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A CAVERNA DOS CROTES – UM INTERESSANTE E BELO PATRIMÔNIO NATURAL POTIGUAR

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Entrada da Caverna dos Crotes, Felipe Guerra, Rio Grande do Norte – Foto – Solon Rodrigues Almeida Netto

Rostand Medeiros – Escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN 

Sólon Rodrigues Almeida Netto – Bacharel em Direito e Servidor Federal

Talvez muitos potiguares não saibam, mas no seu pequeno território existe interessantes cavernas e grutas de diversas características, feições e tamanhos, onde geólogos apontam que a heterogeneidade da estrutura geológica do Rio Grande do Norte propicia a formação de diferentes áreas para a existência de cavidades naturais.

Na porção sul do estado existe o Embasamento Cristalino e ao norte a principal formação geológica é denominada Bacia Potiguar, formada durante o período Cretáceo e Pré-cambriano. E é na Bacia Potiguar, uma peculiar área geológica, onde vamos encontrar a maior quantidade de cavernas, normalmente localizadas em áreas onde se encontram grandes extensões de lajedo de pedra calcária que afloraram.

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Mapa geológico simplificado da Bacia Potiguar (RN) – Fonte – https://www.researchgate.net/figure/235928283_fig1_Figura-1-Mapa-geologico-simplificado-da-Bacia-Potiguar-RN-com-localizacao-da-area

Alguns estudiosos descrevem a área da Bacia Potiguar como tendo uma extensão de 60.000 km² e a porção emersa possui uma área de exposição de 24.500 km², estando localizada na região norte do estado do Rio Grande do Norte e parte da região nordeste do estado do Ceará.

A origem da bacia tem sido alvo de vários estudos e diversos modelos têm sido propostos para explicá-la. Sua estratigrafia é composta por várias formações geológicas, sendo em sua maioria batizadas com nomes de municípios potiguares, tais como a Formação Pendências, Açu, Jandaíra, Guamaré, Macau e Tibau.

A Bacia Potiguar possui nos municípios de Jandaíra, Governador Dix-Sept-Rosado e Felipe Guerra os maiores afloramentos de calcário, os populares lajedos, sendo em Felipe Guerra o município com maior concentração proporcional de cavernas.

Pesquisas Sobre As Cavernas Potiguares

O conhecimento do patrimônio espeleológico e o desenvolvimento da espeleologia no estado do Rio Grande do Norte apenas começaram a ser conhecidos de forma mais sistemática a partir de 1997, com citações e o início dos levantamentos topográficos realizados pelo saudoso CERN – Clube de Espeleologia do Rio Grande do Norte. Esta entidade foi criada por vários ambientalistas potiguares e oriundos de outros estados, tendo a frente os geólogos paulistas Geraldo Gusso e Eduardo Bagnoli, ambos falecidos. Entre 1988 a 1995, foram mapeadas 18 cavernas e descobertas mais 26, as quais foram incluídas no Cadastro Nacional de Cavernas – CNC, da Sociedade Brasileira de Espeleologia – SBE.

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Foto – Rostand Medeiros

Na sequência do CERN surgiu a SEPARN – Sociedade para Pesquisas e Desenvolvimento Ambiental do Rio Grande do Norte cujo trabalho desenvolvido proporcionou um largo conhecimento deste patrimônio. Em apenas dois anos, através dos dados obtidos a partir da Cooperação Técnica firmada entre a SEPARN e a Superintendência Estadual do Rio Grande do Norte do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis – IBAMA (Termo de Cooperação Técnica nº 001/2000), muito mais foi descoberto.

Segundo o CNC, 98% das cavernas do Rio Grande do Norte estão relacionadas às falhas e fraturas existentes no calcário da Bacia Potiguar e apenas 2% destas cavidades naturais se encontram em rochas graníticas.

Seus comprimentos médios variam entre 30 e 500 metros com desníveis entre dois e 30 metros, reduzido desenvolvimento subterrâneo, estando com uma média de 90 a 120 metros linear de área de desenvolvimento por caverna.

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Caverna da Carrapateira, Felipe Guerra, Rio Grande do Norte – Foto – Sólon Rodrigues Almeida Netto

Em torno de 46% destas cavidades se encontram colônias de morcegos, sendo muitas destas colônias formadas por morcegos hematófagos e pouco estudadas. Embora o estado do Rio Grande do Norte não apresente até o momento um destaque significativo no cenário espeleológico brasileiro, temos que evidenciar a importância das cavernas aqui existentes por seu conteúdo histórico, cultural, científico e turístico.

Cerca de 80% das cavernas do estado possuem ornamentações (espeleotemas), sendo alguns de rara beleza e outros de extrema importância para pesquisas em determinadas áreas científicas e a maioria das cavernas potiguares encontram-se em razoável estado de conservação, bem como o seu entorno.

Felipe Guerra, a “Meca” das Cavernas  Potiguares

Como comentamos anteriormente o município potiguar onde existem mais cavidades naturais em termos proporcionais é Felipe Guerra.

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Parte mais antiga da cidade de Felipe Guerra, conhecida como “Cidade Baixa” – Foto – Rostand Medeiros.

Localizada na região do Brejo do Apodi, a 330 quilômetros da capital potiguar Felipe Guerra é pacata cidade, um lugar muito agradável, de pessoas trabalhadoras, tranquilas, extremamente acolhedoras e um grande número de cavidades naturais.

A incidência de cavernas no município ocorre a seis quilômetros da sede deste e município, em um grande afloramento de calcário que possui vários quilômetros quadrados de rocha exposta, sendo certamente o maior local deste tipo existente no Rio Grande do Norte. Este local é conhecido como Lajedo do Rosário.

Esta área constitui o mais importante sítio de cavernas já identificado no estado. Os dados coletados pela SEPARN na década de 2000 apontavam cinquenta e cinco cavidades identificadas[1]. Hoje sabemos que já foram descobertas mais de 80 cavernas e grutas no município.

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Lajedo do Rosário – Foto – Ricardo Sávio Trigueiro de Morais.

As cavidades naturais desta área são estruturas de pequeno a médio porte de desenvolvimento em rocha calcária, apresentando desenvolvimento linear médio em torno dos 100 metros. Há, porém, cavidades que fogem a tal padrão e aproximam-se dos 400 metros ou mais.

A profundidade média das cavernas também é pouco expressiva, ficando em torno de oito a dez metros. Deve-se isso às características do calcário Jandaíra, que estratigraficamente não é muito profundo, sendo os estratos praticamente horizontais, o que não favorece a formação de cavidades com marcante desenvolvimento vertical.

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Outro aspecto do Lajedo do Rosário – Foto – Rostand Medeiros.

As cavernas e grutas do Lajedo do Rosário representam um rico patrimônio natural, especialmente quando se considera a diversidade dos ambientes e a rica (e ainda pouco estudada), biologia ali presente.

Superficialmente, por não possibilitar fácil acesso e locomoção por possuir inúmeras fendas e ravinas, a capa rochosa do Lajedo do Rosário ostenta, ainda, inúmeros lapiás[2], criando uma paisagem incomum, que favorece, essencialmente, a sobrevivência de espécies ameaçadas da caatinga brasileira, tanto da fauna, quanto da flora.

Lá crescem árvores de grande porte, destacando-se o angico (Piptadenia macrocarpa), a aroeira (Astronium urundeuva Engl.), a craibeira (Tabebuia sp.), a faveleira (Cnidoscolus phyllacanthus), macambira (Bromelia laciniosa Mart.), a oiticica (Licania rigida), o pereiro (Aspidosperma pyrifolium) e o mulgungu (Erythrina velutina), dentre tantos outros.

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Foto – Rostand Medeiros.

Pela sua morfologia, o Lajedo do Rosário tende a apresentar ilhas de vegetação – nos locais onde a rocha cede espaço à existência de solo – setores que passam a abrigar rica fauna e flora, onde muitas vezes as espécies encontram refúgio contra a caça ilegal e a exploração sem controle, muito devido ao acesso extremamente difícil.

Importância do Lajedo do Rosário

As belezas naturais presentes nas cavernas do Lajedo do Rosário destacam-se de diversas formas e chamam a atenção do visitante as estalactites e estalagmites, que formam corpos cristalinos de rara beleza. Por esse motivo, justifica-se que o bem natural ali encontrado seja protegido, incluindo-se os existentes em sua sub-superfície.

Pelo aspecto da hidrologia, o Rosário representa um importante ponto de recarga da bacia hidrográfica do Rio Apodi, posto que a drenagem criptorréica funciona como uma grande calha que transporta a precipitação pluvial da região ao grande rio[3], alimentando fontes naturais que servem à população de vários modos.

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A importância dos aspectos ligados a hidrologia do Lajedo do Rosário, se refletem na existência de um verdadeiro oásis em pleno sertão nordestino – Foto – Sólon Rodrigues Almeida Netto.

Entre estes se encontram os agroprodutores locais, que possuem extensas plantações de arroz em terrenos que permanecem a maior parte do ano com boa quantidade de água pela forma como o Lajedo do Rosário contribui  a recarga do lençol freático, promovendo a circulação e manutenção de todo o sistema hídrico daquela região, mesmo nos períodos de maior estiagem, quando grande parte das terras adjacentes se tornam imprestáveis à agricultura tradicional.

Entre as muitas cavidades naturais ali existentes, mais precisamente na extremidade sudeste do Lajedo do Rosário, se destaca de sobremaneira a Caverna dos Crotes.

Uma Bela Caverna

Facilmente se atinge a entrada desta cavidade contornando o Lajedo subindo pela picada quase fechada que sai da estrada na casa do Sr. Elias Cardoso Souza.

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Aspecto interno da Caverna dos Crotes – Foto – Alex Gomes.

A cavidade apresenta inúmeras clarabóias que conectam seus condutos com o ambiente exterior. Da principal delas, surge a copa de uma grande e aparentemente muito antiga árvore do tipo oiticica (Licania rígida), da qual comentaremos melhor adiante.

As claraboias podem ser utilizadas como entradas auxiliares, desde que através do uso do equipamento de rapel. Existem apenas duas entradas acessíveis diretamente, sem o uso de cordas, onde ambas estão associados a um desabamento de blocos calcários, ocasionado na junção de duas sequências de falhas da superfície do afloramento onde se situa a cavidade, sendo a mais utilizada a que fica do lado leste.

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Conduto da Cachoeira do laguinho da Caverna dos Crotes – Foto – Sólon Rodrigues Almeida Netto

Essa entrada principal possui uma característica exterior muito marcante e singular, pois está cercada por uma vegetação que na região é conhecida popularmente como crotes, ou cróton, que com suas folhas pontiagudas e de um verde escuro lustroso, pertencente à família das euforbiáceas, sendo plantas típicas de regiões quentes, com mais de mil espécies catalogadas, muitas das quais úteis ao homem, tendo muita utilização em jardins e projetos paisagísticos. Em todo patrimônio espeleológico do Rio Grande do Norte, a profusão deste vegetal, só aparece nesta condição somente nessa caverna.

Desenvolvimento interior é retilíneo com uma área total de 262,50 metros e desnível de 25 metros, sendo uma das maiores cavernas listadas neste município.

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Detalhe de espeleotema da Caverna dos Crotes – Foto – Ricardo Sávio Trigueiro de Morais.

Os espeleotemas da Caverna dos Crotes são muito diversificados. O fluxo d’água escorre por eles nessa caverna, existindo ocasionalmente na forma de respingos pelas fraturas do calcário. Geram-se enormes estalactites e estalagmites, além de espeleotemas do tipo couve-flor, cortinas e especialmente pérolas de caverna em quantidade considerável à região. Essas peças oólitas estão em maior número em poças de acúmulo pluviométrico, que são abastecidas por lençóis existentes no calcário do Lajedo do Rosário. Esse mesmo fluxo natural que alimenta a caverna é sugerido também pela presença de plantas, os crotes, que não são xerófilas. Aparentemente o fluxo de água demora muito tempo para se extinguir, pois durante a realização de trabalhos espeleológicas anteriormente desenvolvidos nesta cavidade, ocorridas em períodos de forte estiagem, ainda foram encontradas gotejamentos dentro da Caverna dos Crotes.

Características Singulares e Interessantes  

Os salões normalmente ocorrem nos desenvolvimentos dos próprios condutos, confundindo-se com estes. A caverna toda esta associada a uma grande falha geológica que molda seu eixo central. Nessa linha, há inúmeras clarabóias que iluminam cerca de 70% da caverna, fazendo seu ambiente interior muito aprazível ao ser humano.

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Iluminação das claraboias da cavidade – Foto – Rostand Medeiros

No conduto principal, descem do teto raízes da mesma vegetação que há nas entradas, formando verdadeiras “cortinas” de raízes. Igualmente algumas árvores do tipo oiticicas surgem do interior da caverna e transpassam suas clarabóias. A maior delas, cujo tronco ultrapassa facilmente a circunferência de três metros, sua copa serve de referência para a localização da cavidade em meio o grande lajedo calcário. Está localizado no local batizado como Salão da Oiticica das Abelhas.

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Exemplar da limitada fauna da Caverna dos Crotes. Este é o amblipígio, um aracnídeo que faz parte da mesma classe das aranhas, escorpiões e carrapatos. Seus olhos pequenos, pernas finas e corpo bulboso proporcionam uma aparência um tanto quanto asquerosa, mas ela é totalmente inofensiva e no Brasil, existem aproximadamente 13 espécies catalogadas – Foto Ricardo Sávio Trigueiro de Morais.

Nesses locais há poucos espeleotemas, mas intensa beleza visual e muita vida, especialmente aves que nidificam na vegetação que há associada às clarabóias.

A seqüência de corredores leva por salões e espaços bem amplos.  São habitados por rica fauna, desde insetos, rasga-mortalhas, outros pássaros não identificados, alguns morcegos, diversos insetos e aracnídeos.

O fato de tamanha diversidade deve-se a inúmeros trechos da caverna ter penetração de luz natural por fendas. Há também muitas plantas da mesma espécie dos crotes da entrada. As raízes descem por qualquer fratura, vindo atingir o fértil e úmido chão da caverna, em vários locais com espessa camada de resíduos sedimentares e material orgânico.

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A grande e velha oiticica da Caverna dos Crotes – Foto – Rostand Medeiros.

Outra característica interessante são as muitas ossadas de animais pequenos e médios. Algumas ainda estão inteiras. Em sua maioria de mamíferos como roedores, morcegos, além de cabras que ficam presas na caverna. Diferentemente das demais cavernas exploradas, por essa ter um constante fluxo d´água em inúmeros trechos, apresenta elevado grau de re-calcificação e sedimentação desse material, mostrando estruturas totalmente recobertas por calcário liso e perolado, quando na água, ou mesmo poroso, nos níveis mais secos.

Sugere-se a presença de fósseis mais antigos, pois todas as estruturas orgânicas presentes estão em processo de fossilização acelerado, pelas condições locais bastante propícias.

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Foto – Rostand Medeiros.

Não há nenhum tipo de pichação. As visitas realizadas pelas pessoas que moram na região parecem se resumir ao interesse pelo mel, nas poucas colméias ali existentes. O pouco lixo que se acumula é decorrente dessa atividade. Mas não é significativo.

Existe um potencial turístico, principalmente pelas formas sugeridas pelas plantas e o ambiente diferenciado que elas criam. Locais contam, inclusive, histórias de pessoas que se utilizavam daquele abrigo natural para confecção de artefatos e instrumentos de madeira, como carros de boi. Histórias impossíveis, analisada a topografia e o acesso à caverna.

Nos outros domínios a caverna existe um pequeno lago criado pelo acúmulo que se apresenta com água na maior parte do ano, localizado em um nível superior da caverna. O outro pode ser tomado a partir do poço que há no final do conduto central da cavidade. O fosso, de cerca de oito a dez metros de profundidade desenvolve um curto conduto com teto-baixo, mas muito ornamentado por espeleotemas.

Sobre vários aspectos a Caverna dos Crotes, com suas singulares e interessantes características, deve primeiramente ser preservada e, guardada as normas ideias e legais de uso, destinada ao turismo.

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Os autores deste artigo – Sólon Rodrigues Almeida Netto (macacão vermelho) e Rostand Medeiros – Foto – Ricardo Sávio Trigueiro de Morais.

NOTAS

[1] Dados obtidos a partir da Cooperação Técnica SEPARN-IBAMA, ref. Termo de Cooperação Técnica nº 001/2000 – Superintendência Estadual do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis – IBAMA – Rio Grande do Norte.

[2] Formações residuais típicas dos ambientes cársticos, originadas da dissolução da rocha carbonática pela água atmosférica, criando feições pontiagudas nas rochas aflorantes.

[3] Em ambientes cársticos verifica-se o que se chama de drenagem criptorréica, quando os fluxos d’água não correm em superfície, mas em sub-superfície, pelas condições de solubilidade da rocha, fenômeno que, inclusive, é diretamente responsável pelo surgimento das cavernas e cria uma íntima relação entre as cavidades naturais subterrâneas e a circulação d’água nos rios e lagos.

UMA ÓTIMA INICIATIVA – MOSTRA PROMOVE PASSEIO PELA HISTÓRIA DO RN EM CAICÓ

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FONTE – http://papocultura.com.br/491-2/#.WKOVukZaJDw.facebook

O município de Caicó abriga a partir desta quinta-feira (16) até dezembro uma grande mostra que retrata a história e cultura do Rio Grande do Norte inspirada na obra do escritor Luís Câmara Cascudo.

A exposição “Descobrindo o Rio Grande do Norte com Luís da Câmara Cascudo” estará aberta ao público seridoense, sempre de segunda à sexta, das 8h às 16h30, no Centro de Educação José Augusto (Ceja), localizado à Rua Zeco Diniz, S/N, Penedo, Caicó. Visitas de escolas e entidades poderão ser marcadas pelo telefone 3417 1715.

A exposição, promovida pelo Governo do Estado, através da Fundação José Augusto, exibe peças que revelam os detalhes da linha do tempo do Estado e seu contexto no Brasil e no mundo, destacando também aspectos fundamentais da cultura seridoense.

Haverá uma recepção onde estão instalados textos sobre a história da região com ênfase na obra musical com apresentação de canções alusivas a região e na exibição de figuras rupestres.

Para ilustrar a mostra foi produzido um catálogo especial com 46 páginas que detalha o conteúdo apresentado com ilustrações, informações históricas e culturais sobre a história e a cultura do Rio Grande do Norte, destacando a vida social, o folclore, a formação étnica, entre outros temas.

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História do RN

Recortes da obra literária do etnógrafo conduzem o passeio pela história, desde a chegada dos portugueses, a tradição dos índios locais, a invasão holandesa, a fundação da cidade e seu desenvolvimento, o papel de Natal na 2ª Guerra Mundial, até o panorama atual. A mostra toma como base o livro História da Cidade do Natal, do autor potiguar.

A iniciativa consiste em um passeio entre os corredores históricos e galerias do Memorial, guiado pelo próprio Câmara Cascudo, através de recortes da sua obra literária. O visitante deverá viajar ao longo de mais de 500 anos de história, desde a chegada dos portugueses às nossas terras, os índios potiguares, o domínio holandês, a fundação de Natal, seus períodos áureos e conflituosos, o papel da cidade na 2ª Guerra Mundial, até chegar aos dias de hoje.

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A mostra é composta por grandes painéis, bonecos em tamanho real de personagens ilustres e heróis potiguares, artefatos, livros, miniaturas, além de uma diversidade de objetos museológicos. Em cada trecho da exposição, painéis estampam textos de Câmara Cascudo, mapas, cartas náuticas, pinturas, fotografias, tudo em busca de se aproximar do visitante e despertar nele o interesse e valorização pela história potiguar e pela obra de Cascudo.

Uma outra parte da mostra aborda as principais ações desenvolvidas pelo Governo do Estado que apontam para o futuro, como as obras realizadas nas áreas de saneamento, estradas, saúde, educação e recursos hídricos e outros setores essenciais.

EM SÃO PAULO, PARTICIPANDO DE DEBATE SOBRE O SERTÃO E O CANGAÇO NA MOSTRA A BELA CRUEZA DO CANGAÇO

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Autor – Rostand Medeiros

Nesta última segunda-feira (17/10/2016) aconteceu às 20h, na Casa-Laboratório, localizada na alameda Gabriel Monteiro da Silva, 224, bairro dos Jardins, em São Paulo um positive encontro entre os artistas plásticos Sergio Azol, Aecio Sarti e o escritor e historiador potiguar Rostand Medeiros, responsável pela edição do blog tok de história.

Ali discutimos sobre sertanismo, estética do Cangaço e processo criativo. O bate-papo contou com a mediação de Yael Steiner e Daniel Sarti.

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Casa Laboratório, nos Jardins, em São Paulo, onde ocorreu o encontro e a exposição A Bela Crueza do Cangaço.

O encontro foi extremamente evocativo ao sertão nordestino, em um espaço onde atualmente ocorre a mostra A Bela Crueza do Cangaço, de Sérgio Azol.

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Sérgio Azol

 Dois artistas unidos pelo Sertão. Sergio Azol traz a História e a estética do Cangaço. Aecio Sarti extrai sua matéria-prima – as lonas de caminhão que protegem, pela estrada seca, os vasos de barro produzidos por uma pequena comunidade de Malhada Seca, Bahia, que serão utilizados por outras comunidades que necessitam de água. “As lonas de caminhão viram arte com a minha intervenção.

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Aécio Sarti

Os potes de barro já nascem arte”, afirma Sarti, que usa a lona como plataforma para sua pintura, em Céu de Querubins, dirigido por Daniel Sarti e ganhador do prêmio de Melhor Documentário em Curta-Metragem no festival de Santa Mônica, Califórnia, Estados Unidos. Esteve presente ao evento o diretor Gustavo Massola, realizador deste documentário.

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Rostand Medeiros

A conversa foi bastante produtiva e aberta, com os artistas plásticos mostrando os seus respectivos processos criativos. Foi também bastante comentado as respectivas viagens para ajudar a fomentar estes processos criativos, permeado por muitas histórias relativas ao sertão e ao Cangaço.

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Procurei apresentar os aspectos dos caminhos que percorri junto com Sérgio Azol em maio e junho de 2016, onde lhe apresenta uma parte da história do cangaceiro Lampião e evoquei o que o sertão nordestino pode produzir de interessante para várias formas de artes.

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Rostand Medeiros, Sérgio Azol, Daniel Sarti, Yael Steiner, Aécio Sarti, Gustavo Massola e Carol Emereciano.

Sobretudo este foi um momento de congregação de pessoas de vários pontos do país, que trabalham com cultura e valorizam aquilo que se encontra de belo e interessante no sertão nordestino.

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As fotos aqui publicadas foram realizadas pela fotógrafa Denise Andrade, do jorna O Estado de São Paulo.

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O diretor do documentário “Céu de Querubins”, Gustavo Massola, que merece todos os elogios pela forma soberba e sensível em retratar o povo nordestino.

A PERTURBADORA ARTE DE FOTOGRAFAR MORTOS

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Na Era Vitoriana, era comum que famílias tivessem muitos filhos e que muitos morressem antes dos cinco anos; nesta foto, a criança à esquerda está morta e foi colocada de pé para o registro.

Fotografar parentes e amigos depois de mortos pode parecer algo mórbido nos dias de hoje. Mas na Era Vitoriana britânica (1837-1901), fazer imagens dos falecidos – e até mesmo juntar-se a eles no registro – era uma maneira de homenageá-los e de tentar arrefecer a dor da perda.

Em fotos que são ao mesmo tempo duras e perturbadoras, famílias posam com seus mortos, crianças parecem estar apenas adormecidas e jovens aparecem reclinadas. A morte lhes tomava a vida, mas também aumentava sua beleza – em meados do século 19, a palidez e a magreza causadas pela tuberculose eram vistas como atrativos em mulheres.

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Pais também posavam com os filhos mortos.

A vida vitoriana estava cercada pela morte. Epidemias de difteria, tifo e cólera assolavam a Inglaterra, e o luto permanente assumido pela rainha Vitória em 1861 após a morte do marido, o príncipe Albert, fizeram das comiserações algo em voga.

Suvenires

No entanto, suvenires do tipo memento mori (do latim “lembre-se que você vai morrer”) tinham várias formas e já existiam em tempos pré-vitorianos.

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A captação fotográfica de exposição longa fazia com que os mortos parecessem mais nítidos que os vivos exatamente por causa da ausência de movimento; à direita, um “memento mori”.

Mechas de cabelo dos mortos eram usadas em joias e máscaras mortuárias eram criadas em cera, por exemplo.

Mas, com a fotografia se tornando cada vez mais popular e acessível, um novo tipo dessas “lembrancinhas” surgiu em meados do século 19.

Barateamento

O daguerreótipo, primeiro processo fotográfico a ser anunciado e comercializado ao grande público, era um luxo caro, mas nem de longe com preço tão salgado quanto o de ter o retrato pintado – até então, a única maneira de preservar permanentemente a imagem de alguém.

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O bebê gêmeo à direita está morto.

Mortos eram simplesmente colocados em frente à câmera como se ainda estivessem vivos. E frequentemente bem vestidos, para que parecessem bem em seu último “momento social”.

Mas, na medida em que cresceu o número de fotógrafos, o custo dos daguerreótipos caiu. E, na década de 1850, surgiram procedimentos ainda menos custosos, como o uso de vidro e papel para as impressões em vez de placas de metal.

Assim, os “retratos da morte” se tornaram incrivelmente populares. Para muitas famílias, era a primeira chance de tirar uma foto conjunta, e ao mesmo tempo a última de ter uma lembrança de um ente querido.

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Os olhos do menino foram pintados sobre a foto, enquanto a menina foi colocada de forma a posar com seus brinquedos

Dois fatores, porém, logo iriam condenar a prática à extinção.

Primeiro, a qualidade dos serviços de saúde britânicos melhorou e aumentou a expectativa de vida da população, em especial a infantil. E o surgimento da fotografia instantânea permitiu que pessoas tirassem fotos uma das outras em vida, o que basicamente derrubou a demanda pelos “retratos da morte”.

Hoje, eles são apenas um lembrete de nossa mortalidade.

Bethan Bell, da BBC News

Fonte – http://www.bbc.com/portuguese/geral-36461785?ocid=socialflow_facebook

 

O ENCONTRO DE LAMPIÃO E A BANDA DE PÍFANO DE CARUARU

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Além da história deste inusitado encontro, vamos conhecer um pouco sobre um dos mais importantes grupos musicais do Nordeste do Brasil e que ficaram conhecidos os “Beatles de Caruaru”

Autor – Rostand Medeiros

Uma dos mais importantes, tradicionais e representativos grupos musicais do Nordeste do Brasil é sem dúvida alguma a Banda de Pífano de Caruaru. Verdadeira virtuose daquilo que significa nordestinidade e tradição, este grupo é também um dos mais antigos do país ainda em atividade.

Tudo começou em 1924, em um povoado chamado Olho D’água do Chicão, na cidade alagoana de Mata Grande, distante mais de 400 quilômetros da capital Maceió e localizado em pleno sertão. Foi quando o agricultor Manoel Clarindo Biano, casado com Maria Pastora da Conceição, observou que seus filhos Sebastião e Benedito, então com cinco e onze anos de idade, brincavam com canudos de carrapateira, jerimum e mamão, soprando-os como apitos, que eles chamavam “Gaitinha”. Depois passaram para um instrumento feito de madeira de taquara, com sete furos, sendo um para o sopro e seis para os dedos, que todos chamavam de pife[1].

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Banda de pífanos – Marcelo Soares

Na pausa dos afazeres da roça, sem repreender, Manoel deixou os garotos se divertirem. Percebendo que seus filhos tinham um dom para música, ele encomendou pifes melhores a um amigo. O grupo passou a tocar e logo ficou conhecido como “Zabumba de Seu Manoel”.

Fosse apenas para ampliar a brincadeira dos garotos, ou para aumentar suas capacidades musicais visando melhorar o sustento da família, aquela iniciativa mudaria a vida de todos, criando um grande ícone da cultura nordestina, com características próprias e importantes na Música Popular Brasileira[2].

Tempos depois a família Biano deixou a cidade natal e tentou chegar até Juazeiro do Norte, no Ceará, em busca de uma bênção do Padre Cícero. Fugindo da seca e da miséria Manoel juntou a família e começaram a percorrer as estradas do sertão fazendo apresentações em quermesses, novenas, casamentos, batizados, enterro de “anjos”. Tocavam Marchas, Benditos de santos, Dobrados e o que surgisse na mente. 

Banda de Pifanos na Feira de Caruaru - foto Hansfotos
Banda de Pifanos na Feira de Caruaru – foto: Hansfotos – Fonte – http://www.elfikurten.com.br/2014/04/patrimonio-cultural-imaterial-brasileiro.html

Seguiram nesta jornada pelo interior de Pernambuco, onde passaram por Vila Bela (Hoje Serra Talhada) e Sítio dos Nunes. Neste último local interromperam a jornada, pois era época de Semana Santa e era pecado prosseguir viagem neste período. Depois rumaram para Santa Cruz da Baixa Verde, ainda em Pernambuco e logo adentraram a Paraíba, seguindo para Conceição do Piancó e Bonito de Santa Fé. Depois retornaram para Pernambuco e não viram o Padim Ciço[3].

Nesta época no grupo, além de Manoel Biano, tocando zabumba, os seus imberbes filhos Benedito e Sebastião nos pífanos, havia um sobrinho chamado Martim Grande, também conhecido como Martinho Grandão, também criança e que tocava a caixa.

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Banda de Pífanos de Caruaru na década de 1970.

Manoel fazia o grupo tocar uniformizado, todo de branco e usando chapéus de couro para se destacar das outras bandas de pífano. Ninguém sabia nada de métrica, partitura musical, notas e etc. Era tudo de ouvido mesmo. Mas eram competentes no que faziam.

Um dia quis o destino que estes músicos tocassem para ninguém menos que Lampião e seu bando.

“Lá vem o hômi!”

Segundo o padre Frederico Bezerra Maciel, escritor, pesquisador do tema cangaço e autor da série de livros “Lampião, seu tempo e seu reinado”, entre os dias 2 e 27 de setembro de 1926, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, comandou um grupo que na maior parte do tempo era composto por mais de cem cangaceiros em Pernambuco. Durante este tempo eles assaltaram e mantiveram combates com forças volantes em diversas localidades entre a região do Pajeú e as margens do rio São Francisco[4].

Entre idas e vindas, assaltos a cidades, combates em fazendas, emboscadas contra policiais e outras peripécias, um dia este grupo de cangaceiros se dirigiu à propriedade denominada Olho D’água do Bruno, com a intenção de participar das festividades do padroeiro da capelinha do lugarejo.

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Igreja de Nossa Senhora da Saúde em Tacaratu, Pernambuco – Foto – Ricardo Sabadia

Enquanto isso o cônego Frederico Araújo de Oliveira, pároco de Tacaratu, chegou ao Olho D’água do Bruno depois de haver percorrido os mais de 18 quilômetros de estrada que separam esta propriedade da sede deste município fincado no sertão pernambucano[5].

O lugar estava animado. Vieram pessoas de várias propriedades da região. Como da Salgadinha, do Mulungu, da Tiririca e da Baixa do Capim. Eles chegavam a pé, montados em animais, em carroças, trajando suas melhores roupas e trazendo no semblante a certeza de um momento de união de todos ali presentes junto a Deus.

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Quando os cangaceiros chegaram na festa religiosa, a imagem provavelmente pouco diferia desta foto.

O Olho D’água do Bruno tinha como seu proprietário Manoel Gomes de Souza Lima, conhecido na região como “Faceiro”. Para incrementar os festejos ele mandou chamar a banda de pífano de Manoel Biano[6]. Os músicos passaram os nove dias da novena na propriedade, participando e animando a todos durante aqueles dias.

Por volta das nove da manhã do último dia da novena, o cônego Frederico deu a benção aos fiéis e do lado de fora da capelinha a zabumba começou a tocar um hino, significando o final da cerimônia. Logo os membros da comunidade saiam do templo religioso e se reuniam para escutar a bandinha de pífanos[7].

Foi quando alguém gritou: – “Lá vem o hômi!”.

Neste instante chegou ao terreiro da capela Lampião montado em seu cavalo, acompanhado por Luís Pedro, Sabino, Arcoverde e um grupo de cangaceiros que variava entre 40 a 50 homens. O grupo, totalmente equipado e armado, parou suas montarias em meio a uma grande nuvem de poeira. Os cavalos estavam suarentos e bufando. A cabroeira ficou perfilada, montados em suas alimárias, uns ao lado dos outros em meio ao grande pátio da fazenda.

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Fonte – http://cariricangaco.blogspot.com.br/2011_06_01_archive.html

Diante daquela figura imponente, superior, ostentando suas armas e atavios, Sebastião, segurou a mão do irmão Benedito, dando a ideia de fugirem juntos. Mas seu pai advertiu “Ninguém corre”. Sebastião Biano narrou que então um rapaz da região desandou a correr do local, foi atingido por disparos de um dos cangaceiros e morreu na hora[8].

Certamente muitos outros teriam desejado correr, mas faltaram forças e coragem diante daquela morte. Os presentes estacaram no mais puro pânico. Estavam pálidos, com os pés fincados no chão e alguns tremendo feito vara de marmeleiro.

O Baile de Lampião

Lampião desceu do seu cavalo primeiro e os “cabras” ficaram na retaguarda. Nessa hora o “Rei do Cangaço” gritou: “Não corre ninguém e os meus cabras não vão mexer com vocês”. O silêncio era intenso. Lampião então se dirige ao pároco Frederico e ao proprietário Manoel Gomes e trocam cordiais apertos de mão. Depois todos seguiram para a casa grande do Olho D’água do Bruno, a uns cem metros da capela.

Consta que Lampião cavalgou intensamente com seus cangaceiros para chegar no início da missa, mas não conseguiu. Entretanto, entre sorrisos e atenções, o chefe dos cangaceiros entregou uma grande quantidade de dinheiro ao pároco Frederico. Ele saldava assim uma promessa com Nossa Senhora da Saúde, a padroeira de Tacaratu. Sebastião comentou em uma reportagem realizada em 1972 que o cangaceiro tirava o numerário de algumas caixas que estavam nos cavalos e dos bolsos da corona da sela e era muito dinheiro[9].

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Fonte – http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/musica/noticia/2015/08/11/aos-96-anos-mestre-sebastiao-biano-lanca-o-seu-primeiro-album-solo-de-pifano-193849.php

Lampião então se aproximou dos garotos e perguntou: “Meninos, vocês conhecem o toque de Lampião?”. Foi preciso o chefe bandoleiro repetir a pergunta três vezes para eles responderem um “nóis sabe sim sinhô” bem baixinho e balançarem suas cabeças afirmativamente. O cangaceiro ordenou então que eles executassem o pífano. “Se sabem, toquem.” Naquele momento os dois meninos se urinaram de medo. “Minha língua estava grudada na boca, eu mal conseguia soprar”, recordou Biano.

O pife finalmente soou, inicialmente com erros devido ao medo, mas logo os garotos foram se acostumando, tomando gosto pela brincadeira, se soltando e a música encheu a casa grande.

“É Lamp, é Lamp, é Lamp. É Lamp, é Lampião, Meu nome é Virgulino, Apelido Lampião”.

Nisso Lampião mandou buscar dois cangaceiros do bando – os responsáveis pelas músicas durante as viagens – e bradou: “Vocês tão vendo essas crianças como é que tocam? E vocês, dois cavalões, não tocam piroca nenhuma!”, lembrou Sebastião Biano em 2012, no programa Ensaio, da TV Cultura de São Paulo.

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Arte de Cavani Rosas, 1973.

Animado o “hômi” mandou preparar o lugar para realizar “um baile” e foi àquela correria para aprontar tudo ao gosto do “Capitão Virgulino Ferreira”. Os presentes logo se colocaram a disposição para realizar danças e segundo Sebastião aquilo foi um “arrasta-pé vingado”.

Os próprios cangaceiros encararam os instrumentos musicais. Lampião tocou algumas modinhas com um fole de oito baixos que arranjaram por lá e alguns cangaceiros pegaram outros instrumentos.

Homens e mulheres que normalmente nem praticavam o tradicional “dois pra lá e dois pra cá”, dançaram até tango e rumba. Alguns idosos com limitações devido ao reumatismo nem se lembraram disso e bailaram até quando encerrou a festa.

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Fonte – http://www.casadasrosas.org.br/agenda/lampio-o-homem-que-amava-as-mulheres

Os cangaceiros comeram toda a comida do evento. “Nem para o padre sobrou. O que não cabia na boca, botavam no chapéu. E a gente, nem fome sentiu, de tanto medo. Quando acabaram de comer, ainda pediram palha de milho para dar aos cavalos”, lembra Biano. 

Mas para Sebastião o melhor veio mesmo no final do frege.

Animado, falante, feliz e tranquilo, Lampião literalmente abriu o bisaco e distribuiu uma boa soma de dinheiro com os presentes. Uma grande quantidade de moedas de prata e níquel foi entregue as damas que ali se encontravam e estas não sofreram nenhuma violência por parte dos bandoleiros.

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A Banda de Pífano – Origem: Artista João Miguel da Silva – J. Miguel Nascido em Bezerros, Pernambuco – Fonte – https://www.flickr.com/photos/gabinetedecuriosidades/4036572451

Os cangaceiros puxavam do bolso sem nem contar. Todos esbanjaram muito dinheiro naquele dia no Olho D’água do Bruno. O menino Sebastião mesmo ganhou algumas boas moedas de um cangaceiro por ter arranjado capim e água para o cavalo deste.

Às quatro horas da tarde o grupo de guerreiros encourados partiu ao som do “Toque de Lampião”, executado pela bandinha de Manoel Biano.

“Os Beatles de Caruaru”

Depois daquele encontro os irmãos Sebastião e Benedito foram crescendo e tocando pífano onde fosse possível. Tudo era válido pela sobrevivência.

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Benedito e Sebastião Biano em 1972.

Circularam por vários anos em Pernambuco. Estiveram em Poço Comprido, depois na cidade de Buíque, onde Manoel Biano adoeceu em 1934. Na sequência tentaram a sorte nas cidades de Pesqueira, Belo Jardim, até que finalmente, no dia 15 de julho de 1939, chegaram à uma região próxima a grande cidade de Caruaru, onde se estabeleceram em um sítio entre os povoados de Rafael e Contendas.

Com o tempo Manoel Biano deixou a incumbência do toque para aos filhos. Ele faleceu em 1955, mas pediu para seus filhos continuassem a tradição e eles formaram a Banda de Pífanos de Caruaru.

Tempos depois a família Biano foi morar na “rua” de Caruaru, onde Sebastião Biano trabalhou durante muitos anos em uma fábrica de estopas e os filhos mantinha uma pequena oficina de sapatos[10].

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Banda de Pífanos de Caruaru

Em meio à dura luta pela sobrevivência, o grupo continuou tocando, incentivado por várias pessoas de Caruaru. Não era difícil encontrá-los realizando apresentações nas quartas e sábados, nas esquinas da cidade e na famosa Feira de Caruaru. Durante as festas juninas o dinheiro crescia mais um pouquinho, pois havia uma grande procura para eles animarem inúmeras festas.

Mas os músicos da família Biano passaram a ficar bem mais conhecidos na região após algumas apresentações nas rádios Difusora de Caruaru e Difusora do Nordeste, fazendo com que seu som alcançasse uma dimensão que eles não previam[11].

No início de 1967, antes do surgimento da Tropicália, Gilberto Gil realizou no Teatro Popular do Nordeste seu primeiro show em Recife. Foi quando Gil conheceu o compositor Carlos Fernando e trocaram ideias sobre a musicalidade local. Logo surgiu o convite para o músico baiano seguir a Caruaru e conhecer uma banda de pífanos de ótima qualidade que tocava na região e que o próprio Gil já ouvira comentários.

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Foto histórica, Caruaru 1967: em 1º plano, da esq. para a dir.: Carlos Fernando, casal Roberto Lira, Gilberto Gil, João Lira Neto, Fernando Lira, rapaz não identificado e Onildo Almeida – Fonte – http://www4.interblogs.com.br/homerofonseca/

Em Caruaru o grupo foi recebido pelo então prefeito Anastácio Rodrigues, que mandou chamar a Banda de Pífanos de Caruaru e o encontro aconteceu no Clube Intermunicipal. Este momento foi verdadeiramente emocionante para o músico baiano natural da cidade de Ituaçu. Consta que Gil chegou a chorar, além de ficar embasbacado com o que viu. Ele percebeu certas relações musicais que o grupo fazia no palco, com o que a banda inglesa The Beatles fazia na Europa. A partir deste momento os filhos de Manoel Biano ficaram igualmente conhecidos como “Os Beatles de Caruaru”[12].

Gil então retornou ao Rio e comentou com o amigo Caetano Veloso sobre o que viu na sua viagem pelo Nordeste. Este encontro em Caruaru é considerado pelos pesquisadores da Música Popular Brasileira uma das experiências que vão gerar e impulsionar o Movimento Tropicalista.

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Depois, em 1972, no mesmo ano que a Banda de Pífanos de Caruaru lançou seu primeiro LP, Gilberto Gil incluiu no seu trabalho “Expresso 2222” o tema instrumental “Pipoca Moderna” e depois foi Caetano Veloso que colocou letra e a gravou no álbum “Joia”, de 1975[13]. Consta que depois do lançamento de “Expresso 2222”, Gil retornou a Caruaru, acompanhado do poeta e músico baiano José Carlos Capinam, para apresentar o resultado do seu trabalho a Sebastião e Benedito Biano[14].

Sobre o primeiro disco da Banda existe a informação que a gravadora CBS não acreditava na venda daquele projeto. Aí novamente entrou em cena o prefeito Anastácio Rodrigues, que adquiriu 500 mil cópias do disco e o disco foi lançado.

Logo o grupo estava se apresentando em outras paragens do Brasil.

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No MAM do Rio de Janeiro, em 1974, onde tocaram juntos o sanfoneiro Dominguinhos, o grupo Quinteto Violado e a Banda de Pífanos de Caruaru.

Em agosto de 1974, no palco de apresentações do Museu de Arte Moderna, o MAM, localizado no Parque do Flamengo, Rio de Janeiro, ocorreu um dos shows mais antológicos da música nordestina na Cidade Maravilhosa. No palco tocaram juntos nada menos que o sanfoneiro Dominguinhos, o grupo pernambucano Quinteto Violado e a Banda de Pífanos de Caruaru. Pena que, até onde sei, não ficou registro gravado deste maravilhoso espetáculo musical[15].

As formações da Banda de Pífanos de Caruaru mudaram ao longo do tempo, mas não a proposta, fazendo da banda uma referência musical bastante sólida até hoje. A expressividade conseguida com o pífano, instrumento rústico e de poucos recursos, é notável e o nome da família Biano chegou longe[16].

Infelizmente Benedito Biano partiu em 16 de dezembro de 1999, aos 89 anos de idade, quando faleceu de insuficiência cardíaca em São Paulo, cidade onde Sebastião Biano passou a residir. Um ano antes a Banda havia ganho o título internacional de melhor grupo percussionista brasileiro em um concurso na Alemanha[17].

Mas o trabalho continuou. Em 2004 a Banda de Pífanos de Caruaru recebeu um Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Regional ou de Raízes Brasileiras.

Continuidade

Mas pessoalmente o incrível desta história toda é a garra, a disposição e a longevidade vivamente positiva de Mestre Sebastião Biano.

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Com o espírito de menino solto na brincadeira, Mestre Biano lança seu primeiro disco solo Rafael Pimenta/Divulgação

Em 2015, aos 96 anos de idade, Sebastião, o último remanescente da formação original da Banda de Pífanos de Caruaru, lançou seu primeiro CD solo da sua longa e virtuosa carreira.

Este trabalho se intitulou “Sebastião Biano e seu terno esquenta muié” e contou com a participação do famoso instrumentista Naná Vasconcelos em três das 18 faixas. Além deste participaram Eder Rocha (Mestre Ambrósio), Renata Amaral (A Barca), Filpo Ribeiro (Pé de Mulambo) e Júnior Caboclo complementam a formação do grupo “Terno Esquenta Muié”, projeto da carreira solo de Sebastião Biano. Mestre Biano ainda se apresenta com a Banda de Pífanos de Caruaru, cuja formação atual inclui Junior Caboclo (pífano), João Biano (zabumba), Amaro Biano (surdo), Gilberto Biano (caixa), José Biano (pratos) e Jadelson Biano (percussão)[18].

E os descendentes de Manoel Biano continuam a povoar este nosso Nordeste com suas toadas maravilhosas.


NOTAS

[1] A taquara é uma madeira muito comum nas matas do sul de Pernambuco.

[2] Ver

http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Sebasti%C3%A3o+Biano&ltr=s&id_perso=5271

[3] Ver Diário de Pernambuco, Recife – PE, edição de sábado, 2 de abril de 1977, pág. 6.

[4] Vale ressaltar que esta foi uma fase do cangaço de Lampião onde as mulheres ainda não participavam do bando. Ver Maciel, F. B. – Lampião, seu tempo e seu reinado, Livro III, A Guerra de Guerrilhas, págs. 119 e 120. Ed. Vozes, Petrópolis – RJ, 1985. Um detalhe está no fato de Sebastião Biano comentar em diversas reportagens que este encontro ocorreu em 1927. Mas acredito que neste caso o padre Maciel está certo.

[5] No dia 3 de janeiro de 1938, a cangaceira Durvinha (Durvalina Gomes de Sá) deu à luz um menino na caatinga da fazenda Riachão, em Tacaratu. Quem serviu de parteiro foi o seu companheiro Moreno (Antônio Ignácio da Silva). Com muitas dificuldades para criar o menino Moreno e Durvinha decidiram doar a criança para o cônego Frederico Araújo de Oliveira, o mesmo que em 1926 presenciou a chegada de Lampião e seus homens no Olho D’água do Bruno. A criança foi então batizada com o nome de Inácio.

Após a morte de Lampião e Corisco, o padre Frederico Oliveira fez insistentes apelos para que o casal de cangaceiros fugisse, pois do contrário a presença deles na região, caso fossem descobertos, poderia trazer grandes problemas para o sacerdote. Moreno decidiu atender aos pedidos do padre. No dia 2 de fevereiro de 1940, dia da Festa de Nossa Senhora da Saúde, Padroeira de Tacaratu, os cangaceiros aproveitaram o silêncio da noite e partiram.

O casal passou 66 anos no mais absoluto segredo. Nem os filhos sabiam de nada daquele passado medonho. Em 2005, adoentado, Moreno pensou que ia morrer e resolveu contar a longa e dramática vida que levaram no cangaço para os filhos. A emoção tomou conta de toda a família e começou uma busca na esperança de localizar o irmão Inácio. Vale ressaltar que depois da morte do cônego Frederico, no dia 14 de janeiro de 1944, Inácio foi levado à cidade de Paulo Afonso e depois seguiu para o Rio de Janeiro, onde se tornou oficial da Polícia Militar daquele estado.

O encontro de Inácio com seus pais, seus irmãos e demais parentes, inclusive os tios, irmãos de Durvinha, se deu no dia 5 de novembro de 2005 na casa de Moreno, em Belo Horizonte. Durvinha faleceu em 2008 e Moreno em 2010.

[6] Nesta época o Olho D’água do Bruno era provavelmente uma antiga propriedade que foi repartida e suas terras vendidas. Pois além de Manoel Gomes de Souza Lima, o conhecido Faceiro, segundo os dados coletados em nossa pesquisa, no início da década de 20 do século passado existia na zona rural de Tacaratu três propriedades registradas com a denominação Olho D’água do Bruno, sendo seus proprietários José Maria Campos, Manoel Antônio Torres e Argemiro Lyra Barbosa. O interessante é que Faceiro não constava desta listagem. Ver “Relação dos proprietarios dos estabelecimentos ruraes recenseados no Estado de Pernambuco – Recenseamento do Brazil, realizado em 1 de setembro de 1920”, pág. 365, Typografia da Estatistica, Rio, 1925.

[7] 89 anos depois deste episódio, no final de julho de 2015, aos 96 anos de idade, Sebastião Biano comentou a jornalista Larissa Lins, do Diário de Pernambuco, vários aspectos deste evento. Ver http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2015/07/28/internas_viver,588968/tocador-de-pifano-desafiado-por-lampiao-lanca-primeiro-disco-solo-aos-96-anos.shtml

Ver também – http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar./index.php?option=com_content&view=article&id=498&Itemid=1

[8] Segundo o padre Frederico Bezerra Maciel ninguém morreu neste acontecimento. Inclusive o padre apontou que em 1947 entrevistou Benedito Biano sobre este episódio. Entretanto esta afirmação tem de ser observada com reservas, pois o padre Maciel caracterizou sua obra sobre a vida de Lampião por uma intensa defesa das ações protagonizadas por este chefe cangaceiro. Para alguns o padre Maciel “só faltou canonizar Lampião na sua série de seis livros”.  Ver Diário de Pernambuco, Recife – PE, edição de quarta feira, 2 de agosto de 1972, Primeiro caderno, pág. 10 e Maciel, F. B. – Lampião, seu tempo e seu reinado, Livro III, A Guerra de Guerrilhas, págs. 119 e 120. Ed. Vozes, Petrópolis – RJ, 1985.

[9] Ver Diário de Pernambuco, Recife – PE, edição de quarta feira, 2 de agosto de 1972, Primeiro caderno, pág. 10.

[10] Consta que outra influência para os irmãos Biano seguirem com a bandinha criada pelo pai, estava no prestígio alcançado por Vitalino Pereira dos Santos, conhecido como Mestre Vitalino, um grande artesão do barro e exímio tocador de pífano. Ver “Jornal do Brasil”, Rio de Janeiro – RJ, edição de terça feira, 18 de julho de 1972, pág. 11, “Diário de Pernambuco”, Recife – PE, edição de terça feira, 20 de maio de 1972, pág. 8 e “Jornal do Brasil”, Rio de Janeiro – RJ, edição de sexta feira, 8 de dezembro de 1972, pág. 15 e

[11] Ver “Jornal do Commércio”, Recife – PE, edição de sábado, 16 de setembro de 1972, pág. 10.

[12] Ver “Diário de Pernambuco”, Recife – PE, edição de sábado, 2 de abril de 1977, pág. 6.

[13] Ver http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2009/08/18/interna_diversao_arte,135765/aos-90-anos-sebastiao-biano-e-uma-das-estrelas-da-banda-de-pifanos-de-caruaru-descoberta-em-1972-por-gilberto-gil.shtml

[14] Ver “Jornal do Brasil”, Rio de Janeiro – RJ, edição de terça feira, 18 de julho de 1972, pág. 11.

[15] Ver “Jornal do Brasil”, Rio de Janeiro – RJ, edição de sábado, 5 de agosto de 1974, pág. 9.

[16] Ver http://www.oimparcial.com.br/_conteudo/2015/07/impar/177353-aos-96-anos-sebastiao-biano-lanca-primeiro-disco-solo.html

[17] Ver http://www1.folha.uol.com.br/fol/cult/ult17121999182.htm

[18] Ver http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2015/07/28/internas_viver,588968/tocador-de-pifano-desafiado-por-lampiao-lanca-primeiro-disco-solo-aos-96-anos.shtml

Ver também – https://www.youtube.com/watch?v=IBymmCmcew0

‘ESTAMOS QUASE NO FIM’, DIZ NIÉDE AO AMEAÇAR VENDA DE CARROS DO PARQUE

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Fonte – http://carlosbritto.ne10.uol.com.br/

Venda dos carros seria para pagar direitos trabalhistas de funcionários. Arqueóloga denuncia o atraso nos repasses para a Serra da Capivara.

A arqueóloga, diretora-presidente da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham) e também administradora do Parque Nacional Serra da Capivara, patrimônio arqueológico internacional, ameaça a venda dos veículos do parque para poder pagar direitos trabalhistas de pelo menos 80 funcionários que foram demitidos em 2015 da Fundação.

Ela contou que a decisão se deu por conta de repasses que o parque ainda não recebeu. Em 2016, por exemplo, ela contou que não foram repassados nenhum valor e lamentou um 2015 ao qual ele definiu como “muito difícil”.

Niéde diz que a manutenção do Parque Nacional da Serra da Capivara custa em todo de R$ 6 milhões por ano, dinheiro que vinha da união e de compensações ambientais.

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Serra da Capivara (Foto: André Pessoa/Arquivo pessoal)

“O que acontece é que não estamos mais recebendo esses repasses que eram feitos naturalmente todos os anos, e garantia a manutenção do parque. Mas infelizmente, o governo mudou a lei de compensação ambiental e as empresas não são mais obrigadas a passar esse valor diretamente para as instituições, mas sim, mandam para Brasília, para o fundo de compensação ambiental. Então nós estamos praticamente no fim”, contou.

A manutenção, segundo alguns dos poucos funcionários que sobraram no Parque, fica prejudicada. Segundo a direção do parque, 16 das 28 guaritas foram fechadas. Sobrecarregado, em uma delas, o agente de manutenção José Pedro reclama da dificuldade de cuidar de mais de 16 km de estradas e trilhas todos os dias.

“Como a gente tem o prazer de cuidar do parque, para que os acessos fiquem melhor, a gente sempre estende um pouco mais além do que podia fazer. Mas sem os recursos, não temo como mantermos isso”, contou.

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Fonte – http://viajeaqui.abril.com.br/

O dinheiro que poderia ser arrecadado com as visitações no parque poderia injetar no parque mais de R$ 84 milhões por ano, bem mais necessário do que o precisaria para manter o parque. Mas o impasse no aeroporto da região que foi inaugurado no ano passado, está fechado, ainda não recebe vôos comerciais e está totalmente parado.

“O ICMbio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) não está sendo protegido. Nós agora estamos mantendo seis guaritas abertas, com recursos que o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) nos mandou, mas só foram R$ 400 mil. Dá para manter o parque durante uns três a quatro meses, e só”, contou.

Resposta

Em nota, o Governo do Estado informou que negocia com uma empresa aérea a oferta de voos regulares para o Aeroporto Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, e contou também que oferece isenção de tarifas e subsídios às empresas. O governo se propôs ainda a patrocinar publicidade nas aeronaves.

A nota diz ainda que o Governo trabalha um plano para desenvolver o turismo na região. As ações vão desde o treinamento e capacitação de guias e trabalhadores de hotéis, pousadas  e restaurantes até a divulgação e promoção do roteiro turístico da região dentro e fora do Brasil, como forma de atrair turistas.

FONTE – http://g1.globo.com/pi/piaui/noticia/2016/02/estamos-quase-no-fim-diz-niede-ao-ameacar-venda-de-carros-do-parque.html

DIFERENTES OLHARES SOBRE NOSSA HISTÓRIA PERMITEM PENSAR O BRASIL DE MANEIRA PROFUNDA

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Uma das mais importantes historiadoras brasileiras do século XX, Emília Viotti da Costa provoca o leitor ao investigar nosso passado sob diferentes perspectivas.

A Editora Unesp acaba de lançar “Brasil: história, textos e contextos”, de Emília Viotti da Costa. Aqui ela investiga o passado para imaginar o futuro.

Emília Viotti da Costa, finalista do Prêmio Jabuti 2015 na categoria Ciências Sociais, conquistou um lugar de destaque na historiografia brasileira do século XX ao resgatar – em obras já clássicas como “Da Senzala à Colônia” e “Da Monarquia a República”, ambas publicadas pela Editora Unesp – vozes marginalizadas pelos registros oficiais.

Seus escritos, além de serem referência para estudiosos, descortinam novos olhares para questões nacionais perenes, como o autoritarismo e a fraqueza das instituições democráticas. Ou seja, trata-se de uma trajetória intelectual provocativa e atuante, delineada de maneira clara em “Brasil: história, textos e contextos” (352 páginas, R$ 58,00). 

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Emília Viotti da Costa na Universidade de Yale

São aqui recuperados textos sobre a história do Brasil escritos em vários momentos, desde seus primeiros passos em busca do passado até os mais recentes, que datam da última década. Mas todos carregados de uma dramática contemporaneidade, como a defesa que faz da universidade pública – tanto no discurso proferido quando da entrega do título de professor emérito na USP quanto em “Globalização e reforma universitária: a sobrevivência do MEC-Usaid” –, vinculando-a a um processo econômico, político e social mais amplo, numa abordagem vital para os atuais debates sobre autonomia e financiamento do setor. 

Dos dilemas do neoliberalismo aos sucessos e fracassos do mercado centro-americano, da reforma universitária às reflexões sobre a crise mundial da última década, Viotti concentra sua atenção em setores sociais ausentes nas grandes narrativas históricas. Com isso, desmitifica concepções simplificadoras da história brasileira, possibilitando um esclarecimento profundo da identidade nacional, que leva a questionamentos essenciais para a compreensão do presente, investigando hábitos gerados e consolidados desde a época colonial e permitindo vislumbrar diferentes formas de imaginar o futuro. 

Emília Viotti da Costa, nascida em São Paulo, é formada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e livre-docente pela mesma universidade. Aposentada em 1969 pelo AI-5, lecionou em várias universidades dos Estados Unidos.

Algumas obras de Emília Viotti da Costa

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A abolição

144 páginas 

Por que o regime escravocrata foi repudiado no Brasil com tanta veemência em 1888, depois de ter sido aceito sem objeções durante séculos? Por que o projeto que decretou seu fim foi encaminhado com tanta urgência? Como explicar a aprovação da lei Áurea ao largo de debates mais acalorados por um parlamento em grande parte eleito por senhores de escravos? Por que estes não se armaram para tentar impedir o ataque à sua propriedade, garantida na Constituição? Que papel os negros e os escravos desempenharam no processo? Estas são algumas das questões que Emília Viotti da Costa pretende responder nesta obra, publicada originalmente em 1987, enfatizando que, embora tenha sido uma conquista, a libertação dos escravos foi apenas um primeiro passo em direção à emancipação dos negros no Brasil.

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Da Senzala à Colônia

560 páginas

Neste livro fundamental, a autora demonstra que a abolição dos escravos no Brasil representou apenas uma etapa na liquidação da estrutura colonial, mas golpeou duramente a velha classe senhorial e coroou um processo de transformações que se estendeu por toda a primeira metade do século 19. Tal processo prenunciava a transição da sociedade senhorial para a empresarial, do trabalho escravo para o assalariado, da monarquia para a República.

AUTORA – Katia Saisi

FONTE – http://editoraunesp.com.br/blog/diferentes-olhares-sobre-nossa-historia-permitem-pensar-o-brasil-de-maneira-profunda