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65 ANOS DA PRIMEIRA APRESENTAÇÃO DE LUIZ GONZAGA EM NATAL

Luiz Gonzaga e seu grupo.

O Grande Mestre da Música Nordestina Se Apresentou na Rádio Poti de Natal em 1956, Junto Com Seu Pai, O Velho Januário, Em Meio a Uma Tournée Pelo Nordeste.

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN.

Em meio as lembranças pelos 30 anos da partida do Mestre Luiz Gonzaga, achei interessante apresentar um material que encontrei nos velhos jornais sobre a primeira apresentação dessa lenda da cultura nordestina na capital potiguar. E foi a primeira de muitas!

Em 1954 Luiz Gonzaga do Nascimento, pernambucano da cidade de Exu e se encontrava no auge da carreira. Ele, suas músicas, o seu chapéu de couro e sua sanfona eram apresentados com extrema assiduidade nas principais revistas dedicadas aos artistas do rádio. Os mesmos rádios, então o principal veículo de comunicação popular existente nos lares do país naquela época, onde os brasileiros ouviam e admiravam a sua potente voz.

Luiz Gonzaga e sua alegria, registrada na Revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro-RJ, ano XXIV, nº 39, ed. 12 de setembro de 1952.

Luiz Gonzaga foi o primeiro artista musical oriundo do Nordeste a ser um grande sucesso popular. Isso pode ser comprovado em junho de 1952, no Rio de Janeiro, quando ocorreu uma festa que reuniu 60.000 pessoas para escutar o Rei do Baião e dançar xaxado. Foi durante os festejos juninos realizados no bairro de São Cristóvão, mais precisamente no antigo Campo de São Cristóvão, onde até hoje acontece a famosa feira no atual Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas. A festança foi promovida pelas Rádios Tamoio e Tupi, onde contou com ampla cobertura da Rede Tupi de Televisão, a primeira emissora de TV da América Latina e inaugurada apenas dois anos antes[1].

As câmeras da Rede Tupi de Televisão registrando a festa de 1952 em São Cristovão. Revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro-RJ, ano XXIV, nº 39, ed. 12 de setembro de 1952.

Segundo Dominique Dreyfus, escritora francesa que escreveu a biografia Vida de Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga, os anos de 1953 e 1954 foram de muitas viagens para realização de tournées pelo Brasil afora. Perto da metade do ano de 1954 teve início mais uma, com o patrocínio do Colírio Moura Brasil, onde o aclamado Rei do Baião percorreu várias cidades nordestinas.

Uma carioca de belas pernas, da equipe de dançarinas da TV Tupi, xaxando feito uma nordestina. Revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro-RJ, ano XXIV, nº 39, ed. 12 de setembro de 1952.

Pouco antes de iniciar a nova série de viagens, quando no dia 25 de maio realizou uma apresentação na Rádio Mayrink Veiga, Luiz Gonzaga recebeu um exemplar de uma asa branca em uma gaiola, ofertado pelo povo de Exu, que lhe foi entregue por Cândido Holanda Cavalcanti, oficial médico da Força Aérea Brasileira e seu conterrâneo[2].  

Na Estrada

Quando realizou uma apresentação na cidade baiana de Feira de Santana, no Campo do Gado, quem testemunhou o espetáculo foi o escritor, sociólogo e jornalista Muniz Sodré de Araújo Cabral, então com 12 anos de idade, que registrou “Era noite de céu brilhante. Enluarado, Gonzaga subiu ao palanque, com chapéu de couro cru e três estrelas na aba da frente, gibão de couro, alpercatas e sanfona prateada dependurada no pescoço. O grito de louvação do povo, longo, em uníssono, fez vibrar o madeirame do palco. Como esquecer?”[3].

Sabemos que nessa tournée Gonzaga esteve no Maranhão, no Piauí e em Campina Grande, na Paraíba. Nessa cidade fez uma apresentação na Rádio Borborema e esteve na sede do Partido Democrático Social, o PSD, uma das maiores agremiações políticas do Brasil na época, onde recebeu um abraço do então senador Rui Carneiro[4].

Luiz Gonzaga ao centro, com um grande lenço e Humberto Teixeira é o primeiro da direita para esquerda com chapéu de couro.

No Ceará também houve a mescla de show e política. Primeiramente Gonzaga realizou em Fortaleza uma apresentação no auditório da Rádio Clube do Ceará, na sequência cantou ao ar livre durante a Primeira Festa do Radialista, em evento transmitido pela Rádio Iracema[5]. Depois seguiu para apoiar politicamente o amigo Humberto Teixeira em sua terra natal, a cidade cearense de Iguatu. Formado em 1944 pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, Humberto Cavalcanti Teixeira ganhou fama como compositor em parceria com Luiz Gonzaga, principalmente a partir de 1945[6].

Logo Gonzaga, trazendo sua sanfona, apontou a bússola para a direção da capital potiguar. Segundo o jornal natalense O Poti, o Rei do Baião chegou acompanhado de uma figura ilustre; Januário José dos Santos, seu pai, o conhecido Velho Januário.

Luiz Gonzaga e seu pai, o Velho Januário, que na foto está com uma sanfona de 8 baixos – Fonte – https://fabiomota1977.wordpress.com/2006/11/21/seu-januario-o-mestre-dos-8-baixos/

Januário era da região do Pajeú, em Pernambuco, tendo nascido a 25 de setembro de 1888. Consta que premido pela estiagem chegou à Fazenda Caiçara, a doze quilômetros de Exu, acompanhado de seu irmão Pedro Anselmo, no ano de 1905. Lavrador e exímio sanfoneiro de oito baixos ficou conhecido por ser um homem dedicado à família e respeitado em toda a sua região pela sua arte. Foi casado primeiramente com Ana Batista de Jesus Gonzaga do Nascimento, a mãe de Luiz Gonzaga, conhecida na região por “Santana”, ou “Mãe Santana”, cuja união com Januário gerou nove filhos[7]. Em 1954 o Rei do Baião já havia levado seu pai para o Rio de Janeiro, mas ele decidiu voltar para Exu, próximo a Serra do Araripe. Não sei como ocorreram as circunstâncias e negociações para o Velho Januário acompanhar seu filho Luiz Gonzaga nessas apresentações pelo Nordeste há 65 anos, mas o certo é que os dois vieram juntos para Natal.

O Rei do Baião também veio acompanhado de Osvaldo Nunes Pereira, baiano de Jequié. Este era um jovem humilde, que era anão e tocava triângulo. Pela baixa estatura recebeu primeiramente o nome artístico de Anão do Xaxado e depois Salário Mínimo[8]. Além deste fazia parte do grupo que chegou a Natal o zabumbeiro conhecido como Aluízio.

Sobre esse último integrante temos um pequeno mistério!

Nas páginas 181 a 186 do livro de Dominique Dreyfus encontramos os detalhes sobre a saída do zabumbeiro Catamilho e do tocador de triângulo Zequinha como instrumentistas acompanhantes de Gonzaga em 1953. Bem como podemos ler sobre a entrada de Osvaldo Nunes Pereira e de um zabumbeiro piauiense chamado Juraci Miranda, conhecido como Cacau.

Dreyfus inclusive traz uma foto na página 187, onde Luiz Gonzaga se apresenta em um palco ao lado do Anão do Xaxado com o triângulo e de um zabumbeiro que é apontado como sendo Cacau. Ocorre que na página 29 do livro Forró – The Ecoding by Luiz Gonzaga, de autoria de Climério de Oliveira Santos e Tarcísio Soares Resende, publicado pela CEPE Editora em 2014, como parte da série Batuque Book, com edição bilíngue em português/inglês, é possível ver a mesma foto com a legenda (em inglês) que indica ser Salário Mínimo no triângulo e na zabumba o tocador era Aluízio. Como o jornal natalense O Poti também aponta que Aluízio esteve com o Rei do baião na capital potiguar, na sequência de suas apresentações em Fortaleza, creio que o trabalho de Santos e Resende parece está correto.

Independente desse pormenor, o certo é que em agosto de 1954 o Anão do Xaxado e Aluízio eram relativamente novos na parceria com Gonzaga.

No “Auditório B” da Rádio Poti de Natal

Luiz Gonzaga, seu pai e os dois tocadores que lhe acompanhavam a Natal iriam se apresentar nos auditórios da Rádio Poti.

Postal com o anteprojeto da Rádio Educadora de Natal, de autoria de Carlos Lamas e construção da empresa de Gentil Ferreira de Souza. O sonho de uma rádio em Natal se concretizava.

Essa rádio se originou a partir da Rádio Educadora de Natal – REN, a primeira emissora do Rio Grande do Norte e que entrou efetivamente no ar em 29 de novembro de 1941. Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, proprietário de um conglomerado midiático chamado Diários Associados, que nessa época abrangia jornais em várias cidades brasileiras, revistas e estações de rádio, compra m 1944 a REN e a transforma na Rádio Poti. A renovada emissora transmitia em AM (amplitude modulada), na frequência de 1.270 kHz e mantendo o tradicional prefixo da REN – ZYB-5.

Assis Chateaubriand discusando.

Essa rádio se torna um grande sucesso na cidade, pois através da ação dos Diários Associados o seu auditório passou a receber muitos cantores nacionalmente conhecidos. Um deles foi Sílvio Caldas, que ali se apresentou entre 25 e 27 de maio de 1948, sob o patrocínio do “Creme dental Nicotan”[9].

Logo Chateaubriand decidiu realizar alterações na rádio, sendo a principal ação a ampliação e modernização do chamado “palco-auditório”, na sede que a Rádio Poti possuía na Avenida Deodoro. Isso proporcionou uma maior e melhor capacidade de transmitir programas de auditório, humorísticos, jornalísticos, musicais, radionovelas e outros. A festa de inauguração do novo auditório, o conhecido “Auditório da Avenida Deodoro”, ocorreu em uma sexta-feira, 3 de novembro de 1950. O mestre da cerimônia foi o radialista Genar Wanderley e a principal atração foi uma bela e exuberante cantora de 21 anos de idade, nascida na cidade paulista de Taubaté e chamada Hebe Camargo[10].

Ao ler os jornais da época percebe-se nitidamente o estrondoso sucesso do novo “palco-auditório” da Rádio Poti, aonde as apresentações vão ocorrendo e movimentando intensamente a vida cultural de Natal.

Diante do sucesso dessas apresentações e buscando ampliar o público, a direção da Rádio Poti decidiu utilizar  o que passou a ser chamado de “Auditório B”. Este era um auditório amplo e confortável, que ficava na antiga sede do Alecrim Futebol Clube, na Avenida Presidente Bandeira, ou Avenida 2[11].

Antiga sede da Rádio Poty, a principal de Natal.

Esse era um local que, além das atividades próprias da administração dessa tradicional equipe de futebol natalense, também era um ponto de grande efervescência cultural. Ali ocorreram grandes bailes de carnaval, festas juninas, reuniões de partidos políticos, festas dançantes aos domingos e até peças de teatro. Em março de 1949, o renomado teatrólogo Inácio Meira Pires ali criou um núcleo de teatro amador chamado “Teatro do Bairro”, que utilizava o auditório do Alecrim Clube como local de apresentações[12]. Vale ressaltar que muitas dessas festas, reuniões políticas, peças de teatro e outros acontecimentos importantes eram transmitidos pela Rádio Poti.

No sábado, 31 de agosto de 1954, ocorreu a transmissão no palco do Alecrim Clube do programa “Vesperal dos Brotinhos”, sob o comando de Luiz Cordeiro e Rubens Cristino. No outro dia aconteceu no mesmo palco a comemoração do sexto aniversario do popular programa de auditório “Domingo Alegre”, apresentado por Genar Wanderley, sendo os ingressos vendidos por apenas CR$ 3,60 (três cruzeiros e sessenta centavos)[13].

Logo foi anunciada a apresentação de Luiz Gonzaga.

Sucesso em Natal

Certamente ser supersticioso era algo que o grande Luiz Gonzaga não era, pois sua primeira apresentação na capital do Rio Grande do Norte ocorreu em uma sexta-feira, dia 13, do mês de agosto. E foi um sucesso!

Sabemos que os ingressos foram vendidos ao preço de CR$ 10,00 (dez cruzeiros). Um valor não tão elevado em 1954, equivalente a uma corrida de taxi para o que era considerado naquele tempo o perímetro urbano de Natal. Pois fora dessa área tudo era mais caro. Uma corrida para a praia de Ponta Negra custava R$ 80,00 (oitenta cruzeiros). Já para o Aeroporto de Parnamirim o valor saltava para R$ 100,00 (cem cruzeiros)[14].

Luiz Gonzaga trouxe “um repertório inteiramente novo, suficiente para um espetáculo completo”. Se aconteceu como foi descrito no jornal natalense O Poti, certamente o Rei do Baião tocou no palco do Alecrim Clube os sucessos produzidos no primeiro semestre de 1954. Tais como “Feira do gado” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas), “Velho novo Exu” (Luiz Gonzaga/Sylvio M. Araújo), “Olha a pisada” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas) “Lascando o cano” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas) e outros. A estes com certeza se juntaram aos sucessos criados do ano anterior, como a fantástica música “O xote das meninas”, a bela “Algodão” (ambas as composições fruto da parceria Luiz Gonzaga/Zé Dantas) e outros grandes sucessos. Os informes jornalísticos apontam que o auditório “superlotou” para assistir o Rei do Baião, sendo muito aplaudidas as apresentações musicais.

Da esquerda para direita vemos Aluízio, Luiz Gonzaga, o Velho Januário e o Anão do Xaxado, tal como se apresentaram em Natal – Fonte – http://www.forroemvinil.com/luiz-gonzaga-e-januario-em-fortaleza/

No sábado por volta das quatro da tarde, Luiz Gonzaga realizou aparentemente sozinho, uma entrevista na Rádio Poti. À noite, por volta das oito horas, nos estúdios da mesma rádio foi realizada uma nova apresentação musical com Luiz, seu pai e os instrumentistas, que O Poti informou ter sido transmitida em “ondas médias e curtas”.

Já no domingo a tarde, 15 de agosto, Luiz Gonzaga, o Velho Januário, Anão do Xaxado e Aluízio bisaram o show no palco do Alecrim Clube. Depois, às nove horas da noite, o grupo seguiu para o Auditório da Avenida Deodoro, que se encontrava completamente lotado para a despedida de Luiz Gonzaga de Natal. Eles tocaram no âmbito do programa “Domingo Alegre”, que contou com a apresentação do radialista Genar Wanderley. Na ocasião estava presente o jornalista Edilson Varela, representante dos Diários Associados no Rio Grande do Norte, o grupo de mídia e comunicação comandado por Assis Chateaubriand. Varela era também diretor dos jornais O Poti e Diário do Natal, além de responder administrativamente pela Rádio Poti.

Luiz Gonzaga diante do microfone de uma rádio.

Show em Currais Novos e Os Vários Retornos ao Rio Grande do Norte

Sabemos que provavelmente naquele agosto de 1954 o tocador Luiz Gonzaga, acompanhado de seu pai e seus instrumentistas, também estiveram na cidade potiguar de Currais Novos.

Segundo o blog “Pimenta com Mel”, do comunicador Felipe Félix, encontramos a informação transmitida por José Nobre de Medeiros, conhecido nessa cidade como Zénobre. Nascido em 1942 na zona rural currais-novense, no Sítio Saquinho da Malhada da Areia, Zénobre informou que viu Luiz Gonzaga em sua cidade em 1954, que assistiu a apresentação do pernambucano de Exu no coreto da Praça Cristo Rei e que o Rei do Baião foi patrocinado pela fábrica de bicicletas Monark[15].

Recebemos a informação do engenheiro civil Moacir Avelino Bezerra Junior e do seu irmão Haroldo Márcio Avelino Bezerra, Professor do IFRN de Mossoró, que nesse mesmo 1954, após uma possível apresentação em Mossoró, Luiz Gonzaga foi convidado pelo rico agropecuarista Francisco das Chagas Sousa, conhecido como Chico Sousa, para cantar na cidade de Afonso Bezerra. A apresentação para a população local foi realizada na carroceria de um caminhão.

Provavelmente nessa ocasião Luiz Gonzaga tocou em outras cidades potiguares, mas infelizmente não consegui dados sobre isso.

Perto do fim do mês Luiz Gonzaga está com o seu pai e seus dois instrumentistas em Recife, Pernambuco. Na noite de sábado, 21 de agosto, ele realizou uma apresentação no tradicional Clube Internacional, na Rua Benfica, no bairro da Madalena. Foi uma ação em prol da Sociedade Pernambucana de Proteção a Lepra, onde buscavam angariar fundos para a construção da Colônia de Férias de Olinda, destinada as crianças que sofriam dessa doença naquele estado[16].

Sobre as apresentações de Luiz Gonzaga no Rio Grande do Norte, percebemos que o sucesso foi total. Nove meses depois o tocador retornava para novos shows em Natal.

No início de maio de 1955 o pernambucano de Exu retornou para as novas apresentações junto aos auditórios da Rádio Poti sem trazer o Velho Januário. Estavam ao seu lado dois instrumentistas que não foram listados. O interessante é que dessa vez o patrocínio veio da empresa italiana de bebidas Martini & Rossi, que havia desembarcado no Brasil cinco anos antes e procurava se popularizar através do Rei do Baião[17].

O Rei do Baião era artista contratado da empresa RCA Victor, sendo um dos seus campeões de vendagem.

Como no ano anterior, as apresentações de Luiz Gonzaga em Natal foram cobertas de êxito.

Luiz Gonzaga Não Gostava de Natal e do Rio Grande do Norte?

E esse sucesso se repetiu ao longo dos anos, a cada nova apresentação desse incomparável sanfoneiro na capital potiguar.

Nota em jornal natalense para novas apresentações de Luiz Gonzaga na capital potiguar, após 1954.

Mas alguns pesquisadores afirmam que Luiz Gonzaga tinha uma relação negativa com Natal e o Rio Grande do Norte. Isso teria ocorrido em razão de alguns calotes que o mesmo teria levado de empresários de shows locais. Mas para quem pesquisa as páginas dos jornais antigos isso não fica aparente, pois são inúmeras as apresentações desse artista em Natal ao longo de décadas. Creio que dificilmente Rei do Baião retornaria a Natal para continuar sendo mal tratado e vilipendiado!

Propaganda das apresentações de Luiz Gonzaga em Natal no ano de 1956.

Além das apresentações de agosto de 1954 e de maio de 1955, ele retornou em dezembro de 1956 (quando se apresentou para o povão na Praça André de Albuquerque). Depois voltou em dezembro de 1960, no final de junho de 1961 e em fevereiro de 1962. Já no ano de 1975 esse artista esteve em Natal em duas ocasiões. A primeira no mês de março, no show de inauguração solene da Avenida Bernardo Vieira, quando estiveram no mesmo palco que cantou o Rei do Baião os potiguares Ademilde Fonseca, Trio Irakitan e Fernando Luís. A segunda em 9 de agosto, quando juntamente com o Trio Nordestino realizaram um show maravilhoso, para uma Praça Gentil Ferreira completamente lotada. Esse evento aconteceu no mesmo bairro do Alecrim onde Luiz Gonzaga tocou em Natal pela primeira vez no ano de 1954. Esses grandes músicos nordestinos participavam da chamada “Caravana do Sucesso”, uma série de shows por todo o Brasil, patrocinados por uma indústria de bebidas.

Luiz Gonzaga em Natal em agosto de 1975.

Desse momento posso comentar como testemunha ocular.

Garoto de oito anos de idade, assisti a esse show pendurado no pescoço, ou no cangote, do meu pai. Recordo dos potentes holofotes que iluminavam tudo, das milhares de pessoas que lotavam a principal praça do Alecrim e, principalmente, de Luiz Gonzaga com sua sanfona branca, seu chapéu de couro cintilando na mesma cor e de sua voz forte e marcante. Desse dia nunca esqueci que meu pai, Calabar Medeiros, me disse ao sairmos de nossa velha casa na Rua Borborema, no mesmo bairro do Alecrim, para ir assistir esse grande espetáculo – “Esse homem canta a alma da nossa terra, da nossa gente”.

Anos depois, no dia 23 de agosto de 1983, eu tive a oportunidade de assistir ao grande encontro de Luiz Gonzaga e do cantor Raimundo Fagner, além de outras grandes figuras da música nordestina. Foi no atualmente esquecido show “Canta Nordeste – Vozes contra seca”, no chamado movimento “SOS Seca”, que aconteceu no atualmente estádio de futebol Castelão de Natal, sendo uma iniciativa do Instituto Varela Barca. Foi verdadeiramente delirante se encontrar naquele local e acompanhar novamente Luiz Gonzaga, em uma interessante parceria com Fagner. Encontro que renderia três ótimos discos nos anos seguintes. Quis Deus que em 2010 eu conhecesse Raimundo Fagner e ele gentilmente realizasse o prefácio do meu segundo livro João Rufino – Um visionário de fé

Meu pai deixou esse plano no último dia 9 de julho de 2019 e, como meu pai me ensinou, eu jamais deixei de escutar as músicas de Luiz Gonzaga do Nascimento e de me emocionar com sua voz.

NOTAS


[1] Ver revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro-RJ, ano XXIV, nº 39, ed. 12 de setembro de 1952, págs. 21 a 23.

[2] Ver Radiolândia, Rio de Janeiro – RJ, Rio Gráfica Editora, ed. da 1ª quinzena de junho de 1954, pág. 11.

[3] Ver Folha de São Paulo, São Paulo-SP, edição de domingo, 19 de dezembro de 2010, in https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il1912201007.htm  

[4] Ver Diário de Pernambuco, Recife-PE, edição de 25 de agosto de 1954, pág. 11.

[5] Ver Radiolândia, Rio de Janeiro-RJ, Rio Gráfica Editora, ed. 4 de setembro de 1954, pág. 18.

[6] No pleito de outubro de 1954, Humberto Teixeira candidatou-se a deputado federal pelo Ceará na legenda do Partido Social Progressista, mas obteve apenas uma suplência. Ao longo da legislatura 1955-1959, exerceu o mandato em quatro ocasiões. Como deputado federal, obteve a aprovação da chamada Lei Humberto Teixeira, que permitiu a realização de caravanas para a divulgação da música popular brasileira no exterior. Concorreu à reeleição em outubro de 1958, mas não foi bem sucedido.

[7] Em segundas núpcias Januário se uniu a Maria Raimunda de Jesus, em 5 de novembro de 1960. Detalhes sobre sua vida ver https://fabiomota1977.wordpress.com/2006/11/21/seu-januario-o-mestre-dos-8-baixos/

[8] Sobre a participação de Osvaldo Nunes Pereira ver DREYFUS, Dominique. Vida do viajante: a saga de Luiz Gonzaga. São Paulo: Ed. 34, 1996, pags. 182 a 186.

[9] Sobre esse período áureo da Rádio Poti ver http://www2.carosouvintes.org.br/radio-poti-de-natal-narrando-as-primeiras-historias/. Sobre a apresentação de Sílvio Caldas ver jornal A Ordem, Natal-RN, ed. 21 de maio de 1948, pág. 7.

[10] Sobre essa festa ver o Diário de Natal, edição de 4 de novembro de 1950, pág. 6.

[11] O Alecrim Futebol Clube foi fundado no bairro do mesmo nome no ano de 1915 e o seu primeiro goleiro foi o futuro presidente da República do Brasil, João Café Filho. O Alecrim foi campeão de futebol potiguar nos anos de 1924, 1925, 1963, 1964, 1968 (Invicto), 1985 e 1986. Mais sobre esse tradicional clube ver https://www.campeoesdofutebol.com.br/alecrim_historia.html

[12] Sobre o Teatro do Bairro, ver Diário de Natal, edição de 9 de março de 1949, pág. 6.

[13] Ver jornal O Poti, Natal-RN, edição de 1º de agosto de 1954, pág. 8.

[14] Ver jornal O Poti, Natal-RN, edição de 7 de outubro de 1954, 1ª pág.

[15] Ver http://pimentacommelcn.blogspot.com/2012/01/o-rei-do-baiao-e-recordado-com-mais.html

[16] Ver Diário de Pernambuco, Recife-PE, edição de 21 de agosto de 1954, pág. 2.

[17] Ver jornal O Poti, Natal-RN, edição de 4 de maio de 1955, pág. 6.

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A GUERRA CHEGA AO AGRESTE POTIGUAR – A QUEDA DE UM CATALINA EM RIACHUELO

Um hidroavião Consolidated PBY-5 Catalina e grande parte dos oficiais e subalternos do esquadrão VP-45, antes de sua transferência para Belém do Pará. Foi uma aeronave similar a essa que caiu na área da antiga fazenda Lagoa Nova, município de Riachuelo, Rio Grande do Norte. Fonte: National Archives and Records Administration – NARA

Rostand Medeiros – Historiador, escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Publicado originalmente no livro Sobrevoo – Episódios da Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte, de Rostand Medeiros, Natal-RN:Editora Caravelas, 2019, págs. 283 a 305.

Seu nome era Francisco Inácio, estava na meia idade, era conhecido na região de São Paulo do Potengi como um homem sério e trabalhador[1]. Seu Chico Inácio, como todos o chamavam, possuía uma pequena propriedade rural no agreste do Rio Grande do Norte conhecida como Fazendinha, que teria meros 50 hectares. Essa diminuta gleba ficava próximo a um arruado chamado Lagoa dos Paus e fazia fronteira com a grande e poderosa fazenda Lagoa Nova, um latifúndio com cerca de 11 mil hectares pertencente ao ex-governador potiguar Juvenal Lamartine de Faria, com quem aquele homem simples mantinha uma boa relação.

No dia 10 de maio de 1944, uma quarta-feira, aquele pequeno produtor rural percorria sua gleba realizando as tarefas comuns aos potiguares que viviam da terra e do gado. Cavalgava sua pequena alimária envergando a tradicional roupa de couro, buscando os animais soltos no pasto. Realizava sua tarefa com muito contentamento e alegria, pois naqueles dias a região estava sendo contemplada com muita chuva, verdadeira bênção de Deus. Uma grande fartura depois de dois anos de uma seca braba que queimou a terra e deixou tudo que era bicho e gente passando fome[2].

É quase certo que o vaqueiro Chico Inácio estivesse vestido dessa forma no dia do acidente. Fonte: Arquivo Nacional.

Por volta das duas da tarde o tempo se encontrava nublado, friozinho. Certamente o vaqueiro pensou que à noite novas chuvas molhariam a terra e relâmpagos cortariam o firmamento. Foi quando ele escutou o som de motores e viu uma aeronave. Mas, diferente de outros raríssimos aparelhos que ele havia presenciado cruzando os céus por ali, Seu Chico Inácio percebeu que a máquina voadora parecia estar com problemas, pois soltava fumaça e o ronco dos seus motores era estranho. Logo viu aquele negócio despencando para o chão e descobriu que não era apenas chuva que caía dos céus.

A máquina bateu com força no solo, em um ponto já nas terras do Dr. Juvenal, não muito longe de onde ele se encontrava. Para seu espanto, uma grande bola de fogo surgiu, seguida de uma fumaça bem preta que marcou o local do impacto e se elevou a grande altura. Prontamente o vaqueiro esporeou seu animal e seguiu para o lugar do desastre.

Área da queda do Catalina da US Navy. Foto: Aílton Freitas.

O que Seu Chico Inácio viu certamente foi muito marcante em sua existência, pois os que o conheceram em vida guardaram na memória a narrativa bem detalhada que ele fez do triste espetáculo.

A máquina aérea tinha aberto um amplo buraco no chão. Tudo ao redor estava queimado, completamente calcinado. Pedaços de metal retorcido se espalhavam por toda a parte, junto com papéis e roupas que saíam de bolsas de viagem abertas pelo impacto. Mas o pior foi ver que aqui e ali apareciam pedaços de corpos humanos mutilados e queimados e sentir o forte cheiro de carne queimada. De uma árvore pendia um corpo sem a cabeça, de outra só a parte superior do tronco era visível, noutro canto uma parte de uma perna. Uma verdadeira tristeza.

O hidroavião caiu em uma região próximo onde anos depois foi construído um açude, que é conhecido até hoje como “Açude do Avião” . Foto: Aílton Freitas.

 Não sabemos, mas é provável que Seu Chico Inácio tenha se perguntado interiormente de onde vinha aquela máquina e quem eram aqueles pobres filhos de Deus que encontraram o fim de sua existência de maneira tão terrível e violenta.

Do Alasca para Belém

Para respondermos a essa pergunta, temos de lembrar que quase três anos antes, após o ataque japonês às ilhas havaianas em 7 de dezembro de 1941, os nipônicos passaram a realizar ataques coordenadamente em vários pontos no território asiático e no extenso Oceano Pacífico. Logo são dominados a Malásia, Hong Kong, Birmânia (atual Mianmar), Filipinas, Singapura e outros locais. Entre dezembro de 1941 e junho de 1942 várias foram as vitórias japonesas e eles mantiveram a iniciativa do confronto até a grande batalha aeronaval de Midway. Ocorrida entre os dias 4 e 7 de junho, esse combate resultou em uma grande derrota para o Japão, com quatro porta-aviões dessa nação afundados pela Marinha dos Estados Unidos. Mas um ponto pouco conhecido e ligado a essa batalha foi o envio de uma força naval japonesa para as Ilhas Aleutas, no Alasca, em 3 de junho. Essas ilhas frias e sem árvores se erguem do Oceano Pacífico como pontos rochosos em um mundo de cinza, sendo cumes de uma cordilheira vulcânica submersa, formando um extenso e estratégico arquipélago em forma de arco, verdadeira extensão do gelado território do Alasca que adentra o Pacífico. O objetivo nipônico ao invadir esse gélido local era tentar atrair as forças militares americanas que se concentravam na região da Ilha Midway e dividir a Frota dos Estados Unidos do Pacífico. Os nipônicos atacaram as Aleutas bombardeando a base de Dutch Harbor e capturando as Ilhas de Attu e Kiska. Entretanto, essa ação diversionista japonesa não surtiu o efeito desejado.

Um avião norte-americano C-47 pousado em Attu, Ilhas Aleutas, Alasca. Fonte: National Archives and Records Administration – NARA ,

Somente onze meses depois, em 11 de maio de 1943, as forças militares americanas iniciaram uma operação para recapturar Attu. Entre as forças de apoio a esta invasão estava um esquadrão aéreo da Marinha americana, batizado como VP-45. Este havia sido criado meses antes e contava como força de combate seis hidroaviões Consolidated PBY-5 Catalina.

Após a total reconquista de Attu, o VP-45 recebeu diretamente da fábrica da Consolidated mais seis PBY-5 e continuou atuando na região realizando principalmente patrulhas marítimas.

Em 10 de julho de 1943, quatro Catalinas desse esquadrão decolaram de Attu e seguiram em direção ao Japão, onde o grupo realizou um bombardeio noturno à Ilha de Paramushiru, a segunda maior ilha do arquipélago das Ilhas Curilas, ao norte do território metropolitano japonês e hoje ocupado pelos russos.

PBY-5 Catalina do VP-45 na base de Attu, Alasca. Fonte:National Archives and Records Administration –NARA

Para alguns pesquisadores americanos, essa ação colocaria o VP-45 como o primeiro esquadrão da Marinha dos Estados Unidos a atacar diretamente o território das ilhas japonesas. Mas existem controvérsias sobre essa missão, pois as bombas foram lançadas à noite através do uso do radar, com tempo nublado e resultados desconhecidos.

Logo após o Ano Novo de 1944, mais precisamente no dia 3 de janeiro, o esquadrão recebeu o capitão Calder Atkinson como seu novo comandante. Este era um jovem de 29 anos, nascido na cidade de Wilmington, no estado da Carolina do Norte, que estudou na New Hanover High School e se formou em Engenharia Mecânica em 1936 na Universidade da Carolina do Norte (UNC), em Chapel Hill. O comandante Atkinson então recebeu ordens de partir da gélida Ilha Attu com seus hidroaviões e suas tripulações em direção aos Estados Unidos a partir de março de 1944. Receberam doze novos hidroaviões Catalina do modelo PBY-5A e passaram algum tempo treinando e patrulhando as águas da Flórida. Em 29 de abril de 1944, novas ordens informavam a transferência do VP-45 para a caliente Belém, no estado do Pará, Brasil.

PBY-5 Catalina em zona tropical. Fonte:National Archives and Records Administration –NARA

Por essa época, a ação dos submarinos nazistas na costa brasileira e no Atlântico Sul era já bem reduzida. Iam longe os chamados “Dias Felizes”, quando as tripulações dos submersíveis alemães haviam implantado o terror, a morte e a destruição nas rotas de navios cargueiros Aliados com ações bélicas verdadeiramente tenazes e audaciosas. Mas a guerra ainda continuava e os militares americanos tinham uma missão a cumprir. Para melhor cobrir sua área de patrulha antissubmarino, o comandante Atkinson deslocou Catalinas do VP-45 para destacamentos avançados no Amapá e em São Luiz, Maranhão.

Calder Atkinson, comandante do VP-45 no Brasil. Aqui em uma foto antes do início da segunda Guerra.

No Brasil, o comandante Atkinson está sob o controle operacional da Fleet Air Wing 16(FAW-16), unidade que comandava as operações aéreas da Four Fleet, a chamada 4ª Frota da Marinha dos Estados Unidos operando no Atlântico Sul. Em nosso país essas organizações militares americanas tinham sede em Recife, estavam sob o comando do almirante Jonas Howard Ingram e trabalhavam em conjunto com a Marinha do Brasil para a proteção das nossas costas e do tráfego comercial marítimo.

Símbolo, ou “bolacha”, do VP-45 durante a Segunda Guerra Mundial. Fonte: Jornal local não identificado.

Onze dias após a chegada ao nosso país, às sete da manhã do dia 10 de maio, vamos encontrar o comandante Calder Atkinson sentado na cabine de comando de um PBY-5A, preparando-se para decolar do Campo de Val de Cans com destino a Recife. Atkinson e sua equipe deveriam se apresentar ao comandante da FAW-16, Rossmore D. Lyon, e obter material necessário para o bom funcionamento do seu esquadrão. Era apenas um voo administrativo, no qual além do comandante Atkinson estavam a bordo outros nove militares, entre estes dois oficiais fuzileiros navais. Aparentemente seu copiloto era o tenente John Weaver Shoyer, de Wynnewood, Filadélfia, que havia sido executivo de uma companhia de seguros e se alistou em junho de 1942.

O “Draft”, ou ficha de alistamento do tenente John Weaver Shoyer. Fonte:National Archives and Records Administration –NARA

O voo decolou normalmente e seguiu sem maiores alterações até Fortaleza. Ao meio-dia e cinquenta e dois minutos passou por um ponto a cerca de dezesseis quilômetros a oeste da capital cearense, onde manteve um último contato. Neste momento foi relatado pelo Catalina do VP-45 que as condições meteorológicas eram de chuvas, muitas nuvens e ventos fortes.

Então o hidroavião do comandante Calder Atkinson sumiu!

No outro dia, logo pela manhã, decolaram de Belém três Catalinas do VP-45, comandados pelos tenentes R. A. Evans, R. F. Watts e J. D. Logan, que iniciaram buscas aéreas, refazendo o mesmo plano de voo anteriormente definido pelo comandante Atkinson. Voaram todo o dia, mas o resultado foi negativo. Aviões da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos participaram das buscas, mas o resultado foi igualmente infrutífero.

Desenho de um PBY-5 Catalina do VP-52. Fonte: http://wp.scn.ru

Somente no outro dia chegou ao conhecimento dos americanos do VP-45 que os restos do avião do comandante Atkinson se encontravam em um local a cerca de oitenta quilômetros a oeste de Natal.

Corpos no carro de bois

Através do inestimável apoio da Prefeitura Municipal de Riachuelo, na pessoa de Ailton de Freitas Macedo, Secretário de Administração local, que prontamente percorreu os locais envolvendo essa história e apresentou os guardiões da memória de sua comunidade, conheci José Lourenço Filho. Prestes há completar 90 anos, o seridoense de Florânia e ex-vaqueiro nunca se esqueceu daquela tarde de 10 de maio de 1944, quando ele estava junto com seu pai na sede da fazenda Lagoa Nova.

Rostand Medeiros, José Lourenço e Aírton Freitas, Secretário de Administração de Riachuelo e grande batalhador pela história de sua comunidade – Foto: José Correia Torres Neto.

Seu José Lourenço, como todos os conhecem na cidade potiguar de Riachuelo, fala com emoção da Lagoa Nova, onde seu pai, José Lourenço da Silva, era trabalhador e homem de confiança do Dr. Juvenal Lamartine. Ele havia sido responsável pela construção da anteriormente imponente casa grande dessa propriedade e do enorme açude que ainda existe por lá.

A antes suntuosa fazenda Lagoa Nova havia pertencido ao médico e ex-deputado estadual José Calistrato Carrilho de Vasconcelos, bem como a propriedade vizinha, denominada Quintururé. Anos depois da morte do Dr. Calistrato, ocorrida em 22 de outubro de 1930, as duas fazendas foram adquiridas por Juvenal Lamartine, que as uniu sob a denominação de Lagoa Nova e a transformou em um dos maiores latifúndios existentes em terras potiguares. Em 1948, além dos seus pretensos 11 mil hectares, a fazenda Lagoa Nova possuía seis açudes, 18 casas de tijolos e 34 de taipa para os trabalhadores rurais e seus familiares, e sua grande casa grande tinha dois pavimentos e uma piscina com 24 metros. Os moradores trabalhavam com gado e principalmente com algodão, que era beneficiado em uma usina equipada com uma caldeira e um motor de 80 H.P. Existia igualmente uma casa de beneficiamento de farinha de mandioca[3].

Antiga sede da Fazenda Lagoa Nova, que pertenceu ao ex-governador potiguar Juvenal Lamartine . Foto: José Correia Torres Neto.

No dia do inusitado acontecimento, Seu José Lourenço, então com 15 anos de idade, estava próximo à casa grande quando escutou o ruído de motores, olhou para o céu e viu uma aeronave que seguia aparentemente no rumo de Natal. Não era comum ver aviões sobrevoando a sua região, mas o jovem logo suspeitou que aquele aparelho que passava devia ser usado na guerra, nos combates que aconteciam no mar. Seu José Lourenço não sabia o porquê dessa briga, mas sabia que o Brasil estava em guerra contra os alemães de Hitler, pois eles haviam afundado vários navios brasileiros e provocado a morte de muitas pessoas. Sabia também que na capital potiguar os americanos, amigos dos brasileiros, estavam construindo uma grande base para aviões e gastando muito dinheiro nessa atividade. Ele até conhecia gente que tinha ido trabalhar nessas construções, principalmente durante a última seca de 1942 e 43.

Foi quando viu aquela aeronave começar subitamente a cair. Na sequência, ele e todos que se encontravam na sede da Lagoa Nova escutaram um barulho abafado e distante e logo uma nuvem negra se elevou no horizonte para os lados da comunidade rural de Riacho dos Paus. O jovem e outras pessoas que lá se encontravam se agitaram para ir ver onde ocorreu o acidente, mas seu pai lhe proibiu de seguir para o local. Obedientemente, Seu Lourenço acatou a ordem do genitor. Seu pai foi ao local e voltou triste com o que viu, narrando que os corpos ficaram despedaçados e queimados[4].

Local da queda do Catalina, entre os municípios potiguares de Riachuelo e Bento Fernandes, a cerca de 80 km de Natal. Fonte: Divisão de Cartografia do Exército Brasileiro.

Em maio de 1944, a maior localidade existente nas proximidades do local do desastre é a atual cidade de Riachuelo, na época um povoado pertencente a São Gonçalo do Amarante. Nesse tempo havia cerca de 120 famílias no lugarejo e uma pessoa chamada Chico Bilro, que vendia pão entre os povoados da região, foi o primeiro a trazer a notícia da queda de um avião nas matas da Lagoa Nova[5].

Muita gente começou a aparecer no local e um vaqueiro chamado Olintho Ignácio, que trabalhava para o Dr. Juvenal e era uma pessoa muito ligada a seu filho, Oswaldo Lamartine de Faria, tomou a iniciativa de recolher as mãos dos aviadores mortos para saber quantas pessoas tinham dentro daquele negócio todo queimado e destroçado no meio da caatinga. Como  os pedaços dos corpos estavam com suas cabeças mutiladas, era difícil para eles saberem com exatidão quantos ali pereceram. No primeiro momento o vaqueiro juntou 18 mãos e todos imaginaram que ali era o local da morte trágica de nove homens. Consta que Oswaldo Lamartine também estava na fazenda e seguiu a cavalo para o local[6].

Uma colher com símbolo da US Navy, encontrada no local da queda do Catalina. Foto: Charles Franklin de Freitas Gois.

Segundo Seu José Lourenço, no dia seguinte à queda, Olintho e um homem chamado Absalão, morador da fazenda Serra Azul, do agropecuarista Ulisses Medeiros, juntaram os pedaços dos tripulantes e os colocaram em um carro de bois. Oswaldo Lamartine também ajudou nessa complicada tarefa. O condutor então tocou seus animais com o que sobrou dos americanos para serem enterrados no pequeno cemitério de Riachuelo. Absalão levou todo um dia tangendo seus animais por uma simples vereda que cortava a caatinga, em meio ao ranger das rodas do seu tradicional veículo e ao cheiro de decomposição de corpos humanos. O escritor José Cândido Vasconcelos, autor do livro História de Riachuelo – Sabença do povo, informou que em 1944 era criança na pequena localidade de apenas uma rua. Foi por essa via que Absalão passou por volta das oito da noite, a hora conhecida pelos sertanejos como “Boca da noite”, com a sua lúgubre carga, chamando atenção de todos e deixando no ar o registro da terrível morte daqueles homens. Consta que Absalão passou a noite enterrando os restos dos americanos em uma vala comum.

O Sr. Daniel A. Stewart , do Consulado Geral dos Estados Unidos em Recife, visitando o Cemitério Municipal de Riachuelo e o local onde os restos mortais dos aviadores da US Army ficaram enterrados. Foto: Charles Franklin de Freitas Gois. 

Alumínio, anéis, panos, dólares e memória

Diante do fato consumado e certamente premidos pela ignorância gerada pelo analfabetismo reinante e a pobreza de dois anos de seca braba, várias pessoas passaram a levar dos restos do Catalina VP-45 todo tipo de objeto que tinha alguma utilidade.

Em seu interessante livro, José Cândido Vasconcelos informou que até mesmo as janelas que recobriam a cabine e as bolhas de observação nas laterais da aeronave, feitas de um material chamado “Plexiglass”, se transformaram em anéis que as mulheres pobres da região ostentavam. Outros pegaram nas várias bolsas de viagem muitas fardas militares e logo estas se transformaram em peças de vestuários dos sertanejos. Ficaram conhecidas como as roupas feitas com os “Panos do avião”. Sobre isso Seu José Lourenço comentou que os tecidos eram da mesma cor cáqui utilizada nos uniformes da Força Pública do Estado na época, mas feitos de um material de muito melhor qualidade. O autor Cândido Vasconcelos informou que o Dr. Juvenal enviou homens de sua confiança para guardar o que sobrou da aeronave, mas quando estes chegaram ao local pouco havia de valor para ser levado.

Documento original da US Navy sobre o acidente e a lista dos falecidos. Fonte: National Archives and Records Administration – NARA

Artesãos locais utilizando suas destrezas criaram cabos de peixeiras e coronhas de espingardas do tipo “Bate bucha” revestidas de alumínio, materiais que eles não tinham praticamente acesso na época. Seu José Lourenço Filho me narrou que o alumínio do Catalina foi de muita utilidade para seu pai, pois ele confeccionou várias fichas de contagem de cargas com esse material. Nosso entrevistado lembrou que naquele tempo, antes dos tratores de terraplanagem se espalharem pelos sertões, os jumentos eram primordiais na construção dos açudes, onde eram utilizados muitos desses animais. Funcionava assim: os donos dos jumentos retiravam das proximidades materiais como areia, barro ou pedras, e estes eram transportados em seus animais até a parede da barragem. Após despejarem a carga, eles recebiam fichas por cada viagem realizada, que eram trocadas por dinheiro no final da jornada de trabalho. Ficaram conhecidas como “As fichas do avião”[7].

O interessante livro de José Cândido de Cavalcante sobre a história de Riachuelo e com muitas informações relacionados com o acidente de 1944. Foto: José Correia Torres Neto.

Além das fardas e outros materiais, constam na tradição oral de Riachuelo muitas histórias e lendas de dinheiro estrangeiro recuperado nos restos calcinados do Catalina. Narrações que vão falam de caixas com grande numerário em dólares, e os descobridores dessa grana, ricos do dia para a noite, desapareceram da região sem deixar rastro. Outros teriam encontrado o dinheiro dos americanos, deslocaram-se até Natal para trocar por cruzeiros, mas foram enganados e ficaram sem nada. Um dos que teriam enriquecido subitamente foi o vaqueiro Chico Inácio, o primeiro que chegou ao local.

Eu acredito que uma parte dessa história não tem o menor fundamento, pois como o comandante Calder Atkinson seguia com seus homens para a sede da FAW–16 em Recife, se essa pretensa grana existiu mesmo, é mais fácil acreditar que ela estaria no Catalina no retorno a Belém, quem sabe para pagamento de pessoal. Mas parece existir algo de real na passagem da história da queda do Catalina do VP-45 no agreste potiguar.

Entrevista com o Sr. Francisco de Assis Teixeira. Foto: José Correia Torres Neto .

O Senhor Francisco de Assis Teixeira, mais conhecido como “Seu Til”, nasceu no Seridó em 1936 e chegou à região de Riachuelo com vinte anos de idade, onde soube através do relato de várias pessoas dos acontecimentos nas proximidades da localidade de Riacho dos Paus em 1944. Conviveu com Chico Inácio e me afirmou que se ele realmente pegou os dólares pretensamente existentes nos restos da aeronave não fez nada com esse dinheiro, pois sempre o conheceu como um homem pobre e de poucos recursos, mesmo sendo proprietário de uma pequena terrinha. Comentou, entretanto, que muitas pessoas que viviam próximas da área da queda do Catalina falaram sobre um tal de Zé Lajeiro, pobre trabalhador rural que sumiu dias após o desastre e se especulou que ele teria levado os “dólares do avião”.

Chama atenção como, mesmo desconhecendo completamente muitos aspectos do caso, a história da queda deste Catalina se preservou em Riachuelo, inclusive entre os mais jovens.

Colhendo informações sobre o episódio de 1944 na localidade de Riacho dos Paus. Foto: José Correia Torres Neto

Interessantes são as referências que consegui sobre o caso – tudo relacionado à tragédia de 10 de maio de 1944 é apontado como sendo “do avião”. Nos dias atuais a pequena comunidade rural de Riacho dos Paus não possui mais do que 40 casas, uma escolinha e uma pequena capela no meio de sua única rua. Pertence administrativamente ao município de Santa Maria, mas devido à distância, os muitos problemas da pequena comunidade são resolvidos mesmo na cidade de Bento Fernandes. Lá soubemos que o local da queda do Consolidated PBY-5A Catalina fica a cerca de dois quilômetros a sudeste de Riacho dos Paus, onde o buraco criado pelo impacto é conhecido como “Baixa do avião”. Anos depois, próximo ao local do sinistro, foi criado um açude que é conhecido como “Açude do avião”.

Uma “Dog tag” é encontrada

No seu livro, José Cândido Vasconcelos comentou que na manhã de um domingo, dois meses depois do desastre, chegaram à pequena Riachuelo dois caminhões militares com vários homens. Todos foram até a casa do Senhor João Basílio, liderança do lugarejo, e lhe pediram ajuda para indicar alguém que pudesse retirar os corpos dos americanos para serem transportados a Natal e sepultados no Cemitério do Alecrim, local onde eram enterrados todos os militares americanos que morreram em solo potiguar. Para a difícil faina foram chamados Severino Grande e Antônio Sabino, que realizaram a tarefa e receberam uma boa paga pelo serviço, como me confirmou o Senhor Francisco de Assis Teixeira, amigo de Severino.

Foto do Diário de Pernambuco de 1945, onde vemos na parte mais abaixo a lápide que existiu no Cemitério do Alecrim, em Natal, onde os dez mortos do Catalina que caiu próximo a Riachuelo ficaram enterrados até 1947, antes de serem transladados para os Estados Unidos. O caso do major Artur Mills comentado na nota foi publicado anteriormente no blog TOK DE HISTÓRIA. Veja neste link – https://tokdehistoria.com.br/2017/03/31/1943-um-dia-diferente-em-ponta-negra/

Cruzando esta informação com os documentos originais produzidos na época pelo pessoal do VP-52, da Marinha dos Estados Unidos, sabemos que o tenente R. A. Evans esteve em Riachuelo. Certamente foi ele quem pagou aos coveiros e, conforme relatou Oswaldo Lamartine, deve ter sido esse oficial que foi ao local do desastre. Ali Evans ordenou a queima de alguns papéis que encontrou, bem como restos de roupas, e mandou dinamitar os dois motores do Catalina. Nem o tenente R. A. Evans e nem os relatórios da Marinha americana apontaram as causas da queda do hidroavião.

Segundo nos conta Oswaldo Lamartine no livro Alpendres d’ Acauã, organizado pela falecida escritora cearense Natércia Campos, os americanos lhe presentearam com a sucata da aeronave, que ele vendeu ao comerciante Joaquim Guilherme, conhecido como Joquinha. Oswaldo Lamartine aparentemente conseguiu um bom lucro com os restos da aeronave, pois afirmou que com esse dinheiro teve condições de se casar[8].

Quando ocorreu a visita dos membros do Consulado dos Estados Unidos de Recife a cidade de Riachuelo em maio de 2019. Da esquerda para a direita vemos os Srs. Stuart Alan Beechler e Daniel A. Stewart , do Consulado Geral dos Estados Unidos em Recife, seguido de Rostand Medeiros , escrito e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e o Capitão de Mar e Guerra Fuzileiro Naval (R.R.) Edison Nonato de Faria. Foto: Charles Franklin de Freitas Gois. 

Ainda em seu depoimento Oswaldo Lamartine informou que se houve alguém que realmente encontrou algo mais sobre esse episódio foi seu amigo Olintho Ignácio.

Consta que alguns dias após a ocorrência o respeitado e querido vaqueiro se deparou com mais uma mão, elevando o total de mortos no desastre para dez aviadores. Além da mão inchada e apodrecida, Olintho encontrou uma plaquetinha de alumínio que era utilizada pelos militares americanos para identificar o seu proprietário e era conhecida como “Dog tag”. Era um material muito útil para casos como o do acidente do Catalina nas proximidades de Riachuelo.

O vaqueiro entregou o achado a Oswaldo Lamartine. Estava escrito na placa de identificação “Calder Atkinson 77858 – BT – 1 – 25 – 43 USN”. Esse insigne escritor e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras a quem tive a honra de entrevistar antes de sua morte guardou com cuidado durante décadas a preciosa “Dog tag”.

Um reencontro nos Estados Unidos

Tal como foram enterrados em Riachuelo e Natal, a tripulação do Catalina se encontram todos reunidos na ilha de Rock Island, no Rock Island County National Cemetery, Moline, Illinois, centro-oeste dos Estados Unidos. Créditos – Facebook.

Enquanto tudo isso acontecia, após o acidente do Catalina assumiu administrativamente o VP-52 o comandante H. B. Scott. Em outubro de 1944 esse esquadrão teve a sua designação alterada para VPB-45 e continuou desempenhando suas atividades no Brasil, atuando em outras bases aéreas até o dia 22 de maio de 1945, quando retornaram para os Estados Unidos. Durante a permanência desse grupo em nosso país outros dois Catalinas foram perdidos em patrulhas marítimas e seus integrantes não conseguiram afundar nenhum submarino inimigo durante a Segunda Guerra Mundial.

Em 11 de abril de 1947 um navio especial do Exército dos Estados Unidos aportou em Natal, na chamada “Operação Glória”, quando foi realizada a transferência de 214 restos mortais de militares americanos enterrados em solo potiguar, entre esses os dez mortos no acidente de 10 de maio de 1944.

Em 10 de maio de 2019, ocorreu em Riachuelo o descerramento de uma placa em memória dos aviadores do Catalina mortos e do gesto honrado dos habitantes da pequena comunidade em enterrar os norte-americanos. O evento contou com a presença do Sr. John Barrett, Cônsul Geral dos Estados Unidos em Recife. Foto: Rostand Medeiros.

Na atualidade o comandante Calder Atkinson se encontra sepultado junto com toda sua tripulação no Rock Island County National Cemetery, em Rock Island, uma ilha no Rio Mississippi pertencente administrativamente à cidade de Moline, no estado de Illinois, centro-oeste dos Estados Unidos.

E esse poderia ser o ponto final dessa história, não fosse a plaquinha descoberta pelo vaqueiro Olintho Ignácio, pois com o passar dos anos a história foi sendo esquecida em certos círculos, mas não em Riachuelo.

O Cônsul John Barrett e a Prefeita de Riachuelo, a Sra. Mara Cavalcanti, descerrando a placa. Foto: Gersonny Silva.

Certa vez, não me lembro se foi através das páginas de um jornal, artigo de algum livro ou entrevista a alguma emissora de TV de Natal, que Oswaldo Lamartine comentou que o avião que caiu na propriedade de seu pai seria uma mítica. B-17, a conhecida “Fortaleza Voadora”. Creio que esse erro se deveu ao fato do número de mortos no acidente de 10 de maio de 1944 ser idêntico ao número de homens que compunham a tripulação do mais famoso bombardeiro quadrimotor dos Estados Unidos na Segunda Guerra. 

O Cônsul John Barrett conhecendo o Srt. José Lourenço. Foto: Gersonny Silva.

Mas se por acaso Oswaldo Lamartine possuía dúvidas sobre os fatos envolvendo esse caso, certamente elas se encerraram no primeiro ano do novo milênio.

Em 28 de fevereiro de 2000, Rômulo Peixoto Figueiredo, oficial da reserva da Força Aérea Brasileira e pesquisador da Segunda Guerra Mundial, enviou um e-mail para a associação de veteranos do VP-45. Ele explicou que tinha em sua posse a cópia de uma carta do então comandante americano do Campo de Parnamirim, datada de 8 de junho de 1944, em que ele agradecia às pessoas da fazenda Lagoa Nova que ajudaram no apoio aos mortos do acidente.  Rômulo informou que a carta foi enviada pelo comandante americano para um parente de sua esposa, Oswaldo Lamartine, que estava vivo em 2000 e tinha sob sua guarda uma das placas com marcas de identificação do comandante Calder Atkinson. Rômulo Peixoto, falecido em julho de 2013, desejava saber se o pessoal da associação poderia fornecer mais detalhes do ocorrido[9].

O evento contou com o apoio do 3º Distrito Naval, que enviou uma guarnição de oficiais e praças da Marinha do Brasil.

O oficial da reserva da FAB continuou o contato com a associação e, com a anuência de Oswaldo, enviou a plaquinha para que os membros desse grupo encontrassem algum parente sobrevivente do comandante nos Estados Unidos. Prontamente Thomas V. Golder, então  presidente da associação de veteranos do VP-45, enviou a Oswaldo Lamartine de Faria um certificado de agradecimento pelo seu empenho em relação ao resgate da memória do antigo comandante do esquadrão.

Outra presença marcante no evento foi a da Banda de Fuzileiros Navais.

Descobriram que antes de participar do conflito, o comandante Calder Atkinson se casara, mas a pesquisa mostrou que a viúva também falecera e não havia filhos vivos dessa relação. Tudo terminava em um beco sem saída. Então várias instituições civis e militares ligadas à memória dos veteranos de guerra daquele país participaram das buscas. Finalmente, depois de seis meses de trabalho árduo, descobriu-se que o comandante Atkinson era filho de Willian Mayo e Mary Fullerton Atkinson e tinha um irmão chamado Willian Mayo Atkinson Junior. Foi por meio dos descendentes do seu irmão que os membros da associação de veteranos do VP-45 descobriram que Charles Caldwell, um oficial naval da reserva da Marinha americana que vive na Califórnia, era sobrinho do comandante Atkinson.

No dia 13 de agosto de 2002, uma segunda-feira, quase 60 anos após a sua morte nas caatingas da fazenda Lagoa Nova, o comandante Calder Atkinson teve uma espécie de regresso à sua casa.

Nesse dia amigos e familiares se reuniram no cemitério de Oakdale, em Wilmington, sua cidade natal, na Carolina do Norte. Consta que seus familiares imaginavam, devido à falta de informações na época sobre a morte de Atkinson, que ele tinha perecido em um tipo de voo de espionagem, ou alguma missão secreta. Foi com certo alívio que descobriram que sua morte foi em um voo administrativo, para cumprir as funções de seu novo comando. Mesmo sem os restos mortais, uma lápide foi colocada no local com o propósito de homenagear o piloto. Margaret Segal-Atkinson veio da Suíça para homenagear o tio que conheceu muito jovem, bem como vários amigos que foram seus contemporâneos na escola secundária e na universidade[10].

A Prefeita Mara e o Cônsul Barret.

E toda essa reunião só ocorreu nos Estados Unidos porque um típico vaqueiro nordestino, que morreu de catapora em 1946, encontrou e entregou essa plaqueta de identificação a um dos mais sábios homens de letras que o Rio Grande do Norte já produziu. Este, por sua vez, preservou o achado e no momento certo entregou o material histórico a um antigo oficial da FAB, que, utilizando dos modernos recursos da internet, fez a placa de identificação chegar aos familiares do comandante Calder Atkinson.

A TRIPULAÇÃO DO CATALINA DO VP-45 QUE FALECERAM NO AGRESTE POTIGUAR EM 10- DE MAIO DE 1944

Lieutnant Commander (LCdr) Calder Atkinson, U.S. Navy, no. 75585. Berkeley, Califórnia.

Lieutenant (jg) John Prescott Shaw, A-V (N), U.S.N. Reserve, file no. 157283. Bristol, Rhode Island.

Ensign Phillip Bernard Merriane, A-V (S), U.S.N. Reserve, file no. 299793. Kansas CityKansas. 

Lieutenant John Weaver Shoyer SC-V (S), U.S.N. Reserve, file no.179684. DevonPennsylvania.

Lieutenant (jg) James Alexander Thompson, SC-V (S), U.S.N. Reserve, file no.247681. Hyattsville, Maryland.

Ezra Clyde Wagner, AMM3c, U.S. Navy, Serial No. 376 67 49. Hayward, Califórnia.

Arthur John Ford, AMM2c, U.S. Navy, Serial No. 244 23 79. Chester, Pennsylvania.

Ben L. Davis, AOM3c, V-6, U.S.N. Reserve, Serial No. 671 53 24. Oklahoma City, Oklahoma.

Vernon Clayton Beck, ARM2c, V-6, U.S.N. Reserve, Serial No. 622 75 53. Napoleon, Ohio.

Robert Irvin Joy, ARM3c, V-6, U.S.N. Reserve, Serial No. 305 73 24. BeloitWisconsin.


NOTAS

[1] Sobre a personalidade e características pessoais do produtor Francisco Inácio, já falecido, elas nos foram transmitidas pelas pessoas da região entrevistadas durante nossa pesquisa para criação deste capítulo em agosto de 2018, quando estive na região com o amigo José Correia Torres Neto, editor deste livro.

[2] Provavelmente Seu Chico Inácio não sabiamas naquela segunda semana de maio de 1944 as chuvas eram abundantes em toda a Região Nordeste do Brasil. Em Recife, desde a segunda-feira, 7 de maio, grandes chuvaradas dificultaram o tráfego de bondes e de veículos de praça, provocaram atoleiros nas ruas da cidade, muitas lojas do comércio não abriram e o açude de Apipucos, conhecido como Porta D’água, arrombou, causando estragos. Já em Natal as chuvas não foram tão intensas como na capital pernambucana, mas foram suficientes para adiar a tradicional festa religiosa da Santa Cruz da Bica, no Baldo, e o jogo de basquete entre o América F.C. e o Alecrim F.C., que participavam do “Campeonato Relâmpago de Basquetebol”. Este jogo deveria ter sido realizado na quadra aberta e iluminada que existia na Praça Pedro Velho e teria como cronometrista oficial Djalma Maranhão, futuro prefeito de Natal. Sobre as chuvas que ocorriam na segunda semana de maio no Nordeste, ver o Diário de Pernambuco, Recife.

[3] Ver os jornais A Republica, Natal-RN, edição de 23 de outubro de 1930, pág. 4, e A Ordem, Natal-RN, edição de 24 de abril de 1948, pág. 4.

[4] Em 1998, grande parte da antiga fazenda Lagoa Nova transformou-se em um assentamento da reforma agrária. Recebi a informação que nesse ano a propriedade teria então mais de 200 casas de moradores.

[5] Ver o livro História de Riachuelo – Sabença do povo, de José Cândido Vasconcelos (Edição do autor, Natal, 2008, pág. 153). Esse interessante trabalho possui várias informações sobre o episódio. 

[6] Ver Alpendres d’ Acauã: Uma conversa com Oswaldo Lamartine. Páginas 47 e 48. Fortaleza: Imprensa Universitária/UFC; Natal: Fundação José Augusto, 2001.

[7] Segundo Aílton de Freitas Macedo, atual Secretário de Administração da Prefeitura de Riachuelo e que muito me ajudou nessa pesquisa, o açude Lagoa Nova é considerado o primeiro grande açude particular construído no Rio Grande do Norte.

[8] Existe uma discrepância entre os relatos de Oswaldo Lamartine de Faria e José Cândido Vasconcelos, pois o primeiro afirma que os americanos estiveram na região de Riachuelo dois dias após o desastre e o segundo dois meses depois do acidente.

[9] Sobre os contatos de Rômulo Peixoto Figueiredo junto à associação dos veteranos do VP-52, ver o livro de Douglas E. CampbellVP Navy! USN, USMC, USCG and NATS Patrol Aircraft Lost or Damaged During World War II, páginas 255 e 256. Edição Syneca Research Group Inc., 642 páginas, 2018.

[10] Sobre o encontro da família Atkinson em 2002, ocorrido na Carolina do Norte, veja http://www.starnewsonline.com/news/20020813/a-surprise-from-the-past-gives-a-wwii-officers-friends-and-family-another-chance-to-say-goodbye.

A GUERRA NO SERTÃO E O NOVO CANGAÇO: 86 MORTOS EM 15 BATALHAS ENTRE POLICIAIS E QUADRILHAS

Ciosac, atual Bepi: inspiração nas volantes que combateram o cangaço para enfrentar criminalidade no Sertão pernambucano – Foto: Rafael Furtado/ Folha de Pernambuco

Utilizando o levantamento realizado pelo Portal OP9, vemos uma verdadeira guerra entre policiais e assaltantes de bancos no Nordeste deixou rastro de quase 90 mortes, sendo 79 suspeitos, seis inocentes e um policial.

Fonte primária – https://www.op9.com.br/ne/noticias/novo-cangaco-86-mortos-em-14-batalhas-entre-policia-e-quadrilhas/

Fonte secundária – https://paraibaonline.com.br/2019/07/oito-envolvidos-em-assalto-sao-assassinados-no-cariri-da-paraiba-veja-imagens/

Utilizar o termo “Novo Cangaço”, como vem sendo chamado o fenômeno dos grupos criminosos fortemente armados que atacam instituições financeiras e comerciais, quase nada tem haver com o Cangaço dos tempos de Lampião. Talvez a imprensa nordestina utilize em abundância esse termo para buscar uma referência que possa enquadrar, classificar essa violência atual. Mas é uma referência que acredito ser muito pouco utilizável quando observamos o que foi o Cangaço e o que é essa bandidagem dos dias atuais. Não vejo nenhuma ligação mais expressiva, com exceção de uma coisa que para mim é bem clara – O medo que esses meliantes criam na população sertaneja, tal como acontecia na época dos cangaceiros.

E o medo é real, presente, forte e cada vez mais violento. Com certos aspectos, equipamentos, armas e números que não me fazem lembrar o combate aos cangaceiros que ocorria em tempos passados, mas algo mais próximo de uma conflagração. A situação atual é muito pior!

Talvez seja exagero de minha parte, mas tendo como base o interessante material produzido pelo Portal OP9, do Grupo Opinião de Comunicação, onde são apontados a morte de pelo menos 79 suspeitos de participação em quadrilhas de assaltos a bancos, carros-fortes e comércios, em confrontações contra forças policiais em cidades do interior do Nordeste desde setembro de 2017. O levantamento do Portal OP9 contabilizou 15 ocorrências fatais envolvendo policiais e integrantes desse chamado “Novo Cangaço”.

Seis pessoas inocentes e um soldado da PM também foram vítimas fatais da guerra contra os assaltantes.  Do total de mortes, 55 foram registradas entre 2017 e 2018, e 31 em 2019.

O último e sangrento episódio dessa verdadeira guerra ocorreu em 2 de julho de 2019, uma terça-feira, quando uma quadrilha formada por oito pessoas foram mortos durante operação conjunta das polícias militares de Pernambuco e da Paraíba.

De acordo com as autoridades o grupo era composto por seis homens, um deles um adolescente de 17 anos, e duas mulheres e faziam parte de um bando armado especializado em investidas contra bancos e comércios.

Uma parte do grupo era formada por suspeitos da participação de assaltos contra um mercadinho e uma casa lotérica na cidade pernambucana Santa Cruz do Capibaribe e do assassinato do policial militar André José da Silva. Fatos esses ocorridos na segunda-feira (1º). Já outra parte das pessoas envolvidas no caso tentava realizar o resgate dos comparsas na região. Ainda segundo as autoridades alguns integrantes desse grupo eram pessoas de uma mesma família e havia igualmente a viúva de um assaltante de banco.

Treinamento de policiais no sertão nordestino. Treinamento, capacitação, equipamentos adequados, apoio, valorização do policial, retaguarda tranquila são algumas das ações primordiais para o bom desenvolvimento da atividade – Fonte – https://www.facebook.com/ciosac.noticias/photos/pcb.343799999529916/343796366196946/?type=3&theater

A ação que culminou na morte dessas oito pessoas teve início quando os quatro suspeitos de praticarem os assaltos e o assassinato do policial em Santa Cruz do Capibaribe fugiram e se encontravam escondidos nas terras do Sítio Boi Brabo, localizado no limite entre os municípios de Riacho de Santo Antônio e Barra de São Miguel, ambos na Paraíba, e próximo a fronteira com Pernambuco. Os fugitivos foram localizados por volta das 3h30 pelos serviços de inteligência das policias estaduais, em uma área de matagal.

De acordo com o tenente-coronel Lúcio Flávio de Campos, comandante do 24° Batalhão da Polícia Militar de Pernambuco, quando outros quatro suspeitos chegaram ao local em dois carros para resgatar os demais. Nesse momento os policiais buscaram capturar o grupo, quando foram recebidos a tiros no local e se iniciou o confronto. Segundo o tenente-coronel Lúcio Flávio de Campos tentou-se a rendição, mas “Como já é uma prática desse tipo de criminosos, eles atentaram contra a vida dos policiais. Socorremos feridos para uma unidade de pronto atendimento, mas não resistiram. Eram extremamente perigosos”, afirmou o, comandante do 24° Batalhão da PM.

A Polícia Civil de Pernambuco informou que foram apreendidos com a quadrilha o dinheiro dos assaltos em Santa Cruz do Capibaribe, duas pistolas calibre 380, dois revólveres calibre 38 e uma espingarda de repetição calibre 12, além de munição. 

Viatura policial atingidas por vários disparos de arma de fogo — Foto: WhatsApp/Reprodução – Fonte – https://www.portaldiario.com.br/noticias/policial/425420/oito-suspeitos-de-envolvimento-na-morte-de-pm-sao-mortos-na-paraiba-vereador-faz-parte-do-grupo.html

Um dos mortos na operação foi o vereador da cidade pernambucana de Betânia, Andson Berigue de Lima, conhecido como Nanaca, do Partido Progressista. Ele teria ido resgatar o irmão, conhecido como Galego de Lena, suspeito de participação no crime em Santa Cruz do Capibaribe. Esse era o líder do grupo, formado ainda por um primo desses irmãos, conhecido como Edys de Gevan.

Ainda segundo a Polícia Civil de Pernambuco, além desses três, um dos mortos é um homem conhecido como Wellington Cabeludo, também da cidade de Betânia, e uma mulher identificada apenas como Jácia de Siba, que manteria um relacionamento amoroso com Galego de Lena. Wellington e Galego possuíam mandados de prisão expedidos em ações criminosas contra bancos.

Os corpos de seis homens e duas mulheres foram empilhados na caçamba de uma picape e levados pelos policiais até a UPA de Santa Cruz do Capibaribe. No caminho até a unidade de saúde, a população aplaudiu o comboio com os cadáveres enquanto os PMs respondiam acenando para os moradores. Em tom de desabafo, o comandante do 24º Batalhão chegou a discursar e foi bastante aplaudido. Ele disse que os criminosos reagiram à abordagem e que foram socorridos pelos policiais. Os corpos foram levados ao IML de Caruaru na tarde desta terça-feira (2).

A estratégia policial de atirar para matar vem dando resultados geralmente comemorados pelos secretários de Defesa Social do Nordeste. Também não é a primeira vez que os corpos dos suspeitos são empilhados em caçambas de veículos. Bastante descentralizadas e fortemente armadas, as quadrilhas de assaltos a bancos não costumam atuar no estado de origem, o que dificulta o trabalho de investigação.

Mortes em conflitos entre quadrilhas e policiais no Nordeste:

1 – Entre Janduís e Campo Grande (Rio Grande do Norte) – 03 de setembro de 2017.

As Polícias Militares da Paraíba e do Rio Grande do Norte apreenderam três fuzis, entre eles um AK-47, três espingardas calibre 12, duas pistolas, vários explosivos, sete coletes e dois carros, após um confronto que teve mais de meia hora de intensa troca de tiros, entre as cidades de Janduís e Campo Grande, Oeste do Estado do Rio Grande do Norte. Na ação, quatro criminosos que receberam os policiais a tiros foram baleados, ainda chegaram a ser socorridos pela própria PM, mas não resistiram e morreram. Eles fazem parte da quadrilha responsável por atacar, por volta das 4h40 da manhã, a agência do banco do Bradesco da cidade de Brejo do Cruz, no sertão da Paraíba.

2 – Lagoa Grande (Pernambuco) – 08 de novembro de 2017

Dois integrantes de uma quadrilha de assaltos a bancos e carros-fortes morreram em confronto com policiais da Companhia Independente de Policiamento Especializado na Caatinga (CIPE-Caatinga), da Bahia. Os suspeitos transitavam num veículo e foram interceptados na PE-555, em Lagoa Grande (PE), no Sertão do São Francisco. Durante a troca de tiros, três homens conseguiram fugir. A quadrilha vinha sendo monitorada pela Polícia Federal (PF) e a operação contou também com a participação da CIOSAC, equipe da Polícia Militar pernambucana especializada em combater a criminalidade no sertão.

Armas também foram apreendidas com suspeitos de ataques a bancos no interior de Alagoas — Foto: Ascom/Polícia Civil – Fonte – https://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/operacao-tem-mortes-e-prisoes-de-suspeitos-de-roubo-a-banco-em-agua-branca-al.ghtml

3 – Água Branca (Alagoas) – 14 de abril de 2018.

Dois homens suspeitos de envolvimento em assalto a agências bancárias morreram durante confronto com a polícia no município de Água Branca, Sertão de Alagoas. três pessoas foram presas, além disso, quatro fuzis, escopetas, dinamites e espoletas também foram apreendidos. Os detidos e o material foram levados para a delegacia em Delmiro Gouveia.-AL.

4 – Amontadas (Ceará) – 26 de julho de 2018.

Um confronto entre policiais civis e criminosos acusados de tráfico, assalto a banco, homicídios e furtos, terminou com três mortos e um agente ferido de raspão. A operação aconteceu em Amontada, Município localizado na Zona Norte do Estado do Ceará. De acordo com a Polícia Civil, a ocorrência tinha como objetivo capturar o trio, que já vinha sendo investigado pela Delegacia de Roubos e Furtos (DRF), e estava escondido na zona rural dessa cidade.

5 – Japaratuba (Sergipe) – 4 de setembro de 2018.

Uma troca de tiros entre policiais civis e um grupo suspeito de realizar assaltos em Sergipe deixou sete mortos na cidade de Japaratuba, além disso, foi apreendida uma grande quantidade de armas. A Secretaria de Segurança de Segurança Pública de Sergipe (SSP/SE), informou que ação policial tem ligação com a investigação de um assalto realizado a uma agência bancária na cidade Itabaianinha-SE, realizado no início do mês de agosto.

6 – Salgueiro (Pernambuco) – 26 de setembro de 2018.

Seis homens foram mortos e um ficou ferido quando tentavam roubar um avião de transporte de valores na pista de pouso do aeroporto de Salgueiro. O dinheiro seria utilizado para abastecer um banco da cidade. De acordo a Polícia Federal, os assaltantes invadiram a pista no momento da aterrissagem do avião e abordaram o os vigilantes dos carros-fortes que transportariam o dinheiro. Os suspeitos atiraram no piloto e o obrigaram a parar a aeronave. Com os suspeitos mortos, a polícia encontrou seis fuzis e uma metralhadora ponto 50 que estava instalada em um dos veículos utilizados. 

7 – Santana de Ipanema (Alagoas) – 8 de novembro de 2018.

Uma operação da Divisão Especial de Investigação e Capturas (Deic) de Alagoas, ocorrida na zona rural de Santana do Ipanema deixou 11 mortos.  O grupo estava envolvido em um assalto a uma agência do Bradesco, ocorrido na madrugada desta quinta-feira, em Águas Belas, no agreste de Pernambuco. Na operação, foram apreendidos explosivos, armas, dinheiro e uma caminhonete.

8 – Quixeré (Ceará) – 23 de novembro de 2018.

Uma tentativa de assalto a um carro-forte terminou com sete suspeitos mortos num confronto com a polícia em Quixeré. Seis fuzis e munições de diversos calibres, explosivos, coletes balísticos e outros artefatos foram apreendidos. O grupo criminoso estava dividido em três carros, em direção ao Rio Jaguaribe, para interceptar o carro-forte. O Gate foi ao local e foi recebido com disparos. Uma aeronave da Coordenadoria Integrada de Operações Aéreas (Ciopaer) deu apoio aos policiais em terra. A maior parte dos criminosos transitava entre São João do Jaguaribe, Limoeiro do Norte, Tabuleiro do Norte, Quixeré e Morada Nova. Dois eram potiguares.

9 – Bacabal (Maranhão) – 25 de novembro de 2018.

Um grupo de criminosos calculado em 50 homens assaltou duas agências bancárias, ateou fogo em veículos e atacou um quartel militar na noite deste domingo (25) na cidade de Bacabal (MA), que fica a cerca de 240 km de São Luís, capital do estado. Três suspeitos foram mortos no confronto com policiais, sendo um deles do Tocantins.

10 – Milagres (Ceará) – 07 de dezembro de 2018

Uma tentativa de assalto a duas agências bancárias na cidade de Milagres, distante 482 km de Fortaleza, no estado do Ceará, deixou doze mortos, sendo seis suspeitos do crime e seis reféns, cinco destes de uma mesma família. Antes da investida em Milagres, a mesma organização já tinha participado de assaltos a bancos, incluindo um em Belo Jardim e outro em Santa Cruz do Capibaribe,  ambas em Pernambuco. Esse crime foi o de maior número de mortos envolvendo civis. 

11– Arapiraca (Alagoas) – 24 de fevereiro de 2019.

Quatro suspeitos foram mortos durante confronto com a Polícia Militar na madrugada do dia 24 de fevereiro após ação criminosa na agência dos Correios no município de Arapiraca, em Alagoas. Eles são suspeitos de integrar uma quadrilha de roubo a banco em Mato Grosso com atuação em outros estados. Outros três membros da quadrilha foram presos em Maceió.

12- Lauro de Freitas (Bahia) – 13 de maio de 2019.

Três suspeitos de fazer parte da quadrilha que atacou a agência do Banco do Brasil na cidade de Barreiras, oeste da Bahia, foram mortos na tarde do dia 13 de maio em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador. A PM baiana informou que os suspeitos estavam em uma pousada e reagiram quando foram baleados.

13- Cocal (Piauí) – 5 de maio de 2019.

Seis suspeitos foram mortos em confronto com a polícia na zona rural de Cocal, no Norte do Piauí. Outros três foram localizados em um acampamento na região da cidade de Barras e o resultado foi o mesmo. Os grupo faria parte de uma quadrilha de roubos a bancos de Minas Gerais e teriam participado do assalto a duas agências bancárias que ocorreu no dia 30 de março, na cidade de Campo Maior, também no Piauí. Outros cinco membros do grupo foram presos.Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Piauí, todos foram mortos após reagirem à prisão.

14 – Lagarto (Sergipe) – 03 de abril de 2019.

O Complexo de Operações Policiais Especiais (Cope) da Polícia Civil e a Polícia Militar de Sergipe desencadearam no município de Lagarto uma operação que resultou na prisão de três integrantes de uma quadrilha baiana especializada em assaltos a banco. Seis integrantes da organização criminosa reagiram à prisão e foram mortos em confronto. Segundo investigação, eles pretendiam explodir as agências bancárias do município de Simão Dias, e se esconderam em uma casa no Povoado Açu Velho, na cidade de Lagarto, onde houve o confronto com a polícia.

15- Barra de São Miguel (Paraíba) – 02 de julho de 2019.

Um policial militar e oito suspeitos morreram durante uma ação de uma quadrilha de assaltos a bancos no Agreste de Pernambuco no dia 1º de julho. Após parte da quadrilha assassinar um soldado da PM, oito integrantes do grupo foram mortos pelas PMs da PB e de PE em Barra de São Miguel, na Paraíba.

O OP9 é o portal que integra o maior grupo de comunicação do Nordeste. Cinco emissoras de TV e uma de rádio compõem o Sistema Opinião: TV Clube/Record (Pernambuco), TV Ponta Negra/SBT (Rio Grande do Norte), TV Borborema/SBT (Campina Grande), TV Manaíra/Band e Rádio Band News FM (João Pessoa) e TV Ponta Verde/SBT (Alagoas). Esse grupo de comunicação alcança mais de 50 milhões de pessoas mensalmente, em média.

Ver – https://www.op9.com.br/

MEMBROS DO CORPO DIPLOMÁTICO DOS ESTADOS UNIDOS NO BRASIL VISITARAM A CIDADE DE RIACHUELO PARA CONHECER A HISTÓRIA DO DESASTRE DE UM HIDROAVIÃO CATALINA OCORRIDO DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

VIERAM IGUALMENTE DEBATER SOBRE AS HOMENAGENS À TRIPULAÇÃO DESSA AERONAVE, QUANDO ESSE EPISÓDIO HISTÓRICO COMPLETARÁ 75 ANOS EM 10 DE MAIO PRÓXIMO.  

Foto de um hidroavião PBY-5A Catalina, do VP-45, junto com militares desse esquadrão de patrulha aérea da Marinha dos Estados Unidos – Fonte – NARA – através do pesquisador Rostand Medeiros.

Fonte – Prefeitura Municipal de Riachuelo-RN

Em 29 de março de 2019, estiveram em Riachuelo o diplomata Daniel A. Stewart e funcionário do Consulado Geral dos Estados Unidos em Recife Stuart Alan Beechler.

A Prefeita Mara Cavalcanti junto ao diplomata americano Daniel A. Stewart, do Consulado Geral dos Estados Unidos em Recife- Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Entre os objetivos da visita estava um encontro com a prefeita Mara Cavalcanti para conhecer aspectos gerais o município e buscar detalhes sobre o acidente de um hidroavião modelo PBY-5A Catalina da Marinha dos Estados Unidos, ocorrido em 10 de maio de 1944, em pleno período da Segunda Guerra Mundial.

Nesse dia a quase 75 anos, em um dia bastante nublado, por volta das 3 da tarde, antigos membros da nossa comunidade testemunharam a queda e destruição dessa aeronave a cerca de 20 quilômetros da pequena Riachuelo, onde então viviam cerca de 200 habitantes.

Foto da época da Segunda Guerra Mundial de um hidroavião Catalina, igual ao que se acidentou próximo a Riachuelo– Fonte – NARA – através do pesquisador Rostand Medeiros.

No desastre pereceram dez aviadores navais americanos, entre eles o oficial Calder Atkinson, Comandante do esquadrão de patrulha antissubmarino VP-45, que nesse período tinha base em Belém, estado do Pará. Nessa época as forças armadas brasileiras lutavam em conjunto com militares dos Estados Unidos contra as ações beligerantes dos submarinos alemães e italianos no Oceano Atlântico, que atacaram e destruíram vários navios mercantes brasileiros e de outros países. O Catalina do VP-45 que caiu próximo a nossa cidade era uma das aeronaves que participavam das ações de combate.

Outra visão de um Catalina– Fonte – NARA – através do pesquisador Rostand Medeiros.

Em meio aos destroços foram encontrados os corpos desfigurados do Comandante Calder Atkinson e nove outros tripulantes. Mesmo diante do quadro sinistro, os nossos antepassados tiveram todo o cuidado para trazer esses restos mortais para o cemitério da cidade, onde foram enterrados com todo o respeito, dignidade e atenção.

Foto do Comandante Calder Atkinson, que pereceu na queda do Catalina em 10 de maio de 1944– Fonte – NARA – através do pesquisador Rostand Medeiros.

Essa atitude honrada do povo riachuelense chamou à atenção de Daniel Stewart e Stuart Beechler, que informaram que o Consulado Geral dos Estados Unidos em Recife vai participar das homenagens planejadas pela nossa administração municipal para marcar os 75 anos desse episódio. Nessa ocasião estará presente em nossa cidade o Sr. John Barrett, atual Cônsul Geral dos Estados Unidos na capital pernambucana.

Os visitantes que estiveram em Riachuelo. Da esquerda para a direita vemos os Srs.
Stuart Alan Beechler e Daniel A. Stewart , do Consulado Geral dos Estados Unidos em Recife, seguido de Rostand Medeiros , escrito e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e o Capitão de Mar e Guerra Fuzileiro Naval (R.R.) Edison Nonato de Faria
– Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Além dos membros dessa representação diplomática e do executivo municipal, vão participar das homenagens a Marinha do Brasil, que estará presente com a Banda de Música do Corpo de Fuzileiros Navais e uma representação oficial do Terceiro Distrito Naval de Natal. Apoiando esse importante intercâmbio entre a Marinha e a Prefeitura de Riachuelo, contamos com a inestimável participação do Capitão de Mar e Guerra Fuzileiro Naval (R.R.) Edison Nonato de Faria, que também esteve junto aos americanos na visita a nossa cidade.

Reunião dos visitantes junto com a Prefeita Mara Cavalcanti – Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Esse episódio histórico é bastante conhecido dos habitantes da nossa comunidade. Mas recentemente o escritor e pesquisador Rostand Medeiros, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN esteve em Riachuelo em busca de maiores informações sobre o acidente. Esse pesquisador desejava conseguir mais subsídios para o desenvolvimento de um livro sobre a Segunda Guerra no Rio Grande do Norte. Na realização dessa pesquisa Rostand Medeiros contou com o apoio de Aílton de Freitas Macedo, Secretário de Administração de Riachuelo, que buscou ajudar com todas as informações possíveis.

O Secretário de Administração Aílton Freitas apresentando um dos possíveis locais para a realização do evento dia 10 de maio– Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Uma das últimas testemunhas diretas desse episódio é o Sr. José Lourenço Filho, que foi entrevistado, como também moradores da zona rural e sítios da região. O resultado dessa pesquisa é um dos capítulos do livro “Sobrevoo – Episódios da Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte”, lançado em 2 de abril do corrente na sede estadual do SEBRAE-RN, que apoiou a confecção dessa obra.

Livro onde está inserido o episódio da queda dessa aeronave próximo a Riachuelo em 1944. Segundo Rostand Medeiros esse livro faz parte da coleção “A participação do Rio Grande do Norte na Segunda Guerra Mundial”, coleção de três livros produzida pela editora Caravela Selo Cultural e apoio do SEBRAE-RN. Fazem parte dessa coleção os livros “A engenharia norte-americana em Natal na Segunda Guerra Mundial”, de Leonardo Dantas de Oliveira, Osvaldo Pires de Souza e Giovanni Maciel de Araújo Silva., além da obra “Observações sobre a Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte”, reunindo artigos científicos e organizados pelo escritor e editor da Caravela José Correia Torres Neto .

Rostand Medeiros igualmente esteve acompanhando Daniel Stewart e Stuart Beechler nessa visita.

Por volta de oito da manhã eles chegaram à sede da prefeitura, onde mantiveram uma reunião preliminar com a Prefeita Mara Cavalcanti, Secretário de Administração Aílton Freitas e Sara Gardênia, Secretária Adjunta. Nesse contato ficou definido como será a realização do evento de caráter histórico/educativo do próximo dia 10 de maio e foram tratados aspectos como a localização da cerimônia e a participação das entidades envolvidas. Depois os visitantes percorreram vários locais da cidade, seguindo para um encontro com o Sr. José Lourenço Filho, que bastante emocionado recebeu a todos e narrou alguns fatos relativos ao episódio corrido em maio de 1944.

O Sr. José Lourenço Filho rememorando para os americanos o episódio de 10 de maio de 1944
– Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Depois a comitiva seguiu para o Cemitério Municipal, onde os funcionários americanos desejaram conhecer o local onde foram depositados pelos Riachuelenses os restos mortais dos dez aviadores navais. A cova coletiva ficava na área antiga dessa necrópole, junto ao muro da parte posterior desse local. Um dado interessante narrado pelo pesquisador Rostand Medeiros é que na atualidade esses aviadores navais se encontram sepultados em um cemitério militar no estado de Illinois, Estados Unidos, onde seus despojos estão reunidos em um único túmulo, tal como em Riachuelo. 

O grupo de visitantes, tendo à frente o Secretário Aílton Freitas visitando o local onde os aviadores navais do seu país foram enterrados em 1944 – Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Antes do grupo seguir para o local onde a aeronave Catalina caiu, de forma surpreendente eles puderam conhecer um objeto original oriundo dos destroços: uma colher de prata com o símbolo da Marinha dos Estados Unidos e bastante conservada. Essa verdadeira relíquia histórica atualmente está de posse de uma família riachuelense, que tem enorme respeito pela peça e a preserva da melhor maneira possível.

Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Na sequência todos seguiram por estradas da zona rural, circulando por áreas que estão recebendo boas chuvas neste ano de 2019. O grupo foi até a área da queda do Catalina, onde debateram aspectos históricos do episódio.

Daniel Stewart , Stuart Beechler, Aílton Freitas e Rostand Medeiros na área do desastre do Catalina – Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

No retorno a sede de nossa prefeitura, houve um novo encontro com a Prefeita Mara Cavalcanti e ficaram acertadas várias deliberações para o evento que ocorrerá em 10 de maio próximo.

A Prefeita Mara Cavalcanti recebendo um presente do diplomata Daniel A. Stewart
– Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Com essa atividade a Prefeitura Municipal de Riachuelo honrará de forma digna a memória dos militares aliados que sacrificaram suas vidas em prol da liberdade, bem como a dos nossos antepassados que souberam com extrema dignidade e atenção conceder a esses aviadores navais o descanso em solo riachuelense.

MARCOS DE RELIGIOSIDADE NO CAMINHO DE LAMPIÃO NO RIO GRANDE DO NORTE

Rostand Medeiros – Escritor, Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e historiador.

Jornal Tribuna do Norte.

Em 2010, em alternadas viagens,  estive percorrendo pela primeira os cenários da passagem do bando de Lampião no oeste potiguar, fato que ocorreu entre os dias 10 e 14 de junho de 1927.

Segui principalmente por áreas rurais desde a cidade de Luís Gomes, tendo como ponto focal Mossoró e finalizando em Baraúna. Percorri esse caminho originalmente palmilhado por estes cangaceiros como parte de uma consultoria que prestei ao SEBRAE, no âmbito do projeto Território Sertão do Apodi – Nas Pegadas de Lampião. Parte desse trajeto, que também focava em questões da espeleologia da região, percorri junto com Sólon Almeida.

Para traçar essa rota, além das obras escritas sobre a história da passagem do bando de Lampião pelo Rio Grande de Norte, fiz uso de materiais históricos existentes nos arquivos do Rio Grande do Norte, Paraíba e de Pernambuco e a bibliografia existente, com destaque ao livro do amigo Sérgio Augusto de Souza Dantas, autor de Lampião e a grande Jornada – A história da grande jornada.

Foram percorridos muitos quilômetros, onde visitamos vários sítios, fazendas, comunidades e cidades. Foram entrevistadas 123 pessoas e obtidas mais de 2.000 fotos. Em grande parte deste trajeto, a motocicleta se mostrou um aliado muito mais eficiente para se alcançar estes distantes locais.

Um dos fatos mais interessantes foi o surgimento de marcos de religiosidades ligados aqueles dias tumultuosos de 1927.

Cruzeiros marcando locais de acontecimentos intensos, capelas edificadas como promessas pela salvação de pessoas ante a passagem dos cangaceiros, o caso da utilização de uma igreja por parte dos cangaceiros. Além desses fatos temos a controversa situação envolvendo o túmulo do cangaceiro Jararaca na cidade de Mossoró.

Ao longo dos anos eu tive a grata oportunidade de realizar esse caminho em quatro outras ocasiões, sendo o mais importante em 2015, para a realização de um documentário de longa metragem denominado Chapéu Estrelado, dirigido pelo mineiro radicado no Rio de Janeiro Silvio Coutinho e produção executiva de Iapery Araújo.

Esses foram os locais mais interessantes ligados a esse tema e seus respectivos municípios.

MARCELINO VIEIRA 

A área próxima à sede do atual município de Marcelino Vieira é repleta de lembranças e marcos que mantém vivo na memória da população local os fatos ocorridos naquela longínqua sexta-feira, 10 de junho de 1927.

Cruz em homenagem ao soldado Matos.

Sítio Caiçara e a “Missa do Soldado” – Nesse local ocorreu um combate onde morreram o soldado José Monteiro de Matos e o cangaceiro Patrício de Souza, o Azulão.

Percebemos nitidamente que para as pessoas que habitam a região, os fatos mais marcantes em termos de memória estão relacionados ao combate conhecido como “Fogo da Caiçara” e a valente postura do soldado José Monteiro de Matos. Não foi surpresa que membros da comunidade local, no dia 10 de junho de 1928, apenas um ano após o combate na região da Caiçara, decidissem realizar, uma missa em honra a memória do valente militar.

Igrejinha onde é rezada a “Missa do Soldado”.

Segundo pessoas da comunidade do Junco, as margens do açude da Caiçara, de forma espontânea e apoiadas pelas lideranças locais, os mais antigos moradores deram início a um ato religioso. No começo ele ocorria no mesmo ponto onde se desenrolou o combate. Segundo pessoas entrevistadas na região, o evento sempre atraiu um número considerável de pessoas, passando a ser conhecida como “A Missa do soldado”. Com o passar do tempo à missa transformando-se em uma das mais importantes tradições religiosas de Marcelino Vieira.

ANTÔNIO MARTINS – ZONA RURAL

Fazenda Caricé – a fazenda Caricé estava no roteiro de destruição dos cangaceiros. Caminho lógico para quem seguia em direção norte, no caminho a Mossoró, a fazenda pertencia ao pecuarista Marcelino Vieira da Costa. Este era um paraibano que prosperou com a criação de gado e tornou-se tradicional líder político. Faleceu em dezembro de 1938 e seu nome batiza atualmente a cidade onde decidiu viver.

Capela em honra a Jesus, Maria e José, no sítio Caricé, erguida como promessa pela salvação da família do Coronel Marcelino Vieira das garras do bando de cangaceiros de Lampião

Ao saber da aproximação do bando do cangaceiro Lampião, o fazendeiro Marcelino Vieira decidiu dormir em uma área onde existia um canavial, próximo ao açude da fazenda. A chegada do grupo, insuflados por supostas contas a acertar do temível cangaceiro Massilon Leite com a família Vieira, produziu um saque que resultou em um prejuízo no valor de um conto e duzentos mil réis. Os celerados deixaram o lugar antes do meio-dia.

Da velha sede da fazenda Caricé nada mais resta, mas por lá encontramos uma pequena capela.

Interior da capelinha.

Quando a família Vieira e seus empregados estavam no canavial, em dado momento alguns cangaceiros chegaram a se aproximar do esconderijo. Diante do que poderia acontecer, com muito medo, a filha do fazendeiro, rogou intensamente aos céus que os bandoleiros se afastassem.

Vista noturna da capela do Caricé.

Caso isto se concretizasse, ela e sua família tratariam de erguer uma ermida em honra ao poder de Jesus, Maria e José. Pouco tempo as imagens foram adquiridas ainda em 1927, tendo sido trazidas da Bahia e que a primeira missa rezada no local foi verdadeiramente suntuosa.  O templo já apresenta sinais de abandono, com algumas telhas caindo, mas a estrutura ainda se mantém em grande parte firme.

Serra da Veneza.

Capelinha da Serra da Veneza – Uma interessante situação relativa à memória da passagem do bando nessa região ocorreu na região da Serra da Veneza, na fronteira de Antônio Martins com o vizinho município de Pilões. Nessa elevação granítica, que segundo o mapa da SUDENE chega a atingir a altitude de 555 metros, existe uma capela edificada em razão do medo provocado pela passagem do bando.

Quando Lampião e seu bando se aproximavam, em meio às terríveis notícias, três fazendeiros da região procuraram refúgio junto às rochas da base desta elevação. Essas famílias solicitaram junto ao mesmo santo, São Sebastião, que os protegessem contra a ação dos cangaceiros. E o mais interessante, mesmo sem se combinarem, as três famílias elegeram a mesma penitência; caso nada de negativo ocorresse a eles e as suas famílias, cada um deles teria de galgar a Serra da Veneza, erguer um oratório e ali depositar uma imagem em honra ao santo.

Capelinha da Serra da Veneza.

Lampião passou sem acontecer problemas a essas pessoas. Logo os fazendeiros e seus familiares foram a Vila de Boa Esperança, como muitos moradores da região, para agradecer na capela de Santo Antônio pelo fato de nada de pior haver ocorrido. Nesse local as três famílias se encontraram e ao debaterem sobre os fatos vividos, para surpresa de todos os presentes, compreenderam que havia ocorrido uma interseção divina com relação a eles terem tido as mesmas ideias e os mesmos pensamentos de penitência. Em pouco tempo eles adquiriam conjuntamente uma pequena imagem de São Sebastião e logo galgavam a Serra da Veneza para unidos edificarem um pequeno oratório. A ação dos três fazendeiros e as estranhas coincidências chamaram a atenção das pessoas na região e logo outros penitentes subiam a serra para pagar promessas. Em pouco tempo teve início uma procissão e não demorou muito para que o pároco local também viesse participar. Com o passar do tempo começou a ocorrer a participação de pessoas de outros municípios. Em 1948, vinte e um anos após a passagem do bando e do pretenso milagre, treze famílias deram início a construção da atual capela, em meio a uma intensa confraternização.

A cada dia 20 de janeiro, inúmeros ex-votos são colocados como pagamento de promessas, velas são acesas e fiéis de vários municípios vêm participar subindo a serra.

ANTÔNIO MARTINS- ZONA URBANA

Cangaceiros na Capela de Santo Antônio – O período da chegada dos cangaceiros, no dia 11 de junho de 1927, na então pequena comunidade de Boa Esperança, atual Antônio Martins, coincidiu com as celebrações da festa de Santo Antônio, o padroeiro local. De certa maneira essa situação de comemoração e alegria do povo, serviram para a rápida ocupação do lugarejo e a sua total capitulação diante da cavalaria de cangaceiros.

A capela de Santo Antônio era o principal local em Boa Esperança para realização dos festejos relativos ao padroeiro local. Nessa festa é tradicional a realização das chamadas “trezenas”, onde durante treze dias anteriores ao dia 13 de junho, a data consagrada a Santo Antônio, ininterruptamente são realizadas missas, orações de grupos de pessoas com terços nas mãos, cantos de benditos, encontros e outras participações da comunidade neste templo cristão. Quando o bando chegou, haviam algumas pessoas reunidas no local e um grupo de cangaceiros, visivelmente embriagados, proibiu a saída dos fiéis do local. Essas pessoas assistiram horrorizadas de dentro da capela o suplício de um habitante local, o jovem Vicente Lira, que apunhalado e sangrando abundantemente, era obrigado a engolir talagadas de cachaça. Mesmo em meio a essa cena de terror, diante da igreja aberta e engalanada, soubemos que alguns cangaceiros adentraram o local, se ajoelharam, se benzeram e saíram sem perturbar os atônitos presentes. Na saída soltaram Vicente Lira.

Durante todo nosso percurso, esta foi a única informação de que alguns cangaceiros do bando de Lampião, teriam adentrado um templo religioso católico em todo Rio Grande do Norte.

LUCRÉCIA

Fazenda Castelo.

Capela da Fazenda Castelo – Após a saída da cidade de Frutuosos Gomes, na zona urbana do município de Lucrécia, as margens da RN-072, soubemos que o bando realizou a invasão da fazenda Castelo, propriedade tida como a mais importante da antiga localidade. No terreno ao lado da sede da fazenda Castelo se encontra uma bem preservada capelinha dedicada a Nossa Senhora da Guia. Entretanto, ao buscarmos contato com as pessoas mais idosas em busca da história da capela, não foi possível um esclarecimento mais exato sobre quem a construiu e se essa construção tem alguma relação com a passagem do bando de Lampião, como no caso da ermida da fazenda Caricé. Houve pessoas que indicaram que a construção foi consequência de uma promessa pela salvação dos proprietários locais junto a passagem dos cangaceiros, outros indicaram que ela seria anterior a 1927 e outros apontaram que ela seria posterior a essa data. 

Capela da fazenda Castelo, Lucrécia, Rio Grande do Norte.

Foi perceptível a necessidade de ampliar as pesquisas sobre o local.

A Cruz dos Canelas – Depois de passarem por Lucrécia, os cangaceiros atacaram uma propriedade rural e sequestraram um fazendeiro bastante conhecido e querido na região. A notícia se espalhou entre vários parentes e amigos e logo um grupo decide com extrema coragem sair em busca do povoado de Gavião, atual cidade de Umarizal, onde pudessem levantar a quantia estipulada por Lampião para soltar o popular fazendeiro.

Sítio Serrota dos Leites, de onde foi sequestrado o fazendeiro Egídio Dias.

O grupo era pequeno, com um número que aparentemente chega a quatorze e só quatro deles, membros de uma família conhecido como “Canelas”, eram os únicos que os pesquisadores do assunto apontam como possuidores de armas de fogo com alguma potência. Esse grupo conhecia os caminhos e provavelmente confiaram no fato de ser período de lua cheia. Onde essa condição facilitaria o trajeto.

Enquanto se desenrolava esta situação, na região do sítio Caboré, cansados pelo deslocamento, esgotado pelas ações e pelo consumo de bebidas, o bando de cangaceiros decidiu descansar nas terras do Caboré. Por volta das três da manhã o grupo de amigos chegou ao Caboré em busca de informações. Não sabiam que um cangaceiro, facilitado pelo luar, vigiava os movimentos do grupo. No local conhecido como “Serrote da Jurema” foi armada uma emboscada pelo bando de experientes combatentes. Logo abriram fogo contra a incipiente tropa e três deles tombaram e o resto fugiu em franca debandada. Segundo os laudos cadavéricos a vingança do bando de Lampião nos corpos dos amigos do fazendeiro sequestrado foi terrível.

Cruz dos Três Heróis, ou Cruz dos Canelas.

Apesar de todo empenho em buscar ajudar o amigo detido, o que o grupo de resgate não sabia era que a sua ação era totalmente inútil. Algum tempo antes, no bivaque armado pelos bandidos, em meio ao cansaço generalizado da tropa de Lampião, o sequestrado conseguiu fugir para o meio do mato.

Atualmente, as margens da rodovia estadual RN-072, na comunidade Caboré, se encontra uma cruz conhecido como “A cruz dos três heróis”, aonde o povo de Lucrécia e da região vêm homenagear àqueles que agora são conhecidos apenas como “Os Canelas”, ou os “Heróis de Caboré”. No local muitos rezam e pagam promessas e acendem velas em honra desses homens.

MOSSORÓ

Caso da Igreja de São Vicente de Paula e a questão do túmulo do Cangaceiro Jararaca.

A notícia de que Lampião avançava na direção de Mossoró chegou aos ouvidos dos moradores de Mossoró em abril de 1927. À época, a Capital do Oeste Potiguar, como seus habitantes ainda gostam de intitulá-la, já era um dos municípios mais importantes do interior nordestino. Com 20 mil habitantes, localizada no meio do caminho entre duas capitais – Natal e Fortaleza –, em nada se assemelhava às pequenas cidades onde Lampião e seu bando atacava e saqueava o comércio.


Igreja de São Vicente de Paula, em Mossoró.

No dia 13 de junho de  1927, após dizer não a Lampião, que cobrou 400 contos de reis (em moeda da época 400  milhões de reis – atualmente uns 20 milhões de reais) para não invadir a cidade, começava um tiroteio entre moradores da cidade e os cangaceiros. A igreja de São Vicente de Paula foi o local principal da resistência. Lampião costumava dizer que “cidade com mais de uma torre de igreja não é lugar para cangaceiro”. Não se tratava de superstição, mas de raciocínio lógico – municípios com tal característica eram maiores e, portanto, mais difíceis de dominar. Os ocupantes das trincheiras no alto da Igreja de São Vicente e da casa do intendente tinham visão privilegiada do avanço das tropas. Tão logo o grupo surgiu no horizonte, iniciaram-se os disparos. Os cangaceiros, acostumados a desfilar nos povoados sem serem incomodados, foram surpreendidos. 

Findando com a expulsão dos cangaceiros, a morte de alguns deles e a prisão do temível José Leite de Santana, vulgo Jararaca, enterrado vivo no cemitério da cidade, após cavar sua própria cova.

Túmulo do cangaceiro Jararaca.

A Jararaca é atribuída todas as crueldades. A mais famosa consistia em arremessar crianças para o alto e apará-las com a ponta do punhal. Trespassados pela lâmina, garotinhos leves o bastante para serem lançados na direção do sol morriam lenta e dolorosamente, em meio aos gritos dos pais – e às gargalhadas do cangaceiro.

O interessante é que hoje é visto como santo pelo povo, devido a crueldade com que foi morto. Recebendo o seu túmulo visita de milhares de pessoas em dias de finado e ao longo de todo ano. Na verdade mais prestigiado que o túmulo de muitos políticos famosos da cidade, enterrados no mesmo cemitério e esquecidos de todos. Mostrando que nem sempre o séquito que em vida rodeia os poderosos permanece uma vez morto. Ironicamente ao contrário do cangaceiro.

Túmulo de Rodolfo Fernandes.

O famoso chefe cangaceiro deveria ter pensado duas vezes antes de tentar invadir e ser expulso de forma humilhante, assim historicamente a cidade ligou seu nome ao famoso personagem Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Anualmente, em frente  à igreja que funcionou como trincheira é encenada um musical chamado: Chuva de bala no país de Mossoró, que remonta todo o fato histórico e mantém viva a memória.

Os heróis da resistência de Mossoró, de toda forma foram bravos sim!

Mas por que o santificado é um cangaceiro e não um dos resistentes?

Por  que não santificaram o prefeito de Mossoró que liderou a resistência?  Por que as fotos dos heróis da resistência são tão pequenas e a dos cangaceiros estão expostos em painéis enormes? Parece até que o povo de Mossoró não se identificou muito com os heróis da resistência!

Memorial da Resistência.

A história por trás do túmulo de Jararaca se confunde muito com o misticismo, com a conduta cultural de um povo. Jararaca apenas foi consagrado, por conta de sua bravura. O povo sempre busca o menor para enaltecê-lo. É perceptível essa situação no próprio cemitério, quando o túmulo de Rodolfo Fernandes não recebe o mesmo número de visitas correspondentes ao túmulo onde está Jararaca.

Fonte sobre o túmulo de Jararaca – Valdecy Alves, “MOSSORÓ EXPULSOU O BANDO DE LAMPIÃO A BALA – DISSE NÃO À EXTORSÃO DO CANGACEIRO – UM GRANDE FATO NA HISTÓRIA DO NORDESTE – FATOS E FOTOS!” – http://valdecyalves.blogspot.com/2011/12/mossoro-expulsou-o-bando-de-lampiao.html

FOTO HISTÓRICA DA SEMANA – BOB KENNEDY EM UM CANAVIAL DE CARPINA, PERNAMBUCO, EM NOVEMBRO DE 1965.

Robert Francis Kennedy, apelidado de Bobby, ou Bob, e também RFK, foi procurador-geral dos Estados Unidos de 1961 até 1964 tendo sido um dos primeiros a combater a Máfia, e Senador por Nova Iorque a partir de 1965. Ele foi um dos dois irmãos mais novos do presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, e também um dos seus mais confiáveis conselheiros, Robert Kennedy acompanhou ativamente com o presidente a crise dos mísseis cubanos e fez uma importante contribuição no movimento pelos direitos civis dos afro-americanos. Era católico como o irmão.

Segundo Vandek de Souza, do Diário de Pernambuco, em novembro de 1965 Bob Kennedy esteve no Nordeste do Brasil. Foi à Zona da Mata pernambucana, na cidade de Carpina, onde da janela da Cooperativa Mista de Trabalhadores Rurais fez um discurso defendendo “a urgente organização dos trabalhadores em sindicatos e associações” para “tornar possível a reforma agrária”. Caminhou pelos canaviais ao lado do padre Crespo. Conversou com camponeses, perguntando se eles recebiam o salário mínimo, e até repreendeu o proprietário José Jaime Coutinho, por interferir na conversa: “O diálogo é comigo”. Depois veio ao Recife, onde discursou no Centro da cidade e na SUDENE, nesta ordem. “O progresso de toda a América Latina repousa, em larga escala, no progresso do Brasil. E o futuro do Brasil, por seu turno, depende do Nordeste, que é um país dentro de um país”, afirmou na SUDENE.

Esteve em Natal, onde foi recebido pelo Governador Aluízio Alves. Circulou junto com sua esposa Ethel e Aluízio em um jipe pelas ruas da cidade, enquanto era acompanhado e ovacionado de maneira intensa pelos natalenses. Aqui inaugurou na Cidade Alta a praça que até hoje leva o nome do seu irmão, bem como o Instituto Presidente Kennedy. Na inauguração desse último local havia um palanque bem fraquinho e que não ajudaria a propagar seu discurso. Sem muitas delongas subiu junto com a esposa e Aluízio em um dos telhados do Instituto e de lá falou a vontade.

Três anos depois Robert Kennedy anunciou a sua campanha para ser nomeado candidato à presidência pelo Partido Democrata. Kennedy vence as primárias do estado da Califórnia e o sonho de ser Presidente dos Estados Unidos se tornava possível. Mas no dia 5 de junho de 1968, o senador e pai de 10 filhos (sua mulher Ethel estava grávida do 11º), foi gravemente ferido por dois disparos na cabeça em um hotel em Los Angeles, onde comemorava os resultados das eleições da prévia dos Democratas. O assassino era um palestino imigrante de nome Sirhan Bishara Sirhan. Bob Kennedy morreu no hospital na manhã do dia seguinte, 6 de Junho, estando sua esposa Ethel ao seu lado. Tinha apenas 42 anos.

JUDAÍSMO NO NORDESTE DO BRASIL – CONVERSOS SEFARDITAS REVIVEM A VIDA JUDAICA

 

A Estrela de Davi na mais antiga cópia completa sobrevivente do texto massorético, o Códice de Leningrado, datado de 1008 – Fonte – https://www.chabad.org/library/article_cdo/aid/788679/jewish/Star-of-David-The-Mystical-Significance.htm

Inspirados pelas recém-descobertas raízes judaicas sefarditas, dezenas de judeus recém-convertidos no Nordeste do Brasil estão apagando o tabu que impediu que seus antepassados ​​proclamassem sua fé.

Autoria – Cnaan Liphshiz e JTA – Fonte – https://www.haaretz.com/world-news/americas/recent-sephardic-converts-revive-jewish-life-in-northern-brazil-1.6786362A

Preparando-se para deixar o principal centro comunitário judaico de Recife, Sabrina Scherb espreita para além do seu portão, numa rua tranquila repleta de ramos e frutos de manga triturados.

Os escombros, remanescentes de uma tempestade tropical durante a noite, não é o que está preocupando Scherb, um universitário de 22 anos e instrutor de dança voluntário.

“Eu estou olhando para ver se é seguro”, disse ela, andando rapidamente para o carro estacionado de um amigo depois de dar uma aula de dança folclórica israelense. “Eu tenho medo todo o tempo do roubo, ou pior. Eu planejo minha vida, então eu gasto a menor quantidade de tempo na rua. Todos nós fazemos”.

É um modo de vida que Scherb, cuja mãe foi roubada e já presenciou um assalto na rua, compartilha com muitos moradores dessa cidade. Recife, a quarta maior metrópole do Brasil, com uma população de cerca de 1,55 milhão, foi classificada neste ano como a 22ª cidade mais violenta do mundo. Tem uma taxa de homicídios 18 vezes maior que Nova York e o dobro de São Paulo.

Como muitos jovens judeus da comunidade judaica predominantemente asquenazita do Brasil, Scherb diz que “Não vê um futuro” para si mesma por causa do crime e dos efeitos da crise financeira de 2014 neste país sul-americano. Juntamente com corrupção do governo e instabilidade política, esses fatores estão levando um número recorde de judeus brasileiros a deixar o país.

Tais crises, juntamente com a assimilação, esgotaram muitas comunidades judaicas sul-americanas nos últimos anos – especialmente as menores, localizadas fora das principais capitais brasileiras.

No entanto, ao contrário de muitas comunidades judaicas pelo Brasil afora, a de Recife não está em declínio – em parte graças à adoção do judaísmo por centenas pessoas da cidade, cujos ancestrais sefarditas vieram séculos atrás de Portugal e da Espanha e em meio à perseguição antissemita nesses países.

Desde 2015, pelo menos 400 pessoas com ancestrais sefarditas passaram por conversões ortodoxas ao judaísmo no norte do Brasil – a área aonde seus ancestrais chegaram pela primeira vez da Europa. No estado de Pernambuco, cuja capital é Recife, esses indivíduos estabeleceram duas congregações judaicas que operam suas próprias sinagogas e apresentam eventos de férias, incluindo sedas de Páscoa.

Em 2015, um grupo de repatriados, a Associação Sefardita de Pernambuco, com sede em Recife, publicou sua própria Hagadá da Páscoa – um livro de 80 páginas com orações em hebraico e português. Sua capa apresenta uma ilustração de pessoas de várias raças que frequentam um Seder (Um serviço ritual e jantar cerimonial da primeira noite ou das duas primeiras noites do Pessach), algumas vestindo trajes tradicionais ameríndios.

“Há vinte anos, o retorno ao judaísmo foi um sonho. Agora é simplesmente a nossa realidade”, disse Jefferson Linconn Martins dos Santos, presidente da sinagoga Aboab da Fonseca, em Recife, uma das duas novas congregações. Na última década, mais de uma dúzia de congregações como essa foram estabelecidas em todo o norte do Brasil, cada uma com seu próprio líder espiritual e abatedor ritual produzindo carne kosher.

Este desenvolvimento está se desdobrando em paralelo aos altos níveis de imigração de judeus brasileiros para Israel. O número de imigrantes brasileiros mais que dobrou, passando de uma média de 249 por ano em 2005-2014, para 619 em cada um dos últimos quatro anos.

‘Filhos dos convertidos’

Os membros das novas comunidades se chamam “Bnei anusim” – hebraico para os “filhos dos convertidos à força”, do judaísmo para o cristianismo. É uma referência aos longos anos da Inquisição antissemita, que se espalhou por Portugal depois de sua adoção como política de Estado pela Espanha em 1492, e para as colônias desses países.

Pernambuco por um tempo tinha sido um refúgio para muitos judeus portugueses e espanhóis porque era controlado pelos holandeses relativamente tolerantes de 1630 a 1654. Mas quando os holandeses partiram, sua colônia foi tomada por Portugal, que impôs a Inquisição. Muitos judeus sefarditas fugiram com os holandeses para a Holanda.

Trouxeram até móveis da sinagoga de Recife, Kahal Zur – a mais antiga das Américas – que instalaram na Sinagoga Portuguesa de Amsterdã.

A presença judaica em Recife, uma extensa metrópole à beira-mar atravessada por canais de água salobra, é tão antiga que pode até ter dado à cidade o nome dela. 

De acordo com uma teoria, ela se origina em “Ratsif” – a palavra hebraica para cais. Recife possui cerca de 1.500 judeus, também possui a escola judaica mais antiga do Brasil, a Escola Moyses Chvarts, de 100 anos.

Rua dos Judeus e seu mercado de escravos. Quadro Rua dos Judeus – Slavenmarkt, de Zacharias Wagener – 1641 – Fonte – http://bairrodorecife.blogspot.com.br/2014/02/a-rua-do-bode-dos-judeus-da-cruz-e-do.html

Alguns dos judeus que fugiram de Recife chegaram à Nova Amsterdã, onde fundaram a primeira comunidade judaica do que mais tarde se tornaria a cidade de Nova York.

Enquanto muitos judeus foram embora do Brasil reconquistado pelos portugueses em 1655, muitos outros ficaram e se prepararam para a vida sob o jugo da Inquisição.

No início, aqueles que permaneceram continuaram a praticar o judaísmo em segredo, tornando-se cripto-judeus. Mas suas famílias se tornaram católicas com o passar dos séculos. Ainda assim, nas aldeias do norte do Brasil, alguns costumes judaicos prevaleceram.

Alguns bnei anusim foram instigados a investigar sua ascendência por causa desses costumes familiares peculiares. Outros, como Daury dos Santos Ximenes, presidente da Associação dos Judeus Sefarditas de Pernambuco, descobriram suas origens judaicas por meio de pesquisas genealógicas.

Muitas famílias no norte do Brasil há gerações sabem de suas raízes sefarditas, disse Haim Amsalem, um rabino ortodoxo e ex-membro do Knesset (Parlamento) de Israel que converteu muitos Bnei anusim. “Mas o advento da internet e das mídias sociais mudou tudo, levantou o tabu”.

Alguns, como Simone Azoubel, de 55 anos, souberam da ancestralidade judaica de um avô moribundo. Sua avó, Raquel, pediu em seu leito de morte em 1999 para ser enterrada com seus ancestrais em um cemitério judeu – revelando um segredo que ficou em segredo por duas gerações.

A Expulsão dos Judeus, de Roque Gameiro.

O funeral de sua avó no cemitério judeu do Recife levou à conversão de Azoubel. Azoubel diz que sua família fugiu de Portugal para a Turquia, chegando ao Brasil no século XIX. Ela e alguns de seus parentes são agora membros ativos da comunidade judaica do Recife.

Buscando reconhecimento

Desde 2016, Haim Amsalem, ex-líder do movimento ortodoxo Shas, viajou cinco vezes ao Brasil, convertendo cerca de 100 pessoas em cada visita. Os convertidos de Amsalem concluíram um processo de conversão no Brasil sob a supervisão de Gilberto Venturas, outro rabino ortodoxo. Muitos outros passaram por conversões de reforma ou conservadoras no norte do Brasil.

As conversões de Amsalem foram à primeira série de conversões em larga escala já realizadas no Brasil. Eles seguiram décadas de trabalho de divulgação do grupo Shavei Israel e de Isaac Essoudry, um judeu de Recife que morreu no ano passado e serviu como líder espiritual para muitos que buscavam se reconectar ao judaísmo.

No entanto, embora os convertidos tenham sido reconhecidos como judeus por Haim Amsalem, o Rabinato Chefe de Israel não os reconhece como tal porque ele “Não está na lista de juízes do Rabinato que pode presidir uma conversão”, disse um porta-voz à JTA.

Obra mostra cena de explusão de judeus da Espanha em 1492. Muitos deixaram o país, mas outros optaram por ficar e se onverter ao catolicismo. (Xilogravura, Michaly von Zichy, 1880, posteriormente colorizada)

Amsalem citou um precedente do Tribunal Superior de 2016 em Israel, que forçou o estado a naturalizar sob sua Lei de Retorno aqueles judeus cujas conversões não foram reconhecidas pelo Rabinato Chefe. “O reconhecimento deles não tem sentido”, disse Haim Amsalem sobre o Rabinato Chefe.

Mas até hoje nem Amsalem e nem o Rabinato Chefe tem conhecimento de qualquer um dos convertidos brasileiros buscou imigrar para Israel, disseram o rabino e o porta-voz.

O reconhecimento para os bnei anusim continua sendo um problema dentro das comunidades judaicas do Brasil também.

Os convertidos não vêm à sinagoga da Congregação Chabad, em Recife, localizada na Rua Jorge Couceiro Da Costa Eiras, 603, onde dizem que não se sentiriam bem-vindos. Nem se integram facilmente com outras comunidades judaicas.

O escritor Luís da Câmara Cascudo participou da festa do Yom Kippur junto aos judeus de Natal e descreveu a visita em um interessante artigo – Fonte – Jornal ” A República” 12/11/1933

“Geralmente estamos em uma fase em que muitos bnei anusim se sentem mais à vontade em comunidades formadas por pessoas como eles”, disse Daury dos dos Santos Ximenes, presidente da associação sefardita.

Jader Tachlitsky, porta-voz da Comunidade Judaica de Pernambuco e coordenador do Centro Judaico de Pernambuco, rabino reformista, confirmou que “A situação é complexa”.

“Vários rabinos estão convertendo bnei anusim e não temos certeza sobre todas as conversões, disse Tachlitsky.

Essas complicações e outras “São de se esperar dada a magnitude” do fenômeno Bnei anusim, disse Ashley Perry (Perez), presidente da organização Reconnectar, com sede em Israel, que visa ajudar as pessoas a se reconectarem com seus ancestrais judeus, o povo judeu e Israel.

Túmulo de Rosinha Palatnik no Cemitério Público do Alecrim – Foto do autor.

Apesar dos desafios, Perry disse que as populações de bnei anusim geralmente “E especialmente no norte do Brasil representam um desenvolvimento que pode alterar a história do povo judeu”.

Há muitos milhões de potenciais bnei anusim na América do Sul, afirmou Perry. Haim Amsalem coloca o número “Pelo menos algumas centenas de milhares”.

Fundos de Confronto

Mas o abismo que separa as congregações bnei anusim do Recife e suas Ashkenazi não se deve exclusivamente a razões religiosas.

A comunidade judaica Ashkenazi de Recife é formada predominantemente por empresários e profissionais bem-sucedidos. As comunidades de Bnei anusim são mais diversificadas em sentido socioeconômico.

Yosef Manuel, que completou sua conversão no início deste ano, administra uma pequena loja de pet food no bairro de Prazeres, um subúrbio pobre de Recife. Ele decorou com fotos de si mesmo em Jerusalém e uma grande bandeira de Israel, que ele traz regularmente para partidas de futebol – incluindo quando nenhum time é israelense.

Manuel disse que “Sempre soube que a família tinha uma identidade judaica”. Mas a necessidade de se converter surgiu há 10 anos, durante sua primeira visita a Israel e a Jerusalém. “Eu senti que sabia que tinha chegado em casa e precisava fazer algumas coisas para fazer na minha casa”, disse ele. Mas Manuel também disse que não tem planos imediatos de partir para Israel.

Entre os convidados da cerimônia que celebraram sua conversão ao judaísmo estava sua amiga Evania Margolis, uma empresária judia Ashkenazi local e membro da congregação Chabad. “Ele estava radiante. Foi tão comovente que me levou às lágrimas”, disse Margolis sobre a cerimônia.

“Eles dizem que são judeus”, disse ela sobre os Bnei anusim. “Eu não sou nem rabino nem genealogista, mas acho que devemos abraçar as pessoas que realmente querem pertencer ao nosso povo”.

Manuel e sua esposa se juntaram ao Centro Judaico de Pernambuco, onde participam de cultos e eventos regularmente, incluindo a comemoração anual do Yom Hashoah para as vítimas do Holocausto.

A comunidade realiza a comemoração e outros eventos especiais na histórica sinagoga Kahal Zur, que ironicamente está localizada na Rua do Bom Jesus. Outrora um grande estabelecimento ortodoxo, Kahal Zur desintegrou-se lentamente antes de ser restaurado em 2002 como um museu, que também contém uma pequena sinagoga igualitária.

Para todas as coisas que os diferenciam, as comunidades judaicas do Recife estão, no entanto, se aproximando ao longo do tempo, disse Sônia Sette, presidente da Federação Judaica de Pernambuco.

“Não sabemos as consequências desse fenômeno”, disse ela sobre o surgimento dos Bnei anusim, “Porque ainda estamos vendo isso acontecer”. Mas, em meio à assimilação, a emigração e a apatia de muitos judeus locais de comunidades brasileiras, “Eu não ficaria surpresa se no futuro, a maioria dos judeus aqui no Brasil seja composta de Bnei anusim”.