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LAMPIÃO NO CEARÁ – A VOLTA, NA VOLTA, DO “REI DO CANGAÇO”

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Lampião e seu aparato de guerra – Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/brutal-lampiao.phtml#.WWwJ3ojyvXP

A DURA SITUAÇÃO DO BANDO DE LAMPIÃO EM TERRAS CEARENSES, APÓS O FRACASSADO ATAQUE A MOSSORÓ

Autor – Sálvio Siqueira

Pesquisador do Cangaço, São José do Egito, Pernambuco – slimasiqueira@yahoo.com.br

Era a boca da noite do dia 13 de junho de 1927. Lampião, na estação ferroviária da cidade de Mossoró, Rio Grande do Norte, já estava sabendo de que perdera dois de seus melhores homens no confronto, além de estar ferido Moderno, seu cunhado, As de Ouro e outro, com o abdome aberto pelo projétil de um dos homens da resistência, se contorcia e soltava gemidos involuntários devido a enorme dor. Esse último com um ferimento gravíssimo. O cangaceiro Sabino, seu “tenente” na época, reportara para o mesmo a perda e a impossibilidade de levar o plano adiante. Recebe ordens de reagrupar o bando para deixarem a cidade…

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O pesquisador Sálvio Siqueira realizando suas pesquisas sobre o cangaço nordestino.

As sombras da noite os engolira de repente. Tomaram, sob as ordens do chefe maior, um itinerário diferente daquele usado quando da vinda para a cidade do sal. Todos com caras de poucos amigos, sem pilhérias nem brincadeiras de tipo algum. Naquele ocaso do dia, o silêncio estava a consumir cada um deles. O silêncio só era quebrado pelos gemidos do cangaceiro agonizante e o soar das alpercatas “Xô-boi” levantando a poeira em solo potiguar.

A sua frente aparece um muro de varas e estacas, uma enorme e longa cerca, mas, não podiam parar, transpõem com rapidez e seguem em busca de um lugar para “lamberem suas feridas” físicas e morais, todas em carne viva. Não sabem ao certo por onde estão. Despontam em uma casa solitária. Pedem à mulher que abriu a parte superior da porta água e sal, para lavarem os ferimentos. A mulher, dona Maria Liberata, que tinha um sitiozinho nos arredores da cidade, estava a morrer de medo envolto pelos cangaceiros. Seu medo era tanto que, não sabendo onde esconder sua filha, a fez entrar embaixo d’um monte de cascas de feijão que havia no recanto da parede da sala. A pilha de cascas não era tanta e ao socar-se embaixo dela, os pés da adolescente ficam de fora. Lampião percebe o medo da filha e a agonia da mãe, então tenta tranquilizar as duas, dizendo só querer água e sal, depois diz para a senhora que pode mandar sair de debaixo das cascas quem lá estivesse que suas vidas estavam garantidas.

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Onde hoje estão essas casas na cidade de Mossoró, na Avenida Alberto Maranhão, ficava a sede do Sítio Saco, local onde esteve o bando de Lampião antes e depois de atacar Mossoró – Foto – Rostand Medeiros.

“- Dona, a senhora pode tirar essa pessoa que está por debaixo das cascas! Ninguém quer fazer mal a ninguém aqui!” (Dantas, 2005)

Recebendo o que pedira, os cangaceiros misturam o sal na água e lavam seus ferimentos. Rapidamente, ao findar esse pequeno tratamento, Lampião ordena para que a cabroeira se levante e coloquem os pés no caminho. Por fim chegam ao local de onde partiram para o ataque frustrado – o sítio “Saco”.

DEIXANDO MOSSORÓ PARA TRÁS

O chefe pernambucano portava-se igual uma fera acuada. Não parava em lugar nenhum. Ia pra um lado e retornava no mesmo instante, reclamando com tudo e com todos, porém, seu maior aborrecimento era referido ao cangaceiro Massilon Leite, pelo fato dele o ter convencido a atacar uma cidade do porte de Mossoró. Instantes depois de terem chegado, imediatamente a um pequeno “tomar fôlego” ordena que seus homens subirem em suas montarias para, mais do que rápido, deixarem as terras do Rio Grande do Norte.

Do ponto em que se encontravam Lampião não poderia pegar o rumo do sul, transpondo os limites dos Estados do Rio Grande do Norte e penetrar na Paraíba, terreno do seu conhecimento, pois, além dos homens do coronel Pereira, de Princesa Isabel, que não eram poucos, estarem a sua procura, no seu encalce estavam várias volantes paraibanas determinadas, valentes e perigosas. Então, só havia uma rota de fuga: seguir rumo ao Oeste, pois no poente ficava o território cearense, terra do Padim Padre Cícero, lugar onde a Força Pública não o perseguiria.

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Manchete do jornal A República, de Natal, do dia 14 de junho de 1927, um dia após o ataque – Coleção Rostand Medeiros

Virgolino sabia que estavam sendo caçados vigorosamente. Começa a aplicar táticas de vai-e-vem, além de ordenar cortarem os fios do telégrafo, para dificultar a trilha percorrida e atrasar os perseguidores. Segue por um caminho e, de repente, entra no mato, transpõem lajedos, e seguem sem poderem parar um só instante. O “Rei do Cangaço” não conhecia o terreno que percorria, nunca havia estado naquele Estado, por isso levava um senhor da região, Seu Formiga, desde antes ao ataque, servindo-lhe de guia. Com a andada sem paradas, o Senhor formiga começa a cambalear, estava quase que totalmente sem forças para prosseguir. Lampião dispensa os serviços desse guia e captura um senhor e seu filho para que tomassem o lugar dele. E assim prosseguem sem pararem para nada, nem para cuidarem dos feridos. Ao dispensar Formiga, Lampião manda que esse vá falar com o coronel Antônio Gurgel, um de seus reféns. O coronel escreve um bilhete solicitando que familiares e amigos arrecadem certa quantia para que fosse libertado pelos cangaceiros, caso contrário, perderia sua vida, e pede ao Senhor Formiga que fizesse chegar até seu irmão, Tibúrcio Gurgel, para que o mesmo tomasse as devidas providências.

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Os novos guias levam a caterva rumo ao Ceará, seguindo os postes e fios do telégrafo. Assim percorrem léguas e léguas para ficar mais distante de Mossoró. Em determinado lugar, chamado sítio Baixa da Broca, Lampião ordena que parem e montam acampamento. Naqueles dias, os cangaceiros formavam um grande círculo fechando o perímetro. No centro, de um lado, ficavam o chefe e seus lugares tenentes, Sabino, Luiz Pedro, Moderno e etc., do outro os reféns sob a guarda de alguns cabras. Antes do alvorecer, os cangaceiros já estão bem longe daquelas paragens. Por volta das cinco da matina, cercam e invadem a fazenda chamada Jucuri, a qual tinha como proprietário o senhor Manoel Freire.

SUPLÍCIO NO JUCURI

Naquelas horas da manhã, o dono estava a ordenhar as vacas junto com seu vaqueiro Teófilo Lucas. Os dois são presos. O dono é obrigado a leva-los até a casa sede. Lá chegando, obrigam-no a chamar por sua esposa para que ela abrisse a porta. A casa é tomada imediatamente por uma horda de cangaceiros que começam a vasculhar cada centímetro do lugar. Além dessa bagunça toda, os cangaceiros exigem que se faça café para eles. Lampião e Sabino começam a apertar Manoel Feire pelos contos de réis. Freire responde que não tem. Sabino toma de conta do dono da fazenda e assume o interrogatório, ameaça-o de tudo quanto pode. O homem é valente e não diz onde está o dinheiro. Em vez de continuar só com a negativa, Manoel, a certa altura da coisa, faltando a paciência, diz:

“- Não tenho dinheiro para bandidos! Não tenho! Já disse!” (Dantas, 2005)

Rapaz, teria sido melhor ele não ter dito dessa maneira.

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Igreja na comunidade Jucuri, próxima a Mossoró – Foto – Rostand Medeiros.

Sabino, que já estava com o rebenque na mão, pequeno chicote de couro em forma de bengala para tocar a montaria, começou uma sessão de espancamento no pobre fazendeiro. Freire nada podia fazer a não ser levar as chibatadas e chorar de tanta dor. E quanto mais Manoel chorava, mais o cacete comia. Em certo momento, sua esposa, Dona Francisca, vendo que Sabino ia acabar matando seu esposo na chibata, resolveu interferir. Aí a coisa ficou pior. Tentar impedir que um homem como Sabino das Abóboras prosseguisse o que estivesse fazendo, era melhor nem tentar. Sabino em vez de atender àquela senhora, lhe solta a “macaca no lombo”, ou seja, bate nela sem piedade. A mulher gritava de dor e o meliante não cansava nem parava de bater. Até que os dois, marido e mulher, ficaram estendidos no piso da casa com suas peles rasgadas pela sola do chicote. Porém, o castigo em Manoel tem recomeço. O homem quase que nada mais dizia, soltava apenas sons pela boca, e a surra não parava.

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E Lampião? Ora, quem iria intrometer-se naquele meio contra Sabino? Nem ele! Enquanto o pau cantava nas costas do pobre fazendeiro, Virgolino, aproveitando o aperreio das filhas, começa a saquear suas joias. Após ter pego tudo que encontrou de valor dentro da casa ou com as pessoas, Lampião ordena que Sabino pare de bater no homem. Vai até ele e o condena a ser seu prisioneiro, sequestrando-o, estipula uma quantia para que fosse libertado.

“(…) Concluído o saqueio, o vesgo determinou ao subordinado a suspensão da muxinga (ação de bater; sova, surra). Segurou Freire pelo braço e sentenciou com autoridade:

– Olhe, o senhor vai com a gente! Sua liberdade vai custar dez contos de réis!

Em seguida tornou aos familiares do fazendeiro:

– Mandem alguém a Mossoró arranjar o dinheiro!

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O pesquisador Sérgio Dantas, autor de quatro importantes livros sobre o tema Cangaço, um deles intitulado LAMPIÃO E O RIO GRANDE DO NORTE – A HISTÓRIA DA GRANDE JORNADA, que considero o melhor sobre a história do ataque de Lampião a Mossoró e aborda o tema com grande profundidade e riqueza de detalhes. Os textos e algumas fotos deste livro serviram de base para a criação deste artigo – Foto – Rostand Medeiros.

O agricultor foi conduzido de forma ridícula, em roupas de pijama (…).” (“ Lampião e o Rio Grande do Norte – A história da grande jornada” – DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. 1ª Edição. Natal, 2005)

O FIM DO SOFRIMENTO DE DOIS DE OURO E O ATAQUE A FAZENDA VENEZA

Em seguida o chefe ordena que montem e partam em trote acelerado. O tempo urgia ficar o mais longe possível daquela cidade potiguar. Já não estava tão bem o cangaceiro ferido na altura da barriga. Com o trote forçado a coisa piora e alguns cangaceiros que estavam ao seu lado têm que parar para ver o que poderiam fazer em socorro ao companheiro. O sofrimento era tanto que o ferido suplica aos companheiros que tirem sua vida. Ninguém se habilita a tal coisa. As dores aumentam e ele retornar a suplicar que o matem. Havia, dentre os homens de Lampião, naquele instante, um com alcunha de Marreco. Esse vai até ele e diz que fará seu pedido. Arrastam o ferido para dentro do mato, levam-no até a sombra de uma grande árvore e lá, no meio do nada, Marreco o mata com um tiro.

(…) Afastaram o bandoleiro para lugar recatado, debaixo de velha quixabeira. Tiro seco e rápido tirou-lhe o resto de vida sacrílega.

Expiação finda, o corpo foi enterrado em cova rasa, à beira do caminho. Cruz tosca marcou o local(…)

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A tradição oral fixou que o cangaceiro enterrado nesse ponto da estrada foi o célebre Menino de Ouro. Tal não é verdade. O bandido em questão se quer saiu ferido do embate em Mossoró. Raimundo Lucena, em seu livro “Memórias”, refere-se à presença do bandoleiro-mirim na cidade de Limoeiro do Norte, no dia 15/06/27. Não morrera, pois. Teve, sim, longa sobrevida. Foi encontrado n década de noventa pelo pesquisador Hilário Lucetti. Menino de Ouro, o Alagoano ou Oliveira, morrerá somente em 23 de novembro de 1999, com vetusta idade de oitenta e sete anos. O homem sepultado nesse ponto do caminho – o que foi revelado pós a exumação – não era tão jovem. Provavelmente o corpo era do bandido “Dois de Ouro”. O resto é tradição verbal. Pura lenda.” (DANTAS, 2005)

A caterva prossegue rumo a terras cearenses. Antes da linha limítrofe, ainda em território potiguar, tinha uma fazenda chamada Veneza que tinha como administrador o senhor Childerico Fernandes.

Por ter uma vasta área desmatada em sua volta, a visão de quem se encontrava na casa pegava todo o derredor. Por isso, a esposa do administrador, dona Felisbela, ao escutar um tropel de cascos no solo duro, ergue e avista o bando de cangaceiros aproximando-se. Vai até onde se encontrava o marido e lhe diz o que estava vindo em direção a eles, a tempestade que vinha chegando.

Sendo comerciante, Childerico havia comprado um rebanho de reses a prazo, ou feito um empréstimo e comprado o gado, mais provável. De posse das reses, começa a engordá-las e vai vendendo e juntando a quantia para fazer o pagamento. Tanto a esposa como o marido treme nas bases, principalmente por saberem ter em casa a quantia de dez contos de réis, os quais seria utilizado para saldar a dívida. Avexam-se a procura de um local para esconderem a “botija de dinheiro”.

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Antiga sede do sítio Veneza, fotografada em 2010 e hoje parte de um assentamento rural – Foto – Rostand Medeiros

Lampião parecia já estar refeito da derrota em Mossoró, pois seu cérebro já tramava a mil por hora. Antes da aproximação da casa sede da fazenda Veneza, ele divide o bando, fica com alguns cangaceiros e os reféns. Envia Sabino com trinta cangaceiros a vivenda. Sem a preocupação dos reféns nem a marcha lenta dos guias como empecilho, a tropa liderada por Sabino esporeiam suas montarias e chegam muito rápido a casa e imediatamente a cercam, invadem e tomam conta de todo e qualquer recanto que havia nela. Na sala, estando Childerico, Sabino começa a fazer-lhe várias perguntas: onde estão, a qual Estado pertencem aquelas terras e por aí foi… O administrador ia respondendo a cada pergunta de acordo com a situação.

Dona Felisbela, de posse da grana junta, tinha tentado sair pela porta da cozinha para ir escondê-la, mas, não deu tempo. O cangaceiro apelidado de Coqueiro invade a casa por essa saída e impede que ela saia. Percebendo o nervosismo da senhora, o cangaceiro começa a procurar e acha tudo. Ela, sem ter outra opção, dispara pra sala onde se encontram seu marido, Sabino e vários cangaceiros, narrando o que tinha acontecido. Pelo que a senhora falou, Sabino, cangaceiro experiente, já sabia de quem se tratava e lasca o grito pra cima querendo a presença de Coqueiro imediatamente. De imediato o chefe ordena que lhe passe a grana. Ao receber nota a quantia e seus grandes olhos quase que saltam da face, sem acreditar direito no que via. O cabra das Abóboras afasta-se dos demais e começa a contar o volume de notas uma por uma. Fica meio que boquiaberto. Nunca pensara em encontrar naquela simples casa tanto dinheiro junto. A razão da soma, um tanto grande para a época, era simplesmente o acúmulo para pagar o que havia comprado, as reses, ou seja, aquele dinheiro não era de Childerico.

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Alpendre da antiga sede da propriedade Veneza, zona rural de Baraúna, Rio Grande do Norte – Foto – Rostand Medeiros

O restante do bando, ao ver a quantia de notas nas mãos de Sabinos, imediatamente começa a fazer uma varredura no local. Não deixando inteiros os poucos móveis que ali havia. O administrador, cheio de pena, lamentos e raiva por estar perdendo tudo quanto havia conseguido na vida, protestou com o chefe, Sabino das Abóboras, que lhe responde para que ele vá reclamar com o coronel José Pereira, chefe político da cidade de Princesa Isabel, Paraíba, o qual havia lhe ensinado o que acabara de fazer. Essa ligação entre José Pereira, Sabino Gomes de Gois, também conhecido como “Sabino das Abóboras” e o coronel Marçal Florentino Diniz, esse pai de Sabino com uma de suas empregadas, contaremos em outra oportunidade.

Pois bem, não contente, mesmo tendo encontrado a enorme soma, Sabino começa uma sessão de torturas no corpo de Childerico. Dessa vez, ele alterna os objetos que produziam as dores: usava o chicote e depois o punhal, voltava a usar o chicote e em seguida, novamente a ponta fina e dura da lâmina de aço. Assim o tempo passa, para Childerico, cada minuto parecia um tempo enorme… Uma eternidade!

O misticismo, catolicismo e messianismo foram, são e será uma válvula de escape sobre o sofrimento de parte da população mundial, arrancando daí uma fé às vezes doentia e entre os que usam dessa fé estão os sertanejos nordestinos. Em determinado momento, não aguentando ver o sofrimento de Childerico, sua esposa corre até o oratório, nicho ou armário com imagens religiosas; capela doméstica que surgiu desde a Idade Média no território europeu, como devoção popular tendo sido inserido em nosso convívio pelos europeus migrantes, pega uma imagem e a coloca na frente do rosto do cangaceiro. Tanto dona Felisbela, quanto o cangaceiro Sabino possuíam, não explicar como, a mesma fé interior. Ao deparar-se com tal imagem, o cangaceiro perverso larga do chicote, guarda o punhal na bainha e deixa Childerico de lado.

“(…) A essa altura, Dona Bebela (Felisbela), em prantos, correu ao oratório. Tomou nas mãos imagem de Nossa senhora e a colocou rente aos olhos do cangaceiro:

-Poupe nossas vidas! Já lhe demos todo dinheiro e nossos bens! Você não acredita em Deus; em Nossa senhora?

– Ora, deixe de choradeira! Já vem você com essa tapeação? Contrapôs Sabino, com sorriso amarelo.

A estratégia de alguma forma surtiu efeito. O cangaceiro – ignorante, fanático religioso por índole e cultura – temia as coisas do céu. Respeitava os Santos e reverenciava imagens. Teve, decerto, medo de sortilégio que podia advir de atitude tida por “herege”.

Sem mais discussão, largou Childerico (…) (DANTAS, 2005)

livro lampião e rio grande do norte
O livro de Sérgio Dantas.

Lampião estava acampado perto dali, havia combinado com Sabino que, tudo dando certo na fazenda ele enviasse um emissário com a senha “acabado o serviço”. Essa frase, para o chefe pernambucano significava que ele poderia aproximar-se com segurança. Virgolino percorre o a pequena distância entre seu acampamento e a casa, desmonta no terreiro da sala e entra na casa. A partir do momento da sua aproximação, desmonte e caminhada até onde estava o casal, não escutou som de voz alguma. Naquele momento, apenas sua presença fazia todos calarem-se. Um dos cangaceiros chega bem perto do sofrido administrado, agachasse e lhe pergunta se sabe quem seria aquele que estava em sua frente. Não entendendo o que o prisioneiro respondeu, pois até para falar doí-lhe tudo, o cabra insiste na pergunta. Depois termina lhe dizendo de que se tratava de Lampião.

O cangaceiro mor se aproxima mais ainda do prisioneiro, se abaixa e começa a fazer-lhe várias perguntas. Dentre essas, perguntou se seria parente do prefeito de Mossoró, coronel Rodolfo Fernandes. Acreditamos que nesse momento tanto Childerico Fernandes como dona Felisbela começaram a rezar fervorosamente, encomendando suas almas a Deus, pois ele era parente do Intendente de Mossoró, que organizou a resistência cívica naquela cidade.

Na historiografia do “Rei do Cangaço”, vemos fatos, ações e atitudes com tamanha distinção entre eles, que não sabemos do porque, agir daquela forma.

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Em vez de sacar a pistola e atirar na cabeça de Childerico, ou puxar seu grande punhal da bainha e sangrá-lo, Lampião começa por pedir que armassem redes para que ele, Sabino e o coronel Gurgel se deitassem. Depois começa a conversar, sem ameaças ou violência com o prisioneiro. Pede azeite para lubrificar as armas. Tanto fica dono da situação que o preso lhe oferece refeição de carne de gado. Meticuloso, Lampião diz querer comer galinha, as quais estavam no terreiro e todas foram mortas, a tiros, pelos cangaceiros. A comida é preparada e todos se empanturram de galinha cozinhada. Conversa vem, conversa vai, de súbito, Lampião ergue-se e ordena que a cabroeira monte que iam partir imediatamente. A coisa seria cômica, se não fosse tão trágica, pois, ao despedirem-se do casal prisioneiro, vão apertar-lhes as mãos e desejam-lhe felicidades.

Incrível essa maneira de mudar suas ações. Em repentino momento, muda da água para o vinho. Todos montados, apertam as pernas e aos sentirem as pontas pontiagudas das rosetas das esporas, os animais começam a caminhar para a terra dominada por Padre Cícero.

“(…) Os homens equiparam-se, apressados. Dirigiram palavras amáveis a Childerico e esposa. Apertaram-lhes as mãos. Ensaiaram, brevemente, atos de civilidade.

– Vamos embora! – insistia o líder supremo, algo nervoso.

A malta partia, satisfeita com refeição e sesta.

Em menos de hora cruzaram a fronteira cearense. Lampião alertou os carbonários. Deixou claro que a partir dali o comportamento deveria ser outro. Estavam nos domínios do Padre Cícero Rumão. Repetia e advertência:

– Aqui já é Ceará! Pra diante ninguém rouba mais, pois o Governo daqui não bole com a gente! (…) (LUCETTI e LUCENA, 1995,p. 210)

NO CEARÁ

Já em terras do Ceará, o cidadão Manoel Freire é libertado já em terras da fazenda Lagoa do Rocha, após de determinado portador ter entregue a Lampião a quantia por ele estipulada para o resgate. O proprietário dessa fazenda, Lagoa do Rocha, o senhor Anísio Batista dos Santos é informado de que um bando de cangaceiros seguia rumando à cidade de Limoeiro do Norte, o que teria de passar por a casa sede da mesma, ou bem próximo a ela, já que ficava um pouco ‘recuada’, dentro da mata. Resolveu ir até as autoridades e deixa-las ciente do que estava acontecendo em suas terras, à presença de Lampião e seus homens. Antes de partir, recomenda para seus familiares que não acendessem candeeiros ou lamparinas para não trair, mostrar, onde estavam com a claridade.

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Vista da região cearense por onde seguiu o bando de Lampião – Foto – Rostand Medeiros

Quando a noite encobre aquela região com seu negro manto, Anísio parte para cumprir sua missão. Mais tarde, já alta noite, as pessoas que estavam dentro da casa escutam um grande tropel de animais no terreiro da casa. De repente, alguém bate a porta…

“(…) La fora, bateu-se vigorosamente à porta:

– Pode abrir sem medo! É de paz!

– E quem é?? – quis saber a mulher.

– Capitão Virgolino Ferreira! A senhora está garantida! Quero só um lugar para passar a noite! (…)(DANTAS, 2005)

Como comentado anteriormente, quando estudarmos a história do cangaceiro Virgolino, notamos altos e baixos, constantes, em suas ações. A senhora abriu a porta e deixou que a cabroeira entrasse. Lampião foi totalmente educado, assim como seus homens ficaram todos comportados. Após todos comerem o “Rei do Cangaço” solicita a dona da casa que arme três redes para eles. Lampião, mesmo cansado, ainda saiu ao terreiro e foi rezar. Mais tarde o dono retorna da sua viagem, conversa com Lampião e esse pergunta se ele viu soldados perto daquelas paragens ou no caminho de Limoeiro até ali. Recebe resposta negativa do senhor Anísio, no entanto, ordena que se façam vigias, guardas, nas estradas para evitar surpresas.

Já era madrugada do dia 15 de junho de 1927, dois dias iam ser completados desde a derrota em Mossoró. Antes da aurora, todos fazem o desjejum e, tomando o senhor Anísio como guia e seguem ao encontro do seu destino. Lá pelas dez horas do dia chegam à fazenda Cacimba da Vaca, onde suas terras iam terminar nos arredores de Limoeiro do Norte. Ordenando que todos desmontassem, chama o novo guia Anísio Batista e, lhe entregando certa quantia, o envia a Limoeiro para fazer compras. Manda também que ele dê uma sondada vendo se havia policiais, os macacos, na cidadela. Além de lhe mandar procurar algum familiar do coronel Antônio Gurgel, um de seus reféns.

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Catedral da Imaculada Conceição, Limoeiro do Norte, Ceará – Foto – Rostand Medeiros.

O senhor Anísio, ao relatar que Lampião e seu bando estavam às portas da cidade, causa certo pavor na população. É realizada reunião urgente com as autoridades que se encontravam na cidade que, descartam de imediato formarem um grupo de resistência pois não havia armas nem munição, tão pouco gente suficiente e disposta. Nessa reunião ficou acordado que convidariam o “Rei do Cangaço” e seus cangaceiros para vir conhecer Limoeiro…

“(…) Ao fim das deliberações, encontrou-se solução bisonha, porém de inegável prudência: resolveu-se convidar o célebre prover do cangaço e seus sequazes para conhecerem a cidade (…). Fizeram saber ao guia o resultado dp debate de há pouco. Pediram-lhe que fosse ao encontro do cangaceiro e o informasse sobre as condições de uma possível visita à urbe:

– Diga a Lampião que pode entrar sem receio! O único soldado que havia nós mandamos embora! Pedimos, entretanto, que ele não faça nenhum mal a cidade! (…).” ((DANTAS, 2005)

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Lampião vai ser recebido pelo juiz de paz mais outra autoridades no caminho e na entrada da cidade. Bem recebido visita lugares. Os feridos são “remendados” e medicados. O chefe cangaceiro vai ao telégrafo  e etc..

Posam para fotos. Os homens se alimentam e fazem compras, pagando em dinheiro e recusando o troco e assim se passa o dia. Custódio Saraiva, juiz de paz e vice, ou subprefeito, de Limoeiro do Norte, o homem que recebeu Lampião, a noite, recebe um telegrama onde dizia que tropas volantes haviam partido das Russas em direção a sua cidade, assim como dois caminhões lotados de soldados também estavam no mesmo rumo. Temendo uma bagaceira pelas ruas de Limoeiro, Custódio conversa com Virgolino sobre ele deixar a cidade antes da chegada dos militares, para assim evitarem derramamento de sangue, o que é aceito pelo cangaceiro chefe.

A FOTO DA VOLTA 3A

Lampião pega seu apito e faz ouvir o seu silvo e todos já sabem o que fazer. Aprontam-se, montam e o pernambucano de Vila Bela agradece a acolhida e se despede de todos, tendo o Sr. Anísio como guia, as 11 da noite daquele dia partem rumo ao desconhecido…

O APOIO DOS GUIAS

Por já ser altas horas da noite, a caminhada é curta. Depois de mais ou menos caminharem 12 quilômetros, param para descasarem e dormirem um pouco. Já estavam nas terras do senhor José Tertuliano de Souza Vidal e nela acampam no ponto denominado Serrote dos Morros. Por ser noite de lua os cangaceiros notam silhuetas se movimentando próximo do morro. Lampião ordena que alguns cangaceiros façam as devidas investigações. Tratava-se de um idoso, o proprietário que estava procurando um local para esconder alguns animais, justamente para escaparem dos cangaceiros.

Além de pedir para ficar com os cavalos, trocando por aqueles que estavam cansados, Lampião “convoca” o velho para que sirva de guia, pois não conhecia o lugar. O velho dá sua palavra de que viria pelo amanhecer e o levaria. Pela manhã chega ao acampamento o velho Tertuliano acompanhado de um jovem, seu sobrinho Francisco Vidal. Chico Vidal veio para que se Lampião concordasse, servir de guia no lugar de seu tio, já idoso e cansado. Lampião aceita de bom grado. Com esse novo guia Virgolino libera Anísio Batista. Dá seus agradecimentos e lhe diz que se algum dia precisar dele, seja para o que fosse, era só mandar chamá-lo.

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Serrote à margem do rio, Morros, Limoeiro do Norte – Fonte – http://mapio.net/pic/p-45191421/

“(…) Lampião mandou chamar Anísio Batista. Explicou-lhe que a partir daquele ponto não iria mais precisar de seus préstimos. Agradeceu ao guia a atenção e esmero. Por fim, deu-lhe autorização para retornar à sua casa. Acrescentou que, àquela altura, sua família deveria estar aflita.

Por fim, deu-lhe algum dinheiro e – como prova maior de gratidão – anunciou-lhe bizarra recompensa:

– Quando precisar de mim é só mandar me chamar! Seja o que for! (…).” ((DANTAS, 2005)

O senhor Anísio é dispensado para retornar a sua moradia e o velho Tertuliano também. Francisco Vidal começa a guiar o bando por terras desconhecidas ao chefe, dando sequência a grande volta até as terras do Pajeú das Flores, no sertão pernambucano.

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Cordel de autoria do poeta Antonio Pádua Borges de Queiróz, contando a passagem de lampião e seus homens em Tabuleiro de Areira, atual município cearense de Tabuleiro do Norte – Fonte – http://paduadequeirozcordelearte.blogspot.com.br/2008/07/passagem-de-lampio-em-tabuleiro-do.html

O sol já estava alto, quando a turba chega ao povoado por nome de Taboleiro de Areia, hoje município de Tabuleiro do Norte. Nele os cabras de Lampião fazem compras. Numa grande feira, feita na bodega do senhor Antônio Alves Maia, eles colocam, além dos alimentos, “espelhos, lençóis de chita, meias de seda e duas dúzias de cerveja”, chegando ao total, toda a feira, de seiscentos mil réis. Após pagarem as despesas, Lampião monta em seu animal, seguido pelos demais, e despedem-se do dono da venda, reiniciando sua caminhada…

Duas horas depois, estavam todos descansando nos tabuleiros do sítio Armador. Lampião escolheu aquelas terras por serem altas e descampadas, assim teriam uma grande vista ao redor, além de ter água para reabastecerem suas reservas. Virgolino tinha conhecimento de que volantes paraibanas e cearenses estavam em seu encalce, porém, demonstrava confiança.

Depois de cinco horas de descanso, lá pelas três horas da tarde, Lampião dispensa os serviços de Francisco Vidal, lhe agradece e diz que só o estava soltando devido a serem homens honrados e sem mentiras.

“(…) Na porteira da propriedade Lampião dispensou Francisco Vidal:

– Você só volta porque seu tio não mentiu! Vocês são homens de palavra! (…).” ((DANTAS, 2005)

Daí por diante, duas horas de caminhada depois, chegam às terras da fazenda Araras. Num movimento de guerrilha Lampião dividiu parte do bando em três grupos.

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O cangaceiro Massilon – Fonte – http://lentescangaceiras.blogspot.com.br/2009/01/quem-foi-massilon.html

Chefia uma parte, Sabino e Massilon os outros dois. Atacam e dominam rapidamente o dono das terras João Roque Macedo. Após está diante do cangaceiro mor, este diz ao senhor João, seu genro Sinésio Magalhães e o vaqueiro José Pedro, que necessita dos seus serviços para que levassem uma carta ao Delegado da Vila de Pereiro, Hidelbrando Mourão, “solicitando” determinada quantia. O primeiro e o segundo encarregaram-se dos bilhetes, já o vaqueiro tem outra obrigação, servir de guia. Além da missiva de Lampião, o coronel Antônio Gurgel pede aos emissários para que entregassem uma dele aos amigos em Pereiro, Décio e Artur Holanda. Nela, Gurgel referia querer saber como estavam as coisas sobre a grana do seu resgate, assim como solicita o apoio e a colaboração dos mesmos.

Emissários a caminho de Pereiro, o chefe Virgolino ordena então que sigam todos para outro local, por dentro da chamada “Mata Branca”, tentando esconder seus rastros. Após algumas horas de caminhada dentro da caatinga, ao chegarem à beira de um grotão, ordena que se faça no mesmo, onde suas barreiras serviam de anteparo para proteção. Tudo em total silêncio.

A noite do dia 16 passa sem complicações. Na madrugada do dia 17, logo cedinho, o cantar do galo já encontra a caterva de caminho afora. Naquelas paragens, sem nem sonharem com tanto cangaceiro por perto, os sertanejos levavam suas vidas como dantes, empenhados na labuta de seu dia-a-dia. Vez por outra um dava de cara com o bando. Já pensaram?

A pessoa vai de caminho a fora e dar de cara com Lampião e seu bando? Não era moleza não. Ao encontrarem esses roceiros, eles os abordavam e Virgolino fazia uma série de perguntas, dentre elas a principal: se tinham avistado soldados por perto. Todos respondiam que sim, que tinham visto muitos soldados pela vizinhança…

“(…) Pelo rumo das conversas, a certeza insofismável da presença de militares na região:

– Tem polícia por aí que faz medo! – era a resposta que brotava em uníssono da boca dos sertanejos (…).” ((DANTAS, 2005)

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Padrão típico de uma volante policial nordestina nos tempos do cangaço, que sob o aspecto da vestimento e acessórios, possuía muita similaridade com as roupas dos cangaceiros – Fonte – https://tokdehistoria.wordpress.com

Em conversa, por certo, com o vaqueiro José Pedro, Lampião pede que esse o coloque em local que dê condições de enfrentarem qualquer ataque. Chegam e acampam nas terras do sítio Saco do Garcia. Escolhem um serrote com pedras e grotões, além de ter água em poços e “pias” de rocha, local ideal para acamparem. Lampião abate, a tiros, uma rês que pastava por perto. Os cangaceiros a sangram e tiram-lhe a pele, o couro, e fazem, preparam, a carne: salgam e a colocam no sol para desidratar e poderem colocar nos bornais para os dias vindouros. Ficou decidido que ali, naquele local, pela natureza das defesas naturais e a quantidade do líquido precioso, ficariam a esperar a resposta do delegado.

DRAMA DO CORONEL GURGEL

A maioria dessas informações ficaram registradas para a História através do diário do coronel Antônio Gurgel, que relata o que ocorria no bando, ou com o bando, nos terríveis dias do seu cativeiro.

O vaqueiro José Pedro, além de guia do bando, tornasse os “olhos e ouvidos” do “Rei do Cangaço”. Primeiro Lampião o envia a Vila de Alto Santo para averiguar como estava a situação, e se havia movimentação das volantes. Ao retornar, o vaqueiro reporta que havia um contingente com, mais ou menos, 150 homens na Vila. Notícia que coloca a pulga atrás da orelha de Virgolino. Este então manda mais uma vez que o colaborador vá a outras direções, vasculhe como se caça uma rês perdida na mata, por mais informações sobre a movimentação dos militares. Lá pela hora da Ave Maria Sertaneja, José Pedro retorna e com notícias negativas. Disse ao “capitão” que uma grande volante paraibana estava em seu encalce. Além de uma pequena tropa, uns vinte soldados, estava batendo em tudo que era lugar em busca de informações sobre ele. Nesse busca, relata o vaqueiro, os militares descem a macaca, roubam e praticam várias atrocidades contra os sertanejos.

3- O fazendeiro Antônio Gurgel e sua família. Ele foi sequestrado pelo bando, quando os cangaceiros segu
O fazendeiro Antônio Gurgel e familiares – Fonte – https://tokdehistoria.com.br

“(…) Acrescentou que, pelo caminho, os homens da milícia cometiam os maiores horrores – davam surras, seviciavam, roubavam sitiantes. Ressaltou José Pedro, por fim, que grande contingente paraibano parecia deslocar-se naquela direção. Lampião de imediato pressentiu algum perigo (…).” ((DANTAS, 2005)

Passa-se a noite do dia 17. Já no alvorecer do dia 18, Lampião envia, mais uma vez, o vaqueiro para que desse uma averiguada nas redondezas. O sol já havia pendido para o poente, o calor estava abrasador e nenhuma brisa soprava para diminuir o mormaço.

Sínésio Magalhães retorna trazendo junto o vaqueiro Manoel Alves. Esse trazia a quantia estipulada por Lampião pelo resgate do coronel Joaquim Moreira, outro de seus reféns das terras potiguares. Recebida  a grana o coronel Moreira e libertado. O chefe cangaceiro chama Sinésio e lhe pergunta sobre sua missão. Esse reporta que o Delegado Hidelbrando estava ciente e de que responderia dentro do prazo.

A FOTO DA VOLTA 5A

Toda vez que ocorria algo assim, ser solto, ou liberado, um companheiro refém, o coronel Antônio Gurgel ficava desesperado. Procurava saber o porquê de não terem mandado o resgate para sua libertação. Já pensaram que agonia passou esse cidadão? Sem mais saber o que fazer, apela para o vaqueiro que trouxera o dinheiro para liberta o coronel Moreira, para que o mesmo levasse uma carta na fazenda Brejo. Manoel Moreira diz que a fazenda fica totalmente ao contrário ao caminho que teria que seguir. O outro vaqueiro, José Pedro, prontifica-se para levar a carta do coronel no dia seguinte. Então o coronel Gurgel escreveu o ‘bilhete’ dessa forma, maneira:

“Muita reserva

Tilon:

Venho depositar em tuas mãos minha vida e liberdade.

Quando receber esta, sem perda de um minuto, monta a cavalo e corre até Mossoró para arrumares os 21:000$000 para meu resgate, o que farás com T. Filho e Jayme – Mesmo no caso de andar no mundo a outra remessa, consegue por tudo, meu irmão, a importância que te peço e regressa de automóvel para ganhar algumas horas. É muito importante e recomendo-te sobretudo o maior sigilo sobre essa informação, da qual ninguém por enquanto deverá saber, a não ser Tibúrcio e Jayme. Ouve bem: ninguém mais – além de vocês três, para evitar qualquer intervenção de autoridades, que neste caso só poderá me ser fatal. Quanto a este portador V. o guardará aí s/ qualquer pretexto até sua volta. Confio que terá maior cuidado nesta arrumação para que nada transpire e eu possa me livrar – pois tido agora depende de ti – do cuidado que empregares – sobretudo sigilo. O portador par vir com este poderá ser o velho Gaudêncio, ou se V. aí souber ou tiver um homem mais prático. Pensa bem na minha situação e faze tudo para conseguir minha liberdade. Ao Guedes que telegrafe a T. Bezerra pedindo meu saldo que apesar de pequeno serve. Age com presteza e que Deus se cpmpadeça de minha sorte.

Teu irmão am°

Antônio Gurgel do Amaral (FERNANDES, 1985,p. 257-258)”

As coisas caminham de uma só maneira no acampamento. A chegada da noite encontra o vaqueiro José transmitindo oralmente mais um relatório para o chefe, e dessa vez ele arrisca aconselhar Lampião. Lampião acata o que Pedro disse e lhe ordena que os guie para outro coito. Pedro os guia, mesmo durante a noite, por mais ou menos seis horas de mata adentro, onde os coloca em outra grota, distante. Ao amanhecer, tudo estava calmo. Porém, os alimentos começavam a acabar. Teriam que encontrar mais… Otílio retorna à tarde com uma boa compra. Por enquanto, estavam abastecidos de alimento.

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Muitas vezes foram os vaqueiros forçados a serem guias dos cangaceiros – Fonte – https://wordpress.com

Porém, esse mesmo coiteiro alerta Virgolino que soube que um certo vaqueiro os viu e passou a informação para as autoridades, as quais estavam seguindo para onde estavam. Mais uma vez o acampamento é levantado as presas. Aproveitam a noite para se distanciarem daquela paragem e vão se alojar nas perto da Serra do Palhano. Acampam e passam a noite sem novidades.

EMBOSCADA DO SERROTE DA RODA

As coisas começavam a piorar: quando tinha alimento, faltava água. Quando faltava os dois, a saída era os cactos. Levantam acampamento novamente e seguem de mata adentro. Acampam, desta vez na Serra da Micaela, onde pelo menos tinha água abundante. À noite dormia-se pouco, qualquer ruído na mata fazia aqueles homens ficarem com os nervos a flor da pele, prontos para guerrearem.

Pela manhã Lampião recebe mais informações sobre a movimentação militar. O cerco se fecha e, por mais que tentasse Virgolino não conseguia se afastar o suficiente dos perseguidores. A coisa estava se complicando. Dessa vez Lampião modifica a maneira de locomoverem-se. Ele divide o bando em pequenos grupos para assim se movimentam mais rápido e, se fossem atacados, os outros saberiam a tempo, eliminado uma grande emboscada por parte dos militares.

9-Jornal A Imprensa, de Natal, cujo o diretor era Câmara Cascudo
Os jornais, na medida do possível, acompanhavam a perseguição a Lampião – Coleção Rostand Medeiros.

O “Rei dos Cangaceiros” mais uma vez acertou em cheio. Bem próximo a eles estavam duas volantes, uma cearense e outra da Paraíba, comandadas por seus respectivos tenentes.

“(…)Ali bem perto, conglomerado de volantes, chefiadas pelos tenentes Luís Davi e João costa, das polícias cearense e paraibana, respectivamente, seguiam o rastro da chusma (…).” (Ob. Ct.)

O tenente Luís Davi escolhe o Serrote da Roda como local para arma uma “arapuca” para os cangaceiros. A geografia do serrote dava condições favoráveis para uma embosca ser bem sucedida. Se os cangaceiros, acostumados a situações deveras adversas estavam nervosos, os soldados estavam em pior situação. Mesmo estando entrincheirados, protegidos, não permaneciam quietos e a todo instante alguém mudava de lugar, ou dava uma espiada para ver se via alguma coisa. Todos os soldados já tinham escutado de como os cangaceiros lutavam, com acréscimos, provavelmente, e isso os deixavam mais nervosos ainda quando, de repente, avistam chapéus de couro de abas largas e quebradas para trás se aproximando do local em que estavam…

Preparados para a emboscada no Serrote da Roda, os soldados comandados pelo tenente Pereira já estavam comprimindo os gatilhos das armas, fazendo mira nos cangaceiros que se aproximavam. O tenente dá a ordem de abrir fogo. O tempo se fecha naquelas terras assoladas pelo sol abrasador de uma tarde do mês de junho. Os homens de Lampião vinham cansados, porém, eram feitos no traquejo do combate. Quase no mesmo instante em que a saraivada de balas partia da encosta do serrote, os cangaceiros, na planície, pulam, jogam-se de lado, para trás e começam a responder ao fogo.

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Lampião no Ceará era notícia nacional – Fonte – http://meneleu.blogspot.com.br/2014/10/lampiao-caminho-de-juazeiro-cidade-santa.html

Os homens que seguiam Lampião eram forjados na fome, na miséria do sertão nordestino onde, naquela época, a Lei era sempre protetora do mais forte, daqueles que podiam, tinham poder, nada comparado a eles, além das intempéries naturais em que os faziam beber líquido de cactos e comer alimentos que embrulhariam o estômago de qualquer outra pessoa. Cansaram de ver a morte de frente, mesmo sem ser em combate, e não seria naquela hora que não a enfrentaria com coragem.

Nossos estudos sobre o “Rei do Cangaço” não se iniciaram tentando desvendar se esse chefe cangaceiro seria herói ou bandido, mas, com a ideia de compreender o emprego de táticas de guerra e de seus movimentos em meio a nossa natureza rude, improvisadas dependendo da situação, do tempo, do terreno e outras condicionantes. Aqueles que seguiam Virgolino aprenderam a lhe obedecer cegamente, bastava ele dizer o que queria para que fosse cumprido rapidamente a sua vontade. Em meio ao som dos disparos, Lampião começa a gritar dando ordens dizendo como deveriam agir… E os homens obedeciam como se fossem automáticos impulsionados por um botão.

2-O bando de Lampião
O bando de Lampião anos depois do ataque a Mossoró e os combates no Ceará – Fonte – tokdehistoria.com.br

“(…) Homens que lhe obedeciam cegamente. Se submetiam, tal qual vassalos, à incomparável inteligência de um rei sem coroa. Conheciam com profundeza a astúcia e destreza da exponencial figura do cangaço. A liderança de lampião era sem dúvida algo inacreditável. E mais uma vez – à sombra do Serrote da Roda – provou a rara ascendência que detinha sobre a cabroeira.

Rápido, em simultâneo aos primeiros tiros da volante, ditou comando aos comparsas. Ao som de única palavra, os bandoleiros saltaram dos cavalos e buscaram refúgio nas pedras do terreno(…) Seguiram as ordens de Lampião como soldados treinados(…) Em segundos, já respondiam aos tiros dos militares, em cadência notável superior (…).” (“Lampião e o Rio Grande do Norte – A história da grande jornada” – DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. 1ª edição. Natal, 2005)

A papoqueira de balas se alastra levando seu som amedrontador de sertão afora. Os animais, antes utilizados pelos cangaceiros, saem em disparadas que nem bala conseguiu alcança-los. Feitos no combate, muitos dos homens de Virgolino rolavam de lado para outro, atirando e provocando seus adversários com pretensão desses se mostrarem para tornar-se um alvo fácil. A posição em que se encontravam os homens do tenente Pereira era privilegiada. Atiravam de cima para baixo. No entanto, sob o comando de Lampião, os cangaceiros conseguem, no momento do “pega-pra-capar”’, do “vamos-ver”, retirar essa vantagem. Quando as coisas estavam, mais ou menos nesse patamar, Surge uma fuzilaria parte na retaguarda da posição de combate dos bandoleiros. Era os homens comandados pelo sargento Eurico Rocha, da “Briosa” cearense que vinham em socorro dos seus companheiros. Com isso a coisa muda de figura e os bandoleiros sentem nitidamente, na pele, esse novo fogo adversário. O cerco aperta mais e mais. A coisa “nublou-se” pras bandas da cabroeira…

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Lampião – Fonte – lounge.obviousmag.org

Mas, como se viu em vários e vários combates entre seres humanos, é justamente nessas horas difíceis que emerge a capacidade, o dom de um líder.

Lampião vendo a coisa preta para seu lado e o de seus “meninos”, erguesse e, de arma nas mãos, atirando ligeiro com um raio, começa a esbravejar palavras de coragem para seus comandados, e, como num passe de mágica, consegue abrir uma brecha no “paredão” feito pelos soldados, por onde seus homens começam a deixar a “arapuca”. Contornam o serrote em seguida procuram embrenha-se na “Mata Branca”, na vegetação de caatinga, sua leal acolhedora em momentos como aquele.

ESPERANDO A FORÇA PARA BRIGAR

Aquela emboscada causou uma tremenda queda, no já caído, ânimo da cabroeira. Apesar de ter durado, mais ou menos uma três horas, os prejuízos para Lampião foram enormes. Com o barulho dos disparos os animais somem sem ninguém saber para onde e nem a distância que alcançaram os animais levaram em seus alforjes, coxins e coronas, alimentos, água, joias, dinheiro, armas e a “farda de major” que era de Sabino, o qual a tinha pego em uma residência na capital do oeste potiguar e tinha utilizado quando do ataque de 13 de junho em Mossoró. Além desse prejuízo um de seus homens, o cangaceiro Moreno, foi ferido em um dos braços. O projétil ao entrar em choque com o corpo do cangaceiro abre uma ferida de enorme tamanho, levando consigo parte do tecido mole, deixando a mostra parte do osso. Isso deixa seus líderes preocupados, pois se gangrenasse, teriam que sacrificar o companheiro.

As coisas iam de mal a pior para os bandoleiros. Estavam dentro da caatinga sem comida e água. Tinham que percorrer léguas, não sabiam como nem à distância exata que teriam que andar. Pois bem, daquele momento em diante, a cabroeira partiu sem rumo certo, tomando cuidados redobrados para que outro confronto não acontecesse, pois seria o fim de muitos deles que estavam a pé. Aquela viagem de volta pela caatinga estava colocando a prova todos os conhecimentos do líder do Pajeú das Flores, adquiridos desde os anos em que trabalhou como almocreve e vaqueiro. Aguçando seus sentidos, raciocinando com frieza, apesar dos problemas, Lampião prevê que seus adversários, as volantes, no intuito de lhe cortarem caminho, partiriam direto para a região do Cariri cearense, localizada no sul do Estado.

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Refazendo-se da agonia Lampião muda seus planos de imediato e segue, tomando todas as precauções e utilizando de despistes, como andar em sentido diferente na direção do município do Riacho do Sangue. Após algumas horas de caminhada ordena que se faça uma parada para descansarem.

Antes do raiar do dia 22 de junho, já estão de novo a caminhar numa busca desesperada por água. A situação se complica, ainda mais, depois que entram no leito de um riacho e esse estava mais seco do que suas gargantas. Autoriza uma parada e manda que alguém vasculhe as redondezas em busca de alguma coisa para comerem. Um dos cabras retorna trazendo a notícia de que havia uma casa e próximo a ela um riacho onde tinha uma cacimba com água. Dando-lhe dinheiro o chefe ordena que vá até a tapera, bata a porta e compre os queijos e rapaduras que lá tivesse. O homem vai e retorna com tudo que pode comprar, porém, para tanta gente, só deu uma refeição. Passaram o resto do dia e a noite naquele recanto de terra cearense.

Ao amanhecer do dia 23, dez dias após o ataque a Mossoró, partem sem saberem o que encontrariam pelo caminho, apenas de uma coisa tinham certeza, que a morte os rondava por perto. Na mata, a frente do grupo, escutam ruídos de cascos de um animal. Parando a cabroeira, Lampião começa a prestar atenção de onde vinha e se seria uma rês solta, o que significava alimento, ou se seria outro animal. De repente notam que se tratava de um homem encourado, um vaqueiro, que matinha a cabeça baixa ao andar da montaria, na certeza estava rastreando os rastros de uma rês desgarrada. O homem só vem perceber os cangaceiros bem perto, ao avistá-los, tenta virar o animal e dar o fora, no que é advertido pelos bandoleiros de que se assim fizesse morreria. Então o vaqueiro puxa as rédeas do animal que estanca.

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Sabino das Abóboras chegou rapidamente junto ao animal e manda que o homem desmonte. Nele foi colocado o cangaceiro ferido que não sabe-se como suportara tanta dor, pois seu membro superior já cheira mal, havia gangrenado.

Notamos a seguir a diferença de um líder que pensa e outro que só tinha em mente matar. O cangaceiro Sabino quer porque quer matar o pobre vaqueiro, dizendo que se ele vivo ficasse entregaria a polícia, a situação e posição deles. Lampião pensou mais além, sabia que necessitava de alguém que conhecesse as redondezas, então não autoriza a morte do homem.

“(…) O covarde suplício foi refutado por Lampião, justificando ao comparsa a extrema necessidade de um guia. Vagavam por região desconhecida.

       Sabino não mais criou caso.

       O matuto não coube em si de contentamento. Prostou-se de joelhos aos pés de Lampião:

– Obrigado “coroné”! Eu levo vocês até um esconderijo que conheço! Pode confiar na minha palavra! (…).” (DANTAS, 2005)

O novo guia os leva, agora numa marcha mais rápida, há um local com segurança. Dali, Massilon pega o vaqueiro e ordena que ele o leve a algum lugar para conseguir comida. Retornam ao anoitece com alguns punhados de farinha, queijos e um peru, coisa mínima para tanta gente esfomeada.

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Fonte – http://cariricangaco.blogspot.com.br/2011_06_01_archive.html

No coito, ou esconderijo, improvisado Virgolino começa a pensar nas volantes paraibanas, repletas de homens corajosos, astutos, corajosos e que “não abriam nem para um trem” e se questiona onde eles estariam? Com certeza em sua busca. Parece que estava adivinhando. Os cangaceiros estavam próximos do local onde se encontrava uma volante comandada pelo Oficial Germano Sólon de França, que tinha sob seu comando não paraibanos, mas uma Força cearense, que vinha escavacando tudo quanto era grotão, furnas, grutas, serras e serrotes, em todas as propriedades rurais, na busca de algum vestígio deixado pelos cangaceiros.

Sabino chama dois dos homens e sai à procura de mais alimentos. Encontra-se com um agricultor e fazem negócio em duas criações que serviriam de alimento para o bando. Preço acertado, Sabino puxa do dinheiro para pagar, quando, naquele momento nota a aproximação de soldados. Imediatamente caem fora, embrenham-se na mata e fogem. O dono das criações não consegue evadir-se, também não tinha por que, deve ter pensado. No entanto é preso e sumariamente torturado quando lhes conta o que estava fazendo. É tido como acoitador, colaborador, fica detido e preso.

“(…) Jeremias foi aprisionado. Não teve tempo de escapar. Sobre seus ombros pesou suspeita de ser coiteiro. De pronto passou por torturas e muito em breve pôs tudo a descoberto. Informou à polícia que Lampião estava próximo, acampado a mais ou menos três quilômetros, no sopé da Serra da Macambira (…).” ((DANTAS, 2005)

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Fonte – http://www.itribuna.com.br

Ao retornar para o acampamento Sabino reporta ao chefe tudo que havia se passado. Essas notícias só vieram confirmar as suspeitas de Lampião, principalmente quando é sabedor de uma grande volante circulava em seu encalço naquela zona. Lampião envia alguns homens, disfarçados, para sondarem se alguma volante estava seguindo para onde estavam. Cai à noite e Sabino chama seu chefe para darem no pé. Virgolino não aceita e diz que esperará aquela volante para dar uma brigada com ela.

“- O filho do velho disse que tinha uma força grande por aí! Acho que a gente deveria fugir!” (diz o cabra das Abóboras)

“- Não! Eu vou esperar essa força! Estou com disposição prá brigar! – reagiu Lampião. (DANTAS, pgs. 302 -303)

Sem darem um minuto de descanso aos cangaceiros, várias volantes, paraibanas e cearenses os perseguem dia e noite. Avançando durante a noite, já na madrugada do dia 25 de junho, um imenso cerco é formado em torno do acampamento onde se encontrava Lampião e seus homens. Aos poucos os volantes vão diminuindo o raio do perímetro, e o confronte teria início a qualquer momento.

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O lugar tenente de Lampião vai até onde estão os reféns Antônio Gurgel e dona Maria José, relata o que está para acontecer e os leva até uma grota funda que ficava perto e os deixam neste local onde estariam protegidos dos tiros. Junto aos reféns também fora deixado o cangaceiro Moreno que estava ferido. Os reféns sempre estiveram o tempo todo sob a guarda do cangaceiro Félix da Mata Redonda, cabra sério e que os demais o respeitavam, porém, dessa vez, ficaram dois a guardá-los.

Em volta de onde estavam os cangaceiros, a coisa estava fervilhando de soldados. Segundo historiadores, seria um contingente, aproximado, de 400 homens doidinhos para matarem cangaceiros.

“(…) Ali bem perto, tropas militares posicionam-se. O comando da operação fora confiado ao tenente cearense Manoel Firmo. Ao seu lado, alentado efetivo, com aproximadamente quatrocentos homens. Acompanhavam o Oficial-em-comando os tenentes cearenses José Bezerra, Osimo de Alencar Lima, Luiz Davi de Souza, Veríssimo Alves Gondim, Antônio Pereira, Germano Solon de França, além do tenente João da Costa e Silva, da polícia paraibana (FIGUEIREDO,s.d.)(…).”

Diferentemente de quando fora emboscado, no serrote da Roda, Lampião era quem estava numa posição favorável. Quando o dia clareia Virgolino observa o movimento tomado pela tropa. Em seguida passa as ordens para os seus homens se posicionarem em determinados lugares. As estratégias empregadas por Lampião, sempre foram fatos de admiração até mesmo entre seus maiores inimigos.

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Davi Jurubeba – Fonte – http://blogdodrlima.blogspot.com.br/2016/12/david-jurubeba-um-heroi-nazareno.html

O nazareno Davi Jurubeba, policial e ferrenho inimigo dos irmãos Ferreira, citou sobre as artimanhas de Lampião em combate e afirmou que ele sempre levou vantagem. Já o pesquisador Sérgio Augusto de Souza Dantas, que entrevistou Davi Jurubeba, trouxe em sua obra os seguintes apontamentos deste inimigo de Lampião:

“Lampião era de uma sagacidade sem nome. Era muito difícil pegar Lampião; ele não caía em emboscadas. Ele vinha de lá e de lá alguém nos avisava. Ficava um bocado esperando ele aqui. Grupos de quatro ou cinco volantes emboscados. Ele vinha, vinha, quando chegava a um ou dois quilômetros da emboscada, ele entrava pelo mato e desaparecia. Isso eu mesmo vi, não foi ouvindo contar não. Eu mesmo vendo. Não! Não sei o que é que ele era não. Não sei se era o Cão. Devia ser Satanás”.

O fogo rompe no Riacho da Fortuna. Cangaceiros colocados em lugares estratégicos “balançam suas armas”, atiram, em respostas aos tiros disparados pela tropa que cercara o local. O tiroteio primeiro dura por volta de hora e meia. Entre disparos e fumaça, escutava-se o vozerio daqueles que se digladiavam, cada um a sua maneira de provocar seu adversário. Xingamentos, palavrões e toadas cantadas no calor da luta…

Após o primeiro tiroteio, ao receberem um sinal do chefe, os cangaceiros param de atirar e ficam imóveis em seus lugares. Calados, sem moverem um músculo do corpo, permaneceram os cabras de Lampião. A tropa, talvez achando que seus adversários deram as costas, começam a sair de seus abrigos e avançarem na direção em que estavam posicionados os cangaceiros. Movimento errado e precipitado. Há um novo sinal do “Rei do Cangaço”, todos de balas nas agulhas das armas, os cangaceiros saem dos abrigos e abrem fogo contra a tropa exposta. Ao escutarem o silvo dos projéteis bem perto de suas cabeças, os soldados partem para bem distante, em busca de salvarem suas vidas adentram a mata ao contrário onde se realiza o confronto. Salta pra lá, corre pra cá, arrasta-se pra li e toda a organização da tropa se desfaz.

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O diário do coronel Gurgel foi uma grande fonte de informações sobre a ação dos cangaceiros antes e depois do ataque a Mossoró em 1927.

“(…) A debandada seguiu-se em desordem, aflita. Cada soldado tentava fugir  da melhor forma possível. Rastejaram, saltaram embrenharam-se no tabuleiro. À esmo, respondiam aos tiros da falange criminosa (…).”  ((DANTAS, 2005)

Aproveitando esse instante de desordem das volantes, Lampião dá outro sinal e todos partem seguindo o leito seco do riacho. Correm até perderem suas forças. Da parte dos cangaceiros, nesse confronto não ocorreu baixas, já do lado militar, a coisa foi terrível:

“Tombaram no teatro da luta os Cabos de Esquadra Raimundo José Augusto, Manoel da Silva Brito, José Felix do Monte e o soldado Aprígio José da Silva. Feridos com gravidade os praças Emídio José de Oliveira, Raimundo Rocha e José Casimiro.” (FIGUEIREDO, s.d.)

LIBERTAÇÃO DOS PRINCIPAIS REFÉNS E PERSEGUIÇÃO FEROZ

Descansando o suficiente, os cangaceiros empregam nova caminhada, saindo do leito do riacho, apagando seus sinais e começando a ação de despistar na caatinga. Lampião e seus companheiros sabiam que se topasse com outra tropa, e mais um confronto ocorresse, não haveria balas suficientes para tal. A preocupação aumenta entre o “estado-maior” de Lampião. O cangaceiro mor relata para os seus lugares-tenentes que chegara a hora de libertar os reféns. Durante o último confronto, Virgolino escutara por diversas vezes os soldados gritarem para que libertassem os reféns. Deixou eles cientes de que, libertando os reféns, a perseguição diminuiria e eles conseguiriam voltar para sua terra. Sabino foi o interlocutor para dar a notícia aos reféns, coronel Antônio Gurgel e dona Maria José, de que eles seriam libertados.

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Dona Maria José Lopes – Fonte – Blog do Mendes & Mendes

Lampião ao despedir-se deles manda que uma das cativas, Dona Maria José Lopes, levada da fazenda Aroeira (hoje na zona rural da cidade de Paraná-RN) que tome bastante cuidado, pois estavam com volantes nas proximidades e estas poderiam, por engano, atirar neles. O coronel Gurgel chega-se pra perto de Lampião e estende-lhe a mão. Antes de partir, recebe do “Rei do Cangaço“ duas moeda de ouro, duas libras esterlinas, deixando o coronel surpreso e boquiaberto com aquela atitude.

“Ao sair, recebeu duas moedas de ouro. Não conseguindo esconder a surpresa. Lampião justificou o ato:

– É para sua netinha!” (FERNANDES, 1985, p. 189) – Sobre o caso destas moedas ver – https://tokdehistoria.com.br/2017/06/23/o-ouro-dos-cangaceiros-para-yolanda/

O dia seguinte, 26 de junho, foi cheio de espectros que surgiam em cada moita, levantavam-se de trás de cada pedra… E sempre partiam ao encontro daquela horda faminta, cansada e sedenta. À noite era pior, pois não conseguiram pregar o olho.

A caminhada era incessante. Não poderiam parar para nada. Desciam serra, subiam morros, atravessavam baixos e prosseguiam numa louca tentativa de salvarem suas vidas. Já iam longe, na segunda metade do dia 27 de junho, no lugar chamado Cabeça do Boi, quando são atacados por uma Força paraibana. Lampião e seus “meninos” rompem mais esse ataque e embrenham-se na sua aliada natural, a caatinga. Dessa feita não há baixas em nenhum dos lados. Porém os nervos dos cangaceiros estavam, cada vez mais, em total frangalho.

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Clementino José Furtado, o Clementino Quelé – Fonte – https://tokdehistoria.com.br/2013/07/06/as-batalhas-entre-clementino-quele-e-lampiao-em-1924-em-santa-cruz-da-baixa-verde-pe/

No dia 29, após longa e sofrida volta ao rumo do Cariri cearense, os cangaceiros, sem notarem, estavam às voltas com os homens do antigo cangaceiro e companheiro de lutas Clementino José Furtado, o sargento Quelé, o conhecido “Tamanduá Vermelho”, agora comandante de uma volante paraibana e verdadeiro osso duro de roer.

Estavam eles, os cangaceiros, naquele momento sob os olhares dos homens da volante paraibana comandada pelo tenente Manuel Arruda Diniz. Diniz, segundo pesquisadores, não ordena que seus homens ataquem, e seria, ou teria sido, uma situação ímpar. O tenente distribuiu seus homens em duas fileiras, deixando um espaço que tinha condições dos cangaceiros passassem mesmo no meio da fila dupla de atiradores. Os cangaceiros passam e os soldados apenas os olham.

“(…) A emboscada preparada pelo tenente Manuel Arruda Diniz, da polícia paraibana, foi, entretanto, meramente figurativa.

Não houve tiro sequer.

O oficial – que no dia anterior (28 de junho) alardeava aos quatro cantos que iria arrasar o grupo – fez proposital vista grossa e os cangaceiros passaram incólumes entre as colunas (…).” (DANTAS, 2005)

Assim, volantes paraibanas, cearenses, pernambucanas e norte-rio-grandenses, passam a perseguir o bando de cangaceiros, desanimados, esfomeados e sem munição para enfrentar uma luta aberta contra tantos inimigos em comum.

Mas a coisa fica mesmo catastrófica, com a traição daquele a quem o “Rei do Cangaço”, caminha em busca de apoio e guarida, o coronel Izaías Arruda, da Fazenda Ipueiras…

A TRAIÇÃO DO CORONEL

O cerco ao bando de Lampião, em território cearense, a cada dia se fechava mais. Eles não tinham nem como descansar direito. Forças de três Estados estavam em seus calcanhares e não queriam “largar o osso”, pelo contrário, todos queriam era dar o golpe final. Acabar de uma vez por todas com o famigerado facínora que tanto lhes dava trabalho.

Para onde pendesse o bando encontra adversários. Uma grande tropa paraibana, comandada pelo tenente João Costa e pelo sargento Clementino Quelé, cercam o bando, ou o que restava dele na Serra do Velame. Nesse combate o pernambucano perde vários cangaceiros.

Procura refúgio e desça a encosta da serra. Ao chegarem próximos as margens do açude Velame, são novamente cercados e atacados pelos paraibanos que haviam dividido seus homens, deixando vários de seus combatentes na retaguarda. Mais vidas são perdidas e as baixas só aumentam. Nesse embate, não sabemos ao certo como, Virgolino consegue furar o cerco e cair fora com o restante de seus cabras. (LIRA, 1990)

Os cangaceiros estavam passando por uma prova que homens comuns não aguentariam. Além da perseguição constante das Forças Públicas de alguns dos Estados nordestinos, havia a fome e a sede que tirava os restos das suas resistências. A única coisa que sabemos que fora colaboradora de Lampião e sua turba naqueles dias, naquela volta terrível das terras potiguares, foi a sua aliada, a “mata Branca”. Quem respeita a caatinga e a conhece profundamente, tira proveito disso. Nela encontra-se o alimento e a água para matar a sede através da sua flora e fauna.

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Casa do coronel Izaías Arruda, Missão Velha, Ceará – Fonte – Rostand Medeiros.

A meta de Lampião, naqueles momentos terríveis, era uma só: chegar às terras de seu, até então, amigo coronel Izaías Arruda, na fazenda Ipueiras, sul do Cariri cearense. Na verdade, segundo vários autores, o plano para invadirem a cidade de Mossoró fora elaborado pelo coronel Izaías Arrudas e outros daquele meio, nas próprias terras que agora o “Rei do Cangaço” tentava alcançar em busca de amparo, proteção e com isso salvar sua vida.

Lampião, diferentemente do que muitos pensam, dependia e muito dos coronéis sertanejos, pois sem a colaboração e o apoio deles seu “reinado sangrento” não teria durado quase vinte anos. Só que a coisa era na base do “toma lá, da cá”. Nem os coronéis faziam algo sem verem o que conseguiriam em troca, nem Lampião fazia algo sem ver o que receberia pelo feito. A “amizade” e a lealdade deles se baseavam unicamente nesse sentido, ou seja, na verdade nem uma parte nem outra tinham confiança mútua.

A FOTO DA VOLTA 2C

Além do mais para os coronéis havia as questões políticas e para isso era bom manter amizade e, quando possível, usarem os serviços daqueles que viviam da espingarda na mão. Eles, os “coronéis”, os principais políticos de sua época, fizeram e desfizeram de muita coisa a margem da “Lei”. No entanto a própria “Lei” os protegiam e só condenavam os pobres lascados. Isso é fato!

Pois bem, o coronel Izaías Arruda recebe a notícia de que Lampião e seu bando se encontram no município de Missão Velha e ou Aurora. Lampião, com as vestes em frangalhos, assim como as dos seus homens, solicitam acolhida ao chefe político. Izaías envia Lampião e ao bando para as terras fazenda Vivenda, de seu parente e cúmplice José Cardoso. Era para eles ficarem na casa sede, porém, como a coisa estava “quente demais”, Lampião, em cima da hora, já avistando a casa sede, resolveu levar os cangaceiros para a margem de uma vargem e alojam-se debaixo dos pés de oiticica e juazeiro que lá havia. Próximo a eles tinha um grande canavial de um lado e do outro a mata bruta. O coronel Izaías Arruda, vendo a coisa ficando preta pra o lado do seu aliado, resolveu dá um jeito de eliminá-lo.

Vemos duas situações nesse gesto do coronel: uma seria que ele, o capitão Lampião, estando morto jamais poderia abrir a boca sobre quem, onde e como fora organizado e planejado o ataque à grande cidade do sertão potiguar. Em segundo Lugar Izaías Arruda não era bem visto pelas autoridades cearenses e paraibanas, devido ter conseguido muito, inclusive ser Prefeito da cidade cearense de Missão Velha, a base das armas. Daí, sendo ele o autor indireto da morte do famigerado cangaceiro pernambucano, a sua situação poderia mudar de figura diante das vistas das autoridades.

O vaqueiro Miguel Saraiva é encarregado pelo próprio coronel Izaías para que esse colocasse veneno na comida que levaria para os cangaceiros. Além disso o coronel envia seus jagunços, que não eram poucos, juntos com uma tropa militar para que dessem cabo do bando. Além disso o coronel ordena que se coloque fogo na plantação de cana próxima ao acampamento dos cangaceiros e por último a tropa e os jagunços que faziam o cerco matariam a tiros aqueles que não morressem envenenados ou queimados.

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Local onde aconteceu o incêndio da Ipueiras com o serrote dos Cantins ao fundo. Foto do competente pesquisador José Cícero, de Aurora, Ceará.

“(…)Tudo envolvido em conjunto na estratégia traçada na fazenda Ipueiras com vista a invasão de Mossoró, o ataque da volante sofrido no sítio Ribeiro( riacho do Bordão de Velhos dia 2 de julho) e por fim, o suculento banquete(envenenado) a cargo do vaqueiro Miguel Saraiva( da serra do Diamante e Coxá) oferecido na casa grande da fazenda-vivenda pertencente a José Cardoso, parente do famoso coronel Izaiais Arruda que terminaria com um cerco policial e o ato incendiário ao bando. Neste episodio marcante ocorrido em 7 de julho de 1927 próximo do meio-dia, cumpre destacar que em cima da hora, Lampião a 500 metros da residência, decidiu que o almoço fosse servido não mais na casa grande, mas ali mesmo, no baixio sob as sombras das Oiticicas e Juazeiros. Uma decisão providencial e salvadora(…).” (“A Traição de Izaias Arruda” – José Cícero)

“(…)Dr. Izaías Arruda queria mesmo, naquele dia, exterminar o rei do cangaço e o seu já desfalcado bando(…) Além do veneno, o Dr. Izapias armou mais dois tremendos laços para Lampião: um foi em mandar tocar fogo em todo canavial existente no roçado; o último foi em por toda a sua cabroeira no pé da cerca, para que, quem escapasse do veneno e do fogo, não escapasse das balas de sua gente (…).” (“Lampião – Memórias de um Soldado de Volante”- LIRA. João Gomes. 1ª edição. Recife,1990)

Alguns cangaceiros na verdade, ao comerem a comida envenenada, não morrem, apesar de passarem bastante mal. Aí surgiu o fogaréu na plantação. Não se sabe, mais uma vez, como danado foi que veio a ideia para que Lampião saísse do veneno e do fogo que consumia rapidamente a palha seca do canavial. Foi um momento, talvez raro, em que Lampião não estava prevenido, pois tinha o coronel Arruda como amigo e aliado, nunca esperava uma traição daquele tamanho. Mas ele consegue escapar!

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O major Moisés de Figueiredo, da polícia cearense, foi um dos que tiveram de se explicar sobre o fato de Lampião conseguir sair do Ceará – Coleção Rostand Medeiros

Lampião fora um bandoleiro das caatingas sertanejas que agiu em sete dos nove Estados da Região Nordeste, mas quando dava sua palavra ele a cumpria. No entanto, por achar que os outros também agiriam assim, perdeu a vida e a cabeça num leito de um riacho seco em terras sergipanas na segunda metade da década de 1930.

Aos trancos e barrancos, o “Rei Vesgo” consegue transpor os limites da linha divisória dos Estados do Ceará e de Pernambuco, ainda comandando um bando, bastante pequeno em relação ao que fora, não só pelas baixas, mas também pela separação dos homens do bando de Massilon Leite e deserções.

FIM DE UMA JORNADA E INÍCIO DE OUTRA

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Na sexta-feira, 22 de julho de 1927, o telégrafo estalou em Recife com a notícia da captura naquele mesmo dia do cangaceiro Serra do Umã, também alcunhado Mão Foveira. Ele se chamava Domingos dos Anjos de Oliveira, era negro, jovem, tido como valente e natural da grande Serra do Umã. Era irmão do cangaceiro Azulão, morto no Combate da Caiçara, em 10 de junho de 1927, próximo do atual município de Marcelino Vieira, Rio Grande do Norte. Foto do mesmo preso em Recife – Fonte – https://tokdehistoria.com.br/2014/09/12/cangaceiros-atras-das-grades-fim-da-ilusao/

Estando no município da cidade de Bom Nome, já em Pernambuco, um dos cabras de Lampião, o cangaceiro “Mão Foveira”, também conhecido como “Serra do Umã”, cujo nome real era Domingos dos Anjos de Oliveira, vinha se contorcendo de dores devido ao veneno ingerido, solicita ao chefe sua dispensa. Pra que aquele cabra fez aquele pedido? O filho de Vila Bela se irritou muito e perdeu as estribeiras. Pois bem, o chefe, em vez de deixa-lo ir, coloca uma bala na agulha da arma e diz que o deixaria, porém, morto. Não sabemos de outra perda de serenidade nos estudos sobre Lampião como esse. O cangaceiro começa a implorar pela vida e só não perde devido todos os outros ficarem a seu favor. Fato esse também raro, se não único, nos feitos do cangaço lampiônico, em que toda a cabroeira fica contrária ao chefe.

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Jornais repercutiram muito mal na época a forma como Lampião conseguiu sair do Ceará – Coleção Rostand Medeiros

“(…) Todo mundo contra Lampião, ficando todos ao lado do companheiro Mão foveira. Todo bando, por uma só voz falou a Lampião que, naquela jornada, por causa do veneno já havia morrido uma infinidade de companheiros, e, naquele momento, gritaram, dizendo que duvidavam como Lampião não atirava em Mão Foveira (…) Tendo, diante da forte recusa, Lampião desistido, deixando Mão Foveira com vida, apenas desprezado no meio da estrada, torcendo-se com as dores no intestino(…).” (Dantas, 2005)

Nos dias, semanas e meses seguintes as volantes não deixaram “a pista esfriar”. Aperto em cima de aperto e o bando, aos solavancos, vai diminuindo. Morrem alguns, outros desertam e outros se entregam as autoridades. Lampião então vai refugiar-se na Serra do Umã. Segundo o saudoso João Gomes de Lira, ex-volante: “A inviolável Serra do Umã era habitada por Caboclos, cangaceiros valentes”. Lá refugiado Lampião tenta curar suas feridas. Não dá tempo de sarar não, pois Manoel de Souza Neto, o comandando nazareno conhecido como Mané Neto e apelidado como “Mané Fumaça”, valente que só a gota serena, sobe a serra para matar e prende muita gente. No entanto, mais uma vez, apesar de estarem lascados, Lampião e alguns cangaceiros, incrivelmente, já haviam se mandado.

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Manoel de Souza Neto, o “Mané Neto” – Fonte – http://lampiaoaceso.blogspot.com.br/2016/07/

Nessa constante, de seguidas perdas de homens, apesar de alguns outros homens entrarem para o bando, as coisas não melhoraram em nada para o “Rei dos Cangaceiros”.

Acaba-se 1927, entra 1928 e as coisas continuam do mesmo jeito, as volantes não dão trégua a Lampião. Em março de 1928, seu lugar tenente Sabino das Abóboras é morto na fazenda Piçarra, terras pertencentes a um dos maiores coiteiros, citam alguns autores que também traiu a confiança de Lampião.

Durante o decorrer de 1928, o bando vai diminuindo, e chega a tal ponto de só ter o chefe Lampião e mais cinco homens – Ponto Fino, Moderno, Luiz Pedro, Mariano e Mergulhão.

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Lampião (primeiro a esquerda) em Pombal, Bahia – 1928 – Fonte – marcosnogueira-2.blogspot.com

Chega então, a hora do cangaceiro mor deixar as paragens entre Pernambuco, Paraíba, Ceará e o Rio Grande do Norte para ir à busca de novas terras em lugares distantes, para assim recomeçar seu sangrento “meio-de-vida”. As encontra no vizinho Estado da Bahia, após atravessar as águas do Rio São Francisco, o “Velho Chico”, e ir refugiar-se sob a proteção do coronel Petronilo Reis, que mais tarde, também vai trair sua confiança.

Mas, essa é outra história que depois a detalharemos…

Fontes

 “Lampião – Memórias de um soldado de Volante” – LIRA, João Gomes de. 1ª Edição. Recife, 1990.

Cangaceiros Cariri. Com

Blog de Aurora.com

Fotos “Lampião e o Rio Grande do Norte – A história da grande jornada” – DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. 1ª edição. Natal, 2005.

TokdeHistória.com

Cangaçonabahia.com

Cangaceiros Cariri. Com

Blog de Aurora.com

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A TRILHA DO CANGAÇO NO RN: CIDADES GUARDAM MARCAS DA PASSAGEM DE LAMPIÃO PELO ESTADO

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Lampião, o Rei do Cangaço

Reportagem percorreu mais de 600 quilômetros por onde passou Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

Por Ivanúcia Lopes e Hugo Andrade, G1 RN – Fonte – http://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/a-trilha-do-cangaco-no-rn-cidades-guardam-marcas-da-passagem-de-lampiao-pelo-estado.ghtml

O povo falava que Lampião tinha passado por aqui e tinha umas armas guardadas…”. Foi assim que dona Ilma de Oliveira começou a contar a história que sempre ouviu dos mais velhos. A senhora de cinquenta e poucos anos mora na casa que serviu de apoio aos cangaceiros em 10 de junho de 1927. Naquele dia de madrugada Lampião e seu bando entravam em terras potiguares. Eles chegaram pela Paraíba, cruzaram a divisa dos estados e apearam-se bem na casa onde dona Ilma criou os três filhos. A estrutura é quase a mesma: paredes largas, teto alto, tornos de madeira e caritós para guardar objetos. “Até um tempo desse os familiares do antigo dono ainda vinha aqui olhar e recordar”, conta.

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Foi nessa casa que Lampião se abrigou ao entrar no RN em 1927 (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

A casa que fica no sítio baixio, no pé da Serra de Luís Gomes, pertencia a familiares dos cangaceiros Massilon Leite e Pinga-fogo. Massilon era ‘os olhos e ouvidos’ do líder pelas bandas do sertão potiguar. Era ele o responsável por guiar os homens do cangaço no plano de atacar a cidade próspera de Mossoró.

A recepção durou pouco. Quando amanheceu os cangaceiros se embrenharam na caatinga. Galoparam por veredas, saquearam fazendas e fizeram prisioneiros. Na Fazenda Nova, onde hoje é o município de Major Sales, até o padrinho de Massilon, coronel Joaquim Moreira, foi sequestrado. Na fazenda vizinha de Aroeira, onde hoje é a cidade de Paraná, eles fizeram mais uma refém: a senhora Maria José foi levada pelo bando que seguia despistando a polícia e invadindo propriedades.

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“A passagem do bando de Lampião pelo RN está qualificada como banditismo, pois tem casos de assalto, assassinato e uma novidade que até então não tinha aqui que era o sequestro”, explicou o pesquisador Rostand Medeiros que já fez o mesmo trajeto de Lampião no RN algumas vezes. “Depois desses ataques na manhã do dia 10, o bando continuou subindo e praticando todo tipo de desordem”, lembrou.

Para seguirem sem alardes os cangaceiros evitavam a passagem por centros urbanos mais desenvolvidos e desviavam de estradas reais, aquelas por onde passava o gado e o movimento era maior. O objetivo era evitar confrontos para não desperdiçar munição e nem perder homens, já que ainda tinha muito caminho até Mossoró.

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Mapa mostra o percurso feito por Lampião em terras potiguares (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

Mais ataques 

Na tardinha do dia 10 de junho de 1927 o grupo chegava na Vila Vitória, território que hoje pertence ao município de Marcelino Vieira. No povoado ainda é possível encontrar casas remanescentes da época, e algumas até com sinais da violência praticada pelo bando. Na casa de dona Maria Emília da Silva, por exemplo, eles deixaram marcas de boca de fuzil. Era comum bater com as armas na madeira para assustar os donos da casa. “Eles só foram embora quando viram o retrato de Padre Cícero. Onde tinha retrato de Padre Cícero ele não fazia nada”, contou.

Na comunidade vizinha os cangaceiros saquearam a casa onde mora dona Terezinha de Jesus. A casa é antiga, do ano de 1904, mas ainda mantém a estrutura da época. A aposentada conta que o pai avistou de longe quando o bando chegava, mas não teve tempo de fugir. Na casa, eles procuraram joias, armas e dinheiro. “Eles iam a cavalo e armados. Papai dizia que para montar era um serviço grande porque estavam pesados com armas”, disse Dona Terezinha ao mostrar o quarto dos fundos onde ficam guardados os baús alvos dos cangaceiros. “Deixavam as roupas tudo no chão. Jogavam tudo atrás de dinheiro. Aí dinheiro não tinha. Naquela época era difícil, né? Mas se achassem podiam levar. Era o que diziam”, contou dona Terezinha enquanto acendia a lamparina para mostrar os objetos preservados.

Depoimentos de testemunhas e vítimas da vila Vitória compõem o processo contra Lampião que tramitou na Comarca de Pau dos Ferros.

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Em 1927 os pertences dos moradores eram guardados em baús (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

Fogo da Caiçara: O primeiro combate militar contra Lampião no RN 

A notícia de que o bando estava invadindo propriedades na Vila Vitória mobilizou a força militar. A polícia juntou homens para enfrentar os cangaceiros. O combate aconteceu no local onde hoje é o açude de Marcelino Vieira. “Por conta da seca é possível ver exatamente onde ocorreu o primeiro combate militar contra a invasão do bando no estado. Essas plantas que estavam cobertas de água ainda podem testemunhar esse fato”, disse o historiador Romualdo Carneiro ao mostrar as marcas de tiros que ficaram nos pés de canafístulas. 

Quando o combate começou a caatinga se acinzentou com a queima da pólvora dos rifles e espingardas dos dois grupos em guerra. O agricultor Pedro Felix ouviu o pai contar como foi: “Muito tiro. Muito tiro. Chega assombrava o povo que só pensava em fugir”.

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O antigo mausoléu mudou de local em 1989 quando o açude foi construído (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

O escritor Sergio Dantas, conta em seu livro “Lampião e o Rio Grande do Norte: a história da grande jornada”, que o tiroteio durou trinta minutos. Os cangaceiros, em maior número e treinados na guerrilha da caatinga, puseram a frota militar ao recuo.

No confronto morreram o soldado José Monteiro de Matos e um cangaceiro conhecido como Azulão.

 Os moradores da região até hoje se referem ao soldado como sendo um herói.

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O monumento atual fica próximo a capela onde é celebrada a tradicional missa do soldado (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

“Quando acabou a munição os outros foram embora, mas ele disse ‘eu morro, mas não corro!’ e morreu lutando.” contou seu Pedro ao apontar para os restos de tijolos do antigo monumento construído em homenagem ao soldado. “Era bem aqui que tinha uma cruz pra ele, mas quando fizeram o açude levaram lá pro outro lado”, explicou. 

Ainda hoje o local onde está o monumento recebe visitações. Todo dia 10 de junho a figura do soldado é homenageada pelos moradores que fazem celebrações. A missa do soldado virou um evento no povoado.

Fim da festa, não do medo 

Não demorou para o bando chegar ao povoado de Boa Esperança, local onde hoje é o município de Antônio Martins. O ataque aconteceu em frente a igrejinha da comunidade onde acontecia a festa de Santo Antônio. “Em vez de recepcionar a banda de música para a novena do padroeiro os devotos foram surpreendidos com a chegada dos cangaceiros que bagunçaram as casas, saquearam o comércio, quebraram melancia na cabeça do dono e acabaram com a festa”, contou o historiador Chagas Cristovão.

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O ataque aconteceu no pátio dessa capelinha construída em 1901 (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

O principal comércio da época ficava ao lado da Igrejinha. O prédio ainda guarda as características de antigamente. Relatos dão conta de que na tarde do ataque o bando só foi embora depois que uma senhora implorou. “Atendendo ao pedido de Rosina Maria, que era da mesma terra de Lampião, o bando deixou o vilarejo e seguiu rumo a Mossoró.”, concluiu o historiador.

Mesmo depois que os cangaceiros se debandaram o medo permaneceu entre os moradores. Houve até quem fizesse promessa para não sofrer as maldades do bando. Hoje dá pra avistar no alto da serra, uma capelinha construída para agradecer a proteção.

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Capelinha em homenagem a São Sebastião fica na Serra de Veneza (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

O massacre 

Eram altas horas da noite do dia 11 de junho quando o bando entrava na Vila de Lucrécia. Uma das casas invadidas na Fazenda Serrota continua preservada. Na janela estão as marcas de tiros e nas paredes os retratos daqueles que estiveram frente a frente com Lampião. “Quem morava aqui eram meus avós Egídio Dias e Donatila Dias. Eles amarraram Egídio Dias e levaram ele lá pro Caboré.”, contou o aposentado Raimundo Leite, que mora ao lado da antiga casa dos avós.

Caboré é um sítio que fica a poucos quilômetros da Fazenda. O prisioneiro teria sido levado por uma estrada de terra onde hoje é a RN 072. Os cangaceiros pediram dez contos de reis para poder soltar o fazendeiro. “Um grupo de mais de dez homens foi até lá pra tentar salvar Egídio, mas foi surpreendido por uma emboscada. Três homens acabaram mortos.”, relatou a pedagoga Antônia Costa.

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Fonte – canalcienciascriminais.com.br

No local do massacre foi construído um monumento em homenagem aos homens. Em Lucrécia eles são reconhecidos como heróis. “Todo dia 11 de junho tem programação na cidade em memória de Francisco Canela, Bartolomeu Paulo e Sebastião Trajano”, enfatizou a pedagoga.

Egídio Dias fugiu. Permaneceu várias horas no mato. Só depois que o bando foi embora ele conseguiu voltar para o convívio da família.

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Fonte – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br

O bando seguiu desafiando a caatinga. Os rastros de destruição ficavam pelas propriedades. Na manhãzinha do dia 12 eles entraram na Fazenda Campos, onde hoje é território de Umarizal. Na casa grande, que estava abandonada pelos donos amedrontados, eles ficaram pouco tempo até pegarem a estrada de novo. Uma marcha que parecia não ter fim.

Horas depois eles chegaram ao povoado de São Sebastião, hoje Governador Dix Sept Rosado. “Meu pai conta que Lampião passou na Estação de Trem e fez muita bagunça. Aí o povo do sítio era tudo no mato com medo. Meu pai mesmo dormiu muitas noites no mato, com medo”, relembra seu Maurilio Virgílio, aposentado de 75 anos que hoje mora pertinho da Estação alvo dos ataques.

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A estação foi alvo dos cangaceiros no povoado de São Sebastião (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

Os cangaceiros ainda saquearam o comércio, queimaram os vagões do trem e destruíram o telégrafo. Mas antes disso, um agente da Estação conseguiu mandar uma mensagem para Mossoró informando que o bando estava a caminho.

Foi o tempo de Mossoró se preparar para a luta. E a cidade tava mesmo preparada. Quando receberam o recado que Lampião e seu bando estava por vir, autoridades e outras personalidades da época se uniram, chamaram os moradores e começaram a montar as estratégias de defesa. Essas pessoas que venceram o combate 90 anos atrás são conhecidos como heróis da resistência.

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Tive a oportunidade de contribuir com este trabalho, junto com outros maravilhosos amigos. Parabéns as equipes da InterTV Cabugi de Mossoró e de Natal. Resultado maravilhoso.

“Foi um feito heroico de um grupo de cidadãos e cidadãs, que se juntou pra defender a cidade. Quando eu olho para a resistência ao bando de lampião, eu não vejo uma individualidade, vejo um ato de cidadania, de coragem que esse grupo frente à sua vida, à sua cidade”, diz o historiador Lemuel Rodrigues.

Noventa anos depois, os resistentes já se foram, mas ficou o legado. Ter um herói na família é motivo de orgulho para muitos mossoroenses. Algumas figuras estavam na linha de frente e lideraram a defesa da cidade contra o bando de Lampião. Tenente Laurentino, por exemplo, organizou as trincheiras e montou o plano de resistência com o apoio dos civis, todos liderados pelo prefeito Rodolfo Fernandes.

De acordo com os registros da época, o confronto entre os moradores e o bando de lampião durou cerca de quarenta minutos. Quase 170 homens participaram da defesa da cidade e ficaram espalhados em 23 trincheiras no centro de Mossoró. Uma delas teve papel fundamental para o sucesso do combate: a torre da capela de São Vicente que era o ponto mais alto de Mossoró. Do local, os resistentes tinham uma visão privilegiada. Três homens ficaram na torre e surpreenderam os cangaceiros.

“Manoel Felix, Tel Teófilo e Manoel Alves eram os três homens que estava no Alto da Torre. A partir daí, eles começaram a informar que os cangaceiros estavam vindo do lado de cá, na lateral da capela. E nesse momento, eles passam a ser revidados e deixam de ser atiradores para se tornarem alvos”, explicou o historiador Kydelmir Dantas.

Os homens que ficaram lá em cima não foram atingidos, mas as marcas dos tiros ainda permanecem no alto da torre. A capela que serviu de trincheira e guarda um dos maiores símbolos do combate de 13 de junho de 1927, dia em que Lampião e seu bando bateram retirada de Mossoró.

O ATAQUE DE LAMPIÃO AO SÍTIO PONTA DA SERRA

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Bela e preservada casa do sítio Ponta da Serra, tendo ao fundo uma parte da Serra de Martins. Mantida em grande parte original é um dos locais mais interessantes que se mantém preservado no trajeto do ataque do bando de Lampião ao Rio Grande do Norte – Foto – Rivanildo Alexandrino.

Autor – Rostand Medeiros

Era uma sábado, dia 11 de junho de 1927, pelos sertões da região oeste do Rio Grande do Norte, em meio à mata de caatinga fechada, seguindo por caminhos que praticamente não eram frequentados por automóveis, uma turba de homens armados e montados em seus cavalos levantava poeira. Era Lampião que seguia em direção ao seu objetivo principal – a cidade de Mossoró.

Aquele era o segundo dia do grupo de cangaceiros em sua jornada avançando em terras potiguares. No dia anterior o grupo armado havia travado um combate em um lugar conhecido como Caiçara, onde fizeram uma guarnição de soldados debandarem, mataram um valente militar que não negou fogo e ainda atingiu mortalmente o cangaceiro Azulão. Depois percorreram várias propriedades rurais roubando, saqueando, depredando, sequestrando pessoas e espalhando uma onde de medo e terror[1].

Desde 2010 o autor deste texto percorreu algumas vezes o caminho que os cangaceiros de Lampião utilizaram para atacar Mossoró. É uma viagem muito interessante.

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Rostand Medeiros defronta a casa do sítio Ponta da Serra, invadida pelos cangaceiros de Lampião – Foto – Rivanildo Alexandrino.

Muitos dos locais que testemunharam os fatos não mais existem. Mais em outros pontos as pessoas preservam tenazmente estes ambientes, quase que teimando para que a história permaneça viva e fazendo tudo para que aqueles dias estranhos não sejam esquecidos.

Um destes locais é o sítio Ponta da Serra.

Buscando o Caminho dos Cangaceiros

Antes da chegada de Lampião a Ponta da Serra, baseado no que foi escrito, o último local visitado foi a propriedade Morada Nova, de Antônio Januário de Aquino.

Naqueles tempos longínquos, as áreas rurais entre a Morada Nova e a Ponta da Serra pertenciam respectivamente aos municípios de Pau dos Ferros e Martins, muito maiores em suas áreas territoriais do que são na atualidade[2].

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Mas para Lampião, guiado pelo bandoleiro Massilon Leite, aquilo pouco importava. O que importava era encontrar propriedades que valessem a prática do saque e do roubo. A partir da Morada Nova o bando aponta seu rumo em direção Nordeste, em direção a uma das mais belas e estruturadas propriedades da região.

Ao percorrer estes caminhos em pleno século XXI, utilizando GPS, a distância compreendida entre a Morada Nova e o próximo alvo dos cangaceiros, a Ponta da Serra, ficou em cerca de nove quilômetros.

Ao percorrer este caminho que separa as duas propriedades eu encontrei poucas casas onde poderia conseguir maiores informações e saber o que ficou desta memória. Tentava buscar saber com as pessoas da região alguma informação sobre outro possível local de ataque dos cangaceiros, que não houvesse sido listado anteriormente, ou apenas para saber o melhor rumo a tomar em direção ao sítio Ponta da Serra. Mas é uma área onde não se observa muita gente, um tanto inóspita, sombria mesmo.

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Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, na cidade de Martins, Rio Grande do Norte. Foi a zona rural deste município uma das áreas mais atacadas por lampião e seus cangaceiros quando estiveram no Rio Grande do Norte em 1927 – Foto – Ricardo Sávio Trigueiro de Morais

Se hoje é difícil achar um cristão naquelas veredas, na época de Lampião, segundo as informações coletadas junto aos atuais moradores da Morada Nova, este trecho era um verdadeiro deserto.

Segui com cautela, em meio a uma caatinga atemporal, com a paisagem ao fundo tomada pelo maciço da Serra de Martins, até que cheguei a BR-226, marco de modernidade que liga Pau dos Ferros a cidade de Antônio Martins[3]. Em certo trecho existe uma cancela a margem da rodovia federal e aquilo apontava que eu havia chegado a Ponta da Serra.

Corre Que Lampião Vem Aí!

Naquele antigo lugar “visitado” por Lampião eu percebi a razão da Ponta da Serra despontar como uma referência na região quando o assunto são casas antigas e preservadas.

Sua construção data do início do século XX chama a atenção pela imponência em meio a casas tão singelas e, segundo informações apuradas, o local está mantido em grande parte original. Outro fator extremamente positivo em relação a esta local se refere à própria beleza paisagística do ponto onde a mesma foi edificada. Defronte a antiga casa existe o açude Ponta da Serra e uma elevação denominada Serra do Macapá, com quase 500 metros de altitude, segundo informa o mapa produzido pela Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE, da região de Pau dos Ferros, na escala de 1:100:000.

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Francisco Javier de Lucena, conhecido na cidade serrana de Martins como Dr. Lacy,, quando entrevistado em 2010 – Foto Junior Marcelino.

Segundo o médico aposentado Francisco Javier de Lucena, conhecido na cidade serrana de Martins como “Dr. Lacy”, esta residência era em sua opinião “-A mais original do todas as que existem no pé da Serra de Martins”.

Em 2010, apesar de um relativo problema de surdez, encontrei na cidade de Martins o Dr. Lacy muito altivo e lúcido e o nosso encontro se deu através do apoio do amigo Junior Marcelino.

O Dr. Lacy nasceu no dia 15 de julho de 1917, tinha quase dez anos de idade na época da passagem do bando de cangaceiros de Lampião pela região e comentou que na ocasião o seu pai, João Xavier da Cunha, era cunhado e trabalhava para o então proprietário do sítio Ponta da Serra, João Frutuoso da Silva.

Este se encontrava com a sua família na propriedade, quando recebeu o aviso da chegada de Lampião através de uma senhora chamada Idalina, o já famoso “Corre que Lampião vem aí!”. Esta senhora vivia em um sítio próximo denominado Tabuleiro de Areia.

Logo a esposa de João Frutuoso, dona Alexandrina, buscou guardar objetos de importância para serem transportadas em dois tradicionais caçuas. Estes são uma espécie de saco de grandes dimensões, feito de couro de boi, montados em uma cangalha no lombo de um jumento. Este animal foi conduzido por um trabalhador da fazenda, enquanto a família seguiria para a cidade de Martins em um veículo Ford de três marchas.

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Dr. Lacy relata que na cidade de Martins havia certo número de soldados e pessoas do lugar armadas, sendo levados para piquetes organizados nas ladeiras da região, para assim resistir contra alguma investida do bando. Na opinião do Dr. Lacy, mesmo com muitos moradores buscando refúgio no mato e o clima de medo reinante, a situação não desbancou para uma fuga desesperada naquela urbe, houve certa ordem em Martins.

Seu pai João Xavier, assim que soube da aproximação do bando, mandou um irmão chamado Manuel Galdino seguir da cidade e ajudar João Frutuoso na propriedade. O motorista devia descer pela ladeira que seguia pelos sítios Comissário e Vertentes. Este caminho rústico, feito em 1915 por uma firma inglesa que construía o açude do Corredor, não era nada fácil de ser trafegado naqueles rústicos veículos, pois possuía muitas curvas nos contrafortes da Serra de Martins. Mesmo assim o motorista partiu.

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Notas existentes na página 2, do jornal natalense “A República”, edição de quinta feira, 8 de março de 1928, onde quase um ano depois o então prefeito daquela cidade, o Sr. Emídio Fernandes de Carvalho apresentava os custos municipais com a presença do bando de Lampião na área rural de Martins – Fonte – Coleção Rostand Medeiros

Ao chegar ao sítio Ponta da Serra, Galdino encontrou seus tios e seu primo João Batista da Silva, tratando de sair do local. Em meio a toda confusão associada ao medo, ele rapidamente deu meia volta no veículo e partiu. Acabou deixando de transportar as três empregadas da casa, que ficaram desesperadas e desorientadas. Coisa mesmo de verdadeira comedia pastelão em meio ao caos.

Catinga da Mistura de Perfume Barato, Suor e Cachaça

Segundo Dr. Lacy, foi por muito pouco que os membros da família não foram capturados, pois logo após a saída dos veículos o bando a galope chegou. Ríspida e rapidamente os bandoleiros invadiram todas as dependências da casa, onde arrombaram gavetas, malas e quebraram utensílios.

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Defronte a casa grande do Sítio Ponta da Serra, esta é a visão que temos. O Açude Ponta da Serra e a Serra do Macapá – Foto – Rostand Medeiros

Defronte a casa existia um comércio que era tocado pelo filho de Frutuoso, logo este lugar foi arrombado, sendo consumidas as bebidas do estoque e várias mercadorias foram roubadas ou depredadas.

Na casa os cangaceiros, aquecidos pelo álcool, fizeram as três empregadas passarem por apertos. Devido o rápido retorno do veículo de Galdino e da chegada dos celerados na sequência, elas não tiveram tempo de fugir para os matos. Mas o pior foi evitado devido ao chamado de Lampião para que deixassem as mulheres em paz. O próprio chefe comunicou às empregadas que se houvesse capturado Frutuoso, ele só seria libertado mediante o pagamento de quarenta contos de réis, verdadeira fortuna para época, demonstrando o poder econômico do proprietário do lugar.

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Na casa os cangaceiros mexeram em uma grande e pesada mesa de madeira, quebrando as gavetas que nela existiam. Em um fogão de ferro fundido, fabricado na Inglaterra, os cangaceiros buscavam avidamente comida, mas nada encontraram. A mesa e o fogão continuam na Ponta da Serra marcando a passagem dos cangaceiros[4].

Enquanto o saque prosseguia foi capturado o agricultor Francisco Dias, do sítio Corredor, propriedade existente mais adiante. Perguntado qual a próxima propriedade na sequencia da vereda existente comentou ser a Morcego, a um quilômetro de distância, cujo dono era Manoel Raulino. Rapidamente Francisco Dias foi “promovido”, mesmo a contra gosto, a função de guia dos bandoleiros.

Tão violentamente e rápido como chegaram, satisfeitos com o butim, Lampião ordenou que a cabroeira seguisse adiante.

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Rostand Medeiros e o Dr. Lacy na cidade de Martins, 2010 – Foto – Junior Marcelino.

Logo aquele troço de uns 60 e tantos homens montaram em seus corcéis sertanejos e partiram. Seguiram altivos, coroados pelos seus chapéus de couro, transportando vistosamente suas armas, gritando, assoviando, proferindo palavrões, estalando chicotes e deixando no ar a catinga da mistura de perfume barato, suor e cachaça.

Varias outras propriedades foram assaltados, roubos aconteceram, destruições ocorreram, sequestros e mortes. Mas no dia 13 de junho de 1927 o povo de Mossoró resistiu galhardamente e Lampião e seus cangaceiros foram vencidos e fugiram sem conquistar a “Capital do Oeste”.

Hoje quase ninguém que viveu aquela época está neste plano para dar depoimentos, mas locais como o sítio Ponta da Serra são testemunhos daqueles dias incertos e devem ser preservados.

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Defronte a casa da Ponta da Serra em abril de 2014, com os amigos Silvio Coutinho e Rivanildo Alexandrino.

Em abril de 2014 eu estive novamente nesta residência, acompanhado do diretor de cinema Silvio Coutinho, do Rio de Janeiro, e do amigo Rivanildo Alexandrino, da cidade de Frutuoso Gomes (RN), durante as filmagens do documentário “Chapéu Estrelado”, atualmente em montagem.


NOTAS

[1] Sobre este combate ver – https://tokdehistoria.com.br/2011/05/10/o-grande-fogo-da-caicara-e-a-desconhecida-%E2%80%9Cmissa-do-soldado%E2%80%9D/

https://tokdehistoria.com.br/2011/10/25/o-grande-fogo-da-caicara-inicio-da-resistencia-ao-bando-de-lampiao-no-rn/

[2] O sítio Morada Nova ainda está situado em terras que pertencem a Pau dos Ferros, sendo o único local que comprovadamente marca a passagem de Lampião neste município. Fui informado que a Morada Nova está situada a 18 quilômetros da sede municipal. Já a Ponta da Serra está na área territorial do município de Serrinha dos Pintos, tendo se desmembrado do município de Martins em 30 de outubro de 1993, através da Lei nº 6.492.

[3] Em 2010 esta estrada estrava em construção.

[4] Em abril de 2015 estes materiais ainda estavam por lá.

DOCUMENTÁRIO SOBRE À INVASÃO DE MOSSORÓ COMEÇARÁ SER FILMADO NESTA QUINTA EM AURORA-CE

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FONTE – http://blogdaaurorajc.blogspot.com.br/2015/04/documentario-sobre-invasao-de-mossoro.html

Muito já se sabe sobre a história de Lampião em seus quase 20 anos de intensas estripulias pelos sertões de 7 estados nordestinos. Porém, ao contrário do que muitos ainda imaginam, inclusive bons pesquisadores e outros  “escribas livrescos”,  há muito ainda a se dizer, descobrir, estudar e escrever acerca da verdadeira saga lampiônica pelos grotões sertanejos.   

Uma dessas lacunas que continua aberta nas narrativas do Cangaço, sobretudo no que tange à história de Lampião, diz respeito  ao famoso episódio relacionado à Invasão da cidade de Mossoró em julho de 1927, cuja trama aconteceu na fazenda Ipueiras no município de Aurora no Cariri cearense. 

Um imenso cipoal de fatos e acontecimentos dos mais emblemáticos envolvendo, além da figura de Lampião, personagens fundamentais como o Cel Izaías Arruda e Massilon Leite – ditos como os principais patrocinadores  que convenceram Virgulino a aceitar tal empreitada. Ainda, outros colaboradores aurorenses tais como Zé Cardoso, Miguel Saraiva, Décio Holanda do Pereiro, Júlio Porto e João 22 do subgrupo dos irmãos marcelinos. Como ainda figuras menores mas não menos importantes para a compreensão da trama como os cangaceiros da terra, moradores do riacho das Antas como José Côco, Zé Roque, Zé de Lúcio e Antonio Soares que integravam tanto o bando do coronel como o do próprio Massilon e dos Marcelinos.

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Ocorrências históricas que se deram em solo aurorense(envolvendo a Ipueiras, os serrotes do Cantis e Diamante que serviam de coito para Lampião e seu bando) meses antes da malograda invasão à cidade do oeste potiguar. E depois da invasão frustrada – a traição do cel. ao rei do cangaço, culminando com a tentativa de envenenamento do bando e o famoso fogo da Ipueiras que também contou com a presença suspeita do major Moisés Leite de Figueiredo – comandante geral das volantes.

Fatos que como se nota estão ausentes ou muito pouco narrados(pelos menos como deveriam) na literatura tida como oficial do cangaço atinente ao célebre acontecimento.

DOCUMENTÁRIO DE SILVIO COUTINHO

De modo que avaliamos como bastante necessário e alvissareiro a produção do documentário cinematográfico “Chapéu Estrelado”, do diretor carioca Silvio Coutinho, roteiro do artista plástico Iaperi Araújo, Além da produção de Valério Andrade na produção e de Rostand Medeiros na pesquisa. 

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Um filme que tenta refazer o caminho que o bando de Lampião trilhou entre 10 e 14 de junho de 1927 pelo interior do Ceará, Paraíba e RN a partir do município de AURORA Sul do Cariri precisamente na fazenda Ipueiras onde ocorreu  toda a trama para à invasão de Mossoró.

Trata-se portando de um documentário em longa-metragem intitulado “Chapéu Estrelado – Os caminhos de Lampião no Oeste Potiguar” que estará sendo filmado a partir desta quarta-feira(22) na cidade de Aurora.

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Para tanto,  Rostand Medeiros (foto acima, entrevistando) já combinou com o secretário de cultura de Aurora o também pesquisador José Cícero para que o mesmo possa participar dos trabalhos durante as filmagens à Ipueiras, Cantins e Serrote do Diamante( locais que serviram de coito para o rei do cangaço e seu bando). 

Oportunidade em que o secretário aurorense falará um pouco acerca da figura de Massilon Leite que juntos do Cel. Izaías Arruda convenceram Lampião à empreitada de Mossoró. Como igualmente de Miguel Saraiva e Zé Cardoso que também foram participes no citado episódio. 

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Conforme o cineasta a prioridade “máxima” é que a primeira exibição pública seja no RN, “pelo menos” em Natal e Mossoró. O plano é lançar ainda em 2015, mas a data não foi definida. “Depois do lançamento, e antes de chegar ao circuito comercial, pretendemos fazer o circuito de festivais nacionais e internacionais. Para ele, o cangaço é um tema internacional e continua atual.

Coutinho adiantou que o formato do documentário, que conta com parceria da produtora Locomotiva Cinema de Arte (RJ), será moderno, dinâmico. “Vamos explorar bastante a paisagem dos três estados onde vamos filmar (CE, PB e RN) e ouvir herdeiros dessa memória pelo caminho”.

Para a execução do documentário a equipe de filmagem ouvirá também alguns pesquisadores do cangaço, sobretudo no tocante aos episódios  ocorridos em Aurora que envolveram Lampião, o coronel Izaías Arruda, Zé Cardoso e  Massilon. Quando serão entrevistados o secretário de cultura local José Cícero (professor e pesquisador do cangaço)  e na vizinha cidade de Missão Velha onde existe ainda hoje o grande casarão onde residiu coronel; serão entrevistados  o prof. João Calixto Jr e o memorialista João Bosco André.

Toda a equipe de filmagem deverá chegar em Aurora na noite de quarta-feira(22) onde ficará hospedada até o dia seguinte, data prevista para o início dos trabalhos.

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Da Redação do Blog de Aurora.

Com infomes do TOK DE HISTÓRIA.