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HISTÓRIA DE LAMPIÃO DEVE GANHAR TRILOGIA GRAVADA NOS MOLDES DE O SENHOR DOS ANÉIS

4-Lampião gostava de mostrar-se um homeme inteligente perante as câmeras
Lampião

Diretor planeja filmar simultaneamente os três longas que irão compor épico nordestino

Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, já foi retratado algumas vezes no cinema, como em Baile Perfumado (1997) e A luneta do tempo (2016). E, no próximo ano, o mais célebre dos cangaceiros deve ganhar a tela grande em projeto ambicioso: uma trilogia gravada no Sertão nordestino, com lançamento do primeiro filme em 2018. 

“É um resgate histórico”, diz o diretor estreante Bruno Azevedo, que já atuou como assistente de direção e esteve à frente de curtas e documentários. “A ideia é fazer como Peter Jackson em O senhor dos anéis e O hobbit“, explica o cineasta sobre a proposta de gravar os três longas simultaneamente, como ocorreu nas filmagens dos épicos inspirados na obra de J.R.R. Tolkien. 

E, assim como nas duas séries de fantasia, a produção dos filmes de Lampião deve ser de grandes proporções. “Somente na parte técnica, deve envolver mais de 300 pessoas”, afirma Azevedo, que espera iniciar as filmagens ainda em 2017, para estrear o primeiro filme a tempo do aniversário dos 80 anos de morte de Virgulino Ferreira, em junho do próximo ano. A intenção é lançar segunda e terceira partes em 2019, com alguns meses de diferença. 

O diretor pretende rodar os filmes nos locais por onde o bando de Lampião passou, incluindo a cidade natal do cangaceiro, Serra Talhada, no sertão de Pernambuco. Atualmente a trilogia está em desenvolvimento e a pré-produção deve ter início em setembro.

EXISTE NO YOU TUBE UMA ENTREVISTA DE 2015 SOBRE ESTE FILME, COM O DIRETOR.

FONTE – http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2017/03/22/internas_viver,695372/historia-de-lampiao-deve-ganhar-trilogia-gravada-nos-moldes-de-o-senho.shtml

O WOODSTOCK NORDESTINO

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Cartaz do evento

Texto – Rostand Medeiros

Em uma quinta-feira comum na capital pernambucana, mais precisamente no dia 9 de novembro de 1972, o tradicionalíssimo Diário de Pernambuco publicava no Segundo Caderno, na quinta página, uma pequena nota que em muitos aspectos era diferenciada e um tanto inusitada.

Explicava que no sábado, dia 11 de novembro, aconteceria no palco de Nova Jerusalém, no distrito de Fazenda Nova, município de Brejo da Madre de Deus, a 200 quilômetros de Recife, o evento denominado “Feira Experimental de Música”.

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Grupo Nuvem 33 entre as colunas do palco de Nova Jerusalém em 11 de novembro de 1972 – Fonte – http://cabelosdesansao.blogspot.com.br/2008/09/um-cearense-na-lira-paulistana_10.html

Segundo os organizadores a ideia tinha o objetivo de mostrar o trabalho de vários conjuntos musicais fora do âmbito comercial que despontavam em Recife e outras cidades do Nordeste. O horário seria “do pôr, ao nascer do sol”, com entrada gratuita, participação de vários artistas, sem premiação, nem jurados e com o pensamento de “ouvir o som do cara que toca berimbau no Mercado de São José e também o som de Laílson, com uma guitarra que tem tanto botão que parece uma central elétrica”.

E como foi esta intensa noite no agreste pernambucano!!!

Tempos Nebulosos

Os primeiros anos da década de 1970 no Brasil foram momentos bem complicados.

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Golpe de Militar em 1964, 30/04/1964. Tropas do Exercito saem as ruas e tomam o Palácio do Campo das Princesas em ação rápida. Credito: Reprodução / Petrônio Lins/Arquivo/DP.

Havia a Ditadura Militar, que apertava o garrote contra a sociedade brasileira de várias maneiras e uma forte repressão. Na área artística eram censurados filmes, peças teatrais, músicas e discos.

Na provinciana e caliente Recife, então a terceira maior metrópole do país, o momento conturbado foi sentido de muitas maneiras. Logo após a deflagração do Golpe Militar, em 31 de março de 1964, a capital pernambucana foi um dos lugares que mais sofreu atrocidades dos golpistas, tendo civis agredidos e mortos em passeatas que protestavam a favor da democracia. Tempos depois, em 25 de julho de 1966, opositores da ditadura explodiram uma bomba no saguão do Aeroporto Internacional do Recife.

No início da década de 1970 a barra estava pesadíssima. Até mesmo um núcleo do famigerado Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, o conhecido DOI-CODI, local de tortura aos opositores do Regime Militar, foi instalado na cidade e ficava localizado ao lado do antigo quartel do 4º Exército.

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Fonte – cpdoc.fgv.br

A capital pernambucana vivia um momento pesado, nebuloso, cinzento. Mas por outro lado, chegavam do exterior as luzes de uma nova cultura.

Nos anos 1960 muitos jovens passaram a contestar, a nível mundial, a sociedade e a pôr em causa os valores tradicionais e o poder econômico. Seguindo esses movimentos de contestação, muita gente buscou várias alternativas a uma sociedade repressora e “careta”. Descontentes com a sociedade de consumo jovens começaram a formar grupos pelo mundo afora, desenvolvendo interessantes comunidades alternativas, celebradas por variados músicos e artistas, em meio a uma intensa explosão criativa.

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Poster oficial do festival.

 

A celebração popular mais significativa daqueles dias sem dúvida aconteceu em 1969, com o grande encontro de três dias de música, paz e amor no Festival de Woodstock, no Estado de Nova York.

Em terras tupiniquins, em meio ao clima cinzento e pesado, a interessante experiência de viver em comunidades afastou muitos jovens dos diplomas universitários, dos planos familiares de um “futuro garantido” e da ideia de uma profissão tradicional e segura. Entretanto, foi entre os músicos que o ideal de levar uma vida longe da pressão do sistema vigente nas grandes cidades prosperou com mais sucesso.

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Recife na década de 1970.

No Recife, o mesmo espírito mobilizou vários músicos e algum tempo depois aconteceria um evento que seria definido pelo jornalista Celso Marconi como “Uma espécie de Woodstock cabra da peste”.

Figuras Especiais

Muitos dos jovens músicos que tocavam nas grandes cidades brasileiras durante a década de 1960 geralmente se apresentavam com suas bandas em bailes, onde tanto tocavam covers de grupos estrangeiros, como os sucessos populares que eram executados nas rádios. Mas em meio a toda inquietação política, a crescente efervescência cultural, influências musicais do exterior, muitos destes jovens desejavam apresentar um material próprio e diferenciado.

Em Recife esta situação é amplificada pela existência de uma congregação de músicos com extremo talento, que estavam dispersos e buscavam ampliar os horizontes musicais.

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Laílson Cavalcanti, ilustrador, cartunista, músico e pesquisador – Fonte – http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Lailson&ltr=l&id_perso=278

Um deles era Laílson de Holanda Cavalcanti. Membro de uma família considerada abastada de Recife fez intercâmbio nos Estados Unidos, mais precisamente em Arkansas. Musicalmente ativo nos “States”, Laílson chegou a montar por lá uma banda onde tocavam músicas do guitarrista Jimi Hendrix e do grupo Creedence Clearwater Revival. Voltou a Pernambuco com mil ideias na cabeça.

Outro destes jovens era Luiz Augusto Martins Côrtes, mais conhecido como Lula Côrtes. Filho de militar, nascido na Base Aérea de Recife, havia morado no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, mas voltou à cidade natal ainda adolescente. Consta que, em razão do trabalho do pai, conseguiu uma maior aproximação com estrangeiros e informações privilegiadas sobre os acontecimentos musicais de fora – gostava de Rolling Stones e Bob Dylan, e ficou sabendo de Jimi Hendrix bem antes de seus conterrâneos. Mesmo sendo oriundo de uma família abastada, resolveu largar tudo quando ainda era moleque, deixou o cabelo crescer e foi morar na rua. Era um hiperativo que dividia seu tempo entre o desenho e o seu inseparável (e legendário) tricórdio.

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Lula Côrtes e seu tricórdio.

Outra figura importante deste contexto foi Marco Polo Guimarães, um ex-acadêmico de Direito e poeta. Com 16 anos atreveu-se a mostrar seus poemas a Ariano Suassuna e a Cesar Leal. Foi aprovado pelos dois e lançou seu primeiro livro em 1966. Dois anos depois começou no jornalismo e depois seguiu de carona para o Rio de Janeiro e na sequência São Paulo. “Na cidade que nunca dorme” Marco Polo conheceu o conterrâneo Fernando Portela, um dos editores do Jornal da Tarde, o JT, e conseguiu trabalho. Mas acabou voltando para a capital fluminense, onde vivia de trabalhos freelance para a editora Bloch. Logo virou hippie, trabalhando como artesão na desbundada Praça General Osório, em Ipanema. Consta que nessa temporada no sul maravilha, Marco Polo escreveu e compôs muito. Quando retornou a Recife, no final de setembro de 1972, encontrou uma cena musical efervescente, cheia de gente criativa e talentosa, prontos para despejar energia em suas composições.

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Marco Polo, jornalista, poeta, escritor e compositor – Fonte – http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?id_perso=1051&ltr=m&titulo=Marco+Polo+Guimar%C3%A3es

Uma banda da época, Os Selvagens, era formada por jovens de classe média baixa – entre eles, o magricela estudante de engenharia Almir de Oliveira, o percussionista Agrício Noya e o talentoso guitarrista Ivson Wanderley, o Ivinho, além de Bira e Rafles. Anos antes, Almir já havia sido apresentado a Marco Polo por Rafles, amigo que era “tipo um imã, agregava todos ao redor dele”, como lembra o jornalista. O mesmo Rafles que, por volta de 1968, era considerado o “pirado” de plantão do Recife. Entre suas maluquices nunca esquecidas está a de enviar, pelo correio, um reforçado baseado, em legítimo papel Colomy, para Paul McCartney. Meses depois, ele recebeu a resposta do Beatle: uma foto autografada como agradecimento.

A aproximação foi inevitável e logo foi criada uma banda, ainda sem nome e cuja estreia ainda não tinha data marcada.

Mas logo esse dia iria chegar.

Os Cabeludos em Nova Jerusalém 

Enquanto isso, no início do mês de novembro de 1972, no teatro ao ar livre de Nova Jerusalém, o “sonho de pedra” idealizado pelo gaúcho Plínio Pacheco, estava sendo preparada a encenação da peça Calígula, do francês Albert Camus. Dirigida pelo teatrólogo e ator José Pimentel, tendo como atores os mesmos que realizavam a já famosa encenação da “Paixão de Cristo”.

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Encenação da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém na década de 1970.

A apresentação aconteceu no sábado, 4 de novembro, foi um sucesso, com público estimado em três mil pessoas e contou até com a presença do cônsul francês no Recife, o Monsieur Jacques Boizet, que declarou que a peça realizada por aqueles atores brasileiros do agreste nordestino “superava as montagens francesas que ele havia assistido”.

Bem, depois de uma apresentação como essa, tão bem comentada pela imprensa recifense da época, era de se esperar outras atrações no mesmo estilo. Entretanto a Sociedade Teatral de Morada Nova, responsável pelo grande teatro ao ar livre, cedeu Nova Jerusalém para a realização de um festival de música ao ar livre, que seria igualmente produzido pelos diretórios acadêmicos dos cursos de medicina, geologia, arquitetura e engenharia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

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Eu não descobri como rolou a negociação e nem como se desenvolveu a parceria entre os responsáveis por Nova Jerusalém e a galera do DCE. Mas sei que para a coordenação do festival foi convidado Laílson Cavalcanti, então com apenas 19 anos de idade.

Evento teria dois dias de música, com entrada franca, onde a produção tinha o intuito terminantemente categórico da abertura de um espaço para o pessoal que fazia música alternativa, fora do circuito comercial. Estava aberto tanto para a rapaziada de Recife, como músicos de outras cidades do Nordeste.

O evento foi oficialmente intitulado “I Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém” e tinha como lema “Abrir os portões do teatro e as portas da percepção”.

Os artistas convidados, em sua grande maioria, tinham a ideia de produzir uma música aberta às referências do rock estrangeiro e das especificidades das músicas produzidas no Brasil. Laílson Cavalcanti comentou anos depois “Era a música pela música, a expressão criativa pelo prazer de criar e apresentar uma proposta original”.

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Flávio Lira, o Flaviola, uma das atrações.

O “Woodstock nordestino” iria começar na noite de 11 de novembro de 1972.

Woodstock Cabra da Peste

Dentre os sites na internet, livros, trabalhos acadêmicos e outras fontes que comentam sobre este evento, consta que na Feira Experimental de Música participaram o próprio Laílson, Lula Côrtes, Marconi Notaro, Marco Polo e seus companheiros, Flávio Lira (cujo nome artístico era Flaviola) e o grupo Nuvem 33, onde um dos seus membros era Otávio Teremim e outro era o cearense Tiago Araripe. Araripe possuía uma forte vivência sertaneja, tinha morado até 1968 no Crato, Ceará e trazia sua experiência musical para a feira. Foram convidados pessoas como Jorge Mautner e Hermeto Pascoal (que não vieram). Da Paraíba foi convidada a cantora Katia de França.

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No Diário de Pernambuco (10/11/1972, pág. 7, Segundo Caderno), a organização do festival prometia que a música apresentada seria ouvida por “34 caixas de som, 10 amplificadores delta e transmitida por 16 microfones”.

No site http://cristianojeronimo.blogspot.com.br/A encontramos como foi a aventura de Marco Polo, Almir de Oliveira, Agrício Noya, Ivson Wanderley para tocar na feira –

A turma foi à Nova Jerusalém de ônibus, na sexta, dia anterior ao festival, para ajudar nos preparativos. Passaram a noite toda trabalhando e fazendo farra – quando amanheceu, estavam todos cansadíssimos, não haviam dormido. O único que tinha conseguido pegar no sono era Ivinho – que, na manhã de sábado, acordou com um dos olhos vermelho-sangue, por causa de um inoportuno derrame na vista. O show de estreia da recém-formada banda estava marcado para as 3h da madrugada. Almir de Oliveira mal se aguentava de sono e pediu que Laílson, o organizador, mudasse o horário para meia-noite. O pedido foi negado. “Eu sei que, quando deu uma, duas horas da manhã, eu arriei, fui dormir. E aí, quando deu três horas, acordei com Laílson e Ivinho me chamando”, lembra o baixista. A banda subiu ao palco com ele bêbado de sono e Ivinho tocando de costas para a plateia, de óculos escuros, por causa dos olhos sensibilizados.
Apesar do sufoco, foi ali que o grupo ganhou forma e nome: Tamarineira Village. Tamarineira era o nome de um hospício famoso na época em Recife, e o Village (que é pronunciado “Világe”) fazia referência à vila de comerciários da cidade, de onde vinham a maioria dos integrantes
”.

Sobre o show Marco Polo comentou que a banda fazia uma fusão da música tradicional do Nordeste com o rock. “Era uma coisa chocante na época ter uma banda influenciada por Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Beatles, Rolling Stones e Led Zeppelin”, comentou o músico e jornalista.

Já o Diário de Pernambuco (13/11/1972, pág. 5, Segundo Caderno) enviou um repórter para cobrir o evento e esta foi a sua visão.

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HIPPIES” INVADEM A NOVA JERUSALÉM E REALIZAM FESTIVAL
FAZENDA NOVA

(Do enviado especial) – As ruelas e palácios de Nova Jerusalém foram invadidos, sábado ao entardecer, por “hippies” e estudantes que, entre os sons de guitarras e a estridência “desordenada” de baterias, realizaram o primeiro festival de música de vanguarda de Pernambuco, com a denominação de I Feira Experimental de Música. O espetáculo, que começou às 17h30m do sábado terminando às 4 horas do domingo, reuniu cerca de duas mil pessoas.
A Banda de Música de Fazenda Nova e a Banda de Pífanos de Nova Jerusalém abriram a parada musical em meio a um entusiasmo sem precedentes dos jovens aglomerados ante o imponente Palácio de Pilatos. Seguiu-se a apresentação do conjunto Tamarineira Village, culminando com a exibição do Nuvem 33 e Flaviola. Os promotores do certame distribuíram questionários a fim de colher as impressões dos participantes do espetáculo, qualificado pelos observadores como “o primeiro grande passo para a completa renovação da música popular regional.

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Nuvem 33 entre as colunas do palco de Nova Jerusalém em 11 de novembro de 1972 – Fonte – http://cabelosdesansao.blogspot.com.br/2008/09/um-cearense-na-lira-paulistana_10.html

E como não poderia deixar de ser em um evento com esta finalidade, em termos de “viagens astrais” o “Woodstock cabra da peste” não deixou nada a dever para o original californiano: lendas dão conta que a plateia divertia-se tomando ácido dissolvido em baldes de Q-suco. “O ácido era distribuído ao público, cerca de duas mil pessoas, dissolvido num balde com K-suco”, testemunhou depois Marco Polo numa entrevista ao jornalista pernambucano José Telles (autor de Do Frevo ao Manguebeat, Editora 34).

Uma Ilustre Espectadora

Ao realizar a pesquisa sobre aquela noite “mutcho loka” no agreste pernambucano, eu descobri que entre os presentes na plateia estava uma senhora de 66 anos de idade, educadora, escritora e membro da honorável Academia Pernambucana de Letras. Estamos falando de Maria Dulce Chacon de Albuquerque Nascimento, mais conhecida por Dulce Chacon.

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Maria Dulce Chacon de Albuquerque Nascimento – Fonte – http://www.fernandomachado.blog.br/novo/?p=143723

Não tenho a mínima ideia das circunstâncias que levaram àquela senhora a Nova Jerusalém naquela noite. É possível que a presença de Dona Dulce Chacon se devesse a sua própria maneira de ser, que tinha muito de revolucionária.

Nascida no Recife em 8 de janeiro de 1906, era filha, sobrinha e neta de perseguidos políticos. Conviveu com a profusão de ideias e discussões sobre política, democracia e direitos do cidadão. Foi aluna da turma inaugural da Escola Normal de Pernambuco, onde liderou nesta Instituição uma das primeiras greves de estudantes no Brasil. Escolheu a carreira de professora por opção, por reconhecer nesta atividade um campo de atuação que lhe permitia colocar em prática suas ideias de uma nova educação; mais integradora e inclusiva. Paralelamente as sua atividades de educadora escreveu livros, quase todos voltados para sua área de interesse profissional e social.

No Diário de Pernambuco (17/11/1972, pág. 4, Primeiro Caderno), em um pequeno texto intitulado “A 1º Feira Experimental do Som”, a acadêmica Dulce Chacon comentou que assistiu “Um espetáculo espichando pela noite adentro”.

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Texto de Dulce Chacon no Diário de Pernambuco

Chamou-lhe atenção a desinibição dos rapazes e moças, todos a vontade, deitados e usando suas mochilas como travesseiros. Informou que muitos dos estudantes vinham de Recife, mas havia gente de João Pessoa, Maceió, Fortaleza e alguns da Pontifícia Universidade Católica (PUC) da Bahia, “com um conjunto de timbales”.

Para ela os grupos que se apresentaram foram dezessete, com nomes como Banda Quebra Resguardo, Bandavoou, Transa Geral, os já citados Nuvem 33 e o Tamarineira Village, que lembrou a acadêmica um grupo de hippies do Greenwich Village, de Nova York. 

Frutos

Mas certamente o melhor resultado da “I Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém” foram as parcerias surgidas entre os músicos, que gerou marcantes maravilhas para a música nordestina e brasileira e alguns dos discos mais cultuados da psicodelia brasileira.

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Capa de Satwa, de 1973 – Fonte – http://mimisdiscos.blogspot.com.br/2013/07/lula-cortes-e-lailson-satwa-1973.html

Interessante ressaltar que o festival aconteceu pouco tempo antes de um momento muito propício para aqueles músicos, pois pouco tempo depois – entre o final de 1973 e o início de 74 – a MPB estremeceu quando surgiram hippies-roqueiros como os Novos Baianos e os Secos e Molhados. As gravadoras do Sudeste descobriram que os jovens cabeludos e desbundados também podiam vender discos e gerar grana.

Foi neste festival que Laílson Cavalcanti conheceu Lula Côrtes e a sintonia foi total. Tanto que dois meses depois, em janeiro de 1973, eles lançavam “Satwa”, considerado um dos primeiros, se não o primeiro, LP independente do Brasil. Era uma mistura do som do Oriente com o do Ocidente, principalmente do blues. Um disco instrumental, para não ter que levar as letras à Polícia Federal.

Para ouvir “Satwa” clique aqui – https://www.youtube.com/watch?v=evmo6UC9rvo

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Desenho de Laílson Cavalcanti, publicado no Diário de Pernambuco, tendo como tema o grupo Phetus.

Depois do lançamento deste disco, Laílson e Lula seguiram caminhos distintos. Laílson criou o Phetus, grupo mais progressivo e barroco, com o guitarrista Paulo Rafael e Zé da Flauta. “Seria o que hoje a gente chama de world music”, ele afirmou anos depois.

Já Lula Côrtes se aproximou de um jovem paraibano que conheceu no festival. Era um magricela de 23 anos, natural de Brejo do Cruz, chamado José Ramalho Neto, mas conhecido como Zé Ramalho. Em Nova Jerusalém eles foram apresentados por um amigo comum, o artista plástico Raul Córdula.

Zé Ramalho e Lula Côrtes
Zé Ramalho e Lula Côrtes

Zé estava de saco cheio de tocar em bandas de iê-iê-iê, animando bailes em de João Pessoa e Campina Grande e desejava novos voos. Isso ele conseguiu com Lula Côrtes.

A amizade, as viagens e a parceria musical entre os dois se ampliou. Foi quando Raul Córdula convocou os jovens músicos para rasgar a trilha seca que partia de Ingá do Bacamarte, a 85 quilômetros de João Pessoa, rumo a Pedra do Ingá, um misterioso monólito, ornado com representações datadas de três a seis mil anos e considerado o maior sítio arqueológico de gravuras rupestre da América Latina.

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Pedra de Ingá – Foro – Rostand Medeiros

Naquele lugar a “viagem” dos dois músicos foi total e intensa. Dois anos depois do festival de Nova Jerusalém eles lançavam o LP “Paêbirú-Caminho da montanha do sol”, um clássico psicodélico do pós-tropicalismo que, além de acústicos destacam-se músicas como: “Nas paredes da pedra encantada”, “Pedra templo animal” e “Trilhas de Sumé”, todas dedicadas à Pedra do Ingá.

Paêbirú é das coisas mais malucas e assombrosas que já se fez na música brasileira, mas eu me surpreenderia muito se eu tiver mais de dois leitores que a conheçam. O nome é escrito assim mesmo, com a combinação agramatical de acentos. Foi gravado na Fábrica de Discos Rozenblit, em Afogados, Recife (empresa fundamental para a história da música pernambucana) e lançado imediatamente. Mas na terrível enchente de julho daquele ano no Recife, as águas do Capibaribe invadiram a fábrica e destruíram praticamente toda a prensagem do disco, com a exceção de 300 cópias que haviam sido levadas para a casa de Lula.

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Capa de Paêbirú Caminho da Montanha do Sol-1975

Dessas 300 cópias nasceu o mito, que é tão incrível que há gente que não acredita.

Basicamente este disco de vinil é o mais caro de toda discografia brasileira, onde um dos exemplares em bom estado pode alcançar cifras que giram em torno de R$ 5.000,00. Hoje é possível encontrar “Paêbirú” em CD, lançado pela Shadoks, um obscuro selo alemão. Em 2008 o selo inglês Mr. Bongo lançou este trabalho nas terras da rainha.

Para ouvir “Paêbirú” clique aqui – https://www.youtube.com/watch?v=uUyvtwSV6A8

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Lula Côrtes e Alceu Valença.

Lula Côrtes continuou produzindo músicas, tocando, lançando livros de poesia, até a madrugada do dia 26 de março de 2011 quando faleceu aos 61 anos, vítima de um câncer na garganta, no Hospital Barão de Lucena, Recife.

Já Zé Ramalho se tornou um dos maiores nomes da música brasileira.

O pessoal da banda Tamarineira Village saiu de Nova Jerusalém para começar uma caminhada que paulatinamente foi alargando horizontes em Recife. Segundo o vocalista Marco Polo, durante uma dessas viagens pelo Nordeste, eles encontraram com uma cigana no sertão paraibano, que sugeriu a mudança a mudança de nome da banda para Ave Sangria, pois sua música era livre e forte.

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Ave Sangria com a formação após a Feiras Experimental – Na frente Marco Polo, Agrício Noya, Almir Oliveira, Ivinho. Atrás Paulo Rafael e Israel Semente Proibhida.

Logo as apresentações do grupo chamaram a atenção do público, com um formato nada convencional dos seus shows.

O grupo Ave Sangria chegou a vir ao Rio para gravar um disco, cujo destaque foi o samba de breque “Seu Waldir”. O disco foi pouco divulgado pela gravadora, mas conseguiu relativo sucesso e vendeu bem no Nordeste e no Sudeste. Mas a música “Seu Waldir” acabou considerada uma apologia ao homossexualismo, quando não passava de uma brincadeira do irreverente grupo. Reza a lenda que a mulher de um general ouviu a música, achou um absurdo, e ela foi censurada. Pouco depois disso, a banda acabou. Interromperam as atividades em uma apresentação histórica em 1974, com o show Perfumes & Baratchos, no Teatro Santa Izabel, em Recife.

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Capa do LP do Ave Sangria.

Para ouvir o LP do Ave Sangria clique aqui – https://www.youtube.com/watch?v=ddDmEKE8ADU

Um dos membros do Ave Sangria, o guitarrista Ivson Wanderley Pessoa, o Ivinho, possui o mérito de ter sido o primeiro brasileiro a se apresentar no palco do 12º Festival Internacional de Jazz de Montreux, na Suíça, em 1978. Nesta época estava sendo formado um grupo de artistas brasileiros para se apresentar em Montreux, do qual faziam parte Gilberto Gil, Pepeu Gomes e o grupo A Cor do Som. Naquele ano Ivinho estava no Rio, onde realizou apresentações que chamaram à atenção do pessoal ligado a música na Cidade Maravilhosa e acabou convidado para ir para Suíça.

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Ivinho mandando ver em Montreux.

Foi para a Europa com apenas 25 anos, 50 dólares no bolso e uma viola de 12 cordas surrada. Mas ele surgiu no palco surpreendente, empunhando com galhardia seu instrumento e levando o público presente ao delírio. Com sua técnica e ‘feeling’ particular, Ivinho transformou sonoridades regionais em peças totalmente jazzísticas e psicodélicas. O show foi registrado em disco e lançado no Brasil, com excelente repercussão junto aos ouvintes de MPB e também à juventude ligada em rock and roll.

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Ivinho foi considerado por muitos como um dos maiores guitarristas da história do rock brasileiro, mas nunca conseguiu o devido reconhecimento. Faleceu em junho de 2015, de hemorragia digestiva, em decorrência de uma cirrose, no Hospital Otávio de Freitas, Tejipió, Recife.

Para ouvir Ivinho ao vivo em Montreux clique aqui – https://www.youtube.com/watch?v=iIpQyphKtG4

Houve outras histórias de parcerias, de discos lançados e shows alucinantes.

Mas ficou algum legado?

Com certeza!

Creio que o maior deles tenha sido esses músicos terem influenciado muitos outros jovens ao longo dos anos. Como um certo Francisco de Assis França Caldas Brandão, um rapaz que morava em Rio Doce, um bairro do subúrbio de Olinda. Graças aos amigos, com quem trocava discos e fitas K7, além da psicodelia setentista aqui tratada, ele conheceu o hip hop, a black music e se tornou Chico Science.

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Chico Science

O interessante é que muitos dos atuais fãs daqueles que estiveram no palco da “I Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém” é formada por jovens brasileiros e também por estrangeiros. O interesse por estas músicas e seus protagonistas voltou a ganhar força nos dias atuais com a internet, que facilita a circulação da informação do que rolava naqueles loucos anos da década de 1970.


FONTES

http://www.senhorf.com.br/revista/Edicao_41_nova/web/revista/Materias_editadas_41/ivinho.htm

http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2015/06/13/internas_viver,581040/morre-ivinho-guitarrista-do-ave-sangria.shtml

http://www.lailson.com.br/music.html

http://www.lailson.com.br/Senhor%20F%20-%20A%20Revista%20do%20Rock_arquivos/lailson.htm

http://blogs.diariodepernambuco.com.br/diretodaredacao/2016/03/22/quando-a-vaia-reinou-em-nova-jerusalem/

http://super.abril.com.br/cultura/paz-amor-e-baioneta

http://extra.globo.com/tv-e-lazer/a-psicodelia-pernambucana-revivida-no-palco-12023290.html

http://blogdovavadaluz.com/noticias-da-terrinha/ze-ramalho-na-pedra-de-inga-jornal-correio-desta-sexta-feira-11-de-setembro

http://cabelosdesansao.blogspot.com.br/2008/09/um-cearense-na-lira-paulistana_10.html

1927 – UM INTERESSANTE ARTIGO DE TÉRCIO ROSADO MAIA SOBRE O CANGAÇO

PUBLICADO NA IMPRENSA PERNAMBUCANA TRÊS DIAS APÓS O ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ, O TEXTO NADA COMENTOU SOBRE ESTE GRAVE EPISÓDIO!

Autor – Rostand Medeiros

Tércio Rosado Maia foi um potiguar nascido no dia 19 de agosto de 1892, em Mossoró, sendo o terceiro filho do farmacêutico paraibano Jerônimo Ribeiro Rosado e de Maria Amélia Henriques Maia, que faleceu justamente durante o parto de Tércio. Seu pai, como era o costume comum na época, logo contraiu matrimônio com Isaura Henriques Maia, sua cunhada.

Tércio Rosado Maia - (1892 - 1960)
Tércio Rosado Maia – (1892 – 1960)

O patriarca Jerônimo inicia a partir do nascimento de Tércio uma tradição singular na família Rosado de Mossoró. Tércio em Latim significa terceiro e seus irmãos que nasceram posteriormente foram batizados com números. Alguns em latim, mas a maioria com numeração existente no idioma francês.

Tércio se mostrou um homem de extrema capacidade, onde buscou ampliar muito dos seus conhecimentos através dos estudos. Já nos primeiros anos da década de 1910 concluiu o curso de farmácia na Escola de Medicina da Bahia. Dinâmico e atuante foi um dos pioneiros do cooperativismo no Rio Grande do Norte, responsável em 1915 pela criação da primeira cooperativa potiguar; a Sociedade Mossoró Novo. Consta que passou um tempo trabalhando na Estrada de Ferro de Mossoró e em 1925 deixou este emprego e passou a morar na capital pernambucana [1]. Ainda em Recife concluiu o curso de odontologia em 1929, o de Direito em 1940 e chegou até o 4º ano de medicina.

Mossoró, primeira metade do século XX - Fonte - blogdetelescope.blogspot.com
Mossoró, primeira metade do século XX – Fonte – blogdetelescope.blogspot.com

Mas voltando para a segunda metade da década de 1920, ao realizarmos uma pesquisa na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, descobrimos que nesta época Tércio Rosado estava em Recife não apenas aprendendo sobre dentes, ele igualmente começou a escrever na imprensa do Recife e a participar ativamente da vida intelectual da cidade.

Não sei quando e em qual periódico ele começou a escrever na capital pernambucana, mas vamos encontrá-lo assinando em 10 de abril de 1927 um interessante artigo sobre a chegada do hidroavião português “Argos” a Recife. O trabalho foi publicado na primeira página do Diário de Pernambuco, um dos mais respeitados jornais do Brasil naquela época[2].

Na sequência o nome de Tércio Rosado Maia começa a aparecer ocasionalmente na coluna “Estudos e opiniões”, onde trazia principalmente temas que iam desde o folclore nordestino, até mesmo assuntos internacionais. Quase sempre esta coluna era publicada nas primeiras páginas do Diário de Pernambuco.

Recife, Ponte da Boa Vista, primeira metade do século XX - Fonte - www.luizberto.com
Recife, Ponte da Boa Vista, primeira metade do século XX – Fonte – http://www.luizberto.com

Junto com sua atuação nos periódicos, Tércio também começou a fazer parte do Cenáculo Pernambucano de Lettras, uma das várias associações literárias que congregavam grupos de intelectuais em Recife. Nesta época também fazia parte desta associação o médico potiguar Abelardo Calafange.

Na continuidade das minhas pesquisas, encontrei na edição do Diário de Pernambuco de quinta-feira, 16 de junho de 1927, na segunda página, um interessante e pouco conhecido artigo escrito por Tércio Rosado Maia sobre os cangaceiros nordestinos.

O bando de Lampião. Foto realizada após a derrota em Mossoró, em Limoeiro do Norte-CE.
O bando de Lampião. Foto realizada após a derrota em Mossoró, em Limoeiro do Norte-CE.

Intitulado “A magistratura e a prophilaxya do cangaceirismo”, inicialmente clamava por uma ação mais ativa da magistratura contra os sobas das localidades interioranas, os portentosos coronéis que tanto contribuíam para a formação e a existência dos grupos de cangaceiros. Apesar da sua formação acadêmica em Direito só haver ocorrido treze anos após o famoso ataque de Lampião a Mossoró, Tércio Rosado escreveu este interessante texto com extrema segurança e desenvoltura em relação as suas opiniões.

Também trazia a sua visão sobre os fatores que determinavam a criação dos cangaceiros, classificando-os “por índole, degenerados e perversos”. Ainda sobre os cangaceiros no texto chama atenção quando Tércio Rosado apontou a ação positiva da magistratura potiguar no combate ao cangaço. Mas confesso que desconheço completamente a qual caso ele fez referência, que envolveu a ação de magistrados no combate a cangaceiros no Rio Grande do Norte.

Fonte - cariricangaco.blogspot.com
Fonte – cariricangaco.blogspot.com

O texto de Tércio Rosado Maia suscita muitos outros questionamentos e o mais importante estava no fato dele ter sido publicado apenas três dias após o ataque de Lampião e de seus homens a cidade de Mossoró. Mas no material publicado não existe uma única referência sobre este famoso ataque, ocorrido no dia 13 de junho de 1927.

Diário de Pernambuco, primeira página, 19 de junho de 1927.
Diário de Pernambuco, primeira página, 19 de junho de 1927.

Vale ressaltar que a primeira notícia do Diário de Pernambuco sobre o ataque a cidade natal de Tércio Rosado só foi publicada no dia 19 de junho, seis dias após a ocorrência dos episódios. Era uma pequena nota na primeira página, onde a empresa Leite Bastos & Cia. informou ter recebido um telegrama de Ramiro Queiroz comentando sobre o ataque, o pavor da população mossoroense, a morte do cangaceiro Colchete e a prisão do temido cangaceiro Jararaca.

Jornal do Brasil, edição de quarta-feira, 15 de junho de 1927, página cinco.
Jornal do Brasil, edição de quarta-feira, 15 de junho de 1927, página cinco.

Apesar dos sistemas de comunicação existentes no Nordeste brasileiro em 1927 não serem tão modernos, a notícia do ataque de Lampião a Mossoró logo alcançou locais muito mais distantes do que Recife. O periódico carioca Jornal do Brasil, edição de quarta-feira, 15 de junho de 1927, na página cinco, trazia uma nota intitulada “Audácias do Banditismo” e resumia o ataque dos cangaceiros a cidade potiguar.

Apesar de não ter descoberto quer era o Sr. Ramiro Queiroz, é inquestionável o atraso do conceituado periódico Diário de Pernambuco em publicar tão grave acontecimento ocorrido em uma cidade nordestina.

Sem mais delongas o leito poderá ler o artigo de Tércio Rosado Maia na íntegra, aqui reproduzido com a escrita original. As palavras marcadas em negrito seguem o padrão original do texto conforme foi publicado em 16 de junho de 1927.

Boa leitura!

Diário de PE-26-07-1927 (1)
Diário de PE-26-07-1927 (1)

“ESTUDOS & OPINIÕES”

A MAGISTRATURA E A PROPHILAXYA DO CANGACEIRISMO

Sobre os hombros do magistrado impende a tarefa principal de sanear o Nordeste da epidemia do Cangaço.

Este acerto cathegorico, tout court[3], nasce de um exame preciso da singular instituição que tanto estorva o progresso e a estabilidade da vida regional.

E tem a sua contra-prova, decisiva, fulminante, num exemplo irretorquível e brilhantíssimo: o caso do Rio Grande do Norte.

O magistrado, aqui no Nordeste quando não é, por sua incapacidade, fraqueza, e desorganização, o principal gerador do cangaceiro, significa o melhor prophylatico de que o governo, possa lançar mão para exterminar a praga do cangaço, ao nascedouro.

O magistrado, agindo dentro das normas estrictas do Dever e conscio de suas responsabilidades, representará no organismo da Região o papel de um phagocyto, insulando e eliminando os elementos tornados deletérios, e immunizando o meio de forma a faze-lo refractario a população de taes vírus de ruina e decomposição.

A dupla interrogação supra lançada, vou tentar uma resposta, procurando de caso passado, fazer abstração e idéias e conceitos todo-formados sobre o assunpto e atirados em circulação com a impertinência de dogmas.

Norteio meu esforço em ver com meus próprios olhos, e analysar com meu proprio senso analytico o problema do cangaço. E vejo afina, desvanecido e satisfeito, que as minhas conclusões em alguns pontos coincidem, e noutras se aproximam das idéias de outros que, reputadamente, souberam distinguir claro, no confuso phenomeno pathologico que é o banditismo no Nordeste.

O cangaceiro – o profissional do Cangaço, póde ser levado a este meio extremo de vida por diversos motivos. Ora, é a explosão destruidora de latentes instictos de ferocidade sanguinaria, conduzindo ao primeiro assassinato, elo inicial de uma cadeia maldita que acrescerá continuamente até o fim da vida. Dessa forma, surge a escoria do cangaço, a mais perigosa e perversa camada da classe.

São os seus componente criminosos-natos, individuos degenerados a quem o momento sobrevindo, aproveitam gostosamente a ensancha de se encarreirarem no crime.

Um outro grupo, esquerdo e apagado, exercendo a contragosto a singular profissão com um fatalismo melancholico e resignado, é formado pelos criminosos ocasionais, de diferentes matizes, os que por uma circumstancia fortuita, inesperada, uma fatalidade, emfim, bruscamente incidiram nas disposições punitivas do Codigo; e, sem coragem para enfrentarem a perda de liberdade ou os azares do jury, abrigam-se á impunidade aleatoria do cangaço…

Uma outra divisão ainda; a dos revoltados: se os dois primeiros grupos proliferam com a responsabilidade directa do magistrado, por que os meio de acção de este dispõem nem sempre permittem reduzir á obediencia das leis os elementos recalcitantes: os revoltados constituem uma reacção directa da magistratura viciosa e indigna.

O revoltado é o homem a quem a Sociedade, pela boca expressiva de seu magistrado, negou Direito, faltou justiça. Indignado, elle tenta fazer justiça por suas mãos, justiça que não é justiça, por que esta só póde ser impessoal e equânime. Dado o primeiro passo, o revoltado segrega-se do contacto social, homisiando-se em alguma fazenda distante, sua ou de algum amigo. Se não o incommodam, elle recobrará mais tarde sua anterior personalidade. De alcateia, porém, durante algum tempo, elle, sendo perseguido reage, lucta. Aggrega companheiros – parentes e asseclas, mantem o pequeno grupo em pá de guerra, no cangaço emfim; o trabalho descurado, intermitente, quasi ineficaz, já não repara as brechas feitas nas pequenas economias. Os recursos se exgottam; surge então os expedientes de pedidos de dinheiro, verdadeiras extorsões que a pequena tropa nomade vae fazendo sertão em fóra. Mais tarde as depredações e tropelias. Ou então o grupo cae sob o patrocinio de um potentado, senhor de engenho, dono de grandes latifundios, az ou rei no baralho da politica local. Este dá aos protegidos, muitas vezes, uma occupação pacifica; outras vezes os utiliza nas suas pazzias[4], ou emprezas políticas e… financeiras. Porque atingiu em zonas do interior, v. g.[5] nos Cariris cearenses, á perfeição de uma verdadeira exploração industrial.

O potentado sertanejo é um remanescente do feudalismo medieval; negue, embora, Sylvio Romero a verdade é que o desenvolvimento da colonia recapitula, atravez de formas fustes e camufladas; a história da metropole, e assim não há que extranhar em reconhecer no grande proprietário matuto, o neto do barão feudal.

Com a preoccupação de ostentar força e prestigio, a vaidade dos chefes sertanejos leva-os a acolher e amparar esta escumalha do crime, garantindo-lhe a manutenção e a impunidade. E timbram em afrontar os balbuciantes reclames da justiça local.

Esta, desamparada do poder central, assombrado pelo prestigio politico do temido coronel, reduz-se, annulla-se, dobrando, subserviente, ao capricho dos poderosos.

Vê-se, portanto, que geralmente, de tres fontes recruta-se o exercito do cangaço: os criminosos por indole, degenerados e perversos; os assassinos occasionaes em que se incorporam os criminosos passionaes e, por ultimo, os revoltados, os que torturados pela fome e pela sêde de justiça arvoram contra a Sociedade – emulos de Miguel Kohlhaos, herói citado por Ihering[6] – bandeira sangrenta da rebellião.

Enquadrando o conjuncto, fornecendo ao meio de cultura de taes germens os elementos nutritivos substanceais. A figura bastarda de juiz pulsilaneme e desmoralizado, e a catadura bronca do despota sertanejo, chefe politico ou magnata da roça. Cabe, indiscutivelmente, á Policia Militar de todos os Estados interessados, e actuando combinadamente, como já esta se fazendo[7], a destruição de nucleos de bandidos que, exacerbados pela passagem das hordas de Prestes, e dellas tendo recebido admiraveis licções de uma tactica irreprehensivel, mostram agora uma audacia e mobilidade espantosas[8]. E tambem a esta policia impede a vigilancia manu miltari[9], sem condescendencias, e por um largo tempo ainda, de certas paragens mal afamadas que a experiencia historica assignalou como outros tantos locais habituaes de formação cangaceira.

Mas é a magistratura, que devidamente apparelhada, se antolha, principalmente, a grande e nobilitadora tarefa de sanear o Nordeste, esterilizando o ambiente social sertanejo, de maneira a tornar antecipadamente inviaveis, essas larvas monstruosas do Crime: os cangaceiros.

Pode a magistratura realizar este ambicionado desideratum[10]? Póde; dil-o com segurança, o Rio Grande do Norte.

Ouçamol-o, um pouco em sua historia.

Recife 14-6-927

Tercio Rosado Maia. 

Diário de PE-26-07-1927
Diário de PE-26-07-1927

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Mesmo tendo sido escrito no dia 14 de junho de 1927 e publicado dois dias depois, não tenho como afirmar se o motivo de Tércio escrever este texto foi devido ao ataque de Lampião a Mossoró, ou outra razão. Encontrei uma referência sobre este artigo no livro “Lampião, senhor do sertão: vidas e mortes de um cangaceiro”, da francesa Elise Grunspan-Jasmin, na página 223 (EDUSP, 2006).

Considerado um dos maiores intelectuais mossoroenses, Tércio Rosado foi também professor em Mossoró, onde lecionou na Escola Normal e no Ginásio Diocesano Santa Luzia, onde seus cursos práticos de agricultura marcaram época. Já no Recife exerceu o magistério na Faculdade de Comércio, Escola Politécnica, Escola Normal Pinto Júnior, Ateneu Pernambucano, Faculdade de Farmácia da Universidade do Recife, Ginásio Pernambucano, Colégio Santa Margarida e Colégio Vera Cruz.

Tércio Rosado Maia faleceu em 8 de novembro de 1960, aos 68 anos de idade.


NOTAS

[1] Ver Diário de Pernambuco, edição de 27 de junho de 1926, página 10.

[2] Ver Diário de Pernambuco, edição de 10 de abril de 1927, 1ª página. O hidroavião português “Argos” havia realizado naquela época a primeira travessia noturna do Oceano Atlântico, era pilotado pelo militar Sarmento de Beires e havia amerissado no Rio Potengi, em Natal, poucos dias antes.

[3] Tout court – Expressão francesa que significa – sem mais nada, simplesmente, tal qual, sem nada a acrescentar. De um modo geral era comum nas primeiras décadas do século passado o uso de expressões em língua estrangeira, principalmente em francês, nos textos publicados pelos intelectuais brasileiros. Tal como acontece atualmente com o inglês.

[4] Pazzias – Em italiano, no plural, significa – loucuras, demências, insanidades.

[5] V.g. – Abreviatura da expressão em Latim verbi gratia, que significa – por exemplo.

[6] Quase certamente nesta parte deste texto houve um erro de transcrição do alemão para o português. Tércio Rosado Maia não comenta sobre uma pessoa, mas sobre um livro intitulado “Michael Kohlhaas” e escrito pelo dramaturgo, poeta e contista alemão Heinrich von Kleist (1777 – 1811). Neste livro Kleist conta a história do negociante de cavalos Michael Kohlhaas, que se engaja contra uma injustiça praticada contra ele. A história do livro se passa em meados do século XVI e a obra foi escrita em 1810, porém, apesar dos mais de 215 anos, é considerado um livro muito atual. As discussões que suscita vão desde os meios que são permitidos na busca da justiça até questões mais amplas como o ideal subjetivo versus a realidade mundana, a liberdade individual versus a opressão governamental, o povo versus o poder. Trata-se de uma história de impotência. Tanto o tema da busca fanática pela justiça quanto o estilo, espécie de crônica longa, são surpreendentemente modernos. Ver – http://www.sul21.com.br/jornal/a-necessidade-de-justica-e-a-solidao-de-michael-kohlhaas/ 

[7] Em 12 de dezembro de 1926, o advogado Estácio Coimbra assume o mais alto cargo no Poder Executivo de Pernambuco. Neste novo governo foi designado como Chefe de Polícia (cargo equivalente atualmente ao de Secretário de Segurança) o também advogado Eurico Souza Leão. Este era filho de tradicional família de plantadores de cana do litoral, morava no Rio de Janeiro, mas não recusou o pesado trabalho. Logo marcou uma reunião para promover convênios com os estados vizinhos, visando uma ação contra o cangaço, contando com o apoio do governador Coimbra. É sobre esta ação combinada entre os Estados que comenta no texto Tércio Rosado. Além desta ação conjunta, ocorreram nos primeiros meses de 1927 outras ações referentes a ação da segurança pública contra os cangaceiros no interior pernambucano que logo trouxeram resultados positivos. Quando completava seis meses a frente do cargo, no dia 11 de junho de 1927, através da imprensa pernambucana, Eurico Sousa Leão divulgou uma lista com o nome, alcunha e fatos ligados a captura ou morte de 100 cangaceiros de diversos bandos que infestavam o sertão.

[8] Acredito que se os cangaceiros receberam algumas das “admiraveis licções de uma tactica irreprehensivel” dos membros da famosa Coluna Prestes, só se foi à distância. Inexistem informações de contatos amistosos entre cangaceiros e membros da famosa coluna de revolucionários comandados por Luís Carlos Prestes, quando estes percorreram vários estados nordestinos em 1926. Neste mesmo, na cidade cearense de Juazeiro do Norte e com o beneplácito do Padre Cícero, Lampião recebeu a famosa e controversa patente de capitão. Junto com a deferência vieram muitas armas modernas, munições e fardamentos para o bando do famoso cangaceiro. O objetivo do Padre Cícero e de outras autoridades era de contar com o reforço dos cangaceiros no combate aos revolucionários de Prestes. Ao perceber o nível de comprometimento e preparo dos homens que compunham a coluna de revoltosos, de forma matreira Lampião evitou o confronto com os revolucionários e voltou à vida errante de cangaceiro, mas agora muito melhor armado e municiado. Este último fato é o que, apesar de toda repressão sofrida, tornou os cangaceiros de Lampião mais audaciosos na primeira metade de 1927.

[9] Manu militari é uma locução latina que significa, literalmente, “com mão militar”, ou seja, “com uso de força militar”. Usa-se a propósito de ações cumpridas mediante o uso da força das armas ou com emprego de força policial ou força armada.

[10] Desideratum – Palavra do Latim que significa aquilo que é objeto de desejo, aspiração, pretensão.

MALBA TAHAN – A AMIZADE COLORIDA ENTRE A MATEMÁTICA E A LITERATURA

Reprodução/theatlantic.com
Reprodução/theatlantic.com

A arte da escrita leva vantagem no duradouro relacionamento com a ciência exata. Da interação, surgiu o subgênero “ficção matemática”, cujo expoente brasileiro é Júlio César de Melo e Sousa, mais conhecido pelo pseudônimo Malba Tahan 

A voz romântica de Roberto Carlos usou uma expressão matemática, em 1971, para resumir uma fossa amorosa: “Tudo em volta está deserto, tudo certo. Tudo certo como dois e dois são cinco”. Muito antes de a canção composta por Veloso existir, contudo, o escritor George Orwell havia mencionado a soma com resultado errado no clássico 1984 (1949). Era exemplo de falso dogma (se todo mundo acredita, isso se torna verdade?). Mas ele também não foi o primeiro. Quase um século antes de Orwell, Dostoievski já relativizava a questão em Notas do subterrâneo (1864): “Seja como for, ‘duas vezes dois igual a quatro’ é bem insuportável. (…) De mãos nos quadris, ela se atravessa no caminho e nos cospe na cara. Admito que seja uma coisa excelente, mas, se é preciso louvar tudo, eu vos direi que ‘duas vezes dois igual a cinco’ é também, às vezes, uma coisinha muito encantadora”.

Júlio César de Melo e Sousa (Rio de Janeiro, 6 de maio de 1895 — Recife, 18 de junho de 1974), mais conhecido pelo heterônimo de Malba Tahan
Júlio César de Melo e Sousa (Rio de Janeiro, 6 de maio de 1895 — Recife, 18 de junho de 1974), mais conhecido pelo heterônimo de Malba Tahan

Não é possível precisar ao certo quando começou o namoro entre literatura e matemática, mas sem dúvida a arte da escrita leva vantagem no duradouro relacionamento com a ciência exata. Da interação, surgiu o subgênero literário “ficção matemática”, do qual um dos maiores expoentes brasileiros é Júlio César de Melo e Sousa (1875-1974), mais conhecido pelo pseudônimo Malba Tahan, com o qual assinou o bestseller O homem que calculava (1938), agora relançado pela editora Record, em comemoração aos 120 anos de nascimento do autor, um dos ocupantes da Academia Pernambucana de Letras, embora fosse carioca. 

No clássico da literatura brasileira, traduzido para mais de dez idiomas, um jovem árabe conquista reis, poetas e sábios ao resolver problemas aparentemente sem soluções por meio do raciocínio lógico. “Na obra do matemático e romancista as fórmulas ou equações matemáticas surgem de maneiras tão sutis quanto o conteúdo literário, como também ocorre em algumas publicações de Monteiro Lobato e Lewis Carrol (autor de Alice no País das Maravilhas)”, diz o doutor em educação matemática Maurílio Antônio Valentim, professor do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora.

Fonte - miconuncamais.blogspot.com
Fonte – miconuncamais.blogspot.com

Se, para alguns, os cálculos, fórmulas e medidas soam pouco atraentes (talvez fruto de traumas decorrentes do ensino fundamental e médio), esse universo ganha novos ares quando associado à habilidade de escrever de maneira lúdica. Ao fazer as pazes com os números, fica mais evidente o potencial da matemática de seduzir por meio da complexidade, da precisão, dos enigmas, de quebrar a cabeça do leitor.

Para alcançar tal feito, personagens consagrados como Emília, do Sítio do Pica Pau Amarelo, e Sherlock Holmes, o detetive da obra de Arthur Conan Doyle, chegaram a protagonizar livros-desafios. Mas não é regra. Publicações como O teorema do papagaio, de Denis Guedaj, Tio Petrus e a conjectura de Goldbach, de Apostolos Doxiadis, e O diabo dos números, de Hans Magnus Enzesberger, conquistaram grande séquito de fãs pelo mundo com personagens aparentemente ordinários e abordagens da matemática extraordinárias.

Junto com seus filhos - Fonte - www.malbatahan.com.br
Junto com seus filhos – Fonte – http://www.malbatahan.com.br

Há ainda, narrativas com figuras reais, como o filósofo Bertrand Russell, peça essencial na elaboração de fundações lógicas do pensamento matemático. Na história em quadrinhos Logicomix – Uma jornada épica em busca da verdade, o estudioso se aventura no mundo dos cálculos. Independente do método, o importante, segundo o próprio Malba Tahan, era conjugar entretenimento e educação de maneira adequada, pelo bem do aprendizado e crescimento individual. Ou, como dizia o protagonista de O homem que calculava: “Por ter alto valor no desenvolvimento da inteligência e do racioncínio, é a matemática um dos caminhos mais seguros por onde podemos levar o homem a sentir o poder do pensamento, a mágica do espírito”.

PARA LER >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>

O homem que calculava, de Malba Tahan (Record, R$ 45)

Logicomix – Uma jornada épica em busca da verdade, Apostolos Doxiadis e Christos Papadimitriou (Martins Fontes, R$ 72)

Tio Petrus e a conjectura de Goldbach, de Apostolos Doxiadis (Editora 34, R$ 38)

O diabo dos números, de Hans Magnus Enzesberger (Companhia das Letras, R$ 38,90)

O teorema do papagaio, de Denis Guedaj (Companhia das Letras, R$ 51,50)

>>>>>>>>>>>>> MORTE NO RECIFE 

Júlio César de Melo e Sousa estava de passagem pelo Recife, em 1974, para uma série de palestras sobre educação, quando morreu, aos 79 anos, vítima de ataque cardíaco. Doze horas antes do incidente, o então repórter do Diário de Pernambuco Geneton Moraes Neto havia entrevistado o matemático e escritor. Mais de quatro décadas depois, pedimos ao jornalista para rememorar a experiência. Confira o depoimento exclusivo:

A ÚLTIMA FALA, O PRIMEIRO SUSTO

O conhecido jornalista Geneton Moraes Neto foi um dos últimos a entrevistyar Malba Tahan - Fonte - Reprodução/Facebook
O conhecido jornalista Geneton Moraes Neto foi um dos últimos a entrevistyar Malba Tahan – Fonte – Reprodução/Facebook

“Deve ter sido o primeiro susto que tive no jornalismo. Repórter iniciante, eu tinha meus dezessete anos de idade. Trabalhava no Diário de Pernambuco à tarde e fazia o primeiro ano de jornalismo na Universidade Católica à noite. Quando cheguei para trabalhar, pouco antes das duas da tarde, o então chefe de reportagem, Ricardo Carvalho, me perguntou, ansioso: “Você guardou alguma coisa da entrevista com Malba Tahan ou usou tudo na matéria que saiu no jornal de hoje? “.  Respondi com uma pergunta: “…Mas por quê?”. E ele: “O homem morreu! Teve um enfarte no hotel! Fulminante!”. A incredulidade se instalou no ar. Só havia uma coisa a dizer: “O quê? Não é possível!”. Mas era: o escritor que me dera entrevista poucas horas antes, na sede do Diário de Pernambuco saíra do jornal para morrer num quarto de hotel, em Boa Viagem.

Eu tinha entrevistado o escritor Malba Tahan no final da tarde do dia anterior, na sala do então superintendente do jornal, Gladstone Veira Belo. A lembrança é clara: eu estava me preparando para deixar a redação e ir para a aula quando fui convocado a comparecer à sala da direção para entrevistar um visitante. Em situações normais, os pobres dos repórteres reagem com um muxoxo quando são  chamados a fazer as tais entrevistas com visitantes ( em geral, autoridades que dificilmente pronunciarão algo de relevante numa “visita de cortesia” aos bravos rapazes da imprensa…). Mas ali era diferente.

Posso até ter reagido com um muxoxo, mas o visitante era uma espécie de “ídolo” literário dos meus tempos de infância: eu tinha lido, para um trabalho escolar, o livro “O Homem que Calculava” ( ou terei ganhado de presente um exemplar? Aqui, minha memória claudica miseravelmente ). Depois, um exemplar de Maktub fora parar em minhas mãos. Maktub – a gente logo aprendia – queria dizer “estava escrito”. A palavra “maktub”, portanto, carregava um certo peso dramático: parecia avisar que a vida pode ser regida por maquinações indecifráveis do destino.

Sobre sua morte em 1974
Sobre sua morte em 1974

Os livros falavam de mundos mágicos e misteriosos, personagens que se moviam por paisagens orientais de uma beleza cintilante. O nome Malba Tahan tinha o poder de deflagrar, num passe de mágica oriental, essas lembranças “literárias”. E lá estava ele: efusivo, entusiasmado, falava da visita ao Recife como se fosse marinheiro de primeira viagem. Guardei um detalhe: Malba Tahan trajava um paletó quadriculado. Fora visitar o Diário, na Praça da Independência, em companhia da mulher. Voltei às pressas para a redação para redigir a entrevista que seria publicada no dia seguinte. Zarpei para a escola. O escritor seguiu para o hotel. Estava escrito que aquelas seriam as últimas horas do autor de Maktub. Estava escrito que Malba Tahan, na verdade, nunca existiu: era apenas o pseudônimo de um professor de matemática carioca chamado Júlio César. Jamais visitara o Oriente. Que importa?

O que interessa é que tinha virado sinônimo de mundos mágicos, distantes, inalcançáveis. Estava escrito que, lastimavelmente, aquela seria a última fala de Malba Tahan – e o primeiro grande susto do jovem repórter. Estava escrito: maktub,. maktub, maktub.”

Fellipe Torres – Diario de Pernambuco

Publicação: 09/08/2015 08:00 Atualização: 06/08/2015 23:04

QUANDO A ESTRELA FOI LAMPIÃO

A SAGA DO LIBANÊS BENJAMIM ABRAHÃO PARA FILMAR O REI DO CANGAÇO

E A REPERCUSSÃO NAS PÁGINAS DO “DIÁRIO DE PERNAMBUCO”

Autor – Rostand Medeiros

Nesta clássica foto vemos Benjamin Abrahão, o armado Lampião e a sua Maria Bonita ostentando uma profusão de correntes de ouro. Este instantâneo foi conseguido em uma das visitas de Abrahão ao “Rei do Cangaço”. Foto do acervo da AbaFilm, reproduzida a partir do livro “Cangaceiros”, de Élise Jasmin, página 42, 1ª edição.

No início da vida bandida de Virgulino Ferreira da Silva, o famoso cangaceiro Lampião, as suas ações, os seus feitos de armas, eram basicamente conhecidos pelos sertanejos através dos cantadores, dos emboladores, das conversas dos mascates nos dias de feira.

Estes meios de divulgação tradicionais, mesmo de forma lenta, ajudaram cada vez mais a criar na população do sertão o temor e, igualmente, contribuíram na propagação do mito ao redor da figura verdadeira.

Durante certo tempo muitos sertanejos não tiveram ideia da aparência e de outros aspectos ligados à figura de Lampião. Logo surgiu na imprensa uma boa quantidade de fotografias do chefe cangaceiro e este fazia questão de se deixar reproduzir diante das câmeras. Ele não tinha a aversão que o grande cangaceiro Antônio Silvino, preso em 1914, nutria pelas lentes fotográficas. Pelo contrário, gostava tanto que até cartões com a sua foto estampada foram um dia produzidos.

Na proporção em que cresciam as suas ações e a fama do seu bando nos sertões nordestinos, a sua figura ultrapassava limites regionais e as pessoas de todas as partes passaram a ouvir falar no conhecido “Rei do Cangaço”. Mas para o público dos grandes centros terem a oportunidade de visualizarem a figura de Lampião e seu bando, em uma película cinematográfica, no interior de uma confortável sala de projeção, era algo mais complicado.

Desde que o cinema chegou ao Brasil, em 8 de julho de 1896, com a inauguração de um “omniographo” na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, o seu desenvolvimento era cada vez mais intenso. Novas salas de exibição eram inauguradas pelo país afora, onde o público consumidor desejava através das imagens, tanto o entretenimento, quanto o conhecimento dos aspectos do imenso país.

Para uma pessoa de iniciativa e coragem, a ideia de filmar Lampião e seu bando poderia gerar muita fama e dinheiro.

Somente através da iniciativa de um emigrante libanês, foi possível imagens do famoso cangaceiro e do seu bando, sendo este o único registro cinematográfico desta controversa figura.

UM HOMEM SEM FRONTEIRAS 

Benjamin Abrahão em fotografia realizada em um estúdio fotográfico pernambucano. A partir do livro “Lampião o mito”, autoria de Roberto Tapioca, 9ª edição, página 50.

Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do sol, 2ª edição”, págs. 313 a 317), seu nome completo era Benjamin Abrahão Calil Botto, sendo originário do Líbano. Sua terra natal era Zahle, uma cidade situada na parte central deste país, no chamado Vale do Bekaa, próxima a cadeia de montanhas do Monte Líbano, em uma área extremamente fértil para agricultura e onde até hoje predomina uma população cristã.

Para alguns estudiosos ele teria vindo para o Brasil em 1910 e para outros ele aqui chegou em 1915. A razão de sua saída seria a ideia de buscar novas paragens para progredir na vida e deixar uma região então dominada pelo Império Turco Otomano desde 1517. Outra teoria aponta que a vinda de Abrahão seria uma fuga da convocação do exército que ocupava sua terra, para combater na Primeira Guerra Mundial.

Nesta época a nação libanesa ainda não havia sido oficialmente criada e os imigrantes que deixavam esta região e se dirigiam para o Brasil, eram normalmente conhecidos como “Turcos” ou “Sírios”. Apenas em 1926 foi oficialmente criada à República do Líbano, por interesses dos franceses.

Foto atual da cidade de Zahle, Líbano. Com uma população em torno de 100.000 habitantes, é a terceira maior cidade deste país, sendo bastante conhecida pela qualidade do vinho aí produzido. Coleção do autor.

Quis o destino que Benjamin Abrahão viesse para Recife, onde conseguiu um emprego de vendedor. Depois, impulsionado pelo espirito aventureiro e senso de oportunidade, foi até a cidade de Juazeiro, no interior do Ceará, onde conheceu o mítico e venerado líder religioso Padre Cícero Romão Batista.

Após os primeiros contatos com o homem considerado santo pelos romeiros que afluíam de todos os lugares do Nordeste, o libanês passou a ser conhecido na cidade como jornalista, secretário particular, fotógrafo e acompanhante do “Padim Ciço”. Existe a versão que o libanês de fala enrolada conquistou o coração do severo clérigo quando mentiu descaradamente ao afirmar ter nascido em Belém, a cidade natal de Jesus Cristo.

Para estas duas interessantes figuras este encontro foi extremamente positivo. Para o eterno cura dos desvalidos do Cariri, a figura de um secretário estrangeiro, nascido na terra de Jesus, certamente trazia respeitabilidade junto a elite local e chamava a atenção dos milhares de romeiros que vinham atrás de suas bênçãos. Já Benjamim sabia que o Padre Cícero era um líder prestigiado, sendo um porto seguro em um país desconhecido, em meio a uma Juazeiro em franco crescimento.

Era bem melhor o calor de Juazeiro, do que vestir um uniforme turco e levar um tiro dos ingleses na península de Gallipoli.

Tudo indica que o imigrante se deu muito bem nas terras do “Padim Ciço” e se entrosou perfeitamente com a sociedade local. Segundo o jornal “Diário de Pernambuco”, edição de 27 de dezembro de 1936, ao apresentar o “Sírio” Abrahão, o periódico informava que o imigrante teria fundado um jornal chamado “O Cariri”.

Acervo do professor Renato Cassimiro publicado no http://www.cariricangaco.com

O FILME DO PADRE CÍCERO E O

ENCONTRO COM LAMPIÃO

O libanês esperto se encontrava em Juazeiro, quando no dia 4 de março de 1926 chega à urbe sagrada o famoso cangaceiro Lampião e todo o seu séquito.  O bandoleiro das caatingas vem a “cidade santa” para se juntar aos membros de uma força militar denominada “Batalhão Patriótico”, com a intenção de combater uma coluna de revoltosos comandados por Luís Carlos Prestes, Isidoro Dias Lopes, Siqueira Campos e outros oficiais rebelados do Exército Brasileiro contra o governo de Arthur Bernardes, então Presidente da República.

Lampião recebe uniformes, armas novas, se encontra com Padre Cícero, concede entrevistas e se deixa fotografar. Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (op. cit.), a figura que coordena o assédio ao “Rei do Cangaço” não é outro se não o próprio Benjamim Abrahão. Afirma o pesquisador que a partir deste encontro surgiu uma amizade entre o libanês e o cangaceiro, bem como o germe da ideia de ser realizada uma película mostrando a vida de Lampião.

Assim o jornal recifense “A Província”, edição de 3 de junho de 1926, analisou a exibição do filme “Joaseiro do Padre Cícero”, ocorrida no dia anterior, no prestigiado Cinema São José. Coleção do autor.

Apesar do autor de “Guerreiros do sol” haver entrevistado Lauro Cabral de Oliveira, uma das pessoas que esteve com Lampião naquela ocasião para realizar entrevistas e fotografá-lo, que teve seu acesso ao cangaceiro garantido por Abrahão, acreditamos que a ideia surgiu na cabeça do libanês algum tempo antes.

Em 1925 foi produzido “Joaseiro do Padre Cícero”, um filme que buscava contar a vida e o trabalho do Padre Cícero Romão Batista. Rodado em película de 35 milímetros, a um custo de 40 contos de réis, esta obra tinha o objetivo de criar uma propaganda positiva em relação à ação política e social do padre, além de mostrar o desenvolvimento da cidade de Juazeiro. Nesta época o Padre Cícero sofria na imprensa dos grandes centros do Brasil uma feroz enxurrada de críticas e comentários negativos sobre a sua figura, a sua trajetória política e a mistificação que se criava em torno de sua pessoa.

A direção do filme coube ao cearense Adhemar Bezerra de Albuquerque e sua primeira exibição ocorreu no mesmo ano de sua produção. O local escolhido foi o Cinema Moderno, em Fortaleza, um empreendimento que foi inaugurado em 1921 e ficava na Praça do Ferreira.

Fachada do Cinema Moderno, em Fortaleza. A partir do livro “Ah, Fortaleza!”, vários autores, 1ª edição, página 143.

Depois de seu lançamento, a película foi apresentada em várias capitais brasileiras, chamando a atenção da crítica e do público. Certamente um dos que se impressionou com o sucesso da obra foi Benjamim Abrahão.

Provavelmente o diretor Adhemar Bezerra de Albuquerque, seguramente um dos principais pioneiros e expoentes do cinema cearense, que produziu muitos documentários em35 milímetros, deve ter criado laços de amizade com o libanês durante a produção deste filme e certamente o imigrante participou de alguma maneira da concretização desta produção.

A BUSCA POR LAMPIÃO

Ao longo dos anos o libanês continuou com o seu trabalho ao lado do Padre Cícero, mas em julho de 1934, aos 90 anos o seu patrão e protetor faleceu. É provável que sem maiores perspectivas ressurja na cabeça do libanês a ideia de mostrar ao mundo o cangaceiro Lampião, entrevistá-lo e conseguir assim se tornar o primeiro homem a filmar o “Grande Rei do Sertão”.

Relato de seus encontros com o bando de Lampião no jornal “Diário de Pernambuco”, edição de 27 de dezembro de 1936. Coleção do autor.

No ano seguinte Abrahão busca na capital cearense um empreendedor que o ajude nesta empreitada. Este apoio surge na pessoa do velho conhecido Ademar Albuquerque, agora proprietário da empresa Aba-Film, que tinha apenas um ano de funcionamento. Ademar percebe que o libanês é suficientemente arrojado (ou maluco) para procurar Lampião no “Oco do Mundo” e se ele não morresse tentando, a distribuição deste documentário poderia render um bom dinheiro.

Percebemos que não é de hoje que a figura de Lampião alavanca negócios.

O proprietário da Aba-Film lhe cedeu uma câmera, que segundo Frederico Pernambucano de Mello (op. cit.), seria de 35 milímetros, da marca Ica. Rolos de filmagem da empresa Gevaert-Belgium, um tripé e uma câmera fotográfica desenvolvida pela empresa alemã de produtos óticos Carl Zeiss, até hoje uma conceituada marca no meio fotográfico.

Benjamim estava munido com máquinas de conhecida qualidade e portabilidade, que certamente lhe trariam um ótimo resultado visual.

Evidentemente que o imigrante libanês não seria tão louco a ponto de comentar quem o ajudou nesta empreitada. Mas seria praticamente impossível ele chegar próximo a Lampião sem a ajuda dos grandes coronéis do interior de Pernambuco. Ele teria buscado o apoio de Audálio Tenório de Albuquerque, então o todo poderoso comandante da cidade de Águas Belas e de outros coronéis da região próxima ao rio São Francisco. Esta hipótese se baseia na informação transmitida por Frederico Pernambucano de Mello, que nos seus últimos anos da vida de Lampião, teria sido o coronel Audálio Tenório uma pessoa com forte aproximação com este chefe cangaceiro. (Mello, op. cit., pág. 325).

De toda maneira Benjamim Abrahão conseguiu seu intento. No jornal Diário de Pernambuco, nas edições de 27 de dezembro de 1936 e 12 de janeiro de 1937, Abrahão relatou detalhes dos seus encontros com Lampião e seu bando.

Segundo o relato de Abrahão a jornal Diário de Pernambuco, os dois primeiros cangaceiros que ele encontrou foram Mergulhão (dir.) e Juriti (sentado a esq.). Coleção do autor.

Em narrativa franca e aberta, o libanês demonstra ao seu entrevistador, com certo orgulho, que a sua empreitada havia durado mais de um ano, precisamente 18 meses. Informava que havia passado pelos estados da Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas e Bahia. Ele entrou no sertão com uma roupa de “brim azulão” e suas máquinas a tiracolo. Afirmou que passou “fome e sede”, mas trouxe “um punhado de notas suficiente para seu livro de impressões”. Aparentemente estas impressões estariam contidas em seus diários.

O contato inicial de Abrahão com o bando de Lampião, segundo suas afirmações para o Diário de Pernambuco, foi num dia bastante quente e os primeiros com quem ele esteve foram os cangaceiros Mergulhão e Juriti.

Mas o encontro teve certa tensão, pois os dois guerreiros das caatingas chegaram totalmente equipados. Ao visualizarem o estranho apontaram seus fuzis e gritaram “-Não se mexa cabra. Vai morrer” e colocaram balas nas agulhas de suas armas. Foi um momento “angustioso” para o documentarista, mas logo o ambiente serenou. Abrahão afirmou ao jornalista que lhe entrevistava que “se impressionou”, pois os dois cangaceiros já sabiam quem ele era e qual era seu objetivo.

É provável que nada disso tenha ocorrido. O Mais lógico foi que Abrahão deve ter sido guiado por uma pessoa de confiança dos coronéis da região, onde os cangaceiros já tinham conhecimento de sua chegada e que tudo estava previamente acertado.

Tanto é que sobre estes primeiros momentos junto a estes cangaceiros, Abrahão chega ao ponto de transmitir uma opinião jocosa sobre um dos seus acompanhantes armados. Este era Juriti, que ele considerou “-Um sujeito de boa aparência, tem os cabelos bons, é metido à almofadinha e gosta de luxar”.

Afirmou que teve de caminhar três quilômetros com os dois homens armados. Eles primeiramente entraram em entendimento com uma sentinela posicionado em local estratégico. Daí Mergulhão se embrenhou nos matos e desapareceu.

Voltou algum tempo depois afirmando que Lampião queria vê-lo.

AS PRIMEIRAS IMPRESSÕES DE UM ESTRANHO MUNDO 

Quando chegou ao local onde estava o bando, após passarem por uma área de caatinga bastante fechada, todos os cangaceiros estavam de pé, menos Lampião que se encontrava encostado em um tronco, lhe observando com olhos que o libanês classificou como “indagadores”. Era hora do almoço e todos comiam carne de bode com farofa.

O capitão Virgulino veio até ele, lhe ofereceu comida e um copo com conhaque, demonstrando boas maneiras no tratamento ao estranho de fala enrolada. Lampião afirmou “-Não sei como você veio bater aqui com vida, bicho véio. Só mesmo obra de Mergulhão que é muito camarada”. Abrahão não informou ao jornalista o que achou da tirada do chefe cangaceiro.

Logo se dispôs a montar o tripé com uma das suas máquinas para dar início à seção de captação de imagens.

Nisto Lampião gritou “-Para, para”.

Ele queria ver de perto o maquinário. Queria se certificar que daquele mecanismo estranho não poderia sair uma bala. Satisfeito nas suas dúvidas, o chefe liberou o libanês para trabalhar tranquilamente.

Ele continuou captando imagens, mas em pouco tempo Lampião mandou parar a seção afirmando “-Basta. O resto fica para outra vez”.

Abrahão retrucou com Lampião, afirmando que tinha lutado muito por este momento e que queria continuar. Ao que o chefe responde taxativamente “-Quem anda comigo tem de ter paciência”.

Insatisfeito com a resposta, o imigrante voltou à carga “-E onde poderia (Lampião) ser encontrado na próxima vez?”.

“-Sou homem que não tem pouso certo. Hoje estou aqui, amanhã posso estar na Bahia, em Sergipe ou Pernambuco.”

Seja pelo fato de Abrahão ter se sentido a vontade com o “Rei do Cangaço”, ou porque era uma figura completamente maluca, mais uma vez ele continuou retrucando com Lampião. Para sua sorte este nada falou.

Depois, segundo sua narrativa, levaria quatro meses para ocorrer um segundo encontro com o bando. Por sorte este momento foi muito mais duradouro, calmo e positivo. Segundo Abrahão o local do esconderijo ficava “do outro lado do São Francisco”, a “36 léguas”. Ele só não disse de onde.

Afirmou que era um domingo, sendo este “um grande dia, pois ninguém trabalhava e se reza de manhã e no começo da noite”.

Para o imigrante os cangaceiros são muito religiosos e sobre o momento da oração ele fez interessantes observações. Um dos membros do grupo colocou um quadro do Sagrado Coração de Jesus em um tronco de arvore e Lampião, com um livro de orações, comanda a ladainha. Todos estão ajoelhados, contritos, alguns com rosários, ouvindo atentamente o chefe declamar em voz alta a prédica de um velho “adoremos”, que todos repetiam em coro.

Para o observador Abrahão “as mulheres, neste dia, vestem-se melhor, enfeitam-se mesmo”. Para ele é como se elas fossem a uma missa em alguma paróquia. O imigrante apontava que aquelas mulheres, mesmo vivendo escondidas no meio do mato, em meio às correrias e violências, pareciam querer manter de alguma maneira os mesmos hábitos da vida “civil”.

Durante o almoço todos os cangaceiros comem em grupos, uns em pé e outros sentados. Lampião, talvez por precaução, degusta a alimentação no meio de todos. Abrahão repetiu varias vezes ao repórter o quanto Lampião era desconfiado, sempre planejando mudanças de seus esconderijos.

FILMANDO OUTROS GUPOS DE CANGACEIROS E PRESENCIANDO O COMBATE DE PIRANHAS

Abrahão afirma textualmente que filmou e fotografou os grupos dos chefes Corisco, Luís Pedro, Português, Zé Sereno, Mané Moreno, Pancada, Canário e Gato. Praticamente ele teve a oportunidade de filmar todo o movimento de cangaceiros que gravitavam ao redor de Lampião. Apenas os instantâneos chegaram até os nossos dias.

Em relação ao chefe cangaceiro Gato, Abrahão afirma que estava no combate ocorrido em Piranhas, dois meses antes da entrevista ao Diário de Pernambuco e que viu este cangaceiro ferido.

Segundo a sua narrativa, ele se encontrava a cerca de meia légua (três quilômetros) de Piranhas, atravessando o Rio São Francisco, quando se deu o tiroteio e logo seguiu em direção à refrega. Afirmou que “era uma oportunidade que não poderia deixar passar”.

O primeiro combate entre os cangaceiros e os policiais ocorreu a cerca de 4 ou 5 léguas de distância da cidade, “no meio da caatinga bruta”.

A tropa volante era comandada pelo tenente João Bezerra e neste combate foi ferida e capturada a companheira de Gato, conhecida como Inacinha. Este buscou apoio de Corisco e de outros cangaceiros que circulavam na região, para invadirem a cidade de Piranhas e tentaram resgatar a cangaceira ferida. Era por volta meio dia quando um grupo de 26 cangaceiros tentou realizar o ataque, mas a cidade recebeu seus “visitantes” com forte fuzilaria.

Os cangaceiros Gato e Inacinha, fotografados por Abrahão. Acervo AbaFilm, Fortaleza. Reproduzida a partir do livro “Cangaceiros”, de Élise Jasmin, página 90, 1ª edição.

No momento em que Abrahão encontrou os cangaceiros estes já se retiravam de Piranhas. Afirma que viu o chefe Gato ainda ferido, deitado em um “sofá”. Comenta (certamente com exagero) que quando tentou entrar na cidade os defensores lhe tomaram como um cangaceiro e mandaram bala.

Segundo o pesquisador paraibano Bismarck Martins de Oliveira (in “O cangaceirismo no Nordeste”, 2ª

edição, págs. 228 e 229) o nome verdadeiro do cangaceiro Gato era Josias Vieira e era natural de Santana do Ipanema, Alagoas. Ele teria entrado no cangaço em 1922, tendo participado de inúmeras ações importantes ao lado de Lampião, era tido como um cangaceiro de extrema violência e periculosidade acentuada. Fez parte do bando de Corisco, mas depois decidiu montar seu próprio grupo. Já o pesquisador baiano Oleone Coelho Pontes (in “Lampião na Bahia”, 4 edição, pág. 329) informa que o combate se deu no dia 28 de outubro de 1936, que Gato chamou Corisco para tentaram entrar na cidade, mas a intenção era sequestrar a mulher de João Bezerra, Cira Britto Bezerra, filha do prefeito da cidade, a fim de vingar-se da captura da sua companheira.

Quanto à questão do “sofá”, realmente imaginava que naquele lugar, naquele tempo, naquelas condições de combate, um cangaceiro ferido seria normalmente transportado em uma rede. Mas como eles ainda combateram no perímetro da cidade de Piranhas e eu não tenho muito conhecimento sobre o mobiliário do sertão nordestino da década de 30 do século passado, deixo a questão em aberto.

                                  SENHORA DE BARAÇO E CUTELO DOS SERTÕES NORDESTINOS

Em relação à companheira de Lampião, de quem Abrahão em nenhum momento da reportagem declamou o nome com o qual ela seria imortalizada, ele praticamente se restringe a informar que a mesma, por razão de uma promessa, não trabalhava entre o sábado e a segunda feira. Mas Abrahão não diz qual seria este “trabalho” e a chamava de “Maria Oliveira”, ou “Maria do Capitão”.

Mas aparentemente são os jornalistas da redação do Diário de Pernambuco que se impressionam com a morena baiana.

Maria Bonita e os cachorros do bando de Lampião na primeira página do “Diário de Pernambuco”, edição de 17 de fevereiro de 1936. Para Abrahão ela não trabalhava entre os sábados e as segundas feiras. Coleção do autor.

Na edição do dia 17 de fevereiro de 1937, uma quarta-feira, como sempre na primeira página e com amplo destaque, a jovem sertaneja aparece sentada ao lado de dois cachorros que pertenciam a Lampião, um dos quais se chamava “Ligeiro”, em uma pose que foi classificada como “cinematográfica de uma Greta Garbo”. Dizia que ela era a única pessoa com “ascendência moral sobre Lampião” e que chamava a atenção até mesmo pela simplicidade.

Para os jornalistas Abrahão descreveu que a companheira de Virgulino estava “com os cabelos alisados a banha cheirosa, meias de algodão, sapatos tresé e seu vestido azul claro de linho”. Estando correta a descrição do imigrante libanês sobre a vestimenta de “Maria do Capitão”, no meio daquela caatinga cheias de espinhos, esta fina indumentária servia apenas para rezar e bater fotografias.

Chama atenção a descrição da utilidade das mulheres do bando nos combates. Abrahão informou que elas “Abrem nas caatingas cerradas os caminhos que possam fugir os cangaceiros, ante a eminencia de se verem cercados”.

Se a pose de “Maria do Capitão” na foto era simples, como o leitor deste artigo pode observar, a manchete chamava bastante atenção.

Os jornalistas passaram a comparar a companheira de Lampião com a francesa Jeanne-Antoinette Poisson, a Marquesa de Pompadour, ou como ficou mais conhecida Madame de Pompadour. Esta foi uma burguesa, nascida em Paris em 1721, que usou a sedução para conquistar um lugar entre os mais nobres e se tornar a principal amante do rei da França daquela época, Luís XV. Mas além de ser bela, sedutora e encantadora, era extremamente inteligente e se tornou decisiva na política francesa. Logo através de sua influência, conseguia audiências a embaixadores, tomava decisões sobre todas as questões ligadas à concessão de favores, de forma tão absoluta quanto qualquer monarca.

A comparação entre a cortesã francesa e a cangaceira brasileira surgiu provavelmente após Abrahão comentar e ser publicado que “os asseclas de Lampião lhe rendem as mais servis homenagens, tudo fazendo para não cair no desagrado dessa Madame Pompadour do cangaço, senhora de baraço e cutelo dos sertões nordestinos”.

Não pudemos comprovar com exatidão, mas certamente esta é a uma das primeiras grandes reportagens sobre uma jovem sertaneja chamada Maria Gomes de Oliveira. Baiana nascida em 1901, no sítio Malhada da Caiçara, que um dia encantou o “Rei dos Cangaceiros” e seria conhecida em toda parte como Maria Bonita. 

A VOLTA A “CIVILIZAÇÃO” E O SANGRENTO

FIM DE ABRAHÃO

Abrahão volta ao Recife e novas matérias são publicadas no Diário de Pernambuco, sempre com muito destaque e na primeira página. Elas informavam detalhes do encontro de Abrahão com os cangaceiros e que a sociedade pernambucana em breve teria a oportunidade de assistir nos cinemas da capital o “film” sobre Lampião.

Benjamim Abrahão aproveitava sua notoriedade.

Sobre o tamanho do rolo de filme e sua duração, não conseguimos apurar corretamente, pois o tamanho foi crescendo e diminuindo. Dependia do lugar, provavelmente do gosto dos editores, ou através de informações equivocadas de Benjamim Abrahão. Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do sol, 2ª edição”, págs. 339), em dezembro de 1936 o libanês teria entregue a Ademar Albuquerque cerca de “quinhentos metros de filme”, mas em abril do ano seguinte os jornais cearenses noticiavam que havia “mais de mil metros”. Em Recife a película esticou mais ainda. No Diário de Pernambuco, na edição de 12 de fevereiro de 1937, Abrahão afirmava que o filme tinha “2.000 metros”, que seria exibido no Rio de Janeiro e anunciava que além do filme, seria publicado um livro “com a maior e mais completa reportagem sobre Lampião”.

Relato de seus encontros com o bando de Lampião no jornal “Diário de Pernambuco”, edição de 12 de fevereiro de 1937. Coleção do autor.

Mas foi a mesma atenção dispensada pela imprensa que gradativamente foi lhe criando problemas. Os jornais mostravam com destaque a façanha de um simples imigrante libanês, que havia conseguido encontrar Lampião, filmá-lo tranquilamente com o seu bando, enquanto que as forças de segurança nunca davam cabo dos cangaceiros.

No Rio de Janeiro, então capital do país, a revista “O Cruzeiro”, um dos principais veículos da imprensa brasileira da época, estampou no exemplar de 6 de março de 1937 uma manchete com cinco fotos do bando. De forma crítica afirmava que “onde os policiais falharam, Abrahão havia triunfado”.

No dia 2 de julho de 1938, no mesmo Cinema Moderno que apresentou a película sobre o padre Cícero, ocorreu à única exibição conhecida do filme de Benjamin Abrahão. A fita cinematográfica foi assistida por autoridades que se revoltaram diante do destaque dado a Lampião e seus acompanhantes. Logo os membros do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), o órgão de censura do chamado Estado Novo, como ficou conhecida a ditadura comandada por Getúlio Vargas e implantada no ano anterior, apreenderam o filme.

Benjamin Abrahão tentou reverter, sem sucesso, a situação. Ele fica em uma posição difícil e parte para o interior em busca de apoio.

Em 9 de maio de 1938, na então vila de Pau Ferro (atual município pernambucano de Itaíba), a cerca de 45 quilômetros de Águas Belas, Abrahão foi morto com 42 facadas por um homem que seria deficiente físico e que trabalhava como sapateiro. A razão foi uma vingança ocorrida pelo fato do libanês ter mantido relações com a mulher deste sapateiro.

Entretanto, segundo as edições do Diário de Pernambuco de 10 e 19 de maio de 1938, ao comentar sobre a morte de Benjamin Abrahão, trazem algumas informações interessantes.

Foi divulgado que o inquérito realizado pelo delegado do 2º Distrito Policial de Águas Belas, concluiu que o assassino do imigrante libanês se chamava José Rodrigues Lins, conhecido como Zé de Ritinha ou Zé de Rita e que teria sido ajudado por uma mulher chamada Alayde Rodrigues de Siqueira. Mas as reportagens não especificavam maiores detalhes do ocorrido e nem o grau de participação desta mulher.

Para muitos pesquisadores a verdadeira razão da morte de Abrahão teria sido as insistentes cobranças que ele fazia aos coronéis da região, sobre uma pretensa ajuda financeira prometida para a realização do filme. Aparentemente, diante das recursas, ele possivelmente teria feito algum tipo de ameaça e encontrou a morte.

Certamente que em meio a um momento político onde o poder do Estado Novo estava muito forte e centralizado, onde as velhas lideranças do sertão já não possuíam a mesma desenvoltura nos círculos do poder, onde a desconfiança e o temor de perda de prestígio e de força política eram evidentes, a figura de um imigrante que sabia de muita coisa, impertinentemente exigindo dinheiro, deveria ser uma fonte de preocupação.

Seja qual for a verdadeira razão, percebemos que faltou a Benjamin Abrahão, mesmo depois de estar vivendo a cerca de vinte anos no Nordeste, uma maior percepção em relação as suas atitudes e o que elas poderiam gerar.

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