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UMA ÓTIMA INICIATIVA – MOSTRA PROMOVE PASSEIO PELA HISTÓRIA DO RN EM CAICÓ

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FONTE – http://papocultura.com.br/491-2/#.WKOVukZaJDw.facebook

O município de Caicó abriga a partir desta quinta-feira (16) até dezembro uma grande mostra que retrata a história e cultura do Rio Grande do Norte inspirada na obra do escritor Luís Câmara Cascudo.

A exposição “Descobrindo o Rio Grande do Norte com Luís da Câmara Cascudo” estará aberta ao público seridoense, sempre de segunda à sexta, das 8h às 16h30, no Centro de Educação José Augusto (Ceja), localizado à Rua Zeco Diniz, S/N, Penedo, Caicó. Visitas de escolas e entidades poderão ser marcadas pelo telefone 3417 1715.

A exposição, promovida pelo Governo do Estado, através da Fundação José Augusto, exibe peças que revelam os detalhes da linha do tempo do Estado e seu contexto no Brasil e no mundo, destacando também aspectos fundamentais da cultura seridoense.

Haverá uma recepção onde estão instalados textos sobre a história da região com ênfase na obra musical com apresentação de canções alusivas a região e na exibição de figuras rupestres.

Para ilustrar a mostra foi produzido um catálogo especial com 46 páginas que detalha o conteúdo apresentado com ilustrações, informações históricas e culturais sobre a história e a cultura do Rio Grande do Norte, destacando a vida social, o folclore, a formação étnica, entre outros temas.

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História do RN

Recortes da obra literária do etnógrafo conduzem o passeio pela história, desde a chegada dos portugueses, a tradição dos índios locais, a invasão holandesa, a fundação da cidade e seu desenvolvimento, o papel de Natal na 2ª Guerra Mundial, até o panorama atual. A mostra toma como base o livro História da Cidade do Natal, do autor potiguar.

A iniciativa consiste em um passeio entre os corredores históricos e galerias do Memorial, guiado pelo próprio Câmara Cascudo, através de recortes da sua obra literária. O visitante deverá viajar ao longo de mais de 500 anos de história, desde a chegada dos portugueses às nossas terras, os índios potiguares, o domínio holandês, a fundação de Natal, seus períodos áureos e conflituosos, o papel da cidade na 2ª Guerra Mundial, até chegar aos dias de hoje.

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A mostra é composta por grandes painéis, bonecos em tamanho real de personagens ilustres e heróis potiguares, artefatos, livros, miniaturas, além de uma diversidade de objetos museológicos. Em cada trecho da exposição, painéis estampam textos de Câmara Cascudo, mapas, cartas náuticas, pinturas, fotografias, tudo em busca de se aproximar do visitante e despertar nele o interesse e valorização pela história potiguar e pela obra de Cascudo.

Uma outra parte da mostra aborda as principais ações desenvolvidas pelo Governo do Estado que apontam para o futuro, como as obras realizadas nas áreas de saneamento, estradas, saúde, educação e recursos hídricos e outros setores essenciais.

NATAL, 1935: QUATRO DIAS SOVIÉTICOS

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A bandeira de Natal com a estrela, a foice e o martelo | Crédito: Montagem Fabio Marton

A capital do Rio Grande do Norte viveu sob um breve regime comunista

Autor – Marcus Lopes

Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/terra-brasilis/natal-1935-dois-dias-sovieticos.phtml#.WEyVPYWcHIV

Durante quatro dias, o Brasil viveu a experiência de um governo comunista. Foi em 1935, em Natal, no Rio Grande do Norte. Após um levante militar ocorrido no Batalhão do Exército, a capital potiguar caiu nas mãos dos rebeldes, que destituíram os governantes locais dos seus cargos – incluindo o governador do estado e a Assembleia – e assumiram o poder com apoio do Partido Comunista Brasileiro (PCB), liderado por Luís Carlos Prestes. Sob o lema “pão, terra e liberdade”, os revolucionários almejavam dar o pontapé inicial para a instalação de um regime soviético no Brasil.

O levante começou na manhã de 23 de novembro, um sábado. O dia em Natal, que contava com cerca de 40 mil habitantes, começou calmo e prometia poucas novidades. A principal notícia era uma formatura no Teatro Carlos Gomes, à noite, que contaria com a presença do governador Rafael Fernandes.

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Cais da Tavares de Lira, no bairro da Ribeira, em Natal. Uma provinciana capital do Nordeste do Brasil.

No quartel militar do 21º Batalhão de Caçadores (21º BC) o dia também corria tranquilo até que chegou a informação de que o general Manuel Rabello, comandante da 7ª Região Militar, no Recife, havia autorizado o licenciamento de alguns cabos, soldados e tenentes que estavam com tempo vencido na carreira militar e a expulsão de outros, acusados de envolvimento em incidentes de rua ocorridos dias antes em Natal, incluindo assaltos a bondes.

O documento com a ordem de expulsão precipitou um movimento que estava sendo articulado havia vários dias entre lideranças militares e sindicatos locais junto com membros do PCB estadual. O objetivo era apoiar a revolução nacional que estava sendo preparada pela Aliança Nacional Libertadora (ANL), no Rio.

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O 21º Batalhão de Caçadores

“Havia uma preparação para o levante sob a direção do Partido Comunista, que atuava no 21º Batalhão de Caçadores e em vários sindicatos locais. Eles apenas aguardavam as orientações do comitê central”, afirma Homero de Oliveira Costa, professor de ciências políticas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e estudioso da insurreição de Natal. Somando-se a isso, Costa lembra que a cidade já vivia momentos de tensão política desde o ano anterior. “O Rio Grande do Norte teve uma das mais tumultuadas eleições do país, com diversos conflitos de ruas, assassinatos, prisões e repressão. Isso criou uma situação muito tensa no Estado, e em Natal em particular”, diz.

Erro de comunicação

Os acontecimentos daquele sábado se precipitaram de tal maneira que não houve tempo nem de avisar a ANL, cujos líderes (incluindo Prestes) aguardavam o melhor momento para eclodir a revolução em nível nacional. Em função das expulsões ordenadas pelo comando militar no Recife, o PCB estadual e os integrantes do Batalhão decidiu dar início ao motim naquele mesmo dia.

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Luís Carlos Prestes – Bundesarchiv; BArch

Por volta das 19h30, um grupo de militares rebeldes, liderados pelo sargento Quintino Clementino de Barros, rendeu os oficiais de plantão do quartel e, com fuzis apontados para a cabeça dos soldados, ordenaram: “Os senhores estão presos em nome do capitão Luís Carlos Prestes”. Não houve resistência e, a partir daí, os revolucionários, liderados por Quintino e apoiados por grupos civis organizados (como o sindicato dos estivadores, que era muito forte na cidade), tomaram o quartel e ocuparam locais estratégicos: o palácio do governo, a Vila Cincinato – residência oficial do governador -, a central elétrica, a estação ferroviária e as centrais telefônica e telegráfica.

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Resultado do ataque comunista ao Quartel da Salgadeira, no Centro de Natal.

Informado sobre a confusão e a organização dos amotinados ainda na cerimônia dos contabilistas, o governador e demais autoridades civis e militares fugiram e se esconderam na casa de aliados. No quartel da Força Pública, cuja sede ficava próxima ao batalhão rebelado, ensaiou-se uma resistência legalista com policiais fiéis ao governo, vencida pelos militares rebeldes, no momento mais organizados e bem armados.

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Quintino Clementino de Barros, militar e músico do 21º Batalhão de Caçadores, presidente do Comitê Popular Revolucionário, quando já preso pelas forças do governo.

Na manhã seguinte, Natal estava completamente dominada. Na residência do governador, sede dos rebelados, formou-se uma junta provisória de governo, autodenominada Comitê Popular Revolucionário, que era formada pelo sapateiro José Praxedes (secretário de Abastecimento); sargento Quintino Barros (Defesa); Lauro Lago (Interior e Justiça); estudante João Galvão (Viação); e José Macedo (Finanças), este último funcionário dos Correios e Telégrafos.

Em seguida, o Comitê Revolucionário começou a tomar medidas práticas. A primeira foi um decreto com a destituição do governador do cargo e a dissolução da Assembleia Legislativa “por não consultar mais os interesses do povo”. As tarifas de bondes foram extintas e o transporte coletivo tornou-se gratuito.

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De cigarro vemos Mário Lago, ex-diretor da Casa de Detenção de Natal e Mário Paiva, comissários do Comité Revolucionário, quando detidos.

Na segunda-feira, o comércio e os bancos não abriram. À tarde, foi ordenado o saque dos cofres da agência do Banco do Brasil e Recebedoria de Rendas. O dinheiro foi confiscado em nome do governo revolucionário e parte dele distribuído à população, que adorou a novidade, mesmo sem ter muita noção do que estava acontecendo.

Pura farra

“A população confraternizava com os rebeldes. Era mais uma festa popular ou um carnaval exaltado, do que uma revolução”, explica o historiador Hélio Silva em seu livro 1935 – A Revolta Vermelha. “Casas comerciais foram despojadas de víveres, roupas e utensílios domésticos que aquela gente não podia comprar. Houve populares que, pela primeira vez, comeram presunto”, de acordo com o historiador.

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Da esquerda para direita vemos o ex-sargento Diniz, do 21º Batalhão de Caçadores, José Macedo, ex-tesoureiro dos Correios e Telégrafos e João Baptista Galvão, considerados “figuras salientes” do governo comunista instalado em Natal em novembro de 1935.

Um dos líderes do movimento, João Galvão, relatou posteriormente o que aconteceu naqueles dias: “O povo de Natal topou a revolução de pura farra. Saquearam o depósito de material do 21º BC e todos passaram a andar fantasiados de soldado. Minha primeira providência como ‘ministro’ foi decretar que o transporte coletivo seria gratuito. O povo se esbaldou de andar de bonde sem pagar”.

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Líderes comunistas do levante natalense presos pelas forças legalistas.

Para se comunicar com a população, um avião foi confiscado no aeroporto e sobrevoou a cidade despejando milhares de folhetos. No curto período em que se mantiveram no poder, os revolucionários também distribuíram o primeiro e único número do jornal A Liberdade, impresso nas oficinas da Imprensa Oficial do Estado. Nele, foi publicado o expediente do novo governo e um manifesto, inspirado no programa do PCB e sob o lema “todo poder à ANL”.

Cada um por si

Segundo o professor Homero Costa, o pouco tempo em que permaneceram no poder impediu que os revolucionários tomassem outras medidas práticas. “Houve boatos de que na Vila Cincinato estavam distribuindo alimentos à população, o que levou muita gente a se deslocar para lá, mas não era verdade”, diz Costa.

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Foto que mostra os efeitos do arrombamento do cofre da agência do Banco do Brasil em Natal.

Mesmo assim, algumas medidas típicas de regimes de exceção foram tomadas naquele começo de semana, como salvo-condutos para circulação nas ruas e ordens para que o comércio e os bancos funcionassem normalmente, o que, claro, não aconteceu. “Os comerciantes foram orientados a negociar como de costume, sem estocarem alimentos para elevar os preços. Caso isso ocorresse, os estoques seriam confiscados pelo governo”, diz Elias Feitosa, professor de história do Brasil do Cursinho da Poli, lembrando que alguns gêneros alimentícios, como o pão, também tiveram o preço reduzido.

O levante não ficou restrito a Natal. Houve uma interiorização do movimento no Rio Grande do Norte. “Foram formadas três ‘colunas guerrilheiras’ que ocuparam 17 dos 41 municípios do estado, destituindo prefeitos e nomeando outros”, diz Homero Costa.

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“Foi bala muita” – Fachada do Quartel da Salgadeira, atingido por disparos efetuados pelos comunistas.

Pequenas localidades, como São José de Mipibu, Ceará Mirim e Baixa Verde (atual município de João Câmara) foram ocupados sem resistência e os prefeitos substituídos por simpatizantes da ANL. Agências bancárias e do governo (as coletorias de renda) foram saqueadas e o dinheiro enviado para a capital. Na terça-feira, a intentona potiguar começou a revelar sua fragilidade com a movimentação de tropas do Exército da Paraíba e de Pernambuco rumo a Natal para debelar o movimento e restabelecer a ordem.

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Sargentos legalistas do Exército Brasileiro, que ficaram prisioneiros dos comunistas no quartel do 21º Batalhão de Caçadores.

Em uma localidade chamada Serra do Doutor, um dos grupos da ANL foi preso por tropas leais a Getúlio Vargas. Informados de que tropas federais entrariam em Natal e com a possibilidade de bombardeamento aéreo, os líderes do “governo revolucionário” fugiram na base do cada um por si. Um deles, Praxedes, viveu foragido durante anos. Os demais foram capturados e enviados para o Rio de Janeiro com outros presos políticos, como o escritor Graciliano Ramos.

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De chapéu de palha vemos Dinarte Mariz, tendo ao seu lado Enoch Garcia, considerados os idealizadores da resistência ao avanço comunista no Seridó Potiguar, que se efetivou com o combate na Serra do Doutor. Certamente que politicamente Dinarte foi um dos que mais usufruiu politicamente da sua suposta ação de resistência contra as forças comunistas, chegando a se tornar governador e senador pelo Rio Grande do Norte.

O mesmo aconteceu nas cidades do interior. Com a fuga, os militares enviados pelo governo federal não tiveram dificuldades de controlar a situação. O governador Rafael Fernandes foi reconduzido ao cargo e, a partir de quarta-feira, dia 27 de novembro, a vida voltou ao normal na cidade que, durante cerca de 90 horas, abrigou, como escreveu Hélio Silva, “o primeiro, único e fugaz governo soviete na história do Brasil.”

Intentona comunista

No mesmo dia em que o “governo comunista” era encerrado no Rio Grande do Norte, o movimento tenentista deflagrava, no Rio de Janeiro, uma insurreição para derrubar o presidente Getúlio Vargas e instaurar um regime comunista no Brasil. Liderado por Luís Carlos Prestes, o levante ficou conhecido como Intentona Comunista, ou Revolta Vermelha. Os amotinados se rebelaram em vários regimentos e batalhões do Rio, mas foram rapidamente sufocados pelas forças de segurança nacional.

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A insurreição estava sendo preparada desde o ano anterior. No final de 1934, Prestes, que estava na União Soviética havia três anos, retornou ao Brasil para organizar a revolução comunista. Acompanhado de sua mulher, Olga Benário, militante do partido comunista alemão, eles desembarcaram clandestinamente com os nomes falsos de Antônio Villar e Maria Villar. Além do casal, vieram outros estrangeiros para ajudar na revolução. Entre eles, o argentino Rodrigo Ghioldi e sua mulher, Carmen; o casal alemão Elisa Sabarowski e Arthur Ewert; os belgas Lion Valle e sua mulher, Alphonsine; o alemão Franz Gruber e o norte-americano Victor Allen Baron.

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Intentona Comunista de Natal de 23 de novembro de 1935 foi notícia em todo mundo, como neste material publicado em um jornal dos Estados Unidos.

Todos, incluindo Prestes, eram militantes da Internacional Comunista, que via no Brasil um terreno fértil para a revolução. “O PCB era uma seção da Internacional Comunista e estava inserido no que a entidade chamava de ‘países coloniais e semicoloniais’, para os quais havia estratégias revolucionárias distintas. No caso, ao contrário dos países capitalistas ‘avançados’, a estratégia era a via insurrecional”, explica o cientista político Homero Costa, da UFRN, sobre a participação do Komintern no movimento de 1935, que registrou ações em Natal, Recife e no Rio. Após a rebelião em Natal, ocorreu um efeito dominó em outras praças que também estavam sendo preparadas e treinadas para a revolução.

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“O que ocorreu em Natal pegou todos de surpresa, inclusive o comitê central. Os levantes no Recife, no dia seguinte ao de Natal, e no Rio de Janeiro, foram em consequência dessa precipitação”, diz Costa, lembrando que a insurreição nacional estava planejada apenas para o início de 1936.

“O levante de Natal fez parte do contexto da Intentona Comunista. A ideia era que a revolução fosse em escala nacional. Porém, nem todas as guarnições envolvidas se engajaram ao mesmo tempo”, diz o historiador Elias Feitosa. A ação da Internacional serviu como justificativa para que Getúlio Vargas instaurasse o Estado Novo, em 1937.

DOS FUNDADORES DO SERIDÓ PORTUGUÊS

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Serra da Rajada, Seridó Potiguar – Fonte – Rostand Medeiros

Autor – Fernando Antonio Bezerra – Potiguar do Seridó. Iniciante no ofício de escrever sobre fatos e personalidades do Seridó amado. É advogado e membro do Instituto de Genealogia do Rio Grande do Norte.

Fonte – http://www.substantivoplural.com.br/87364-2/

José Augusto Bezerra de Medeiros, além de político, foi um grande pesquisador a respeito das coisas do Seridó. Felizmente deixou vários apontamentos impressos que servem de pesquisa e, de fato, ajudam a estabelecer o elo entre o presente e o passado. De início, confirmando outros tantos estudos já feitos, José Augusto comenta que “na zona do Seridó, por exemplo, certo e seguro é afirmar que todo movimento povoador decorreu da necessidade de encontrar espaço para a localização de fazendas de criação de gado”. Acrescenta, ainda, que, durante algum tempo, foi o Rio Grande do Norte o principal fornecedor de carne bovina para as Capitanias da Paraíba e Pernambuco. Presente, portanto, desde o início, nossa vocação para a pecuária e, de certa forma, o longo aprendizado que nos permite, mesmo diante de secas inclementes, criar e manter rebanhos bovinos no Seridó que a gente ama.

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Fonte – http://www.elo7.com.br/brasao-da-familia-medeiros/dp/3A367E

E os primeiros grandes núcleos familiares se estabeleceram, em regra, em função da pecuária. José Augusto menciona o que chama de fundadores das primeiras famílias do Seridó: 1) Araújo, com Tomaz de Araújo Pereira e Maria da Conceição Mendonça; 2) Dantas, com Caetano Dantas Correia e Josefa de Araújo Pereira; 3) Medeiros, com Rodrigo de Medeiros e Apolônia Barbosa; Sebastião de Medeiros e Antonia de Morais Valcacer; 4) Galvão, com Cipriano Lopes Galvão e Adriana de Holanda Vasconcelos; 5) Garcia, com Antonio Garcia de Sá e Maria Dorneles Bitencourt; 6) Bezerra, com José Bezerra Menezes e Maria Borges de Sacramento; 7) Monteiro, através de Manuel Pereira Monteiro e Teresa Tavares de Jesus; 8) Nóbrega, com Manuel Alves de Nóbrega e Maria José de Medeiros; 9) Silva, com Francisco Gomes da Silva e Maria Joaquina dos Santos Dantas; 10) Faria, com Joaquim Álvares Gomes de Faria e esposa; 11) Azevedo, com Antonio de Azevedo Maia e Josefa Maria de Almeida; 12) Fernandes, com Cosme Damião Fernandes e Isabel Maria de Araújo Fernandes. Outras famílias – Brito, Álvares, Pires, Alves dos Santos, Batista, Queiroz, Vale, por exemplo – também são antigas no nosso lugar, entretanto, o trabalho de pesquisa de José Augusto não investiga os fundadores dos primeiros núcleos, lacuna que já foi preenchida por outros pesquisadores, sobre os quais em outro momento conversaremos.

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Fonte – http://www.substantivoplural.com.br/87364-2/

De todo modo, particularizando a família Medeiros, numerosíssima em todo o Seridó, José Augusto reafirma que os irmãos Rodrigo e Sebastião são portugueses e se instalaram na Região, proximidades do Sabugi, nos limites do que hoje é Santa Luzia, na Paraíba. Os irmãos Medeiros conseguiram casamento por aqui com Apolônia e Antônia, irmãs entre si, filhas de Manuel Fernandes Freire e de Antônia de Morais. Uma pesquisa mais aprofundada da Família Medeiros/Dinoá complementa, sem contrariar os apontamentos de José Augusto, que Rodrigo e Sebastião são filhos de Manuel Afonso de Matos, Alferes, e Maria de Medeiros Pimentel, naturais da Ilha de São Miguel, nos Açores, Portugal e, por lá, eram da família Matos. Migraram para o Brasil na primeira metade do século XVIII, passaram a usa r o sobrenome Medeiros e deixaram aqui numerosa descendência.

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Os laços e abraços entre as famílias do Seridó são intensos. Por muitos anos, inclusive, a preferência das famílias era o casamento entre parentes. Razões para tanto não faltavam. Desde a preservação do patrimônio até o fato de que a população era menor, os eventos sociais raros, as distâncias maiores, enfim, muitas vezes não existia sequer a oportunidade do encontro entre os jovens. Ademais, de um tempo para frente, o fluxo migratório inverteu, ou seja, deixamos de receber outras famílias. Ao contrário, começamos a sair para outros centros e espalhar o sangue bom do Seridó em lugares como Natal, Recife, Campina Grande, São Paulo e Brasília, dentre outros onde os núcleos seridoenses são mais visíveis. Aliás, é relativamente comum em Natal encontrarmos descendentes de famílias seridoenses em uma mesma roda de conversa e, não raro, um ser parente do outro e não saber. Mas, mesmo não tendo o parentesco próximo, o laço de estima à Região nos une e, ao nos unir, é comum a batida no peito e a palavra de orgulho: ei, mas eu também sou do Seridó!

INSPIRADO EM RECORDAÇÕES, ARTISTA POTIGUAR RETRATA COTIDIANO DO SERTANEJO

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Pintura de uma festa junina em Currais Novos (Foto: Assis Costa) – Fonte – G1

‘Não podemos negar nossas origens’, diz o curraisnovense Assis Costa.
Para pintar, ele lembra das brincadeiras de criança e dos banhos de açude.

Nascido na cidade de Currais Novos, no Seridó potiguar, o artista plástico Assis Costa retrata o cotidiano do sertanejo através das próprias recordações. Prestes a fazer 40 anos, o pintor ainda lembra da sensação única de construir os próprios brinquedos, tomar banho de açude e subir em árvores.

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Circo na cidade (Foto: Assis Costa) – Fonte – G1

O gosto pela arte começou cedo. “Quando eu era criança, comecei a experimentar e usar tintas, além de desenhar. Fiz um curso e, com 14 anos, comecei a vender minhas telas”, disse. Hoje, ele vive da venda das obras.

Com mais de 15 exposições durante a carreira, Assis tem uma preferida. Em 2012, fez uma mostra chamada ‘Seridós’. Ao portal G1, ele disse que foi uma maneira marcante de expor a cidade para quem não conhecia. “Quero ressaltar meu respeito pela cultura potiguar. O que eu vejo é que a religião é muito forte no interior, principalmente a católica. A fé, a paisagem e o povo sertanejo são minhas maiores inspirações”.

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Paisagem do Seridó (Foto: Assis Costa) – Fonte – G1

Os trabalhos sobre o Seridó continuam. “Minha memória reflete em tudo que produzo. Uma das minhas telas mostra como era quando um circo chegava a cidade. Era extraordinário. Toda a população assistia os espetáculos. E é esse o sentimento que procuro demonstrar”, relembrou.

Assis também lembra de situações engraçadas que serviram de inspiração. “Eu estava tomando vinho na casa de um amigo e ele me disse ‘rapaz, você está bebendo muito e daqui a pouco você não vai saber com o que está pintando’, e eu comecei a experimentar o vinho como tinta. E deu certo! Resultou em uma exposição chamada Dom Quixote de Las Manchas de Vinho”, emendou.

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Teatro de João Redondo (Foto: Assis Costa) – Fonte – G1

Não há dúvidas sobre o futuro. “Sempre fui artista e vou continuar sendo. Apesar de morar no interior, pretendo mostrar minhas obras para pessoas do Brasil inteiro, quem sabe até de outros países. Não podemos negar nossas origens. E é por isso que retrato minha cidade com tanto carinho”, afirmou Assis.

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Ceia dos Meninos (Foto: Assis Costa) – Fonte – G1

FONTE – http://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2016/07/inspirado-em-recordacoes-artista-potiguar-retrata-cotidiano-do-sertanejo.html

 

VELHOS VAQUEIROS POTIGUARES – SEU TRABALHO, SEU ORGULHO E SUA LUTA

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Vaqueiro potiguar, sítio Gavião, Sítio Novo-RN – Foto – Rostand Medeiros.

Autor – Rostand Medeiros

Descendo de gente que cavalgou encourado de gibão e perneira junto com seus vaqueiros. De gente que desamassou muito chocalho e desempenou muito badalo. Que cavalgou junto com seu pessoal no meio da caatinga atrás de barbatão bruto. Que escutou belos aboios pelas veredas do sertão, ferrou e tratou de muito bezerro. Que passou muito sebo em gibão, que botou muita peia e apertou muito pau de porteira. Que junto com seus vaqueiros vendeu seus rebanhos nas feiras de Itambé e Pedras de Fogo, que dormiu no meio do mato escutando grilo e acordou com o gado. Que trabalhando em conjunto com seu pessoal recuperou muita rês caída, amansou burro brabo e curou doença com erva do mato. Que sofreu com a seca e rezou junto com seu povo pela volta das chuvas. Que tocou gado desde o Piauí até a sombra da Serra da Rajada. Que amou sua terra, sua gente, respeitou seus vaqueiros e deixou nos seus descendentes a marca e a força do sertanejo nordestino.

Vaqueiro do Nordeste, 1941, bico de pena de Percy Lau
Vaqueiro do Nordeste, 1941, bico de pena de Percy Lau

Mas como viviam e trabalhavam estes vaqueiros?

Um conjunto de textos publicados na imprensa potiguar na última década do século XIX pode ajuda os nossos leitores a conhecerem um pouco mais sobre esta questão!

Fama de Sincero e Solidário

Antes de tudo esses vaqueiros do passado possuíam uma fama que os precediam desde o interior potiguar e chegava até as ruas da pequena capital do Rio Grande do Norte – Uma leal e escrupulosa sinceridade.

E o código era tão forte que se um destes vaqueiros não cumprisse os tácitos compromissos que a profissão impunha era desprezado pelos colegas. Isso não estava escrito, mas era lei entre aqueles homens vestidos de couro.

Vaqueiros paraibanos, década de 1920
Vaqueiros paraibanos, década de 1920

Mesmo a maioria dos vaqueiros sem saber nada de letras, eles chamavam atenção de muitos pela inteligência e capacidade. Conheciam palmo a palmo os campos onde cavalgavam, sabendo com precisão todos os nomes das serras e dos riachos. Tinham na mente todas as marcas (ferros) das fazendas da sua região e mantinha relações com todos que labutavam no mesmo trabalho duro.  

Tinham uma grande capacidade visual e auditiva no meio da caatinga. Escutavam de longe o badalo do sino de algum animal, chegando a distinguir qual animal era pelo som do sino e rastejavam as trilhas de seus animais com enorme capacidade.

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Mas seus conhecimentos práticos eram muito amplos. Só de olhar rapidamente uma rês, além de saberem quem era o dono, sabiam a era (o ano) em que o animal nasceu e se tinha alguma doença. Se fêmea sabiam se estava amojada ou parida. Conservavam por muitos dias as informações sobre um determinado animal visto em alguma parte e, se fosse perguntado por um companheiro, transmitia todos os dados sobre aquele animal em um forte espírito de solidariedade profissional.

Se um vaqueiro encontrava em alguma vereda um animal atolado, com bicheira, ou vítima de algum acidente, este era imediatamente socorrido, fosse ele de quem fosse. E tomavam conta do bicho até o dono aparecer.

Vaqueiros cearenses, década de 1920
Vaqueiros cearenses, década de 1920

Se um animal da fazenda em que um vaqueiro trabalhava estivesse nas terras de outras pessoas, normalmente o dono ou encarregado desta propriedade não negava informações e apoio ao homem encourado que necessitasse andar nas suas terras. Não era difícil que este dono ou encarregado montasse na sua cavalgadura e ajudasse o companheiro a encontrar o animal perdido.

Os cronistas do passado apontaram que os vaqueiros de antigamente tinham uma preocupação constante em saber onde e como estavam as cabeças de gado sob a sua responsabilidade, os “da sua conta” como diziam. Montavam seus alazões e, às vezes com a ajuda dos vizinhos mais próximos, passavam horas vigiando os campos, contando e pesquisando os animais. Salvo nos curtos meses de inverno, esta atividade preenchia muito do tempo de trabalho dos antigos vaqueiros.

Na época chuvosa os vaqueiros não tiravam o olho dos seus animais, mas também pegavam na enxada e cuidavam das roças de milho, feijão, jerimum, melão, etc.

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Durante os meses de seca deixavam os currais vazios e poupavam as vacas, ao ponto de nem tirar leite delas para seu consumo e de sua família. Nestas ocasiões davam leite de cabra para as crianças e dele faziam queijos. Os caprinos eram criados soltos, forneciam carne de ótima qualidade e os vaqueiros ainda faturavam algum com suas peles.

Era também nas épocas de estiagem que se dedicavam a abrir cacimbas nos leitos secos dos rios e de barragens. O resultado deste trabalho servia tanto para consumo humano, quanto dos animais. Mas também tinha outra função – reunir o gado solto.

Naquelas eras passadas este trabalho era feito utilizando juntas de bois, que arrastavam a areia dos leitos dos rios em couros, ou tábuas. Os animais utilizados nestas juntas eram fortes e mansos, sendo conhecidos como “bois de areia”. Diante deste duro trabalho o patrão costumava fornecer aos seus vaqueiros uma “matalotagem”. Ou seja, farinha, sal e uma rês para ser carneada e consumida para matar a fome de todos e repor as energias.]

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Aberta a cacimba e após aflorar um pouco de água em meio a terra ressequida, os vaqueiros ficavam aguardando o desenrolar dos acontecimentos. Estas “esperas” podiam durar três dias ou mais, mas era certo que as cabeças de gado surgiam sedentas do meio da caatinga seca.

O gado que vinha beber possuíam marcas de várias propriedades e era comum que nessas cacimbas ocorressem pequenas e limitadas “apartações”. Os vaqueiros de uma determinada região do interior potiguar reuniam-se sucessivamente em várias cacimbas abertas, juntavam o gado “de sua conta” e levavam para seus currais aquilo de sua responsabilidade. Mas também era comum nestas ocasiões, os vaqueiros apresentarem aos companheiros a sua destreza na montaria e sua perícia na derrubada do boi. Era um aperitivo para o evento maior – a vaquejada…

A Grande Festa de Gado

As vaquejadas da época costumavam acontecer entre maio e junho e as fazendas de maior importância sempre tinham este tipo de evento. Mas diferentemente do que ocorre atualmente, quando a vaquejada é um evento basicamente esportivo, na última década do século XIX as vaquejadas potiguares possuíam um sentido muito prático.

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Na parte específica destinada ao trabalho dos vaqueiros, era um misto do que atualmente costuma se chamar de pega de boi no mato e da atual vaquejada.

Primeiramente um grupo de 50 ou mais vaqueiros, devidamente apetrechado, se reuniam na fazenda de algum fazendeiro de peso financeiro na região e então os grupos saiam em várias direções atrás do gado solto nas caatingas.

Era então marcado um ponto de reunião e para este local, a uma determinada hora marcada pelo andar do sol no firmamento, seguiam todos os vaqueiros com o gado que pudessem reunir. Era o momento que a captura dos animais se tornava uma grande pega de boi no mato.

Barro - CE - Foto - Rostand Medeiros
Barro – CE – Foto – Rostand Medeiros

Com todos os vaqueiros presentes no local e hora determinada, era então organizada uma grande boiada em direção a sede da fazenda, marchando o gado entre uma grande escolta de cavaleiros. A “testa” da boiada seguiam os “guias”, que além de apontarem o caminho, serviam de segurança para evitar o “arranco”, ou estouro, dos animais. Nos lados da boiada e atrás seguiam outros grupos de vaqueiros encourados para evitar a dispersão.

Já no pátio da casa grande da fazenda, além dos proprietários do lugar, se concentrava numerosa plateia formada por pessoas da região.

Conforme o gado chegava aos currais era normal alguma rês mais afoita se dispersar, ou partir em desabalada carreira pelo campo. Nessa hora os vaqueiros mais “amostrados” saiam em disparada nos seus alazões, apresentando sua destreza e capacidade de trazer os animais de volta ao grande grupo, ou derrubando-os para força uma parada e reconduzi-los a boiada.

Barro - CE - Foto - Rostand Medeiros
Barro – CE – Foto – Rostand Medeiros

Os cronistas antigos comentam que não era algo incomum que alguns vaqueiros, com ânsia de se apresentarem para alguma mocinha que estava assistindo a chegada dos animais, “apertarem” a boiada para algum animal fugir em disparada e eles apresentarem sua destreza ao público derrubando o animal no pátio da fazenda.

Mas ao final todos os animais eram colocados nos currais, muitos destes cercados com muros de pedras erguidos por escravos e antiquíssimos. Das “eras dos mais antigos” como diziam!

Então os animais eram liberados no amplo pátio da fazenda um a um, sendo cada um deles perseguidos por um, ou dois vaqueiros encourados, que tentavam derrubar a rês para delírio de todos que ali estavam.

Era um momento de magia pura. Uma verdadeira emulação de embriaguez e vaidade, onde em meio a aplausos, chistes, xingamentos e assovios, aqueles cavaleiros nordestinos vestidos de couro barateavam 100 vezes as suas vidas e onde não eram raros os acidentes mortais para homens e animais.

Serra Talhada - PE - Foto - Rostand Medeiros
Vaqueiros de Serra Talhada – PE – Foto – Rostand Medeiros

Derrubadores de gado afamados eram convidados para os eventos. Mas os cronistas antigos não informaram quem eram estes vaqueiros, de qual região vinham estes homens e nem se havia prêmios em disputa.

Em relação a afamados vaqueiros, os textos mencionaram um certo Pereirinha. Este era um vaqueiro de baixa estatura, muito famoso e que na década de 1890 era lembrado pelos mais antigos pelo seu aboio e sua inteligência. Diziam que Pereirinha tinha tanta capacidade, que ele deveria ter “secretas inteligências com o diabo”.

Normalmente estas vaquejadas do passado duravam em média de dois a três dias e no final era feita a “apartação”, onde cada vaqueiro seguia com o gado “da sua conta”.

Barro - CE - Foto - Rostand Medeiros
Barro – CE – Foto – Rostand Medeiros

Aquelas vaquejadas, aqueles encontros de vários vaqueiros, serviam para muitas coisas no sertão potiguar de outrora. Em uma região com povoamento limitado, onde as poucas festas sociais que haviam tinha forte conotação religiosa, estas vaquejadas eram na sua natureza mais livres e aparentemente proporcionavam farto meio de encontro social. Havia muita troca de notícias, eram realizados diversos tipos de negócios, solução de questões e nestas ocasiões poderiam se consolidar relacionamentos amorosos (o que também podia gerar conflitos, mas isso fazia parte da festa e da vida).

Evidentemente que um encontro de tantos vaqueiros numa única área durante dois a três dias, facilitava a “pega” do gado solto e o amplo cruzamento de vários animais confinados em currais. O que de alguma maneira ajudava no melhoramento da raça bovina.

Caso de um acidente em vaquejada, em Acari - RN, em 1891.
Caso de um acidente em vaquejada, Acari – RN, 1891.

Se atualmente grupos de direitos dos animais observam a vaquejada de uma maneira negativa e busca impor limites a este esporte, na década de 1890 igualmente havia seus críticos. Alguns fazendeiros proibiam a prática em suas propriedades, alegando que, além do perigo físico para os vaqueiros, o barulho e a movimentação espantavam as reses para longe, tornando-as “embravecidas”, ou seja, semisselvagens.

Um dado interessante existente nos jornais potiguares era que naquela época os autores consideravam que a vaquejada estava cada vez mais rara. Entre as razões estavam o fato do gado está “mais manso”.

Apesar das festas e vida aventurosa, aparentemente a vida dos vaqueiros potiguares estava mudando, para pior, na sua relação com seus patrões.

O Lucro dos Patrões Muda Antigas Relações 

A provável quebra das seculares e costumeiras regras de divisão da produção de uma propriedade rural de criação de gado, visando o lucro com a venda de produtos gerados a partir do trabalho dos vaqueiros e de seus familiares, aparentemente estava gerando questionamentos e desconfianças por parte dos vaqueiros potiguares na década de 1890.

Os textos existentes nos jornais potiguares deixaram registradas as características de alguns destes conflitos entre patrões e seus vaqueiros.

Marcas do trabalho do vaqueiro - Barro - CE - Foto - Rostand Medeiros
Marcas do trabalho do vaqueiro – Barro – CE – Foto – Rostand Medeiros

Pelo trabalho de cuidas da terra, zelar o gado e outras obrigações que tinham, os patrões davam aos vaqueiros um quarto de toda produção animal e o leite de vaca, um dos principais alimentos nos sertões.

Mesmo com os trabalhadores encourados habitando em terras que não lhes pertenciam, há séculos que estes viviam e labutavam nos sertões potiguares de maneira muito independente. E, mesmo que estivessem livres da presença constante dos patrões, normalmente seus arraigados códigos ancestrais de honra e de dever lhes impediam de se aproveitarem daquilo que não era deles.

Muitas vezes vamos encontrar os proprietários em suas fazendas apenas em “visitas” anuais, principalmente em época de inverno. Nestas ocasiões os proprietários eram recebidos com extrema atenção e espontânea delicadeza pelos vaqueiros e seus familiares. Onde não era difícil existir entre patrões e empregados o regime de compadrio.

Quando os patrões passavam o “verde” (inverno) nas suas propriedades de criação, seus encarregados lhes entregavam todo leite que necessitavam, reservando para eles e suas famílias muitas vezes apenas o estritamente necessário.

Havia anos, principalmente nas épocas de estiagem, em que os patrões sequer apareciam em suas glebas. Mas, dependendo da localização, não era difícil que seu vaqueiro fosse ao seu encontro levando uns tantos quilos de queijo.

Entretanto, provavelmente pelo aumento do consumo de queijo em áreas urbanas cada vez mais povoadas, alguns proprietários rurais passaram a exigir que seus vaqueiros lhes entregassem a cada ano umas “tantas arroubas de queijo”, equivalentes à metade da produção de leite de cada inverno.

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Os cronistas da época consideravam que os proprietários não tinham “razão na exigência” e em claras letras apontavam a prática como sendo uma “extorsão”, tida como “odiosa”, além de “ridícula”.

Pelas características da região em que viviam, pelas sutilezas do seu modo de vida e da maneira como os vaqueiros realizavam o seu trabalho, os textos apontavam que era interessante evitar “recriminações”, que só serviriam para “desmoralizar a autoridade do amo e afrouxar o zelo do vaqueiro”.

Enganado Pelas Poucas Letras

Outros problemas apontados nos textos dizem respeito às divisões dos bezerros nascidos.

Barro - CE - Foto - Rostand Medeiros
Serra Talhada – PE – Foto – Rostand Medeiros

Quando chegavam os tempos da “ferra” e das “partilhas”, quase sempre realizadas nos mesmos períodos das vaquejadas, o vaqueiro apresentava ao patrão, ou ao seu representante, os bezerros nascidos naquele ano. Estes animais eram divididos, segundo o sexo, em “linhas”, ou lotes. Começava então as “ferragens” de uma das “linhas” e, ferrados três bezerros para o patrão, ferrava-se um quarto animal para o vaqueiro. Isso seguia até esgota-se aquele lote e assim procediam com lotes subsequentes.

Acontecia que muitos lotes não eram múltiplos de 4 e ocorriam as “sobras”. E aí começavam os problemas!

Havia patrões que levavam em conta nas partilhas do ano seguinte os restos que foram indivisíveis por 4. Já outros reuniam as sobras de cada lote e realizavam a partilha sem levar em conta “as sobras das sobras”.

Serra Talhada - PE - Foto - Rostand Medeiros
Serra Talhada – PE – Foto – Rostand Medeiros

Mas muitos patrões desprezavam em proveito próprio os restos excedentes e, fazendo uma partilha desigual, argumentavam para o vaqueiro que seria “impossível tirar-se a 4ª parte de 1, de 2, ou de 3 unidades sem frações”. Vaqueiros com mais iniciativa e algum conhecimento argumentavam com os patrões que, reduzidos os bezerros ao valor monetário, estes poderiam lhes pagar em dinheiro vivo a 4ª parte que lhes era de direito.

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Mas os cronistas apontam que a maioria dos vaqueiros aceitavam estes acordos espúrios por estarem presos aos seus arraigados e seculares códigos de condutas diante dos patrões, ou por puro desconhecimento aritmético. Muitos baixavam a cabeça por precisarem do emprego. E a dispensa de um vaqueiro por um fazendeiro era algo tão importante que poderia se transformar até em notícia de jornal, conforme vemos acima.

Barro - CE - Foto - Rostand Medeiros
Barro – CE – Foto – Rostand Medeiros

Para o caso da divisão da produção de cavalos e mures utilizava-se os mesmos métodos.

Sobre isso um cronista trouxe um caso específico, que mostra como aconteciam naqueles dias algumas relações de ganhos e perdas entre patrões e vaqueiros.

Certo vaqueiro cuidava de seis éguas e esperava ganhar um quarto da produção. Ocorre que no primeiro ano de trato dos animais as éguas só pariram três potrinhos e o patrão, que se regia pelo sistema que um quarto só se poderia tirar de quatro, não deu nada ao seu vaqueiro. No ano seguinte repete-se a mesma situação. No terceiro ano as éguas deram cinco crias e o patrão só lhe deu um animal e nada mais.

Nova geração de vaqueiros - Serra Talhada - PE - Foto - Rostand Medeiros
Nova geração de vaqueiros e suas marcas – Serra Talhada – PE – Foto – Rostand Medeiros

Enfim, foram três anos de trabalho pesado, cuidando de onze potros e recebendo como paga apenas um animal com meses de vida. Quando havia no lote animais com dois ou três anos.

Conclusão

Muito do que acontecia com os vaqueiros potiguares na década de 1890, acontecia com outros vaqueiros em toda a região que depois seria conhecida como Nordeste do Brasil.

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Posso até está equivocado, mas na minha visão atualmente poucos são os vaqueiros potiguares que envergam a tradicional roupa de couro.

Apesar da força da vaquejada moderna no Rio Grande do Norte, pouco são os locais onde existe a prática da pega do boi tradicional.

Na visão do autor deste artigo, a necessidade de utilizar as tradicionais roupas de couro é pequena no Rio Grande do Norte devido ao intenso desmatamento do sertão aqui praticado, com casos inclusive de acentuada desertificação. Isso com certeza é um fator para o desaparecimento em terras potiguares de um dos maiores símbolos da tradição nordestina.

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OUTROS SERTÕES – ESTUDO REVELA A ARQUITETURA RURAL DO SEC. XIX NO INTERIOR DO NORDESTE

A arquitetura rural do século XIX no Nordeste tem características próprias para dar conta de sua produção de rapadura e farinha, assim como encontrar algum conforto — mesmo que modesto — no calor dessa região do sertão potiguar conhecida como Seridó. Com pouco esforço de preservação, há pressa em estudar, documentar e entender a importância dessas construções únicas.

Nathália Maria Montenegro Diniz saiu do Rio Grande do Norte, onde nasceu, cresceu e se formou arquiteta, para fazer a pós-graduação na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Paradoxalmente, veio para a capital paulista para mergulhar ainda mais a fundo na arquitetura das fazendas de sua terra. O resultado é a dissertação de mestrado Velhas fazendas da Ribeira do Seridó (defendida em 2008) e a tese de doutorado Um sertão entre tantos outros: fazendas de gado nas Ribeiras do Norte (em 2013), ambas realizadas sob orientação de Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno. Esses estudos deram origem a um novo projeto de pesquisa, vencedor da 10ª edição do Prêmio Odebrecht de Pesquisa Histórica — Clarival do Prado Valladares, divulgado em dezembro.

JOÃO GAMBARRA E A LUTA PELA MEMÓRIA DOS QUE LUTARAM

O responsável pelo TOK DE HISTÓRIA, junto com o Sr. João Gambarra, no monumento aos combatentes brasileiros da Segunda Guerra Mundial em Santa Luzia, Praíba
O responsável pelo TOK DE HISTÓRIA, junto com o Sr. João Gambarra, no monumento aos combatentes brasileiros da Segunda Guerra Mundial em Santa Luzia, Paraíba-CLIQUE PARA AMPLIAR AS FOTOS.

Um ex-combatente de 96 anos, que mantém vivo no sertão a memória dos paraibanos que lutaram na Segunda Guerra Mundial 

Junto a Rudolf Thales Diniz Lourenço e German Zaunseder, bons amigos que gostam de história, estivemos recentemente no sertão da Paraíba, mais precisamente na cidade de Santa Luzia, também conhecida tradicionalmente como Santa Luzia do Sabugy, onde conhecemos um ser humano muito especial.

Através da minha querida prima Fátima Cavalcanti, respeitada odontóloga que residente em João Pessoa, conseguimos chegar ao Senhor João Bezerra da Nóbrega Gambarra, um odontólogo aposentado, muito respeitado profissionalmente na sua terra e nascido no longínquo ano de 1919.

Rostand Medeiros, Seu João e Dona Dagmar
Rostand Medeiros, Seu João e Dona Dagmar

Verdadeira memória da viva da sua região, tivemos o privilégio e a honra de sermos muito bem recebidos em sua casa, onde ele e sua esposa, Dona Dagmar, foram de extrema cortesia e atenção.

Junto a Seu João conversamos algumas horas sobre a história do nosso sertão nordestino, o cangaço na Paraíba, as antigas revoluções ocorridas na primeira metade do século XX e a Segunda Guerra Mundial.

O interessante foi que descobri que seu pai, o vaqueiro José Alves Bezerra, no início do século XX negociava gado entre a Paraíba e a região do Seridó Potiguar (Santa Luzia é próxima a fronteira do Rio Grande do Norte). José Alves também trazia gado do distante Piauí, percorrendo antigos caminhos coloniais, aonde seus negócios chegavam a alcançar a região da Serra da Rajada, próximo ao Rio Carnaúba e da pequena vila homônima ao rio. Ali mantinha negócios e tinha amizade com o fazendeiro Joaquim Paulino de Medeiros, conhecido como coronel Quincó da Ramada e meu bisavô. Através de Seu João soube interessantes detalhes do ataque que a minha família sofreu de cangaceiros supostamente comandados por Chico Pereira, no dia 1 de fevereiro de 1927, na Fazenda Rajada, município de Acari. O papo rolou solto!

O amigo German Zaunseder, argentino de Buenos Aires e descendente de alemães, conhecendo o sertão potiguar. Ao fundo a Serra da Rajada.
O amigo German Zaunseder, argentino de Buenos Aires e descendente de alemães, conhecendo o sertão potiguar. Ao fundo a Serra da Rajada.

Já em relação a segunda Guerra Mundial Seu João contou que foi o terceiro sargento Gambarra, lotado entre os anos de 1942 e 1945 no 40º Batalhão de Caçadores da cidade de Campina Grande. Ele não seguiu para a Itália com a FEB – Força Expedicionária Brasileira, mas vivenciou a partida de amigos e a tristeza da perda de alguns deles em combate. Esteve vigilante nas nossas praias, patrulhando extensas faixas do então praticamente deserto litoral paraibano.

Mas o fato mais intenso e relevante da nossa visita foi quando Seu João, com extremo orgulho e satisfação, levou os três amantes da história vindos de Natal até o monumento existente em sua cidade para honrar a memória dos ex-combatentes paraibanos que participaram da Segunda Guerra Mundial.

Localizado as margens da BR-230, que corta toda Paraíba de lesta a oeste, o monumento impressiona bela beleza e singeleza. Encimado por três grandes pilares retangulares que sustentam uma grande coluna, possui no alto uma estátua que representa um combatente brasileiro da Segunda Guerra. Nos três pilares que servem de base estão os nomes dos paraibanos que seguiram para a Itália e dos que protegeram nosso litoral, além dos símbolos da FEB e do 5º Exército dos Estados Unidos. Não faltam os nomes daqueles que participaram do conselho gestor para a existência deste monumento, entre eles está o nome de João Gambarra. Foi uma visita muito especial.

German, Rudolf e Seu João no monumento de Santa Luzia
German, Rudolf e Seu João no monumento de Santa Luzia

Após o fim da guerra Seu João estudou em Recife, onde se formou em odontologia. Foi amigo de turma do respeitado odontólogo potiguar Sólon Galvão.

O Seu João Gambarra é sempre prestigiado pelo Exército Brasileiro
O Seu João Gambarra é sempre prestigiado pelo Exército Brasileiro

Seu João é um homem que possui uma lucidez, uma vitalidade e um prazer pela vida que são fantásticos!

Rijo, lúcido, ativo, seus olhos brilham ao relembrar o passado. Ao lembrar-se do velho sertão que não existe mais, da época da guerra e dos que partiram. Mas Seu João vive a vida cada momento intensamente, onde memorizar este passado não é um peso, mas uma satisfação. Uma satisfação que ele faz questão de dividir, principalmente com os mais jovens. Mas ele se entristece ao comentar que atualmente poucos se interessam pela história.

Rudolf junto ao AT-26 Xavante da FAB, espetado em Parelhas, Rio Grande do Norte, ao lado da Igreja de São Sebastião
Rudolf junto ao AT-26 Xavante da FAB, espetado em Parelhas, Rio Grande do Norte, ao lado da Igreja de São Sebastião

Espero na minha vida poder encontrar outras pessoas como João Gambarra.

Um encontro destes não seria tão especial se não tivesse ao meu lado amigos que também gostam de história. Rudolf Lourenço é paraibano de Campina Grande, radicado em Natal, estudou economia na UFRN, é casado com a minha amiga Erika Leite e possui um grande interesse na história Segunda Guerra por influência de seu pai Josemar Lourenço da Silva, tenente da reserva da FAB.

Já German Zaunseder é argentino de Buenos Aires, estudou direito na Universadad Federal de Buenos Aires, reside em Natal há seis anos, é casado com uma potiguar, tem um filho de quatro anos e um grande interesse na história da Segunda Guerra Mundial por razões pessoais. Sua família é originária da Bavária, mas emigrou para a cidade de Duseldorff, onde nasceu seu tataravô Siegfredo.

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Por uma razão que German desconhece, seu tataravô colocou em um dos seus filhos o nome muito pouco germânico de Antônio Zaunseder, avô do nosso amigo. Fugindo da crise que se abateu sobre a Alemanha após a Primeira Guerra Mundial, a família Zaunseder emigrou para a Argentina no início da década de 1920. Mas em 1939 os homens em idade de servirem as forças armadas de Hitler retornaram ao país de origem para lutar na guerra. Segundo German os irmãos do seu avô morreram em combate, mas Antônio sobreviveu, falecendo na Alemanha em 1954. Entretanto nosso amigo desconhece como foi a história do seu avô na Wehrmacht.