BENTO QUIRINO, A VIOLÊNCIA NO SERTÃO DE OUTRORA E A BUSCA PELA HISTÓRIA

Vaqueiro nordestino – Fonte – IBGE.

Rostand Medeiros – IHGRN.

Para uma pessoa que faça parte de uma família que tenha sido seriamente atingida pela violência e lhe tenha sido negado o direito ao conhecimento desses episódios, normalmente essa pessoa tem dois posicionamentos clássicos – Ou cria um total desinteresse por tudo ligado ao passado, ou passa a ter uma vontade extrema de buscar conhecer tudo que ocorreu com a sua família, para assim compreender como se desenrolou a história.

Eu me coloco no segundo caso!

Sou neto por parte do meu pai de Joaquim Paulino de Medeiros Filho, um pequeno fazendeiro conhecido como Jaco, que viveu na região entre as cidades potiguares de Acari, Carnaúba dos Dantas e Jardim do Seridó. Em 13 de abril de 1952 ele foi brutalmente assassinado a punhaladas por um primo. O assassino se chamava José Quintino de Medeiros, e o caso se deu em decorrência de uma suposta dívida. Meu avô foi morto diante do meu pai, Calabar Medeiros, que na época tinha apenas 12 anos de idade. Essa terrível ação sangrenta, algo extremamente pesado na existência dos meus familiares e na minha própria formação, teria sido influenciada e apoiada a mando de um soba regional, que desejava a morte do meu avô por questões de terra e política. Mas antes mesmo desse terrível assassinato, meu avô sofreu toda uma série de perseguições e dissabores que atingiram a sua vida e a de seus familiares desde novembro de 1935. 

Na nossa história familiar essa ação sangrenta ficou indelevelmente marcada. Mas igualmente ficou marcada entre nós os nomes daqueles que realizaram ações de apoio ao meu avô.  Um dos nomes que ouvi da minha avó era de um homem chamado Bento Quirino.

Há pouco tempo, ainda no mundo anterior ao COVID-19, eu parti numa busca para tentar encontrar algo sobre essa figura, saber sobre sua história e ter ideia de sua relação com meu avô.

Encontrei muito material sobre um homem chamado Bento Quirino, um sertanejo típico dos primeiros anos do Século XX. Ele era disposto, lutador, que se meteu em confusões e sofreu a perda violenta de toda a sua família no sertão da Paraíba. Na sequência foi para a cadeia e até participou de uma revolta organizada por um homem letrado.

Casa grande da fazenda Rajada, entre as cidades potiguares de Acari e Carnaúba dos Dantas, pertencente a Joaquim Paulino de Medeiros, bisavô do autor desse texto.

Teria sido esse mesmo Bento Quirino o mesmo homem que ajudou meu avô e que no sertão de outrora viveu em meio a tragédias extremas?

Quem Foi Bento Quirino?

Sou nascido em Natal, capital do Rio Grande do Norte, onde o começo de minha vida foi no bairro operário das Rocas, na beira do Oceano Atlântico. Poderia nunca ter me importando com o sertão. Mas certamente por toda a minha história familiar, na minha mente eu sempre achei que o sertão possuí algo de verdadeiramente mágico.

É uma região que gravita entre o árido e o belo, em meio a paisagens únicas e uma natureza ressequida e dura. Onde vivem homens e mulheres criativos, trabalhadores, prestativos, persistentes e corajosos, que não têm medo nem de cara feia e nem de enfrentar as dificuldades da vida!

Talvez mais no passado do que agora, onde valores e tradições mudam tão rápido quanto a velocidade ditada pela internet e o meio digital, os sertanejos admiravam fortemente aqueles que mantinham a palavra, os que lutavam pela sua honra e os que não aceitavam serem desmoralizados. Tinham muita estima por aqueles que, por mais humilde que fosse a sua existência, eram ousados, valentes, que brigavam para conservar a própria altivez e daqueles que não tinham medo do limite entre a vida e a morte para manter intacta sua dignidade e seus valores. Valores que hoje em dia são considerados arcaicos!

Nesse sertão do passado não foram raros os episódios que terminaram em terríveis cenas de sangue para reparar a honra atingida. Normalmente essas situações limite tinham dois lutadores que travaram lutas épicas, permeadas de muito ódio. Muitas vezes os resultados dessas contendas eram tão impactantes, que chamavam a atenção de comunidades e regiões inteiras. Mormente essa curiosidade se dava pela maneira tranquila dos adversários encararem a morte. Na sequência esses casos eram propagados de forma intensa e com forte apelo popular.

Típico punhal do sertão do Nordeste.

Essa divulgação poderia acontecer de várias maneiras, principalmente nos encontros sociais que aconteciam nas feiras sertanejas, ou nos alpendres das casas centenárias. Os primeiros comentaristas geralmente eram aqueles que estavam mais próximos dos acontecimentos, dos fatos. Mas logo a narrativa avançava e os episódios narrados cresciam tanto em grandiloquência como em popularidade.

Não demorava muito e um talentoso poeta do povo escutava o caso e em pouco tempo a terrível cena de sangue se metamorfoseava em uma bela estrofe, no formato de uma sextilha, ou de uma décima de sete sílabas, ou de um martelo alagoano. Depois os versos poderiam ser impressos no formato de um tradicional folheto de cordel. Isso dava condições daquelas histórias ganharem a eternidade que o material impresso possui. Mas isso não significava que todas as histórias de lutas figadais do Nordeste do Brasil, de adversários que “se pegavam no Campo da Honra”, se tornariam versos populares, ou seriam impressas em cordel. Até onde sei esse foi o caso de Bento Quirino.

Vaqueiros em uma antiga fazenda no sertão.

Mas para contar corretamente essa história precisamos voltar para o ano de 1910, um ano bastante seco no sertão[1].

O local é a cadeia pública da cidade paraibana de Patos, onde uma pessoa que desconhecemos seu nome ali esteve para conhecer um dos prisioneiros. Esse desconhecido certamente era um homem de letrado, pois na primeira página do jornal paraibano O Norte, edição de 21 de setembro de 1913[2], ele narrou com riqueza de detalhes sobre esse encontro.

Lhe apresentaram um homem cujo nome de batismo era Bento José de Guimarães, mas era conhecido por todos como Bento Quirino. Foi descrito como sendo alto, com músculos fortes, de espaduas largas e bonito na fisionomia. Ainda segundo o desconhecido articulista o detido falava com altivez, tinha a palavra desembaraçada, se exprimia com gestos fortes e seus olhos azuis movimentavam-se de forma rápida e rítmica, acompanhando as suas ideias inteligentes. E continuou apresentando o encarcerado nas páginas de O Norte da seguinte forma:  

Na Chronica pavorosa dos delictos, que enche pintada em sangue a história do sertão parahybano, Bento Quirino é figura única pela exquisita caracteristica de sua modalidade criminal. Nem Adolfo, Nem Jesuíno Brilhante, nem Antônio Silvino reúne como elle as qualidades maximas de fôrça, de bravura, de mal orientado heroismo selvagem. Se é mais longa a vida de cada um daquelles e mais variada de peripécias monstruosas e ruins, a de Bento Quirino tem a originalidade mascula que reflecte o grau alto e bruto de sua energia organica.

Elle só mata a punhal”       

Fazia então quase quatro anos que Bento Quirino estava preso na Cadeia Pública de Patos, aguardando um julgamento por dois assassinatos. O detalhe é que até o momento do encontro, em 1910, ele ainda não tinha sido julgado e poderia receber uma pena de até trinta anos de cárcere. Mesmo diante dessa situação, Bento Quirino não demonstrou ao homem que lhe visitou esperança. Mas também não exprimiu a menor contração de tibieza, ou de fragilidade.

Foto meramente ilustrativa de um típico vaqueiro do sertão – Fonte – IBGE.

Contou que seu primeiro problema com a justiça ocorreu anos antes, na cidade paraibana de Campina Grande, quando foi acusado de furtar um cavalo, situação que Bento Quirino apontou como sendo “calumniosa”. Respondeu à justiça por esse caso e foi absolvido. Logo voltou a se encontrar com o aparato jurídico paraibano daqueles tempos, quando respondeu por um crime de assassinato. Nesse caso, que provavelmente também ocorreu em Campina Grande, ele foi atacado por um grupo de homens e apunhalou um deles, levando seu agressor a óbito. Novamente Quirino foi absolvido, pois o caso foi enquadrado como legítima defesa.

No mesmo jornal paraibano O Norte, edição de 21 de setembro de 1913, soubemos que após esse caso de legitima defesa, houve um terceiro encontro entre Bento Quirino e a justiça, só que dessa vez o caso estava ligado a uma cidade da região do Seridó do Rio Grande do Norte.

Consta que Bento Quirino decidiu seguir para uma aldeia menor. Estava nesse lugar levando a vida, quando recebeu um chamado de um primo e amigo para ir até a cidade potiguar de Jardim do Seridó. Ali seu parente havia se metido em confusões e ao destemido paraibano foi solicitado que protegesse essa pessoa em uma viagem pelos caminhos do sertão. Quirino aceitou a empreitada.

Uma noite partiu de Jardim do Seridó pelas estradas sertanejas com seu parente, quando em um determinado lugar foram emboscados por três homens que possuíam armas de fogo. Mesmo diante dessa situação desvantajosa, o paraibano não se perturbou e partiu para cima dos atiradores. Atacou a todos valentemente com seu punhal, enterrando sua arma até o cabo nos corpos daqueles infelizes, em meio a tiros, gritos e muita confusão. Ao raiar do dia os três espingardeiros estavam mortos e Bento Quirino e seu parente vivos. Novamente esteve diante da justiça, nesse caso não sei se a paraibana ou a potiguar, onde foi novamente absolvido.

Depois de tanto bater na porta da justiça, segundo o desconhecido articulista do jornal O Norte, Bento Quirino decidiu buscar paz. O valente paraibano seguiu com sua família (da qual não temos nenhuma informação anterior) para uma área que foi assim apresentada, conforme está no original: “Foi assentar a tenda de agricultor no fertil valle dos Ferros, frauda acidental da borburema, sobre os ultimos fios dagua do Pinháras”. Foi nessa região que Quirino comprou algumas braças de terras, levantou uma tosca casa de taipa e por lá ficou vivendo e sobrevivendo.

A Hecatombe de Taperoá[3]

Aparentemente a região onde a casa foi erguida não seria muito distante da então da cidade de Taperoá, antiga vila de Batalhão. A partir desse ponto vamos incorporar as fontes dessa história o jornal natalense A República, que em 12 e 15 dezembro de 1906 publicou duas interessantes notas da tragédia que envolveu Bento Quirino e sua família[4].

1906 foi um ano de boas chuvas e aquele momento poderia ser muito positivo na vida de Bento Quirino. Mas ele começou a ter problemas por questões de terra com um cidadão de nome Benedicto Leite.

Aparentemente a coisa toda desandou de forma intensa para uma situação extremamente radical, certamente pelo espírito bélico dessas duas figuras sertanejas. Pois os jornais apontam que por essa questão Quirino e Leite haviam se tornado “inimigos irreconciliáveis, jurando matar-se ao primeiro encontro, sendo ambos peritos no manejo das armas e de uma coragem de leões”.

A questão desbancou para a violência sangrenta quando um dia, ao retornar para sua casa de uma pequena viagem, Bento Quirino soube que suas filhas foram “insultadas” por parentes de Benedicto Leite. Os jornais não narram os detalhes e nem a natureza desses “insultos”, mas em uma época e em uma região onde a honra de mulheres era algo sagrado, nem necessitaria que as filhas de Bento Quirino sofressem alguma violência mais intensa e ampla, como a sexual, para que fosse possível uma resposta violenta de seu pai.

Lhe foi narrado com detalhes o ocorrido, mas Quirino não disse absolutamente nada. Apenas esperou chegar o sábado, dia 25 de novembro de 1906, dia de feira em Taperoá.

Uma das fontes pesquisadas aponta que ele seguiu para o lugarejo com um filho, outra aponta que ele foi só mesmo. O certo é que chegou na cidade e passou a circular pela praça, em meio ao burburinho dos vendedores e clientes. Por lá se encontravam o filho e um genro de Benedicto Leite. Estes logo foram informados da presença do desafeto, mas não se alteraram e nem partiram.

Depois de um tempo, Quirino, sem maiores alardes, levou seu burro até a casa onde estava hospedado o filho de Benedicto e, após iludir o dono da vivenda, chegou sem dificuldades ao quintal onde encontrou o rapaz e lá o inquiriu sobre o acontecimento envolvendo suas filhas. Logo os dois partiram para a luta armados de punhais e não demorou para Quirino matar seu oponente a estocadas.

Na sequência saiu para a rua ainda sujo do sangue do inimigo abatido e com o punhal pingando rubro líquido. Logo estava diante do genro de Benedicto, que igualmente não fugiu. Ambos partiram para a luta na frente de toda a comunidade e novamente Quirino venceu seu adversário, mas dessa vez ficou ferido.

Nesse ponto as fontes pesquisadas (Jornais A República, de 1906, e O Norte, de 1913) são unanimes sobre a vingança de Benedicto Leite.

Depois de velarem e enterrarem os cadáveres do filho e do genro, Benedicto partiu para a propriedade de Quirino com seus familiares na terça-feira, 28 de novembro. O seu inimigo obviamente não se encontrava na vivenda, mas os Leites não perderam a viagem!

Em meio a gritos de dor e desespero, começaram surrando todos na casa. Na sequência estupraram brutalmente a mulher de Quirino, que depois foi morta a punhaladas no pescoço, isso tudo diante do terror e desespero de suas filhas. Estas foram logo seviciadas e depois mortas com várias estocadas. Um filho de 12 anos e um cunhado de 17 foram igualmente assassinados com armas brancas. Depois os cadáveres foram arrastados para o terreiro e colocados sob o sol inclemente do sertão paraibano para tostarem e serem comidos pelos urubus.  

No caminho de casa os Leites, roupas tingidas de vermelho e sem nenhum remorso ou medo pela barbárie cometida, gritavam informando que quem enterrasse aqueles cadáveres sofreriam as mesmas consequências.

Mesmo com o recado dado pelos assassinos da família de Quirino, quatro ou cinco dias depois, um membro da comunidade de Taperoá conhecido como Capitão Sulpício mandou enterrar os cadáveres já completamente destroçados. Certamente o triste espetáculo de aves de rapina banqueteando-se com os restos mortais dos familiares de Quirino foi maior que a ameaça dos Leites. Consta que enterramento dos restos mortais daqueles miseráveis foi difícil, tal o estado como se encontravam.

Consta nos jornais que Bento Quirino jurou matar a todos da família Leite.

A Prisão em Nova Cruz

Benedicto sabia da terrível vingança que se abateria sobre ele e sua família e decidiram partir para o Ceará. Essa inclusive foi a última referência que encontrei sobre essa família[5].

Já em relação a situação de Bento Quirino sabemos que quatro meses após a matança de sua família ele foi preso no dia 13 de fevereiro de 1907, na cidade potiguar de Nova Cruz. Provavelmente quem o deteve foi o delegado Anísio Alípio de Carvalho e depois Quirino foi enviado para a Cadeia Pública de Natal[6].

Não sabemos o que Bento Quirino veio fazer em Nova Cruz, talvez buscar algum tipo de apoio? Ou refugiar-se da perseguição da polícia paraibana? Ou procurar membros da família Leite? Mas sabemos que o então Chefe de Polícia da Paraíba, o desembargador Antônio Ferreira Balthar, comemorou muito a captura daquele homem. Entretanto nenhuma nota, informação, ou qualquer outra coisa foi divulgada sobre uma possível prisão, ou abertura de algum inquérito contra Benedicto Leite e sua família[7].

Bento Quirino então ficou detido na Cadeia Pública de Patos, sem julgamento, até o dia 24 de maio de 1912, quando um bacharel em direito, formado na tradicional Faculdade de Direito de Recife, lhe tirou de sua cela. Mas isso não aconteceu com um Habeas Corpus na mão, mas com um rifle calibre 44 e uma cartucheira de balas!

O Dr. Augusto Santa Cruz e a “Guerra de 12”[8]

Augusto de Santa Cruz Oliveira nasceu em Alagoa do Monteiro, atual Monteiro, Paraíba, em 1º de novembro de 1873, sendo oriundo de uma tradicional família de latifundiários e políticos. Seguiu para o Recife onde se formou bacharel em direito no ano de 1895 e três anos depois era promotor público em sua cidade natal.

Nos primeiros anos do Século XX a política na Paraíba era um grande caldeirão fervescente, onde não faltavam ações violentas com perseguições, espancamentos, invasões de vilas, tiroteios e mortes. Em meio a busca de espaços políticos, no ano de 1910 Augusto Santa Cruz arregimentou homens para se “proteger”, mas igualmente atacar adversários[9].

Por suas ações Augusto Santa Cruz foi pronunciado pela justiça paraibana em 25 de janeiro de 1911. Foi preso, levado para a capital e perdeu o cargo de promotor. Após sua soltura através de um Habeas Corpus, retornou a sua terra. Seu julgamento, onde ele estava certo que seria uma farsa realizada para prendê-lo, iria se realizar em 6 de maio de 1911. Só que nessa data Augusto Santa Cruz atacou Alagoa do Monteiro com um grupo que para alguns era formado por cerca de 200 homens armados. Várias figuras importantes da comunidade foram feitas reféns, sendo levados para sua fazenda chamada Areal[10].

Casa grande da fazenda Areal, próximo a Monteiro, Paraíba. Anos atrás visitei esse local com a ajuda do amigo Ary Prata, grande estudioso da história da região de Monteiro – Foto – Rostand Medeiros.

Consta que Augusto Santa Cruz tinha a intenção de trocar a liberdade de seus prisioneiros por uma anistia pelos crimes nos quais estava sendo acusado. Mas o então governador paraibano João Lopes Machado fez ouvidos moucos aos pedidos de negociação do “Doutor Rebelado” e mandou a força policial atacar sua fazenda, prender Santa Cruz e libertar os reféns. Depois de forte troca de tiros, Augusto Santa Cruz, seus homens e seus reféns conseguiram fugir[11]. O chefe decidiu seguir para o Ceará, para Juazeiro do Padre Cícero. No caminho foi soltando os reféns aos poucos e depois passou mais de seis meses na meca dos romeiros nordestinos.

Serra de Teixeira – Fonte – IBGE.

Augusto Santa Cruz não havia conseguido sua tão desejada anistia e retornou com vários de seus homens para Alagoa de Monteiro, onde aliou-se com o médico Franklin Dantas, do município paraibano de Teixeira, igualmente desprestigiado pelas lideranças locais e pelo Estado. Juntos organizaram um novo grupo armado, que era constituído desde amigos e parentes, passando por moradores e empregados, tendo espaço até para fugitivos da justiça e cangaceiros. Consta que dessa vez o grupo alcançou a cifra de 400 a 500 homens. Estava tendo início um conflito armado que ficaria conhecido como “A Guerra de 12”.

Revista carioca mostrando uma charge de Augusto Santa Cruz e sua luta.

Em 24 de março de 1912, uma sexta-feira, Augusto Santa Cruz comandou os primeiros ataques as fazendas de seus inimigos em Alagoa de Monteiro. Depois atacou a cidade de Taperoá, que se defendeu durante cinco dias antes de render-se. O próximo alvo foi a cidade de Patos. Os revoltosos de Augusto Santa Cruz chegaram a essa cidade por volta de duas da tarde. Os 16 a 18 praças da polícia que defendiam o lugar, comandados pelo alferes José Ramalho fugiram, assim como muitos habitantes. Foram alguns jovens que tentaram uma resistência a partir da igreja local, mas diante de um grupo com cerca de 400 homens, logo depuseram armas, que foram tomadas pelos homens de Santa Cruz, mas os defensores não foram maltratados.  

Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Patos, Paraíba. Não sei se foi essa a igreja que foi utilizada como baluarte de defesa quando da invasão do grupo de Augusto Santa Cruz – Fonte – IBGE.

Um dos que mais sofreu em termos de prejuízos foi o coronel José Jeronimo de Barros Ribeiro, conhecido como “Coronel Tota”. Sua casa e seu comércio foram intensamente saqueados, com prejuízos na ordem de 150 contos de réis. O coronel José Jeronimo e seus familiares ficaram escondidos por dois dias em um quarto na casa de amigos e ele só conseguiu fugir de Patos no domingo, dia 26. Tomou destino para o Rio Grande do Norte, onde percorreu junto com amigos mais de 300 quilômetros até a antiga Baixa Verde, atual cidade de João Câmara. De lá pegaram um trem da Estrada de Ferro Central até Natal e depois um outro trem, desta vez da Great Western, até a capital de Pernambuco[12].    

Foto de Patos na década de 1950, onde vemos a Avenida Sólon de Lucena e a Praça Edvaldo Mota – Fonte – IBGE.

Foi na ocasião que Augusto Santa Cruz tomou a cidade de Patos que Bento Quirino e outros prisioneiros foram libertados! Consta em um jornal que Quirino desejava assassinar o “juiz Fenelon”. Esse não era outro se não o juiz Fenelon Ferreira da Nóbrega, magistrado da cidade de Patos[13].

Bento Quirino não conseguiu seu intento e permaneceu junto ao pessoal de Augusto Santa Cruz e Franklin Dantas. Estes atacaram as cidades e vilas de Santa Luzia do Sabugi, Soledade (29/05/1912) e São João do Cariri (30/05/1912) e pensaram em atacar Campina Grande. A desse ponto, com escassez de munição e diante da resistência oferecida pelo governo estadual, os líderes dispersaram a cabroeira. Augusto Santa Cruz fugiu para Pernambuco e em março de 1913 foi submetido a júri popular em Alagoa de Monteiro, com os irmãos Miguel e Arthur atuando na defesa, sendo absolvido por unanimidade[14].

Após a dispersão do grupo, somente quatro meses depois vamos ter notícias de Bento Quirino.

O alferes Irineu Rangel soube de sua permanência no distrito de Pocinhos, hoje município autônomo, mas que na época pertencia a Campina Grande. A informação era que o foragido procurava um inimigo e não estava com nenhuma arma de fogo, apenas com seu mortal e eficaz punhal. Rangel seguiu com uma tropa que chegou a mandar bala em Quirino, que estava sozinho e conseguiu fugir[15].

Cinco Anos Foragido, Uma Nova Prisão e o Desaparecimento

Então, apesar da sua propalada periculosidade, Bento Quirinio some do mapa. Durante cinco anos nada é divulgado sobre ele. Não temos notícia se ele formou um bando de cangaceiros, ou passou a fazer parte de algum bando, ou que tenha praticado algum assalto, ou tenha assassinado seus inimigos. Parecia que ele havia se escondido e assim tentar viver em paz!

Mas o braço da justiça é longo e pouco dado a esquecimentos, quando isso não convém. Então, em uma pequena nota publicada no jornal O Norte do dia 24 de dezembro de 1918, o delegado de polícia da cidade paraibana de Soledade, o Sr. Genésio Nóbrega, capturou Bento Quirino. Nem o então Chefe de Polícia da Paraíba, Manuel Tavares Cavalcanti, fez qualquer menção sobre essa prisão!

Desse ponto em diante a pesquisa em jornais, livros e outros meios parou. Por esses caminhos nada mais encontrei sobre essa figura. E não tinha resposta se foi esse Bento Quirino que ajudou meu avô na década de 1930.

Comecei então uma busca junto aos ditos ”Cangaceirófilos”, os que se arvoram de pesquisadores do Cangaço. Outra perda de tempo e uma fonte de chateação diante da ignorância, canalhismo e da total falta de educação de alguns desses ditos “cientistas”.

Então o jeito era pegar a estrada!

A Busca Pela História e a Descoberta de um Esconderijo de Pistoleiros

Antes do COVID-19 tomar conta do Planeta Terra, eu segui para a Paraíba com meu primo Hélio de Medeiros Vianna, tentando descobrir se esse personagem tinha relação com nosso avô.

O autor e seu primo Hélio de Medeiros Vianna em busca da História de nossa família.

Seguimos adiante com os poucos dados que a nossa tradição familiar tinha deixado. Primeiramente estivemos na cidade paraibana de Frei Martinho, na Microrregião do Seridó Paraibano, onde uma fazenda na região poderia ter relação com a figura de Bento Quirino.

Casa de Memória Vicente Ferreira de Macedo, na propriedade Várzea verde, Frei Martinho – PB.

Estivemos na dita fazenda e comprovamos que ela tem relação com uma outra pessoa que ajudou nosso avô Jaco Medeiros, mas nada sobre Bento Quirino. Entretanto a visita a Frei Martinho e região foi muito proveitosa. Chamou a nossa atenção a existência de um local denominado “Casa de Memória Vicente Ferreira de Macedo”, na propriedade denominada Várzea verde, destinada a preservar a história da família Ferreira de Macedo.

Outra situação interessante nessa pequena cidade de pouco mais de 3.000 habitantes foi a existência em uma de suas praças principais de um memorial em honra dos frei-martinenses que participaram da Força Expedicionária Brasileira – FEB, durante a Segunda Guerra Mundial.  

Dessa cidade seguimos para a cidade de Cuité, com cerca de 20.000 habitantes, onde contatamos uma pessoa que nos passou uma referência interessante sobre uma propriedade onde viveu um cidadão cuja história se enquadrava ao personagem Bento Quirino. Comentou também que essa propriedade ficava alguns quilômetros da vizinha cidade de Barra de Santa Rosa.

Com seus mais de 15.000 habitantes, Barra de Santa Rosa se mostrou uma localidade interessante e acolhedora. Lá conhecemos o Senhor José Severino de Oliveira Lima, conhecido como Zé de Nininha, comerciante local, que de uma forma tranquila e prestativa se prontificou a nos apresentar pessoas que poderiam ampliar nosso conhecimento. Através desses contatos descobrimos que nas propriedades denominadas Passagem do Salgado e Gangorra, cerca de 35 quilômetros de distância dessa cidade, poderíamos encontrar boas informações.

Plantação de sisal na zona rural de Barra de Santa Rosa – PB.

Buscamos o caminho que segue em direção ao município paraibano de Olivedos. Ao percorremos essa estrada de barro avistamos muitas plantações de sisal e após um tempo chegamos nessas propriedades. Ali fomos recebidos de maneira magistral e calorosa pelos membros da família Viriato.

Em uma conversa bem tranquila, na sala de uma antiga casa de fazenda, cercada de pessoas altamente atenciosas e receptivas, descobrimos que ninguém possuía nenhuma referência se meu avô se refugiou naquelas propriedades, ou se um cidadão conhecido como Bento Quirino viveu naquele setor. Segundo as pessoas do lugar, quem poderia dar alguma informação já se encontrava em outro plano espiritual.

Fazenda Gangorra.

Infelizmente não consegui descobrir nada que pudesse elucidar a questão se o Bento Quirino que encontrei nos jornais antigos, que viveu momentos tão intensos e violentos em sua vida, foi a mesma pessoa que ajudou meu avô Jaco Medeiros.

José Antônio Maria da Cunha Lima Filho – Fonte – httptrilhasdeareia.blogspot.com201002major-cunha-lima-o-barbado-de-areia.html

Mas os membros da família Viriato me garantiram que a tradição oral local informou que no passado, antes deles chegarem por lá, aquelas propriedades serviram de esconderijo para pistoleiros que trabalhavam para o “Coronel Cunha Lima”, da cidade paraibana de Areia. Acredito que eles se referiam ao fazendeiro e líder político José Antônio Maria da Cunha Lima Filho, um importante político paraibano, eleito deputado estadual em várias ocasiões, elegendo prefeitos em Areia e foi fundador da UDN naquele estado. Para os membros da família Viriato, o poder desse homem era tanto que bastava alguém pegar em um mourão da cerca dessas propriedades que estava protegido e nem a polícia poderia fazer nada contra essa pessoa.

Como esse não era o objetivo da nossa pesquisa, demos a busca por encerrada.

Uma antiga balança de pesagem de algodão.

Mesmo com o resultado sendo negativo, em nenhum momento me senti decepcionado. Havia realizado uma maravilhosa viagem com meu primo Hélio, tinha conhecido pessoas super prestativas e atenciosas, onde a tradicional hospitalidade do sertanejo nordestino esteve presente de maneira magistral.

Pesquisar história é assim mesmo. Tem dias que funciona e em outros não, mas o que valeu nessa empreitada foi o caminho e não o destino!

Continuo com a minha busca!

NOTAS –


[1] Sobre a cronologia histórica das secas na Região Nordeste, ver o interessante trabalho Secas no Nordeste: registros históricos das catástrofes econômicas e humanas do século 16 ao século 21, de José Roberto de Lima, Antonio Rocha Magalhães, acessível em – http://seer.cgee.org.br/index.php/parcerias_estrategicas/article/viewFile/896/814

[2] Ver jornal O Norte, João Pessoa-PB. edição de 21 de setembro de 1913, pág. 1. Sobre quem teria escrito esse texto permanece um mistério, mesmo após extensas buscas. Entretanto me chamou a atenção a forma muito bem escrita do texto e a maneira como o autor apresenta Bento Quirino.

[3] O termo “Hecatombe de Taperoá” certamente causará estranheza nas pessoas oriundas dessa interessante cidade, pois até onde sei essa terminologia não existe por lá, foi uma criação minha para esse texto. Na verdade, eu nem sei se esses horrendos e sangrentos crimes são de conhecimento da população local. Entretanto, eles estão claramente referenciados em pelo menos dois grandes jornais da Paraíba e Rio Grande do Norte do início do Século XX.

[4] Ver A República, Natal-RN, edições de 12 e 15 de dezembro de 1906, sempre nas páginas 2 dessas respectivas edições.

[5] Ver A República, Natal-RN, edição de 15 de dezembro de 1906, pág. 2.

[6] Na Mensagem entregue pelo governador potiguar Alberto Maranhão ao Congresso Legislativo do Estado, atual Assembleia Legislativa, no ano de 1904, encontramos na página 16 que Anísio Alípio de Carvalho havia sido empossado para o cargo em 15 de outubro de 1903.

[7] Sobre a prisão de Bento Quirino ver a Mensagem Apresentada a Assembleia Legislativa do Estado da Paraíba, em 1º de setembro de 1907, pág. 7.

[8] A melhor fonte de informações sobre Augusto Santa Cruz e sua revolta em 1912 é o livro Guerreiro togado – Fatos históricos de Alagoa de Monteiro, de Pedro Nunes Filho, Editora UFPE, Ed. 1997, Recife-PE.

[9] Um desses inimigos foi José Pereira de Gouveia, o capitão Zé Gouveia, que em 10 de outubro de 1910 se envolveu em um tiroteio contra o pessoal de Santa Cruz na sua propriedade Cachoeirinha, perto da vila de São Tomé, atual cidade paraibana de Sumé. Desse embate Gouveia saiu ferido, quase perde a perna e por essa razão se retirou da região e foi viver em Pernambuco.

[10] Durante o ataque a Alagoa do Monteiro os homens de Santa Cruz dominaram a cadeia, libertaram os presos e o chefe deixou seus homens agirem com liberdade pela cidade contra tudo que pertencesse aos seus inimigos.

[11] Nesse episódio a polícia paraibana queimou a fazenda de Santa Cruz totalmente.

[12] Ver jornal O Norte, João Pessoa-PB, edição de 7 de junho de 1912, pág. 1.

[13] Ver jornal O Norte, João Pessoa-PB, edição de 8 de junho de 1912, pág. 1.

[14] Depois disso, exerceu o cargo de juiz de Direito em várias localidades de Pernambuco e ganhou fama de magistrado realmente justo. Aposentou-se em Limoeiro-PE, onde faleceu, em 31 de outubro de 1944, aos 69 anos de idade.

[15] Segundo o amigo Sérgio Augusto de Souza Dantas, Irineu Rangel era um destacado e valente policial paraibano, tendo combatido Antônio Silvino, Lampião no Ceará após ao ataque a Mossoró de 1927 e combatido as tropas do coronel José Pereira na chamada Guerra de Princesa de 1930.

COM FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO EM RECIFE, ENTREGANDO MEU LIVRO “1927 – O CAMINHO DE LAMPIÃO NO RIO GRANDE DO NORTE”

Rostand Medeiros – IHGRN

Depois de quase sete meses recluso na minha residência em Natal devido ao atual problema da pandemia, por esses dias eu tive a grata oportunidade de pegar a estrada BR-101 e seguir para Recife, onde visitei o amigo Frederico Pernambucano de Mello.

Como já aconteceu em outras oportunidades e apesar do distanciamento em relação a questão do COVID-19, eu fui muito bem recebido pelo amigo e a conversa foi bastante ampla e excepcional. E só tiramos as máscaras para bater uma chapa e registrar o momento!

Sempre é bom encontrar alguém com amplo conhecimento em determinados temas e mais ainda quando essa pessoa, como é o caso de Frederico, possuí algumas qualidades simples e que parecem faltar nos dias de hoje – Transmitir conhecimentos de forma clara e objetiva, além de escutar com atenção ideias e opiniões. Isso tudo em meio a muita simplicidade, algo que lhe é próprio e normal. Pude aprender mais sobre a História do nosso querido Nordeste.

Na ocasião lhe ofertei um exemplar do meu novo livro “1927 – O Caminho de Lampião no Rio Grande do Norte”. Fiquei muito agradecido pela atenção, respeito e fidalguia dispensada a esse potiguar.

Realmente valeu a viagem!

Segundo o Wikipédia, Frederico Pernambucano de Mello nasceu na cidade do Recife, capital do estado brasileiro de Pernambuco, é Procurador federal aposentado, é formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela tradicional Faculdade de Direito do Recife e em 1988 foi eleito para a Academia Pernambucana de Letras e foi superintendente da Fundação Joaquim Nabuco. Tem entre suas obras Rota Batida: escritos de lazer e de ofício, Guerreiros do sol: o banditismo no Nordeste do Brasil, Quem foi Lampião, A Guerra Total de Canudos, Delmiro Gouveia: desenvolvimento com impulso de preservação ambiental, Guararapes: uma visita às origens da pátria, A tragédia dos blindados: um episódio da Revolução de 30 no Recife, Estrelas de couro: a estética do cangaço, Benjamin Abrahão: Entre Anjos e Cangaceiros, Na trilha do cangaço: o sertão que Lampião pisou, Guerra em Guararapes & outros estudos, Apagando o Lampião: Vida e Morte do Rei do Cangaço.

LEMBRANÇAS DE LAMPIÃO, SABINO, MASSILON E JARARACA NO LIVRO “1927 – O CAMINHO DE LAMPIÃO NO RIO GRANDE DO NORTE”

Rostand Medeiros – Sócio efetivo do IHGRN e autor do livro “1927 – O Caminho de Lampião no Rio Grande do Norte”.

Em 2010 encontrei a consultora Kátia Lopes, do Serviço Brasileiro de Apoio às Pequenas e Micro e Pequenas Empresas do Rio Grande do Norte – SEBRAE/RN. Através de Kátia soube do desenvolvimento do “Projeto Território Sertão do Apodi – Nas Pegadas de Lampião”, do qual ela era a gestora. No diálogo soube que ela planejava criar um grupo para percorrer o mesmo caminho palmilhado por Lampião e seus cangaceiros, como parte de um amplo reconhecimento histórico. Ali estava uma oportunidade imperdível de realizar um antigo sonho que desejava realizar.

Em grande parte do trajeto a motocicleta foi o meu transporte, como na ladeira do Riacho Preto, em Felipe Guerra, Rio Grande do Norte.

Com o apoio institucional da Sociedade Espeleológica Potiguar – SEP, através de Sólon Almeida Netto, pudemos apresentar a Kátia Lopes e a outros técnicos do SEBRAE, como seria possível coletar de forma sistemática as informações relativas ao caminho percorrido pelo bando de Lampião na sua invasão ao Rio Grande do Norte e as ações ali ocorridas.

Descobrimos que na antiga divisão territorial do Rio Grande do Norte, o bando de Lampião havia percorrido seis municípios – Luís Gomes, Pau dos Ferros, Martins, Caraúbas, Apodi e Mossoró. Para a realização deste projeto observamos que o antigo caminho está atualmente localizado na área territorial de dezenove territórios municipais potiguares. São eles Luís Gomes, Major Sales, Paraná, José da Penha, Tenente Ananias, Marcelino Vieira, Pilões, Pau dos Ferros, Serrinha dos Pintos, Antônio Martins, Frutuoso Gomes, Lucrécia, Umarizal, Caraúbas, Apodi, Felipe Guerra, Governador Dix-sept Rosado, Mossoró e Baraúnas.

No Povoado Cruz, na zona rural de Frutuoso Gomes, Rio Grande do Norte.

E teríamos de passar por todos esses locais.

Nesta área previamente delimitada procuramos identificar, documentar e catalogar o maior número de informações, tais como a descrição do trajeto percorrido pelos cangaceiros, a situação do patrimônio que eles atacaram, como também compilar as informações transmitidas pelas testemunhas e descendentes daqueles que presenciaram os episódios de 1927. Junto a essas informações utilizamos a bibliografia existente, complementada por informações de jornais e mapas.

Após esta fase, buscamos entrar em contato com as prefeituras, entidades e pessoas nos dezenove municípios listados, com o intuito de corroborar as informações coletadas e sobre ações realizadas no sentido de preservar a memória destes fatos.

Na bela cidade serrana de Martins-RN.

Munidos destas informações foi planejada a sequência de viagens de campo, a logística envolvida para a execução desta fase do trabalho e, no momento certo, seguimos adiante pelas estradas do sertão!

Durante a realização da pesquisa de campo pelo oeste do Rio Grande do Norte, fossem nas cidades, distritos, localidades e propriedades visitadas, buscamos contatar primeiramente as testemunhas da passagem do bando ainda vivas e que se encontravam mais lúcidas. Mesmo sendo poucas as pessoas enquadradas nesse grupo que conseguimos encontrar, foi possível coletar alguns interessantes relatos destes acontecimentos. Percebemos que o muito do que essas pessoas guardavam em suas mentes sobre aqueles dias sombrios, estavam relacionados ao choque da passagem daqueles cangaceiros, com a quebra total de suas rotinas, suas perdas pessoais e materiais, das humilhações, das sevícias, deixando terríveis lembranças.

Às margens da rodovia estadual RN-117, na zona rural do município de Mossoró, no Sítio Lagoa dos Paus, encontramos o agricultor Expedito Evangelista de Oliveira, que narrou as agruras que seu sogro, João Abdias de Araujo, passou junto ao bando.

Mas foi com aqueles que não haviam nascido no momento da passagem de Lampião e seus homens, que em 2010 estavam na faixa entre os 70 a 80 anos de idade, que tivemos oportunidades de escutar ótimos relatos. Estas pessoas viveram em uma época anterior a existência massificada do rádio e da televisão, onde os relatos de viva voz feitos pelas testemunhas dos episódios de 1927, muitas vezes em inesquecíveis diálogos nos alpendres das casas sertanejas, que marcaram profundamente suas lembranças.

Em meio a esta coleta de informações, buscamos realizar a maior quantidade possível de registros fotográficos, para apresentar o que restava dos locais invadidos pelo bando. Infelizmente constatamos, desde a nossa primeira passagem, que uma taxa bastante elevada deste patrimônio já não mais existia.

Com a conclusão desta etapa, percebemos que havíamos seguido pelo caminho correto, pois foi possível elucidar dúvidas existentes na bibliografia tradicional, descartar informações duvidosas e descobrir novos detalhes da passagem deste grupo de cangaceiros pelos nossos sertões.

Buscamos então apresentar um relatório ao SEBRAE sobre a marcha do bando de forma cronológica, sequenciando os locais onde os cangaceiros estiveram apresentando fotografias dos pontos visitados e detalhando as informações conseguidas. Depois de 2010 eu tive a oportunidade de percorrer esse caminho em mais outras quatro ocasiões.

Fazenda Campos, Umarizal-RN.

Uma experiência rica e maravilhosa.

Gostaria de abrir um parêntese aqui, para comentar algo percebido durante o trajeto percorrido para a conclusão desta pesquisa.

Principalmente no trecho compreendido entre as cidades de Umarizal e de Governador Dix-sept Rosado. Percebi, por meio dos vários relatos transmitidos pelos descendentes dos que testemunharam os fatos de 1927, que a figura do cangaceiro Lampião assumiu uma interessante conotação positiva. Ouvi várias vezes que ele “Não era tão ruim”, “Que ele não era tão mal”.

No entendimento da maioria das pessoas entrevistadas, eram os “outros cangaceiros”, ou “o resto da tropa”, aqueles que realmente praticaram as ações mais negativas, mais malévolas, especialmente Sabino, Jararaca e Massilon. Praticamente quase não ouvi a menção dos nomes de outros cangaceiros ao longo do caminho, ficando esses três celerados como os mais recordados negativamente.

Sei, por meio da tradição oral e dos materiais publicados nos livros existentes sobre esse tema, que Lampião pontualmente praticou alguns gestos de boa vontade ao longo desse largo caminho, principalmente com mulheres gestantes ou que se encontrava em estado de resguardo. Observei que aparentemente essas suas “boas ações” lhe granjearam entre os potiguares da zona rural invadida uma imagem que ao longo de décadas cada vez mais foi se transformando em positiva.

Lampião

Em relação a Sabino, como todos naquela turba, foi um cangaceiro que praticou toda sorte de crimes por onde passou no Rio Grande do Norte, principalmente surras, e alguns desses acontecimentos são aqui narrados. Contudo, percebi que, aparentemente, a imagem negativa dele tinha uma forte ligação com a cor de sua pele. Para se referir a Sabino, não foi nem um pouco raro encontrar relatos em que sobraram termos como: “O safado do negro Sabino”, “O negro medonho do Sabino”, “O negro nojento do Sabino” e outros que descambaram para termos impublicáveis. Seja qual for o termo, sempre havia o adjetivo “negro” presente.

Jararaca é um caso à parte! O negro valente de Buíque (PE), alto e forte, que, segundo os estudiosos, seguia quase sempre à frente do grupo de bandoleiros, tem a sua figura associada a um crime verdadeiramente assombroso, que foi repetido muitas e muitas vezes durante meu deslocamento.

Cangaceiro Sabino.

Quando Jararaca se encontrava preso e indefeso na cadeia de Mossoró, foi-lhe questionado se tinha algum arrependimento pelos erros passados. Ele comentou que se arrependia apenas de uma coisa: em determinado lugar (que nunca é especificado), ao se encontrar em uma casa que estava sendo assaltada pelo bando, ele pegou um risonho bebezinho nos braços e o lançou para o alto. Quando a criança vinha caindo, o cangaceiro sumariamente o apunhalou, ou “aparou” no dizer do sertanejo, utilizando seu longo punhal. A criança teria morrido rindo, pois na sua inocência imaginava que Jararaca a teria jogado para o alto como parte de uma brincadeira.

Na sequência desse relato, quando Jararaca morreu, muitos fizeram questão de dizer que ele tinha “Pago por esse crime terrível” quando ele morreu nas mãos dos policiais potiguares no Cemitério de Mossoró.

Para muitos entrevistados, o fim violento, covarde e cruel de Jararaca nas mãos dos agentes do Estado serviu como redenção do hediondo crime praticado contra a criancinha. Para corroborar com essa suposta redenção, muitos fizeram questão de me lembrar do fato de Jararaca ser considerado um “santo” pelo povo de Mossoró.

Mesmo a história dessa punhalada sendo repetida à exaustão ao longo do trajeto, esse crime nunca foi comprovado pelos principais estudiosos que se debruçaram sobre o tema.

Nos casos de Sabino e Jararaca, percebi que as violências praticadas pelo primeiro, principalmente por meio de suas inúmeras surras com chicotes, colocaram-lhe numa situação de repulsa muito intensa e logo surgia a lembrança de sua negritude. Já o segundo, Jararaca, mesmo sendo igualmente negro como Sabino, ele é pouco recordado pela cor de sua pele, mas sim pelos episódios narrados anteriormente.

O cangaceiro Jararaca ao lado de dois soldados, em Mossoró, Rio Grande do Norte

Já em relação ao cangaceiro Massilon, que era branco e – desde a fronteira do Rio Grande do Norte com a Paraíba, dependendo do lugar visitado e de acontecimentos ocorridos no passado – sua memória se alternou entre positiva e negativa.

Por um lado, nos locais onde anteriormente Massilon foi destratado pelos ricos proprietários e que, consequentemente, sofreram sua vingança já como cangaceiro, ele foi lembrado principalmente com termos como “moleque safado”, “cabra de peia” e “marginal”.

Por outro lado, nos locais onde ele realizou positivas ações de proteção dos velhos amigos, soltura de presos conhecidos, ou a preservação de patrimônios, houve definições que iam desde “um homem correto e de palavra”, até outras que apontavam Massilon como “uma pessoa boa que entrou na vida do cangaço por conta dos outros”. Ao questionar quem seriam esses “outros”, invariavelmente a resposta foi “os que tinham dinheiro e lhe trataram mal antes de ser cangaceiro”.

Bem amigos e amigas, a jornada foi percorrida e agora, em 2020, como que fechando um ciclo, através do apoio de SEBRAE/RN, apresento o que vi!

MEMÓRIAS DO ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ – JOÃO MANOEL FILHO E A TRINCHEIRA DO SOBRADINHO

João Manuel Filho – Foto – Francisco Rodrigues

Rostand Medeiros – Sócio efetivo do IHGRN e autor do livro “1927 – O Caminho de Lampião no Rio Grande do Norte”.

Ele chegou caminhando de forma lenta, mas firme. Trazia uma bengala na mão, um chapéu de cor clara na cabeça, tinha a pele curtida pelo sol da região oeste do Rio Grande do Norte e um semblante onde denotava uma vida de muita ação e experiência.

Estamos na cidade de Mossoró, na primeira metade de 1977, onde o cidadão João Manoel Filho concedeu uma entrevista ao jornalista Alexis Gurgel, do extinto jornal dominical natalense O Poti, onde narrou sua participação na “Resistência cívica” do povo mossoroense contra o bando de cangaceiros comandados pelo pernambucano Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Fato ocorrido em 13 de junho de 1927.

O cenário da entrevista, mostrado nas fotografias existentes na página 23, da edição de 5 de junho de 1977 de O Poti, foi realizada em um dos locais onde se vendia bebidas e comidas no tradicional Mercado Público de Mossoró, perto da igreja de Santa Luzia. João Manoel declarou a Alexis Gurgel que todos os dias pela manhã saia de sua casa na Rua Felipe Camarão, 853, perto da antiga rodoviária da cidade, com a intenção de conversar com os velhos amigos no Mercado Público e, às vezes, fazer uma “fezinha” no jogo do bicho. A tarde seu destino era a Prefeitura Municipal de Mossoró, onde na época da entrevista tinha um cargo no setor de abastecimentos. Fez questão de ressaltar que nem seus 78 anos bem vividos e nem a sua bengala eram problemas para o desenvolvimento do seu trabalho.

Alexis Gurgel informou que encontrou João Manoel ainda muito lúcido, com ótima memória e relembrando com clareza acontecimentos de uma vida pontuada de momentos bem agitados.

Bando de Lampião, conforme foram vistos no Rio Grande do Norte em junho de 1927.

Soube da Chegada dos Cangaceiros em Pau dos Ferros

Nascido em 1899 na cidade potiguar de Apodi, veio com seus familiares viver em Mossoró seis anos mais tarde. No ano de 1927 vamos encontrá-lo como funcionário da firma Tertuliano, Fernandes & Cia, uma tradicional empresa que atuava no ramo algodoeiro e salineiro.

Segundo informações existentes no Diário de Natal, edição de 26 de fevereiro de 1908 (pág. 1), o principal acionista dessa firma era o empresário Francisco Tertuliano Albuquerque, tendo como sócios Raimundo Nonato Fernandes, Vicente José Tertuliano Fernandes, Francisco Xavier Filho e Rodolfo Fernandes de Oliveira Martins. Não consegui uma informação definitiva se esse quadro societário era o mesmo em 1927, mas não podemos esquecer que Rodolfo Fernandes de Oliveira Martins era o Prefeito de Mossoró no dia do ataque de Lampião e seus homens a Mossoró[1].

Caminhão abarrotado de fardos de algodão. A plantação desta malvácea foi um grande impulsionador da economia nordestina e potiguar.

João Manoel Filho narrou a Alexis Gurgel que dois dias antes do ataque dos cangaceiros contra a “Capital do Oeste”, ele estava a serviço da empresa na cidade potiguar de Pau dos Ferros, cerca de 150 quilômetros ao sul de Mossoró, junto com o gerente José de Oliveira Costa, conhecido como “Costinha Fernandes”, quando souberam que Lampião e seus cangaceiros estavam chegando.

Talvez eles tenham escutado algo sobre as invasões e depredações ocorridos nos sítios e fazendas da região, como os sofridos nas propriedades Nova, Aroeira e Panati. Ou o combate entre policiais e cangaceiros no lugar Caiçara, com a derrota dos primeiros. O certo foi que João Manoel e Costinha Fernandes trataram logo de voltar para Mossoró e para a sede da empresa, que nessa época se encontrava muito abastecida com algodão. Eles seguiram pela velha estrada que ligava as duas principais cidades do Oeste Potiguar e acredito que o destino evitou um desagradável encontro com os cangaceiros ao longo do caminho.

Capelinha da fazenda Caricé, local atacado pelo bando de Lampião em 11 de junho de 1927, Ao fundo o grande maciço rochoso do qual fazem parte, entre outras, as serras de Portalegre e Martins – Foto – Rostand Medeiros.

Lampião e seus homens, após passarem próximo do povoado Vitória[2], em meio aos saques e ataques em várias propriedades rurais, divisaram ao longe um enorme e elevado maciço rochoso, que em alguns pontos alcança quase 900 metros de altitude. Eles poderiam seguir adiante e ultrapassar essa elevação por algumas trilhas existentes, mas realizariam uma cansativa ascensão para seus animais de montaria e existia a real possibilidade de se defrontarem com piquetes de homens armados em uma ótima posição de disparo. Os cangaceiros então poderiam seguir em direção mais a leste, contornando a Serra de Martins, ou mais a oeste, margeando a Serra de Portalegre. Só que esse último caminho os levaria próximo a cidade de Pau dos Ferros, onde estavam aquarteladas tropas policiais. Tropas essas que sabiam da presença daquele bando de facínoras circulando pela região e da derrota dos seus companheiros de farda no combate da Caiçara.

Certamente sob as orientações do cangaceiro Massilon, seu guia em terras potiguares, Lampião ordenou aos seus homens seguir em direção mais a leste, contornando a Serra de Martins e depois rumando para Mossoró. Talvez essa decisão tenha evitado um encontro dos funcionários da Tertuliano, Fernandes & Cia com os cangaceiros de Lampião.

Mas não por muito tempo.

A Trincheira do Sobradinho e o Encontro com Luiz Formiga

João Manuel Filho – Foto – Francisco Rodrigues.

João Manoel comentou na entrevista a Alexis Gurgel que na manhã do dia 13 de junho, uma segunda-feira, o clima em Mossoró estava tenso, onde todos estavam compreensivelmente nervosos. Coube a ele o comando da trincheira que ficava na área dos armazéns da firma Tertuliano, Fernandes & Cia, “no fim da rua Frei Miguelinho, já na praça Felipe Guerra”. Seu grupo era formado por ele e mais seis participantes, onde João Manoel estava armado com um fuzil e todos os outros com rifles.

Fuzil Mauser modelo 1908 – Fonte – https://edelweissarms.com/dwm-brazilian-contract-1908-mauser-sn-6xxx/

Observando as fotos dos eventos ocorridos em 13 de junho de 1927, percebemos que os fuzis utilizados pelos defensores foram principalmente os modelos Mauser modelos 1894 e 1908, de fabricação alemã, calibre 7 milímetros e municiamento por ação de ferrolho. Já os rifles apresentados são em sua maioria os modelos Winchester modelos 1873 e 1892, em calibre 44, fabricados nos Estados Unidos e com ação de municiamento através do uso de alavanca. Essas últimas armas eram muito comuns nos sertões nordestinos.

Rifle Winchester modelo 1873 – Fonte – https://www.sportsmans.com/shooting-gear-gun-supplies/rifles/winchester-model-1873-short-lever-action-rifle/p/1414207

O grupo ficou de prontidão e bem protegidos por volumosos fardos de algodão, colocados no alto de um imóvel que João Manoel denominou como “Sobradinho”. E foi com esse nome que esse baluarte de defesa ficou conhecido no combate de Mossoró contra os cangaceiros.

Ainda sobre essa trincheira o entrevistado narrou em 1977.

Era uma trincheira pequena, é verdade, se fosse comparada as do coronel Rodolfo Fernandes, em frente à igreja de São Vicente, ou a de Saboinha[3], na Estrada de Ferro. Mas ali estavam homens dispostos a tudo, e por isso havia certa intranquilidade”.  

Ao ler a íntegra de sua entrevista, posso perceber que essa “intranquilidade” narrada por João Manoel parece ter mais haver com ansiedade para que o combate logo se iniciasse. Já que ele próprio comentou.

Defensores de Mossoró em 13 de junho de 1927.

Ninguém aguentava mais. Ou Lampião invadia logo, chamava para a briga, ou nós íamos atrás dele. O clima criado até que favoreceu a disposição dos homens. Porque, como se sabe, o medo transforma todo mundo. Ficam todos valentes”.

Outra possibilidade para essa ansiedade estava no fato deles possuírem poucas munições.

Nesse meio tempo um homem chamado Luiz Joaquim de Siqueira, um pernambucano natural da cidade de Afogados da Ingazeira, que trabalhava em Mossoró na erradicação de formigueiros, sendo por essa razão conhecido popularmente como Luiz Formiga, ficou no caminho do bando antes deles chegarem a Mossoró e foi capturado pelo temido bandoleiro Jararaca, junto com um cidadão chamado Amadeu Lopes. Aparentemente pela mesma origem estadual, o dito Luiz Formiga caiu nas graças de Lampião e se tornou antes do início dos combates, uma espécie de “estafeta”, ou “menino de recados” entre Lampião e Rodolfo Fernandes. Numa dessas idas e vindas do mensageiro dos cangaceiros, João Manoel ficou frente a frente com esse elemento e narrou a seguinte situação quase 50 anos depois.

Lampião e seu aparato de guerra | Crédito: Reprodução – Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/brutal-lampiao.phtml#.WWwJ3ojyvXP

Conversei muito com Luiz Formiga, o homem que trazia os bilhetes do coronel Virgulino Ferreira. No entanto, o Luiz Formiga foi logo mentindo, ao dizer que Lampião pretendia entrar em Mossoró com 150 homens que trazia. Não era verdade, e logo desconfiamos. O coronel Virgulino poderia trazer, no máximo, cerca de 50 homens, como alias ocorreu”.

O Combate e o Enterro de Colchete

João Manoel Filho recordou que o bando invadiu a cidade por volta das quatro da tarde, com o céu nublado, caindo uma chuva fina, antecipando um pouco a noite.

Aqui eu prefiro até mesmo reproduzir na íntegra o interessante depoimento de João Manoel ao competente jornalista Alexis Gurgel.

Combatentes de Mossoró.

Os tiros começaram e foram aumentando aos poucos. Ouvíamos o papoucar aqui e acolá, talvez nas duas maiores trincheiras, as de Rodolfo Fernandes e da Estrada de Ferro. Depois de meia hora, mais ou menos, o tiroteio se intensificou e ficou praticamente fechado, ninguém ouvia mais nada, a não ser os estampidos dos fuzis e rifles. Nessa ocasião aproximou-se um grupo de cangaceiros de nossa trincheira, e então abrimos fogo. Mas o tiroteio com a nossa trincheira foi por pouco tempo, pois os cabras de Lampião logo debandaram. Eu então mandei que parassem de atirar, para poupar munição, coisa preciosa naquele dia e naquelas circunstâncias. Aliás, durante a noite, quando tudo estava terminado, aquele silêncio danado, chegaram mais munição para nós, na trincheira do Sobradinho. Muita munição, mas tudo já estava terminado.   

Logo eles ficaram sabendo da morte do cangaceiro Colchete e durante a noite ninguém pregou o olho com receio do retorno dos bandoleiros.

João Manuel Filho – Foto – Francisco Rodrigues.

Para Seu João Manoel a morte de Colchete ocorreu devido a sua ousadia, que assim ele narrou.

Estava aquela luta dos infernos em frente à trincheira de Rodolfo Fernandes. Um tiroteio cruzado, ninguém ia pra frente nem pra trás. Então Colchete decidiu logo resolver a parada. Sacou de um punhal e investiu contra os homens que estavam do outro lado da trincheira. A intenção era “comer” todo mundo no punhal, acabar logo com aquilo. No entanto, quando estava mesmo no meio do pátio da igreja, foi atingido entre os olhos por uma bala”. Morreu instantaneamente, sem apelação”.   

Já sobre de onde partiu o disparo que matou o cangaceiro, Seu João Manoel Filho foi taxativo na resposta a Alexis Gurgel, informando que a bala não poderia ter vindo do alto da igreja de São Vicente, mas da casa de Rodolfo Fernandes, onde estava concentrado o maior número de defensores.

Igreja São Vicente de Paula – Construída por retirantes na Seca de 1915. Aqui vemos as marcas de balas no campanário onde se posicionaram alguns combatentes de Mossoró.

Olha, dali (da igreja) era mais fácil ser alvejado do que alvejar alguém. Quem tivesse coragem de atirar contra os cangaceiros, teria que se expor, mostrar metade do corpo, então era baleado tranquilamente”.

No outro dia, quando o sol raiou ainda bem cedo, em meio a muito silêncio em Mossoró, lhe foi solicitada uma missão diferenciada – Enterrar o cangaceiro Colchete no Cemitério Público. Para isso ele foi acompanhado de um homem de certa idade e dois outros operários da empresa onde trabalhava e que em 1977 já eram falecidos.

Túmulo do cangaceiro Jararaca, um dos locais mais visitados do Cemitério Público de Mossoró no dia de finados. Durante anos se conjecturou que o cangaceiro Colchete estaria enterrado nessa mesma cova, mas João Manoel, que enterrou esse cangaceiro foi categórico em negar essa versão na reportagem de O Poti de 1977 – Foto – Rostand Medeiros

O cadáver do cangaceiro ainda estava estirado na frente da igreja e segundo o entrevistado era “Forte, musculoso, tipo mediano, cabelos enrolados e de cor moreno escura”. O grupo então amarrou os pés e as mãos do falecido e passou um tronco entre seus braços e pernas. Depois o corpo de Colchete foi levantado até os ombros dos defensores de Mossoró e levando para o cemitério da mesma forma como os sertanejos transportam um animal morto.  

No campo santo eles rapidamente abriram uma cova e jogaram aquele cadáver para dentro sem maiores cerimônias. Após a conclusão da tarefa João Manoel comentou que alguém começou a tocar sinos em uma das igrejas da cidade e isso deixou os quatro defensores em extremo estado de alerta, pois esse era um alarme designado para apontar o retorno dos bandidos. Mas era o contrário. A cidade começava a comemorar a vitória contra o “Rei dos Cangaceiros”[4].

Orgulho Pela Vitória e as Comemorações dos 50 Anos da “Resistência cívica”

Com o passar dos anos João Manoel trabalhou como padeiro, foi comerciante, soldado de polícia, investigador, delegado e vereador por seis legislaturas, sendo apontado como um homem de positiva reputação em meio a sociedade mossoroense[5].

Durante toda a entrevista pouca coisa discorreu sobre seus antigos trabalhos, mas o que ele não evitou comentar foi sobre seu orgulho por ter participado da defesa de sua querida cidade.

Perguntado se tinha orgulho de sua participação no combate, a sua resposta foi bem incisiva “-Aí, sim. A gente deve se orgulhar, pois foi uma causa nobre, nós estávamos defendendo um direito nosso, a nossa gente. Aliás, Mossoró sempre soube se defender quem é contra ela”.

Já em relação as comemorações pela passagem do 50º aniversário da resistência do povo de Mossoró contra Lampião, na mesma edição do jornal O Poti, onde João Manoel foi entrevistado, consegui uma relação dos eventos que estavam programados entre os dias 7 e 12 de junho de 1977. Entre estes havia destaque para uma exposição no museu local sobre aqueles acontecimentos, aberta pelo então prefeito João Lauro da Escóssia, uma apresentação no Teatro do SESI da peça “A Derradeira Ceia”, encenada pelo Grupo Expressão, da TV Universitária, Canal 5, de Natal. Estava prevista uma exposição do desenhista natalense Eliphos Levi Bulhões, na Galeria de Arte Mossoroense, do jornal O Mossoroense, sendo um evento promovido pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Universidade Regional do Rio Grande do Norte e Prefeitura Municipal de Mossoró. Bandas de músicas tocariam pela cidade e uma outra atividade programada foi um concurso de músicas alusivas ao ataque de Lampião, realizado pelos alunos do Colégio Diocesano Santa Luzia e com apresentação no adro da capela da instituição. Havia na programação a apresentação no Colégio Diocesano de violeiros potiguares e dos violeiros pernambucanos Otacílio e Dimas Batista, de São José do Egito, e Oliveira de Panelas. Havia na programação apresentações de um grupo de xaxado vindo da Paraíba e de um Grupo Folclórico de Boi Calemba. O hoje extinto BANORTE – Banco nacional do Norte, organizou um concurso literário para estudantes do 1º e 2º graus sobre a defesa de Mossoró em 1927 e prometia realizar as premiações nas festividades dos 50 anos do episódio. Outro ponto alto era uma palestra com o médico Raul Fernandes, filho de Rodolfo Fernandes, que prometia lançar no ano seguinte um interessante livro sobre a história da resistência em Mossoró.

O grande dia evidentemente era o 13 de junho, dia do cinquentenário, que se iniciaria pela manhã cedo com apresentações das bandas de músicas do município e da Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Norte. Depois, as 8 horas, haveria uma missa de ação de graças, oficiada pelo capelão da igreja de São Vicente, padre Sátiro Cavalcanti Dantas. As 9 horas haveria uma cerimônia em homenagem ao prefeito Rodolfo Fernandes no Cemitério Público, com colocação de flores em seu túmulo e toque de silêncio por um corneteiro da Polícia Militar. Encerrando os festejos, aconteceu uma Sessão Magna, com entrega de “Medalha da Resistência” pelo Prefeito João Newton da Escóssia e o Governador Tarcísio de Vasconcelos Maia. Havia na lista a apresentação de um evento teatral denominado “Espetáculo da Resistência”, com texto original do professor Tarcísio Gurgel e direção de Carlos Furtado.

Eram outros tempos. Muito me chamou atenção que nas comemorações fossem utilizados muitos artistas e elementos da cultura popular.

NOTAS


[1] Seguramente a firma Tertuliano, Fernandes & Cia foi uma das mais importantes empresas de Mossoró e do Rio Grande do Norte nas primeiras décadas do Século XX.

[2] Hoje é o atual município de Marcelino Vieira.

[3] Diretor superintendente da estrada de ferro, Vicente Saboia Filho.

[4]João Manuel não especificou de qual igreja vieram o som das badaladas.

[5] Neste texto eu poderia discorrer muito sobre sua trajetória pessoal e política, bem como de um de filho de criação que teve grande sucesso nessa área, mas preferi focar no tema proposto.

AUTOR NATALENSE REFAZ CAMINHO DE LAMPIÃO PELO RIO GRANDE DO NORTE

Capa do livro “1927: O Caminho de Lampião no Rio Grande do Norte”

Rostand Medeiros refez o caminho cinco vezes e colheu depoimentos de pessoas que viveram à época, além de jornais e inquéritos.

26 de agosto de 2020

Publicado no site de cultura potiguar Típico Local – https://tipicolocal.com.br/

Por Cinthia Lopes | Editora e redatora

FONTE – https://tipicolocal.com.br/noticia/autor-natalense-detalha-caminho-de-lampiao-pelo-rio-grande-do-norte-em-livro?fbclid=IwAR1Q_oNLdGZlfO4MQlmiBT-uIit03xGDqBSJGlHVijkzmIoVGOuAA7O763Q#.X0Z_W2j0XI8.whatsapp

Quando o chapéu estrelado de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, cruzou a vista dos primeiros alpendres no sertão do Rio Grande do Norte, vindo da Paraíba, o destino do cangaceiro e seu bando já estava traçado: o plano era entrar em Mossoró, a cidade mais próspera do oeste potiguar em busca de dinheiro dos coronéis, tendo a ajuda do jagunço nativo Massilon que já tinha praticado assalto na região um mês antes. Mas a invasão fracassou e o fatídico 13 de junho de 1927 entrou para a história e o folclore do cangaço. A expulsão de Lampião foi registrada por historiadores e também pelos poetas nos versos de cordel, ressaltando o heroísmo dos mossoroenses que rechaçaram o famoso bando de cangaceiros de porteira afora.

Mas até chegar a Mossoró, por onde mais Lampião andou?  Em menos de uma semana, o bando cruzou a cavalo um território que compreende 14 municípios do Rio Grande do Norte, incluindo Pau-do-Ferros e Martins, deixando um rastro de violência e impacto que o tempo não apagou da memória dos sertanejos. Foi preciso refazer todo esse chão para trazer à luz novas histórias, um desafio para o escritor e pesquisador Rostand Medeiros que agora chega ao livro “1927: O Caminho de Lampião no Rio Grande do Norte” (Caravela Selo Cultural, 375 págs.), com patrocínio do Edital de Economia criativa do Sebrae.

“1927: O Caminho de Lampião no Rio Grande do Norte” é divido em capítulos por dia em que os cangaceiros passaram pelas cidadezinhas. Era manhã de sexta-feira, dia 10 de junho de 1927, quando Lampião cruza a fronteira por Luís Gomes, trecho que hoje seria a BR-405. Sem polícia no encalço, eles então assassinam o lavrador Mané Chiquinho, dono da propriedade chamada Vaquejador. Foi a partir desse crime que as polícias da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará passaram a acompanhar o bando. Fatos importantes foram acontecendo no caminho até o ataque a Mossoró (dia 13) e a prisão e morte de Jararaca no dia 14 seguindo-se a fuga de Lampião para o Ceará.

Imagem dos defensores da frustrada invasão de Lampião: “Eram quatro para 1 cangaceiro”, relata o autor

Algo que se destaca neste livro é a reconstituição dos cenários mais antigos a partir das propriedades rurais. São sítios e fazendas centenárias de nomes curiosos que traçam um caminho de contornos semidesaparecidos: Sítio Bom Jardim, Sítio Diamantina, Fazenda Aroeira, Sítio Corredor, Sítio Gangorrinha, Fazenda Ausente, Sítio Saco, Fazenda Picada, Passagem de Oiticica, Fazenda Cacimba, Caboré, dentre muitas outras.

Um dos locais da passagem é o Sítio Ponta de Serra, com traços preservados. Ao fundo, a Serra de Martins. Foto: Rostand Medeiros.

Idas e vindas

Há mais de dez anos Rostand segue o rastro de Lampião pelo Rio Grande do Norte. Só de viagens foram cinco. De motocicleta, de carro e com diferentes propósitos. A primeira em 2010 a convite do Sebrae-RN, para criar o roteiro de turismo cultural. “A pesquisa fez parte do projeto Pegadas de Lampião, uma ideia do superintendente do Sebrae Zeca Melo, que inclusive prefaciou o livro que estou lançando”, destaca. 

 Ao final da primeira jornada, o pesquisador entregou o resultado para a instituição e desde então vinha tentando publicar o texto. Até que em 2015 pegou novamente na estrada para participar das filmagens do documentário “Chapéu Estrelado”, do diretor Silvio Coutinho, como principal consultor. “Participei ativamente das filmagens a convite de Silvio, Iaperi Araújo e Valério Andrade e foram vários dias de muito chão, poeira e aprendizado”, conta o escritor.

Vale lembrar que ‘Chapéu Estrelado’ foi apresentado em Natal e exibido no Canal Brasil, que era o co-produtor do documentário junto com a Locomotiva Cinema e Arte. “Quando estava sendo preparado para percorrer os circuitos de festivais de cinema, inesperadamente Sílvio Coutinho faleceu de um ataque cardíaco no Rio e aí tudo parou. Hoje eu nem sei como está a situação dessa obra cinematográfica, lamenta.

Em 2017, de volta a estrada em companhia do artista plástico e fotógrafo potiguar Sérgio Azol, focado em uma coleta de material fotográfico para o desenvolvimento de uma exposição em São Paulo, onde Azol é radicado. A exposição também passou por Natal.

A clássica foto do bando de Lampião em Limoeiro, após a fuga do Rio Grande do Norte.

Histórias coletadas

Após esse tempo de vivência, o autor se voltou aos registros em cartórios, jornais de época e bibliografia anterior. Rostand destaca o livro de Sérgio Augusto de Souza Dantas, que foi “muito elucidativo sobre o caminho”. O livro em questão é “Lampião e o Rio Grande do Norte: A História da Grande Jornada” (Ed.: Gráfica Real, esgotado).

Além desse autor, foram consultados trabalhos de Raul Fernandes e Raimundo Nonato.  E ainda os processos criminais abertos em Pau dos Ferros e Martins sobre os ataques dos cangaceiros, reproduzindo depoimentos dos cangaceiros Mormaço, Casca Grossa e Jararaca, nomes famosos que estavam no bando de Lampião à época.

“Nos depoimentos eles declararam que vieram para o Rio Grande do Norte por instância do cangaceiro Massilon e em nenhum dos depoimentos informaram alguma motivação diferente das ações que normalmente os cangaceiros efetuavam na época”, pontua.

Rostand ficou impressionado com o destaque dado pelos jornais de todo Brasil ao ataque a Mossoró e como a passagem do bando marcou de forma intensa as muitas comunidades que visitou. “Encontrei poucas pessoas que foram testemunhas diretas dos episódios, mas delas colhi depoimentos preciosos. Principalmente os filhos, que escutaram essas histórias nos alpendres das casas sertanejas antes da chegada do rádio e da televisão, que consegui ótimas memórias da passagem do bando”. O autor confrontou o depoimento dos sertanejos às informações que estavam nos livros, jornais e processos.

Noticiário relatado no jornal A República de 16 de junho de 1927.

No livro Rostand reforça que o objetivo de Lampião no Rio Grande do Norte não era guerrear, mas tentar conseguir dinheiro com alguma aliança com os coronéis. “Lampião normalmente só se envolvia em contendas de outras pessoas se isso de alguma forma lhe trouxesse vantagem. Não podemos esquecer que Lampião sequer conhecia o Rio Grande do Norte e aqui não tinha inimigos.”

Para o autor a tentativa de invasão a Mossoró foi o maior combate da história do Cangaço em área urbana e, apesar de haver quatro defensores para cada cangaceiro, a chamada Resistência Cívica do povo de Mossoró contra Lampião e seu bando merece todas as loas.

Mas em acontecimento dessa magnitude não poderia deixar de existir controvérsias. “Uma foi sobre o destino do jovem cangaceiro Menino-de-Ouro. Este teria sido gravemente ferido no combate em Mossoró e por não suportar a dor teria pedido a Lampião que o executasse e assim foi feito. Mas o pesquisador Hilário Lucetti encontrou um idoso Menino-de-Ouro morando no sul do Ceará e sua história foi contada em um interessante livro de 1995”.

Outros temas

Rostand Medeiros é escritor, pesquisador e formado em Turismo, e escreve no blog Tok de História. Temas como Segunda Guerra também fazem parque do seu foco de pesquisa. Escreveu “Lugares de Memória: edificações e estruturas históricas utilizadas em Natal durante a Segunda Geurra” (Caravela), “Os Cavaleiros do Céu: A Saga do Vôo Ferrarin Del Prete” (Caravela), “João Rufino: Um Visionário de Fé”, dentre outros.

LIVRO “1927 – O CAMINHO DE LAMPIÃO NO RIO GRANDE DO NORTE” ESTÁ SENDO VENDIDO NA LIVRARIA DA COOPERATIVA DO CAMPUS DA UFRN

Olá amigos e amigas.

Gostaria de lhes informar que o nosso novo livro “1927 – O CAMINHO DE LAMPIÃO NO RIO GRANDE DO NORTE” se encontra a venda em Natal na livraria da Cooperativa do Campus da UFRN está com exclusividade na venda.

Essa livraria se encontra aberta de 9 da manhã as 15 da tarde, seguindo todas as orientações e procedimentos preconizados pelas das autoridades em relação a questão do COVID-19, conforme você pode ver nas fotos que lhe envio. O livro tem 375 páginas, 180 fotos e mostra o mesmo caminho que os cangaceiros percorreram em junho de 1927, os locais atacados e as histórias envolvidas. O valor é R$ 60,00.

MARCOS DE RELIGIOSIDADE NO CAMINHO DE LAMPIÃO NO RIO GRANDE DO NORTE

Rostand Medeiros – Escritor, Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e historiador.

Jornal Tribuna do Norte.

Em 2010, em alternadas viagens,  estive percorrendo pela primeira os cenários da passagem do bando de Lampião no oeste potiguar, fato que ocorreu entre os dias 10 e 14 de junho de 1927.

Segui principalmente por áreas rurais desde a cidade de Luís Gomes, tendo como ponto focal Mossoró e finalizando em Baraúna. Percorri esse caminho originalmente palmilhado por estes cangaceiros como parte de uma consultoria que prestei ao SEBRAE, no âmbito do projeto Território Sertão do Apodi – Nas Pegadas de Lampião. Parte desse trajeto, que também focava em questões da espeleologia da região, percorri junto com Sólon Almeida.

Para traçar essa rota, além das obras escritas sobre a história da passagem do bando de Lampião pelo Rio Grande de Norte, fiz uso de materiais históricos existentes nos arquivos do Rio Grande do Norte, Paraíba e de Pernambuco e a bibliografia existente, com destaque ao livro do amigo Sérgio Augusto de Souza Dantas, autor de Lampião e a grande Jornada – A história da grande jornada.

Foram percorridos muitos quilômetros, onde visitamos vários sítios, fazendas, comunidades e cidades. Foram entrevistadas 123 pessoas e obtidas mais de 2.000 fotos. Em grande parte deste trajeto, a motocicleta se mostrou um aliado muito mais eficiente para se alcançar estes distantes locais.

Um dos fatos mais interessantes foi o surgimento de marcos de religiosidades ligados aqueles dias tumultuosos de 1927.

Cruzeiros marcando locais de acontecimentos intensos, capelas edificadas como promessas pela salvação de pessoas ante a passagem dos cangaceiros, o caso da utilização de uma igreja por parte dos cangaceiros. Além desses fatos temos a controversa situação envolvendo o túmulo do cangaceiro Jararaca na cidade de Mossoró.

Ao longo dos anos eu tive a grata oportunidade de realizar esse caminho em quatro outras ocasiões, sendo o mais importante em 2015, para a realização de um documentário de longa metragem denominado Chapéu Estrelado, dirigido pelo mineiro radicado no Rio de Janeiro Silvio Coutinho e produção executiva de Iapery Araújo.

Infelizmente pelo falecimento do diretor Coutinho em 2018, no Rio, esse documentário não seguiu adiante.

Esses foram os locais mais interessantes ligados a esse tema e seus respectivos municípios.

MARCELINO VIEIRA 

A área próxima à sede do atual município de Marcelino Vieira é repleta de lembranças e marcos que mantém vivo na memória da população local os fatos ocorridos naquela longínqua sexta-feira, 10 de junho de 1927.

Cruz em homenagem ao soldado Matos.

Sítio Caiçara e a “Missa do Soldado” – Nesse local ocorreu um combate onde morreram o soldado José Monteiro de Matos e o cangaceiro Patrício de Souza, o Azulão.

Percebemos nitidamente que para as pessoas que habitam a região, os fatos mais marcantes em termos de memória estão relacionados ao combate conhecido como “Fogo da Caiçara” e a valente postura do soldado José Monteiro de Matos. Não foi surpresa que membros da comunidade local, no dia 10 de junho de 1928, apenas um ano após o combate na região da Caiçara, decidissem realizar, uma missa em honra a memória do valente militar.

Igrejinha onde é rezada a “Missa do Soldado”.

Segundo pessoas da comunidade do Junco, as margens do açude da Caiçara, de forma espontânea e apoiadas pelas lideranças locais, os mais antigos moradores deram início a um ato religioso. No começo ele ocorria no mesmo ponto onde se desenrolou o combate. Segundo pessoas entrevistadas na região, o evento sempre atraiu um número considerável de pessoas, passando a ser conhecida como “A Missa do soldado”. Com o passar do tempo à missa transformando-se em uma das mais importantes tradições religiosas de Marcelino Vieira.

ANTÔNIO MARTINS – ZONA RURAL

Fazenda Caricé – a fazenda Caricé estava no roteiro de destruição dos cangaceiros. Caminho lógico para quem seguia em direção norte, no caminho a Mossoró, a fazenda pertencia ao pecuarista Marcelino Vieira da Costa. Este era um paraibano que prosperou com a criação de gado e tornou-se tradicional líder político. Faleceu em dezembro de 1938 e seu nome batiza atualmente a cidade onde decidiu viver.

Capela em honra a Jesus, Maria e José, no sítio Caricé, erguida como promessa pela salvação da família do Coronel Marcelino Vieira das garras do bando de cangaceiros de Lampião

Ao saber da aproximação do bando do cangaceiro Lampião, o fazendeiro Marcelino Vieira decidiu dormir em uma área onde existia um canavial, próximo ao açude da fazenda. A chegada do grupo, insuflados por supostas contas a acertar do temível cangaceiro Massilon Leite com a família Vieira, produziu um saque que resultou em um prejuízo no valor de um conto e duzentos mil réis. Os celerados deixaram o lugar antes do meio-dia.

Da velha sede da fazenda Caricé nada mais resta, mas por lá encontramos uma pequena capela.

Interior da capelinha.

Quando a família Vieira e seus empregados estavam no canavial, em dado momento alguns cangaceiros chegaram a se aproximar do esconderijo. Diante do que poderia acontecer, com muito medo, a filha do fazendeiro, rogou intensamente aos céus que os bandoleiros se afastassem.

Vista noturna da capela do Caricé.

Caso isto se concretizasse, ela e sua família tratariam de erguer uma ermida em honra ao poder de Jesus, Maria e José. Pouco tempo as imagens foram adquiridas ainda em 1927, tendo sido trazidas da Bahia e que a primeira missa rezada no local foi verdadeiramente suntuosa.  O templo já apresenta sinais de abandono, com algumas telhas caindo, mas a estrutura ainda se mantém em grande parte firme.

Serra da Veneza.

Capelinha da Serra da Veneza – Uma interessante situação relativa à memória da passagem do bando nessa região ocorreu na região da Serra da Veneza, na fronteira de Antônio Martins com o vizinho município de Pilões. Nessa elevação granítica, que segundo o mapa da SUDENE chega a atingir a altitude de 555 metros, existe uma capela edificada em razão do medo provocado pela passagem do bando.

Quando Lampião e seu bando se aproximavam, em meio às terríveis notícias, três fazendeiros da região procuraram refúgio junto às rochas da base desta elevação. Essas famílias solicitaram junto ao mesmo santo, São Sebastião, que os protegessem contra a ação dos cangaceiros. E o mais interessante, mesmo sem se combinarem, as três famílias elegeram a mesma penitência; caso nada de negativo ocorresse a eles e as suas famílias, cada um deles teria de galgar a Serra da Veneza, erguer um oratório e ali depositar uma imagem em honra ao santo.

Capelinha da Serra da Veneza.

Lampião passou sem acontecer problemas a essas pessoas. Logo os fazendeiros e seus familiares foram a Vila de Boa Esperança, como muitos moradores da região, para agradecer na capela de Santo Antônio pelo fato de nada de pior haver ocorrido. Nesse local as três famílias se encontraram e ao debaterem sobre os fatos vividos, para surpresa de todos os presentes, compreenderam que havia ocorrido uma interseção divina com relação a eles terem tido as mesmas ideias e os mesmos pensamentos de penitência. Em pouco tempo eles adquiriam conjuntamente uma pequena imagem de São Sebastião e logo galgavam a Serra da Veneza para unidos edificarem um pequeno oratório. A ação dos três fazendeiros e as estranhas coincidências chamaram a atenção das pessoas na região e logo outros penitentes subiam a serra para pagar promessas. Em pouco tempo teve início uma procissão e não demorou muito para que o pároco local também viesse participar. Com o passar do tempo começou a ocorrer a participação de pessoas de outros municípios. Em 1948, vinte e um anos após a passagem do bando e do pretenso milagre, treze famílias deram início a construção da atual capela, em meio a uma intensa confraternização.

A cada dia 20 de janeiro, inúmeros ex-votos são colocados como pagamento de promessas, velas são acesas e fiéis de vários municípios vêm participar subindo a serra.

ANTÔNIO MARTINS- ZONA URBANA

Cangaceiros na Capela de Santo Antônio – O período da chegada dos cangaceiros, no dia 11 de junho de 1927, na então pequena comunidade de Boa Esperança, atual Antônio Martins, coincidiu com as celebrações da festa de Santo Antônio, o padroeiro local. De certa maneira essa situação de comemoração e alegria do povo, serviram para a rápida ocupação do lugarejo e a sua total capitulação diante da cavalaria de cangaceiros.

A capela de Santo Antônio era o principal local em Boa Esperança para realização dos festejos relativos ao padroeiro local. Nessa festa é tradicional a realização das chamadas “trezenas”, onde durante treze dias anteriores ao dia 13 de junho, a data consagrada a Santo Antônio, ininterruptamente são realizadas missas, orações de grupos de pessoas com terços nas mãos, cantos de benditos, encontros e outras participações da comunidade neste templo cristão. Quando o bando chegou, haviam algumas pessoas reunidas no local e um grupo de cangaceiros, visivelmente embriagados, proibiu a saída dos fiéis do local. Essas pessoas assistiram horrorizadas de dentro da capela o suplício de um habitante local, o jovem Vicente Lira, que apunhalado e sangrando abundantemente, era obrigado a engolir talagadas de cachaça. Mesmo em meio a essa cena de terror, diante da igreja aberta e engalanada, soubemos que alguns cangaceiros adentraram o local, se ajoelharam, se benzeram e saíram sem perturbar os atônitos presentes. Na saída soltaram Vicente Lira.

Durante todo nosso percurso, esta foi a única informação de que alguns cangaceiros do bando de Lampião, teriam adentrado um templo religioso católico em todo Rio Grande do Norte.

LUCRÉCIA

Fazenda Castelo.

Capela da Fazenda Castelo – Após a saída da cidade de Frutuosos Gomes, na zona urbana do município de Lucrécia, as margens da RN-072, soubemos que o bando realizou a invasão da fazenda Castelo, propriedade tida como a mais importante da antiga localidade. No terreno ao lado da sede da fazenda Castelo se encontra uma bem preservada capelinha dedicada a Nossa Senhora da Guia. Entretanto, ao buscarmos contato com as pessoas mais idosas em busca da história da capela, não foi possível um esclarecimento mais exato sobre quem a construiu e se essa construção tem alguma relação com a passagem do bando de Lampião, como no caso da ermida da fazenda Caricé. Houve pessoas que indicaram que a construção foi consequência de uma promessa pela salvação dos proprietários locais junto a passagem dos cangaceiros, outros indicaram que ela seria anterior a 1927 e outros apontaram que ela seria posterior a essa data. 

Capela da fazenda Castelo, Lucrécia, Rio Grande do Norte.

Foi perceptível a necessidade de ampliar as pesquisas sobre o local.

A Cruz dos Canelas – Depois de passarem por Lucrécia, os cangaceiros atacaram uma propriedade rural e sequestraram um fazendeiro bastante conhecido e querido na região. A notícia se espalhou entre vários parentes e amigos e logo um grupo decide com extrema coragem sair em busca do povoado de Gavião, atual cidade de Umarizal, onde pudessem levantar a quantia estipulada por Lampião para soltar o popular fazendeiro.

Sítio Serrota dos Leites, de onde foi sequestrado o fazendeiro Egídio Dias.

O grupo era pequeno, com um número que aparentemente chega a quatorze e só quatro deles, membros de uma família conhecido como “Canelas”, eram os únicos que os pesquisadores do assunto apontam como possuidores de armas de fogo com alguma potência. Esse grupo conhecia os caminhos e provavelmente confiaram no fato de ser período de lua cheia. Onde essa condição facilitaria o trajeto.

Enquanto se desenrolava esta situação, na região do sítio Caboré, cansados pelo deslocamento, esgotado pelas ações e pelo consumo de bebidas, o bando de cangaceiros decidiu descansar nas terras do Caboré. Por volta das três da manhã o grupo de amigos chegou ao Caboré em busca de informações. Não sabiam que um cangaceiro, facilitado pelo luar, vigiava os movimentos do grupo. No local conhecido como “Serrote da Jurema” foi armada uma emboscada pelo bando de experientes combatentes. Logo abriram fogo contra a incipiente tropa e três deles tombaram e o resto fugiu em franca debandada. Segundo os laudos cadavéricos a vingança do bando de Lampião nos corpos dos amigos do fazendeiro sequestrado foi terrível.

Cruz dos Três Heróis, ou Cruz dos Canelas.

Apesar de todo empenho em buscar ajudar o amigo detido, o que o grupo de resgate não sabia era que a sua ação era totalmente inútil. Algum tempo antes, no bivaque armado pelos bandidos, em meio ao cansaço generalizado da tropa de Lampião, o sequestrado conseguiu fugir para o meio do mato.

Atualmente, as margens da rodovia estadual RN-072, na comunidade Caboré, se encontra uma cruz conhecido como “A cruz dos três heróis”, aonde o povo de Lucrécia e da região vêm homenagear àqueles que agora são conhecidos apenas como “Os Canelas”, ou os “Heróis de Caboré”. No local muitos rezam e pagam promessas e acendem velas em honra desses homens.

MOSSORÓ

Caso da Igreja de São Vicente de Paula e a questão do túmulo do Cangaceiro Jararaca.

A notícia de que Lampião avançava na direção de Mossoró chegou aos ouvidos dos moradores de Mossoró em abril de 1927. À época, a Capital do Oeste Potiguar, como seus habitantes ainda gostam de intitulá-la, já era um dos municípios mais importantes do interior nordestino. Com 20 mil habitantes, localizada no meio do caminho entre duas capitais – Natal e Fortaleza –, em nada se assemelhava às pequenas cidades onde Lampião e seu bando atacava e saqueava o comércio.


Igreja de São Vicente de Paula, em Mossoró.

No dia 13 de junho de  1927, após dizer não a Lampião, que cobrou 400 contos de reis (em moeda da época 400  milhões de reis – atualmente uns 20 milhões de reais) para não invadir a cidade, começava um tiroteio entre moradores da cidade e os cangaceiros. A igreja de São Vicente de Paula foi o local principal da resistência. Lampião costumava dizer que “cidade com mais de uma torre de igreja não é lugar para cangaceiro”. Não se tratava de superstição, mas de raciocínio lógico – municípios com tal característica eram maiores e, portanto, mais difíceis de dominar. Os ocupantes das trincheiras no alto da Igreja de São Vicente e da casa do intendente tinham visão privilegiada do avanço das tropas. Tão logo o grupo surgiu no horizonte, iniciaram-se os disparos. Os cangaceiros, acostumados a desfilar nos povoados sem serem incomodados, foram surpreendidos. 

Findando com a expulsão dos cangaceiros, a morte de alguns deles e a prisão do temível José Leite de Santana, vulgo Jararaca, enterrado vivo no cemitério da cidade, após cavar sua própria cova.

Túmulo do cangaceiro Jararaca.

A Jararaca é atribuída todas as crueldades. A mais famosa consistia em arremessar crianças para o alto e apará-las com a ponta do punhal. Trespassados pela lâmina, garotinhos leves o bastante para serem lançados na direção do sol morriam lenta e dolorosamente, em meio aos gritos dos pais – e às gargalhadas do cangaceiro.

O interessante é que hoje é visto como santo pelo povo, devido a crueldade com que foi morto. Recebendo o seu túmulo visita de milhares de pessoas em dias de finado e ao longo de todo ano. Na verdade mais prestigiado que o túmulo de muitos políticos famosos da cidade, enterrados no mesmo cemitério e esquecidos de todos. Mostrando que nem sempre o séquito que em vida rodeia os poderosos permanece uma vez morto. Ironicamente ao contrário do cangaceiro.

Túmulo de Rodolfo Fernandes.

O famoso chefe cangaceiro deveria ter pensado duas vezes antes de tentar invadir e ser expulso de forma humilhante, assim historicamente a cidade ligou seu nome ao famoso personagem Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Anualmente, em frente  à igreja que funcionou como trincheira é encenada um musical chamado: Chuva de bala no país de Mossoró, que remonta todo o fato histórico e mantém viva a memória.

Os heróis da resistência de Mossoró, de toda forma foram bravos sim!

Mas por que o santificado é um cangaceiro e não um dos resistentes?

Por  que não santificaram o prefeito de Mossoró que liderou a resistência?  Por que as fotos dos heróis da resistência são tão pequenas e a dos cangaceiros estão expostos em painéis enormes? Parece até que o povo de Mossoró não se identificou muito com os heróis da resistência!

Memorial da Resistência.

A história por trás do túmulo de Jararaca se confunde muito com o misticismo, com a conduta cultural de um povo. Jararaca apenas foi consagrado, por conta de sua bravura. O povo sempre busca o menor para enaltecê-lo. É perceptível essa situação no próprio cemitério, quando o túmulo de Rodolfo Fernandes não recebe o mesmo número de visitas correspondentes ao túmulo onde está Jararaca.

Fonte sobre o túmulo de Jararaca – Valdecy Alves, “MOSSORÓ EXPULSOU O BANDO DE LAMPIÃO A BALA – DISSE NÃO À EXTORSÃO DO CANGACEIRO – UM GRANDE FATO NA HISTÓRIA DO NORDESTE – FATOS E FOTOS!” – http://valdecyalves.blogspot.com/2011/12/mossoro-expulsou-o-bando-de-lampiao.html

A TRILHA DO CANGAÇO NO RN: CIDADES GUARDAM MARCAS DA PASSAGEM DE LAMPIÃO PELO ESTADO

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Lampião, o Rei do Cangaço

Reportagem percorreu mais de 600 quilômetros por onde passou Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

Por Ivanúcia Lopes e Hugo Andrade, G1 RN – Fonte – http://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/a-trilha-do-cangaco-no-rn-cidades-guardam-marcas-da-passagem-de-lampiao-pelo-estado.ghtml

O povo falava que Lampião tinha passado por aqui e tinha umas armas guardadas…”. Foi assim que dona Ilma de Oliveira começou a contar a história que sempre ouviu dos mais velhos. A senhora de cinquenta e poucos anos mora na casa que serviu de apoio aos cangaceiros em 10 de junho de 1927. Naquele dia de madrugada Lampião e seu bando entravam em terras potiguares. Eles chegaram pela Paraíba, cruzaram a divisa dos estados e apearam-se bem na casa onde dona Ilma criou os três filhos. A estrutura é quase a mesma: paredes largas, teto alto, tornos de madeira e caritós para guardar objetos. “Até um tempo desse os familiares do antigo dono ainda vinha aqui olhar e recordar”, conta.

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Foi nessa casa que Lampião se abrigou ao entrar no RN em 1927 (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

A casa que fica no sítio baixio, no pé da Serra de Luís Gomes, pertencia a familiares dos cangaceiros Massilon Leite e Pinga-fogo. Massilon era ‘os olhos e ouvidos’ do líder pelas bandas do sertão potiguar. Era ele o responsável por guiar os homens do cangaço no plano de atacar a cidade próspera de Mossoró.

A recepção durou pouco. Quando amanheceu os cangaceiros se embrenharam na caatinga. Galoparam por veredas, saquearam fazendas e fizeram prisioneiros. Na Fazenda Nova, onde hoje é o município de Major Sales, até o padrinho de Massilon, coronel Joaquim Moreira, foi sequestrado. Na fazenda vizinha de Aroeira, onde hoje é a cidade de Paraná, eles fizeram mais uma refém: a senhora Maria José foi levada pelo bando que seguia despistando a polícia e invadindo propriedades.

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“A passagem do bando de Lampião pelo RN está qualificada como banditismo, pois tem casos de assalto, assassinato e uma novidade que até então não tinha aqui que era o sequestro”, explicou o pesquisador Rostand Medeiros que já fez o mesmo trajeto de Lampião no RN algumas vezes. “Depois desses ataques na manhã do dia 10, o bando continuou subindo e praticando todo tipo de desordem”, lembrou.

Para seguirem sem alardes os cangaceiros evitavam a passagem por centros urbanos mais desenvolvidos e desviavam de estradas reais, aquelas por onde passava o gado e o movimento era maior. O objetivo era evitar confrontos para não desperdiçar munição e nem perder homens, já que ainda tinha muito caminho até Mossoró.

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Mapa mostra o percurso feito por Lampião em terras potiguares (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

Mais ataques 

Na tardinha do dia 10 de junho de 1927 o grupo chegava na Vila Vitória, território que hoje pertence ao município de Marcelino Vieira. No povoado ainda é possível encontrar casas remanescentes da época, e algumas até com sinais da violência praticada pelo bando. Na casa de dona Maria Emília da Silva, por exemplo, eles deixaram marcas de boca de fuzil. Era comum bater com as armas na madeira para assustar os donos da casa. “Eles só foram embora quando viram o retrato de Padre Cícero. Onde tinha retrato de Padre Cícero ele não fazia nada”, contou.

Na comunidade vizinha os cangaceiros saquearam a casa onde mora dona Terezinha de Jesus. A casa é antiga, do ano de 1904, mas ainda mantém a estrutura da época. A aposentada conta que o pai avistou de longe quando o bando chegava, mas não teve tempo de fugir. Na casa, eles procuraram joias, armas e dinheiro. “Eles iam a cavalo e armados. Papai dizia que para montar era um serviço grande porque estavam pesados com armas”, disse Dona Terezinha ao mostrar o quarto dos fundos onde ficam guardados os baús alvos dos cangaceiros. “Deixavam as roupas tudo no chão. Jogavam tudo atrás de dinheiro. Aí dinheiro não tinha. Naquela época era difícil, né? Mas se achassem podiam levar. Era o que diziam”, contou dona Terezinha enquanto acendia a lamparina para mostrar os objetos preservados.

Depoimentos de testemunhas e vítimas da vila Vitória compõem o processo contra Lampião que tramitou na Comarca de Pau dos Ferros.

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Em 1927 os pertences dos moradores eram guardados em baús (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

Fogo da Caiçara: O primeiro combate militar contra Lampião no RN 

A notícia de que o bando estava invadindo propriedades na Vila Vitória mobilizou a força militar. A polícia juntou homens para enfrentar os cangaceiros. O combate aconteceu no local onde hoje é o açude de Marcelino Vieira. “Por conta da seca é possível ver exatamente onde ocorreu o primeiro combate militar contra a invasão do bando no estado. Essas plantas que estavam cobertas de água ainda podem testemunhar esse fato”, disse o historiador Romualdo Carneiro ao mostrar as marcas de tiros que ficaram nos pés de canafístulas. 

Quando o combate começou a caatinga se acinzentou com a queima da pólvora dos rifles e espingardas dos dois grupos em guerra. O agricultor Pedro Felix ouviu o pai contar como foi: “Muito tiro. Muito tiro. Chega assombrava o povo que só pensava em fugir”.

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O antigo mausoléu mudou de local em 1989 quando o açude foi construído (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

O escritor Sergio Dantas, conta em seu livro “Lampião e o Rio Grande do Norte: a história da grande jornada”, que o tiroteio durou trinta minutos. Os cangaceiros, em maior número e treinados na guerrilha da caatinga, puseram a frota militar ao recuo.

No confronto morreram o soldado José Monteiro de Matos e um cangaceiro conhecido como Azulão.

 Os moradores da região até hoje se referem ao soldado como sendo um herói.

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O monumento atual fica próximo a capela onde é celebrada a tradicional missa do soldado (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

“Quando acabou a munição os outros foram embora, mas ele disse ‘eu morro, mas não corro!’ e morreu lutando.” contou seu Pedro ao apontar para os restos de tijolos do antigo monumento construído em homenagem ao soldado. “Era bem aqui que tinha uma cruz pra ele, mas quando fizeram o açude levaram lá pro outro lado”, explicou. 

Ainda hoje o local onde está o monumento recebe visitações. Todo dia 10 de junho a figura do soldado é homenageada pelos moradores que fazem celebrações. A missa do soldado virou um evento no povoado.

Fim da festa, não do medo 

Não demorou para o bando chegar ao povoado de Boa Esperança, local onde hoje é o município de Antônio Martins. O ataque aconteceu em frente a igrejinha da comunidade onde acontecia a festa de Santo Antônio. “Em vez de recepcionar a banda de música para a novena do padroeiro os devotos foram surpreendidos com a chegada dos cangaceiros que bagunçaram as casas, saquearam o comércio, quebraram melancia na cabeça do dono e acabaram com a festa”, contou o historiador Chagas Cristovão.

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O ataque aconteceu no pátio dessa capelinha construída em 1901 (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

O principal comércio da época ficava ao lado da Igrejinha. O prédio ainda guarda as características de antigamente. Relatos dão conta de que na tarde do ataque o bando só foi embora depois que uma senhora implorou. “Atendendo ao pedido de Rosina Maria, que era da mesma terra de Lampião, o bando deixou o vilarejo e seguiu rumo a Mossoró.”, concluiu o historiador.

Mesmo depois que os cangaceiros se debandaram o medo permaneceu entre os moradores. Houve até quem fizesse promessa para não sofrer as maldades do bando. Hoje dá pra avistar no alto da serra, uma capelinha construída para agradecer a proteção.

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Capelinha em homenagem a São Sebastião fica na Serra de Veneza (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

O massacre 

Eram altas horas da noite do dia 11 de junho quando o bando entrava na Vila de Lucrécia. Uma das casas invadidas na Fazenda Serrota continua preservada. Na janela estão as marcas de tiros e nas paredes os retratos daqueles que estiveram frente a frente com Lampião. “Quem morava aqui eram meus avós Egídio Dias e Donatila Dias. Eles amarraram Egídio Dias e levaram ele lá pro Caboré.”, contou o aposentado Raimundo Leite, que mora ao lado da antiga casa dos avós.

Caboré é um sítio que fica a poucos quilômetros da Fazenda. O prisioneiro teria sido levado por uma estrada de terra onde hoje é a RN 072. Os cangaceiros pediram dez contos de reis para poder soltar o fazendeiro. “Um grupo de mais de dez homens foi até lá pra tentar salvar Egídio, mas foi surpreendido por uma emboscada. Três homens acabaram mortos.”, relatou a pedagoga Antônia Costa.

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Fonte – canalcienciascriminais.com.br

No local do massacre foi construído um monumento em homenagem aos homens. Em Lucrécia eles são reconhecidos como heróis. “Todo dia 11 de junho tem programação na cidade em memória de Francisco Canela, Bartolomeu Paulo e Sebastião Trajano”, enfatizou a pedagoga.

Egídio Dias fugiu. Permaneceu várias horas no mato. Só depois que o bando foi embora ele conseguiu voltar para o convívio da família.

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Fonte – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br

O bando seguiu desafiando a caatinga. Os rastros de destruição ficavam pelas propriedades. Na manhãzinha do dia 12 eles entraram na Fazenda Campos, onde hoje é território de Umarizal. Na casa grande, que estava abandonada pelos donos amedrontados, eles ficaram pouco tempo até pegarem a estrada de novo. Uma marcha que parecia não ter fim.

Horas depois eles chegaram ao povoado de São Sebastião, hoje Governador Dix Sept Rosado. “Meu pai conta que Lampião passou na Estação de Trem e fez muita bagunça. Aí o povo do sítio era tudo no mato com medo. Meu pai mesmo dormiu muitas noites no mato, com medo”, relembra seu Maurilio Virgílio, aposentado de 75 anos que hoje mora pertinho da Estação alvo dos ataques.

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A estação foi alvo dos cangaceiros no povoado de São Sebastião (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

Os cangaceiros ainda saquearam o comércio, queimaram os vagões do trem e destruíram o telégrafo. Mas antes disso, um agente da Estação conseguiu mandar uma mensagem para Mossoró informando que o bando estava a caminho.

Foi o tempo de Mossoró se preparar para a luta. E a cidade tava mesmo preparada. Quando receberam o recado que Lampião e seu bando estava por vir, autoridades e outras personalidades da época se uniram, chamaram os moradores e começaram a montar as estratégias de defesa. Essas pessoas que venceram o combate 90 anos atrás são conhecidos como heróis da resistência.

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Tive a oportunidade de contribuir com este trabalho, junto com outros maravilhosos amigos. Parabéns as equipes da InterTV Cabugi de Mossoró e de Natal. Resultado maravilhoso.

“Foi um feito heroico de um grupo de cidadãos e cidadãs, que se juntou pra defender a cidade. Quando eu olho para a resistência ao bando de lampião, eu não vejo uma individualidade, vejo um ato de cidadania, de coragem que esse grupo frente à sua vida, à sua cidade”, diz o historiador Lemuel Rodrigues.

Noventa anos depois, os resistentes já se foram, mas ficou o legado. Ter um herói na família é motivo de orgulho para muitos mossoroenses. Algumas figuras estavam na linha de frente e lideraram a defesa da cidade contra o bando de Lampião. Tenente Laurentino, por exemplo, organizou as trincheiras e montou o plano de resistência com o apoio dos civis, todos liderados pelo prefeito Rodolfo Fernandes.

De acordo com os registros da época, o confronto entre os moradores e o bando de lampião durou cerca de quarenta minutos. Quase 170 homens participaram da defesa da cidade e ficaram espalhados em 23 trincheiras no centro de Mossoró. Uma delas teve papel fundamental para o sucesso do combate: a torre da capela de São Vicente que era o ponto mais alto de Mossoró. Do local, os resistentes tinham uma visão privilegiada. Três homens ficaram na torre e surpreenderam os cangaceiros.

“Manoel Felix, Tel Teófilo e Manoel Alves eram os três homens que estava no Alto da Torre. A partir daí, eles começaram a informar que os cangaceiros estavam vindo do lado de cá, na lateral da capela. E nesse momento, eles passam a ser revidados e deixam de ser atiradores para se tornarem alvos”, explicou o historiador Kydelmir Dantas.

Os homens que ficaram lá em cima não foram atingidos, mas as marcas dos tiros ainda permanecem no alto da torre. A capela que serviu de trincheira e guarda um dos maiores símbolos do combate de 13 de junho de 1927, dia em que Lampião e seu bando bateram retirada de Mossoró.

O ATAQUE DE LAMPIÃO AO SÍTIO PONTA DA SERRA

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Bela e preservada casa do sítio Ponta da Serra, tendo ao fundo uma parte da Serra de Martins. Mantida em grande parte original é um dos locais mais interessantes no trajeto do ataque do bando de Lampião ao Rio Grande do Norte – Foto – Rivanildo Alexandrino.

Rostand Medeiros – Sócio efetivo do IHGRN e autor do livro “1927 – O Caminho de Lampião no Rio Grande do Norte”.

Era uma sábado, dia 11 de junho de 1927, pelos sertões da região oeste do Rio Grande do Norte, em meio à mata de caatinga fechada, seguindo por caminhos que praticamente não eram frequentados por automóveis, uma turba de homens armados e montados em seus cavalos levantava poeira. Era Lampião que seguia em direção ao seu objetivo principal – a cidade de Mossoró.

Aquele era o segundo dia do grupo de cangaceiros em sua jornada avançando em terras potiguares. No dia anterior o grupo armado havia travado um combate em um lugar conhecido como Caiçara, onde fizeram uma guarnição de soldados debandarem, mataram um valente militar que não negou fogo e ainda atingiu mortalmente o cangaceiro Azulão. Depois percorreram várias propriedades rurais roubando, saqueando, depredando, sequestrando pessoas e espalhando uma onde de medo e terror[1].

Desde 2010 o autor deste texto percorreu algumas vezes o caminho que os cangaceiros de Lampião utilizaram para atacar Mossoró. É uma viagem muito interessante.

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Rostand Medeiros defronta a casa do sítio Ponta da Serra, invadida pelos cangaceiros de Lampião – Foto – Rivanildo Alexandrino.

Muitos dos locais que testemunharam os fatos não mais existem. Mais em outros pontos as pessoas preservam tenazmente estes ambientes, quase que teimando para que a história permaneça viva e fazendo tudo para que aqueles dias estranhos não sejam esquecidos.

Um destes locais é o sítio Ponta da Serra.

Buscando o Caminho dos Cangaceiros

Antes da chegada de Lampião a Ponta da Serra, baseado no que foi escrito, o último local visitado foi a propriedade Morada Nova, de Antônio Januário de Aquino.

Naqueles tempos longínquos, as áreas rurais entre a Morada Nova e a Ponta da Serra pertenciam respectivamente aos municípios de Pau dos Ferros e Martins, muito maiores em suas áreas territoriais do que são na atualidade[2].

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Mas para Lampião, guiado pelo bandoleiro Massilon Leite, aquilo pouco importava. O que importava era encontrar propriedades que valessem a prática do saque e do roubo. A partir da Morada Nova o bando aponta seu rumo em direção Nordeste, em direção a uma das mais belas e estruturadas propriedades da região.

Ao percorrer estes caminhos em pleno século XXI, utilizando GPS, a distância compreendida entre a Morada Nova e o próximo alvo dos cangaceiros, a Ponta da Serra, ficou em cerca de nove quilômetros.

Ao percorrer este caminho que separa as duas propriedades eu encontrei poucas casas onde poderia conseguir maiores informações e saber o que ficou desta memória. Tentava buscar saber com as pessoas da região alguma informação sobre outro possível local de ataque dos cangaceiros, que não houvesse sido listado anteriormente, ou apenas para saber o melhor rumo a tomar em direção ao sítio Ponta da Serra. Mas é uma área onde não se observa muita gente, um tanto inóspita, sombria mesmo.

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Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, na cidade de Martins, Rio Grande do Norte. Foi a zona rural deste município uma das áreas mais atacadas por lampião e seus cangaceiros quando estiveram no Rio Grande do Norte em 1927 – Foto – Ricardo Sávio Trigueiro de Morais

Se hoje é difícil achar um cristão naquelas veredas, na época de Lampião, segundo as informações coletadas junto aos atuais moradores da Morada Nova, este trecho era um verdadeiro deserto.

Segui com cautela, em meio a uma caatinga atemporal, com a paisagem ao fundo tomada pelo maciço da Serra de Martins, até que cheguei a BR-226, marco de modernidade que liga Pau dos Ferros a cidade de Antônio Martins[3]. Em certo trecho existe uma cancela a margem da rodovia federal e aquilo apontava que eu havia chegado a Ponta da Serra.

Corre Que Lampião Vem Aí!

Naquele antigo lugar “visitado” por Lampião eu percebi a razão da Ponta da Serra despontar como uma referência na região quando o assunto são casas antigas e preservadas.

Sua construção data do início do século XX chama a atenção pela imponência em meio a casas tão singelas e, segundo informações apuradas, o local está mantido em grande parte original. Outro fator extremamente positivo em relação a esta local se refere à própria beleza paisagística do ponto onde a mesma foi edificada. Defronte a antiga casa existe o açude Ponta da Serra e uma elevação denominada Serra do Macapá, com quase 500 metros de altitude, segundo informa o mapa produzido pela Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE, da região de Pau dos Ferros, na escala de 1:100:000.

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Francisco Javier de Lucena, conhecido na cidade serrana de Martins como Dr. Lacy,, quando entrevistado em 2010 – Foto Junior Marcelino.

Segundo o médico aposentado Francisco Javier de Lucena, conhecido na cidade serrana de Martins como “Dr. Lacy”, esta residência era em sua opinião “-A mais original do todas as que existem no pé da Serra de Martins”.

Em 2010, apesar de um relativo problema de surdez, encontrei na cidade de Martins o Dr. Lacy muito altivo e lúcido e o nosso encontro se deu através do apoio do amigo Junior Marcelino.

O Dr. Lacy nasceu no dia 15 de julho de 1917, tinha quase dez anos de idade na época da passagem do bando de cangaceiros de Lampião pela região e comentou que na ocasião o seu pai, João Xavier da Cunha, era cunhado e trabalhava para o então proprietário do sítio Ponta da Serra, João Frutuoso da Silva.

Este se encontrava com a sua família na propriedade, quando recebeu o aviso da chegada de Lampião através de uma senhora chamada Idalina, o já famoso “Corre que Lampião vem aí!”. Esta senhora vivia em um sítio próximo denominado Tabuleiro de Areia.

Logo a esposa de João Frutuoso, dona Alexandrina, buscou guardar objetos de importância para serem transportadas em dois tradicionais caçuas. Estes são uma espécie de saco de grandes dimensões, feito de couro de boi, montados em uma cangalha no lombo de um jumento. Este animal foi conduzido por um trabalhador da fazenda, enquanto a família seguiria para a cidade de Martins em um veículo Ford de três marchas.

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Dr. Lacy relata que na cidade de Martins havia certo número de soldados e pessoas do lugar armadas, sendo levados para piquetes organizados nas ladeiras da região, para assim resistir contra alguma investida do bando. Na opinião do Dr. Lacy, mesmo com muitos moradores buscando refúgio no mato e o clima de medo reinante, a situação não desbancou para uma fuga desesperada naquela urbe, houve certa ordem em Martins.

Seu pai João Xavier, assim que soube da aproximação do bando, mandou um irmão chamado Manuel Galdino seguir da cidade e ajudar João Frutuoso na propriedade. O motorista devia descer pela ladeira que seguia pelos sítios Comissário e Vertentes. Este caminho rústico, feito em 1915 por uma firma inglesa que construía o açude do Corredor, não era nada fácil de ser trafegado naqueles rústicos veículos, pois possuía muitas curvas nos contrafortes da Serra de Martins. Mesmo assim o motorista partiu.

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8 de março de 1928-pág. 2-Relatório de despesas de martins- Copy (2)
Notas existentes na página 2, do jornal natalense “A República”, edição de quinta feira, 8 de março de 1928, onde quase um ano depois o então prefeito daquela cidade, o Sr. Emídio Fernandes de Carvalho apresentava os custos municipais com a presença do bando de Lampião na área rural de Martins – Fonte – Coleção Rostand Medeiros

Ao chegar ao sítio Ponta da Serra, Galdino encontrou seus tios e seu primo João Batista da Silva, tratando de sair do local. Em meio a toda confusão associada ao medo, ele rapidamente deu meia volta no veículo e partiu. Acabou deixando de transportar as três empregadas da casa, que ficaram desesperadas e desorientadas. Coisa mesmo de verdadeira comedia pastelão em meio ao caos.

Catinga da Mistura de Perfume Barato, Suor e Cachaça

Segundo Dr. Lacy, foi por muito pouco que os membros da família não foram capturados, pois logo após a saída dos veículos o bando a galope chegou. Ríspida e rapidamente os bandoleiros invadiram todas as dependências da casa, onde arrombaram gavetas, malas e quebraram utensílios.

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Defronte a casa grande do Sítio Ponta da Serra, esta é a visão que temos. O Açude Ponta da Serra e a Serra do Macapá – Foto – Rostand Medeiros

Defronte a casa existia um comércio que era tocado pelo filho de Frutuoso, logo este lugar foi arrombado, sendo consumidas as bebidas do estoque e várias mercadorias foram roubadas ou depredadas.

Na casa os cangaceiros, aquecidos pelo álcool, fizeram as três empregadas passarem por apertos. Devido o rápido retorno do veículo de Galdino e da chegada dos celerados na sequência, elas não tiveram tempo de fugir para os matos. Mas o pior foi evitado devido ao chamado de Lampião para que deixassem as mulheres em paz. O próprio chefe comunicou às empregadas que se houvesse capturado Frutuoso, ele só seria libertado mediante o pagamento de quarenta contos de réis, verdadeira fortuna para época, demonstrando o poder econômico do proprietário do lugar.

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Na casa os cangaceiros mexeram em uma grande e pesada mesa de madeira, quebrando as gavetas que nela existiam. Em um fogão de ferro fundido, fabricado na Inglaterra, os cangaceiros buscavam avidamente comida, mas nada encontraram. A mesa e o fogão continuam na Ponta da Serra marcando a passagem dos cangaceiros[4].

Enquanto o saque prosseguia foi capturado o agricultor Francisco Dias, do sítio Corredor, propriedade existente mais adiante. Perguntado qual a próxima propriedade na sequencia da vereda existente comentou ser a Morcego, a um quilômetro de distância, cujo dono era Manoel Raulino. Rapidamente Francisco Dias foi “promovido”, mesmo a contra gosto, a função de guia dos bandoleiros.

Tão violentamente e rápido como chegaram, satisfeitos com o butim, Lampião ordenou que a cabroeira seguisse adiante.

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Rostand Medeiros e o Dr. Lacy na cidade de Martins, 2010 – Foto – Junior Marcelino.

Logo aquele troço de uns 60 e tantos homens montaram em seus corcéis sertanejos e partiram. Seguiram altivos, coroados pelos seus chapéus de couro, transportando vistosamente suas armas, gritando, assoviando, proferindo palavrões, estalando chicotes e deixando no ar a catinga da mistura de perfume barato, suor e cachaça.

Varias outras propriedades foram assaltados, roubos aconteceram, destruições ocorreram, sequestros e mortes. Mas no dia 13 de junho de 1927 o povo de Mossoró resistiu galhardamente e Lampião e seus cangaceiros foram vencidos e fugiram sem conquistar a “Capital do Oeste”.

Hoje quase ninguém que viveu aquela época está neste plano para dar depoimentos, mas locais como o sítio Ponta da Serra são testemunhos daqueles dias incertos e devem ser preservados.

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Defronte a casa da Ponta da Serra em abril de 2014, com os amigos Silvio Coutinho e Rivanildo Alexandrino.

Em abril de 2014 eu estive novamente nesta residência, acompanhado do diretor de cinema Silvio Coutinho, do Rio de Janeiro, e do amigo Rivanildo Alexandrino, da cidade de Frutuoso Gomes (RN), durante as filmagens do documentário “Chapéu Estrelado”.

Infelizmente pelo falecimento do diretor Coutinho em 2018, no Rio, esse documentário não seguiu adiante.


NOTAS

[1] Sobre este combate ver – https://tokdehistoria.com.br/2011/05/10/o-grande-fogo-da-caicara-e-a-desconhecida-%E2%80%9Cmissa-do-soldado%E2%80%9D/

https://tokdehistoria.com.br/2011/10/25/o-grande-fogo-da-caicara-inicio-da-resistencia-ao-bando-de-lampiao-no-rn/

[2] O sítio Morada Nova ainda está situado em terras que pertencem a Pau dos Ferros, sendo o único local que comprovadamente marca a passagem de Lampião neste município. Fui informado que a Morada Nova está situada a 18 quilômetros da sede municipal. Já a Ponta da Serra está na área territorial do município de Serrinha dos Pintos, tendo se desmembrado do município de Martins em 30 de outubro de 1993, através da Lei nº 6.492.

[3] Em 2010 esta estrada estrava em construção.

[4] Em abril de 2015 estes materiais ainda estavam por lá.

ENCONTRO COM O MESTRE FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO

Rostand Medeiros – IHGRN

Normalmente as pessoas que gostam de um determinado tema histórico possuem em suas casas livros sobre o assunto de sua preferência. Certamente que nestas estantes alguns destes livros se destacam de outros pelo constante manuseio e a frequência com que seus proprietários vasculham suas páginas em busca de respostas para certas indagações. São aqueles livros que se tornam referência. Evidentemente que diante dessa situação, surge naturalmente uma positiva admiração pelos autores destes maravilhosos trabalhos.

Na minha estante sobre livros do cangaço, que nem é tão numerosa assim, existem alguns poucos livros que se enquadram perfeitamente nesta situação, cujos autores são verdadeiros Mestres para mim. Um deles é “Guerreiros do Sol”, de Frederico Pernambucano de Mello.

Nessa minha busca pelo conhecimento do que significa o fenômeno do cangaço, sem dúvida alguma esta obra é uma grande ferramenta que me ajuda a ampliar o meu conhecimento sobre o tema.

Com o tempo fui incorporando ao meu acervo outros interessantes livros de Frederico Pernambucano de Mello, todos de alto nível.

E hoje, em Recife, eu tive o privilégio de conhecer Mestre Frederico.

Fui recebido de maneira extremamente atenciosa, em um momento muito agradável, muito salutar, onde pudemos debater de maneira tranquila e aberta sobre o universo do cangaço e da história de nossa região.

Conheci um homem com amplo conhecimento sobre esse tema, mas com uma natural simplicidade, enorme fidalguia e extrema atenção a este seu admirador.

Eu só tenho o mais franco agradecimento ao Mestre Frederico por este agradável encontro.

O GRANDE FOGO DA CAIÇARA – INÍCIO DA RESISTÊNCIA AO BANDO DE LAMPIÃO NO RN

TEXTO – Angelo Dantas

O episódio acima citado, ocorrido no dia 10 de junho de 1927, na então Vila Vitória, atual Município de Marcelino Vieira/RN, precisamente no lugar denominado Caiçara dos Tomáz, está muito bem relatado por Carlos Rostand França de Medeiros, no blog Lampião Aceso e pelo Sargento Gama no blog Toxina.

Mas ainda tem muita novidade sobre tal ocorrência.

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Rostand Medeiros recebendo a medalha junto com descendentes dos participantes do combate.

Em razão de o soldado  José Monteiro de Matos ter sido cruelmente assassinado pelo bando do célebre cangaceiro Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, naquele fatídico dia, o Governador Juvenal Lamartine autorizou a construção de um túmulo em sua memória, conforme lei que segue abaixo.

Embora deva ser considerado como um dos seus maiores heróis, pouca coisa a PM tem feito para enaltecê-lo.

Diante disto, estou concluindo um projeto para que seja criada a Medalha de Bravura  da PM-RN, cuja denominação será CRUZ DE BRAVURA SOLDADO MATOS.

Conforme tratado na 1ª parte, em 1928 o governador Juvenal Lamartine autorizou a construção de um monumento em memória do destemido soldado José Monteiro de Matos.

Placa do antigo monumento. Repare a data errada (16-06-1927). Foto do autor – março/2007

Com a construção do açude de Marcelino Vieira, cuja lâmina d’água encobriu o local onde ocorreu o grande confronto travado com o bando de Lampião o monumento teve que ser relocado. Acreditamos que isto ocorreu no governo de Dinarte Mariz. Possivelmente tenha sido mandado fazer uma outra placa de bronze com os dizeres necessários. E erraram exatamente a data do episódio. A placa permaneceu exibindo a data 16 DE JUNHO DE 1927 por muitos anos até que, no inicio de 2007, por iniciativa deste pesquisador e apoio do prefeito Francisco Iramar o equivoco foi sanado.

No dia 10 de junho de 2007, no transcurso dos “Oitenta Anos do Grande Fogo da Caiçara” o monumento foi mais uma vez relocado, assunto que será tratado mais adiante.

De acordo com os autos do histórico processo crime movido contra Virgolino Ferreira e seu bando  na Comarca de Pau dos Ferros, sentenciado no ano 2002, pelo MM Juiz de Direito João Afonso Morais Pordeus, o cadáver do soldado da PM-RN José Monteiro de Matos fora examinado no dia 11 de junho de 1927, na povoação de Victória, atual Município de Marcelino Vieira/RN, cujo lado pericial, manuscrito, compõe o caderno  processual.

Antigo monumento ao soldado Matos. Foto do autor – março/2007

Como sou um ferrenho defensor de que o bravo soldado Matos é um verdadeiro herói e mártir da nossa querida corporação achei por bem publicar as peças atinentes à referida perícia. Tal documento é um dos diversos embasamentos do anteprojeto de decreto que estamos elaborando, com vistas a ser instituída a medalha de bravura da PM-RN e me foi generosamente cedido em forma de cópia pelo colega Epitácio de Andrade Filho, capitão médico e cangaceirólogo.

No dia 10 de junho de 2007 comemoramos solenemente o transcurso  dos 80 anos do primeiro confronto travado entre o bando de Lampião e a polícia em solo potiguar, cujo evento ficou conhecido como O Grande Fogo da Caiçara, ocorrido no atual Município de Marcelino Vieira. Lá padeceu o destemido soldado José Monteiro de Matos, jovem policial que ainda não havia completado 40 dias de serviço.

A fim de bem marcar tão significativo acontecimento, elaborei e apresentei ao Dr. Iramar de Oliveira, respectivo prefeito municipal, uma proposta de Medalha Comemorativa, o que foi plenamente aceito e aprovado.

Medalha Fogo da Caiçara

Contando com a importante colaboração do sargento PM Francisco das Chagas Alves, meu colega de corregedoria, a arte da referida medalha ficou assim definida:

I – Insígnia: formada por um escudo redondo, dourado, medindo 40mm de diâmetro, tendo ao centro um octógono encravado num circulo, carregado pela representação da Serra do Panatis. Em contra-chefe, duas setas horizontais apontando em sentidos opostos e, logo acima, à destra, duas garruchas em santor, e à sinistra um chapéu de cangaceiro,  encimados pela representação do  monumento erigido em memória do Soldado José Monteiro de Matos. Circundando a bordadura da medalha,  as inscrições PMMV, acima, e COMEMORATIVA DOS 80 ANOS DO FOGO DA CAIÇARA, abaixo, e entre estas dois ramos de folhas de carvalho. No reverso, a inscrição “10 de junho de 2007 – 80 anos”.

II – Fita: confeccionada em gorgorão de seda chama lotada, com listras nas cores verde, azul, amarela, branca, azul e verde, medindo 35m de largura por 45mm de comprimento útil.

III – Barreta: confeccionada com o mesmo tecido e cores da fita, medindo 10mm de altura por 35mm de largura.

IV – Diploma: confeccionado em papel apergaminhado, de acordo com o modelo em apenso.

Simbologia

A simbologia  da Medalha  é a seguinte:

I – Octógono: Representa o algarismo “8”;
II – Círculo: lembra o algarismo “0”, de 80 anos.
III – Serra do Panatís; Simboliza o Município de Marcelino Vieira;
IV – Monumento tipo cruzeiro: evoca o Soldado José Monteiro de Matos, morto durante o Fogo da Caiçara;
V – Chapéu de cangaceiro: significa o fenômeno social que assolou os sertões nordestinos, sobretudo na década de 1920.
VI – Garruchas cruzadas (em santor): representa a força legal que combateu aos cangaceiros no povoado Caiçara, da qual fazia parte o bravo Soldado José Monteiro de Matos;
VII – Cores azul, amarela e verde: predominantes da bandeira de Marcelino Vieira;
VIII – Setas em sentidos opostos: indicam que houve combate entre as duas facções;
IX – Folhas de carvalho: simbolizam força, coragem e intrepidez;

Foi muito interessante e proveitoso o engajamento de diversas pessoas e Órgãos durante aquele movimentado mês de junho do ano 2007, quando foram realizados alguns eventos que marcaram o transcurso dos 80 anos da investida de Virgolino Ferreira em terras norte-rio-grandenses.
Descerramento do memorial do cangaço
Em Marcelino Vieira, onde ocorreu verdadeiramente o 1º confronto de Lampião com a polícia potiguar, houve durante toda a tarde daquele 10 de junho inúmeras comemorações. A prefeitura municipal mandou erigir uma espécie de memorial do cangaço e eu tive a satisfação de descerrar a respectiva placa, em companhia do então prefeito municipal, o meu amigo Francisco Iramar.

A entrega solene da medalha acima descrita ocorreu na tarde daquele 10-junho-2007, ao lado do monumento erigido em memória do soldado José Monteiro de Matos, com a presença de diversas autoridades , convidados e pessoas do povo.

2º Sgt PM Francisco das Chagas Alves e Ten Cel Angelo

Cerca de 30 personalidades foram agraciadas, dentre autoridades, pesquisadores, militares estaduais e parentes de policiais que participaram do combate.

No dia 10 de junho de 2007, em significativa solenidade, o Dr. Francisco Iramar de Oliveira, prefeito de Marcelino Vieira concedeu a cerca de 30 pessoas a Medalha Comemorativa dos 80 Anos do Grande Fogo da Caiçara.

O evento marcou os oitenta anos da passagem do bando de Lampião pelo lugar.

Naquele distante 10 de junho de 1927, Lampião e seus cabras  travaram ferrenho combate com uma fração de tropa da PM, resultando mortos o soldado José Monteiro de Matos e o cangaceiro Azulão.

As pessoas agraciadas foram indicadas em face de suas valiosas e destacadas contribuições para com o resgate da história do Município de Marcelino Vieira.

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UM OUTRO PRÊMIO PELA CABEÇA DE LAMPIÃO

QUANDO UMA CONCEITUADA PERFUMARIA CARIOCA OFERECEU MUITO DINHEIRO PELO FIM DO “REI DO CANGAÇO”

Autor – Rostand Medeiros

Um oferecimento para corajosos

Quem lê e se debruça sobre o tema cangaço, certamente já teve oportunidade de visualizar um famoso anúncio onde o governo do estado da Bahia oferecia 50 contos de réis pela captura de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, também conhecido como “O Rei do Cangaço”.

Mas aquele anúncio de captura não foi o único. Em 1932 houve outro, que oferecia o mesmo valor, cuja iniciativa partiu de uma perfumaria que tinha sede na carioquíssima Praça Tiradentes, em pleno centro do Rio de Janeiro, então Capital Federal.

Muito dinheiro

Creio que quem primeiro comentou sobre este interessante fato foi o pesquisador e escritor baiano Oleone Coelho Fontes, no seu livro “Lampião na Bahia”. Nas páginas 198 a 207 (4ª edição) desta interessante obra, o autor lista inúmeros casos de pessoas, alguns destes antigos militares, que através de jornais cariocas informavam que estavam a disposição de seguirem para o longínquo sertão, na intenção de capturar, ou matar, o mais temido bandido brasileiro. Percebemos que estas pessoas procuravam muito mais a promoção midiática, do que tentar realmente resolver o caso Lampião.

Lampião e seus homens nos seus primeiros passos na Bahia, em foto de Alcides Fraga

Entre outras iniciativas de captura apontadas por Oleone, se encontrava uma feita por uma empresa, a Perfumaria Lopes. Esta conceituada casa comercial, inaugurada no início da década de 1920, informava através de um anúncio publicado na imprensa carioca (reproduzido no jornal soteropolitano “A Tarde”, edição de 12 de junho de 1931), que oferecia 50 contos de réis pela captura do famoso cangaceiro.

A empresa anunciava que o prêmio poderia ser conquistado por qualquer pessoa, civil ou militar, desde que provasse ter alcançado seu êxito através da apresentação de documentação autenticada por autoridade competente (Ver Fontes, O. C. Pág. 207, nota nº 272).

O jornal em que a nota foi publicada em Natal

Aparentemente a Perfumaria Lopes gostou da iniciativa, pois no ano seguinte, na mesma época, renovava a publicação do anúncio de 50 contos pela captura do “Rei do Cangaço”. Consegui encontrar este anúncio na edição de 13 de junho de 1932, do jornal natalense “A Republica”.

Mas enfim, isso era a sério? Ou seria apenas uma ação de marketing?

No meu entendimento, toda esta movimentação era puramente uma ação de propaganda. Não sei o que o operoso proprietário da empresa pensava sobre Lampião e suas ações, mas morando no distante Rio de Janeiro, certamente ele deve ter percebido que dificilmente alguém da sua região ganharia a premiação.

Mas se aparecesse um cidadão queimado do sol nordestino, trazendo a cabeça de Lampião em uma lata de querosene da marca “Jacaré”, em meio a uma grande quantidade de cal virgem para não apodrecer tão rápido, certamente o proprietário desta conceituada casa lhe pagaria, pois dinheiro não lhe faltava.

Fonte – Revista Careta, número 935, 22 de maio de 1926

A perfumaria Lopes pertencia ao Comendador José Gomes Lopes, que também era proprietário da Fábrica de Cosméticos Beija-Flor, era um imigrante português que enriqueceu no Rio de Janeiro. A sede principal da Perfumaria Lopes S. A. se situava na Praça Tiradentes, em um grande ponto comercial que ia do número 34 ao 38 e ainda possuía uma filial na Rua Uruguaiana, igualmente no Rio de Janeiro.

Mas havia sucursais por todo o Brasil e seu produtos tinham refino e qualidade.

Nas memórias de José Bento Faria Ferraz, que foi secretário particular do escritor Mário de Andrade por 11 anos, lembra que um dos mais importantes intelectuais da cultura brasileira era um homem “muito refinado”, mas tinha sérios apertos financeiros. “Apesar de sua pobreza”, como dizia José Bento, o escritor sempre solicitava que o colaborador fosse a Perfumaria Lopes, situada à Rua José Bonifácio, para comprar uma loção “para passar na careca”.

O Comendador Lopes tinha uma visão muito positiva em relação à propaganda. Vamos encontrar a sua casa comercial como o primeiro anunciante da famosa Rádio Nacional, transmitidas em ondas médias, enquanto o tradicional “Leite de Colônia” patrocinava em ondas curtas. A perfumaria foi também um dos patrocinadores do igualmente famoso “Repórter Esso”.

Fonte – paniscumovum.blogspot.com

Não encontrei mais nenhuma informação sobre esta iniciativa e o destino dos 50 contos de réis. Não tenho certeza, mas tudo indica que o sargento Bezerra, o homem que comandou os policiais que exterminaram Lampião em 1938, não foi ao Rio solicitar o prêmio.

Mas a simples existência deste tipo de anúncio em jornais de grande circulação da Capital Federal mostra o quanto a figura de Lampião era conhecido nacionalmente. Mas foi também esta fama, principalmente após a divulgação do famoso filme do libanês Benjamim Abrahão, que indubitavelmente chamou a atenção das autoridades federais do período do Estado Novo.

Os poderosos do Rio passaram a cobrar uma ação mais efetiva das autoridades estaduais nordestinas e para concretizar a derrocada deste cangaceiro. E assim foi feito.

O já conhecido anúncio de recompensa por Lampião, pretensamente oferecido pelo governo baiano.

Em Natal, a Perfumaria Lopes era representada pela firma César Comércio e Representações Ltda. Empresa criada pelo empresário Júlio César de Andrade em 07 de Março de 1932, com sede na travessa México, 85, no tradicional bairro da Ribeira.

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