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HISTÓRIA DE LAMPIÃO DEVE GANHAR TRILOGIA GRAVADA NOS MOLDES DE O SENHOR DOS ANÉIS

4-Lampião gostava de mostrar-se um homeme inteligente perante as câmeras
Lampião

Diretor planeja filmar simultaneamente os três longas que irão compor épico nordestino

Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, já foi retratado algumas vezes no cinema, como em Baile Perfumado (1997) e A luneta do tempo (2016). E, no próximo ano, o mais célebre dos cangaceiros deve ganhar a tela grande em projeto ambicioso: uma trilogia gravada no Sertão nordestino, com lançamento do primeiro filme em 2018. 

“É um resgate histórico”, diz o diretor estreante Bruno Azevedo, que já atuou como assistente de direção e esteve à frente de curtas e documentários. “A ideia é fazer como Peter Jackson em O senhor dos anéis e O hobbit“, explica o cineasta sobre a proposta de gravar os três longas simultaneamente, como ocorreu nas filmagens dos épicos inspirados na obra de J.R.R. Tolkien. 

E, assim como nas duas séries de fantasia, a produção dos filmes de Lampião deve ser de grandes proporções. “Somente na parte técnica, deve envolver mais de 300 pessoas”, afirma Azevedo, que espera iniciar as filmagens ainda em 2017, para estrear o primeiro filme a tempo do aniversário dos 80 anos de morte de Virgulino Ferreira, em junho do próximo ano. A intenção é lançar segunda e terceira partes em 2019, com alguns meses de diferença. 

O diretor pretende rodar os filmes nos locais por onde o bando de Lampião passou, incluindo a cidade natal do cangaceiro, Serra Talhada, no sertão de Pernambuco. Atualmente a trilogia está em desenvolvimento e a pré-produção deve ter início em setembro.

EXISTE NO YOU TUBE UMA ENTREVISTA DE 2015 SOBRE ESTE FILME, COM O DIRETOR.

FONTE – http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2017/03/22/internas_viver,695372/historia-de-lampiao-deve-ganhar-trilogia-gravada-nos-moldes-de-o-senho.shtml

EXPEDIÇÃO ANGICO – UM GRUPO DE PESQUISADORES BUSCA COMPREENDER COMO FORAM MORTOS O CANGACEIRO LAMPIÃO, MARIA BONITA E SEUS COMPANHEIROS NA GROTA DO ANGICO

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Da esquerda para a direita: Giovane Macário, José Lopes Tavares, Cristiano Ferraz, Richard Torres Pereira, Sálvio Siqueira, Maria Oliveira, Sargento Romilson e Vaneildo Bispo.

78 Anos Depois do Ataque da Polícia Contra o Esconderijo dos Cangaceiros de Lampião na Grota do Angico, Um Grupo de Pesquisadores Nordestinos Pernoitam no Local Buscando Compreender o que Aconteceu. E Lá se Depararam com um Sério Ato de Vandalismo!

 Autor – Rostand Medeiros

As questões que envolvem a morte de Lampião, Maria Bonita e outros cangaceiros na famosa Grota do Angico, em 1938, sempre foi algo muito espinhoso entre os que estudam o tema Cangaço.

Para muitos o chefe cangaceiro Lampião foi pego de surpresa, com a guarda baixa e pagou com a vida. Para outros essa surpresa existiu porque ele e demais membros do bando foram envenenados.

Já logo após as mortes em Angico começaram a surgir uma série de conjecturas, dúvidas e debates sobre como se desenrolaram os acontecimentos relativos àquele combate, as razões das mortes dos cangaceiros e muitas outras questões.

Para ter uma ideia, apresento-lhes uma das muitas narrativas existentes na Internet sobre o fim de Lampião.

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Lampião, o Rei do Cangaço.

“No dia 27 de julho de 1938, o bando acampou na fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe, esconderijo tido por Lampião como o de maior segurança. Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas. A volante chegou tão de mansinho que nem os cães pressentiram. Por volta das 5:15 do dia 28 de julho, os cangaceiros levantaram para rezar o oficio e se preparavam para tomar café; quando um cangaceiro deu o alarme, já era tarde demais.

Não se sabe ao certo quem os traiu. Entretanto, naquele lugar mais seguro, o bando foi pego totalmente desprevenido. Quando os policiais do Tenente João Bezerra e do Sargento Aniceto Rodrigues da Silva abriram fogo com metralhadoras portáteis, os cangaceiros não puderam empreender qualquer tentativa viável de defesa.

O ataque durou uns vinte minutos e poucos conseguiram escapar ao cerco e à morte. Dos trinta e quatro cangaceiros presentes, onze morreram ali mesmo. Lampião foi um dos primeiros a morrer. Logo em seguida, Maria Bonita foi gravemente ferida. Alguns cangaceiros, transtornados pela morte inesperada do seu líder, conseguiram escapar. Bastante eufóricos com a vitória, os policiais apreenderam os bens e mutilaram os mortos. Apreenderam todo o dinheiro, o ouro e as jóias.

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Lampião, Maria Bonita e seus cangaceiros.

A força volante, de maneira bastante desumana para os dias de hoje, mas seguindo o costume da época, decepou a cabeça de Lampião. Maria Bonita ainda estava viva, apesar de bastante ferida, quando foi degolada. O mesmo ocorreu com Quinta-Feira, Mergulhão (os dois também tiveram suas cabeças arrancadas em vida), Luis Pedro, Elétrico, Enedina, Moeda, Alecrim, Colchete (2) e Macela. Um dos policiais, demonstrando ódio a Lampião, desfere um golpe de coronha de fuzil na sua cabeça, deformando-a; este detalhe contribuiu para difundir a lenda de que Lampião não havia sido morto, e escapara da emboscada, tal foi a modificação causada na fisionomia do cangaceiro.” 

Sobre este texto ver – http://www.meionorte.com/blogs/josefortes/a-morte-de-lampiao-e-seu-bando-174209

Uma Ideia Muito Interessante

Atualmente, como em muitas áreas de pesquisa, as pessoas que se debruçam sobre o tema do Cangaço se dividem em dois grupos majoritários – Os que pesquisam basicamente em documentos, livros, jornais, bibliotecas e outros locais que lhes tragam informações e pouco vão a campo. Além destes temos os que buscam seguir com maior ênfase “comendo poeira” nas estradas do sertão em busca da tradição oral e dos registros existentes nas memórias coletivas das comunidades distantes do Nordeste e utilizando em menor proporção material documental.

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E, como é normal neste ramo de atividade, as duas vertentes possuem bons e maus trabalhos resultantes destas pesquisas e sempre novas produções estão sendo publicadas.

Mas uma nova tendência parece haver surgido nas pesquisas do Cangaço – A dos pesquisadores que se unem para passar algum tempo em locais onde os fatos mais intensos relativos a este tema aconteceram – Os locais de combate.

E o local onde, aparentemente, isso ocorreu pela primeira vez foi na controversa Grota do Angico. Um grupo de pesquisadores nordestinos realizou recentemente uma interessante empreitada de permanência neste local.

Sempre fui uma pessoa que admiro as iniciativas de pesquisadores que buscam conhecer mais a fundo aquilo que estudam e acreditam. E confesso que fico mais entusiasmado com pessoas que desenvolvem novas e interessantes iniciativas em prol do conhecimento.

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Recebi informações que essa idéia surgiu por dois caminhos distintos, mas com os mesmos objetivos.

Em maio de 2016, na companhia do artista plástico Sérgio Azol, eu estive na cidade pernambucana de Floresta, onde conhecemos e fomos recepcionados pelos escritores e pesquisadores Marcos Antonio de Sá, conhecido como “Marcos De Carmelita” e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, que recentemente lançaram o interessante livro “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE”. Durante nossa visita Marcos me comentou que em diálogo com os irmãos Francisco e Washington Rodrigues Correa, proprietários do Restaurante Angico, às margens do Rio São Francisco, surgiu a ideia de pernoitar na Grota e ele recebeu apoio desses irmãos.

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1938 – Um dia após o combate na Grota do Angico, policiais e curiosos contemplam o cadáver decapitado de Maria Bonita.

Tanto Marcos como Cristiano são agentes da Polícia Civil do Estado de Pernambuco e atuam na área de caatinga, mostrando que pernoitar naquele local não seria algo problemático e seria algo muito positivo, pois existiam mais perguntas do que respostas aos chamados “Mistérios de Angico”. Marcos desejava com esta permanência contrapor informações e realizar uma pesquisa que poderia ampliar as discussões envolvendo os fatos que se deram na Grota do Angico.

Infelizmente, por problemas de saúde, não houve condições da participação de Marcos de Carmelita na empreitada ocorrida recentemente e que descrevemos neste texto. Felizmente o mesmo se encontra em plena recuperação.

Outro que teve o mesmo pensamento e igualmente desejou realizar uma empreitada nos mesmos moldes foi Sebastião Giovane Gomes de Sá. Ele é conhecido como “Giovane Macário”, é natural da cidade pernambucana de Floresta e a idéia surgiu após entrevistar Manoel Cavalcanti de Souza, um antigo membro das forças volantes que perseguiram os cangaceiros e ficou conhecido como “Neco de Pautilia”. Este faleceu em 29 de maio de 2014, aos 101 anos de idade, mas antes de sua partida Giovane lhe prometeu, em meio a um interessante diálogo sobre o tema, que um dia buscaria pernoitar na área da Grota do Angico, com o objetivo de ter uma idéia bem real de como se desenrolaram os episódios envolvendo a morte do maior chefe cangaceiro e sair de lá com muitas respostas. Ou com muito mais perguntas!

Seguindo para a Grota do Angico

Entre preparativos e inúmeros contatos via Internet, nomes foram sendo incluídos e depois retirados por razões diversas. Mas ficou definido que o grupo seguiria para a Grota do Angico no dia 27 de julho de 2016, pernoitando no local e só deixando a área no dia seguinte.

Para reunir os participantes do grupo de pesquisa, além do significado óbvio da data, foi aproveitado a ocorrência do evento Cariri Cangaço, que aconteceria entre os dias 28 a 30 de julho, na cidade de Piranhas, Alagoas. Aonde diversas pessoas de todo Brasil que pesquisam, tem interesse, ou mera curiosidade pelo tema Cangaço, estariam reunidas na região.

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Vista da Grota do Angico. Foto realizada pelo autor deste texto, em uma recente visita junto com o artista plástico Sérgio Azol.

Além do Cariri Cangaço estava marcado no dia 28 de julho, na própria Grota do Angico, a 19ª edição da Missa do Cangaço. Este é um evento organizado pela jornalista Vera Ferreira, neta de Lampião, e integrantes do Museu do Cangaço, com apoio logístico da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do Estado de Sergipe (SEMARH). 

Salvo alguma informação em contrário e que desconheço, os integrantes deste grupo teriam a honra de serem os primeiros a pernoitar na área com o objetivo de pesquisa, estando no local do combate no dia em que o episódio completava 78 anos de sua ocorrência.

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Outra foto do grupo que pernoitou no local.

Este grupo foi formado por Sálvio Siqueira (de São José do Egito, Pernambuco), Cristiano Luiz Feitosa Ferraz e Giovane Macário (ambos de Floresta, Pernambuco), José Lopes Tavares (de Verdejante, Pernambuco, mas residente na cidade do Recife), Romilson Santos (de Aracaju, Sergipe), Vaneildo Bispo (de Canindé do São Francisco, Sergipe), Maria Oliveira (de Poço Redondo, Sergipe) e Richard Torres Pereira (de Serra Talhada, Pernambuco).

Eles se deslocaram ao local via Poço Redondo, até a sede administrativa do Monumento Natural Grota do Angico. Esta é uma unidade de conservação criada pelo governo do Estado de Sergipe, através do Decreto número 24.992, de 21 de dezembro de 2007. Está situada no Alto Sertão Sergipano, a cerca de 200 km de Aracaju, entre os municípios de Poço Redondo e Canindé de São Francisco, às margens do conhecido “Velho Chico”. A área de preservação possui um total de 2.183 hectares, em uma região que abriga remanescentes florestais da Caatinga hiperxerófila densa e foi criado com objetivo de preservar o sítio natural da Grota do Angico e elementos culturais associados, mantendo a integridade dos ecossistemas naturais da Caatinga, para o desenvolvimento de pesquisa científica, educação ambiental, ecoturismo e visitação pública. Desde a sua criação, a unidade é administrada pela SEMARH, recebe visitantes de várias partes do Brasil e do exterior, sendo a única unidade de conservação estadual de Sergipe inserida do bioma caatinga.

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Outra imagem da área da Grota do Angico, realizada pelo autor deste texto.

Neste belo local o grupo de pesquisadores deixou a sede administrativa por volta das quatro e quinze da tarde, percorrendo a trilha em cerca de trinta minutos, sendo acompanhados pelo guia do parque James Cardozo.

Ao chegarem a Grota do Angico o grupo encontrou Cícero Rodrigues (de Maceió, Alagoas), que havia feito o roteiro através deslocamento de barco via Entremontes (um distrito de Piranhas).

Foi nesse momento que o grupo percebeu que algo não estava correto.

Triste Vandalismo

Eles notaram que a cruz e a placa em memória da morte do soldado Adrião não estavam mais no seu local original.

Até recentemente quem chegava a Grota do Angico encontrava encravada nas rochas três cruzes que homenageavam aqueles que tombaram no combate de 28 de julho de 1938.

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Foto da ocasião em que o autor deste texto esteve na Grota do Angico e fotografou o local com as três cruzes.

Duas das cruzes, uma ao lado da outra, são dedicadas aos cangaceiros e uma outra, menor e localizada mais à esquerda destas duas, era dedicada ao soldado Adrião Pedro de Souza, o único policial morto no combate. Junto desta cruz havia uma placa chantada pelos membros de grupos ligados a pesquisa do Cangaço no Nordeste e que, infelizmente, também havia desaparecido. Tanto a cruz quanto a placa haviam sido colocadas na área em 2013.

Diante deste nefasto ato de depredação e vandalismo a indignação dos membros do grupo foi geral.

Giovane Macário assim descreveu a sua revolta:

Descemos  para a Grota do Angico, aonde chegamos ás 16:40 e nos deparamos com uma cena triste e revoltante, pois a Cruz e a placa em homenagem ao Soldado Adrião Pedro de Souza tinham sido furtadas por vândalos. Ficamos indignados com a cena e perguntamos ao guia quem tinha sido o responsável. Ele respondeu que da madrugada de domingo para segunda-feira, dia 25 de julho de 2016, teria acontecido o ato de vandalismo. Embora sabemos que esse ato criminoso partiu de alguém poderoso, não podemos acusar ninguém sem provas concretas, mais uma coisa eu tenho certeza – quem fez, isso a mando de alguém, não tem nenhum conhecimento histórico e fez a sociedade olhar para aquela cruz. Pois foi um ato criminoso da pior espécie e pedimos das autoridades competentes providências cabíveis”.

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Detalhe da cruz do soldado Adrião.

Já Cristiano Ferraz assim expôs suas impressões sobre a chegada do grupo a Grota do Angico, o ato de vandalismo ali praticado e a montagem do acampamento.

A última semana (especificamente os dias 27 a 30 de julho de 2016) foi de grande atividade para todos nós. Era chegada a hora de nos deslocar a Piranhas onde se realizaria mais uma edição do evento Cariri Cangaço. Alguns dos participantes do evento planejaram pernoitar no conhecido “Coito do Angico” no município de Poço Redondo, no Estado de Sergipe. Dois grupos foram formados. Um deles se deslocaria durante o dia, via Poço Redondo e outro seguiria durante a noite, de barco, via Piranhas, Alagoas (Este segundo grupo chegou à Grota do Angico por volta de uma e meia da madrugada).

Este grupo chegou à grota do Angico por volta das quatro e quarenta da tarde onde encontrou o companheiro Cícero Rodrigues. Foi nesse momento que percebi imediatamente a ausência da cruz do soldado Adrião.

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O grupo em progressão na caatinga.

Fiquei surpreso e preocupado com o fato e perguntei ao funcionário que nos acompanhou até o local sobre o destino da cruz, tendo ele explicado que fora retirada, usando a palavra “vandalismo”. Ele explicou que fora confeccionado um boletim de ocorrência do fato.

Inconformados e preocupados nós passamos a organizar o local do pernoite, armando as barracas e redes (cobertas com lonas) para prevenir das chuvas finas que têm caído no local este ano. Estes preparativos terminaram no início da noite quando, após comer algo (café, biscoitos, pão, etc.), decidimos descer para o local das Cruzes onde acendemos velas pelos mortos e passamos a estudar o local.

À noite, no escuro, o local dá a impressão de ser totalmente diferente do que vemos durante o dia….

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Como ficou o local depois do ato de vandalismo.

Uma Interessante Análise do Que Aconteceu em 1938

Por sua vez o amigo Sálvio Siqueira enviou um interessante texto onde ele faz várias análises do que viu naquela madrugada. Ele também trouxe no seu texto vários questionamentos sobre o fim do “Rei do Cangaço” em 1938.

E, para o bem do debate, os questionamentos devem continuam a existir!

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O grupo durante a noite na Grota do Angico.

“No dia 27 de julho de 1938, uma quarta-feira, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, está acoitado no leito do riacho Tamanduá, na fazenda Angico, fincado no município de Poço Redondo, Sergipe.

Ao romper da aurora do dia vindouro, segundo historiadores, do dia 28 de julho, ou seja, na quinta-feira, uma tropa militar, comandada pelo então tenente João Bezerra, é dividida em quatro, ou cinco frentes e ataca os cangaceiros no coito. 

Após o ataque, sabe-se da morte de onze cangaceiros, dentre eles o “Rei dos Cangaceiros”, sua companheira a “Rainha dos cangaceiros”, Maria Gomes de Oliveira, conhecida como Maria Bonita, e uma baixa militar, o soldado Adrião Pedro de Sousa, SD Adrião.

No momento do ataque, uma das colunas, a do Sargento Aniceto, perde-se, não encontrando o local previamente combinado. Com isso, abre uma rota de fuga para aqueles que estavam encurralados sob forte fogo dos soldados.

Pois bem, há duas versões, uma já nem tanto citada sobre o ocorrido, que seria a que ocorreu, com o auxílio de um coiteiro o envenenamento do grupo. A outra versão é que simplesmente a tropa chegou e mandou bala matando os cangaceiros. 

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As cruzes dos cangaceiros durante a noite.

Sobre o envenenamento, não há sustentáculo, pois o veneno teria atingido, se não mortalmente, parcialmente o restante do grupo.

Parte de nossos estudos, na ocasião, era conhecer o local na escuridão noturna, procurar saber as dificuldades que enfrentou a tropa para se aproximarem, como conseguiram tamanha façanha sem chamarem a atenção dos cangaceiros, e qual hora, aproximadamente, conseguia-se vislumbrar a silhueta de um corpo humano dando condições de ser alvejado.

O tempo, na noite do dia 27 de julho de 2016 para o clarear do dia 28, se comparado as condições climáticas, segundo o que relatam os historiadores, estava diferente da noite do dia 27 de julho de 1938. Não choveu.

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Fiz uma análise de como a tropa chegaria sem ser notada até ter visão e posição para atirarem. Usamos o mesmo dia da data do embate, só diferenciando na fase do quarto da lua, da época com a atual, um foi no minguante e a outra na fase crescente.

O calendário lunar nos diz que na noite do dia 27 de julho de 1938, a fase da Lua estava em Crescente. Já na noite do dia 27 de julho de 2016, a fase da Lua estava em Quarto Minguante.
(Fonte: http://www.vercalendario.info/…/portugal-mes-julho-2016.html)

Quarto minguante é uma das fases da Lua. Ocorre quando o ângulo Terra-Lua-Sol é aproximadamente reto, de modo que vemos apenas cerca da metade do disco lunar, no período em que a parte iluminada está diminuindo progressivamente. Já a fase da Lua no Quarto Crescente ocorre quando o Sol e a Lua estão em signos que se encontram a 90° de distância entre si, formando uma quadratura.

Fizemos essa pesquisa para vermos a qualidade de visão noturna, a olho nu, que tiveram mais ou menos os soldados, quando da sua aproximação ao acampamento alvo.

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A coisa não foi moleza não. Hoje, com as degradações causadas pelo tempo e homem, notamos a dificuldade de locomoção. Além disso, temos as trilhas, coisa que não acreditamos que tinha naquele tempo.

Após esses fatos pesquisados, esperamos o romper do dia. Lento e preguiçoso, ele começa a clarear vagarosamente…

Em direção ao Rio São Francisco, nós começamos a notar uma grande sombra, como se fosse um monstro deitado, dormindo. É à sombra de uma serra. Do lado contrário, ou seja, lado que se encontrava o bando acoitado, ainda não dava para divisar nada. Com o passar do tempo, começamos a vislumbrar imagens, vultos, sem termos a certeza do que seria… Mais um pouco de tempo e, aí sim, já se consegue ver bem uma pessoa. Quando registramos essas imagens, estávamos do lado, mais ou menos em que estavam os soldados que fizeram parte da coluna do tenente Bezerra.

Visão, só com a clarear do dia, pois o mato e localidade em que se encontravam aqueles que estavam dentro da grota, no leito do riacho, ainda estavam protegidos pelas ultimas sombras da noite. E mesmo pela mata e profundidade, impedindo um clarear definido.

Quanto à linha propícia de fogo, ou para fogo, posição de tiro, que foi de cima para baixo, só se consegue ter essa posição estando bem em cima, no topo da barreira. Com 30 metros de distância da beira da barranca não se consegue ver o fundo da grota. Nem com 20 metros, nem 15 metros, nem com 10 metros. Em fim, só há essa possibilidade, posição de tiro, estando com 5 metros ou menos em cima da barreira. 

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O acampamento.

78 anos depois do ataque, sem claridade ainda, tentamos nos aproximar sem fazermos barulho. Qualquer som, no silêncio da madrugada é escutado ao longe. Claro que a mata está diferente, mais para devastada, ou seja, na época do ataque, a mata era mais fechada causando mais dificuldades para se locomover dentro dela sem fazer barulho, principalmente se a pessoa estiver com bornais, facas, facões e fuzis nas mãos, aumentando o volume, é lógico que se necessita de mais espaço para se mover. Lembremos que a tropa contava com 50 praças, dividida e quatro ou cinco colunas.

A quantidade de cangaceiros é incerta. Não se sabe com exatidão o número dos que estavam ali acoitados.

Para saber-se da margem direita e esquerda de um rio, ou riacho, posicione-se no centro do leito e procure ficar de frente para onde as águas seguem, nessa posição, saberá a margem direita e a esquerda do rio, ou riacho, mesmo este sendo temporário.

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Cristiano Ferraz e membros do grupo. Agradeço a este nobre amigo, bem como a Sálvio Siqueira e Geovani Macário pelo apoio com os textos remetidos e revisão. O meu muito obrigado pelo apoio ao TOK DE HISTÓRIA.

Em nossa pesquisa, lá, no local, notamos que parte do grupo, o chefiado por Zé Sereno, ficou na margem esquerda do riacho. Fora do leito do riacho. Junto ao chefe mor só o seu Estado Maior. Dentro da grota.

A volante era composta por homens acostumados no mato, no entanto, os grupos de cangaceiros também eram formados por homens que conviviam desde que nasceram dentro do mato. Homens que tinham os sentidos muito bem aguçados, pois, dependiam deles para sobreviverem. 

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1938 – Curiosos diante dos corpos dos cangaceiros.

Caso imprevisto por nós, mas, que serviu muito bem como pesquisa, foi a chegada de seis outros pesquisadores entre 01:00 e 02:00 horas da madrugada já do dia 28. Nosso amigo, pesquisador Richard Pereira, escutou ruídos, sons que “informavam” a aproximação de pessoas. E eles estavam longe, muito distantes do acampamento, do outro lado do riacho ainda, por onde seguiu a coluna com o tenente Bezerra. E nós não estávamos com nossos sentidos alertas, com cuidado e medo de sermos atacados por volantes.

Bem, mesmo não sabendo a quantidade exata dos cangaceiros, mas, que se eleva ao número de trinta pessoas, sabemos ser ilógico que todos, exatamente todos eles, tenham se embriagado, coletivamente. E a ponto de não notarem algo suspeito? Lembremos, também, que eram pessoas foragidas, o que as deixava mais cuidadosas ainda. Com seus sentidos em alerta o tempo todo, mesmo inconscientes desse sentido, sentido causado pelo medo, medo de morrer. Mesmo assim, ninguém se deu conta de nada?

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1938 – A barraca de Lampião

Ainda tem a declaração de remanescentes que citaram que foram rezar o ofício e retornaram para as toldas. Mais uma linha de que já estavam acordados.

Bem, meus amigos, eu acredito que alguém, algum conhecido, bem chegado ao “Rei dos Cangaceiros”, tenha feito algum trato para se aproximar, e, com isso, a guarda fora totalmente baixada para que se desse a aproximação. Além de ter alguém, do próprio grupo de Lampião, tê-lo traído internamente. 

Zé Sereno, seus homens e outros estavam na parte de cima, em cima da barreira, um pouco mais recuados, em relação à posição de Lampião, com maiores possibilidades de escutarem, notarem, a aproximação da coluna que tomava chegada com o tenente Bezerra. Se acharmos que a cavidade em que se encontravam Lampião e outros cangaceiros, dificultada a propagação do som.

No entanto, partiram em oposição, e isso é mais uma prova do lugar em que estavam, em que se encontravam, contrária à correnteza e ao avanço da coluna que chegava no sentido noroeste do acampamento. E, por incrível que pareça o grupo parte em sentido sudoeste, e, é mesmo nesse sentido que o sargento Aniceto se perde com a sua coluna, deixando uma via de fuga.

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1938 – Morte de Lampião, Maria Bonito e seus companheiros em jornal do Rio de Janeiro.

Ao romper do dia, um dos pesquisadores do grupo, disparou vários tiros. Esses disparos faziam parte da pesquisa. Não se sabe de onde o tiro parte exatamente, pois, lá, naquele emaranhado de elevações e extensão do terreno, forma-se um eco constante. Não deixando ter-se, exatamente, a noção da posição exata do disparo. Lembremos que os pesquisadores que chegaram mais tarde, ao desembarcarem na margem direita do ri São Francisco, dispararam uma arma. Porém, só viemos saber quando eles chegaram e nos disseram. Mesmo no silêncio da madrugada, o tiro disparado as margens do “Velho Chico”, mesmo as água e os contrafortes das serras produzirem um eco, o som não chegou ao acampamento onde estávamos.

Como, então, parte do grupo tomou o rumo certo? 

O sentido exato da brecha deixada por um sargento que se perdera com seus homens?
Não falo de ouvi dizer, mais, de estar lá, naquele local, amanhecendo o dia, e escutando o eco de vários disparos as margens do riacho. A guarda do Capitão foi baixada, isso é correto afirmar.

Mas, por quê?

Como cito acima, acredito que tenha vindo um pedido de aproximação, não de uma tropa militar, é claro, mas, de uma pessoa, coiteira, que o fez ficar, ou continuar, à vontade.” 

No Exterior Esse Tipo de Ação é Normal 

Como tudo que envolve o Cangaço e Lampião sempre existem controvérsias, eu não duvido que muitos dos que venham a ler este texto talvez torçam o nariz diante desta empreitada.

<> on June 4, 2014 in Sainte Mere Eglise, France.
A pessoa com uniforme militar, apresentando um fuzil semiautomático Garand M1, na verdade é membro de um grupo de pesquisa e preservação histórica dos combatentes estadunidenses que participaram do famoso Dia D – Fonte Getty Images

Talvez vejam como uma grande perda de tempo e de esforço madrugar no meio do mato, onde foram mortos vários bandidos. Isso tudo em um país que tem um quadro atual de violência associado a uma verdadeira praga.

Mas é fato que o episódio da Grota do Angico é antes de tudo História.

Nos Estados Unidos e na Europa, regiões com um amplo histórico de confrontos bélicos e com inúmeros locais onde se desenrolaram terríveis combates, a presença de pesquisadores nestas áreas históricas é algo bem comum e aceito, inclusive pelas universidades.

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Membros de um grupo de pesquisa da Guerra Civil Americana apresenta as armas utilizadas pelos exércitos do sul.

Diversos grupos ampliam suas pesquisas a ponto de existirem interessantes reencenações de episódios históricos, com forte afluência de público desejosa de conhecer mais sobre estes conflitos.

Esses grupos, para realizar seu trabalho dedicam muito tempo pesquisando e debatendo como deve ocorrer uma reencenação, ampliando muitas vezes a informação histórica com o surgimento de interessantes detalhas.

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Reconstituição de um acampamento das tropas sulistas da Guerra Civil Americana, sendo apresentado no Texas.

Nos Estados Unidos predominam grupos que pesquisam e realizam reencenações sobre episódios da Guerra da Independência, da Guerra Civil Americana, de fatos da Segunda Guerra Mundial. Na Europa, principalmente na Inglaterra, Alemanha, Itália e Suécia, estes grupos pesquisam e reencenam episódios que abrangem fatos ligados desde os conflitos entre as Legiões Romanas e os Bárbaros, até a Segunda Guerra Mundial.

O grupo de nordestinos que estiveram na Grota do Angico, salvo informação em contrário, não pensa em uma reencenação histórica. O paralelo que faço com o que é realizado lá fora tem haver com a INICIATIVA de pessoas em conhecer a História de sua região.

E como dizem por aí que nós brasileiros somos tidos como um povo que não se importa muito com a sua História, então só tenho a louvar a empreitada deste grupo de nordestinos.


FONTES

http://joaodesousalima.blogspot.com.br/2016/07/cariri-cangaco-de-piranhas-nos-78-anos.html

http://g1.globo.com/se/sergipe/noticia/2016/07/78-aniversario-da-morte-de-lampiao-e-tema-de-celebracao.html

http://www.semarh.se.gov.br/biodiversidade/modules/tinyd0/index.php?id=11

http://www.utpa.edu/news/2015/03/making-history-utpa-launches-rio-grande-valley-civil-war-trail.htm

http://www.semarh.se.gov.br/biodiversidade/modules/tinyd0/index.php?id=11

OS VERSINHOS PARA MARIA BONITA NO DIA DO SEU ANIVERSÁRIO

 

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No dia 21 de fevereiro de 1970, no periódico Diário de Pernambuco, Waldemar de Figueiredo Valente escreveu um texto intitulado “A gesta do Cangaço”, onde no final da primeira parte reproduziu os versos que agora apresento e que, segundo o autor, foram criados pelo cangaceiro Zabelê para comemorar o aniversário de Maria Bonita.

São versos bem interessantes, que mostram um lado diferenciado e menos focado nos processos ligados a violência que tanto caracterizou o cangaço.

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Maria Bonita

Waldemar Valente foi médico, farmacêutico, antropólogo, sociólogo, etnólogo, professor, pesquisador, humorista e escritor. Pertenceu ao grupo de notáveis africanistas que se destacou na área desde o Primeiro Congresso Afro-Brasileiro de 1934. Como escritor Waldemar Valente escreveu obras como Introdução ao estudo da Antropologia Cultural (1953); Sincretismo religioso afro-brasileiro (1955); Maria Graham: uma inglesa em Pernambuco nos começos do século XIX (1957); Misticismo e região (1963); O padre Carapuceiro: crítica de costumes na primeira metade do século XIX (1969), Nordeste em três dimensões folclóricas (1986); Antologia pernambucana de Folclore (1990).

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Waldemar de Figueiredo Valente

Foi professor na Professor da Universidade Federal de Pernambuco, e na Universidade Católica de Pernambuco. Waldemar Valente morreu no Recife, no dia 27 de novembro de 1992.

A POÉTICA GEOGRAFIA DO CANGAÇO

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Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Capa. Reprodução

Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou [Vento Leste, 2016, 104 p.] é um encontro único: as elegâncias das fotografias de Márcio Vasconcelos e do texto de Frederico Pernambucano de Mello, a exuberância das paisagens, a grandeza dos personagens e o imenso legado cultural deixado pelo bando liderado por Virgulino Ferreira da Silva.

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Casa de dona Jocosa. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

O maranhense Márcio Vasconcelos embrenha-se na geografia sui generis do Nordeste para refazer os caminhos percorridos por Lampião e seus cangaceiros, da invenção do bando à execução de seu líder, em 1938, na Grota do Angico, em Poço Redondo/SE, ao lado de Maria Bonita e outros nove homens.

Apenas duas fotos não são de sua autoria, espécie de tributo ao fotógrafo Benjamim Abraão, que retratou o bando de Lampião em vida, saga contada por Paulo Caldas e Lírio Ferreira em Baile perfumado [1996], com imagens do acervo do fotógrafo sírio-libanês e trilha sonora puxada pela turma do manguebit.

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Um dos habitantes atuais dos lugares por onde Lampião passou há quase um século. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

A trilha por que o fotógrafo nos conduz ao longo das páginas do livro, finalista do prêmio Conrado Wessel de Fotografia 2011 e vencedor do XI Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, passa por cinco estados e entre os personagens que ele encontra estão Dona Minó (1923-) – filha de Zé Saturnino, tido como o inimigo número um de Lampião –, Elias Matos Alencar (1914-2013) – membro da volante do Tenente João Bezerra, responsável pela execução de Lampião e seu bando –, e Manuel Dantas Loiola, vulgo Candeeiro (1916-2013), cangaceiro do bando de Lampião, além de atuais habitantes dos lugares.

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A devoção a Padre Cícero. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

As paisagens remontam à rima involuntária beleza/pobreza, com vantagem para a primeira, eterna sina de grande parte do Nordeste e sua população. É particularmente comovente uma sequência de fotos em que uma mulher comum chora a morte de um jumento, abraçando-o como a um ente querido. A devoção (sobretudo a Padre Cícero, mas não só) também é elemento importante ao olhar de Márcio Vasconcelos.

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A grota do Angico, onde Lampião, Maria Bonita e outros nove cangaceiros foram executados em 1938. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

O trunfo do encontro entre palavras e imagens está justamente em umas não quererem explicar as outras: enquanto o fotógrafo percorre hoje caminhos pisados por Lampião há quase um século, Frederico Pernambucano de Mello, historiador, membro da Academia Pernambucana de Letras, reivindica ao ícone do cangaço o status de artista: “pelo orgulho, pela sobranceria, pela vaidade, pelo desassombro da imagem ostensiva, pela força de formação de uma subcultura à base de derivações nada desprezíveis na música, na poesia, na dança, na culinária, no artesanato, na medicina, nos costumes, na moral, na religiosidade, na arte militar intuitiva e mesmo na arte de expressão plástica, a partir da herança pastoril, o cangaço sumaria, aos olhos do brasileiro de hoje, a franja de todas as insurgências, sua saga confundindo-se com a própria ideia de resistência contra poderosos”, anota.

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Os textos deste maravilhoso trabalho foram do amigo Frederico Pernambucano de Mello.

Outra grandeza que merece destaque é não quererem tirar conclusões. Muito já foi dito sobre o cangaço e particularmente Lampião é fartamente biografado. “Os cangaceiros não foram heróis nem bandidos. Foram homens que disseram não à situação”, anota Vasconcelos na legenda da foto da Grota do Angico.

FONTE – https://zemaribeiro.wordpress.com/2016/04/27/a-poetica-geografia-do-cangaco/

CANGAÇO

 

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Fonte – http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Canga%C3%A7o+&ltr=c&id_perso=308

O cangaço já foi estudado de trás pra frente e da frente pra trás. Está nos livros de história, nas enciclopédias e dicionários, no cordel, no cinema, na televisão, na cantoria, nos inúmeros estudos publicados por pesquisadores do tema. Contudo, mesmo sendo tratada à exaustão, a fonte parece não estar esgotada.

E a fonte cangaceira nunca se esgota porque vai surgindo, a cada dia, uma nova tese, um novo ponto de vista, um novo e acirrado debate. Cite-se, por exemplo, os seminários e encontros sobre o tema, onde novos estudos são apresentados, abrindo novas perspectivas de conhecimento e de discussão. Contudo, abordagens mirabolantes, muitas vezes.

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Fonte – http://tvbrasil.ebc.com.br/caminhosdareportagem/episodio/a-rota-do-cangaco

Os debates se ampliam pela própria instigação que o cangaço produz. Logo chega um pesquisador com novas conclusões sobre o que aconteceu na Gruta de Angico, a 28 de julho de 1938, quando Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros foram chacinados pela volante comandada pelo Capitão João Bezerra. Mas outro logo rebate o estudo, afirmando, também com elementos novos, que a dita chacina de Angico não passou de uma grande armação da genialidade de Virgulino.

Já outro diz que determinada batalha entre cangaceiros e volantes jamais poderia ter ocorrido naquela data e naquele lugar. E por isso, por isso e mais isso. Há o que defende a amizade havida entre os dois capitães, Lampião e João Bezerra, o que, por si mesma, já derrubaria a tese de a chacina ter acontecido naqueles moldes. Se realmente aconteceu. E ainda outro sustenta, jurando por pai e mãe, que o grande cangaceiro morreu centenário lá pelas bandas não sei de onde.

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Subgrupo do cangaceiro Pancada na rendição à volante, em 1938 – Fonte – https://www.google.com.br/search?q=CANGA%C3%87O&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwj-o82Bg7XMAhUFRiYKHQEECj4Q_AUIBygB&biw=1066&bih=440#imgrc=UYs2jWDWFw8R3M%3A

E tudo isso vai virando livro, sendo repassado como verdade. Entretanto, enquanto pesquisa, a grande maioria tende a ser refutada mais tarde, com o surgimento de novos estudos cangaceiros e a convalidação cada vez maior de outros já desenvolvidos. Tais fatos, contudo, ao invés de enriquecer a história do cangaço, acabam empobrecendo-a, vez que grande parte dos estudos surgidos não deveria nem ser publicada se os seus escritores tivessem um pouco mais de senso de responsabilidade com fenômeno tão sério e tão marcante na história nordestina e brasileira.

E talvez me inclua entre os irresponsáveis da história, vez que já desenvolvi um trabalho ficcional (ainda não publicado) dentro da possível realidade cangaceira. Nesta obra, crio situações inexistentes, brinco com o acontecido, acrescento elementos fantasiosos entremeando os fatos históricos. Mas irresponsável até certo ponto, pois não escrevi a ficção para que passasse como verdade. Pelo contrário, quem lê minhas histórias e relatos logo sente que tudo não passa de uma criação literária na fonte profícua do cangaço. Diferencia-se, pois, da irresponsabilidade premeditada, como vem ocorrendo em algumas publicações estapafúrdias.

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Prisão de Antonio Silvino – Fonte – beradeirocurioso.blogspot.com

Voltando às pesquisas e novos escritos, urge acrescentar que muitos trilham uma nova opção de estudo, e esta baseada em fatos particulares dentro da amplitude contextual. Entretanto, o destrinchamento da história, ou a opção por analisar fatos particulares, acaba ofuscando o contexto geral do cangaço. Ora, o cangaço não é só a Gruta do Angico, o Fogo da Maranduba, o Raso da Catarina, a suposta traição do coiteiro, as vestimentas e costumes cangaceiros, os conchavos coronelistas. Mas a junção disso tudo e muito mais. Ao particularizar demais a história, terminam incorrendo no erro de não possibilitar uma visão mais geral sobre o fenômeno.

Obra prima ou não, verdade é que Billy Jaynes Chandler trilhou pelo caminho do todo, ainda que devesse ter abordado também outros temas dentro do mesmo contexto. Buscou as afluências cangaceiras através da história de Lampião. Outros autores, ainda que pretendam possibilitar uma visão geral do fenômeno, acabam priorizando fatos e, o que é pior, tomando partido, procurando analisar a crueza a partir de ideologias próprias. Proliferou-se ainda uma história particularizada, onde personagens do cangaço ou do contexto cangaceiro têm suas vidas narradas em tom biográfico.

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Exposição macabra de cangaceiros do bando de Lampião que foram mortos por civis liderados por Antonio Manuel Filho, o Tenente Antonio de Amélia, que cumpriu a promessa de vingar a morte de um amigo.Em pé amarrados a troncos de madeira estão os corpos dos quatro cangaceiros: Suspeita, Limoeiro, Fortaleza, Medalha e no caixão abaixo o corpo de Félix Alves, um civil que morreu durante o combate – Fonte – http://beradeirocurioso.blogspot.com.br/2014/08/10-fotos-marcantes-e-as-historias-por_24.html

Talvez evitando destrinchar minuciosamente aquela imensa colcha de retalhos nordestina, com labirintos e veredas até hoje desconhecidas, optam por cuidar do tema através de seus personagens, de episódios ou de aspectos. Neste sentido, livros sobre o perfil de Lampião, de Maria Bonita e demais cangaceiros, sobre soldados da volante, sobre a estética cangaceira e até sobre a sexualidade daqueles viventes das caatingas.

Tudo isso é válido e de inestimável valor como objeto de pesquisa, ainda que muitas obras não passem de arremedo literário ou de puro enojamento e cinismo, como ocorreu com o famigerado livro “Lampião – O Mata Sete”, de um autor sergipano. Do mesmo modo, não creio que mereça um justo reconhecimento obras que apenas procuram citar os estudos já desenvolvidos por outros autores, sem que os autores desenvolvam uma linha de raciocínio própria e jamais tenham conhecido de perto qualquer trilha cangaceira, ou mesmo bebido na fonte dos acontecimentos. Voltam-se demasiadamente para as pesquisa bibliográfica e abdicam do estudo de campo e outras técnicas e fontes de investigação.

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Após o massacre de Angicos, muitos cangaceiros entregaram-se.O contexto das entregas teve início com o aparecimento espontâneo de cangaceiros, que se apresentaram, em 12 de outubro de 1938, quando de uma pregação dos freis capuchinhos Francisco e Agostinho de Loro Piceno, em terras de Jeremoabo. Este, dirigindo-se aos cangaceiros, convidou-os à se entregarem, oferecendo-se como intermediário. – Fonte – http://beradeirocurioso.blogspot.com.br/2014/08/10-fotos-marcantes-e-as-historias-por_24.html

Ademais, forçoso é admitir a falta de um fôlego maior entre os estudiosos e pesquisadores, principalmente os mais jovens. Para se ter uma ideia, os livros essenciais sobre o cangaço já datam de muito tempo. Antes mesmo de Chandler – e mesmo depois -, alguns autores brasileiros produziram textos profundos sobre o tema. E dentre eles Maria Isaura Pereira de Queiroz, Melchiades da Rocha, Ranulfo Prata, Rui Facó, Frederico Bezerra Maciel e Frederico Pernambucano de Mello. Só para citar alguns.

Na verdade, existem muitas obras que realmente procuram adentrar no cerne do fenômeno para compreendê-lo e explicá-lo. Mas há um porém nisso tudo. Por que, até o presente, não há um entendimento mais generalizado e mais coerente sobre o cangaço? Ora, não se trata de uma história que possa ser contada segundo o desejo ou a tendência do pesquisador. No cangaço, ou foi ou não foi, e está acabado. O problema todo reside no fato da desconstrução do conhecido para forjar o surgimento do duvidoso.

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A senhora da foto acima é a dona de casa Maria Marques. Na época do Cangaço Lampião e seu bando marcavam mulheres no rosto, seja para mostrar propriedade ou como punição por comportamento indevido. As letras no rosto de Maria Marques são: “JB” pertencentes ao cangaceiro José Baiano. – Fonte – http://beradeirocurioso.blogspot.com.br/2014/08/10-fotos-marcantes-e-as-historias-por_24.html

Mas devemos reconhecer que não é tarefa fácil empreender um estudo mais aprofundado sobre o cangaço. O próprio conceito, até hoje, ainda não foi delimitado, ainda não se chegou a um consenso sobre o que realmente foi, o que objetivou e qual o seu significado. Para se ter uma ideia, basta folhear alguns livros ou enciclopédias para encontrar conceitos ora afirmando ter sido o cangaço um movimento social, ora um tipo de reles banditismo, ou ainda um virulento grupo de homens armados, dentre outras acepções.

Um destes conceitos diz que o cangaço foi um fenômeno social ocorrido no Nordeste brasileiro, de fins do século XIX até 1940, motivado pelas condições político-sociais peculiares da região, tais como a estrutura feudal da propriedade agrária e o atraso econômico. Caracterizou-se pelo aparecimento de grupos de bandoleiros errantes, que percorriam o sertão saqueando fazendas e cidades e lutando contra bandos rivais e polícia. Assim está no verbete da Enciclopédia Universal Gamma.

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Fonte – http://www.blogdodidi.com.br/sao-s-do-umbuzeiro/fato-que-virou-noticia-passagem-dos-cangaceiros-em-sao-sebastiao-do-umbuzeiro/

Outra conceituação recorrente diz que o cangaço é fruto do cenário de seca, fome, concentração de terras e mandonismo instalados no Nordeste brasileiro. E cita que as lutas entre famílias poderosas motivo o uso de armas, fato que ficou conhecido como cangaço temporário. No passo seguinte, a violência deixa de ser gerada por guerras particulares para se transformar no que se tem por cangaço permanente. Contudo, não vejo com correção que se pretenda dividir o cangaço em temporário e permanente, ou mesmo noutras divisões. E também errôneo, vez que as rixas entre famílias poderosas não devem ser vistas como gestação cangaceira. A não ser pelo uso do jagunço sertanejo para resolver os problemas de sangue.

Já outra conceituação, esta voltada para a origem do termo cangaço, afirmando que este é o conjunto de armas que costumam conduzir os bandoleiros nordestinos. Sinônimo de banditismo, de celeramento, de atrocidade, o nome cangaço vem de canga, porque o bandoleiro antigo se enchia de armas, trazendo o bacamarte passado sobre os ombros como uma canga; e, assim, se dizia que andava debaixo do cangaço.

Há ainda definições colocando o cangaço como sendo um movimento social ocorrido no sertão nordestino durante o fim do século XIX e início do século XX; como um fenômeno nordestino integrado por nômades que usavam violência para cometer crimes na região; como um bando de homens armados conhecidos como cangaceiros; como um fenômeno social, caracterizado por atitudes violentas por parte dos cangaceiros, que andavam armados e espalhando o medo pelos sertões.

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Cangaceiros presos – Fonte – tokdehistoria.com.br

E, ainda, a concepção do cangaço como um tipo de luta armada ocorrida no sertão nordestino até os anos 40 do século passado, contando com grupos de homens armados que vagueavam pela região em busca de meios de sobrevivência e enfrentando poderosos com o uso de armas e desmedida ferocidade.  Por fim, como um tipo específico de banditismo que se desenvolveu no sertão nordestino, levado a efeito por cangaceiros – bandos de malfeitores, ladrões, assassinos, bem armados, conhecedores da região -, que assolavam e destruíam, impunemente, tudo por onde passavam.

Concepções desse tipo, aproximadas ou muito distantes da realidade, somente surgem pela falta de uma conceituação geral e consensualizada proporcionada pelos próprios pesquisadores e estudiosos. Mas não, o que se verifica são abordagens tão diferenciadas que acabam permitindo interpretações as mais contraditórias possíveis. E muitas, infelizmente, tratando o cangaço sob a ótica do puro banditismo ou da sangrenta marginalidade. Ora, há muito mais nessa teia que a aranha sedenta de sangue. Não se pode esquecer o casulo das injustiças alimentando a prática.

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Lampeão (primeiro da esq.p/dir.) em Pombal – 1928 – Fonte – marcosnogueira-2.blogspot.com

Creio que a conceituação do cangaço, pois, deve alcançar, em primeiro lugar, a sua visualização como um caso peculiar de força maior. Um inevitável acontecimento. Ou eclodia ou eclodia. Não foi movimento porque não nasceu organizado; não surgiu como fenômeno porque já estava enraizado. E também não foi uma reles expressão do banditismo, a não ser que se tenha como bandido comum o sertanejo que se embrenha nas caatingas para lutar, ainda que não saiba realmente contra quem ou o que.  É, pois, na sua raiz que o cangaço deve ter o seu conceito iniciado. Ora, não se encontra outra motivação para o seu surgimento senão como um inevitável acontecimento, e fruto de uma força maior.

A força maior que serviu como estopim já estava semeada no sertão nordestino. E com grãos diferenciados. Foi a junção desses grãos, então denominados perseguições, injustiças sociais, rixas particulares e indignações contra o sistema estabelecido, que acendeu a chama do pavio. E na mão de um condutor, um homem vitimado por tais mazelas, a chama logo se transformou em fogueira. E isto desde o seu início nos tempos de antanho, pois quando Lampião entrou na luta, lá pelos inícios da década de 20 do século passado, a estrada já havia sido percorrida por outros bandos. No caso do Capitão, à persistência daquelas mazelas se somaram rixas familiares e acusações crimonosas. Outro estopim, e o mais violento de todos.

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Xilogavura de J. Miguel, famoso artista popular nordestino – Fonte – http://marcosnogueira-2.blogspot.com.br/search?q=Pombal

Desse modo, tem-se até aqui o estopim ou a força maior diante da insuportabilidade frente às mazelas de então como fato gerador e suas motivações. E se daí em diante a vida dos rebeldes passou a ser no meio do mato, de vez em quando fazendo investidas nas povoações e propriedades, sendo perseguidos pela polícia, revidando e fugindo de novos ataques, tem-se então o terceiro ponto da conceituação: a vida errante em meio a perseguições e ataques.

Nesse entremeio, contudo, muitos outros fatores poderiam ser observados, tais como as características da liderança cangaceira, os pactos firmados entre os ditos bandoleiros das caatingas e poderosos, a arregimentação de novos elementos ao bando, as estratégias e planos, as influências na vida sertaneja, as ações cangaceiras em si. Mas não serviriam num conceito sintético, e sim num estudo mais aprofundado.

Tais entremeios devem dar lugar, pois, ao modo como se manifestou durante sua existência. E as consequências enfrentadas pelos rebeldes das caatingas todo mundo conhece. O que aconteceu em 38 na Gruta do Angico é o exemplo mais célebre do fim do ciclo cangaceiro. Os primeiros grupos cangaceiros, ou rebeldes primitivos, no dizer de Hobsbawn, também não suportaram a continuidade da luta e tiveram o seu inexorável fim.

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Xilogravura para a literatura de cordel – Fonte – http://marcosnogueira-2.blogspot.com.br/search?q=Pombal

O terceiro e último aspecto que não pode faltar numa conceituação diz respeito ao seu significado. O que a armada rebeldia sertaneja representou historicamente? Qual a contextualização do cangaço dentro da vida social e política brasileira? O cangaço refletiu, ao menos em parte, as veladas contestações sociais de então? A existência do cangaço foi importante ou não, e a que serviu? Por que a realidade cangaceira é tantas vezes transformada em substrato mítico?

Logicamente que tais respostas não caberiam numa síntese conceitual. Mas podem ser sintetizadas para possibilitar uma visão geral do seu significado. Então, sinteticamente, qual o significado do cangaço? Eis a questão. Com uma resposta, porém. E tal resposta no sentido de afirmar que o significado maior do cangaço foi ter se contraposto ao sistema vigente com o auxílio do próprio sistema, e este representado pelas autoridades e poderosos.

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Volante policial – http://marcosnogueira-2.blogspot.com.br/2011/01/os-cangaceiros-de-verdade.html

Nesse passo, não há que se negar que a rebeldia cangaceira se manteve atuante por tanto tempo, com as vitórias e reveses próprios de toda luta, porque teve a colaboração de uma rede de poder então estabelecida. Eis que o cangaço foi amigo do coronel, do latifundiário, da autoridade política, de gente com grande influência no sistema dominante. E dizem que até mancomunado com o seu algoz perseguidor, que era a volante, através de seu comando. Daí o seu poder de continuidade de luta em situações tão adversas e em meio tão inóspito.

O cangaço, pois, principalmente o bando de Lampião, foi auxiliado por gente muito poderosa. Inegável que o Capitão possuía uma rede de influência de inestimável valia. O próprio Padre Cícero Romão, o Padim Ciço de Juazeiro, havia, em nome da Guarda Nacional e com a pretensão de combater a Coluna Prestes (o que jamais aconteceu), lhe outorgado a patente que ostentava. Mantinha contatos, através dos seus amigos coronéis, com as lideranças governamentais e políticas. Não se pode negar que o poder também agia com cumplicidade na questão cangaceira.

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Lampião, o primeiro a esquerda, e seus cangaceiros – Fonte – tokdehistoria.com.br

Logicamente que era uma relação das mais perigosas, entremeada de falsidades e delações, num verdadeiro jogo de proteção e espionagem. Mas nem todos agindo com traição, ainda que muitos fizessem o jogo duplo. Na verdade, Lampião possuía um pacto tão forte com a oligarquia que bastava enviar uma missiva por um dos coiteiros e tudo o que desejava era providenciado. Quando a coisa era pouca, logo chegava um carregamento de armas e munições, dinheiro vivo e tudo mais que o bando precisasse. Mas se a urgência era pra resolver problema maior, então o coronel passava a interceder perante as outras autoridades.

Não há como pensar diferente. O grupo comandado por Virgulino não era pequeno e nem vivia sempre escondido nas brenhas sertanejas, de modo que não pudesse ser encontrado e dizimado pelas forças policiais. Por mais que trilhassem veredas de difícil descoberta, certamente que os seus perseguidores conheciam seus coitos e esconderijos. Neste aspecto, também se diga que o sertanejo amedrontado também delatava o bando. Havia os amigos fiéis e as falsidades em cada canto.

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Fonte – marcosnogueira-2.blogspot.com

Desse modo, se o bando de Lampião, por exemplo, não teve o seu fim antecipado, isto se deve à proteção que possuía das autoridades e poderosos. Ora, numa estrutura hierárquica de mando, bastava que um coronel dissesse que na sua região não admitia perseguição ao bando do Capitão que toda força policial freava o seu passo. Sem esquecer também da possível amizade havida entre o líder perseguidor e o líder dos perseguidos. Acho tal hipótese pouco provável, principalmente diante do ocorrido em Angico naquela madrugada sangrenta. Mas enfim.

No conceito do cangaço, entretanto, certamente seria descabido afirmar acerca do cotidiano da luta por entre veredas espinhentas, em meio às armadilhas da mataria, debaixo da lua bonita e do sol inclemente. A vida cangaceira em si era muito mais difícil do que se possa imaginar. É fantasioso pretender caracterizar um cotidiano de perseguições, ataques, defesas, contra-ataques, temores, absoluta vigilância e desconfiança de tudo, como algo romântico e atrativo. Muito pelo contrário, a realidade vivenciada era de extremo espanto, ainda que a vida de vez em quando encontrasse espaço para a cantiga matuta, a celebração da existência e os amores escondidos.

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Estes são os cangaceiros Pancada, Maria Jovina, sua esposa e Atividade. Este último foi assassinado pelo seu companheiro Barreira em troca da liberdade – Fonte – http://blogdomendesemendes.blogspot.com

Mas até quando iria essa luta inglória? Até quando o bando de Lampião continuaria, ao modo do preá e do bicho afoito do mato, correndo de lado a outro, trilhando veredas catingueiras e fugindo das arapucas para sobreviver? Muitos estudiosos afirmam, e também vejo como verdade, que o Capitão já estava cansado disso tudo. Não desistido, não derramado o balaio de sonhos impossíveis, mas simplesmente compreendido que já estava na hora de descansar. Talvez de vez em quando olhasse para os seus, para os tantos meninos e meninas ainda na flor da idade, e pensado quanto era injusto e cruel continuar naquela vida de contínuo desassossego. Era demasiada inquietação em tudo que se fazia. Um sofrimento infindo.

Talvez também o Capitão soubesse que jamais sairia vivo da mata sertaneja, que jamais poderia ter outra vida senão de arma na mão, de olho atento à moita adiante, na desenfreada correria pela sobrevivência. E, se assim pensou, também percebeu que não adiantava mais sair de um refúgio a outro. Pressentindo que o seu fim estava próximo, vez que os céus sertanejos pressagiam as coisas da vida e da morte, ali na Gruta do Angico permaneceu esperando a vela ser acesa. Foi acesa, deu estampidos e se apagou. E também o Lampião.

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Fonte – http://www.jvicttor.com.br/liquidificordel/wp-content/photos/matriz_ant_silv_detalhe_1.jpg

Mas voltemos ao problema da justa e abrangente conceituação do cangaço. Foi dito que a conceituação deve envolver alguns aspectos essenciais para a compreensão do seu contexto. Apontei, dentre outros fatores, algumas premissas que devem ser observadas, e que foram o fato gerador ou o ponto de nascedouro do cangaço, as motivações para o seu surgimento e existência, e, por último, o seu significado no contexto histórico brasileiro.

Do mesmo modo, foi observado que o fato gerador foi a eclosão no sertanejo de sua força de indignação e revolta. Chegou ao ponto de insuportabilidade, e daí em diante se deu o início da luta armada. Contudo, foram as motivações que levaram à insuportabilidade. E tais motivações foram apontadas como sendo, dentro outras,  as perseguições, as injustiças sociais, rixas particulares e indignações contra o sistema estabelecido. Por último, na tentativa de estabelecer o seu significado, foi dito que o cangaço, diante das relações que manteve com o poder, alcançou a relevância histórica que mantém até hoje.

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Cangaceiros mortos em Angicos. Foto colorida por Rubens Antônio – Fonte – http://www.jeremoabo.com.br/web/index.php/noticias/21-politica/1866-semana-do-cangaco-de-piranhas-sera-de-24-a-27-de-julho

Mas se não foi nem movimento nem fenômeno, o que teria sido o cangaço? Se não deve ser caracterizado como banditismo nem como um reles covil de brutais assassinos, qual a melhor feição a lhe ser dada? Difícil asseverar com precisão, mas creio que uma insurgência armada levada adiante por rebeldes sertanejos contra o sistema estabelecido. Tanto diante do poder pessoal, gerador de disputas internas, como do poder governamental. Este injusto e escravizador.

Mas que não se tenha como conceito. Esta missão confiarei aos estudiosos e pesquisadores. Sou incapaz de fazê-lo com precisão. Sou apenas um matuto de Poço Redondo, filho de um caipira também de lá, de Alcino Alves Costa, o Caipira de Poço Redondo. Este sim, este soube refletir e analisar com maestria o mundo cangaceiro.

AUTOR – Rangel Alves da Costa

Advogado e escritor

blograngel-sertao.blogspot.com

Fonte – http://www.substantivoplural.com.br/

 

LAMPIÃO E OS ESCOTEIROS VENEZUELANOS – VERDADE OU FANTASIA?

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Teria realmente acontecido um encontro entre o cangaceiro Lampião e um grupo de escoteiros venezuelanos na caatinga nordestina?

Autor – Rostand Medeiros

Principalmente por ser um movimento que tem como objetivo apoiar os jovens em seu desenvolvimento mental, físico e espiritual, para que possam desempenhar um papel construtivo na sociedade, com um forte foco em atividades ao ar livre e habilidades de sobrevivência, foi que nas primeiras décadas do século passado o escotismo se tornou uma atividade extremamente popular em todo o mundo[1].

E tudo começou com o major-general do exército britânico Robert Stephenson Smyth Baden-Powell. Este possuía uma excelente carreira no serviço militar e tinha adquirido muito prestígio na Inglaterra pela sua atuação na Segunda Guerra dos Bôeres[2].

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Robert Stephenson Smyth Baden-Powell – Fonte – wpsess.octhium.com.br

Sua ascensão à fama alimentou as vendas de um pequeno manual militar denominado Aids to Scouting. Neste trabalho lançado em 1899, Baden-Powell tratou principalmente do treinamento de soldados na função de observadores, batedores e trouxe explicações sobre orientação no campo, além de métodos de como sobreviver com a alimentação encontrada na natureza.

Em seu retorno à Inglaterra o general soube que Aids to Scouting era utilizado por professores e organizações de juventude como um primeiro manual escoteiro. Ele também percebeu que muitos garotos mostraram considerável interesse no seu trabalho e aquilo lhe apontou que deveria escrever um manual para o público mais jovem.

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Fonte – http://farnhamscouting.com/website/home/scouting-history/

Baden-Powell publicou no início de 1908, em seis edições quinzenas, uma “revista” chamada Scouting for boys (Escotismo para Rapazes). Este trabalho estabeleceu as atividades e programas que as organizações de juventude poderiam utilizar em saídas no campo. 

A reação a este material foi fenomenal, além de bastante inesperada. Em um tempo muito curto patrulhas escoteiras foram criadas em toda Inglaterra, todos seguindo os princípios de Baden-Powell. No mesmo ano Scouting for boys foi lançado no formato de um livro[3].

O sucesso foi tanto que em 1909 era fundada no Chile a primeira associação de escoteiros da América do Sul. Logo jovens de outros países da região adotavam a ideia.

Escotismo na Venezuela

Foi Ramón Ocando Pérez que organizou em 1913 as primeiras patrulhas escoteiras na cidade de Maracaibo, Venezuela, sendo ele considerado o percursor do escotismo neste país. Tal como noutras partes do mundo, na Venezuela o movimento escoteiro logo conseguiu grande aceitação na sociedade e uma forte participação dos jovens.

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Escoteiros venezuelanos – Fonte – http://museovirtualscoutvzla.com

Ao longo dos anos foram criados novos grupos de escoteiros no país, com intensa movimentação. Logo as patrulhas seguiam para locais cada vez mais distantes, realizando o que era conhecido na época como “Raid pedestre.

Em 12 de dezembro de 1934 um grupo de vinte escoteiros venezuelanos iniciou uma destas aventuras, cujo objetivo era sair de Caracas e chegar caminhando ao Rio de Janeiro[4]. A liderança destes escoteiros estava a cargo do “Capitán Scouts” Andrés Zambrano, um jovem oriundo de Maracaibo, então com 21 anos e filho do general Alejandro Rondón Zambrano[5].

O grupo teria então entrado pelo Brasil através da fronteira amazônica, mas infelizmente são mínimas as informações sobre o trajeto destes escoteiros, as cidades em que estiveram e o que fizeram. Mas, segundo entrevistas do próprio Andrés Zambrano, ele e seus colegas tiveram um terrível encontro nas caatingas nordestinas com ninguém menos que o cangaceiro Lampião.

A Primeira Notícia e o Desconhecimento dos Diplomatas Venezuelanos Sobre os Escoteiros

Esse episódio da história do cangaço de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, ocorreu no último mês de 1935 e foram correspondentes na Bahia que primeiro transmitiram noticias deste encontro para o periódico carioca “A Noite”. Este era um jornal que sempre publicava notícias relacionadas a Lampião e ao cangaço que existia no distante Nordeste.

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Tudo indica que o grupo de escoteiros chegou a Salvador no dia 14, ou 15 de dezembro. O certo é que já no dia 16 daquele mês a notícia era publicada na primeira página de “A Noite”. Mas, de maneira geral, as primeiras notícias divulgadas sobre estes escoteiros foram limitadas.

Informou-se basicamente que Zambrano e seus amigos haviam adentrado o território baiano em outubro de 1935. Ao seguirem a pé pela caatinga os venezuelanos ouviram várias histórias dos sertanejos sobre o temível Lampião, até que em certo momento foram surpreendidos por cangaceiros armados em um lugar chamado “Água Bella”[6].

Nesta primeira reportagem publicada o venezuelano Zambrano informou que no início houve certa confusão pela incompreensão dos cangaceiros diante dos jovens que falavam espanhol, mas ele e seus amigos passaram a noite toda presos, esperando serem trucidados. Foram duas mulheres, entre elas Maria Bonita, que pediram pelas vidas dos estrangeiros e eles foram libertados.

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Notoriedade – Lampião e Maria Bonita com um exemplar do jornal carioca “A Noite Ilustrada”

O mais interessante (e estranho) nas primeiras notícias divulgadas por Zambrano, é que os venezuelanos estavam “armados” e foram despojados pelos homens de Lampião do armamento e de suas munições[7].

O texto do jornal finalizava comentando que o grupo estava Salvador e, como era praxe nesta época quando um grupo de escoteiros estrangeiros chegava a uma cidade que estava no itinerário de um “Raid pedestre”, normalmente eles foram recebidos pelas autoridades locais e tencionavam seguir o mais rapidamente possível para o Rio de Janeiro.

Enquanto os venezuelanos se preparavam para partir de Salvador, na então Capital Federal, após receberem as notícias do correspondente na Bahia, os jornalistas de “A Noite” não perderam tempo e partiram céleres para buscar informações oficiais sobre aqueles escoteiros na representação diplomática da Venezuela. A resposta dos membros da legação daquele país no Brasil foi que aquela empreitada era “um empreendimento sem caráter oficial” e “nada sabiam a respeito” [8].

Junto a Polícia Mineira

Mas somente com a chegada do novo ano de 1936 é que vamos ter mais detalhes deste encontro dos escoteiros com Lampião e alguma nova notícia dos venezuelanos.

No final de fevereiro o “Capitán Scouts” Andrés Zambrano estava sozinho em Belo Horizonte, onde deu uma declaração ao correspondente do jornal “A Noite” lotado naquela cidade[9].

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Zambrano comentou que estivera na cidade mineira de Corinto, mais de 1.200 quilômetros de Salvador, onde passou por vários problemas. Ali o delegado Oswaldo Machado prendeu o escoteiro que “pregava” para a pequena comunidade. O delegado tinha a suspeita que o venezuelano fardado fosse um “elemento extremista”. O jovem escoteiro foi conduzido sob escolta para a capital mineira, distante cerca de 240 quilômetros de Corinto[10].

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A sede da Polícia Central em Belo Horizonte na década de 1930.

Na sede da Polícia Central o estrangeiro aparentemente passou nos policiais mineiros uma versão venezuelana do brasileiríssimo “sabe com quem tá falando?”. Pois junto às autoridades presentes Zambrano informou que “era filho do general Alejandro Rondón Zambrano” e foi “prevenindo” os policiais que estes não poderiam detê-lo por “mais de 24 horas”, que ele “conhecia direito internacional” e que se necessário faria “valer seu direito se fosse preciso”.

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Lampião – Fonte – lounge.obviousmag.org

Talvez pelo uniforme, ou pela segurança nas palavras, o certo é que o escoteiro venezuelano “não esquentou a cadeira” na chefatura de polícia. Logo suas declarações foram registradas no então Cartório de Vigilâncias e Capturas e ele foi liberado. 

Da polícia seguiu para ser entrevistado pelo jornalista correspondente de “A Noite”. Que por sinal estava muito mais interessado sobre o encontro de Zambrano com Lampião, do que as suas peripécias junto aos “homens da lei”.

“-Toca, Negrada, Levanta. Vamos ao Chefe”

Durante a entrevista Zambrano se apresentou vestido de uniforme cáqui, com galões de capitão e um grande chapéu de feltro escuro e abas largas. Já o correspondente de “A Noite” mostrou ao venezuelano a edição de dezembro de 1935 daquele jornal, onde estava a primeira reportagem sobre a aventura dos escoteiros venezuelanos. Zambrano também apresentou ao jornalista uma caderneta com anotações e declarações de autoridades brasileiras, comprovando a sua passagem por vários locais do nosso país.

Para Zambrano a viagem pelo Brasil seguiu sem maiores problemas, mas que o nome e o medo que existia em relação a Lampião era comentado em vários locais por onde ele passou. Entretanto Zambrano e seus amigos fizeram pouco caso das façanhas do cangaceiro. Pensavam até que Lampião seria uma espécie de “superstição” dos brasileiros incultos do norte.

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Zambrano entrevistado em Belo Horizonte.

Superstição, ou não, Zambrando conta que em uma manhã tranquila, quando ele e seus camaradas se encontravam a “14 léguas” (84 quilômetros) de “Água Bella”, pararam todos embaixo de algumas árvores para beber água e comer bananas, foi quando o grupo foi cercado por 24 cangaceiros fortemente armados “de fuzis e facas” e montados em alimárias.

Os guerreiros encourados apearam e o que comandava o grupo falou com extremo autoritarismo “-Toca, negrada, levanta. Vamos ao chefe”. Na mesma hora Zambrano entendeu que iria ficar frente a frente com Lampião.

Os venezuelanos então acompanharam o bando de cangaceiros por cerca de cinco léguas (30 quilômetros), em meio a uma caatinga fechada.

No esconderijo Zambrano descreveu que Lampião recebeu os estrangeiros no final da tarde, muito a vontade, embalando-se “em uma rede vermelha e amarella” e que entre suas pernas estava “um fuzil cravejado de libras”, que após a “análise” do venezuelano, constatou serem “canadenses”[11].

Sem perda de tempo Lampião ordena autoritariamente aos estrangeiros explicarem quem eles eram e Zambrano cai na besteira de responder em espanhol. No seu relato o escoteiro afirma que nesse momento o cangaceiro deu um salto da rede e gritou “-Vocês são é polícia paulista. Morrerão todos amanhã!”.

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Manchete do Diário de Pernambuco, de 4 de outubro de 1935, sobre a morte de quatro cangaceiros na propriedade Cachoeirinha. Provavelmente foi sobre estas mortes que Lampião comentou com Zambrano.

Em meio a muitos impropérios Lampião continuou vociferando “-Vocês já mataram quatro tenentes meus, cada tenente meu vale cem de vocês, logo, são quatrocentos que eu tenho de vingar” [12].

Na sequência o chefe ordenou ”-Passa a revista” e os escoteiros foram despojados de quatro contos e quinhentos mil réis, chapéus, suas fardas de cor kaki e ficaram amarrados “apenas de cuecas”. Zambrano não relatou nesta entrevista em Minas Gerais, conforme tinha dito anteriormente em Salvador, que ele e seus amigos entregaram armas e facas aos cangaceiros.

Lampião também comentou com o venezuelano que ele parecia com “Manoel Neto”, um valente policial, membro do famoso grupo dos Nazarenos, que infligia séria perseguição aos cangaceiros. Zambrano, logicamente, se derramou em negativas.

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Lampião e Maria Bonita – Fonte – blogdomendesemendes.blogspot.com

Em outro momento, buscando ser extremamente polido com seu algoz, Zambrano o chamou de “-Sr. Lampião”, mas a resposta veio rápido, indignada e transmitida na base do grito: “-Meu nome é Virgulino Ferreira, seu malcriado!”.

Amarrados e despidos, por volta das seis da noite a fome e a sede apertaram os estrangeiros, que clamaram por água e comida. Lampião não estava sendo um bom anfitrião e mandou para os escoteiros algumas canecas com café com sal e água com pimenta. No que Zambrano esboçou gesto de repulsa pelo que lhes foi oferecido, Lampião comentou aos gritos “-Não gostou? Aqui se trata bem assim os que vão morrer”. Depois completou ameaçadoramente para o grupo: “-Ou bebem, ou parto a testa de vocês na bala. Aqui tenho a minha lei”. E abriu fogo para o alto com uma pistola Parabélum.

Salvos Pela Maria do Capitão e as Contradições do Escoteiro

Os escoteiros venezuelanos passaram parte da noite amarrados e, segundo declarações de Zambrano, por volta da meia noite chegou ao coito de Lampião um grupo com cerca de quinze cangaceiros. Dentre estes estava uma jovem cabocla, esbelta, trajando camisa branca, culotes, perneiras, com várias joias, um punhal na cintura e que ele a considerou de estatura “alta”.

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A Maria do Capitão Lampião

Esta perguntou a um dos cabras de Lampião que vigiava o grupo quem eram eles e o que pretendiam fazer com aqueles estranhos? “-Liquida-los” foi a resposta[13].

A cabocla então se aproximou do venezuelano e este lhe fez rogos pela sua liberdade e de seus amigos. A jovem brasileira pegou no queijo do venezuelano, balançou sua cabeça e disse “-Não se assuste. Não lhe faremos mal. Você é bonitinho, rapaz”. Na sequência a mulher seguiu faceiramente para perto do chefe. Depois os escoteiros souberam que ela era Maria Bonita, a mulher do chefe, a Maria do Capitão Lampião.

Zambrano afirmou que considerou “esquisita” a atitude daquela mulher. Mas o que deixou a ele e seus companheiros verdadeiramente “estupefatos” foi que dez minutos depois do encontro com Maria Bonita eles foram desamarrados pelos cangaceiros, que lhes entregaram suas roupas, seus chapéus e os mandaram embora. Como pilheria final dos “Guerreiros do Sol” nos escoteiros venezuelanos, cada um dos estrangeiros foi contemplado com um belo chute na bunda como forma de despedida[14].

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Como apontamentos finais sobre esta entrevista concedida por Zambrano em Belo Horizonte, se insere algumas declarações bastante contraditórias.

Segundo consta nas notícias transmitidas de Salvador em dezembro de 1935, e publicadas no jornal carioca “A Noite”, Zambrano e seus amigos iriam partir de Salvador em direção ao sul do Brasil[15]. Mas, contradizendo o que foi escrito anteriormente, Zambrano afirmou ao correspondente mineiro que o medo dos seus companheiros foi tanto após o encontro com Lampião, que os outros retornaram para a Venezuela de navio e apenas ele seguia na jornada a pé pelo nosso país.

Mas estranho ainda está no fato de Zambrano, mesmo com ele e seus companheiros tendo sido revistados pelos cangaceiros, pedir publicamente no final da reportagem que Oswaldo Machado, o delegado da cidade de Corinto, lhe devolvesse um revólver tomado por esta autoridade quando ele foi detido na pequena cidade mineira. O venezuelano justificava a devolução da arma pelo fato dela ser um presente do Dr. Aquiles Lisboa, então governador do Maranhão.

Bem, ou esse correspondente de “A Noite” falseou as declarações do escoteiro venezuelano, ou os cangaceiros de Lampião eram muito incompetentes na hora de revistar os prisioneiros do grupo, ou Zambrano era um grande de um mentiroso!

Outra Entrevista e Novas Contradições

Aparentemente a direção do jornal “A Noite” achou que valia a pena investir um pouco mais no escoteiro, pois ele concedeu uma nova entrevista na sede deste periódico no Rio. Ele chegou a então Capital Federal em 15 de fevereiro e veio de Minas Gerais por via férrea[16].

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Zambrano concedendo uma entrevista na sede do jornal “A Noite”, no Rio.

Sobre o local de sua captura voltou a afirmar que tinha sido a “14 léguas” de “Água Bella”, mas agora informou que o grupo partiu de Aracaju, Sergipe, e durante a jornada houve o encontro com os bandoleiros[17].

Já em relação ao seu encontro com o chefe cangaceiro no meio da caatinga, o escoteiro acrescentou que viu o mesmo retirando de uma bolsa, e contando, uma grande quantidade de dinheiro em cédulas e todas amarradas em volumosos maços.

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Lampião e seus cangaceiros

Descreveu que o “Rei do Cangaço” estava com uma “gravata vermelha” (provavelmente um lenço) com um rico alfinete brilhante, caçava botas, culotes, camisa kaki e tinha nos dedos das mãos vários anéis de fina qualidade, todos com valiosas pedras preciosas.

Lampião perguntou quem eram aqueles rapazes fardados. “-Quem é o chefe deste batalhão?”, inquiriu Virgulino. Foi quando Andrés Zambrano se apresentou, afirmando ser da Venezuela e não trabalhar para a polícia. Como o venezuelano Zambrano insistia em dialogar no seu idioma nativo com Lampião, este último pegou um fuzil e lhe deu uma coronhada no peito e o estrangeiro foi ao chão. Após o escoteiro se colocar de pé, seguro por dois cangaceiros, este dispara na cara do “Rei do Cangaço: “O senhor deve me tratar como eu mereço. Sou um estrangeiro e tenho direito a ser respeitado. O senhor está desrespeitando a sua lei e o seu governo”.

Realmente nessa nova entrevista o jovem escoteiro Zambrano se apresentou ao jornalista como um homem muito mais decidido e “macho” na ocasião do seu encontro com o maior bandoleiro da história do Brasil.

Chamou atenção do jornalista que entrevistava Zambrano a declaração que o cangaceiro Lampião dormia uniformizado, com a sua arma muito próximo, tinha o sono “levíssimo” e acordava ao menor barulho. Para o estrangeiro o chefe cangaceiro desconfiava de todos, pois ele presenciou Lampião inicialmente dormindo em uma rede e depois de algum tempo este se levantou, pegou uma lona e foi dormir em um local escuro. Outro fato comentado sobre Lampião foi que, na opinião do venezuelano, ele poderia “está tuberculoso” por ter uma tosse seca.

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Quanto a Maria Bonita o venezuelano acrescentou que ela vinha acompanhada de “um menino de onze anos de idade”, mas não disse quem seria esse garoto. Desta vez também informou que a mulher de Lampião convenceu o chefe a soltá-los, depois dos “visitantes” terem dado sua palavra de honra de que não informariam à polícia o paradeiro do bando.

Talvez isso explique, mesmo em parte, informações tão desencontradas de Zambrano sobre o local onde se deu o encontro com os cangaceiros.

Mas nesta nova entrevista existe algo de chega a ser verdadeiramente hilário nas declarações do venezuelano, que mostra claramente seus exageros e contradições. Na primeira entrevista ele afirmou que ele e seus colegas ficaram amarrados “apenas de cuecas”. Já nesta segunda declaração os venezuelanos ficaram presos totalmente “nus”.

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Fonte – www2.uol.com.br

Se, diante do antigo e tradicional recato sertanejo em relação às mulheres, já era complicado aceitar que os cangaceiros deixaram estes homens presos em pleno acampamento, com cangaceiras presentes, amarrados em “trajes menores”, mais difícil ainda é aceitar a segunda declaração de Zambrano. Poder-se-ia até mesmo ser comentado que eles ficaram presos com poucas roupas para, no caso de uma fuga, a tentativa ser dificultada pelas plantas cortantes da caatinga. Mas as mudanças de versões de Zambrano atenta contra suas declarações.

Ao final da entrevista Zambrano informava que considerava sua aventura concluída, iria se apresentar as autoridades consulares venezuelanas lotadas no Rio e retornar ao seu país de navio[18].

Zambrano em São Paulo Com Seus Companheiros

Mas, segundo noticiaram dois jornais brasileiros, o “Capitán Scouts” Andrés Zambrano não voltou para sua terra natal.

Dez dias depois de conceder a entrevista no Rio para o jornal “A Noite”, Zambrano estava em São Paulo, onde inclusive foi recebido em audiência oficial pelo engenheiro Fabio Prado, então prefeito da capital paulista.

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Nota do jornal Correio da Manhã 23 de fevereiro de 1936

Um detalhe interessante deste encontro foi que desta vez Zambrano estava acompanhado dos seus amigos escoteiros, os mesmo que haviam supostamente retornado de Salvador para Venezuela.

Depois destas notícias dos escoteiros venezuelanos em São Paulo, não consegui mais nenhuma informação deste grupo no Brasil.

Depois de tantas contradições, tantas histórias estranhas, são muitas as conjecturas e dúvidas em relação ao que Zambrano comentou sobre os cangaceiros.

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Nota da Prefeitura de São Paulo, publicado no Diário de São Paulo em 21 de fevereiro de 1936

Será que estes escoteiros realmente estiveram no coito de Lampião?

Ou será que talvez, em meio às andanças pelo sertão, Zambrano tenha recebido várias informações sobre Lampião de pessoas que estiveram com o cangaceiro e, buscando a fama no Brasil, criou toda essa história?

Ou seria possível que tudo tenha sido uma criação dos jornalistas de “A Noite”, com o intuito de vender exemplares no Rio e o venezuelano participando da farsa para ganhar notoriedade?

E os outros escoteiros venezuelanos, onde estavam enquanto Zambrano aparecia nas páginas dos jornais brasileiros? 

No final das contas percebemos, por razões óbvias, que todos os relatos apresentados por Zambrano eram informações sumamente difíceis de serem averiguadas junto a Lampião, Maria Bonita e os outros cangaceiros[19].

O fato que mais me intrigou em toda esta história foi a total ausência de quaisquer referências sobre o “Capitán Scouts” Andrés Zambrano, seus companheiros e a sua rocambolesca aventura por terras brasileiras nos inúmeros sites da internet que tratam da história do escotismo na Venezuela.

Ao realizar esta pesquisa descobri que os escoteiros venezuelanos valorizam muito a história deste movimento em seu país e fazem questão de divulgar a maior quantidade possível de informações. Inclusive os sites que encontrei são extremamente informativos, realizados com esmero, qualidade e trazendo uma grande quantidade de informações históricas produzidas e dispostas de maneira clara e ágil.

Bem diferente do caso dos escoteiros que estiveram no Brasil, temos inúmeras referências sobre o “Raid pedestre” que ligou Caracas e Washington, capital dos Estados Unidos.

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Jornal venezuelano El Heraldo, 17 de junho de 1937

Em 11 de janeiro de 1935 partiram a pé de Caracas, a capital venezuelana, em direção a Washington, a capital dos Estados Unidos, os escoteiros Rafael A. Petit e Juan Carmona. Este evento, ou teve uma grande repercussão no país, sendo a aventura dos dois escoteiros reproduzida extensamente pela imprensa local, sendo cultuada até os dias de hoje[20].

Mas nada sobre Zambrano, seus companheiros e sua passagem pelo Brasil.


NOTAS

[1] Sobre a história do escotismo ver https://en.wikipedia.org/wiki/Scouting (Em inglês).

[2] As Guerras dos Bôeres (ou Guerras de libertação na historiografia bôer) é o nome dado aos dois conflitos travados entre o Reino Unido e as duas repúblicas bôeres independentes, o Estado Livre de Orange e a República Sul-Africana (República do Transvaal). Os dois conflitos ocorreram, respectivamente de 16 de dezembro de 1880 a 23 de março de 1881 e de 11 de outubro de 1899 a 31 de maio de 1902. O cerne do conflito estava na gradual expansão britânica pelo sul do continente africano, em territórios previamente ocupados por descendentes de antigos colonos holandeses.

[3] Sobre a vida de Baden-Powell ver http://www.scatacook.org/HistoryBadenPowell.htm (Em inglês).

[4] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de segunda-feira, 16 de dezembro de 1935, Pág. 1.

[5] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de quinta-feira, 30 de janeiro de 1936, Pág. 1.

[6] Zambrano declarou que este encontro aconteceu no sertão baiano, a “14 léguas” (84 quilômetros) de um local chamado “Água Bella”. Efetivamente existe uma localidade denominada Água Bela  na Bahia, entretanto esta comunidade fica localizada na Mesorregião do Centro Sul Baiano, na área territorial do município de Bom Jesus da Serra, a 120 km da cidade de Vitória da Conquista e a 470 de Salvador. Uma área na qual Lampião e seu bando jamais pisou. Em relação à história do cangaço, o local mais comentado e com um nome mais parecido ao narrado por Zambrano é o município pernambucano de Águas Belas. Mas este está localizado a cerca de meros 20 quilômetros da fronteira alagoana e a mais de 100 da fronteira baiana.

[7] Não foi informado o tipo de armamento que os escoteiros levavam. Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de quinta-feira, 16 de dezembro de 1935, Pág. 2.

[8] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de quinta-feira, 16 de dezembro de 1935, Páginas 1 e 8.

[9] Zambrano concedeu a entrevista em Belo Horizonte na manhã de sexta-feira, 30 de janeiro de 1936, tendo sido publicada uma pequena nota sobre o escoteiro venezuelano na edição carioca do jornal naquele mesmo dia. Mas na edição do sábado houve uma publicação bem mais detalhada e destacada. Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de sábado, 1 de fevereiro de 1936, Pág. 1 e 2.

[10] Não podemos esquecer que menos de dois meses antes, em 23 de novembro de 1935, eclodira em Natal a fracassada Intentona Comunista e as forças policiais do país estavam em total estado de alerta e a caça de elementos suspeitos de colaboração com os comunistas.

[11] Parece meio improvável que o “Rei do Cangaço” tenha deixado este escoteiro estrangeiro examinar as moedas presas na bandoleira de sua arma pessoal. A não ser que Zambrano tenha ficado muito próximo ao cangaceiro e do seu fuzil.

[12] Provavelmente Lampião comentou para os venezuelanos sobre a morte de quatro cangaceiros ocorrida três meses antes. Mas neste caso, entre os algozes dos bandidos, não existiu nenhum policial. No dia 19 de setembro de 1935, no município alagoano de Mata Grande, na fazenda Aroeirinha, o proprietário Felix Alves Rocha, seus quatro filhos, dois sobrinhos e outro proprietário rural da região, montaram uma emboscada contra os cangaceiros Limoeiro, Suspeita, Fortaleza e Medalha. A ideia desta ação se deveu ao fato de Felix Alves ser suspeito de proteger e dar apoio a cangaceiros e, para evitar as fundamentadas suspeitas dos policiais, nada melhor do que matar alguns bandoleiros. Apesar da ação violenta ter redundado na morte dos quatro cangaceiros, Felix Alves também pereceu neste combate. Ver “Diário de Pernambuco”, Recife, edição de quinta-feira, 10 de outubro de 1935. Pág. 10.

[13] Diferentemente da primeira entrevista concedida em Salvador, quando “duas mulheres” pediram pela vida dele e de seus companheiros, nas entrevistas que Zambrano concedeu então só relatou que foi salvo por Maria Bonita.

[14] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de sábado, 1 de fevereiro de 1936, Pág. 1 e 2.

[15] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de quinta-feira, 16 de dezembro de 1935, Páginas 1 e 8.

[16] Para a imprensa do Sudeste do país, relatos sobre a brutalidade de Lampião sempre atraíam leitores e a existência de um estrangeiro que conseguiu ser libertado depois de encarar o maior dos cangaceiros era mais do que o esperado. Era valioso!

[17] Se a declaração de Zambrano é verdadeira, dificilmente o município pernambucano de Águas Belas poderia ser o ponto de referência para saber com alguma segurança o local de encontro dos venezuelanos com os cangaceiros. Pois é sumamente ilógico, em termos geográficos, para o viajante que parte de Aracaju e deseja seguir em direção a Salvador, ou ao sul do país, tomar o rumo até este município pernambucano. Talvez essa informação com tamanho erro geográfico fosse uma ação deliberada do venezuelano, conforme o leitor pode encontrar a razão na continuidade do texto.

[18] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de sábado, 16 de fevereiro de 1936, páginas 1 e 3. Esta reportagem foi reproduzida integralmente em vários jornais brasileiros. Entre estes ver “Diário de Pernambuco”, Recife, edição de sábado, 22 de fevereiro de 1936, páginas 1 e 8.

[19] Ver os jornais “Diário de São Paulo”, São Paulo, edição de terça-feira, 21 de fevereiro de 1936, página 3 e “Correio da Manhã”, Rio de Janeiro, edição de quinta-feira, 23 de fevereiro de 1936, página 4.

[20] Petit e Carmona finalizaram com sucesso a aventura e chegaram em Washington em junho de 1937, depois de 29 meses de caminhada. Ver http://myslide.es/documents/historia-del-escultismo-venezolano.html

Sobre o escotismo na Venezuela ver –

http://scoutsorinoco.blogspot.com.br/2013/11/historia-del-escultismo-en-venezuela.html

http://fm44.tripod.com/scouts1.htm/

http://tropafemeninajohnstelzer.blogspot.com.br/2011/07/historia-del-escultismo-venezolano.html

http://museovirtualscoutvzla.blogspot.com.br/2012/01/notas-sobre-la-historia-del-escultismo.html

http://scoutenparaguana.blogspot.com.br/p/historia-de-los-scouts-en-venezuela.html

http://myslide.es/documents/historia-del-escultismo-venezolano.html

http://blogs.diariodepernambuco.com.br/diretodaredacao/2015/09/14/o-estrangeiro-que-peitou-lampiao/

 

 

IMPRENSA E CANGAÇO – A REPORTAGEM QUE REINVENTOU LAMPIÃO

Imagem que fez história – A foto das cabeças decepadas de Lampião e seu bando foi estampada nas páginas centrais de A Noite Ilustrada pouco mais de uma semana depois do massacre de Angicos e correu o mundo ao longo do século 20 - Fonte - http://brasileiros.com.br/2013/07/a-reportagem-que-reinventou-lampiao/
Imagem que fez história – A foto das cabeças decepadas de Lampião e seu bando foi estampada nas páginas centrais de A Noite Ilustrada pouco mais de uma semana depois do massacre de Angicos e correu o mundo ao longo do século 20 – Fonte – http://brasileiros.com.br/2013/07/a-reportagem-que-reinventou-lampiao/

A revista carioca A Noite Ilustrada publicou a maior cobertura da imprensa sobre a morte do mais famoso cangaceiro, fato que evidenciava sua importância como notícia e lenda.

A capa da edição da quarta-feira 9 de agosto de 1938, da revista A Noite Ilustrada, lançada 11 dias depois do massacre na Fazenda Angicos, município de Piranhas, entre Alagoas e Sergipe, onde morreram Virgulino Ferreira da Silva (1898-1938), o Lampião, Maria Bonita e mais nove pessoas, é emblemática. Em vez de estampar o mais famoso e temido cangaceiro do País, a imagem trazia em destaque outro bandoleiro, Corisco, conhecido pela polícia e pela imprensa como Diabo Louro. A mensagem parecia clara: sem Lampião, o cangaço sobreviveria pelo herdeiro e compadre de seu antigo chefe. Rei morto, rei posto? Não. A legenda explicava que aquela foto havia sido encontrada entre muitas outras em um dos bolsos do famoso criminoso, quando os soldados da “volante” foram saquear seus bolsos, em busca de joias e dinheiro, no momento em que seu corpo jazia, cravado de balas.

Em 28 páginas sobre o massacre, a revista, comandada pelos jornalistas Gil Pereira e Vasco Lima, trazia a primeira grande reportagem sobre o assunto, que se tornou aula e marco do jornalismo na época. Motivo: a publicação tinha conseguido mandar uma equipe – fotógrafo e repórter – do Rio de Janeiro até o local, a dois mil quilômetros de distância, em pouco mais de 24 horas. Ao que parece, foi uma operação de guerra. Tão logo as primeiras notícias da morte de Lampião chegaram às redações do Rio de Janeiro, via telegrama, nenhum jornal ou revista teria se interessado em mandar equipes.

Segundo o site blogdomendesemendes.blogspot.com.br, no dia 2 de agosto de 1938 a revista A Noite Ilustrada também publicou outra reportagem sobre a morte de Lampião e Maria Bonita - Fonte - http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/
Segundo o site blogdomendesemendes.blogspot.com.br, no dia 2 de agosto de 1938 a revista A Noite Ilustrada também publicou outra reportagem sobre a morte de Lampião e Maria Bonita – Fonte – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/

Por mais de dez anos, a grande imprensa acompanhou as muitas caçadas a Lampião, promovidas pela polícia de pelo menos seis estados do Nordeste por onde ele e seu bando circularam e “aterrorizaram” – Bahia, Sergipe, Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. A viagem dos jornalistas de A Noite Ilustrada só foi possível porque eles conseguiram embarcar antes do meio-dia em um voo internacional da Pan American, que fazia a rota Miami-Rio de Janeiro-Buenos Aires. As escalas eram feitas em Montes Claros (MG), Barreiras (BA) e Carolina (MA).

Os jornalistas desceram em Barreiras, no cerrado baiano, e de lá cruzaram de carro ou de trem boa parte do território baiano, até chegar à cidade de Piranhas. Na manhã seguinte, eles se depararam com a tropa de 49 homens do tenente João Bezerra na pequena cidade de Pedras, no meio do caminho até Santana do Ipanema, onde ficava o batalhão que realizou a operação militar.

Os enviados se tornaram a primeira equipe de jornalistas a visitar a “gruta” de Angicos, depois do massacre. Acabaram por fazer fotos que se tornaram famosas ao longo dos 75 anos seguintes e foram reproduzidas incontáveis vezes por jornais, revistas e livros sobre o tema. São imagens que chocaram os leitores. Logo na página três, aparecia a cabeça decepada quase em tamanho real da mulher mais famosa do cangaço e um pequeno texto dizia: “Companheira de Lampião, fotografada em Pedra, durante o regresso da ‘volante’ (tropa) do tenente João Bezerra, quando ainda conservava a regularidade dos traços e a serenidade da expressão. Mesmo depois da morte violenta, justificando a alcunha, a cabeça da bandoleira mostra vestígios de tranquila beleza”.

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Nas páginas centrais, como pôster de 43 cm x 86 cm, A Noite Ilustrada estampava a foto mais famosa da história do banditismo no Brasil, que se tornou símbolo do grau de selvageria que dominava mocinhos e bandidos nos confins da caatinga brasileira: as cabeças decepadas dos mortos de Angicos, arrumadas na escadaria de uma igreja, identificadas com uma etiqueta ao lado de cada uma. Apareciam, pela ordem de cima para baixo, da esquerda para a direita: Diferente, Desconhecido, Cajarana, Enedina, Caixa de Fósforos, Mergulhão, Elétrico, Luis Pedro, Maria Bonita e, sozinha na parte de baixo, Lampião.

Ao redor, parte dos pertences recolhidos – armas e balas em quantidade, embornais e uma máquina de costura aparentemente da marca Singer. No local do tiroteio, há uma foto que mostra com números e setas como tudo aconteceu: onde estavam os soldados e em que ponto Lampião foi mortalmente atingido, sem ter chance de qualquer reação.

A notícia tinha corrido o Brasil como fogo em pólvora. Todos os grandes jornais destacaram o fato na primeira página. Por 18 anos, Lampião e seu bando atacaram, principalmente, pequenas e miseráveis localidades em que a população vivia sob o chicote e o domínio eleitoreiro das dinastias dos coronéis. A imprensa das regiões Sul e Sudeste sempre se interessou pelo assunto, destacava a crueldade de Lampião e de seus comparsas e o heroísmo da polícia em sua captura. Ficaram famosos nomes como do sargento Odilon Flor que, por oito anos caçou e perseguiu o cangaceiro, e o do tenente Campos de Menezes, que o perseguia desde a década anterior – por diversas vezes, Menezes e seus homens trocaram tiros com Lampião. Mas a glória coube ao desconhecido tenente Bezerra, transformado em herói nacional literalmente da madrugada para o dia.

A revista A NOITE ILUSTRADA de 02 de agosto de 1938 - Fonte - http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/
A revista A NOITE ILUSTRADA de 02 de agosto de 1938 – Fonte – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/

Não havia qualquer discussão na imprensa sobre as intenções do cangaceiro que eram apenas roubar e saquear a partir de uma índole criminosa natural, como aconteceu depois e o transformou em herói para muitos, por contestar o poder dos coronéis – Lampião seria fruto do inconformismo de um mundo injusto e sem lei. “Ido desta capital de avião, o serviço dos enviados especiais de A Noite Ilustrada ao sertão e à capital de Alagoas trouxe a lume o sensacional acontecimento por todas as suas faces mais empolgantes, acumulando uma sucessão de documentos que se encontram em parte nesta edição”, explicou a revista, em seu editorial. Para seus editores, a publicação havia feito algo extraordinário. Tanto da parte de seus repórteres quanto da polícia, mostrada como heroica. Dizia o título: “O sensacional acontecimento do sertão alagoano”.

Prosseguiram eles, na apresentação. “Releva notar o acervo de fotos feitas no próprio local do combate entre a polícia alagoana e o bando do ‘Rei do Cangaço’, a grota situada na fazenda Angicos, das quais se encontram na última página da revista, e testemunham não apenas a coragem, mas a temeridade dos nossos auxiliares.” No mesmo texto, destacou o pequeno vidro encontrado no corpo de Lampião, cheio de um pó amarelo, que, “verificou-se nesta capital, por experiência feita no laboratório de Pesquisas Científicas da Polícia, ser um veneno poderoso. É também um pormenor de sensível interesse”, porque se sabia, “por informações anteriores”, que era uma prevenção para não cair com vida em mãos das autoridades.

A revista A NOITE ILUSTRADA de 02 de agosto de 1938 - Fonte - http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/
A revista A NOITE ILUSTRADA de 02 de agosto de 1938 – Fonte – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/

“Consciente da enormidade de seus crimes, o cangaceiro não suportava a ideia de expiá-los. Pode suceder, também, que um amor próprio a seu modo lhe fizesse intolerável à possibilidade de vir a ser dominado pelos que considerava inimigos odiosos.” Ou seja, sua decisão era de jamais se deixar prender vivo pela política. Cometeria suicídio antes. “Verificou-se ainda que Lampião foi colhido por uma rajada de balas, pois seu famoso punhal, de cabo trabalhado a ouro e marfim, foi atingido numa das lâminas, e a própria cartucheira do bandido, onde o ímpeto de uma das balas que recebeu detonou outra da própria cartucheira do antigo ‘Terror do Nordeste’, que o atingiu mortalmente.”

O que se nota em toda a edição de A Noite Ilustrada é que em nenhum lugar são ditos os nomes do repórter e do fotógrafo, embora eles aparecessem em duas fotos e fossem assim identificados. Em uma delas, o fotógrafo, de óculos, posava à frente dos voluntários e soldados, sorrindo para a câmera. Em outra, o jornalista cumprimentava o aspirante Ferreira, cercados de soldados que apoiavam as mãos nos ombros dos dois. Uma legenda informava: “O corpo do bandoleiro foi identificado e fotografado por um dos enviados de A Noite Ilustrada na grota de Angicos, sendo que outros ali voltaram, ainda, depois, a fim de minudenciar o terreno fotograficamente, facilitando uma reconstituição do choque entre a polícia e os bandoleiros”. A edição trazia também o primeiro episódio de uma série em quadrinhos sobre a vida do cangaceiro, roteirizada e ilustrada por Euclides L. Santos. Com dez quadrinhos cada página, iniciava uma série que seria publicada duas vezes por semana no jornal A Noite, nos cinco meses seguintes.

A revista A NOITE ILUSTRADA de 02 de agosto de 1938 - Fonte - http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/
A revista A NOITE ILUSTRADA de 02 de agosto de 1938 – Fonte – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/

Singularmente ingrato

Lampião jamais imaginou que poderia ser morto em Angicos. Aquele era seu esconderijo havia muitos anos e ele acreditava, mesmo se traído, uma volante não conseguiria chegar ali. O terreno, no dizer de um geógrafo entrevistado pela revista, contou que o local era “singularmente ingrato”. E explicou que ficava “entalado entre a margem do rio e a montanha pedregosa e íngreme que da mesma margem começa logo a erguer-se, apertada entre gargantas e pequenas contraescarpas de serra, e ingrato, estéril e árido, ostentando rochedos de granito e penhascos inacessíveis. Essa topografia era da conveniência para os cangaceiros que, por isso mesmo, sempre procuravam Angicos, nas imediações de Piranhas, quando se sentiam inseguros e acossados”. Mas a força policial, comandada pelo tenente João Bezerra, reunia veteranos combatentes do cangaço, não teve dificuldades alcançar aquele ponto.

Os cangaceiros haviam chegado a Angicos no dia anterior, 27 de julho, exaustos, famintos. Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas. O aguaceiro, em vez de dificultar a aproximação de alguma volante, ajudou, graças ao barulho da água que caía. Tanto que nem os cães de Maria Bonita pressentiram. Bezerra relatou depois que o bombardeio ainda não tinha começado, por volta das 5h15 do dia 28, e teve de ser precipitado. No momento em que os cangaceiros levantaram para rezar o ofício, de acordo com o ritual estabelecido pelo Rei do Cangaço, e se preparavam para tomar café, um cangaceiro deu o alarme. Tarde demais. Bezerra gritou: “Fogo”. Os soldados dispararam suas metralhadoras portáteis, que cuspiram dezenas de balas por minuto, por cerca de 20 minutos. Corisco e os outros que estavam mais distantes, e acabaram protegidos pelos rochedos, conseguiram se arrastar e fugiram.

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Lampião foi um dos primeiros a morrer. Dentro dos costumes da época, Maria Bonita, gravemente ferida, teve sua cabeça decepada – fizeram o mesmo com o marido, em seguida. Na euforia que se seguiu, sem se preocupar se alguém tinha escapado, os policiais saquearam os cadáveres e os mutilaram com selvageria. Também foram degolados vivos Quinta-Feira e Mergulhão que estavam  feridos. Um dos policiais, com ódio de Lampião, deu um golpe de coronha de fuzil na cabeça do cangaceiro tão forte que a deformou. Afirmou-se depois que todas as cabeças foram salgadas e colocadas em latas de querosene, com aguardente e cal, enquanto os corpos foram abandonados e devorados por urubus. Para evitar a disseminação de doenças, dias depois foi colocada creolina sobre os corpos. Como alguns urubus morreram intoxicados pela substância, esse fato ajudou a difundir a crença de que eles haviam sido envenenados antes do ataque, com alimentos entregues pelo coiteiro traidor. Outra versão dava conta de que as cabeças não passaram por qualquer processo de conservação nas 48 horas que se seguiram ao massacre. E mesmo inchadas – como se vê nas fotos –, foram vistas por milhares de curiosos nas cidades onde o pelotão passou.

Em Pedra, ao alcançar a volante, a equipe de A Noite Ilustrada conseguiu reunir 47 dos 49 homens que estiveram em Angicos para uma foto histórica. Duas outras mostravam a multidão que se concentrou em uma praça em Maceió para ver as cabeças dos 11 cangaceiros. “Em Piranhas, as tropas chegaram inesperadamente, quando terminara a feira ali erguida, e quando, portanto, ninguém imaginava a possibilidade de acontecimento de tal monta. A polícia alagoana, conduzindo os troféus do sangrento encontro, foi recebida por aclamações populares intensas, mais vivas e constantes, à medida que os populares se inteiravam do êxito completo do combate com o bando de cangaceiros. Ferido, embora sem gravidade maior, o Tenente Bezerra, cuja valentia é conhecida em todo sertão circundante, era visado particularmente nos aplausos do povo aglomerado”.

A revista A NOITE ILUSTRADA de 02 de agosto de 1938 - Fonte - http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/
A revista A NOITE ILUSTRADA de 02 de agosto de 1938 – Fonte – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/

O mesmo espetáculo foi verificado pela equipe da revista em Pedra e Água Branca, “onde as populações, vítimas durante tantos anos dos sustos constantes pelo perigo de incursões dos cangaceiros, mal podiam acreditar no extermínio do monstro da caatinga”. Em todas essas localidades, o chefe dos volantes determinou a exposição das cabeças. “Visava principalmente evitar alguma lenda de negação do fato, coisa muito natural em face da crença, alimentada pelos próprios acontecimentos, durante tantos anos, da intangibilidade do chefe do cangaço. Os soldados jubilosos pelo resultado da sortida, e sua alegria se misturava à do povo, compondo um espetáculo expressivo da sensação de libertação que pairou sobre aqueles recantos da civilização sertaneja.”

Em Santana do Ipanema, “esse jubilo popular atingiu maiores proporções”. Segundo o repórter, as cabeças dos cangaceiros, que haviam sido fotografadas em Pedra, foram novamente expostas à curiosidade pública “e numerosas pessoas reconheceram a cabeça decepada de Lampião e de outros seus comparsas do crime”. O espetáculo bizarro prosseguiu em Maceió. No Instituto Médico Legal de Aracaju, as cabeças foram medidas, pesadas e examinadas pelo médico Carlos Menezes. Suas observações fizeram com que os criminalistas mudassem a teoria de que um homem bom não viraria um cangaceiro, e este deveria ter características sui generis.

Lampião conversa com Benjamin Abrahão - Fonte - http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/literatura/noticia/2012/12/13/frederico-pernambucano-de-mello-lanca-biografia-de-benjamin-abrahao-66680.php
Lampião conversa com Benjamin Abrahão – Fonte – http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/literatura/noticia/2012/12/13/frederico-pernambucano-de-mello-lanca-biografia-de-benjamin-abrahao-66680.php

Diferentemente do que acreditavam, as cabeças não apresentaram qualquer sinal de degenerescência física, anomalias ou displasias, apesar da decomposição avançada. Acabaram classificadas como de indivíduos normais. Do sudeste do País, apesar do péssimo estado, seguiram para Salvador. Ali, permaneceram por seis anos na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal da Bahia. Nenhuma patologia foi encontrada após novos exames. Por mais de três décadas, ficaram expostas no Museu Antropológico Estácio de Lima, no prédio do IML Nina Rodrigues, no Terreiro de Jesus, em Salvador. Atraíam milhares de curiosos todos os anos, que queriam ver, principalmente, as cabeças de Lampião e Maria Bonita.

Enquanto isso, as fotos de A Noite Ilustrada corriam o Brasil e o mundo. Sem autorias definidas, perderam sua identidade, ao mesmo tempo que se tornavam documento de uma época. Por mais que a revista chamasse Lampião de facínora, o resultado de seu esforço jornalístico mantinha a força de uma história e não conseguiu evitar que de suas páginas nascesse uma lenda que, como tal, ainda fascina. Suas fotos e textos, enfim, por mais que se tenha feito um trabalho de reportagem louvável, não evitou que Lampião continuasse a andar pela caatinga, mesmo como um fantasma, cada vez mais vivo na imaginação das pessoas pela coragem de cabra macho que era em enfrentar os poderosos. Que se publique a lenda.


Porta Voz de Vargas

A redação de A Noite Ilustrada funcionava na Praça Mauá, 7, centro do Rio de Janeiro, e onde ficavam redações de jornais e revistas, e emissoras de rádio importantes. Lançada em 1930, a publicação surgira como um marco por sua qualidade de impressão, graças ao moderno sistema de rotogravura. Pertencia ao jornal A Noite, mesmo diário fundado por Irineu Marinho e Geraldo Rocha. A Noite sobrevivera ao longo da década de 1930 sob o duro castigo de ter apoiado o grupo derrotado pela Revolução de 1930.

Getúlio Dornelles Vargas (1883 – 1954) - Fonte - http://www.culturabrasil.pro.br/vargas.htm
Getúlio Dornelles Vargas (1883 – 1954) – Fonte – http://www.culturabrasil.pro.br/vargas.htm

Na ocasião, sua redação foi saqueada e incendiada e Rocha se refugiou em Minas Gerais. O diário sofreu intervenção do governo. Pressionado, Rocha reconheceu em cartório que tinha dívidas e abriu mão de seus bens para os bancos do governo, inclusive de A Noite. O jornal se tornou, então, uma espécie de órgão a serviço de Vargas e radicalizou seu oficialismo com a decretação do Estado Novo, em novembro de 1937, quando assumiu a mesma postura nazifascista do ditador brasileiro. Essa orientação editorial dava o tom na cobertura do massacre de Angicos e no modo de como a tropa do Exército foi tratada.

Lampião Lia “A Noite Ilustrada”

Pelo acaso, Lampião acabou por se tornar garoto propaganda de A Noite Ilustrada. Dois anos antes de morrer, ele aparecia em uma de suas mais famosas fotos, feita pelo fotógrafo e caixeiro viajante Benjamin abraão (1890-1938), mostrando um exemplar da famosa revista carioca, ao lado de maria Bonita, que aparecia sentada, acariciando os cães Ligeiro e Guarany. A edição, de 27 de maio de 1936, trazia na capa a nadadora americana Anna Evers, uma das promessas da olimpíada de Berlim daquele ano. 

Casal bem informado – Lampião com um exemplar de A Noite Ilustrada, de 1936, ao lado de Maria Bonita. O casal gostava de acompanhar pelas revistas as novidades do Brasil e do mundo
Casal bem informado – Lampião com um exemplar de A Noite Ilustrada, de 1936, ao lado de Maria Bonita. O casal gostava de acompanhar pelas revistas as novidades do Brasil e do mundo

Na legenda, lia-se: “a sereia e sua rede… Anna Evers exibindo um formoso modelo praiano em Santa Mônica, Califórnia”. Segundo depoimentos das cangaceiras Aristéia e Dadá, as fotos foram feitas entre junho e julho de 1936, portanto um mês ou dois depois do lançamento da revista. Abrahão seria morto pouco mais de dois meses antes de Lampião, em serra talhada, no dia 10 de maio de 1938. De origem sírio-libanês-brasileira, ele se tornou o responsável pelo registro iconográfico do cangaço e de seu líder, Lampião.

Fonte - acordacordel.blogspot.com
Fonte – acordacordel.blogspot.com

Para fugir do serviço militar em seu país, durante a Primeira Guerra Mundial (1914- 1918), ele veio para o Brasil. chegou em 1915. Foi mascate em Recife e Juazeiro do Norte, atraído pela frequência de romeiros em busca do Padre Cícero, de quem se tornou secretário e conheceu Lampião, em 1926, quando foi à cidade receber a bênção do célebre vigário e a patente de capitão, para auxiliar na perseguição da coluna prestes. Anos depois, obteve do cangaceiro autorização para acompanhar o bando na caatinga e realizar as imagens que o imortalizaram. Foi assassinado com 42 facadas e o crime nunca foi esclarecido.


Autor – Gonçalo Junior

Fonte – http://brasileiros.com.br/2013/07/a-reportagem-que-reinventou-lampiao/