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O DRAMA DE SANGUE ENTRE A PROSTITUTA E O CANGACEIRO EM CAMPINA GRANDE

AMÉLIA E O CANGACEIRO SERROTE


Autor – Rostand Medeiros

As primeiras décadas do século XX foram tempos bem difíceis para qualquer mulher no Brasil. Era um período estranho, insatisfatório, cheio de aspirações ingratas em meio a uma sociedade dominada pelos homens.

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Era um tempo onde a mulher era vista como uma criatura diferente, onde se ofuscou suas qualidades e habilidades, onde o padrão duplo de moralidade privilegiava os homens no que se referia a absolutamente tudo[1].

Quem ainda tinha pais que se esmeravam em dar as suas filhas alguma educação, proporcionada por uma melhor condição financeira e social, poderia fazer esta jovem sonhar em ser uma professora, praticamente a única profissão aceita para as moças ditas de boa família.

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Já quando uma mulher vinha de uma classe menos abastarda e a educação e os recursos eram limitados, ela poderia almejar ser uma empregada doméstica, trabalhando em condições desprezíveis e com salários miseráveis. Isso quando recebiam salário![2]

Permanecer solteira era considerado uma verdadeira desgraça e aos trinta anos uma mulher que não fosse casada já era chamada de velha solteirona.

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Foto ilustrativa que mostra a diferença do padrão de vestuários entre homens e mulheres no início do século XX no Brasil. Percebemos que até na vestimenta as mulheres seguiam rígidas normas – Fonte – José Valdir Nogueira, de Belmonte-PE

E estando nesta condição, como essas mulheres sobreviviam depois que seus pais morriam? O que elas podiam fazer? Para onde poderiam ir?

Se tivessem um irmão, ou uma irmã com um cunhado benevolente poderia viver em suas casas, como hóspedes permanentes e indesejados. Ou então se tornavam freiras, o que às vezes nem era tão simples.

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A típica filha de “boa família” – Fonte – – Fonte – Enciclopédia Nosso Século, Livro 1 – 1900/1910, Editora Abril, 1980, pág. 29.

Diante da pouca importância social dada as mulheres naquela sociedade arcaica, cedo as jovens brasileiras compreendiam que a instituição do casamento era única porta aberta para uma vida que fosse respeitável, pretensamente mais segura e menos difícil. 

Seguindo essa linha de pensamento, muitos pais acreditavam que uma educação séria para suas filhas era algo supérfluo. Sendo assim os bons modos, prendas domésticas e saber cuidar dos filhos e do marido seriam o suficiente para elas. Este era um pensamento comum, onde aprender aritmética não ajudava as filhas a encontrar um bom partido[3].

O cotidiano dessas mulheres então se baseava quase que totalmente nos afazeres domésticos. Muitas delas não tinham interesse para a instrução e a consciência de mudança através do conhecimento era quase inexistente.

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Prostituta do início do século XX no Brasil – Fonte – Enciclopédia Nosso Século, Livro 1 – 1900/1910, Editora Abril, 1980, pág. 29.

Mas está casada por si só não era garantia alguma de estabilidade e uma vida sem privações. Neste contexto certamente não poderia haver nada de pior, de mais terrível, se algumas destas mulheres casadas fossem abandonadas pelos seus companheiros[4].

Nesse caso, se a mulher abandonada não tivesse uma estrutura familiar preparada para lhe apoiar, ficaria exposta à miséria. Mas é bom lembrar que naquela época a maioria das mulheres abandonadas pelos companheiros era terrivelmente discriminada pela família e pela sociedade.

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Em 1912 o fotógrafo americano John Ernest Joseph Bellocq se aventurou por Storyville, o distrito da “luz vermelha” de New Orleans. Mas ele estava lá apenas pelo trabalho. Bellocq nunca conseguiu publicar as imagens, que só foram descobertas muito tempo após a sua morte. Lee Friedlander foi quem as encontrou em uma pasta empoeirada no velho estúdio do fotógrafo. Ele cuidou para que eles fossem impressos e liberados ao público – Fonte -https://www.ideafixa.com/as-prostitutas-de-new-orleans-em-1900/

Para muitas mulheres então a única maneira de não passar fome naqueles tempos duros era a prostituição (do latim “prostituere”: “colocar diante”, “à frente”, “expor aos olhos”)[5].

Os homens acreditavam (e muitos ainda acreditam) que as prostitutas vendiam seus corpos em um ato livre de busca pelo prazer, apenas para satisfazer seus desejos carnais, suas taras. Esquecendo que estas mulheres eram (e ainda são na maioria dos casos), impulsionadas à prostituição devido a elementos de diversas ordens.

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Marinheiros norte-americanos negociando com prostitutas em um prostíbulo do Rio de Janeiro no início do século XX – Fonte – Fonte – Enciclopédia Nosso Século, Livro 1 – 1900/1910, Editora Abril, 1980, pág. 28.

Entre outras causas estavam as deficiências no meio familiar (era comum o fato de muitas mulheres terem sido violentadas pelos membros da sua própria família), ou uma gravidez inesperada com a consequente expulsão de casa e a falta de capacitação para desenvolver uma profissão que lhe sustentasse. Assim a prostituição em troca de favores, de sobrevivência, revelou-se uma opção[6].

A Mulher Livre de Campina Grande

Estudiosos e pesquisadores acreditam que as características de como se apresenta nos dias atuais aquela que é considerada “a profissão mais antiga do mundo”, é um resultado direto do desenvolvimento urbano. E o Brasil do início do século XX, não obstante ainda possuir sua economia atrelada basicamente a produção rural, começou a viver uma nova fase de sua história econômica.

Décadas antes havia sido extinta a estrutura escravista e as primeiras práticas capitalistas tornavam-se presentes no meio econômico do país. Logo essas mudanças ocasionavam profundas alterações nas relações sociais em algumas regiões do Brasil, modificando substancialmente muitos núcleos urbanos[7].

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Luz elétrica em Campina Grande no ano de 1912 – Fonte – http://karinamariahistoria.blogspot.com.br/2012/05/luz-eletrica-na-paraiba.html

E uma cidade chamada Campina Grande, localizada no interior da Paraíba, aproveitou soberbamente as mudanças que surgiram no horizonte econômico do país e mudou para sempre a sua história, tornando-se uma referência no Nordeste do Brasil.

A história desta urbe possui características similares a criação de muitas localidades nordestinas no final do século XVII – Uma pequena propriedade agropecuária que gradativamente vai ampliando sua população na medida em que ocorre o seu desenvolvimento econômico. Mas no caso de Campina Grande a sua criação certamente foi acompanhada de uma interessante percepção geográfica dos seus criadores, pois o lugarejo estava fadado a se tornar um grande entreposto comercial da região.

Conforme o lugarejo crescia ele tornou-se um ótimo ponto de apoio para pessoas que se deslocavam entre o litoral e o interior da província, além de ser um bom ponto de parada para aqueles que negociavam produtos como carne, roupas de algodão e farinha. Campina Grande começou a ter em 1790 um governo formal, constituído por um conselho da cidade e um cartório.

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Imagem de Procissão em 1912 na Rua Maciel Pinheiro, em Campina Grande – Fonte – Acervo do Museu Histórico e Geográfico de Campina Grande / http://www.ufcg.edu.br/~historia/ppgh/index.php/processo-seletivo/category/14-dissertacoes-2012?download=109:joao-paulo-franca-cidade-e-imagens-cronicas-visuais-das-ruas-de-campina-grande-pb-1900-1950

Embora existisse muita atividade comercial, havia muito pouca construção real de casas e prédios do governo, tanto que no final do século XIX a cidade só possuía cerca de 500 habitações. O desenvolvimento da localidade foi estimulado pelo crescimento da indústria regional de algodão e a introdução da ferrovia, tanto como via de escoamento deste produto agrícola, como via de chegada de produtos manufaturados mais baratos e variados que impactaram a economia local de forma radical. Isso tudo causou a transformação de uma pequena aldeia com cerca de 2.800 pessoas em 1872, para uma movimentada cidade com 38.303 habitantes em 1900[8].

E é em meio a essa cidade pulsante, em franco crescimento em uma região pobre, onde o dinheiro é presente e circulante, que vamos encontrar no ano de 1915 a jovem Amélia Mendes da Silva.

Esta é uma mulher que naquele ano tinha 28 anos de idade, nasceu na localidade de Serraria, a cerca de 80 quilômetros ao norte de Campina Grande, e para sobreviver proporcionava prazer aos homens da terra com seu corpo e seus atributos sexuais[9].

Atacada Por Um Cangaceiro

Sabemos que Amélia era separada de João Bento da Silva, mas não sabemos a razão de sua separação e nem a razão da sua entrada no ramo da prostituição. Mas em 1915 ela aparentemente estava conseguindo tocar sua vida naquela atividade com certa garantia de sobrevivência.

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Isso fica um tanto claro na única foto existente de Amélia. Ela mostra uma mulher com traços faciais interessantes e proporcionais, com belos lábios carnudos, utilizando um chapéu típico das mulheres urbanizadas da época. Vemos igualmente Amélia utilizando uma roupa com um interessante bordado e dois grandes colares em volta do pescoço. Sendo estes colares de ouro (o que infelizmente não consegui nenhuma indicação), apontaria claramente que Amélia não fazia seu trabalho em um prostíbulo, os populares cabarés. A jovem paraibana era uma prostituta independente, ou isolada, aparentemente sem ter a sombra de um cafetão para ditar regras, que habitava na sua própria casa, escolhia com quem teria as suas relações sexuais, quanto ganharia por cada programa. Assim ela poderia atender um menor número de homens e consequentemente ter uma renda melhor.

Assim Amélia evitava viver em uma casa normalmente com sérios problemas de higiene, onde as mulheres que ali trabalhavam eram obrigadas a receber todos aqueles que frequentavam o bordel e tinham pouco repouso proporcionado pelas donas dos prostíbulos. Além de estarem mais próximas da violência devido à alta rotatividade dos clientes.

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Prostituta em 1900 – Foto de John Ernest Joseph Bellocq – Fonte – https://www.ideafixa.com/as-prostitutas-de-new-orleans-em-1900/

Mesmo assim a forma como Amélia praticava a sua profissão não lhe isentava de sofrer alguma violência. E foi isso que lhe aconteceu de forma contundente em maio de 1915, quando dois homens lhe aplicaram uma terrível surra em sua casa e lhe estupraram com extrema violência.

Esse ataque bestial teria sido realizado, segundo comentaram seus algozes, a mando de um cliente enciumado com a prostituta paraibana. Existe outra versão que afirma que a violência teria sido realizada a mando de uma rica senhora da sociedade de Campina Grande, que percebeu que seu marido se afastava cada vez mais em direção a cama de Amélia e direcionava seus carinhos a uma mulher que era tida como “descaída”.

O problema para Amélia é que um dos homens, o que comandava a dupla, prometeu que onde a encontrasse em outra ocasião lhe mataria[10].

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Antônio Silvino

E o homem em questão não era alguém de promessas vazias. Ele havia sido um cangaceiro do bando de Antônio Silvino.

Um Cabra Complicado Até Para Outros Cangaceiros

Seu nome era José Maria de Oliveira, sua alcunha Serrote e teria nascido em algum local na Paraíba. Era conhecido por já ter praticado diversos crimes, entre estes assassinatos. Sempre agindo com requintada malvadeza na região do interior do estado onde nasceu. Ele foi descrito pelos jornais da época como tendo “estatura regular, preto, cabellos carapinhos, olhos grandes, nariz chato, orelhas grandes, pés e mãos pequenas, dentadura perfeita”.

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Um jornal recifense aponta que em agosto de 1909, após Antônio Silvino retornar do Ceará, ele e seus homens foram vistos na região rural da cidade paraibana de Cabaceiras e na mesma nota é informado que Serrote estava com um pequeno bando de quatro membros, um “subgrupo” de Silvino, agindo de forma independente para atrair a atenção das volantes da polícia[11].

Entretanto outro periódico mostra que Serrote não havia deixado o bando de Silvino comandando um subgrupo, ele havia sido expulso pelo chefe, com mais outros cabras da sua laia, por Silvino não confiar nessa gente. Nesta nota ele foi tido como “Trahidor” e “perverso ao extremo” pelos seus próprios companheiros de cangaço.

Ainda em relação às andanças de Serrote como chefe de bando em 1909, ele parece não ter ido muito longe nesta função que requeria astúcia, companheirismo, uma boa rede de apoiadores e enorme capacidade de combate. Pois uma nota na segunda página do Jornal do Recife, edição do dia 4 novembro de 1909, aponta que Serrote havia sido preso no lugar denominado Bonita, próximo a Cabaceiras, ficando lá recolhido. É desta época a foto que trago deste cangaceiro[12].

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Sobre o hiato de sete anos entre a prisão de Serrote a o ataque contra Amélia em Campina Grande eu não consegui nenhuma informação. Mas se este cabra safado, que possuía tão terrível fama e uma extensa ficha criminal, estava vivendo tranquilamente na rica cidade do interior da Paraíba, é que certamente era protegido de alguém muito poderoso. Onde provavelmente Serrote era utilizado, junto com outros de sua estirpe, para variados serviços violentos, como a surra e o estrupo cometidos contra Amélia.

Para esse bandido, que um dia se ombreou com Antônio Silvino, certamente a cidade de Campina Grande, com sua larga circulação monetária, proporcionava uma condição de ação muito mais facilitada do que andar de arma na mão no meio da caatinga.

Além disso, diante das sempre comuns querelas politicas e dos muitos conflitos sociais, um elemento com o seu nível de “expertise” não era de todo descartável e poderia ser sempre útil para abonados de baixo caráter. E certamente que sua fama de antigo companheiro do chefe cangaceiro Antônio Silvino só lhe ajudava nestas nefandas atividades em Campina Grande.

Luta na Noite de Campina Grande

Não tenho dúvida que diante das lesões provocadas em seu corpo e igualmente pelo medo daquele homem perverso e do seu companheiro de atividades criminais, Amélia passou um tempo escondida. Para não dizer acuada[13].

Mas ela não tinha ninguém para lhe proteger e precisava sair para se sustentar. Fugir certamente não estava nos seus planos, pois tinha seu local de repouso em Campina Grande, tinha clientela e ir embora significava viver em algum fedorento cabaré perdido no interior do Nordeste, com todas as incertezas que esta decisão acarretaria.

Foi então que Amélia passou a andar com um punhal e foi para rua para sua triste e dura luta de vender o seu corpo para sobreviver.

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A imagem de violências praticadas contra as mulheres era muito comum no início do século XX – Fonte – http://www.pinterest.com

Mas o seu encontro com o antigo cangaceiro não demorou.

Eram por volta das seis da noite de uma terça-feira, 11 de maio de 1915, quando a jovem Amélia seguia por um beco que desembocava em uma avenida denominada Lauritzen. Neste momento, na esquina, ficou frente a frente com seu algoz[14].

Logo Serrote partiu para o ataque e desferiu pesada cacetada com um porrete na cabeça da mulher, que baqueou, mas suportou a pancada. Nesse momento, quando Serrote se preparava para desferir o segundo golpe, para sua total surpresa Amélia cravou-lhe com coragem e segurança o punhal no peito do cangaceiro.

Através da dissertação de Mestrado em História “Cidade e Imagens: Crônicas visuais das Ruas de Campina Grande? PB (1900-1950)”, do historiador João Paulo França, descobri a obra “Abrindo o livro do passado”, publicada em 1956, e de autoria do escritor e historiador campinense Cristino Pimentel. Ele afirmou em seu livro que o ferimento no cangaceiro foi embaixo do peito esquerdo e nem sangue saiu.  Para o falecido cronista Pimentel o conflito se deu em um beco que era conhecido pelo sugestivo nome de “Beco dos Paus Grandes”, atual Rua João Alves de Oliveira[15].

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O antigo “Beco dos Paus Grandes”, local da luta – Fonte – http://www.ufcg.edu.br/~historia/ppgh/index.php/processo-seletivo/category/14-dissertacoes-2012?download=109:joao-paulo-franca-cidade-e-imagens-cronicas-visuais-das-ruas-de-campina-grande-pb-1900-1950

Segundo os jornais da época o perigoso Serrote saiu cambaleando e não fez uso de um revólver carregado com seis munições que trazia na cintura e que depois foi encontrado com ele. O violento ex-cangaceiro andou um pouco mais e foi cair na calçada, defronte ao comércio de Elias Montenegro[16].

Amélia por sua vez, ao ver que Serrote se afastava cambaleando e por não ver seu inimigo sangrando, decidiu sair discretamente do palco dos acontecimentos. Certamente acreditava que espantara aquele verdadeiro “encosto” de sua vida.

Dali seguiu tranquilamente para um hotel onde jantava com frequência. Lá soube por algumas pessoas que nas proximidades o temido cangaceiro estava morto na calçada e entendeu que aquilo foi o resultado de sua certeira estocada.

Do jeito que ela estava no hotel, ela continuou e não se abalou. Certamente com uma sensação positiva, ela não fez a mínima ação de evadir-se do local e jantou tranquilamente aguardando o seu destino. Ainda bem tranquila ela comentou com todos os presentes no hotel que ela era a responsável pela morte do cangaceiro e explicou a causa do assassinato.

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Após encerrar seu jantar Amélia Mendes da Silva, certamente acompanhada de muitos curiosos e quero crer de cabeça erguida, se dirigiu para se entregar a polícia de Campina Grande. Junto à autoridade policial ela relatou o ocorrido e as razões do seu ato. Ficou presa.

No outro dia os jornais comentam que a cidade entrou em transe com os acontecimentos, exultando a morte deste perigoso elemento. Muitos foram ver o cadáver do homem que um dia andou junto a Antônio Silvino e depois seguiram para cadeia ver a mulher que o matou.

Mesmo sem haver encontrado nenhuma outra referência sobre violências praticadas pelo antigo cangaceiro Serrote em Campina Grande e região, é perceptível pelos jornais a descrição de um certo alívio pela morte do celerado.

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Clementino Gomes Procópio, que ajudou na defesa de Amélia – Fonte – http://digitalizacao.fundaj.gov.br/fundaj2/modules/visualizador/i/ult_frame.php?cod=5412

Diante do que ocorreu Amélia recebeu apoios. O ilustre educador Clementino Gomes Procópio se prontificou a patrocinar a causa pela defesa da prostituta[17].

Fugindo Para Sobreviver

Segundo bem observou o historiador João Paulo França em sua tese de Mestrado, os códigos de comportamento da sociedade campinense de então reconheceram a “legítima defesa” de Amélia e a absorveram por unanimidade “aquela mulher da vida”. É plausível que o passado de “cangaço”, e os espancamentos feitos por Serrote, muito contribuíram para que seu assassinato fosse visto como um “alívio” para a sociedade. Todavia, Amélia a partir de então “deixava” de ser “Amélia Mendes da Silva”, para carregar pelo resto da vida a alcunha de “Amélia de Serrote”.

O historiador nós trás em seu trabalho acadêmico as palavras do cronista Cristino Pimentel, que em seu livro de 1956 comentou sobre o destino de Amélia de Serrote – “vítima da má sorte e dos homens, perseguida pelo destino, tomou o caminho dos ignorados, pois não se sabe como, nem onde foi ficar depois de absolvida pelo crime”.

Estando correta a afirmação do ilustre Cristino Pimentel, mesmo com a absolvição do seu crime, mesmo com toda a repercussão positiva em relação ao caso, é provável que Amélia de Serrote tenha decidido deixar Campina Grande pelas ligações que o antigo cangaceiro possuía junto a poderosos da cidade. Isso provavelmente fazia dela um elemento de risco para alguém. Enfim ela já tinha levado uma baita surra ordenada por alguém poderoso e algo pior poderia advir contra ela a qualquer momento.

O certo é que nenhuma referência mais eu encontrei sobre esta valente mulher paraibana, que um dia matou um cangaceiro.

Em tempo – E porque não pensar em um final feliz?

Talvez diante do feito de Amélia ao matar o cangaceiro, quem sabe se algum homem não lhe propôs uma união estável?

Ela então deixou a prostituição, saiu de cena e viveu uma vida tranquila e feliz!


NOTAS

[1] Sobre as mudanças nas relações de gênero na passagem do século XIX para o século XX, ver “A MULHER URUGUAIA E A MULHER BRASILEIRA NO INÍCIO DO SÉCULO XX”, de Marcos Emílio Ekman Faberhttp://www.historialivre.com/contemporanea/amemulher.htm

[2] Ver “A CONSTRUÇÃO DO PAPEL SOCIAL DA MULHER NA PRIMEIRA REPÚBLICA”, de Aline Tosta dos Santos – http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300669106_ARQUIVO_TEXTOOLIVIAANPUH.pdf

[3] Sobre a problemática do processo de escolarização que se realizou no Brasil desde a chegada dos jesuítas até a Revolução de 1930, sob a ótica do gênero ver “UM OLHAR NA HISTORIA: A MULHER NA ESCOLA (BRASIL: 1549 – 1910)”, de Maria Inês Sucupira Stamatto, do Programa de Pós-Graduação em Educação – UFRN – http://www.sbhe.org.br/novo/congressos/cbhe2/pdfs/Tema5/0539.pdf Ver també “MULHER E EDUCAÇÃO CATÓLICA NO BRASIL (1889-1930): DO LAR PARA A ESCOLA OU A ESCOLA DO LAR?”, de Michelle Pereira Silva, Geraldo Inácio Filho, Universidade Federal de Uberlândia – http://www.histedbr.fe.unicamp.br/revista/revis/revis15/art14_15.pdf

[4] Sobre o cotidiano das mulheres neste período ver “MULHER, MÃE, TRABALHADORA, CIDADÃ…: CONDIÇÃO FEMININA NAS TRÊS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX”, de Simone da Silva Costa, Doutora em História e Professora da  Prefeitura Municipal de Santa Rita – PB – file:///C:/Users/Isa%20Bezerra/Downloads/23811-47870-2-PB.pdf

[5] Ver “PROSTITUIÇÃO – CORPO COMO MERCADORIA”, de Paulo Roberto Ceccarelli, Psicólogo / Psicanalista, in: Mente & Cérebro – Sexo, v. 4 (edição especial), dez. 2008 – http://ceccarelli.psc.br/pt/?page_id=157

[6] Ver “O FENÔMENO DA VIOLÊNCIA PATRIMONIAL CONTRA A MULHER: PERCEPÇÕES DAS VÍTIMAS”, de Rita de Cássia Bhering Ramos Pereira, Maria das Dores Saraiva de Loreto, Karla Maria Damiano Teixeira, Junia Marise Matos de Sousa – http://www.seer.ufv.br/seer/oikos/index.php/httpwwwseerufvbrseeroikos/article/viewFile/89/156

[7] Ver “ANÁLISE DA PRIMEIRA FASE DO PROCESSO DE SUBSTITUIÇÃO DE IMPORTAÇÕES SOBRE A ECONOMIA DO NORDESTE”, de Alessandro Alves dos Santos Silva (PPGECON-UFPE) e Adelson Santos Silva (UAST/UFRPE) – http://www.bnb.gov.br/documents/160445/781488/3M3_art_1.pdf/72c361f4-5f4c-420d-9c72-039d1fcdf1a5

[8] Sobre a história de Campina Grande ver “CAMPINA GRANDE A CIDADE SE CONSOLIDA NO SÉCULO XX”, de Júlio César Mélo de Oliveira – http://www.geociencias.ufpb.br/~paulorosa/gema/images/stories/monografias/2007/mono_julio e “CIVILIZANDO OS FILHOS DA “RAINHA”, CAMPINA GRANDE: MODERNIZAÇÃO, URBANIZAÇÃO E GRUPOS ESCOLARES (1935 A 1945)” de Maria Raquel Silva – http://www.cchla.ufpb.br/ppgh/2011_mest_maria_silva.pdf

[9] Ver “AS DECAÍDAS: PROSTITUIÇÃO EM FLORIANÓPOLIS (1900 – 1940)”, de Silvia Maria Fávero Arend – file:///C:/Users/Isa%20Bezerra/Downloads/6175-18860-1-SM.pdf

[10] Ver “JORNAL DE RECIFE”, Recife-PE, edição de quinta-feira, 1 de julho de 1915, pág. 3.

[11] Essa tática de criar subgrupos entre os integrantes de Antônio Silvino não era novidade, sendo um dos mais famosos era o subgrupo do cangaceiro Cocada, cujo nome verdadeiro, segundo o cangaceiro Rio Preto, era Manoel Marinho, sendo natural de Guarita, vila localizada a menos de dez quilômetros da cidade paraibana de Itabaiana e teria cerca de 40 anos em 1906.  Mário Souto Maior comenta, sem informa datas, que Cocada morreu em combate no lugar chamado Serrinha, na Paraíba. No seu local de morte, o povo ergueu um cruzeiro. O folclorista Evandro Rabelo, ao passar pelo local, viu depositado na base da cruz, alguns ex-votos de pessoas que obtiveram graças por intermédio deste cangaceiro. Ver https://tokdehistoria.com.br/2011/12/04/a-saga-do-cangaceiro-rio-preto/

[12] Ver “JORNAL DE RECIFE”, Recife-PE, edição de quinta-feira, 1 de julho de 1915, pág. 3.

[13] Eu não consegui nenhuma informação sobre que era o homem que ajudou Serrote na violência contra a prostituta Amélia.

[14] Essa suposta avenida, da qual não encontrei referências, seria alusiva a figura de Christian “Cristiano” Lauritzen. Este foi um imigrante dinamarquês nascido em 1847 e que chegou ao Brasil, mais precisamente em Recife, aos 21 anos de idade. Por volta de 1880 se estabeleceu em Campina Grande, quando a cidade tinha pouco mais de três mil habitantes. Em 1883 casou-se com a senhora Elvira Cavalcanti, filha do comerciante Alexandrino Cavalcanti, então Presidente da Câmara Municipal de Vereadores, com quem teve dez filhos. Lauritzen foi prefeito municipal durante 19 anos ininterruptos e durante sua longa gestão ocorreu a chegada do primeiro trem na cidade, marco histórico para o desenvolvimento econômico da região. Em 1922 fundou o Jornal Correio de Campina Grande e faleceu no ano seguinte, ainda exercendo o mandato de prefeito.

[15] Ver PIMENTEL, Cristino. Abrindo o livro do passado. 1ª Edição. Campina Grande: Editora Teone, 1956, p. 46. Sobre a dissertação de mestrado “Cidade e Imagens: Crônicas visuais das Ruas de Campina Grande? PB (1900-1950)”, do historiador João Paulo França acesse http://www.ufcg.edu.br/~historia/ppgh/index.php/processo-seletivo/category/14-dissertacoes-2012?download=109:joao-paulo-franca-cidade-e-imagens-cronicas-visuais-das-ruas-de-campina-grande-pb-1900-1950

[16] Já para Cristino Pimentel, em seu atualmente raro livro, o cangaceiro Serrote não sentiu que estava ferido e foi tombar, para morrer, no “Beco de seu Lindolfo”. Ainda sobre Elias Montenegro eu descobri que naquele mesmo ano de 1915, poucos meses antes da morte de Serrote, mais precisamente no dia 12 de abril, o comerciante havia sido um dos sócios fundadores do time de futebol Campinense Clube, uma das mais tradicionais equipes de futebol da Paraíba e conhecido como o “aristocrático”. Ver – http://cgretalhos.blogspot.com.br/2009/09/campinense-clube-1-parte.html#.V-B_1_ArLIU

[17] Nascido na fazenda Chéus, no município pernambucano de Bom Jardim, em 1855, Clementino Gomes Procópio foi seminarista aos quinze anos, mas não concluiu os estudos para ser padre. Depois de uma breve passagem pela cidade de Batalhão, hoje Taperoá, na Paraíba, onde fundou uma escola, seguiu para Campina Grande em 1877. Foi político, jornalista e fez da educação seu ofício maior. Fundou o Instituto São José, uma escola particular que funcionava como internato e externato, no bairro de São José. Consta que a caridade era um traço forte de sua personalidade, talvez aí se explique se colocar ao lado de Amélia na sua defesa jurídica no caso do assassinato de Serrote. Faleceu aos 80 anos, em 1935. Ver http://cafecomresenhas.blogspot.com.br/2013_08_01_archive.html

 

UM POUCO DA GENEALOGIA DE MANOEL DE SOUSA NETO – UM DOS GRANDES INIMIGOS DE LAMPIÃO

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Manoel Neto está de óculos na extrema direita.

Por Sálvio Siqueira

Manoel de Sousa Neto foi um marco entre aqueles que combateram o banditismo nos sertões nordestinos, no tempo do cangaço, mais especificamente na fase lampiônica, 1919/1938.

Mané Neto, como era chamado por muitos, fez parte de uma ‘tropa’ de combatentes vingada dos filhos da região de Nazaré do Pico, distrito de Floresta, no Sertão do Pajeú pernambucano, chamados de “Os Nazarenos”.

Na verdade, as coisas começaram a ficar bem apertadas para o “Rei dos Cangaceiros” depois que foi formada essa Força Volante, que era composta por Praças e voluntários, contratados, que se dispusera a caírem no ‘mundo da caatinga’, em perseguição aos bandos de cangaceiros.

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Antes da formação da mesma, o governo pernambucano envia várias colunas da Capital com a missão de combater o banditismo no interior do Estado. Porém, a formação desses soldados nada tinha haver com a realidade do particular que consiste o bioma caatinga. Muitos ficaram fora de ação sem nem mesmo entrarem em combate contra os inimigos… Bem, isso é um assunto extenso que carece não uma, mas, várias matérias sobre o mesmo.
Manoel de Souza Neto nasceu na fazenda Algodões, no município de Floresta, PE, no dia 1º de novembro de 1901. Era primogênito de oito irmãos, “Auta, Amerina, Filomena; Alonso, Afonso, Ancilon e Arcôncio”, filho do Sr. Gregório Nogueira do Nascimento e de dona Maria Mendes de Sá. Tendo como avós paternos o casal Manoel de Souza Ferraz e dona Florência Filismina de Sá, e maternos o Sr. José Vitoriano de Sá e dona Ana Mendes de Sá.

Seu avô materno, José Vitoriano de Sá, ver-se envolvido em uma séria intriga, lá pelos idos de 1865, quando o mesmo morava na beira do “Velho Chico”, e acaba sendo preso. Seus inimigos eram tão ferrenhos e sanguinários que arrobam a cadeia e o arrancam de lá. Depois o sangram por vingança.

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Quando se inicia a década de 1920, mais precisamente no ano de 1922, segundo a escritora Marilurdes Ferraz, Mané Neto viaja para a cidade de Rio Branco, hoje Arcoverde, PE,levando peles de animais para serem vendidas. No entanto, ele estende sua ida até a Capital do Estado e, seguindo o exemplo de Arcôncio de Sousa Ferraz, terceiro filho do casal Gregório Nogueira e Maria Mendes, seu irmão, se alista na Força Pública.

Participou de vários combates contra cangaceiros tais como o da Caraíba, da Tapera, da Favela, da Serra Grande, da Maranduba… entre tantos outros. Ficando na história do Fenômeno Social como um dos mais ferrenhos perseguidores de Lampião. Aposenta-se como coronel da PM-PE. Foi Delegado e Prefeito.

Manoel Neto não casou, mas, deixou filhos com a senhora Otacília Gomes de Sá, que segundo o escritor Leonardo Gominho, em seu livro “Floresta – uma terra, um povo”, Vol. 15 da Coleção Tempo Municipal (FIAM – Governo do Estado de Pernambuco), foram Margarida Maria Siqueira Campos e Manoel Gomes de Souza. Ela constitui família e gera oito filhos, ele, casa-se com Josefa Ester de Araújo, tendo onze herdeiros que são “Maria Cícera Araújo Souza Marques (casada com Rinaldo Leite Marques de Sá, é a mãe de Raniere,de Krausia e de Rinaldo Júnior), João Gomes de Araújo, Sandra Araújo Souza Torres, Olga Maria Gomes Araújo Pires (mãe de Washington e de Letícia), Margarida Gomes Araújo,Filomena Gomes de Araújo, Carlos Vital Gomes de Souza, José Gomes Araújo, FranciscaAraújo Gomes Nunes, Emílio Gomes de Souza e Maria das Dores Araújo Souza.”

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“Às 7 horas e 45 minutos do dia 3 de novembro de 1979, no Hospital da Polícia Militar, no Derby (Recife). Seu corpo foi levado para sua terra natal, sendo sepultado no cemitério de Nazaré.”

Fonte “Floresta – uma terra, um povo”, Vol. 15 da Coleção Tempo Municipal (FIAM – Governo do Estado de Pernambuco) – Leonardo Gominho
araujo.eti.br

Foto lampiãoaceso.com
Grupo de Estudos “Canganceiros”- Facebook
Marcos De Carmelita Carmelita

ENTRE PEDRAS E CAMINHOS – O SERTÃO NORDESTINO NA VISÃO DE SÉRGIO AZOL

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O pequeno resumo de uma ótima viagem.

Rostand Medeiros

Acho que foi em novembro de 2015 que a minha mãe, Creuza de França Medeiros, uma pessoa bastante interessada em artes e pinturas, me comentou sobre uma exposição que estava acontecendo em Natal, no velho e suntuoso Solar Bela Vista, no bairro da Ribeira.

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Ela me falou que um jovem pintor estava apresentando vários quadros sobre Lampião e o Cangaço, mas que estes eram criados de uma forma diferenciada, com uma apresentação bastante interessante e que certamente eu gostaria de ir lá ver.

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Bom, como eu frequentemente não sou de discordar da minha mãe e como estes temas nordestinos sempre me interessaram desde que me entendo por gente, eu não perdi tempo e fui lá visitar a exposição.

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Realmente para alguém muito pouco ligado aos pincéis, como é o meu caso, os quadros que encontrei no velho Solar eram bem diferentes do que eu já havia visto. Vi trabalhos de variadas dimensões, com muito colorido, pinceladas livres, que na minha visão possuíam algo de muito interessante, belo e poético.

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Logo fui apresentado ao artista plástico Sérgio Azol pelo jornalista Thiago Cavalcanti, que realizava a assessoria de imprensa do evento. Na conversa, para minha surpresa, descobri que Azol conhecia o nosso blog TOK DE HISTÓRIA, que era de Natal e que havíamos estudado em turmas deferentes no velho Salesiano da Ribeira, na época do ensino colegial.

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No contato soube que a família de Sérgio Azol possui profundas raízes sertanejas, que ele tem um forte sentimento de orgulho em relação a estas origens e a sua arte tem muito dessa ligação afetiva com a sua história familiar.

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Apesar disso ele me comentou que cedo deixou Natal, viveu em grandes cidades do sul do Brasil e nos Estados Unidos e pouco conhecia do sertão. Ele desejava ter um maior contato com a região, principalmente na área aonde o chefe cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, atuou mais fortemente junto com seus homens.

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Comentei-lhe que compartilhávamos origens parecidas e que tenho o mesmo sentimento de orgulho em relação ao fato de ser um nordestino. Daí o papo correu solto e logo estávamos planejando uma viagem que pudesse abranger, em um espaço determinado de tempo, o máximo de locais que lhe proporcionasse descortinar muito da intensa vida deste cangaceiro.

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Na estrada. Aqui realizando uma visita ao Museu do Artesanato de Bezerro e agradecendo o profissionalismo do pessoal.

Este planejamento ocorreu sem maiores alterações, pois, além de escritor e pesquisador de temas nordestinos, eu sou um Guia de Turismo credenciado pelo Ministério do Turismo, com mais de quinze anos de experiência e já possuo muitos quilômetros de estradas percorrendo o Nordeste.

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Neste sentido o objetivo ficou centrado principalmente na região do Pajeú Pernambucano, área de nascimento de Lampião. Depois seguiríamos para a cidade de Piranhas, no oeste do estado de Alagoas, as margens do Rio São Francisco e próximo da Grota do Angico, local da morte de Lampião e localizado no belo estado de Sergipe.

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Em Floresta estivemos juntos dos maravilhosos amigos (da esq. para dir.) Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, Djanilson Pedro e Marcos Antonio de Sá, o conhecido como “Marcos De Carmelita”.

Logo contatei pessoas maravilhosas, grandes amigos, que se colocaram a disposição para ajudar no que fosse necessário. Entre estes estava Carmelo Mandu, da cidade paraibana de Princesa Isabel e André Vasconcelos, em Triunfo, Pernambuco. Já da bela cidade de Floresta, também em Pernambuco, os escritores e pesquisadores Marcos Antonio de Sá, conhecido como “Marcos De Carmelita”, e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, autores do livro “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE”, recentemente lançado, se prontificaram a ajudar.

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Apesar deste contato extremamente positivo, por diversas razões o “OK” para iniciarmos esta viagem demorou um pouco mais do que planejamos. Mas finalmente a ordem de partida foi dada e caímos na estrada.

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Saí de Natal para me encontrar com Azol em uma segunda-feira de madrugada, seguindo para Recife, onde ele desembarcaria no Aeroporto dos Guararapes. Ocorre que cheguei na capital de todos os pernambucanos em um dia que esta cidade literalmente ficou debaixo d’água. Trechos que levaria 20 minutos para percorrer foram completados em uma hora e meia e era tanta água que cheguei a duvidar se conseguiria mesmo alcançar ao aeroporto. Graças a Deus deu tudo certo.

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Partimos com uma paisagem e um clima que mais lembravam a Serra Gaúcha, do que o agreste pernambucano. Mas foi legal para ambientar Azol e lhe contar aspectos da história da expansão da cultura canavieira e como se deu à ocupação do sertão pelos portugueses, a origem dos cangaceiros e vários outros temas.

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O papo ia rolando, a BR-232 se abrindo na nossa frente e isso tudo com o som do carro tocando o Mestre Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, Quinteto Armorial e o Quinteto da Paraíba, Zé Ramalho, Elomar, Fagner, Genival Lacerda, Alceu Valença, Antônio Nóbrega, Mestre Ambrosio e muito mais.

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Inspirado, logo Azol foi pedindo para que eu realizasse várias paradas para executar muitas fotos. Muitas delas estão aqui para os leitores do TOK DE HISTÓRIA.

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Pelos dias seguintes estivemos nas cidades de Bezerros, Belo Jardim, Arcoverde, Serra Talhada, São José de Belmonte, no local da mística Pedra do Reino, na região da cidade de Floresta, nas ruínas da casa onde nasceu Lampião, em Piranhas, navegamos pelo Rio São Francisco, caminhamos pela trilha que leva até a Grota do Angico. Depois retornamos por Garanhuns, Caruaru e Recife. Infelizmente, devido ao tempo curto que dispúnhamos e da necessidade de realizar muitas paradas, não foi possível visitar Princesa Isabel e Triunfo. Peço desculpas aos amigos Carmelo Mandu e André Vasconcelos.

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Mas percorremos muitas estradas de barro em plena caatinga braba. Paramos para conversar com sertanejos, com vaqueiros e outros mais. Conversamos com pessoas que sabem transmitir, com narrativas extremamente dignas, várias histórias sobre Lampião, sobre outros cangaceiros, sobre as volantes policiais, as sangrentas guerras de famílias no sertão, sobre as secas, as enchentes e outros temas. Foi possível apresentar o rico artesanato, a culinária e a história desta região extremamente singular e representativa desta parte do Brasil.

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Para mim (e acredito que igualmente para Sérgio) os momentos particularmente mais interessantes foram em Floresta.

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Conhecendo o gosto do cacto “Coroa de frade”.

Maravilhosamente apoiados pelos escritores e pesquisadores Marcos Antonio de Sá e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, percorremos inúmeros locais que foram palco de lutas entre valentes florestanos contra Lampião e seus cangaceiros.

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Marcos de Carmelita explicando a Sérgio Azol aspectos históricos da luta travada na Tapera dos Gilo em 1926.

Entre estes locais o mais significativo sem dúvida alguma foi à visita a propriedade da Tapera dos Gilo, local do maior massacre da história do Cangaço. Nesta propriedade conhecemos o nobre sertanejo Djanilson Pedro, o conhecido “Pané”, descendente dos membros da família Gilo.

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Cemitério onde descansam eternamente os membros da família Gilo massacrados por Lampião em 1926.

Em razão de um ardiloso e nefasto estratagema orquestrado por um inimigo, esta família foi atacada no dia 26 de agosto de 1926 pelo bando de Lampião e um grupo em torno de 120 cangaceiros. Neste dia sangrento mais de 10 pessoas foram mortas na propriedade e nas redondezas pelos bandoleiros das caatingas. Tivemos a oportunidade de ouvir a narrativa oral que é transmitida pela família de Djanilson sobre os episódios de 1926, sua opinião sobre aquele momento extremamente difícil para sua família, as consequências disso e foi possível visitar os locais de luta. Foi um dia muito positivo e produtivo, que só engrandeceu a nossa busca pelo conhecimento.

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Djailson relatando a tradição oral referente ao massacre da família Gilo.

Eu acredito que o mais importante em qualquer viagem não é o destino, mas o caminho e não existe coisa melhor na profissão de Guia de Turismo do que conhecer pessoas. Principalmente pessoas que amam aprender viajando e que gostam de transmitir aquilo que conhecem. E isso fica ainda melhor quando a estrada é percorrida junto de alguém que possui muita humildade, algo fundamental em um bom viajante.

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E por isso considero Sérgio Azol é um ótimo viajante…

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CHAPÉU DE COURO NORDESTINO – INDENTIDADE DE UMA REGIÃO

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AS FOTOS QUE ILUSTRAM ESTE TEXTO SÃO DE ORGULHOSOS NORDESTINOS QUE CONHECI EM VÁRIOS LOCAIS DA NOSSA REGIÃO, JUNTO COM OUTROS AMIGOS, NOS ÚLTIMOS SEIS ANOS. SÃO PESSOAS QUE NÃO SE ENVERGONHAM DE USAR O CHAPÉU DE COURO – Fazenda Colônia – Carnaíba – Pernambuco – Foto – Solón Almeida Netto – 2008.

Autor – Rostand Medeiros

Este é um artefato que funciona como verdadeiro distintivo do Nordeste e do nordestino. Creio que talvez não existe um material com um aspecto tão forte em termos de identidade, tão representativo do nosso sertão do que o belo e tradicional chapéu de couro.

Um Material Com Fins Práticos 

A pecuária, a criação de gado no interior da atual Região do Nordeste do Brasil foi o primeiro grande fator de geração de renda e permanência do homem nesta região árida. Da atividade de criar o gado se obtinha a carne para alimentação, o leite e em seguida o couro, que era utilizado de diversas maneiras nas propriedades rurais. Em algumas fazendas se desenvolveram rústicos curtumes, que serviram para transformar o couro em mais um meio de geração de renda. Certamente foi nestes locais que se iniciou a tradição da manufatura dos chapéus de couro.

Este tradicional artefato nordestino inicialmente serviu basicamente para fins práticos, principalmente como parte da indumentária de proteção dos vaqueiros.

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Jeremoabo – Bahia – Foto – Rostand Medeiros – 2012

Além de primariamente servirem para proteger a cabeça dos sertanejos do inclemente sol e das chuvas temporárias, igualmente era utilizado para proteger seus usuários das ervas espinhosas da vegetação de caatinga, juntamente com o gibão e a perneira.

Mas apesar da designação comum, os chapéus de couro não possuíam um formato único. Variavam imensamente conforme a localidade do vaqueiro, servindo até mesmo como um identificador de sua proveniência.

Muitos acreditam que o tradicional chapéu de couro nordestino foi criado pelos cangaceiros. Mas isso não é verdade!

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Distrito de Nazaré, município de Floresta – Pernambuco – Foto – Rostand Medeiros – 2016

Entretanto devemos a estes bandoleiros das caatingas a transformação deste material em uma peça característica extremamente marcante na história deste movimento. Os cangaceiros faziam questão de colocar várias moedas (talvez para mostrar o apurado dos saques?), santinhos, cruzes, estrelas e outros símbolos, criando peças únicas em termos de estética e simbologia.

Fabricação Nada Fácil

Fabricar os tradicionais chapéus de couro nordestinos não é nada fácil. Primeiramente o couro do animal é levado para o curtimento vegetal. Lá ele é tratado, onde pode permanecer cru, com ou sem pelo, ser tingido, ou não.

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Barro – Ceará – Foto – Rostand Medeiros – 2015

Na segunda parte do processo o couro é cortado, dependendo das medidas determinadas, sendo tudo geralmente produzido à mão por jovens artesões.
Depois do corte o couro é molhado para ficar mais elástico e assim ser colocado em moldes. É lá que eles ganham forma e vão para a secagem. Esse processo depende da temperatura ambiente e pode durar de duas horas ou mais. Como chove pouco no sertão nordestino, isso não é um grande problema.

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Serra Talhada – Pernambuco – Foto – Rostand Medeiros – 2014

Em seguida o chapéu ganha a aba que vai proteger o rosto do vaqueiro. As oficinas fazem o tamanho das abas de acordo com o gosto do comprador, mas na Paraíba elas se caracterizam por serem curtas, já em algumas regiões da Bahia ela costuma ser maior.
A última etapa é a costura. Primeiro o material vai para a máquina de costura reta receber o acabamento. Mas os desenhos e aplicações ficam por conta da máquina manual, que apesar de ser mais trabalhosa é quem vai dar riqueza de detalhes ao chapéu de couro.

Todo esse trabalho, realizado por abnegados artesões, no meu entendimento o que mais valoriza este rico material.

Identidade Cultural

No meu entendimento foi a partir do sucesso de Luís Gonzaga no Sudeste, que utilizava vários modelos de chapéu de couro em suas apresentações, como marca de sua origem nordestina, estes acessórios passaram gradativamente a ser utilizado como símbolo da vida sertaneja e do homem nordestino. Alem do Velho Lua, estas verdadeiras coroas nordestinas foram, e ainda são, utilizadas por gente do nível de Dominguinhos, Santana e tantos outros verdadeiros cantadores nordestinos.

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Vaqueiro depois de retornar da caatinga – Barro – Ceará – Foto – Rostand Medeiros – 2015

Entretanto, artistas que atualmente se dizem “forrozeiros”, que infelizmente são oriundos do próprio Nordeste, não utilizam mais em suas apresentações estes artefatos característicos.

Que eles não queiram usar estes símbolos nos grandes palcos é problema deles. Até aí tudo bem, gosto não se discute!

Mas o que se lamenta aqui é esse pessoal, travestidos de “modernos”, menosprezarem não apenas o velho e autêntico chapéu de couro, mas toda uma secular e tradicional cultura criada na região.

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Fazenda Barreiras, região da Serra Grande – Serra Talhada – Pernambuco – Foto – Rostand Medeiros – 2013

No meu entendimento o pior é que estes “artistas”, junto com a sua perniciosa e maciça “indústria cultural”, tentam de todas as formas mostrar a cultura tradicional nordestina como algo decadente, ultrapassada, sem serventia e em desuso. Estes seguem propagando músicas de extremo mau gosto, baixo nível e cantadas por gente que no máximo deveria utilizar suas vozes para vender jerimum na feira (com todo respeito aos feirantes).

A coisa é tão forte e o jogo é tão sujo que cheguei a ponto de perceber que aqueles que decidem utilizar um chapéu de couro em algumas regiões do próprio sertão nordestino são vistos de forma jocosa e com um olhar que fica entre o espanto e o mais completo escárnio. Interessante que há tempos atrás eu percebia isso apenas nas capitais.

Apesar desta questão, o bom e velho chapéu de couro está firme e forte na cabeça daqueles nordestinos que valorizam a cultura tradicional de sua terra. Até mesmo como símbolo de resistência cultural.

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Loja em Caruaru – Pernambuco – – Foto – Rostand Medeiros – 2016

E a melhor notícia é que a produção destes belos artefatos está tendo continuidade.

Resistência e Continuidade

Certamente que a maioria destes “artistas” não possuem capacidade mental de perceberem a beleza da arte que está por trás das tradicionais vestimentas e acessórios dos nossos vaqueiros. Verdadeiras obras de arte produzidas com maestria, por quem abraça um artesanato digno de exportação.

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Barro – Ceará – Foto – Rostand Medeiros – 2015

Não posso negar que em toda a região não são muitos os artesões envolvidos no processo de fabrico do tradicional chapéu de couro. Mas, para a sorte dos que valorizam a autêntica cultura nordestina, temos verdadeiros Mestres produzindo e ensinando a sua arte aos seus filhos e netos pelo Nordeste afora.

Este é o caso dos descendentes de Antônia Maria de Jesus, a conhecida “Totonha Marçal”, que continuam a manter a tradição no trabalho com chapéus de couro no Distrito da Ribeira, no município de Cabaceiras, Paraíba. Inclusive este município do Cariri Paraibano, situado a 180 Km de João Pessoa, capital da Paraíba, é atualmente o maior produtor de chapéus de couro do Brasil.

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Fino trabalho de Mestre Aprígio, de Ouricuri, Pernambuco, fotografado na Loja do Vaqueiro, em Caruaru – PE – Foto – Sérgio Azol – 2016.

Temos em Salgueiro, Pernambuco, mais precisamente na Fazenda Cacimbinhas (a 14 quilômetros do centro da cidade), o exemplo de uma família que há um século perpetua o ofício de transformar pedaços de couro em peças artesanais que conquistaram personalidades do mundo artístico e da política brasileira. Tudo começou em 1909 com Mestre Luiz, depois passou o oficio para seu filho, o conhecido Zé do Mestre. Este chegou a fabricar vestimentas (só gibões) para o amigo Luiz Gonzaga, o ex-presidente Médici, o rei Juan Carlos da Espanha e até para o Papa João Paulo II, em sua última visita ao Brasil. Atualmente a arte está preservada e nas mãos de seu filho Irineu Batista, mais conhecido como Irineu do Mestre.

Já em Ouricuri, também em Pernambuco, temos o Mestre Aprígio e o seu filho Romildo, que trabalham juntos mantendo a tradição. Mestre Aprígio tem orgulho em exibir pelas paredes de sua oficina, que outro denominam acertadamente de ateliê, as fotos que contam a história do artesão que começou a trabalhar aos 24 anos de idade. Já são mais de 50 anos de profissão e criatividade produzindo chapéus de couro, gibões e bolsas personalizados.

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Governador Diz Sept Rosado – RN – Foto – Rostand Medeiros – 2010

Evidentemente que não posso esquecer de Espedito Velozo de Carvalho, o Mestre Espedito Seleiro, de Nova Olinda, no Ceará. Ele tinha oito anos de idade quando começou a ajudar o pai em sua oficina. As histórias que ouvia quando criança eram célebres: foi o pai quem criou as sandálias do cangaceiro Lampião. Com o passar dos anos Mestre Espedito só cresceu na qualidade do seu trabalho, chamando a atenção de estilistas do Sudeste do país e foi ele que assinou as peças que o ator Marcos Palmeira usou no filme “O Homem que Desafiou o Diabo”, de 2007.

Eu acho muito bonito quem, mesmo que se abra para outras culturas, tem orgulho de sua terra e de sua identidade cultural. Para mim, junto com a bondade ao próximo e a humildade, é o tipo de situação que torna um outro ser humano verdadeiramente digno de respeito.

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Renovação, Fazenda Barreiras – Serra Talhada – Pernambuco – Foto – Rostand Medeiros – 2014

Sendo assim, não posso negar que fico muito feliz quando vejo alguém utilizar o bom e velho chapéu de couro nordestino. Quando eu encontro uma pessoa utilizando este tipo de material, penso que a cultura da minha terra ainda resiste em meio a um mar de muita mediocridade.

Eu também tenho os meus chapéus de couro (3) e tenho muito orgulho de utilizá-los, pois tenho a sorte de ser nordestino e amar minha região.

 
FONTES………………………………………………………………………………………………. 

INTERNET

http://sg10.com.br/noticia/colunasespeciais/2014/9/artesao-salgueirense-mantem-tradicao-secular.html

http://tecendotexto.blogspot.com.br/2010/07/chapeu-de-couro-o-capacete-do-vaqueiro.html

http://ribeiradoriotaperoa.blogspot.com.br/2012/02/o-couro-ontem-e-hoje-na-ribeira.html

http://www.lilianpacce.com.br/e-mais/espedito-seleiro/

LIVROS

FREYRE, G. Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX. Recife: Artenova, 1977.

PERICÁS, L. B. Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica. São Paulo: Boitempo, 2010.

VIANNA, L. C. R. Bezerra da Silva, produto do morro: trajetória e obra de um sambista que não é santo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

OS VERSINHOS PARA MARIA BONITA NO DIA DO SEU ANIVERSÁRIO

 

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No dia 21 de fevereiro de 1970, no periódico Diário de Pernambuco, Waldemar de Figueiredo Valente escreveu um texto intitulado “A gesta do Cangaço”, onde no final da primeira parte reproduziu os versos que agora apresento e que, segundo o autor, foram criados pelo cangaceiro Zabelê para comemorar o aniversário de Maria Bonita.

São versos bem interessantes, que mostram um lado diferenciado e menos focado nos processos ligados a violência que tanto caracterizou o cangaço.

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Maria Bonita

Waldemar Valente foi médico, farmacêutico, antropólogo, sociólogo, etnólogo, professor, pesquisador, humorista e escritor. Pertenceu ao grupo de notáveis africanistas que se destacou na área desde o Primeiro Congresso Afro-Brasileiro de 1934. Como escritor Waldemar Valente escreveu obras como Introdução ao estudo da Antropologia Cultural (1953); Sincretismo religioso afro-brasileiro (1955); Maria Graham: uma inglesa em Pernambuco nos começos do século XIX (1957); Misticismo e região (1963); O padre Carapuceiro: crítica de costumes na primeira metade do século XIX (1969), Nordeste em três dimensões folclóricas (1986); Antologia pernambucana de Folclore (1990).

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Waldemar de Figueiredo Valente

Foi professor na Professor da Universidade Federal de Pernambuco, e na Universidade Católica de Pernambuco. Waldemar Valente morreu no Recife, no dia 27 de novembro de 1992.

O PREFÁCIO DE FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO PARA O LIVRO “AS CRUZES DO CANGAÇO – OS FATOS E PERSONAGENS DE FLORESTA-PE”

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Em um momento pouco produtivo no cenário de lançamentos de obras sobre o Cangaço, eis que surge um trabalho diferenciado e que merece esta chancela.

Texto inicial de Rostand Medeiros

Recentemente eu tive a oportunidade de retornar aos sertões de Pernambuco e Alagoas, onde segui os antigos rastros dos cangaceiros nos municípios de São José de Belmonte, Serra Talhada, Floresta (PE) e Piranhas (AL). Nesta jornada eu tive a grata companhia do artista plástico Sérgio Azol, potiguar radicado em São Paulo, que realiza um interessante e diferenciado trabalho artístico utilizando o Cangaço como tema.

Na bela cidade de Floresta fomos recebidos pelos escritores e pesquisadores Marcos Antonio de Sá, conhecido como “Marcos De Carmelita”, e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, ambos autores do livro “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE”, recentemente lançado.

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Os autores Cristiano Luiz Feitosa Ferraz (E) e Marcos Antonio de Sá (D), conhecido como “Marcos De Carmelita”.

Em um clima de extrema fidalguia, cordialidade e parceria, estes dois pesquisadores procuraram mostrar vários aspectos da bela cidade de Floresta e dos fatos relativos ao Cangaço na região. Além deste maravilhoso exemplo de cordialidade sertaneja, através do contato com Marcos e Cristiano eu pude adquirir o resultado de um interessante e valoroso trabalho de pesquisa sobre o Cangaço.

O livro eu recomendo sem nenhuma ressalva aos amigos e amigas que gostam deste tema, pois antes de tudo é resultado de muita pesquisa de campo e de muitas horas de diálogos com os guardiões da memória na região. Tudo conduzido de maneira séria e objetiva.

Em minha opinião as páginas de “As cruzes do Cangaço” possuem várias virtudes. Mas a que mais me chamou atenção foi a deste livro não se perder em uma abrangência geográfica e histórica desnecessária, de focar a história do Cangaço em uma área específica – Floresta. Os autores competentemente dissecaram interessantes pormenores ali ocorridos, que por sua vez se ligam a inúmeros outros episódios da história do Cangaço em outras partes do Nordeste.

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Marcos Antonio de Sá comentando aspectos de sua obra.

A obra é tão dinâmica e envolvente que me fez refletir que talvez tivéssemos conhecido a história do Cangaço de uma forma muito diferente se existissem mais pesquisadores como Marcos e Cristiano. Fiquei imaginando o que ganharíamos em termos de conhecimentos se, em um passado nem tão distante assim, quando inúmeras testemunhas daqueles dias difíceis ainda estavam neste plano, existissem mais pessoas focadas e dispostas a correr atrás da história como estes dois florestanos.

Não é a toa que “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE” recebeu uma deferência rara nos dias atuais – O prefácio de Frederico Pernambucano de Mello.

Acredito que o respeito por quem palmilha o solo duro e poeirento do sertão atrás da história, além do resultado de uma pesquisa séria e objetiva, foram alguns dos fatores que fizeram um intelectual do porte de Frederico Pernambucano de Mello realizar o prefácio deste livro.

A meu ver Frederico é um homem muito consciente da sua história acadêmica, da sua obra e do peso do seu nome. Ele não chancela qualquer trabalho sobre este tema, usa de muitos critérios e neste aspecto ele está certo.

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Os autores entregando um exemplar do seu trabalho aos descendentes da família Gilo, na fazenda Tapera dos Gilo, local do maior massacre da história do cangaço, fato extensamente narrado no livro.

Até mesmo porque atualmente sobram muitas obras sobre o Cangaço são realizadas sem nenhuma pesquisa ao sertão. Muitos destes trabalhos são produzidos no conforto de cadeiras reclináveis, em ambientes extremamente assépticos, refrigerados por potentes aparelhos de ar condicionado e com objetivos muitas vezes distintos do resultado de uma pesquisa histórica e focados em alvos bem escusos.

Mesmo assim, não posso negar que algumas destas obras me despertam certo interesse. Mas eu conto nos dedos os exemplos positivos!

Afora isso ainda temos pessoas que são ligados a este tema e que parecem possuir sérios problemas de diversos matizes e que só criam problemas para os que querem produzir de verdade. E estes não são poucos!

Existem os que nos seus devaneios interiores se acham “Mestres da História do Cangaço” e se sentem sumamente injuriados por uma pequena crítica, principalmente no âmbito da internet. Ou aqueles que por conta de uma vírgula mal colocada, ou de uma referência na imprensa realizada de forma incorreta por um jornalista medíocre, criam ódio mortal a um pobre interlocutor. Tem os que se sentem “donos” da história do Cangaço em suas cidades, que criam toda ordem de obstáculos para os pesquisadores vindos de fora, mas também não produzem nada de interessante sobre os acontecimentos ligados ao tema em seus rincões. Temos as interessantes figuras advindas das Academias, que por serem laureados por obras acadêmicas, muitas delas medíocres e criadas apenas para “engordar” os inócuos currículos inseridos na plataforma de Currículos Lattes, colocam-se na posição de verdadeiramente exigir o resultado do trabalho daqueles que apaixonadamente rodam muito pelo sertão para conseguir uma pequena informação. Ou ainda aqueles que se acham “pesquisadores” apenas por se fazerem presentes aos muitos encontros de admiradores do tema, ou por baterem fotos de um túmulo de alguém ligado ao Cangaço. Os exemplos negativos destas figuras são bem amplos para este espaço.

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Antigo quartel da Força Pública em Floresta. Atualmente em ruínas, mas merecendo uma recuperação pela sua impotância histórica.

Talvez eu não seja a pessoa mais correta para comentar sobre estes “doutos” autores que realizam o que denomino “Livros de Cangaço de Gabinete”. Mesmo sendo autor de quatro livros, nenhum deles foi sobre o tema. Mas eu não vou me escusar de comentar, pois já produzi e democraticamente já divulguei muita coisa sobre o Cangaço aqui no TOK DE HISTÓRIA.

Seria interessante que estes autores de gabinete copiassem o belo exemplo de Marcos Antonio de Sá e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz em relação à obra “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE” – Deveriam tentar realizar mais seus trabalhos sentindo o que é realmente o sertão!

Talvez isso não ocorra atualmente com tanta frequência porque, mesmo com todas as facilidades logísticas, aparentemente são poucos os que desejam realizar seus trabalhos escritos após encararem as estradas pedregosas do sertão, a poeira, os quase sempre normais 40 graus positivos na canícula e outras situações desconfortáveis.

Mas ao passar por estes possíveis desconfortos, estes autores teriam então a oportunidade de conhecer em profundidade uma região ímpar no território brasileiro. Uma área cheia de contrastes interessantes, comida saborosa, natureza diferenciada e, principalmente, pessoas incríveis e maravilhosas.

Além disso, poderiam receber algo muito interessante e diferenciado dos que realmente gostam e estudam este tema da história nordestina – Respeito.

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Ao centro vemos Frederico Pernambucano de Mello, tendo a sua direita Cristiano Luiz Feitosa Ferraz e a sua esquerda Marcos Antonio de Sá, conhecido como “Marcos De Carmelita”. Marcos e Cristiano são os autores do livro “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE”, cujo prefácio é de autoria de Frederico.

PREFÁCIO DE FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO

AS CRUZES DO CANGAÇO – Os fatos e personagens de Floresta-PE, por Frederico Pernambucano de Mello. Uma verdadeira aula de História, por quem entende de História e sociologia:

Floresta: bravura e talento

Floresta, velho município pernambucano de território outrora imenso, encravado no vale doPajeú, a 433 km do Recife, tem o privilégio de aliar dois primores bem acima da média: o das armas e o da pena. Seus homens de guerra, de um lado e do outro da lei, notabilizaram-se pela valentia desde o período colonial, cultivada ao longo de toda a madrugada de sangue da conquista da terra ao tapuia guerreiro, no afã de assentar os currais de gado civilizadores, vindo a dar vida a uma crônica de passagens épicas não raro inacreditáveis, não contassem os fatos por si com o abono de documentação copiosa.

É nesse ponto que se encarta o segundo dos primores a que aludimos, que tem por fonte a produção intelectual dos filhos da terra, entregues ao empenho de colocar a pena a serviço da per-petuação dos acontecimentos mais quentes da ribeira do riacho do Navio. E nos dando, do mesmo modo, as ocorrências amenas daquele cotidiano que sedimenta a história, a partir dos assentos sociais, econômicos, políticos, religiosos ou apenas ligados à natureza do lugar, de chãs imensas, ipueiras generosas e serras férteis. 

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Cemitério onde vários membros da familia Gilo foram enterrados após serem massacrados pelo bando de Lampião.

Sem se deter por aí, a pena florestana vai além das coisas pas-sadas no universo da caatinga, ofertando estudos de interesse nacional relevante. Quantas vezes não ouvimos de Gilberto Freyre, nosso mestre por quinze anos, elogios ao trabalho de investigação antropológica conduzido por Álvaro Ferraz, médico da então Brigada Militar de Pernambuco, e por seu assistente, Andrade Lima Júnior, intitulado A Morfologia do Homem do Nordeste. Estudo que Gilberto tratou de editar em livro de 1939, convertendo-o em marco da disputada Coleção Documentos Brasileiros, da Livraria José Olympio, de que era diretor com carta branca. Vitória florestana por excelência. Como vitória igualmente notável nos vem da contribuição do militar e professor Carlos Antônio de Souza Ferraz, com o seu Floresta do Navio: Capítulo da História Sertaneja, de 1992, timbrando na mesma tecla a que já se dedicara, em outro livro, o admirável Doutor Álvaro. 

Como esquecer nesse arrolamento o estudo de história política denominado Liberais & liberais, da professora Maria do Socorro Ferraz Barbosa, da Universidade Federal de Pernambuco, vindo à luz em 1996, ponto alto de bibliografia concebida, toda ela, com rigor digno de nota. Ou a contribuição de Leonardo Ferraz Gominho, com o seu Floresta: uma Terra, um Povo, também de 1996. Ou ainda os estudos da professora Bartira Barbosa acerca do rio São Francisco, desde quando possuía apenas o nome indígena de Opara.

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Marcos mostra uma antigas estaca de uma das casas atacadas e destruidas pelos cangaceiros no ataque a Tapera dos Gilo.

No plano do memorialismo, oriundo de vivência direta ou de recolha da história oral que se refugia em nichos de família, seria imperdoável deixar de mencionar os livros de Marilourdes Ferraz, O Canto do Acauã, de 1978, com várias reedições, hino de amor de uma filha ao pai guerreiro, que foi o coronel Manuel de Souza Ferraz, o Manuel Flor, da nossa Polícia Militar, a se bater contra o chamado banditismo rural por muitos anos, em todo o Nordeste. Mesmo tema no qual despontou, já com os primeiros cabelos brancos a circundar a calva, o tenente João Gomes de Lira, filho do lendário Antônio Gomes Jurubeba, um dos braços fortes da resistência heroica de Nazaré – vilazinha perdida em meio ao oceano de caatingas que se estendia até o beiço do rio São Francisco – contra o império de terror implantado pelo maior de todos os cangaceiros, o lendário Capitão Lampião. E ele próprio, o então juveníssimo soldado Joãozinho, a passar a cartucheira na cintura, cingir o punhal, embarbelar o chapelão e acompanhar a força volante do parente Manuel de Souza Neto pelos carrascais de Pernambuco e da Bahia.

Foi por lá, às voltas com águas de presença incerta nos anos de seca, que todos esses memorialistas se fizeram testemunhas dos fatos do lugar, tomando contato com a crônica dos homens de sangue no olho que se entregavam à “vida da espingarda”, sem deixar de ter as vistas abertas para a ação duramente civilizadora dos coronéis chefes políticos sertanejos, comandantes de terras e de homens por todo o Brasil Colônia. Com trânsito pelo Império, chegando à República e ultrapassando até mesmo o regime temperado ao calor das brasas da Revolução de 1930. Coronéis que lançavam luz, a seu modo, sobre o universo rural brasileiro, para o que não se eximiam do emprego do baraço e do cutelo, assim lhes ditasse a circunstância. Protagonistas no processo social desdobrado em nossa terra, em qualquer caso. Afinal, Gilberto Freyre já proclamou que o Brasil não foi colonizado pela Coroa ou pelo Altar, mas pela família patriarcal. 

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Marcos explica com o se deu o atque da Tapera dos Gilo.

A base humana do coronel foi essencialmente o patriarca, às voltas com a agricultura e a pecuária em suas terras sem-fim, raramente se abrindo o espaço social para a figura da matriarca, a exemplo de Fideralina Augusto Lima, das Lavras da Manga-beira, Ceará; ou para um religioso, caso do Padre Cícero, do Juazeiro, no mesmo estado; ou para um autocrata modernizador, como se viu com o industrial Delmiro Gouveia, na Vila da Pedra, Alagoas, ou com Veremundo Soares, em Salgueiro, Pernambuco. 

Já tivemos ocasião de dizer que a civilização dos campos do Nordeste recaiu sobre os chamados homens bons da linguagem de época, os principais da terra, capitães e sargentos-mores de Ordenanças, corporação de origem portuguesa datada de 1569 e introduzida no Brasil em 1575, que se converterá em Guarda Nacional a partir de 1831. A existência legal da nova corporação se estendendo até 1918, quando vem a ser extinta por decreto presidencial. 

Os integrantes das corporações de Ordenanças ou da Guar-da Nacional, metidos nas fardas vistosas que saíam do guarda-roupa nas eleições e nas solenidades, nada mais eram que os indivíduos mais bem sucedidos no empreendimento colonial por sua face privada, cedo cooptados em instâncias de poder público local – a um tempo, militar e político – pela habilidade de uma Coroa que se reconhecia pobre de capitais e de agentes, mas certamente não de astúcia. Não daquele pragmatismo eficiente que tantos proclamam ter permeado os dois primeiros séculos da colonização. 

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Os autores junto com um dos gtuardiões da memória do Cangaço em Floresta e na companhia de Sérgio Azol e Rostand Medeiros.

Vitoriosamente hábil, essa Coroa com os pés no chão, sobretudo no modo de desbravar um território gigantesco como o nosso e de se fazer presente em todos os rincões que o integram. Eis aí conquistas difíceis de explicar pelo intérprete da história ainda hoje. 

O passar dos anos, aprimorando a administração pública, vai permitir ao estado ir mostrando o rosto nos mais diferentes lugares, da pancada do mar ao grotão mais arredado. A morte do coronel da Guarda Nacional estaria fadada a ocorrer, pela perda natural da utilidade, ainda no final do Império. Morte por inanição. Lenta. Inexorável. 
Não foi que aconteceu. A partir de 1898, o que se vê é o presidente da República, à época Campos Sales, delegar poder político quase absoluto aos governantes estaduais, estes, aos chefetes municipais, quase todos graduados da Guarda Nacional, nas patentes de alferes a coronel. Compromisso sagrado, dessa que ficou conhecida como Política dos Governadores: votar com o presidente. Sem perguntas. E a República Velha vira pasto dos chefes políticos militarizados pela Guarda Nacional, a se espalharem, livres de canga e corda, até 1930, quando sentem o primeiro golpe com o movimento revolucionário que toma conta do país naquele ano. Aguentam. Adaptam-se. Fingem-se de mortos, em alguns casos. Trocam o couro, imitando as cobras. E lá estão de volta com a Constituição de 1934, que põe fim ao Governo Provisório de Getúlio Vargas com uma das mãos, e o devolve ao poder, com a outra, ungindo-o presidente constitucional por mais quatro anos.

Mandato que o gaúcho de São Borja findaria por espichar em quinze anos de reinado absoluto, graças às mil astúcias de que era capaz, conhecedor profundo da alma humana como sempre se mostrou ser, especialmente das fraquezas que a sombreiam. 

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Aspecto de Floresta.

O paraíso do coronel do interior era aquele Brasil anterior a 1930: um país de 35 milhões de habitantes, 70% morando no campo, 60% de analfabetos, em que o presidente da República era eleito por menos de 3% dos eleitores. Em que o voto não era secreto nem feminino. E as eleições, uma farsa. 

Eis aí o caldo de cultura que permitiu a disseminação do fenômeno do cangaço por todos os rincões do Nordeste rural, bafejado pela indevassabilidade da fronteira entre os estados e pela inviolabilidade da fazenda-feudo do coronel que estivesse de cima na política.

Fenômeno que não se detinha diante da fronteira estadual, reprimido ironicamente por polícias que não possuíam ação regional. É claro que, com o tempo, foram surgindo encontros entre governadores ou seus chefes de polícia, no intuito de subtrair o trunfo aos bandidos. Mas o prejuízo já estava feito. O cangaço se espalhava por todas as ribeiras da região, subindo de endêmico a epidêmico nos períodos de seca. Na de 1879, porventura a maior de que se tem notícia, um dos mais antigos cantadores-repentistas do Nordeste, Joaquim Jaqueira, talento que alguns dão como cearense, outros, como alagoano, nobilitado, em qualquer caso, por cantar na Pitombeira, para o barão do Pajeú, traçava o quadro da geografia do punhal em início de expansão:

Aí foi que os cangaceiros
Caíram no gado sem dó:
Calango, no Cariri,
Sereno, no Piancó,
Barbosa, lá no Navio,
Antõi Grande, em Moxotó.

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Rostand Medeiros no antigo Quartel.

Nos sertões do Nordeste, palco do livro que se vai ler, intitulado As Cruzes do Cangaço, escrito, em coautoria harmoniosa, por Marcos Antonio de Sá e por Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, jovens florestanos que não mediram esforços no afã de levantar e detalhar ao máximo os acontecimentos verificados no território atual da província de berço, o poder do cangaço atingiu níveis alarmantes, desapropriando, de facto, áreas inteiras do município de Floresta. Tempo de inversão de papéis, em que o soldado se escondia do cangaceiro, como disse o sargento volante Optato Gueiros, em rasgo de sinceridade acerca do ano de 1919.

A partir dos Anos 1910, foi comum que bons jornais recifenses, como o Jornal Pequeno e o Jornal do Recife, para não falar de A Província, de O Pernambuco e do Diário de Pernambuco, trouxessem seções fixas sob as manchetes “Questão da Vila Bela” e “Questão de Floresta”, tratando dos lances qua-se diários da disputa sangrenta entre as famílias Pereira e Carvalho, e do ajuste de contas entre os cangaceiros Cassimiro Honório e Zé de Souza, respectivamente. Toda uma geração abriu os olhos nas ribeiras do Pajeú e do Navio vendo a terra de seus pais pegar fogo, em meio às correrias do cangaço. E precisou adestrar-se no uso das armas brancas e de fogo, como requisito de sobrevivência.
Marcos e Cristiano não inauguram a crônica da guerra social florestana, é certo, que já dispunham das contribuições re-levantes de Marilourdes e de João Gomes, entre outros, mas vão além no detalhamento, por vezes correção, de episódios emblemáticos ocorridos em seu chão de berço, a exemplo da formação do povoado de Nazaré, das primeiras lutas do futuro Lampião e de sua família, da tragédia incrível da fazenda Tapera, da questão entre Horácio Novaes e Tibúrcio Gomes, do fogo do Tigre, do grande combate da Favela, do choque de parentes no riacho do Mundé, da Revolução de 1930 na cidade, do desforço cruel da fazenda Gravatá, do ataque à fazenda Barra da Forquilha pelo bando de Moreno, em meio à crônica de sangue da passagem desse carrasco de Lampião pelo município, todo o sumário servido com o molho dos diálogos refertos de regionalismos, das pabulagens, dos chamados ditos de mofa, dos pregões de valentia. 

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A Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no município de Floresta, estado de Pernambuco, surgiu a partir de um antigo oratório da Fazenda Grande, dedicado ao Senhor Bom Jesus dos Aflitos.

Como resultado do esforço que sabemos ter sido grande, os jovens autores nos permitem saborear o êthos e o páthos de uma ribeira pernambucana de imensa riqueza cultural, dando-nos, do mesmo passo, a satisfação de uma leitura aliciante, com o risco do leitor somente se deter para as refeições, como foi o caso deste prefaciador.

A Marcos Antonio de Sá e a Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, sem esquecer o revisor Leonardo Gominho e o consultor em genealogia Nivaldo Carvalho, os cumprimentos de quem, padrinho da obra, já se investe do privilégio de cobrar novos estudos à dupla de primos, ampliados a fim de abranger todas as ocorrências da Grande Floresta de outrora.

Frederico Pernambucano de Mello
Historiador da Academia Pernambucana de Letras


SERVIÇO – Valor do livro – R$ 50,00, mais o valor da postagem.

Contato para adquirir o livro – CRISTIANO FERRAZ – 87 – 99918 1728

O CANGAÇO MAIS ALEGRE E COLORIDO, POR AZOL

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Sérgio Azol e sua arte – Fonte – http://www.lilianpacce.com.br/e-mais/o-cangaco-mais-alegre-e-colorido-por-azol/

O sertão brasileiro e o cangaço apareceram em mais de um desfile no SPFW, sendo a grande inspiração de Lilly Sarti e Helo Rocha. Descobrimos, então, um artista que há algum tempo já trabalha lindamente com a temática. Azol é o nome artístico de Sérgio Oliveira, o artista originário de Natal, que trabalha o cangaço com uma estética colorida e alegre, com vida e muito frescor. Fizemos uma entrevista com ele sobre suas inspirações, processos artísticos e planos! Confira abaixo e não deixe de ver a nossa galeria com algumas de suas obras!

Quando surgiu a paixão pelas artes plásticas?

O meu primeiro contato com as artes foi no ensino fundamental, lá pela 7ª ou 8ª série. Eu costumava desenhar muito nas contracapas dos meus cadernos e fazia tirinhas cômicas usando meus colegas como personagens.

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Sérgio Azol – Fonte – http://www.lilianpacce.com.br/e-mais/o-cangaco-mais-alegre-e-colorido-por-azol/

Quando e como ela deixou de ser um hobby e passou a ser o seu trabalho?
Aconteceu há uns 5 ou 6 anos quando me desliguei da sociedade com uma produtora de áudio/visual e, como além do cinema eu também tenho diploma em artes gráficas e ilustração, decidi me enveredar para este lado. Comecei a desenhar e pintar e, eventualmente, me rendi às redes sociais e comecei a postar. Meu trabalho teve uma aceitação muito grande e os clientes apareceram. Me empolguei e resolvi me atualizar. Participei de alguns ateliês de pintura e escultura e comecei a experimentar a colagem. A abertura do ateliê foi inevitável.

Como é ter o ateliê em casa? Muitas influências da família no trabalho?

Moro em casa, em uma área muito bonita de SP que é o Pacaembu. Posso afirmar que é uma situação extremamente confortável, segura, conveniente e inspiradora pra mim, especialmente porque SP é uma cidade muito complexa, com grande problema de mobilidade, trânsito caótico e segurança. Graças a Deus me considero um felizardo. A família me inspira bastante porque existe muito amor, cumplicidade, admiração e respeito entre nós. São valores importantíssimos pra um indivíduo construir um sólido corpo de trabalho e uma vida de qualidade.

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Fonte – http://www.lilianpacce.com.br/e-mais/o-cangaco-mais-alegre-e-colorido-por-azol/

Qual é o seu processo criativo? Como surgem as ideias?

Sempre tive uma cabeça muito visual, daí a paixão pelo cinema. Com o passar dos anos, adquiri o hábito de procurar em meu cotidiano as fontes de inspiração, coisas que me estimulam a criar, como a natureza, os rostos, uma boa leitura, objetos, as máquinas, a cidade, uma conversa, enfim, tudo me inspira. Além do mais, estou sempre me atualizando com relação às exposições que acontecem na cidade e fora do país. Isso me oxigena. Tenho vários cadernos de desenho e, quando pinta algo na cabeça, pego logo um deles e começo a rabiscar. Pesquiso muito sobre o tema cangaço, procuro me abastecer ao máximo de informação pra poder alimentar minha imaginação.

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Fonte – http://www.lilianpacce.com.br/e-mais/o-cangaco-mais-alegre-e-colorido-por-azol/

Como surgiu a temática do cangaço?

Fiz alguns estudos em arte abstrata e figurativa, mas não encontrei nelas uma identificação, algo que fizesse eu me apegar, sabe? O cangaço chegou em minha vida depois de um longuíssimo processo de autodescoberta. Vivo há muitos anos fora da minha cidade e em todo lugar por onde passei adquiri um sentimento incômodo, uma espécie de falta de pertencimento àqueles locais, do ponto de vista cultural. Parecia uma peça que não se encaixava, mas eu não tinha noção do que estava acontecendo. Me adaptava aos costumes e ao estilo de vida, mas me sentia um “outsider”. Através da análise, pude fazer uma auto-descoberta pra entender essa confusão e, através desse processo, resgatei as minhas origens como num ritual místico e trouxe de volta pra dentro de mim a minha identidade.

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Fonte – http://www.lilianpacce.com.br/e-mais/o-cangaco-mais-alegre-e-colorido-por-azol/

Com isso, comecei a olhar profundamente o que eu tinha deixado pra trás e a entender que o lugar de onde vim estava longe fisicamente, mas muito perto espiritualmente e culturalmente. Fazendo essa conexão, eu poderia amenizar esse sentimento incômodo e viver mais em paz comigo mesmo e com meu meio. Foi nesse processo que eu me reencontrei com a poderosa cultura popular nordestina, o folclore, suas tradições e, quando me deparei com a iconografia do cangaço, “BUUMMM”! Foi uma explosão que me nocauteou. Me aprofundei nas pesquisas e encontrei o estudo que o pesquisador e historiador Frederico Pernambucano de Melo fez sobre a Estética do Cangaço, um trabalho rico e minucioso sobre o surgimento da linguagem visual do movimento. Foi inevitável a identificação e comecei a fazer experimentos. Foi um tiro certeiro!

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Fonte – http://www.lilianpacce.com.br/e-mais/o-cangaco-mais-alegre-e-colorido-por-azol/

Como você faz pra representar o cangaço? Por que a escolha de cores sempre tão vivas?

O tema cangaço é por natureza muito triste, pois representa um período violentíssimo do nordeste brasileiro. Foi uma época de muita seca e o Brasil estava economicamente muito frágil, então a pobreza imperava na região. A minha paleta de cores, por outro lado, é viva e muito colorida porque retrata o cangaço pela ótica da estética e não antropológica. Imagine que, nos anos 20 e 30, no sertão nordestino, o lugar era inóspito, árido e monocromático. Daí surge uma trupe de loucos criminosos fantasiados daquela maneira que conhecemos. Era um contraste, uma coisa bizarra, alegórica. A vestimenta do cangaceiro era uma “afetação estética”, como diria o Frederico Pernambucano.

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Então, a minha arte reflete essa ótica, afetação e contraste. Outro aspecto que eu queria mencionar é que Lampião sofria de um paradoxo. Ao mesmo tempo em que ele matava e degolava sem piedade seus oponentes, ele mantinha uma sensibilidade pra criar suas roupas e acessórios. Sim, Lampião também era estilista, ele desenhava e costurava as próprias roupas e obrigava seus seguidores a fazerem o mesmo. Então, eu também carrego esse paradoxo pra minha arte, ou seja, ela representa um tema triste de uma forma alegre e viva por intermédio da paleta de cores. E essas cores estão associadas à luminosidade do nordeste, à beleza da linguagem visual do cangaço e à nossa herança cultural.

Quais os materiais mais utilizados?

Utilizo tinta acrílica pras telas e vez em quando uso bastões de pastel à óleo. Já pra colagem e esculturas, misturo muito, faço experimentos e lanço mão da técnica mista. Ultimamente, tenho feito esculturas com papelão, isopor, espuma, plástico, galhos, etc.

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Fonte – http://www.lilianpacce.com.br/e-mais/o-cangaco-mais-alegre-e-colorido-por-azol/

Como foi pra você expor em Natal e quais foram as emoções? E fora do Brasil?

Expor em Natal foi fantástico! Foi a minha primeira exposição individual na cidade e num local lindíssimo. Era uma casa construída no início do século passado em estilo colonial que hoje funciona como um centro cultural da cidade. Foi uma noite mágica muito bem organizada pela administração do centro e contou com um grande público na abertura. A mídia também fez uma ótima cobertura durante a semana que antecedeu o evento. Fiquei muito satisfeito com o resultado. Com relação ao exterior, participei de algumas exposições coletivas em uma galeria em NY e outra em Paris e também participei de duas feiras internacionais: Artexpo New York e Artshopping Le Carrossel Du Louvre, em Paris. Valeu como experiência e entendimento de como o mercado internacional funciona mas, atualmente, estou mais focado no mercado brasileiro. Existe muito o que se explorar por aqui.

Por que Azol como nome artístico?

AZOL é a junção das iniciais de meu sobrenome, Azevedo Oliveira. Fiz um teste e achei o nome forte, com identidade e potencial.

Existem planos futuros?

Sim, claro! Estou na gestação de um projeto grande aqui pra SP que pretende envolver a experiência sensorial de uma viagem ao mundo onírico do cangaço. Mas, por ora, é tudo que posso revelar!

FONTE – http://www.lilianpacce.com.br/e-mais/o-cangaco-mais-alegre-e-colorido-por-azol/