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O WOODSTOCK NORDESTINO

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Cartaz do evento

Texto – Rostand Medeiros

Em uma quinta-feira comum na capital pernambucana, mais precisamente no dia 9 de novembro de 1972, o tradicionalíssimo Diário de Pernambuco publicava no Segundo Caderno, na quinta página, uma pequena nota que em muitos aspectos era diferenciada e um tanto inusitada.

Explicava que no sábado, dia 11 de novembro, aconteceria no palco de Nova Jerusalém, no distrito de Fazenda Nova, município de Brejo da Madre de Deus, a 200 quilômetros de Recife, o evento denominado “Feira Experimental de Música”.

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Grupo Nuvem 33 entre as colunas do palco de Nova Jerusalém em 11 de novembro de 1972 – Fonte – http://cabelosdesansao.blogspot.com.br/2008/09/um-cearense-na-lira-paulistana_10.html

Segundo os organizadores a ideia tinha o objetivo de mostrar o trabalho de vários conjuntos musicais fora do âmbito comercial que despontavam em Recife e outras cidades do Nordeste. O horário seria “do pôr, ao nascer do sol”, com entrada gratuita, participação de vários artistas, sem premiação, nem jurados e com o pensamento de “ouvir o som do cara que toca berimbau no Mercado de São José e também o som de Laílson, com uma guitarra que tem tanto botão que parece uma central elétrica”.

E como foi esta intensa noite no agreste pernambucano!!!

Tempos Nebulosos

Os primeiros anos da década de 1970 no Brasil foram momentos bem complicados.

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Golpe de Militar em 1964, 30/04/1964. Tropas do Exercito saem as ruas e tomam o Palácio do Campo das Princesas em ação rápida. Credito: Reprodução / Petrônio Lins/Arquivo/DP.

Havia a Ditadura Militar, que apertava o garrote contra a sociedade brasileira de várias maneiras e uma forte repressão. Na área artística eram censurados filmes, peças teatrais, músicas e discos.

Na provinciana e caliente Recife, então a terceira maior metrópole do país, o momento conturbado foi sentido de muitas maneiras. Logo após a deflagração do Golpe Militar, em 31 de março de 1964, a capital pernambucana foi um dos lugares que mais sofreu atrocidades dos golpistas, tendo civis agredidos e mortos em passeatas que protestavam a favor da democracia. Tempos depois, em 25 de julho de 1966, opositores da ditadura explodiram uma bomba no saguão do Aeroporto Internacional do Recife.

No início da década de 1970 a barra estava pesadíssima. Até mesmo um núcleo do famigerado Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, o conhecido DOI-CODI, local de tortura aos opositores do Regime Militar, foi instalado na cidade e ficava localizado ao lado do antigo quartel do 4º Exército.

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Fonte – cpdoc.fgv.br

A capital pernambucana vivia um momento pesado, nebuloso, cinzento. Mas por outro lado, chegavam do exterior as luzes de uma nova cultura.

Nos anos 1960 muitos jovens passaram a contestar, a nível mundial, a sociedade e a pôr em causa os valores tradicionais e o poder econômico. Seguindo esses movimentos de contestação, muita gente buscou várias alternativas a uma sociedade repressora e “careta”. Descontentes com a sociedade de consumo jovens começaram a formar grupos pelo mundo afora, desenvolvendo interessantes comunidades alternativas, celebradas por variados músicos e artistas, em meio a uma intensa explosão criativa.

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Poster oficial do festival.

 

A celebração popular mais significativa daqueles dias sem dúvida aconteceu em 1969, com o grande encontro de três dias de música, paz e amor no Festival de Woodstock, no Estado de Nova York.

Em terras tupiniquins, em meio ao clima cinzento e pesado, a interessante experiência de viver em comunidades afastou muitos jovens dos diplomas universitários, dos planos familiares de um “futuro garantido” e da ideia de uma profissão tradicional e segura. Entretanto, foi entre os músicos que o ideal de levar uma vida longe da pressão do sistema vigente nas grandes cidades prosperou com mais sucesso.

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Recife na década de 1970.

No Recife, o mesmo espírito mobilizou vários músicos e algum tempo depois aconteceria um evento que seria definido pelo jornalista Celso Marconi como “Uma espécie de Woodstock cabra da peste”.

Figuras Especiais

Muitos dos jovens músicos que tocavam nas grandes cidades brasileiras durante a década de 1960 geralmente se apresentavam com suas bandas em bailes, onde tanto tocavam covers de grupos estrangeiros, como os sucessos populares que eram executados nas rádios. Mas em meio a toda inquietação política, a crescente efervescência cultural, influências musicais do exterior, muitos destes jovens desejavam apresentar um material próprio e diferenciado.

Em Recife esta situação é amplificada pela existência de uma congregação de músicos com extremo talento, que estavam dispersos e buscavam ampliar os horizontes musicais.

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Laílson Cavalcanti, ilustrador, cartunista, músico e pesquisador – Fonte – http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Lailson&ltr=l&id_perso=278

Um deles era Laílson de Holanda Cavalcanti. Membro de uma família considerada abastada de Recife fez intercâmbio nos Estados Unidos, mais precisamente em Arkansas. Musicalmente ativo nos “States”, Laílson chegou a montar por lá uma banda onde tocavam músicas do guitarrista Jimi Hendrix e do grupo Creedence Clearwater Revival. Voltou a Pernambuco com mil ideias na cabeça.

Outro destes jovens era Luiz Augusto Martins Côrtes, mais conhecido como Lula Côrtes. Filho de militar, nascido na Base Aérea de Recife, havia morado no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, mas voltou à cidade natal ainda adolescente. Consta que, em razão do trabalho do pai, conseguiu uma maior aproximação com estrangeiros e informações privilegiadas sobre os acontecimentos musicais de fora – gostava de Rolling Stones e Bob Dylan, e ficou sabendo de Jimi Hendrix bem antes de seus conterrâneos. Mesmo sendo oriundo de uma família abastada, resolveu largar tudo quando ainda era moleque, deixou o cabelo crescer e foi morar na rua. Era um hiperativo que dividia seu tempo entre o desenho e o seu inseparável (e legendário) tricórdio.

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Lula Côrtes e seu tricórdio.

Outra figura importante deste contexto foi Marco Polo Guimarães, um ex-acadêmico de Direito e poeta. Com 16 anos atreveu-se a mostrar seus poemas a Ariano Suassuna e a Cesar Leal. Foi aprovado pelos dois e lançou seu primeiro livro em 1966. Dois anos depois começou no jornalismo e depois seguiu de carona para o Rio de Janeiro e na sequência São Paulo. “Na cidade que nunca dorme” Marco Polo conheceu o conterrâneo Fernando Portela, um dos editores do Jornal da Tarde, o JT, e conseguiu trabalho. Mas acabou voltando para a capital fluminense, onde vivia de trabalhos freelance para a editora Bloch. Logo virou hippie, trabalhando como artesão na desbundada Praça General Osório, em Ipanema. Consta que nessa temporada no sul maravilha, Marco Polo escreveu e compôs muito. Quando retornou a Recife, no final de setembro de 1972, encontrou uma cena musical efervescente, cheia de gente criativa e talentosa, prontos para despejar energia em suas composições.

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Marco Polo, jornalista, poeta, escritor e compositor – Fonte – http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?id_perso=1051&ltr=m&titulo=Marco+Polo+Guimar%C3%A3es

Uma banda da época, Os Selvagens, era formada por jovens de classe média baixa – entre eles, o magricela estudante de engenharia Almir de Oliveira, o percussionista Agrício Noya e o talentoso guitarrista Ivson Wanderley, o Ivinho, além de Bira e Rafles. Anos antes, Almir já havia sido apresentado a Marco Polo por Rafles, amigo que era “tipo um imã, agregava todos ao redor dele”, como lembra o jornalista. O mesmo Rafles que, por volta de 1968, era considerado o “pirado” de plantão do Recife. Entre suas maluquices nunca esquecidas está a de enviar, pelo correio, um reforçado baseado, em legítimo papel Colomy, para Paul McCartney. Meses depois, ele recebeu a resposta do Beatle: uma foto autografada como agradecimento.

A aproximação foi inevitável e logo foi criada uma banda, ainda sem nome e cuja estreia ainda não tinha data marcada.

Mas logo esse dia iria chegar.

Os Cabeludos em Nova Jerusalém 

Enquanto isso, no início do mês de novembro de 1972, no teatro ao ar livre de Nova Jerusalém, o “sonho de pedra” idealizado pelo gaúcho Plínio Pacheco, estava sendo preparada a encenação da peça Calígula, do francês Albert Camus. Dirigida pelo teatrólogo e ator José Pimentel, tendo como atores os mesmos que realizavam a já famosa encenação da “Paixão de Cristo”.

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Encenação da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém na década de 1970.

A apresentação aconteceu no sábado, 4 de novembro, foi um sucesso, com público estimado em três mil pessoas e contou até com a presença do cônsul francês no Recife, o Monsieur Jacques Boizet, que declarou que a peça realizada por aqueles atores brasileiros do agreste nordestino “superava as montagens francesas que ele havia assistido”.

Bem, depois de uma apresentação como essa, tão bem comentada pela imprensa recifense da época, era de se esperar outras atrações no mesmo estilo. Entretanto a Sociedade Teatral de Morada Nova, responsável pelo grande teatro ao ar livre, cedeu Nova Jerusalém para a realização de um festival de música ao ar livre, que seria igualmente produzido pelos diretórios acadêmicos dos cursos de medicina, geologia, arquitetura e engenharia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

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Eu não descobri como rolou a negociação e nem como se desenvolveu a parceria entre os responsáveis por Nova Jerusalém e a galera do DCE. Mas sei que para a coordenação do festival foi convidado Laílson Cavalcanti, então com apenas 19 anos de idade.

Evento teria dois dias de música, com entrada franca, onde a produção tinha o intuito terminantemente categórico da abertura de um espaço para o pessoal que fazia música alternativa, fora do circuito comercial. Estava aberto tanto para a rapaziada de Recife, como músicos de outras cidades do Nordeste.

O evento foi oficialmente intitulado “I Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém” e tinha como lema “Abrir os portões do teatro e as portas da percepção”.

Os artistas convidados, em sua grande maioria, tinham a ideia de produzir uma música aberta às referências do rock estrangeiro e das especificidades das músicas produzidas no Brasil. Laílson Cavalcanti comentou anos depois “Era a música pela música, a expressão criativa pelo prazer de criar e apresentar uma proposta original”.

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Flávio Lira, o Flaviola, uma das atrações.

O “Woodstock nordestino” iria começar na noite de 11 de novembro de 1972.

Woodstock Cabra da Peste

Dentre os sites na internet, livros, trabalhos acadêmicos e outras fontes que comentam sobre este evento, consta que na Feira Experimental de Música participaram o próprio Laílson, Lula Côrtes, Marconi Notaro, Marco Polo e seus companheiros, Flávio Lira (cujo nome artístico era Flaviola) e o grupo Nuvem 33, onde um dos seus membros era Otávio Teremim e outro era o cearense Tiago Araripe. Araripe possuía uma forte vivência sertaneja, tinha morado até 1968 no Crato, Ceará e trazia sua experiência musical para a feira. Foram convidados pessoas como Jorge Mautner e Hermeto Pascoal (que não vieram). Da Paraíba foi convidada a cantora Katia de França.

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No Diário de Pernambuco (10/11/1972, pág. 7, Segundo Caderno), a organização do festival prometia que a música apresentada seria ouvida por “34 caixas de som, 10 amplificadores delta e transmitida por 16 microfones”.

No site http://cristianojeronimo.blogspot.com.br/A encontramos como foi a aventura de Marco Polo, Almir de Oliveira, Agrício Noya, Ivson Wanderley para tocar na feira –

A turma foi à Nova Jerusalém de ônibus, na sexta, dia anterior ao festival, para ajudar nos preparativos. Passaram a noite toda trabalhando e fazendo farra – quando amanheceu, estavam todos cansadíssimos, não haviam dormido. O único que tinha conseguido pegar no sono era Ivinho – que, na manhã de sábado, acordou com um dos olhos vermelho-sangue, por causa de um inoportuno derrame na vista. O show de estreia da recém-formada banda estava marcado para as 3h da madrugada. Almir de Oliveira mal se aguentava de sono e pediu que Laílson, o organizador, mudasse o horário para meia-noite. O pedido foi negado. “Eu sei que, quando deu uma, duas horas da manhã, eu arriei, fui dormir. E aí, quando deu três horas, acordei com Laílson e Ivinho me chamando”, lembra o baixista. A banda subiu ao palco com ele bêbado de sono e Ivinho tocando de costas para a plateia, de óculos escuros, por causa dos olhos sensibilizados.
Apesar do sufoco, foi ali que o grupo ganhou forma e nome: Tamarineira Village. Tamarineira era o nome de um hospício famoso na época em Recife, e o Village (que é pronunciado “Világe”) fazia referência à vila de comerciários da cidade, de onde vinham a maioria dos integrantes
”.

Sobre o show Marco Polo comentou que a banda fazia uma fusão da música tradicional do Nordeste com o rock. “Era uma coisa chocante na época ter uma banda influenciada por Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Beatles, Rolling Stones e Led Zeppelin”, comentou o músico e jornalista.

Já o Diário de Pernambuco (13/11/1972, pág. 5, Segundo Caderno) enviou um repórter para cobrir o evento e esta foi a sua visão.

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HIPPIES” INVADEM A NOVA JERUSALÉM E REALIZAM FESTIVAL
FAZENDA NOVA

(Do enviado especial) – As ruelas e palácios de Nova Jerusalém foram invadidos, sábado ao entardecer, por “hippies” e estudantes que, entre os sons de guitarras e a estridência “desordenada” de baterias, realizaram o primeiro festival de música de vanguarda de Pernambuco, com a denominação de I Feira Experimental de Música. O espetáculo, que começou às 17h30m do sábado terminando às 4 horas do domingo, reuniu cerca de duas mil pessoas.
A Banda de Música de Fazenda Nova e a Banda de Pífanos de Nova Jerusalém abriram a parada musical em meio a um entusiasmo sem precedentes dos jovens aglomerados ante o imponente Palácio de Pilatos. Seguiu-se a apresentação do conjunto Tamarineira Village, culminando com a exibição do Nuvem 33 e Flaviola. Os promotores do certame distribuíram questionários a fim de colher as impressões dos participantes do espetáculo, qualificado pelos observadores como “o primeiro grande passo para a completa renovação da música popular regional.

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Nuvem 33 entre as colunas do palco de Nova Jerusalém em 11 de novembro de 1972 – Fonte – http://cabelosdesansao.blogspot.com.br/2008/09/um-cearense-na-lira-paulistana_10.html

E como não poderia deixar de ser em um evento com esta finalidade, em termos de “viagens astrais” o “Woodstock cabra da peste” não deixou nada a dever para o original californiano: lendas dão conta que a plateia divertia-se tomando ácido dissolvido em baldes de Q-suco. “O ácido era distribuído ao público, cerca de duas mil pessoas, dissolvido num balde com K-suco”, testemunhou depois Marco Polo numa entrevista ao jornalista pernambucano José Telles (autor de Do Frevo ao Manguebeat, Editora 34).

Uma Ilustre Espectadora

Ao realizar a pesquisa sobre aquela noite “mutcho loka” no agreste pernambucano, eu descobri que entre os presentes na plateia estava uma senhora de 66 anos de idade, educadora, escritora e membro da honorável Academia Pernambucana de Letras. Estamos falando de Maria Dulce Chacon de Albuquerque Nascimento, mais conhecida por Dulce Chacon.

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Maria Dulce Chacon de Albuquerque Nascimento – Fonte – http://www.fernandomachado.blog.br/novo/?p=143723

Não tenho a mínima ideia das circunstâncias que levaram àquela senhora a Nova Jerusalém naquela noite. É possível que a presença de Dona Dulce Chacon se devesse a sua própria maneira de ser, que tinha muito de revolucionária.

Nascida no Recife em 8 de janeiro de 1906, era filha, sobrinha e neta de perseguidos políticos. Conviveu com a profusão de ideias e discussões sobre política, democracia e direitos do cidadão. Foi aluna da turma inaugural da Escola Normal de Pernambuco, onde liderou nesta Instituição uma das primeiras greves de estudantes no Brasil. Escolheu a carreira de professora por opção, por reconhecer nesta atividade um campo de atuação que lhe permitia colocar em prática suas ideias de uma nova educação; mais integradora e inclusiva. Paralelamente as sua atividades de educadora escreveu livros, quase todos voltados para sua área de interesse profissional e social.

No Diário de Pernambuco (17/11/1972, pág. 4, Primeiro Caderno), em um pequeno texto intitulado “A 1º Feira Experimental do Som”, a acadêmica Dulce Chacon comentou que assistiu “Um espetáculo espichando pela noite adentro”.

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Texto de Dulce Chacon no Diário de Pernambuco

Chamou-lhe atenção a desinibição dos rapazes e moças, todos a vontade, deitados e usando suas mochilas como travesseiros. Informou que muitos dos estudantes vinham de Recife, mas havia gente de João Pessoa, Maceió, Fortaleza e alguns da Pontifícia Universidade Católica (PUC) da Bahia, “com um conjunto de timbales”.

Para ela os grupos que se apresentaram foram dezessete, com nomes como Banda Quebra Resguardo, Bandavoou, Transa Geral, os já citados Nuvem 33 e o Tamarineira Village, que lembrou a acadêmica um grupo de hippies do Greenwich Village, de Nova York. 

Frutos

Mas certamente o melhor resultado da “I Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém” foram as parcerias surgidas entre os músicos, que gerou marcantes maravilhas para a música nordestina e brasileira e alguns dos discos mais cultuados da psicodelia brasileira.

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Capa de Satwa, de 1973 – Fonte – http://mimisdiscos.blogspot.com.br/2013/07/lula-cortes-e-lailson-satwa-1973.html

Interessante ressaltar que o festival aconteceu pouco tempo antes de um momento muito propício para aqueles músicos, pois pouco tempo depois – entre o final de 1973 e o início de 74 – a MPB estremeceu quando surgiram hippies-roqueiros como os Novos Baianos e os Secos e Molhados. As gravadoras do Sudeste descobriram que os jovens cabeludos e desbundados também podiam vender discos e gerar grana.

Foi neste festival que Laílson Cavalcanti conheceu Lula Côrtes e a sintonia foi total. Tanto que dois meses depois, em janeiro de 1973, eles lançavam “Satwa”, considerado um dos primeiros, se não o primeiro, LP independente do Brasil. Era uma mistura do som do Oriente com o do Ocidente, principalmente do blues. Um disco instrumental, para não ter que levar as letras à Polícia Federal.

Para ouvir “Satwa” clique aqui – https://www.youtube.com/watch?v=evmo6UC9rvo

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Desenho de Laílson Cavalcanti, publicado no Diário de Pernambuco, tendo como tema o grupo Phetus.

Depois do lançamento deste disco, Laílson e Lula seguiram caminhos distintos. Laílson criou o Phetus, grupo mais progressivo e barroco, com o guitarrista Paulo Rafael e Zé da Flauta. “Seria o que hoje a gente chama de world music”, ele afirmou anos depois.

Já Lula Côrtes se aproximou de um jovem paraibano que conheceu no festival. Era um magricela de 23 anos, natural de Brejo do Cruz, chamado José Ramalho Neto, mas conhecido como Zé Ramalho. Em Nova Jerusalém eles foram apresentados por um amigo comum, o artista plástico Raul Córdula.

Zé Ramalho e Lula Côrtes
Zé Ramalho e Lula Côrtes

Zé estava de saco cheio de tocar em bandas de iê-iê-iê, animando bailes em de João Pessoa e Campina Grande e desejava novos voos. Isso ele conseguiu com Lula Côrtes.

A amizade, as viagens e a parceria musical entre os dois se ampliou. Foi quando Raul Córdula convocou os jovens músicos para rasgar a trilha seca que partia de Ingá do Bacamarte, a 85 quilômetros de João Pessoa, rumo a Pedra do Ingá, um misterioso monólito, ornado com representações datadas de três a seis mil anos e considerado o maior sítio arqueológico de gravuras rupestre da América Latina.

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Pedra de Ingá – Foro – Rostand Medeiros

Naquele lugar a “viagem” dos dois músicos foi total e intensa. Dois anos depois do festival de Nova Jerusalém eles lançavam o LP “Paêbirú-Caminho da montanha do sol”, um clássico psicodélico do pós-tropicalismo que, além de acústicos destacam-se músicas como: “Nas paredes da pedra encantada”, “Pedra templo animal” e “Trilhas de Sumé”, todas dedicadas à Pedra do Ingá.

Paêbirú é das coisas mais malucas e assombrosas que já se fez na música brasileira, mas eu me surpreenderia muito se eu tiver mais de dois leitores que a conheçam. O nome é escrito assim mesmo, com a combinação agramatical de acentos. Foi gravado na Fábrica de Discos Rozenblit, em Afogados, Recife (empresa fundamental para a história da música pernambucana) e lançado imediatamente. Mas na terrível enchente de julho daquele ano no Recife, as águas do Capibaribe invadiram a fábrica e destruíram praticamente toda a prensagem do disco, com a exceção de 300 cópias que haviam sido levadas para a casa de Lula.

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Capa de Paêbirú Caminho da Montanha do Sol-1975

Dessas 300 cópias nasceu o mito, que é tão incrível que há gente que não acredita.

Basicamente este disco de vinil é o mais caro de toda discografia brasileira, onde um dos exemplares em bom estado pode alcançar cifras que giram em torno de R$ 5.000,00. Hoje é possível encontrar “Paêbirú” em CD, lançado pela Shadoks, um obscuro selo alemão. Em 2008 o selo inglês Mr. Bongo lançou este trabalho nas terras da rainha.

Para ouvir “Paêbirú” clique aqui – https://www.youtube.com/watch?v=uUyvtwSV6A8

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Lula Côrtes e Alceu Valença.

Lula Côrtes continuou produzindo músicas, tocando, lançando livros de poesia, até a madrugada do dia 26 de março de 2011 quando faleceu aos 61 anos, vítima de um câncer na garganta, no Hospital Barão de Lucena, Recife.

Já Zé Ramalho se tornou um dos maiores nomes da música brasileira.

O pessoal da banda Tamarineira Village saiu de Nova Jerusalém para começar uma caminhada que paulatinamente foi alargando horizontes em Recife. Segundo o vocalista Marco Polo, durante uma dessas viagens pelo Nordeste, eles encontraram com uma cigana no sertão paraibano, que sugeriu a mudança a mudança de nome da banda para Ave Sangria, pois sua música era livre e forte.

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Ave Sangria com a formação após a Feiras Experimental – Na frente Marco Polo, Agrício Noya, Almir Oliveira, Ivinho. Atrás Paulo Rafael e Israel Semente Proibhida.

Logo as apresentações do grupo chamaram a atenção do público, com um formato nada convencional dos seus shows.

O grupo Ave Sangria chegou a vir ao Rio para gravar um disco, cujo destaque foi o samba de breque “Seu Waldir”. O disco foi pouco divulgado pela gravadora, mas conseguiu relativo sucesso e vendeu bem no Nordeste e no Sudeste. Mas a música “Seu Waldir” acabou considerada uma apologia ao homossexualismo, quando não passava de uma brincadeira do irreverente grupo. Reza a lenda que a mulher de um general ouviu a música, achou um absurdo, e ela foi censurada. Pouco depois disso, a banda acabou. Interromperam as atividades em uma apresentação histórica em 1974, com o show Perfumes & Baratchos, no Teatro Santa Izabel, em Recife.

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Capa do LP do Ave Sangria.

Para ouvir o LP do Ave Sangria clique aqui – https://www.youtube.com/watch?v=ddDmEKE8ADU

Um dos membros do Ave Sangria, o guitarrista Ivson Wanderley Pessoa, o Ivinho, possui o mérito de ter sido o primeiro brasileiro a se apresentar no palco do 12º Festival Internacional de Jazz de Montreux, na Suíça, em 1978. Nesta época estava sendo formado um grupo de artistas brasileiros para se apresentar em Montreux, do qual faziam parte Gilberto Gil, Pepeu Gomes e o grupo A Cor do Som. Naquele ano Ivinho estava no Rio, onde realizou apresentações que chamaram à atenção do pessoal ligado a música na Cidade Maravilhosa e acabou convidado para ir para Suíça.

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Ivinho mandando ver em Montreux.

Foi para a Europa com apenas 25 anos, 50 dólares no bolso e uma viola de 12 cordas surrada. Mas ele surgiu no palco surpreendente, empunhando com galhardia seu instrumento e levando o público presente ao delírio. Com sua técnica e ‘feeling’ particular, Ivinho transformou sonoridades regionais em peças totalmente jazzísticas e psicodélicas. O show foi registrado em disco e lançado no Brasil, com excelente repercussão junto aos ouvintes de MPB e também à juventude ligada em rock and roll.

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Ivinho foi considerado por muitos como um dos maiores guitarristas da história do rock brasileiro, mas nunca conseguiu o devido reconhecimento. Faleceu em junho de 2015, de hemorragia digestiva, em decorrência de uma cirrose, no Hospital Otávio de Freitas, Tejipió, Recife.

Para ouvir Ivinho ao vivo em Montreux clique aqui – https://www.youtube.com/watch?v=iIpQyphKtG4

Houve outras histórias de parcerias, de discos lançados e shows alucinantes.

Mas ficou algum legado?

Com certeza!

Creio que o maior deles tenha sido esses músicos terem influenciado muitos outros jovens ao longo dos anos. Como um certo Francisco de Assis França Caldas Brandão, um rapaz que morava em Rio Doce, um bairro do subúrbio de Olinda. Graças aos amigos, com quem trocava discos e fitas K7, além da psicodelia setentista aqui tratada, ele conheceu o hip hop, a black music e se tornou Chico Science.

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Chico Science

O interessante é que muitos dos atuais fãs daqueles que estiveram no palco da “I Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém” é formada por jovens brasileiros e também por estrangeiros. O interesse por estas músicas e seus protagonistas voltou a ganhar força nos dias atuais com a internet, que facilita a circulação da informação do que rolava naqueles loucos anos da década de 1970.


FONTES

http://www.senhorf.com.br/revista/Edicao_41_nova/web/revista/Materias_editadas_41/ivinho.htm

http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2015/06/13/internas_viver,581040/morre-ivinho-guitarrista-do-ave-sangria.shtml

http://www.lailson.com.br/music.html

http://www.lailson.com.br/Senhor%20F%20-%20A%20Revista%20do%20Rock_arquivos/lailson.htm

http://blogs.diariodepernambuco.com.br/diretodaredacao/2016/03/22/quando-a-vaia-reinou-em-nova-jerusalem/

http://super.abril.com.br/cultura/paz-amor-e-baioneta

http://extra.globo.com/tv-e-lazer/a-psicodelia-pernambucana-revivida-no-palco-12023290.html

http://blogdovavadaluz.com/noticias-da-terrinha/ze-ramalho-na-pedra-de-inga-jornal-correio-desta-sexta-feira-11-de-setembro

http://cabelosdesansao.blogspot.com.br/2008/09/um-cearense-na-lira-paulistana_10.html

O FLAGELO E A BATALHA CONTRA O AEDES AEGYPTI – UM OLHAR ESTRANGEIRO

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Os trabalhadores da saúde em um bairro de Recife – Foto – Tomás Munita

O fotógrafo chileno Tomás Munita, trabalhando para a National Geographic, capturou a luta diária contra os mosquitos Aedes aegypti em Recife.

Baseado no texto produzido por – Becky Little

Fotografias de Tomás Munita

Fontes – http://news.nationalgeographic.com/2016/02/160225-zika-virus-brazil-mosquitoes-microcephaly-pictures/

http://proof.nationalgeographic.com/2016/03/04/how-to-photograph-an-invisible-subject/

Como fotografar o invisível?

Como você pode fotografar o que não pode ver?

Esse foi o obstáculo que o fotógrafo chileno Tomás Munita encarou ao seguir para as favelas do Recife, Brasil, para buscar fotografar a história do vírus Zika.

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João Batista conforta a filha, Alice, que tem microcefalia, em sua casa no Jordão Baixo, Recife. Alice tem um mínimo de quatro ataques epilépticos por dia, além de danos ao seu sistema nervoso, que tem causado rigidez nos braços e cabeça. Ela toma 28 medicamentos diferentes e sem nenhuma ajuda por parte do governo – Foto – Tomás Munita

O mosquito Aedes aegypti, principal vetor para a proliferação do Zika, vírus suspeito de causar microcefalia em crianças nascidas de mães infectadas, que também carrega os vírus da dengue e chikungunya, não foi fotografado.

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As crianças brincam no Coelho, Recife. Bairros pobres como este, com lixo em vários locais, são terreno fértil para a proliferação dos mosquitos Aedes aegypti – Foto – Tomás Munita

Ao contrário de outras histórias que Munita clicou, o personagem principal ficou escondido em poças de água e qualquer tipo de objeto que acumule água. Muitos destes objetos são ignorados nas ruas.

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Todos os oito membros da família de Regina Kelly Siqueira tiveram dengue e chikungunya, e podem ter tido Zika também. Ela e seus seis filhos vivem em um bairro pobre chamado Coelho, em Recife – Foto – Tomás Munita

Munita, no entanto, descobriu que a ira ao inseto era visível nas pessoas que ele conheceu e cujas vidas foram viradas de cabeça para baixo pelo Zika.

Suas fotografias buscam contar a história dessas pessoas, sua ambivalência, sua luta e, em última análise, sua perseverança.

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Soldados do Exército Brasileiro alinham-se no início da manhã antes de ir de porta em porta entregando folhetos com conselhos para combater mosquitos – Foto – Tomás Munita

Mas para Munita “É quase impossível de controlar a epidemia do mosquito Aedes aegypti”.

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Oito membros da família desta menina tiveram chikungunya e dengue, doenças nascidas a partir do mesmo mosquito que transmite o vírus Zika – Fonte – Tomás Munita

Como você pode parar dos mosquitos portadores de doenças de se multiplicarem? Essa é a pergunta que assola o governo brasileiro, que enviou contingentes de soldados do exército de porta em porta, em uma missão contra o vírus Zika.

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Soldados conversam com uma mulher no bairro Alto José Bonifácio, em Recife, sobre como conter a reprodução do mosquito Aedes aegypti. Durante o dia os soldados entregam às pessoas folhetos, inspecionam quintais e aplicado larvicidas em recipientes com água. Foto – Tomás Munita

“Eles estão dando folhetos, dizendo que você tem que manter seu quintal limpo de lixo”, diz o fotógrafo Munita, que documentou estas ações em Recife, a capital do estado nordestino de Pernambuco, cidade com uma população em torno de 3,7 milhões de pessoas.

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Um trabalhador de saúde em uma favela na cidade de Recife, Brasil. Fumigação é um dos esforços do governo para evitar a propagação de Zika. Foto – Tomás Munita

O flagelo mosquito vai muito além desses bairros apertados. O Aedes aegypti tem sido incrivelmente difícil de ser erradicado desde que chegou à América Latina através do tráfico de escravos da África.

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Soldados do Exército Brasileiro inspecionam uma casa no bairro Alto José Bonifácio, em Recife, como parte de sua campanha para parar a propagação do vírus Zika – Foto – Tomás Munita

Muitos países da região desenvolveram enormes programas de erradicação na década de 1950, com algum sucesso em vários locais, apenas para ver a praga ressurgir na década de 1970 e 80.

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Um trabalhador de saúde fumegando em um bairro de Recife. Munita diz que as pessoas são muitas vezes surpreendidas ao ver fumigadores em suas ruas. Alguns fecham suas portas contra o spray, enquanto outros fazem o contrário para ajudar a matar os mosquitos em suas casas. – Foto – Tomás Munita

Marcelo Castro, ministro da saúde no país, tem sido citado como tendo dito que o Brasil está “perdendo a batalha” contra os mosquitos. Agora, o governo está tentando interromper quimicamente a reprodução do mosquito por fumigação de ruas e colocando larvicidas em tanques de água. Mas segundo relata a agência de notícias Reuters, logo o país vai tentar algo muito mais extremo: a criação de mosquitos machos em cativeiro, esterilizando-os com raios gama.

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Um bebê de quatro meses de idade, nascido com microcefalia é fotografado em sua casa no bairro de Ibura, Recife – Foto – Tomás Munita

Mas em favelas do Brasil, ou bairros pobres, Munita comentou que é difícil imaginar que a campanha de informação do governo, ou qualquer outra, poderá ter muito efeito sem outras ações por parte das autoridades.

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Uma fisioterapeuta trabalha com crianças com microcefalia que vieram com suas mães para um hospital infantil em Recife – Foto – Tomás Munita

“É quase impossível controlar algo assim nesse tipo de lugar”, diz ele. Muitas casas nas favelas são barracos de papelão e chapas de metal descartado. Além disso, estas áreas possuem limitado acesso à água potável e coleta de lixo. O resultado é a existência de muitos locais que podem armazenar água, criando um terreno fértil para a proliferação dos mosquitos.

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Um soldado distribui panfletos em uma comunidade – Foto – Tomás Munita

Enquanto isso, aqueles que vivem nas camadas mais pobres da Recife devem decidir se vale a pena gastar o seu tempo para seguir os conselhos do governo sobre como prevenir a propagação de mosquitos. Muitos sentem que isso é apenas um fato da vida.

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Bairro do Coque – Foto – Tomás Munita

“O mosquito está em toda parte”, diz Munita. “Realmente, não há muito que podem fazer além de manter sua própria casa limpa. Mas se a do seu vizinho não é limpa, em seguida, toda a vizinhança terá mosquitos e novos casos da doença”.

ADENDO DO TOK DE HISTÓRIA – E JÁ FAZ MUITO TEMPO QUE LUTAMOS CONTRA MOSQUITOS….

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REVISTA O MALHO, RIO DE JANEIRO, 17 DE JUNHO DE 1911

 

DIPLOMATAS NO LABORATÓRIO

Cientistas alemães no aniversário de 80 anos de Bernhard-Nocht (em destaque, na frente), fundador do Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais de Hamburgo, em 1937. Rocha Lima participou da homenagem (ao fundo)
Cientistas alemães no aniversário de 80 anos de Bernhard-Nocht (em destaque, na frente), fundador do Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais de Hamburgo, em 1937. Rocha Lima participou da homenagem (ao fundo)

Projeto investiga o intercâmbio científico entre o Brasil e a Alemanha nazista

Nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, a cidade alemã recebeu mais do que delegações de atletas e turistas. Desembarcaram também na “nova” Alemanha os primeiros estudantes latino-americanos atraídos por cursos, congressos e visitas a instituições médicas do país. As excursões cresceram nos anos seguintes, tornando-se itinerantes. Do Brasil, jovens graduandos, principalmente da Escola Paulista de Medicina, visitaram hospitais, laboratórios e órgãos oficiais, em missões médico-diplomáticas manejadas por ministérios à época dominados pelo Partido Nazista. Algumas eram promovidas pela Academia Médica Germano-ibero-americana, fundada em 1935. O objetivo era fomentar as relações médicas entre Alemanha e países da América Latina.

“A medicina teve papel importante nessas relações diplomáticas porque gozava de grande prestígio internacional, embora não fosse uma ferramenta tão visível de propaganda cultural”, diz o historiador André Felipe Cândido da Silva, da Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz). “Durante o nacional-socialismo, a corporação médica alemã foi um dos segmentos que se alinhou mais estreitamente ao novo regime. Os médicos, como representantes da arena acadêmica, eram porta-vozes convictos do intenso nacionalismo vigente. E havia a dinâmica indústria farmacêutica, com interesse em consolidar seus laços com clientes estrangeiros.” Silva explorou o papel da ciência na diplomacia cultural alemã entre 1919 e 1950, com ênfase na década de 1930, durante pós-doutorado realizado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Por diplomacia cultural entenda-se o esforço germânico que congregou diplomatas e cientistas, universidades, empresas e companhias de navegação, entre outros atores.

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Além das expedições científicas de estudantes, enfermeiros, docentes, pesquisadores e até pacientes, algumas estratégias articulavam médicos e diplomatas entre Brasil e Alemanha. Havia periódicos especializados, como a Revista Médica de Hamburgo, fundada por Ludolph Brauer, organização de encontros científicos internacionais, campanhas sanitárias, consolidação de produtos da indústria farmacêutica alemã e construções de hospitais por vezes voltados à assistência de imigrantes.

Enquanto no Brasil – especialmente no circuito Rio-São Paulo – as faculdades de medicina ganhavam corpo, com maior especialização e interesse tecnológico, sofisticação das técnicas de intervenção cirúrgica e avanços em procedimentos de diagnóstico e profilaxia, a Alemanha já era ponta de lança do desenvolvimento científico. Ali foi elaborado o modelo médico que alicerçou a formação contemporânea com o tripé ensino, assistência clínica e pesquisa universitária em Berlim, Göttingen, Heidelberg e Munique. Descobertas clínicas e inovações cirúrgicas vinham de laboratórios de universidades, indústrias e institutos alemães, que contavam com expoentes como Robert Koch, Rudolf Virchow, Paul Ehrlich, Emil Kraepelin, Emil von Behring, August von Wassermann, entre outros.

Estado da Bahia noticia a visita de Ludolph Brauer, da Universidade de Hamburgo, a Salvador em 1935
Estado da Bahia noticia a visita de Ludolph Brauer, da Universidade de Hamburgo, a Salvador em 1935

As ciências tiveram impacto no contexto político, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. “Tornaram-se ingredientes importantes do prestígio nacional, ainda mais no ambiente de intenso nacionalismo”, diz Silva. Na análise do historiador, a experiência da Primeira Guerra já tinha demonstrado a importância de estruturar complexos nacionais de pesquisa científica, aliando instituições acadêmicas, indústrias, militares e Estado. “Além disso, o discurso científico contribuiu para legitimar ambições territoriais e pretensões de superioridade nacional e racial importantes para conquistar a adesão interna e a externa, de aliados”, observa.

Superioridade cultural

De acordo com Silva, médicos alemães se envolveram na propaganda cultural, persuadidos pela superioridade de sua cultura. Entretanto, após a Primeira Guerra, a ciência alemã ficou relativamente isolada quando parte dos cientistas se manifestou a favor do militarismo germânico. Ademais, físicos, médicos e químicos participaram de estudos como o desenvolvimento de gases letais. A instrumentalização do conhecimento para fins bélicos levou vários países a boicotar a ciência alemã até meados da década de 1920. “É importante, no entanto, distinguir os diferentes níveis da cooperação científica transnacional para ter clareza de que muitos pesquisadores continuaram mantendo contato informal com seus pares de países outrora inimigos. Embora repercutisse internacionalmente, para os latino-americanos não teve praticamente nenhum efeito uma política de boicote levada a cabo por organizações das quais muitos deles não faziam parte”, pondera.

O patologista e microbiologista carioca Henrique da Rocha Lima, por exemplo, se tornou um dos principais colaboradores da diplomacia alemã nas décadas de 1920 e 1930. Rocha Lima descobriu a origem do tifo exantemático em 1916, no Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais de Hamburgo. Na volta definitiva ao Brasil, em 1928, foi uma liderança marcante do Instituto Biológico de São Paulo. O patologista Walter Büngeler, alemão de Danzig (atual cidade polonesa de Gdansk), escolhido para a cátedra da Escola Paulista de Medicina, pretendia ali iniciar um núcleo alinhado à ciência alemã – e correspondeu às expectativas dos oficiais da chancelaria e do Partido Nazista, transformando a escola num celeiro científico para as iniciativas da Academia Médica Germano-ibero-americana, especialmente com as excursões de estudantes.

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O intercâmbio expressivo incluiu nomes como o oftalmologista Antônio de Abreu Fialho, o psiquiatra Antônio Pacheco e Silva, o dermatologista Adolfo Lindenberg, que foram convidados a visitar a Alemanha. Do outro lado, vieram ao Brasil médicos como Franz Volhard, Helmut Ulrici e Walter Unverricht, Heinrich Huebschmann e Karl Fahremkamp, entre outros. Diretor do Hospital Eppendorf, Ludolph Brauer visitou o Rio, Salvador e São Paulo – ali ainda passou pela distante colônia de Presidente Epitácio, onde existia uma ativa célula do Partido Nazista. A deflagração da Segunda Guerra Mundial, em 1939, abalou o intercâmbio científico, que acabou a partir da entrada do Brasil no conflito, ao lado dos Aliados, em 1942.

Projeto

As relações científicas germano-brasileiras no contexto da medicina paulista (1919-1950) (nº 2011/51984-5); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisadora responsável Maria Amélia Mascarenhas Dantes (FFLCH-USP); Bolsista André Felipe Cândido da Silva; Financiamento R$ 227.531,91 (FAPESP).

JULIANA SAYURhttp://revistapesquisa.fapesp.br/2015/05/15/diplomatas-no-laboratorio/

PRISIONEIROS ALEMÃES DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL CONSTRUÍRAM BAIRRO NOBRE DE GOIÂNIA

Prisioneiros alemães capturados por tropas norte americanas, em junho de 1944
Prisioneiros alemães capturados por tropas norte americanas, em junho de 1944

Protocolo assinado entre governos goiano e inglês resultou na vinda de 50 oficiais das Forças Armadas alemãs aprisionados no Reino Unido para Goiás. Supostos nazistas teriam desenhado planta urbanística ao estilo alemão

Autor – Frederico Vitor

Não é segredo que de­pois da derrocada da Alemanha nazista do ditador Adolf Hitler na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), dezenas de partidários do nacional-socialismo — Partido Nazista —, a maioria criminosos de guerra e genocidas, se refugiaram na América Latina. Muito deles se esconderam na Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Brasil. Porém é pouco conhecida a história de uma leva de oficiais da Wehrmacht — forças armadas da Alemanha hitlerista — que desembarcou em Goiânia. Mais desconhecido ainda — e surpreendente — é que eles teriam desenhado a planta e construíram as avenidas e ruas do que é hoje o Setor Jaó, bairro nobre da capital goiana.

Tal história, que é rodeada de enigmas e muito segredo, não é muito explorada pelos historiadores locais. Contudo é fato que 50 prisioneiros alemães vieram do Reino Unido para Goiás em 1947, durante a administração do governador Jerô­ni­mo Coimbra Bueno.

Prisioneiros alemães ajudando na colheita em solo britânico. Existiram 1.026 campos de prisioneiros na Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial – Foto - Hulton Archive/Getty Images
Prisioneiros alemães ajudando na colheita em solo britânico. Existiram 1.026 campos de prisioneiros na Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial – Foto – Hulton Archive/Getty Images

O início desta fas­cinante saga germânica por terras goia­nas se deu em uma visita do che­fe do Executivo estadual ao em­bai­xador britânico, na sede da embaixada, no imponente palácio localizado na Rua São Clemente, no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, que nos anos 40 ainda era capital federal.

Durante a conversa, regada por muito “scotch” — legítimo uísque escocês —, o embaixador pediu ao governador de Goiás um favor um tanto quanto inusitado: acolher no Estado 50 prisioneiros de guerra alemães. Coimbra Bueno, surpreendido e desconcertado com o pedido, elegantemente, teria acatado o desejo do representante inglês no Brasil. Assinado o protocolo junto à embaixada britânica, numa data desconhecida de 1947, um avião que provavelmente pertencia à Royal Air Force (RAF) — Força Aérea Real — aterrissou em Goiânia com os 50 militares alemães a bordo.

Palestra de um oficial inglês, junto a prisioneiros alemães.
Palestra de um oficial inglês, junto a prisioneiros alemães.

Ao desembarcarem da aeronave, um capitão do Exército britânico teria estendido o braço a uma autoridade estadual, passando-lhe um recibo que deveria ser assinado. O documento atestaria ao governo de Vossa Majestade a posse dos prisioneiros alemães por parte do Estado de Goiás. Ao pisarem em solo goiano, os alemães, todos oficiais e de elevado nível intelectual, não vieram apenas com a roupa do corpo. Eles trouxeram malas e demais pertences pessoais que, juntamente com eles, foram transportados para a penitenciária de Goiânia — à época localizada na Avenida Independência, atual área de treinamento da Delegacia de Operações Especiais, Grupo Tático 3 (GT3) da Polícia Civil e antiga Casa de Prisão Provisória (CPP) —, no Centro da capital.

Típico oficial alemão durante a Segunda Guerra Mundial
Típico oficial alemão durante a Segunda Guerra Mundial

Toda a operação de traslado dos europeus até a prisão foi realizada de forma secreta, sem mídia e sem alardes. O vazamento da no­tícia de que o governo de Goiás teria recebido um grupo de prisioneiros “nazistas” poderia se transformar em um grande escândalo, provocaria um alvoroço sem precedentes. Por isso, para não chamar muita atenção e para primar pelo sigilo que o caso exigia, os alemães foram transferidos da penitenciária para a Fazenda Retiro da Interestadual Mercantil S/A, pertencente a José Maga­lhães Pinto, banqueiro e político mi­neiro da antiga UDN, que depois seria go­vernador de Minas Gerais (1961-1966), e principal acionista do então Banco Nacional, uma das maiores instituições bancárias do País.

Surge o Jaó

Coimbra Bueno, formado na Escola Politécnica de Engenharia da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1933, especialista em urbanismo, teve a ideia de urbanizar a Fazenda Retiro, às margens do Rio Meia Ponte, que servia de acampamento aos alemães. Magalhães Pinto aprovou a ideia e o governo goiano teria total autonomia nas decisões do projeto. O único pedido do banqueiro foi a denominação das avenidas Pampulha e Belo Horizonte, para homenagear a capital mineira, no que viria ser o Setor Jaó.

Advogado Artur Rios é entusiasta e pesquisador  do assunto: "Estado deve ter lista com o nome dos 50"
Advogado Artur Rios é entusiasta e pesquisador do assunto: “Estado deve ter lista com o nome dos 50”

O advogado e morador do bairro Arthur Rios é um pesquisador do assunto e detém uma cópia da planta original do setor que, provavelmente, teria sido desenhada pelos alemães e assinada pelo engenheiro Tristão Pereira da Fonseca, já que os europeus não tinham registro no Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea) para tal. Ele conta que os prisioneiros ficavam acampados em barracas às margens do que é hoje a represa Jaó, e eram vigiados pelo Estado. Mais tarde, todos eles empregados pelo loteador, ganhariam a liberdade. “Apresentem o mapa do loteamento a um urbanista brasileiro, vão notar ideias alienígenas para o Brasil em 1947 e 1950”, diz Arthur Rios.

Livres para decidirem como seria o novo bairro, os alemães adotaram o nome Setor Jaó, em alusão a um pássaro comum à região. Eles impuseram os padrões germânicos aos logradouros, com ruas e avenidas largas e encurvadas, com os espaços verdes extremamente valorizados. Com exceção das Avenidas Belo Hori­zon­te e Pam­pulha, os nomes das demais vias começavam o “J” de Jaó, uma característica alemã de não atribuir nomes aos endereços. Esse sistema de nomenclatura também era usado em outras áreas, como por exemplo, nos submarinos na Segunda Guerra Mun­dial. A temida força U-boat sempre denominava os submergíveis de “U” sucedido de frios três dígitos. O mesmo sistema seria adotado para batizar as ruas do recém-criado loteamento de Goiânia, como Rua J-33, por exemplo, e assim em diante.

Soldados ou criminosos?

Mesmo hoje, o traçado do Setor Jaó impressiona. O conceituado arquiteto e urbanista Luiz Fernando Cruvinel Teixeira, responsável pelo projeto urbano da cidade de Pal­mas, capital do Estado do To­cantins, ao analisar a planta original do Jaó desenhada pelos alemães, afirma que o projeto valoriza o orgânico, ou seja, houve um alto aproveitamento da natureza do local.

O arquiteto e urbanista Luiz Fernando Cruvinel Teixeira ressalta que planta urbanística valorizou o orgânico
O arquiteto e urbanista Luiz Fernando Cruvinel Teixeira ressalta que planta urbanística valorizou o orgânico

“Isso mostra certa diferença do que se fazia antes aqui, embora o Setor Sul seja um dos projetos mais interessantes que eu vejo em Goiânia”, diz. “Essa característica de organicidade do desenho prova que tirou-se partido da natureza. Até hoje os alemães são muito mais ligados à natureza do que nós latinos. Florestas já foram replantadas na Alemanha e o próprio Partido Verde começou por lá.”

Ao término dos trabalhos de loteamento do Setor Jaó, em 1952, os alemães receberam uma recompensa pela colaboração. A maioria foi convidada pelo presidente Juan Domingos Perón a mudar-se para Argen­tina. Outros, por conta própria, foram para São Paulo. Em Goiânia permaneceram apenas três: Werner Sonnenberg, Otto Hoffmann e Paul Boetcher. Pouco se sabe do paradeiro do restante. Possivelmente, os arquivos do Estado de Goiás devem ter a lista com os nomes dos 50. Há a possibilidade real de que alguns deles possam ser de fato nazistas ou criminosos de guerra, da mesma forma que possam ser apenas militares aprisionados pelo inimigo.

A dedução se baseia no fato de que vários genocidas partidários do nacional-socialismo se refugiaram na América do Sul após a derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Muitos deles foram presos pelo Mossad — serviço secreto israelense — em Buenos Aires e na Patagônia argentina. Uma parte destes fugitivos esteve no Paraguai durante regime do ditador Alfredo Stroessner, e até mesmo no Brasil. O caso mais emblemático foi o de Josef Mengele, morto por afogamento em 1979, em Bertioga, no litoral paulista. O médico alemão, conhecido como “anjo da morte”, foi acusado de ter cometido atrocidades vis contra prisioneiros judeus e ciganos no complexo de Aus­chwitz-Birkenau, campo de concentração operado pelos nazistas no sul da Polônia.

Parque Beija Flor; avenidas curvas e muita área verde ao estilo alemão
Parque Beija Flor; avenidas curvas e muita área verde ao estilo alemão

Mas, nem todos os alemães que lutaram na Segunda Guerra eram partidários do nazifascismo. O advogado Arthur Rios alerta para este detalhe no caso dos 50 prisioneiros germânicos que construíram o Jaó. Ele afirma que o engenheiro Tristão Pereira lhe confidenciou que, naquela época, era vítima de desconfiança de terceiros por não esconder sua admiração e simpatia pela técnica aprimorada dos alemães do Jaó. “A verdade é que a história é contada pelos vencedores e não pelos vencidos. Fica a dúvida se a maioria deste grupo era de nazista ou eram apenas soldados alemães, conhecidos por serem bons cumpridores de ordens.”

Atual planta urbanística do Setor Jaó; bairro idealizado por prisioneiros alemães privilegia área verde do local
Atual planta urbanística do Setor Jaó; bairro idealizado por prisioneiros alemães privilegia área verde do local

O professor de História da Universidade Federal de Goiás (UFG) Luís Sérgio Duarte da Silva ressalta que não há importância se os alemães do Jaó eram ou não nazistas. Para ele, o fundamental é que o fato reforça a história de uma nova cidade que acolhia a todos e que abria novas fronteiras, neste caso, o da imensidão do Brasil Central. “Goiânia foi uma cidade que abrigou comunistas nos anos 30 e 40, Pedro Ludovico os protegia. Agora mais essa notícia de que outro governador trouxe supostos nazistas. Uma característica importante é que o governo, naquela época, trazia qualquer um que pudesse ajudar na construção da cidade.”

Técnicos estrangeiros

Em novembro de 1934, os irmãos Abelardo e Coimbra Bueno, originário de Rio Verde, aceitam a proposta de tocar o projeto de urbanização de Goiânia por meio da empresa Coimbra Bueno & Pena Chaves Ltda. Na década de 40, a empresa trouxe técnicos do exterior para dar continuidade ao projeto, entre eles o engenheiro civil belga Gustav von Aderup, responsável pelos cálculos das estruturas de vários edifícios, como por exemplo, o Cine Teatro Goiânia.

Mapa de Goiânia, mostrando a área onde os alemães trabalharam
Mapa de Goiânia, mostrando a área onde os alemães trabalharam

A empresa dos irmãos Coimbra Bueno também trouxe para seu corpo técnico Salvador Trotta, arquiteto italiano que trabalhou como desenhista na seção de arquitetura. Jan Wladyslaw Kaufer Wisniewski, engenheiro cartógrafo polonês, demarcou o Setor Aeroporto. O engenheiro e sanitarista alemão Werner Sonnemberg, um dos integrantes da leva dos 50 prisioneiros que desenharam o Jaó, foi o responsável pelo projeto de água e esgoto da cidade. O arquiteto e agrimensor alemão Josef Neddermeyer dirigiu a seção técnica de arquitetura e topografia das obras. Stefan Szucs, pintor húngaro, trabalhou no acabamento do Palácio das Esmeraldas, sede do governo goiano.

Desenho urbanístico de Goiânia é do arquiteto e urbanista Atílio Correa Lima sob modelo francês
Desenho urbanístico de Goiânia é do arquiteto e urbanista Atílio Correa Lima sob modelo francês

Em relação ao Setor Jaó, antes de abandonar o projeto de Goiânia, Atílio teria sugerido a utilização da represa para uma base de hidroaviões, comum naquela época, já que o transporte por terra era muito deficiente. Mas, de fato, naquele leito, mais especificamente na cachoeira Jaó, foi construída a primeira usina que produziria eletricidade para a nova capital. A usina começou a ser construída no dia 4 de janeiro de 1935, mas a obra esteve paralisada por longo período por falta de verba até ser inaugurada em 1938.

No dia 3 de abril de 1945, o excesso de chuvas danificou seriamente a estrutura e os equipamentos da usina. Goiânia enfrentou grande período de falta de energia elétrica e a alternativa encontrada foram os geradores particulares. Para suprir a iluminação pública, se usou motor de um submarino alemão. Por breve período, a máquina foi o responsável pela geração de energia que iluminaria as noites da capital. Para que pudesse ser refrigerado, o propulsor foi instalado às margens do córrego Botafogo. Já a usina do Jaó só foi completamente reconstruída em 1947, justamente o ano da chegada dos 50 prisioneiros alemães. Hoje, a construção em que se encontrava o antigo maquinário está completamente abandonada.

Ás alemão trabalhou para o governo goiano e ajudou na construção de Brasília

A relação de Goiás com ex-oficiais alemães que combateram os Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, não ficou restrita aos alemães que ajudaram a construir o Setor Jaó.

O alemão Martin Drewes, que combateu na Segunda Guer­ra Mundial como piloto de caça noturno, teve Goiás como primeiro destino em terras brasileiras. No país desde 1949, esteve a serviço do governo estadual em 1951, e trabalhou na aerofotogrametria do Estado, inclusive fez fotos aéreas para a construção de Brasília. Sua carreira começou no Exército alemão, teve breve passagem pela divisão Panzer — regimento de tanques de guerra —, mas sua vo­cação o levou para a força aérea,  alcançando o posto de major.

Martin Drewes
Martin Drewes

Durante o conflito, o aviador abateu 52 aeronaves aliadas em 235 missões de combate.  Um de seus artilheiros de bordo, Walter Scheer, se tornou presidente da Alemanha Ocidental em 1974. Ele chegou ser prisioneiro dos ingleses na Alemanha ocupada e mudou-se para o Brasil depois da guerra, onde trabalhou como piloto civil. Em sua casa, na cidade catarinense de Blumenau, guardava na parede um telegrama recebido do próprio Hitler, em abril de 1945, que lhe concedia uma das maiores condecorações militares alemãs. Em entrevista à televisão brasileira, Drewes negou-se a comentar sobre a política da época: o nazismo e o holocausto.

O piloto alemão morreu no dia 16 de outubro deste ano, aos 94 anos, por falência múltipla dos órgãos. Viúvo, ele teve uma filha na Alemanha e um filho no Brasil.

Fonte – http://jornalopcao.com.br/posts/reportagens/prisioneiros-alemaes-da-segunda-guerra-mundial-construiram-bairro-nobre-de-goiania#.UnXEDYYjqxI.facebook

P.S. – AGRADEÇO DE CORAÇÃO A AMIGA CARINA DOURADO, O ENVIO DESTE INTERESSANTE MATERIAL. CARINA,  UMA ORGULHOSA FILHA DE GOIÁS, É UMA COMPETENTE E ATENCIOSA JORNALISTA DA TV BRASIL, A QUAL TIVE O PRIVILÉGIO DE PERCORRER, JUNTO COM A SUA COMPETENTE EQUIPE, O CINEGRAFISTA OSVALDO SANTOS E O TÉCNICO ALEXANDRE, OS CAMINHOS DO CANGAÇO PELO NOSSO NORDESTE. VEJAM ESTE TRABALHO NESTE LINK – https://tokdehistoria.wordpress.com/2013/09/11/link-para-o-programa-caminhos-da-reportagem-e-a-rota-do-cangaco-na-tv-brasil/

OS LATINO-AMERICANOS NAS GRANDES GUERRAS

Artilheiro da FEB na Itália. O Brasil foi o país latino-americano que mais esteve engajado nos dois conflitos mundiais do século XX
Artilheiro da FEB na Itália. O Brasil foi o país latino-americano que mais esteve engajado nos dois conflitos mundiais do século XX

A preferência dos países desta região do mundo pela neutralidade não impediu a participação de seus militares nos grandes conflitos

A participação da Colômbia na Guerra da Coréia, um episódio em que a Guerra Fria ficou bem mais quente, é uma exceção. Historicamente, os países latino-americanos têm preferido a neutralidade em grandes conflitos internacionais e a maioria se limitou a participar em missões de paz sob a bandeira das Nações Unidas.

Até 1917, a participação da grande maioria dos países latino-americanos nas guerras europeias havia sido simplesmente para vender suprimentos e matérias primas para os países em conflito. A primeira conflagração internacional em que um país da América Latina decidiu intervir diretamente foi a Primeira Guerra Mundial. Após a entrada dos Estados Unidos no conflito, em 1917, vários países da região, entre os quais Cuba, Panamá, Bolívia e Uruguai, declararam guerra à Alemanha, mas só o Brasil passou a enviar tropas, que só chegaram à Europa um dia antes da declaração do armistício.

Foi na Segunda Guerra Mundial, onde a intervenção dos países latino-americanos se tornou mais importante. Durante os dois primeiros anos do conflito (1939 a 1941), a política de boa vizinhança impulsionada pelo então presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, buscou a neutralidade do continente americano e a solidariedade em caso de ataque dos beligerantes. Após o bombardeio de Pearl Harbor, em dezembro de 1941 , nove países da América Latina declararam guerra ao eixo formado por Alemanha, Itália e Japão.

O chamado "Escuadrón de Pelea 201" com o qual os aviadores mexicanos combateram durante a Segunda Guerra Mundial.  A unidade voou mais de 95 missões de combate, totalizando mais de 1.900 horas de voo. Os mexicanos participaram do esforço aliado para bombardear Luzon e Formosa, durante a expulsão dos japoneses daquelas ilhas. Durante sua luta nas Filipinas, cinco pilotos do esquadrão morreram.
O chamado “Escuadrón de Pelea 201” com o qual os aviadores mexicanos combateram durante a Segunda Guerra Mundial. A unidade voou mais de 95 missões de combate, totalizando mais de 1.900 horas de voo. Os mexicanos participaram do esforço aliado para bombardear Luzon e Formosa, durante a expulsão dos japoneses daquelas ilhas. Durante sua luta nas Filipinas, cinco pilotos do esquadrão morreram.

México juntou-se aos Aliados em 1942, após o afundamento de vários navios petroleiros mexicanos por submarinos alemães, na costa dos Estados Unidos. O governo liderado por Manuel Ávila Camacho ordenou a criação da Força Aérea Expedicionária Mexicana (FAEM), que lutou nos céus das Filipinas, durante os primeiros meses de 1945. Dos 30 pilotos do Esquadrão 201, três morreram em combate e três em acidentes aéreos.

Foto do pequeno caça submarino CS-13, da marinha cubana, que em 15 de maio de 1943, sob o comando do alferes Mario Ramirez Delgado, afundou o submarino alemão U-176, comandado pelo Kapitänleutenant Reiner Dierksen. Este submarino tinha afundado 11 navios, num total de 53.307 Ton.
Foto do pequeno caça submarino CS-13, da marinha cubana, que em 15 de maio de 1943, sob o comando do alferes Mario Ramirez Delgado, afundou o submarino alemão U-176, comandado pelo Kapitänleutenant Reiner Dierksen. Este submarino tinha afundado 11 navios, num total de 53.307 Ton.

O México também contribuiu para a defesa costeira contra os ataques do Eixo. Outros países concentrou seu esforço de guerra na defesa de suas águas territoriais. A Marinha cubana, por exemplo, afundou um submarino alemão U- 176, de maio de 1943.

Mas o país latino-americano com maior destaque na contribuição para o esforço de guerra seria novamente o Brasil. Depois da declaração de guerra ao Eixo em 1942, o Brasil permitiu a construção de bases aéreas em seu território, o que seria importante durante a Operação Torch (Tocha), a invasão aliada do norte da África. O Brasil foi o único país sul-americano que enviou tropas para a Europa. Era a sua Força Expedicionária Brasileira, com mais de 25.000 membros, sob o comando do general Mascarenhas de Moraes, que lutaram na Itália entre 1944 e 1945. Mais de 400 brasileiros caíram em batalha.

Fonte – http://internacional.elpais.com/internacional/2013/07/26/actualidad/1374865013_450191.html

CHÁVEZ MORREU, E AGORA?

Hugo-Chavez

Brena Queiroz – Estudante de Jornalismo – UFRN

Fonte – http://serjornalinda.wordpress.com/2013/03/05/chavez-morreu-e-agora/

Se eu hoje não fosse uma estudante do curso de comunicação, eu deixaria esse assunto pra lá… Mas como hoje sei que é preciso ter opinião pra tudo (o que é meio infeliz de vez em quando),  dei uma estudadinha em Hugo Chávez e vim nesse post falar da trajetória desse ditador que divide opiniões, além de expressar minha opinião no final, me baseando no que li.

Hugo subiu ao poder em 1988 (assumindo em 99) e mudou as diretrizes governamentais na Venezuela, impondo um governo de esquerda e nada liberal.  O que ele chamou de Revolução Bolivariana foi interpretado por “socialismo do século XXI”, que mantinha uma relação  nada amigável com as nações desenvolvidas, principalmente com os Estados Unidos. Chávez era contra o capitalismo e polemizou em suas desavenças. Ele se inspirava, principalmente, no líder cubano Fidel Castro e sua ideologia tinha  como objetivo “unir a democracia participativa com um partido civil-militar de esquerda”. Bem inteligente.

Uma de duas primeiras medidas ditatoriais foi a criação de uma lei que permitia ao presidente governar o país por um ano e criasse decretos sem intervenção da Assembleia. Huguinho usou e abusou do seu poder e criou, logo de cara decretos radicais e nacionalistas que deixaram a sociedade venezuelana bolada. Outra mudança na Constituição foi a possibilidade dele poder ser reeleito, além do aumento do mandato, que antes era de 5, para 6 lindos anos de puro amor.

Teve gente que tentou mudar isso. Em uma tentativa de golpe de Estado, Chávez foi sequestrado por aproximadamente dois dias. Quando foi solto, voltou mais “bonzinho” ainda e intensificou a força da sua ditadura, o que fez com que a insatisfação aumentasse e que greves surgissem com o intuito de interromper seu mandato. O que não deu certo. Em 2002, pelo menos 15 pessoas morreram nos embates entre as frentes políticas. Uma nova tentativa de Golpe de Estado foi feita, também fracassada. Foi até anunciado que Chávez, no momento preso, renunciaria o cargo. Mas no outro dia a mensagem foi desmentida e ele voltou para assumir o comando. (Posso até ter me enrolado, mas o importante é saber que o governo do camarada foi cheio de idas e vindas nada agradáveis).

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Em 2003, fez-se uma consulta popular sobre sua permanência no poder e mais de 50% concordou que o Hugo administrasse a Venezuela até o fim do mandato. As eleições chegaram e Huguinho foi reeleito.  [O incrível é analisar o grau de insatisfação e perceber que o cara foi reeleito. Era estranho até eu achar isso nas internets da vida http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=b7o780KbHWM e ler que o adversário Manuel Rosales foi processado por enriquecimento ilícito].

O seu terceiro mandato, 2007, foi mais tranquilo porquê não havia oposição no Congresso. Chávez conseguiu ampliar seus poderes e seus decretos até que uma reforma (sobre esses poderes) na Constituição  foi proposta e submetida ao veredicto da população. Os venezuelanos se posicionaram contra e Chávez foi pra frente da TV anunciar que acatava a decisão da galera.  Por falar em veículos de comunicação, devo dizer que Huguinho não foi nada gentil com a imprensa. É só lembrar da ditadura no Brasil e pensar em algo semelhante. “O governo expandiu drasticamente sua capacidade de controlar o conteúdo das transmissões e da cobertura de notícias no país. Ele (Chávez) ampliou e reforçou as multas por discursos que “ofendam” funcionários do governo, proibindo a transmissão de mensagens que “gerem ansiedade no público” e permitindo a suspensão arbitrária de canais de TV, emissoras de rádio e websites”. Massa.

Para terminar essa aula de história, é válido lembrar que em 2009 a “Venê” passou por uma crise energética onde Chavinho propôs que a população tomasse menos banho para economizar água e energia (imagina isso no Brasil?!) e que ano passado, saudoso 2012, o falecido – que já estava com câncer há pelo menos 1 ano e meio – ganhou as eleições “mais acirradas dos últimos tempos”. Todos sabem que ele não conseguiu tomar posse por já estar debilitado, e que ele morreu com 58 anos devido ao câncer (óbvio) e a umas complicações das cirurgias. Enfim. Para quem não sabia nada de Chávez, esse texto deve ter ajudado. Mas vamos lá!

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O que vou falar de Chávez quando me perguntarem sobre isso tudo?

Primeiro vou agradecer por não ter nascido na Venezuela. Segundo tenho que dizer que procurei pela internet “elogios ao governo de Hugo Chávez” e só encontrei  que ele foi importante nas negociações de paz entre o governo colombiano e as Farc (ajudou a mediar a libertação de seis reféns).  Em terceiro, vou dizer que não sou venezuelana pra falar com convicção sobre, mas que percebi que, se Hugo tinha algum propósito bom por trás disso tudo, eu não consegui reconhecer e ele não soube fazer da maneira que era pra fazer. Sou contra a ditadura, principalmente quando se fala da falta da liberdade de expressão (qual a graça de ser jornalista nesses lugares?). Acho que esse estilo de governo se torna ultrapassado quando começa a desandar a relação da sociedade dentro de seu próprio território. A Venezuela pode ter ganhado pontos bons com esses anos, mas também perdeu muitos. E, mesmo com a morte do ditador, fala-se que o país não mudará muito. E essa é a parte que vou custar a entender. Parte da população reclama por anos e quando tem a oportunidade de virar o jogo, ainda ficam nessa? Agora o que se tem a fazer é esperar pelo sucessor e torcer para que a Venê cresça e recupere o que se perdeu.

E é nessas horas que  a gente agradece pelo Brasil-sil-sil que temos. Oh pátria amada, idolatrada, salve salve! s2