QUANDO KIRK DOUGLAS BRINCOU O CARNAVAL COM UM CHAPÉU DE VAQUEIRO E DORMIU EM UMA REDE POTIGUAR

Durante o Carnaval de 1963, Kirk Douglas, Um dos Maiores Astros de Hollywood, Conheceu e Descansou em Uma Típica Rede de Dormir Feita no Rio Grande do Norte, Usou um Chapéu de Couro e Conheceu a Cultura Nordestina Através do Natalense Sylvio Piza Pedroza, Ex-Prefeito de Natal e Ex-Governador Potiguar, Um Político Que Muito Valorizou a História da Sua Terra.

Rostand Medeiros – IHGRN

No início do ano de 1963 o Brasil era um país que vivia sob o signo da intranquilidade, principalmente no campo político. O gaúcho João Goulart, o Jango, era o Presidente do Brasil e ele ocupava o Palácio do Planalto há um ano e cinco meses, depois da nação ficar assombrada com a intempestiva renúncia do paulista Jânio Quadros.

Já a maioria da população brasileira ainda não possuía em suas residências os serviços básicos necessários para uma boa qualidade de vida, havia uma pesada crise econômica e a insatisfação de setores da sociedade com os rumos do governo Goulart fazia com que nuvens negras surgissem no horizonte político de Brasília.

Brasília, a nova capital brasileira – Fonte – https://conhecimentocientifico.r7.com/

Se dentro do país a situação se tornava complicada e seu povo vivia em meio a muitos problemas, a visão do Brasil no exterior até que não era das piores. No ano anterior a nossa seleção havia conquistado o bicampeonato de futebol no Chile, a Bossa Nova era cantada e elogiada em várias partes do mundo, o Cinema Novo começava a chamar atenção fora do país e Brasília encantava os estrangeiros com o arrojo de sua construção e sua bela arquitetura.

É nesse cenário que desembarcaram em Brasília o ator de cinema norte-americano Kirk Douglas e sua esposa Anne, que nascera na Bélgica e era produtora cinematográfica. 

Carnaval Em Brasília e Com Um Chapéu De Vaqueiro Nordestino

Esse astro de Hollywood, nessa época vivendo o auge de sua carreira, havia sido convidado para conhecer o nosso país e aproveitar os principais bailes de carnaval da novíssima capital federal e do Rio de Janeiro. O casal desembarcou na madrugada de sexta para o sábado de carnaval, dia 22 de fevereiro de 1963, no avião da Pan American Airways. Entre as figuras que aguardavam Kirk Douglas estava Luiz Severiano Ribeiro Junior, dono da maior rede de salas de cinema do país, e José Tjurs, proprietário do Hotel Nacional de Brasília. 

Kirk Douglas no Palácio do Planalto – Fonte – http://www.memoriascinematograficas.com.br

Na tarde de sábado o casal se encontrou com o prefeito Ivo de Magalhães e passearam por Brasília na companhia de Israel Pinheiro da Silva, o primeiro prefeito da cidade. Foram até mesmo ao Palácio do Planalto, mas o presidente João Goulart havia viajado para o Rio Grande do Sul (Correio Braziliense, 23/09/1963, págs. 3 e 8). Kirk Douglas se impressionou com a capital brasileira e comentou que “Para fazer isto tem que ter peito”. Vale ressaltar que o cargo de prefeito em Brasília foi extinto em outubro de 1969, passando os governadores do Distrito Federal a atuarem na prática como dirigentes da capital.

Capa da revista O Cruzeiro (Ed. 23/03/1963)

À noite o casal Douglas foi para o II Baile da Cidade, no Hotel Nacional, onde o carnaval rolou solto. O astro hollywoodiano, talvez por se encontrar na capital do país, foi vestido para o baile de maneira muito formal, envergando um bem talhado smoking. Mas na cabeça estava com um típico chapéu de couro do vaqueiro nordestino. Inclusive o astro foi fotografado com a indumentária sertaneja, beijando sua mulher Anne e a foto foi capa da revista O Cruzeiro (Ed. 23/03/1963), uma das principais do Brasil naquela época.

Dormindo Em Uma Tradicional Rede Potiguar, Mais Macia Que Sua Cama em Beverly Hills

No outro dia Kirk Douglas e Anne foram para uma casa alpendrada, feita de tábuas de madeira, as margens do Lago Paranoá, onde o ator de Hollywood foi fotografado tranquilamente dormindo em uma tradicional rede confeccionada no Rio Grande do Norte.

Revista O Cruzeiro, Ed. 16/03/1963 – Foto – Roberto Stuckert

Em outras fotos ele aparece sorrindo e abraçado a sua esposa Anne. Algumas pessoas estão sentadas em cadeiras e observam o casal. Na época essas fotos foram creditadas a Henri Ballot, mas na edição seguinte da revista houve uma retificação e o crédito passou ao jovem paraibano Roberto Franca Stuckert, então com 19 anos.

Revista O Cruzeiro, Ed. 16/03/1963 – Foto – Roberto Stuckert

A casa, pelo menos nas fotos, parece bem simples e rústica e segundo o crítico de cinema Ely Azeredo, que assinou o pequeno texto existente na revista O Cruzeiro (Ed. 16/03/1963, págs. 108 a 111), Kirk Douglas “experimentou pela primeira vez as delícias de uma rede no alpendre da casa de campo do Comodoro do Iate Clube Silvio Pedroso”. 

Mas o texto de Ely Azeredo possui um pequeno erro, pois o então Comodoro do Iate Clube de Brasília não era “Silvio Pedroso”, mas o ex-prefeito de Natal e ex-governador do Rio Grande do Norte Sylvio Piza Pedroza.

O PresiPresidente Juscdente Juscelino visitando o Iate Clube de Brasília em 1961, próximo ao final do seu mandato. Sylvio Pedroza está a sua esquerda – Fonte – www6.iateclubedebrasilia.com.br

Sylvio tinha então 45 anos de idade, era subchefe da Casa Civil da Presidência da República, cargo que assumiu ainda no governo Juscelino Kubitschek (1956 a 1961), passou pelo curto período de Jânio Quadros (1961) e continuava na função no governo João Goulart.

Provavelmente pela natureza do seu cargo e, quem sabe, pela sua fluência no idioma inglês foi que Sylvio Pedrosa se aproximou de Kirk Douglas e eles acabaram nas margens do Lago Paranoá.

Revista O Cruzeiro, Ed. 16/03/1963 – Foto – Roberto Stuckert

Talvez essa proximidade explique o chapéu de vaqueiro usado pelo astro de Hollywood no baile de carnaval no Hotel Nacional. Isso é bem possível, já que Sylvio Pedroza ficou conhecido no Rio Grande do Norte por sempre valorizar suas tradições e principalmente a história de sua terra.

E Kirk Douglas parecia bem à vontade naquela tradicional rede potiguar e naquela casa de aparência rústica e simples. O que não seria nenhuma novidade para um filho de imigrantes pobres nos Estados Unidos, que fugiram das perseguições e dos pogroms contra os judeus no Império Russo.

Revista O Cruzeiro, Ed. 16/03/1963 – Foto – Roberto Stuckert

O ator nasceu na cidade de Amsterdam, no estado de Nova York, em 9 de dezembro de 1916 e foi batizado como Issur Danielovitch. Aprendeu iídiche antes do inglês e conviveu com um pai alcoólatra e fisicamente abusivo, que bebia o pouco dinheiro que ganhava recolhendo lixo e deixava sua mãe e suas seis irmãs na miséria. Mesmo assim Douglas avançou nos estudos e conseguiu entrar na universidade, onde se formou em Direito em 1939. Durante a Segunda Guerra Mundial foi tenente a bordo de um pequeno caça submarinos no Pacífico, um tipo de barco que ficou conhecido na Marinha do Brasil como “Caça ferro”. Após ser dispensado devido a um acidente na sua embarcação, Kirk Douglas voltou para Nova York e começou a trabalhar no rádio, teatro e comerciais. Em 1946, fez sua estreia nas telas em The Strange Love of Martha Ivers e teve uma carreira de enorme sucesso no cinema, ganhando três indicações ao Oscar e um Oscar pelo conjunto de sua obra. Em 1960 atuou no papel principal do elogiado filme Spartacus, dirigido por Stanley Kubrick e ganhador de quatro Oscars, E foi pelo seu papel em Spartacus que Kirk Douglas foi bastante referenciado nessa visita ao Brasil.

Revista O Cruzeiro, Ed. 16/03/1963 – Foto – Roberto Stuckert

Antes que esqueça!

Kirk Douglas gostou tanto da rede de dormir fabricada em terras potiguares, que em um texto que escreveu para a revista O Cruzeiro (Ed. 23/03/1963, pág. 9) comentou…

“Pela primeira vez experimentei uma rede brasileira, mais confortável e macia do que minha cama em Beverly Hills”.

Tradição Potiguar

Para Sylvio Pedroza também não houve nenhum problema em oferecer ao astro de Hollywood uma típica rede potiguar, um hábito comum no Rio Grande do Norte, principalmente nos alpendres das casas existentes nas nossas belas praias.

Sylvio Pedroza, quando Prefeito de Natal, em uma solenidade na Escola Doméstica em homenagem ao Presidente da República João Café Filho, p único potiguar a chegar a esse cargo.

Nascido em Natal no dia 18 de março de 1918, Sylvio Piza Pedroza era filho de Fernando Gomes Pedroza e Dona Branca Toledo Piza Pedroza. Seu pai foi um agropecuarista e tido como um dos mais abastados comerciantes do Rio Grande do Norte. Sylvio estudou na Inglaterra e no Rio de Janeiro, onde se formou em Direito e ali morou por vários anos. Durante a Segunda Guerra retornou para Natal e em abril de 1945 foi nomeado membro do Conselho Administrativo do Estado do Rio Grande do Norte. No ano seguinte, quando tinha apenas 26 anos, foi indicado prefeito de Natal e foi sendo empossado pelo interventor federal Ubaldo Bezerra de Melo em abril de 1946. Ficou no cargo até fevereiro de 1950.

Posse de Sylvio Pedroza na Prefeitura de Natal

Durante as eleições de outubro de 1950 elegeu-se vice-governador do Rio Grande do Norte, assumindo a chefia do governo quando o então mandatário potiguar Jerônimo Dix-Sept Rosado Maia faleceu em um trágico acidente aéreo em Sergipe. Ficou no cargo até 1956, quando assumiu funções no Banco do Nordeste e depois tentou uma vaga ao Senado Federal, mas não se elegeu.

Ouvi de velhos políticos que Sylvio Pedroza atuou com simplicidade, sem pedantismo e que sabia ouvir os mais simples de sua terra. Além disso, incentivou o desenvolvimento de obras que trataram sobre a história potiguar, principalmente através de uma parceria com Câmara Cascudo.

Em 7 de março de 1947 Cascudo entregava ao jovem prefeito os primeiros exemplares do livro História da Cidade do Natal, até hoje uma referência sobre o tema (A Ordem, o9/03/1947, pág. 3). A parceria seria repetida em 1955, quando Sylvio Pedroza era governador potiguar e conseguiu com o Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Cultura a impressão dos exemplares do livro História do Rio Grande do Norte. Uma obra com 524 páginas e cujos primeiros exemplares foram entregues ao governador em abril de 1956 (O Poti, 17/04/1956, pág. 16).

Para seus críticos Sylvio Pedroza utilizou esse apoio a Cascudo apenas como um estratagema para consolidar seu nome e torná-lo mais conhecido no Estado. Pelo fato dele ser considerado como alguém “de fora”, por apenas ter nascido em Natal e morado por muitos anos distante da terra potiguar, Pedroza não era conhecido da população local e nem do meio político e por isso a aproximação. Ouvi de velhos políticos que, se isso realmente aconteceu quem ganhou foi o povo potiguar com a qualidade do material produzido por Cascudo. Para esses homens Sylvio Pedroza atuou politicamente com simplicidade, sem pedantismo e que sabia ouvir os mais simples de sua terra.

Sylvio Pedroza e Getúlio Vargas em 1954

Câmara Cascudo, em seu livro Rede de Dormir: Uma pesquisa etnográfica (MEC, 1957, 1ª Ed. págs. 31 e 32), comentou que essa relação dos políticos do Rio Grande do Norte com as redes de dormir é coisa bem antiga.

“Muita rede foi enviada de presente aos companheiros do Sul. E era lembrança local apreciada, ”souvenir” dos deputados gerais e senadores do Império aos seus colegas meridionais. O Visconde de Mauá possuiu uma grande e confortável rede, dada pelo deputado pelo Rio Grande do Norte, Amaro Carneiro Bezerra Cavalcanti, Amaro Bezerra, o “Tintureira” bonachão e violento nas últimas décadas imperiais. Na República, o deputado Augusto Severo, que morreu na explosão do dirigível Pax em Paris (12 de maio de 1902), voltava do Natal para a Câmara levando um carregamento de redes de dormir e queijos de manteiga do Seridó, ofertas disputadas pelos seus amigos do Parlamento. O senador Pedro Velho obrigava a instalação de sua rede inseparável nos hotéis onde morava no Rio de Janeiro, rede em que Rui Barbosa se deitou, sorridente, e Pinheiro Machado balançava-se, enrolando palha de milho com fumo negro de Goiás.”

Sylvio Pedroza

E De Que Cidade Veio a Rede?

No início desse texto imaginava que essas redes que existiam na “casa de campo” de Sylvio Pedroza as margens do Lago Paranoá eram oriundas de Caicó. Pois na minha meninice dormi em ótimas redes vindas dessa cidade seridoense e ouvia falar da fama que esses materiais produzidas por lá tinham em relação a qualidade.

Mas recorrendo aos conhecimentos e a experiência do meu amigo Adauto Guerra Filho, para mim o maior historiador vivo do Seridó Potiguar e morador de Caicó, na época do episódio em Brasília realmente existiam boas redes, com ótima qualidade e sendo produzidas na Capital do Seridó. Mas eram em pequeno número e a produção estava em crise.

Mestre Adauto Guerra Filho, o maior historiador vivo do Seridó Potiguar, autor de quinze livros, grande conhecedor da história de sua região. É um homem humilde, solicito e amigo. Faz tempo que é merecedor de reconhecimento maior.

A informação de Mestre Adauto encontra respaldo em Câmara Cascudo, no livro Rede de Dormir: Uma pesquisa etnográfica, de 1957.

Cascudo informou que através do apoio do seu amigo Aderbal de França, que trabalhava na Inspetoria Regional de Estatística Municipal no Rio Grande do Norte, em 1950 existiam por aqui 42 fábricas de redes e em 1956 o número se reduziu a somente 4, sendo três em Mossoró e apenas uma em Currais Novos. No último período uma das fábricas mossoroenses produziu 20.000 e outra 6.304 redes.   

Dos tempos áureos da produção de redes no Rio Grande do Norte, segundo descobri pesquisando no site da Biblioteca Nacional, as indústrias nessa área que mais se destacaram no Rio Grande do Norte foram a Fábrica de Redes Potiguar, de J. Oliveira & Cia., de Natal e localizada no bairro da Ribeira, próximo ao Teatro Alberto Maranhão (A Ordem, 29/10/1938, pág. 1). Já em Mossoró se destacou a Fábrica de Redes São Vicente, de Osmídio & Cia. Ltda., que ficava na Rua Coronel Saboia (Almanak Laemmert, edição 1937, pág. 1.606). No final da década de 1940 mereceu registro a Fábrica de Redes e Tecidos Santa Maria, de José Dhalia da Silveira, com sede na Rua dos Pajeús, 1.713, bairro do Alecrim, em Natal (A Ordem, 21/06/1948, pág. 3).

Kirk “Spartacus” Douglas sendo “atacado” no Baile do Municipal do carnaval de 1963 no Rio de Janeiro

Independente da cidade potiguar que fabricou a rede que Kirk Douglas dormiu em Brasília, aparentemente ele descansou bastante. Aliás, ele precisou descansar, pois no domingo de carnaval partiu com na sua esposa para o Rio de Janeiro, onde participou, juntamente com mais de 5.000 foliões, no famoso Baile do Municipal. O ator foi fantasiado de Spartacus e caiu na farra. Apesar do “ataque” das cariocas ao astro de Hollywood, ele não desgrudou de Anne e chamou atenção no Rio pelo comportamento positivo e atencioso ao lado da esposa.

Kirk e Anne Douglas – Fonte – G1

Caso raro em Hollywood, o casal Douglas mantiveram-se unidos até a morte de Kirk, que ocorreu em fevereiro de 2020, quando ele estava com a idade de 103 anos. Já sua esposa Anne faleceu em sua casa em Beverly Hills, dias após seu 102º aniversário, em abril de 2020.  

O RÁDIO FAROL DA PRAIA DA LIMPA

Antenas e estruturas do Rádio Farol da Limpa, atualmente na área do 17° GAC – Arquivo Nacional.

Antes da Segunda Guerra a Marinha do Brasil Construiu em Natal uma Moderna Estação de Rádio Comunicação e Navegação. Um Investimento Que Apontava a Importância Estratégica da Capital Potiguar. E o Que Restou Desse Local?

Rostand Medeiros – IHGRN

Nos primeiros tempos da aviação, um grande problema para os pilotos que buscavam cruzar os oceanos era a questão do direcionamento sobre imensas massas d’água. Qualquer erro de localização e navegação aérea resultaria na queda da aeronave sem combustível no meio do mar.

Para sanar esse problema, a incipiente indústria aeronáutica criou sistemas que utilizavam a recepção de ondas de rádio, com a finalidade de determinar a direção através da localização de uma estação de transmissão instalada em uma posição geográfica fixa e conhecida. As aeronaves passaram a utilizar antenas de rádio direcional que determinavam a localização dessas estações e essas, por sua vez, transmitiam sinais em Código Morse com o prefixo designador do local. Esse sistema era chamado radiogoniometria.

Entre o final da década de 1920 e 1930, sabemos que a Marinha do Brasil possuía uma estação de radiotelegrafia na região de Refóles. Essa estação atuou, por exemplo, no contato com o navio cargueiro inglês Phidias em 1927, para que a sua tripulação informasse se haviam visualizado o hidroavião português Argos, que se dirigia para Natal. Já no carioca Jornal da Manhã, edição de 02 de novembro de 1928, na página 11, encontramos a inauguração na região do bairro de Petrópolis de uma estação de rádio de ondas curtas, de propriedade do Telegrapho Nacional. Havia outra estação ligada à empresa exportadora de algodão S.A. Wharton Pedroza, mas desconhecemos a natureza de suas operações.

Essas estações radiotelegráficas tiveram papel importante na radiocomunicação potiguar, mas, como Natal se tornou um importante centro de movimentação aérea, era natural a criação de uma estação radiogoniométrica de localização e direcionamento aeronáutico. O local escolhido foi próximo ao estuário do Rio Potengi, e da Fortaleza do Reis Magos, em uma área de dunas elevadas, não muito distante das margens do rio, em um setor conhecido como Praia da Limpa. Ali próximo ficavam as bases de hidroaviões do Sindicato Condor e PANAIR[1].

O Rádio Farol da Limpa visto do Rio Potengi.

O projeto foi levado adiante pela Diretoria-Geral de Navegação da Marinha do Brasil, cujos técnicos chegaram a Natal em 06 de julho de 1936. Com recursos oriundos do Ministério da Fazenda, a estação foi erguida sob as ordens do Capitão de fragata Guilherme Bastos Pereira das Neves, que trouxe do Rio de Janeiro vários profissionais especializados para construir aquilo que ficou conhecido em Natal como Rádio Farol da Limpa.

Esses homens trabalharam principalmente para erguer duas torres de 62 metros de altura cada uma, afastadas uma da outra por 100 metros, sendo pintadas de vermelho e branco e possuindo no topo iluminação para evitar colisão com aeronaves. Já a aparelhagem instalada para emitir os sinais era toda alemã, da empresa Telefunken Gesellschaft für drahtlose Telegraphie mbH, que transmita sinais de rádio em código Morse, na frequência de 1.050 metros.

O prefixo que partia de Natal era P.X.N., sendo transmitido a cada cinco minutos, que podia se “escutado desde a África”. Além do aparelho de radiogoniômetro, havia, no Rádio Farol da Limpa, um aparelho de rádio com grande alcance, que podia fazer “transmissão e recepção por telegrafia e telephonia”. Existia igualmente no local uma estação de rádio de ondas curtas “com capacidade de 100 volts” e um gerador elétrico à gasolina.

Mesmo existindo rede elétrica no local, a colocação desse gerador servia para que a estação não deixasse de transmitir em nenhum momento. No local foram erguidas quatro construções: duas casas para os radiotelegrafistas, uma casa para os equipamentos de rádio e a última que servia para abrigar o gerador e como depósito.

No dia 27 de janeiro de 1937, uma quarta-feira, aconteceu a inauguração como Rádio Farol da Limpa.

Segundo reportagem publicada no jornal A República, um dia após a solenidade, na sua página 10, aquela estrutura era a terceira do gênero construída no país, sendo a primeira edificada na praia do farol de São Tomé, em Campo dos Goytacazes, Rio de Janeiro, e a segunda na Barra do Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Na inauguração esteve presente o então Governador Rafael Fernandes e vários políticos potiguares. Fernandes foi convidado pelo Capitão Pereira Neves a ligar os aparelhos e realizar a primeira transmissão.

O Governador Rafael Fernandes e o Capitão de fragata Guilherme Bastos Pereira das Neves, na inauguração do Rádio Farol da Limpa.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Rádio Farol da Limpa aparentemente continuou a funcionar, pois, no dia 04 de julho de 1944, recebeu a visita de Dom Marcolino Dantas, então Bispo de Natal, e do Vigário Capitular de Mossoró Júlio Bezerra. No local, as autoridades eclesiásticas foram recebidas por Antônio José Caldas, Primeiro sargento da Marinha, potiguar da cidade de Portalegre.[2]

Em 2019, por solicitação do Ministério Público Federal do Rio Grande do Norte, estive visitando esse local, que atualmente, se encontra na área interna do 17º Grupamento de Artilharia de Campanha.

Casas do antigo Rádio Farol da Limpa, na área do atual 17° GAC.

Nesse aquartelamento do Exército Brasileiro contamos com todo apoio do seu comandante, o Tenente-coronel Haryan Gonçalves Dias, bem como do Capitão Renato Esteves Costa, que nos acompanhou na visita ao local.

Mesmo não mais existindo as antigas torres de comunicação, ali encontramos todas as casas construídas em 1936 ainda muito bem preservadas, com poucas alterações nas estruturas e sendo utilizadas como moradia por militares e seus familiares.

NOTAS

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[1] Atualmente, esse local é ocupado pelas dependências do 17º Grupamento de Artilharia de Campanha, do Iate Clube de Natal, do Comando do Terceiro Distrito Naval e pelo prédio histórico da Rampa. Já a toponímia Praia da Limpa, hoje, é conhecida apenas pelos moradores mais idosos dos bairros das Rocas e Santos Reis e pelos historiadores.

[2] Ver A Ordem, Natal, 04 de julho de 1944, pág. 6.

A HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA DE JUDEUS QUE FUGIU DAS PERSEGUIÇÕES EM SUA TERRA E VIERAM PARA A CIDADE DE NATAL PARA VIVER EM PAZ

E A ESTRANHA SITUAÇÃO DOS NATALENSES NO SÉCULO XXI, QUE BUSCAM AS SUAS ANTIGAS RAÍZES JUDAICAS PARA FUGIR DA ATUAL E CRESCENTE VIOLÊNCIA EM SUA TERRA

Rostand Medeiros – IHGRN

Nos últimos anos no Rio Grande do Norte é notório que várias pessoas buscam ardentemente nas histórias dos seus antepassados uma pretensa ligação com a fé judaica.

Isso é bem interessante para quem vive no Rio Grande do Norte.

Pois esse é um Estado onde é perceptível que a sua classe dirigente (de todas as orientações ideológicas) pouco se importa com os temas ligados à nossa cultura e a nossa própria história. São dirigentes que pouco sabem e pouco utilizam como ferramentas positivas para o crescimento da cidadania potiguar as nossas interessantes e ricas manifestações culturais, ou dos fatos ligados ao nosso passado. Dito isso, é inegável que essas buscas individuais por uma pretensa “Raiz judaica” chamam a minha atenção.

Percebi que esse movimento de potiguares em busca da “Estrela de Davi” se tornou tão intenso, que ao publicar algumas postagens relacionadas com esse tema no “TOK DE HISTÓRIA”, todas tiveram muita procura e intensa visibilidade.

A Estrela de Davi na mais antiga cópia completa sobrevivente do texto massorético, o Códice de Leningrado, datado de 1008 – Fonte – https://www.chabad.org/library/article_cdo/aid/788679/jewish/Star-of-David-The-Mystical-Significance.htm

Ver – https://tokdehistoria.com.br/2020/08/09/para-nunca-ser-esquecido-auschwitz-imagens-de-ontem-e-de-hoje/https://tokdehistoria.com.br/2017/09/22/o-mito-sobre-a-origem-de-sobrenomes-de-judeus-convertidos/https://tokdehistoria.com.br/2017/03/19/os-cripto-judeus-no-brasil/https://tokdehistoria.com.br/2016/10/12/judeus-em-natal-a-saga-dos-palatinik/https://tokdehistoria.com.br/2016/07/12/15533/https://tokdehistoria.com.br/2016/03/30/judeus-sem-saber/https://tokdehistoria.com.br/2015/11/11/lei-pode-dar-cidadania-a-brasileiros-descendentes-de-judeus/https://tokdehistoria.com.br/2015/05/08/diaspora-descubra-como-os-judeus-se-espalharam-pelo-mundo/https://tokdehistoria.com.br/2014/03/23/sobrenomes-de-judeus-expulsos-da-espanha-em-1492-veja-se-o-seu-esta-na-lista/https://tokdehistoria.com.br/2012/04/18/a-expulsao-dos-judeus-de-portugal/

Busca Da Fé?

Tal como o autor desse texto, cujos antepassados imigraram do Velho Mundo para viver em solo potiguar no início do século XVIII, muitas das pessoas que buscam suas “Raízes judaicas” possuem histórias semelhantes em relação aos seus antepassados.

Soldados romanos carregando os despojos das guerras judaicas – Fonte – http://www.bible-history.com/archaeology/rome/arch-titus-menorah-1.html.

Mesmo que já tenha se passado quase três séculos que essas pessoas aqui chegaram para povoar as terras potiguares, mesmo que não exista nenhuma ligação com terra de onde esses antigos vieram, mesmo tendo avós, bisavós e tataravós que nasceram em nosso sertão e debaixo do credo cristão, nos dias atuais muitos insistem e persistem arduamente nessa busca por essa “Estrela Perdida”.

Levado unicamente pela curiosidade, sempre que me encontro com aqueles que desejam se ligar (ou já se ligaram) ao judaísmo através das histórias dos seus antepassados, eu não perco a oportunidade de questionar a razão desse esforço e dessa busca.

Nos diálogos que tive percebi que alguns realmente acreditam nessa antiga ligação religiosa, que levam o tema a sério, estudam e pesquisam bastante os fatos. São pessoas que possuem informes orais que, segundo eles, provam essa ligação de maneira concreta e afirmam que seus antepassados realizavam em datas determinadas certos atos e ações que apontam para essa ligação com a fé judaica. Em meio a certos critérios, percebi que eles possuem pura e simplesmente a fé nessas teses. E sobre fé eu nada comento, apenas respeito!

Mas outros com quem dialoguei, vários inseridos nos setores sociais mais privilegiados da sociedade potiguar, essa busca pouco tem relação com a vontade de realmente se ligar a uma religiosidade praticada pelos antigos. Observei que para essas pessoas, a pretensa descoberta dessas ligações antigas se resume unicamente em conseguir determinados mecanismos que lhes facilitem a conquista de um passaporte estrangeiro para imigrar para outro país.

Pude notar que para esses que buscam suas “Raízes judaicas” como forma de facilitar sua saída do Brasil, várias são as razões pessoais para realizar esse tipo de projeto. Entretanto houve uma unanimidade nesses diálogos – A existência da violência urbana em Natal como principal motivador dessa mudança.

Ouvi repetidamente que “Natal está muito violenta”, que tem “Muito medo de viver em Natal”, ou medo de “Criar filhos em um lugar tão violento” e um até me disse que “Valia a pena até virar judeu para ir embora”.

E é verdade. Faz tempo que a capital potiguar deixou de ser o lugar idílico, calmo e tranquilo que conheci na minha juventude.

Protesto na Praia de Ponta Negra, em Natal, em 2017. O belo cartão postal da capital potiguar virou um “cemitério” em protesto por número de homicídios no Rio Grande do Norte naquele ano – Fonte – Reprodução/Inter TV Cabugi – https://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2019/06/05/rio-grande-do-norte-tem-a-maior-taxa-de-homicidios-de-jovens-do-brasil-diz-atlas-da-violencia.ghtml

A nossa violência urbana, igualmente comum em outras grandes cidades brasileiras, por aqui avançou (e avança) de forma contundente e intensa. Muitas são as razões para esse fenômeno, sendo claro que as fortes desigualdades econômicas e sociais amplificadas nas últimas décadas, muito contribuíram para essa terrível mudança. Mas foi (e ainda é) algo tão forte, tão avassalador, que mudou totalmente nossos hábitos de convivência e de agir no dia a dia. E não posso esquecer que nas nossas periferias continuam a ser assoladas por uma matança incrível e cotidiana, onde os maiores atingidos são principalmente os jovens pobres e negros.

Pastores judeus da Bessarábia – Fonte – https://www.jewishgen.org/yizkor/pinkas_romania/rom2_00279.html

Foi quando percebi que essa situação contemporânea envolvendo potiguares, possui uma certa relação com os judeus membros das famílias Mandel, Schor, Ribenboim, Genes, Weinstein e Axelband, que devido a violência contra a fé judaica na Bessarábia, deixaram a sua terra na primeira metade do Século XX para encontrar na cidade de Natal aquilo que muitos atualmente sentem que perderam – Paz e tranquilidade para viver e crescer.   

Uma Região Intensa e Complicada

Possuindo uma área de 45.630 km², pouco menor que o estado do Espírito Santo, a Bessarábia fica localizada na Europa Oriental e na atualidade dois terços dessa região se encontram na República da Moldávia e uma pequena parte na República da Ucrânia. Mas no início do século XIX sua área era um principado vassalo aos turcos otomanos, que passou ao Império Russo através de negociações.

Em 1856, após a Guerra da Criméia, a Bessarábia fez parte de uma Moldávia independente, causando a perda do Império Russo acesso ao rio Danúbio, situação a qual não se conformaram. Através de negociações e ameaças, a região voltou para o domínio dos Czares em 1878. Mas em 1917, em meio a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa, a Bessarábia passou a fazer parte do então Reino da Romênia, cujas tropas invadiram a região em troca da passagem livre das tropas alemãs para a Ucrânia. O governa da recém criada União Soviética não se conformou com a situação e passou a considerar essa área como sua, além de se colocava politicamente favorável a retomá-la, a força se necessário. 

Até esse período, pelas idas e vindas em sua história, dá para perceber que a Bessarábia viu muita coisa acontecer, principalmente o sangue da sua gente derramado em várias guerras. E os judeus que lá viviam estavam sempre propensos a sofrerem com essa volatilidade política, mesmo vivendo nessa região ha séculos.

Os Judeus se estabeleceram na Bessarábia no século XV, formando comunidades mais ou menos numerosas. Com o tempo começaram a participar ativamente do comércio local, tornando-se conhecidos pela fabricação de bebidas alcoólicas. Um censo realizado em 1900 apontou que viviam na Bessarábia 1.935.000 pessoas, sendo 219.000 judeus. Eles dividiam esse espaço com romenos, russos, ucranianos, búlgaros, povos de origem turcas e minorias de origem grega e alemã. Provavelmente nesse período ali viviam os membros das famílias Mendel, Schor, Ribenboim, Genes, Weinstein e Axelband.

Segundo um conjunto de fichas que classificaram os estrangeiros residentes em Natal, produzidas pelo Departamento de Segurança Pública em 1937 e atualmente guardada no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Norte, descobri que dezesseis judeus, dessas seis famílias comentadas, vieram da Bessarábia e desembarcaram no Brasil entre 1912 e 1935. A maioria dessas pessoas inicialmente desembarcou em outras capitais brasileiras, para depois seguirem em momentos distintos para Natal. Eram homens e mulheres com idades variando de 61 a 19 anos, vindos das cidades de Secureni e Ataki, localizadas a nordeste da Bessarábia e distantes apenas 28 quilômetros uma da outra.

Historicamente os judeus que viviam na região de Secureni, onde consegui melhores informações, viviam do pequeno comércio, plantavam tabaco e beterraba, derrubavam e vendiam madeira, tinham moinhos de farinha e negociavam com cavalos, ovelhas, frutas e vegetais. Entre eles também haviam carpinteiros, sapateiros, peleteiros, serralheiros e outros profissionais.

Se no início do século XX essas duas cidades faziam parte da Romênia, atualmente Secureni, hoje chamada Sokyryany, fica no Condado de Chernivsti, na Ucrânia, ao lado da fronteira da República da Moldávia, onde a poucos quilômetros se encontra a antiga Ataki, atual Otaci.

Perseguições

Na primeira metade do século XIX, os judeus que viviam na Bessarábia não estavam sujeitos a perseguições dos russos. Mas em 1835, quando essa região estava gradualmente começando a perder sua autonomia e as ações de maior fortalecimento da população russa se multiplicaram, as leis antijudaicas começaram a ser aplicadas na Bessarábia, com a criação de vários decretos que tornaram a vida deles bastante complicada.

Judeus começaram a ser segregados nas grandes cidades, proibidos de estudar, impedidos de possuir propriedades e ainda exilados e isolados em pequenas aldeias espalhadas pela Europa Oriental.

As sociedades europeias da época possuíam um grande número de judeus integrados, participando até mesmo das esferas políticas, militares, econômicas e intelectuais. Apesar disso existiam fortes correntes antissemitas, de raízes religiosas ou não, na opinião pública europeia da época. Entre os cristãos europeus mais devotos, os judeus eram considerados como os “Algozes de Jesus” e outro tipo de preconceito bastante forte era o de ordem econômica. Diante desse quadro, não demorou para à situação dos judeus na Bessarábia piorar.

Macabro resultado do Primeiro Progrom de Chisinau em 1903.

Em 6 a 7 de abril de 1903, na cidade de Chisinau, atual capital da Moldávia, durante o Pessach, a Páscoa judaica, habitantes locais foram incentivados por autoridades do Império Russo para organizarem um “pogrom”, ou seja, uma série de ataques massivos, espontâneos contra os judeus, caracterizado por assassinatos, espancamentos, assédio, destruição de casas, de negócios, templos religiosos e outros ataques violentos. 

O chamado Primeiro Pogrom de Chisinau deixou 49 judeus assassinados, entre estas várias crianças. Cerca de 500 pessoas ficaram feridas, 1.500 casas e lojas judias foram parcialmente ou totalmente destruídas e 2.000 famílias judias ficaram desabrigadas.

Este pogrom abalou a população judia do Império Czarista e marcou uma virada na opinião pública judaica e mundial. Isso foi seguido por um novo aumento nas ondas de emigração de judeus da Europa Oriental para os Estados Unidos e para à Palestina.

O Presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt chama a atenção do Czar da Rússia Nicolau II para o massacre de Chisinau.

Uma das consequências desse ataque foi a vinda de 267 judeus da Bessarábia, distribuídos em 37 famílias, para formar uma colônia agrícola no Brasil, que ficou conhecida como Colônia Philippson. Eles chegaram em 18 de outubro de 1904 para ocupar uma área de 4.472 hectares, na cidade de Santa Maria, Rio Grande do Sul. 

Mas não demorou e os judeus da Bessarábia levaram uma segunda dose de violência. Entre 19 e 20 de outubro, novamente em Chisinau, ocorreu um segundo progrom, com 19 mortos. Dessa vez o número de vítimas foi menor porque os judeus resistiram em algumas áreas e chegaram a matar alguns atacantes. Já na área das cidades de Secureni e Ataki não ocorreram ataques dos russos, mas o medo passou a ser a tônica do dia a dia desses judeus, que poucos anos depois começariam a imigrar para Natal.

Monumento na Moldávia em honra aos que morreram nos progroms realizados na Bessarábia.

Logo a região da Bessarábia, conforme comentamos anteriormente, passou a ser dirigida por autoridades do atualmente extinto Reino da Romênia. Isso criou a ideia que as perseguições diminuiriam, mas não foi assim que aconteceu.

Os judeus que viviam na cidade de Secureni tinham relações estáveis ​​com seus vizinhos, mas sofriam com a atitude dos agentes do governo. No final de 1921, na véspera do Yom Kippur, judeus andando nas ruas foram presos, muitos homens, mulheres e crianças foram retirados à força de suas casas e levados para um campo fora da aldeia, onde foram vigiados por guardas armados e montados em cavalos. Depois da meia-noite, em meio a muito frio, o Chefe da Polícia, outros policiais e um médico indicado pelo governo vieram ao campo. Queriam prender dois refugiados que haviam cruzado um rio das proximidades e seriam espiões russos. Ameaçaram que no caso de não encontrar os dois homens, eles deportariam todos da aldeia. Os soldados abusaram dos judeus, mas como não encontraram os dois elementos desistiram da ação e todos voltaram para casa.

Parece que com essa perseguição (e talvez outras mais), associado a notícia da mudança de judeus da Bessarábia para o Brasil, tornou atrativa a ideia de alguns judeus das cidades de Secureni e Ataki mudarem para o nosso país. Pois a maioria dos judeus que vieram dessa região para viver em Natal, partem da Bessarábia na primeira metade da década de 1920.

Chegada ao Novo Mundo

Ao tentarmos cruzar informações disponíveis na Hemeroteca da Biblioteca Nacional, com os dados que possuímos sobre os membros das famílias Mendel, Schor, Ribenboim, Genes, Weinstein e Axelband, são poucas as informações conseguidas. Mas foi possível traçar o caminho de uma dessas famílias através do tempo e perceber, mesmo limitadamente, como se desenvolveu sua mudança para Natal e sua vida posterior.

RMS Andes – Fonte – http://www.naval-history.net

No dia 21 de junho de 1926, ao meio dia, o vapor inglês RMS Andes, da Royal Mail Steam Packet Company, conhecida no Brasil como Mala Real Inglesa, lançou âncora em frente ao farol da barra do porto de Recife. Havia zarpado 15 dias antes do porto de Southampton (Inglaterra), com escalas em Cherbourg (França), Vigo (Espanha) e Lisboa (Portugal).

Em Recife desembarcaram 22 passageiros, entre eles o jovem casal Samuel e Bertha Axelband, ele com 24 e ela com 19 anos de idade e sem filhos. Mas os tramites burocráticos do casal na alfandega só foram resolvidos um dia depois, uma terça-feira. A razão provável foi um grande bafafá ocorrido na repartição, inclusive noticiado nos jornais, em decorrência da prisão do comerciante judeu Alexander Gurewitz. Este pretendia embarcar no mesmo RMS Andes para o Rio de Janeiro, mas teve a sua partida sustada por dois oficiais de justiça e policiais, que cumpriram um mandato expedido pelo juiz Adolpho Cyriaco, a pedido da Sra. Sophia Goldel, também judia e sua credora. (Diário de Pernambuco, 22/06/1926, págs. 2 e 4).

Certamente na capital pernambucana o casal recebeu apoio da comunidade judaica, que era relativamente numerosa e atuante. Mas, por alguma razão, eles não permaneceram em Recife. Provavelmente Samuel deve ter trabalhado como mascate, profissão que abria contatos e horizontes e era a atividade muito comum entre os judeus desembarcados Brasil vindos da Europa Oriental.

Uma situação normal para todos estrangeiros e imigrantes no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial – Todos seus deslocamentos em aeronaves eram monitorados pelo DOPS. Isso ocorria independentemente de raça, origem, credo, etc. O interessante é que esse material normalmente traz boas informações de pessoas que são alvo de pesquisas históricas.

Talvez como fruto de suas andanças, vamos ter notícias dos Axelband sete anos depois de desembarcarem em Recife. Uma nota afirma que Samuel Axelband era um comerciante em São Luís, no Maranhão, e divulgava o aniversário do seu filho Aron (O Imparcial, 07/03/1933, pág. 2). Mas seja lá o tipo de comércio que Samuel tinha nessa cidade, aparentemente ele não durou muito, pois quatro anos depois seu nome consta no prestigiado Almanak Laemmert (Ed. 1937, pág. 1.376) como sendo proprietário da alfaiataria “A Carioca”, na Rua Simplício Mendes, no Centro de Teresina, Piauí, uma rua com várias alfaiatarias. Nesse negócio Samuel aparentemente tinha uma sociedade com uma pessoa de sobrenome “Luz”, mas não obtive maiores informações.

É provável que essa informação não seja totalmente correta. Não no sentido que Samuel Axelband e sua família viveram em Teresina, mas na data. Pois é conhecido que os nomes listados no Almanak Laemmert perduravam por anos nas novas edições desse almanaque, gerando informações equivocadas. Até porque a família Axelband já vivia em Natal em janeiro de 1938.

Imigrante de Sucesso

O Censo demográfico de 1940 apontou Natal com 109 judeus e, segundo Câmara Cascudo (Ver o livro História da Cidade do Natal, 1999, IHGRN, pág. 389) sua sinagoga havia sido fundada em 12 de janeiro de 1919, um domingo, quando a pandemia de Gripe Espanhola se encaminhava para seu final. É provável que a existência dessa comunidade judaica e o fato de prováveis parentes de sua esposa, cujo sobrenome de solteira era Mandel, já viverem e comerciarem em Natal, tenha influenciado Samuel Axelband a viver nessa parte do Brasil.

Não sabemos como seu deu a chegada dessa família em Natal, qual negócio Samuel montou primeiramente e nem como se deu sua relação com a comunidade judaica e com a população local. Mas sabemos que quem se destacou em sua família na cidade por essa época, foi a sua filha Riva Axelband, que começou a chamar atenção do maestro Waldemar de Almeida como exímia pianista e logo a jovem realizava apresentações para a sociedade local. Como na 19ª audição do “Curso Waldemar de Almeida”, ocorrida em 31 de janeiro de 1938 no Teatro Carlos Gomes, atual Teatro Alberto Maranhão. No seu piano marca Albert Schmölz, Riva tocou a “Mazurca” opus 24 n. 1, do polonês Frederic Chopin e nos anos seguintes outros recitais se repetiriam.

Temos a informação que Samuel Axelband fundou, em data desconhecida, uma loja chamada “Casa Glória”, especializada em artigos masculinos, no bairro da Ribeira, na Rua Dr. Barata, número 205. Ao lado da sua loja havia o comércio de um outro judeu, era a “J. Mandel & Cia”, um parente de sua esposa.

Bairro da Ribeira, em Natal, na época da Segunda Guerra.

Provavelmente Samuel percebeu claramente a grande possibilidade de negócios que ocorreria com a Segunda Guerra Mundial e a presença de tropas americanas na capital potiguar em Natal. Logo seu negócio prosperou enormemente, ao ponto de fundar na Rua Chile, número 240, em frente a atual Capitania dos Portos, uma movelaria chamada “Progresso”.

Segundo o livro Natal, Uma comunidade singular, Egon e Frieda Wolff (Pág. 53, Rio de Janeiro, 1984), 30 dias após a morte de Franklin Delano Roosevelt, Presidente dos Estados Unidos, houve na sede do Centro Israelita de Natal (CEN), no centro da cidade a cerimônia dos trinta dias de falecimento, que na fé judaica se denomina Shloshim. O ato foi realizado pelo Rabino Baum e contou com a presença de militares americanos judeus. Também estiveram presentes vários judeus que moravam em Natal, entre eles Samuel Axelband. 

Após o fim da guerra, como fizeram quase todos os judeus que viviam em Natal, os Axelband partiram da cidade nordestina que lhes deu tranquilidade para viver, mas que depois da Segunda Guerra e da partida das tropas estrangeiras, tinha pouco em termos econômicos a oferecer. Samuel foi viver em Recife, onde manteve uma representação de relógios.

Não sabemos quando sua existência findou nesse plano existencial e nem o que ocorreu com a sua família, mas sua trajetória e sua história no Brasil, especialmente em Natal, apontam para uma história de sucesso de um imigrante judeu da Europa Oriental que, mesmo recebendo apoios de pessoas da mesma religião, claramente mostra como essas pessoas desse grupo minoritário podiam viver tranquilos em Natal e no Rio Grande do Norte na primeira metade do século XX, sem o perigo dos progoms e das perseguições religiosas.

Cada um tem o direito acreditar na religião que quiser. Isso é uma situação de foto íntimo. Mas não deixa de ser um tanto irônico que em Natal, na segunda década do século XXI, na era do “futuro”, vários de seus cidadãos que não nasceram judeus, se voltem para suas pretensas “Raízes judaicas” para migrar de uma violência que anualmente crescer no número de assassinatos.

JHJHJHKJKH

Livros – História da Cidade do Natal, Câmara Cascudo, 1999, IHGRN, pág. 389.

Natal, Uma comunidade singular, Egon e Frieda Wolff, 1984.

Internet – https://kehilalinks.jewishgen.org/philippson/index.html

https://www.jewishgen.org/yizkor/pinkas_romania/rom2_00382.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Bessarabia

https://ro.wikipedia.org/wiki/Istoria_evreilor_din_Republica_Moldova

1937 – O DIA EM QUE UM VIOLINISTA RUSSO E UM FORD V8 ESTIVERAM NO PALCO DO PRINCIPAL TEATRO DE NATAL

Dizem que Natal é uma cidade onde seu povo tem uma adoração intensa pelos veículos motorizados. Se observarmos nos dias atuais o número de carros de passeio bastante novos circulando pelas nossas atravancadas ruas, provavelmente deve ser verdade. Fala-se que por mês mais de 2.000 veículos novos, 0 km, são desovados nas congestionadas vias de circulação da capital potiguar.

Harry Brounstein, gerente da Ford no Rio, no palco do Teatro Carlos Gomes, atual Teatro Alberto Maranhão, abrindo o recital ao lado de um Ford V 8.

Ainda se comenta que este gosto surgiu durante a Segunda Guerra Mundial, com a presença de tropas estadunidenses em nossas terras.

Existe a ideia que após o conflito, as tropas de Tio Sam despejaram nas nossas ruas potentes e reluzentes Lincons e Studebakers que não quiseram levar de volta para casa e isso ficou nas mentes dos natalenses. Até já tratei disso em nosso TOK DE HISTÓRIA (Ver em – https://tokdehistoria.com.br/2013/11/30/o-prazer-nosso-pelo-carro-novo-sao-os-militares-americanos-os-responsaveis-por-isso/ ).

Na época da visita da trupe, Natal tinha uma população com pouco mais de 30.000 habitantes. Na foto vemos o então Teatro Carlos Gomes, atual Teatro Alberto Maranhão – Fonte – Coleção TOK DE HISTÓRIA

Provavelmente a intensa adoração dos natalenses por veículos movidos a gasolina surgiu bem antes da Segunda Guerra e tudo aponta que se deveu muito mais a bem planejadas ações de propaganda desenvolvidas pelos fabricantes de veículos, do que uma pretensa ação das tropas americanas por aqui. 

Nova Forma de Propagandas 

Na segunda metade da década de 1930 os dois principais agentes que vendiam veículos em Natal eram a M. Martins & Cia., pela Ford, cujo um dos seus sócios era José Alves dos Santos e pela Chevrolet a empresa de Severino Alves Bila.

José Alves dos Santos, da M. Martins e Cia.

Como a Natal daquele tempo tinha pouco mais de 50.000 habitantes, onde praticamente toda elite se conhecia, é provável que os proprietários destas firmas tivessem amizade (ou quem sabe até parentesco pelo sobrenome comum). Mas nas páginas amareladas dos velhos periódicos temos uma verdadeira “guerra” de propagandas destes fabricantes de veículos sendo apresentada ao público natalense.

Não é incomum encontrarmos anúncios de página inteira, que eram publicadas por semanas, com maravilhosos desenhos de novos e potentes veículos. E vale ressaltar que a propaganda de carros nos jornais era bem diferente das atuais. Enquanto hoje não faltam produções suntuosas para gerar fotos fantásticas, muita imagem trabalhada no computador, participação de modelos fenomenais e pouca informação prática (normalmente só umas letrinhas miudinhas no final da propaganda), naquelas priscas eras a coisa era muito mais informativa.

Mas em 1937 houve uma mudança nesta estratégia de propaganda que chamou muita atenção em Natal.

The Cherniavsky Trio 

Em fins de 1936 o experiente violinista Leo Cherniavsky estava realizando concertos em Nova York, no prestigiado Carnegie Hall, quando foi contratado pela Ford Motors Company para se apresentar no início de abril de 1937 em Fortaleza, Natal, Recife e Salvador. A ideia destes recitais era comemorar 25 milhões de veículos da marca Ford manufaturados.

Leo Cherniavsky teria durante suas apresentações na região a companhia do pianista pernambucano Alberto Figueiredo, do Conservatório de Recife. Já quem comandava o grupo era Harry Brounstein, da Associação Comercial do Rio de Janeiro, membro do Touring Club do Brasil e gerente da Ford no Rio.

Leo Cherniavsky nasceu em 1890, na grande comunidade judaica da cidade de Odessa, na época parte do Império Russo (atualmente pertencente à Ucrânia). Sua família possuía uma grande tradição musical e junto com seus irmãos Jan (piano) e Mischel (violoncelo) formaram um trio de jovens músicos e realizaram sua primeira apresentação em 1901, quando o mais jovem do grupo tinha apenas dez anos de idade.

Mischel, Jan e Leo, “The Cherniavsky Trio”.

O primeiro show fora da Rússia foi realizado três anos depois em Berlim, Alemanha, onde os garotos receberam críticas mistas. Ainda naquele ano, sob o patrocínio das abastardas famílias judaicas Rothchild e Sassoon, o trio fez sua estreia britânica no Aeolian Hall, em Londres, onde as opiniões dos críticos foram mais animadoras. Chegaram a realizar uma turnê por outros países da Europa com relativo sucesso e tiveram proveitosos encontros com personalidades musicais famosas e respeitadas da época (além de serem pessoas bem mais velhas que os três garotos) – incluindo o russo Misha Elman, o francês Eugène Ysaÿe, o tcheco David Popper e o húngaro Joseph Joachim.

Em 1905, diante das tensões contra os judeus em Odessa, que levou a realização de uma perseguição que resultou na morte de 400 pessoas, a família Cherniavsky se mudou para a Áustria e de lá os jovens seguiram para o Canadá, onde conseguiram a cidadania neste país. Depois começaram a atuar nos Estados Unidos, onde o grupo ficou conhecido como “The Cherniavsky Trio”.

Os jovens músicos ganharam experiência, desenvolveram um conjunto musical de primeira classe e se apresentaram em cinco continentes. Continuaram realizando apresentações e produzindo discos até 1934, quando cada um seguiu seu rumo. Assim Leo Cherniavsky chegou a Natal em abril de 1937. 

Um Gringo Tocar Rabeca 

O paquete “Pará” veio de Fortaleza trazendo a Caravana Ford para a Natal. Na capital cearense o músico estrangeiro e o pianista pernambucano se apresentaram no Teatro José de Alencar. Cherniavsky foi recebido no desembarque no cais da Tavares de Lira pelo maestro Valdemar de Almeida, diretor do Instituto de Música, Edgar Barbosa, então diretor da Imprensa Oficial, José Alves dos Santos, da M. Martins e Cia., Moyses Wanistain, representando a comunidade judaica que então existia em Natal, Carlos Lamas, Cônsul do Chile na cidade, além de Luís da Câmara Cascudo, Sérgio Severo e outros membros da comunidade natalense.

Propagando sobre o recita de Lei Cherniavsky publicado em jornais natalenses.

Como era comum na época, apesar de existirem hotéis, algumas pessoas ilustres que visitavam Natal, principalmente estrangeiros, normalmente ficavam hospedados no palacete da rica comerciante Amélia Duarte Machado, a conhecida Viúva Machado. Com Leo Cherniavsky não foi diferente e ele estava ali acomodado junto com os outros membros da Caravana Ford.

O palco escolhido foi o melhor que Natal poderia oferecer – o Teatro Carlos Gomes, no bairro da Ribeira e atual Teatro Alberto Maranhão. Os jornais da época informam que desde o momento do anúncio do recital do violinista de Odessa, a elite local buscou avidamente a agência M. Martins e Cia. atrás dos 300 ingressos postos a disposição dos futuros compradores de carros novos.

Certamente deve ter chamado atenção dos trabalhadores braçais do cais do porto, dos comerciários da Ribeira, dos que trabalhavam nos depósitos de algodão da Rua Chile, dos pescadores das Rocas e outras pessoas do povo, a intensa movimentação na Rua Frei Miguelinho, nº 133, sede da M. Martins e Cia. Eram muitas “pessoas gradas”, da mais fina flor da sociedade potiguar, com sobrenomes consagrados, agitados atrás de conseguirem um ingresso para ver “um gringo tocar rabeca”. 

Quem Não foi ao Recital Não Era Gente em Natal! 

E o tradicional teatro ficou lotado na noite de 2 de abril de 1937, uma sexta-feira. Natal, por não possuir uma rádio ativa na época, foi a única das capitais nordestinas que não transmitiu o recital pelas ondas do éter.

Leo Cherniavsky, Alberto Figueiredo e o Ford V 8, modelo Tudor sedam de luxo, de quatro portas no palco do principal teatro de Natal.

Uma situação interessante e peculiar ocorreu nesta apresentação – eu não sei como foi feito, mas as fotos aqui apresentadas (apesar da baixa qualidade) provam que, de alguma forma, os organizadores colocaram no palco do tradicional Carlos Gomes um veículo Ford V 8, modelo Tudor sedam de luxo, de quatro portas. Os músicos teriam de tocar ao lado da possante máquina e não foram registrados problemas no teatro. Mas eu duvido que hoje isso acontecesse novamente!

Quando foi exatamente as 21:00, quem subiu ao palco foi Harry Brounstein, seguido de várias personalidades locais com seus longos discursos, situação essa que nunca deixava de acontecer nestes eventos. Depois o violinista nascido em Odessa e o pianista pernambucano subiram no palco do Teatro Carlos Gomes e iniciaram a sessão musical.

Público natalense no recital de 2 de abril de 1937

Infelizmente os jornais da época aos quais tive acesso, tanto o A República de Natal, quanto o Diário de Pernambuco de Recife, nada informaram do que foi apresentado nos recitais apresentados no Teatro Alberto Maranhão e nem no principal teatro da capital pernambucana, o Santa Izabel.

Mas é inegável o evento foi um grande sucesso. Vamos encontrar varias referências sobre o recital de Leo Cherniavsky e de Alberto Figueiredo no jornal A República durante vários dias. Causou enorme impressão a versatilidade dos músicos, da participação da sociedade no evento e, evidentemente, da beleza do novo Ford V 8 no palco.

Foto de um modelo Ford V 8 de 1937 e preservado na Alemanha

O burburinho foi tanto que parece até que quem não foi ao recital não era gente em Natal!

Pessoalmente nunca acreditei que esta dita “adoração por carros” seja uma exclusividade dos natalenses. Como o texto e as fotos apontam, certamente foram as ações de propaganda como as apresentadas em 2 de abril de 1937 que ajudaram a criar na mente da maioria dos brasileiros o gosto pelo carro.

E é um gosto bem estranho e um prazer bem esquisito. Já que até hoje a maioria dos brasileiros não se importa de pagar financiamentos exorbitantes e nem reclamam de impostos gigantescos que são cobrados por um bem que se desvaloriza em até 30% após sair da loja.

DITADOS POPULARES E SEUS SIGNIFICADOS – SEGUNDO CASCUDO

Luís da Câmara Cascudo

Muitas vezes usamos certas expressões, mas não temos ideia do que elas significam.

São ditados ou termos populares que através dos anos permaneceram sempre iguais, significando exemplos morais, filosóficos e religiosos.

Tanto os provérbios quanto os ditados populares constituem uma parte importante de cada cultura.

Historiadores e escritores sempre tentaram descobrir a origem dessa riqueza cultural, mas essa tarefa nunca foi nada fácil.

O grande escritor Luís da Câmara Cascudo já dizia que: “os ditados populares sempre estiveram presentes ao longo de toda a História da humanidade”. No Brasil isso não é nenhuma novidade. Muitas vezes ocorrem expressões tão estranhas e sem sentido, mas que são muito importantes para a nossa cultura popular.

Veja aqui algumas dessas expressões ou ditados populares:

Bicho-de-sete-cabeças

Tem origem na mitologia grega, mais precisamente na lenda da Hidra de Lerna, monstro de sete cabeças que, ao serem cortadas, renasciam. Matar este animal foi uma das doze proezas realizadas por Hércules. A expressão ficou popularmente conhecida, no entanto, por representar a atitude exagerada de alguém que, diante de uma dificuldade, coloca limites à realização da tarefa, até mesmo por falta de disposição para enfrentá-la.

Com o rei na barriga

A expressão provém do tempo da monarquia em que as rainhas, quando grávidas do soberano, passavam a ser tratadas com deferência especial, pois iriam aumentar a prole real e, por vezes, dar herdeiros ao trono, mesmo quando bastardos. Em nossos dias refere-se a uma pessoa que dá muita importância a si mesma.

Ver (ou adivinhar) passarinho verde (MAS PODE SER AZUL, AMARELO, VERMELHO, ROXO E POR AÍ VAI!)

Significa estar apaixonado. O passarinho em questão é uma espécie de periquito verde. Conta uma lenda que alguns românticos rapazes do século passado adestravam o bichinho para que ele levasse no bico uma carta de amor para a namorada. Assim, o casal de apaixonados tinha grandes chances de burlar a vigilância de um paizão ranzinza.

Com a corda toda

Antigamente, os brinquedos que possuíam movimento eram acionados torcendo um mecanismo em forma de mola ou um elástico, que ao ser distendido, fazia o brinquedo se mexer. Ambos os mecanismos eram chamados de “corda”. Logo, quando se dava “corda” totalmente num brinquedo, ele movia-se de forma mais agitada e frenética. Daí a origem da expressão.

Favas contadas

De acordo com Câmara Cascudo, antigamente, votavam-se com as favas brancas e pretas, significando sim ou não. Cada votante colocava o voto, ou seja, a fava, na urna. Depois vinha a apuração pela contagem dos grãos, sendo que quem tivesse o maior número de favas brancas estaria eleito. Atualmente, significa coisa certa, negócio seguro.

Fazer ouvidos de mercador

Orlando Neves, autor do Dicionário das Origens das Frases Feitas, diz que a palavra mercador é uma corruptela de marcador, nome que se dava ao carrasco que marcava os ladrões com ferro em brasa, indiferente aos seus gritos de dor. No caso, fazer ouvidos de mercador é uma alusão a atitude desse algoz, sempre surdo às súplicas de suas vítimas.

Tapar o sol com a peneira

Peneira é um instrumento circular de madeira com o fundo em trama de metal, seda ou crina, por onde passa a farinha ou outra substância moída. Qualquer tentativa de tapar o sol com a peneira é inglória, uma vez que o objecto é permeável à luz. A expressão teria nascido dessa constatação, significando atualmente um esforço mal sucedido para ocultar uma asneira ou negar uma evidência.

O pomo da discórdia

A lendária Guerra de Tróia começou numa festa dos deuses do Olimpo: Éris, a deusa da Discórdia, que naturalmente não tinha sido convidada, resolveu acabar com a alegria reinante e lançou por sobre o muro uma linda maçã, toda de ouro, com a inscrição “à mais bela”.

Como as três deusas mais poderosas: Hera, Afrodite e Atena disputavam o troféu, Zeus passou a espinhosa função de julgar para Páris, filho do rei de Tróia  O príncipe concedeu o título a Afrodite em troca do amor de Helena, casada com o rei de Esparta.

A rainha fugiu com Páris para Tróia, os gregos marcharam contra os troianos e a famosa maçã passou a ser conhecida como “o pomo da discórdia” – que hoje indica qualquer coisa que leve as pessoas a brigar entre si.

Afogar o ganso

No passado, os chineses costumavam satisfazer as suas necessidades sexuais com gansos. Pouco antes de ejacularem, os homens afundavam a cabeça da ave na água, para poderem sentir os espasmos anais da vítima. Daí a origem da expressão, que se refere a um homem que está precisando fazer sexo.

Ave de mau agouro

Diz-se de pessoa portadora de más notícias ou que, com a sua presença, anuncia desgraças. O conhecimento do futuro é uma das preocupações inerentes ao ser humano. Quase tudo servia para, de maneiras diversas, se tentar obter esse conhecimento. As aves eram um dos recursos que se utilizava. Na antiga Roma, a predição dos bons ou maus acontecimentos (Avis spicium, em Latim) era feita através da leitura do voo ou canto das aves. Os pássaros mais usado para isso eram a águia, a coruja, o corvo e a gralha. Ainda hoje perdura, popularmente, a conotação funesta com qualquer destas aves.

Santa do pau oco

Expressão que se refere à pessoa que se faz de boazinha, mas não é. Nos século XVIII e XIX os contrabandistas de ouro em pó, moedas e pedras preciosas utilizavam estátuas de santos ocas por dentro. O santo era “recheado” com preciosidades roubadas e enviado para Portugal.

Mais vale um pássaro na mão que dois voando

Significa que é melhor ter pouco que ambicionar muito e perder tudo. É tradição de antigos caçadores. Eles achavam melhor apanhar logo a ave que tinham atingido de raspão, antes que ela fugisse, do que tentar atirar nas que estavam voando e errar o alvo.

Apressado come cru

Quando não existia o forno microondas, era preciso muito tempo para a comida ficar pronta, ou então comê-la crua. Nessa época, a culinária japonesa ainda não estava na moda e comida crua era vista com maus olhos. Assim, a expressão passou a ser usada para significar afobamento, precipitação.

Chorar as pitangas

Pitangas são deliciosas frutinhas cultivadas e apreciadas em todo o país, especialmente nas regiões norte e nordeste do país. A palavra deriva de pyrang, que, em tupi-guarani, significa vermelho. Sendo assim, a provável relação da fruta com lágrimas, vem do fato de os olhos ficarem vermelhos, parecendo duas pitangas, quando se chora muito.

Farinha do mesmo saco

“Homines sunt ejusdem farinae” esta frase em latim (homens da mesma farinha) é a origem dessa expressão, utilizada para generalizar um comportamento reprovável. Como a farinha boa é posta em sacos diferentes da farinha ruim, faz-se essa comparação para insinuar que os bons andam com os bons enquanto os maus preferem os maus.

Aquela que matou o guarda

Tratava-se de uma mulher que trabalhava para Dom João VI e se chamava Canjebrina, que, como informam os dicionários, significa pinga, cachaça. Ela teria matado um dos principais guardas da corte do Rei. O fato não foi provado. Mas está no livro “Inconfidências da Real Família no Brasil”, de Alberto Campos de Moraes.

Sangria desatada

Diz-se de qualquer coisa que requer uma solução ou realização imediata. Esta expressão teve origem nas guerras, onde se verificava a necessidade de cuidados especiais com os soldados feridos. É que, se por qualquer motivo, se desprendesse a atadura posta sobre as feridas, o soldado morreria, por perder muito sangue.

Colocar panos quentes

Significa favorecer ou acobertar coisa errada feita por outro. Em termos terapêuticos, colocar panos quentes é uma receita, embora paliativa, prescrita pela medicina popular desde tempos remotos. Recomenda-se sobretudo nos estados febris, pois a temperatura muito elevada pode levar a convulsões e a problemas daí decorrentes. Nesses casos, compressas de panos encharcados com água quente são um santo remédio. A sudorese resultante faz baixar a febre.

Cor de burro quando foge

A frase original era “Corra do burro quando ele foge”. Tem sentido porque, o burro enraivecido, é muito perigoso. A tradição oral foi modificando a frase e “corra” acabou virando “cor”.

Pagar o pato

A expressão deriva de um antigo jogo praticado em Portugal. Amarrava-se um pato a um poste e o jogador (em um cavalo) deveria passar rapidamente e arrancá-lo de uma só vez do poste. Quem perdia era que pagava pelo animal sacrificado. Sendo assim, passou-se a empregar a expressão para representar situações onde se paga por algo sem ter qualquer benefício em troca.

De pequenino é que se torce o pepino

Os agricultores que cultivam os pepinos precisam de dar a melhor forma a estas plantas. Retiram uns “olhinhos” para que os pepinos se desenvolvam. Se não for feita esta pequena poda, os pepinos não crescem da melhor maneira porque criam uma rama sem valor e adquirem um gosto desagradável. Assim como é necessário dar a melhor forma aos pepinos, também é preciso moldar o caráter das crianças o mais cedo possível.

Salvo pelo gongo

O ditado tem origem na Inglaterra. Lá, antigamente, não havia espaço para enterrar todos os mortos. Então, os caixões eram abertos, os ossos tirados e encaminhados para o ossuário e o túmulo era utilizado para outro infeliz. Só que, às vezes, ao abrir os caixões, os coveiros percebiam que havia arranhões nas tampas, do lado de dentro, o que indicava que aquele morto, na verdade, tinha sido enterrado vivo (catalepsia – muito comum na época).

Assim, surgiu a idéia de, ao fechar os caixões, amarrar uma tira no pulso do defunto, tira essa que passava por um buraco no caixão e ficava amarrada num sino. Após o enterro, alguém ficava de plantão ao lado do túmulo durante uns dias. Se o indivíduo acordasse, o movimento do braço faria o sino tocar. Desse modo, ele seria salvo pelo gongo. Atualmente, a expressão significa escapar de se meter numa encrenca por uma fração de segundos.

Elefante branco

A expressão vem de um costume do antigo reino de Sião, situado na atual Tailândia, que consistia no gesto do rei de dar um elefante branco aos cortesões que caíam em desgraça. Sendo um animal sagrado, não podia ser posto a trabalhar. Como presente do próprio rei, não podia ser vendido. Matá-lo, então, nem pensar. Não podendo também ser recusado, restava ao infeliz agraciado alimentá-lo, acomodá-lo e criá-lo com luxo, sem nada obter de todos esses cuidados e despesas. Daí o ditado significar algo que se tem ou que se construiu, mas que não serva para nada.

Comer com os olhos

Soberanos da África Ocidental não consentiam testemunhas às suas refeições. Comiam sozinhos. Na Roma Antiga, uma cerimônia religiosa fúnebre consistia num banquete oferecido aos deuses em que ninguém tocava na comida. Apenas olhavam, “comendo com os olhos”. A propósito, o pesquisador Câmara Cascudo diz que certos olhares absorvem a substância vital dos alimentos. Hoje o ditado significa apreciar de longe, sem tocar.

Amigo da onça

Segundo estudiosos da língua portuguesa, este termo surgiu a partir de uma história curiosa. Conta-se que um caçador mentiroso, ao ser surpreendido, sem armas, por uma onça, deu um grito tão forte que o animal fugiu apavorado. Como quem o ouvia não acreditou, dizendo que , se assim fosse, ele teria sido devorado, o caçador, indignado, perguntou se, afinal, o interlpcutor era seu amigo ou amigo da onça. Atualmente, o ditado significa amigo falso, hipócrita.

Estar com a corda no pescoço

O enforcamento foi, e ainda é em alguns países, um meio de aplicação da pena de morte. A metáfora nasceu de anistias ou comutações de pena chegadas à última hora, quando o condenado já estava prestes a ser executado e o carrasco já lhe tinha posto a corda no pescoço, situação que, de fato, é um sufoco. Hoje, o ditado significa estar ameaçado, sob pressão ou com problemas financeiros.

Como sardinha em lata

A palavra sardinha vem do latim sardina. Designa o peixe abundante na Sardenha, conhecida região da Itália. É um alimento apreciado e nutritivo, de sabor bem peculiar. As sardinhas, quando enlatadas em óleo ou em outro molho, vêm coladas umas às outras. Por analogia, usa-se a expressão popular sardinha em lata para designar a superlotação de veículos de transporte público.

O pior cego é o que não quer ver

Em 1647, em Nimes, na França, na universidade local, o doutor Vicent de Paul D’Argenrt fez o primeiro transplante de córnea em um aldeão de nome Angel.

Foi um sucesso da medicina da época, menos para Angel, que assim que passou a enxergar ficou horrorizado com o mundo que via. Disse que o mundo que ele imagina era muito melhor. Pediu ao cirurgião que arrancasse seus olhos.

O caso foi acabar no tribunal de Paris e no Vaticano. Angel ganhou a causa e entrou para a história como o cego que não quis ver. Atualmente, o ditado se refere a a alguém que se nega a admitir um fato verdadeiro.

Andar à toa

Toa é a corda com que uma embarcação reboca a outra. Um navio que está “à toa” é o que não tem leme nem rumo, indo para onde o navio que o reboca determinar. Uma mulher à toa, por exemplo, é aquela que é comandada pelos outros. Jorge Ferreira de Vasconcelos já escrevia, em 1619: Cuidou de levar à toa sua dama. Hoje, o ditado significa andar sem destino, despreocupado, passando o tempo.

Casa de Mãe Joana

Este dito popular tem origem na Itália. Joana, rainha de Nápoles e condessa de Provença (1326-1382), liberou os bordéis em Avignon, onde estava refugiada, e mandou escrever nos estatutos: “Que tenha uma porta por onde todos entrarão”.

O lugar ficou conhecido como Paço de Mãe Joana, em Portugal. Ao vir para o Brasil a expressão virou “Casa da Mãe Joana”. A outra expressão envolvendo Mãe Joana, um tanto chula, tem a mesma origem, naturalmente.

Onde judas perdeu as botas

Como todos sabem, depois de trair Jesus e receber 30 dinheiros, Judas caiu em depressão e culpa, vindo a se suicidar enforcando-se numa árvore.

Acontece que ele se matou sem as botas. E os 30 dinheiros não foram encontrados com ele. Logo os soldados partiram em busca as botas de Judas, onde, provavelmente, estaria o dinheiro.

A história é omissa daí pra frente. Nunca saberemos se acharam ou não as botas e o dinheiro. Mas a expressão atravessou vinte séculos. Atualmente, o ditado significa lugar distante, inacessível.

Quem não tem cão caça com gato

Se você não pode fazer algo de uma maneira, se vira e faz de outra. Na verdade, a expressão, com o passar dos anos, se adulterou. Inicialmente se dizia “quem não tem cão caça como gato”, ou seja, se esgueirando, astutamente, traiçoeiramente, como fazem os gatos.

De pá virada

Um sujeito da pá virada pode tanto ser um aventureiro corajoso como um vadio.

A origem da palavra é em relação ao instrumento, a pá. Quando ela está virada para baixo, é inútil não serve para nada. Hoje em dia, “pá virada” tem outro sentido. Refere-se a uma pessoa de maus instintos e criadora de casos ou a um aventureiro.

Deixar de Nhenhenhém

Conversa interminável em tom de lamúria, irritante, monótona. Resmungo, rezinga.

Nheë, em tupi, quer dizer falar. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, eles não entendiam aquela falação estranha e diziam que os portugueses ficavam a dizer “nhen-nhen-nhen”.

Estar de paquete

Situação das mulheres quando estão menstruadas. Paquete, já nos ensina o Aurélio, é um das denominações de navio. A partir de 1810, chegava um paquete mensalmente, no mesmo dia, no Rio de Janeiro. E a bandeira vermelha da Inglaterra tremulava. Daí logo se vulgarizou a expressão sobre o ciclo menstrual das mulheres. Foi até escrita uma “Convenção Sobre o Estabelecimento dos Paquetes”, referindo-se, é claro, aos navios mensais.

Pensando na morte da bezerra

Estar distante, pensativo, alheio a tudo.

Esta é bíblica. Como vocês sabem, o bezerro era adorado pelos hebreus e sacrificados para Deus num altar. Quando Absalão, por não ter mais bezerros, resolveu sacrificar uma bezerra, seu filho menor, que tinha grande carinho pelo animal, se opôs. Em vão. A bezerra foi oferecida aos céus e o garoto passou o resto da vida sentado do lado do altar “pensando na morte da bezerra”. Consta que meses depois veio a falecer.

Não entender patavina

Não saber nada sobre determinado assunto. Nada mesmo.

Tito Lívio, natural de Patavium (hoje Pádova, na Itália), usava um latim horroroso, originário de sua região. Nem todos entendiam. Daí surgiu o Patavinismo, que originariamente significava não entender Tito Lívio, não entender patavina.

Jurar de pés junto

A expressão surgiu das torturas executadas pela Santa Inquisição, nas quais o acusado de heresias tinha as mãos e os pés amarrados (juntos) e era torturado para confessar seus crimes.

Emanuele Filiberto di Savoia

Testa de ferro

O Duque Emanuele Filiberto di Savoia, conhecido como Testa di Ferro, foi rei de Chipre e Jerusalém. Mas tinha somente o título e nenhum poder verdadeiro. Daí a expressão ser atribuída a alguém que aparece como responsável por um por um negócio ou empresa sem que o seja efetivamente.

Erro crasso

Na Roma antiga havia o Triunvirato: o poder dos generais era dividido por três pessoas. No primeiro destes Triunviratos, tínhamos: Caio Júlio, Pompeu e Crasso. Este último foi incumbido de atacar um pequeno povo chamado Partos. Confiante na vitória, resolveu abandonar todas as formações e técnicas romanas e simplesmente atacar. Ainda por cima, escolheu um caminho estreito e de pouca visibilidade. Os Partos, mesmo em menor número, conseguiram vencer os romanos, sendo o general que liderava as tropas um dos primeiros a cair. Desde então, sempre que alguém tem tudo para acertar, mas comete um erro estúpido, dizemos tratar-se de um “erro crasso“.

Lágrimas de crocodilo

O crocodilo, quando ingere um alimento, faz forte pressão contra o céu da boca, comprimindo as glândulas lacrimais. Assim, ele chora enquanto devora a vítima. Daí a expressão significar choro fingido.

Fila indiana

Tem origem na forma de caminhar dos índios americanos, que, desse modo, encobriam as pegadas dos que iam na frente.

Passar a mão pela cabeça

Significa perdoar, e vem do costume judaico de abençoar cristãos-novos, passando a mão pela cabeça e descendo pela face, enquanto se pronuncia a bênção.

Gatos pingados

Esta expressão remonta a uma tortura procedente do Japão que consistia em pingar óleo fervente em cima de pessoas ou animais, especialmente gatos.

Existem várias narrativas ambientais na Ásia que mostram pessoas com os pés mergulhados num caldeirão de óleo quente. Como o suplício tinha uma assistência reduzida, tal era a crueldade, a expressão “gatos pingados” passou a significar pequena assistência sem entusiasmo ou curiosidade para qualquer evento.

Queimar as pestanas

Antes do aparecimento da eletricidade, recorria-se a uma lamparina ou uma vela para iluminação. A luz era fraca e, por isso, era necessário colocá-las muito perto do texto quando se pretendia ler o que podia dar num momento de descuido queimar as pestanas. Por essa razão, aplica-se àqueles que estudam muito.

Sem papas na língua

Significa ser franco, dizer o que sabe, sem rodeios. A expressão vem da frase castelhana “no tener pepitas em la lengua”. Pepitas, diminutivo de papas, são partículas que surgem na língua de algumas galinhas, é uma espécie de tumor que lhes obstrui o cacarejo. Quando não há pepitas (papas), a língua fica livre.

A toque de caixa

A caixa é o corpo oco do tambor que foi levado para a a Europa pelos árabes. Como os exercícios militares eram acompanhados pelo som de tambores, dizia-se que os soldados marchavam a toque de caixa. Atualmente, refere-se a uma tarefa que se tem de fazer rapidamente, eventualmente a mando de alguém ou mesmo à força.

Maria vai com as outras

Dona Maria I, mãe de D. João VI (avó de D. Pedro I e bisavó de D. Pedro II), enlouqueceu de um dia para o outro . Declarada incapaz de governar, foi afastada do trono. Passou a viver recolhida e só era vista quando saía para caminhar a pé, escoltada por numerosas damas de companhia. Quando o povo via a rainha levada pelas damas nesse cortejo, costumava comentar: “Lá vai D. Maria com as outras”. Atualmente aplica-se a expressão a uma pessoa que não tem opinião e se deixa convencer com a maior facilidade.

Fonte: CASCUDO, Luís da Câmara. Locuções Tradicionais no Brasil. São Paulo, Editora Global/2008.

Fonte internet – http://saibahistoria.blogspot.com.br/2010/07/blog-post.html

VEJA UMA SEGUNDA PARTE SOBRE ESTE TEMA EM NOSSO TOK DE HISTÓRIA – https://tokdehistoria.wordpress.com/2013/10/03/ditados-populares-e-seus-significados-ii/

A HISTÓRIA DE VILMAR GAIA – VINGADOR, OU PISTOLEIRO A PREÇO FIXO?

Rostand Medeiros – IHGRN

1970 foi um ano de seca muito forte, onde pouco sobrou para o homem do sertão nordestino conseguir sobreviver. Na época, o Governo Federal procurou minimizar os impactos sociais decorrentes dessa estiagem e atender as grandes levas de flagelados. Em anos anteriores haviam sido criados programas que consistiam na utilização de trabalhadores rurais em obras de pequeno e médio porte, as chamadas “Frentes de Emergência”. Normalmente executadas em grandes propriedades privadas de lideranças políticas, a criação desses subempregos fomentou entre os pequenos agricultores do sertão do Nordeste brasileiro uma forte dependência política e financeira. Mas para muitos, em certos momentos, foi a principal fonte de sobrevivência.

Uma dessas “emergências”, como o sertanejo denominavam os locais onde ocorriam as obras desse programa, ficava localizada a cerca de trinta quilômetros ao norte da sede do município pernambucano de Serra Talhada, na região do Pajeú (412 km de Recife e então com 65 mil habitantes).

No final de dezembro de 1970 ali foi realizada a obra de melhoramento da estrada carroçável que seguia até o povoado de Santa Rita, passando pela comunidade de São João dos Gaia e o sítio Serrote Branco.

A maioria dos trabalhadores rurais alistados naquele setor eram membros da família Magalhães, cujos os integrantes eram considerados um clã familiar tradicional, tidos como pessoas honestas, trabalhadoras, com muitos deles possuindo pequenas propriedades rurais, mas recursos financeiros limitados. Até hoje na região são conhecidos como a família Gaia, ou simplesmente os Gaia. Mesmo sem comprovação, é possível que essa denominação exista por eles possuírem um antepassado oriundo do município de Vila Nova de Gaia, norte de Portugal.

Foto ilustrativa de uma Frente de Emergência no sertão nordestino.

O certo é que no dia 30 de dezembro de 1970, uma quarta-feira, esses trabalhadores estavam reunidos para receber de um funcionário da extinta SUDENE (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste) o pagamento pela semana trabalhada na Frente de Emergência. Fazendo a segurança desse funcionário estavam dois soldados da Polícia Militar do Estado de Pernambuco (PMPE), que se chamavam Adalberto Clementino de Moura e Alberto Alves de Oliveira, este último conhecido como Alberto Cipriano. O pagamento ocorreu na comunidade de São João dos Gaia, em um local onde hoje existe um Grupo Escolar.

Segundo a reportagem de primeira página do Diário de Pernambuco (edição de 17/01/1971), na hora de entregar o miserável salário, o funcionário público da SUDENE buscou organizar uma fila e houve algum tipo de alteração entre ele e Edmundo Gaia, tido como chefe da família e da turma de trabalhadores, pois na sequência o pagador mandou que o soldado Adalberto revistasse Edmundo para ver se ele trazia alguma arma de fogo e em caso positivo, que fosse preso.

A Serra Talhada.

O material do jornal informa, sem trazer detalhes, que o soldado Adalberto não gostava de Edmundo e para impor autoridade empurrou o rapaz, que reagiu empurrando o militar de volta. O soldado então revidou com um violento murro na cara do trabalhador rural.

Aí a coisa desandou!

Cícero Batista Gaia tentou apartar a briga entre Edmundo e o soldado Adalberto, quando o outro soldado baleou Cícero. Na época uma das testemunhas do fato foi uma mulher conhecida como Maria Barraqueira, que tinha montado no local uma banquinha e vendia algumas peças de roupas. Ela contou que no momento do tiro atendia Antônio, irmão de Edmundo, que ao ouvir o disparo disse “Valha-me Nossa Senhora… Briga com meus irmãos! Corra Enoque (outro irmão)”. Maria Barraqueira contou ao repórter do Diário de Pernambuco que “A essa altura eu me vali das pernas e me fiz no mato, de onde ouvia, somente, a saraivada de balas pelo ar”.

Outra testemunha do conflito, um trabalhador rural local, narrou que “Nossa Senhora valeu os irmãos Gaia, pois aguentar uma chuva de balas daquelas, foi um verdadeiro milagre”. Ainda segundo essa testemunha os Gaia, ao verem Cícero baleado, “lutaram como leões”. Um deles partiu para cima do soldado Alberto Cipriano, conseguiu tomar seu revólver e matá-lo. O soldado Adalberto também tombou sem vida. Uma versão aponta que Cícero, Edmundo, Tozinho, Antônio e Enoque Gaia reagiram apenas com facões e punhais aos dois policiais armados de revólveres. O menor Luiz Ferreira da Silva testemunhou tudo e afirmou à imprensa que também havia sido agredido por um dos policiais, cujo nome não sabia. Comentou também que os Gaia reagiram às arbitrariedades “como um homem deve fazer” e que os soldados “estavam pagando para morrer”.

Após as mortes, os membros da família Gaia envolvidos no conflito desapareceram.

Covardia

Em março de 1975, quando o caso Vilmar Gaia estava no auge, o então capitão da PMPE Jorge Luiz de Moura, que nessa época era o Assistente Policial Militar Adjunto a Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco, produziu um interessante relatório de onze páginas sobre o caso. Uma cópia foi entregue ao extinto DOPS (Delegacia de Ordem Política Social) de Recife e se encontra no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, cujo conteúdo utilizei para produzir esse artigo.

Neste material o capitão Jorge afirmou que a morte daqueles dois policiais “gerou a inimizade entre alguns elementos da Polícia Militar, destacados nesta cidade (Serra Talhada), que ficaram solidários com as famílias dos soldados assassinados”. O problema dessa “inimizade” foi a forma como os policiais agiram contra os membros da família Gaia que não fugiram. Um grupo formado basicamente de velhos, mulheres e crianças.

Um funcionário municipal de Serra Talhada, cuja identidade não foi revelada, comentou aos jornalistas do Diário de Pernambuco (edição de 17/01/1971) que “as sevícias”, que os familiares dos assassinos dos soldados sofreram da polícia, a fim de descobrirem o paradeiro dos mesmos, foi um “procedimento reprovável sob todos os pontos de vista”.

Francisca Maria Alves, seus filhos. Membros da família Gaia, atacados por policiais.

Os repórteres recifenses estiveram no casebre de Antônio Paes de Lima, sogro de Edmundo, onde viram as portas arrombadas pelos policiais ao iniciar as diligências para capturar os criminosos e ouviram do dono da casa que os soldados chegaram por volta da meia noite do dia 31 de dezembro de 1970. Antônio começou o Ano Novo “recebendo murros, pontapés, pancadas nos peitos com a coronha de um fuzil e empurrões”. O mesmo aconteceu com seu filho Joaquim Paes, que foi arrastado pelos cabelos e jogado em cima de um caminhão. Já a Senhora Virginal Vieira Alves, esposa de Edmundo, tentou fugir com os seus filhos, mas foi obrigada a retornar para sua casa em meio a muitas ameaças dos soldados, que mantiveram fuzis apontados para ela e suas crianças.

Já as jovens Maria José Paes de Lima, Lucinda Francisca Alves e Maria Ginave Alves, tiveram as mãos e os pescoços amarrados e foram violentamente açoitadas com cordas para revelarem o paradeiro dos parentes.

Mas não ficou só nisso!

A mãe de Edmundo, a Senhora Manuela Maria Cordeiro de Magalhães, então com 72 anos de idade, foi arrastada pelo chão, teve fuzis apontados para sua cabeça e foi ameaçada com sabres no pescoço. Nem o motorista da viatura policial aguentou ver o sofrimento daquela mulher e clamou pela sua defesa. Ainda segundo a reportagem do Diário de Pernambuco a tentativa de proteção não adiantou, pois seus companheiros de farda jogaram Dona Manuela em cima de um banco de madeira e, em janeiro de 1971, ela se encontrava entre a vida e a morte.

Já Francisca Maria Alves, mãe de dez filhos e que estava grávida na época dessa tragédia, foi ameaçada de ser sangrada se não informasse o paradeiro do seu marido Antônio Gaia. A experiência de Dona Francisca foi verdadeiramente terrível, pois sofreu violências na frente dos filhos e nada falou sobre o esposo.

No outro dia, por pura necessidade, essa mulher foi buscar água em uma cacimba nas proximidades. Nesse meio tempo seus filhos, já massacrados de tanto terror acontecido na noite anterior, ao escutarem um carro circulando pelas imediações de sua casa, correram desesperados para o meio do mato. Pensavam que a polícia retornava para uma nova seção de violências.

Ocorre que as crianças se perderam na caatinga e só foram encontrados já à noite. O mais novo dos filhos de Dona Francisca se achava doente e acabou morrendo por falta de assistência.

A Morte do Velho Batista Gaia

Aparentemente as notícias das arbitrariedades policias contra idosos, mulheres e crianças da família Gaia obtiveram certo nível de repercussão em Recife. Mas isso não significou o fim das violências.

Segundo uma reportagem da Revista Manchete, assinada por Laércio Vasconcelos (Edição 1568, 08/05/1982, págs. 118 a 121), quem passou a ajudar os membros da família Gaia envolvidos no conflito da “Frente de Emergência” foi um tio chamado João Batista de Magalhães, mais conhecido como João Batista Gaia. Ocorre que esse cidadão, guarda aposentado da Coletoria Estadual, era amigo de José Cipriano, pai do falecido soldado Alberto Alves de Oliveira, o Alberto Cipriano. Segundo o jornalista Laércio Vasconcelos, nas décadas de 1920 e 30 eles haviam participado de volantes que haviam caçado Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e seu bando de cangaceiros. Quando José Cipriano soube que seu velho amigo de correrias contra Lampião estava ajudando na defesa dos assassinos do seu filho, evidentemente que não gostou nem um pouco daquela situação.

Em 06 de julho de 1971, seis meses após os acontecimentos em São João dos Gaia, o velho Batista Gaia foi assassinado em Serra Talhada com cinco tiros, duas facadas e uma forte cacetada na cabeça. O fato se deu quando ele estava no quarto de uma prostituta, aparentemente denominada “Ina” e seu corpo foi então jogado ao lado da caixa d’agua da cidade, em um lugar conhecido como Alto do urubu, ou simplesmente Urubu.

O então delegado de Serra Talhada, o capitão João Virgílio Oliveira de Morais, instaurou um inquérito para saber quem matou João Batista Gaia. Este solicitou a Secretaria de Segurança Pública um Delegado Especial e quem assumiu a função foi o Bacharel Fernando José Pereira de Albuquerque. Essa autoridade afirmou, e consta do relatório do capitão Jorge (Pág. 02), que “dada as inimizades da vítima, neste município, as pessoas conhecedoras dos detalhes, se furtaram a prestar informações”.  

Ainda segundo esse relatório de 1975, logo surgiram três versões acerca da morte de Batista Gaia na cidade de Serra Talhada. A primeira dizia que os autores foram soldados da 17ª Companhia de Polícia Militar; a segunda que o autor foi José Cipriano; e a última versão era que o velho Batista Gaia desempenhara a função de guarda da Coletoria Estadual (atual Secretaria da Fazenda), onde conseguiu muitos inimigos e foi assassinado pelas suas ações como funcionário público. O relatório também informou que na época desse homicídio João Batista Gaia tinha 75 anos, mas era um homem que frequentava cabarés, bebia e arranjava confusões nesses ambientes.

Igreja de Nossa Senhora da Penha, em Serra Talhada.

Mesmo sem apontar autores, o inquérito foi então remetido à justiça. Durante a instrução criminal o promotor público de Serra Talhada, cujo nome não é informado, solicitou o arquivamento do processo, mas o pedido foi negado pelo juiz Ítalo José de Miranda Fonseca. Aí o processo foi encaminhado para o Procurador Geral, que acatou as alegações do juiz Ítalo Fonseca e mandou que o promotor público da cidade de Triunfo, distante 33 quilômetros de Serra Talhada, oferecesse denúncia.

O processo foi em seguida remetido para a Secretaria de Segurança Pública, para diligências complementares. Estas foram realizadas pelo Delegado de Homicídios da época, que concluiu pela participação do soldado da PMPE Natalício Nunes Nogueira. Ainda segundo o relatório do capitão Jorge em decorrência dessa conclusão, o soldado Natalício foi denunciado pelo promotor público (não é informado se foi o de Triunfo, ou de Serra Talhada) e enquadrado no crime de homicídio qualificado. Mas o soldado foi impronunciado pelo próprio promotor, alegando falta de provas.

O leitor deve levar em consideração que naqueles primeiros anos da década de 1970, a situação de violência na região de Serra Talhada alcançou um tal nível, que em 1975 existia naquela comarca 102 processos de homicídio, sendo que em dez constava o uso de tocaias para perpetrar os crimes e outros dez envolviam nada menos que quinze policiais (Revista Manchete, edição 1220, 06/09/1975, página 23). Já o relatório do capitão Jorge (Relatório, pág. 11), através de informações fornecidas pelo juiz Ítalo, nos três cartórios criminais de Serra Talhada havia 150 processos criminais em andamento, sendo 80 abertos entre abril de 1974 e março do ano seguinte. 

Foto antiga de Serra Talhada.

Ou seja, o caso da morte do velho Batista Gaia era mais um entre tantos.

Independentemente dessa questão, o certo é que os membros da família Gaia não viram ninguém ser preso, julgado e condenado pela morte de João Batista Gaia. Enquanto isso, alguns integrantes dessa família envolvidos no conflito da “Frente de Emergência” estavam detidos na Delegacia de Serra Talhada.

“Se Fosse Vivo Eu o Mataria Novamente”

Vilmar Alves Magalhães, o Vilmar Gaia, nasceu em 15 de maio de 1949 e era filho do velho Batista Gaia e de Dona Francisca Alves de Lima, que faleceu quando Vilmar tinha oito anos de idade. Esse rapaz era uma figura típica do meio rural da região do Pajeú. Nasceu na povoação de Santa Rita, estudou até o segundo ano primário, gostava de gado e jogar pião, trabalhou na roça e, na ausência de sua mãe, foi criado pela irmã mais velha, Maria de Lourdes. Esta enviuvou cedo e, sem filhos, deu todo carinho possível ao irmão mais novo. Não era uma criança de chorar por besteiras e cedo ganhava alguns trocados tangendo o gado de Seu Luís Inácio. Segundo a maioria das fontes, Vilmar Gaia se encontrava em São Paulo e após saber do assassinato do pai voltou para o Pajeú (Diário de Pernambuco, 22/08/1975).

Vilmar Gaia

Segundo o relatório do capitão Jorge Luiz de Moura, até a época do assassinato do seu pai, Vilmar Gaia não tivera problemas com a justiça. Inclusive o capitão Jorge descobriu que ele havia tentado ingressar na polícia em julho de 1970, no quartel do 5º Batalhão de Polícia Militar, quando este era sediado na cidade pernambucana de Salgueiro. Em uma reportagem assinada pelo jornalista Ricardo Noblat, na Revista Manchete (edição 1220, 06/09/1975, páginas 22 e 23), existe a informação que quando mataram seu pai, mesmo tendo ido para São Paulo, Vilmar estava inscrito em um novo exame de admissão na polícia do seu estado.

Mas agora, de volta ao sertão pernambucano e cheio de ódio, ele iria mostrar que era melhor com uma arma na mão do que com um lápis!

Novamente na Revista Manchete, Vilmar deu uma declaração a Ricardo Noblat onde buscou resumir sua vingança – “O processo não andava, nunca andou direito. A gente ia, pedia ao delegado, capitão Virgílio, comandante da 17ª Companhia de Polícia Militar, e não adiantava, e não fazia nada. E o que era pior: ainda passava os domingos na casa de José Cipriano, o homem que mandou matar meu pai. Aí compreendi que a justiça tinha que ser feita pela gente mesmo”.  

Evidentemente que Vilmar desejava colocar os assassinos do seu pai na alça de mira de sua arma. Para ele seus alvos prioritários eram José Cipriano, seus familiares e os policiais que ajudaram na morte do velho Batista Gaia.

Em uma entrevista o tenente reformado da polícia pernambucana David Gomes Jurubeba, ex-integrante das “volantes” que combateram o cangaceiro Lampião e seu bando na década de 1930, comentou que Vilmar Gaia descobriu que os soldados Natalício Nunes Nogueira e Luís Gonzaga Mendes estavam envolvidos na morte do velho Batista Gaia. Estes possuíam laços de parentesco com a família Ferraz e este clã foi acusado por Vilmar de protegê-los (Diário de Pernambuco, edição de 17/11/1975). Uma outra versão aponta que Vilmar soube que a prostituta que estava com seu pai no dia de sua morte e se chamaria “Ina”, teria traído seu cliente por CR$ 500,00, pagos pelos assassinos. Ela então teria se arrependido do que fez e narrou tudo ao filho de Batista Gaia.

Policiamento em Serra Talhada.

Somente em 13 de janeiro de 1973, um ano e meio depois da morte de seu pai, foi que Vilmar Gaia conseguiu matar com um tiro na testa Arnaldo Alves de Oliveira, o Arnaldo Cipriano, em um bar na cidade de Salgueiro, quando a vítima jogava bilhar. Este era filho de José Cipriano e irmão do soldado Alberto, o mesmo que morreu no penúltimo dia de 1970.

Vilmar nunca negou a autoria desse crime. Quando foi preso em 1975 ele afirmou para o juiz de Salgueiro, o Dr. Enéas Bezerra de Barros, que “Se Arnaldo Cipriano fosse vivo eu o mataria novamente. Ele foi um dos assassinos de papai e eu o escolhi para mandá-lo para o inferno em primeiro lugar” (Diário de Pernambuco, edição de 14/11/1975).

Logo Vilmar focava em outros alvos e angariava novos inimigos e amigos.

Se havia militares que Vilmar Gaia desejava ver diante da mira do seu revólver, outros lhe protegiam com “o braço forte” e estendiam a “mão amiga”.

Seu parente Lindauro Gaia comentou em um documentário com direção de Eduardo Coutinho e intitulado “O Pistoleiro de Serra Talhada”, que após a morte de Arnaldo Cipriano, Vilmar passou a circular livremente ao lado de policiais. Comentou que seu parente “ficou dentro da cidade, com a polícia com a mão por cima dele e até bebendo”.

Mas logo essa aproximação traria problemas.

Mais Problemas

Sentindo-se protegido, Vilmar Gaia foi a uma festa na comunidade do Jardim, próximo a São João dos Gaia. Era uma noite de sábado, 22 de junho de 1974, bem no período de festas juninas e ele foi acompanhado de amigos policiais e algumas mulheres.

Vilmar começou a dançar com uma dessas damas, considerada “de vida fácil” pelo povo da região. Seja pela forma de vestir, ou de agir, a dança de Vilmar e da parceira começou a incomodar os presentes. Estes foram até Pedro Inácio dos Santos, suplente de Comissário de Polícia, pedir que ele tomasse providências. Sem outro jeito, Pedro foi até Vilmar e mandou que ele e seus amigos se comportassem, ou fossem embora do ambiente.

Com o que aconteceu depois, teria sido melhor ter deixado o casal dançar do jeito que bem entendessem.

Logo estourou uma discursão, que gerou um tiroteio pesado, onde foram disparados mais de 40 tiros. O resultado foi a morte de Pedro Inácio, ferimento em três homens e duas mulheres. Segundo o relatório do capitão Jorge (Relatório, págs. 03 e 04), embora não conste nos autos do processo aberto sobre esse episódio, Vilmar Gaia também saiu ferido e recebeu tratamento médico no Hospital Barão de Lucena, em Recife.

Ao ler esse relatório, acredito que para o capitão Jorge o mais incrível desse episódio ocorreu cerca de quinze dias depois, na delegacia de Serra Talhada.

Vilmar Gaia esteve neste local para prestar depoimento sobre o tiroteio em Jardim. Ele foi acompanhado de outras pessoas, alguns de sua família, todos armados até os dentes. Ocorre que na hora do depoimento chegou de Salgueiro um cabo, três soldados e um motorista, com ordens do tenente Almir Ferreira de Morais, delegado daquela cidade, para levar Vilmar até sua presença, onde ele deveria prestar depoimento sobre a morte de Arnaldo Cipriano.

Mas o delegado de Serra Talhada, um subtenente, negou ao cabo que Vilmar Gaia estivesse naquele momento em sua delegacia, o que era mentira. Um soldado de Salgueiro sabia quem era Vilmar, o reconheceu e informou ao cabo. Este por sua vez, vendo a atitude de seu superior e a presença de pessoas armadas em favor de Vilmar Gaia, decidiu recuar.

Vilmar Gaia na Delegacia de Serra Talhada.

O capitão Jorge descreveu em seu relatório oficial que a atitude do militar que respondia pela delegacia de Serra Talhada foi classificada como “omissão”, além de “pura falta no cumprimento do dever” e “covardia”.

Com esse tipo de ação por parte das autoridades policiais junto a Vilmar Gaia, o que reservava o futuro?

Mais Mortes

Três meses depois, em 13 de outubro de 1974, por volta das sete ou oito da manhã de um domingo, mesmo estando respondendo ao processo sobre a morte de Pedro Inácio dos Santos, que tinha o número 2.746 e corria no 2º Cartório da Comarca de Serra Talhada, Vilmar circulava livre e solto em um carro, na povoação de Santa Rita. Então ocorreu na estrada a colisão do seu veículo com o do primo Antônio Augusto Batista. Ao invés de procurarem resolver o problema na conversa, logo surgiu uma discursão e o clima esquentou. Existe uma versão que durante a troca de palavras ásperas, Antônio Augusto teria ido até o seu carro pegar uma arma e por isso o “Vingador do sertão” atirou nele, matando-o na hora.

Vilmar, certamente buscando um fiapo de justificativa, comentou em uma entrevista para o Diário de Pernambuco (14/11/1975) que seu primo Antônio Augusto lhe protegia após o início dos problemas com seus inimigos, mas depois, com medo, passou para o lado da família de José Cipriano. Muita gente em Serra Talhada afirma que isso era mentira.

E quase que Vilmar Gaia mata outro primo nesse mesmo dia!

José Augusto Batista, irmão da vítima, se dirigiu para o local e foi recebido a tiros por Vilmar Gaia. Só não morreu por que entrou no seu carro e fugiu.

José Augusto veio até o quartel da 17ª Companhia de Polícia Militar e pediu auxílio. Foi organizada uma patrulha composta de um cabo e seis soldados a fim de capturar Vilmar Gaia, que descaradamente ainda se encontrava em Santa Rita. Consta que o cabo levou uma submetralhadora calibre 45, completamente municiada.

O pistoleiro estava no interior de uma casa, quando por volta das nove ou dez horas da manhã (algumas fontes apontam que foi a tarde) a polícia chegou. Ao Diário de Pernambuco Vilmar Gaia afirmou (14/11/1975) que “ao invés de lhe darem voz de prisão, começaram a atirar e, para não morrer, me defendi”.

O soldado Natalício Nunes Nogueira, seu inimigo implicado na morte de seu pai, entrou pela porta traseira e Vilmar o matou a tiros. Após isso tratou de fugir. Já o cabo armado com a submetralhadora continuou com a mesma nas mãos e não disparou um único tiro.

Vaqueiros do sertão do Pajeú – Foto Rostand Medeiros

Com esses homicídios, os ânimos se acirraram em Serra Talhada e a situação de Vilmar Gaia começou a se complicar. Depois de matar um primo e tentar contra a vida de outro, houve um rompimento na família Gaia, com uma parte querendo a cabeça do pistoleiro e outra o protegendo.

Com a morte do soldado Natalício a polícia novamente voltou a circular na região da família Gaia, agora com violência redobrada. Houve invasão de casas, pessoas apanharam e outras foram presas. Zuleide Alves de Magalhães, irmã de Vilmar, ficou detida nas dependências da 17ª Companhia de Polícia Militar.

Lindauro Gaia comentou ao diretor Eduardo Coutinho em 1977 que, a partir da morte do soldado Natalício, a perseguição contra Vilmar Gaia só fez crescer e ele deixou de circular por São José dos Gaia e Santa Rita.

Luta entre Famílias

Enquanto a polícia perseguia os integrantes da família Gaia e corria atrás de Vilmar, as violências se sucediam.

Consta que ainda em 1974, Vilmar Gaia participou da morte de um homem chamado Luiz Desidério, ou Luiz de Izidério, na cidade de Irecê, Bahia. Esse cidadão, quase octogenário, havia praticado um assassinato em Serra Talhada no ano de 1926 e, mesmo passados tantos anos, seu filho, conhecido como Baiãozinho, desejava a vingança. Esse era amigo de Vilmar Gaia e ele teria supostamente participado desse crime por amizade. Para outros a motivação foi apenas dinheiro. Vilmar afirmou apenas testemunhou a morte. O certo é que Baiãozinho assumiu toda a culpa, foi a julgamento e acabou absolvido pelo júri.

Em meio aos conflitos, não demorou para que outros membros da família Gaia pagassem com a vida pelo parentesco com Vilmar.

Em janeiro de 1975 foi assassinado o motorista de taxi Francisco Gaia Filho, o conhecido Batinha. Uma noite ele estava estacionado com seu fusca na porta do Cabaré de Nivalda, quando seus assassinos chegaram e o mataram. Quem socorreu Batinha para o hospital foram as prostitutas, mas nada pôde ser feito. Na Revista Manchete (edição 1220, de 1975) existe a informação que no dia de sua morte Batinha foi revistado três vezes pela polícia antes de ser assassinado.

Policiamento em Serra Talhada.

Vilmar não demorou para responder essa morte e partiu para ação.

Mais ou menos às cinco da tarde do dia 19 de março de 1975, o soldado Luiz Gonzaga Mendes, outro implicado na morte do pai de Vilmar, ao voltar de um roçado pertencente ao seu pai na fazenda São José, Distrito de Tauapiranga, foi inesperadamente alvejado no coração com um tiro de um rifle calibre 44. Ele caiu ferido, mas faleceu no outro dia. Segundo a documentação existente, o soldado Gonzaga era casado com Neomar de Araújo Ferraz Mendes, filha do comerciante serra-talhadense Irineu Gregório Ferraz, que prestou depoimento juntos as autoridades pelo assassinato do genro. Irineu afirmou que Antônio de Souza Mendes, irmão de Gonzaga, testemunhou o crime e apontou como autores da emboscada Vilmar e um soldado reformado da PMPE, que tinha o apelido de “Brucutu”. Vale frisar que além de sogro do soldado Gonzaga, Irineu Ferraz era primo do soldado Natalício Nunes Nogueira.

Um dia depois da morte do soldado Gonzaga, o comerciante Álvaro Batista Gaia, irmão de Batinha e casado com uma irmã de Vilmar Gaia, foi brutalmente assassinado em sua casa de comércio chamada “Aliança de Ouro”. O comerciante tombou ao lado da caixa registradora, após receber disparos de revólveres e rifles, desfechados por cinco ou seis homens armados. Segundo o escritor e pesquisador Valdir Nogueira, essa loja ficava no Alto de Bom Jesus, em Serra Talhada.

Na época suspeitou-se que os assassinos seriam comandados por Irineu Ferraz, acompanhado de vaqueiros, ou de colegas do soldado Gonzaga. Mas não consegui maiores informações sobre esse processo, ou se alguém foi preso.

Vilmar sendo entrevistado após sua prisão.

Famoso e Sendo Reconhecido

As notícias desses crimes ecoaram por toda parte. Eram difundidas pelas emissoras de rádio e logo circulavam por todo Nordeste. Segundo o relatório do capitão Jorge, essas mortes causaram impacto na opinião pública de Pernambuco, sendo bastante divulgados pela imprensa da capital e do sul do país. Consta que até repórteres da Rede Globo e do jornal O Estado de São Paulo estiveram na região (Relatório, pág. 06).

Vilmar, a quem as mulheres chamavam de “galã”, teve seu ABC cantado nas feiras sertanejas pelos poetas e violeiros, ou exposta através de folhetos de cordel. Em Recife seu nome era comentado desde o Mercado de São José, nas esquinas da Rua do Imperador, ou da Avenida Guararapes. Já o poeta popular Olegário Fernandes, da cidade pernambucana de Caruaru, produziu o folheto de cordel intitulado “Vilmar Gaia, o cangaceiro de Serra Talhada” e assim escreveu:

“Agora peguei a pena

Com divina inspiração

Para escrever uma história

Sobre o cavalo negro

Da Caatinga e do sertão.

Vira-se em cavalo preto

Corre-se dentro da campina

Vira-se em pau, ou pedra

Para cumprir sua sina

Come lagarta e besouro

Como ave de rapina”.

Mas essa exposição nos cordéis e na mídia, mesmo a televisiva ainda sendo limitada no sertão nordestino na primeira metade da década de 1970, trouxe um lado bastante negativo para Vilmar Gaia, pois ele foi visto e seu rastro seguido em vários locais. Essas informações chegaram aos policiais e após investigações o capitão Jorge listou em seu relatório onde ele se escondia e recebia abrigo.

Inicialmente Vilmar se homiziava em áreas onde predominavam membros de sua família, como Santa Rita, São João dos Gaia e Serrote Branco. Mas com o rompimento ele se afastou dessas áreas e passou a frequentar uma propriedade rural a 15 quilômetros de Serra Talhada, na altura onde se inicia a estrada que dá acesso ao Distrito de Bernardo Vieira e ao Estado da Paraíba.

Conforme a perseguição crescia ele passou a frequentar mais as terras paraibanas. Tinha “coitos”, esconderijo no linguajar sertanejo, em uma fazenda no município de Princesa Isabel (de um político local), uma casa de uma mulher afastada do centro da cidade de Teixeira, em uma fazenda de um ex-deputado estadual próximo a cidade de Piancó e em um sítio em Itaporanga, onde receberia apoio de um ex-policial.

Em Pernambuco foi visto circulando com os pistoleiros conhecidos como “Nunes” e “Pitu”, sendo o primeiro o ex-policial José Nunes da Silva. Vilmar também recebia apoios nas cidades de Salgueiro, Floresta, Tacaratu (onde um rico do lugar lhe fornecia dinheiro quando necessitava). Andou também por Serrita, Calumbi (na fazenda de um político local) e em Recife (na casa de amigos no bairro do Cordeiro). Segundo o capitão Jorge havia notícias que Vilmar estivera circulando em Alagoas, na cidade baiana de Feira de Santana, na cidade cearense de Juazeiro do Norte e até mesmo em Caxias, no Maranhão (Relatório, pag. 09).

A existência desses apoios, esconderijos e o fato de Vilmar andar com matadores conhecidos, foi visto por muitos em Serra Talhada e região que de “Vingador do Sertão” Vilmar Gaia não tinha nada. Ele seria apenas mais um pistoleiro que vagava pelo Nordeste destruindo vidas humanas em troca de dinheiro e já teria matado, dependendo das fontes, de 27, 32 e chega a até 35 pessoas.

Vilmar Gaia sempre negou essa situação. Diante das câmeras afirmou que matou o soldado Natalício Nunes Nogueira, seu primo Antônio Augusto Batista e o Comissário de Polícia Pedro Inácio dos Santos. Além deles, conforme ele narrou ao juiz Enéas Bezerra de Barros e está registrado no Diário de Pernambuco, edição de 14/11/1975, matou Arnaldo Alves de Oliveira, o Arnaldo Cipriano, na cidade de Salgueiro.

A Lei se Impõem

Em meio a tantas mortes em sequência, o aparato jurídico e policial do Estado de Pernambuco começou a agir. E a ação se incrementou por ordem direta do então governador pernambucano José Francisco de Moura Cavalcanti, certamente pressionado pela opinião pública.

De Recife veio o capitão Jorge Luiz de Moura, com a missão de “Oficial Observador”. Após inspecionar o setor e tomar conhecimento pormenorizado dos fatos, transferiu de Serra Talhada para a cidade de Petrolina os policiais suspeitos de estarem envolvidos nos crimes anteriormente narrados e os que tinham processos abertos. De Petrolina vieram militares para manter a ordem em Serra Talhada e o policiamento ostensivo foi intensificado.

Vilmar Gaia após sua prisão.

Outra ação do capitão Jorge que é digna de nota, é que após a sua chegada ele buscou os líderes da comunidade de Serra Talhada e chamou todos para uma reunião. Estavam presentes o prefeito, o delegado, comerciantes, profissionais liberais e outros. Nela o militar expôs as ordens recebidas, a forma de atuação do seu trabalho e ouviu as reclamações das lideranças locais. Nesse diálogo o capitão Jorge sentiu “certa falta de confiança na ação policial local, oriunda de acontecimentos anteriores” (Relatório, pág. 10).   

Em seu comentado relatório o capitão Jorge apontou para seus superiores a necessidade de se trazer para Serra Talhada um Delegado Especial, que fosse “imparcial e experiente e com total apoio da SSP e do Comando da PMPE”. Em abril de 1975 foi nomeado o capitão José Ferreira dos Anjos, um oficial tido como valente, operacional e campeão de tiro da polícia pernambucana na época.

O capitão Ferreira veio para a região conflituosa e trouxe uma equipe de 38 policiais. Consta que esse oficial arrochou geral para cima da família Gaia, sendo dez dos seus membros presos e houve denúncias de arbitrariedades por parte desse oficial. Em uma nota publicada no jornal carioca A Luta Democrática (18/04/1975, pág. 02), o capitão Ferreira foi acusado de deixar todos os integrantes da família Gaia detidos em uma única cela, algemados e passando fome. A ideia era forçar os membros da família a “abrir o bico”, como se diz no jargão policial, e informar o paradeiro de Vilmar para prendê-lo.

Vilmar preso e recebendo a visita de parentes.

Meses depois o capitão Ferreira recebeu a informação que Vilmar Gaia estava em uma fazenda chamada Quiterno, ou Quitéria, na cidade cearense de Ipaumirim, a 215 km de Fortaleza e a 27 da fronteira com a Paraíba. Vilmar foi encontrado trabalhando como um empregado da fazenda, era conhecido por “Tonho”, foi preso com apenas um revólver e cinco balas. Aceitou se render ao capitão Ferreira e sua equipe sem maiores problemas, pois para o fugitivo o oficial militar o “tratou muito bem e o respeitou como homem” (Diário de Pernambuco, 22/08/1975).

Vilmar Gaia se tornou notícia em todo país e era centro de atenções na Delegacia de Serra Talhada, onde muitas fãs iam lhe levar comida e carinho. Mas ele gostava mesmo de receber uma moça jovem, de boa família sertaneja, funcionária de um tribunal federal, que a tempos mantinha um relacionamento íntimo com Vilmar e que tinha gerado uma bela menina.

Uma noite, menos de três meses após sua prisão, Vilmar soube que o capitão Ferreira seria exonerado de suas funções em Serra Talhada e sairia da cidade. Então, utilizando uma vitrola que lhe foi presenteada por uma prima colocou um disco e abriu o volume no máximo com músicas de Waldick Soriano e Raul Sampaio. O prisioneiro aproveitou o barulho, abriu um buraco de 50 cm na parede da prisão e fugiu.

Três dias depois foi novamente capturado. Estava na fazenda Altinho, do primo Lindauro Gaia e não tinha armas de fogo. Se entregou ao capitão Ferreira e sua escolta com 30 soldados e lhe afirmou que não queria fugir, mas temeu que com a saída desse militar em pouco tempo seria trucidado pelos inimigos. Ficou decidido que Vilmar Gaia seria levado para a cadeia de Caruaru, onde acreditavam que ele poderia cumprir sua pena com segurança.

Vilmar e sua filha.

Reviravolta

Quase dois anos depois, no dia 8 de março de 1977, um veículo do tipo Chevette, cor azul, estava estacionado com quatro homens a somente 100 metros da cadeia de Caruaru. A polícia desconfiou daquela gente e um grupo deles foi até o carro de arma em punho. Descobriram que os ocupantes daquele carro estavam com dois rifles calibre 44, quatro revólveres, muita munição e quatro placas frias. Eles vieram de Serra Talhada e tinham uma missão – Matar Vilmar Gaia (Diário de Pernambuco, 09/03/1977).

Poucos dias antes o “Vingador do sertão”, depois de um ano e sete meses preso pelos quatro homicídios que havia confessado, estava prestes a deixar o cárcere. O fato havia sido bastante divulgado e isso motivou a vinda daqueles quatro homens para tentar liquidar Vilmar.

O advogado Juarez Viera da Cunha, que representava Vilmar Gaia, entrou com um habeas corpus em favor do seu cliente, alegando excesso de prazo durante o sumário de culpa. Cinco desembargadores do Tribunal de Justiça de Pernambuco concederam o habeas corpus por unanimidade, mas se pronunciaram afirmando que aquilo era um “desprestígio para a justiça pernambucana, que se demonstrou incapaz de cumprir os prazos mais elementares para o desenrolar dos processos” (O Fluminense, Rio de Janeiro, 04/03/1977).  

Após a saída de Vilmar Gaia da cadeia de Caruaru eu não encontrei mais nada referente a essa figura e nem o que aconteceu com ele. Sob todos os aspetos ele sumiu. Talvez em sua mente aquele ano e sete meses de cadeia já estavam de bom tamanho, ou ele soube de algo que o fez sumir.

Bem, com Vilmar solto pelo mundo, para quem quisesse eliminá-lo era só encontrá-lo e liquidá-lo. Mas encontrar Vilmar Gaia não era algo tão simples assim. Homem criado e vivido no sofrido sertão nordestino, sem os confortos da capital, ele poderia se esconder desde o Oiapoque ao Chuí, em qualquer vilazinha, recanto distante, ou pequeno sítio. O que sei é que entre 1977 e 1982, afora memórias esparsas sobre os acontecimentos ocorridos na primeira metade da década de 1970, Vilmar Gaia some dos jornais.

Mas algo aconteceu que mudou completamente toda a situação e, no meu entendimento, favoreceu enormemente essa figura!

Necessidade de Mitos

Assassinato do procurador da república Pedro Jorge, em 1982.

No dia 3 de março de 1982, na Padaria Panjá, no Jardim Atlântico, na cidade de Olinda, foi assassinado com seis tiros, três dos quais à queima-roupa, o procurador federal Pedro Jorge de Melo e Silva.

Três meses antes essa autoridade ofereceu denúncia contra dois oficiais da Polícia Militar de Pernambuco, um deputado estadual e outras 21 pessoas envolvidas no desvio de recursos federais para financiamento agrícola do Banco do Brasil da cidade de Floresta, no rumoroso caso que ficou conhecido nacionalmente como o Escândalo da Mandioca.

Entre os anos de 1979 e 1981, mais de 300 empréstimos foram feitos na  agência do Banco do Brasil daquela cidade pernambucana, onde os criminosos fraudaram empréstimos do PROAGRO (Programa de Crédito Agrícola Federal), com cadastros falsos de pequenos agricultores da região, que simulavam plantio de várias culturas, principalmente mandioca. Além de não plantarem o que foi acertado, os controladores do esquema declaravam as safras como perdidas por causa da seca e ainda recebiam o dinheiro do seguro. O desvio alcançou mais de Cr$ 1,5 bilhão de cruzeiros (quase R$ 68 milhões de reais em valores atualizados), configurando um dos maiores casos de corrupção daquele período. A maracutaia foi denunciada por um agricultor, investigada pela Polícia Federal e o procurador Pedro Jorge recebeu o inquérito e, mesmo tendo sido ameaçado, denunciou vários envolvidos, entre eles o militar José Ferreira dos Anjos, o homem que prendeu Vilmar Gaia e que tinha a patente de major em 1982.

Foi Ferreira quem contratou Elias Nunes Nogueira, o atirador que acabou com a vida de Pedro Jorge na Padaria Panjé. Elias era irmão do soldado Natalício Nunes Nogueira e um dos quatro homens que estiveram em Caruaru para tentar exterminar Vilmar Gaia em um Chevette azul no dia 8 de março de 1977. (Diário de Pernambuco, 06/05/1982). Vale frisar que no Chevette estava um outro irmão de Natalício, de nome Pedro Afonso da Silva, que, apesar dos sobrenomes distintos, eram dois dos sete filhos de Afonso Nunes da Silva, o Afonso Terto, e de Vitalina Nogueira da Silva.

E onde estes acontecimentos favoreceram Vilmar?

Simples, a partir do Escândalo da Mandioca as atenções e preocupações de muita gente em Serra Talhada e região focaram nas investigações da Polícia Federal e os problemas ligados a esse escândalo de proporções nacionais. Como vários inimigos de Vilmar estavam no meio desse problema todo e, se muitos ainda tinham a intenção de matá-lo, ela se tornou algo secundária.

O povo do Nordeste – Se não são as secas, a ação nefasta dos políticos, é a violência que aflige o povo dessa região a séculos.

Não sei se Vilmar Gaia está vivo? Ou se ele morreu? Mas percebi que sua história marcou muitos na região do Pajeú, principalmente diante da repercussão nacional do caso.

Sobre toda essa situação eu acredito que a pessoa que melhor definiu esse caso foi o Padre Afonso de Carvalho Sobrinho, de Serra Talhada, que comentou com Ricardo Noblat, em uma entrevista para a Revista Manchete sobre o caso – “O machismo expresso no desejo de vingança pela morte de parentes, na sua aparente infalibilidade no manejo das armas, na capacidade de escapar à prisão, identificava-se plenamente com uma linha de pensamento popular necessitada de mitos e heróis profundamente enraizada, principalmente no sertão”.

Uma última nota – Passados mais de 50 anos desde as primeiras mortes nesse conflito, me chamou atenção como alguns membros da família Gaia relembram esses episódios. Vários deles abraçaram a religião evangélica e alguns deles são até pastores que utilizam em seus processos de evangelização os problemas sofridos pelos mais velhos da família, as perseguições e como eles conseguiram, através da fé em Jesus Cristo, de alguma forma conviver com os traumas sofridos.

O “CINE JORNAL” DE 1924

O PRIMEIRO LONGA-METRAGEM REALIZADO NO RIO GRANDE DO NORTE FOI UM DOCUMENTÁRIO

Rostand Medeiros – IHGRN

Sou um entusiasta pela sétima arte, onde, obrigatoriamente, busquei no excelente livro do jornalista potiguar Anchieta Fernandes, “Écran Natalense”, conhecer a história do cinema no Rio Grande do Norte.

Desejava que uma curiosidade fosse satisfeita ao ler este livro; qual foi o primeiro longa-metragem produzido em terras potiguares?

Em uma das páginas, uma pequena nota apontava para um documentário produzido pelo governo do estado, no início dos anos de 1920. Busquei maiores detalhes sobre este projeto cinematográfico e encontrei uma interessante história: Em uma edição do jornal “A Republica”, de 25 de julho de 1924, temos uma reportagem sobre a criação de um “film” que mostrava a “vida actual” e “as possibilidades econômicas do Rio Grande do Norte”. Informava “que o Dr. Amphilóquio Carlos Soares da Câmara estava com a missão de dirigir, e naquele momento, acompanhava no Rio de Janeiro a conclusão do material para posterior exibição”.

Ligação com um Livro

Lendo a reportagem detalhada sobre a película, me recordei que já tinha tido oportunidade de ler um livro chamado “Scenarios Norte-Riograndenses”, de 1923, de autoria do mesmo Amphilóquio Câmara, que mostrava as diversas regiões, os potenciais econômicos, as cidades, as características e particularidades do Rio Grande do Norte dos anos 20 do século passado. Este livro fora preparado visando mostrar aos potiguares o que o estado possuía e como as nossas riquezas foram vistas na Exposição Nacional do Centenário da Independência, em 1922, quando o próprio Amphilóquio havia sido designado delegado do Rio Grande do Norte para este evento.

Palácio do Governo e Praça 7 de setembro. A imagem foi captada do primeiro andar do Palácio Felipe Camarão, sede da Prefeitura Municipal de Natal, onde acredito que o cinegrafista Junqueira filmou o mesmo cenário em 1924.

Comparando a descrição e as fotos existentes no livro, e lendo a reportagem sobre o documentário existente em “A República”, pude perceber que o livro e a película tinham ligação concreta. Mostrando como os conhecimentos de Amphilóquio Câmara estavam sendo utilizados na execução deste projeto cinematográfico.

Governador José Augusto Bezerra de Medeiros.

O então governador José Augusto Bezerra de Medeiros apoiou a ideia de Amphilóquio, que buscou contratar um dos melhores cinegrafistas existentes no país, o mineiro Aristides Junqueira, autor do curta-metragem “Reminiscências”, hoje considerado o filme brasileiro mais antigo (1909) ainda disponível. Ficou decidido que o título da película seria, “Cine-Jornal do Rio Grande do Norte”.

Iniciam as Filmagens

Junqueira e Amphilóquio iniciaram o trabalho no final de 1923, tendo sido rodados quatro mil metros de película. Foram feitas, segundo o relato existente no jornal, imagens da capital com seus bairros, avenidas principais, igrejas, praças, a vida cotidiana, vistas do mar e imagens do dia-a-dia. Um dos exemplos foi uma panorâmica em 360° da cidade, feita a partir da torre da Igreja Matriz, na Praça André de Albuquerque, então o ponto mais elevado de uma Natal que possuía uma população em torno de 25.000 pessoas.

Foto da antiga igreja matriz de Nossa Senhora da Apresentação, na Praça André de Albuquerque, centro de Natal. No início do século XX era normal que escoteiros ficassem no alto da torre e desfraldassem bandeiras quando um barco era visto se dirigindo para o porto da cidade. Estas bandeiras possuíam cores distintas para diferenciar se os barcos vinham do norte, ou do sul. Durante anos este foi o local mais elevado da cidade, de onde fotógrafos registraram a evolução da cidade. Certamente no alto dessa torre Junqueira deve ter colocado sua câmara.

Como a principal área urbanizada da cidade, praticamente se restringia ao Centro e a Ribeira, provavelmente nesta tomada, Junqueira filmou toda a área da capital potiguar. Igualmente foram filmados ações de governo, prédios públicos, escolas, obras de saneamento da cidade, hospitais, sanatórios e outros.

Fatos sociais foram mostrados, um deles foi o desembarque de José Augusto em Natal, na manhã de 24 de dezembro de 1923. Foi um evento concorrido, onde várias autoridades e figuras sociais estavam presentes no cais da Tavares de Lyra.

José Augusto chegava do Rio de Janeiro, então Capital Federal, para tomar posse como governador. Toda a solenidade foi filmada tanto fora, como dentro do palácio de governo. Outro evento mostrado foi à inauguração da sede da Associação dos Escoteiros de Natal.

O governador decidiu que seriam realizadas filmagens no interior do estado. Para esta empreitada, além de Amphilóquio e Junqueira, uniu-se ao grupo o advogado Dioclécio Duarte. Estes seguiram visitando e filmando aspectos sociais e econômicos de Macaíba, Ceará-Mirim, a praia de Muriú, Macau, Mossoró, Areia Branca e Grossos. Em Macaíba, as lentes de Junqueira apontaram para o então Campo de Demonstração Agrícola.

Em Ceará-Mirim, o alvo foi a produção de cana-de-açúcar, onde uma das tomadas foi realizada em um ponto elevado do engenho “Villa Bella”. No engenho “União” foi realizada cenas da moagem da cana, do trabalho tradicional e da casa do seu proprietário, o “coronel” Felismino Dantas.

Em Muriú, a saída dos pescadores em tradicionais jangadas, foi apresentada para o grupo que realizava o documentário.

A cidade de Macau na década de 1920.

Em Macau foram filmadas solenidades na cidade, os aspectos da indústria salineira, com imagens da salina “Conde Pereira Carneiro” e o transporte do sal para os barcos salineiros impulsionados pela força dos ventos. Na povoação de “Independência” (atual Pendências), foi apresentado ao grupo à cultura da carnaúba e alguns vastos carnaubais.

Mossoró era apresentado como o “maior empório comercial do estado, com sua população de 20.000 habitantes”. Foi realizada uma panorâmica da cidade, feita a partir da torre da igreja de São Vicente. Praças, igrejas, ruas, prédios públicos, com destaque para a Escola Normal, foram capturados pela lente de Junqueira.

Já Grossos e Areia Branca tiveram destaques pelas salinas e o porto. Segundo as notícias, as fortes chuvas ocorridas no primeiro semestre de 1924, impossibilitaram que fossem filmadas outras cidades do interior do Estado.

Escola Normal de Mossoró, na década de 1920. Quando governador do Rio Grande do Norte, José Augusto Bezerra de Medeiros valorizou muito a educação. É possível que em sua visita a Capital do Oeste o cinegrafista Junqueira tenha filmado esse local.

Além das notícias publicadas no jornal “A Republica”, uma referência sobre este filme pode ser lida na própria mensagem governamental de José Augusto, no ano de 1924, onde nas páginas 67 e 68, no tópico “Museu Agrícola e Commercial”, o governador afirmava a necessidade de se fazer propaganda dos recursos do Estado, utilizando esta película, neste museu que estava sendo criado pelo Governo Federal.

Outros Trabalhos de Junqueira

O trabalho do cinegrafista Aristides Junqueira parece ter-se prolongado mais tempo no Rio Grande do Norte. Na edição de 12 de novembro de 2000 da “Tribuna do Norte”, em uma reportagem sobre pesquisas e catalogação do material relativo a Intentona Comunista, existente no próprio Arquivo Público do Estado, existem cartas de Junqueira comentando sobre o levante de 1935. Na reportagem, a então diretora do Arquivo, Vanilde de Souza Rêgo, comenta que o cineasta fez relatos de como ocorreu o movimento comunista na região salineira, algo então desconhecido para muitos. Em uma das cartas, Junqueira afirmava estar “cavando com a machina cinematographica o pão nosso de cada dia…”, onde ele filmaria “as salinas para os meus jornalecos quando estourou o movimento comunista em Natal”.

Teria o cinegrafista Junqueira continuado trabalhando frequentemente com filmagens no Rio Grande do Norte?

Cine Royal.

Ou este cineasta mineiro teria retornado ao estado, apenas para uma nova refilmagem da região salineira e, coincidentemente, estava na área quando ocorreu a Intentona Comunista? Haveria outros antigos documentários sobre o Rio Grande do Norte?

Esta película é certamente o primeiro trabalho cinematográfico, em longa-metragem, no formato de um documentário, realizado de forma profissional no Rio Grande do Norte e desenvolvido por um dos melhores cinegrafistas existentes no Brasil da década de 1920. Foi um projeto executado como uma ação de governo, apresentando a nossa realidade social e econômica, em meio a um país eminentemente agrícola.

È difícil, mas é possível acreditar na possibilidade de que existam alguns fotogramas desta película, talvez algo mais completo do filme, bastando para isto pesquisar de forma correta e trabalhar sério.

Praça Augusto Severo, seguramente um dos locais filmados por Junqueira em Natal.

Encontrar o que sobrou deste material é rever uma Natal e um Rio Grande do Norte que não existem mais.

Não é necessário muito esforço para imaginar a importância que a descoberta material desta película teria para a história iconográfica do Rio Grande do Norte e para nossa história de maneira geral.

Apresentações

Após as filmagens, foi realizada a preparação das imagens no Rio de Janeiro, onde houve uma primeira exibição do “Cine-Jornal do Rio Grande do Norte” e a película volta ao estado. No dia 18 de outubro de 1924, o documentário começou a ser anunciado nos jornais locais. Era informado que este seria um “filme que interessa a todo riograndense do norte”.

Motivo de orgulho de um Rio Grande do Norte pobre e esquecido no sul do país na década de 1920, acredito que as alunas da Escola Doméstica de Natal foram focadas por Junqueira. Na foto as jovens aparecem em uma aula na horta do educandário – Fonte – http://www.skyscrapercity.com

A exibição ocorreu nas duas principais salas de exibição existentes em Natal, o Royal e o Polytheama, onde o material cinematográfico foi dividido em duas exibições, em 13 partes distintas. Na primeira apresentação foram expostas seis partes, no dia posterior, outras sete partes foram exibidas, tendo sido a película repetida por mais uma semana e de forma contínua.

Na primeira exibição o valor da entrada foi de 1$100 (um mil e cem réis), na segunda exibição o valor foi de 2$000 (dois mil réis).

Ainda segundo a opinião dos redatores de “A Republica”, o filme causou uma boa impressão na cidade. Entretanto, Américo Gentile, o proprietário das duas salas de projeção, baixou o preço da entrada para 1$000 réis.

Após estas apresentações, não se encontram notícias sobre outras exibições do documentário nos jornais e ele é esquecido.

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ALIADOS? – A ESPIONAGEM BRITÂNICA NO BRASIL DURANTE A SEGUNDA GUERRA

Rostand Medeiros – IHGRN

Sabemos que durante a Segunda Guerra Mundial inúmeros navios brasileiros foram afundados por submarinos e essas ações bélicas levaram o Brasil a declarar formalmente o Estado de Guerra contra a Alemanha Nazista e a Itália Fascista no dia 22 de agosto de 1942.

Com isso o Brasil tornou-se um dos países que lutaram ao lado dos Aliados e em nosso território forças militares norte-americanas construíram estratégicas bases aéreas e navais que ajudaram na defesa do nosso território, na ação contra os submarinos nazifascistas, bem como no transporte aéreo para as áreas de combate na África, Ásia e Europa.

Igualmente sabemos que antes mesmo dessa declaração de guerra o Brasil foi alvo de espiões dos países do Eixo, que atuaram com o apoio de colaboradores brasileiros, a maioria deles antigos participantes da Ação Integralista Brasileira (AIB). Esse foi um movimento político de extrema-direita surgido em nosso país em 1932, cujos integrantes eram jocosamente chamados de “Galinhas Verdes”, por utilizarem uniformes nesse padrão de cor.

Ao longo do conflito mundial as autoridades brasileiras, apoiados por americanos, prenderam vários espiões estrangeiros e seus colaboradores tupiniquins. Muitos deles foram julgados e condenados, alguns até mesmo a pena de morte, mas nunca foram executados.

Instrumentos de trabalho de um espião na Segunda Guerra.

A história sobre a espionagem nazifascista no Brasil durante a Segunda Guerra é bem conhecida e propalada. Mas são poucas as informações sobre a atuação de espiões dos países Aliados agindo em território brasileiro.

Mas ela existiu!

Um dos casos mais conhecidos é uma ação orquestrada pelos britânicos, que criaram uma carta idêntica à de uma empresa aérea italiana, em cujo conteúdo o presidente Getúlio Vargas era chamado de “Gordinho” e os brasileiros de “macacos”. A carta foi tão séria que acabou com uma importante brecha no esquema de segurança dos Aliados na América do Sul. Isso tudo logo após uma séria crise diplomática entre brasileiros e britânicos.

Comecemos por essa crise!

O Caso do Navio Siqueira Campos

Logo após o início das hostilidades, a Grã-Bretanha e sua marinha, a maior e mais poderosa do mundo naquela época, iniciou um bloqueio naval à Alemanha e a Itália, buscando cortar os suprimentos militares e civis vitais a essas nações.

Ocorre que em 1938 o Governo do Brasil assinou um acordo de oito milhões de libras esterlinas com a fábrica de armamentos alemã Friedrich Krupp AG, cuja finalização dos artefatos só ocorreu no segundo semestre de 1940, após a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1 de setembro de 1939.

O navio Siqueira Campos – Fonte – 1.bp.blogspot.com

Quando o material bélico ficou pronto, os alemães despacharam tudo até Lisboa em trens, onde os caixotes seriam embarcados no navio de cargas e passageiros Siqueira Campos, da empresa de navegação Lloyd Brasileiro. Em 19 de novembro daquele ano esse navio estava pronto para partir rumo ao Rio de Janeiro, com o lote de armas acondicionadas no seu porão.

Após o Siqueira Campos içar âncora, deixar Lisboa para trás e alcançar águas internacionais, navios de guerra da Marinha Britânica surgiram no horizonte e ordenaram a parada do navio brasileiro. Este foi abordado por oficiais e marinheiros impecavelmente uniformizados com bermudas e meiões brancos.

Destroier britânico na época da Segunda Guerra.

Na sequência a tripulação do Siqueira Campos foi obrigada a seguir com seu navio para a colônia britânica de Gibraltar, aonde chegou em 22 de novembro de 1940, ancorando próximo ao porto e tendo a bordo 145 tripulantes e 250 passageiros. Esse pessoal não pode desembarcar e só partiram quando a crise se encerrou, quando a situação a bordo era alarmante.

No Brasil, o gaúcho Oswaldo Euclides de Souza Aranha, então Ministro das Relações Exteriores, recebeu a notícia e comunicou o fato ao presidente Vargas. Na sequência Aranha manteve contato com Geoffrey George Knox, Embaixador Britânico no Brasil, que estava de mãos atadas esperando instruções do seu governo. Depois Oswaldo Aranha correu em busca do auxílio da diplomacia dos Estados Unidos para ajudar a resolver o imbróglio. Os americanos logo se deram conta que a atitude britânica em relação ao Siqueira Campos poderia comprometer toda sua “Política de Boa Vizinhança” com o Brasil e os países latino-americanos.

Enquanto a diplomacia buscava uma solução, a notícia da apreensão do Siqueira Campos em Gibraltar deixou os brasileiros furiosos com o Governo Britânico. Em relação a esse caso muitos brasileiros tinham a percepção que a Grã-Bretanha agia com uma clara atitude imperialista. Nas ruas do Rio comentavam que os britânicos tomariam as armas do navio, compradas e pagas aos alemães ainda em 1938, para utilizá-las contra seus fabricantes e não receberíamos nada em troca.

O Embaixador Britânico no Brasil Geoffrey George Knox cumprimenta com um aperto de mão “diplomático” o Presidente Getúlio Vargas, diante do olhar atento do Ministro Oswaldo Aranha – Fonte Agência Nacional.

Em meio a todo esse rolo do Siqueira Campos, quem ria abertamente da truculenta bobagem britânica eram os alemães e seus colaboradores. Enquanto a influência da Alemanha crescia positivamente em nosso belo país tropical, os alemães mostravam aos brasileiros o tipo de “Aliado” complicado que os britânicos podiam ser.

Finalmente os dois países chegaram a um acordo para liberar o Siqueira Campos, que partiu para o Rio de Janeiro em 21 de dezembro de 1940. Mas essa crise diplomática, uma das mais sérias entre brasileiros e britânicos no Século XX, marcou negativamente a visão do governo Vargas e do povo brasileiro em relação aquele país.

Perigo Real

Avião da LATI com suas cores e marcações características – Fonte http://www.spmodelismo.com.br

Em 1941 os britânicos mantinham em Nova Iorque uma agência de informações, cuja finalidade era proporcionar estreita ligação com os serviços de informações norte-americanos em seu próprio país, facilitando as manobras dos dois grandes aliados na guerra contra o Eixo. O Chefe dessa Agência era o cidadão inglês William Samuel Stephenson, cujo codinome era “Intrépido”.

Nessa época aeronaves da companhia aérea italiana LATI (Linee Aeree Transcontinentali Italiane) realizavam voos regulares entre o Brasil e a Europa, onde transportavam importantes figuras nacionais e estrangeiras, além de correios especiais dos diplomatas alemães e italianos, que não podiam ser violados. Vale ressaltar que muitos desses diplomatas eram na verdade espiões nazifascistas disfarçados. Nesses voos seguiram para a Europa diamantes, platina, mica, substâncias químicas, livros e filmes de propaganda dos Aliados. Um verdadeiro “buraco” no bloqueio militar e econômico efetuado pelos ingleses contra a Alemanha e a Itália.

Um submarino nazista em mar agitado. Esse foi o verdadeiro flagelo do Brasil na Segunda Guerra.

Stanley E. Hilton, em seu livro Hitler’s Secret War In South America, 1939-1945: German Military Espionage and Allied Counterespionage in Brazil informou que membros da embaixada americana no Brasil transmitiram aos britânicos que durante as travessias no Oceano Atlântico, os pilotos da LATI estavam visualizando navios britânicos, marcando suas posições em mapas e informando os alemães para enviar seus submarinos e afundá-los (pág. 205).

Hilton também comentou sobre uma carta de Jefferson Caffery, Embaixador dos Estados Unidos no Brasil, de 29 de novembro de 1941, endereçada ao Ministro Oswaldo Aranha e atualmente guardada no Arquivo Histórico do Itamaraty. Nela Caffery informou que provavelmente foram os tripulantes da companhia aérea italiana, os responsáveis ​​por transmitirem informações que levaram ao afundamento de navios britânicos perto das Ilhas de Cabo Verde, nessa época uma colônia portuguesa. (pág. 207).

Cruzando essa informação com dados sobre a movimentação e ação de submarinos alemães e de aviões da LATI nesse período, descobri na página 5, da edição de 10/10/1941 do Diário de Pernambuco, que no dia 9 de outubro havia partido de Roma o aparelho da LATI modelo Savoia-Marchetti SM.82, número de fabricação MM.60326 e matrícula I-BENI. Essa aeronave trimotor fez escalas em Sevilha (Espanha), Villa Cisneiros (atual Dakhla, na região do Saara Ocidental) e Ilha do Sal (Cabo Verde), onde pernoitou. No outro dia, 10 de outubro, decolou para atravessar o Atlântico Sul, tendo pousado por volta das 15h20min da tarde em Recife, no Campo do Ibura. Estranhamente essa aeronave trouxe um único passageiro que vinha de Berlim – o jornalista chileno Ernesto Samhaber.   

O cargueiro britânico SS Nailsea Manor – Fonte – http://www.sixtant.net

Ocorre que nesse mesmo dia pela manhã, na posição 18° 45’ N e 21° 18” W, a cerca de 180 milhas náuticas a nordeste das Ilhas de Cabo Verde, o cargueiro britânico SS Nailsea Manor foi torpedeado pelo submarino alemão U-126, comandado pelo capitão-tenente (Kapitänleutnant) Ernest Bauer. Esse navio transportava uma preciosa carga de 6.000 toneladas de armas, munições e no seu convés estava até um LCT, ou Landing Craft Tank, um barco de desembarque de veículos blindados. Devido uma tempestade o Nailsea Manor estava desgarrado de um comboio e seguia acompanhado de dois outros navios de carga. Esse pequeno grupo estava sendo escoltado pela corveta HMS Violet (K-35), comandada pelo Tenente Frank Clarin Reynolds, que não pode fazer nada em relação ao torpedeamento. O capitão John Herbert Hewitt, comandante do Nailsea Manor, conseguiu retirar do barco toda a sua tripulação de 41 pessoas, que foram recolhidos pelo pessoal do Violet (Ver http://www.sixtant.net/2011/index.php).

O kapitänleutnant Ernest Bauer na torre do submarino U-126 – Foto de Ariane Krause, através de http://www.uboat.net

Apesar da carta do Embaixador Caffery comentar com o Ministro Oswaldo Aranha sobre o torpedeamento de “navios britânicos” perto das Ilhas de Cabo Verde, não encontrei outra informação sobre ataques de submarinos nazistas nessa área entre outubro e novembro de 1941. Acredito que o torpedeamento do cargueiro britânico SS Nailsea Manor, é o caso comentado por Caffery a Aranha.

O Savoia-Marchetti SM.82, I-BENI, realizou durante sua operação no Brasil um total de 25 travessias transatlânticas e foi o avião da LATI que mais percorreu o trajeto entre a Itália e o Brasil.

Espiões Britânicos em Ação no Brasil, Antes de 007

Mas é que os britânicos, depois do verdadeiro banzé que foi o caso do Siqueira Campos, poderiam convencer o governo brasileiro a barrar essa brecha no seu bloqueio aos países do Eixo?

Avião da LATI aterrissando no Campo de Parnamirim, Natal, Rio Grande do Norte, em 1940. No solo estão trabalhadores potiguares realizado os serviços bancados pelo governo americano para a construção da base de Parnamirim Field – Foto Hart Preston – LIFE.

Para piorar o meio de campo, consta que o governo brasileiro não desejava obstruir esse fluxo aéreo. Um dos genros do presidente Getúlio Vargas era um dos diretores técnicos dessa linha aérea e havia muitos brasileiros influentes interessados em preservar os direitos da LATI em nosso território. Além disso, era a Standard Oil, companhia de petróleo norte-americana, que abastecia os aviões da LATI com o combustível necessário para os voos intercontinentais. Detalhe – Uma das bases da LATI no Brasil era em Natal, no antigo Campo dos Franceses, que nessa época já começava a se transformar em uma grande base aérea construída pelos norte-americanos e seria conhecida como Parnamirim Field.

O Chefe das Operações Especiais em Londres estava ansioso para que algo drástico fosse realizado no sentido de eliminar esse grave inconveniente para os interesses britânicos, mas sem criar problemas com o Brasil e, por tabela, com os norte-americanos. Instruções foram remetidas a William Stephenson em Nova Iorque, informando sobre o fato, das consequências para o bloqueio inglês e ordenando que algo deveria ser feito para tapar a brecha inconveniente.

Stephenson e seus assessores conceberam então um plano que consistia em fazer chegar ao governo brasileiro uma carta comprometedora, cujo teor teria sido supostamente escrito por alguém importante, da alta administração da LATI na Itália, e endereçada a um diretor da companhia no Brasil. O texto da missiva deveria conter elementos tão graves, que pudessem resultar no cancelamento da concessão da companhia italiana para operar a rota transatlântica.

William Stephenson, o “Intrépido”

Os agentes de Stephenson no Brasil imediatamente puseram mãos à obra e, depois de algumas semanas, conseguiram obter uma carta genuína escrita pelo presidente da LATI, o General Aurélio Liotta, e remetida da sede central da companhia em Roma. Encaminharam-na para Nova Iorque sugerindo que a carta falsa deveria ser endereçada ao diretor geral da LATI no Brasil, o Comandante Vicenzo Coppola, que morava no Rio de Janeiro.

Os técnicos em Nova Iorque teriam que simular exatamente o tipo de papel empregado, o timbre existente e aforma dos caracteres da máquina de escrever usada pelo General Liotta.

Por sorte, foi conseguida uma pequena quantidade papel de polpa da palha do tipo necessário e que constituía um detalhe essencial na operação proposta. O relevo do timbre foi copiado com detalhes microscópicos, uma máquina de escrever foi especialmente reconstruída a fim de reproduzir as imperfeições mecânicas daquela usada pela secretária do General para datilografar a carta original e um falsificador copiou a assinatura de Liotta.

Uma verdadeira obra-prima da falsificação.

A Carta do “Gordinho”

A carta falsa foi então preparada em italiano, microfotografada e o microfilme remetido para o principal agente de Stephenson no Rio de Janeiro.

Traduzida, continha o seguinte teor:

Linne Aeree Transcontinentale Italiano S.A.

Roma, 30 de outubro de 1941.

Prezado Camarada:

Recebi seu relatório que chegou cinco dias depois de ter sido despachado.

Este relatório foi levado ao conhecimento dos interessados que o consideraram de suma importância. O comparamos com um outro recebido de Praça Del Prete. Os dois relatórios apresentaram o mesmo quadro da situação que ali existe, mas o seu é mais detalhado. Quero lhe dar os meus parabéns, O fato de que, obtivemos desta vez informações mais completas com o Sr. e seus homens, me proporciona grande satisfação.

Não resta dúvida que o “gordinho” está cedendo ante os lisonjeios dos Americanos, e que somente uma intervenção violenta por parte de nossos amigos verdes poderá salvar o país. Os nossos colaboradores de Berlim, depois de entendimentos que tiveram com o representante em Lisboa, decidiram que tal intervenção deverá se realizar o mais breve possível. Porém você está a par da situação. No dia em que se der a mudança, os nossos colaboradores não se interessarão de maneira alguma pelos nossos interesses e a Lufthansa colherá todas as vantagens.

Para evitar que isto aconteça, precisamos procurar amigos de influência dentre os “verdes” o mais cedo possível. Faça-o sem demora.

Avião da Lati no Rio de Janeiro – Fonte – LIFE.

Deixarei a seu critério a escolha das pessoas mais apropriadas: talvez Padilha ou E. P. de Andrade seriam de mais utilidade do que o Q.B. o qual, apesar de ativo, não vale muito.

A importância que você necessitar será posta a sua disposição, não importa o fato dos camisas verdes precisarem de somas consideráveis. Eles as terão. O ponto importante é que nosso serviço deverá tirar proveito de uma mudança de regime. Procure saber quem é que deseja nomear para Ministro da Aeronáutica e tente captar a sua simpatia. O Senhor precisará ficar a par do que suceder, porém já concordamos em que as negociações ficarão em mãos da LATI, que atuará na sua capacidade de empresa brasileira procurando a extensão a melhoramento de seus próprios serviços.

Espero a máxima discrição de sua parte. Como disse no seu relatório a respeito da Standard Oil, os ingleses e americanos se interessam em tudo e em todos. E se for também verdade – como você afirma com justiça que o Brasil é um país de macacos, não nos devemos esquecer que são macacos dispostos a servir a quem tem as rédeas na mão.

Saudações Fascistas

(a) General P. Liotta

Comandante

Vicenzo COPPOLA

Linee Aeree Transcontinentale Italiana S.A.

RIO DE JANEIRO (BRASIL)

Coppola Preso e a LATI Impedida de Voar

O tal “gordinho”, ou “il grassoccio” em italiano, foi imediatamente identificado como sendo o Presidente Getúlio Vargas, e os “amigos verdes”, ou simplesmente “verdes”, eram os integralistas. Como vimos, a carta continha um insulto pessoal ao Presidente da República, abuso de hospitalidade, críticas à sua política externa e sugeria o encorajamento de seus inimigos políticos. Os agentes secretos ingleses esperavam que essa combinação de apreciações negativas fizesse com que o Presidente Vargas reagisse vigorosamente. Imediatamente após ter recebido o microfilme da carta, o agente de Stephenson no Rio de Janeiro providenciou para que fosse executado um “roubo” à casa do Comandante Coppola, situada na Avenida Vieira Souto, 442, Ipanema, no qual um relógio de cabeceira e outros artigos foram roubados. Atualmente nesse endereço se encontra o Condomínio Ker Franer.

Coppola então chamou a polícia e o “caso” teve alguma publicidade – exatamente o que esperava o agente britânico no Rio – pois tornava patente para as autoridades brasileiras e o público em geral, que se tratava de um roubo real.

Ficha de imigração de Vicenzo Coppola – Fonte – Arquivo Nacional.

Em seguida um brasileiro ligado ao agente secreto inglês procurou um repórter da agência noticiosa americana “Associated Press”. Após obter do mesmo a promessa de que guardaria segredo absoluto, confessou ter tomado parte no assalto à casa de Coppola e entre os seus pertences encontrara um documento microfotografado, que parecia ser muito interessante. Quando o repórter leu seu conteúdo percebeu que era uma carta do presidente da LATI e chegou à conclusão que o original havia sido considerado muito perigoso para ser remetido pelo correio aéreo normal. Concluiu também que aquela missiva tinha sido enviada de forma clandestina para evitar uma possível interceptação. Com aquele tesouro nas mãos, o repórter dirigiu-se à Embaixada dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, e mostrou-a ao Embaixador Jefferson Caffery. Este diplomata determinou que fossem feitas investigações para ampliação e constatação de sua possível veracidade.

Ao receber o resultado dessas investigações, Caffery concluiu que a carta microfotografada era verdadeira e imediatamente enviou para o Presidente Vargas o microfilme e os resultados obtidos com as investigações em meados de novembro. Para Caffery o Presidente do Brasil pareceu “muito impressionado” com a missiva em italiano e reagiu exatamente como Stephenson esperava. Cancelou imediatamente todos os direitos da LATI no território nacional e ordenou a prisão do seu diretor geral.

Notícia sobre Coppola na época de sua fuga para a Argentina.

Vicenzo Coppola tentou fugir do país, tendo previamente retirado um milhão de dólares de um banco, mas foi preso quando procurou cruzar a fronteira com a Argentina. Mais tarde foi sentenciado a sete anos de prisão e teve seus bens confiscados. Foi posto em liberdade no dia 14 de agosto de 1944, em consequência de um habeas-corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal. Faleceu no Rio de Janeiro, em 27 de maio de 1963.

Por infração às leis brasileiras a empresa aérea LATI foi multada em CrS 85.000,00 (oitenta e cinco mil cruzeiros), além de ter seus aviões, campos de pouso e equipamentos de manutenção confiscados pelas autoridades, enquanto suas tripulações e o pessoal de origem italiana foram internados.

Para os integrantes da representação diplomática dos Estados Unidos no Brasil, a opinião dominante na época foi que a carta do General Liotta havia sido o principal fator que levara o Presidente Vargas a se voltar contra o inimigo.

Espião preso por militares americanos.

Consta que os norte-americanos generosamente decidiram repartir o segredo com o representante do serviço de inteligência na Embaixada Britânica no Rio. Um membro do corpo diplomático americano reproduziu a carta e o agente de Stephenson fingiu mostrar grande interesse e admiração pelo fato e até cumprimentou efusivamente seu colega por esse trabalho.

Conclusão

Nesse tipo de negócio, o bem mais valioso que existe e que todos buscam avidamente são as informações estratégicas vindas de fontes privilegiadas, com conteúdos valiosos, principalmente ligados a assuntos de defesa de uma nação.

Esse tipo de informação é tão importante quanto o poderio bélico, sendo algo que pode definir conflitos entre países e esse tipo de atividade sempre esteve presente em praticamente todos os períodos da historia.

Henry John Temple, o 3º Visconde de Palmerston, mentor da política externa britânica durante grande parte do século XIX, declarou no Parlamento Britânico “Não temos aliados eternos e não temos inimigos perpétuos. Nossos interesses são eternos e perpétuos, e é nosso dever seguir esses interesses”.

Não é novidade que nações amigas realizam espionagem entre si, o chamado “conhecimento comum”. Muitas vezes essas ações se realizam focados na ideia, bem real, que “um amigo de hoje, pode não ser um amigo amanhã”. Além disso, como bem apontou Palmerston, nações não possuem amigos, apenas interesses.

AMÉLIA EARHART – A MAIS ICÔNICA AVIADORA EM NATAL

Quando Uma das Mais Famosas Aviadoras do Século XX Esteve em Natal – Amélia Earhart nunca Aceitou e Nem Estabeleceu Limitações Para a Sociedade, Sobre Como Deveria agir Quanto Mulher e Sobre Sua Carreira  Ela Bateu Vários Recordes na Aviação, Viveu Para Voar e Apontou Novos Caminhos e Novas Atitudes para Aviadores e Mulheres em Todo o Mundo.

Rostand Medeiros – IHGRN

Em tenra idade Amélia viu seu primeiro avião e não se impressionou, mas depois de seu primeiro voo, estar nós céus tornou-se sua vida. Amélia Mary Earhart nunca aceitou e nem estabeleceu limitações para a sociedade, sobre como deveria agir quanto mulher e sobre sua carreira  Ela bateu vários recordes na aviação e foi pioneira em novas fronteiras para as mulheres.

Em junho de 1928 Amélia se tornou a primeira mulher a cruzar o Atlântico. Em janeiro de 1935 ela se tornou a primeira pessoa a voar solo através do Pacífico, de Honolulu, no Havaí, para Oakland, Califórnia, e apesar de suas realizações surpreendentes na vida, Amélia é mais lembrada por seu último voo.

Em 1 de junho de 1937 ela começou uma volta ao mundo, foi quando passou por Natal. Em 2 de julho de 1937, quando a caminho para reabastecer na remota Ilha Howland, um atol desabitado situado logo a norte do equador no oceano Pacífico central, o seu avião desapareceu.

Depois de uma das maiores ações de busca marítima já realizada pelo governo americano na época, Amélia foi declarada morta em 19 de julho. Apesar de toda a lenda envolvendo a sua morte (dizem que teria sido capturada por japoneses e fuzilada como espiã), Amélia Earhart viveu para voar e apontou novos caminhos e novas atitudes para aviadores e mulheres em todo o mundo.

Amélia Earhart e George Putnam em maio de 1928 – Image by © CORBIS

Em dezembro de 1920, aos 23 anos de idade, apenas por pura diversão, Amélia foi levada a realizar um voo pago (10 dólares) e de curta duração, mas que mudaria sua vida. No momento em que seus pés tocaram terra firme novamente, ela estava determinada a aprender a voar. Ela ganhou o dinheiro para as aulas, em uma época extremamente machista cortou o cabelo para não ser excluída do meio aeronáutico e comprou uma jaqueta de couro.

Ela sofreu muito para realizar seu sonho de estar entre as nuvens, mas conseguiu. Quase dois anos após seu primeiro voo, em 22 de outubro de 1922, Amélia Earhart conquistou seu primeiro recorde mundial para pilotos do sexo feminino, voando a uma altitude superior a 4.000 metros. Então em 15 de maio de 1923 ela se tornou a décima sexta mulher no mundo a conseguir uma licença de pilotagem.

O Lockheed Vega 5B exposto no National Air and Space Museum (NASM), também conhecido como Smithsonian Institution, em Washington.

Em 1928 Amélia recebeu um telefonema perguntando se ela gostaria de voar através do Oceano Atlântico. O voo era um projeto patrocinado pela jovem Amy Phipps Guest, oriunda de uma família de milionários da Flórida, que tinha desistido de conquistar a primazia de ser a primeira mulher a cruzar o Atlântico, pois considerou que a viagem seria muito perigosa. Rica como era, para que buscar reconhecimento em um voo?.

Amélia foi entrevistada pelos coordenadores do projeto, incluindo o editor e publicitário George Putnam e foi declarada apta a acompanhar, apenas como uma passageira, a aventura transatlântica do piloto Wilmer Stultz e do copiloto e mecânico Louis Gordon. Os três voltaram deste voo cobertos de glória e intensos aplausos. Foi realizado um grande um desfile e uma recepção com o presidente Calvin Coolidge na Casa Branca. Ao final de toda a movimentação Amélia sabia que iria tentar um novo voo e por conta própria.

Monumento a Amélia em Harbour Grace, Newfoundland, Canada. Se em Natal, Rio Grande do Norte, fosse construído um monumento para cada aviador pioneiro que por aqui passou pela cidade entre as décadas de 1920 e 30, nós sairíamos esbarrando em algo do gênero em cada esquina, tal o número de aviadores que aqui estiveram.

Em fevereiro de 1931 Amélia se casou com George Putnam, o homem que a ajudou a se tornar uma estrela e financiar seu voo. Aquele casamento em si era bem avançado para a época, pois as ideias de Putnam sobre esta instituição eram bem liberais. Amélia por sua vez não desejava se casar para ficar em casa cuidando de filhos, ou do marido e ser relegada a função de “piloto de fogão”. Que era o padrão da mulher casada na época. Ela estava hesitante, mas Putnam lhe acalmou mostrando que acreditava no seu trabalho e na responsabilidade igual para ambos como marido e mulher e não desejava atrapalhar a carreira dela, então em plena ascensão.  O choque entre os puristas foi enorme quando souberam que Amélia Earhart manteve seu nome de solteira.

Amelia Earhart empoleirou-se no nariz de seu avião em 1936.Crédito…O jornal New York Times

Logo ela estava alcançando outros feitos aeronáuticos. Em uma manhã de maio em 1932 Amélia partiu em seu monomotor Lockheed Vega 5B, em um voo solo através do Oceano Atlântico. Depois de um perigoso e exaustivo trajeto com duração de 14 horas e 56 minutos, durante o qual ela sustentou o avião contra fortes ventos do norte, problemas de acúmulo de gelo e falhas mecânicas, Amélia Earhart pousou em um pasto  na região de Culmore, em Londonderry, Irlanda. Ela tornou-se a primeira mulher a voar sozinha sobre o Oceano Atlântico. A primeira pessoa que chegou até ela foi um lavrador, que lhe perguntou “Você veio de longe?” e Amélia lhe respondeu “Da América”. Ele não acreditou.

Lockheed Electra 10E

Amélia se tornou uma celebridade mundial com este voo. Recebeu medalhas dos governos dos Estados Unidos, da França e Eleanor Roosevelt, a primeira dama dos Estados Unidos, era sua amiga. Nos próximos anos Amélia Earhart bateu novos recordes, completando outros voos solo em diversas aeronaves. Então ela se concentrou em um objetivo, um grande voo ao redor do globo.

Depois de dois anos de planejamento Amélia recebeu seu novo avião, um bimotor todo prateado, modelo Lockheed Electra 10E e um navegador disposto, Fred J. Noonan. Os dois partiram do Havaí em 17 de março de 1937, mas devido a um problema no trem de pouso defeituoso, ou erro do piloto, o avião acabou ficando significativamente danificado durante a tentativa de decolagem e o voo foi cancelado.

Os grandes feitos de Amélia.

Enquanto o Electra estava sendo reparado, Earhart e Putnam conseguiram fundos adicionais e se prepararam para uma segunda tentativa. O voo não teve patrocinadores diretos, mas conseguiam a renda através do resultado da venda dos envelopes de malas postais para colecionadores.

Após três meses de reparos veio a decisão de inverter a trajetória de voo, devido a mudanças nos padrões de vento a nível mundial. Finalmente os dois aviadores partiram no dia 21 de maio de 1937, desta vez de Miami, Flórida.

Rota do voo em 1937

A rota a ser completada seria muito próxima a que as Fortalezas Voadoras realizariam a partir de 1942, onde utilizariam como seu principal ponto de apoio uma cidade localizada no Nordeste do Brasil chamada Natal e como campo de pouso um lugar denominado Parnamirim.

O primeiro destino da dupla a bordo do Electra foi San Juan, em Porto Rico. Depois, em 2 de junho, estavam em Caripito, na Venezuela, onde se hospedaram na casa da empresa Standard Oil, que também tinha uma agência em Natal. No outro dia os dois aviadores pioneiros estavam em Paramaribo, na atual Guiana. Deste ponto eles partem para o território brasileiro, direto para Fortaleza, no Ceará.

Voo de Amélia continuamente comentada pelos jornais nordestinos

Eles abdicaram de pousar em Belém, no Pará. Podemos perceber que esta parte do voo parece ter sido um tanto pesada para os aviadores, pois Amélia e Noonam decidem permanecer mais um dia na capital alencarina.

Avião de Amélia no hangar da Air France em Natal. O texto mostra o quanto a nossa imprensa era desatualizada em termos de informações aeronáuticas, mesmo com intenso movimento aéreo
Amélia e Noonan em Natal.

Finalmente no dia 5 de junho de 1937, em um voo de 287 quilômetros, eles seguem para Natal, local que ela denominou em entrevistas como “A porta do Nordeste do Brasil” e aqui chegaram quase às sete da manhã.

Em Natal o seu Electra ficou protegido no hangar da Air France, empresa de aviação civil gaulesa que desde 1927 estava presente na capital potiguar. O interessante é que as fotos existentes de Amélia Earhart em Natal são basicamente no hangar e na casa de apoio aos aviadores desta empresa. Ela se apresenta sempre com seus cabelos curtos, despenteados e com um belo sorriso no rosto. Em praticamente todas as fotos está ao seu lado o seu fiel escudeiro, Fred J. Noonan.

Ao observamos a foto de Amélia e Noonan (de preto) sentados a mesa da casa que dava apoio aos aviadores franceses no Campo de Parnamirim, não podemos deixar de observar algumas situações interessantes. Mesmo sendo pela manhã cedo, diante das pessoas sentadas a mesa temos prováveis garrafas de champanha e cerveja. Estão ali para, talvez, os aviadores relaxarem depois de quase duas horas de voo sobre o nosso litoral.

Sinceramente eu duvido que as pessoas naquela Natal provinciana, que tinham em torno de 48.000 habitantes (segundo o Censo de 2010, Natal seria um pouco maior do que é hoje a cidade seridoense de Currais Novos), não terem achado no mínimo estranho que aquela famosa beldade estadunidense, casada, extrovertida, estivesse voando com um homem que não era nem sequer seu marido, em meio a vários outros homens e ainda tomando uma bebidinha.

Independente desta questão ela foi muito bem tratada e aos habitantes da cidade Amélia não deixou de elogiar o Campo de Parnamirim. Considerava o nosso aeroporto como o mais cosmopolita do hemisfério. Depois foi para a cidade, onde foram hóspedes do inglês Scottbroock.

Na madrugada do dia seguinte, decolaram do aeroporto de Natal rumo à África, onde concluíram o percurso em pouco mais de treze horas de voo. Seu objetivo será a cidade de Saint Louis, no atual Senegal, percorrendo 1.727 milhas através do Atlântico. Até 1902 Saint Louis du Senegal havia sido a capital da West French África, ou África Ocidental Francesa, uma confederação de colônias gaulesas no continente africano. No futuro desmembramento deste território iriam surgir oito novos países.

Consta nos jornais da época que Amélia e Noonan na sequência seguiram para Dakar, na época a capital colonial francesa. Depois os aventureiros tomaram o rumo do deserto, sobrevoando a África Central. Chegaram a Karachi, no atual Paquistão, Calcutá na Índia, Burma (Myanmar) e Tailândia. Depois prosseguiram para Singapura, Indonésia, até a cidade de Darwin, na Austrália. Depois voaram para Lae, na atual Papua Nova Guiné. No dia 02 de julho os aviadores encaram o vasto Oceano Pacífico, no rumo das Ilhas Howland, uma fina faixa de terra com cerca 2.000 metros de comprimento e 1.600 de largura, 10 metros de altura e a 2.556 milhas de distância.

Para encontrar este pequeno naco de terra em meio a um mundo de água, a navegação teria de ser perfeita. Mas a verdade é que não foi e eles nunca mais foram vistos.

Sua última posição conhecida era perto das Ilhas Nikumaroro, cerca de 800 milhas do seu destino.

A bordo do cutter USCG Itasca, o pessoal da Guarda Costeira dos Estados Unidos conseguiu se comunicar com o Lockheed Electra 10E e buscou orientá-los para Howland. O radio operador naval recebeu transmissões e escutou a voz de Amélia, mas ela aparentemente não podia ouvir suas respostas.

Em sua última transmissão Amélia Earhart disse “Estamos na linha 157 337. Vamos repetir essa mensagem. Vamos repetir isso em 6210 quilociclos e espere”. No entanto, poucos momentos depois, ela estava de volta na mesma frequência (3.105 kHz), com uma transmissão que foi registrada como sendo “Estamos indo na linha norte e sul”. Depois o silêncio.

O desaparecimento de Amélia estimulou aquela que até hoje é considerada uma das mais caras e mais intensas buscas navais da história dos Estados Unidos. O esforço ocorreu até 9 de julho de 1937, com a US Navy e a Guarda Costeira vasculhando milhas e milhas náuticas de oceano que rodeiam a Ilha Howland, mas sem encontrar qualquer sinal do avião de Amélia e Noonan.

Duas teorias vigentes sobre o desaparecimento de Amélia Earhart existem até hoje e criam polêmicas infindáveis.

Uma delas é que os aviadores, depois de ter acabado a gasolina do Electra na busca pela pequena ilha, caíram no oceano e se afogaram em suas profundezas. A segunda é que eles encontraram o grupo de ilhas Phoenix, a mais de 500 quilômetros a sudeste de Howland e desembarcaram em uma das ilhas ou atóis deste ponto perdido no Oceano Pacífico.

Desaparecimento de Amélia e Noonan em jornal americano

Esta teoria se baseia na descoberta de alguns ossos e objetos que podem ter pertencido a Amélia e Noonan e foram encontrados no Atol Nikumaroro.

Pertencente à República de Kiribati, este local desabitado é também conhecido como Ilha Gardner, sendo um atol de coral triangular, com seis quilômetros de comprimento, por menos de dois de largura. Possui vegetação abundante, é uma área de preservação e lá existe uma lagoa central com boas dimensões.

Foto de satélite do Atol de Nikumaroro

O Grupo Internacional para a Recuperação de Aeronaves Históricas (conhecido pela sigla em inglês TIGHAR) fez várias expedições para Nikumaroro entre as décadas de 1990 e 2010, onde em uma área no lado noroeste do atol foram encontrados e catalogados alguns objetos. Entre estes estavam produtos de beleza, produtos para cuidados da pele e que seriam datados dos anos 1930. Foram igualmente encontrados um espelho cosmético feminino quebrado, partes de uma faca de bolso, além de vestígios de fogueiras contendo ossos de aves e peixes. Foram localizados conchas vazias alteradas para coletar a água da chuva, bem como garrafas americanas que datam de antes da Segunda Guerra Mundial. Estes últimos objetos foram entortadas pelo calor de possíveis fogueiras, apontando a possibilidade de terem sido aquecidas para ferver a água. Um osso que foi apontado como sendo da falange de um dedo foi encontrado no local e examinado pela antropóloga forense Karen Ramey Burns e pelo Dr. Cecil Lewis, do laboratório de antropologia molecular da Universidade de Oklahoma. Testes de DNA neste fragmento de osso se mostrou inconclusiva para saber se eram de tartaruga ou humano.

Em relação ao trabalho do TIGHAR muitos acreditam que os propósitos do grupo são objetivamente sérios, cientificamente corretos e que as campanhas de arrecadação de fundos pela internet para financiar as expedições em Nikumaroro são transparentes.

O Nautilus, um navio de pesquisa, rebocando um veículo subaquático operado remotamente que foi usado para caçar o avião de Amelia Earhart, que desapareceu em 1937. Crédito…Robert Lyall / National Geographic – Via – https://www.nytimes.com/2019/10/14/science/amelia-earhart-robert-ballard.html

O famoso explorador submarino Robert Ballard liderou uma expedição de 2019 para localizar o Electra de Earhart ou evidências de que ele pousou em Nikumaroro, conforme suposto pela hipótese de Gardner / Nikumaroro. Depois de dias pesquisando as falésias profundas que sustentam a ilha e o oceano próximo usando equipamentos e tecnologia de última geração,

No fundo do mar, foram descobertos dois chapéus, detritos de um antigo naufrágio e uma lata de refrigerante. Contudo, não se encontrou nenhuma peça do Lockheed Electra de Earhart ou qualquer destroço associado a ele. Ballard acredita que eventualmente encontrará algo. “Este avião existe”, disse Ballard. “Não é o monstro de Loch Ness e será encontrado”. Ballard ainda declarou: “Sentimos que se o avião dela estivesse lá, o teríamos encontrado bem no início da expedição”. Embora Ballard afirme que o avião ou porções dele significativas ainda existem e serão eventualmente encontrados, a TIGHAR argumenta que o Electra foi “destruído” pelo toque na água e outros elementos ambientais adversos.

Mas existem muitos críticos. Estes acreditam que o grupo faz um “grande show”, mas os resultados sólidos são escassos. Para muitos nada é conclusivo o suficiente para provar que Nikumaroro é o local de descanso final de Amélia e o mistério do desaparecimento continua.

Para conhecer este projeto click aqui – http://tighar.org/Projects/Earhart/AEdescr.html

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A PITORESCA HISTÓRIA DE UM POTIGUAR QUE VOOU EM COMBATE NOS CÉUS DA EUROPA DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Rostand Medeiros – IHGRN

Durante a Segunda Guerra Mundial, até onde eu sei,  nenhum dos filhos do Rio Grande do Norte que atravessaram o Atlântico para combater em terras italianas foi piloto de combate do 1º Grupo de Aviação de Caça, o famoso “Senta a Pua”.

Mas na houve um ser vivo, oriundo das plagas potiguares, que foi membro da 15ª Air Force da USAAF – United States Army Air Force e chegou a ter 50 horas de combate em céus europeus.

Patch da Fifteenth Air Force (15th AF).

Tal como o “Senta a Pua”, coincidentemente este potiguar combateu nos céus da Itália. Mas a sua base ficava na cidade de Bari, na região da Puglia, sul daquele belo país. Já a sua unidade aérea de combate era designada como 154Th Weather Recon Squadron, sendo este o único esquadrão de reconhecimento da 15ª Air Force que utilizava o poderoso caça bimotor Lockheed P-38 Lightning.

Este potiguar era muito querido pelos seus companheiros estadunidenses, saiu da Cidade do Sol através de Parnamirim Field e já foi entrando na cabine de um P-38 e ganhando os céus italianos.

Até porque de céu este conterrâneo nosso entendia bastante, pois ele era um simpático papagaio.

O belo e poderoso Lockheed P-38 Lightning. Fonte – NARA

É sério!

Esta é a incrível história de “Jock”, um papagaio potiguar comprado por um dos milhares de aviadores militares americanos que passaram pelo Rio Grande do Norte durante a Segunda Guerra Mundial e que, por obra do destino, participou de missões de combate e ainda foi notícia em vários jornais americanos.

Para que os “doutores” em história da aviação potiguar não digam que o que eu escrevo é mentira, vejam a reprodução da matéria do jornal carioca  “A Noite”, edição de quarta-feira, 19 de janeiro de 1944.

Jornal “A Noite”, edição de quarta-feira, 19 de janeiro de 1944.

Não vou nem reproduzir o que está descrito na reportagem, ela fala por si.

Acredito que pelos dados que encontramos na matéria, informando que o louro tinha um tamanho de 10 polegadas (26 cm), hábito de repetir palavras e bico forte que quebrava lápis, deveria ser da espécie Papagaio Verdadeiro (Amazona aestiva), que é um bicho bem sociável.

Os mais velhos me narraram que este pássaro era fácil de encontrar no Rio Grande do Norte, principalmente no agreste. Mas isso em uma época quando a nossa natureza era muito mais preservada e não existia nem o IBAMA e o ICMBIO para controlar a venda de nossos emplumados psitacídeos aos aviadores gringos.

Seria “Jock” um Papagaio Verdadeiro cono o da foto? – Fonte – http://www.kakatoo.com.br/FotoAve1.html

Mas será que “Jock” era mesmo potiguar?

Bem, como não existe registro de nascimento lavrado em cartório e nem carteira de identidade para papagaio, vale o lugar onde ele foi comprado.

Procurei saber mais sobre os P-38 Lightning”da 15º Air Force e descobri que eles eram subordinados ao 305th Fighter Wing, com base em Salsola, Italia. A esta grande unidade estavam subordinados três grupos de caças P-38, com três esquadrões cada. Já o 154Th Weather Recon Squadron, pela espinhosa função de reconhecimento, era como uma unidade a parte no organograma da 15ª Air Force.

Matéria sobre “Jock” publicada no jornal Evening Leader, da cidade de Corning, Nova York.

Bom, fiz uma pesquisa rápida na internet sobre algum piloto chamado Clark, dono de um louro brasileiro, servindo na Itália, etc. Descobri que a notícia publicada no jornal carioca foi também reproduzida em vários jornais americanos. Pesquei a primeira página do jornal “Charlotte News”, de Charlotte, North Caroline e outro de um jornal nova-iorquino, onde a notícia é bem mais detalhada.

Soube que o dono do psitacídeo potiguar era o piloto Donald L. Clark, de 28 anos, natural de Oakland, Califórnia. Daí encontrei a foto do pessoal do 154Th Weather Recon Squadron e o Senhor. D. L. Clark está lá na segunda fila, mas nada do penoso.

Oficiais do 154Th Weather Recon Squadron. O piloto Clark está na segunda fila dos que estão sentados, sendo o terceiro da direita para a esquerda. Fonte – NARA

Já em relação à história transmitida ao repórter Hal Boyle, da Associated Press, pelo piloto Clark, eu posso entender que “Jock” dormisse durante muitos dos voos, pois eram missões de reconhecimento, onde o melhor é o piloto não chamar atenção e fazer suas fotos bem quietinho, que depois seriam enviadas para o alto comando da 15ª Air Force. Mas esta história que o penoso louro da terra “Papa Jerimum” dormia em missões de bombardeamento e não acordava nem com “artilharia antiaérea”, aí tenho minhas dúvidas.

Pode ser que as alterações de pressão e de temperatura devem ter ajudado o bicho a esticar as pernas e tirar um ronco após cada decolagem, mas só um biólogo, ou um ornitólogo, para definir se esta história tem fundamento.

P-38 em voo. Fonte – NARA

E o danado do “Jock” fez bonito no meio da gringalhada, pois aprendeu, além do português materno, mais quatro idiomas, até mesmo o árabe. Pena que só servia para repetir palavrões.

Agora os pilotos americanos erraram quando inventaram de dar brandy misturado com água ao danado do emplumado potiguar e ele não quis mais beber em uma colher. Tivesse sido cachaça ele beberia até em cálice de igreja. Afinal, quem já ouviu falar em um norte-rio-grandense bebendo brandy?

Apesar de saber que papagaios em geral vivem muito, acredito que no ritmo meio amalucado que o piloto Clark descreve como era a vida deste emplumado norte-rio-grandense e ainda mais com os pilotos baforando fumaça na cara do infeliz, ele não deve ter durado muito.

É uma pena não ter encontrado nada mais sobre este valoroso combatente potiguar que cumpriu tantas missões nos céus da Europa.

Pilotos e um P-38 do 154Th Weather Recon Squadron. Fonte – NARA

Com a história pitoresca de “Jock”, agora posso orgulhosamente afirmar que o Rio Grande do Norte teve um representante em uma cabine de pilotagem durante a Segunda Guerra Mundial.

Para aqueles que vivem nesta terra banhada de sol e admiram com enorme respeito à participação dos nossos conterrâneos no maior conflito da história mundial, podem agora se ufanar de ter um potiguar nesta listagem tão nobre e distinta.

Afinal, é melhor se orgulhar de “Jock” do que da maioria dos políticos desta minha bela terra.

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JESSE JAMES – O GRANDE BANDOLEIRO AMERICANO

Rostand Medeiros – Escritor e Pesquisador.

É ponto praticamente passivo a afirmação que o maior bandoleiro da história do Brasil foi Virgulino Ferreira da Silva, o conhecido Lampião.

Já nos Estados Unidos este título vai certamente para Jesse Woodson James, o Jesse James.

Para muitos este bandoleiro ganhou reconhecimento como um guerrilheiro, o último rebelde da Guerra Civil Americana, um símbolo que trouxe esperança para aqueles que ainda acreditavam na causa dos estados do Sul dos Estados Unidos. Mas para outros ele foi tão somente um assaltante de bancos, trens e carruagens, além de um impiedoso assassino a sangue frio.

Jesse Woodson James

Apesar de serem pontos de vista divergentes, ambos são verdadeiros.

Embora seja verdade que grande parte da história de Jesse James é puro mito, também é verdade que muito do que se sabe sobre esta figura é baseada em fatos reais. Mas com a ficção e a realidade agora enredada – é quase impossível separá-los.

Então, quem era Jesse James?

O Homem e Sua Guerra

Jesse Woodson James nasceu em 5 de setembro de 1847. Era filho de um pastor que morreu quando ele tinha apenas dois anos, e de uma mãe de personalidade forte, Zerelda, que se tornou a matriarca da família. Ele foi criado em um ambiente extremamente escravocrata, onde negro era comparado a um bicho de carga e consta que sua família tinha orgulho do sistema escravista. Morava em uma propriedade perto da cidade de Kearney, no estado do Missouri. Tinha um irmão mais velho chamado Frank, que com ele pegaria em armas, e uma irmã mais nova, Susan, e quatro meio-irmãos, frutos de um novo casamento de sua mãe com o Dr. Ruben Samuels.

Zerelda James – Casada com Robert James aos 16 anos, viúva aos 25, a mãe de Jesse, Zerelda, casou-se novamente aos 30 com o Dr. Reuben Samuel. 
Ela era uma figura dominante, uma feroz separatista com nervos de aço, uma língua dilacerante e um intelecto vigoroso.

Na época que Jesse James nasceu o seu mundo era extremamente maculado pela violência. Em 1850 o Missouri era um estado onde guerras de fronteira com os habitantes do vizinho estado do Kansas eram normais e tornou a vida muito perigosa para os que viviam no oeste do Missouri – vizinhos lutaram contra vizinhos e cada ataque brutal ocasionava ainda mais represálias brutais.

Mas o problema não era apenas com os vizinhos do Kansas. O Missouri era um estado com muitas facções armadas, mantidas por ricos fazendeiros, os “coronéis” deles, que lutavam por terra, dinheiro e poder. Ninguém foi poupado. Apenas arar seu campo poderia trazer a morte – e a noite não era difícil alguma casa ser queimada e o gado de algum proprietário ser roubado ou abatido a tiros. Mas também ocorriam contínuas batalhas internas e conflitos de fronteira por parte de pessoas que eram contra a escravidão – chamados de “Jayhawkers” (os nossos abolicionistas), que lutavam contra aqueles que eram pró-escravidão, chamados “Bushwhackers”. Sobre todos os aspectos, era um prelúdio sinistro e localizado do que seria a futura Guerra Civil Americana, ou Guerra da Secessão.

Fazenda da família James em 1877.

Quando o grande conflito entre os estados do norte e do sul dos Estados Unidos oficialmente estourou, em 12 de abril de 1861, muitos habitantes do Missouri deixaram suas terras para lutar pelo exército do Sul, os chamados Confederados. Estes estavam com medo que suas famílias e propriedades fossem atacadas pelas forças da União, os do Norte. Para evitar isso, milícias armadas foram criadas para proteger os que ficaram. Frank James juntou-se a um destes grupos de proteção em 1861.

Um dos líderes desses grupos era um jovem de 24 anos chamado William Quantrill. Este organizou várias centenas de homens sob a sua liderança, oferecendo seus serviços para a Confederação. Eles foram empossados ​​em serviço no ano de 1862 e foram reconhecidos como uma parte importante da causa do Sul no Missouri (este reconhecimento é causa de extremas controvérsias até hoje nos Estados Unidos).

William Quantrill

Valente, astuto, um verdadeiro guerrilheiro, mas igualmente um sanguinário, William Quantrill e seus homens realizaram diversos ataques em várias localidades. Muitos de seus combates eram para a defesa dos habitantes do Missouri, mas muitas outras de suas ações não passaram de carnificina em massa, roubo desenfreado, estupros em quantidade e destruição massiva de patrimônio. O mais famoso  (ou infame) sucesso de Quantrill ocorreu na madrugada de 21 de agosto de 1863, quando seu grupo composto por mais de 300 homens, realizou um ataque contra a cidade de Lawrence, Kansas. Quando eles terminaram, mais de 150 habitantes foram mortos, 200 casas e empresas estavam destruídas. Frank James estava na incursão a Lawrence.

O ataque a Lawrence, Kansas, em 21 de agosto de 1863, foi a pior atrocidade contra civis na Guerra da Secessão.

Em represália as ações de guerrilha de Quantrill, as milícias pró-União invadiram as propriedades das famílias dos membros do bando, incluindo a fazenda da família James.

No sertão nordestino de Lampião, nas décadas de 1920 e 1930, quando a polícia (em grupos conhecidos como volantes) realizavam perseguições aos cangaceiros, não tinham nenhuma piedade para conseguir informações junto aqueles que acreditavam ajudar estes bandoleiros nordestinos (os chamados coiteiros). Sessenta ou setenta anos antes, a família de Jesse James sofreu da mesma maneira nas mãos das milícias pró-União. Um dos meio irmãos do futuro bandoleiro quase foi enforcado para abrir alguma informação sobre Frank. O próprio Jesse foi chicoteado impiedosamente e sua mãe Zerelda apanhou bastante, mesmo estando grávida. Consequentemente Jesse, então com 16 anos, passou a andar com Quantrill e mais tarde com o seu sucessor, Willian “Bloody (sangrento) Bill” Anderson. Este último era conhecido por cortar as cabeças de seus inimigos com uma típica espada de pirata e levava os escalpos de muitas de suas vítimas em seu alforje.

Em Combate 

Em agosto de 1864 Jesse estava com os guerrilheiros, quando ele foi baleado no peito, mas salvou-se e logo voltou à luta. Ele levou esta bala em seu corpo para o resto de sua vida. Em um ataque à cidade de Centralia, no Missouri, o bando de Bloody Bill Anderson matou 25 soldados da União desarmados e roubaram seus uniformes. Mais tarde uma tropa da União ao saber o que aconteceu, saiu em busca de Bill e seus homens. Quando eles foram encontrados, os guerrilheiros mataram mais de 100 dos seus perseguidores, em uma bem montada emboscada. Jesse foi identificado como aquele que matou o comandante dos soldados.

William “Bloody Bill” Anderson – Foi um chefe guerrilheiro cuja campanha de terror ao longo do rio Missouri em 1864 é amplamente considerada uma das mais brutais da história americana. Jesse James o seguiu durante essa época e nos anos posteriores falou com orgulho da filiação a esse homem.

Este seria o maior engajamento da carreira de Jesse como um guerrilheiro confederado. Dois meses após esta batalha, Bloody Bill foi morto em uma emboscada. Os dias dos guerrilheiros foram chegando ao fim, com muitos dos irregulares fugindo para os estados da Louisiana e Texas. Após a morte de Quantrill, os seus homens ou foram capturados, fuzilados, ou fugiram, incluindo neste último grupo Frank James.

Jesse James como um jovem guerrilheiro. Esta foto foi tirada em Platte City, Missouri, em 10 de julho de 1864, mostra o bandoleiro aparece com três revólveres modelo Colt Navy.

Enquanto Frank tinha ido para Kentucky, Jesse seguiu para o Texas, onde ficou até 1865. Após um tempo nesta inatividade, Jesse e alguns outros guerrilheiros decidiram voltar para o Missouri e se entregar. No caminho alguns soldados da União abriram fogo sobre eles e, pela segunda vez, Jesse foi baleado no peito. O ferimento era grave e ele foi levado para a casa de um tio, onde recuperou a saúde com a ajuda da prima Zee Mimms, por quem se apaixonou. Eles iriam se casar nove anos mais tarde.

O Guerrilheiro que se Transformou em Fora da Lei

Ressentimentos políticos, juntamente com dificuldades econômicas no Missouri, acrescentaram novas feridas a velhos problemas. Jesse e Frank James poderiam ter seguido para sua casa e objetivado levar uma vida pacífica, como fez a maioria dos outros guerrilheiros. Mas depois de uma vida tão “emocionante”, os dois irmãos logo se juntaram com alguns antigos guerrilheiros e começaram suas carreiras criminosas.

O líder guerrilheiro do Missouri Fletch Taylor (à esquerda), que mais tarde perderia seu braço direito, era o oficial comandante de Jesse James em 1864 antes dos James se juntarem ao grupo de “Bloody Bill” Anderson. Frank (no centro) e Jesse (direita) posaram para a rara foto em abril de 1864.

Salvo engano, Lampião passou 20 anos como cangaceiro, já Jesse e Frank James estiveram de armas na mão por 16 anos. Tal como Lampião, não se sabe quantos crimes os irmãos James cometeram, mas uma vez que eles tinham alcançado alguma notoriedade, foram acusados ​​de mais assassinatos e roubos do que poderiam ter realmente cometido. Coisas da fama!

Mas se Lampião visava atacar principalmente as casas dos proprietários rurais, onde ficavam suas economias pela falta de casas bancárias no sertão nordestino, nos Estados Unidos eram os bancos o principal alvo dos irmãos James.

Acredita-se que o primeiro banco que eles roubaram foi na cidade de Liberty, Missouri. O fato ocorreu em fevereiro de 1866, o bando tinha cerca de 12 homens, que entraram na cidade tranquilamente montados em seus corcéis. Deixaram o estabelecimento bancário com quase 60.000 dólares e dispararam contra dois espectadores, matando um. Outros roubos semelhantes ocorreram no Missouri e em estados vizinhos entre 1866 e 1867. Logo os irmãos James, juntamente com seus primos, os Youngers, são apontados como suspeitos dos assaltos. O bando passa a ser conhecido como quadrilha dos James/Youngers.

Jesse e Frank James

Qualquer que fosse a dúvida de que os James estavam envolvidos em assaltos a bancos, esta foi eliminada quando roubaram o Banco Davies, na cidade de Gallatin, Missouri, em dezembro de 1869. Depois disso, seus nomes, com recompensas por suas cabeças, seriam ligados a crimes no Missouri e em outros lugares.

Jesse entrou neste banco e pediu a John Sheets, um ex-capitão do exército União, caixa e principal proprietário do banco, para trocar uma nota de 100 dólares. Quando este se sentou para escrever o recibo, Jesse percebeu que aquele era um ex-oficial do Norte e, sem pestanejar, atirou na sua cabeça e no coração. Apesar de dois outros assaltantes terem disparado contra um funcionário do banco, este conseguiu escapar e alertou a cidade.

Jesse James

Seus habitantes se posicionaram e, como quase todo mundo no velho oeste tinha uma arma de fogo, dispararam impiedosamente sobre o bando na medida em que estes saiam do banco e tentavam pegar seus cavalos. Ao montar em seu alazão, Jesse James caiu e foi arrastado por cerca de 40 metros antes que pudesse retirar o pé do estribo. Ele então subiu na garupa do cavalo de Frank e fugiram. Só depois conseguiu tomar outro cavalo de assalto.

Logo a imprensa estampou que o assassinato do ex-oficial da União Sheets, teria sido uma “vingança política” e muitos sulistas aprovaram o assassinato cometido por Jesse.

O Nascimento de uma Lenda

Embora os membros da quadrilha dos James/Youngers afirmassem aos quatro ventos que roubavam dos ricos para dar aos pobres, não há registro de que eles tenham dado algo a alguém. O mais próximo disso foi pagando aos que os apoiavam durante suas fugas.

A quadrilha dos James/Youngers

A quadrilha então volta a sua atenção para outra fonte de dinheiro – as ferrovias. Eles atacaram o seu primeiro trem em uma noite de julho de 1873, em Iowa. A quadrilha também roubou diligências. Eles provavelmente teriam assaltado postos de gasolina e lojas de conveniência, se estas existissem na época.

Apesar de ser oferecido cada vez mais dinheiro pelas cabeças dos membros da quadrilha dos James/Youngers, eles seguiam tranquilos. Entre os roubos, os irmãos James se escondiam nas cidades médias e grandes. Jesse e Frank viveram em vários locais, junto com as suas respectivas famílias. Jesse e Zee Mimms tiveram um filho e uma filha. Frank também se casou e de sua união nasceu um filho. As duas famílias unidas, ajudavam os irmãos James a se esconderem nas áreas urbanas.

Jesse era vaidoso com sua aparência, fumava charutos e raramente bebia qualquer coisa alcoólica mais forte do que a cerveja. Apesar de algumas madames contestarem esta versão, consta que ele nunca traiu a mulher e jamais levantou a voz com crianças. Ele tinha duas marcas de balas no peito, outra na coxa e faltava um pedaço do seu dedo médio esquerdo. Ele também tinha um pé esquerdo ligeiramente torcido. Afirma-se que era canhoto, tinha uma voz de contralto. Lia a bíblia, podia recitar salmos e poderia cantar hinos religiosos se quisesse. Consta que nunca se arrependeu de seus roubos, ou de seus muitos assassinatos. Ele tinha uma grande necessidade de atenção, poderia ser muito gentil, muito educado e era bem versado sobre os acontecimentos do seu tempo.

Livros publicados no final do século XIX sobre Jesse James

Jesse e Frank James estavam nas páginas dos jornais de todo o país. Mas foi o jornalista John Edwards, um ex-oficial da Confederação, escritor e editor de vários jornais depois da guerra, que viu em Jesse uma oportunidade de criar um ponto de encontro para a oposição à opressão que os antigos militares do Sul sofriam daqueles que estavam no poder. Edwards tornou Jesse o símbolo de uma causa perdida.

Jesse gostava de seu novo status, tornando-se obcecado com sua imagem pública. Ele leu jornais e muitas vezes escrevia cartas para os jornalistas e até mesmo chegou a planejar assaltos com base em sua percepção da reação do público. Com a contínua campanha de propaganda, Jesse se tornou um herói para muitos.

O Fim da Gangue James/Youngers 

Os homens da famosa agência Pinkerton, de caçadores de bandidos, foram chamados várias vezes para capturar os membros da gangue James-Younger e não conseguiram. Em represália, numa noite de janeiro de 1875, várias bombas incendiárias foram lançadas na tradicional casa da fazenda da família James. Uma meia irmã de Jesse e Frank morreu e sua mãe Zerelda perdeu a mão.

Fazenda da família James, mantida totalmente original

O ataque pensado pelos agentes Pinkerton foi um fracasso, além de realizarem uma ação contra uma família indefesa, provocaram a morte de uma criança inocente, o que automaticamente trouxe simpatia e o apoio a quadrilha dos James/Youngers. Então veio o notório assalto ao banco em Northfield, Minnesota, em setembro de 1876.

Oito membros da gangue entraram na cidade, três ficaram em seus arredores, três entraram no First National Bank e dois ficaram do lado de fora. Quando o caixa do banco se recusou a abrir o cofre, sua garganta foi cortada e, em seguida, ele foi baleado – muito provavelmente por Jesse. Outro caixa fugiu para soar o alarme entre os moradores de Northfield. A rua foi imediatamente liberada pelos transeuntes e os habitantes da cidade começaram a atirar nos bandidos. Dois deles morreram, juntamente com um civil, e o resto da quadrilha fugiu.

Armas que pretensamente pertenceram a gangue James-Younger, em uma exibição na década de 1920.

Foi organizada uma caçada humana para rastrear os bandidos em fuga, esta acabou matando outro marginal e capturando Cole, Jim e Bob Younger. Jesse e Frank escaparam. O assalto foi um grande fracasso – três homens morreram, três foram presos (depois receberam sentenças de prisão perpétua), dois escaparam e nenhum dinheiro foi levado.

Hollywood aproveitou este fracasso do bando James/Younger na película “The Long Riders”, de 1980 (No Brasil foi intitulado “Cavalgada de Proscritos”), onde a cena deste assalto, apesar de certos exageros em relação ao fato real, é visualmente intensa (Veja a cena – http://www.youtube.com/watch?v=vr0MlCjzJak)

Bill Stiles e Clell Miller, do bando dos irmãos James, mortos no assalto de Northfield. Seus corpos foram fotografados em um estúdio. Embora pareça sombrio para os tempos atuais, fotos de bandidos mortos ou capturados e divulgados como lembranças. Isso também serviu ao propósito prático de ajudar em sua identificação.

A Morte de Jesse James por um Covarde

Depois de algum tempo, Frank decidiu sair do grupo e se aposentar. Já Jesse buscava montar um novo bando para continuar roubando por mais alguns anos. Mas os tempos e a política começaram a mudar. A eleição de Thomas T. Crittenden para governador do Missouri em 1880 foi o começo do fim para Jesse.

Na esperança de manter o grupo vivo, Jesse convidou os irmãos Robert (ou Bob) e Charles Ford para participar de um assalto ao banco da localidade de Platte City. Entretanto os irmãos já tinham decidido não participar de roubo algum, mas receber a recompensa de 10.000 dólares pela cabeça de Jesse. Ação que era patrocinada pelo governador Crittenden.

Robert Ford

O governador prometeu aos irmãos Fords um perdão completo pelo passado de crimes, mas eles teriam de matar Jesse, que era então o criminoso mais procurado dos Estados Unidos. Crittenden tinha elegido a captura dos irmãos James como sua prioridade política. Barrado por uma lei que não autorizava o oferecimento de uma recompensa vultosa pela captura de bandidos, o governador buscou apoio nas estradas de ferro e estes lhe cederam os 10.000 dólares.

Foto recentemente apresentada, que mostra Robert Ford (à esquerda) e Jesse James. A foto mostra o notório fora da lei americano e seu infame colega de gangue, que o trairia em troco da recompensa, matando-o a tiros em 1882. Ela pertence a uma família de fazendeiros do Texas, transferida de geração em geração. Eles passaram os últimos anos tentando provar que era legítima. A legista Lois Gibson, do Departamento de Polícia de Houston, confirmou sua autenticidade em 30 de setembro de 2015. Ela pode render muito dinheiro para a família.

Em 3 de abril de 1882, os irmãos Ford estavam junto com Jesse e sua família – a respeitável família Thomas Howard – em uma casa em Saint Joseph, Missouri. Depois de tomar café da manhã, os Fords e Jesse James entraram na sala de estar em preparação para a viagem para Platte City. De acordo com Robert Ford, tornou-se claro para ele que Jesse tinha percebido que ele e seu  irmão estavam lá para matá-lo.

Desenho mostrando o assassinato de Jesse James por Robert Ford

No entanto, em vez de xingar ou matar os Fords, Jesse atravessou a sala de estar, colocou seus revólveres em um sofá e depois subiu em uma cadeira para tirar a poeira de um quadro. Bob Ford vendo a oportunidade, tirou o seu revólver calibre 44 do coldre, apontou-o para a parte de trás da cabeça de um homem desarmado e puxou o gatilho. Jesse ouviu o barulho do engatilhamento da arma e foi virando a cabeça, quando a bala o atingiu.

Casa onde Jesse James foi morto, hoje um museu.

Após o assassinato, os Fords foram ao encontro do governador Crittenden para reivindicar sua recompensa. Eles se entregaram às autoridades legais, mas ficaram consternados ao descobrirem que foram acusados ​​de assassinato em primeiro grau. Em um dia, os irmãos Ford foram indiciados, se declararam culpado e foram condenados à morte por enforcamento. Duas horas depois, Crittenden lhes concedeu um perdão completo. Apesar do acordo, os irmãos Ford receberam apenas 500 dólares, uma fração do dinheiro originalmente prometido.

O corpo do bandoleiro Jesse James.

Por um tempo Bob Ford ganhou dinheiro posando para fotos como “o homem que matou Jesse James”. Junto com seu irmão reencenaram o assassinato em um espetáculo por várias cidades. Mas o desempenho dos Fords não foi bem recebido. A maneira como Bob havia assassinado Jesse James, enquanto ele estava de costas e desarmado, trouxe muitas inimizades em diversas cidades onde o espetáculo foi realizado.

Com tuberculose e viciado em morfina, Charles Ford se suicidou em 4 de maio de 1884. Quase dez anos depois do assassinato de Jesse James, no dia 8 de Junho de 1892, Robert Ford era dono de um saloon em Creede, no Colorado, quando foi morto com dois disparos de uma espingarda calibre 12 no peito. O assassino foi um homem que aparentemente tinha problemas mentais e desejava ficar famoso como “o homem que matou o homem que matou Jesse James”.

Vejam que ser famoso já não era fácil desde aquela época!

Propaganda de um show onde as atrações principais eram Frank James e seu primo Cole Younger

Propaganda de um show onde as atrações principais eram Frank James e seu primo Cole Younger

Depois que Jesse foi morto, seu irmão Frank se entregou às autoridades em 1882. Ele foi julgado e absolvido por um júri simpático. Nos últimos trinta anos de sua vida Frank trabalhou em vários empregos, inclusive como vendedor de sapatos e, em seguida, como um guarda de teatro em St. Louis. Durante algum tempo, junto com seu primo Cole Younger, participaram de shows itinerantes onde apresentavam as suas aventuras do passado. Em seus últimos anos, Frank James voltou para a tradicional fazenda da família James. Ele morreu em 18 de fevereiro de 1915, com a idade de 72 anos.

Legado – Jesse James, um Ícone da Cultura Pop 

Tal como ocorreu com Lampião no Brasil, tão rapidamente quanto os jornais anunciaram a sua morte, rumores da sobrevivência de Jesse James proliferaram. Alguns disseram que Robert Ford matou alguém parecido com Jesse, em uma trama elaborada para permitir-lhe escapar da justiça. Estes contos têm recebido pouca credibilidade e nenhum dos biógrafos deste bandoleiro famoso apoiaram as versões de sobrevivência como plausível.

Cartaz origina oferecendo uma recompensa pelos irmãos James.

Nos Estados Unidos já foram rodados mais de 70 filmes e programas de TV sobre Jesse, ou incluindo Jesse, e a saga cinematográfica deste fora da lei é longa. O primeiro filme sobre ele foi feito em 1920 e estrelado por seu filho, Jesse James Jr. Mais recentemente, Brad Pitt interpretou o fora da lei em “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”. Houve também várias apresentações de palco. Jesse James também foi o herói em muitos romances baratos e objeto de vários livros e inúmeros artigos.

Tal como Lampião no Brasil, Jesse James continua a ser um símbolo controverso, que sempre pode ser reinterpretado, de várias maneiras, de acordo com as tensões e necessidades culturais.

Fontes – http://clevelandcivilwarroundtable.com

http://en.wikipedia.org/wiki/Jesse_James

http://www.pbs.org/wgbh/americanexperience/films/james/

http://www.civilwarstlouis.com/History/jamesgang.htm

http://www.jessejames.org/

http://www.jessejames.org/photo_gallery

http://deadbutdreamin.files.wordpress.com

http://www.legendsofamerica.com/we-jamesyoungergang3.html

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RAIMUNDA CÍCERO – A GRANDE ARTESÃ DO BARRO DE CAICÓ

Rostand Medeiros

Quem observa os antigos jornais do eixo Rio – São Paulo na década de 1970, percebe que não eram muitas as notícias vinculadas sobre o pequeno e distante Rio Grande do Norte.

Normalmente o que a grande imprensa do centro sul do país informava sobre a terra potiguar estava mais focado em desgraças, principalmente as secas, enchentes, alguma coisa de política local e fatos pitorescos desta terra que aparentemente tinha tão pouca representatividade.

Peças da artesã Raimunda Cícero, existente na Biblioteca Olegário Vale, em Caicó – Fonte – aflordaterra.blogspot.com

Por isso me chamou atenção uma interessante reportagem realizada na cidade de Caicó, pela jornalista Lena Frias e o fotografo Alberto Ferreira, do então poderoso Jornal do Brasil, o conhecido JB, do Rio de Janeiro.

Publicada em 9 de janeiro de 1978, não teve como tema central as histórias genealógicas que tanto orgulho causa na elite local, ou as querelas políticas da maior cidade da região do Seridó, ou sobre uma nova enchente, ou uma grande seca.

O que a jornalista Lena buscou e o Alberto focou com sua máquina, foi a história de uma mulher simples, negra, de poucas letras, chamada Raimunda Cícero da Conceição. Uma grande artista do barro tirado daquela terra ressequida pelo sol.

Jornal do Brasil, 9 de janeiro de 1978.

Segundo Jordão de Arimatéia, artista plástico e escultor potiguar, Lena e Alberto vieram a Natal a convite do jornalista Wolden Madruga, para conhecer o trabalho que Jordão realizava no Edifício Rio Mar, que consistia na criação de um grande entalhe de barro e cimento, com 4.000 metros de área. Ao conhecer a jornalista, Jordão lhe narrou vários aspectos interessantes sobre nossas artes e entre estes comentou sobre o trabalho extremamente original de Raimunda Cícero em Caicó.

Jornalista capacitada, Lena percebeu que ali tinha uma grande matéria e com o apoio de Wolden Madruga, foi organizada a viagem a Caicó. Jordão de Arimatéia acompanhou os jornalistas do JB nesta viagem.

UMA ARTESÃ ÚNICA

Mostrando sua arte.

Raimunda Cícero da Conceição nem de Caicó era. Elas nasceu em 1933 e veio ao mundo na paraibana cidade de Bananeiras e um dia (quando ela tinha nove meses) e sem que explicasse a razão, sua família deixou a fértil região do Brejo Paraibano e seguiu para o seco sertão do Seridó Potiguar. Narrou que desde criancinha fazia peças de barro para brincar, sendo ensinada pela sua mãe.

Raimunda recebeu os profissionais de imprensa com um delicioso suco de manga, enquanto espantava seus inúmeros filhos para puder conversar com os estranhos e tentar compreender tanta curiosidade daqueles periodistas pelo seu trabalho artesanal, que ela denominou de “caqueira”.

Segundo a periodista, as louças de barro feitas por Raimunda “sem colégio, nem escola!”, no seu conjunto era “pura harmonia” e possuíam uma “elegância natural” que deixou Lena verdadeiramente embasbacada. Basta ler no que ficou gravado nas páginas do jornal.

Na opinião da jornalista, mesmo sem Raimunda Cícero querer, a sua arte era uma referência, onde a mistura do solo seco e árido do Seridó dava as suas peças de barro uma composição, uma textura, que foi classificada de “fina” e também “única”. Chamou atenção o fato de Raimunda moldar suas peças sem planejamento prévio, sem desenho nenhum. Fazia tudo de “cabeça”.

A artesã contou que para chegar ao ponto ideal de sua matéria prima, buscou misturar areia pilada com barro, mas não deu certo. Depois incorporou flores da caatinga e até tentou uma receita bíblica com leite e mel. Mas a coisa só deu certo quando misturou o barro com a pedra sabão pilada. Segundo a jornalista Lena, a pedra sabão que ela conheceu no Seridó seria mais “mole” que o mesmo tipo de rocha proveniente das Minas Gerais.

Sinceramente, eu nem sabia que existia pedra sabão no Seridó!

No preparo de suas louças.

FELIZ COM SEU TRABALHO

O resultado daquele trabalho deixava a artesã Raimunda Cícero tão feliz, ao ponto dela comentar que muitas vezes “tinha vontade de chorar” quando uma “loiça” ficava pronta, com sua original cor pardo-avermelhado.

Consciente da situação de sua família em solo caicoense, Raimunda colocou bem claro para a jornalista que durante muito tempo eles viveram nos sítios dos “brancos”, trabalhando como empregados e ganhando muito pouco.

Ficou nesta situação até 1953, quando veio morar na “rua” de Caicó. Ou seja, se mudou para a zona urbana.

Raimunda, também conhecida na cidade como “Raimunda Coelho”, ou “Raimunda Louceira”, se casou duas vezes. A segunda foi com um cidadão conhecido como Chico Faísca, que no final da década de 1950 seguiu para o Planalto Central e labutou, como milhares de brasileiros, na construção de Brasília.

Neste ponto a história de Raimunda Cícero lembra a de Dona Lindu, a mãe do ex-presidente Lula, que saiu do sertão de Pernambuco levando a filharada, para tentar encontrar o marido que havia seguido para o Sudeste em busca de trabalho e não deu mais sinal de vida para a família no Nordeste. Mas diferente da mãe de Luís Inácio Lula da Silva, que encontrou o marido com outra mulher, a artesã Raimunda Cícero encontrou o seu marido, que havia virado Candango, e retornaram para o sertão potiguar trazendo o primeiro filho – Paulo Roberto.

LUTA PELO RECONHECIMENTO

Na data da entrevista, seu companheiro Chico Faísca tomava conta da “microempresa” que vinha das mãos habilidosas de Raimunda. Ele narrou a jornalista Lena que tinha que ficar ao lado da mulher, pois ela poderia saber fazer as louças, mas não sabia vender. Segundo ele, se deixasse na mão de Raimundo ela era “enganada” devido a sua simplicidade e recebia quase nada pela sua arte.

Raimunda e sua arte.

Arte esta que já não se restringia apenas as casa dos caicoenses.

Já havia peças de Raimunda Cícero no Rio, São Paulo e até mesmo nos Estados Unidos, Itália e França. Ela já havia participado de exposições em Natal e o seu trabalho já havia proporcionado um aumento na renda familiar.

Segundo a reportagem, na época da entrevista, a família aplicava os ganhos das louças na construção de uma casa no centro da cidade. Mas é relatado que esta mudança não era bem vista por parte de algumas pessoas que viviam na área, que era então considerada o setor mais valorizado da principal cidade seridoense. Essa situação irritou muito Chico Faísca e no início trouxe tristeza a sua família de origem humilde. Mas com o tempo as coisas estavam se acomodando.

A repórter deixou registrado que na época da entrevista, a elite local já considerava de bom alvitre ter aquelas louças de barro originais, como finas peças de decoração nos principais cômodos de suas casas.

Peças de Raimunda Cícera – Fonte – http://www.catalogodasartes.com.br

Era uma grande mudança. Raimunda e seu marido afirmaram que no início, na feira da cidade, era até difícil que os feirantes  deixassem que eles “arriassem” o balaio com suas peças de barro. Tudo por ser a arte de Raimunda Cícero considerada “diferente” do que era feito na época. Atitude que Chico Faísca classificou como “fanatismo” e que aquilo “não valia de nada”.

Na verdade o que aconteceu com a artesã Raimunda Cícero e a sua original maneira de dar forma ao barro, foi uma situação que até hoje é muito comum em terras potiguares. Aqui, tudo que é feito pelo povo local, principalmente quando vem dos mais humildes, só tem algum valor quando os de fora enaltecem e se curvam diante da originalidade e maestria dos nossos artistas, artífices e artesões. E os de fora não podem ser paraibanos, pernambucanos e nem cearenses. Estes são vizinhos!

Se for alguém da Bahia que enalteça nossa arte popular, pode até ter algum valor. Mas bom mesmo é quando o elogio vem de pessoas que vivem abaixo do paralelo 15, localizado ao sul do equador. Melhor ainda se for do estrangeiro. Aí é coisa fina!

O QUE FICOU?

Mas voltando para 1978. Encontramos a informação que um conjunto normal de peças feito por Raimunda para seus clientes incluía 12 pratos, 12 copos, três travessas, três conchas, uma moringa, uma farinheira, uma molheira e tudo saia por CR$ 600,00 (Seiscentos Cruzeiros). Isso era pouco menos da metade do salário mínimo da época, que estava na faixa de CR$ 1.560,00 (Ver o site – http://www.uel.br/proaf/informacoes/indices/salminimo.htm). Vale frisar que fora de Caicó os preços destas peças disparavam.

A MARCHA REVOLUCIONÁRIA DE CLETO CAMPELO PELO AGRESTE DE PERNAMBUCO

Rostand Medeiros – Escritor e Pesquisador.

O tenente Cleto Campelo.

Antecedentes

Durante os conturbados anos 20 do século passado, ocorreram inúmeras agitações políticas que abalaram o então agrário Brasil. Entre estes movimentos, o que ficou conhecido como Tenentismo marcou aquele período. Tendo se caracterizado pelas críticas destes jovens oficiais militares às instituições republicanas e às condições da sociedade brasileira da época. Os tenentes defendiam a modernização econômica do país e combatiam a corrupção política. Com o endurecimento do governo federal em relação ao tenentismo, remanescentes da malfadada Revolução de 1924 e dissidentes do Rio Grande do Sul, uniram-se e seguiram em uma coluna de combatentes para o interior do país, defendendo reformas políticas e sociais e lutando para depor o governo do presidente Artur Bernardes (1922-1926).

Sempre conseguindo vitórias, a coluna revolucionária combateu forças regulares e milícias privadas de fazendeiros. A Coluna empregava táticas de guerrilha, possuía um número de combatentes que chegava em média a cerca de 1.200 homens, acompanhado de algumas mulheres e sendo chefiados por Miguel Costa, Siqueira Campos e Luís Carlos Prestes. Conforme a coluna avançava, muitos eram os insatisfeitos militares de baixa patente, que conspiravam pelo Brasil afora para se unir a Coluna, esperando levantar as populações rurais injustiçadas, se possível levando combatentes, armas e provisões para o grupo revoltoso. Um destes idealistas foi o recifense Cleto Campelo e esta é a sua esquecida saga.

O Revolucionário

Cleto da Costa Campelo Filho nasceu em 29 de dezembro de 1898, era filho de um contador e uma dona de casa, onde desde cedo demonstrou vocação pela carreira militar. Em 1913 ingressou no 4º Batalhão de Infantaria, no Recife, de onde partiu para cursar a Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, concluindo o curso em 1916. Ao sair da Academia retorna a capital pernambucana para servir como aspirante no 21º Batalhão de Caçadores. Vale ressaltar que este batalhão seria anos depois transferido para Natal, onde dentro desta unidade militar, iria eclodir a Intentona Comunista de novembro de 1935 na capital potiguar.

Pernambuco, Recife particularmente, era um fervente caldeirão de exaltações partidárias. O então comando do exército brasileiro na região, a 6ª Região Militar, também não ficava alheia às lutas das facções. Cleto Campelo, então 2º tenente, sempre se interessou pela política de seu tempo, onde acabou entrando em choque contra pessoas ligadas ao grupo dominante da poderosa família Pessoa de Queiroz. Fora então transferido, em maio de 1922, para o 6º Batalhão de Caçadores, sediado em Goiás. Inconformado, na passagem pelo Rio de Janeiro, concede uma entrevista ao jornal “Correio da Manhã” e por isso ficou preso por 30 dias na Fortaleza de Santa Cruz.

Dois anos mais tarde, já promovido a 1º tenente, Cleto Campelo retornou a Recife e ao 21º batalhão de Caçadores, mas estava marcado como revolucionário. É deste período à foto acima, onde vemos a oficialidade do 21º Batalhão de Caçadores. Cleto Campelo é o segundo oficial, em pé, posicionado da direita para a esquerda. Repare a sua face tranquila, confiante e como se coloca encarando a objetiva. Outro detalhe que chama a atenção, não sei se proposital, é como os outros oficiais se encontram afastados deste militar, posicionando-se a certa distância, como evitando uma possível ideia de associação por parte de algum observador.

Sempre solidário aos que lutava contra o governo, ele acompanhava os avanços da coluna revoltosa pelo interior do Brasil e procurou aliciar alguns camaradas nos quartéis da capital para se unir aos revoltosos.

Nada conseguiu e desertou. Preferiu destruir a carreira a sacrificar as aspirações. Partiu para a Argentina para se unir a militares brasileiros no exílio, receber ordens, montar planos, conseguir apoio e conspirar novamente em Pernambuco. Voltou clandestinamente no início de 1926, em aventurosa viagem, onde até foguista se tornou em navio costeiro. Tinha ordens de preparar o levante que apoiasse e servisse de suporte à coluna rebelada, quando esta cruzasse o sertão pernambucano.

A Descoberta do Plano e o Início da Revolta

Após ter atravessado o Rio Grande do Norte, invadindo as cidades de São Miguel e Luis Gomes e perpetrar um verdadeiro massacre na cidade de Piancó, na Paraíba, a Coluna Prestes chegou a Pernambuco no dia 2 de fevereiro de 1926, entrando pelo Vale do Pajeú.

No Recife, entre os mais destacados participantes da rebelião de Cleto Campelo estava Anfilóquio Cavalcante. Este mantinha um arsenal na Rua Alecrim, nº 105, o que levou pânico a sua família, tendo o seu cunhado, o alfaiate José Pedro da Silva denunciado as autoridades à existência do armamento. Alguns conspiradores foram presos e o levante no Recife fracassou.

Avisado do fato Cleto Campelo não desistiu do plano e conseguiu fugir para Jaboatão. Às 4 da manhã do dia 17 de fevereiro, em pleno Carnaval, deu início ao seu plano junto com 25 companheiros. O grupo tomou de assalto a cadeia pública, libertaram os prisioneiros, prenderam os policiais e cortaram as linhas telefônicas para o Recife. Após isso requisitaram o dinheiro das coletorias de rendas e dos correios, saquearam algumas casas comerciais e tomaram as oficinas da empresa ferroviária Great-Western. Nesta empresa apossaram-se da munição que existia na estação ferroviária, tomaram o trem de passageiros e descarrilaram os vagões que não precisavam utilizar. Alguns operários da Great-Western decidiram integrar o movimento.

O Caminho para o Agreste.

Marcha de um trem em direção ao agreste pernambucano.

Seguiu viagem pela então Ferrovia Central, onde iniciaram a tentativa de alcançar o Rio São Francisco, na região da cidade de Floresta, ainda em Pernambuco, onde se encontrava uma parte da Coluna comandada pelo tenente João Alberto Lins de Barros.

Durante o trajeto, os revoltosos realizaram paradas sucessivas em Moreno, Tapera, Vitória de Santo Antão e São José dos Pombos.

Em Vitória de Santo Antão, o grupo parou a composição na estação da fazenda Mufumbo, próximo à área urbana, para onde seguiram a pé. Nesta cidade tornaram a destruir o telégrafo, a soltarem os presos, a prenderem os policiais e tomar suas armas.  Almoçaram no Hotel Fortunato e seguiram em frente, procurando antes destruir a linha férrea na ponte sobre o Rio Tapacurá. O grupo então já passava de 80 homens, todos com lenços vermelhos ao pescoço.

Muito chamou a atenção das testemunhas o trato cordial do comandante com a atônita população, sempre passando “recibos revolucionários” de tudo que requisitava e que não fosse do governo. A sua liderança junto aos seus homens crescia a cada momento.

Ao chegarem próximos ao 1º túnel da encosta da Serra da Borborema, os revoltosos dinamitaram um pontilhão em uma curva e danificaram o túnel nº 7, cortando a linha férrea.

A Luta em Gravatá e a Morte de Cleto Campelo

Por volta das 16 horas se aproximaram de Gravatá, onde o comandante sabia que haveria resistência. Afinal, depois de 14 horas e meia do ataque a Jaboatão, o governo já tivera tempo de organizar uma tropa entrincheirada na estação ferroviária. Cleto Campelo ordenou ao maquinista Saturnino que diminuísse a marcha da máquina e entraram lentamente na cidade, que aparentava estar desabitada.  A composição seguia lenta entre as ruas e praças da cidade,  parou a trezentos metros da estação, próximo a cadeia pública e o tiroteio começou.

Antiga Cadeia Pública de Gravatá, atualmente uma biblioteca e museu.

Segundo historiadores pernambucanos, Cleto Campelo arremeteu a frente do grupo contra o edifício da cadeia, cabeça erguida, de revólver na mão, acompanhado de perto do engraxate Ezequiel, neste local jogou uma dinamite, que produziu aterradora explosão. Ao sair do prédio, segundo alguns, inadvertidamente o foguista da composição, Artur Cipriano, abriu fogo contra Cleto Campelo e Ezequiel e ambos foram mortos.

Foto do cadáver de Cleto Campelo

Segundo outros foram tiros efetuados da trincheira legalista mataram os dois revoltosos. O certo é que esta derrota trouxe grande  desgosto para os revoltosos, o pânico tomou conta da tropa e começou a desistência de vários componentes. O agora comandante tenente Valdemar Paula de Lima dominou a situação e convenceu parte do grupo a voltar ao trem e seguir em frente. Valdemar Lima era pernambucano de Recife, fora sargento da marinha e era conhecido como “Tenente Limão”.

Uma das muitas fotos do cadáver do Tenente Cleto, publicada pelos jornais recifenses. Certamente com isso o governo federal desejava mostrar aos militares rebeldes que a mesma situação poderia ocorrer com os participantes de novas rebeliões militares tornassem a acontecer.

Três quilômetros depois de Gravatá, no quilometro 91, no lugar conhecido como “Curva da Caatinga Vermelha”, as margens do Rio Ipojuca, o militar revolucionário ordenou ao maquinista desligar a locomotiva da composição e deixasse a máquina seguir sozinha em direção a cidade de Bezerros. No povoado denominado Gonçalves Ferreira, as tropas do 20º Batalhão de Caçadores assistiram o descarrilamento desta maquina solitária.

Movimentação popular diante da Cadeia Pública de Gravatá, após os combates entre legalistas e a tropa rebelada de Cleto Campelo.

Valdemar de Lima, Comandante

Após deixar o trem, aproveitando a noite que surgia, outros rebeldes fugiram, ficando Valdemar com apenas 30 companheiros. Sem condições de seguir adiante, o grupo desistiu da intenção de chegar ao Rio São Francisco, eles se apossam de cavalos e fogem rumo norte, mata adentro, para o município de Vertentes, de onde pretendiam fugir para o vizinho Estado da Paraíba.

Valdemar sabia das dificuldades que enfrentava para sobreviver, pois estava cercado pela polícia com ordens para matar e na Paraíba pretendia dispensar a tropa.

Antiga estação ferroviária de Gravatá.

Segundo alguns historiadores, Valdemar tinha um contato junto ao fazendeiro Pessoa Monteiro, para onde seguiu em direção a fazenda deste. Lá chegando, ao amanhecer do dia 19 de fevereiro, o grupo teve abrigo e comida. Pessoa Monteiro ofereceu os serviços do seu morador, Manuel Botelho, para servir de guia até a Paraíba. Mais tranquilo Valdemar relaxou na segurança e colocou o grupo para descansar. Só seguiriam viagem na manhã do dia 22

O Combate Final

O fim definitivo do grupo revoltoso de Cleto Campelo, segundo uma teoria existente, teria ocorrido porque o morador Manoel Botelho teria informado ao coronel Francisco Heráclio do Rego, chefe político da cidade pernambucana de Limoeiro, da presença dos revoltosos. Para não seguir com o grupo, Botelho teria alegado um problema de saúde e colocando outro morador, o senhor Amaro Jerônimo, conhecido como “Pai-né”, como novo guia.

O chefe político avisa o sargento legalista José Joaquim, que acompanhado de um grupo de soldados, seguiu margeando o Rio Capibaribe, até o ponto de travessia da fazenda Pitombeira, bem perto do povoado de Topada, pertencente na época ao município de Vertentes e atualmente ao município de Frei Miguelinho. O sargento José Joaquim e seus comandados, estrategicamente montaram uma emboscada por trás de algumas pedras graníticas, ficando muito bem protegidos, com as armas à espera da tropa revoltosa.

Fim do grupo de Cleto Campelo, com a morte de Valdemar Lima – Fonte – Arquivo Público do Estado de Pernambuco.

Os revoltosos, durante o trajeto para a Paraíba, estavam tranquilos e aparentemente não tomaram as precauções devidas. Na hora em que iam atravessando o Rio Capibaribe, receberam muitos tiros vindos dos esconderijos dos policiais. O tenente Valdemar Lima, sem ver seus inimigos, foi o primeiro que caiu do cavalo, morrendo imediatamente. Dois soldados também caíram sem vida, um outro soldado recebeu ferimentos leves e o senhor Amaro Jerônimo foi atingido, ficando esses dois últimos sem condições de correr. O resto da tropa, sem comando, desertou, fugindo pelo mato adentro.

O soldado ferido foi fuzilado, já o senhor Amaro Jerônimo, depois de provada a sua inocência, foi levado para Vertentes e se recuperou. Os quatro cadáveres foram expostos como troféus na calçada da capela de Topada e em seguida levados com desprezo para serem sepultados no cemitério de Vertentes, sendo os três soldados numa cova só e o tenente em outro lugar, junto à parede do cemitério.

Cadeia Pública de Gravatá em 1917.

Problemas Entre os Legalistas

Após algumas horas da triste ocorrência, chegou a Topada o tenente da polícia pernambucana de nome Zumba, tendo sob seu comando quase 40 soldados e foram ao encontro do sargento José Joaquim e seus quase 20 subalternos. O tenente Zumba foi chegando e se arvorando de herói e o sargento José Joaquim não aceitou aquilo.

Mapa da região de Pernambuco onde se desenrolou o conflito.

A discussão aumentou ainda mais quando o tenente Zumba exigiu do subordinado uma bolsa que continha o dinheiro das coletorias e dos correios. Homem valente e obediente, o sargento José Joaquim entregou a referida bolsa com um montante avaliado em 32 contos de réis, uma fortuna para época. O tenente Zumba duvidou que o valor total estava no bisaco e por muito pouco o tempo não fechou entre os policiais. Para maior irritação do sargento José Joaquim, o tenente tomou o revólver de Valdemar Lima que o sargento desejava guardar como troféu. Na troca de ofensas o sargento acusou o tenente de covarde, comentando que o mesmo, comandando quase 40 soldados acampados em Vertentes e tendo conhecimento da aproximação dos revoltosos, permitiu que o sargento chegasse primeiro para evitar o confronto com os revolucionários. Com o fim da altercação, os militares foram embora e seriam recebidos como heróis em Recife e os mortos foram considerados traidores.

Consequências

Os companheiros sobreviventes do grupo de Valdemar, ajudados por fazendeiros amigos de Pessoa Monteiro, foram ajudados ou obrigaram moradores da região a lhe socorrerem às escondidas. Muitos trocaram as fardas, coturnos, armas e munição do exército por roupas de camponeses, alpercatas e caíram “no oco do mundo”.

Quanto ao pessoal da Coluna revoltosa, que entraria para a história como a ”Coluna Prestes”, ao receberem a notícia do fracasso dos companheiros do Recife, atravessaram o Rio São Francisco com destino ao Sul.

Jornal recifense de 1930, mostrando a mudança em relação a figura de Cleto Campelo, então um herói da Revolução de 1930.

Quatro anos depois, vitoriosa a Revolução de 1930, o Exército veio buscar os restos mortais de Valdemar Lima e dos três soldados no cemitério de Vertentes. Foram prestadas honras militares e foi mudando o nome do povoado de Topada para “Capitão Valdemar Lima”. Cleto Campelo e Valdemar Lima ainda seriam homenageados com seus nomes estampados em ruas e praças em Recife e outras cidades. Contudo, sua saga de idealismo e bravura, seria quase totalmente esquecida.

Este não foi o único combate histórico a ocorrer nas proximidades do antigo povoado de Topada. Ainda em 1914, na fazenda da Laje, próxima a povoação de Olho D’água da Onça, ocorreu o tiroteio entre a volante do então tenente Teófanes Ferraz e o bando de Antônio Silvino, em 27 de novembro de 1914, onde morreria neste combate o cangaceiro Joaquim Moura, conhecido como “Serra Branca” e o famoso chefe cangaceiro seria ferido e capturado, sendo libertado apenas em fevereiro de 1937.

Fontes bibliográfica;

– Aragão, José, in “História de Vitória de Santo Antão”, 2º Volume (1843 – 1982). Biblioteca Pernambucana de História Municipal – CEHM/FIDEM, Recife, 1982.

– Ferraz Filho, Geraldo de Sá Torres, in “Pernambuco no tempo do cangaço (Antônio Silvino – Sinhô Pereira – Virgulino Ferreira ”Lampião”) Theophones Ferraz de Barros, um bravo militar, 1926 – 1933”. 2º Volume , Coleção Tempo Municipal, número 22, Centro de Estudos de História Municipal – CEHM/FIDEM, Recife, 2003.

– Joffily, José, in “Revolta e Revolução – Cinqüenta anos depois”. Editora Paz e terra, Rio de Janeiro, 1979.

– Lins, Alberto Frederico, in “História de Gravatá”. INOJOSA. Recife, 1993.

– Jornal “Vida Rural”, novembro de 2000, autor Severino de Moura.

– Jornal “A Republica”, várias edições de fevereiro e março de 1926. Coleção do APE-RN / Arquivo Público do Rio Grande do Norte.

JÂNIO QUADROS NA PRESIDÊNCIA DO BRASIL – DA ESPERANÇA EM UM SALVADOR DA PÁTRIA, ATÉ A RENÚNCIA NO DIA DO SOLDADO

Jânio da Silva Quadros nasceu no dia 25 de janeiro de 1917, na cidade de Campo Grande, no então estado de Mato Grosso e atual capital do Mato Grosso do Sul. Era filho de Gabriel Quadros e de Leonor da Silva Quadros e foi criado em Curitiba, no Paraná, onde estudou em colégios estaduais. Tempos depois sua família mudou para São Paulo, onde Jânio estudou no Colégio Marista Arquidiocesano e em 1935 ingressou na prestigiada Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, ou Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, uma academia que formou nada menos que treze presidentes da república brasileira.

Após a formatura Jânio Quadros montou um pequeno escritório de advocacia no centro da capital em 1943 e depois começou a lecionar em dois colégios. Foi também professor de direito processual penal na Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Jânio da Silva Quadros.

Político de Ascenção Meteórica

Em 7 de maio de 1947, por determinação geral do então Presidente da República Eurico Gaspar Dutra, ocorreu a cassação do registro do Partido Comunista Brasileiro – PCB. Por isso muitas cadeiras na Câmara Municipal de São Paulo ficaram vagas. Jânio então teria sido um dos suplentes chamados a preencher esses lugares em 1948. Essa versão é contestada por alguns, que afirmam ter sido Jânio Quadros um dos três vereadores efetivamente eleitos pelo PDC.

Independente dessa questão, o certo foi que a ação de Jânio como vereador foi decisivo para projetá-lo na vida política paulista. Ele ficou conhecido como o vereador de todas as casas legislativas do país no período a apresentar a maior quantidade de proposições e projetos de lei, além de discursos. Jânio foi igualmente considerado o vereador que assinou a grande maioria das propostas e projetos considerados favoráveis à classe trabalhadora.

Quadro de votação na época da campanha de Jânio Quadros para preidente.

Com esse currículo logo foi consagrado como o deputado estadual mais votado em São Paulo, com mandato a ser exercido entre 1951 e 1953. Jânio percorreu todo o interior do estado de São Paulo, sempre insistindo na bandeira da moralização do serviço público e pedindo sugestões ao povo para resolver os problemas de cada região.

No início de 1953 a capital paulista assistiu à primeira campanha eleitoral para a prefeitura em 23 anos, desde a Revolução de 1930. Jânio foi lançado candidato do PDC em coligação com o Partido Socialista Brasileiro – PSB, vencendo por larga margem as principais máquinas partidárias locais. Essa vitória foi tida como uma grande façanha, pois Jânio enfrentou bloco formado por oito partidos políticos e um adversário, o professor Francisco Antônio Cardoso, que tinha uma campanha milionária, com uma enxurrada de material de propaganda e com apoio ostensivo das máquinas municipal e estadual. 

Assumiu a prefeitura de São Paulo aos 36 anos e um dos seus primeiros atos foi promover demissões em massa de funcionários, iniciando uma cruzada moralizadora que marcou sua gestão.

De Governador a “Salvador da Pátria”

Ademar de Barros, de chapéu.

Em 1954 Jânio Quadros desincompatibilizou-se do cargo de prefeito para candidatar-se a governador do estado de São Paulo e filiou-se ao Partido Trabalhista Nacional – PTN. Ganhou por uma pequena margem de votos, de cerca de 1%, do grande rival Ademar Pereira de Barros, um político popularmente conhecido pelo bordão “Rouba, mas faz”.

Jânio foi empossado governador em 31 de janeiro de 1955 e durante o seu mandato procurou executar ações que transmitisse uma imagem de moralização da administração pública e de combate à corrupção, aliadas a um empreendedorismo que buscava destaque e projeção.

Uma prática comum do governador Jânio era a das visitas surpresa às repartições públicas, a fim de verificar a qualidade dos serviços oferecidos à população. Outra foi a criação de novos serviços e órgãos estaduais, ou a construção de grandes obras.

Desde o início do seu governo Jânio procurou ampliar seu espaço político no nível nacional, estabelecendo positivos contatos com o potiguar João Café Filho, então Presidente da República. A aproximação entre ambos criou condições mais propícias para o governo paulista realizar um trabalho de recuperação financeira do estado. Tudo isso angariou grande popularidade e consagrou Jânio como um líder entre os paulistas.

Com a chegada do mineiro Juscelino Kubitschek de Oliveira, o JK,  a Presidência da República, houve um foco muito intenso na criação de uma política desenvolvimentista, que foi realizada através da aplicação do chamado “Plano de Metas” e provocou um grande crescimento em diversas áreas e setores no país. São Paulo foi um dos estados mais beneficiados com a implantação de novas indústrias e a concentração de crédito e essa expansão econômica se refletiu no aumento da receita tributária do estado e na criação de condições favoráveis à diminuição do déficit financeiro herdado dos governos anteriores. Apesar de todas as vantagens que São Paulo usufruiu no governo JK, matreiramente Jânio permaneceu alinhado com a oposição em relação a importantes aspectos da política econômica vigente. E isso foi muito útil ao governador paulista, pois apesar do impulso desenvolvimentista, o governo JK gerou um panorama de forte inflação e crise econômica.

Diante do difícil quadro nacional, o nome de Jânio Quadros começou a surgir como alguém que poderia solucionar os problemas e colocar o Brasil em um bom rumo. Um novo “Salvador da Pátria”.

Jânio em campanha.

No dia 20 de abril de 1959, um grupo reuniu-se na Associação Brasileira de Imprensa – ABI no Rio de Janeiro e fundou o Movimento Popular Jânio Quadros – MPJQ, lançando nessa ocasião a candidatura do ex-governador de São Paulo à presidência da República.

Nove Meses de Campanha: A Vassoura Janista na Caça ao Voto.

O homem do “tostão contra o milhão” chegava ao topo da escalada que o conduziria ao Palácio da Alvorada.

Não que fosse um caminho fácil. O líder que granjeara sua popularidade junto às massas operárias de São Paulo, que quando prefeito da capital paulista chegou mesmo a apoiar a greve de 1953 e, como governador, não adotou atitudes repressivas contra os trabalhadores, via-se agora na contingência de conquistar a simpatia de todos os brasileiros — ricos, pobres, remediados, urbanos, rurais, ignorantes ou letrados.

As vassouras de Jânio em suas campanhas.

O povo delirou quando Jânio deixou bem claro a todos os partidos que o apoiavam a sua posição extremamente personalista e autoritária, alheia as agremiações partidárias, as quais ele ignorava até o desprezo. Conter a inflação e governar acima dos partidos era seu propósito. Sobretudo porque, percebendo a fragilidade das plataformas partidárias do momento, ele podia agir dessa maneira.

O “justiceiro” prometeu um governo de austeridade, onde aglutinou setores militares e da classe média (com promessas de “limpeza” na administração e estabilização da economia), das elites empresariais (com afirmação de fé na livre iniciativa) e dos trabalhadores (com promessas de uma ordem social mais justa). Descontentes com a carestia, a maioria dos brasileiros preferiu ir beber nas águas populistas de Jânio Quadros. 

Em 30 de setembro de 1960 era encerrada a tumultuada campanha eleitoral de Jânio Quadros à presidência da República. Em meio a cartazes, animação de bandas de música, fogos de artifício, papéis picados, vassouras, além da marchinha antológica que tinha esses versos – “Varre, varre, varre, varre, vassourinha./ Varre, varre a bandalheira./ Que o povo já está cansado/ De sofrer desta maneira./ Jânio Quadros é a esperança deste povo abandonado”.

Marechal Teixeira Lott, derrotado por Jânio Quadros.

Nas eleições de 3 de outubro de 1960 quase seis milhões de eleitores fazem Jânio o 22º Presidente do Brasil, sendo até então a maior votação da história no país. O marechal Henrique Batista Duffles Teixeira Lott, o segundo colocado, foi vencido de forma arrasadora com mais de dois milhões de votos de vantagem.

Mas nem tudo foi positivo para Jânio. Como naquela época votava-se separadamente para presidente e vice, apesar de todo prestígio Jânio não conseguiu eleger Milton Soares Campos, o candidato a vice-presidente de sua chapa. O escolhido foi o gaúcho João Belchior Marques Goulart, do Partido Trabalhista Brasileiro – PTB.

Governo de Altos e Baixos

Após a vitória sem precedentes, o presidente eleito partiu para Europa, em uma viagem de “concentração e retiro”. Somente três meses após as eleições, em 31 de janeiro de 1961, Jânio Quadros e João Goulart foram empossados. Contrariando a expectativa geral, o discurso de posse do presidente foi discreto e gentil, chegando a tecer elogios ao governo anterior. Porém, na noite desse mesmo dia, Jânio atacou violentamente o governo Juscelino Kubitschek em cadeia nacional de rádio, atribuindo ao ex-presidente a prática de nepotismo, ineficiência administrativa, responsabilidade pelos altos índices de inflação e pela dívida externa de dois bilhões de dólares.

Não demorou e o novo presidente decepcionou pela primeira vez seus correligionários, ao desfazer a expectativa dos que previam que ele realizasse um governo de composição ou união nacional, ou que tentasse obter, através da nomeação ministerial, a maioria parlamentar de que não dispunha.

Jânio compôs seu Ministério contemplando uma mistura de elementos da União Democrática Nacional – UDN e representantes de partidos menos expressivos. Surpreendeu a todos ao nomear cinco ministros do Norte e Nordeste e disse que isso foi feito para honrar compromissos de sua campanha. O Ministério da Fazenda foi confiado a Clemente Mariani Bittencourt, líder da UDN baiana, que fora presidente do Banco do Brasil em 1954 e 55. Afonso Arinos de Melo Franco, da UDN mineira ficou com a pasta das Relações Exteriores. O Ministério era formado ainda por Clóvis Pestana, do Rio de Janeiro (Viação e Obras Públicas), Oscar Pedroso d’Horta, do Ceará (Justiça e Negócios Interiores); Romero Cabral da Costa, de Pernambuco (Agricultura); Brígido Fernandes Tinoco, do Rio de Janeiro (Educação e Cultura); Francisco Carlos de Castro Neves, de São Paulo (Trabalho); Edward Cattete Pinheiro, do Pará (Saúde); João Agripino Vasconcelos Maia Filho, da Paraíba (Minas e Energia) e Artur da Silva Bernardes Filho, de Minas Gerais (Indústria e Comércio). Já os ministérios militares foram preenchidos pelo marechal Odílio Denys (Ministério da Guerra, que teria sua denominação alterada durante o governo do general Costa e Silva  para Ministério do Exército), o brigadeiro Gabriel Grüm Moss (Aeronáutica) e o vice-almirante Sílvio de Azevedo Heck (Marinha), os três do Rio de Janeiro.

Reunião ministerial do governo Jânio Quadros.

No início do seu governo Jânio tomou uma série de pequenas medidas que ficaram famosas, destinadas a criar uma imagem de inovação dos costumes e saneamento moral. Também investiu fortemente contra alguns direitos e regalias do funcionalismo público. Reduziu as vantagens até então asseguradas ao pessoal militar ou do Ministério da Fazenda em missão no exterior e extinguiu os cargos de adidos aeronáuticos junto às representações diplomáticas brasileiras.

Tal como aconteceu quando era governador paulista, Jânio Quadros pretendia prescindir da maioria parlamentar, mas duas reações foram imediatas: a dos que o acusavam de veleidades ditatoriais e desprezo pelo Poder Legislativo, e a dos setores nacionalistas, que viam na composição do novo governo uma prova de submissão ao FMI – Fundo Monetário Internacional, pela nomeação do banqueiro Clemente Mariani para o Ministério da Fazenda.

Seguindo um amplo programa anti-inflacionário, em 13 de março de 1961 o Presidente Jânio decretou uma reforma cambial, cuja consequência imediata foi a desvalorização do cruzeiro (a moeda brasileira da época) em 100% e o corte dos subsídios na importação de trigo e gasolina. Disso decorreu um galopante aumento do custo de vida, coincidindo com o congelamento dos salários e restrição ao crédito, o que gerou imediatos protestos sindicais.

Embora contasse com o apoio tácito do Congresso Nacional para sua política de austeridade, Jânio encontrou sérias resistências, mesmo entre seus correligionários, em relação a outros projetos em andamento, como o da reforma da lei antitruste, o da remessa de lucros, o do imposto de renda e o da reforma bancária.

Segundo o seu ministro das Minas e Energia, o paraibano João Agripino, “Jânio atraía contra seu governo todos os grupos econômicos deste país e ao mesmo tempo impunha aos humildes sacrifícios quase insuportáveis”.

Na tentativa de agradar o FMI pela austeridade, a classe média pela sindicância moralizadora dos escândalos financeiros e as camadas populares pelas reformas, Jânio conseguiu, em poucos meses, multiplicar as oposições.

Os Famosos “Bilhetinhos”

Jânio Quadros na capa da revista americana Times.

Alpargatas, blusões folgados, os famosos slacks com jaquetas tipo safari (também conhecidos como pijânios) — era a imagem tropical de um novo estilo de presidente.

Parte dessa performance foram os não menos famosos “bilhetinhos” que Jânio enviava diariamente a funcionários dos mais diversos escalões, como parte de sua estratégia moralizadora da administração pública.

Esperados muitas vezes com humor pela imprensa, esses pequenos recados causavam frequentemente irritação e até desespero nos que os recebiam. Prova é que, dos 1.534 bilhetes ditados durante a presidência, apenas onze foram de elogios ou homenagens.

O ministro da Fazenda, Clemente Mariani, por exemplo, foi vítima de cerca de 600 deles, o que contribuiu sensivelmente para o desgaste de suas relações com o presidente. Certa feita, o Ministério da Agricultura foi contemplado com um bilhetinho que dizia literalmente: “O objetivo da próxima safra de amendoim deve ser o do atendimento do mercado interno, com largas sobras para exportação, dobrando-se, pelo menos, essa cultura em relação à safra de 1959/60”.

Jânio Quadros e Carlos Lacerda.

Na prática, essas pequenas notas funcionavam, sobretudo como decretos oficiosos, transformando em “lei” várias das pequenas decisões quase legendárias de Jânio.

O funcionalismo público foi o alvo predileto dos “bilhetinhos”: sindicâncias, horário de dois turnos com aumento da jornada de trabalho, cortes de gastos de representação e até ordem para à devolução de carros luxuosos. Muitas vezes justos, a maioria desses bilhetes tratava de assuntos que, sem dúvida, não competiam ao presidente da República.

Jânio também proibiu o biquíni na transmissão televisada dos concursos de miss, acabou com as corridas de cavalo em dias úteis, com as rinhas de galo, com o lança-perfume em bailes de carnaval e regulamentou o jogo de carteado. Por mais hilárias que possam ter parecido essas medidas na ocasião, 60 anos depois todas essas leis editadas por Jânio ainda continuam em vigor.

Política Externa Radical

Enquanto aplicava uma política interna de austeridade, submissa às orientações do Fundo Monetário Internacional, Jânio Quadros radicalizava progressivamente na chamada Política Externa Independente – PEI.

Essa diretriz introduziu grandes mudanças na política internacional do Brasil, transformando as bases da sua ação diplomática e representou um ponto de inflexão na história contemporânea da política internacional brasileira, que passou a procurar estabelecer relações comerciais e diplomáticas com todas as nações do mundo que manifestassem interesse num intercâmbio pacífico. Essa modalidade de fazer política externa foi firmemente conduzida pelo chanceler Afonso Arinos de Melo Franco.

Jânio levou adiante seu projeto de estabelecer relações com as recém-independentes nações africanas e do bloco socialista. Nomeou Raimundo Sousa Dantas embaixador do Brasil em Gana, sendo este o primeiro embaixador negro brasileiro. Por meio de um sem-número de bilhetes recomendava o reatamento diplomático com os países do Leste, alegando objetivos econômicos. Pronunciou-se contrário à tradição brasileira de apoio às potências colonialistas, sobretudo na África portuguesa, e favorável à admissão da China nas Nações Unidas. Em maio de 1961 recebeu no palácio do Planalto a primeira missão comercial da República Popular da China enviada ao Brasil.

O cosmonauta soviético Yuri Gagarin (a direita), o primeiro homem a ir ao espaço, recebe a Ordem do Mérito Aeronáutico de Jânio Quadros e do brigadeiro Gabriel Grüm Moss, Ministro da Aeronáutica. 

O mesmo fato se repetiu em julho com a missão soviética de boa vontade, que pretendia incrementar o intercâmbio comercial e cultural entre o Brasil e a União Soviética. As primeiras providências para o reatamento diplomático entre os dois países começaram a ser tomadas em 25 de julho, mas o processo só seria concluído durante o governo Goulart. Antes disso, em julho de 1961, Jânio Quadros condecorou com a Ordem do Mérito Aeronáutico o cosmonauta soviético Yuri Alexeievitch Gagarin, o primeiro homem a ir ao espaço e que visitava o Brasil. 

Essa radical mudança na política exterior do Brasil não foi bem vista pelos Estados Unidos, nem por vários grupos econômicos que se beneficiavam da política anterior e nem pela direita nacional, em especial por alguns políticos da UDN, que apoiaram Jânio Quadros na eleição.

Uma Medalha para o Che

Entre os dias 5 e 17 de agosto de 1961 ocorreu em Punta del Este, Uruguai, a reunião do Conselho Interamericano Econômico e Social da Organização dos Estados Americanos – OEA. Nela estiveram reunidos ministros e dirigentes das economias dos países latino-americanos, incluindo Ernesto Rafael Guevara de la Serna, mais conhecido como Che Guevara, revolucionário marxista e então ministro da Economia de Cuba. A finalidade desta reunião foi discutir o então novo programa da política externa dos Estados Unidos para a América Latina, a Aliança para o Progresso, cujo intuito era desenvolver economicamente e socialmente os países latino-americanos.

Ernesto Che Guevara sendo condecorado por Jânio Quadros.

Ao fim da reunião Che Guevara viajou para a Argentina e na sequência para o Brasil. Jânio aproveitou a passagem de Guevara para pedir, com êxito, a libertação de 20 padres espanhóis presos em Cuba, que estavam condenados ao fuzilamento, exilando-os na Espanha. Aproveitaram e discutiram as possibilidades de intercâmbio comercial por meio dos países do Leste europeu. Finalmente, em 18 de agosto o presidente condecorou o ministro cubano com a Grã Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, o que provocou a indignação dos setores civis e militares mais conservadores.

As possíveis consequências desse ato foram mal calculadas por Jânio. Sua repercussão foi a pior possível e os problemas já começaram na véspera, com a insubordinação da oficialidade do Batalhão de Guarda que, amotinada, se recusava a acatar as ordens de formar as tropas defronte ao Palácio do Planalto, para a execução dos hinos nacionais dos dois países e a revista dos militares. Só a poucas horas da cerimônia, já na manhã do dia 19, conseguiram os oficiais superiores convencer os comandantes da guarda a se enquadrarem e participarem da cerimônia.

O Fim no Dia do Soldado

Uma verdadeira cruzada passou a ser desencadeada contra a Política Externa Independente de Jânio. Para seus críticos essa política nada mais era do que declarações e ações com fins publicitários e vista por muitos como uma tentativa de atenuar a tensão provocada pelas decepções com sua política interna. O certo é que a condecoração de Che Guevara foi o bastante para o jornalista Carlos Lacerda, então governador do Rio de Janeiro, da UDN, romper publicamente com Jânio Quadros. O presidente perdia assim a sua frágil base parlamentar no Congresso.

Em várias oportunidades, o ministro da Guerra, Odílio Denys, também chegou a adverti-lo sobre a insatisfação da alta hierarquia militar. No plano internacional, a situação não melhorou para o governo.

Jânio parecia ter conseguido com suas ações desagradar a gregos e troianos.

Fotograma da película que mostra a cerimônia do Dia do Soldado em 25 de agosto de 1961, o último ato que Jânio Quadros participou como presidente do Brasil.

Em 25 de agosto de 1961, Dia do Soldado, o presidente Jânio Quadros apresentou à nação sua carta de renúncia. O seu último ato presidencial foi um terrível equívoco, uma tentativa de golpe mal arquitetada. O objetivo de Jânio Quadros era criar um clima de comoção nacional de tal modo que os ministros militares, o Congresso e a população pedissem para que ele ficasse. Seu objetivo era negociar sua permanência na presidência da República com poderes excepcionais.

O Congresso, segundo a Constituição, não tinha poderes para negociar uma renúncia, que era um ato unilateral do presidente. A única obrigação do Congresso era investir os poderes ao vice.

Jânio Quadros, ao receber a notícia de que sua renúncia foi acolhida, chorou copiosamente. Seu mandato presidencial de 206 dias (quase sete meses) foi um dos mais breves na história da presidência do país.

A população, frustrada com as medidas econômicas rígidas e com os decretos moralistas, não reagiu como o Presidente esperava. Os ministros militares se limitaram a publicar um manifesto atestando que o vice-presidente, João Goulart, que se encontrava em visita oficial à China comunista, não deveria assumir a Presidência da República por representar um perigo aos quadros democráticos e constitucionais, pois Jango seria apoiado por elementos do clandestino Partido Comunista.

O país estava à beira de uma grave crise por conta da obsessão anticomunista de parcela significativa das Forças Armadas brasileiras. O conflito, entretanto, foi evitado graças a uma solução política negociada: a criação da Emenda Parlamentarista.

O sistema parlamentarista era um paliativo, pois garantia a posse de Goulart, ao mesmo tempo em que retirava os poderes políticos do Executivo federal e o transmitia para o Congresso Nacional, que indicaria um Primeiro-Ministro. Desta forma, Goulart poderia voltar ao Brasil e tomar posse. Foi escolhido como Primeiro-Ministro o político mineiro Tancredo de Almeida Neves. Para Juscelino Kubitschek, que na época era senador, declarou que “a Emenda Parlamentarista foi aprovada por pressão militar”.

O sistema parlamentar, entretanto, teve vida curta. Em 6 de janeiro de 1963, um plebiscito aprovou o retorno ao regime presidencial e, segundo os próprios militares, aquilo foi o início da contagem regressiva para o golpe contra Jango.

O resultado está estampado na manchete abaixo…

TONHECA DANTAS NA VISÃO DO DESEMBARGADOR SILVINO BEZERRA

TONHECA DANTAS EM 1922 – ATENÇÃO – A MAIORIA DAS FOTOS DESSE TEXTO TRAZEM IMAGENS DA REGIÃO E DAS PESSOAS DA CIDADE DE CARNAÚBA DOS DANTAS, RIO GRANDE DO NORTE, TERRA NATAL DO COMPOSITOR.

A figura do consagrado compositor potiguar Antônio Pedro Dantas, o Tonheca Dantas, foi lembrada em 31 de julho de 1965, através da leitura de um interessante texto produzido pelo Desembargador Silvino Bezerra Neto. Material foi apresentado pelo autor no salão nobre do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN, na sessão comemorativa do 95º aniversário do nascimento de Tonheca Dantas. Onze anos depois esse material foi publicado na Revista IHGRN, nos volumes LXVIII/1976 e LXIX/1977, além de ter sido reproduzido no Diário de Natal, edições de 30 de junho de 1977 (página 14) e 3 de julho de 1977 (página 15), que abaixo transcrevemos.

Renomado catedrático da Universidade do Brasil, em substancioso livro que folheei, certa vez, enumera como elementos fundamentais e secundários da música, o ritmo, a melodia, a harmonia, o timbre e até (estes como elementos estranhos) a palavra e o gesto.

Assim, bem é de se compreender que uma apreciação de um trabalho musical só poderá ser feita com perfeição por quem conhece a sublime arte.

Se, como ainda li no livro do catedrático, o ritmo está para a música como a “Simetria está para a Arquitetura”, vendo-se que no exame de um só aqueles elementos são precisos conhecimento e argúcia, claro é que o leigo não fará senão julgamento impreciso, deficiente. Daí, o acerto do jovem e dinâmico presidente deste Instituto, o Dr. Enélio Lima Petrovich, convidando o nosso consórcio Gumercindo Saraiva, professor de música e conhecedor da matéria para dizer nesta seção o valor das composições musicais de ANTÔNIO PEDRO DANTAS – TONHECA – conterrâneo quer hoje a memória cultuamos.

A CIDADE DE CARNAÚBA DOS DANTAS NA DÉCADA DE 1970, VISTA DO ALTO DO MONTE DO GALO, LOCAL DE PEREGRINAÇÃO E FÉ DO POVO DA REGIÃO.

A publicística do Estado já ostenta várias publicações do nosso ilustre consórcio que justificam sua acertada escolha.

Quero crer, porém, que não é demais que ouse eu adicionar à homenagem que se realiza algumas palavras que vou proferir, também, apenas para registro de ligeiros traços biográficos e episódios da vida do homenageado, a quem conheci na meninice.

Volto-me saudoso, nessa oportunidade e com este objetivo, para a fase feliz da minha infância em Acari.

Cheguei em 1893, de Caicó, com 7 anos, entre o sítio Ingá e a cidade de Acari, vivi com meus pais Manoel Augusto Bezerra de Araújo, ex-professor de latim e francês da antiga cidade do Príncipe, e sua esposa Cândida Olindina de Medeiros.

FOTO DA INAUGURAÇÃO DO MONTE DO GALO, NA DÉCADA DE 1920.

Entre aquele e o ano de 1900, quando vim para Natal estudar preparatórios, conheci TONHECA.

A atual cidade de Carnaúba dos Dantas, sede do município de igual nome, era então uma povoação pertencente a Acari, próxima uns seis quilômetros de nossa morada.

Em pouco tempo fiquei sabendo que lá existia uma banda de música regida por José Venâncio Dantas, descendente, como TONHECA, de Caetano Dantas Correia. Era a harmoniosa Charanga composta por vários irmãos do mestre, entre eles Antônio Pedro Dantas, João Pedro, Manoel Nicolau e Pedro Carlos de Maria, com outros parentes, inclusive Francisco Justino e José Maria, todos meus conhecidos desde então.

FÉ DO POVO CARNAUBENSE NO MONTE DO GALO.

Todos os anos, era contratada nos ofícios religiosos da festa de Nossa Senhora da Guia, Padroeira da cidade onde se demorava desde a elevação da bandeira, até o encerramento em 15 de agosto. Naquela temporada, que atraia muita gente de outros lugares, a meninada tinha na banda o elemento que mais lhe dava alegria, ouvindo suas tocatas de ensaio na casa de sua sede e, sobretudo quando, executando marchas e dobrados, desfilava pelas ruas, na ida e volta do majestoso templo. Via-a, em outras feitas, exibindo seu repertório em recepção de autoridades e visitantes importantes, na posse de um juiz de direito na comarca, festejos escolares, em casamentos de pessoas abastardas em algumas fazendas e no acompanhamento de dramas e comédias, circos, se apareciam companhias dramáticas, como da afamada atriz Mariana das Neves, que percorreu, certa vez, o sertão do Estado e creio que quase todo Nordeste. TONHECA era sempre presente e sempre apreciado o som agudíssimo de seu pistom. Os encarregados das cerimônias religiosas das paróquias vizinhas a contratavam por igual, para as tocatas, dizendo-se já então que ANTÔNIO PEDRO DANTAS, era o músico mais competente daquele conjunto.

CARNAÚBA DOS DANTAS DOS TEMPOS DE TONHECA DANTAS.

Com o desaparecimento de José Venâncio, sua obra não se findou; outros lhe substituíram na regência de sua banda, ao que me consta o seu genro e sobrinho Pedro Arbués Dantas, que fora meu discípulo na aula primária do inesquecível e competente professor Tomaz Sebastião de Medeiros. Da mestrança do saudoso José Venâncio se espalharam por vários pontos do Estado, tidos como músicos competentes, entre outros José e Pedro Alberto, Manoel Lúcio Filho e Felinto Lúcio (irmãos) e vários outros habitantes do lendário povoado.

CAPELA E CRUZEIRO NO ALTO DO MONTE DO GALO.

Para organizar uma música na sede do município, os influentes do lugar convidaram o nosso saudoso homenageado, antes de 1900, tendo ali se fixado, lecionando os inúmeros rapazes e alguns meninotes, entre estes, eu e o meu primo Félix Bezerra de Araújo Galvão, agora desembargador aposentado do Tribunal de Justiça, de que foi integésimo presidente. Foi eficiente o ensino do mestre; pois, a música se arregimentou com instrumental novo comprado em Recife e chegou a marchar pelas ruas, tocando apreciados dobrados. Lembro-me que Felix Bezerra soprava um instrumento metálico chamado bombardino e eu tentei aprender a tocar numa linda flauta, tersa de ébano, mas não cheguei a executar bem a escala, ficando no solfejo. Muitos aprenderam, mas a banda teve vida efêmera. Foi um episódio da vida de TONHECA.

UM DOS MARCOS DA VIA SACRA DO MONTE DO GALO.

Outro episódio marcante: Sei que, também, antes de 1900, veio para Natal e, por intermédio de meu pai, que era deputado estadual, procurou entrar para a banda de música do Batalhão de Segurança, do comando então do coronel Manoel Lins Caldas. O político acariense, compadre e amigo de TONHECA, falou a respeito com o governador Ferreira Chaves, que recebeu bem a pretensão e adiantou que havia aliás uma boa chance, pois, estava vago o lugar de mestre, porém, outro político do sertão lhe falara sobre outro candidato e, assim, seria justo mandar submeter os dois a um teste, para ser nomeado o mais competente. O coronel Caldas fez, escrupulosamente, uma espécie de concurso e informou ao governador, posteriormente, que TONHECA tocara bem em todos os instrumentos que lhe apresentaram, ao passo que, o seu competidor tocava apenas um — o trombone. Foi assim, o ingresso airoso do músico de Carnaúba na regência da música da Polícia do Estado, na qual serviu com galhardia bastante tempo. Penso que foi ela o trampolim de sua vitória, para o mundo da música.

FOTO ATUAL DO MONTE DO GALO, REALIZADA À PARTIR DA RESIDÊNCIA DE VALDENOR EUCLIDES DE ARAÚJO, EX-PREFEITO DE CARNAÚBA DOS DANTAS E UM DOS HOMENS PÚBLICOS MAIS DEVOTADOS A ESSA CIDADE.

Nas ‘‘Reminiscências de Natal de Outrora”, já referi-me ao dúplice caso num soneto que leio:

É história sem malícia:

Vieram lá do sertão

Músicos com pistolão

Sentar praça na Polícia

Circunstancia bem propícia

P’ra ter uma consolação:

Há vaga de mestre, então,

Na música da Milícia.

Quem tiver mais competência,

Disse ao Caldas, Dr. Chaves,

Coloque de preferência.

Era assim Sua Excelência,

— Em casos simples ou graves

Não tolerava indecência.

Fez o velho coronel

Concurso para julgar

A quem devia entregar

A batuta do quartel.

Eis do concurso o painel:

Dantas em tudo a tocar

E um no trombone a soprar,

Qual balança sem fiel.

Este saiu-se mal

Para que no exame entrou

Conhecendo o seu rival ?!

Deputado Estadual

De Acari foi quem guiou

TONHECA para Natal.

Na fase da última guerra europeia, quem tinha rádio procurava ouvir o noticiário dos últimos acontecimentos.

O CASTELO DE BIVAR, UM DOS MARCOS DA PAISAGEM DE CARNAÚBA DOS DANTAS.

À noite, eu sempre ouvia, em casa, as emissões da estação da BBC de Londres, que, ao fim, nos seus estúdios exibia uma parte musical. Em certa noite, ouvi nitidamente daquela potente, estação internacional de rádio, a música da valsa “Royal Cinema”, precedendo o espiquer do esclarecimento de que se tratava de uma valiosa produção de compositor brasileiro.

Sabe-se que se referia ao nosso homenageado, donde se vê que o mérito de TONHECA ultrapassara as fronteiras do nosso país. É, pois, um episódio a mais, digno de registro.

De 1901 para diante, quando meu pai passou a residir em Natal, frequentava TONHECA sua casa, razão porque sei que se mudou para Belém do Pará, onde serviu na música do Corpo de Bombeiros.

De lá regressando, esteve, entre outros lugares, em Lagoa Grande, na Paraíba, e Santana do Matos, neste Estado, voltando para esta capital em 1910, segundo testemunho dos seus familiares.

Aqui, demorando novamente, veio a falecer, em 7 de fevereiro de 1940, à Rua Paula Barros n.º 568, conforme atestado de óbito que tenho em mãos. Era homem franzino, calmo e de pouca barba, filho de João José Dantas e Vicência Maria do Espírito Santo, pessoas da média da sociedade onde viviam com numerosa prole, bem considerada. Registra o genealogista Sebastião Bastos, no seu livro “No Roteiro dos Azevedo e Outras Famílias do Nordeste”, página 271, que era João José coronel da Guarda Nacional e piloto, demarcando terras em Carnaúba, em 1866. TONHECA nasceu em 18 de junho de 1870. Foram seus padrinhos, seu tio Joaquim José e sua esposa Joana Maria da Conceição.

Não me cabe somente exaltar o merecimento do grande compositor. Sinto-me bem em proclamar, neste ensejo, as virtudes da gente que povoava sua terra natal — Carnaúba — que conheci na minha e na meninice de meu irmão José Augusto, atual membro do Conselho Nacional de Economia, na mocidade e maturidade.

UM DOS PATRIMÔNIOS DE CARNAÚBA DOS DANTAS SÃO OS REGISTROS RUPESTRES, NA FORMA DE PINTRAS E GRAVURAS, QUE SE ENCONTRAM NA ZONA RURAL DO MUNICÍPIO.

Na infância os meus ancestrais, que residiam perto daquela povoação, falavam-nos com veneração da tradição de honradez e austeridade dos seus antigos varões, dos quais, destacavam os irmãos João e Manoel Francisco, um dos quais fora autoridade policial em Acari, deixando traços de sisudez e espírito de justiça invulgares.

Os velhos e homens de idade que conheci, entre muitos, Joaquim Paulino de Medeiros, Pedro Manoel Dantas, Antônio Francisco de Azevedo, Manoel Alberto Dantas, José Adelino, Manoel e Joaquim Faustino, Manoel Avelino, Bartolomeu José de Maria, Luiz de França Dantas, Manoel Pacífico, João Rodrigues de Carvalho (João Sacristão), Francisco Xavier (Chico Frutuoso), Manoel Fortunato, Manoel Lúcio, José Galdino, José Henrique Dantas (Cabrinha), Manoel Caboclinho, João Cândido de Medeiros, Teófilo Lepoldino, Joaquim Baraúna, Manoel Marçal, Leque e Carneirinho, cujos descendentes continuam povoando o novel e próspero município formava um aglomerado humano, homogêneo, digno de estima de seus contemporâneos, com acentuadas marcas de honestidade, lealdade e amor à ordem. Quanto à marca de trabalho daquele abençoado povo, lembro-me que ficou na memória de todos, que na calamidade de 1898, decorrente da seca, aquela gente estoica fez escavações de mais de metro de profundidade no leito do seu rio ressequido, procurando umidade, conseguindo com o maior sacrifício algumas lavouras de feijões e batatas, para a subsistência das famílias necessitadas. Por essa resistência inigualável, os carnaubenses ficaram cognominados de “japoneses do Seridó”.

ESQUINA DAS RUAS TONHECA DANTAS E CORONEL QUINCÓ, APELIDO COMO ERA RESPEITOSAMENTE CONHECIDO O AGROPECUARÍSTA JOAQIM PAULINO DE MEDEIROS, BISAVÔ DE ROSTAND MEDEIROS, ESCRITOR, SÓCIO DO IHGRN E RESPONSÁVEL PELO BLOG TOK DE HISTÓRIA.

Com os varões citados e sob a liderança do primeiro — Quincó da Ramada — o eleitorado daquele distrito sempre deu leal solidariedade política ao coronel Silvino Bezerra de Araújo Galvão, muito contribuindo para que ele, que foi o primeiro vice-governador do Estado na República, nunca perdesse durante cerca de 50 anos, uma eleição em Acari.

Mais um acontecimento de caráter político que não deixa de retratar a disposição constante da gente de Carnaúba, refletindo sempre o sentimento de amor à ordem e ao regime democrático, até expondo-se a sofrimentos: A ditadura encontrou como pessoa influente, politicamente, na povoação, o boníssimo cidadão João Cândido de Medeiros Filho. Pois bem: em certa noite, estando em sua casa com familiares e amigos, foi sua residência invadida por um grande destacamento da Polícia, o qual, sem motivo algum o prendeu e lhe vendou os olhos, o mesmo fazendo com Antônio Lopes Filho, João Soares, Sérgio Gorgônio e João Batista, amigos seus que com ele palestravam. Os presos foram metidos num caminhão e assim, com os olhos vendados foram conduzidos para sítio longínquo, onde foram mantidos em sequestro, e levados para Caicó, após dois dias. A verdade é que, infelizmente, naquela fase, a briosa Polícia, que sempre foi elemento de tranquilidade, lamentavelmente fora infestada, enxertada de indivíduo recrutados no cangaceirismo de Estados vizinhos. Aliás, por esse triste acontecimento não pode ficar maculada a tradição gloriosa da força policial do Estado, de vez que ninguém esquece que ela varreu do território norte-rio-grandense o amaldiçoado cangaceirismo de Lampião.

PESQUISAS ARQUUEOLÓGICAS EM CARNAÚBA DOS DANTAS NA DÉCADA DE 1990.

Os presos não tinham tomado qualquer atitude que justificasse esse brutal atentado. Eram, porém, como quase todo o povo de Carnaúba, anti-ditatorias. João Cândido, que era tio do atual prefeito municipal, Dr. Anatólio Cândido ficou traumatizado, encaneceu em pouco tempo e viveu poucos anos mais, morreu aliás em consequência do choque sofrido. Reporto-me ao ocorrido, pois ele, ao meu ver, está preso à vida cívica dos carnaubenses e não deve ser omitido, sobretudo, porque estou falando perante este Instituto, que é o guardião da história.

Quando jurisdicionei a comarca de Acari, de 1920 (setembro) a 1923 (dezembro), presidi o júri a que, com dois corréus, respondeu uma mulher que foi mandante do assassinato do seu marido.

O crime, que foi premeditado e praticado com requinte de perversidade contra um cidadão laborioso e honrado, ocorreu a alguns quilômetros da cidade. A ré era filha de um carnaubense queridíssimo e o Conselho que proferiu o veredictum era constituído, quase em unanimidade, por habitantes de Carnaúba. Pois, mesmo assim, a criminosa foi condenada a mais de 20 anos de prisão, evidenciando-se a consciência dos jurados que, a despeito da estima que todos votavam ao pai angustiado, decidiram com louvado e absoluto espírito de justiça.

IGREJA DE SÃO JOSÉ.

Daquele ano calamitoso de 1898, de seca total, a que me referi, narro um episódio de que foi protagonista um respeitável cidadão de barbas longas, brancas e espessas, — Henrique Rodrigues da Cunha — Henrique da Carnaúba, por mim visto então no Ingá, quando criança: Meu pai estava prestes a seguir para a cidade, a fim de presidir uma sessão da Intendência, quando ali chegou, de pés, aquele intendente, que explicou que, julgando não dever faltar à reunião da edilidade e não tendo nenhum animal para ir a cavalo, vez que todos os seus tinham morrido, por falta de forragem, vinha fazendo a viagem mesmo sem montaria. De sua residência para a sede da Intendência já tinha percorrido cerca de légua e meia e ainda teria que marchar cavalgando os pés. Dali, porém, lhe foi entregue um burro selado, no qual viajou alegremente com o seu amigo presidente, depois de um e outro terem bebericado gordo café. Era assim a mentalidade, a compreensão dos deveres cívicos dos carnaubenses. É de lembrar que, naquele tempo, nem os intendentes, nem os chefes do executivo municipal ganhavam qualquer remuneração, o contrário do que ocorre agora com prefeitos e vereadores.

O MELHOR DE CARNAÚBA DOS DANTAS É A SUA GENTE SIMPLES E TRABALHADORA.

Gravei tanto na memória aquele gesto do velho sertanejo, que a ele dediquei um soneto, que consta de folhas 33 a 34 do “Últimas Reminiscências”, publicado em 1959. É este:

“INTENDENTE A PÉS DE CARNAÚBA A ACARI

Precedia entendimento,

Mas havia intransigência

Em se fazer a Intendência

Dos homens bons do momento.

Às vezes, certo elemento,

Sem riqueza e sapiência,

Por seu critério, descência,

Entre os edis tinha assento.

Vi passar para a cidade,

A pés e vindo de longe,

Varão barbudo, de idade.

Sem burro na sua herdade

Ia assim, tal qual um monge

À sessão da Edilidade”.

Senhores: No último cartão recebido de Adelmar Tavares, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras e meu querido amigo e colega de formatura em Recife, dizia-me ele textualmente, bem próximo à sua sentida morte: “Abandonaste a lira, encostaste-a a algum canto? Nada disso, meu Silvino, lembra-te que ela é encanto na mocidade e consolação na velhice…”

Referia-se aos meus sonetos de reminiscência, à minha modesta poesia, sobre a qual adiantou generosamente: “Tudo quanto se escreve com o coração, sai bom. E escreveste de coração”.

Certo que, digo eu, poesia não é propriamente música, mas todos sentimos que uma é irmã gêmea da outra. Assim, já quase octogenário, encerrando estas palavras, peço vénia para fazer um arremedo de paródia, utilizando-me do pensamento que contém aquela epístola amiga do príncipe dos trovadores brasileiros, o pranteado poeta Adelmar:

Na minha infância longínqua a música de Carnaúba, terra lendária de sertanejos de virtudes excepcionais, era um encanto para mim e para os adolescentes meus contemporâneos, e hoje, na memoração do nonagégimo quinto aniversário natalício do pranteado e grande compositor patrício TONHECA DANTAS, evocando episódios de sua vida, as tocatas harmoniosas da banda de José Venan- cio, de que foi ele componente, lembrando as características da fibra de um povo cheio de virtudes, o faço como que matando saudades do passado, como real consolação.

As palavras ditas, de certo cansativas deste seleto auditório, do que me penitencio, reportam-se não somente ao nosso sertanejo, cuja revelação de talento, no cultivo da fascinante arte do imortal Carlos Gomes, empolgou a geração do seu tempo; mas também à sua gente, do seio da qual muitos se destacaram letras e alguns até pela coragem e pelo heroísmo.

É de assinalar, a propósito, que no presente há ainda descendentes vários de Caetano Dantas, o patriarca, em evidência na vida cultural do País. Na metrópole, por exemplo, é bem considerada entre os intelectuais, a inspirada poetisa Donatila Dantas, que tem nome no frontispício do prédio da biblioteca de livros preciosos que remeteu do Rio de Janeiro para leitura dos seus conterrâneos de Carnaúba dos Dantas, sua cidade natal, que, tendo visitado, certa vez, a ela dedicou soneto que assim termina:

“Carnaúba de gente cheia de bondade, de longe, contemplo a tua bela paisagem, olhando as estrelas EM ETERNA SAUDADE”.

E, honrando o Rio Grande do Norte, depois de administrar a Diocese de Caicó, é o atual bispo de Garanhuns, em Pernambuco, o Reverendíssimo Prelado Dom José Adelino Dantas, sacerdote virtuosíssimo e culto, um dos mais dignos membros do Episcopado Brasileiro e que, ali, está realizando grandes obras de assistência social e filantrópica.

Nesta mesma sala, é de recordar, os sócios deste Instituto, há anos já, quando Sua Excelência não era ainda príncipe da Igreja tiveram uma demonstração do seu profundo conhecimento das línguas clássicas, na oportunidade em que, estudando a personalidade saudosa do Cônego Estevam José Dantas, fez erudita apreciação do notável manuseio do latim na composição dos seus versos, dos versos do provecto educador, frente aos do grande Horácio e outros insignes vates da época.

Quando à bravura dos carnaubenses, não são de esquecer os feitos do então alferes Ezequiel Medeiros, na guerra de Canudos. Faleceu major, e, quando eu acadêmico com ele convivi em Recife, onde servia na guarnição do Exército, tinha grande círculo de admiradores naquela cidade, conhecedores que eram dos seus atos de heroísmo e bravura contra os terríveis fanáticos de Antônio Conselheiro.

Faço, neste ensejo, ao ilustre presidente Enélio Petrovich, para o arquivo desta casa, as certidões de batismo e óbito de TONHECA, que obtive respectivamente do reverendo vigário da freguesia de Acari e do oficial do registro civil desta capital — meu distinto amigo Alínio Azevedo — e uma cópia datilografada da oração proferida em 28 de outubro de 1928, por José Alberto Dantas, tio da poetisa Donatila Dantas e em que se contêm úteis subsídios históricos sobre Carnaúba.

Também o pesquisador Pedro Arbués Dantas, de Carnaúba dos Dantas, sempre atento aos fatos e figuras de sua terra natal, nos oferece outros detalhes, produto de suas pesquisas, da vida daquele grande compositor de Carnaúba dos Dantas.

Diz Pedro Arbués que, “certa vez a banda de música de Carnaúba fora contratada para uma tocata nos festejos da Padroeira de Serra Negra do Norte, causando grande sucesso e no colar desses aplausos fez nascer em TONHECA o desejo de um dia ser compositor”.

“TONHECA DANTAS, diz ainda o pesquisador Pedro Arbués Dantas, quando residente no extremo norte, em Belém (Pará), produziu peças para o teatro, destacando-se “Os Cisnes” que foi levada no Teatro da Paz com grande brilho, recebendo elogios da imprensa, do público e do então governador do Estado, o Senador Lemos”.

ANTÔNIO PEDRO DANTAS nasceu no sítio “Carnaúba de Baixo”, em Carnaúba dos Dantas. Seus avós paternos: Manoel Hipólito do Sacramento e Maria Joaquina da Conceição, filha do tenente Caetano Dantas Correia e Luiza Maria do Espírito Santo, estes últimos proprietários da “Fazenda Carnaúba”. Eram seus bisavós paternos: Pantaleão Pinto de Aguiar e Maria, residentes em Goianinha.

Além de “Royal Cinema”, a mais popular composição de TONHECA DANTAS, outras de sua autoria continuam sendo tocadas como “Aí, barrigudo”, “A Desfolhar Saudades”, “Os Três Corcovados”, “Melodias do Bosque”, “Delírio”.

PARA MIM, O MELHOR DE CARNAÚBA DOS DANTAS É SE POVO!

Interessante depoimento foi prestado ao pesquisador Pedro Arbués Dantas, em 18 de novembro de 1959, em Currais Novos, por José Rodrigues Dias, membro da banda de música do ex-Batalhão de Segurança e companheiro de TONHECA DANTAS naquela banda.

Informou José Rodrigues que TONHECA lhe contara em 1917, em Natal, no velho Quartel, o fato de como nasceu a composição da música “Royal Cinema”, quando em Belém (Pará) em 1906, atravessava difíceis momentos de sua vida.

O Dr. Silvio Chermont, próspero comerciante da capital paraense, filho do “rei da borracha” daquela cidade lhe pedira para compor uma valsa para oferecer à sua noiva. A composição foi feita em poucos dias e a música foi ouvida pela primeira vez em no aniversário da noiva, numa festa residencial, com grande sucesso. 

Muitos anos depois, já em Natal, deu nome Royal Cinema –, àquela que seria a sua maior composição.

DESEMBARGADOR SILVINO BEZERRA NETO – Fonte http://www.geocities.ws/mesilop/engracia_2_2.html

BIOGRAFIA DO DESEMBARGADOR SILVINO BEZERRA NETO

Segundo o site http://www.mprn.mp.br/memorial/pgj14.asp o Desembargador SilvinoBezerra Neto Nasceu em Caicó/RN no dia 30 de abril de 1887, sendo filho do Professor Manoel Augusto Bezerra de Araújo e de Cândida Olindina de Medeiros. Em 1900, aos 13 anos,  veio para Natal onde matriculou-se no colégio Atheneu e concluiu o secundário em 1904. Seu primeiro emprego foi o de revisor do Jornal oficial A República. Foi professor de geografia no Colégio Diocesano Santo Antônio. Em 1905 matriculou-se na Faculdade de Recife, concluindo o curso de Ciências Jurídicas e Sociais em 1909. Entre suas funções públicas é listado: Promotor Público da Comarca de Acari (1908-1909), Procurador Fiscal do Tesouro (1911), Diretor da Escola de Aprendizes Artífices do Estado (1915), Juiz de Direito da Comarca de Mossoró e Acari. Entre os anos de 1924 e 1926 foi Chefe de Polícia durante o governo de José Augusto Bezerra de Medeiros e depois nomeado Desembargador do Supremo Tribunal de Justiça. Entre 13 de setembro de 1926 a 8 de outubro de 1927 exerceu as funções de Procurador Geral do Estado e entre os anos de 1936 e 1937 foi o Vice-Presidente do Tribunal Regional Eleitoral, quando se aposentou neste último ano, no dia 24 de novembro. Foi presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seção Rio Grande do Norte e sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN. Possui várias publicações.

FALECEU O MEU AMIGO FRANK D. McCANN, O MAIOR DOS BRASILIANISTAS

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Como eu sempre gostei de aprender sobre a Segunda Guerra Mundial e a ligação de Natal, a cidade onde nasci e vivo, com esse período da História, inevitavelmente eu ouvir falar do trabalho do professor Frank D. McCann e seus interessantes livros.

Li três de suas obras e fiquei maravilhado com a profundidade da sua pesquisa sobre a história brasileira e soube que toda sua vida acadêmica foi dedicada ao estudo do nosso país. Descobri que devido ao seu trabalho Frank fez dezenas de viagens ao Brasil, realizando inúmeras pesquisas. Ele fazia parte de um seleto grupo de cientistas e estudiosos que o pessoal das universidades e da imprensa chama de “Brasilianistas”. E Frank foi o maior deles!

Francis “Frank” Daniel McCann (1938 – 2021)

Então, em fevereiro de 2013, através de um texto publicado no nosso TOK DE HISTÓRIA, recebi uma mensagem do próprio Frank McCann (ver https://tokdehistoria.com.br/2012/11/17/4341/).

Daí começou uma intensa troca de e-mails e ele apontou a sua intenção de vir a Natal e me coloquei a sua disposição. Esta viagem ao Brasil possuía como principal objetivo a coleta de dados para futuros trabalhos e rever a cidade de Natal, o prédio da Rampa e a Base Aérea, locais que ele teve oportunidade de conhecer no começo de 1965, através do apoio da Fullbright Associaton.

Na época, na Base Aérea de Natal, recebemos todo o apoio e atenção do Cabo (SMU) Rui Edson Gomes de Melo e do 1º Sargento (BFT) Paulo Alves Correia, bem como do pessoal do CECOMSAER (Centro de Comunicação Social da Aeronáutica) em Brasília.

VISITANDO O PRÉDIO DA RAMPA

Estivemos visitando o prédio histórico da Rampa, que na época estava abandonado e foi até notícia na imprensa local (http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/memoria-esquecida-e-abandonada/254270).

Apesar do tempo curto, deu para levar o amigo Frank para uma típica casa de forró, na bela praia dos Artistas. Foi muito bom.

Esta foi uma visita muito positiva e extremamente proveitosa. Onde conheci uma pessoa muito simples, prática, sincera, aberta ao diálogo e participativa no quesito de dividir informações.

Frank foi embora e nunca mais o vi. Mas nunca deixamos de manter contato.

JUNTO A UM DOS AVIÕES HISTÓRICOS DA BANT

Algum tempo atrás ele me perguntou via e-mail se eu tinha algo sobre os casamentos entre militares norte-americanos que estiveram em Natal durante a Segunda Guerra e as jovens potiguares. Ele me informou que era para um trabalho futuro. Nem pensei duas vezes e enviei o que tinha. Até mesmo porque Frank, apesar de estrangeiro, de morar em outro país, diferentemente de pessoas aqui do Brasil, ou aqui mesmo do Rio Grande do Norte, sempre teve muita consideração pelo que lhe enviei, mesmo que fosse algo simples.

E a via era de mão dupla.

Em 9 de julho de 2019 faleceu meu pai e eu recebi de Frank McCann uma das mensagens que mais me trouxe tranquilidade e paz de espirito em um momento de muita dor e tristeza.  

NO PRÉDIO HISTÓRICO DA RAMPA

O que escrevi foram as minhas impressões e experiências pessoais sobre Frank D. McCann. Já sobre sua carreira, seus trabalhos acadêmicos e outras informações, eu prefiro trazer o que o amigo Durval Lourenço Pereira escreveu em seu site Memorial da FEB (https://memorialdafeb.com/2021/04/03/7933/)

Frank D. McCann – Obituário

A primeira semana de abril termina com uma perda irreparável para a historiografia do Brasil na Segunda Grande Guerra, com o falecimento do professor Frank D. McCann Jr em 2/4, um dos gigantes da História Militar do Brasil[1].

Nascido a 15 de dezembro de 1938, sua vida acadêmica foi dedicada ao estudo do Brasil, que o levou a falar com fluência a Língua Portuguesa. Ministrou ampla variedade de cursos sobre história latino-americana e culturas nativas americanas. Foi o diretor fundador do UNH Center for International Perspectives e teve imenso prazer em orientar os alunos a explorar, aprender e apreciar outros países, culturas e idiomas. Frank achava imperativo que os alunos experimentassem a vida além de suas cidades natais para entender melhor suas próprias raízes, e também para considerar a possibilidade de que eles pudessem prosperar e crescer quando estivessem no Exterior, mesmo que temporariamente. Passou muitas horas incentivando os alunos a terem confiança em suas próprias habilidades e a acreditar que, por meio de muito trabalho e esforço, qualquer pessoa poderia ter sucesso acadêmico, profissional e pessoal.

LIVROS DE FRANK McCANN – Fonte – https://memorialdafeb.com/2021/04/03/7933/

Seu fascínio pela História começou enquanto caminhava pelo Forte Ticonderoga e outros locais históricos com seu irmão mais novo, Bernard, o pai Francis Daniel, Sr., (Kelly) McCann e, antes de sua morte precoce quando os meninos tinham 13 e 8 anos, sua mãe Kay Moran. A Biblioteca Pública Lackawanna, onde Frank e seu irmão passaram muitas horas lendo, tornou-se outro lugar feliz e confortável. Um lugar que Frank imitou ao criar sua própria biblioteca de empréstimos de livros para crianças da vizinhança. Durante o Ensino Médio, Frank se destacou no arco e flecha e na corrida, fazendo parte da equipe católica cross-country da Western New York. Conquistou o posto de escoteiro e passou os verões como conselheiro de acampamento em Adirondacks. Enquanto estava lá, fortaleceu seu profundo e permanente interesse pelos povos indígenas da Nação Iroquois, especialmente o Tonawanda Seneca

Frank obteve seu bacharelado na Universidade de Niagara (1960), onde conheceu Diane, sua amada esposa por quase 59 anos. Obteve o Mestrado em 1962, pela Universidade Estadual de Kent, e um PhD em 1967 pela Indiana University. Sua filha mais velha, Teresa Bernadette (Tibi), nasceu em Bloomington quando ele completou o curso. À época, um grupo de estudantes liderado pela brasileira Teresinha Souto Ward e o refugiado húngaro George Fodor o convenceu a escrever sobre as relações EUA-Brasil.

NA ENTRADA DO SETOR DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA BASE AÉREA DE NATAL EM 2013, JUNTO AO Cb. (SMU) RUI EDSON GOMES DE MELO, QUE COM EXTREMA COMPETÊNCIA E ATENÇÃO APRESENTOU ESTA GRANDE UNIDADE MILITAR DA FAB, JUNTO COM O 1º Sgt. (BFT) PAULO ALVES CORREIA.

Em 1965, uma bolsa acadêmica Fulbright (a primeira de quatro) levou Frank, sua esposa Diane e filhos, ao Rio de Janeiro. Ele faria dezenas de viagens subsequentes ao Brasil, sozinho ou com a família, buscando documentos de arquivo, ensinando, construindo amizades e cruzando o país de carro, avião, e barco — sempre preferindo a estrada ou atalho menos percorrida, frequentemente não pavimentada e ocasionalmente não mapeada. Cada igreja ao longo do caminho mereceu sua atenção. As quase incontáveis ​​viagens fundamentaram seus livros, artigos, resenhas de periódicos e, mais recentemente, centenas de verbetes no Manual de Estudos Latino-Americanos como um dos colaboradores para a História do Brasil.

Seu trabalho de estudo das Forças Armadas Brasileiras foi amplamente respeitado no Brasil.

AQUI FRANK McCANN JUNTO A UM DOS CAÇAS DA NOSSA MARINHA DE GUERRA, QUE ESTAVA EM 2013 TEMPORARIAMENTE NA BASE AÉREA DE NATAL.

A Aliança Brasil Estados Unidos, 1937-1945 e Soldados do Pátria: uma História do Exército Brasileiro, 1889-1937, foram traduzidos e publicados em Língua Portuguesa (o primeiro foi vencedor do Prêmio Bernath e recebeu menção honrosa para o Prêmio Bolton)Também foi coeditor de Modern Brazil: Elites and Masses in Historical Perspective.   O governo brasileiro reconheceu seu compromisso com o estudo do País, conferindo-lhe o título de Comendador na Ordem do Rio Branco (1987) e a Medalha do Pacificador (1995).

Frank lecionou na Universidade de WisconsinRiver Falls e na Academia Militar dos Estados Unidos (West Point) como capitão do Exército. Completou o pós-doutorado na Universidade de Princeton e também foi professor visitante na Universidade do Novo México (Albuquerque), na Universidade de Brasília e na Universidade Federal do Rio de Janeiro. As aventuras acadêmicas o levaram a muitos países da América Latina, além da Polônia, Bulgária, Inglaterra, Irlanda e Nigéria, entre outros lugares. Frank e Diane desfrutaram de aventuras em Belize, México, Canadá, Itália, Turquia, Espanha, França e grande parte dos Estados Unidos, especialmente no norte da Califórnia, Washington D.C. e em muitas pequenas cidades na Virgínia. 

FRANK FOTOGRAFADO JUNTO AO HANGAR DE NARIZ DA US NAVY

Seu eclético gosto musical incluía cantos gregorianos, samba, Clancy Brothers, Armstrong, Sinatra, Miles e muito mais. Um jantar sem MPB (Musica Popular Brasileira) para “criar um clima” era tão impensável quanto um bar que servia um medíocre Manhattan (só bourbon do Kentucky, por favor!). Ávido canoísta e esquiador, seu apreço pelo ar livre estendia-se às horas que passava cuidando de árvores, arbustos e outras plantas em sua casa em Durham.

JUNTO COM O Cb GOMES NO ANTIGO HANGAR DE NARIZ DA USAAF

Ao lado de John W. F. Dulles (1913-2008) e Stanley E. Hilton (1940), McCann fez parte de uma geração notável de brasilianistas (acadêmicos com o foco de pesquisa no Brasil). Seus estudos e vasta produção literária primam pelo ineditismo, base em fontes primárias, na escrita elegante, na inteligência apurada e, sobretudo, na humildade espontânea. Atendia com fina educação a todos que lhe consultavam, buscando informações de todo o tipo. Foi o primeiro historiador a obter acesso a documentos sigilosos dos EUA a respeito da participação da FEB na Segunda Grande Guerra. Porém, ao contrário de aventureiros sedentos pelo sensacionalismo irresponsável nos anos seguintes, Frank tratou essas informações confidenciais com profissionalismo, equilíbrio e ponderação em sua primeira obra: The Brazilian-American Alliance 1937-1945 (lançada nos EUA em 1973).

Seu robusto Soldados da Pátria (2009) constitui fonte de referência oficial para os alunos da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro (ECEME). Já o clássico A Aliança Brasil -Estados Unidos, 1937-1945 (editada pela Bibliex em 1995) foi complementado pelo livro Brazil and the United States during World War II and Its Aftermath: Negotiating Alliance and Balancing Giants, ainda sem tradução para o nosso idioma. Trata-se de uma referência essencial para os historiadores e pesquisadores do tema: a “cereja do bolo” da sua produção literária voltada para a pesquisa da História Militar do Brasil na Segunda Guerra Mundial e das relações Brasil-EUA — que permanece insuperável, seja por autores brasileiros ou estrangeiros.

Deixa sua esposa Diane e uma grande família irlandesa-americana.


[1] Texto elaborado com base no obituário disponível em: https://www.kentandpelczarfh.com/obituary/francis-mccann-jr

RAUL FERNANDES E O LIVRO “A MARCHA DE LAMPIÃO – ASSALTO EM MOSSORÓ”

Reprodução do jornal natalense O Poti, edição de 12 de março de 1978.

O Governo do Estado e a Universidade federal do Rio Grande do Norte (UFRN) deverão editar até o final do mês o livro “Marcha de Lampião – Assalto a Mossoró”, de Raul Fernandes. Filho de Rodolfo Fernandes, prefeito de Mossoró quando da invasão da cidade, Raul Fernandes demonstra além do conhecimento de longos anos de pesquisa, a experiência de quem teve a casa assaltada pelos cangaceiros.

Capa da terceira edição do livro de Raul Fernandes.

Formado em Direito e Medicina (especializado em otorrinolaringologia que ensina na UFRN), Raul Fernandes diz não ter escrito antes o livro, porque isso o afastaria dos clientes, que passariam a vê-lo como um escritor, um literário e não um médico. Aos quase setenta anos de idade e pensando na aposentadoria, ele diz ter sido criado com um rifle nas costas, servindo ao Exército Americano na época da guerra e com alguns anos de est5udos nos Estados Unidos e na Alemanha.

Como que querendo justificar-se pelo lançamento do livro, quase vinte anos depois que resolveu escreve-lo, explica que “todos que assistiram à luta sempre me assediaram para que eu escrevesse”. O próprio José Lins do Rego solicitou sua ajuda quando se dispôs a escrever seu último livro, “O Cangaceiro”. Além do mais afirma “não existiam livros sobre o assalto a Mossoró, apenas depoimentos”, o que tornou difícil a execução do trabalho.  

NOTA DO TOK DE HISTÓRIA – É de estranhar essa declaração de Raul Fernandes, pois em 1955 foi lançado o livro “Lampião em Mossoró”, de Raimundo Nonato, pela Editora Pongetti, do Rio de Janeiro. No ano seguinte foi impressa uma segunda edição.

NÃO ACREDITAVAM

Muito à vontade, enriquecendo o assunto com suas próprias experiências, ele fala sobre a tarde em que Lampião entrou em Mossoró, acompanhado de onze reféns, “hoje gente importante do Estado”. Seu pai é, na verdade o foco principal do livro, “o que me coloca numa situação delicada, pois podem dizer que escrevi o livro apenas porque o centro da resistência era meu pai. Mas não foi assim, eu realmente vi tudo muito de perto”.

Nascido em Mossoró, Raul Fernandes estudava na Bahia. “Vindo de férias encontrei minha casa protegida pelas trincheiras. Minha casa foi a única que se preparou a resistência, porque meu pai estava avisado. Mas a cidade de Mossoró não acreditava no ataque”.

Mossoró era um dos centros mais importantes do Nordeste e tinha comércio maior que Natal.

Lampião e seu bando após a derrota em Mossoró.

ERA UM CANGACEIRO INTELIGENTE

Preocupado em esclarecer  pontos um tanto desconhecidos, Raul Fernandes lembra que o ataque a Mossoró não foi feito apenas pelo grupo de Lampião, mas pelos cinco grupos existentes na época (1927) liderados por João Marcelino, Jararaca, Sabino Gomes e Massilon.  

A decisão de atacar Mossoró teria partido exatamente de Massilon, que não era propriamente um cangaceiro, mas um tropeiro. Massilon teria assassinado um soldado e precisava fugir do Nordeste. Vindo da Paraíba, ele idealizou o assalto para fazer reféns para conseguir dinheiro para sua fuga.

Raul Fernandes.

Juntou-se aos demais grupos, e segundo as pesquisas do professor Raul, Lampião teria relutado muito em concordar. “Ele mal sabia ler e escrever, era um homem rude, grosseiro, mas um cangaceiro muito inteligente”. Por ordem do prefeito, a cidade foi evacuada na noite anterior ao assalto (Rodolfo havia sido avisado por amigos da Paraíba que o grupo marchava para Mossoró). Conseguindo no comércio um pouco de armamento e o auxílio de vinte soldados de polícia. Os homens armados (quem não possuía armas foi obrigado a deixar a cidade) conseguiram repelir o ataque.

Aqui, o professor Raul faz uma homenagem à Paraíba: “Bandido nenhum ataca de dia (os cangaceiros atacaram entre 16 e 17 horas), mas Lampião vinha sendo perseguido por duas volantes da Paraíba e se demorassem no assalto acabariam nas mãos dos perseguidores”.

Trincheira do prefeito Rodolfo Fernandes em Mossoró.

GRANDE EXPERIÊNCIA

Raul Fernandes confessa que essa foi uma experiência incrível: Ver de perto os terríveis bandidos e entrevistar várias vezes o famoso Jararaca aprisionado em Mossoró, e lamenta estar desarmado na época. Com dezenove anos foi obrigado a levar sua família para fora da cidade em lugar protegido, sem participar ativamente da resistência.

Hoje ele fala do assunto com uma certa emoção, lembrando os tempos em que o Nordeste era dominado pelo cangaço, que por um longo tempo sofreu pouca repressão.

“Em 1935 eu vi um assalto ao Banco do Brasil, aqui em Natal e ninguém pôde fazer nada”. Depois da Revolução de 1930, conta, os governos se uniram para acabar com o cangaço. O cangaceiro que era preso era imediatamente fuzilado.

“Foi o único meio de reprimir o cangaço que tanto assustava o Nordeste”.

1943 – O CAMINHO DO PRESIDENTE FRANKLIN ROOSEVELT PARA A CONFERÊNCIA DO POTENGI EM NATAL

Rostand Medeiros – IHGRN

Nas primeiras horas de uma manhã de quinta-feira, dia 28 de janeiro de 1943, o tempo na pequena e bucólica capital potiguar estava frio e nublado. Já fazia alguns dias que a chuva caia com certa frequência em todo o Rio Grande do Norte. Uma situação que animava a todos os potiguares depois de uma seca terrível.

Em meio ao tempo frio, a cidade ia acordando tranquila. Se havia alguma movimentação eram daqueles que iam até as padarias comprar pão novo e quentinho, ou seguiam até no Mercado Público da Avenida Rio Branco, ou pegavam os bondes pintados de amarelo que circulavam por uma cidade com poucos automóveis, ou ainda a movimentação dos ônibus que partindo do bairro da Ribeira para o interior.

Quadro assinado pelo presidente Franklin Delano Roosevelt e entregue a tripulação do cruzador USS Omaha, que participou ativamente no apoio ao presidente na Gâmbia, quando da sua passagem para a Conferência de Casablanca.

Nessa quinta-feira, nas margens do rio Potengi, mais precisamente na área da praia da Limpa, começou uma movimentação. Vários militares americanos isolavam a região e mantinha uma vigilância mais intensa na área da base de hidroaviões da empresa aérea Pan American Airways e da nova base da marinha americana, ainda em construção, onde até recentemente havia funcionado uma base de hidroaviões da empresa alemã Deutsche Lufthansa.

Apesar da movimentação, creio que isso foi percebido sem maiores anormalidades para a população que morava nas poucas casas que havia nas proximidades, pois forças militares dos Estados Unidos utilizavam o território potiguar como parte do esforço de guerra Aliado desde dezembro de 1941, através de acordos com o governo brasileiro. Esses militares aproveitavam o privilegiado ponto estratégico do Rio Grande do Norte para facilitar o transporte aéreo e a caça e destruição de submarinos nazifascistas no Atlântico Sul.

Boeing 314 Clipper, tendo a bordo o presidente Franklin Roosevelt toca o rio Potengi as 07:50 de 28 de janeiro de 1943 – Fonte – NARA.

E porque naquela manhã de 28 de janeiro de 1943 houve essa movimentação dos militares estrangeiros nessa região de Natal?

As 07:50, vindo do Atlântico, um grande hidroavião Boeing B-314, conhecido como Clipper, tranquilamente amerissou no calmo rio Potengi. Na sequência aquela máquina prateada movimentou-se com seus quatro motores até depois da área conhecida como Passo da Pátria. Talvez nesse momento, devido a sua elevada localização em relação à beira do rio, esse hidroavião pode ter chamado a atenção de alguns moradores da Rua da Misericórdia e da região da Praça João Tibúrcio, onde se localiza a colonial igreja de Nossa Senhora do Rosário e seu antigo cruzeiro.

Natal recebia esse modelo de hidroavião na base da Pan American desde os primeiros anos da década de 1940 e a visão daquele tipo de aeronave no rio Potengi nada tinha de inédito. Mas não tão cedo da manhã!

Na sequência o hidroavião deslocou-se pelo rio até a estação da Pan American e foi amarrado no flutuante que servia de atracadouro. Nesse momento, se houvesse algum natalense nas proximidades, provavelmente veria sair daquela máquina vários civis e militares que tratavam com muita deferência um dos passageiros, que claramente possuía deficiências de locomoção. Ali estava Franklin Delano Roosevelt, o presidente dos Estados Unidos, que desembarcava em Natal para um encontro histórico com o presidente brasileiro Getúlio Dorneles Vargas.   

E qual foi o caminho de Roosevelt até Natal? Onde ele esteve e o que ele fez antes de chegar à capital potiguar?

A Viagem Secreta

Roosevelt não foi o primeiro presidente dos Estados Unidos a voar em uma aeronave, honraria que coube ao seu primo Theodore, ainda em 1910. Mas o voo de 1943 foi o primeiro trajeto internacional realizado por um presidente daquele país no exercício do cargo e desde a gestão de Abraham Lincoln que um presidente dos Estados Unidos não seguia ao encontro de suas tropas em uma área tão próximo de um front de guerra.

O staff da Casa Branca organizou secretamente a viagem do presidente Roosevelt e planos para o transporte por via terrestre e aérea foram traçados. Naquele voo, além da questão ligada a limitada mobilidade do presidente Roosevelt devido as consequências da poliomielite que ele contraiu em 1921, havia a tônica em relação foi a segurança. Grupos compostos por agentes do serviço secreto, bem como assessores militares, partiram no final de 1942 para reconhecer o caminho e garantir sua segurança. Dessa maneira, os arranjos foram aperfeiçoados ao longo da rota que o presidente seguiria pela América do Norte, Caribe, América do Sul, até o continente africano.

Base de Parnamirim Field, em Natal, Rio Grande do Norte, no ano de 1943. Foi uma das maiores e mais importantes bases aéreas do esforço estratégico aliado para derrotar as forças do Eixo – Foto – Ivan Dmitri/Michael Ochs Archives/Getty Images.

Certamente esse pessoal esteve em Natal, mas passaram totalmente despercebidos. Além da secretíssima natureza da sua missão, em janeiro de 1943 a cidade de Natal abrigava muitos homens de várias unidades militares norte americanas. Para que o leitor tenha uma ideia do volume desse pessoal na capital potiguar, estavam na cidade três esquadrões de busca e destruição de submarinos, com mais de 30 aeronaves e centenas de homens (eram o VP-83, VP-74 e o recém-chegado VP-94), além de todo um aparato de apoio ao transporte aéreo. Havia também muitas unidades de apoio e sempre dois ou três navios americanos estavam ancorados no rio Potengi.

Em 9 de janeiro, perto das 22h, o presidente e sua comitiva deixaram a Casa Branca de forma discreta e seguiram de carro por três quilômetros até a Union Station, a principal estação ferroviária de Washington. A composição era composta por um luxuoso vagão dormitório modelo Pullman, denominado “Ferdinand Magellan”, além de um vagão de bagagem e um vagão especial para o pessoal do Exército.

O vagão presidencial “Ferdinand Magellan”, preservado no Gold Coast Railroad Museum, em Miami, Flórida.

A tripulação do trem foi especialmente selecionada, onde incluíram cinco mensageiros do USS Potomac para ajudar no que fosse necessário. Como forma de distrair algum improvável espião, o trem partiu em direção norte, como se estivesse indo para Hyde Park, mas parou em um desvio ao sul de Fort Meade, no estado de Maryland. Ali ficou aguardando por uma hora enquanto os oficiais da Linha da Costa Atlântica liberavam os trilhos para o sul e então o trem seguiu para Miami.

A composição chegou à capital da Flórida cerca de uma e meia da manhã do dia 11 de janeiro, na área da Military Junction, um antigo depósito ferroviário que serviu como estação exclusiva para militares durante a Segunda Guerra Mundial. Desse lugar o grupo seguiu discretamente para a base da Pan American Airways em Dinner Key, na região de Coconut Grove, sudeste de Miami, um local mundialmente famoso na época por ser a principal base de hidroaviões civis dos Estados Unidos. Com o declínio do uso desse tipo de aeronaves na aviação comercial, a base de Dinner Key foi desativada, mas ainda é possível ver o terminal que recebia os hidroaviões, além da área ser um local muito bonito.

Antes do amanhecer John C. Leslie, gerente de operações da Pan American nas áreas do Atlântico e Pacífico, estava com tudo pronto para receber o grupo de Washington.

O Dixie Clipper (NC 18605) que transporto o presidente Roosevelt e assessores próximos.

Foram utilizados nessa missão dois hidroaviões Boeing 314 Clipper, sendo o Atlantic Clipper (NC 18604) destinado ao pessoal de apoio e o Dixie Clipper (NC 18605) pelo presidente Roosevelt e assessores próximos. Os pilotos foram Howard M. Cone Jr. (Dixie Clipper) e Richard W. Vinal (Atlantic Clipper), ambos do quadro de oficiais da reserva da Marinha, experientes pilotos com títulos de Masters of Ocean Flying (maior classificação de piloto comercial do mundo na época) e engenheiros aeronáuticos formados na Universidade de Seattle. Os dois pilotos e suas tripulações receberam o presidente e sua equipe e logo todos embarcaram.

O jornalista Tony Reichhardt, da revista Air & Space (edição de 18 de janeiro de  2013), comentou que em uma ocasião o piloto Howard Cone, falecido em 1969,  relembrou que a tripulação do Clipper ficou “muito surpresa ao saber a identidade do nosso convidado”, e que o presidente foi um “excelente passageiro”. Na aeronave que voou o presidente só houve um pedido especial – que uma das camas fosse equipada com um colchão de casal.

Os pilotos dos hidroaviões foram Howard M. Cone Jr. (Da esquerda e pilotou o Dixie Clipper) e Richard W. Vinal (a direita e pilotou o Atlantic Clipper).

Em suas memórias John C. Leslie lembrou que até esse dia ele não tinha ideia do quanto Franklin Roosevelt era severamente deficiente devido à poliomielite. Foi necessária a colocação de uma rampa especial da doca para a aeronave e o presidente teve de ser carregado para a cabine de passageiros. Às seis da manhã, o Dixie Clipper taxiou nas águas calmas da Flórida e decolou e meia hora depois foi à vez do Atlantic Clipper. Vale ressaltar que o Atlantic Clipper foi utilizado como centro de comunicações, com equipamentos e pessoal capacitados para manter o presidente em contato constante com Washington e as estações de guerra no exterior.

Roosevelt iniciou então sua longa viagem com destino à cidade de Casablanca, no Marrocos, acompanhado por Harry Lloyd Hopkins, conselheiro de política externa e diplomata, de William Daniel Leahy, almirante e chefe de gabinete pessoal do presidente, Ross T. McIntire, contra almirante e atuando como médico, John McCrea, capitão e assessor naval e Arthur Shelton Prettyman, o ajudante afrodescendente do presidente, além de agentes do Serviço Secreto. 

Roosevelt em Belém do Pará

Sobre a montanha Bonnet à l’Evêque, a Citadelle Laferrière, ou Citadelle Christophe, sobrevoada pelo hidroavião que levava o presidente Roosevelt em janeiro de 1943.

Segundo informa a própria Casa Branca, a pedido de Roosevelt o Clipper sobrevoou o Haiti e nessa passagem circularam sobre a montanha Bonnet à l’Evêque, onde no topo foi possível visualizar a bela Citadelle Laferrière, ou Citadelle Christophe, uma grande fortaleza construída por Henri Christophe, o líder negro da independência da antiga colônia francesa do Haiti no início do século XIX. Roosevelt havia visitado o local em 1917, quando ainda era secretário adjunto da Marinha.

As quatro da tarde o Clipper presidencial chegou à antiga colônia inglesa da ilha de Trinidad, atual Trinidad e Tobago. O grupo desembarcou na Base Operacional Naval, onde seguiram por 15 minutos até um isolado hotel operado pela Marinha. Era o Macgueripe Beach Hotel, localizado na pequena baía Macqueripe, a noroeste da ilha de Trinidad e até hoje um lugar preservado e deslumbrante.

Baía Macqueripe, a noroeste da ilha de Trinidad.

No outro dia, terça-feira 12 de janeiro de 1943, os hidroaviões decolaram com destino a Belém, capital do Pará, único ponto no Brasil onde Roosevelt esteve em sua ida a Casablanca.

No caminho o presidente leu, almoçou, cochilou, jogou paciência e olhou para as grandes florestas do Brasil, 2.700 metros abaixo. Quando eram quase duas e meia da tarde a aeronave cruzou a linha do Equador, provavelmente sobre o Amapá ou sobre a ilha do Marajó. Como a bordo se encontravam oficiais navais com larga experiência no mar, Roosevelt havia sido Secretário da Marinha e aquele hidroavião quando amerissava na água se deslocava tal como um barco, foi organizada uma festa que seguiu as mais antigas tradições marítimas e era conhecida como “Festa de Netuno”, ou “Cerimônia de Travessia de Linha”, ou ainda “Festa do Equador”. Alguém se fantasiou de Netuno, o deus dos mares, para dar “permissão para cruzar” a linha equatorial. Outra pessoa enfrentou um interrogatório de Netuno para obter sua bênção e até foi lavrado um documento em nome da “Antiga Ordem das Profundezas”. Hoje em dia, em um tempo onde muitas tradições se perdem rapidamente, não sei se esse tipo de comemoração ainda acontece nos navios pelo mundo afora, mas durante a Segunda Guerra era ainda bem popular. Existem até fotos de tripulações de submarinos alemães realizando esse tipo de evento em plena luz do dia e com muita gente fantasiada.

As 15:30 o Boeing 314 com Roosevelt e seu grupo amerissou na baía do Guajará, após terem voado quase 2.000 quilômetros. O presidente desembarcou e foi recebido pelo vice-almirante Jonas Howard Ingram, Comandante da Força Naval do Atlântico Sul, cuja base ficava em Recife. Junto a ele estava o brigadeiro general Robert LeGrow Walsh, Comandante Geral das Forças Armadas dos Estados Unidos na área do Atlântico Sul. A base do general Walsh era em Natal e sua casa de repouso ficava na Avenida Getúlio Vargas, próximo a conhecida Ladeira do Sol, onde hoje se situa o prédio do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Norte.

Roosevelt não circulou por Belém, provavelmente nem foi visto por alguém da cidade, pois ficou fortemente protegido por militares na área de Val-de-Cans, palestrando com seus oficiais. Talvez preparando o seu encontro com Getúlio Vargas em Natal, após o retorno do Norte da África. Enquanto isso os Clippers recebiam carga máxima de gasolina para o voo transatlântico.

Pouco antes das sete horas da noite os hidroaviões decolaram para a cidade de Bathurst (atual Banjul), capital da Gâmbia, em um percurso sem escalas de quase 3.900 quilômetros e completados em 19 horas.

Testemunhando a Miséria Provocada Pelo Colonialismo Britânico

Naquele dia 13 de janeiro, por volta das quatro e meia da tarde, as aeronaves sobrevoaram a foz do rio Gâmbia. O segredo deles foi guardado com tanta perfeição que a chegada foi aceita como um voo de rotina. Quando o presidente desembarcou, ele cumprimentou o capitão Cone e sua tripulação pela excelente viagem. Essa foi a última vez que os tripulantes viram ou ouviram falar do presidente e do seu grupo por duas semanas. Mas as ordens dos aviadores da Pan American eram para esperar e os dois Clippers ficaram em Bathurst.

O cruzador de escolta USS Memphis (CL-4).

No rio cercado de manguezais havia dois navios de guerra. Um maior, com quatro chaminés e aspecto meio antiquado, e um menor, com uma chaminé e com jeito de ser uma construção mais recente. Ali estavam respectivamente o cruzador de escolta USS Memphis (CL-4), lançado ao mar em 1920, e o destroier USS Somers (DD-381), com apenas seis anos no mar.

O destroier USS Somers (DD-381).

Oito dias antes em Recife, Pernambuco, através da ordem número 041643, emitida pelo almirante O. M. Read, Comandante da 2ª Divisão de Cruzadores (Commander Cruiser Division Two – ComCruDiv 2) da marinha americana, os dois navios partiram para a Gâmbia. Foi o prático Nelson Campos que com calma e tranquilidade tirou o Memphis do porto. A frente dessa nave o ágil USS Somers seguia abrindo caminho e caçando submarinos inimigos.

Esses navios chegaram à foz do rio Gâmbia em 10 de janeiro, mas a travessia Atlântica não ocorreu sem incidentes. O USS Omaha levava hidroaviões Vought OS2N-1 Kingfisher e no dia 8, no meio do caminho, os oficiais decidiram catapultá-lo para realizar uma patrulha em busca de submarinos inimigos. A patrulha não deu em nada, mas ao amerissar houve um problema e o hidroavião foi considerado perdido. Os aviadores Thomas A. Wood e M. Loeffler foram salvos e na sequência o USS Somers abriu fogo com um dos seus canhões e afundou o que restava do Kingfisher.

Hidroavião Vought OS2N-1 Kingfisher.

Ainda havia claridade quando Roosevelt desembarcou do Clipper na Gâmbia, onde a Grã-Bretanha mantinha uma de suas mais antigas colônias africanas. Ele foi então recebido pelo capitão H. Y. McCown comandante do cruzador Memphis e sugeriu que se o presidente desejasse conhecer um pouco a região havia automóveis e barco para fazer um passeio pelo rio, onde o oficial da marinha britânica E. F. Lawder poderia mostrar o que havia. Roosevelt determinou o passeio de barco.

O diário oficial de sua viagem na época e recentemente publicado na Internet pela Casa Branca (o link está no final do texto) aponta que o passeio demorou meia hora e que “muitos pontos de interesse foram observados ao longo da orla. Várias embarcações, incluindo um tender, petroleiros e barcaças” e que a população local “prestavam pouca ou nenhuma atenção às baleeiras que passavam”. Em outubro de 1995, o historiador americano Donald Wright, professor de história na State University of New York, escreveu na revista American Heritage (Volume 46) que para o capitão George E. Durno, cronista oficial da viagem, o passeio de baleeira pelo porto deu ao presidente “sua primeira boa olhada na cidade incrivelmente sórdida e infestada de doenças”. George Durno continuou: “Entre as docas encardidas havia inúmeras barcaças e barcos abandonados e enferrujados, literalmente repletos de crianças negras e seus pais – os barcos encalhados e ancorados aparentemente servindo de lar para uma parte da população da orla. Na brisa fresca da noite, o rio ao longo do centro de Bathurst cheirava a peixe podre e esgoto”.

Britânicos agindo como britânicos na África no século XIX – Fonte – https://medium.com/sunnya97/british-colonialism-and-social-change-in-the-metropole-4bd87996aeec

E no outro dia a coisa foi ainda pior!

Após uma noite tranquila no cruzador Memphis, o presidente americano e seus conselheiros acordaram antes do amanhecer, pegaram a baleeira até Bathurst e seguiram pela cidade por quinze quilômetros em direção a base aérea de Yundum, pertencente à RAF (Royal Air Force – Real Força Aérea). Informes apontam que enquanto ele passava de barco pelo rio e depois foi conduzido pelas ruas de Bathurst, o presidente Roosevelt – o líder que se preocupou em libertar sua gente da miséria provocada pela “Grande Depressão” de 1929, ajudando a prover seu bem-estar básico através do plano conhecido como “New Deal” – ao lançar seus olhos sobre a pior situação que o colonialismo britânico poderia apresentar, ficou extremamente consternado.

Donald Wright aponta em seu artigo que em 1943 Bathurst era uma das cidades mais insalubres e miseráveis do planeta. A maioria dos gambianos tinha malária, mas, de acordo com relatórios médicos britânicos, as doenças respiratórias foram “as que mais causaram danos”. A bouba era “moderadamente abundante”. Um em cada quatro residentes da maioria das aldeias mostrando “indicações óbvias (feridas abertas) de bouba tardia”. Vermes e infecções intestinais eram “quase universais”; vinte por cento dos gambianos tinham tracoma; a cegueira era “comum”. E havia mais: cada aldeia de qualquer tamanho tinha dois ou três leprosos, e a sífilis e a gonorreia eram quase epidêmicas em partes de Bathurst. As crianças pequenas enfrentavam o pior. Muitas tinham baços aumentados, a conjuntivite era crônica, doenças de pele parasitárias eram comuns, assim como as secreções nasais e a esquistossomose. Devido à prevalência de doenças e às condições higiênicas em geral, a taxa de mortalidade era muito alta e a expectativa de vida era de apenas 26 anos.

Roosevelt ficou horrorizado com a miséria que viu e essa experiência contribuiu para aumentar a crescente antipatia que o presidente dos Estados Unidos tinha pelo colonialismo praticado pelo Império Britânico e pela República da França.