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UMA ÓTIMA INICIATIVA – MOSTRA PROMOVE PASSEIO PELA HISTÓRIA DO RN EM CAICÓ

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FONTE – http://papocultura.com.br/491-2/#.WKOVukZaJDw.facebook

O município de Caicó abriga a partir desta quinta-feira (16) até dezembro uma grande mostra que retrata a história e cultura do Rio Grande do Norte inspirada na obra do escritor Luís Câmara Cascudo.

A exposição “Descobrindo o Rio Grande do Norte com Luís da Câmara Cascudo” estará aberta ao público seridoense, sempre de segunda à sexta, das 8h às 16h30, no Centro de Educação José Augusto (Ceja), localizado à Rua Zeco Diniz, S/N, Penedo, Caicó. Visitas de escolas e entidades poderão ser marcadas pelo telefone 3417 1715.

A exposição, promovida pelo Governo do Estado, através da Fundação José Augusto, exibe peças que revelam os detalhes da linha do tempo do Estado e seu contexto no Brasil e no mundo, destacando também aspectos fundamentais da cultura seridoense.

Haverá uma recepção onde estão instalados textos sobre a história da região com ênfase na obra musical com apresentação de canções alusivas a região e na exibição de figuras rupestres.

Para ilustrar a mostra foi produzido um catálogo especial com 46 páginas que detalha o conteúdo apresentado com ilustrações, informações históricas e culturais sobre a história e a cultura do Rio Grande do Norte, destacando a vida social, o folclore, a formação étnica, entre outros temas.

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História do RN

Recortes da obra literária do etnógrafo conduzem o passeio pela história, desde a chegada dos portugueses, a tradição dos índios locais, a invasão holandesa, a fundação da cidade e seu desenvolvimento, o papel de Natal na 2ª Guerra Mundial, até o panorama atual. A mostra toma como base o livro História da Cidade do Natal, do autor potiguar.

A iniciativa consiste em um passeio entre os corredores históricos e galerias do Memorial, guiado pelo próprio Câmara Cascudo, através de recortes da sua obra literária. O visitante deverá viajar ao longo de mais de 500 anos de história, desde a chegada dos portugueses às nossas terras, os índios potiguares, o domínio holandês, a fundação de Natal, seus períodos áureos e conflituosos, o papel da cidade na 2ª Guerra Mundial, até chegar aos dias de hoje.

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A mostra é composta por grandes painéis, bonecos em tamanho real de personagens ilustres e heróis potiguares, artefatos, livros, miniaturas, além de uma diversidade de objetos museológicos. Em cada trecho da exposição, painéis estampam textos de Câmara Cascudo, mapas, cartas náuticas, pinturas, fotografias, tudo em busca de se aproximar do visitante e despertar nele o interesse e valorização pela história potiguar e pela obra de Cascudo.

Uma outra parte da mostra aborda as principais ações desenvolvidas pelo Governo do Estado que apontam para o futuro, como as obras realizadas nas áreas de saneamento, estradas, saúde, educação e recursos hídricos e outros setores essenciais.

EM SÃO PAULO, PARTICIPANDO DE DEBATE SOBRE O SERTÃO E O CANGAÇO NA MOSTRA A BELA CRUEZA DO CANGAÇO

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Autor – Rostand Medeiros

Nesta última segunda-feira (17/10/2016) aconteceu às 20h, na Casa-Laboratório, localizada na alameda Gabriel Monteiro da Silva, 224, bairro dos Jardins, em São Paulo um positive encontro entre os artistas plásticos Sergio Azol, Aecio Sarti e o escritor e historiador potiguar Rostand Medeiros, responsável pela edição do blog tok de história.

Ali discutimos sobre sertanismo, estética do Cangaço e processo criativo. O bate-papo contou com a mediação de Yael Steiner e Daniel Sarti.

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Casa Laboratório, nos Jardins, em São Paulo, onde ocorreu o encontro e a exposição A Bela Crueza do Cangaço.

O encontro foi extremamente evocativo ao sertão nordestino, em um espaço onde atualmente ocorre a mostra A Bela Crueza do Cangaço, de Sérgio Azol.

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Sérgio Azol

 Dois artistas unidos pelo Sertão. Sergio Azol traz a História e a estética do Cangaço. Aecio Sarti extrai sua matéria-prima – as lonas de caminhão que protegem, pela estrada seca, os vasos de barro produzidos por uma pequena comunidade de Malhada Seca, Bahia, que serão utilizados por outras comunidades que necessitam de água. “As lonas de caminhão viram arte com a minha intervenção.

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Aécio Sarti

Os potes de barro já nascem arte”, afirma Sarti, que usa a lona como plataforma para sua pintura, em Céu de Querubins, dirigido por Daniel Sarti e ganhador do prêmio de Melhor Documentário em Curta-Metragem no festival de Santa Mônica, Califórnia, Estados Unidos. Esteve presente ao evento o diretor Gustavo Massola, realizador deste documentário.

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Rostand Medeiros

A conversa foi bastante produtiva e aberta, com os artistas plásticos mostrando os seus respectivos processos criativos. Foi também bastante comentado as respectivas viagens para ajudar a fomentar estes processos criativos, permeado por muitas histórias relativas ao sertão e ao Cangaço.

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Procurei apresentar os aspectos dos caminhos que percorri junto com Sérgio Azol em maio e junho de 2016, onde lhe apresenta uma parte da história do cangaceiro Lampião e evoquei o que o sertão nordestino pode produzir de interessante para várias formas de artes.

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Rostand Medeiros, Sérgio Azol, Daniel Sarti, Yael Steiner, Aécio Sarti, Gustavo Massola e Carol Emereciano.

Sobretudo este foi um momento de congregação de pessoas de vários pontos do país, que trabalham com cultura e valorizam aquilo que se encontra de belo e interessante no sertão nordestino.

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As fotos aqui publicadas foram realizadas pela fotógrafa Denise Andrade, do jorna O Estado de São Paulo.

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O diretor do documentário “Céu de Querubins”, Gustavo Massola, que merece todos os elogios pela forma soberba e sensível em retratar o povo nordestino.

A PERTURBADORA ARTE DE FOTOGRAFAR MORTOS

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Na Era Vitoriana, era comum que famílias tivessem muitos filhos e que muitos morressem antes dos cinco anos; nesta foto, a criança à esquerda está morta e foi colocada de pé para o registro.

Fotografar parentes e amigos depois de mortos pode parecer algo mórbido nos dias de hoje. Mas na Era Vitoriana britânica (1837-1901), fazer imagens dos falecidos – e até mesmo juntar-se a eles no registro – era uma maneira de homenageá-los e de tentar arrefecer a dor da perda.

Em fotos que são ao mesmo tempo duras e perturbadoras, famílias posam com seus mortos, crianças parecem estar apenas adormecidas e jovens aparecem reclinadas. A morte lhes tomava a vida, mas também aumentava sua beleza – em meados do século 19, a palidez e a magreza causadas pela tuberculose eram vistas como atrativos em mulheres.

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Pais também posavam com os filhos mortos.

A vida vitoriana estava cercada pela morte. Epidemias de difteria, tifo e cólera assolavam a Inglaterra, e o luto permanente assumido pela rainha Vitória em 1861 após a morte do marido, o príncipe Albert, fizeram das comiserações algo em voga.

Suvenires

No entanto, suvenires do tipo memento mori (do latim “lembre-se que você vai morrer”) tinham várias formas e já existiam em tempos pré-vitorianos.

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A captação fotográfica de exposição longa fazia com que os mortos parecessem mais nítidos que os vivos exatamente por causa da ausência de movimento; à direita, um “memento mori”.

Mechas de cabelo dos mortos eram usadas em joias e máscaras mortuárias eram criadas em cera, por exemplo.

Mas, com a fotografia se tornando cada vez mais popular e acessível, um novo tipo dessas “lembrancinhas” surgiu em meados do século 19.

Barateamento

O daguerreótipo, primeiro processo fotográfico a ser anunciado e comercializado ao grande público, era um luxo caro, mas nem de longe com preço tão salgado quanto o de ter o retrato pintado – até então, a única maneira de preservar permanentemente a imagem de alguém.

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O bebê gêmeo à direita está morto.

Mortos eram simplesmente colocados em frente à câmera como se ainda estivessem vivos. E frequentemente bem vestidos, para que parecessem bem em seu último “momento social”.

Mas, na medida em que cresceu o número de fotógrafos, o custo dos daguerreótipos caiu. E, na década de 1850, surgiram procedimentos ainda menos custosos, como o uso de vidro e papel para as impressões em vez de placas de metal.

Assim, os “retratos da morte” se tornaram incrivelmente populares. Para muitas famílias, era a primeira chance de tirar uma foto conjunta, e ao mesmo tempo a última de ter uma lembrança de um ente querido.

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Os olhos do menino foram pintados sobre a foto, enquanto a menina foi colocada de forma a posar com seus brinquedos

Dois fatores, porém, logo iriam condenar a prática à extinção.

Primeiro, a qualidade dos serviços de saúde britânicos melhorou e aumentou a expectativa de vida da população, em especial a infantil. E o surgimento da fotografia instantânea permitiu que pessoas tirassem fotos uma das outras em vida, o que basicamente derrubou a demanda pelos “retratos da morte”.

Hoje, eles são apenas um lembrete de nossa mortalidade.

Bethan Bell, da BBC News

Fonte – http://www.bbc.com/portuguese/geral-36461785?ocid=socialflow_facebook

 

O ENCONTRO DE LAMPIÃO E A BANDA DE PÍFANO DE CARUARU

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Além da história deste inusitado encontro, vamos conhecer um pouco sobre um dos mais importantes grupos musicais do Nordeste do Brasil e que ficaram conhecidos os “Beatles de Caruaru”

Autor – Rostand Medeiros

Uma dos mais importantes, tradicionais e representativos grupos musicais do Nordeste do Brasil é sem dúvida alguma a Banda de Pífano de Caruaru. Verdadeira virtuose daquilo que significa nordestinidade e tradição, este grupo é também um dos mais antigos do país ainda em atividade.

Tudo começou em 1924, em um povoado chamado Olho D’água do Chicão, na cidade alagoana de Mata Grande, distante mais de 400 quilômetros da capital Maceió e localizado em pleno sertão. Foi quando o agricultor Manoel Clarindo Biano, casado com Maria Pastora da Conceição, observou que seus filhos Sebastião e Benedito, então com cinco e onze anos de idade, brincavam com canudos de carrapateira, jerimum e mamão, soprando-os como apitos, que eles chamavam “Gaitinha”. Depois passaram para um instrumento feito de madeira de taquara, com sete furos, sendo um para o sopro e seis para os dedos, que todos chamavam de pife[1].

Banda de pífanos - Marcelo Soares
Banda de pífanos – Marcelo Soares

Na pausa dos afazeres da roça, sem repreender, Manoel deixou os garotos se divertirem. Percebendo que seus filhos tinham um dom para música, ele encomendou pifes melhores a um amigo. O grupo passou a tocar e logo ficou conhecido como “Zabumba de Seu Manoel”.

Fosse apenas para ampliar a brincadeira dos garotos, ou para aumentar suas capacidades musicais visando melhorar o sustento da família, aquela iniciativa mudaria a vida de todos, criando um grande ícone da cultura nordestina, com características próprias e importantes na Música Popular Brasileira[2].

Tempos depois a família Biano deixou a cidade natal e tentou chegar até Juazeiro do Norte, no Ceará, em busca de uma bênção do Padre Cícero. Fugindo da seca e da miséria Manoel juntou a família e começaram a percorrer as estradas do sertão fazendo apresentações em quermesses, novenas, casamentos, batizados, enterro de “anjos”. Tocavam Marchas, Benditos de santos, Dobrados e o que surgisse na mente. 

Banda de Pifanos na Feira de Caruaru - foto Hansfotos
Banda de Pifanos na Feira de Caruaru – foto: Hansfotos – Fonte – http://www.elfikurten.com.br/2014/04/patrimonio-cultural-imaterial-brasileiro.html

Seguiram nesta jornada pelo interior de Pernambuco, onde passaram por Vila Bela (Hoje Serra Talhada) e Sítio dos Nunes. Neste último local interromperam a jornada, pois era época de Semana Santa e era pecado prosseguir viagem neste período. Depois rumaram para Santa Cruz da Baixa Verde, ainda em Pernambuco e logo adentraram a Paraíba, seguindo para Conceição do Piancó e Bonito de Santa Fé. Depois retornaram para Pernambuco e não viram o Padim Ciço[3].

Nesta época no grupo, além de Manoel Biano, tocando zabumba, os seus imberbes filhos Benedito e Sebastião nos pífanos, havia um sobrinho chamado Martim Grande, também conhecido como Martinho Grandão, também criança e que tocava a caixa.

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Banda de Pífanos de Caruaru na década de 1970.

Manoel fazia o grupo tocar uniformizado, todo de branco e usando chapéus de couro para se destacar das outras bandas de pífano. Ninguém sabia nada de métrica, partitura musical, notas e etc. Era tudo de ouvido mesmo. Mas eram competentes no que faziam.

Um dia quis o destino que estes músicos tocassem para ninguém menos que Lampião e seu bando.

“Lá vem o hômi!”

Segundo o padre Frederico Bezerra Maciel, escritor, pesquisador do tema cangaço e autor da série de livros “Lampião, seu tempo e seu reinado”, entre os dias 2 e 27 de setembro de 1926, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, comandou um grupo que na maior parte do tempo era composto por mais de cem cangaceiros em Pernambuco. Durante este tempo eles assaltaram e mantiveram combates com forças volantes em diversas localidades entre a região do Pajeú e as margens do rio São Francisco[4].

Entre idas e vindas, assaltos a cidades, combates em fazendas, emboscadas contra policiais e outras peripécias, um dia este grupo de cangaceiros se dirigiu à propriedade denominada Olho D’água do Bruno, com a intenção de participar das festividades do padroeiro da capelinha do lugarejo.

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Igreja de Nossa Senhora da Saúde em Tacaratu, Pernambuco – Foto – Ricardo Sabadia

Enquanto isso o cônego Frederico Araújo de Oliveira, pároco de Tacaratu, chegou ao Olho D’água do Bruno depois de haver percorrido os mais de 18 quilômetros de estrada que separam esta propriedade da sede deste município fincado no sertão pernambucano[5].

O lugar estava animado. Vieram pessoas de várias propriedades da região. Como da Salgadinha, do Mulungu, da Tiririca e da Baixa do Capim. Eles chegavam a pé, montados em animais, em carroças, trajando suas melhores roupas e trazendo no semblante a certeza de um momento de união de todos ali presentes junto a Deus.

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Quando os cangaceiros chegaram na festa religiosa, a imagem provavelmente pouco diferia desta foto.

O Olho D’água do Bruno tinha como seu proprietário Manoel Gomes de Souza Lima, conhecido na região como “Faceiro”. Para incrementar os festejos ele mandou chamar a banda de pífano de Manoel Biano[6]. Os músicos passaram os nove dias da novena na propriedade, participando e animando a todos durante aqueles dias.

Por volta das nove da manhã do último dia da novena, o cônego Frederico deu a benção aos fiéis e do lado de fora da capelinha a zabumba começou a tocar um hino, significando o final da cerimônia. Logo os membros da comunidade saiam do templo religioso e se reuniam para escutar a bandinha de pífanos[7].

Foi quando alguém gritou: – “Lá vem o hômi!”.

Neste instante chegou ao terreiro da capela Lampião montado em seu cavalo, acompanhado por Luís Pedro, Sabino, Arcoverde e um grupo de cangaceiros que variava entre 40 a 50 homens. O grupo, totalmente equipado e armado, parou suas montarias em meio a uma grande nuvem de poeira. Os cavalos estavam suarentos e bufando. A cabroeira ficou perfilada, montados em suas alimárias, uns ao lado dos outros em meio ao grande pátio da fazenda.

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Fonte – http://cariricangaco.blogspot.com.br/2011_06_01_archive.html

Diante daquela figura imponente, superior, ostentando suas armas e atavios, Sebastião, segurou a mão do irmão Benedito, dando a ideia de fugirem juntos. Mas seu pai advertiu “Ninguém corre”. Sebastião Biano narrou que então um rapaz da região desandou a correr do local, foi atingido por disparos de um dos cangaceiros e morreu na hora[8].

Certamente muitos outros teriam desejado correr, mas faltaram forças e coragem diante daquela morte. Os presentes estacaram no mais puro pânico. Estavam pálidos, com os pés fincados no chão e alguns tremendo feito vara de marmeleiro.

O Baile de Lampião

Lampião desceu do seu cavalo primeiro e os “cabras” ficaram na retaguarda. Nessa hora o “Rei do Cangaço” gritou: “Não corre ninguém e os meus cabras não vão mexer com vocês”. O silêncio era intenso. Lampião então se dirige ao pároco Frederico e ao proprietário Manoel Gomes e trocam cordiais apertos de mão. Depois todos seguiram para a casa grande do Olho D’água do Bruno, a uns cem metros da capela.

Consta que Lampião cavalgou intensamente com seus cangaceiros para chegar no início da missa, mas não conseguiu. Entretanto, entre sorrisos e atenções, o chefe dos cangaceiros entregou uma grande quantidade de dinheiro ao pároco Frederico. Ele saldava assim uma promessa com Nossa Senhora da Saúde, a padroeira de Tacaratu. Sebastião comentou em uma reportagem realizada em 1972 que o cangaceiro tirava o numerário de algumas caixas que estavam nos cavalos e dos bolsos da corona da sela e era muito dinheiro[9].

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Fonte – http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/musica/noticia/2015/08/11/aos-96-anos-mestre-sebastiao-biano-lanca-o-seu-primeiro-album-solo-de-pifano-193849.php

Lampião então se aproximou dos garotos e perguntou: “Meninos, vocês conhecem o toque de Lampião?”. Foi preciso o chefe bandoleiro repetir a pergunta três vezes para eles responderem um “nóis sabe sim sinhô” bem baixinho e balançarem suas cabeças afirmativamente. O cangaceiro ordenou então que eles executassem o pífano. “Se sabem, toquem.” Naquele momento os dois meninos se urinaram de medo. “Minha língua estava grudada na boca, eu mal conseguia soprar”, recordou Biano.

O pife finalmente soou, inicialmente com erros devido ao medo, mas logo os garotos foram se acostumando, tomando gosto pela brincadeira, se soltando e a música encheu a casa grande.

“É Lamp, é Lamp, é Lamp. É Lamp, é Lampião, Meu nome é Virgulino, Apelido Lampião”.

Nisso Lampião mandou buscar dois cangaceiros do bando – os responsáveis pelas músicas durante as viagens – e bradou: “Vocês tão vendo essas crianças como é que tocam? E vocês, dois cavalões, não tocam piroca nenhuma!”, lembrou Sebastião Biano em 2012, no programa Ensaio, da TV Cultura de São Paulo.

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Arte de Cavani Rosas, 1973.

Animado o “hômi” mandou preparar o lugar para realizar “um baile” e foi àquela correria para aprontar tudo ao gosto do “Capitão Virgulino Ferreira”. Os presentes logo se colocaram a disposição para realizar danças e segundo Sebastião aquilo foi um “arrasta-pé vingado”.

Os próprios cangaceiros encararam os instrumentos musicais. Lampião tocou algumas modinhas com um fole de oito baixos que arranjaram por lá e alguns cangaceiros pegaram outros instrumentos.

Homens e mulheres que normalmente nem praticavam o tradicional “dois pra lá e dois pra cá”, dançaram até tango e rumba. Alguns idosos com limitações devido ao reumatismo nem se lembraram disso e bailaram até quando encerrou a festa.

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Fonte – http://www.casadasrosas.org.br/agenda/lampio-o-homem-que-amava-as-mulheres

Os cangaceiros comeram toda a comida do evento. “Nem para o padre sobrou. O que não cabia na boca, botavam no chapéu. E a gente, nem fome sentiu, de tanto medo. Quando acabaram de comer, ainda pediram palha de milho para dar aos cavalos”, lembra Biano. 

Mas para Sebastião o melhor veio mesmo no final do frege.

Animado, falante, feliz e tranquilo, Lampião literalmente abriu o bisaco e distribuiu uma boa soma de dinheiro com os presentes. Uma grande quantidade de moedas de prata e níquel foi entregue as damas que ali se encontravam e estas não sofreram nenhuma violência por parte dos bandoleiros.

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A Banda de Pífano – Origem: Artista João Miguel da Silva – J. Miguel Nascido em Bezerros, Pernambuco – Fonte – https://www.flickr.com/photos/gabinetedecuriosidades/4036572451

Os cangaceiros puxavam do bolso sem nem contar. Todos esbanjaram muito dinheiro naquele dia no Olho D’água do Bruno. O menino Sebastião mesmo ganhou algumas boas moedas de um cangaceiro por ter arranjado capim e água para o cavalo deste.

Às quatro horas da tarde o grupo de guerreiros encourados partiu ao som do “Toque de Lampião”, executado pela bandinha de Manoel Biano.

“Os Beatles de Caruaru”

Depois daquele encontro os irmãos Sebastião e Benedito foram crescendo e tocando pífano onde fosse possível. Tudo era válido pela sobrevivência.

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Benedito e Sebastião Biano em 1972.

Circularam por vários anos em Pernambuco. Estiveram em Poço Comprido, depois na cidade de Buíque, onde Manoel Biano adoeceu em 1934. Na sequência tentaram a sorte nas cidades de Pesqueira, Belo Jardim, até que finalmente, no dia 15 de julho de 1939, chegaram à uma região próxima a grande cidade de Caruaru, onde se estabeleceram em um sítio entre os povoados de Rafael e Contendas.

Com o tempo Manoel Biano deixou a incumbência do toque para aos filhos. Ele faleceu em 1955, mas pediu para seus filhos continuassem a tradição e eles formaram a Banda de Pífanos de Caruaru.

Tempos depois a família Biano foi morar na “rua” de Caruaru, onde Sebastião Biano trabalhou durante muitos anos em uma fábrica de estopas e os filhos mantinha uma pequena oficina de sapatos[10].

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Banda de Pífanos de Caruaru

Em meio à dura luta pela sobrevivência, o grupo continuou tocando, incentivado por várias pessoas de Caruaru. Não era difícil encontrá-los realizando apresentações nas quartas e sábados, nas esquinas da cidade e na famosa Feira de Caruaru. Durante as festas juninas o dinheiro crescia mais um pouquinho, pois havia uma grande procura para eles animarem inúmeras festas.

Mas os músicos da família Biano passaram a ficar bem mais conhecidos na região após algumas apresentações nas rádios Difusora de Caruaru e Difusora do Nordeste, fazendo com que seu som alcançasse uma dimensão que eles não previam[11].

No início de 1967, antes do surgimento da Tropicália, Gilberto Gil realizou no Teatro Popular do Nordeste seu primeiro show em Recife. Foi quando Gil conheceu o compositor Carlos Fernando e trocaram ideias sobre a musicalidade local. Logo surgiu o convite para o músico baiano seguir a Caruaru e conhecer uma banda de pífanos de ótima qualidade que tocava na região e que o próprio Gil já ouvira comentários.

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Foto histórica, Caruaru 1967: em 1º plano, da esq. para a dir.: Carlos Fernando, casal Roberto Lira, Gilberto Gil, João Lira Neto, Fernando Lira, rapaz não identificado e Onildo Almeida – Fonte – http://www4.interblogs.com.br/homerofonseca/

Em Caruaru o grupo foi recebido pelo então prefeito Anastácio Rodrigues, que mandou chamar a Banda de Pífanos de Caruaru e o encontro aconteceu no Clube Intermunicipal. Este momento foi verdadeiramente emocionante para o músico baiano natural da cidade de Ituaçu. Consta que Gil chegou a chorar, além de ficar embasbacado com o que viu. Ele percebeu certas relações musicais que o grupo fazia no palco, com o que a banda inglesa The Beatles fazia na Europa. A partir deste momento os filhos de Manoel Biano ficaram igualmente conhecidos como “Os Beatles de Caruaru”[12].

Gil então retornou ao Rio e comentou com o amigo Caetano Veloso sobre o que viu na sua viagem pelo Nordeste. Este encontro em Caruaru é considerado pelos pesquisadores da Música Popular Brasileira uma das experiências que vão gerar e impulsionar o Movimento Tropicalista.

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Depois, em 1972, no mesmo ano que a Banda de Pífanos de Caruaru lançou seu primeiro LP, Gilberto Gil incluiu no seu trabalho “Expresso 2222” o tema instrumental “Pipoca Moderna” e depois foi Caetano Veloso que colocou letra e a gravou no álbum “Joia”, de 1975[13]. Consta que depois do lançamento de “Expresso 2222”, Gil retornou a Caruaru, acompanhado do poeta e músico baiano José Carlos Capinam, para apresentar o resultado do seu trabalho a Sebastião e Benedito Biano[14].

Sobre o primeiro disco da Banda existe a informação que a gravadora CBS não acreditava na venda daquele projeto. Aí novamente entrou em cena o prefeito Anastácio Rodrigues, que adquiriu 500 mil cópias do disco e o disco foi lançado.

Logo o grupo estava se apresentando em outras paragens do Brasil.

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No MAM do Rio de Janeiro, em 1974, onde tocaram juntos o sanfoneiro Dominguinhos, o grupo Quinteto Violado e a Banda de Pífanos de Caruaru.

Em agosto de 1974, no palco de apresentações do Museu de Arte Moderna, o MAM, localizado no Parque do Flamengo, Rio de Janeiro, ocorreu um dos shows mais antológicos da música nordestina na Cidade Maravilhosa. No palco tocaram juntos nada menos que o sanfoneiro Dominguinhos, o grupo pernambucano Quinteto Violado e a Banda de Pífanos de Caruaru. Pena que, até onde sei, não ficou registro gravado deste maravilhoso espetáculo musical[15].

As formações da Banda de Pífanos de Caruaru mudaram ao longo do tempo, mas não a proposta, fazendo da banda uma referência musical bastante sólida até hoje. A expressividade conseguida com o pífano, instrumento rústico e de poucos recursos, é notável e o nome da família Biano chegou longe[16].

Infelizmente Benedito Biano partiu em 16 de dezembro de 1999, aos 89 anos de idade, quando faleceu de insuficiência cardíaca em São Paulo, cidade onde Sebastião Biano passou a residir. Um ano antes a Banda havia ganho o título internacional de melhor grupo percussionista brasileiro em um concurso na Alemanha[17].

Mas o trabalho continuou. Em 2004 a Banda de Pífanos de Caruaru recebeu um Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Regional ou de Raízes Brasileiras.

Continuidade

Mas pessoalmente o incrível desta história toda é a garra, a disposição e a longevidade vivamente positiva de Mestre Sebastião Biano.

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Com o espírito de menino solto na brincadeira, Mestre Biano lança seu primeiro disco solo Rafael Pimenta/Divulgação

Em 2015, aos 96 anos de idade, Sebastião, o último remanescente da formação original da Banda de Pífanos de Caruaru, lançou seu primeiro CD solo da sua longa e virtuosa carreira.

Este trabalho se intitulou “Sebastião Biano e seu terno esquenta muié” e contou com a participação do famoso instrumentista Naná Vasconcelos em três das 18 faixas. Além deste participaram Eder Rocha (Mestre Ambrósio), Renata Amaral (A Barca), Filpo Ribeiro (Pé de Mulambo) e Júnior Caboclo complementam a formação do grupo “Terno Esquenta Muié”, projeto da carreira solo de Sebastião Biano. Mestre Biano ainda se apresenta com a Banda de Pífanos de Caruaru, cuja formação atual inclui Junior Caboclo (pífano), João Biano (zabumba), Amaro Biano (surdo), Gilberto Biano (caixa), José Biano (pratos) e Jadelson Biano (percussão)[18].

E os descendentes de Manoel Biano continuam a povoar este nosso Nordeste com suas toadas maravilhosas.


NOTAS

[1] A taquara é uma madeira muito comum nas matas do sul de Pernambuco.

[2] Ver

http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Sebasti%C3%A3o+Biano&ltr=s&id_perso=5271

[3] Ver Diário de Pernambuco, Recife – PE, edição de sábado, 2 de abril de 1977, pág. 6.

[4] Vale ressaltar que esta foi uma fase do cangaço de Lampião onde as mulheres ainda não participavam do bando. Ver Maciel, F. B. – Lampião, seu tempo e seu reinado, Livro III, A Guerra de Guerrilhas, págs. 119 e 120. Ed. Vozes, Petrópolis – RJ, 1985. Um detalhe está no fato de Sebastião Biano comentar em diversas reportagens que este encontro ocorreu em 1927. Mas acredito que neste caso o padre Maciel está certo.

[5] No dia 3 de janeiro de 1938, a cangaceira Durvinha (Durvalina Gomes de Sá) deu à luz um menino na caatinga da fazenda Riachão, em Tacaratu. Quem serviu de parteiro foi o seu companheiro Moreno (Antônio Ignácio da Silva). Com muitas dificuldades para criar o menino Moreno e Durvinha decidiram doar a criança para o cônego Frederico Araújo de Oliveira, o mesmo que em 1926 presenciou a chegada de Lampião e seus homens no Olho D’água do Bruno. A criança foi então batizada com o nome de Inácio.

Após a morte de Lampião e Corisco, o padre Frederico Oliveira fez insistentes apelos para que o casal de cangaceiros fugisse, pois do contrário a presença deles na região, caso fossem descobertos, poderia trazer grandes problemas para o sacerdote. Moreno decidiu atender aos pedidos do padre. No dia 2 de fevereiro de 1940, dia da Festa de Nossa Senhora da Saúde, Padroeira de Tacaratu, os cangaceiros aproveitaram o silêncio da noite e partiram.

O casal passou 66 anos no mais absoluto segredo. Nem os filhos sabiam de nada daquele passado medonho. Em 2005, adoentado, Moreno pensou que ia morrer e resolveu contar a longa e dramática vida que levaram no cangaço para os filhos. A emoção tomou conta de toda a família e começou uma busca na esperança de localizar o irmão Inácio. Vale ressaltar que depois da morte do cônego Frederico, no dia 14 de janeiro de 1944, Inácio foi levado à cidade de Paulo Afonso e depois seguiu para o Rio de Janeiro, onde se tornou oficial da Polícia Militar daquele estado.

O encontro de Inácio com seus pais, seus irmãos e demais parentes, inclusive os tios, irmãos de Durvinha, se deu no dia 5 de novembro de 2005 na casa de Moreno, em Belo Horizonte. Durvinha faleceu em 2008 e Moreno em 2010.

[6] Nesta época o Olho D’água do Bruno era provavelmente uma antiga propriedade que foi repartida e suas terras vendidas. Pois além de Manoel Gomes de Souza Lima, o conhecido Faceiro, segundo os dados coletados em nossa pesquisa, no início da década de 20 do século passado existia na zona rural de Tacaratu três propriedades registradas com a denominação Olho D’água do Bruno, sendo seus proprietários José Maria Campos, Manoel Antônio Torres e Argemiro Lyra Barbosa. O interessante é que Faceiro não constava desta listagem. Ver “Relação dos proprietarios dos estabelecimentos ruraes recenseados no Estado de Pernambuco – Recenseamento do Brazil, realizado em 1 de setembro de 1920”, pág. 365, Typografia da Estatistica, Rio, 1925.

[7] 89 anos depois deste episódio, no final de julho de 2015, aos 96 anos de idade, Sebastião Biano comentou a jornalista Larissa Lins, do Diário de Pernambuco, vários aspectos deste evento. Ver http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2015/07/28/internas_viver,588968/tocador-de-pifano-desafiado-por-lampiao-lanca-primeiro-disco-solo-aos-96-anos.shtml

Ver também – http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar./index.php?option=com_content&view=article&id=498&Itemid=1

[8] Segundo o padre Frederico Bezerra Maciel ninguém morreu neste acontecimento. Inclusive o padre apontou que em 1947 entrevistou Benedito Biano sobre este episódio. Entretanto esta afirmação tem de ser observada com reservas, pois o padre Maciel caracterizou sua obra sobre a vida de Lampião por uma intensa defesa das ações protagonizadas por este chefe cangaceiro. Para alguns o padre Maciel “só faltou canonizar Lampião na sua série de seis livros”.  Ver Diário de Pernambuco, Recife – PE, edição de quarta feira, 2 de agosto de 1972, Primeiro caderno, pág. 10 e Maciel, F. B. – Lampião, seu tempo e seu reinado, Livro III, A Guerra de Guerrilhas, págs. 119 e 120. Ed. Vozes, Petrópolis – RJ, 1985.

[9] Ver Diário de Pernambuco, Recife – PE, edição de quarta feira, 2 de agosto de 1972, Primeiro caderno, pág. 10.

[10] Consta que outra influência para os irmãos Biano seguirem com a bandinha criada pelo pai, estava no prestígio alcançado por Vitalino Pereira dos Santos, conhecido como Mestre Vitalino, um grande artesão do barro e exímio tocador de pífano. Ver “Jornal do Brasil”, Rio de Janeiro – RJ, edição de terça feira, 18 de julho de 1972, pág. 11, “Diário de Pernambuco”, Recife – PE, edição de terça feira, 20 de maio de 1972, pág. 8 e “Jornal do Brasil”, Rio de Janeiro – RJ, edição de sexta feira, 8 de dezembro de 1972, pág. 15 e

[11] Ver “Jornal do Commércio”, Recife – PE, edição de sábado, 16 de setembro de 1972, pág. 10.

[12] Ver “Diário de Pernambuco”, Recife – PE, edição de sábado, 2 de abril de 1977, pág. 6.

[13] Ver http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2009/08/18/interna_diversao_arte,135765/aos-90-anos-sebastiao-biano-e-uma-das-estrelas-da-banda-de-pifanos-de-caruaru-descoberta-em-1972-por-gilberto-gil.shtml

[14] Ver “Jornal do Brasil”, Rio de Janeiro – RJ, edição de terça feira, 18 de julho de 1972, pág. 11.

[15] Ver “Jornal do Brasil”, Rio de Janeiro – RJ, edição de sábado, 5 de agosto de 1974, pág. 9.

[16] Ver http://www.oimparcial.com.br/_conteudo/2015/07/impar/177353-aos-96-anos-sebastiao-biano-lanca-primeiro-disco-solo.html

[17] Ver http://www1.folha.uol.com.br/fol/cult/ult17121999182.htm

[18] Ver http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2015/07/28/internas_viver,588968/tocador-de-pifano-desafiado-por-lampiao-lanca-primeiro-disco-solo-aos-96-anos.shtml

Ver também – https://www.youtube.com/watch?v=IBymmCmcew0

‘ESTAMOS QUASE NO FIM’, DIZ NIÉDE AO AMEAÇAR VENDA DE CARROS DO PARQUE

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Fonte – http://carlosbritto.ne10.uol.com.br/

Venda dos carros seria para pagar direitos trabalhistas de funcionários. Arqueóloga denuncia o atraso nos repasses para a Serra da Capivara.

A arqueóloga, diretora-presidente da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham) e também administradora do Parque Nacional Serra da Capivara, patrimônio arqueológico internacional, ameaça a venda dos veículos do parque para poder pagar direitos trabalhistas de pelo menos 80 funcionários que foram demitidos em 2015 da Fundação.

Ela contou que a decisão se deu por conta de repasses que o parque ainda não recebeu. Em 2016, por exemplo, ela contou que não foram repassados nenhum valor e lamentou um 2015 ao qual ele definiu como “muito difícil”.

Niéde diz que a manutenção do Parque Nacional da Serra da Capivara custa em todo de R$ 6 milhões por ano, dinheiro que vinha da união e de compensações ambientais.

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Serra da Capivara (Foto: André Pessoa/Arquivo pessoal)

“O que acontece é que não estamos mais recebendo esses repasses que eram feitos naturalmente todos os anos, e garantia a manutenção do parque. Mas infelizmente, o governo mudou a lei de compensação ambiental e as empresas não são mais obrigadas a passar esse valor diretamente para as instituições, mas sim, mandam para Brasília, para o fundo de compensação ambiental. Então nós estamos praticamente no fim”, contou.

A manutenção, segundo alguns dos poucos funcionários que sobraram no Parque, fica prejudicada. Segundo a direção do parque, 16 das 28 guaritas foram fechadas. Sobrecarregado, em uma delas, o agente de manutenção José Pedro reclama da dificuldade de cuidar de mais de 16 km de estradas e trilhas todos os dias.

“Como a gente tem o prazer de cuidar do parque, para que os acessos fiquem melhor, a gente sempre estende um pouco mais além do que podia fazer. Mas sem os recursos, não temo como mantermos isso”, contou.

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Fonte – http://viajeaqui.abril.com.br/

O dinheiro que poderia ser arrecadado com as visitações no parque poderia injetar no parque mais de R$ 84 milhões por ano, bem mais necessário do que o precisaria para manter o parque. Mas o impasse no aeroporto da região que foi inaugurado no ano passado, está fechado, ainda não recebe vôos comerciais e está totalmente parado.

“O ICMbio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) não está sendo protegido. Nós agora estamos mantendo seis guaritas abertas, com recursos que o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) nos mandou, mas só foram R$ 400 mil. Dá para manter o parque durante uns três a quatro meses, e só”, contou.

Resposta

Em nota, o Governo do Estado informou que negocia com uma empresa aérea a oferta de voos regulares para o Aeroporto Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, e contou também que oferece isenção de tarifas e subsídios às empresas. O governo se propôs ainda a patrocinar publicidade nas aeronaves.

A nota diz ainda que o Governo trabalha um plano para desenvolver o turismo na região. As ações vão desde o treinamento e capacitação de guias e trabalhadores de hotéis, pousadas  e restaurantes até a divulgação e promoção do roteiro turístico da região dentro e fora do Brasil, como forma de atrair turistas.

FONTE – http://g1.globo.com/pi/piaui/noticia/2016/02/estamos-quase-no-fim-diz-niede-ao-ameacar-venda-de-carros-do-parque.html

DIFERENTES OLHARES SOBRE NOSSA HISTÓRIA PERMITEM PENSAR O BRASIL DE MANEIRA PROFUNDA

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Uma das mais importantes historiadoras brasileiras do século XX, Emília Viotti da Costa provoca o leitor ao investigar nosso passado sob diferentes perspectivas.

A Editora Unesp acaba de lançar “Brasil: história, textos e contextos”, de Emília Viotti da Costa. Aqui ela investiga o passado para imaginar o futuro.

Emília Viotti da Costa, finalista do Prêmio Jabuti 2015 na categoria Ciências Sociais, conquistou um lugar de destaque na historiografia brasileira do século XX ao resgatar – em obras já clássicas como “Da Senzala à Colônia” e “Da Monarquia a República”, ambas publicadas pela Editora Unesp – vozes marginalizadas pelos registros oficiais.

Seus escritos, além de serem referência para estudiosos, descortinam novos olhares para questões nacionais perenes, como o autoritarismo e a fraqueza das instituições democráticas. Ou seja, trata-se de uma trajetória intelectual provocativa e atuante, delineada de maneira clara em “Brasil: história, textos e contextos” (352 páginas, R$ 58,00). 

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Emília Viotti da Costa na Universidade de Yale

São aqui recuperados textos sobre a história do Brasil escritos em vários momentos, desde seus primeiros passos em busca do passado até os mais recentes, que datam da última década. Mas todos carregados de uma dramática contemporaneidade, como a defesa que faz da universidade pública – tanto no discurso proferido quando da entrega do título de professor emérito na USP quanto em “Globalização e reforma universitária: a sobrevivência do MEC-Usaid” –, vinculando-a a um processo econômico, político e social mais amplo, numa abordagem vital para os atuais debates sobre autonomia e financiamento do setor. 

Dos dilemas do neoliberalismo aos sucessos e fracassos do mercado centro-americano, da reforma universitária às reflexões sobre a crise mundial da última década, Viotti concentra sua atenção em setores sociais ausentes nas grandes narrativas históricas. Com isso, desmitifica concepções simplificadoras da história brasileira, possibilitando um esclarecimento profundo da identidade nacional, que leva a questionamentos essenciais para a compreensão do presente, investigando hábitos gerados e consolidados desde a época colonial e permitindo vislumbrar diferentes formas de imaginar o futuro. 

Emília Viotti da Costa, nascida em São Paulo, é formada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e livre-docente pela mesma universidade. Aposentada em 1969 pelo AI-5, lecionou em várias universidades dos Estados Unidos.

Algumas obras de Emília Viotti da Costa

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A abolição

144 páginas 

Por que o regime escravocrata foi repudiado no Brasil com tanta veemência em 1888, depois de ter sido aceito sem objeções durante séculos? Por que o projeto que decretou seu fim foi encaminhado com tanta urgência? Como explicar a aprovação da lei Áurea ao largo de debates mais acalorados por um parlamento em grande parte eleito por senhores de escravos? Por que estes não se armaram para tentar impedir o ataque à sua propriedade, garantida na Constituição? Que papel os negros e os escravos desempenharam no processo? Estas são algumas das questões que Emília Viotti da Costa pretende responder nesta obra, publicada originalmente em 1987, enfatizando que, embora tenha sido uma conquista, a libertação dos escravos foi apenas um primeiro passo em direção à emancipação dos negros no Brasil.

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Da Senzala à Colônia

560 páginas

Neste livro fundamental, a autora demonstra que a abolição dos escravos no Brasil representou apenas uma etapa na liquidação da estrutura colonial, mas golpeou duramente a velha classe senhorial e coroou um processo de transformações que se estendeu por toda a primeira metade do século 19. Tal processo prenunciava a transição da sociedade senhorial para a empresarial, do trabalho escravo para o assalariado, da monarquia para a República.

AUTORA – Katia Saisi

FONTE – http://editoraunesp.com.br/blog/diferentes-olhares-sobre-nossa-historia-permitem-pensar-o-brasil-de-maneira-profunda

ENCONTRO COM O MESTRE FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO

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Normalmente as pessoas que gostam de um determinado tema histórico possuem em suas casas livros sobre o assunto de sua preferência. Certamente que nestas estantes alguns destes livros se destacam de outros pelo constante manuseio e a frequência com que seus proprietários vasculham suas páginas em busca de respostas para certas indagações. São aqueles livros que se tornam referência. Evidentemente que diante dessa situação, surge naturalmente uma positiva admiração pelos autores destes maravilhosos trabalhos.

Na minha estante sobre livros do cangaço, que nem é tão numerosa assim, existem alguns poucos livros que se enquadram perfeitamente nesta situação, cujos autores são verdadeiros Mestres para mim. Um deles é “Guerreiros do Sol”, de Frederico Pernambucano de Mello.

Nessa minha busca pelo conhecimento do que significa o fenômeno do cangaço, sem dúvida alguma esta obra é uma grande ferramenta que me ajuda a ampliar o meu conhecimento sobre o tema.

Com o tempo fui incorporando ao meu acervo outros interessantes livros de Frederico Pernambucano de Mello, todos de alto nível.

E hoje, em Recife, eu tive o privilégio de conhecer Mestre Frederico.

Fui recebido de maneira extremamente atenciosa, em um momento muito agradável, muito salutar, onde pudemos debater de maneira tranquila e aberta sobre o universo do cangaço e da história de nossa região.

Conheci um homem com amplo conhecimento sobre esse tema, mas com uma natural simplicidade, enorme fidalguia e extrema atenção a este seu admirador.

Eu só tenho o mais franco agradecimento ao Mestre Frederico por este agradável encontro.

Rostand Medeiros