédito: Montagem Fabio Marton

A capital do Rio Grande do Norte viveu sob um breve regime comunista

Autor – Marcus Lopes

Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/terra-brasilis/natal-1935-dois-dias-sovieticos.phtml#.WEyVPYWcHIV

Durante quatro dias, o Brasil viveu a experiência de um governo comunista. Foi em 1935, em Natal, no Rio Grande do Norte. Após um levante militar ocorrido no Batalhão do Exército, a capital potiguar caiu nas mãos dos rebeldes, que destituíram os governantes locais dos seus cargos – incluindo o governador do estado e a Assembleia – e assumiram o poder com apoio do Partido Comunista Brasileiro (PCB), liderado por Luís Carlos Prestes. Sob o lema “pão, terra e liberdade”, os revolucionários almejavam dar o pontapé inicial para a instalação de um regime soviético no Brasil.

O levante começou na manhã de 23 de novembro, um sábado. O dia em Natal, que contava com cerca de 40 mil habitantes, começou calmo e prometia poucas novidades. A principal notícia era uma formatura no Teatro Carlos Gomes, à noite, que contaria com a presença do governador Rafael Fernandes.

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Cais da Tavares de Lira, no bairro da Ribeira, em Natal. Uma provinciana capital do Nordeste do Brasil.

No quartel militar do 21º Batalhão de Caçadores (21º BC) o dia também corria tranquilo até que chegou a informação de que o general Manuel Rabello, comandante da 7ª Região Militar, no Recife, havia autorizado o licenciamento de alguns cabos, soldados e tenentes que estavam com tempo vencido na carreira militar e a expulsão de outros, acusados de envolvimento em incidentes de rua ocorridos dias antes em Natal, incluindo assaltos a bondes.

O documento com a ordem de expulsão precipitou um movimento que estava sendo articulado havia vários dias entre lideranças militares e sindicatos locais junto com membros do PCB estadual. O objetivo era apoiar a revolução nacional que estava sendo preparada pela Aliança Nacional Libertadora (ANL), no Rio.

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O 21º Batalhão de Caçadores

“Havia uma preparação para o levante sob a direção do Partido Comunista, que atuava no 21º Batalhão de Caçadores e em vários sindicatos locais. Eles apenas aguardavam as orientações do comitê central”, afirma Homero de Oliveira Costa, professor de ciências políticas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e estudioso da insurreição de Natal. Somando-se a isso, Costa lembra que a cidade já vivia momentos de tensão política desde o ano anterior. “O Rio Grande do Norte teve uma das mais tumultuadas eleições do país, com diversos conflitos de ruas, assassinatos, prisões e repressão. Isso criou uma situação muito tensa no Estado, e em Natal em particular”, diz.

Erro de comunicação

Os acontecimentos daquele sábado se precipitaram de tal maneira que não houve tempo nem de avisar a ANL, cujos líderes (incluindo Prestes) aguardavam o melhor momento para eclodir a revolução em nível nacional. Em função das expulsões ordenadas pelo comando militar no Recife, o PCB estadual e os integrantes do Batalhão decidiu dar início ao motim naquele mesmo dia.

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Luís Carlos Prestes – Bundesarchiv; BArch

Por volta das 19h30, um grupo de militares rebeldes, liderados pelo sargento Quintino Clementino de Barros, rendeu os oficiais de plantão do quartel e, com fuzis apontados para a cabeça dos soldados, ordenaram: “Os senhores estão presos em nome do capitão Luís Carlos Prestes”. Não houve resistência e, a partir daí, os revolucionários, liderados por Quintino e apoiados por grupos civis organizados (como o sindicato dos estivadores, que era muito forte na cidade), tomaram o quartel e ocuparam locais estratégicos: o palácio do governo, a Vila Cincinato – residência oficial do governador -, a central elétrica, a estação ferroviária e as centrais telefônica e telegráfica.

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Resultado do ataque comunista ao Quartel da Salgadeira, no Centro de Natal.

Informado sobre a confusão e a organização dos amotinados ainda na cerimônia dos contabilistas, o governador e demais autoridades civis e militares fugiram e se esconderam na casa de aliados. No quartel da Força Pública, cuja sede ficava próxima ao batalhão rebelado, ensaiou-se uma resistência legalista com policiais fiéis ao governo, vencida pelos militares rebeldes, no momento mais organizados e bem armados.

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Quintino Clementino de Barros, militar e músico do 21º Batalhão de Caçadores, presidente do Comitê Popular Revolucionário, quando já preso pelas forças do governo.

Na manhã seguinte, Natal estava completamente dominada. Na residência do governador, sede dos rebelados, formou-se uma junta provisória de governo, autodenominada Comitê Popular Revolucionário, que era formada pelo sapateiro José Praxedes (secretário de Abastecimento); sargento Quintino Barros (Defesa); Lauro Lago (Interior e Justiça); estudante João Galvão (Viação); e José Macedo (Finanças), este último funcionário dos Correios e Telégrafos.

Em seguida, o Comitê Revolucionário começou a tomar medidas práticas. A primeira foi um decreto com a destituição do governador do cargo e a dissolução da Assembleia Legislativa “por não consultar mais os interesses do povo”. As tarifas de bondes foram extintas e o transporte coletivo tornou-se gratuito.

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De cigarro vemos Mário Lago, ex-diretor da Casa de Detenção de Natal e Mário Paiva, comissários do Comité Revolucionário, quando detidos.

Na segunda-feira, o comércio e os bancos não abriram. À tarde, foi ordenado o saque dos cofres da agência do Banco do Brasil e Recebedoria de Rendas. O dinheiro foi confiscado em nome do governo revolucionário e parte dele distribuído à população, que adorou a novidade, mesmo sem ter muita noção do que estava acontecendo.

Pura farra

“A população confraternizava com os rebeldes. Era mais uma festa popular ou um carnaval exaltado, do que uma revolução”, explica o historiador Hélio Silva em seu livro 1935 – A Revolta Vermelha. “Casas comerciais foram despojadas de víveres, roupas e utensílios domésticos que aquela gente não podia comprar. Houve populares que, pela primeira vez, comeram presunto”, de acordo com o historiador.

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Da esquerda para direita vemos o ex-sargento Diniz, do 21º Batalhão de Caçadores, José Macedo, ex-tesoureiro dos Correios e Telégrafos e João Baptista Galvão, considerados “figuras salientes” do governo comunista instalado em Natal em novembro de 1935.

Um dos líderes do movimento, João Galvão, relatou posteriormente o que aconteceu naqueles dias: “O povo de Natal topou a revolução de pura farra. Saquearam o depósito de material do 21º BC e todos passaram a andar fantasiados de soldado. Minha primeira providência como ‘ministro’ foi decretar que o transporte coletivo seria gratuito. O povo se esbaldou de andar de bonde sem pagar”.

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Líderes comunistas do levante natalense presos pelas forças legalistas.

Para se comunicar com a população, um avião foi confiscado no aeroporto e sobrevoou a cidade despejando milhares de folhetos. No curto período em que se mantiveram no poder, os revolucionários também distribuíram o primeiro e único número do jornal A Liberdade, impresso nas oficinas da Imprensa Oficial do Estado. Nele, foi publicado o expediente do novo governo e um manifesto, inspirado no programa do PCB e sob o lema “todo poder à ANL”.

Cada um por si

Segundo o professor Homero Costa, o pouco tempo em que permaneceram no poder impediu que os revolucionários tomassem outras medidas práticas. “Houve boatos de que na Vila Cincinato estavam distribuindo alimentos à população, o que levou muita gente a se deslocar para lá, mas não era verdade”, diz Costa.

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Foto que mostra os efeitos do arrombamento do cofre da agência do Banco do Brasil em Natal.

Mesmo assim, algumas medidas típicas de regimes de exceção foram tomadas naquele começo de semana, como salvo-condutos para circulação nas ruas e ordens para que o comércio e os bancos funcionassem normalmente, o que, claro, não aconteceu. “Os comerciantes foram orientados a negociar como de costume, sem estocarem alimentos para elevar os preços. Caso isso ocorresse, os estoques seriam confiscados pelo governo”, diz Elias Feitosa, professor de história do Brasil do Cursinho da Poli, lembrando que alguns gêneros alimentícios, como o pão, também tiveram o preço reduzido.

O levante não ficou restrito a Natal. Houve uma interiorização do movimento no Rio Grande do Norte. “Foram formadas três ‘colunas guerrilheiras’ que ocuparam 17 dos 41 municípios do estado, destituindo prefeitos e nomeando outros”, diz Homero Costa.

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“Foi bala muita” – Fachada do Quartel da Salgadeira, atingido por disparos efetuados pelos comunistas.

Pequenas localidades, como São José de Mipibu, Ceará Mirim e Baixa Verde (atual município de João Câmara) foram ocupados sem resistência e os prefeitos substituídos por simpatizantes da ANL. Agências bancárias e do governo (as coletorias de renda) foram saqueadas e o dinheiro enviado para a capital. Na terça-feira, a intentona potiguar começou a revelar sua fragilidade com a movimentação de tropas do Exército da Paraíba e de Pernambuco rumo a Natal para debelar o movimento e restabelecer a ordem.

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Sargentos legalistas do Exército Brasileiro, que ficaram prisioneiros dos comunistas no quartel do 21º Batalhão de Caçadores.

Em uma localidade chamada Serra do Doutor, um dos grupos da ANL foi preso por tropas leais a Getúlio Vargas. Informados de que tropas federais entrariam em Natal e com a possibilidade de bombardeamento aéreo, os líderes do “governo revolucionário” fugiram na base do cada um por si. Um deles, Praxedes, viveu foragido durante anos. Os demais foram capturados e enviados para o Rio de Janeiro com outros presos políticos, como o escritor Graciliano Ramos.

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De chapéu de palha vemos Dinarte Mariz, tendo ao seu lado Enoch Garcia, considerados os idealizadores da resistência ao avanço comunista no Seridó Potiguar, que se efetivou com o combate na Serra do Doutor. Certamente que politicamente Dinarte foi um dos que mais usufruiu politicamente da sua suposta ação de resistência contra as forças comunistas, chegando a se tornar governador e senador pelo Rio Grande do Norte.

O mesmo aconteceu nas cidades do interior. Com a fuga, os militares enviados pelo governo federal não tiveram dificuldades de controlar a situação. O governador Rafael Fernandes foi reconduzido ao cargo e, a partir de quarta-feira, dia 27 de novembro, a vida voltou ao normal na cidade que, durante cerca de 90 horas, abrigou, como escreveu Hélio Silva, “o primeiro, único e fugaz governo soviete na história do Brasil.”

Intentona comunista

No mesmo dia em que o “governo comunista” era encerrado no Rio Grande do Norte, o movimento tenentista deflagrava, no Rio de Janeiro, uma insurreição para derrubar o presidente Getúlio Vargas e instaurar um regime comunista no Brasil. Liderado por Luís Carlos Prestes, o levante ficou conhecido como Intentona Comunista, ou Revolta Vermelha. Os amotinados se rebelaram em vários regimentos e batalhões do Rio, mas foram rapidamente sufocados pelas forças de segurança nacional.

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A insurreição estava sendo preparada desde o ano anterior. No final de 1934, Prestes, que estava na União Soviética havia três anos, retornou ao Brasil para organizar a revolução comunista. Acompanhado de sua mulher, Olga Benário, militante do partido comunista alemão, eles desembarcaram clandestinamente com os nomes falsos de Antônio Villar e Maria Villar. Além do casal, vieram outros estrangeiros para ajudar na revolução. Entre eles, o argentino Rodrigo Ghioldi e sua mulher, Carmen; o casal alemão Elisa Sabarowski e Arthur Ewert; os belgas Lion Valle e sua mulher, Alphonsine; o alemão Franz Gruber e o norte-americano Victor Allen Baron.

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Intentona Comunista de Natal de 23 de novembro de 1935 foi notícia em todo mundo, como neste material publicado em um jornal dos Estados Unidos.

Todos, incluindo Prestes, eram militantes da Internacional Comunista, que via no Brasil um terreno fértil para a revolução. “O PCB era uma seção da Internacional Comunista e estava inserido no que a entidade chamava de ‘países coloniais e semicoloniais’, para os quais havia estratégias revolucionárias distintas. No caso, ao contrário dos países capitalistas ‘avançados’, a estratégia era a via insurrecional”, explica o cientista político Homero Costa, da UFRN, sobre a participação do Komintern no movimento de 1935, que registrou ações em Natal, Recife e no Rio. Após a rebelião em Natal, ocorreu um efeito dominó em outras praças que também estavam sendo preparadas e treinadas para a revolução.

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“O que ocorreu em Natal pegou todos de surpresa, inclusive o comitê central. Os levantes no Recife, no dia seguinte ao de Natal, e no Rio de Janeiro, foram em consequência dessa precipitação”, diz Costa, lembrando que a insurreição nacional estava planejada apenas para o início de 1936.

“O levante de Natal fez parte do contexto da Intentona Comunista. A ideia era que a revolução fosse em escala nacional. Porém, nem todas as guarnições envolvidas se engajaram ao mesmo tempo”, diz o historiador Elias Feitosa. A ação da Internacional serviu como justificativa para que Getúlio Vargas instaurasse o Estado Novo, em 1937.