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CANGACEIROS “MÃO FOVEIRA” E “PASSO PRETO”

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Cangaceiro Mão Foveira, também alcunhado como Serra do Umã preso em Recife – Fonte – https://tokdehistoria.com.br/2014/09/12/cangaceiros-atras-das-grades-fim-da-ilusao/

AUTOR – Sálvio Siqueira

Naquele tempo, tempo do cangaço lampiônico, as considerações entre aqueles que participaram dos bandos cangaceiros resumia-se em acordos e poderes. Não havia, de fato, uma determinação de alguém dar sua vida pela do outro. A confiança era somente entre quantias em dinheiro e favores recíprocos. Por isso que os líderes, ou mesmo o cangaceiro mor, sempre tinha, dentre seus algozes, aqueles que deveriam ser mais ‘chegados’, mesmo por que a traição e a covardia andam juntas e em todo lugar desde os primórdios da vida humana no planeta terra.

Quando Lampião consegue levar seus ‘meninos’ as terras dominadas pelo coronel Izaías Arruda, no reduto cearense, esse lhe apronta uma das maiores arapucas que já se tenha ouvido falar. Tudo estava certo para que a cabroeira fosse almoçar na casa sede da fazenda, no momento em que se dirigiam para ela, Virgolino resolve acampar debaixo de algumas árvores na beira da vargem onde havia um canavial. O coronel, sabendo do fracassado ataque a Mossoró, RN, e tendo sido um dos mentores do plano, tinha que dar sumiço naquele que sabia de tudo… Em Lampião, o “Rei do Cangaço”.

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Lampião

Pois bem, o coronel, outrora grande coiteiro, ordena que se coloque veneno na comida da cabroeira. Em seguida, manda que se coloque fogo no canavial, formando assim uma barreira de fogo intransponível, por fim distribui seus jagunços, que não eram poucos, juntamente com o contingente de uma Força Volante cearense cercando o restante do local para que aqueles que escapassem do veneno e do fogo fossem abatidos pelas balas dos homens dispostos em lugares estratégicos. Nessa emboscada o bando de Lampião sofre a maior de suas baixas. Morreram alguns envenenados, outros, com o veneno a lhes cortarem as entranhas caem sobre as chamas vigorosas do fogo na palha da cana e outros foram abatidos pelas armas. Dentre os mais distintos pesquisadores/historiadores não há uma narrativa ‘cristalina’ de como Lampião conseguiu escapar com vida de tamanha armadinha, além de salvar a vida de alguns de seus subordinados.

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Lampião em Mossoró – Fonte –  http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br

No longo e árduo caminho, com certeza tendo o “Rei do Cangaço” vinha queimando vários e vários milhares de neurônios procurando encontrar, ou tentando achar, respostas para o que aconteceu em território dominado pelo aliado cearense. Por que o coronel que o chamou e o incumbiu da missão sobre Mossoró estava a ponto de acabar com sua vida? Por que aquele que lhe fornecera abrigo, munição e armas acabara por lhe armar tamanha arapuca? Mais um, dentre os grandes ‘coronéis’ coiteiros caem fora do ‘negócio’ armando para ele. Primeiro havia sido o coronel José Pereira, de Princesa Isabel, PB, que vendo a maneira como os homens de Lampião haviam se portado na cidade de Souza, PB, enquanto Virgolino se restabelecia de um ferimento no pé direito, em território dominado pelo coronel, manda que um exército de jagunços seja lançado sobre a cabroeira para extermina-la. Com esse ato Zé Pereira consegue, ou pensava conseguir, eliminar dois coelhos com um só disparo: acabar com a suspeita de ser acoitador de Lampião e não saldar a dívida com ele, que, segundo o próprio Virgolino, não era pouca. Agora o grande coronel Izaias Arruda também o trai e quase acaba com a vida dele.

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Fotos de cangaceiros presos na Casa de Detenção de Recife, estampada na primeira página de um jornal da capital pernambucana

Já em terras pernambucanas, a horda perambula e avança aos solavancos rumo ao território onde encontrariam abrigo nos município de Triunfo, Vila Bela e Floresta. A cabroeira estava pra lá de desanimada, sobre tudo por ainda estarem com eles alguns companheiros feridos e/ou envenenados. Dentre os envenenados havia o ‘cabra’ “Mão Foveira”, sertanejo Domingos dos Anjos, que pede permissão ao chefe para ficar na estrada por estar sentindo muitas dores no abdome. Esse cangaceiro também era conhecido pela alcunha de Serra do Umã. Em vez de dar permissão, Virgolino manobra a alavanca do mosquetão e eleva a arma ao ombro dizendo que só o deixaria se fosse morto. Apesar de também ser cangaceiro, “Mão Foveira” pede pela vida, no que, naquele momento não parecia ser com o que Lampião concordava. Insistindo em não deixar com vida seu assecla, o cangaceiro mor é colocado à prova pelo restante dos homens. Todos tomam o partido do companheiro envenenado e falam em sua defesa. A pressão é alta e Lampião sabia que se matasse “Mão Foveira” naquele instante, seria morto pelos outros. Não tinha outra saída, tinha que deixa-lo na beira da estrada com suas dores a espera da morte.

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Cangaceiros presos – Fonte – tokdehistoria.com.br

As contrações dolorosas na altura do intestino delgado se intensificam e o cangaceiro, lá deixado no meio do nada, prossegue esperando sua hora chegar. Mais tarde, quando o sol já havia pendido para o poente um cidadão da família Pereira, o sertanejo Zuza Conrado vem viajando por aquela estrada e encontra o homem agonizante, o carrega par sua própria casa. Lá chagando, foi até a ‘panela’ onde estava o leite das vacas, e o faz beber bastante. “Mão Foveira” começa a sentir-se melhor. As dores quase que acabam por completo. Restabelecido e tendo feito um detalhado relato ao seu salvado, esse o leva até Vila Bela onde é colocado no xilindró. Naquela época os cangaceiros presos eram transferidos para os grandes presídios nas capitais dos Estados. Dentre outras coisas, para evitar um ataque do restante do bando e soltá-los.

Na região de Floresta do Navio havia uma família com cinco irmãos: Francisco Miguel do Nascimento, Pedro Miguel do Nascimento, Domingos Miguel do Nascimento, João Miguel do Nascimento e José Miguel do Nascimento. Todos dessa família viviam do trabalho nos roçados e vaqueijando gado dentro das brenhas da caatinga. Eram conhecidos nas redondezas como “os Miguel”.  O jovem Francisco Miguel do Nascimento, que era um dos bons vaqueiros daquela região, cai em desgraça e a saída para continuar vivendo foi entrar para o cangaço e ir viver da espingarda junto a Virgolino. Daí por diante seu nome passa a ser o cangaceiro “Passo Preto”.

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Seus irmãos em vez de seguirem essa ‘trilha escura’, tomam outra, totalmente oposta. Entram na Força Pública e vão dar combate ao banditismo rural que assolava o Sertão do Pajeú das Flores.

Segundo o pesquisador/historiador/ex volante, tenente João Gomes de Lira, no seu “Lampião – Memórias de um Soldado de Volante” – 1ª edição, pg 389, de 1990, nos combates em que os irmãos estavam a se digladiarem, o cangaceiro “Passo Preto”, dono de poderosa voz, começava a chamar pelo nome dos irmãos começando uma prosa, mesmo naquelas condições, tentando relembrarem passagem de suas vidas quando jovens. O saudoso tenente da Briosa pernambucana nos diz ainda que: antes de partir para dentro da Mata Branca, em busca de abrigo, “Passo Preto” soltava um longo e penoso aboio se despedindo dos irmãos.

Pedro e Domingos foram promovidos a cabo da PMPE por merecimento. Já o irmão Francisco, o cangaceiro “Passo Preto”, depois de uma vida sangrenta no cangaço, se entrega e vai cumprir sua pena na Detenção de Fernando de Noronha. Liberto, Francisco Miguel, depois de perambular por vários lugares, pega o rumo do distrito de Nazaré do Pico, município de Floresta, PE, onde procura o capitão da PM Euclides Flor e lhe solicita trabalho. O capitão Euclides Flor lhe dar emprego e ele passa a conviver e trabalhar junto as pessoas de quem tanto fugiu e o perseguiu. Porém, se sentia seguro e protegido… Nas quebradas do Pajeú das Flores.

Fonte “Lampião – Memórias de um Soldado de Volante” – LIRA, João Gomes de. 1ª edição. Recife, 1990

Foto TOK de HISTÓRIA

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A TUMULTUADA CHEGADA DO ROCK AND ROLL A NATAL

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Fonte – crandall1950syoungculture.files.wordpress.com

Rostand Medeiros – Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte 

Sabemos que durante a Segunda Guerra Mundial a cidade de Natal sofreu muitas mudanças com a presença das tropas estadunidenses e suas bases militares. Ocorreram, além da visível mudança demográfica da cidade, muitas alterações no quesito de comportamento, o acesso a novos meios de informações e novos padrões econômicos.

Estilos, sons e acessórios comuns aos militares americanos foram incorporados ao dia a dia dos jovens natalenses e, aparentemente, esse desejo de absolver o que vinha da nação considerada na época “o grande irmão do norte” continuou nos anos seguintes e não parou mais.

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Militares norte-americanos em Parnamirim Field – Fonte – Getty Images

Mas nem tudo que veio dos “States” foi aceito de forma tranquila em Natal!

E  uma dessas rejeições foi com o Rock and roll.

Mas quando ele desembarcou na capital potiguar?

Música De Origem Negra Em Uma Terra Racista

Se as origens do Rock and roll têm sido até hoje ferozmente debatido por comentaristas e historiadores de música, existe o consenso que o rock surgiu no sul dos Estados Unidos. E foi através da reunião de várias influências e de uma combinação de diversos gêneros musicais populares que incorporaram principalmente a fusão da tradição musical africana com a instrumentação europeia. E tudo começou basicamente em julho de 1951. 

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Alan Freed – Fonte – http://www.wikipedia.org

Alan Freed era o disck-jockey de um programa de rádio na cidade de Cleveland, no estado de Ohio (EUA), e um dia percebeu em uma loja de discos alguns jovens que dançavam freneticamente ao som de uma música alucinante, que até então ele nunca havia parado para ouvir.

Era o Rhythm and blues, ou R&B, um som muito mais conhecido entre a comunidade negra dos Estados Unidos na época e distante dos brancos anglos saxões pelo peso do racismo existente naquele país.

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Cartaz do Moondog Coronation Ball – Fonte – http://www.wikipedia.org

Por sugestão de Leo Mintz, o dono da loja, Freed passou a divulgar aquele ritmo na rádio WJW-AM, onde trabalhava. Logo, encantado com o som frenético, Freed criou um programa chamado Moondog Rock Roll Party, inspirado na velha canção “My Daddy he Rocks me With a Steady Roll”.

No ano seguinte, Freed, Mintz e o promotor Lew Platt decidiram produzir um concerto com os artistas e bandas de R&B. No dia 21 de março de 1952 foi realizado no Cleveland Arena, um local com capacidade para 10 mil pessoas, o Moondog Coronation Ball, que é considerado o primeiro show de Rock and Roll da História. O show foi um sucesso e com casa cheia.

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Show do dia 21 de março de 1952 no Cleveland Arena, o primeiro show de Rock and Roll da História – Fonte – http://www.wikipedia.org

Um ano depois uma música denominada “Rock Around the Clock” e interpretada pela banda Bill Haley and his comets alucinou os jovens norte-americanos e tocou fogo no país. Devido ao rápido sucesso de “Rock Around The Clock”, que foi aclamado como o hino oficial do Rock and roll, outros artistas como Chuck Berry, Little Richard e Jerry Lee Lewis se juntaram a Bill Haley.

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Bill Haley and his comets – Fonte – obaudoedu.blogspot.com.br

Não demorou e um rapaz chamado Elvis Aaron Presley entra em cena com uma sensualidade em sua voz rouca e uma maneira inigualável de dançar. Mais que um símbolo sexual, Elvis cantava como um negro e transformou aquele suposto modismo numa verdadeira revolução cultural. Com o lançamento do disco “Heartbreaker Hotel”, em 1956, Elvis atingiu vendas extraordinárias e foi consagrado como o “Rei do Rock”.

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Elvis, o “Rei do Rock”

Grande parte do rápido e estrondoso sucesso do rock nos Estado Unidos aconteceu durante um período de forte prosperidade e isso não foi uma coincidência. 

No final da década de 1940 mais pessoas naquele país possuíam rádios e as televisões tornavam-se um objeto comum no dia a dia. Além das mudanças tecnológicas, aquela prosperidade do pós-guerra de muitas famílias de classe média significou que os adolescentes tinham dinheiro para gastar. Consequentemente por esta época a indústria fonográfica avançou aos saltos, permitindo que a música pudesse ser distribuída em massa.

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Chuck Berry

Não podemos também esquecer que os primeiros rumores do movimento de direitos civis, que visava combater o forte racismo reinante naquele país, estavam na pauta do dia e tornava as músicas de origem afro americana mais acessíveis.

O som e todo o estilo ligado ao Rock and roll sintetizou o conceito de cultura juvenil de uma forma surpreendente e sem precedentes nos Estado Unidos pós-Segunda Guerra Mundial e desempenharia um importante papel na definição desse conceito para grande parte do mundo durante a segunda metade do século XX. Influenciando desde a moda, atitudes, estilo de vida e linguagem.

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Jerry Lee Lewis – Fonte – http://www.wikipedia.org

Mas aonde este som chegou causou polêmicas e acaloradas discussões. No Brasil não foi diferente!

Filme Com Música Para Balançar As Estruturas

Em 21 de março de 1956 a empresa Columbia Pictures lançou um filme de baixo orçamento, segmentado diretamente para o público adolescente e que certamente não prometia grande coisa. Mas a película tinha a participação da banda Bill Haley and his comets, cuja música “Rock Around the Clock” batizou a obra nos Estados Unidos. Inesperadamente o filme se tornou um grande sucesso e logo começaram os problemas.

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A geração mais velha não aceitou gentilmente essa nova e barulhenta música. O filme começou a encontrar problemas em certas comunidades norte-americanas, onde líderes religiosos pediram um boicote. Outras controvérsias logo sugiram quando o filme foi distribuído internacionalmente. 

Em Londres o público adolescente ficou tão agitado dançando, batendo os pés, quebrando cadeiras e gritando durante a sessão, que o gerente do cinema onde era exibido teve que parar o filme e apelar para que eles se sentassem. Por causa de sua recepção estridente em Londres o filme foi banido das pequenas cidades inglesas. Em outubro de 1956, após as primeiras exibições da película na Noruega, adolescentes invadiram as ruas de Oslo gritando “mais rock!” 

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O filme “Rock Around the Clock” em cartaz na capital da Inglaterra – Fonte – http://www.zoomerradio.ca

O filme estreou no Brasil no final daquele ano, primeiramente nas grandes cidades do centro sul, e trazia o título de Ao Balanço das Horas. Logo as alegres músicas do novo estilo causaram problemas.

Em São Paulo, no dia 20 de dezembro de 1956, com medo que algo parecido ao que aconteceu na Inglaterra e na Noruega se repetisse por aqui, a exibição do filme no chique Cine Paulista, na Rua Augusta, foi vigilantemente acompanhada pela polícia e pelo Juizado de Menores. Este foi o antigo setor do judiciário especializado em questões ligadas a menores e que hoje é conhecido como Vara da Infância.

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Policiamento na exibição de “Ao balanço das horas” na capital paulista – Fonte – CinePaulista.acervo.estadao

Segundo reportagem do jornal O Estado de São Paulo, o filme Ao Balanço das Horas “provocou manifestações histéricas de adolescentes”, com a primeira sessão sendo interrompidas duas vezes por causa dos jovens que gritavam e xingavam os guardas que os proibiam de dançar na sala. Ainda segundo o jornal, o então governador Jânio Quadros pediu ao chefe de polícia que tomasse “providências drásticas” contra os bagunceiros. “Se forem menores, entregá-los ao honrado juiz”, ordenou.

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Agitação nos cinemas paulistas – Fonte – CinePaulista.acervo.estadao

Mas não ficou apenas nisso – O jornal O Estado de São Paulo aponta que entidades como o Movimento de Arregimentação Feminina e a Comissão de Moral e Costumes da Confederação das Famílias Cristãs, representando 10 mil famílias paulistas, se posicionaram contra a fita Ao Balanço das Horas. Sob uma forte pressão, Aldo de Assis Dias, juiz de menores na cidade de São Paulo, ampliou a proibição etária do filme de 14 para 18 anos.

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Como foi noticiado em um jornal natalense o tumulto em apresentação do filme Ao balanço das horas em São Paulo

No Rio de Janeiro a confusão ao redor de Ao Balanço das Horas não foi menor. Quase um mês depois das exibições em São Paulo, o periódico Diário de Natal (Ed. de 17/01/1957) publicou uma extensa reportagem sobre a briga envolvendo policiais e amantes do Rock and roll na saída de um cinema na então Capital Federal. Houve interrupção do tráfego e ocorreram prisões. Logo, tal como ocorreu em São Paulo, o juiz de menores do Rio, o Dr. Rocha Lagoa, alterou a classificação do filme de 14 para 18 anos. 

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LP com a trilha sonora do filme – Fonte – clubedosentasdecatanduva.blogspot.com.br

Brilhantina, Casacos e Lambrettas

Nesse tempo na provinciana Natal, então com pouco mais que 150.000 habitantes, ainda não tinha emissoras de televisão atuando localmente. Era o rádio que fazia o papel de grande transmissor para as massa.

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Natal década de 1950

Por uma interessante razão que desconheço as causas técnicas, já ouvi de várias pessoas que viveram naquela época que se captava bem melhor as emissoras de rádio do Rio de Janeiro do que as de São Paulo na capital potiguar. Logo as notícias dos conflitos por causa de Ao Balanço das Horas era comentário geral entre os jovens locais.

Mas antes de adentrarmos sobre as apresentações desta película em Natal, é bom que fique registrado que, sobre aspectos estéticos, a cena do Rock and roll já estava presente na cidade, principalmente com a utilização de uma pequena motoneta de origem italiana.

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Propaganda da Lambretta – Fonte – http://www.propagandashistoricas.com.br

Com o fim da Segunda Guerra Mundial na Itália o proprietário de uma fábrica de tubos de aço chamado Ferdinando Innocenti decidiu reconstruir seu negócio em Lambratte, Milão. Percebendo a necessidade de prover os italianos com um meio de transporte barato e seguro, o proprietário se uniu ao engenheiro Pierluigi Torre e projetaram uma motocicleta modelo “scooter”, de baixo custo de produção e manutenção. Esse veículo foi a icônica Lambretta.

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1957 Lambretta L

As primeiras foram construídas em 1947, com um motor de dois tempos provido de um único cilindro, com 123 cc de volume de deslocamento e rodava até 33 quilômetros com um litro de gasolina, algo importante em uma Itália com escassez de combustível. Um dos pontos fortes da Lambretta era a boa estabilidade devido ao baixo centro de gravidade proporcionado pelo motor próximo à roda traseira. Logo a pequena “scooter” se tornou um sucesso na Europa e no resto do mundo. Coube a Lambretta desenvolver no Brasil a primeira fábrica de veículos do país em 1955. Chamada Lambretta do Brasil S.A. tinha sede no bairro da Lapa em São Paulo e sua produção entre 1958 e 1960 superou a quantidade de 50.000 unidades ao ano.

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Em fins de 1956 e início de 1957 chegaram as primeiras Lambrettas em Natal. Eram comercializadas na firma Paulirmãos, uma sociedade dos empresários Camilo de Paula e José Rezende Filho, com matriz em Mossoró e filial na capital potiguar, na Praça Augusto Severo, 260, na Ribeira. A pequena máquina caiu no gosto dos filhos da elite natalense e vendeu muito. Meu pai, Calabar Medeiros, então com apenas 16 anos, trabalhou em Paulirmãos e testemunhou o sucesso daquela motoneta por aqui.

Mas a Lambretta não era apenas um meio de transporte, era um veículo com forte atitude e estilo. Os jovens da cidade circulavam em suas máquinas em grupos, todos com brilhantinas nos cabelos (sempre sem capacetes) e envergando casacos pretos de couro. Gostavam de se reunir na área do Grande Ponto, no centro da cidade, onde passavam ruidosamente com seus canos de escape abertos e fazendo muito barulho.

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As pequenas máquinas fizeram tanto sucesso que até mesmo corridas de Lambrettas ocorreram em Natal, em um circuito improvisado no bairro de Petrópolis, cujo grande campeão foi Roberto Eider Lira. Alguns dos “Lambretistas” natalenses ficaram famosos por suas proezas em suas motonetas, como Beto Pires, que utilizava nafta no tanque de combustível para ampliar a potência da sua pequena máquina.

Toda aquela movimentação, todo aquele barulho, todos aqueles casacos escuros misturados com cabelos alisados a brilhantina, começaram a incomodar alguns membros da elite local, que ficariam ainda mais incomodados quando descobriram que seus filhos estavam escutando uma música tão barulhenta quanto as suas Lambrettas de escape aberto.

Encontro e Filmes Polêmicos

Mesmo sem o filme Ao Balanço das Horas ainda ter desembarcado nos cinemas locais, mesmo com a galera local escutando Rock and roll através dos poucos discos existentes na cidade, ou através das ondas curtas, médias e tropicais dos grandes rádios valvulados, aquele som contagiante chegou causando alvoroço em Natal.

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Em uma sexta feira da primeira semana de março de 1957, quando os jornais da cidade informaram com letras garrafais que existiam rumores que estava sendo arquitetado pelos “Lambretistas” natalenses uma apresentação do “tristemente famoso” Rock and roll no cruzamento das ruas João Pessoa e Princesa Isabel. Com medo que os distúrbios ocorridos em São Paulo e no Rio se repetissem em Natal, os jornais pediram veementemente a presença da polícia para coibir a tal apresentação. 

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Logo o Dr. Claudionor de Andrade, então Secretário de Segurança, informou que não havia sido solicitado o devido alvará para a dita apresentação e que os policiais estariam presentes em seus Jipes de patrulha no cruzamento da João Pessoa e Princesa Isabel para coibir a exibição pública dos “Lambretistas”. O Dr. Claudionor expressou claramente que “não permitiria que se introduzisse em nossa terra uma dança tão prejudicial aos bons costumes como o Rock and roll” (Diário de Natal, Ed. de 8/3/1957).

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Enquanto a elite e as autoridades se ouriçavam contra o Rock and roll e uma parte da população de Natal aguardava Ao Balanço das Horas com ganas de queimar o rolo de exibição em frente à Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, espertamente os proprietários do extinto Cinema Rio Grande aproveitaram a controvérsia e lançaram o filme Ritmo Alucinante para o público jovem de Natal.

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Cena do filme “Ritmo Alucinante”, que ficou em cartaz apenas por quatro dias em Natal.

Este era um musical fraquíssimo de enredo, produzido em preto e branco e intitulado originalmente em inglês “Rock, Rock, Rock!”. Mas trazia aquilo que a galera queria – Rock and roll. O filme tinha como ator principal o radialista Alan Freed e vinha com uma interessante performance de Chuck Berry com a música  “You Can’t Catch Me” (Diário de Natal, Ed. de 29/4/1957). Mesmo Ritmo Alucinante tendo sido exibido sem maiores alterações, estranhamente essa película ficou em cartaz no Cine Rio Grande por exíguos quatro dias, quando o normal era no mínimo uma semana.

Mas Ritmo Alucinante deve ter levado um bom público ao cinema, pois um mês depois duas outras películas com temáticas focadas nos problemas da juventude estadunidense da época, consideradas extremamente polêmicas e que tinham angariado um grande sucesso a nível mundial, foram exibidas para os natalenses.

Estou falando de O Selvagem (The Wild One) e Juventude Transviada (Rebel Without a Cause). O primeiro filme tinha como ator principal ninguém menos que Marlon Brando e foi exibido no Cine Rio Grande. Já o segundo filme, cujos atores principais eram James Dean e Natalie Wood, foi exibido no Cinema Rex. (Diário de Natal, Eds. de 22 e 27/5/1957)

É certo que nesse tempo os filmes demoravam meses para chegar à longínqua e provinciana Natal, mas O Selvagem era de 1953 e Juventude Transviada de 1955 e a muito já tinham sido exibidos no Rio, São Paulo e até em Recife. Aparentemente os proprietários dos cinemas natalenses já tinham os rolos destas películas em mãos, mas não as exibiram para evitar problemas com autoridades judiciais e religiosas.

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Imagem da rebeldia através de James Dean em “Juventude Transviada ” – Fonte –  Ellus

Mas, aparentemente, estes mesmos proprietários, em meio a toda polêmica gerada pelo Rock and roll e a juventude de Natal, não perderam a oportunidade de faturar algum lançando estes filmes polêmicos no final do mês de maio de 1957.

Ambas as películas, que se tornariam clássicos, foram liberadas para maiores de 18 anos e muitos “Lambretistas” foram com suas máquinas e seus casacos para os cinemas da cidade.

A Festa Que Mexeu Com Natal

Acredito então que naquele primeiro semestre de 1957 curtir o Rock and roll em Natal era algo que ficava restrito ao ambiente privado, principalmente aos existentes nas amplas e iluminadas residências do Tirol e Petrópolis, os bairros nobres da cidade. Mas aquele som alucinante logo seria tocado em um dos templos da elite local – Os salões da sede social do América Futebol Clube, no bairro de Petrópolis.

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Foram as jovens Inês Aranha e Márcia Santos, tidas como “finos ornamentos da nossa sociedade”, que estiveram a frente da organização do evento intitulado “1° Festival de Rock and roll”, que prometia “demonstrar com real valor e agrado a música difundida por Elvis Presley”. As notas de jornal informaram que o baile seria animado pelo prestigiado Conjunto Melódico de Paulo de Tarso. (Diário de Natal, Ed. de 5/6/1957). 

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Ocorreram cenas como esta na festa do América? Acredito que sim!

Não sei se alguém do grupo de Paulo de Tarso encarou ao vivo e a cores, na noite de sábado, 8 de junho de 1957, o público reunido no América munido de uma legitima guitarra Gibson ES-300. Ou se o pessoal presente foi animado ao som de Victrolas e discos de “velocidade” (frequência) de 78 rpm. Mas, mesmo com poucas informações, o certo é que houve a festa, com casa cheia e a presença de muitos “Lambretistas”. Consta que lá aconteceu a apresentação de três corajosos casais, que mandaram ver nos requebros e passos tidos como escandalosos desse “tal de Rock and roll”.

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Mesmo sem maiores informações eu tenho a certeza que a festa foi um sucesso e não tenho dúvidas que chamou a atenção da cidade. Pois a reação subsequente das autoridades para frear o ímpeto da garotada rebelde de Tirol e Petrópolis foi dura.

Umas semana depois, dia 15 de junho de 1957, um sábado, o então juiz titular da Vara de Menores, o Dr. Oscar Homem de Siqueira, baixou uma portaria determinando que os comissários de menores proibissem a entrada de jovens nas festas de Rock and roll em Natal.

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O magistrado, utilizando os termos do Artigo 131 do então Código de Menores, não proibiu expressamente a ocorrência de alguma festa que certamente deveria está programada para acontecer naquele fim de semana. Mas na prática o Dr. Oscar proibiu o público alvo de participar, pois nessa época eram considerados menores de idade aqueles que tinham menos de 21 anos.

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Dr. Oscar Homem de Siqueira – Fonte – jotamaria-america.blogspot.com.br

A portaria do juiz é interessante sobre alguns aspetos do entendimento do tradicionalismo vigente em Natal na época. Pois além de proibir o acesso e a permanência dos jovens menores de 21 anos nos locais de exibição do Rock and roll, textualmente o juiz ordenava que os comissários proibissem a garotada de “dançar” (Diário de Natal, Ed. de 18/6/1957).

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Parte da portaria determinando que os comissários de menores proibissem a entrada de menores nas festas de Rock and roll em Natal

Logo o magistrado foi ovacionado por vários setores da sociedade potiguar, chegando mesmo ao ponto de unir setores irreconciliáveis do cenário político e social local.

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Luiz Maranhão Filho

O jornalista Luiz Maranhão Filho, antigo membro do Partido Comunista do Brasil, que em 1958 seria eleito deputado estadual no legislativo potiguar pelo Partido Trabalhista Nacional e em 1974 seria morto de forma covarde pela Ditadura Militar, dedicou a decisão do titular da Vara de Menores um largo artigo em defesa de sua atitude. O artigo foi intitulado “Ainda há juízes” (Diário de Natal, Ed. de 21/6/1957).

Seguindo a mesma linha de pensamento do líder esquerdista, foi emitida uma nota de apoio ao Dr. Oscar Homem de Siqueira pelo Secretariado Arquidiocesano da Defesa da Fé e da Moral, representando a Igreja Católica (O Poti, Ed. de 26/6/1957).

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A vida do Rock and roll e de seus apreciadores não andava nada fácil em Natal, mas parece que outros setores da sociedade natalense pensavam contrários ao titular da Vara de Menores. Tanto assim que finalmente o tão esperado Ao Balanço das Horas finalmente foi exibido  nacidade.

O fato se deu somente na primeira quinzena de agosto de 1957 e a exibição no Cinema Rex foi cercada de todos os cuidados e de muita polícia. Mas estranhamente a faixa etária para exibição foi de 14 anos. Não houve nenhuma alteração! (O Poti, Ed. de 11/6/1957)

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O resto do ano de 1957 é possível ler nos velhos jornais natalenses diversos e contundentes ataques realizados por intelectuais locais contra o Rock and roll, mas logo um evento social, recheado de belas mulheres, mostraria a elite natalense que aquela musica não era esse bicho todo!

As Belas Estrangeiras Bailam Ao Som do Rock

Certamente não existiu na década de 1950 um tipo de celebridade meteórica que marcou mais essa época do que as misses e seus suntuosos desfiles de beleza.

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A baiana Martha Rocha e a vencedora do concurso Miss Mundo de 1954 – Fonte – efemeridesdoefemello.com

Estes eram concursos que, da noite para o dia, tornavam belas desconhecidas em estrelas de primeira grandeza do imaginário nacional, sendo a mais famosa miss tupiniquim a linda Maria Martha Hacker Rocha, uma baiana de faiscantes olhos verdes, consagrada como Miss Brasil em 1954 e que ficou em segundo lugar no concurso Miss Mundo daquele ano.

No Rio Grande do Norte não era diferente. Este tipo de concurso movimentava muito a sociedade local, com jovens representando clubes de futebol, cidades e entidades. Havia torcidas organizadas, entrevistas nas rádios e jornais locais, além de muito glamour.

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As beldades que chegaram em Natal em 1958

Em maio de 1958, as vésperas da Copa do Mundo da Suécia e meio de supetão, Natal recebeu a visita da platinada finlandesa Marita Lindahl, a vencedora do concurso Miss Mundo de 1957, e de outras beldades a nível mundial. Além da campeã desembarcaram na terra de Poti, com mais de 600 quilos de bagagem, a segunda colocada Lillian Juul Madsen, da Dinamarca, Teresinha Gonçalves Morango, do Brasil (natural do Amazonas), e as representantes da França, Claude Navarro e da Suécia, Ellinor Ulla Eldin, além da modelo francesa Danielle Challier.

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Elas estavam a caminho do Rio para uma exposição sobre moda francesa e realizaram uma parada de 24 horas em Natal. A cidade meio que parou para apreciar as belas mulheres e elas foram acompanhadas por uma verdadeira multidão embasbacada.

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Em meio a idas e vindas, as belas foram almoçar na casa do empresário Rui Moreira Paiva.

Em um ambiente tranquilo e relaxante elas foram condignamente recebidas por Dona Carminha, esposa do empresário. Então alguém (talvez Izinha, a filha do casal), colocou na vitrola de alta fidelidade um disco de Rock and roll. Aí, para surpresa geral, as divas da beleza internacional deixaram de lado os anfitriões e quaisquer regras de etiqueta e se esbaldaram a dançar aquela música considerada maldita na capital potiguar.

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Não sei se as pessoas da casa ficaram incomodadas pela alegria das misses com aquela música tida como complicada pela sociedade local, mas o certo é que logo alguém tirou aquele ritmo alucinante da vitrola e sapecou um calypso caribenho, que foi aproveitado apenas pela modelo Danielle Challier. Depois a vitrola tocou um puro samba verde e amarelo, mas aí todas as belezas pararam de rebolar e ficaram apenas ouvindo.

Entretanto o episódio não passou despercebido para o então repórter social Wolden Madruga, que acompanhou os passos das belas mulheres por Natal. Além de comentado nos jornais locais, a dancinha das misses se tornou motivo de conversas no Grande Ponto, o local de formação de opinião na cidade. Para alguns era terrível saber que aquelas belas jovens gostavam daquela música maldita!

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Mas como nesta cidade tudo que vinha de fora era bom (menos o Rock)eu acredito que aquela pequena apresentação dançante, realizada por algumas das mulheres consideradas as mais belas no mundo naquele tempo, mesmo indiretamente fez com que algo mudasse na sociedade natalense em relação a percepção sobre o Rock and roll. (O Poti, Ed. de 9/5/1957)

Veio Para Ficar

Logo as lojas de discos em Natal começaram a vender com maior frequência discos de Rock and roll. Sabemos que em maio de 1958 chegou na cidade o disco de 78 rpm do cantor norte-americano Little Richard chamado “Volume 2”, que vinha com doze músicas e era produzido pela London Records. (O Poti, Ed. de 28/5/1958)

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Não demorou e Natal recebeu o primeiro grupo internacional a tocar Rock and roll.

Mas quem veio não foi nenhum grupo de jovens estadunidenses com cabelos bem aparados, banhados de brilhantina, realizando uma dancinha leve e todos trajando ternos iguais. Quem aqui tocou pela primeira vez o som perseguido foi um grupo de música caribenha.

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Chamados de “Guyana Caribbean Varieties” era formado por pessoas oriundas da então colônia britânica da Guiana e de outras partes do Caribe. Sabemos que haviam se apresentado em outros países, tinham realizado shows em Fortaleza e em Natal ficaram hospedados no bairro da Ribeira, no tradicional Grande Hotel. Eles se apresentaram na Rádio Poti e no Teatro Alberto Maranhão e foram bem avaliados. O foco do grupo de mais de 20 artistas era principalmente as músicas caribenhas, mas o guitarrista Reggie Simpson liderou na parte do Rock and roll.

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Conforme o tempo foi passando aquele ritmo musical que tanto encheu as páginas dos jornais natalenses com polêmicas foi paulatinamente desaparecendo dos periódicos. E quando comento isso é tanto pelo lado das polêmicas, como pelo lado da aceitação do Rock and roll. Pouco observamos referências sobre o Rock, mas certamente seus apreciadores passaram a curtir aquele som com mais tranquilidade.

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Entretanto a Rádio Poti parece ter percebido que uma mudança havia acontecido, pois encontrei na sua grade de programação que eles estavam transmitindo um programa radiofônico chamado “Hoje é dia de Rock”, o primeiro do gênero no rádio potiguar.

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Ele era diário, mas tinha parcos 15 minutos de duração, o que daria para tocar umas três músicas no máximo. Mas era transmitido às 11 e 15 da manhã, a hora que a maioria dos estudantes em Natal voltava para suas casas para almoçar e aproveitavam para escutar um rockzinho.

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Apesar de todo o movimento ocorrido, aparentemente o número de pessoas que abraçaram aquela música estrangeira continuou pequena, fato que mudaria radicalmente pouco tempo depois.

É a época do governo JK, do Brasil de “50 anos em 5”, da chegada maciça do rock produzido no Brasil, da venda facilitada de mais discos e de instrumentos musicais apropriados para tocar Rock, da criação de bandinhas locais, de shows e festivais….

Mas isso é outra História!


Fontes na internet

http://www.redegeek.com.br/2016/09/20/ultrageek-258-historia-do-rock-anos-50/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Rock_and_roll

http://anuncifacil.com.br/posts/detalhes/7814

https://en.wikipedia.org/wiki/Don’t_Knock_the_Rock

http://super.abril.com.br/cultura/a-hora-do-rock/

http://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,o-rock-proibidao-do-ao-balanco-das-horas,11698,0.htm

O AVIÃO DA FOTO – MEMÓRIAS FOTOGRÁFICAS DA SEGUNDA GUERRA NO NORDESTE DO BRASIL

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O Curtiss P-40E-1 da Força Aérea Brasileira (FAB) acidentado no Campo do Pici, Fortaleza, durante a Segunda Guerra Mundial.

Rostand Medeiros – Escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte IHGRN

Já faz algum tempo que eu consegui e mantenho algumas ótimas amizades com cidadãos estadunidenses que tiveram antepassados baseados no Nordeste do Brasil durante seus períodos de serviço ativo na Segunda Guerra Mundial.

Entre eles está Bill Bray, cujo sogro serviu na Marinha dos Estados Unidos (US Navy), ficando baseado entre Salvador, Recife, Natal e Fortaleza. Ele tinha uma função na área de fotografia aérea da aviação naval e nas suas horas vagas gostava de fotografar as facetas da guerra, as paisagens e as pessoas do grande e exótico país tropical da América do Sul onde viveu por alguns anos.

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O mesmo avião em foto da coleção do Sr. Paulo J. Pinto. Através de Bill Bray.

Recentemente Bill me enviou a foto da aeronave que abre este artigo e me perguntou se conhecia algo sobre o que a imagem mostrava[1].

As indicações da foto apontavam para um acidente ocorrido em Fortaleza, no Campo do Pici, ou o Pici Field para os americanos. Mas sem maiores dados.

Além da foto realizada pelo seu sogro, ele fez a gentileza de me enviar duas fotos da coleção do Sr. Paulo J. Pinto, a quem não conheço. Bill me informou ser um oficial da Força Aérea Brasileira (FAB), atualmente aposentado, e estas últimas fotos teriam sido obtidas em um arquivo de fotos da Força Aérea dos Estados Unidos. 

Então fui procurar informações para ajudar este amigo!

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Coleção do Sr. Paulo J. Pinto. Através de Bill Bray.

Um Grande Avião

Sem maiores problemas sabemos que a aeronave clicada é um caça Curtiss P-40, considerada uma das aeronaves mais facilmente reconhecíveis entre tantas que participaram da Segunda Guerra Mundial. E tudo graças aos dentes brancos perolados pintados dentro de uma imensa boca de tubarão vermelha no nariz da aeronave.

Podemos ver que a aeronave em questão realizou um pouso de “barriga” em uma área sem asfalto, provavelmente devido a algum defeito em seu trem de pouso. E pela foto podemos deduzir que o piloto era bom!

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O mesmo avião envolvido neste acidente, em um interessante desenho artístico – Fonte – http://www.britmodeller

 

Das três pás da hélice do P-40 apenas duas estão retorcidas, apontando que o avião tocou o solo e se arrastou a baixa velocidade, empenou duas das pás da hélice e a terceira travou intacta. Pelo rastro no solo, na dianteira do P-40, dá para ver que o avião rodopiou e se deslocou para trás por alguns metros.

Em relação ao avião da foto ele é um dos seis P-40E-1 entregues pelos Estados Unidos no primeiro semestre de 1942, através dos acordos Lead Lease. Um detalhe – O Brasil foi o país latino americano que mais aproveitou destes acordos. Entre março de 1942 e o fim do ano fiscal de 1947 chegaram US$ 357.006.600,90 em equipamentos bélicos e dinheiro para construção de bases de apoio logístico.

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O avião “01” em outro interessante desenho – Fonte – tropasearmas3.xpg.uol.com.br

Os especialistas em aviação histórica brasileira afirmam que estes seis aviões recebidos pela FAB eram da versão P-40E-1-CU. As informações apontam que estas aeronaves eram novas, “0 km”, e seriam destinadas a uma encomenda da Royal Air Force (RAF) para proteger os céus do ainda imponente Império Britânico. Tanto assim que estes P-40E-1 chegaram a Natal ostentando suas matriculas originais (iniciadas pelas letras “ET”) e a típica pintura que esta força aérea utilizava em seus caças durante a Segunda Guerra. Eles também vieram da fábrica dos Estados Unidos com as famosas bocas de tubarão.

Consta que estes seis P-40 foram desviadas para o Brasil para cumprir compromissos dos Estados Unidos em relação ao reequipamento das Forças Armadas brasileiros e o processo em questão tinha urgência.

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Desenho do “01” enviado por Bill Bray.

Andei pesquisando sobre a origem destes P-40E-1, consultando sites que possuem extensas listagens da fabricação destes aviões pela empresa Curtiss-Wright Corporation Airplane Division em Buffalo, Nova York. Descobri que as aeronaves P-40E-1 e suas variantes que não foram utilizados pelos Estados Unidos, foram oficialmente enviados aos ingleses, russos, australianos e até aos neozelandeses. Produziram-se 1.512 P-40E-1 e, ao menos oficialmente nas listagens da fábrica Curtiss, nenhum deles veio para o Brasil.

Então como estes seis chegaram a Natal?

Apenas mais uma “magica” da burocracia militar. Alguém com mais estrelas e galões achou que o Brasil deveria receber seis P-40E-1 naquele momento e assim foi feito.

Em Ação No Litoral

Em 7 de agosto de 1942 aconteceu o primeiro voo de um P-40E-1 na Base Aérea de Natal. Estes aviões então passaram a fazer parte do inventário do “Agrupamento de Aviões P-40”, uma das primeiras esquadrilhas de caças operacionais da FAB. A partir de 24 de dezembro de 1942 esta esquadrilha seria denominada “Grupo Monoposto-Monomotor”.

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P-40, uma grande aeronave.

Primeiramente estas aeronaves receberam uma numeração na FAB que ia de 01 á 06 e posteriormente receberam as numerações de quatro dígitos da jovem Força Aérea Brasileira. No caso destes aviões foi de 4020 á 4025.

Empregados entre 1942 e 1954, os P-40 da Força Aérea Brasileira foram as primeiras aeronaves capazes de realizar missões de caça e defesa aérea no Brasil durante a Segunda Grande Guerra. Nesse primeiro semestres de 1942 estes P-40E-1 iniciaram as chamadas “Coberturas aéreas”, ou seja, o acompanhamento de navios que viajavam fora de comboios e próximos a costa dos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, além do patrulhamento marítimo e ações armadas no caso de aparição de alguma nave inimiga.

Sabemos através da leitura do livro História da Base Aérea de Natal (Ed. Unigversitária, Natal, 1980), de autoria do coronel aviador Fernando Hippólyto da Costa, que no dia 1 de outubro de 1942 o navio Almirante Jaceguay, da Marinha do Brasil, saiu do porto de Natal para uma missão de apoio a guarnição da Marinha na cidade de Macau, na costa do Rio Grande do Norte. Quem acompanhou este velho navio realizando a sua proteção aérea durante duas horas e trinta minutos de voo foi o major aviador Ernani Pedrosa Hardman. Ele utilizou o avião monomotor de caça P-40E-1, com o número 01 pintado na cauda. O mesmo da foto que abre este texto.

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O Ministro da Aeronáutica Salgado Filho (de terno branco) e oficiais da recém criada FAB no Campo dos Afonsos-RJ em 1942. Foi nesta época que a aeronave da foto chegou a Natal.

O mesmo major Hardman já havia realizado outros voos de patrulha, inclusive o primeiro utilizando os P-40E-1 de Natal, fato que ocorreu no dia 18 de agosto de 1942 e a aeronave foi o mesmo de numeração 01[2].

Se analisarmos com atenção não se pode deixar de comentar que essas missões mostram claramente como era precária a situação das forçar armadas brasileiras em termos de meios operacionais naquela época.

Almirante Jaceguay era um navio hidrográfico construído em 1917, com 815 toneladas, cujo funcionamento de seu motor era a carvão e tinha 87 metros de comprimento. Mas com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial o velho Jaceguay foi armado com dois canhões de 47 mm, 16 cargas de profundidade e foi reclassificado como uma “corveta”.

O Almirante Jaceguay 
O Almirante Jaceguay

Se o navio não tinha tanta capacidade de combate, a ideia de se colocar um P-40E-1 armado apenas com metralhadoras e bombas leves para atuar contra um submarino nazifascista era muito mais simbólica do que prática. Para uma missão como aquela conseguir algo mais efetivo o major Hardman deveria está em um avião como o Grumman TBF Avenger, equipado com cargas de profundidade modelo Mark-17, com 300 kg de explosivos TNT.

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Carga de profundidade modelo Mark-17 – Fonte – NARA.

Mas se a realização da missão era limitada em termos bélicos, isso nada desmerece a coragem e a vontade de lutar daqueles brasileiros. Principalmente quando observamos que, segundo relatos de pesquisadores alemães e suecos, no dia 1 de outubro de 1942, a cerca de 300 milhas náuticas da costa do Maranhão, o submarino alemão U-514 espreitava as aguas do Atlântico Sul atrás de novas vitimas. Esta nave era comandada pelo Kapitänleutnant Hans-Jügen Auffermann, estava no seu 48º dia de patrulha de combate, após haver saído da cidade alemã de Kristiansand no dia 15 de Agosto de 1942.

Até o dia do voo do major aviador Hardman para proteger o Almirante Jaceguay o submarino U-514 já tinha afundado quatro navios de carga (dois brasileiros e dois ingleses) e danificado um (canadense) entre a região de Trinidad e a foz do rio Amazonas. No dia 12 de outubro o U-514 afundaria um navio de carga americano, depois estenderia sua patrulha até a costa do Ceará e então retornaria para Alemanha[3].

Flying Tigers

Observando o livro do coronel Fernando Hippólyto da Costa encontrei uma listagem de missões dos aviões da FAB em Natal no ano de 1942 e descobri que o P-40E-1 da foto era quase sempre utilizado pelo major aviador Hardman, comandante da esquadrilha, e pelo capitão aviador Roberto Faria Lima. Talvez um deles tenha realizado com sucesso a aterrissagem forçada em Fortaleza e cuja aeronave foi fotografada pelo sogro de Bill Bray.

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Infelizmente não pude atender ao pedido do meu amigo norte-americano. Especificamente sobre o acidente da foto nada tenho. Mas aparentemente as avarias foram leves, pois no livro História da Base Aérea de Natal encontrei a indicação que o 01 continuou na ativa.

Em 24 de setembro de 1945, com o fim da guerra e da importância de Natal como ponto estratégico, cinco dos P-40E-1 foram enviados para a Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, e depois para Base Aérea de Canoas, no Rio Grande do Sul. Entre eles estava o P-40E-1, número da FAB 4020, o velho 01 da foto.

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Segundo autores aeronáuticos um dos aviões que chegaram a Natal em 1942 foi destruído em Recife, em uma instrução de voo.

Foi entre dezembro de 1941 e julho de 1942 que a esquadrilha Flying Tigers, comandados pelo general Claire Lee Chennault, tornou famoso o caça P-40 e sua icônica pintura de boca de tubarão. Esta era uma unidade de pilotos voluntários americanos oficialmente denominados American Volunteer Group (AVG), que foram contratados pela Força Aérea Nacionalista da China de Chiang Kai-Shek para lutaram contra os japoneses que ocupavam seu país e os Flying Tigers abateram 299 aeronaves inimigas confirmadas.

Sem duvida o P-40 foi o caça monomotor americano mais importante nos dois primeiros anos da Segunda Guerra Mundial. Era a única aeronave disponível em grandes quantidades (e, portanto, a um custo relativamente baixo de US $ 45.000 cada) e com prazos de entrega aceitáveis.

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Grandes quantidades dessas aeronaves foram posteriormente construídas no decorrer de uma longa carreira pela empresa Curtiss. Um total de 13.740 aviões deste modelo saiu das linhas de montagem entre 1939 e 1944 e, tal como aconteceu com muitos aviões de combate envolvidos neste conflito, foram fabricados uma dúzia de versões à medida que a aeronave ia sendo modificada durante a guerra. Apenas dois outros caças americanos foram produzidos em maior número, o North American Aviation P-51 Mustang e o Republic P-47 Thunderbolt. 

Os P-40 tinham fabricação semi modular, o que facilitava a sua manutenção e fez a aeronave tolerar as piores condições ambientais, lutando em qualquer lugar. Dos desertos do Norte da África às matas da Nova Guiné, das tórridas Índias Orientais Holandesas, ao clima polar da União Soviética e do Alasca, o ronco do seu motor foi ouvido.

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Apesar disso esta aeronave nunca foi considerada um caça de primeira linha, como os famosos P-51, ou o Supermarine Spitfire inglês. Era medíocre em alta altitude, sendo mais lento e menos manobrável do que seus inimigos. E o motivo estava no seu motor Allison de 12 cilindros. 

Embora o desempenho geral não tenha sido excelente, o P-40 podia suportar quantidades incríveis de danos de batalha e na mão de pilotos habilidosos possuía alguma capacidade de combate.

Atualmente cerca de quinze a vinte P-40 ainda são aeronavegáveis  em todo o mundo. 

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Alguns dos poucos P-40 remanescentes e em condições de voo em uma apresentação aérea.

O P-40E-1 era alimentado por um motor Allison V-1710-39, de 1150 hp, com 12 cilindros em V e refrigeração a líquido. A velocidade máxima era de 560 kph, com uma taxa de escalada inicial de 2.100 pés por minuto. Uma altitude de 20.000 pés poderia ser alcançada em 11,5 minutos. O teto do serviço era de 29 mil pés. O alcance máximo foi de 1.040 quilômetros de distância (limpo) e 2.250 quilômetros com um tanque de combustível extra de 141.5 Imp gal. Tinham um peso vazio de 3.039 kg, uma envergadura de 11,36 m, um comprimento de 10,14 m e uma altura de 3,75 m.

NOTAS


[1] Na mesma foto é possível ver ao fundo um dirigível Blimp, dos esquadrões “ZP” da US Navy, utilizados no patrulhamento antissubmarino e amarrado em um mastro feito a partir de árvores locais.

[2] Vale ressaltar que desde meados de 1941 que a aeronáutica militar brasileira havia começado os patrulhamentos aéreos em todo litoral brasileiro, em muitos casos utilizando até inofensivos aviões de instrução. Apesar de obviamente os aviões de instrução não poderem atacar submarinos, os líderes militares acreditavam que a simples presença destas aeronaves vigiando as rotas marítimas restringia a liberdade de ação dos submarinos. Caso um submarino fosse avistado era possível alertar a navegação mercante e enviar aviões de guerra para a área de ataque. Existem relatos de aviadores naquelas aeronaves primitivas, muitas sem comunicação alguma, a 25 milhas marítimas (pouco menos de 50 quilômetros), ou mais, a partir da costa.

[3] O U-514 era um submarino germânico do tipo IX-C, tendo sido comissionado em 24 de janeiro de 1942 e aquela era sua primeira patrulha de combate. Afundou em sua carreira quatro navios e danificou dois e foi destruído em 8 de julho de 1943, a nordeste do Cabo Finisterre, Espanha, Na posição 43º37’ N 08º59’ W, por foguetes disparados de uma aeronave Liberator inglesa. Todos os 54 membros de sua tripulação morreram nesta ação.

O VAGABUNDO DO MAR

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Desenho de Carlos Arthur Thiré.

A HISTÓRIA DO NAVEGADOR SOLITÁRIO INGLÊS QUE NAUFRAGOU EM UMA REMOTA ILHA BRASILEIRA, FOI SALVO POR UM TRANSATLÂNTICO ITALIANO E ACABOU PRESO NO RIO SUSPEITO DE SER COMUNISTA

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte 

Era uma terça feira, 28 de março de 1939, e o transatlântico italiano MS Augustus navegava tranquilo em pleno Oceano Atlântico, a cerca de 530 milhas náuticas a nordeste de Natal. A bela nave seguia em direção ao Mar Mediterrâneo em meio a um mar calmo, com poucas ondas e muito sol típico de uma zona tropical.

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O MS Augustus

Por volta de uma e meia da tarde muitos passageiros percorriam tranquilos os decks da nave de 215 metros de comprimento, descansando depois do almoço. Alguns estavam sentados em cadeiras dobráveis se dedicando a leitura, outros conversavam em pequenos grupos e muitos observavam o mar na expectativa de avistarem algum peixe, uma baleia e os Rochedos de São Pedro e São Paulo. Eles haviam sido informados que este remoto local surgiria em breve a estibordo, ou seja, a direita do navio.

Conhecido hoje como Arquipélago de São Pedro e São Paulo, o local é uma parte pequena e bem isolada parte do território brasileiro, sendo um dos poucos lugares na Terra onde um cume oceânico subaquático rompe a superfície do mar. Formado por um pequeno grupo de ilhas que está apenas 18 metros acima das águas oceânicas e com uma extensão total de meros 4,5 hectares, era conhecido dos homens dos mares desde 1511, quando uma frota portuguesa com seis caravelas seguindo em direção as Índias, topou com o lugar sem querer. Deste encontro a caravela São Pedro bateu nas rochas e afundou e a caravela São Paulo salvou os sobreviventes do barco sinistrado e daí surgiu a sua denominação.

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Arquipélago de São Pedro e São Paulo na atualidade – Fonte – http://aurelioschmitt.blogspot.com.br

Perdidos no meio do grande Oceano Atlântico, ao longo dos séculos aquelas rochas não chamaram a atenção de exploradores, mas sim de grandes cientistas, entre eles o inglês Charles Darwin, que lá esteve na manhã de 16 de fevereiro de 1832, na primeira etapa de sua viagem ao redor do mundo a bordo do HMS Beagle.

Esquecidos e isolados em 1939 os então denominados Rochedos de São Pedro e São Paulo serviam, quando avistados durante o dia, como ponto de referência para verificação do posicionamento de navios através das cartas náuticas, bússolas e sextantes e, no caso de transatlânticos como o Augustus, um motivo de distração para seus normalmente entediados passageiros.

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Logo o transatlântico ficou a menos de dez milhas náuticas de distância e as rochas negras surgiram no horizonte. Alguns passageiros munidos de lunetas e pequenos binóculos se colocaram na amurada para observar aquele amontoado de pedras batidos pelas ondas. Em pouco tempo um burburinho em diferentes idiomas surgiu e braços apontavam em direção aos rochedos. De lá sinais luminosos provocados por um espelho nas mãos de um homem nu, que também agitava os braços intensamente, chamaram atenção de várias pessoas.

Quem era aquela pessoa?

Perdido nos Rochedos dos Santos

Na ponte de comando do Augustus a figura solitária naquelas rochas também chamou atenção dos oficiais que estranharam o fato. Eles sabiam que dificilmente alguém estaria ali praticando naturismo em num ponto tão isolado do Globo e também sabiam que a última missão oficial de qualquer espécie ocorrida nos Rochedos de São Pedro e São Paulo fora realizada em 1930.

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Naquele ano membros da Marinha do Brasil estiveram no local a bordo do navio tender Belmonte para a instalação de um pequeno farol aero marítimo e já fazia algum tempo que ele estava apagado. Tanto assim que a oficialidade do Augustus e de outros navios de cargas e passageiros que passavam pela região só se aproximavam do local durante o dia e com tempo bom, pois além de tudo as correntezas na área eram fortes.

Logo o comandante do Augustus enviou uma mensagem telegráfica para a Capitania dos Portos de Recife, para a Polícia Marítima e para o Presídio Político de Fernando de Noronha para informar sobre o fato.

O coronel Nestor Veríssimo, diretor do presídio, informou que nenhum detento havia se evadido da instituição que comandava e o comandante Humberto Areia Leão, capitão do porto de Recife, imediatamente comunicou ao então Ministério da Marinha. Mas foi Renato Medeiros, inspetor da Polícia Marítima, que conseguiu a informação de que o transatlântico italiano MS Conte Grande era esperado para os próximos dias em Recife e, como normalmente acontecia com os navios que faziam esta rota entre o Brasil e a Europa, passaria próximo aos Rochedos de São Pedro e São Paulo. Através da ajuda de Etelvino Lins, então Secretário de Segurança Pública, o inspetor Renato Medeiros conseguiu enviar uma mensagem urgente ao Conte Grande para que investigasse o caso.

Mas foram os membros da imprensa recifense que conseguiram informações mais seguras sobre o solitário homem nos rochedos.

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O transatlântico italiano MS Conte Grande

Um oficial do paquete nacional Santarém, da empresa Lloyd Brasileiro e que se encontrava há uma semana no porto de Recife, informou que na sua última travessia vindo de Lisboa havia encontrado no meio do mar um pequeno barquinho a vela, com pouco mais de cinco metros e meio de comprimento e uma pequena bandeira britânica no diminuto mastro. O capitão do Santarém parou sua nave mista de passageiros e cargas e procurou ajudar o navegador solitário. Este agradeceu o apoio, informou que se dirigia para Natal e alegou que nada lhe faltava naquela verdadeira casca de noz que enfrentava os mares. O velejador parecia com saúde, aparentava está com as faculdades mentais corretas e o Santarém continuou seu rumo em direção a capital pernambucana.

Seria o homem nos Rochedos de São Pedro e São Paulo o mesmo navegador solitário?

Salvo

O Conte Grande era uma nave muito conhecida no Brasil e extremamente respeitada pela nossa sociedade, que nessa época utilizava intensamente o transporte marítimo.

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Saída do escaler para busca o náufrago.

A nave possuía muito luxo nos seus 200 metros de comprimento e desde 1932 fazia a linha entre a Itália e a América do Sul. A oficialidade do navio italiano acatou o recebimento das mensagens transmitidas pelas autoridades de Recife e pelo Augustus e informou que realizaria uma parada nos rochedos.

Por volta das cinco e meia da manhã de 31 de março os motores do Conte Grande ficaram girando em baixa rotação para manter a posição, enquanto um escaler era baixado com quatro marinheiros, um enfermeiro de bordo e sob o comando de um oficial do transatlântico.  Houve um fato narrado nos jornais que mostra bem as características das questões relativas ao pudor existente na época – Devido ao estado de nudez do náufrago o navio foi deixado a uma distância relativamente grande dos Rochedos de São Pedro e São Paulo e o pessoal a bordo do escaler teve de remar dobrado, mas conseguiram realizar a tarefa.

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Retorno do escaler.

Para surpresa geral aquele homem jovem e cabeludo falou em perfeito italiano. Ele estava muito fraco e foi examinado, teve sua nudez coberta com um roupão branco e foi levado para o Conte Grande. Sua chegada causou verdadeiro frenesi a bordo, mas ele foi mantido isolado devido ao seu estado de saúde.

Logo se soube que o estranho se chamava Michel Formosa, era filho do inglês Francis Reynold Formosa e mãe italiana, havia nascido em Paris, morava na ilha mediterrânea de Malta, era técnico de rádio e falava fluentemente cinco idiomas. Formosa contou que havia feito economias para realizar o sonho de adquirir um pequeno barco e conhecer o mundo singrando os mares.

Sozinho no Atlântico

O solitário navegador conseguiu seu intento no ano anterior, batizando a pequena nave de O. K. e partiu da ilha de Malta, na época parte do Império Britânico, no dia 2 de outubro de 1938.

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Percorreu com certa dificuldade a parte da costa africana banhada pelo Mar Mediterrâneo, mas ultrapassou o Estreito de Gibraltar e passou a navegar no Oceano Atlântico. Sua primeira parada foi na cidade marroquina de Tânger, depois Las Palmas, (Arquipélago das Canárias), na sequência Bathurst (Atual Banjul, capital da Gâmbia), Bissau (Atual capital da República da Guiné-Bissau) e outros locais da África Ocidental.

Partiu em março na direção do Brasil com a ideia de chegar a Natal, cidade que comumente aparecia em noticiários de jornais e revistas que comentavam feitos e realizações aeronáuticas na Europa.

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Para Formosa o porto de Natal lhe aparecia como um ponto de apoio pequeno, limitado, mas muito bem localizado no extremo nordeste da América do Sul. Para ele pouco importava as dimensões do nosso porto, ou o tamanho de Natal. Para quem buscava atravessar o Oceano Atlântico em um veleiro com apenas cinco metros e meio de comprimento, o que importava era chegar vivo!

Durante sua travessia atlântica o navegador Formosa passou uma parte do tempo apreciando o mar, noutra dormindo, ou lendo livros sobre o Novo Mundo. Enfrentou dois dias de forte tempestade, mas o O. K.  suportou bem a pressão. Em outro momento um nevoeiro muito forte, acompanhado de uma calmaria intensa o deixou em meio a um mundo com poucas referências visuais e um intenso silêncio.

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Um dia viu um navio brasileiro de carga e passageiros chamado Santarém, que veio em sua direção e aconteceu o contato narrado anteriormente. Para Formosa o melhor deste encontro no meio do mar foi saber que seguramente estava na rota certa. Mas no rápido encontro o navegador solitário britânico esqueceu-se de perguntar aos oficiais do Santarém se o farol dos Rochedos de São Pedro e São Paulo estava funcionando.

Queria Vir a Natal

Na madrugada de 26 de março o mar engrossou, e o vento se tornou mais e mais forte. As vagas invadiam continuamente o deck do barquinho a vela e tornava a navegação muito difícil. À noite a situação só piorou e a visibilidade se tornou mínima. Por volta da meia noite, já bastante cansado, Formosa vislumbra no meio da chuva o que lhe pareceu ser o cume de uma montanha. Ele sabia que o continente estava ainda muito longe e não havia visto a luz do farol de São Pedro e São Paulo. Logo escutou as ondas batendo nas pedras e tentou mudar o rumo, mas foi tarde demais.

Uma forte onde lhe arrancou o lema e o pequeno O. K. bateu forte em uma pedra e começou a afundar. Com o impacto Michel Formosa foi jogado para fora do veleiro e só não morreu por um impacto contra as rochas porque, de alguma forma, foi levado para um ponto no meio das pedras onde pode se agarrar e sobreviver sem maiores problemas. Ele saiu da água em meio a uma forte escuridão, muito frio e percebeu que estava nu.

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O fim do O.K. nas pedras de São Pedro e São Paulo.

Horas depois a chuva e o vento amainaram e o sol começou a despontar no horizonte trazendo luz e calor. Logo começou a compreender a natureza hostil dos Rochedos de São Pedro e São Paulo, onde água doce só era encontrada em pequenas frestas. Havia muitos pássaros e seus ovos, mas isso não daria para muita coisa.

Conforme o sol foi subindo no horizonte ele conseguiu divisar através das águas muito transparentes, a cerca de 10 metros de profundidade, o casco do O. K. e achou que valia a pena mergulhar para trazer coisas que pudessem lhe ajudar a sobreviver. Conseguiu chegar ao casco, mas logo percebeu a presença de tubarões rondando a área e se assustou.

Na superfície começou a explorar a maior das ilhotas, denominada Belmonte em honra ao navio da Marinha do Brasil que trouxe os construtores do pequeno farol em 1930.

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Michel Formosa com marcas no rosto das bicadas dos pássaros dos Rochedos de São Pedro e São Paulo. Luta pela sobrevivência.

Encontrou alguma madeira podre e um interessante pedaço grosso de espelho do agora inútil farol, que se estivesse em funcionamento teria evitado em todo o problema que agora vivia. Refletindo raios do sol conseguiu fazer uma fogueira e assou algumas aves marinhas que capturou em meio a uma luta que lhe deixaram feias marcas no rosto. Comeu também alguns ovos destas aves e esta foi sua única alimentação.

Quatro dias depois de chegar aquele esquecido local, viu surgir no horizonte um grande navio de passageiros. Com o coração aos pulos foi atrás do espelho do velho farol e ficou refletindo a luz do sol em direção ao navio, que foi passando, passando, diminuindo de tamanho, até que sumiu. Nessa hora, já debilitado pela falta de alimentação adequada e do medo de morrer a míngua naquele fim de mundo, Formosa se desesperou.

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O que ele não sabia era que seu esforço de visualização obteve êxito e sua presença nos rochedos desencadeou várias mensagens telegráficas que culminaram na chegada do Conte Grande e no seu salvamento.

No Rio e na Delegacia do Caçador de Comunistas

Depois de se recuperar, ser barbeado, ter o cabelo cortado, Michel Formosa foi contemplado com muito apoio e atenção a bordo do transatlântico italiano.

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Ele recebeu roupas, cigarros e já passou a dar entrevistas a alguns jornalistas que estavam a bordo e retornavam da Europa. Como todo bon vivant europeu que se prezasse naquela época, Formosa passou a curtir o momento plenamente. Por conta da empresa de navegação passou a tomar uns drinkzinhos no restaurante do navio, conversou com meio mundo de pessoas que estavam a bordo narrando sua epopeia e dizendo que o objetivo de sua viagem solitária era “dar a volta ao mundo”, com ideias de chegar até no Japão. Apareceu sorridente em fotos, com um cigarro pendurado no canto da boca, em uma imagem típica de ator canastrão francês.

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Logo, no dia 4 de abril, surgiu diante do Conte Grande a figura emblemática do Pão de Açúcar e a bela Baía da Guanabara.

Após o navio ancorar, já previamente avisados, subiram a bordo dois agentes da Polícia Marítima e Michel Formosa saiu escoltado para o conhecido Palácio da Polícia, na Rua da Relação, no centro da cidade. Ali ficava a sede da 2ª Delegacia Auxiliar, sob o comando do Dr. Linneu Chagas d’Almeida Cotta, muito conhecido por participar das investigações que culminaram na prisão de vários envolvidos na conhecida Intentona Comunista de 1935. Entre estes detidos figuravam os alemães Henry Berger e Olga Benário, além do então estudante baiano Carlos Marighella, este último detido em maio de 1936.

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O estrangeiro Formosa não estava entendendo nada sobre a razão de está ali. Na sua mente, sem deixar de ter certa lógica, ele era um ex-náufrago, que havia perdido tudo que tinha nos Rochedos de São Pedro e São Paulo e não poderia resolver aqueles problemas burocráticos apresentando o que não tinha.

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Michel Formose, já não tão sorridente, prestado declarações.

Para piorar a situação, certamente irritado com tudo aquilo, o inglês primeiramente se negou a responder qualquer coisa sobre si mesmo, falando apenas “No Entiendo” aos questionamentos feitos. Depois, sem saber o tamanho do perigo em que estava se metendo, partiu para responder com certa dose de ironia as perguntas do Dr. Linneu Cotta.

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Michel Formosa entre policiais.

Um jornalista narrou que a muito custo o estrangeiro comentou que era inglês e o delegado, depois de participar das investigações contra Henry Berger e Olga Benário, estava considerando tudo que Formosa dizia como sendo mentira, já o enquadrando como “extremamente suspeito” de ser comunista e ele acabou preso.

Ao ser informado da situação do ex-náufrago, a Embaixada Britânica no Rio, que na época ficava na praça XV de novembro, através do Vice Consul Noel Cameron Robinson, tratou de enviar com extrema urgência um telegrama para a legação britânica em Bathurst e saber a real situação de Michel Formosa.

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O ex-náufrago em liberdade.

Mesmo em uma época de comunicações limitadas, para sorte do súdito britânico preso, Bathurst confirmou no mesmo dia que o navegador solitário havia estado lá em 2 de fevereiro e que a sua situação era legal.

Sabedores do extremo perigo que o imprudente súdito de sua majestade corria se fosse acusado oficialmente de ser comunista no Brasil, os diplomatas britânicos prontamente entregaram um documento oficial sobre a situação do preso ao delegado Cotta, que soltou Formosa.

O Destino do “Vagabundo do Mar” na Guerra

Após sair do xilindró o navegador solitário inglês ainda foi notícia dos jornais cariocas por algum tempo, principalmente em “A Noite”. Inclusive durante semanas este periódico publicou uma serie de quadrinhos, produzidas pelo renomado cartunista Carlos Arthur Thiré, trazendo as aventuras de Michel Formosa.

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Comentou-se que através da “Editora S.A. A Noite” seria publicado o livro “O Vagabundo do Mar”, onde Formosa narraria sua epopeia marítima.

Notícias posteriores sobre Michel Formosa, que muitos periódicos afirmaram se chamar Michel Formose, comentou que através da ajuda do pessoal da equipe de remo do Fluminense Football Club seria conseguido um barco para ele continuar sua viagem. Mas parece que tudo ficou só nas promessas, pois as notícias sobre Michel Formosa desapareceram dos jornais cariocas.

Certamente a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 3 de setembro de 1939, mudou tudo na vida deste homem. Em algum momento ele retornou a Europa, onde embarcou a serviço em navios de carga e em um deles, pouco mais de dois anos depois de sua aventura nos Rochedos de São Pedro e São Paulo, encontrou a morte.

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S.S. Kingston Hill

No dia 8 de junho de 1941 o S.S. Kingston Hill seguia solitariamente no Oceano Atlântico. Com quase 130 metros de comprimento era um navio novo, lançado no mar pelo estaleiro escocês William Hamilton & Co. apenas seis meses antes. Transportava naquela viagem 8.300 toneladas de carvão e 400 toneladas de carga geral e pouco depois de uma da manhã este navio foi atingido por dois torpedos vindos do submarino alemão U-38.

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O U-38 preparando-se para partir.

Esta nave de guerra era comandada pelo Korvettenkapitän (capitão de corveta) Heinrich Liebe, um dos quinze melhores comandantes de submarinos alemães, com um total de 34 navios afundados e um danificado durante seu tempo como comandante. Apenas para efeito de comparação em toda Segunda Guerra o Brasil teve 35 navios afundados e danificados por submarinos nazifascistas.

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Placa com os nomes dos mortos do navio Kingston Hill.

O Kingston Hill levou quase uma hora e meia para afundar, onde catorze membros da tripulação morreram e 48 sobreviveram. Entre os mortos constavam o capitão do barco e os bombeiros de bordo Daniel Taylor e Michel Formosa, que lutaram arduamente para tentar extinguir o fogo e salvar a nave. O nome de Michel Formosa consta em uma placa de bronze no memorial de Tower Hill, em Londres, junto com outros treze companheiros do seu barco que tiveram o mar como túmulo.

Ironicamente este ataque ocorreu a cerca de 520 milhas náuticas ao norte dos Rochedos de São Pedro e São Paulo.

OS CRIPTO JUDEUS NO BRASIL

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Fonte – https://www.shutterstock.com/video/clip-720313-stock-footage-fire-david-star-with-alpha-channel.html

O povo Judeu se estabeleceu pela primeira vez na Península Ibérica (a região hoje conhecida como Espanha e Portugal), antes da chegada dos fenícios, em cerca de 900 AC.

Comerciantes judeus se estabeleceram ao longo da costa da Espanha durante o tempo do rei Salomão, quando esta região era chamada de Tarso, ou Társis. Mais judeus emigraram após a destruição do Primeiro Templo em Jerusalém. Quando o rei babilônico Nabucodonosor conquistou Jerusalém, já havia grandes assentamentos judaicos bem estabelecidos em toda a Península Ibérica.

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Soldados romanos carregando os despojos das guerras judaicas. A destruição de Jerusalém aconteceu em 70 D.C., quando as legiões romanas saquearam Jerusalém e retornaram a Roma com os despojos, daquela que era considerada a cidade mais rica no Império Romano – Fonte – http://www.bible-history.com/archaeology/rome/arch-titus-menorah-1.html.

A primeira perseguição registrada contra os judeus na Espanha começou há cerca de 490 D.C., quando os judeus foram proibidos de se casar com não judeus, ou ocupar cargos públicos e seus os filhos nascidos de casamento entre judeus e católicos foram forçosamente batizados na Igreja Católica.

A partir deste momento em diante, os judeus ibéricos foram periódica e progressivamente submetidos à pior perseguição. Entre os anos de 653 a 672 muitos foram decapitados, queimados vivos, ou apedrejados até a morte pelo crime da prática do judaísmo. Durante o período de 489 a 711, quando a Península Ibérica ficou sob o domínio franco e visigótico, surgiram pela primeira vez os cripto judeus (judeus secretos) como um grande grupo.

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Uma vista geral do interior da mesquita em Córdoba – do livro “Antiguidades árabes na Espanha”, de James Cavanah Murphy, publicado em 1816 – Fonte – http://islamic-arts.org/2012/islamic-architecture-of-andalusia-2/.

Em 711 os mouros do norte da África conquistaram a Península Ibérica e ficaram por cerca de 300 anos, o que é conhecido como a “Idade de Ouro da Tolerância”. Para muitos pode parecer aos dias atuais algo estranho, mas nesta época os governantes muçulmanos coexistiram com os judeus e cristãos com muita tolerância e de forma extremamente edificante. Pessoas não muçulmanas foram autorizadas a ter grande liberdade religiosa e social, desde que eles pagassem um imposto especial, algo que os judeus acordaram de bom grado.

Judeus floresceram em relativa paz e abundância, apreciando a Idade de Ouro e a livre troca de ideias, em meio a um nível relativamente alto de educação, aproveitando os benefícios de viver entre os estudiosos do Torá e do Talmude. Cidades como Lucena, Granada e Tarragona eram povoadas por judeus magnificamente ricos em bens de cultura e materiais.

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Era de ouro do Islã na Espanha. Abd-ar-Rahman III, califa de Córdoba, e sua corte em Medina Azahara , por Dionisio Baixeras Verdaguer – Fonte – http://newjacksonianblog.blogspot.com.br/2016/06/israel-islam-and-clash-of-civilizations.html.

A arte, música, medicina, educação e estudo religioso judaico floresceram. A população judaica aumentou consideravelmente, prosperou e muitos judeus se tornaram fabulosamente ricos e famosos. Durante a Idade de Ouro a Espanha se tornou o centro mundial de estudos talmúdicos, onde existiram algumas das mais famosas academias rabínicas do mundo. Alguns dos maiores estudiosos judeus viveram na Espanha moura. O rabino Abraham Ben Meir Ibn Ezra nasceu em Tudela, Espanha, em 1089, sendo considerado em seu tempo um grande poeta, matemático, gramático, astrônomo, comentarista da Torá e filósofo. Já o rabino Moshe ben Maimôn nasceu em Córdoba, Espanha, em 1135, e ganhava a vida como um médico, sendo famoso por sua codificação da lei judaica, intitulado Mishne Torá. O rabino Moshe ben Nachman nasceu em 1194 e como Maimôn era um médico respeitado e estudioso, sendo o primeiro a incorporar a cabala, ou misticismo judaico, no ensinamento da Torá.

No entanto a chamada Idade de Ouro na Espanha também foi marcada por revoltas violentas ocasionais e turbulência política. Isso afetou os judeus e os cripto judeus, que estavam sujeitos aos caprichos dos governos que mudavam frequentemente. Por exemplo, a violência eclodiu em 1002, quando dois ricos e politicamente poderosos muçulmanos lutaram para governar Granada; infelizmente, os judeus tinham apoiado o perdedor e sofreram depois. Em 1066 um ministro-chefe judeu de Granada foi crucificado, seguido do ataque a mais de 1.500 famílias judias.

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A crucificação é um dos métodos de execução mais conhecidos devido à crucificação de Jesus Cristo. É uma execução deliberadamente lenta e dolorosa, onde o condenado é amarrado ou pregado em uma grande cruz de madeira e deixado para pendurar até morrer, o que geralmente leva dias. Judeus foram crucificados na Espanha. – Fonte – http://deliciavita.com/most-horrifying-torture-techniques-through-history/

Depois a dinastia moura original na Península Ibérica foi dominada por grupos fanáticos. Em 1149 os muçulmanos da península se fragmentaram em cerca de doze pequenos reinos. A falta de controle centralizado causou logo constantes lutas pelo poder entre os reinos vizinhos.

Embora os judeus tenham coexistido relativamente pacificamente com os muçulmanos, os católicos se ressentiam amargamente da perda de controle cristão da península desde 711 e frequentemente realizavam distúrbios e revoltas de forma mais limitada, mas em 1212 começou a rebelião aberta. A reconquista de toda a região foi considerada como uma obrigação sagrada para os cristãos. Infelizmente os judeus foram identificados negativamente pelos cristãos como ligados a morte de Cristo e aos governantes muçulmanos sob o qual os judeus tinham desfrutado privilégios e poder.

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Vítimas da peste negra.

Também durante este período a peste negra assolou a Europa, matando como um em cada quatro pessoas, mas a população judaica foi muito menos atingida e, talvez por causa de uma melhor higiene, relativamente poucos judeus morreram por causa da praga. Judeus lavavam as mãos antes de comer pão, banhando-se semanalmente antes do Shabat e antes dos feriados, lavando suas roupas regularmente, mantendo fortes regras de higiene (especialmente na cozinha e nas instalações sanitárias), consumindo apenas carnes frescas e de animais saudáveis. Eles eram obrigados a ficar distantes do esgoto e de outras formas de impurezas e enterravam seus mortos dentro de vinte e quatro horas. Todas essas práticas dos judeus forneciam alguma medida de proteção contra a peste, embora não a imunidade total. Já os católicos da época não observaram tais estilos de higiene e raramente se lavavam e tomavam banho. Consequentemente os católicos odiavam os judeus pela sua aparente imunidade à praga.

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Pogrom em Barcelona no ano de 1391 – Fonte – http://factsanddetails.com/world/cat55/sub351/item1381.html

Nesse meio tempo os católicos se uniram contra os muçulmanos e lentamente, assumiram a maioria dos pequenos reinos, um por um. Mas as regras católicas não foram gentis aos judeus. Os “pogroms”, ou perseguições, se generalizaram a partir de 1391 e resultou na morte de cinquenta mil judeus. O medo era tal que dezenas de milhares se converteram ao catolicismo. Essas pessoas eram chamadas de “conversos” (convertidos), “cristãos novos”, e “Marranos” (um termo depreciativo que significa “porco”).

Em 1412 leis excluíram os judeus de qualquer intercâmbio econômico com os cristãos. A partir deste momento até o Édito de Expulsão de 1492, os judeus foram estritamente limitados aos guetos e tiveram que usar uma espécie de crachá de identificação proeminente no lado de fora de suas roupas, algo que voltaria a acontecer na Alemanha a partir de 1933.

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Expulsão dos judeus da Espanha

Duramente pressionados para sobreviver, muitos judeus, talvez mais de 600.000, se converteram forçadamente ao cristianismo até o final do século XV. Muitos dos cristãos novos eram na realidade cripto judeus. Cristãos por fora, mas interiormente praticando secretamente o judaísmo.

O Édito espanhol de expulsão de 1492 afirmou que todos os judeus deveriam deixar o país. Aqueles que ficaram enfrentariam a Inquisição. Um pequeno número fugiu para a Itália, Amsterdã e nas Américas descoberta por Colombo. Mas a maioria foi para o vizinho Portugal. Quando a Inquisição chegou a Portugal em 1496, os judeus foram forçados a sair, converter ou morrer. Desses conversos que não optaram por emigrar, muitos, se não a maioria, foram assassinados pela “Santa” Inquisição. Por volta de 1500 estimativas apontam que entre 40.000, a mais de 200.000 judeus foram forçados a deixar a Península Ibérica. Os números exatos não estão disponíveis porque muitos dos nomes de famílias cripto judaica foram alterados após os pogroms dos anos 1300, em antecipação as perseguições do futuro.

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A Expulsão dos Judeus, de Roque Gameiro.

As Inquisições espanhola e portuguesa continuaram por trezentos e cinquenta anos. Ficaram relativamente bem gravados e de forma precisa os nomes, números, datas e punições que foram promulgadas pelos oficiais da Inquisição contra todos aqueles que atingiram. Daqueles judeus e cripto judeus que escolheram não deixar, ou não podiam dar ao luxo de deixar a Península Ibérica, perceberam que para viver só comprando uma passagem em um barco que seguisse para destinos mais seguros. De preferência, o mais longe possível dos escritórios da Inquisição.

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Pelo mar, para sobreviver! – Fonte – http://aquilazica.blogspot.com.br/2010/11/navios-para-tarsis.html

Alguns compraram a documentação adequada para viagens de negócios “temporários” (que muitas vezes tornou-se permanente) para a Itália ou a Alemanha. Ao passo que as pessoas mais pobres fugiram para o norte, através das montanhas, e daí para a França. Comunidades inteiras de “cristãos portugueses” foram documentadas no sul da França, enquanto outros continuaram para o norte. Seguira para a Holanda, Inglaterra, Escandinávia e para o leste. Em direção da Alemanha, Áustria, Hungria e Polônia. Na maioria destes destinos europeus, esses “cristãos portugueses” finalmente revelavam sua verdadeira identidade como judeus e posteriormente se uniam as populações judaicas estabelecidas; Assim, como voltaram a assumir sua verdadeira condição religiosa, não encontramos uma longa história de cripto judaísmo na Europa.

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Obra mostra cena de expulsão de judeus da Espanha em 1492. Muitos deixaram o país, mas outros optaram por ficar e se converter ao catolicismo. (Xilogravura, Michaly von Zichy, 1880, posteriormente colorizada)

Mas do outro lado do Atlântico a situação foi bem diferente. Muitos judeus e cripto judeus emigraram para o Novo Mundo, agora conhecidos como as Américas, ou Hemisfério Ocidental. Mas suas escolhas ficaram limitadas basicamente às colônias de Espanha e Portugal nesta região.

No caso do Brasil, após a chegada dos cripto judeus, muito se tornaram exportadores de madeira e desenvolveram com largo sucesso o plantio de cana-de-açúcar. Este sucesso atraiu muitos outros conversos da Espanha. Em Recife, a maior cidade no nordeste do Brasil, os cripto judeus prosperaram significativamente. De acordo com registros oficiais, durante o século XV, estes compreendiam 2/3 dos moradores brancos da região.

Rua dos Judeus - Mercado de Escravos - 1641
Rua dos Judeus e seu mercado de escravos. Quadro Rua dos Judeus – Slavenmarkt, de Zacharias Wagener – 1641 – Fonte – http://bairrodorecife.blogspot.com.br/2014/02/a-rua-do-bode-dos-judeus-da-cruz-e-do.html

Em 1630 a Holanda conquistou a colônia portuguesa do Brasil. Pelos próximos 24 anos a cidade de Recife viveu um renascimento judaico. A primeira sinagoga das Américas foi ali fundada. Até mesmo uma rua foi nomeada “dos Judeus” e muitos conversos voltaram abertamente ao judaísmo.

No entanto, os bons tempos não duraram muito. 

Não apenas por isso, mas é bem verdade que os Judeus no Brasil se tornaram tão poderosos que a Igreja Católica pressionou Portugal para reconquistar sua ex-colônia dos “conversos judeus que agora operam suas sinagogas, causando grande humilhação para Igreja”. Assim, em 1654, Portugal mais uma vez ganhou o controle do Brasil. Logo um decreto de expulsão foi emitido contra os judeus para deixar o Brasil em menos de três meses. 

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Pessoas queimadas através da Inquisição em Portugal, que depois chegou no Brasil 

Em meio a isso a renovada Inquisição se espalhou por todo sul dos Estados Unidos da América, México, América Central e América do Sul, as ilhas do Caribe e Cuba. Nenhum judeu, ou “Converso”, estava a salvo de suspeita, acusação e perseguição. Assim, o número de cripto judeus cresceu para abranger quase todas as pessoas de ascendência judaica.

Para evitar essa situação muitos judeus, os “conversos” ou “cristãos-novos”, foram obrigados a apresentar-se ao catolicismo. Eles são referidos em hebraico como os “anussim”, ou “aqueles que foram forçados” e tiveram que continuar a esconder as suas crenças religiosas. Os membros da família não revelaram sua herança judaica, até mesmo para os seus filhos, filhas, irmãos e irmãs, tudo por medo de perseguição.

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Judaísmo no Âmbito Familiar. Nem assim havia total segurança – Fonte – http://www.coisasjudaicas.com/2011/11/cripto-judaismo.html

O certo é que a experiência dos judeus cripto no Hemisfério Ocidental foi uma litania de sofrimento, medo contínuo, supressão social e política, profissional e religiosa e de assassinatos. E foi algo que durou muito. Somente no final dos anos de 1850 a Inquisição oficialmente terminou no México e em outros lugares um pouco mais cedo; no entanto, a discriminação ostensiva e os incidentes aleatórios de linchamento e assassinatos continuaram até meados da década de 1950 no que hoje chamamos de América Latina.

Voltando a 1654, sabe-se que uma parcela substancial de judeus que viviam no Nordeste do país escolheu se esconder no interior, no sertão, misturando-se entre os moradores locais. Aí surge a dúvida – Quantos descendentes de judeus se converteram ao catolicismo? As estimativas variam de milhares a milhões.

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Anita Waingort Novinsky da Faculdade de Filosofia, letras e Ciências Humanas da USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Anita Novinsky, historiadora da Universidade de São Paulo, afirma que não sabe quantos descendentes dos judeus permanecem em todo o Brasil, mas acredita que a muitos judeus com variados níveis de consciência no Brasil. Para ela o Brasil moderno foi fundado por judeus e Só no Brasil estima-se que 10 a 25% do total da população são crpto judeus, que se traduz em 15 a 40 milhões de pessoas.

Embora nem todas as pessoas de linhagem crypto judaica estão são preparados neste momento para aceitar o desafio de voltar a viver uma vida plenamente judaica, tem havido um impulso incrível de voltar ao Judaísmo nos últimos anos. Existem milhares, se não milhões de pessoas que estão com fome de aprender e de se reconectar como judeus.


SE VOCÊ QUER VER MAIS TEXTOS SOBRE JUDAÍSMO NO TOK DE HISTÓRIA VEJA ESTES LINKS: 

https://tokdehistoria.com.br/2015/11/11/lei-pode-dar-cidadania-a-brasileiros-descendentes-de-judeus/ 

https://tokdehistoria.com.br/2015/05/08/diaspora-descubra-como-os-judeus-se-espalharam-pelo-mundo/ 

https://tokdehistoria.com.br/2016/07/12/15533/ 

https://tokdehistoria.com.br/2014/03/23/sobrenomes-de-judeus-expulsos-da-espanha-em-1492-veja-se-o-seu-esta-na-lista/ 

https://tokdehistoria.com.br/2012/04/18/a-expulsao-dos-judeus-de-portugal/

https://tokdehistoria.com.br/2015/06/08/the-first-synagogue-in-the-americas-itamaraca-1634/ 

FONTES DO TEXTO

http://cryptojew.org/the-history-of-the-crypto-jewshispanic-sephardi

http://www.nationalgeographic.com/hidden-history/

http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-3319972,00.html

A ESPIONAGEM EM NATAL E PARNAMIRIM FIELD NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL – O CASO DO ENGENHEIRO PERNAMBUCANO QUE TRABALHOU PARA OS NAZISTAS

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Rostand Medeiros – Escritor e membro do IHGRN

Texto publicado originalmente no blog Papo de Cultura, do jornalista Sérgio Vilar – http://papocultura.com.br/nazista-em-natal/

Muitos hoje desconhecem a importância estratégica do Brasil durante o maior conflito bélico da humanidade. Além de grande fornecedor de matérias primas e materiais de alto valor estratégico o Brasil possuía alguns locais de extrema importância geográfica para uso da aviação e das forças navais, caso principalmente de Natal e Recife. 

Não é surpresa que antes mesmo da entrada do Brasil na conflagração, os nazistas já tinham olhos postos e muito atentos sobre o território nacional. Foi o Abwehr, uma organização de inteligência militar alemã que existiu entre 1920 a 1945, que cumpriu esta missão. O objetivo inicial da Abwehr era a defesa contra a espionagem estrangeira – um papel organizacional que mais tarde evoluiu consideravelmente, principalmente após a ascensão dos nazistas ao poder em 1933. Esta organização sempre esteve muito próxima ao Comando Supremo das Forças Armadas (Oberkommando der Wehrmacht – OKW) e do próprio Adolf Hitler, com seu quartel general em Berlim, adjacente aos escritórios do OKW.

Wilhelm Canaris [1887 - 1945], Deutscher Admiral, Chef der Spionageabwehr 1935-1944, Mitglied des Widerstands vom 20. Juli 1944, hingerichtet.
Wilhem Canaris
Quem comandou por nove anos a Abwehr  foi o vice-almirante Wilhem Franz Canaris. Considerado até os dias atuais como uma verdadeira lenda e um dos indivíduos mais interessantes e misteriosos da história da Segunda Guerra Mundial. Canaris nasceu em 1 de janeiro de 1887 em Aplerbek, Alemanha. Jovem ainda começou a carreira naval e tornou-se oficial da Marinha. Era considerado como um homem inteligente, dinâmico, que havia viajado muito e conhecia seis línguas, inclusive o português. Foi comandante de submarinos na Primeira Guerra Mundial e, apesar da rivalidade entre as duas nações, tinha grande respeito pela Marinha Real da Grã-Bretanha, a Royal Navy.

Sob a direção de Canaris a Abwehr  se tornou uma vasta organização de informações que incluía uma grande rede de espionagem em numerosos países estrangeiros, utilizando extensamente as missões diplomáticas alemãs. Essa rede foi primeiramente organizada em países que eram considerados os prováveis adversários da Alemanha do novo conflito que surgia no horizonte, principalmente a Grã-Bretanha. Depois a rede foi implantada em locais de forte significação estratégica no Hemisfério Ocidental.

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A grande base de Parnamirim Field durante a Segunda Guerra Mundial.

Apesar do maior país da América do Sul ser considerado pela Alemanha nazista um país amigo do ponto de vista político, logo que a Guerra iniciou em 1939 o Abwehr  agiu para organizar um amplo serviço de informações em nosso país[1].

Suástica Sobre o Brasil

A espionagem alemã no Brasil esteve principalmente sob o comando de Albrecht Gustav Engels, um engenheiro que vivia no Brasil desde 1923, fugindo da crise que se abateu no seu país após a Primeira Guerra Mundial. Aqui Engels  trabalhou na empresa Siemens, na Companhia Siderúrgica Brasileira e depois foi gerente da Companhia Sul-americana de Eletricidade em Belo Horizonte, sucursal da empresa alemã Allgemeine-Elektrizitäts Gesellschaft (AEG), onde alcançaria cargo de direção na América do Sul. Casou com a alemã Klara Pickardt em 1927, onde nasceu seu único filho e três anos depois se mudou para o Rio de Janeiro, a então Capital Federal.

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Antes do início da guerra Engels foi com a família para três meses de férias a Alemanha e outros países europeus. Nesta viagem reencontrou em Gênova, cidade portuária italiana, um velho amigo chamado Jobst Raven, então capitão da Wehrmacht, o exército alemão, e que trabalhava na seção econômica do Abwehr. Deste contato Engels se tornou espião e passou a enviar inúmeros relatórios sobre a situação econômica, industrial e militar dos países sul-americanos e Estados Unidos. Com o início da Guerra este trabalho se ampliou bastante.

Engels (cujo codinome era “Alfredo”), com a colaboração de importantes membros da colônia alemã, que tinham cargos chaves em fortes empresas comerciais no país, começou a recrutar alemães natos, ou nascidos no Brasil, e estabeleceu se grupo de espionagem.

A organização de Engels não foi a única que operava no país, mas foi a maior e mais bem organizada. Esta rede de espionagem buscava informações variadas sobre o país, incluindo aspectos da política interna, sobre pontos estratégicos, a geografia litorânea e sobre a movimentação dos transportes. Para enviar suas informações a Abwehr sem serem descobertos os espiões germânicos em terras tupiniquins empregavam diversos recursos, tais como tinta invisível, pseudônimos, símbolos nos passaportes, códigos telegráficos, correspondência para endereços disfarçados, microfotografias e mensagens enviadas de estações de rádios clandestinas[2].

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A movimentação nos portos brasileiros, como o de Santos (foto), eram alvos prioritários dos espiões nazistas no Brasil – Fonte – http://www.navioseportos.com.br/site/index.php/historia/historia-da-mm/195-a-expansao-1941-a-1989

Os melhores relatórios dos espiões de Engels tinham foco em inteligência naval e questões relativas ao tráfego marítimo. As informações vinham de tripulantes e funcionários que trabalhavam em navios e escritórios de terra das companhias marítimas nos principais portos brasileiros e incluíam vitais informações estratégicas. Graças a estes relatórios, a Kriegsmarine, a Marinha alemã, pode planejar interceptações de uma enorme quantidade de navios mercantes aliados que partiam da América do Sul.

É verdade que uma parte do serviço de espionagem de Engels era formada por espiões que estavam ligados a uma organização com algum nível de estrutura e financiadas pelo Abwehr, mas também havia muitas pessoas comuns, que atuavam de forma amadora e independente, querendo de alguma maneira ajudar a pátria distante.

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Foto de várias pessoas acusadas de espionagem nazista no Brasil e publicadas no jornal Diário Carioca, de 2 de março de 1943. Entre eles temos brasileiros natos e naturalizados e cidadãos alemães. Tipos comuns, distante da ideia dos espiões criada pelo cinema.

Apesar de problemas que existiram devido ao amadorismo de vários espiões e informantes, é fato que graças às comunicações das redes de Engels, os relatórios obtidos pelos agentes nazistas na Argentina, Estados Unidos, México, Equador e Chile foram enviados para a Alemanha através de estações de rádios clandestinas brasileiras. Esta extensa rede conseguiu durante algum tempo enganar muito bem os serviços de contraespionagem britânica e norte-americana. 

O Nordeste Como Alvo 

Entre os homens que Engels conhecia com perfil para trabalharem como espiões estava Herbert Friedrich Julius von Heyer, ou Herbert von Heyer. Este era um filho de alemães nascido no Brasil em 1901, na cidade paulista de Santos, que aos quatro anos von Heyer seguiu com a família para Alemanha e chegou a lutar na Frente Russa durante a Primeira Guerra Mundial. Deu baixa do serviço militar como sargento em 1919, retornando ao Brasil quatro anos depois e desde 1938 trabalhava na sede carioca da empresa de navegação Theodor Wille & Cia.

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Herbert Friedrich Julius von Heyer, ou Herbert von Heyer. Fonte – Livro Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944, de S. E. Hilton. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977, pág. 37.

Quando von Heyer esteve na Alemanha no outono de 1941, Engels avisou ao capitão Jobst Raven para encontrar, contatar e cooptar o antigo sargento para a causa. O que aconteceu sem maiores problemas e von Heyer passou a utilizar o codinome “Humberto Heyer”.

Engels e o novo colaborador começaram a trabalhar juntos no Rio, em dois escritórios conjugados de um edifício localizado na Rua Buenos Aires, 140, no Centro. Em julho daquele ano Engels informou a Berlim que von Heyer se deslocaria a Recife para recrutar possíveis colaboradores na capital pernambucana e saber das atividades dos norte-americanos na região.

Ele chegou à cidade faltando dez minutos para as cinco da tarde do dia 4 de julho de 1941, uma sexta feira. Desembarcou do hidroavião “Caiçara”, da empresa Syndicato Condor no chamado “Aeroporto de Santa Rita”, onde então amerissavam os hidroaviões de passageiro na Bacia do Pina-Santa Rita[3].

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Hidroavião em Recife – Fonte – http://www.fotolog.comtc211078575

Apesar de não possuir dados comprobatórios sobre isso, provavelmente quando o “Caiçara” sobrevoou a região do Porto de Recife, o espião Humberto deve ter visto atracados quatro belonaves de guerra da marinha dos Estados Unidos, a US Navy. Eram os cruzadores Memphis (CL 13), Cincinnati (CL 6) e os destroieres Davis (DD 395) e Warrington (DD 383) e certamente Von Heyer se questionou o que aquelas naves de guerra faziam ali. Mas aquela não seria sua única e desagradável surpresa no Nordeste do Brasil[4].

Logo o espião hospedou-se no tradicional Grande Hotel e manteve um primeiro contato com Hans Heinrich Sievert.

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O Grande Hotel de Recife – Fonte – http://www.fernandomachado.blog.br/novo/?p=88384

Von Heyer passou oito dias em Recife e através do apoio de Sievert realizou várias reuniões na tentativa de angariar novos adeptos para a causa. Algumas foram produtivas e outras nem tanto. Entre estes manteve contato com o engenheiro elétrico alemão Walter Grapentin para a instalação de uma estação de rádio de ondas curtas, mas este recusou o trabalho[5].

Certamente o melhor elemento contatado por von Heyer foi Hans Sievert. Este era um alemão naturalizado brasileiro, tinha 37 anos, havia chegado ao Brasil em 1924, era casado com a alemã Wilma Korr, sendo membro destacado da tradicional comunidade germânica na capital pernambucana, além de gerente e sócio da antiga e conceituada firma Herm Stoltz & Cia. Sievert onde teve uma ascensão muito positiva na Herm Stoltz, saindo do posto de simples empregado, passando a ser gerente e finalmente sócio. Estava tão bem financeiramente que em 1932 retornou da Alemanha para o Recife no dirigível Graf Zeppelin[6].

O Serviço em Natal

Segundo o brasilianista Stanley E. Hilton, em seu livro ““Suástica sobre o Brasil : a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944”, nesta viagem a Recife o espião von Heyer já estava sendo vigiado pelo pessoal do Federal Bureau of Investigation – FBI, a mítica unidade de polícia do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Consta que o homem a serviço do Abwehr teria deixado Recife para uma rápida viagem a Natal, provavelmente em algum avião de carreira do Syndicato Condor[7].

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Natal, metade da década de 1930

Na capital potiguar ele teria se encontrado com os alemães Ernest Walter Luck, seu cunhado Hans Werbling e Richard Burgers. É provável que este encontro tenha ocorrido na casa de Luck, que servia de cônsul alemão na cidade, na Rua Trairi, 368, no bairro de Petrópolis. Todos esses alemães já eram radicados há vários anos na capital potiguar, partidários e propagandistas de primeira linha da causa nazista. Mas certamente o que deve ter impressionado o espião von Heyer em Natal foi o acentuado movimento de aviões norte-americanos, a presença de tropas brasileiras nas ruas e o imenso volume das obras desenvolvidas na construção da base aérea em Parnamirim e das bases de hidroaviões e de navios de guerra nas margens do Rio Potengi.

Aquilo era muito grave e von Heyer nem esperou seu retorno para o Rio. Antes de seguir para Fortaleza e Belém, destino final de sua viagem, ele enviou uma carta, certamente feita à base de tinta invisível, contando as preocupantes novidades ao seu chefe Engels.

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Abastecimento de um C-87 em Parnamirim Field – Livro-Trampolim para a vitória, pág 129, de Clyde Smith Junior, 1993.

O que estava acontecendo em Recife e Natal, em uma das áreas mais estratégicas de todo Oceano Atlântico, certamente tinha de ser mais bem avaliado para ser informado ao Abwehr. Mas como isso poderia ser feito sem chamar atenção dos americanos?

A solução veio através de Hans Sievert, que conhecia um pernambucano com sólida formação como engenheiro, oriundo de família tradicional, com muitos contatos proveitosos e que poderia ampliar as informações do que acontecia na capital potiguar.

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O escolhido foi Luiz Eugênio Lacerda de Almeida. Era filho do desembargador Luiz Cavalcanti Lacerda de Almeida e de Dona Maria Elisa. Tinha 46 anos, havia estudado no tradicional Ginásio Porto Carreiro, casou em 1922 com Maria Cândida Pereira Carneiro, tinha três filhos e residia na Avenida Beira Mar, número 3.000, em Recife. Na época ele trabalhava na Destilaria Central Presidente Vargas, pertencente ao Instituto do Açúcar e do Álcool e localizada no município do Cabo, atual Cabo de Santo Agostinho.

O engenheiro e sua esposa eram muito bem situados na sociedade pernambucana, possuindo parentesco com as tradicionais famílias Brennand e Burle, além do conde Ernesto Pereira Carneiro, empresário, politico, jornalista e proprietário do respeitado Jornal do Brasil, com sede no Rio de Janeiro.

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Jornais de várias partes do país também enalteceram a ligação do engenheiro pernambucano com o Integralismo, como o Diário da Tarde, de Curitiba-PR, na sua edição de terça feira, 30 de junho de 1942, pág. 1.

Segundo o jornal O Radical, do Rio, Eugênio Lacerda de Almeida havia sido Integralista e ideologicamente tinha um posicionamento favorável em relação ao Terceiro Reich de Adolf Hitler. Provavelmente isso explica a sua amizade com Hans Sievert[8].

Não existe uma comprovação da data que Eugênio Lacerda de Almeida chegou a Natal, mas se sabe que desembarcou em um voo da Panair do Brasil, pago pela Herm Stoltz & Cia. O fato deste engenheiro pernambucano haver chegado a Natal através de um voo desta empresa aérea pode explicar muito sobre sua infiltração nas obras de Parnamirim.

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Cerimônia militar em Parnamirim Field – https://catracalivre.com.br

Em 1941 o Brasil ainda era um país neutro na Segunda Guerra e não queria de modo algum comprometer sua neutralidade. Oscilando ora para o lado do Eixo, ora com acenos aos Aliados, o regime ditatorial de Getúlio Vargas tolerou tanto as atividades dos nazistas no Brasil, quanto à construção de vários aeroportos pelos americanos. Estes aeroportos, cujos principais eram os de Belém e Natal, jamais poderiam ser construídos por militares estadunidenses. A solução encontrada pelo governo americano foi colocar em campo a Panair do Brasil, que nada mais era do que uma subsidiária da empresa aérea americana Pan American Airways, com recursos para tocar as obras vindas do ADP (Airport Development Program – Programa de Desenvolvimento de Aeroportos). Então teve início a construção das instalações destinadas a servirem como principais bases de transporte e transbordo ao longo da rota do Atlântico Sul.

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Na foto vemos um Douglas C-47 Dakota em Parnamirim Field.

Evidentemente que muito dinheiro forte estava circulando em Natal, fato este que tanto atraía prostitutas, malandros e ladrões, quanto pedreiros, mestres de obras e engenheiros. Pernambuco já possuía há décadas uma escola de engenharia e alguns engenheiros ali formados convergiram para a capital potiguar atrás de dólares. Certamente a chegada de Eugênio Lacerda de Almeida a Parnamirim, vindo em um avião da Panair do Brasil, possivelmente bem trajado e distribuindo simpatia, não deve ter alertado as autoridades. Aliado a isso temos que pensar que ele talvez conhecesse alguém na área das obras para apresentar o trabalho que ali era realizado. Esse pretenso contato, de forma inadvertida, ou em estreita cooperação, lhe apresentou o engenheiro encarregado das obras, que lhe trouxe então as plantas da construção das pistas de aterrissagem e dos muitos locais administrativos que seriam utilizados por americanos e brasileiros. Ardilosamente Eugênio Lacerda de Almeida guardou na memória o que viu nas plantas da grande base e depois, reservadamente, desenhou um croqui com detalhes do projeto.

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Foto atual da Base Naval de Natal, que teria sido espionada pelo engenheiro Eugênio – Fonte – http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/portoes-abertos-base-naval-de-natal-realiza-exposicao/205460

Existe a informação que além de “visitar” as obras da base de Parnamirim, o engenheiro teria igualmente visto as obras da futura Base Naval de Natal[9]. À noite, hospedado em um hotel, ao entabular conversas com pessoas que trabalhavam nas obras em Natal, soube de detalhes dos projetos de ampliação do porto da cidade. No outro dia ele voltou a Recife a bordo do navio Cantuária[10].

Na capital pernambucana, ao se encontrar com Hans Sievert, o engenheiro Eugênio Lacerda de Almeida quis lhe reportar o que viu, mas o alemão exigiu um relatório por escrito, mas afirmou que depois o destruiria. 

Capturando As Vermes! 

Em muito pouco tempo a situação virou completamente.

Os afundamentos e os chocantes relatos dos sobreviventes levaram a um clima de intensa animosidade com a Alemanha, com manifestações em todo o país, algumas violentas, com a depredação de bens ligados a alemães, e onde se exigia que o Brasil declarasse guerra ao Eixo (Alemanha, Itália e Japão), o que foi feito pelo presidente Vargas em agosto de 1942.

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O afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães alterou a participação do Brasil no conflito. Foto meramente ilustrativa – Fonte – http://www.navioseportos.com.br/site/index.php/historia/historia-da-mm/195-a-expansao-1941-a-1989

Mesmo tendo vários navios afundados por submarinos alemães e com muitos de seus cidadãos mortos, O Brasil era um país que teimava em ficar em cima do muro, sem se comprometer demasiadamente na Guerra e tentava tirar vantagens dos dois lados da contenda. Mas conforme cresciam os ataques dos submarinos alemães aos navios de carga brasileiros, a revolta da população aflorou intensamente e a boa vida dos espiões alemães acabou completamente em terras tupiniquins[11].

O desmantelamento das redes de espionagem deu um enorme trabalho para o governo Vargas, que levou algum tempo para conseguir este objetivo. Mas em 25 de fevereiro de 1942 os alemães Hans Sievert e Walter Grapentin prestaram depoimentos ao então Secretário de Segurança de Pernambuco, o Dr. Etelvino Lins de Albuquerque, e ao delegado Fabio Correia de Oliveira Andrade, nas dependências da Delegacia de Ordem Política e Social, o DOPS, em Recife e eles entregaram tudo mundo[12].

Logo, para surpresa geral na capital pernambucana, um dos chamados a depor foi Luiz Eugênio Lacerda de Almeida.

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Sievert confirmou que o engenheiro foi a Natal por conta da empresa Herm Stoltz & Cia, que o enviou para conhecer a obra para a empresa alemã melhor se preparar para “candidatar-se as concorrências que existiam em Parnamirim”. Uma situação completamente ilógica e ridícula diante do estado de extrema desconfiança e quase beligerância entre alemães e americanos na época.

Já Eugênio Lacerda de Almeida informou que passou apenas um dia em Natal e negou a autoria do croqui produzido sobre a base de Parnamirim. Entretanto, talvez por receio de uma acareação, se retraiu ao ser confrontado com o material e confirmou que foi ele que produziu os desenhos. Afirmou que primeiramente negou o fato por medo de se prejudicar, pois havia recebido de Hans Sievert a garantia que o material havia sido destruído. Eugênio Lacerda de Almeida comentou também que na época da feitura dos desenhos, quando o Brasil ainda se encontrava neutro, ele havia se tornado “admirador das vitórias alemãs” e na sua concepção ele não estava prejudicando o Brasil.

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As estratégicas bases aéreas em Natal e Belém foram importantes na engrenagem de guerra doa Aliados no Brasil. Na foto vemos um Douglas C-47 e um Consolidated B-24 Liberator.

A situação do engenheiro foi cada vez mais se complicando, principalmente quando ele teve de explicar a origem de 50 contos de réis (50.000$000) que recebeu de Hans Sievert. Até então a ida de Eugênio Lacerda de Almeida a Natal teria sido, por assim dizer, voluntária. Mas surgiu um depósito em sua conta corrente do Banco do Povo neste valor, creditado no dia 23 de dezembro de 1941. Aparentemente um gordo presente de natal!

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Espiões Nazistas que agiam em Santos, São Paulo – Fonte – http://atdigital.com.br/historiasdesantos/?p=94

Mas o dinheiro ficou depositado por seis meses, em uma espécie de conta de renda fixa que existia na época. Sievert afirmou em depoimento que entregou aquele dinheiro ao engenheiro pernambucano em confiança, sem documento comprobatório, para atender as necessidades de sua família no caso de surgirem “imprevistos contra a sua pessoa”[13].

O engenheiro Eugênio Lacerda de Almeida foi identificado, sujou os dedos quando fez sua ficha datiloscópica, fez retratos de frente e de perfil e depois saiu andando tranquilamente pela porta da rua!

Lei Frouxa! 

Ficou a cargo do Dr. José Maria Mac Dowell da Costa, Procurador do Tribunal de Segurança Nacional (TSN), analisar as provas contidas nos autos contra as pessoas acusadas de espionagem, ou de facilitação desta atividade, os chamados “Agentes do Eixo[14].

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Dr. José Maria Mac Dowell da Costa, Procurador do Tribunal de Segurança Nacional (TSN)

O Dr. Mac Dowell da Costa prometia através da imprensa que “seria inflexível no cumprimento do dever” e se algum daqueles 128 homens e mulheres pronunciados estivesse seriamente implicado nos artigos no Decreto Lei Nº 4.766, de 1º de outubro de 1942, que definia os crimes militares e contra a segurança do Estado, ele não hesitaria em aplicar a pena máxima existente – A pena de morte![15]

O nobre engenheiro Luiz Eugênio Lacerda de Almeida sofreu por parte da imprensa carioca, especialmente dos jornais Diário Carioca e O Radical, uma intensa pressão para que fosse condenado e recebesse uma punição exemplar[16]. Eugênio Lacerda de Almeida compareceu ao TSN no Rio e foi indiciado com base no Decreto Lei 431, de 18 de maio de 1938, Artigo 3º, no seu 16º inciso.

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Houve forte indignação com a liberdade do engenheiro pernambucano. Manchete do jornal O Radical, Rio de Janeiro, edição de domingo, 13 de junho de 1943, pág. 1.

Notem os leitores que de saída o engenheiro pernambucano não foi indiciado na chamada “Lei de Guerra”, que era o Decreto Nº 4.766, de 1º de outubro de 1942, uma lei bem mais dura, mas no Decreto Lei 431, de 1938. Este na sua parte inicial era definido como “Crimes contra a personalidade internacional, a Estrutura e a segurança do Estado e contra a ordem social”. E trazia no texto do seu inciso 16º o seguinte teor “Incitar ou preparar atentado contra pessoa, ou bens, por motivos doutrinários, políticos ou religiosos; Pena – 2 a 5 anos de prisão; se o atentado se verificar, a pena do crime incitado, ou preparado”[17]. Além disso, trazendo como verdadeiro “abre alas” de sua defesa, havia dezenas de cartas de autoridades e pessoas gradas, atestando a sua conduta e de como ele era uma pessoa ilibada[18].

Quase no fim do ano de 1943, sob a presidência do ministro Frederico de Barros Barreto, natural de Recife, o TSN promulgou várias sentenças contra os acusados de espionagem e vários deles foram condenados a pena de morte, entre eles Albrecht Gustav Engels.

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Aparelho de rádio achado com os espiões nazistas no Rio.

Mas para desgosto de muita gente, sedenta de sangue para vingar os mais de 1.081 mortos, em mais de 34 navios brasileiros afundados por submarinos do Eixo, nenhum dos acusados de espionagem foi parar diante de algum pelotão de fuzilamento. O Dr. Mac Dowell da Costa afirmou a um periódico mineiro que os casos que estavam chegando ao TSN eram anteriores ao reconhecimento da declaração de guerra, sendo impossível aplicar a pena de morte[19].

Esses condenados a morte tiveram a pena alteradas para 30 anos de prisão, mas muitos não cumpriram sequer dez anos pelos seus atos. O grande chefe Engels logo saiu da cadeia e foi ser funcionário, logicamente, de uma empresa alemã. No caso a Telefunken do Brasil, aonde chegou a presidência da mesma[20]. Hans Heirich Sievert e Herbert von Heyer foram condenados a 25 anos de prisão cada um. Sievert logo deixou a cadeia e aparentemente foi morar em Petrópolis, Rio de Janeiro, onde faleceu em 17 de novembro de 1979[21].

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Já von Heyer penou um pouco mais. Em 1952 vamos encontrá-lo encarcerado no mítico e tenebroso presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, onde era considerado um preso de bom comportamento e dava aulas de inglês para o comandante da instituição prisional[22].

Não consegui apurar, mas acredito que o engenheiro Luiz Eugênio Lacerda de Almeida não passou um dia sequer na cadeia. Ele faleceu no Rio de Janeiro, em 2 de dezembro de 1975[23].

Final

Não causa nenhuma surpresa que a maioria dos espiões nazistas que operaram no Brasil não quis retornar para sua tão amada nação de origem após o fim da guerra. Simplesmente após o fim do conflito ninguém no Brasil se importou muito com essa gente e represálias, até onde sei, nunca aconteceram. O tempo apagou quase tudo sobre esses casos!

Já nos Estados Unidos, por exemplo, a coisa foi bem diferente. Começa que o Presidente Franklin D. Roosevelt, temeroso que um tribunal civil fosse demasiado indulgente com espiões nazistas, criou um tribunal militar especial para esse tipo de caso. Isso levou a execução na cadeira elétrica de seis espiões nazistas[24].

Já na Inglaterra foi criada a “Lei da Traição”, que após passar pelo parlamento e receber o assentimento real, tinha apenas uma sentença prioritária: a morte. Lá, Entre 1940 e 1946, dezenove espiões e sabotadores foram processados sob a Lei da Traição e executados. Um vigésimo espião – um jovem diplomata português – foi condenado à morte, mas a sua pena foi comutada para prisão perpétua após a intervenção do governo português[25].


NOTAS

[1] Ver os livros Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944, de S. E. Hilton. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977, págs. 17 a 19 e O Brasil na mira de Hitler, Roberto SANDER. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, págs. 23 a 33.

[2] Ver os livros Hitler’s Spy Chief: The Wilhelm Canaris Mystery. New York, NY, EUA: Pegasus Books, 212, págs, 23 a 45. Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944, de S. E. Hilton. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977, págs. 20 a 24.

[3] Ver Diário de Pernambuco, Recife-PE, edição de sábado, 5 de julho de 1941, pág. 2. O interessante foi que von Heyer desembarcou utilizando seu nome verdadeiro e este antigo ponto de embarque e desembarque de hidroaviões em Recife ficava localizado onde atualmente existem duas grandes torres de apartamentos, construídas pela empresa Moura Dubeux, as margens do Rio Capibaribe. Estas torres são dois edifícios de luxo de 42 andares, construídos no Cais de Santa Rita, no bairro de São José e conhecidas popularmente como as “Torres Gêmeas”. A construção das torres começou em 2005 e foi concluída em 2009, após batalha judicial com o Ministério Público Federal, que apontava irregularidades na obra. Com sua excessiva proximidade com o mar e grande altura, os prédios diferem radicalmente do entorno do bairro histórico. Sobre esse assunto ver – https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/06/01/obra-em-bairro-historico-inflama-debate-sobre-verticalizacao-do-recife.htm

[4] Aquelas naves em Recife estavam sob o comando do vice-almirante Jonas H. Ingran, como parte da Task Force 3, que futuramente, com a ampliação das ações de combate da US Navy no Atlântico Sul, seria designada como Fourth Fleet (Quarta Frota).

[5] Sobre o encontro entre Grapentin e von Heyer ver as declarações do primeiro para a polícia pernambucana, reproduzidas no Diário de Pernambuco, Recife-PE, edição de domingo, 29 de março de 1942, pág. 4 e no livro Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944, de S. E. Hilton. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977, pág. 40.

[6] A Herm Stoltz & Cia. foi uma empresa fundada em 1863, muito conceituada em todo país no transporte marítimo, com matriz no Rio e filial até na Alemanha. Era muito conhecida particularmente em Pernambuco, onde eram os agentes da empresa aérea teuto-brasileira Syndicato Condor. Já sobre as declarações de Hans Sievert para a polícia pernambucana, reproduzidas no Diário de Pernambuco, Recife-PE, edição de domingo, 29 de março de 1942, pág. 4. Já sobre a viagem no dirigível Graf Zeppelin, ver o Jornal Pequeno, Recife-PE, edição de quinta feira, 13 de outubro de 1932, pág. 1.

[7] Segundo Stanley E. Hilton a informação da presença do espião von Heyer em Natal está inserida no relatório do FBI intitulado “Totalitarian activities – Brazil Today”, produzido em dezembro de 1942, mas sem referência de páginas. Afora isso não existe nenhum documento comprovatório da passagem deste espião por Natal. Entretanto é bastante crível sua presença na capital potiguar diante do que os americanos desenvolviam aqui em julho de 1941 . Ver o livro Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944, S. E. Hilton. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977, págs. 40 e 41.

[8] Sobre os vários detalhes da vida de Luiz Eugênio Lacerda de Almeida ver o Jornal Pequeno, Recife-PE, edição de segunda feira, 20 de fevereiro de 1922, pág. 1 e O Radical, Rio de Janeiro, edição de domingo, 13 de junho de 1943, págs. 1 e 4.

[9] Ver Diário Carioca, Rio de Janeiro-RJ, edição de sexta feira, 29 de maio de 1942, páginas 1 e 5.

[10] Eugênio Lacerda de Almeida não informou em qual hotel ficou em Natal e nem se manteve contato com os alemães residentes na cidade. Ver seu depoimento reproduzido no jornal O Radical, Rio de Janeiro, edição de domingo, 13 de junho de 1943, págs. 1 e 4 e no Diário Carioca, Rio de Janeiro-RJ, edição de sexta feira, 29 de maio de 1942, páginas 1 e 5.

[11] Sobre a derrocada dos espiões nazistas no Brasil, ver o livro Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944, S. E. Hilton. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977, págs. 235 a 296.

[12] Etelvino Lins de Albuquerque foi Governador de Pernambuco entre 1952 e 1955, senador constituinte, ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) e deputado federal em duas legislaturas.

[13] Ver O Radical, Rio de Janeiro, edição de domingo, 13 de junho de 1943, págs. 1 e 4.

[14] O Tribunal de Segurança Nacional (TSN) foi uma corte de exceção, instituída em setembro de 1936, primeiramente subordinada à Justiça Militar e criada diante dos traumas provocados no poder pela Intentona Comunista de novembro de 1935. Era composto por juízes civis e militares escolhidos diretamente pelo presidente da República e deveria ser ativado sempre que o país estivesse sob o estado de guerra. Com a implantação da ditadura do Estado Novo, em novembro de 1937, o TSN passou a desfrutar de uma jurisdição especial autônoma e tornou-se um órgão permanente. Nesse período passou a julgar não só comunistas e militantes de esquerda, mas também integralistas e políticos liberais que se opunham ao governo. Entre setembro de 1936 e dezembro de 1937, 1.420 pessoas foram por ele sentenciadas. O TSN foi extinto após a queda do Estado Novo, em outubro de 1945.

[15] Dos 128 implicados 77 eram estrangeiros, 40 brasileiros natos e 11 brasileiros naturalizados. Já os processos eram originários do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Pernambuco e São Paulo. Ver O Radical, Rio de Janeiro-RJ, edição de sábado, 2 de outubro de 1943, pág. 5. Sobre o Decreto Lei 4.766, de 1 de outubro de 1942, ver http://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-4766-1-outubro-1942-414873-publicacaooriginal-1-pe.html

[16] Ver O Radical, Rio de Janeiro-RJ, edições de domingo, 30 de junho e 17 de julho de 1942, respectivamente nas páginas 1 e 3.

[17] Sobre o Decreto Lei 431, de 18 de maio de 1938, ver http://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1930-1939/decreto-lei-431-18-maio-1938-350768-publicacaooriginal-1-pe.html

[18] Sobre esta questão ver O Radical, Rio de Janeiro-RJ, edições de domingo, 8 de junho de 1943, nas páginas 1 e 2.

[19] Sobre as declarações do Dr. Mac Dowell da Costa ver o Correio de Uberlândia, Minas Gerais-MG, edição de quinta feira, 25 de fevereiro de 1943, pág. 1.

[20] Ver o livro O Brasil na mira de Hitler, Roberto SANDER. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, págs. 106 e 119.

[21] Ver Jornal do Brasil, Rio de Janeiro-RJ, edição de domingo, 17 de novembro de 1979, pág. 38, 1º Caderno.

[22] Ver Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro-RJ, edição de segunda feira, 4 de fevereiro de 1952, pág. 7.

[23] Ver Jornal do Brasil, Rio de Janeiro-RJ, edição de quarta feita, 3 de dezembro de 1975, pág. 24, 1º Caderno.

[24] Ver https://en.wikipedia.org/wiki/Operation_Pastorius

[25] Ver https://www.theguardian.com/world/2016/aug/28/britain-nazi-spies-mi5-second-world-war-german-executed

 

AUTA DE SOUZA – SEUS VERSOS E TRAÇOS DE SUA VIDA BREVE

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Auta Henriqueta de Souza

Autor – Elfi Kürten Fenske

Fonte – http://www.elfikurten.com.br/2013/05/auta-de-souza.html

“Não vês? Minh’alma é como a pena branca

Que o vento amigo da poeira arranca

E vai com ela assim, de ramo em ramo,

Para um ninho gentil de gaturamo…

Leva-me, ó coração, como esta pena,

De dor em dor, até a paz serena.”

– Auta de Souza 

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Exemplar da 2ª ed. de “O Horto”, que pertenceu a Antônio Isidoro de Medeiros, tio-avô de Rostand Medeiros, que guarda o exemplar. 

Auta Henriqueta de Souza nasceu em Macaíba, em 12 de setembro de 1876, filha de Elói Castriciano de Souza e Henriqueta Leopoldina Rodrigues e irmã dos políticos norte-rio-grandenses Elói de Sousa e Henrique Castriciano.

Ficou órfã aos três anos, com a morte de sua mãe por tuberculose, e no ano seguinte perdeu também o pai, pela mesma doença. Sua mãe morreu aos 27 anos e seu pai aos 38 anos.

Durante a infância, foi criada por sua avó materna, Silvina Maria da Conceição de Paula Rodrigues, conhecida como Dindinha, em uma chácara no Recife, onde foi alfabetizada por professores particulares. Sua avó, embora analfabeta, conseguiu proporcionar boa educação aos netos.

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Aos onze anos, foi matriculada no Colégio São Vicente de Paula, dirigido por freiras vincentinas francesas, e onde aprendeu Francês, Inglês, Literatura (inclusive muita literatura religiosa), Música e Desenho. Lia no original as obras de Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand e Fénelon.

Quando tinha doze anos, vivenciou nova tragédia: a morte acidental de seu irmão mais novo, Irineu Leão Rodrigues de Sousa, causada pela explosão de um candeeiro.

Mais tarde, aos catorze anos, recebeu o diagnóstico de tuberculose, e teve que interromper seus estudos no colégio religioso, mas deu prosseguimento à sua formação intelectual como autodidata.

Continuou participando da União Pia das Filhas de Maria, à qual se uniu na escola. Foi professora de catecismo em Macaíba e escreveu versos religiosos. Jackson Figueiredo (1914) a considera uma das mais altas expressões da poesia católica nas letras femininas brasileiras.

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Informativo sobre a venda do livro “O Horto”

Começou a escrever aos dezesseis anos, apesar da doença. Frequentava o Club do Biscoito, associação de amigos que promovia reuniões dançantes onde os convidados recitavam poemas de vários autores, como Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Castro Alves, Junqueira Freire e os potiguares Lourival Açucena, Areias Bajão e Segundo Wanderley.

Por volta de 1895, Auta conheceu João Leopoldo da Silva Loureiro, promotor público de sua cidade natal, com quem namorou durante um ano e de quem foi obrigada a se separar pelos irmãos, que preocupavam-se com seu estado de saúde. Pouco depois da separação, ele também morreria vítima da tuberculose. Esta frustração amorosa se tornaria o quinto fator marcante de sua obra, junto à religiosidade, à orfandade, à morte trágica de seu irmão e à tuberculose. A poetisa, então, encerrou seu primeiro livro de manuscritos, intitulado Dhálias, que mais tarde seria publicado sob o título de Horto.

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Auta de Souza

Aos dezoito anos, passou a colaborar com a revista Oásis, e aos vinte escrevia para A República, jornal de maior circulação e que lhe deu visibilidade para a imprensa de outras regiões. Seus poemas foram publicados no jornal O Paiz, do Rio de Janeiro.

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Parte final do verso “Flor do Campo”, publicado inicialmente no ano de 1899 no jornal A Republica, de Natal.

No ano seguinte, passaria a escrever assiduamente para o prestigiado jornal A Tribuna, de Natal, e seus versos eram publicados junto aos de vários escritores famosos do Nordeste. Entre 1899 e 1900, assinou seus poemas com os pseudônimos de Ida Salúcio e Hilário das Neves, prática comum à época.

Também foi publicada nos jornais A Gazetinha, de Recife, e no jornal religioso Oito de Setembro, de Natal, e na Revista do Rio Grande do Norte, onde era a única mulher entre os colaboradores. 

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Henrique Castriciano, irmão de Auta

Venceu a resistência dos círculos literários masculinos e escrevia profissionalmente em uma sociedade em que este ofício era quase que exclusividade dos homens, já que a crítica ignorava as mulheres escritoras. Sua poesia passou a circular nas rodas literárias de todo o país, despertando grande interesse. Tornou-se a poetisa norte-rio-grandense mais conhecida fora do estado.

Aos 24 anos, no dia 7 de fevereiro de 1901, Auta de Souza morria tuberculosa. Foi sepultada no cemitério do Alecrim, em Natal, em 1904 seus restos mortais foram transportados para o jazigo da família, na parede da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Macaíba, sua cidade natal. No ano anterior (1900) havia publicado seu único livro de poemas sob o título de Horto, com prefácio de Olavo Bilac, que obteve significativa repercussão na crítica nacional. Em 1910 saía à segunda edição, em Paris, e, em 1936, a terceira, no Rio de janeiro, com prefácio de Alceu de Amoroso Lima.

POEMAS MUSICADOS

Outro aspecto importantíssimo da obra de Auta de Souza diz respeito a poemas seus que foram musicados por compositores regionais e transmitidos oralmente de uma geração para outra, desde o final do século XIX até hoje.

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Notícia da morte de Auta de Souza no jornal A República, em 8 de fevereiro de 1901

 

Sem considerar aqueles que foram e vêm sendo musicados mais recentemente, e que não tiveram esta vinculação com a tradição oral, tem-se conhecimento da existência de quatorze deles, somando dezesseis ao considerar-se que um deles, Caminho do sertão, conta com três versões melódicas diferentes. Algumas destas canções ficaram conhecidas de norte a sul do país, chegando também a Portugal.

Integrariam esse cancioneiro de Auta de Souza os seguintes poemas musicados: Caminho do sertão, Teus anos, Desalento, Agonia do coração, Ao cair da noite, Ao luar, Meu pai, Nunca mais, Olhos azuis, Palavras tristes, Regina Coeli, À Eugênia, Meu sonho, Rezando (Róseo Menino).

Fonte: GOMES, Ana Laudelina Ferreira. Vida e obra da poeta potiguar Auta de Souza (1876-1901). Disponível no link. (acessado 14.5.2013).

POEMAS PSICOGRAFADOS E ORIENTAÇÕES ESPIRITUAIS

Além de seus poemas e de seu cancioneiro, Auta de Souza é conhecida também como uma grande mentora espiritual. Para os seguidores do espiritismo kardecista, que no Brasil hoje somam aproximadamente um milhão e meio de praticantes, a poeta é tida como um espírito superior que atuaria no “planoceleste” enquanto mentora e protetora espiritual.

Fonte: GOMES, Ana Laudelina Ferreira. Vida e obra da poeta potiguar Auta de Souza (1876-1901). Disponível no link. (acessado 14.5.2013).

Homenagens

Em 1936, a Academia Norte-Riograndense de Letras dedicou-lhe a poltrona XX, como reconhecimento à sua obra.

Em 1951, foi feita uma lápide, tendo como epitáfio versos extraídos de seu poema Ao Pé do Túmulo: “Longe da mágoa, enfim no céu repousa/Quem sofreu muito e quem amou demais.” 

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Caminho do Sertão

 

(A meu irmão João Cancio)

Tão longe a casa! Nem sequer alcanço

Vê-la através da mata. Nos caminhos

A sombra desce; e, sem achar descanso,

Vamos nós dois, meu pobre irmão, sozinhos!

 

É noite já. Como em feliz remanso,

Dormem as aves nos pequenos ninhos…

Vamos mais devagar… de manso e manso,

Para não assustar os passarinhos.

 

Brilham estrelas. Todo o céu parece

Rezar de joelhos a chorosa prece

Que a Noite ensina ao desespero e a dor…

 

Ao longe, a Lua vem dourando a treva…

Turíbulo imenso para Deus eleva

O incenso agreste da jurema em flor.

– Auta de Souza, in “Horto”, 1900.

VEJA TAMBEM NO TOK DE HISTÓRIA – https://tokdehistoria.com.br/2011/04/04/a-historia-do-jasmineiro-de-auta-de-souza-contada-por-palmyra-wanderley/