LAMPIÃO ENTRE DEUS E O DIABO NA MÚSICA POPULAR

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Racine Santos, diretor de teatro.

Publicado originalmente no jornal TRIBUNA DO NORTE, Natal-RN, Domingo, 07 de Agosto de 1988.

No último dia 28 de julho fez cinquenta anos da morte de Virgulino Ferreira da Silva, o famigerado Lampião. O bandido, o facínora, o malaventurado cangaceiro que durante vinte anos espalhou medo e morte pelos caminhos do sertão. Há cinquenta anos foi degolado aquele que semeou o terror e se fez dono de um reino de fogo, rei de um mundo pardacento, povoado por cascavéis e gaviões, miséria e Injustiça.

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Mas, afinal, quem foi esse senhor da vida e da morte? Esse terror do Nordeste? Um Atila, em Espártaco, ou um assassino frio e covarde indigno do mito que hoje o envolve? A verdade é que, cometendo todas as atrocidades que cometeu, ele tornou-se depois de morto uma legenda, uma coisa viva na imaginação popular. Personagem maior no fabuloso romance popular nordestino. Matéria de cinema, ficção, poesia e teatro. Um símbolo do Nordeste, como o mandacaru, o sol e a caatinga. Presente no artesanato, na música, no folclore, e em todas as manifestações artísticas da região. Seu chapéu, “um céu de couro à cabeça com três estrelas fincadas”, no dizer de Carlos Pena Filho, é hoje símbolo de uma cultura.

Curiosamente é que o mesmo povo que dele fugia com medo, inconscientemente o tinha como herói. Não um herói medieval, cheio de virtudes e princípios, mas um herói diferente, com as cores da miséria e da ignorância de um povo que solenemente mastiga areia, pedras e sol enquanto os eternos coronéis se alimentam de seu trabalho mal pago. O medo que o povo conscientemente tinha de Lampião, transformava-se em admiração â nível do inconsciente. Isso a partir de uma identificação: a contida revolta do povo contra a miséria e injustiça, com a insurreição de Lampião contra a polícia, os coronéis e tudo que cheirasse ao poder massacrante. Lampião gritou o grito preso na garganta de muita gente.

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Desenho de Ronald Guimarães – Fonte – http://marvel-nat.forumeiros.com/t186-trama-base-do-forum

A revolta do cangaceiro contra o poder, representado pela polícia, os coronéis, os latifundiários, os políticos, os grandes comerciantes, incorporava o sonho sonhado do povo. Quando ele “botava prá correr” as volantes da polícia, os pobres do Nordeste que sofriam na pele a arbitrariedade policial, exultavam de alegria. Quando seu grupo incendiava uma fazenda, achavam ruins os moradores explorados? Claro que Lampião não tinha a menor consciência do que representava ou significava. Mas ele era a personificação da revolta da gente pobre do campo, do explorado, do faminto, do sem terra, do sem eira nem beira.

Lampião foi uma das mais brutais e primitivas formas de revolta ocorrida no país. Como, por outros caminhos, fora Canudos de Antônio Conselheiro.

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Quadro de Sérgio Azol – Fonte – http://www.lilianpacce.com.br/e-mais/o-cangaco-mais-alegre-e-colorido-por-azol/

Entre o céu e o Inferno

Depois de morto Lampião virou mito, lenda, história. Senhor do sonho e da imaginação popular. Mexeu tanto com a imaginação do povo que o romanceiro popular, cansado de cantar suas bravuras e bravatas pelos sertões a fora, pelo chão dos penitentes, passou a cantá-lo nos mais diversos lugares, oferecendo-lhe os mais diferentes e insólitos cenários. Para o romanceiro popular a morte não matou Lampião. Transportou-o para outros mundos, deixando uma macabra saudade na alma do povo, como mostra o poeta em seus versos:

“A viola tá chorando

tá chorando com razão

soluçando de saudade

gemendo de compaixão

degolaram Virgulino

acabou-se Lampião”

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Fonte – canalcienciascriminais.com.br

Aquele que passou vinte anos saqueando, roubando e matando, pondo em sobressalto as populações sertanejas foi elevado a condição de herói pelo fato de ter incorporado, personificado, a revolta dos pobres do sertão. Embora as forças reacionárias não queiram admitir, Lampião foi um monstro gerado pela injustiça social.

Com sua morte, desaparecendo o perigo real, os poetas do povo, interpretando e liberando a contida admiração que as camadas pobres lhe tinham, as feiras e os alpendres sertanejos se encheram de versos que transformavam o bandido em herói.

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Lampião – Fonte – http://www.itribuna.com.br

E a imaginação dos poetas do povo não tem limites. Assim, Lampião, cansado de enfrentar batalhões de polícia e valentões pelos sertões a fora, foi parar na porta do céu. Claro que lá não entrou. Foi expulso por São Pedro e um batalhão de santos armados com paus e pedras. Em “A chegada de Lampião no céu e a discussão com São Pedro”, o poeta Manoel Camilo dos Santos empresta a seus personagens as cores de seu próprio ambiente e cultura, criando um céu deveras prosaico:

“Chegou no céu Lampião

a porta estava fechada

ele subiu a calçada

ali bateu com a mão

ninguém lhe deu atenção

ele tornou a bater

ouviu São Pedro dizer:

demore-se lá quem é

estou tomando café

só depois vou atender”.

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O já conhecido anúncio de recompensa por Lampião, pretensamente oferecido pelo governo baiano.

Expulso do céu por um São Pedro humano e pachorrento, Lampião, conduzido pelas mãos e pela pena do poeta José Pacheco, foi parar nas profundas do inferno, atanazando o próprio Satanás. Lá também não ficou. Depois de uma renhida luta com um batalhão de diabos soldados de Lúcifer, onde, feito Sansão contra os filisteus, chegou a usar como arma uma queixada de boi, o cangaceiro deixou o inferno em péssima situação:

“Houve grande prejuízo

no Inferno nesse dia

queimou-se todo o dinheiro

que Satanás possuía

queimou-se o livro de ponto

perdeu-se vinte mil contos

somente em mercadoria”

Reclamava Lúcifer:

“Horror maior não precisa

os anos ruins de safra

agora mais essa pisa

se não houver bom inverno

tão cedo aqui no inferno

não se compra uma camisa”.

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Armas de fogo, munições e armas brancas encontradas em grutas que serviram de abrigo aos cangaceiros na Batalha da Serra Grande, em 1926, na zona rural de Serra Talhada.

Lampião vive na imaginação do povo que o transformou nesse estranho herói. Isso no plano da cultura popular. Já no terreno da cultura erudita, a dita cultura de elite, o tema está ainda á espera de um grande escritor, como mereceu Canudos. Segundo Hermilo Borba Filho, o aventuroso amor de Maria Bonita pelo Rei do Cangaço é muito mais rico em situações dramáticas do que a traição sofrida pelo noivo de “Bodas de Sangue”. Mas, enquanto não aparece um Lorca, um Euclides da Cunha ou mesmo um Mario Vargas Llosa, o mito de Lampião voa solto pelas caatingas desafiando os talentos como desafiou o poder. É verdade que sobre ele muitos

escreveram, mas muito pouco disseram. Pois, mais uma vez lançando mão de Carlos Pena Filho…

“… dele mesmo não sabem

e nem nunca saberão,

pois ele nunca viveu,

não era sim, era não,

como essas coisas que existem

dentro da imaginação.

Quem puder que invente outro

Virgulino Lampião”.

SOBRE RACINE SANTOS 

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É um homem de teatro. Autor, produtor, diretor e editor. Tem toda uma vida dedicada ao teatro. Na juventude foi ator, mas um acidente de automóvel o afastou da cena, não do palco.

Nasceu em Natal (RN), em 1948. Boa parte de sua infância passou na pequena cidade de Macaíba (25 Km de Natal), onde teve seus primeiros e marcantes contatos com a cultura do povo, assistindo as brincadeiras de boi-de-reis, pastoril, João-redondo e lendo seus primeiros folhetos de poesia popular. De 1961 a 1965 estudou no Recife, onde conheceu Ariano Suassuna, Hermilo Borba Filho e o artista plástico Abelardo da Hora, pessoas que considera importante para sua formação cultural e maneira de ver o Nordeste e sua gente.

De volta a  sua cidade liga-se ao Teatro de Amadores de Natal, grupo criado e dirigido por Sandoval Wanderley. Em 1976 escreve e dirige sua primeira peça: A Festa do Rei. Onde já se percebe um autor que trabalha a tradição popular assentada em bases eruditas.

Sua preocupação com o teatro da região o leva a fundar em 1992, juntamente com Luís Marinho, Luís Maurício Carvalheira, Altimar Pimentel, Tácito Borralho, Romildo Moreira e outros, a Associação dos Dramaturgos do Nordeste, da qual foi o presidente.

Autor de mais de uma dezena de peças, tem na cultura popular do Nordeste sua grande fonte, não para reproduzi-la, mas como meio de entender sua gente  e falar para ela de maneira direta, clara e viva. 

Além da três peças publicadas neste volume, são de sua autoria, entre outras: A Festa do Rei, A Farsa do Poder, Elvira do Ypiranga, A Ópera do Malazarte, Maria do Ó, Chico Cobra e Lazarino, O Voo do Cavalo do Cão, Bye Bye Natal ( Musical), O Autor do Boi de Prata e a infantil, O Congresso das Borboletas.

FONTE – http://www.ubern.org.br/canal.php?codigo=807

CANGACEIROS & CANGACEIRISMOS

Fonte - www.luciodiaenoite.com.br - CLIQUE NAS IMAGENS PARA AMPLIAR
Fonte – http://www.luciodiaenoite.com.br – CLIQUE NAS IMAGENS PARA AMPLIAR

O primeiro cangaceiro a assombrar o Nordeste foi o Cabeleira, nascido em Gloria do Goitá, no interior de Pernambuco, presumivelmente no ano de 1751, conforme o seu biografo, Luís da Câmara Cascudo. O Cabeleira morreu enforcado, no Largo das Cinco Pontas – em Recife – em 1776 – “A sua figura de homem belo, de cabeleira loura – escreveu José Lins do Rego – passaria a figura de ninar nos cantos das pretas velhas. – Seria um dos modelos para a figura de Aparício Vieira, protótipo dos bandidos do sertão brasileiro” (conforme a definição de Antônio da Cunha, no seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa), que o romancista paraibano levanta nos livros Pedra Bonita e Cangaceiro. José Lins mostra com força dramática, nos seus romances sertanejos, esse mundo “dos santos e dos cangaceiros, dos que matam e rezam com a mesma crueza e humanidade”.

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A figura de Jose Gomes já aparecera, muito romantizada, no livro de Franklin Távora O Cabeleira. O cangaceiro e seu bando aterrorizavam as populações, “estripando mulheres a punhal, incendiando casas, depredando tudo, espalhando a morte”, no dizer de Cascudo. O Cabeleira, como ocorria com Jesuíno Brilhante, Antônio Silvino e, claro, Lampião, o mais célebre e temível de todos os cangaceiros, cujo sobrenome chegou a adjetivar-se, como sinônimo e arquétipo – seria também personagem dos poetas populares e cordelistas. Silvio Romero registra seu nome em Cantos Populares do Brasil. Pereira da Costa trata dele no Folclore Pernambucano e Leonardo Mota escreveu um drama sobre suas façanhas, intitulado Cabeleira vem aí, cujo título se origina, certamente, dessas quadrinhas populares – citadas por José Lins e Cascudo, com algumas variações – hoje praticamente esquecidas na memória popular nordestina:

 

Fecha a porta gente

Cabeleira aí vem

Ele não vem só

Vem seu pai também.

 

Fecha a porta gente

Cabeleira aí vem

Vem matando menino

E velho também.

 

Fonte - http://www.onordeste.com/
Fonte – http://www.onordeste.com/

Cascudo o descreve como um tipo forte, alto, airoso, com extensa cabeleira anelada que lhe cobria a nuca, dizendo que madrugou nas tropelias e violências, guiado por seu pai, Joaquim Gomes, e em companhia do mameluco Teodósio. José Bernardo Fernandes Gama, nas Memórias Históricas da Província de Pernambuco, registrou as façanhas do Cabeleira, confundido o apelido que atribui ao pai do cangaceiro: fala de um celerado, a quem chamavam de Cabeleira, um filho deste (sic), e “um pardo, de nome Teodósio, ladrão mui astuto”, que aterrorizavam esta província com seus enormes crimes. Entretanto, como ocorreria com a maioria dos cangaceiros célebres, o Cabeleira encontrou simpatias populares. Cascudo explica: “Sua mocidade, beleza física, a graça de maneiras, as lágrimas de arrependimento, as evocações constantes a figura da mãe e aos conselhos, sua arte de tocar viola, horas e horas encantando os soldados (sic) e assistentes, foram modificando a impressão corrente, e o Cabeleira começou a encontrar defensores e mesmo simpatias”.

Mais ou menos nesta mesma linha José Lins do Rego escreve sobre José Gomes, o Cabeleira: “Apesar de toda crueldade, ainda chegou a impressionar a massa sobre a qual afligia tamanha servidão. Contava-se que morreu por amor. Apaixonado por uma linda moça, o seu coração ficou terno e não resistiu ao mágico poder da mulher, deixando-se enfeitiçar para morrer na forca”.

José Lins do Rego - Fonte - www.vacatussa.com
José Lins do Rego – Fonte – http://www.vacatussa.com

Um dos episódios sinistros do Cabeleira reporta que ele matou a tiros de bacamarte umas crianças que se haviam refugio com temor de seu bando em uma árvore, numa estrada de Vitória de Santo Antão, em Pernambuco (para alguns, local de nascimento do cangaceiro). Outra versão sustenta que a vítima foi um adulto, que, por estar defendendo-se com um galho de árvore, o cangaceiro compara a um grande macaco guariba – um guaribão -, daí a denominação de “macacos” para as volantes de soldados que se opunham aos cangaceiros e os enfrentavam nas caatingas nordestinas. Silvio Romero colocou em versos, que imitam o ritmo do cordel, o episódio de “guaribão”. Na peça fala o próprio Cabeleira, lembrando seus feitos mais heroicos:

 

Lá na minha terra

la em Sant’ão

encontrei um homem

feito um guaribão.

Botei o bacamarte,

Foi pá – pí no chão.

 

No ensaio Presença do Nordeste na Literatura Brasileira, José Lins do Rego aborda o tema do cangaço nordestino, assinalando que está intimamente ligado à história social do patriarcalismo, à vida de uma região dominada pelo mandonismo do senhor da terra e de homens, como se fossem barões de feudos.

José de Alencar - Fonte - www.seuhistory.com
José de Alencar – Fonte – http://www.seuhistory.com

Já em O Sertanejo, – livro que influenciou a obra, de Euclides da Cunha – José de Alencar retratava esses “barões sertanejos”, tão poderosos e autossuficientes nos tempos coloniais do Brasil, que “só nominalmente rendiam preito e homenagem ao rei de Portugal, seu senhor e suserano”. José Lins mostra, ainda em nosso século, “o chefe que continuava a mandar de baraço e cutelo, na família, nos aderentes e nos eleitores”; por isso, precisando muitas vezes de “uma força acima da lei, para impor-se a dominar sem limites”. Assim o chefe sertanejo cria um poder que nem o estado – pelo menos durante algum tempo – seria capaz de enfrentar, pois “o chefe era, no sertão, mais que o estado”.

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Desenho de Ronald Guimarães – Fonte – http://marvel-nat.forumeiros.com/t186-trama-base-do-forum

Para firma-se de pé e impor sua lei – para “pré-firmasse suseranamente”, conforme as palavras de José Lins, ele próprio neto de um desses poderosos das terras nordestinas, conforme conta em livros como Menino de Engenho e Meus Verdes Anos – o chefe recorria aos seus “homens dispostos, aos cabras de olho virado, aos que matavam sem dor na consciência”. Assim, a função do cangaceiro, em certa medida, a de uma espécie de “gendarmeria às avessas”. Como, nessa inversão, o crime adquiria um poder corretivo (a lá Esquadrão da Morte de nosso passado recente e urbano), surgiram cangaceiros que, revoltando-se contra o senhor a cujas terras literalmente pertenciam, fizeram trabalhar por sua conta, tornando-se chefes de bandos e passando eles próprios a ditar as leis do sertão. É a estrutura social que determina o aparecimento do cangaceiro, conforme nos mostram em seus romances, um José Lins do Rego, mais recentemente, um Adonias Filho. 

FONTE – Jornal da Paraíba, Campina Grande-PB, 2 de fevereiro de 1983, pág. B-5 

Edilberto Coutinho, escritor e jornalista - Fonte - www.onordeste.com
Edilberto Coutinho, escritor e jornalista – Fonte – http://www.onordeste.com

AUTOR – JOSÉ EDILBERTO COUTINHO  – Nasceu em 28 de setembro de 1938, em Bananeiras, Paraíba. Advogado, jornalista, professor e escritor dedicado ao folclore nordestino. Diplomado pelo World Press Institute, escreveu nos principais jornais e revistas do Brasil e durante algum tempo, foi correspondente, na Europa, do Jornal do Brasil e da Revista Manchete e, nos Estados Unidos, dos Diários Associados (O Jornal e O Cruzeiro). Em 1970, transferiu-se, definitivamente, para o Rio de Janeiro. Pela atuação nos meios intelectuais e literários, conquistou vários prêmios, tanto no Brasil como no exterior, entre os quais, destacamos: “Ensaios de Jornalismo Literário e de Ficção”, conferido pela Academia Brasileira de Letras; “Crítica Literária”, da Associação Paulista de Críticos de Arte; “Estudos Brasileiros de Ficção”da Fundação Cultural de Brasília-Conselho Federal de Cultura; “Ensaio Biográfico”, da Associação Brasileira de Crítica Literária e o primeiro brasileiro a ganhar o prêmio “Casa de Las Americas”, de Havana, com o livro Maracanã, adeus: onze histórias de futebol (1980). Ingressou na Academia Paraibana de Letras, em 28/05/1982. Principais livros publicados: Onda boiadeira e outros contos (1954), Erotismo no romance brasileiro, anos 30 a 60 (1967), Rondon e a integração amazônica (1968), Um negro vai à forra (1977), Sangue na praça(1979), 1979; Criaturas de papel (1980), Erotismo no conto brasileiro (1980),Memória  demolida (1982), O jogo terminado (seleta de contos), (1983), A imaginação do real, (1983). Sua última publicação foi a obra póstuma: Bar Savoy. Faleceu em 1995. 

Fonte – http://www.tirodeletra.com.br/biografia/EdilbertoCoutinho.htm

ARIANO SUASSUNA – O DECIFRADOR DE BRASILIDADES

 

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Nascido em 16 de junho de 1927, em João Pessoa, quando a capital paraibana ainda se chamava Nossa Senhora das Neves, Ariano Vilar Suassuna era filho de João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna, então presidente (governador) de seu estado natal, que exerceu seu mandato entre os anos de 1924 e 1928. Ariano inclusive nasceu no palácio do governo paraibano.

O velho contador de histórias do sertão tinha apenas três anos quando um fato trágico marcou sua infância. No desenrolar da Revolução de 1930, um pistoleiro de aluguel assassinou seu pai com um tiro pelas costas, numa rua do Rio de Janeiro. O assassinato foi motivado por boatos que apontavam o patriarca da família Suassuna como mandante da morte de João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, seu sucessor no governo, que pertencia ao grupo político oposto e serviu de estopim para a deflagração da revolução.

Um ambiente assim, com dívidas de sangue e rivalidade entre famílias, cobrava dos órfãos a vingança. Mas, um dia antes de ser assassinado, João Suassuna deixou uma carta aos nove filhos pedindo que eles não se tornassem assassinos por sua causa. Ariano Suassuna obedeceu. A mãe também ajudou, ao dizer que o pistoleiro responsável pelo crime já havia morrido (era mentira).

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Com a tragédia, a família mudou-se para a pequena cidade de Taperoá, no interior da Paraíba, onde Ariano morou de 1933 a 1937. Ele herdou a biblioteca do pai e ali encontrou livros importantes para sua formação. Um dos mais significativos foi “Os sertões”, de Euclides da Cunha. A obra lhe apresentou um dos personagens que mais marcaram sua vida: Antônio Conselheiro, profeta e líder de Canudos. Foi também em Taperoá que Ariano Suassuna assistiu pela primeira vez a uma peça de mamulengos e a um desafio de viola, cujo caráter de “improvisação” seria uma das marcas registradas também da sua produção teatral.

Em 1942 foi para Recife concluir o ensino básico. Em 1946 fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco, junto com o amigo Hermilo Borba Filho. No ano seguinte escreveu e encenou sua primeira peça teatral: “Uma mulher vestida de sol”. Em 1948, sua peça Cantam as harpas de Sião (ou O desertor de Princesa) foi montada pelo Teatro do Estudante de Pernambuco. Seguiram-se Auto de João da Cruz, de 1950, que recebeu o Prêmio Martins Pena. Neste mesmo ano Ariano formou-se em Direito e advogou até 1956, quando se tornou professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco (onde se aposentou em 1994). 

Em 1955 escreveu “Auto da Compadecida”, que conta as aventuras de dois amigos, Chicó e João Grilo, no Nordeste brasileiro. A peça o projetou em todo o país. Em 1962, o crítico teatral Sábato Magaldi diria que a peça é “o texto mais popular do moderno teatro brasileiro”. Sua obra mais conhecida já foi montada exaustivamente por grupos teatrais de todo o país e duas vezes para o cinema, em 1969 e 2000.

Ariano Suassuna continuou criando, escrevendo peças de teatro, romances e poesias, entre estes podemos listar “O Santo e a Porca – Casamento Suspeitoso”, de 1957, “A Pena e a Lei”, de 1959, “A Farsa da Boa Preguiça”, de 1960, e “A Caseira e a Catarina”, de 1961. Outra obra fundamental foi “Romance d’a pedra do reino e o príncipe do sangue vai-e-volta”,  é quando o escritor avança em relação à literatura regionalista dos anos 1930, representada por João Guimarães Rosa e José Lins do Rego. Mais tarde, Ariano Suassuna diria que “A pedra do reino” era de certa forma, uma tentativa de trazer seu pai de volta à vida.

Para transformar o local em simbólico e universal, Ariano aliava os valores mais arraigados de sua região a seu imenso arcabouço erudito e teórico. Com uma escrita que une elementos do Simbolismo, do Barroco e da literatura de cordel. Esse ficcionista, poeta, dramaturgo e pensador da cultura, transformou o sertão no palco das questões humanas de qualquer lugar do mundo.

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Ele foi o criador do Movimento Armorial, que possuía como projeto central a ideia de gerar uma confluência simultânea de todas as artes populares do Nordeste brasileiro. Lançado oficialmente, no Recife, no dia 18 de outubro de 1970, com a realização de um concerto e uma exposição de artes plásticas realizados no Pátio de São Pedro, no centro da cidade. Surgiu sob a inspiração e direção de Ariano Suassuna, com a colaboração de um grupo de artistas e escritores da região Nordeste do Brasil e o apoio do Departamento de Extensão Cultural da Pró-Reitoria para Assuntos Comunitários da Universidade Federal de Pernambuco. Teve início no âmbito universitário, mas ganhou apoio oficial da Prefeitura do Recife e da Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco. Seu objetivo foi o de valorizar a cultura popular do Nordeste brasileiro, pretendendo realizar uma arte brasileira erudita a partir das raízes populares da cultura do país.

Segundo Suassuna, sendo “armorial” o conjunto de insígnias, brasões, estandartes e bandeiras de um povo, a heráldica é uma arte popular. Desse modo o nome adotado significou o desejo de ligação com essas heráldicas raízes culturais brasileiras.

A maioria de suas obras foi traduzida para outros idiomas, como francês, alemão, espanhol, inglês e holandês. Em 1989, passou a ocupar a Cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

Ariano Suassuna foi secretário estadual de Cultura no período 1994-1998, durante o governo de Miguel Arraes (1916-2005) e assumiu o mesmo cargo, como secretário especial no primeiro mandato do governo Eduardo Campos (PSB), neto de Arraes, em 2007. Seu foco sempre foi o da valorização da cultura popular, posicionando-se também contra qualquer estrangeirismo da língua portuguesa. Mostrou ao povo brasileiro como ele é inventivo, engraçado, esperto e interessante e provou que não existe nada do lado de lá das fronteiras que possamos invejar.

Foto - Bianca Lima
Foto – Bianca Lima

Carismático e popular, Ariano Suassuna esbanjou simpatia por onde passou. Nos últimos anos apresentava por todo o Brasil suas famosas e concorridas “aulas-espetáculo”, onde ensinou formas de arte para o público e mostrou a riqueza da cultura do país, contando histórias, “causos” e piadas.

Em 2011 foi veemente no apoio ao veto ao patrocínio nas festas juninas das bandas de forró estilizadas, as chamadas “bandas de plástico”, defendido pelo secretário de Cultura do Governo da Paraíba, o cantor Chico César, que defendeu a teses que estes grupos musicais não refletiam a música nordestina. A posição do secretário gerou descontentamento nas prefeituras que promoviam os festejos juninos com o patrocínio do Estado, nos empresários e músicos das bandas de forró estilizado e gerou muita polêmica, mas Ariano esteve ao seu lado.\

Foto - Sergio Enilton
Foto – Sergio Enilton

Há uma realista descrição de Ariano feita por seu amigo, o também dramaturgo Hermilo Borba Filho:

“Magro e alto, de uma coerência extremada, radical em suas opiniões, é preciso vê-lo numa discussão com seus amigos (porque, com seus inimigos, basta ler seus artigos); zombeteiro, argumentador, desnorteante, irreverente. Vive, com a maior convicção, o preceito de Unamuno* de que o artista espalha contradições. É capaz de destruir o argumento mais sério com uma piada ou sair-se de um problema metafísico dos mais angustiantes numa conversa ligeira. Tem horror aos aparelhos modernos enceradeira, vitrola, televisão, rádio, telefones, considerando-os coisas do demônio. Gostaria de crer em Deus como as crianças crêem, mas crê com angústia, fervor e perguntas. Não vai a reuniões oficiais, coquetéis, espetáculos, mas amanhece o dia num bate-papo ou ouvindo repentistas. Tem pavor de avião e se martiriza com uma alergia que lhe dá comichões no nariz. Seu caráter é ouro de lei, e, embora o negue, esforça-se para amar os inimigos, como manda o evangelho. A arte e religião são por ele encaradas de maneira fundamental.”

*Escritor espanhol Miguel de Unamuno (1864-1936).

 Fontes – http://oglobo.globo.com/cultura/livros/morre-aos-87-anos-escritor-ariano-suassuna-cavaleiro-do-sertao-13341934

http://epocanegocios.globo.com/Informacao/Resultados/noticia/2014/07/ariano-suassuna-morre-aos-87-anos.html

http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=696&Itemid=181

O BRASIL ENTRE BEATOS, CANGACEIROS E CORONÉIS

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Em ‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’ Glauber Rocha capta as fissuras da sociedade brasileira. Retratando a violência e a crueza das relações sociais no sertão nordestino, constrói a ‘estética da fome’

Alexandre Leitão

Eu andei por esse mundo gente, e conheci a desgraça dos outros… e aprendi uma verdade que estava na Sagrada Bíblia: É olho por olho e dente por dente!

Cangaceiro Coirana, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro.

Durante o século XX, amadureceu no seio da intelectualidade brasileira o desejo de identificar os traços mais característicos do ethos nacional. Sociólogos, antropólogos, historiadores e artistas se perguntavam no que, de fato, se constituiria o Brasil, e o que o impediria de transformar-se num país plenamente realizado nos planos socioeconômico e político. Nomes como Euclides da Cunha, Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Hollanda publicariam obras-chave na tentativa de encontrar um significado para a existência nacional. No campo das artes plásticas, Cândido Portinari retrataria a existência sofrida do sertanejo, e na poesia e dramaturgia Oswald de Andrade ergueria a bandeira do antropofagismo cultural, como resposta e atestado do processo de realização artística no país.

Foi unindo diversas dessas teses, além de criando suas próprias, que Glauber Rocha definiu uma narrativa da história brasileira, expressa em obras como Terra em Transe (1967); e plenamente desenvolvida em O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969). Neste longa-metragem, continuação de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), acompanhamos o destino melancólico de Antônio das Mortes, personagem vivido por Maurício do Valle, jagunço e matador de cangaceiros, contratado para realizar um último serviço.

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Gláuber Rocha

Logo nos créditos iniciais, o filme apresenta um rápido sumário em francês, que Glauber – além de diretor, também roteirista do filme – julgou necessário para a compreensão dos eventos e do recorte histórico que queria construir (fruto de uma coprodução franco-brasileira, o prefácio quer explicar a um público estrangeiro os eventos históricos que considera mais relevantes para a compreensão do filme): “Chamam-se – ‘Jagunços’ assassinos de aluguel; ‘Coronel’ grandes proprietários de terras; ‘Beatos’ comunidade de camponeses miseráveis e místicos; ‘Santo’ pessoa que dirige espiritualmente essas comunidades”. Junto ao glossário se encontra uma rápida descrição dos cangaceiros enquanto “bandidos místicos que desapareceram do Nordeste do Brasil em 1940”, tendo sido Lampião o “mais célebre de todos”.

A apresentação reforça o sentido de disparidade estilística e narrativa em relação a Deus e o Diabo na Terra do Sol, que se passa no final da década de 1930. Ocorrendo em um momento relativamente atemporal, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro retrata um Nordeste em franco processo de modernização capitalista, no qual crescem as cidades, constroem-se estradas e postos de gasolina, e já se considera inevitável o advento da industrialização e da reforma agrária.

O sertão de Glauber

É em meio a esse cenário de abandono forçado de estruturas arcaicas, que um bando de cangaceiros e beatos, liderado pelo bandoleiro Coirana, ataca um pequeno povoado da caatinga, despertando pavor nas pessoas da região, que são forçadas a implorar pela ajuda de Antônio das Mortes – um jagunço aposentado.

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Chegando à cidade, um oficial da lei esclarece ao pistoleiro que, diferente do tempo das intensas volantes (expedições militares que partiam à caça dos bandos de Lampião, Corisco, e tantos outros), ele espera que tudo seja resolvido de forma rápida. Percebe-se que o perigo real de rompimento da ordem mantida pelo Estado no Nordeste simplesmente inexiste no que concerne ao bando de Coirana. Eles representam uma mera surpresa inconveniente, já que as condições para o surgimento dos cangaceiros por aquelas paragens já haviam, há muito, desaparecido.

O fato pode ser observado quando ocorre a segunda invasão do povoado pelos cangaceiros, retratada por Glauber em uma interminável panorâmica (como se chama a tomada em que a câmera gira sobre seu próprio eixo), na qual o bando, vestido com roupas tradicionais do sertão nordestino e indumentárias próprias de cultos afro-brasileiros, em vez de disparar suas armas contra o inimigo, dança e canta anarquicamente uma gira de louvor a São Cosme e Damião e ao orixá Xangô. O ataque, neste caso, é alegórico, representando a invasão de todo um legado cultural, popular e mestiço, que as elites brasileiras teriam sempre buscado frear.

E é sob esse aspecto que triunfam as pretensões estilísticas do filme de Glauber Rocha. Ao criar um grupo de cangaceiros extemporâneos, o cineasta retrata uma espécie de vingança histórica, segundo a qual uma segunda vinda do Cangaço tenderia a se justificar pela necessidade de punição simbólica da estrutura agrária brasileira, responsável primeiramente pela opressão secular sofrida pelos sertanejos. O chefe local, coronel Horácio (interpretado por Jofre Soares), longe de representar o perigo dos outrora onipotentes donos de terra do Norte, não passa de um velho cego, cuja vida se resume a divagar sobre uma realidade que ele jamais consegue apreender completamente. O velho é também desprovido do respeito do delegado Mattos (personagem de Hugo Carvana) e de sua própria mulher Laura, interpretada por Odete Lara, cujo caso amoroso é conhecido por todos os personagens.

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À ausência da necessidade material de uma rebelião (em vista do processo de modernização do sertão nordestino), corresponderia o imperativo de uma justiça simbólica capaz de punir os poderosos pelos crimes que haveriam cometido em tempos já remotos. É a percepção disso que faz Antônio das Mortes arrepender-se do assassinato de Coirana, a quem fere com uma peixeira, e decidir proteger os beatos. Estes são então chacinados por outro exército de jagunços, convocado pelo coronel Horácio.

Em uma cidade já fantasma, resta a Antônio das Mortes, Antão (comandante negro dos beatos, encarnado pelo ator Mário Gusmão) e ao professor de história do vilarejo, interpretado por Othon Bastos, concluírem a vingança iniciada por Coirana, eliminando o coronel e seus matadores. Ao cabo da trama, porém, não há uma multidão jubilosa tomando as ruas da cidade, ou uma sequência explicativa que mostre a celebração dos sertanejos.

300-O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro

A justiça histórica retratada por Glauber Rocha é crua e desprovida de consequências práticas: o processo de modernização do Nordeste seguirá inexoravelmente, deixando cair por terra as arcaicas relações de trabalho e poder da região, repostas por outras, mais adequadas a um mundo em contínua transformação. Resta a Antônio das Mortes, o pistoleiro redimido, simplesmente marchar sem rumo por uma rodovia empoeirada, tomada por grandes caminhões de carga e ladeada por um posto de gasolina da Shell, símbolos do novo mundo que invade o Sertão e altera sua paisagem.

A estética da fome

A protoanarrativa histórica de Glauber acaba assim por ecoar aquela delineada por Euclides da Cunha, cuja obra Os Sertões, caracteriza a relação entre o Brasil capitalista e modernizante do litoral, e o interior antigo e isolado, como sendo marcada pelo signo da violência. Violência que permeia os laços entre senhores e camponeses – mediada por jagunços – e a violência dos grandes centros urbanos, que desde o final do século XIX buscam sufocar, progressivamente, qualquer experiência ou modelo social que se interponha à marcha do “progresso”.

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Em 1965, o próprio Glauber ressaltaria o traço brasileiro da violência e a necessidade desta existir como nervo central do projeto artístico do Cinema Novo (representando ainda um relevante instrumento de transformação política) em seu manifesto “Uma estética da fome”, publicado na Revista Civilização Brasileira.

Nele, o cineasta defende que “somente uma cultura da fome, mirando suas próprias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência. (…) Pelo cinema novo: o comportamento exato de um faminto é a violência e a violência de um faminto não é primitivismo”. Esta se veria traduzida de maneira ritualizada nas alegóricas cenas de assassinato de O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, primeiro filme colorido do diretor: a paleta de cores de cada plano e cada sequência remete quase sempre ao vermelho, a tons terrosos, à sujeira e ao sangue.

O imenso impacto estilístico e narrativo do Cinema Novo (com destaque para as obras de Glauber Rocha) rondaria fantasmagoricamente a história do cinema nacional, ecoando até os dias de hoje. Como se pode atestar em produções recentes, caso de O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho, escolhido para ser o candidato brasileiro ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2014.

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Na trama, seguimos diversos grupos de personagens, de distintos níveis econômicos, habitantes da mesma rua ocupada por um condomínio de luxo, em Recife. Os prédios, que compõem o conjunto habitacional da narrativa, acabam por se tornar o espaço de realização de tensões sociais e históricas, ecoantes do Brasil colonial, tal qual descrito por Gilberto Freyre em seu livro Casa-Grande & Senzala: “Na zona agrária (brasileira) desenvolveu-se, com a monocultura absorvente, uma sociedade semifeudal – uma minoria de brancos e brancarões dominando patriarcais, polígamos, do alto das casas-grandes de pedra e cal, não só os escravos criados aos magotes nas senzalas como os lavradores de partido, os agregados, moradores de casas de taipa e de palha, vassalos das casas-grandes em todo o rigor da expressão”.

Na nova realidade de um Brasil que se urbaniza, o antigo senhor de engenho, representado em O som ao redor pelo personagem Francisco, torna-se investidor imobiliário, não se furtando em considerar a vizinhança em que habita como sua propriedade pessoal. O papel antes reservado aos escravos passa a ser exercido pelas empregadas domésticas, que muitas vezes, quando jovens, são “pegas para criar” por seus patrões, os quais afirmam, por vezes, considera-las “da família” – materializando relações profissionais que estão muito distantes do que se esperaria de uma lógica de trabalho livre. As senzalas transformam-se nas famigeradas “áreas de serviço” e “quartos de empregada”, recintos de dimensões reduzidas e altas temperaturas, por vezes dominados pelo mofo e pela umidade – reservados a uma força de trabalho que, no condomínio, considera-se estar apenas de passagem.

E quanto aos outrora folclóricos jagunços, estes se transmutam nos sempre presentes vigias de rua – representados no filme pelo personagem Clodoaldo, interpretado por Irandir Santos, e seus comandados. Estes deixam de lado o gibão e o chapéu de couro, a peixeira, e a garrucha, para vestirem o já habitual colete preto, sem mangas, marcado nas costas com palavras como SEGURANÇA ou CONTENÇÃO. Longe de visarem cangaceiros e beatos, buscam agora os chamados intrusos, pivetes e trombadinhas, nos quais preferem aplicar seus “cala-boca” ou “sossega-leão”, do que apelar para a lei de um Estado racionalista, sustentado por instituições, ao menos oficialmente, não-patriarcais. E talvez seja neste aspecto que O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro tenha se tornado, infelizmente, defasado. O Brasil arcaico que tanto Glauber Rocha quanto a época em que viveu consideravam moribundo e superado, parece continuar vivo nas entranhas do Brasil moderno.

FONTE – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/cine-historia/o-brasil-entre-beatos-cangaceiros-e-coroneis

CANUDOS

Monumento de Antônio Conselheiro, no Parque Estadual de Canudos LUCIANO ANDRADE/
Monumento de Antônio Conselheiro, no Parque Estadual de Canudos
LUCIANO ANDRADE/

Canudos, Bahia (6/11/1896 – 5/10/1897)

Movimento que surgiu na primeira metade da década de 1890, com a pregação de Antônio Conselheiro, um líder beato local que passou a ser seguido pelas populações do sertão baiano como uma espécie de messias. O beato começo a pregar por volta de 1870, tendo sido proibido de fazê-lo em 1882 por ordem da Igreja Católica. Após a proclamação da República de 1889, passou a criticar a República devido ao estabelecimento do casamento civil e à separação entre Igreja e Estado.

Participou de uma rebelião contra a cobrança de impostos em 1893, e fixou-se no arraial de Canudos (no vale do rio Vaza-Barris), ao lado de milhares de sertanejos aos quais prometia a salvação espiritual. Fundou-se uma comunidade autônoma onde se produziam os próprios meios de subsistência. Os produtos básicos era divididos e a condição de miséria das populações marginalizadas era amenizada.

O movimento é normalmente associado às péssimas condições de vida que existiam na região nordeste desde o final do Império. A área era dominada por grandes latifúndios de baixa produtividade, por uma oligarquia política arcaica e contendo uma grande massa de excluídos e miseráveis. Somando-se a isso a frequência de secas e a baixa produtividade das terras locais, o resultado era que muitos sertanejos juntavam-se em bandos paralegais ou criminosos (como o cangaço) visando garantir sua sobrevivência, fenômeno que passou a ser chamado de “banditismo social” pelos historiadores.

Ruínas da entrada do cemitério da antiga cidade de Canudos Arquivo/AE
Ruínas da entrada do cemitério da antiga cidade de Canudos
Arquivo/AE

Em 1896, Canudos contava com uma população estimada entre 10 mil e 25 mil habitantes, e continuava crescendo. Tal inchaço demográfico e a atração que a comunidade causava começaram a incomodar as oligarquias, o clero e a imprensa locais, que difundiram rumores de que Canudos seria um movimento monarquista e uma ameaça à República. Os sertanejos de Canudos eram qualificados como “fanáticos”.

No mesmo ano, Conselheiro encomendou uma remessa de madeira em Juazeiro com o objetivo de construir uma igreja. Quando esta atrasou, alegou-se que a comunidade de Canudos estaria se preparando para lançar uma ofensiva armada contra as autoridades para conseguir o produto pela força. O governo da Bahia, por conseguinte, enviou duas expedições armadas contra os beatos. A primeira com cerca de uma centena de homens, e a segunda com 500 homens. Ambas as expedições foram derrotadas pelos sertanejos.

Face às humilhantes derrotas, o governo baiano organizou uma terceira expedição, mais volumosa e bem equipada. Eram cerca de mil e duzentos homens, comandados pelo célebre coronel Moreira César.

Vista do mirante de Canudos, a estátua de Antônio Conselheiro, no Parque Estadual de Canudos, na Bahia LUCIANO ANDRADE/AE
Vista do mirante de Canudos, a estátua de Antônio Conselheiro, no Parque Estadual de Canudos, na Bahia – LUCIANO ANDRADE/AE

No entanto, a nova expedição não obteve sucesso e seu comandante foi morto pelos sertanejos. Essa derrota levou a uma enorme insatisfação da opinião pública no Rio de Janeiro, culminando com a depredação de jornais monarquistas e um assassinato.

Finalmente, foi organizada uma nova expedição militar pelo governo federal, na época representado pelo presidente Prudente de Morais. A quarta leva de soldados cercou a comunidade e a bombardeou. Os rebeldes forma aniquilados em outubro de 1897. O cadáver de Antônio Conselheiro foi exumado e sua cabeça decepada.

O jornalista Euclides da Cunha foi correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” (na época “Província de São Paulo”) em Canudos e descreveu a quarta campanha do exército republicano contra a comunidade. Sua cobertura para o jornal rendeu ao Brasil um de seus maiores clássicos literários, o livro “Os Sertões”. Após a derrota da terceira expedição, Cunha havia publicado no jornal um artigo intitulado “A nossa Vendéia”, no qual comparava o conflito baiano a um episódio da revolução francesa, e demonstrara seu apoio à República.

Vista das ruínas da igreja de Canudos LUCIANO ANDRADE/AE
Vista das ruínas da igreja de Canudos
LUCIANO ANDRADE/AE

No entanto, ao visitar pessoalmente os revoltosos e assistir ao extermínio perpetrado pelas forças republicanas, o autor se decepcionou profundamente com o exército e passou a ver o conflito com outros olhos.

Seu clássico foi publicado em 1902. Nele, o jornalista enaltecia a raça dos sertanejos (“rocha viva de nossa raça”) em oposição aos “litorâneos” e apontava os problemas da República, como o militarismo. Denunciou, através de seu livro, o massacre dos vencidos e o comércio de mulheres e crianças, interpretação que se tornou marcante e hegemônica na memória nacional.

Fonte – http://acervo.estadao.com.br/noticias/topicos,canudos,881,0.htm

AS APRESENTAÇÕES DO POETA ASSUENSE RENATO CALDAS EM NATAL E ARACAJU

7 de agosto de 1937

Rostand Medeiros – IHGRN

O poeta Renato Caldas nasceu na cidade de Assú no dia 8 de outubro de 1902, sendo considerado o maior representante da poesia matuta no Rio Grande do Norte.

Ficou conhecido como o “poeta das melodias selvagens”, por seus versos apresentarem de maneira simple e espontânea, para alguns até mesmo rude, mas sempre original, aspectos do amor, da simplicidade da vida do homem do campo, da natureza sertaneja e da beleza feminina.

Homem expansivo, o poeta Renato Caldas era um grande boêmio e um apreciador das cantigas populares.

A sua obra mais conhecida é o livro de poesias “Fulô do Mato”.

O jornalista Franklin Jorge (http://almadobeco.blogspot.com/2005/02/renato-caldas.html) nos mostra que ele era um “Autor de uma verve espontânea, irreverente e fecunda, que por muitos anos surpreendeu e deliciou gerações”.

Em 1987, este jornalista entrevistou longamente o poeta para o Caderno de Domingo, suplemento que então se publicava no jornal natalense “Tribuna do Norte”. Neste trabalho Jorge encontrou o velho homem de letras já “bastante alquebrado pela doença e pela velhice”, mas ainda memorioso, lúcido e frequentando um bar em Assú.

O jornalista comenta que em 1993, pouco tempo depois da morte de Caldas, o então prefeito de Assú, Lourinaldo Soares desejava construir um memorial em honra do poeta. Coube a Franklin Jorge a tarefa de organizar e classificar os papéis de Renato Caldas.

Infelizmente em sua busca, ele encontrou algumas poucas cartas e fotos. Segundo o jornalista “Não havia nenhum livro, nenhum manuscrito; nada, enfim, que justificasse a criação de um memorial. Da sua copiosa produção, dispersa ao longo dos anos, não restara nada”.

É uma pena que nada tenha sido encontrado. Li “Fulô do Mato” e considero uma obra verdadeiramente maravilhosa.

Renato Caldas Fonte – recantodasletras.com

Fui à busca de algum material sobre este poeta nos meus arquivos e encontrei duas interessantes reportagens sobre apresentações realizadas por Caldas.

Em 1937, no dia 7 de agosto, um sábado, o jornal “A Republica” trazia na sua terceira página o anúncio “O sertão na cidade – O que será o recital de Renato Caldas”. Neste jornal o poeta era apresentado como “magnífico intérprete da poesia matuta”.

A apresentação de “O sertão na cidade” aconteceria às oito e meia da noite, no então Teatro Carlos Gomes, atual Alberto Maranhão, no bairro da Ribeira. Para aqueles que se fizessem presentes, o jornal anunciava que a apresentação traria “tudo que o sertão tem de beijo, através dos versos esplêndidos de Renato Caldas”, que era designado pelo jornal como sendo um “folklorista”.

O poeta é apresentado de forma solene e exuberante. Mostrando que parecia estar em uma fase muito positiva de sua carreira e com uma enorme aceitação por parte da sociedade natalense.

Naquela noite de sábado, antes de Renato Caldas começar a declamar seus versos, subiu ao palco do Carlos Gomes o também poeta Genar Wanderley, que logo se tornaria radialista e seria conhecido como o “Cacique do Rádio Potiguar”. Genar fez uma apresentação sobre a vida de Caldas e enalteceu a sua poesia.

Também se apresentou o músico e cantor Santos Lemos, ou Santos Lins (Devido ao estado do jornal não foi possível ter uma certeza deste nome). O jornal informava que este era o “Cantor que todos conhecem”.

Sobre o recital de Renato Caldas propriamente dito, encontramos basicamente a informação que ele foi realizado com “muita expressão” e que o poeta aproveitou e contou “várias anedotas”.

Vemos que o relato da apresentação, publicado em 10 de agosto, foi uma nota extremamente curta e econômica nas informações. Se compararmos com a nota que informava sobre o mesmo espetáculo, percebemos uma nítida diferença.

Devido à qualidade da poesia de Renato Caldas, acho difícil que o público presente ao Carlos Gomes não tenha gostado do que viu e ouviu. O que talvez justificasse uma nota informativa tão limitada.

Não sei se o poeta de Assú, talvez ao contar suas piadas, tenha se excedido perante os rigores da sociedade natalense da época. Não podemos esquecer que era 1937, o ano da implantação do Estado Novo, onde os ideais apregoados pela ditadura Vargas em relação a moral, os bons costumes e o civismo eram extremamente rígidos.

Apesar de não havermos conseguido maiores informações sobre o desenrolar deste evento, vamos encontrar informações de outro espetáculo de Renato Caldas. Mas desta vez seu palco foi em Aracaju, Sergipe.

Quase um ano depois do evento em Natal, no dia 22 de julho de 1938, uma Sexta-Feira, Caldas fazia uma apresentação na Biblioteca Pública de Aracaju.

Na primeira página do periódico “O Nordeste”, de 23 de julho, temos a  manchete “Folklorista Renato Caldas”. A nota trás a informação que na Biblioteca Pública, localizada próximo ao palácio do governo, no centro da cidade, o potiguar realizou duas apresentações.

Para a plateia local ele veio como “Um verdadeiro caipira”, provocando no público “Desopitantes gargalhadas”. O jornal afirmou que Caldas soube trazer a alma do matuto ao som de sua viola e dos seus versos.

O poeta José Maria Fontes (1908-1994), precursor do Modernismo em Sergipe, foi quem realizou a apresentação do vate de Assú ao público presente.

Antiga Biblioteca Pública de Aracaju, atual Câmara de Vereadores Fonte – http://aracajuantigga.blogspot.com

Renato Caldas vinha se apresentando em outras capitais nordestinas, pois o poeta Fontes comentou que o mesmo não era um “Neófito”, que já tinha “Seu nome aureolado pelas plateias dos estados nordestinos”. Sobre esta informação, Segundo Fernando Caldas, blogueiro nascido em Assú (http://blogdofernandocaldas.blogspot.com/2007/10/sobre-o-poeta-de-ful-do-mato.html), informa que o autor de “Fulô do Mato” realizou viagens pelo Nordeste, onde se apresentava em palcos de cinemas, teatros e outros locais improvisados, declamando suas poesias irreverentes, amorosas, cantando emboladas e modinhas que também sabia produzir a seu modo.

Estas reportagens mostram que Renato Caldas conseguiu seu espaço fora do Rio Grande do Norte, mostrando a qualidade dos versos que o consagraram. Não sei se devido ao seu espírito irreverente, sua boêmia, sua inquietude, ele não tenha alcançado um espaço mais amplo e merecedor da qualidade do seu trabalho.

Renato Caldas faleceu em 26 de outubro de 1991.

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1830 – O REGISTRO DE BATISMO DE ANTÔNIO CONSELHEIRO

O PRIMEIRO DOCUMENTO OFICIAL DE UM GAROTO CEARENSE QUE MUDOU A HISTÓRIA DO BRASIL

O Conselheiro

Rostand Medeiros – IHGRN

O documento que vou apresentar no nosso Tok de História é como está documentado o batismo de Antônio Vicente Mendes Maciel, que ficaria conhecido na história do Brasil como Antônio Conselheiro.

Esta é a íntegra do texto;

“Aos vinte e dois de maio de mil oitocentos e trinta batizei e pus os Santos Óleos nesta Matriz de Quixeramobim ao párvulo Antônio, pardo, nascido aos treze de março do mesmo ano supra, filho natural de Maria Joaquina. Foram padrinhos, Gonçalo Nunes Leitão e Maria Francisca de Paula. Do que, para constar, fiz este termo, em que me assinei.

O Vigário, Domingos Álvaro Vieira”

– Livro de Assentamentos de Batizados da Paróquia de Quixeramobim, Livro 11, fl. 221 v.

O registro de batismo de Antônio Conselheiro

Este documento já a muito havia sido pesquisado pelo cearense Ismael Pordeus, que inclusive já havia publicado na íntegra, no periódico cearense “O Nordeste”, na edição de quinta feira, 6 de julho de 1949.

Mas lendo com calma o que está escrito no Livro de Assentamentos algumas equenas e interessantes informações surgem.

Visão que a imprensa conservadora do final do séc. XIX tinha de Antônio Conselheiro

Primeiramente temos que registrar que Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu em Quixeramobim, Ceará, em 13 de março de 1830, uma quinta feira, em um ano considerado seco.

Casa onde nasceu Atônio Conselheiro, ainda preservada na rua Cônego Aureliano Mota, nº 210, próximo à Praça Dias Ferreira, Quixeramobim, Ceará – Fonte – Magno Lima

Era filho do comerciante Vicente Mendes Maciel e de Maria Joaquina de Jesus. Para outros o nome da sua mãe era Maria Joaquina do Nascimento, tinha o apelido de Maria Chana e ainda Maria Maciel (In Benício, Manuel. O Rei dos Jagunços, Rio de Janeiro, Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997, Págs. 8 e 9, 2ª Ed. / Levine, Robert. O sertão prometido-O massacre de canudos, São Paulo, EDUSP, 1995, Págs.181 a 183, 1ª Ed.).

Dois meses depois do nascimento do jovem Antônio Maciel, no dia 22 de maio de 1830, um sábado, ele foi batizado na Matriz de Quixeramobim, uma majestosa igreja construída em 1755, cujo padroeiro é Santo Antônio, sendo considerado o primeiro templo religioso da região do Sertão Central do Ceará.

Matriz de Quixeramobim – Fonte – Walter Leite

Coincidentemente, o dia em que o jovem Antônio Maciel foi batizado é dedicado pela Igreja católica a devoção da monja agostiniana batizada como Rita, que morreu na cidade de Cássia, no ano de 1457, na província de Umbria, Itália. Mas não existe nenhuma indicação que a mãe de Antônio Maciel, Dona Maria Joaquina, fosse devota desta santa e decidiu batizar seu filho neste dia.

Certo é que ao lemos o Livro de Assentamentos de Batizados da Paróquia de Quixeramobim, Livro 11, fl. 221 v., atualmente pertencente à Diocese da cidade cearense de Quixadá, vemos que somente o jovem Antônio foi batizado naquele sábado.

Capa do livro de Assentamentos, onde está o registro de Antônio Conselheiro

Primeiramente chama atenção na foto do registro, logo abaixo do nome “Antônio”, a designação de sua cor como sendo “Pardo”, o que aponta o alcance das designações raciais no Nordeste do Brasil daquela época.

Percebemos a ausência do pai no registro e, provavelmente, na própria cerimônia.

Para aqueles que estudam a vida do Conselheiro, a ausência documentada de Vicente Maciel naquele livro de registro e a possível ausência na cerimônia de batismo de seu único filho varão não é nenhuma novidade.

Vicente era tido como um homem direito, trabalhador, mas muito complicado, como se diz atualmente. Estava no segundo casamento, era parcialmente surdo, considerado taciturno, que ocasionalmente realizava péssimos negócios que geravam dívidas e era alcoólatra. Em uma ocasião, quando bêbado, havia espancado a primeira mulher quase até a morte.

Analisando as folhas de batismo dos meses anteriores e posteriores ao batizado de Antônio Maciel, o seu registro é o único que não consta o nome do pai.

Teria havido problemas com o vigário local?

Ou alguma alteração séria teria ocorrido na época, a ponto de indispôr Vicente com o meio social do seu lugar e comprometer sua participação no evento?

Ou estaria vergado de cachaça, sem condições físicas para participar da cerimônia?

A razão não se sabe. Mas seu nome não consta do documento.

Igualmente nada sabemos dos padrinhos Gonçalo Nunes Leitão e Maria Francisca de Paula.

Outra situação interessante diz respeito ao nome do vigário. Para muitos o nome do representante da igreja em Quixeramobim que batizou Antônio Maciel seria Domingos Álvaro Vieira. Mas analisando a sua assinatura, o nome que surge é Domingos Alvares Vieira. Na foto da assinatura do vigário é possível distinguir nitidamente o “S” de Alvares.

Assinatura do vigário Domingos Alvares Vieira

Sendo este o nome correto do vigário, encontramos a figura de Domingos Alvares Vieira, um religioso católico nascido na cidade pernambucana de Goiana e batizado em 22 de outubro de 1795. Era filho de José Alvares Vieira e de Francisca Lourenço. Ordenou-se em Olinda e depois foi vigário no Ceará (Em Quixeramobim?).

Depois tornou-se lente do Liceu da Paraíba. Teve participação política, onde foi Deputado Provincial da Paraíba, na 1.ª Legislatura, cuja sessão de instalação ocorreu no dia 7 de abril de 1835. Foi Deputado à Assembleia Geral, pela Paraíba, na 3.ª Legislatura, de 3 de maio de 1834 a 15 de outubro de 1837.

Após esta experiência política, o sacerdote Vieira voltou a Goiana de onde foi vigário durante muitos anos. Foi Conselheiro do Governo de Manuel de Carvalho e ainda vivia em 1849. (In Pio, Fernando. Apontamentos Biográficos do Clero Pernambucano (1535 – 1935). Recife, Arquivo Público, 1994, 2 volumes).

Seria o religioso Vieira, que foi Deputado Provincial, o mesmo que anos antes batizou uma criança que se tornaria Antônio Conselheiro?

O registro do jovem Antônio Maciel é o primeiro da folha esquerda

Infelizmente é outro questionamento sem uma resposta.

Sobre o local de nascimento de Antônio, segundo material contido no site http://meltingpot.fortunecity.com/hornsey/372/evolucao.htm, informa que Quixeramobim primeiramente surgiu a partir de uma propriedade denominada Santo Antônio. Depois o lugarejo foi paulatinamente evoluindo pra a pequena povoação denominada Santo Antônio do Boqueirão, ou Santo Antônio de Quixeramobim.

Consta que oficialmente o lugarejo  pertenceu primeiramente à Vila de São José de Ribamar do Aquiraz até a sua elevação a vila, o que se confirma mais uma vez com asa transcrições que se seguem: Ao ouvidor Manuel de Magalhães Pinto de Avelar de Barbedo “coube-lhe instalar a Vila de Campo Maior de Quixeramobim, até então pertencente a Aquiraz, a 13 de junho de 1789”.

O site ainda aponta que os sertões de Quixeramobim eram constituídos de vastos campos que se estendiam pelas planícies adjacentes. Porém, sobre o nome Campo Maior a verdade histórica aponta que por orientação do marquês de Pombal, primeiro ministro de D. José I, foi expedida uma Carta Régia, datada de 6 de maio de 1758, determinando que toda vila a serem criada no Brasil-Colônia, teriam que receber nomes de localidades existentes em Portugal. Essa medida perdurou até metade do ano de 1803, quando deixou de ser cumprida.

Quixeramobim atualmente – Fonte – Magno Lima

Ao ser elevada a categoria de vila, o lugarejo teve seu nome mudado para Vila de Campo Maior, devido à determinação contida na lei acima. O nome de Vila de Campo Maior não foi bem aceito pela população, que continuou a fazer uso do termo Quixeramobim, isto é, Vila de Quixeramobim e, raramente, Vila de Campo Maior de Quixeramobim.

Outra visão do texto original

Na época do nascimento de Antônio Vicente Mendes Maciel, a comunidade já era conhecida apenas como Quixeramobim e assim está descrito nos autos do batismo.

O resto da história de Antônio Conselheiro é bem conhecido e todos sabem o seu desfecho.

P.S. – Um agradecimento todo especial aos membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, sede de Natal,  pelo apoio na realização deste artigo. (http://www.lds.org.br)

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OS POTIGUARES E A GUERRA DO FIM DO MUNDO

COMO A GUERRA DE CANUDOS MARCOU

O RIO GRANDE DO NORTE

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Algum tempo atrás fiquei curioso em saber o que a Guerra de Canudos representou para o Rio Grande do Norte na época, além de suas variáveis no contexto histórico.

Não consegui descobrir quando a primeira notícia sobre Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, chegou aterras potiguares, mas já a partir de fevereiro de 1897, esta singular figura começa a ser conhecida e divulgada com maior frequência.

Em um artigo, o Conselheiro era comparado a Zumbi, e Canudos ao Quilombo dos Palmares. Chamava a atenção o fato dos seguidores do Conselheiro queimarem as cédulas da República e utilizarem o dinheiro da época do imperador. As notícias informavam que o número de fanáticos seria em torno de 5.000, mas que eles eram uns “pobres diabos, que buscavam confusão diante das armas do exército”. Entretanto, as notícias já propalavam, com certa surpresa, a força, a motivação e a tranquilidade como os fanáticos do Conselheiro iam para a luta.

A partir da derrota da Segunda Expedição do exército brasileiro, comandada pelo major Febrônio de Brito, e o início da marcha da Terceira Expedição, comandada pelo tenente-coronel Moreira César, as notícias sobre Canudos se tornam semanais. Cópias de  relatórios passam a ser divulgados, se tornam mais alarmistas as notícias, mas o assunto, ainda não frequentava com assiduidade as páginas de o “Diário de Natal” e “A Republica”, os principais jornais de Natal naquela época. Parecia apenas um simples entrevero entre a forte força militar do Exército, e um grupo de “despojados”, onde o resultado era mais do que previsível.

Cresce o conflito

Tudo muda a partir de 10 de março de 1897, quando os jornais locais noticiam que sete dias antes, a coluna comandada por Moreira César, fora fragorosamente derrotada pelos conselheiristas.

Notícia no jornal natalense A República, sobre a derrota da expedição comandada pelo coronel Moreira César.

Após a surpreendente derrota, a elite brasileira estava histérica e exigia medidas drásticas do governo para uma rápida solução do conflito. Esta então se torna uma ação, que mobiliza toda a nação.

Em Natal tem início à preparação do quartel federal existente na cidade, o 34º Batalhão de Infantaria. Em 13 de março, assume o comando da guarnição o major Antônio Ignácio de Albuquerque Xavier, cujo primeiro ato, foi mandar publicar nos jornais da cidade, uma convocação que traz em suas letras uma colocação peculiar; “foi autorizado a aceitar voluntários que queiram servir somente durante a expedição de Canudos, dando-lhe baixa após sua terminação, caso não queiram continuar a servir o Exército, pelo que convida a todos os cidadãos que desejarem alistar-se apresentarem-se no quartel do 34º Batalhão de Infantaria, a qualquer hora do dia ou da noite”.

O interessante, é que esta nota deixa transparecer que o efetivo do batalhão, ou era reduzido para a crise que ocorria, ou aparentemente havia resistências na população de Natal para o alistamento voluntário.

Área do centro de Natal, na Praça André de Albuquerque, como se encontrava entre o final do Século XIX e início do XX.

Outra notícia informa que em algumas comunidades do interior do estado, havia apreensão em relação ao recrutamento. Temia-se uma reprise do que ocorrera na Guerra do Paraguai, onde o recrutamento era obrigatório, e os “voluntários”, eram presos e enviados para frente de guerra sob escolta.

O governador potiguar, Joaquim Ferreira Chaves.

Todos buscavam ajudar. Uma nota mostra que o pagamento aos quais os oficiais tinham direito antes de embarcar, seria efetuado pela Alfândega Federal, mas como esta repartição estava desprovida de recursos, foi o próprio governador Ferreira Chaves que adiantou o soldo da oficialidade do 34º Batalhão.

No domingo 21 de março, o 34º Batalhão realizava manobras militares na Praça André de Albuquerque. Já na cidade de Macaíba, foi realizado um comício patriótico onde Eloy de Souza e Tavares de Lyra, enalteciam a participação do batalhão potiguar e protestavam contra os “inimigos da República”.

Eloy de Souza

Apesar de todo o patriotismo, nem todos desejavam ir para a guerra. O soldado André Cavalcante de Albuquerque desertou do batalhão e se refugiou em Cuitezeiras, atual município de Pedro Velho. Apenas em março de 1898 ele foi capturado e entregue aos militares.

No sábado, 29 de março, o padre João Maria de Britto, celebrou missa solene na Matriz, para o bom êxito da expedição. Praticamente todos os militares e suas famílias, estiveram presentes ao principal templo católico da cidade.

A Partida

Às 13h de uma segunda-feira, 29 de março de 1897, os militares estavam formados diante do quartel. Compareceu à solenidade o então governador Ferreira Chaves e houve muitos discursos dos políticos e de intelectuais como Ferreira Itajubá. O poeta Segundo Wanderley declamou um verso produzido para enaltecer o feito dos potiguares. As bandas da Polícia Militar e da Escola de Aprendizes de Marinheiros tocaram para os companheiros do exército.

Ferreira Itajubá.

Segundo Manoel Rodrigues de Melo, em artigo escrito em 1978, para a revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, uma multidão estimada em 5.000 pessoas, compareceu ao embarque do 34º Batalhão. Este fato é significativo quando se sabe que nesta época, Natal era uma cidade com pouco mais de 15.000 habitantes. Neste dia, o comércio fechou as portas.

Após as solenidades oficiais, o batalhão embarcou no Vapor “Una”, da Companhia Pernambucana de Navegação. Após zarpar, ao passar ao lado da antiga Fortaleza dos Reis Magos, os passageiros do “Una” foram homenageados pelo farol que lá existia, através de uma mensagem visual em código Morse.

O 34º Batalhão de Infantaria seguiu para Canudos, com um contingente composto de quatro companhias, possuindo um efetivo de 36 oficiais e graduados, além de 225 “inferiores”, como eram chamados os cabos e soldados. Sua arma de combate eram as carabinas alemães da marca “Mannlichers”.

A guerra passa então a ser assunto corrente e notícia diária de primeira página nos jornais de Natal.

Organização

Em 5 de abril de 1897 é publicada a Ordem do Dia criando a Quarta Expedição Militar contra Canudos. Organizou-se então, a maior de todas as expedições, formada por tropas de 17 estados, equipadas com os mais modernos armamentos da época.

O efetivo militar era composto de seis Brigadas, cada uma com três batalhões, divididas em duas colunas que investiam sobre Canudos por direções opostas, sendo o comandante central, o general Artur Oscar.

A Primeira Coluna ficava sob o comando do general Silva Barbosa e a Segunda Coluna era comandada pelo general Cláudio Savaget, por isso ficou conhecida como Coluna Savaget.

A Segunda Coluna se concentrará em Aracaju, partindo para o interior em tropas isoladas, se agrupando em Jeremoabo, já na Bahia, e depois seguem para Canudos. Entre os batalhões que compunham a Segunda Coluna estava o 34º Batalhão de Infantaria.

Após sair de Natal, o 34º Batalhão seguiu primeiramente para Recife, onde ficou alojado no Quartel do Largo do Hospício. Desfilou pela capital pernambucana, juntamente com os batalhões 35º (do Piauí) e 40º (do Pará). Estas unidades militares formavam então a 5ª Brigada da Segunda Coluna. O comando desta Brigada estava a cargo do coronel Julião Augusto de Serra Martins.

A 23 de abril a 5ª Brigada embarca nos vapores “Una” e “Itanema”, em direção a Aracaju e a Guerra de Canudos efetivamente tinha início para os potiguares.

Brigada Faz Seu Batismo de Fogo em Cocorobó

Após o desembarque, a ida para a área de combate deu-se de forma lenta, tanto que o contingente do 34º Batalhão apenas chegou a Jeremoabo no dia 8 de junho, segundo informações do alferes potiguar João Augusto, secretário do coronel Silva Teles.

Euclides da Cunha informa que a 25 de junho, a 5ª Brigada da Coluna Savaget fez o seu batismo de fogo oficial, atacando o desfiladeiro de Cocorobó. Neste dia a vanguarda da força de Savaget fez alto uns quinhentos metros antes daquela barreira.

Um esquadrão de lanceiros do 40º Batalhão descobrira o inimigo, tendo seguido em seu encalço, ficando o 34° e o 35°, além de elementos da 4ª Brigada como unidades de reforço, mas logo todos atacavam.

Neste combate, segundo Euclides da Cunha, “mais de oitocentos homens ao mando do coronel Serra Martins, iniciavam o ataque num tiroteio nutrido, em que os fogos irregulares da linha de atiradores se intermeavam das descargas rolantes dos pelotões, que a reforçavam mais de perto, revidando vigorosamente aos tiros dos antagonistas. Estes sustentaram o choque com valor”.

O então jornalista paulista descreve outros detalhes do combate; “A 5ª Brigada foi admirável de disciplina, afrontando-o por duas horas, na posição em que estacara, à margem do Vaza-Barris, abrigando-se entre os ralos arbustos que a revestem”.

Após chegarem à periferia de Canudos, na região da Favela, as forças militares passam a ter outros fortes inimigos; a fome ocasionada pela falta de mantimentos, que ainda se mantinham distantes na retaguarda.

O desânimo diante de uma guerra estranha, a surpresa frente a um inimigo forte, perspicaz e totalmente desconhecido. Mas que no fundo eram irmãos, eram todos brasileiros.

Enquanto isso em Natal, no final de junho, era noticiado em “A Republica” uma nota repudiando alguns boatos comentados na cidade, sobre fortes baixas no contingente do 34º Batalhão. Se estes boatos tinham fundamento os jornais não comentam.

Os militares decidem realizar no dia 18 de julho um grande ataque à cidadela do Conselheiro, onde entrariam em ação 3.349 homens, repartidos em cinco brigadas. Mas o 34º Batalhão não estava listado para o combate. Euclides da Cunha comenta que o 34º era um dos quatro batalhões que protegiam o Quartel General do comandante Artur Oscar.

Neste combate de 18 de julho, os jornais locais listam o primeiro potiguar oficialmente morto no conflito. Era o alferes João Mafaldo de Oliveira Praxedes, natural da cidade de Martins, nascido no sitio Lagoa Nova, filho de Dona Antônia Mafalda de Oliveira Praxedes e Vicente Praxedes. Este oficial fazia parte do 30º Batalhão de Infantaria, do Rio Grande do Sul.

Mesmo os jornais não publicando a lista dos mortos do 34º Batalhão eles existiam, tanto assim que no dia 6 de agosto são publicados pela primeira vez os nomes de pessoas da sociedade que estavam doando dinheiro para ajudar “as viúvas e vitimas de Canudos”. Entre os doadores estavam Hemetério Fernandes, Manoel Dantas, Augusto Leite, Ferreira Chaves e outros.

Na frente de batalha, Euclides da Cunha narra que o 34º Batalhão participa de um contra ataque a um grupo de jagunços, que às seis da manhã de 23 de julho, tentam atacar a retaguarda das forças militares. Quinze conselheiristas são mortos e uma “cabocla” é aprisionada.

Estrada do Calumbi

Mas para o famoso escritor, a ação mais importante realizada pelo 34º Batalhão na Guerra de Canudos, em conjunto com os cariocas do 22º Batalhão e os baianos do 9º Batalhão, foi à tomada da estrada do Calumbi. Para Euclides esta ação, ocorrida em 4 de setembro, foi “um movimento mais sério; talvez a ação realmente estratégica da campanha”.

Através de informações de vaqueiros leais, os militares souberam da existência de um caminho pelo Cambaio, que diminuía em um dia a viagem a Monte Santo, facilitando a chegada de mantimentos, onde as tropas poderiam partir para o ataque final a Canudos. Comandados pelo major Lídio Porto, os combatentes tomaram esta estrada e apertou mais ainda o cerco final a cidadela do Conselheiro.

No ato final da tragédia, novamente o 34º estaria no palco dos acontecimentos, juntamente com os batalhões que tomaram a estrada do Calumbi, os potiguares protegeram um dos flancos do ataque final, que teve inicio em 1 de outubro.

Depois os potiguares combateram de casa em casa, onde cada morada era uma fortaleza que cobrava um preço alto pelo avanço.

Para Euclides “os sertanejos invertiam toda a psicologia da guerra: enrijavam-nos os reveses, robustecia-os a fome, empedernia-os a derrota”.

Tudo acabou em 5 de outubro, quando Canudos não se rendeu. Em “Os Sertões” o fim ficou assim registrado “Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados”.

Jornal dos Estados Unidos comentando a vitória das forças legais em Canudos.

A Volta Para Casa

Enquanto os sobreviventes do 34º se preparavam para voltar, os natalenses se mobilizavam. Em 11 de setembro, Alberto Maranhão realizou uma festa de caridade para arrecadação de fundos, tendo sido apurados 333 mil réis e estes entregues diretamente ao governador Ferreira Chaves.

Os municípios do interior participam. De Acari foi arrecadado e enviado 101$800 mil réis, de Jardim do Seridó 88$000, de Currais Novos 968$200, de Martins 182$000 mil réis.

Com o eminente retorno do Batalhão, tinha inicio os preparativos para uma grande recepção festiva. No dia 6 de novembro o 34º seguia de navio da capital baiana para Natal, mas devido a problemas de transporte, apenas em 10 de dezembro eles chegariam a capital potiguar.

A tropa voltou no mesmo vapor “Una” que os levaram oito meses antes. Às onze e meia da manhã, em torno de 4.000 pessoas, aguardavam o desembarque, depois seguiram para a Matriz para uma missa, havendo uma quase interminável seção de discursos no quartel e finalmente para as suas casas.

Os jornais comentam, com uma sutileza típica da impressa na época, que muitos soldados voltaram “doentes e inutilizáveis”. No outro dia a tropa e a população da cidade inauguraram o monumento aos mortos da guerra no cemitério do Alecrim.

Uma atitude honrada, que chamou a atenção da população, foi a publicação nas primeiras páginas dos jornais locais, do pedido do alferes Ezequiel Medeiros, que desejava entregar a quantia de 10$000 mil réis a família do soldado Euclides Celestino Baracho, que na hora da morte lhe pedira para entregar esta quantia a sua família que vivia em Ceará-Mirim.

As manifestações de apreço continuaram por alguns dias, contudo, logo os oficiais do 34º foram surpreendidos por diversas ordens de transferência, para várias unidades militares em todo Brasil e alguns são enviados para o longínquo Mato Grosso.

A principal igreja de Canudos destruída.

Os jornais de Natal publicam sérias criticas a atitude do governo federal. Já o novo comandante, major Martiniano de Oliveira, ferido em Canudos, vinha transferido de Recife. Aparentemente a ideia do governo Prudente de Moraes era  enfraquecer a criação de um “exército de salvadores da pátria”, e debelar possíveis voos políticos dos novos heróis.

Para o presidente, a melhor situação era que Canudos caísse no esquecimento.

Deliberado Esquecimento

Quanto às viúvas e familiares dos mortos potiguares da Guerra de Canudos, estranhamente os jornais declaram que estas só vieram a receber os apoios e as doações apenas em 18 de julho de 1898, um ano após o primeiro grande ataque das forças do governo, no valor de 12$000 mil réis, mas apenas em apólices do governo do estado e não em dinheiro vivo.

Na edição de “A Republica” de 17 de julho, estão listados os nomes dos mortos, seus beneficiários e suas patentes.

Ao ler a lista, salta aos olhos um fato interessante; dos 41 integrantes do 34º Batalhão de Infantaria listados pelo jornal como mortos no conflito, não há um único oficial. No total são 3 sargentos, 9 cabos, 3 anspeçadas (patente atualmente extinta), 3 músicos (corneteiros) e 23 soldados.

Quem se debruça sobre a história de Canudos, sabe que houve unidades militares onde a quase totalidade de seus oficiais foi morta em combate. Não foram poucos os oficiais de patente graduada que pereceram no conflito. O próprio Euclides da Cunha lista vários.

A razão deste fato é motivo para novas pesquisas.

Antes mesmo de Euclides da Cunha lançar o livro “Os Sertões” e mostrar as crueldades do conflito, percebe-se que a Guerra de Canudos é totalmente esquecida dos círculos oficiais. Seja pela ação do governo, ou pelo próprio horror da guerra, o certo é que não são visíveis nos jornais comemorações posteriores. Estas ocorrem timidamente apenas no primeiro ano.

Nos anos seguintes, é mais comum vermos nos jornais potiguares notícias sobre a realização de festas comemorativas a feitos militares ocorridos na Guerra do Paraguai.

Atualmente em Natal, temos poucas lembranças deste conflito. No Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte encontra-se a bandeira que foi doada ao 34º Batalhão, em substituição a original, que voltou esfarrapada da guerra. Já no cemitério do Alecrim, ainda existe o monumento aos mortos potiguares do conflito.

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