A CAVERNA DOS CROTES – UM INTERESSANTE E BELO PATRIMÔNIO NATURAL POTIGUAR

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Entrada da Caverna dos Crotes, Felipe Guerra, Rio Grande do Norte – Foto – Solon Rodrigues Almeida Netto

Rostand Medeiros – Escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN 

Sólon Rodrigues Almeida Netto – Bacharel em Direito e Servidor Federal

Talvez muitos potiguares não saibam, mas no seu pequeno território existe interessantes cavernas e grutas de diversas características, feições e tamanhos, onde geólogos apontam que a heterogeneidade da estrutura geológica do Rio Grande do Norte propicia a formação de diferentes áreas para a existência de cavidades naturais.

Na porção sul do estado existe o Embasamento Cristalino e ao norte a principal formação geológica é denominada Bacia Potiguar, formada durante o período Cretáceo e Pré-cambriano. E é na Bacia Potiguar, uma peculiar área geológica, onde vamos encontrar a maior quantidade de cavernas, normalmente localizadas em áreas onde se encontram grandes extensões de lajedo de pedra calcária que afloraram.

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Mapa geológico simplificado da Bacia Potiguar (RN) – Fonte – https://www.researchgate.net/figure/235928283_fig1_Figura-1-Mapa-geologico-simplificado-da-Bacia-Potiguar-RN-com-localizacao-da-area

Alguns estudiosos descrevem a área da Bacia Potiguar como tendo uma extensão de 60.000 km² e a porção emersa possui uma área de exposição de 24.500 km², estando localizada na região norte do estado do Rio Grande do Norte e parte da região nordeste do estado do Ceará.

A origem da bacia tem sido alvo de vários estudos e diversos modelos têm sido propostos para explicá-la. Sua estratigrafia é composta por várias formações geológicas, sendo em sua maioria batizadas com nomes de municípios potiguares, tais como a Formação Pendências, Açu, Jandaíra, Guamaré, Macau e Tibau.

A Bacia Potiguar possui nos municípios de Jandaíra, Governador Dix-Sept-Rosado e Felipe Guerra os maiores afloramentos de calcário, os populares lajedos, sendo em Felipe Guerra o município com maior concentração proporcional de cavernas.

Pesquisas Sobre As Cavernas Potiguares

O conhecimento do patrimônio espeleológico e o desenvolvimento da espeleologia no estado do Rio Grande do Norte apenas começaram a ser conhecidos de forma mais sistemática a partir de 1997, com citações e o início dos levantamentos topográficos realizados pelo saudoso CERN – Clube de Espeleologia do Rio Grande do Norte. Esta entidade foi criada por vários ambientalistas potiguares e oriundos de outros estados, tendo a frente os geólogos paulistas Geraldo Gusso e Eduardo Bagnoli, ambos falecidos. Entre 1988 a 1995, foram mapeadas 18 cavernas e descobertas mais 26, as quais foram incluídas no Cadastro Nacional de Cavernas – CNC, da Sociedade Brasileira de Espeleologia – SBE.

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Foto – Rostand Medeiros

Na sequência do CERN surgiu a SEPARN – Sociedade para Pesquisas e Desenvolvimento Ambiental do Rio Grande do Norte cujo trabalho desenvolvido proporcionou um largo conhecimento deste patrimônio. Em apenas dois anos, através dos dados obtidos a partir da Cooperação Técnica firmada entre a SEPARN e a Superintendência Estadual do Rio Grande do Norte do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis – IBAMA (Termo de Cooperação Técnica nº 001/2000), muito mais foi descoberto.

Segundo o CNC, 98% das cavernas do Rio Grande do Norte estão relacionadas às falhas e fraturas existentes no calcário da Bacia Potiguar e apenas 2% destas cavidades naturais se encontram em rochas graníticas.

Seus comprimentos médios variam entre 30 e 500 metros com desníveis entre dois e 30 metros, reduzido desenvolvimento subterrâneo, estando com uma média de 90 a 120 metros linear de área de desenvolvimento por caverna.

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Caverna da Carrapateira, Felipe Guerra, Rio Grande do Norte – Foto – Sólon Rodrigues Almeida Netto

Em torno de 46% destas cavidades se encontram colônias de morcegos, sendo muitas destas colônias formadas por morcegos hematófagos e pouco estudadas. Embora o estado do Rio Grande do Norte não apresente até o momento um destaque significativo no cenário espeleológico brasileiro, temos que evidenciar a importância das cavernas aqui existentes por seu conteúdo histórico, cultural, científico e turístico.

Cerca de 80% das cavernas do estado possuem ornamentações (espeleotemas), sendo alguns de rara beleza e outros de extrema importância para pesquisas em determinadas áreas científicas e a maioria das cavernas potiguares encontram-se em razoável estado de conservação, bem como o seu entorno.

Felipe Guerra, a “Meca” das Cavernas  Potiguares

Como comentamos anteriormente o município potiguar onde existem mais cavidades naturais em termos proporcionais é Felipe Guerra.

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Parte mais antiga da cidade de Felipe Guerra, conhecida como “Cidade Baixa” – Foto – Rostand Medeiros.

Localizada na região do Brejo do Apodi, a 330 quilômetros da capital potiguar Felipe Guerra é pacata cidade, um lugar muito agradável, de pessoas trabalhadoras, tranquilas, extremamente acolhedoras e um grande número de cavidades naturais.

A incidência de cavernas no município ocorre a seis quilômetros da sede deste e município, em um grande afloramento de calcário que possui vários quilômetros quadrados de rocha exposta, sendo certamente o maior local deste tipo existente no Rio Grande do Norte. Este local é conhecido como Lajedo do Rosário.

Esta área constitui o mais importante sítio de cavernas já identificado no estado. Os dados coletados pela SEPARN na década de 2000 apontavam cinquenta e cinco cavidades identificadas[1]. Hoje sabemos que já foram descobertas mais de 80 cavernas e grutas no município.

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Lajedo do Rosário – Foto – Ricardo Sávio Trigueiro de Morais.

As cavidades naturais desta área são estruturas de pequeno a médio porte de desenvolvimento em rocha calcária, apresentando desenvolvimento linear médio em torno dos 100 metros. Há, porém, cavidades que fogem a tal padrão e aproximam-se dos 400 metros ou mais.

A profundidade média das cavernas também é pouco expressiva, ficando em torno de oito a dez metros. Deve-se isso às características do calcário Jandaíra, que estratigraficamente não é muito profundo, sendo os estratos praticamente horizontais, o que não favorece a formação de cavidades com marcante desenvolvimento vertical.

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Outro aspecto do Lajedo do Rosário – Foto – Rostand Medeiros.

As cavernas e grutas do Lajedo do Rosário representam um rico patrimônio natural, especialmente quando se considera a diversidade dos ambientes e a rica (e ainda pouco estudada), biologia ali presente.

Superficialmente, por não possibilitar fácil acesso e locomoção por possuir inúmeras fendas e ravinas, a capa rochosa do Lajedo do Rosário ostenta, ainda, inúmeros lapiás[2], criando uma paisagem incomum, que favorece, essencialmente, a sobrevivência de espécies ameaçadas da caatinga brasileira, tanto da fauna, quanto da flora.

Lá crescem árvores de grande porte, destacando-se o angico (Piptadenia macrocarpa), a aroeira (Astronium urundeuva Engl.), a craibeira (Tabebuia sp.), a faveleira (Cnidoscolus phyllacanthus), macambira (Bromelia laciniosa Mart.), a oiticica (Licania rigida), o pereiro (Aspidosperma pyrifolium) e o mulgungu (Erythrina velutina), dentre tantos outros.

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Foto – Rostand Medeiros.

Pela sua morfologia, o Lajedo do Rosário tende a apresentar ilhas de vegetação – nos locais onde a rocha cede espaço à existência de solo – setores que passam a abrigar rica fauna e flora, onde muitas vezes as espécies encontram refúgio contra a caça ilegal e a exploração sem controle, muito devido ao acesso extremamente difícil.

Importância do Lajedo do Rosário

As belezas naturais presentes nas cavernas do Lajedo do Rosário destacam-se de diversas formas e chamam a atenção do visitante as estalactites e estalagmites, que formam corpos cristalinos de rara beleza. Por esse motivo, justifica-se que o bem natural ali encontrado seja protegido, incluindo-se os existentes em sua sub-superfície.

Pelo aspecto da hidrologia, o Rosário representa um importante ponto de recarga da bacia hidrográfica do Rio Apodi, posto que a drenagem criptorréica funciona como uma grande calha que transporta a precipitação pluvial da região ao grande rio[3], alimentando fontes naturais que servem à população de vários modos.

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A importância dos aspectos ligados a hidrologia do Lajedo do Rosário, se refletem na existência de um verdadeiro oásis em pleno sertão nordestino – Foto – Sólon Rodrigues Almeida Netto.

Entre estes se encontram os agroprodutores locais, que possuem extensas plantações de arroz em terrenos que permanecem a maior parte do ano com boa quantidade de água pela forma como o Lajedo do Rosário contribui  a recarga do lençol freático, promovendo a circulação e manutenção de todo o sistema hídrico daquela região, mesmo nos períodos de maior estiagem, quando grande parte das terras adjacentes se tornam imprestáveis à agricultura tradicional.

Entre as muitas cavidades naturais ali existentes, mais precisamente na extremidade sudeste do Lajedo do Rosário, se destaca de sobremaneira a Caverna dos Crotes.

Uma Bela Caverna

Facilmente se atinge a entrada desta cavidade contornando o Lajedo subindo pela picada quase fechada que sai da estrada na casa do Sr. Elias Cardoso Souza.

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Aspecto interno da Caverna dos Crotes – Foto – Alex Gomes.

A cavidade apresenta inúmeras clarabóias que conectam seus condutos com o ambiente exterior. Da principal delas, surge a copa de uma grande e aparentemente muito antiga árvore do tipo oiticica (Licania rígida), da qual comentaremos melhor adiante.

As claraboias podem ser utilizadas como entradas auxiliares, desde que através do uso do equipamento de rapel. Existem apenas duas entradas acessíveis diretamente, sem o uso de cordas, onde ambas estão associados a um desabamento de blocos calcários, ocasionado na junção de duas sequências de falhas da superfície do afloramento onde se situa a cavidade, sendo a mais utilizada a que fica do lado leste.

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Conduto da Cachoeira do laguinho da Caverna dos Crotes – Foto – Sólon Rodrigues Almeida Netto

Essa entrada principal possui uma característica exterior muito marcante e singular, pois está cercada por uma vegetação que na região é conhecida popularmente como crotes, ou cróton, que com suas folhas pontiagudas e de um verde escuro lustroso, pertencente à família das euforbiáceas, sendo plantas típicas de regiões quentes, com mais de mil espécies catalogadas, muitas das quais úteis ao homem, tendo muita utilização em jardins e projetos paisagísticos. Em todo patrimônio espeleológico do Rio Grande do Norte, a profusão deste vegetal, só aparece nesta condição somente nessa caverna.

Desenvolvimento interior é retilíneo com uma área total de 262,50 metros e desnível de 25 metros, sendo uma das maiores cavernas listadas neste município.

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Detalhe de espeleotema da Caverna dos Crotes – Foto – Ricardo Sávio Trigueiro de Morais.

Os espeleotemas da Caverna dos Crotes são muito diversificados. O fluxo d’água escorre por eles nessa caverna, existindo ocasionalmente na forma de respingos pelas fraturas do calcário. Geram-se enormes estalactites e estalagmites, além de espeleotemas do tipo couve-flor, cortinas e especialmente pérolas de caverna em quantidade considerável à região. Essas peças oólitas estão em maior número em poças de acúmulo pluviométrico, que são abastecidas por lençóis existentes no calcário do Lajedo do Rosário. Esse mesmo fluxo natural que alimenta a caverna é sugerido também pela presença de plantas, os crotes, que não são xerófilas. Aparentemente o fluxo de água demora muito tempo para se extinguir, pois durante a realização de trabalhos espeleológicas anteriormente desenvolvidos nesta cavidade, ocorridas em períodos de forte estiagem, ainda foram encontradas gotejamentos dentro da Caverna dos Crotes.

Características Singulares e Interessantes  

Os salões normalmente ocorrem nos desenvolvimentos dos próprios condutos, confundindo-se com estes. A caverna toda esta associada a uma grande falha geológica que molda seu eixo central. Nessa linha, há inúmeras clarabóias que iluminam cerca de 70% da caverna, fazendo seu ambiente interior muito aprazível ao ser humano.

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Iluminação das claraboias da cavidade – Foto – Rostand Medeiros

No conduto principal, descem do teto raízes da mesma vegetação que há nas entradas, formando verdadeiras “cortinas” de raízes. Igualmente algumas árvores do tipo oiticicas surgem do interior da caverna e transpassam suas clarabóias. A maior delas, cujo tronco ultrapassa facilmente a circunferência de três metros, sua copa serve de referência para a localização da cavidade em meio o grande lajedo calcário. Está localizado no local batizado como Salão da Oiticica das Abelhas.

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Exemplar da limitada fauna da Caverna dos Crotes. Este é o amblipígio, um aracnídeo que faz parte da mesma classe das aranhas, escorpiões e carrapatos. Seus olhos pequenos, pernas finas e corpo bulboso proporcionam uma aparência um tanto quanto asquerosa, mas ela é totalmente inofensiva e no Brasil, existem aproximadamente 13 espécies catalogadas – Foto Ricardo Sávio Trigueiro de Morais.

Nesses locais há poucos espeleotemas, mas intensa beleza visual e muita vida, especialmente aves que nidificam na vegetação que há associada às clarabóias.

A seqüência de corredores leva por salões e espaços bem amplos.  São habitados por rica fauna, desde insetos, rasga-mortalhas, outros pássaros não identificados, alguns morcegos, diversos insetos e aracnídeos.

O fato de tamanha diversidade deve-se a inúmeros trechos da caverna ter penetração de luz natural por fendas. Há também muitas plantas da mesma espécie dos crotes da entrada. As raízes descem por qualquer fratura, vindo atingir o fértil e úmido chão da caverna, em vários locais com espessa camada de resíduos sedimentares e material orgânico.

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A grande e velha oiticica da Caverna dos Crotes – Foto – Rostand Medeiros.

Outra característica interessante são as muitas ossadas de animais pequenos e médios. Algumas ainda estão inteiras. Em sua maioria de mamíferos como roedores, morcegos, além de cabras que ficam presas na caverna. Diferentemente das demais cavernas exploradas, por essa ter um constante fluxo d´água em inúmeros trechos, apresenta elevado grau de re-calcificação e sedimentação desse material, mostrando estruturas totalmente recobertas por calcário liso e perolado, quando na água, ou mesmo poroso, nos níveis mais secos.

Sugere-se a presença de fósseis mais antigos, pois todas as estruturas orgânicas presentes estão em processo de fossilização acelerado, pelas condições locais bastante propícias.

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Foto – Rostand Medeiros.

Não há nenhum tipo de pichação. As visitas realizadas pelas pessoas que moram na região parecem se resumir ao interesse pelo mel, nas poucas colméias ali existentes. O pouco lixo que se acumula é decorrente dessa atividade. Mas não é significativo.

Existe um potencial turístico, principalmente pelas formas sugeridas pelas plantas e o ambiente diferenciado que elas criam. Locais contam, inclusive, histórias de pessoas que se utilizavam daquele abrigo natural para confecção de artefatos e instrumentos de madeira, como carros de boi. Histórias impossíveis, analisada a topografia e o acesso à caverna.

Nos outros domínios a caverna existe um pequeno lago criado pelo acúmulo que se apresenta com água na maior parte do ano, localizado em um nível superior da caverna. O outro pode ser tomado a partir do poço que há no final do conduto central da cavidade. O fosso, de cerca de oito a dez metros de profundidade desenvolve um curto conduto com teto-baixo, mas muito ornamentado por espeleotemas.

Sobre vários aspectos a Caverna dos Crotes, com suas singulares e interessantes características, deve primeiramente ser preservada e, guardada as normas ideias e legais de uso, destinada ao turismo.

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Os autores deste artigo – Sólon Rodrigues Almeida Netto (macacão vermelho) e Rostand Medeiros – Foto – Ricardo Sávio Trigueiro de Morais.

NOTAS

[1] Dados obtidos a partir da Cooperação Técnica SEPARN-IBAMA, ref. Termo de Cooperação Técnica nº 001/2000 – Superintendência Estadual do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis – IBAMA – Rio Grande do Norte.

[2] Formações residuais típicas dos ambientes cársticos, originadas da dissolução da rocha carbonática pela água atmosférica, criando feições pontiagudas nas rochas aflorantes.

[3] Em ambientes cársticos verifica-se o que se chama de drenagem criptorréica, quando os fluxos d’água não correm em superfície, mas em sub-superfície, pelas condições de solubilidade da rocha, fenômeno que, inclusive, é diretamente responsável pelo surgimento das cavernas e cria uma íntima relação entre as cavidades naturais subterrâneas e a circulação d’água nos rios e lagos.

REBOCADORES SÃO AFUNDADOS NA COSTA PERNAMBUCANA E AUMENTAM AS ATRAÇÕES DO TURISMO DE MERGULHO NA REGIÃO

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Fonte – http://www.pe.gov.br/blog/2017/02/08/rebocadores-sao-afundados-na-costa-pernambucana-e-aumentam-o-atrativo-do-programa-mergulhe-pernambuco/

 Um Projeto Semelhante No Rio Grande Do Norte Afundou na Burocracia!

Hoje, 8 de fevereiro de 2017, afundaram quatro rebocadores na costa pernambucana. Mas o que poderia ser entendido como um acidente, associado a uma possível tragédia, é na verdade uma ação turística.

Estes barcos agora fazem parte do Parque dos Naufrágios de Pernambuco e se juntam a outros 14 rebocadores já afundados. São diversos naufrágios dos mais variados tipos e épocas, e até recifes artificias, criados através de projetos entre operadoras de mergulho, empresas privadas e públicas.

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Foto: Divulgação/brasilmergulho.com.br

A área é considerada um dos melhores locais para prática de mergulho no Brasil e, além dos naufrágios propositais, o Parque dos Naufrágios conta com navios históricos em sua área. Alguns exemplares datam do período da Segunda Guerra Mundial. 

Hoje foram afundados quatro rebocadores: Bellatrix (30 metros de comprimento), Phoenix (30 metros), São José (24 metros) e Virgo (26 metros). Os três primeiros serão submersos de uma vez. O afundamento simultâneo de três embarcações é inédito. Eles ficarão a uma distância de 13 km da costa a uma profundidade de 28 metros. Já o rebocador Virgo será afundado a 11 km do Porto do Recife e ficará a 25 metros de profundidade.

Estava previsto que o processo deveria durar cerca de 10 horas, começando às 7h e terminando por volta das 17h. Os barcos deveriam sair para o mar juntos, puxados entre si com uma corda. Após serem preparadas com a eliminação de combustíveis, contaminantes e outros materiais perigosos; as embarcações serão naufragadas por meio da abertura das válvulas, que permite a inundação gradual.

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Foto: Divulgação/brasilmergulho.com.br

O afundamento de hoje foi destacado pelo deputado estadual Gustavo Negromonte (PMDB), na Reunião Plenária desta terça (7). A iniciativa faz parte do Programa Mergulha Pernambuco, da Secretaria Estadual de Turismo, Esportes e Lazer, em conjunto com empresas do setor. Segundo o deputado o afundamento custou apenas R$ 8 mil e vai incentivar um nicho da área de turismo que atraiu 500 mil turistas em todo o País, no ano passado. “Recife tem as melhores condições de mergulho no Brasil: a água mais limpa, a melhor temperatura e um Parque Marinho de Naufrágios, com 29 navios afundados na costa”, apontou. Para o deputado, o projeto é audacioso e uma prova de que, mesmo numa época de crise, é possível fazer mais e melhor.

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Foto: Divulgação/brasilmergulho.com.br

Embarcações afundadas são consideradas excelentes pontos de mergulho, atraindo turistas de todo o mundo. A expectativa da Secretaria de Turismo de Pernambuco, que apresentou o projeto Mergulhe Pernambuco na tarde de ontem, é de que o número de visitantes aumente neste ano. “Pernambuco já é considerado um dos principais destinos do Brasil e do mundo em relação a isso. Esses novos pontos vão promover ainda mais nosso turismo e aumentar nossa visibilidade como destino do turismo de aventura”, afirmou o secretário de Turismo do estado, Felipe Carreras.

O parque vem atraindo mergulhadores de todo o País. E graças à divulgação feita em países da América do Sul, Pernambuco passou a receber centenas de turistas argentinos interessados na atração. Em 2016, foram vendidos cerca de 450 pacotes turísticos para conhecer o parque dos naufrágios artificiais. Desses, 160 foram comprados por argentinos.

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Foto: Divulgação/brasilmergulho.com.br

Além da capital pernambucana, Fernando de Noronha, Abrolhos (Bahia) e Bombinhas (Santa Catarina) contam com parques de embarcações naufragadas. A criação de recifes artificiais começou na década de 1820, nos Estados Unidos.

De acordo com o biólogo Henrique Maranhão, da UFPE, além das vantagens econômicas, pelo incremento no turismo, a ação traz benefícios ao meio ambiente. “Os naufrágios atraem organismos, que ficam aderidos à superfície. Com isso, peixes começam a se interessar pela área e chegam procurando abrigo e alimentação”, frisou o pesquisador. Tudo isso permite o estabelecimento de uma cadeia alimentar e de relações ecológicas no entorno do recife.

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Foto: Divulgação/brasilmergulho.com.br

O projeto de criação do Parque Estadual Marinho dos Naufrágios de Pernambuco reuniu na sua criação entidades como Ibama, UFRPE, UFPE, Iphan, Setur, Diretoria de Turismo de Ipojuca e Secretaria de Meio Ambiente de Olinda, além de representantes de hotéis e de empresas que trabalham com mergulho.

Na sequência de sua criação foi oficializado um grupo de trabalho que deu prosseguimento as etapas legais necessárias para implantar a primeira unidade de conservação deste tipo no Estado.

Os recursos para o Parque Marinho foram oriundos do fundo de compensação ambiental, disponíveis para serem investidos em unidades de conservação.

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Os rebocadores afundados – Fonte https://www.mercadoeeventos.com.br/noticias/destinos/parque-de-naufragios-de-pernambuco-ganha-novas-atracoes-para-mergulho/

A imprensa pernambucana comentou que o Rio Grande do Norte estuda a implantação de um projeto semelhante.

Realmente em outubro de 2013 a imprensa natalense vinculou reportagens com este tema, onde existia a ideia de serem utilizados barcos abandonados que se encontravam às margens do rio Potengi e no porto de Areia Branca para a existência desta área de mergulho. A imprensa informou também que na época chegou a ocorrer uma reunião com a participação de representantes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama), Marinha do Brasil, Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Secretaria Municipal de Turismo (Seturde) e empresas operadoras de mergulho.

Ficou definido que A Seturde e a UFRN ficariam responsáveis por apresentar um projeto conjunto para a criação do Parque dos Naufrágios. Com essa proposta, o Ibama abriria um pedido de licenciamento ambiental e disponibilizaria uma equipe composta por três oceanógrafos, três engenheiros de pesca e um biólogo especialista em peixes recifais para conduzir o licenciamento.

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Fonte – http://melhoresdestinosdobrasil.com.br/os-melhores-destinos/olinda-pe/mergulhar-nos-naufragios-de-olinda/

Mas morremos na praia!!!

Informações de pessoas ligadas ao meio dão conta que dois navios foram doados e preparados, existindo todas as autorizações da Marinha, inclusive com a indicação do ponto que seria o Parque de Naufrágios de Natal, mas demorou muito a autorização dos órgãos ligados a área ambiental federal e ambos os navios se deterioraram no estaleiro… Uma lástima pra Natal e para o Rio Grande do Norte, sempre tão pobre!

O triste é que estas alternativas ao Turismo, de custo relativamente baixo até onde entendo, são sempre desprezadas aqui em detrimento a obras muito caras, com muita engenharia e de retorno prático duvidoso.  Mas que são ótimas para a canalização de dinheiro Federal, principalmente em períodos pré eleitorais.

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Imagem ilustrativa – Crédito: Fernando Clark/Cortesia

FONTES

http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/suplementos/tur/online/parque-dos-naufragios-em-pernambuco-ganha-novos-atrativos-1.1700606

http://www.brasilmergulho.com/bellatrix/

http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cidades/geral/noticia/2013/04/23/estado-tera-parque-marinho-de-naufragios-80671.php

https://pedesenvolvimento.com/2013/04/29/pernambuco-tera-parque-estadual-marinho-dos-naufragios/

http://www.alepe.pe.gov.br/2017/02/07/gustavo-negromonte-destaca-acao-que-vai-incrementar-o-mergulho-de-naufragios-no-recife/

http://www.nominuto.com/airtonbulhoes/barcos-abandonados-na-redinha-podem-abrigar-a-zica-marinheiro/15897/

http://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2013/10/criacao-de-parque-dos-naufragios-e-retomada-por-orgaos-no-rn.html

MARACAJAÚ E RIO DO FOGO – ANTIGOS CEMITÉRIOS DE BARCOS DA COSTA POTIGUAR

Yet he held his hould

Ao longo da história de duas belas praias do litoral potiguar, ocorreram vários relatos de afundamentos até hoje praticamente desconhecidos

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Na história do Rio Grande do Norte sempre foi muito pouco relevante os fatos ligados às questões náuticas e a série de problemas que aqui existiam para quem navegava.

Era um período de navegações heroicas e arriscadas, onde os homens se aventuravam por costas ainda não totalmente mapeadas, ou passando por áreas sem os faróis para o auxílio à navegação. Coisas como as atuais maravilhas tecnológicas de navegabilidade sequer povoavam as mentes dos novelistas mais criativos. Conduzir um barco a vela, através dos oceanos era então uma tarefa que exigia muita atenção e a experiência de navegação dos seus comandantes era fundamental para uma boa viagem.

É bem verdade que já se utilizava bússolas, mapas de navegação conhecidos, sextantes, cronômetros marítimos e outras ferramentas que ajudavam na navegação. Mas nada era totalmente seguro.

A Complicada Costa Potiguar

Localizado no “cotovelo” da América do Sul, a posição geográfica do Rio Grande do Norte sempre se caracterizou para a navegação pela existência de ventos fortes em certas épocas do ano, correntes marítimas complicadas e algumas perigosas áreas com recifes de corais.

Antigos instrumentos de navegação - maxinecooper.wordpress.com
Antigos instrumentos de navegação – maxinecooper.wordpress.com

Apesar dos perigos isso não impediu que portugueses, espanhóis, franceses, holandeses e marujos de outras nacionalidades navegassem no nosso litoral e muitos naufrágios marcam a nossa história.

O interessante site Naufrágios do Brasil (http://www.naufragiosdobrasil.com.br) possui uma página específica para os afundamentos em águas potiguares. A relação traz os nomes de mais de 100 barcos e alguns aviões que repousam no fundo do mar. O mais antigo registro existente neste site é de um barco, provavelmente uma caravela portuguesa, com o nome “São João e Almas”, que se perdeu na região do Cabo de São Roque no longínquo ano de 1677.

Ao longo dos séculos seguintes não era tão raro a notícia de algum afundamento em águas costeiras do Rio Grande do Norte, especialmente nas regiões onde se encontram recifes de corais, principalmente na área das conhecidas praias de Maracajaú e Rio do Fogo.

Área de recifes de corais, ou parrachos de Maracajaú e Rio do Fogo, costa do Rio Grande do Norte
Área de recifes de corais, ou parrachos de Maracajaú e Rio do Fogo, costa do Rio Grande do Norte

Atualmente estas praias são locais de destinação turística e de veraneio, possuindo ambos os locais tradicionais comunidades de pescadores. Mas a maioria dos naufrágios ali ocorridos é desconhecida e envoltos em histórias onde o destino da carga era mais importante que a vida dos tripulantes.

Uma Região Perigosa Para um Velho Brigue Inglês

Há quase 174 anos o velho brigue inglês Orion, de 198 toneladas, bateu e afundou nos recifes de coral diante da praia potiguar de Rio do Fogo, onde nesta época já existia uma povoação de pescadores.

Construído em 1804, no estaleiro pertencente a John Holt Jr. e John Richardson, em Whitby, o terceiro maior centro de construção naval da Inglaterra, depois de Londres e Newcastle, o Orion serviu a Royal Navy (Marinha Real Britânica) como barco de transportes nos combates contra as forças de Napoleão. Este brigue, um barco que possuía normalmente dois mastros maiores, uma tripulação variável de oito a quinze homens, uma média de 40 a 90 metros de comprimento e uma tonelagem que variava de 160 a 1.150, foi depois vendido para uma empresa de transportes marítimos de Londres e já se encontrava a 36 anos navegando pelos sete mares quando encontrou seu fim no dia 30 de março de 1840, uma segunda feira.

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Na hemeroteca do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, encontramos nas páginas amareladas do velho jornal Publicador Natalense, edição de sábado, 2 de maio de 1840, as notícias do Expediente do Governo provincial potiguar, cuja a presidência era exercida por Manoel de Assis Mascarenhas. Nesta páginas, uma espécie de Diário Oficial da época, consta que o juiz de paz de Touros, na época um município emancipado desde 1833, trazia notícias sobre o acidente do Orion, dando conta que o mesmo vinha carregado de café do sul do Brasil.

Encontramos a informação que havia sido negado ao juiz de paz de Touros, cujo nome não foi divulgado, o seu pedido para que os jangadeiros de Rio do Fogo ficassem de posse da metade dos objetos e da carga do brigue acidentado. O pedido do juiz ia de encontro ao Artigo 18 do Tratado firmado entre os reinos do Brasil e da Inglaterra, sobre o destino das cargas de naves naufragadas.

O Presidente da Província Manoel de Assis Mascarenhas, que deixaria o cargo em julho de 1841, exigia que o juiz de Paz de Touros, que possuía jurisdição sobre Rio do Fogo, arrecadasse com os jangadeiros da localidade tudo que eles haviam salvado do Orion. Entretanto no mesmo despacho percebemos que o Presidente não parecia confiar no juiz de paz e nem estava brincando em relação a suas ordens, pois ordenava ao “Inspetor interino da Thesouraria da Fazenda” que enviasse um oficial e guardas da Alfandega para arrecadarem e inventariarem os objetos salvos. Para que a ordem ficasse mais bem transmitida, no mesmo despacho o Presidente abonava o soldo de cinco guardas do Corpo de Polícia para seguirem a Touros para participarem desta missão.

Típico brigue inglês
Típico brigue inglês

Neste caso do Orion não sabemos nada do que causou a destruição do brigue, o que houve com a tripulação e nem se os jangadeiros de Rio do Fogo, ao salvarem os objetos e a carga do barco sinistrado agiram na ânsia de conseguirem vender o que arrecadaram a revelia da tripulação e das autoridades, ou se eles foram incitados a salvarem este material pela tripulação inglesa, com a promessa de ficarem com a metade do que conseguiram tirar das águas e depois tiveram a sua parte no acordo retirado a força pelas autoridades comandadas pelo Presidente Manoel de Assis Mascarenhas.

A Barca Norte Americana Destruída em Maracajaú

Onze anos após o desastre do brigue Orion, uma barca, ou “bark” em inglês, uma nave com três ou mais mastros, com um comprimento que poderia variar de 35 a 60 metros, foi totalmente destruída nos belos recifes de coral de Maracajaú. Estes recifes de corais são conhecidos na região como parrachos.

A edição existente na internet do tradicional jornal The New York Times, de 30 de outubro de 1851, da conta que os seus jornalistas haviam recebido a notícia que a barca Ruth, que seguia do porto norte-americano de Baltimore para o Rio de Janeiro, havia se perdido em “Patagonia”, próximo “ao Cabo de São Roque”, mas a tripulação se encontrava a salvo. Parece que as informações geográficas dos jornais americanos desta época eram bem complicadas.

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No periódico O Argus Natalense, existente na hemeroteca do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, na sua edição de sábado, 11 de outubro de 1851, que encontramos uma notícia mais abalizada sobre o acidente da Ruth, com o destino da sua carga envolta em um rumoroso inquérito judicial.

Consta que a Ruth vinha dos Estados Unidos com 2.600 “barricas” contendo farinha de trigo, tendo se chocado com os parrachos de Maracajaú nos primeiros dias do mês de setembro de 1851. Este era um barco novo, tinha 337 toneladas e havia sido lançado ao mar em Baltimore no dia 27 de julho de 1847, sendo um dos 80 barcos construídos nos estaleiros daquele porto durante aquele ano.

Já no dia 15 daquele mês o “Inspector” da Alfandega da Cidade do Natal Manoel Pedro Alvares, informava que Antônio Francisco Nobre Câmara, o subdelegado de Maracajaú, havia firmado com John Llufrio, o capitão da barca, um norte americano de 43 anos de idade e natural de Rhode Island, um acordo onde os jangadeiros de Maracajaú e proximidades receberiam 50% da carga salva. Mas o inspetor Pedro Alvares acusava que o subdelegado Nobre Câmara participava e dava apoio ao extravio de mercadorias da barca naufragada, sem o conhecimento do capitão Llufrio.

Porto de Baltimore, quadro de Fitz Hugh Lane
Porto de Baltimore, quadro de Fitz Hugh Lane

Como a farinha de trigo é um produto que se transforma no contato com a água, tudo indica que a Ruth bateu nos parrachos e ficou com parte do casco fora da linha d’água, deixando muito de sua carga intacta. O inspetor Pedro Alvares informou, entre outras coisas, que todos os dias “de 100 a 200 barricas” desembarcavam na praia de Maracajaú, que os sete soldados do Corpo de Polícia de Maracajaú participavam do “roubo” e revendiam as barricas de farinha de trigo. Outra acusação dava conta que uma barcaça (nome e origem não mencionados) havia seguido para “portos do norte” com 120 barricas e que apenas 200 das 2.600 barricas, menos de 10% da carga, estavam sob a guarda da autoridade alfandegaria.

O inspetor Pedro Alvares informou também que contratou jangadeiros para salvarem barricas da Ruth, pagando 1.600 réis por unidade salva, mas parece que os jangadeiros preferiam realizar o transporte das barricas para um destino mais rentável. Pois no mesmo relato o inspetor pedia a seu chefe em Natal, João Bernardino Nunes, que pelo menos 30 praças do Corpo de Polícia fossem enviados para Maracajaú para evitar o extravio da carga, pois a entrega indevida deste material já se estendia por “mais de uma légua” ao longo da costa.

Pelo que está transcrito em O Argus Natalense, aparentemente o inspetor Pedro Alvares desejava cumprir o seu papel de fiscal da fazenda pública e cobrar as taxas alfandegarias pelos salvados da Ruth, independente do acordo feito pelo subdelegado Nobre Câmara com o capitão John Llufrio. Mas parece que seus esforços foram em vão.

Outros Acidentes

Quase dez anos depois do sinistro da Ruth, entre dezembro de 1860 e janeiro do ano seguinte uma pequena escuna norte americana chamada Madshler, de 350 toneladas, cujo comandante era o capitão Henshel, naufragou em Maracajaú com sua carga de ossos de animais, uma mercadoria que na época era destinada a ser reciclada como ração animal. Estas são praticamente as únicas indicações deste sinistro, que está registrado no periódico carioca Diário do Rio de Janeiro, edição de quarta feira, 30 de janeiro de 1861 e preservado na hemeroteca da Biblioteca Nacional.

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No mesmo jornal, na edição de 25 de maio de 1869, uma terça feira, na segunda página, na seção destinada às notícias vindas de Pernambuco, dá conta que no dia 10 de abril daquele ano um barco brasileiro chamado Santa Cruz, do tipo iate, ou “hiate” na grafia da época, registrado em Recife, havia partido da capital pernambucana com uma carga de fazendas e outros gêneros, a maioria desta pertencente ao rico comerciante Pedro José Gonçalves da Silva, para a cidade cearense de Aracati.

Dois dias depois, as oito da manhã de uma segunda feira, em meio a uma tempestade, o Santa Cruz encalha defronte ao povoado de Maracajaú. Ao bater nos parrachos foi aberto um rombo no casco de madeira, o barco encalhou e passou quatro horas enchendo de água e perdendo grande parte de sua carga. Contam que pouco foi salvo e que não se perdeu foi vendido em Natal “por conta do seguro”.

Talvez por ser um barco de pequeno porte, ou pela natureza de sua carga, ou quem sabe por ser o mesmo oriundo de um porto nordestino, as notícias sobre o sinistro desta embarcação são limitadas. Não sabemos quem era seu capitão, ou “Mestre”, nem o número de tripulantes. Desta vez nada temos sobre a participação da comunidade local no salvamento da carga e não existem problemas envolvendo agentes públicos e a carga sinistrada.

Entretanto sabemos que o frete entre Recife e Aracati foi de parcos 600 mil réis e que a avaliação do sinistro ficou na casa dos 120 contos. Consta na nota deste jornal uma forte crítica pelo uso de barcos limitados como o Santa Cruz, em detrimento da utilização de vapores no transporte de cargas.

Parrachos de Maracajaú, um afamado destino turístico
Parrachos de Maracajaú, um afamado destino turístico

Oito meses depois do sinistro do Santa Cruz, o próximo barco a sofrer danos nos parrachos de Maracajaú é a barca inglesa Gabalva. Era o dia 11 de janeiro de 1870, uma terça feira, a barca Gabalva tinha 479 toneladas, era comandada pelo capitão W. Hyde, transportava uma carga de vinhos, móveis, fazendas e outras mercadorias. A nave era registrada em Londres, seguia de Boston (outras fontes apontam Baltimore), nos Estados Unidos, em direção à cidade australiana de Melbourne. Este acidente, tudo indica, ocorreu a noite, em meio a uma tempestade.

Apesar da carga valiosa e útil, nada foi comentado sobre problemas envolvendo o recolhimento indevido da carga deste barco.

Afundamentos Desconhecidos e Cargas Típicas de Uma Época

A barca americana chamada T. Jeffie Southard, de 830 toneladas, comandada pelo capitão G. R. Handy, que seguia de Nova York a São Francisco através do Cabo Horn, sul da Argentina, foi destruída por choque com os parrachos de Maracajaú no dia 18 de março de 1882. Logo foi despachado para a região o pessoal do serviço alfandegário de Natal e membros da Força Pública para evitar o desvio da carga. O registro deste afundamento se encontra no periódico cearense Gazeta do Norte, de 15 de abril de 1882, existente na hemeroteca da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro.

Típico padrão de uma barca americana
Típico padrão de uma barca americana

Pouco mais de um ano após este sinistro, na metade de junho de 1883, outro barco se tornou uma nova vítima dos parrachos de Rio do Fogo. Mas a nacionalidade, nome, tonelagem, nome do capitão, quantidade e destino dos tripulantes ficaram totalmente desconhecidos. Mas o jornal carioca Gazeta de Notícias, edição de sábado, 30 de junho de 1883, aponta que novamente as autoridades locais se apresavam em garantir os salvados deste barco misterioso.

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Quase no final do século XIX é a vez do patacho holandês Catherine Klesin  ir de encontro aos parrachos de Maracajaú. Os patachos eram barcos de dois mastros e tonelagem variando de 40 a 100. No caso da Catherine Klesin ela era comandada pelo capitão J. Douwes, junto com uma tripulação de quatro marinheiros (todos se salvaram) e bateu nos parrachos às três da manhã. O patacho Catherine Klesin ficou totalmente destruído, mas parte do carregamento foi salvo. Ainda sobre o que a Catherine Klesin temos a informação que o material que ela transportava era uma miscelânea de produtos que tinham sua importância no final do século XIX; carvão de pedra, malte, garrafas vazias, coque, ferro em barras, vergalhões, sal, ácido sulfúrico, tintas, cortiça e sabão de potassa.

O acidente se deu em 5 de março de 1898 e ficou registrado nas páginas do jornal natalense A República, edição do dia 8 de março.

Conclusão

Os relatos dos afundamentos em Maracajaú e Rio do Fogo ao longo do século XIX, pelas características dos barcos e de suas cargas, pouco tem do charme envolvendo as histórias dos galeões espanhóis que afundaram no Caribe abarrotados de ouro e prata. Mas o conhecimento destes sinistros mostram características praticamente desconhecidas dos problemas marítimos na costa potiguar, a relação das autoridades com estes fatos e como as comunidades tradicionais de pescadores interagiam com estes acidentes.

Relato do afundamento da barca americana T. Jeffie Southard
Relato do afundamento da barca americana T. Jeffie Southard

Através dos relatos existentes nestes jornais antigos conseguimos informações sobre oito naufrágios ocorridos entre 1840 e 1898, de diferentes nacionalidades, transportando mercadorias variadas, provavelmente ainda latente na mente e na tradição oral dos pescadores de Maracajaú e Rio do Fogo, o que pode revelar muito mais sobre estes sinistros, se bem trabalhadas e com uma pesquisa histórica mais profunda.

E não podemos esquecer que as áreas de navegação de Maracajaú e Rio do Fogo, mesmo com todo avanço tecnológico, ainda provocam acidentes. – Ver – http://portalnoar.com/policia-divulga-video-do-resgate-a-naufragos-no-litoral-norte-do-rn/

VER NO TOK DE HISTÓRIA – https://tokdehistoria.wordpress.com/2011/06/15/o-naufragio-do-sao-luiz/

Fontes – http://freespace.virgin.net/suesteph.baines/williamholt1752.html

http://www.bbc.co.uk/northyorkshire/content/articles/2005/04/04/coast05walks_stage1.shtml

http://fultonhistory.com/Newspapers%206/New%20York%20NY%20Tribune/New%20York%20NY%20Tribune%201851%20Nov%20-%20Jan%201852%20Grayscale/New%20York%20NY%20Tribune%201851%20Nov%20-%20Jan%

http://postingsfromthepast.blogspot.com.br/2006/08/baltimore-daily-news-november-19-1978.html

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AS BELEZAS DO PARQUE NACIONAL VALE DO CATIMBAU, EM BUÍQUE, PERNAMBUCO

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Este material foi gentilmente cedido pelo Professor Arnaldo Vitorino, da cidade pernambucana de Santa Cruz do Capibaribe, que visitou este local com amigos e trouxe estas fotos maravilhosas. Ele inclusive colocou algumas dicas que reproduzimos em nosso blog. Parabéns Vitorino!

Vale do Catimbau-PE (12)

Localizado a 283 km da capital de Pernambuco, Recife, o Vale do Catimbau é um complexo de Serras, Vales e Rochas do agreste e do sertão. Possui 62.300 hectares de terra, o Vale preserva uma das últimas áreas de Caatinga.

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Catimbau, em Tupi, significa “Cachimbo pequeno apagado, práticas de feitiçaria e lugar de cobras” Tudo isso numa só palavra. O Vale do Catimbau foi nomeado Parque Nacional Catimbau pelo IPHAN em 2002 através do decreto 913/12.

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É considerado uma área de extrema importância Biológica, Geográfica e Arqueológica. A região possui registros de pinturas rupestres e artefatos que datam de um período de, pelo menos, 6.000 anos.

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O Parque Nacional Catimbau é o segundo maior do país, perdendo apenas para a Serra da Capivara, no Piauí.

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Possui terras nos municípios de Buíque, estendendo-se por áreas semi-áridas de Tupanatinga, Inajá e Ibimirim, já em plena Microrregião do Sertão do Moxotó.

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O Parque possui dezenas de Serras, vales, rochas das mais variadas formas e cores, além de uma grande riqueza de escrituras rupestres, histórias das tribos indígenas da região assim como seus cemitérios espalhados por todo o vale e vestígios de suas práticas ritualísticas.

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O parque possui só na região de Buíque, cerca de 10 trilhas ecológicas onde, Turistas e Excussões pedagógicas podem percorrer, com ajuda de guias locais qualificados, boa parte do parque e conhecer maravilhas e surpresas exóticas que essa região indígena oferece.\

Vale do Catimbau-PE (10)

Próximo ao parque está localizado a Vila Do Catimbau, formada por remanescentes de tribos indígenas que viveram na região, possui uma infra estrutura muito básica para acomodar os visitantes do Vale.

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Na Vila do Catimbau podemos encontrar a Associação dos Guias do Vale do Catimbau , é com eles que devemos nos informar e realizar as atividades no Parque Nacional, ao lado podemos encontrar lojinhas de conveniência, assim como uma Pousada e Restaurante Do Vale do Catimbau.

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Chegando à pousada, é só procurar por Dona Zefinha, a proprietária, o lugar é muito aconchegante, e dispões de ótimas refeições regionais. O Acesso ao Vale do Catimbau, para quem vai de Carro particular é fácil e bem sinalizado, porém para quem vai de transporte coletivo é preciso ir para Buique, centro, e seguir no emocionante “Pau de Arara” até a Vila do Catimbau. Dicas: Para quem vai de carro particular, não deixe de dar uma paradinha no Caminho para conhecer as cidades de Pesqueira, Arcoverde.

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1997 – NO SERTÃO CENTRAL DO CEARÁ – PROJETO DO POLO DE ECOTURISMO DO SERTÃO

AGOSTO DE 1997 – ESTE FOI UM DOS MELHORES PROJETOS QUE PARTICIPEI. FOI O MAPEAMENTO DA REGIÃO DO POLO DO SERTÃO CENTRAL, PARA UTILIZAÇÃO ECOTURÍSTICA, NOS MUNICÍPIO DE QUIXADÁ E QUIXERAMOBIM, NO CEARÁ. FORAM 20 DIAS BEM PROVEITOSOS E ESPECIAIS. COM OS AMIGOS ADEILTON RIGAUD E JOAQUIM DAS VIRGENS NETO

Autor – Rostand Medeiros

Os monólitos da Região Central do Ceará. Bela paisagem. Em Quixadá.
Os monólitos da Região Central do Ceará. Bela paisagem. Em Quixadá, Ceará.

Subida da Serra dos Macacos. Só no lombo de animal.
Subida da Serra dos Macacos. Belo local, mas a subida só no lombo de animal.

Açude da Faz. Logradouro
Açude da Faz. Logradouro

Eu e o velho Joaca tentando mostrar aos caçadores, sem muito sucesso, o erro de caçarem mocós. Não havia seca na época, mas as condições de vida deste pessoal não dava margem para debater sobre preservacionismo em meio a fome.
Eu e o velho Joaca tentando mostrar aos caçadores, sem muito sucesso, o erro de caçarem mocós. Não havia uma seca muito pesada nesta na época, mas as condições de vida deste pessoal não dava margem para debater muito sobre preservacionismo em meio ao espectro da fome.

Depois de trocar o pneu do Troller, em meio aos monólitos
Depois de trocar o pneu do Troller, em meio aos monólitos, com o guia Dagoberto, gente muito fina.  No Troller com motor VW 2.0 e caixa de marcha de D-20. Era uma máquina e tanto na época.

As perneiras que utilizávamos não era para aparecer bonito nas fotos, mas para proteger das picadas de cascavéis.
As perneiras que utilizávamos não era para aparecer bonito nas fotos, mas para proteger das picadas de cascavéis.

No alto da serra dos Cacos, horas a cavalo.
No alto da serra dos Cacos, horas a cavalo.

Com o pessoal da Secretária de Turismo do Estado do Ceará, transmitindo os dados de vinte dias de campo.
Com o pessoal da Secretária de Turismo do Estado do Ceará, transmitindo os dados de vinte dias de campo. Ao meu lado direito os amigos Adeilton Rigaud (sentado), atualmente na Petrobrás do Espirito Santo e Joaquim das Virgens Neto (em pé), atualmente no CPRM do Piauí

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ENFIM UMA BOA NOTÍCIA?

Esperamos que o visual desta foto de 2009, feita pelo amigo Leonardo Dantas, nunca mais se repita
Esperamos que o visual desta foto de 2009, feita pelo amigo Leonardo Dantas, nunca mais se repita

EM MEIO A TEMPOS TÃO COMPLICADOS, ENFIM SURGE UMA BOA NOTÍCIA PARA AQUELES QUE GOSTAM DA HISTÓRIA, PRINCIPALMENTE SOBRE O ENVOLVIMENTO DE NATAL DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL, POIS COMEÇOU AS OBRAS DE RESTAURAÇÃO DO PRÉDIO HISTÓRICO DA RAMPA.

VEJAM A MATÉRIA DO JORNAL BOM DIA RN, DA INTER TV CABUGI…

http://globotv.globo.com/inter-tv-rn/bom-dia-rn/v/obras-de-reforma-do-museu-da-rampa-sao-iniciadas-em-natal/2728583/

ESPERAMOS QUE TUDO CORRA BEM E LOGO OS POTIGUARES E SEUS VISITANTES POSSAM CONHECER MAIS DESTE PERÍODO DA NOSSA HISTÓRIA.

MAS COMO ISSO VAI OCORRER?

CONCORDO QUE DEVEM EXISTIR MANEIRAS DE VIABILIZAR ECONOMICAMENTE O LOCAL COM AS FUTURAS ATRAÇÕES EXISTENTES, MAS COMO ISSO SERÁ FEITO? QUEM VAI GERIR? O QUE VAI EXISTIR NO LOCAL?

NÃO PODEMOS ESQUECER QUE ESTA REFORMA É FEITA COM DINHEIRO PÚBLICO, EM LOCAL DE INTERESSE HISTÓRICO E O PRÉDIO DA RAMPA NÃO PODE SE TORNAR UM AMBIENTE FECHADO, ELITIZADO, EM PROVEITO DE CERTOS GRUPOS.

SERÁ QUE ALI VAI SE TORNAR UM CLUBE SOCIAL DE RICOS ADMIRADORES DA NOSSA HISTÓRIA, DE ABONADOS COLECIONADORES, BEM AS MARGENS DO RIO POTENGI E ABERTOS SÓ AOS “SÓCIOS”?

ESPERO QUE NÃO!

E A QUESTÃO TURÍSTICA?

PARA O BEM DESTE PRÉDIO HISTÓRICO, A SOCIEDADE POTIGUAR DEVE SIM FICAR DE OLHO NESTE LOCAL E NESTE PROJETO.

É NOSSA OBRIGAÇÃO PARA QUE ISSO TUDO NÃO VENHA SE TORNAR UMA MÁ NOTÍCIA.

A área da Rampa durante a Segunda Guerra Mundial
A área da Rampa durante a Segunda Guerra Mundial

TURISMO NO RIO GRANDE DO NORTE

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NA TERRA DO “JÁ TEVE” E DO “JÁ FOI”, O TURISMO OBTEVE UM GRANDE SUCESSO ECONÔMICO. MAS LOGO VEIO A  QUEDA. MUITOS ESPERAM QUE A COPA DO MUNDO DE 2014 AJUDE O TURISMO DO RN A VOLTAR AO SEU PASSADO DE GLÓRIA. SERÁ QUE ISSO VAI ACONTECER?  

Autor – Rostand Medeiros

O turismo no Rio Grande do Norte se tornou uma das principais atividades econômicas do estado. Esta atividade já possuiu um dos principais papeis no processo de desenvolvimento do estado, ocupando o posto de segunda fonte de renda estadual (Receita estimada de US$ 216.131.752 em 2002, segundo dados da SETUR-RN) e de maior empregador da iniciativa própria.

Em apenas cinco anos o número de visitantes que estiveram o Rio Grande do Norte praticamente dobrou – saiu de 1.423.886 em 2002, para 2.096.322 em 2007. Além disso, os atrativos se mostraram extremamente interessantes para os turistas. Dados indicavam que 91% dos turistas entrevistados desejavam retornar para uma nova visita.

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De 5 voos internacionais em 2003, o RN passou a receber 23 voos internacionais em 2005, sendo 5 regulares, operados pela TAP. Em 2002 o turismo gerava 80 mil empregos diretos. Em 2005 a atividade foi responsável por mais de 120 mil empregos diretos e 600 indiretos, em todo o estado. E nesse mesmo ano, a participação do turismo na economia potiguar excedeu o petróleo, o camarão, o melão e a castanha de caju, juntos e fez crescer a atividade imobiliária no estado, que passou a se voltar muito para o mercado internacional.

O Rio Grande do Norte passou a ser referência nacional em turismo internacional, com a maior quantidade de voos charters, conforme dados da própria EMBRATUR. Outra coisa importantíssima foi a implantação da política de Interiorização do Turismo. Isso acarretou a criação em 2005 de dois importantes polos turísticos: o Polo Turístico Costa Branca e o Polo Turístico do Seridó. Este último já roteirizado, em parceria com o SEBRAE, e o primeiro com o projeto de roteirização sendo executado em 2006. O próprio Polo Turístico Costa das Dunas, do qual faz parte Natal, Pipa e Touros, foi institucionalizado em 2005.

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Mas o Rio Grande do Norte, que já foi o segundo destino turístico mais procurado em 2006 no Nordeste, caiu para a quarta posição em 2010.

Com efeito, mesmo registrando rentabilidade, o turismo no Rio Grande do Norte vem em queda vertiginosa, principalmente no critério da chegada de visitantes estrangeiros. Se em 2010 foram 46 mil, o número está aquém dos anos anteriores. Em 2007, foram 255 mil, contra 299 mil do ano anterior e quase 350 mil em 2005.

Em termos de porcentagem  entre 2006 e 2010, o turismo internacional recuou 60,4% no Estado. Levantamento da OMT cita que o Rio Grande do Norte recebeu 46 mil turistas estrangeiros em 2010 – ano mais recente da pesquisa, enquanto aplicou R$ 30 milhões nesta área.

Em Pernambuco e Ceará, concorrentes diretos do Rio Grande do Norte, a redução não ultrapassou 16%. De acordo com dados do Ministério do Turismo, o Rio Grande do Norte recebeu  117,6 mil turistas estrangeiros em 2006. O Ceará, um dos principais concorrentes dentro do Nordeste, recebeu 108 mil.Um fluxo 8,1% menor que o do Rio Grande do Norte. Em 2010, a situação se inverteu. Enquanto o Rio Grande do Norte recebeu 46 mil turistas estrangeiros, para o Ceará seguiram 94,7 mil – mais que o dobro.

Apesar de estados como o Ceará não terem tido o pico que o Rio Grande do Norte teve recentemente, outras unidades da federação continuaram investindo na promoção internacional, inclusive na Argentina e na Europa, através de diversas parcerias.

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Estudiosos e pesquisadores apontam que um destino turístico,por alguma razão perde seu mercado, a reconquista é sempre mais difícil. O ideal seria manter constantes ações promocionais, independente do cenário macroeconômico. Com a queda dos recursos investidos na divulgação dos atrativos turísticos, levando em consideração o cenário de crise internacional, a tendência é criar um grande hiato até a retomada do fluxo turístico nos mesmos patamares vivenciados anteriormente.

Apesar do recuo, o Rio Grande do Norte ainda é o estado brasileiro onde o turismo tem maior participação na economia formal. De acordo com estudo realizado pelo IPEA, a participação é de 4,4% – a maior do Brasil. O índice coloca o Rio Grande do Norte na frente de estados como São Paulo e Rio de Janeiro, maiores portas de entrada de turistas estrangeiros.

A Copa do Mundo da FIFA de 2014 no Brasil e a escolha de Natal como uma das cidades sede deste evento mundial podem alterar esta situação. Entre os efeitos positivos do mundial de seleções no turismo potiguar está o de praticamente dobrar o fluxo de turistas internacionais durante o evento.

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A capital potiguar receberá quatro jogos da Copa do Mundo, que acontecerão no novo estádio Arena das Dunas, com capacidade de receber 43 mil expectadores e com entrega prevista para dezembro de 2013.

Segundo um estudo da Fundação Getúlio Vargas, encomendado pelo Ministério do Turismo, apontam que cerca de 600 mil turistas virão ao Brasil no mês da Copa do Mundo. Eles realizarão cerca de 2 milhões de viagens na cidades sedes. No Rio Grande do Norte, esse segmento deverá ter 84.979 visitas – um dos menores entre as 12 cidades-sede do Mundial, mas representará um incremento de 82,4% no fluxo de estrangeiros na capital potiguar.

Já os números do Estudo Programa SEBRAE 2014: Mapa de Oportunidades para as Micro e Pequenas Empresas nas cidades-sede, encomendado pelo SEBRAE Nacional à Fundação Getúlio Vargas (FGV), 22,7% das 356 oportunidades de negócios geradas pela Copa em Natal, grande parte se destinará para o setor do comércio/serviços.

Especialistas apontam que na a copa de 2014 deixará três grandes legados para as cidades sedes: 1) Visibilidade mundial – O Brasil está na mídia mundial desde o final da Copa da África e permanecerá na mídia até 2018; 2) Obras de mobilidade urbana e infraestrutura que serão realizadas nas 12 cidades sedes; 3) Uma melhor qualificação e capacitação da mão-de-obra.

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Dentre as várias áreas relativas a comércio e serviços, o turismo, quando associado a toda uma  cadeia (cultura, artesanato, gastronomia), tem posição de destaque. É o primeiro lugar no ranking, com mais de 30% das oportunidades.

Dado o volume de estrangeiros que os estudos mostram que virão para Natal em 2014, um aspecto extremamente importante aponta para a questão da preparação das cidades-sede para receberem estes visitantes, corrigindo suas deficiências de infraestrutura e transmitindo uma imagem positiva. Estas melhor preparação garante o retorno dos turistas estrangeiros após a Copa.

A questão da capacitação dos profissionais da área turística para o período da Copa do Mundo de 2014, e após, está entre as prioridades dos setores do governo federal que atuam na área do turismo.

Entre os resultados já obtidos, destaca-se o programa de capacitação viabilizado através de parceria do Governo do Estado com o Ministério do Turismo no valor de R$ 440 mil.

A primeira fase prevê capacitação de 900 pessoas, entre bombeiros e policiais civis e militares. Na segunda fase o projeto deverá capacitar 400 taxistas e permissionários que trabalham na Grande Natal. Esta capacitação consiste em aulas de inglês básico, novas tecnologias e noções sobre a história do RN e seus principais pontos turísticos.

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Outra questão relativa ao turismo potiguar e a Copa do Mundo de 2014 é sobre os novos hotéis na área da Via Costeira.

Projetada parcialmente durante o governo de Cortez Pereira, com base numa ideia bem mais antiga, da época de Juvenal Lamartine, a Via Costeira teve seu projeto final definido por Tarcísio Maia, foi iniciada por Lavoisier Maia e concluída por José Agripino. O primeiro empreendimento hoteleiro ali instalado foi o Natal Mar Hotel, em dezembro de 1984.

Os atuais 28 mil leitos conseguem suprir a demanda de turistas que visitam a cidade, porém o advento da Copa do Mundo de 2014 aponta a necessidade de novas unidades hoteleiras. A última inauguração de hotel na Via Costeira foi em 2006 com o hotel do grupo catalão SERHS.

Segundo empresários locais existe a necessidade de acelerar a ampliação do número de leitos para a Copa do Mundo de 2014. Eles acreditam que efetivando a conclusão dos 11 empreendimentos planejados para a área e atualmente parados, Natal vai ganhar mais 7 mil leitos e dessa forma, atingir a marca de 33 mil; exigência da FIFA para as cidades-sede do evento. Estes novos leitos vão gerar cerca de 3.800 empregos indiretos, com a garantia de ter todas as obras concluídas em até 30 meses, a tempo para atender a demanda da Copa de 2014.

Pesquisas realizadas pela Secretaria Estadual de Turismo calculam que o consumo médio diário feito pelos visitantes (cerca de R$ 150) multiplicado ainda pelo número médio de diárias (sete dias) projeta um aporte de R$ 2,8 bilhões na economia potiguar e a arrecadação de aproximadamente R$ 425 milhões em tributos.

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Entretanto os investimentos na Via Costeira estão sujeitos a instabilidades jurídicas em decorrência de questões ligadas a área de preservação do meio ambiente.

A Via Costeira foi definida como sendo uma Área de Proteção Permanente (APP) em um relatório técnico coordenado pela Advocacia Geral da União (AGU) em 2010, onde a área não poderia receber novas construções. É o que defendem IBAMA, Ministério Público Federal e Estadual, além da Superintendência do Patrimônio da União (SPU/RN).

O IBAMA argumenta que as construções ajudam a degradar o meio ambiente no local, visto que a Via Costeira fica numa região de Dunas e as novas edificações poderiam gerar sérios problemas ambientais. Já o Governo do Estado, prefeitura e entidades do setor turístico acreditam que por ter sido projetada para atender o desenvolvimento do turismo, a área pode sim receber novas construções.

O que o trade turístico espera é que o episódio envolvendo a paralisação da construção do hotel da BRA não aconteça novamente.

Esta obra teve início em 2005, mas no ano seguinte teve um dos andares embargados por ter ultrapassado a altura máxima permitida pelo pano Diretor à época (15 metros a partir do solo).

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Em 2007, a Procuradoria da República enviou uma petição a Justiça Federal, exigindo a demolição do pavimento irregular. No mesmo ano a BRA recorreu. Em 2008, o Tribunal Regional Federal da 5ª Região emitiu liminar afirmando que o hotel não deveria ser derrubado. Apenas em 2012 um acordo começou a ser definido junto ao IBAMA, que se mostrava contra a liberação da construção. Os proprietários do empreendimento prevêem que no primeiro semestre de 2013 será reinício a obra, cuja conclusão está prevista para 2015.

Em recente entrevista (Novo Jornal, 15/12/2012), o empresário hoteleiro e ex-secretário estadual de turismo Ramzi Elali, têm a esperança que o diálogo em torno do caso do hotel da BRA influenciasse na análise das demais áreas não edificadas da Via Costeira. Para este empresário já deveria existir uma regra clara para a utilização da área em prol do mercado turístico e da própria população de Natal. Ramzi comentou que o importante é que “se utilize do bom senso e a compreensão para se recuperar a área, colocar ponto final e começar a desenvolver o turismo no estado”.

Uma notícia alvissareira para o turismo potiguar está no convênio que a EMBRATUR firmou convênio com o Governo do Rio Grande do Norte para intensificar a promoção dos nossos atrativos turísticos nos Países Baixos. A intenção é captar voos diretos entre Amsterdam e Natal.

Existe um voo direto semanal entre Amsterdam e Natal, em operação desde 2003, comporta 180 passageiros, porém a frequência é dividida com Fortaleza. Na atualidade a única rota aérea vinda do exterior, utilizando Natal como destino é a que parte de Lisboa, sendo operacionalizada pela empresa aérea portuguesa TAP.

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A verba destinada pela EMBRATUR é de R$ 527 mil. As ações previstas são viagens de familiarização dos operadores de turismo com a nossa região, a vinda de jornalistas especializados desta área (as chamadas “press trips”), a produção de material promocional, campanhas publicitárias e pesquisas qualitativas.

A Holanda está entre os 20 primeiros países emissores de turistas para o Brasil. No ano passado, 72.162 holandeses estiveram aqui, dos quais 37% deles o lazer. Eles geralmente permanecem em torno de 19 dias e cada turista holandês gasta, em média, 81 dólares por dia no Brasil.

Mas se por um lado ações são planejadas para melhorar o turismo no Rio Grande do Norte, por outro existem problemas relacionados com a cobrança do ICMS – Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, sobre o preço dos combustíveis de aviação. Este custo representa entre 40 a 45 % no preço final das passagens aéreas e nos últimos três anos o aumento médio deste insumo foi quase de 60%.

Foto postada no blog www.canindesoares.com

No aeroporto de Guarulhos (SP), o mais movimentado do Brasil, as companhias aéreas pagam R$ 2,65 pelo litro do querosene de aviação para voos nacionais e R4 1,98 o litro para voos internacionais. Isso cria uma situação inusitada; se um turista compara pela empresa área TAM uma passagem de São Paulo para Recife, vai desembolsar R$ 1.470,70. Mas se o mesmo turista desejar comprar pela mesma empresa uma passagem ligando São Paulo a Buenos Aires (Argentina), vai pagar R$ 1.171,46.

Este turista terá então uma economia de R$ 299,24, adquirindo uma passagem aérea para o exterior.

Desta maneira, será que voltaremos a ter aquele turismo tão ativo e pulsante, do qual participei como Guia de turismo?

MISSA DO VAQUEIRO DE SERRITA, PERNAMBUCO – OS PRIMEIROS ANOS

Tradição, Religiosidade e Cultura Nordestina

AUTOR – ROSTAND MEDEIROS

A missa do vaqueiro, realizada no município de Serrita, a 536 km do Recife, surgiu em 1971 como uma homenagem ao vaqueiro Raimundo Jacó, sendo considerada atualmente uma das maiores e mais importantes festas do sertão nordestino.

Esse evento atrai anualmente cerca de 50 mil visitantes e é promovido pela Fundação João Câncio, em parceria com a Prefeitura Municipal de Serrita e a Associação de Vaqueiros de Pega de Boi na Caatinga do Alto Sertão de Pernambuco (Apega).

Vamos conhecer um pouco de sua história.

A Morte de Raimundo Jacó

Em 1954 Serrita, no Sertão do Araripe, próximo a cidade de Salgueiro, era bem maior em termos de área territorial e possuía uma população estimada em quase 23.000 habitantes. Mas em um Nordeste ainda prioritariamente agrário, na sede municipal daqueles tempos habitavam pouco menos de 700 pessoas[1].

Vaqueiro do Nordeste, 1941, Percy Lau – Fonte – http://www.desenhandoobrasil.com.br

Em meio à caatinga fechada daquela região, à vegetação cortante e espinhenta que caracteriza este ecossistema, o vaqueiro encourado Raimundo Jacó se destacava na sua lide.

Conhecido pela sua dedicação ao trabalho era muito estimado pela população local. Ficou afamado pela coragem ao capturar, ou “pegar”, o boi no meio do mato. Ele também era conhecido por saber no meio da caatinga fechada, onde descansava e bebia cada um dos animais que ele tomava conta.

De tão destemido, o vaqueiro tinha o apelido de “Raimundo Doido”. Era casado com Odília de Jesus e tinha como filhos Francisca e Vicente. Em Rancharia, atualmente distrito do município de Granito, era admirado pelo seu aboio afinado, daqueles vibrantes, cantado “com o dedo no ouvido” [2].

Sobre o vaqueiro Raimundo Jacó, os irmãos cantadores Pedro e João Bandeira de Caldas assim cantaram a sua fama;

“Não respeitava favela

Serra, facheiro, cipó

Sua calça era a perneira

Seu gibão o paletó

Fosse a cavalo ou a pé

Era uma coisa só” [3]

Raimundo Jacó trabalhava como vaqueiro para o fazendeiro José de Sá Barreto, conhecido como Seu “São” e Dona Tereza Teles, a Dona “Tetê”. Consta que ele cuidava do gado do patrão e José Miguel Lopes, seu colega de profissão, era o responsável pelo plantel da patroa.

No dia 8 de julho de 1954, ano seco, os dois vaqueiros saíram pelo sertão em busca de uma rês arisca que havia fugido e era famosa pelas suas astúcias.

Mas no fim do dia apenas Miguel retornou a sede da fazenda.

Contou que não havia encontrado Raimundo Jacó e logo a notícia se espalhou. Em pouco tempo várias pessoas rasgavam a caatinga na busca pelo afamado vaqueiro.

Dois dias após seu desaparecimento, o cadáver de Jacó foi encontrado junto a um pé de imbaúba, em um lugar conhecido como sítio Lajes. A pouca distância do corpo estava amarrado o garrote fugitivo, o seu cavalo e, guardando o cadáver dos urubus, estava o seu fiel cachorro.

No crânio do vaqueiro havia duas marcas de ferimentos e não muito distante do seu corpo, uma pedra com sangue. Todo o cenário apontava para um possível assassinato[4].

Consta que Raimundo Jacó foi sepultado no local onde fora morto. Afirma-se que o seu fiel cachorro acompanhou todo o enterro e que depois ficou no local, até morrer de sede e de fome, guardando o túmulo do seu amo.

O Nascimento de Um Mito

Logo, para a opinião pública e para a justiça local, Miguel Lopes surgiu como o mais provável suspeito da morte de Raimundo Jacó. Afirmavam que Miguel invejava o colega de profissão por suas habilidades como vaqueiro e que entre ambos havia uma rixa muito forte.

Para muitos o assassinato teria acontecido quando Miguel chegou às margens do açude do sítio Lajes e se deparou com Raimundo Jacó fumando tranquilamente um cigarrinho. Junto estava o seu cavalo, seu cachorro e a rês fugitiva, já devidamente amarrada. A cena deixou Miguel bastante alterado. Logo, motivado pela inveja, o ódio aflorou e de posse de uma pedra ele bateu fortemente na cabeça de Jacó.

Foi aberto um processo crime contra Miguel Lopes, que afirmava ser inocente e houve controvérsias e discussões em relação à morte de Jacó.

Clarisbalte Figueiredo Sampaio, o Promotor Público da cidade, desistiu do processo contra Miguel Lopes. No calhamaço de papeis que compunha a peça processual havia declarações de cinco testemunhas, que nem mesmo assistiram o episódio da morte do vaqueiro.

Logo o processo foi arquivado por falta de provas e a morte de Raimundo Jacó até hoje não foi esclarecida.

Ocorre que desde 1949 os Alencar e os Sampaios, as duas mais poderosas famílias da cidade de Exu, mantinham uma luta ferrenha entre seus membros. Estas famílias, como se diz na região oeste do Rio Grande do Norte, “se acabavam na bala”. Miguel era então ligado a um dos clãs e, para muitos na região, foi através desta ligação que ele não foi preso[5].

Vinte e dois anos depois da morte do vaqueiro, encontramos em um jornal pernambucano uma interessante e controversa declaração de Geraldo Teles, filho de Tereza Teles, a Dona “Tetê”, patroa de Raimundo Jacó e Miguel Lopes.

Ele afirmou que a morte de Jacó poderia ter sido acidental, pois este “sofria do coração e bebia muito” e afirmava que Miguel, que ainda estava vivo na época da reportagem, seria “incapaz de fazer mal a alguém”. Geraldo Teles levantou a hipótese que Jacó poderia ter tido um colapso. Após o ataque, consequentemente o vaqueiro teria caído do cavalo, batido a cabeça na pedra e falecido sem assistência médica[6].

Mas se da justiça não teve castigo, de uma parte da população da região o acusado da morte de Jacó só recebeu ódio e desprezo[7].

Como ocorre em muitos locais do Nordeste onde pessoas assassinadas em mortes trágicas eram enterradas, logo a cruz que marcava o túmulo de Raimundo Jacó passou a receber várias pessoas, principalmente vaqueiros. Estes, além de deixarem fitas e velas, rezavam e pediam ao falecido que intercedesse por alguma causa. 

Mas foi um primo legítimo do falecido, que empunhava uma sanfona e fazia sucesso no Rio de Janeiro, que imortalizaria para sempre a figura de Raimundo Jacó em uma inesquecível canção.

A Morte do Vaqueiro na Voz de Luiz Gonzaga

Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu na fazenda Caiçara, em Exu, no dia 13 de dezembro de 1912, dia consagrado no catolicismo a Santa Luzia. Era filho de Januário José dos Santos e de Ana Batista de Jesus, mais conhecida como Santana. Além de agricultor seu pai era um afamado tocador de acordeon e igualmente conhecido por concertar este tipo de instrumento musical.

Luiz Gonzaga no início da carreira – Fonte – http://blogln.ning.com

Foi com Januário que Luiz Gonzaga aprendeu a tocar ainda criança e passou a se apresentar acompanhando seu pai.

Em meio a muito talento, grande capacidade musical, inúmeras peripécias, aventuras e sorte, em 1963 vamos encontrar Luiz Gonzaga como um consagrado músico e cantor, com seu sucesso alcançando todo o Brasil e tendo se tornado um verdadeiro ícone da música nordestina.

Apesar de 1963 não ser um dos períodos mais felizes na carreira de Luiz Gonzaga, devido à concorrência com as músicas modernas e os rock vindos do exterior, naquele ano o músico pernambucano lançou pela empresa fonográfica RCA, o Long Play, ou “LP”, intitulado “Pisa no Pilão – Festa do Milho”.

Este disco de vinil tinha um acervo musical mais apropriada para ser tocado em festas juninas, pois possuía músicas intituladas “Festa do Milho”, “Festa de São João” e “Pisa no Pilão”.

Mas a quarta faixa do lado “A” do LP trazia uma toada diferente. Nomeada “A Morte do Vaqueiro”, é uma música marcante e de longe a mais importante deste disco de Luiz Gonzaga.

Capa do LP onde foi primeiramente divulgado a música “A morte do vaqueiro” – Fonte – discotecapublica.blogspot.com.br

Nas páginas 229 e 230 do livro “A vida do viajante: A saga de Luiz Gonzaga”, da francesa Dominique Dreyfrus, a música foi composta em uma única tarde na casa de Nelson Barbalho, amigo de Gonzaga[8].

O famoso cantador do Sertão do Araripe queria homenagear seu primo, o vaqueiro Raimundo Jacó. Ele narrou a Nelson como foi o episódio da morte do parente e em pouco tempo a “A Morte do Vaqueiro” ficou pronta.

A música se tornou um marcante sucesso da carreira de Luiz Gonzaga, imortalizando a morte de Jacó e se tornando um dos motores que impulsionaria um dos mais importantes eventos do sertão nordestino – A Missa do Vaqueiro de Serrita.

Mas toda missa precisa de um padre!

Um Padre Antes de Tudo Autêntico

Mesmo hoje em dia, em meio a toda uma plêiade de padres cantores, que estão sempre na televisão e surgem na velocidade da internet, certamente chamaria a atenção de todos se fosse divulgado que um sacerdote nascido no sertão de Pernambuco valorizava tanto as tradições de sua terra ao ponto de utilizasse normalmente o gibão de couro, participasse de constantes vaquejadas e fosse conhecido como “Padre Vaqueiro”.

Padre João Câncio

Imagine isso então no final da década de 1960?

João Câncio dos Santos nasceu em Petrolina, Pernambuco, em 21 de outubro de 1936, era filho de Francisco Avelino dos Santos e de Laudemira Carvalho Sales e seguiu sua vocação sacerdotal logo cedo. Estudou no seminário do Crato, depois foi para Salvador e João Pessoa, onde se formou padre em 1965.

Sua primeira paróquia foi em Serrita, onde iniciava seu trabalho pastoral com a consciência de que a religião e a fé estão presentes em todas as pessoas. Segundo material produzido pela Fundação Padre João Câncio, o pároco não impôs a comunidade a sua oratória de seminário, mas buscou aproximar-se da comunidade, vivenciando e praticando seus hábitos, com o propósito de entendê-los melhor[9].

No livro “A vida do viajante: A saga de Luiz Gonzaga”, nas páginas 246 e 247, Dominique Dreyfrus informa que em uma vaquejada realizada em Exu, no verão de 1970, ano de forte seca, o padre conheceu Luiz Gonzaga e daí nasceu uma grande amizade.

O padre Câncio adorava a música “A Morte do Vaqueiro”, que escutava no toca fitas de sua Ford Rural, enquanto seguia para alguma obrigação sacerdotal no meio do sertão.

A autora francesa informou que em meio à seca de 1970, durante as celebrações que ocorriam nas frentes de emergência, que proporcionava aos trabalhadores rurais alguma renda (mínima) em meio à calamidade climática, alguém comentou que “existia missa para todo tipo de gente, mas não havia para vaqueiros”. Logo foi sugerido que uma missa dessas poderia ocorrer no local onde Raimundo Jacó foi assassinado.

1971-Primeiro ano da Missa do Vaqueiro de Serrita, Pernambuco

Como o padre Câncio era um vaqueiro, gostava da música e conhecia Luiz Gonzaga, estava pavimentado o caminho para a Missa do Vaqueiro de Serrita.

Entretanto, ao lermos o trabalho intitulado “Padres do interior II – Os padres da Paroquia de Nossa Senhora do Bom Concelho de Granito”, produzido pelo padre Francisco José P. Cavalcante e publicado na internet em 2010, afirma que a ideia da famosa Missa do Vaqueiro de Serrita tem relação direta com uma celebração pela vida do vaqueiro e havia sido criada primeiramente na Diocese de Petrolina, no ano de 1941.

Segundo o padre Cavalcante foi no dia 2 de agosto de 1941, com uma concentração na fazenda Lagoa Seca, que se realizou pela primeira vez o “Dia do Vaqueiro”, evento idealizado pelo padre Américo Soares.

Registros informam que os vaqueiros estavam neste evento com a indumentária de couro apropriada e entraram nesta cidade do interior de Pernambuco dispostos em filas de quatro em quatro. Depois se dirigiram para a igreja matriz de Nossa Senhora Rainha dos Anjos, onde houve palestra preparando os vaqueiros para o sacramento da penitência. No dia seguinte, pela manhã, os vaqueiros participaram de uma missa na Matriz, presidida por Dom Idílio José Soares. Após duas missas realizadas no mesmo dia, os vaqueiros se concentraram diante do Palácio Diocesano e em seguida partiram em passeata pela cidade.

No ano seguinte a festa se repetiu com cerca de 150 vaqueiros. A programação foi semelhante à apresentada acima, mas com a diferença que o pregador foi famoso e carismático frei Damião de Bozzano.

Celebrações de vaqueiros pelo interior do Nordeste não eram incomuns nas décadas de 1940 e 1950. Aqui vemos um encontro de vaqueiros nas ruas de Icó, Ceará – Fonte – http://www.icoenoticia.com

No livro de tombo da Paróquia de Nossa Senhora Rainha dos Anjos, de Petrolina, há uma anotação informando que em 1946 continuava a ser celebrada a Festa do Vaqueiro. Em 21 de julho de 1951 o evento passou a ser presidido pelo padre José de Castro, vigário cooperador de Petrolina. Apesar das dificuldades o padre José conseguiu reunir uns 200 vaqueiros naquele ano.

A ideia de celebrar a vida do Vaqueiro foi seguida em outras paróquias da Diocese, como foi o caso na cidade de Araripina, Pernambuco, onde os vaqueiros entravam na cidade tocando os seus búzios nos eventos celebrados pelo padre Gonçalo Pereira Lima[10].

1971 – A Primeira Missa

Os jornais pesquisados na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco não são muito pródigos em relatos sobre a primeira Missa do Vaqueiro realizada em Serrita.

1971 – Luiz Gonzaga na primeira celebração

Ao folhear as velhas páginas, posso entender que o evento estava restrito a ser uma comemoração religiosa que ocorria em uma pequena cidade sertaneja, localizada a mais de 550 quilômetros da capital pernambucana.

Segundo o padre Câncio a primeira missa contou com o apoio decisivo de Luiz Gonzaga, que patrocinou grande parte do evento. Vários vaqueiros (o número não é especificado) e cerca de “50 outras pessoas” atenderam ao chamamento do padre e do cantador e se fizeram presentes no sítio Lajes.

Os cavaleiros vieram a celebração montados em seus alazões, trajados a caráter e assistiram a missa montados. A comunhão foi celebrada não com hóstias tradicionais, mas com queijo de coalho e rapadura. A missa foi celebrada sobre um tablado de madeira e junto ao padre estavam os familiares de Raimundo Jacó.

Os poucos relatos que me forneceram sobre este primeiro evento mostram uma foto com o consagrado Luiz Gonzaga, de sanfona em punho, cantando o sermão da missa. A pesquisadora francesa Dominique Dreyfus informa em seu livro, página 248, que Gonzaga participou ativamente dos primeiros anos da Missa do vaqueiro de Serrita e apoiou financeiramente o evento até 1974.[11]

Os primeiros eventos foram caracterizados pela simplicidade

Não foi possível precisar a data, mas acredito ter sido no terceiro domingo de julho de 1971, 18 de julho, pois nos anos seguintes seria nesta data que normalmente o evento passaria a ocorrer.[12]

Mas percebemos através dos antigos periódicos que foi tudo muito simples, sem sofisticação, sem recursos eletrônicos, mas com muita fé e um positivo sentimento participativo de todos que ali estavam.[13]

Mas algo aconteceu!

A simplicidade do altar nos primeiros eventos

Não sabemos como se processou, mas em meio à missa simples e tradicional de 1971, com todos os vaqueiros encourados presentes, foram realizadas as tomadas cinematográficas para um documentário.

Intitulado “A Missa do Vaqueiro”, era um curta-metragem rodado em 16 m.m., colorido, com 25 minutos de duração e tinha a direção do baiano José Carlos Capinam e do carioca José Carlos Avellar.[14]

Repercussão no Sul do País

Em janeiro de 1972 vamos encontrar o padre João Câncio e os poetas e cantadores Pedro e João Bandeira reunidos na casa de Luiz Gonzaga, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. Estavam na Cidade Maravilhosa para assistir a uma exibição do trabalho de Capinam e Avellar, mas concederam entrevistas para os periódicos locais O Jornal e Jornal do Brasil, onde o padre Câncio conseguiu chamar a atenção dos jornalistas cariocas tanto para o seu trabalho sacerdotal, como para a incipiente e diferenciada celebração religiosa na zona rural de Serrita[15].

Os jornalistas se impressionaram com a simplicidade e a inteligência do padre Câncio. Afirmaram que ele poderia tanto comentar sobre problemas do sertão, como sobre a “Crise de Bagladesh”[16].

Nos anos posteriores a Missa do Vaqueiro de Serrita se consolidou e foi notícia em inúmeros jornais do sul do país. Com a divulgação na mídia o evento cresceu em movimento e fluxo de pessoas, tornando-se uma dos mais importantes eventos do calendário turístico de Pernambuco.

Ao violão o poeta Bandeira, tendo ao seu lado o padre Câncio com seu chapéu de couro. Foto da edição de 12 de janeiro de 1972, do periódico carioca “O Jornal”

Se nos anos seguintes a celebração só cresceu, igualmente ocorreram criticas relativas a descaracterização da pequena e simples festa, da participação negativa das forças políticas regionais no evento.

Anos depois o padre Câncio decidiu deixar a batina, casou com Helena Câncio e veio a falecer no dia 10 de fevereiro de 1989. Não sei até quando o grande Luiz Gonzaga continuou a frequentar o evento. Mas indubitavelmente a Missa do Vaqueiro, mantendo ou não suas características iniciais, deve a estes dois homens, que tanto amavam o sertão, o seu sucesso.

 

NOTAS


[1] Sobre dados estatísticos de Serrita na década de 1950, ver “Enciclopédia dos Municípios Brasileiros”, 18º Volume, IBGE, 1958, págs. 279 a 281.

[2] Este costume de muitos vaqueiros aboiadores colocarem o dedo no ouvido ao começar a cantar provem da necessidade da transformação da voz do rapsodo, de “voz do peito” em “voz da cabeça”, e à necessidade de manter o equilíbrio em face da vertigem que a cantiga provoca. Ver http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=892

[3] Ver “O Jornal”, Rio de Janeiro, edição de quarta feira, 19 de janeiro de 1972, págs. 4 e 5. Pedro e João Bandeira de Caldas, salvo engano, são netos do afamado violeiro Manuel Galdino Bandeira e são naturais do Sítio Riacho da Bela Vista, município de São José de Piranhas, sertão da Paraíba. Mas a vida artística destes respeitados violeiros se desenvolveu na cidade do Crato, Ceará.

[4] Ver o “Diário de Pernambuco”, edição de domingo, 20 de julho de 1975, págs. 12 e 13 e a edição de terça feira, 27 de agosto de 1996, págs. 10 e 11, existentes na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco. O “Jornal do Commércio”, de Recife, na sua edição de quarta feira, 16 de julho de 1976, pág. 10, aponta que o corpo de Jacó foi encontrado um dia após o seu assassinato.

[5] A cidade de Exu se encontra a cerca de 70 quilômetros de Serrita. O conflito entre as famílias Alencar e Sampaio marcou profundamente a região do Sertão do Araripe, principalmente na década de 1970. Esta briga entre famílias tradicionais só acabou quando o próprio Governo Federal chegou a intervir na cidade, em parceria com outras instituições de Pernambuco, inclusive a igreja católica.

[6] “Diário de Pernambuco”, edição de terça feira, 20 de julho de 1976, página 9. Ver a reportagem sobre a Missa do Vaqueiro.

[7] Na edição de domingo, 27 de agosto de 1996, do “Diário de Pernambuco”, de Recife, trás a informação que José Miguel Lopes, ainda vivo a época da reportagem, jamais participou da celebração famosa, vivendo  praticamente recluso no distrito de Rancharia.

[8] Segundo site http://www.onordeste.com, Nelson Barbalho nasceu no dia 2 de junho de 1918, na cidade de Caruaru, Pernambuco. Não chegou a concluir o curso secundário no Colégio Americano Batista do Recife, regressando à terra natal para trabalhar. Aposentou-se como fiscal do IAPAS, função que lhe permitiu conhecer quase todas as cidades do interior pernambucano, recolhendo, assim, farto material para seus livros. Jornalista, historiador, pesquisador, lexicógrafo, compositor musical (parceiro em diversas músicas com Luís Gonzaga – o Rei do Baião), Nelson Barbalho sempre foi um escritor, autor de quase uma centena de livros, entre os quais destacamos “Cronologia Pernambucana” (com vinte volumes publicados dos quase cinquenta que compõem a obra), perto de vinte livros sobre Caruaru (“Meu povinho de Caruaru”, “Major Sinval”, “Caruaru do meu tempo”, etc.) e outros trabalhos folclóricos como “Dicionário da Cachaça”, “Dicionário do Açúcar”, sem contar vários ensaios publicados em jornais e revistas especializadas, na qualidade de estudioso da história e costumes do povo do Nordeste. Faleceu na cidade do Recife, no dia 22 de outubro de 1993.

[9] Ver http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Padre+Jo%C3%A3o+C%C3%A2ncio

[10] Certas espécies de búzios marinhos possuem a capacidade de produzir sons fortes, que serviam para comunicação a distância e foram utilizados para esta prática em várias partes do mundo, por vários povos, através dos séculos. No sertão nordestino, de largas paragens, a utilização de búzios era uma forma de comunicação prática entre vaqueiros que tangiam gado no meio da caatinga. Vem daí o termo “buzar”, para tocar o instrumento.

[11] A foto comentada está na edição do periódico carioca “O Jornal”, de quarta feira, 19 de janeiro de 1972.

[12] Ver as páginas do periódico carioca “Jornal do Brasil”, edição de quinta feira, 1 de agosto de 1974, em reportagem realizada pela jornalista Leticia Lins, que seguiu para Serrita para realizar a cobertura da missa que acontecia pela terceira vez, onde temos informes do primeiro evento. Ainda sobre a primeira missa, ver o “Jornal do Commércio”, de Recife, edição de terça feira , 18 de julho de 1978.

[13] Em entrevista concedida pelo padre João Câncio e Luiz Gonzaga, ao periódico carioca “O Jornal”, de 19 de janeiro de 1972, afirma que a missa teve a participação de “cinco mil vaqueiros”, número que considero exagerado.

[14] No site http://cinemateca.gov.br temos detalhes deste documentário, mas com o título “A Morte do Vaqueiro”. José Carlos Capinam é poeta e compositor. Natural de Esplanada, Bahia, é considerado um dos grandes letristas de sua geração.  Poeta desde a adolescência mudou-se para Salvador aos 19 anos, onde iniciou o curso de direito, na Universidade Federal da Bahia, onde conheceu os estudantes Gilberto Gil e Caetano Veloso, respectivamente dos cursos de Administração e Filosofia. Capinam participou ativamente do movimento Tropicalista no fim da década de 1960. Uma de suas músicas mais famosas é uma homenagem ao guerrilheiro Ernesto “Che” Guevara e intitulada “Soy loco por ti, América”, com parceria de Gilberto Gil. Também é compositor da música “Papel Marche”, junto com João Bosco, Em 2000 compôs a ópera Rei Brasil 500 Anos, ao lado de Fernando Cerqueira e Paulo Dourado, uma crítica as comemorações dos 500 anos de Descobrimento do Brasil. Além de letrista, poeta e escritor, Capinam é publicitário, jornalista e médico!  Ver http://www.salvadorcomh.com.br. Já o carioca  José Carlos Avellar é Jornalista de formação, trabalhou por mais de vinte anos como crítico de cinema do Jornal do Brasil. Atualmente é integrante do conselho editorial da revista Cinemais e da publicação virtual “El ojo que piensa”, da Universidade de Guadalajara (México). É consultor dos festivais internacionais de cinema de Berlim (desde 1980), de San Sebastián (desde 1993) e de Montreal (desde 1995). Desde 2006 é também curador (com Sérgio Sanz) do Festival de Gramado e já publicou vários livros de ensaios sobre cinema. Ver http://bancocultural.com.br/cinema/?p=71.

[15] Descobri que o documentário “Missa do Vaqueiro” foi premiado na Jornada Nordestina de Curta-metragem, sendo exibido no MAM – Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, no início de outubro de 1973. Ver o “Diário de Notícias”, Rio de Janeiro, edição de domingo, pág. 16, 30 de setembro de 1973.

[16] Bangladesh, antigo Paquistão Oriental, é um país asiático, superpopuloso, que fica entre a Índia e o Golfo de Bengala. Independente do Paquistão em 1971, enfrentou uma sangrenta guerra pela sua liberdade que durou nove meses, encerranda no dia 16 de dezembro de 1971. Bangladesh contou com o apoio da Índia, que se envolveu no conflito contra o Paquistão. Este conflito, devido ao alto número de mortos civis, as terríveis imagens de pessoas famintas em meio aos combates, chamou a atenção dos países ocidentais.

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PRECONCEITO E RACISMO CONTRA NORDESTINOS – FATO ANTIGO

ATÉ MÁRIO DE ANDRADE JÁ SE POSICIONOU CONTRA ISSO

Autor – Rostand Medeiros

Existe muita coisa de boa e de ruim do ser humano, mas certamente uma das piores é o preconceito e o racismo em relação as suas origens. E você só sabe como funciona este tipo de situação, e o quanto isso é perverso, apenas no dia que sente.

Em relação a este assunto, existe um movimento ocorrendo em São Paulo, terra maravilhosa e de muita gente boa, que revela uma situação triste e complicada.

Há um ano teve início um abaixo assinado divulgado na internet, do chamado “Movimento São Paulo para paulistas” http://tudoporsaopaulo2010.blogspot.com/

Sou uma pessoa que se impressiona muito com o preconceito e com o racismo, pois durante mais de dez anos trabalhei como Guia de Turismo em Natal, onde conheci e fui alvo de preconceito e racismo pelo fato de ser nordestino.

Ser nordestino, viver no Nordeste, me causa muito orgulho. Neste sentido os fatos que infelizmente tive o desprazer de presenciar foram mais amargos ainda, pois ocorreram na minha própria terra.

Lembro-me que, talvez devido ao fato de ter a pele clara, sempre me diziam que eu “-Não parecia com um nordestino!”. Na mesma hora eu respondia; “-Mas para você, como se parece um nordestino?”.  Daí, primeiramente, vinha a cara de surpresa, o risinho torto e sem graça, os olhos procurando algo perdido no espaço e as respostas mais ouvidas foram “-Ah, sei lá!”.

Quando havia alguma coisa errada na rua, como por exemplo, uma pessoa que jogava um papel na calçada, não faltava a sentença; “-Mas como nordestino faz besteira!”.

Outra coisa triste eram as comparações. Nunca consegui compreender como alguém gasta tanta grana para viajar, vem para outras cidades e, ao invés de curtir, fica ridiculamente fazendo comparações desairosas e negativas sobre o lugar visitado.

Ouvi muitas vezes a máxima que na nossa terra “só havia gente feia”. Afirmavam que sua região de origem do turista era diferente, pois lá o povo não era tão “misturado”. Misturado?

E por aí seguia.

Não vale nem a pena rememorar tais episódios de forma específica. Nem listar de forma ridícula “de qual estado vem os turistas mais racistas”, pois durante todo este tempo de luta no turismo, estes fatos negativos foram poucos.

Essa é a nossa unica imagem quando se fala em Nordeste?

Mas, infelizmente ocorreram e o ruim é que dá uma raiva difícil de esquecer!

Coisa Antiga

Mas voltando ao caso do triste e vergonhoso movimento paulista. O pior é que este tipo de preconceito, de racismo contra os nordestinos, não é novidade.

Anteriormente, principalmente para fugir da seca, o pobre sertanejo da nossa região seguia para o norte do país, para a Amazônia em busca do sonho da borracha e da terra cheia de florestas e rios. Mas houve o momento em que o destino mudou e no final da década de 1920 teve início o movimento de migração de nordestinos em direção a São Paulo. Logo começaram as críticas contra a chegada destas pessoas.

Em 1929 havia a ideia que nordestinos “desocupados e preguiçosos” eram trazidos para São Paulo para “vadiarem” na grande metrópole. Mas ouve vozes em contrário. Uma delas veio de um paulista de renome, ninguém menos que Mário de Andrade.

Em um artigo originalmente publicado em março de 1929, no jornal paulista “Diário Nacional”, tendo sido reproduzido integralmente no jornal natalense “A Republica”, no dia 7 de abril de 1929, o autor de “Turista Aprendiz”, mesmo iniciando o artigo afirmando que não iria “entrar nessa discussão sobre imigração nordestina”, faz uma defesa do trabalhador da nossa região que estava no seu estado.

Mário de Andrade

TRABALHADOR NORDESTINO

Mário de Andrade

Não pretendo entrar nessa discussão sobre imigração nordestina, que anda ascendendo ardores por aí. Discussão que deu lugar a patriotismos regionalistas muito detestáveis. Antipatrióticos.  E me parece que mal colocada. Excetuada alguma nota rara de visão exata (Amadeu Amaral, Antonio Bento de Araújo Lima), o problema foi tratado debaixo de uma mentalidade capitalista e não propriamente econômica.

Ainda outra coisa que ninguém distinguiu foi entre “proletário” nordestino e “desocupado” nordestino. Homem do campo. Homem da cidade. Em todas as cidades deste mundo se ajunta sempre uma população mariposa. A cidade atrai. Uma gente fraca, e o que é pior, dotada de todas as “habilidades” que a fraqueza engendra, vem chamada por esta atração. E fica por aí, na barra da saia da cidade, mariposando, vivendo de expedientes, na folga dos biscates. De fato essa gente vadia. E “vadeia” que no Nordeste significa brincar, cantar, dançar, se divertir.

E essa psicologia romântica do verbo “vadiar” nos da bem um elemento pra aquilatar da capacidade do homem do povo nordestino. Não se pode chamar de “vadiação” ao caso do individuo que vai pra city das cidades, a espera e trabalho. Muito menos ao fato do sertanejo na seca, rodeado pelo gado, estar esperando a hora de queimar o xiquexique pra criação comer. Esse mesmo homem é capaz de agüentar léguas a pé e tem capacidade física formidável. Basta ver o que é um samba ( ), um coco violento, durando a noite, para saber do que são capazes fisicamente os homens e mulheres nordestinos. A própria condição da vida nordestina em certas zonas, a do gado, a da carnaúba, é que obriga a longas estiagens de trabalho econômico. Porem, no vale do Assu, (carnaúba) pór exemplo, se diz que não tem noite sem samba. O proletário exerce nas noites a atividade que não teve por onde exercer durante o dia. E por isso o verbo “vadiar” mudou de sentido lá. Significa o brinquedo: o exercício às vezes duma fadiga inclemente, prodígio de esforço físico e habilidade. Ora o brinquedo é sempre uma transposição de atividades que não podem ser exercidas.

Porem não quero negar a existência do desocupado urbano nordestino. Existe como existe em S. Paulo, em Montevidéu, em Paris. E a psicologia do desocupado, do homem… da fuzarca, é a mesma por toda parte. Os agentes em busca de colonos pras fazendas não se dão ao trabalho de dias inteiros através do sertão, arrebanhando gente. Chegam nos portos e pegam as mariposas do biscate. Está claro que virá muito colono ruim assim. Mariposa não se transforma em proletário do dia pra noite Mas também sei de fazendeiro que coloniza a propriedade só com nordestinos. Porem não fia em agente. Manda, mas é o próprio sertanejo nordestino que já tem na fazenda, trabalhador, colono excelente, buscar os conhecidos dele, lá de Catolé do Rocha, de Martins, do Seridó, gente boa.

Descendente de índio ou africano o proletário nordestino conserva disso a psicologia de quem foi muito dominado e abatido. É manso. É bem mandado. É de uma obediência servil. Vive no Nordeste uma diferenciação de classes que me chocou. Às vezes me feriu mesmo. Não é a toa que nos últimos tempos está se dando uma recrudescência no emprego da expressão “senhor de engenho”. No geral iniciativa do proletário é circunscrita ao mínimo possível pelo “seu doutor”, que significa homem de gravata. Também pra explicar a psicologia do cangaceiro nordestino, o argumento dele se revoltar contra as injustiças da justiça me parece fácil por demais. Há sem duvida no cangaceiro um fundamento mais secular de revolta contra a injustiça social das classes. E contra a escravidão que, se perdeu a base de compra e venda, não perdeu o sentido de obediência e mando.

Quanto ao argumento que o proletário nordestino raro enriquece aqui, é argumento capitalista e não econômico.

Malfadado por uma terra que acumula omissões, o homem do povo nordestino se rege pelo “primo vivere”. É a psicologia da fome, mais dramática que condenável. Quando vem pro sul ganha fácil. Então se deslumbra. Vê tudo fácil, gasta, não amontoa. Fenômeno perfeitamente explicável em quem atinge terras de aventura capitalista. Se deu na Califórnia e no Alasca. No sul da África. Na Argentina e Brasil. Em S. Paulo, terra de aventura, tem centenas de estrangeiros que fazem o mesmo. Antes e depois de ricos. Porque a riqueza não justifica, os luxos rastaqüeras. Mas nós não censuramos o senhor conde Matarazo que esbanja um trust num monumento tumular ridículo. Porem por causa do proletário nordestino não se adaptar desde logo a mania de ajuntar ouros… a Prefeitura abre portãozinho  para quanto ricaço esbanje chique. Pelo menos que soubesse abrir portões maravilhosos, que nem os que a gente encontra em cemitérios nordestinos, o de Arez, o de Goianinha, o de Augusto Severo, por exemplo. Portões que nordestino fez. Mas os nossos problemas não tratam de civilização, de cultura, de economia. Se resumem a cócegas de capitalização.

O mais engraçado é que todos acabaram reconhecendo que o proletário é excelente. Porquê e praquê tanta birra então? Nós vivemos no geral suspeitos às franjas dos problemas brasileiros. Em vez de atacarmos diretamente os problemas, vivemos desbastando as superfícies dum instrumento malfeito. É o que o caracteriza, desde a Monarquia, a desídia nossa.

(Do “Diário Nacional”, de São Paulo)

O Conhecimento de Mário de Andrade Sobre o Nordeste

Percebemos que os apontamentos do escritor Mário de Andrade neste artigo certamente surgiram a partir das experiências do autor nas suas duas viagens pelo Norte e Nordeste do Brasil. Nestas aventuras etnográficas, Mário desejava conhecer o Brasil e o povo brasileiro. Elege o Norte e o Nordeste como regiões privilegiadas do que deveria visitar e realiza seus objetivos em duas distintas viagens de estudo e pesquisa.

Mário pesquisando o Brasil

Na sua segunda viagem ele demora-se no Nordeste em trabalho de coleta de documentos musicais, conhecendo músicas de “feitiçaria”, cocos, danças dramáticas, romances, cantos de trabalho. Quando esteve no Rio Grande do Norte no final de 1928, conheceu muita coisa na companhia de intelectuais locais, registrou em fotos as paisagens, a arquitetura, o sertão e a população dos locais visitados.

Mário de Andrade passa a escrever no jornal “Diário Nacional” a partir de 1927, onde publica a maior parte de sua produção, entre críticas, contos, crônicas e poemas, até 1932, quando o jornal é fechado. O “Diário Nacional” era o órgão noticioso do Partido Democrático, agremiação política a qual Mário de Andrade era filiado. Respondia pela redação do periódico Sérgio Milliet, Antônio Carlos Couto de Barros e Amadeu Amaral.

É Combatido

Percebo que este preconceito, este racismo regionalista existente no Brasil, só tende a crescer na medida em que crescem as nossas eternas e futuras crises econômicas, políticas, sociais, morais, éticas, etc., etc. É como uma espécie de válvula de escape para superar as frustrações de um momento.

Ainda bem que vivemos em uma democracia, onde todos tem o direito de manifestarem as suas ideias e por sorte existem pessoas que não se conformam com as ações preconceituosas e racistas, como a realizada pelo “Movimento São Paulo para paulistas”. Uma manifestação interessante sobre este movimento veio do jornalista Paulo Henrique Amorim, que mostra de forma clara e inteligente o que pensa quem cria este tipo de coisa.

Veja o link; http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2010/11/08/o-que-pensa-quem-quer-sp-so-para-paulistas/

Ainda bem que depois de um ano ativo, pelo menos até a manhã de 24 de maio de 2011, o triste movimento “Movimento São Paulo para paulistas”, possuía 1849 assinaturas.

E, infelizmente, Também Existe Aqui

Como já senti o preconceito e o racismo pelo simples fato de ser de onde sou, é inevitável que dentre todas estas ações preconceituosas e racistas existentes por aí,  a que me chama mais a minha atenção é o que ocorre contra estrangeiros.

No passado muitos imigrantes vindos de outros países sofreram inúmeras formas de racismo ao desembarcarem no “grande país tropical”.

Assim ocorreu quando japoneses chegaram a mais de 100 anos e se tornaram alvo de fortes críticas e perseguições. Ou como aconteceu com os sírios e libaneses, que aqui eram chamados pejorativamente de “Turcos”. Ou com os “branquelos” alemães. No topo da lista não podemos esquecer os portugueses, que vinha da “terrinha” para serem alvos de eternas piadas.

Mesmo a distante China, que nem tinha tantos imigrantes no Brasil em épocas passadas, ficou conhecido como o país onde tudo que não prestava era mandado para lá. Era o famoso “Vai prá China!”, que tinha o mesmo significado de “Vai para aonde o diabo te carregue”.

Afora que, tudo que é mal feito em termos de produtos manufaturados vem do Paraguai e também da China.

E por aí vai.

Mas o irônico é que as piadas com os portugueses e a mania de se mandar tudo que não presta para a China diminuíram na medida que estes países ganharam mais prestígio no cenário mundial.

Será que estas manifestações de preconceito e racismo é algo inerente ao DNA de todos os seres humanos que vivem na Terra?

Não sei, mas como existem quase 2.000 pessoas que assinam este tipo de manifesto público, infelizmente, em nossa querida Natal, igualmente existe preconceito e racismo.

No caso potiguar, os preconceitos e os racismos são múltiplos. Focados muitas vezes em quem tem mais que outros, na cor da pele, onde mora, qual seu sobrenome, a sua família, de onde se vem e outros mais.

Por aqui eu percebo que uma das coisas que mais incomoda muita gente é a miscigenação dos estrangeiros na “Capital Espacial do Brasil”.

Devido ao fato dos estrangeiros se casarem com potiguares morenas, de origem humilde, oriundas do interior, ou da Zona Norte de Natal, se diz que eles “só gostam de negas”.

Se você que está lendo este artigo e, por acaso, acha que não existe preconceito e racismo em Natal, é porque você é igual aos que participam do “Movimento São Paulo para paulistas” e devia assinar o manifesto.

Siga estas ideias

P.S.- Segundo site http://preconceitoouracismo.zip.net/, a diferença entre preconceito e racismo é a seguinte;

Preconceito: Atitude discriminatória que baseia conhecimentos surgidos em determinado momento como se revelassem verdades sobre pessoas ou lugares determinados. Costuma indicar desconhecimento pejorativo de alguém ao que lhe é diferente.

Racismo: É a tendência do pensamento, ou do modo de pensar em que se dá grande importância à noção da existência de raças humanas distintas e superiores umas às outras. Onde existe a convicção de que alguns indivíduos e sua relação entre características físicas hereditárias, e determinados traços de caráter e inteligência ou manifestações culturais, são superiores a outros.

Mas para mim é tudo terrível e sofremos da mesma maneira.

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