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QUANDO A GRIPE ASIÁTICA ATACOU NATAL

As crianças foram as mais atingidas pela gripe asiática.

A atual Pandemia de COVID-19, o novo coronavírus, não é a primeira situação do gênero que Natal e o Rio Grande do Norte enfrentam. Talvez poucos saibam, mas em 1957 houve uma pandemia que ficou conhecida como gripe asiática, que aqui chegou causando medo e confusão.  

Veículos das Pioneiras Sociais, utilizados contra a gripe asiática. Foi uma ação do governo Juscelino Kubitschek de Oliveira .

Autor – Rostand Medeiros – IHGRN

Esse novo vírus teria se desenvolvido no norte da China e nessa época o regime comunista local era extremamente autoritário e controlava a saída de praticamente todas as informações do país para o exterior. O mundo só tomou conhecimento com maiores detalhes desse surto quando esse vírus chegou a Cingapura, onde foi relatado pela primeira vez em fevereiro de 1957. O certo é que em abril do mesmo ano a gripe avançou de Cingapura para Hong Kong e no verão alcançou as cidades costeiras do oeste dos Estados Unidos, primeiramente na Califórnia. Logo atacou a Oceania, África e Europa.

Qual era o tipo de Vírus

Através de testes o vírus foi reconhecido como sendo do tipo Influenza A e que ele era diferente de qualquer outro encontrado anteriormente em humanos. Pesquisas posteriores apontaram que a gripe asiática foi resultado de um cruzamento entre um vírus encontrado em patos selvagens na China (H2N2) e de uma cepa de vírus da gripe humana (H1N1). Convencionou-se na época denominar esse vírus como H2N2, mas ela ficou conhecida mundialmente como gripe asiática.

Pedido para não beijar a criança da foto, durante a pandemia de 1918.

Depois da gripe espanhola de 1918, a pandemia de gripe asiática de 1957 foi a segunda maior pandemia a ocorrer no mundo durante o século XX. Quando esse surto surgiu, apenas pessoas com mais de 70 anos de idade possuíam lembranças claras da experiência ocorrida quase quarenta anos antes. Apesar das advertências dos mais velhos, muitos não acreditaram na letalidade da nova gripe. Logo ficou patente que os mais jovens estavam errados.

No Reino Unido os primeiros casos foram informados no final de junho, com um surto mais grave ocorrendo na população em geral em agosto. O País de Gales e a Escócia tiveram os primeiros casos em setembro e no início de 1958 estima-se que cerca de 9 milhões de súditos da rainha Elizabeth II havia contraído a gripe asiática. Destes, mais de 5,5 milhões foram atendidos por seus médicos e cerca de 14.000 pessoas morreram devido aos efeitos imediatos do ataque. 

Foi relatado no Reino Unido que os pacientes sentiram fortes calafrios, seguido de prostração, dor de garganta, nariz escorrendo e tosse. Na sequência os relatos apontaram para membros doloridos (adultos), cabeça (crianças), seguido de febre alta (ambos os casos). Crianças pequenas, principalmente meninos, sofreram sangramentos no nariz. Cientistas ingleses observaram que a gripe asiática tinha duas ou três fases, sendo a segunda a de natureza mais grave.

Os sintomas eram geralmente leves e a maioria dos pacientes normalmente se recuperava após um período na cama, com medidas antipiréticas simples. Houve complicações em 3% dos casos, com mortalidade de 0,3%. Pneumonia e bronquite foram responsáveis ​​por 50% dos óbitos, sendo o restante por agravamento de doenças cardiovasculares já existentes. Durante a pandemia aumentou bastante a incidência de pneumonia.

Houve uma falta de uniformidade no tratamento ao surto. Alguns médicos prescreveram antibióticos para todos os casos, até os menos complicados. Mais tarde, no entanto, observou-se que o uso indiscriminado de antibióticos não era benéfico.

Na época foi possível detectar o agente com rapidez e trabalhar em novas soluções. Uma vacina para a gripe asiática foi introduzida ainda em 1957 e a pandemia diminuiu. Ocorreu uma segunda onda dessa gripe em 1958 e ela passou a fazer parte daquilo que os cientistas classificam como gripes sazonais. Em 1968 foi comprovado que a gripe asiática H2N2 havia desaparecido na população humana e acredita-se que ela tenha sido extinta na natureza. 

Apesar de praticamente desconhecida nos dias atuais, essa doença matou entre 1,4 e 2 milhões de pessoas, sendo 116.000 nos Estados Unidos. Outros cientistas apontam que esse surtou ceifou muito mais gente. Colocando a cifra em 4 milhões de mortos, principalmente no continente de onde se originou, sendo as crianças suas vítimas preferenciais.

A Gripe Chega a Natal

Juscelino Kubitschek de Oliveira e Dinarte Mariz. Respectivamente presidente do Brasil e governador do Rio Grande do Norte em 1957.

Quem governava o Brasil na época era Juscelino Kubitschek e a gripe asiática aqui chegou entre julho e agosto de 1957, com um primeiro surto no Rio Grande do Sul. No início de setembro, sua presença foi identificada no Rio de Janeiro pelo Instituto Oswaldo Cruz e pelo Instituto de Microbiologia da Universidade do Brasil – hoje, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pouco depois pandemia desembarcou em Belo Horizonte, Salvador e Belém, sempre com alta incidência em crianças.

Dinarte de Medeiros Mariz era o governador do Rio Grande do Norte em 1957 e o médico Dary de Assis Dantas o diretor do Departamento de Saúde Pública, atual SESAP – Secretaria de Estado de Saúde Pública do Rio Grande do Norte. Este último havia nascido na cidade de Serra Negra do Norte, mesmo local de nascimento do governador, se formou em medicina no Rio de Janeiro onde atuou na Santa Casa de Misericórdia e no Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI), quando foi convidado por Dinarte para assumir o cargo. Dary era pessoa de extrema confiança do governador e médico de sua família.

Eider Furtado, correspondente do Diário de Pernambuco em Natal naquela época, informou na edição de 15 de setembro daquele jornal (pág. 7) que na primeira quinzena de agosto Dary Dantas havia formado a Comissão Estadual de Defesa Contra a Gripe. Esse grupo começou a estudar medidas contra a doença que se avizinhava do Rio Grande do Norte. O diretor do Departamento de Saúde Pública também solicitou ao governador uma verba no valor de 500 mil cruzeiros para combater a gripe no estado.

Provavelmente a criação dessa comissão se deveu, ao menos em parte, a divulgação de um primeiro alarme da presença da gripe asiática entre os potiguares. Em agosto de 1957 surgiu a informação que cerca de “400 pessoas” teriam contraído a nova doença no município de Goianinha, 50 quilômetros ao sul da capital. O surto teria surgido na Usina Estivas, mas logo o caso foi negado e devidamente esclarecido pelo médico Luís Antônio dos Santos Lima. O que aconteceu foi que realmente havia naquele lugar um surto de gripe, mas de gripe sazonal. Além disso, nesse período a gripe asiática ainda se encontrava restrita ao sul do Brasil.

Após o susto inicial não demorou a surgir os primeiros casos comprovados da doença no Rio Grande do Norte, ou “Cingapura”, como a doença também ficou igualmente conhecida. NaTribuna do Norte, em O Poti e no Diário de Natal, os principais jornais que circulavam na capital potiguar na época, é possível conhecer detalhes desse acontecimento.

Em 25 de setembro de 1957, na página 6, o Diário de Natal estampou que em uma residência na Rua Apodi, na Cidade Alta, quatro pessoas estavam acamadas, com muita febre e forte gripe. Interessante comentar que esse jornal não informou a localização da casa e nem os nomes das pessoas doentes, mesmo sendo editado em uma cidade com cerca de 140.000 habitantes, onde praticamente todos se conheciam e sabiam do ocorrido.

Médicos da Saúde Pública estiveram presentes ao local. Eles aconselharam o isolamento e recolheram amostras dos pacientes, que foram enviados ao Rio de Janeiro por um avião da Força Aérea Brasileira para confirmação da doença. Esse exame ocorreu no Instituto Oswaldo Cruz, em Manguinhos, atual Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ. O resultado foi divulgado dias depois e se confirmou a existência da gripe asiática em Natal.

Mortes no Tradicional Bairro do Alecrim e Cobranças

Após a chegada da confirmação do Rio de Janeiro, Dary Dantas e os membros da Comissão pediram calma a população e informaram que ainda “não estava formado um surto epidêmico em Natal”. Pouco mais de uma semana depois aconteceram as primeiras mortes!

Nessa época o bairro do Alecrim já era considerado o maior da cidade, possuindo um forte comércio, a maior feira de alimentos, concentrando uma grande parte da população de Natal e possuindo uma característica única e marcante – suas principais artérias eram conhecidas pelo povo através de uma antiga numeração. E foi nesse bairro de características tão peculiares e marcantes para os natalenses que em 5 de outubro de 1957 duas crianças faleceram de gripe asiática em suas casas, respectivamente nas antigas Avenidas 7 e 8[1].

Consideram que, apesar das crianças estarem acometidas de forte gripe, suas famílias não tomaram as “necessárias medidas preventivas”. Os jornais só não explicaram quais eram essas medidas. Somente próximo ao final do mês de outubro é que vamos encontrar nas páginas dos jornais algum tipo de material informativo oriundo do Departamento de Saúde Pública explicando o que a população deveria fazer. Aqui trago um exemplo.

Ainda em 18 de outubro, na página 6 do Diário de Natal, é relatado que seus repórteres realizaram um levantamento que, mesmo sem confirmação oficial, indicou que mais de 100 pessoas com sintomas da gripe asiática eram transportadas diariamente pelas ambulâncias Ford F-1 do SAMDU – Serviço de Assistência Médica Domiciliar de Urgência, para o Hospital Miguel Couto, atual Hospital Universitário Onofre Lopes – HUOL. Existiam casos graves no bairro das Rocas, mais precisamente na Rua Floresta, perto do Canto do Mangue, não muito distante do rio Potengi. Ali eram as crianças as mais atingidas, algumas com relatos de expectoração de sangue do trato respiratório.

O jornal Diário de Natal foi contundente na crítica a ação governamental: “Não obstante as reiteradas e solenes afirmações das nossas autoridades sanitárias, de que o assunto da gripe asiática em Natal era objeto apenas de informações alarmistas, aí está o surto da “Cingapura” tomando conta da cidade”.

Ambulâncias Ford F-1 do SAMDU – Serviço de Assistência Médica Domiciliar de Urgência, partindo do Hospital Miguel Couto, em Natal.

Apesar da gravidade do caso, não encontrei nos jornais referências sobre aplicação de métodos de isolamento social para a contenção desse surto.

Uma Criança Morre na Calçada

Igualmente não encontramos material oriundo do Departamento de Saúde Pública da Comissão Estadual de Defesa Contra a Gripe com estatísticas sobre o alcance da gripe asiática em Natal. Por isso não temos meios de afirmar se os jornais estavam corretos ao informarem no dia 22 de outubro, que o número de vitimas da doença era “de aproximadamente 6.000 pessoas”. Por outro lado encontramos registros que os profissionais da Saúde Pública já haviam visitado mais de 800 doentes em suas residências e que em um único dia ocorreu mais de 500 notificações de atingidos por essa gripe, apontando para uma provável estagnação na capacidade de atendimento do Hospital Miguel Couto, o principal da cidade. Noutra parte da reportagem informava que famílias inteiras estavam com a gripe em suas casas.

O Instituto Oswaldo Cruz começou a enviar vacinas para Natal, mas o número foi pequeno para a demanda. Não demorou e circulou a informação que o surto atingiu 10.000 natalenses, principalmente no bairro das Rocas.

Houve uma situação trágica, que chamou atenção na cidade e o combativo advogado e jornalista Luís Maranhão Filho registrou em sua coluna no Diário de Natal de 25 de outubro de 1957. No dia anterior, na calçada do Centro de Saúde da cidade, na Avenida Junqueira Aires, atual Câmara Cascudo, foi encontrada uma criança morta. Não existem maiores detalhes sobre seu falecimento, tendo sido creditado a gripe asiática. Luís Maranhão foi extremamente contundente em sua crítica ao descaso do poder público em relação à saúde do povo natalense.  Realmente as notícias envolvendo mortes trágicas de crianças em Natal, mesmo sendo as de origem mais humilde, eram estampadas com destaque nos jornais. Mas não nesse caso. Nem Luís Maranhão foi desmentido por algum dos periódicos locais.

Anúncio Precipitado do Fim da Pandemia

Cerca de trinta dias após a chegada dessa pandemia em Natal, os jornais de 26 de outubro destacam que o número de casos começou a declinar. Realmente alguns jornalistas comprovaram um declínio dos casos nos locais de atendimento na capital. Um dos membros da Comissão Estadual de Defesa Contra a Gripe atestou a redução dos casos, tranquilizando a população. Entretanto fez questão de apontar que “o maior número de gripados foi constatado em bairros afastados, entre a pobreza”.

Mas o anúncio foi precipitado, pois uma semana depois novos casos surgiram, com pessoas tendo febres de 40 graus, fortes calafrios e vômitos. Dessa vez o foco foi principalmente na região conhecida antigamente como Alto do Juruá, no atual bairro de Areia Preta. Nessa região, na Rua 2 de novembro, hoje Major Afonso Magalhães, famílias inteiras foram duramente atingidas, sendo necessário o apoio de vizinhos para solicitar socorro junto a Saúde Pública.

No dia 5 de novembro houve um caso que mereceu bastante destaque na imprensa natalense.

Nessa época existia o bar e restaurante Flórida, que ficava localizado na Avenida Duque de Caxias, nº 45, Ribeira. Ali trabalhava um garçom chamado Antônio Domingos Filho, que devido se encontrar com uma febre muito alta, pediu ajuda ao seu colega de trabalho Abel Gomes para levá-lo ao Hospital Miguel Couto para ser atendido. Eles foram, mas lá informaram que “ali não tratavam mais casos dessa natureza e que eles fossem pra o SAMDU”. Nesse local o garçom teve novamente negado qualquer tipo de atendimento. Sem jeito de resolver a situação, Abel então levou seu amigo Antônio Domingos até a sua residência, em uma humilde casa na Travessa Primeiro de Maio, bairro de Petrópolis. Segundo declarou Abel Gomes aos jornais, devido ao agravamento do quadro, de madrugada Antônio saiu pela rua gritando tresloucadamente em busca de socorro. Mas aí quem veio não foi a Saúde Pública, mas a Polícia Militar. O pobre garçom, tido como alterado, acabou no chão frio de uma cela na 2ª Delegacia de Polícia. O resultado foi que às seis da manhã ele foi encontrado morto.

Logo o caso repercutiu na Rádio Poti e outros meios de comunicação, mas nada foi feito. Não encontrei algum pedido de abertura de inquérito, ou alguma providência por parte do Ministério Público.

Enfim, ele era apenas um pobre garçom!

Até gostaria, mas certamente a atual pandemia de COVID-19 não será a última ocasião em que Natal vai testemunhar. Mas será muito interessante que na atual conjuntura as pessoas mais humildes e necessitadas, que é grande parcela da atual população potiguar, venha ater por parte das autoridades o devido apoio para enfrentar essa situação e que o caso do garçom Antônio Domingos Filho fique restrito a memória histórica dessa terra!

NOTA


[1] Muitos imaginam até hoje que essa situação é fruto da presença das tropas norte-americanas em Natal durante a Segunda Guerra Mundial, onde as autoridades locais teriam numerado as principais vias do Alecrim para facilitar a circulação dos militares estrangeiros na área. Nada disso! Oficialmente o bairro do Alecrim foi criado em 23 de outubro de 1911, mas existem informações que já em 1903, quando a região ainda era um amplo matagal pontilhado por alguns sítios, ali foi criado um traçado numerado de futuras avenidas e ruas. Mesmo sem existir uma documentação comprobatória, acredita-se que essa delimitação foi realizada pelo arquiteto italiano Antônio Polidrelli. Este havia sido contratado pelo poder municipal para desenvolver o traçado da área denominada Cidade Nova (atuais bairros de Petrópolis e Tirol) e a ideia de criar esse traçado no Alecrim tinha o objetivo de facilitar junto a Intendência Municipal de Natal o aforamento de terrenos dos futuros moradores. As antigas Avenidas 7 e 8 são atualmente as Ruas dos Caicos e dos Pajeús. Sobre a história relativa a questão das numerações das ruas do bairro do Alecrim, ver SOUZA, Itamar de. Nova História de Natal, 2008, 2ª Ed. págs. 522 a 524. Mesmo com as numerações das antigas avenidas e ruas do Alecrim tendo sido oficialmente abolidas em 1930, até hoje uma grande parcela dos natalenses continua a utilizar as velhas numerações para se localizar no bairro, inclusive o autor dessas linhas (antigo morador do bairro, na Rua Borborema).

O NOSSO LIVRO “LUGARES DE MEMÓRIA” ENTRE OS MAIS VENDIDOS NA UFRN

Rostand Medeiros – IHGRN.

Fiquei muito feliz essa semana quando soube através de amigos e do pessoal da Livraria do Centro de Convivência do Campus Universitário, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, que nosso novo livro “Lugares de Memória – Edificações e estruturas históricas utilizadas em Natal durante a Segunda Guerra Mundial” está entre os dez mais vendidos na conhecida Livraria do Campus, uma das maiores no estado, entre os meses de novembro e dezembro de 2019.

Ainda tive a grata surpresa de ter o nome do nosso livro lembrado pelo jornalista Vicente Serejo, que na sua coluna do dia 17 de dezembro, no do jornal Tribuna do Norte publicou a seguinte nota:::

Como foi dito pela imprensa, em suas 170 páginas “Lugares de Memória” traz informações, curiosidades e imagens de edificações e estruturas existentes na capital potiguar durante a Segunda Guerra Mundial, encerrado em 1945.

O livro apresenta informações e imagens (atuais e antigas) de 27 locais de Natal que possuem ligação com a participação do Brasil no conflito, incluindo quartéis, hospitais, sedes de companhias aéreas, bares, cabarés, hotéis, clubes militares, residências de oficiais e do cônsul norte-americano, entre tantos outros pontos que ainda mantêm as características de sete décadas atrás, ou cujos prédios originais deram lugar a novas edificações.

Publicado pelo Caravela Selo Cultural, o prefácio de “Lugares de Memória” é do jornalista e escritor Carlos Peixoto e o texto abre com a palestra do ex-governador Juvenal Lamartine, proferida em 1939 – sete meses antes da deflagração da guerra – e que já previa não só o conflito, como o envolvimento da capital potiguar. Já os 27 locais foram divididos em cinco partes, conforme os bairros: Santos Reis, Rocas, Ribeira, Petrópolis e Tirol.

O livro continua sendo vendido na Livraria do Campus, ao preço de R$ 40,00.

Segue a relação dos dez livros mais vendidos na Cooperativa do Campus entre novembro e dezembro de 2019.

UMA VIAGEM PELA CIDADE VELHA DE “GUERRA”

LUGARES CONHECIDOS, COMO A CASA DO ITALIANO LETTIERI, NA RIBEIRA, ONDE HOJE É O CONSULADO, E OUTROS CURIOSOS COMO O ESCRITÓRIO DO FRANCÊS MARCEL GIRARD, REPRESENTANTE DA AIR FRANCE EM NATAL, SÃO RECORTES DA HISTÓRIA QUE ROSTAND MEDEIROS ESMIÚÇA COM MUITA PAIXÃO.

Ramon Ribeiro – Repórter – Tribuna do Norte

Fonte – http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/rostand-medeiros-em-uma-viagem-pela-natal-velha-de-guerra/466200

A curiosidade e a paixão pelo Rio Grande do Norte, fez de Rostand Medeiros um pesquisador insaciável pela história potiguar. Sua curtição é esmiuçar arquivos públicos, acervos privados, documentos oficiais, fotos antigas, é também conversar com velhas figuras guardiãs da memória coletiva do Estado. Dessas viagens no tempo que faz, ele retorna com material bruto que aos poucos transforma em livro. É de sua autoria, por exemplo, três biografias “João Rufino-Um visionário de fé” (2011), sobre o criador do grupo industrial 3 Corações, “Fernando Leitão de Morais-Da Serra dos Canaviais a Cidade do Sol” (2012) e “Eu não sou herói – A História de Emil Petr” (2012), este sobre um veterano da 2ª Guerra Mundial.

Por falar em 2ª Guerra, esse é um dos principais temas de Rostand, ao lado da história da aviação. Sobre aviação, ele foi coautor de “Os Cavaleiros do Céu: A Saga do voos de Ferrarin e Del Prete” (2009), que conta a história do primeiro voo sem escalas entre a Europa e a América Latina; e sobre a 2ª Guerra, lançou em 2019 “Sobrevoo: Episódios da Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte”.

Mas agora, ao apagar das luzes de 2019, Rostand surge com novo livro, ainda dentro de seu tema predileto: “Lugares de Memória – Edificações e estruturas históricas utilizadas em Natal durante a Segunda Guerra Mundial”. A obra apresenta 27 locais referentes aquele tempo, a maioria na Ribeira, trazendo curiosidades quer ajudam a entender como era o dia a dia de Natal naqueles anos intensos.

O lançamento do livro será no dia 5 de dezembro, na Livraria Cooperativa Cultural, na UFRN, às 10 horas. A publicação sai pela Editora Caravela Selo Cultural e conta com o apoio do Fundo de Incentivo e Cultura de 2018, da Prefeitura de Natal. Sobre o livro e aquele período, Rostand Medeiros conversou com a TRIBUNA DO NORTE.

Parceria com o MPF_RN ajudou na criação desse livro.

Inventário

Essa pesquisa começou em 2015, quando a Promotoria de Justiça de Natal me solicitou a elaboração de um relatório sobre os locais utilizados pelas forças militares americanas em Natal durante a Segunda Guerra. Listamos 32 locais históricos entre Natal e Parnamirim. A ideia era incentivar ações de preservação. Mas naquele ano nada foi feito. Até que no início de 201, o Ministério Público Federal do RN, preocupado com a situação do Patrimônio Histórico de Natal, promove uma audiência sobre o tema. Informo sobre o relatório já feito e sou solicitado para aprofundar as pesquisas. O que fiz, mas focando apenas em Natal, fechando em 27 locais relacionados a 2ª Guerra. Agora, com a parceria da Editora Caravela, estou publicando o trabalho em livro.

Na casa com um amplo alpendre apresentada na foto, serviu de moradia para o comandante das tropas do exército americano em Natal durante a Segunda Guerra Mundial. Hoje é a sede do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Norte.

Preservar é importante

O livro fala de locais que se não for feito nada, vão se perder em ruínas. Mesmo com grande parte dos locais deteriorados, é um material que aponta para existência de uma rota turística. De todos os meus livros, esse é o que mais me entusiasmou. Espero que essa publicação possa ser útil, derepente para ajudar na preservação dos prédios que cito.

Ribeira

Acho que a 2ª Guerra é um dos aspectos mais proeminentes da história do Rio Grande do Norte. E nisso está a Ribeira. O bairro já foi o centro de tudo no Rio Grande do Norte. Roosevelt e Churchill falam de Natal em suas biografias. Arrisco dizer que naqueles tempos, para os Aliados, referente à Segunda Guerra, Natal era a cidade mais importante da América do Sul. Você olha para a Ribeira hoje chega bate uma tristeza. É uma decadência que vem desde os anos 70. Recuperá-la pode dar um boom no turismo histórico.

Maternidade Januário Cicco, antigo Hospital Militar de Natal na ápoca da Segunda Guerra.

Descobertas

Muitos dos lugares são conhecidos. A casa do italiano Lettieri, na Ribeira, onde hoje é o Consulado, está bem preservada, assim como a Maternidade Januário Cicco, que era o Hospital Militar de Natal, e o Grande Hotel. Mas uma das minhas descobertas é o Rádio Farol, com as antenas enormes. Ficava na Praia da Limpa, um lugar entre a Fortaleza dos Reis Magos e o Rio Potengi.

Oleoduto

Uma estrutura com história interessante é o oleoduto Pipeline, que ia até a Base de Parnamirim. Sendo que nas Rocas há um trecho do encanamento que está visível. Descobri que em 1977 esse cano chegou a estourar e os moradores aproveitaram para encher tanques de combustível até secar. Outra coisa legal é que o Colégio 7 de setembro, na Rua Seridó, no tempo da Guerra era o Quartel dos Marines da Marinha Americana.

Antiga sede do Consulado d França em Natal na época da Segunda Guerra.

Dois espiões e um francês         

Em Natal tinha uma coisa muito curiosa nos tempos da Guerra. O francês Marcel Girard era representante da Air France em Natal. Seu escritório ficava na Rua Tavares de Lira. Perto dali, na Rua Chile, estava aloja de secos e molhados do alemão Ernst Luck, que ficava no térreo do Àrpege, e a casa do italiano Guglielmo Lettieri, comerciante conhecido na cidade. Cada um dos três atuava como representante diplomático de seus respectivos países em Natal. Imagine só! A Europa em guerra, a França invadida pelos alemães, e os três tendo de conviver na Ribeira. É provado que Luck espionou para a Alemanha e Lettieri para a Itália. Os dois foram condenados pelo Tribunal de Segurança Nacional e ficaram detidos na Colônia Agrícola de Jundiaí. Mas no fim da Guerra, ambos foram perdoados.

Jornal da BBC

A ação da Agência Pernambucana, importante veículo de comunicação em Natal durante a Guerra, é abordado no livro “Lugares de memória”.

Outra coisa que gostei muito de ter estudado foi sobre a Agência Pernambucana de Luiz Romão, com seus difusores espalhados pela cidade. Era algo formidável. Ele retransmitia a versão em português do jornal da BBC. Foi legal descobrir a importância da difusora dele. E é uma pena que hoje o local esteja em ruínas.

Grande Hotel

Mas para mim, não tem dúvidas, o Grande Hotel foi o principal lugar da 2ª Guerra em Natal. Era uma referência central por receber autoridades americanas. Além de ter a figura forte de Teodorico Bezerra como seu proprietário. Resgatei muitas histórias no livro.   

NOVAS HISTÓRIAS SOBRE A SEGUNDA GUERRA

Documentos, fotos e novos capítulos sobre a participação do RN na história do conflito mundial estão em coleção de livros da Caravela Cultural. Uma dessas informações inéditas está em “Sobrevoo – Episódios da Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte”, do historiador Rostand Medeiros, que resgata a história de uma queda de avião no Seridó. A série faz parte de edital lançado pelo SEBRAE

Yuno Silva – Repórter

Publicado no jornal Tribuna do Norte, edição de quartafeira, 27 de março de 2019, na primeira paginado Caderno Viver.

“A participação do Rio Grande do Norte na Segunda Guerra Mundial” ainda rende, e muito! A cada remexida em arquivos e documentos, surgem novas memórias, detalhes e curiosidades sobre esse período importante para a história mundial e que as cidades de Natal e Parnamirim ainda não souberam preservar e nem tiara nenhum proveito turístico e/ou museógrafo. Foi aqui, nessa esquina continental, no início da década de 1940, onde mascaram o primeiro chiclete, beberam o primeiro chope de máquina, vestiram a primeira caça jeans e jogaram a primeira partida de fliperama da América do Sul.  

Parnamirim, por sua vez, abrigou um dos maiores entrepostos comerciais do planeta na época do conflito; só aqui no RN era possível compara meia calça de nylon – no restante dos países, todo o estoque do tecido sintético criado em 1935 já tinha virado material para fabricação de paraquedas.

A Segunda Guerra se estendeu entre 1939 e 1945, o Brasil se envolveu oficialmente a partir de agosto de 1942, e perceber o que restou do legado norte-americano em terras potiguares exige um olhar atento.

É nesse momento, da necessidade do “olhar atento”, que entram em cena três novos motivos para revisitar aquele momento de efervescência urbana, cultural e social que sacudiram Natal e Parnamirim a editora Caravela Selo Cultural lança no próximo dia 2 de abril, às 11 horas, na sede do SEBRAE-RN, os três livros que integram a coleção “A participação do Rio Grande do Norte na Segunda Guerra Mundial”.

São três obras independentes, com abordagens diferentes, que se complementam e acrescentam mais “molho” no que já se sabe. “São livros diferentes sobre a mesma temática, e que trazem informações inéditas sobre o assunto”, assegurou o jornalista, engenheiro civil e pesquisador Leonardo Dantas de Oliveira, coautor do livro “A engenharia norte-americana em Natal na Segunda Guerra Mundial”, que ele assina junto com Osvaldo Pires de Souza e Giovanni Maciel de Araújo Silva.

Completam a coleção uma coletânea “Observações sobre a Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte”, reunindo artigos científicos e organizados pelo escritor e editor da Caravela José Correia Torres Neto; e o livro “Sobrevoo – Episódios da Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte”, do pesquisador e historiador Rostand Medeiros.

A coletânea, explicou José Correia, reúne textos atuais produzidos por especialistas e estudiosos da UFRN e de outras universidades de outros estados. “Boa parte do material que estamos publicando já vinha sendo organizado e catalogado pelos autores, e quando decidi editar a coleção tivemos seis meses para deixar tudo pronto para impressão”, lembrou o editor, que aproveitou o edital Economia Criativa 2018 do SEBRAE-RN para viabilizar o projeto.

“O lançamento da coleção no SEBRAE-RN vai coincidir com o lançamento da edição 2019 do edital”, avisou Correia.

Papagaio de guerra

O volume da coletânea organizado pelo editor da Caravela Selo Cultural traz oito artigos científicos e pelos títulos percebe-se que as abordagens buscam ir além do lugar comum.

Entre os textos publicados destaque para “Cabarés de Natal: do esplendor do Cabaré de Maria Boa ao ostracismo do Beco da Quarentena (1942 – 1950)”, escrito por Jéssica Freire Dalcin, Monique Maia de Lima e Yasmênia Evelyn de Barros.

Outros artigos buscam ir mais fundo para instigar a reflexão, como “A busca de um tesouro perdido: o desejo das elites de Natal (RN) em torná-la uma cidade moderna no século 20”, de Giovana Paiva de Oliveira; e “Uma cidade marcada por perdas e sonhos: a Natal da Segunda Guerra Mundial”, de Giovana Paiva de Oliveira em parceria com Ângela Lúcia Ferreira e Yuri Simonini.

Documentos, fotos e novos capítulos sobre a participação do RN na história do conflito mundial estão em coleção de livros da Caravela Cultural. Uma dessas informações inéditas está em “Sobrevoo – Episódios da Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte”, do historiador Rostand Medeiros, que resgata a história de uma queda de avião no Seridó. A série faz parte de edital lançado pelo SEBRAE

Já o livro de Rostand Medeiros faz, literalmente, um “sobrevoo” sobre o momento histórico com textos curtos recheados por curiosidades, detalhes e passagens que ainda não tinham sido revelados.

Relatos e depoimentos se misturam a uma narrativa alicerçada por documentos que comprovam cada afirmação. Medeiros aborda desde a “Influência das tripulações alemãs em Natal”; casos de espionagem; o resgate das primeiras vítimas da guerra em Rio do Fogo, litoral norte do RN, em 1941; e a presença de “Parnamirim Field” na imprensa internacional.

Os autores Leonardo Dantas, José Correia Torres Neto e Rostand Medeiros, junto ao jornalista Yuno Silva, da Tribuna do Norte.

No tocante às curiosidades, destaque para “A pitoresca história de um papagaio que voou em combate nos céus da Europa”; e a queda de um avião de guerra modelo Catalina na cidade de Riachuelo, agreste potiguar. O papagaio “Jock”, inclusive foi notícia em vários jornais e Rostand Medeiros comprova a história emplumada com fac-símile de uma manchete publicada no jornal carioca A Noite em 19 de janeiro de 1944 – naquele momento, de acordo com o jornal, “Jock” acumulava 50 horas de voo e havia sido indicado para receber medalha do Exército americano.

“Muitas das informações são inéditas, extraídas de documentos e diários que só foram liberados recentemente”, disse Leonardo Dantas, que buscou no diário de obras dos batalhões de engenharia notas sobre o legado deixado pelos norte-americanos na infraestrutura urbana: “Avenidas que hoje são importantes vias que cortam a capital do RN foram construídas naquela época. A primeira ‘pista’ de asfalto do Estado foi construída pelos soldados, e ia do Colégio Ateneu até a base de Parnamirim”.       

Nesses diários, também foram colhidos relatos sobre a alimentação e de como era a hora de descanso dos trabalhadores braçais que prestaram serviço para o Exército dos Estados Unidos. “Veio gente de outros estados para trabalhar, pois não tinham mais quem contratar aqui em Natal e Parnamirim para fazer o que eles precisavam”, completou Leonardo.

Coleção “A participação do Rio Grande do Norte na Segunda Guerra Mundial”

SERVIÇO

Lançamento da coleção “A participação do Rio Grande do Norte na Segunda Guerra Mundial”, dia 2 de abril, às 11 da manhã, na sede do SEBRAE-RN em Lagoa Nova. Após o dia de lançamento, os livros estarão disponíveis na livraria da Cooperativa Cultural da UFRN.

LAMPIÃO ENTRE DEUS E O DIABO NA MÚSICA POPULAR

cangaceiros

Racine Santos, diretor de teatro.

Publicado originalmente no jornal TRIBUNA DO NORTE, Natal-RN, Domingo, 07 de Agosto de 1988.

No último dia 28 de julho fez cinquenta anos da morte de Virgulino Ferreira da Silva, o famigerado Lampião. O bandido, o facínora, o malaventurado cangaceiro que durante vinte anos espalhou medo e morte pelos caminhos do sertão. Há cinquenta anos foi degolado aquele que semeou o terror e se fez dono de um reino de fogo, rei de um mundo pardacento, povoado por cascavéis e gaviões, miséria e Injustiça.

Barreira Cangaceiro (2)

Mas, afinal, quem foi esse senhor da vida e da morte? Esse terror do Nordeste? Um Atila, em Espártaco, ou um assassino frio e covarde indigno do mito que hoje o envolve? A verdade é que, cometendo todas as atrocidades que cometeu, ele tornou-se depois de morto uma legenda, uma coisa viva na imaginação popular. Personagem maior no fabuloso romance popular nordestino. Matéria de cinema, ficção, poesia e teatro. Um símbolo do Nordeste, como o mandacaru, o sol e a caatinga. Presente no artesanato, na música, no folclore, e em todas as manifestações artísticas da região. Seu chapéu, “um céu de couro à cabeça com três estrelas fincadas”, no dizer de Carlos Pena Filho, é hoje símbolo de uma cultura.

Curiosamente é que o mesmo povo que dele fugia com medo, inconscientemente o tinha como herói. Não um herói medieval, cheio de virtudes e princípios, mas um herói diferente, com as cores da miséria e da ignorância de um povo que solenemente mastiga areia, pedras e sol enquanto os eternos coronéis se alimentam de seu trabalho mal pago. O medo que o povo conscientemente tinha de Lampião, transformava-se em admiração â nível do inconsciente. Isso a partir de uma identificação: a contida revolta do povo contra a miséria e injustiça, com a insurreição de Lampião contra a polícia, os coronéis e tudo que cheirasse ao poder massacrante. Lampião gritou o grito preso na garganta de muita gente.

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Desenho de Ronald Guimarães – Fonte – http://marvel-nat.forumeiros.com/t186-trama-base-do-forum

A revolta do cangaceiro contra o poder, representado pela polícia, os coronéis, os latifundiários, os políticos, os grandes comerciantes, incorporava o sonho sonhado do povo. Quando ele “botava prá correr” as volantes da polícia, os pobres do Nordeste que sofriam na pele a arbitrariedade policial, exultavam de alegria. Quando seu grupo incendiava uma fazenda, achavam ruins os moradores explorados? Claro que Lampião não tinha a menor consciência do que representava ou significava. Mas ele era a personificação da revolta da gente pobre do campo, do explorado, do faminto, do sem terra, do sem eira nem beira.

Lampião foi uma das mais brutais e primitivas formas de revolta ocorrida no país. Como, por outros caminhos, fora Canudos de Antônio Conselheiro.

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Quadro de Sérgio Azol – Fonte – http://www.lilianpacce.com.br/e-mais/o-cangaco-mais-alegre-e-colorido-por-azol/

Entre o céu e o Inferno

Depois de morto Lampião virou mito, lenda, história. Senhor do sonho e da imaginação popular. Mexeu tanto com a imaginação do povo que o romanceiro popular, cansado de cantar suas bravuras e bravatas pelos sertões a fora, pelo chão dos penitentes, passou a cantá-lo nos mais diversos lugares, oferecendo-lhe os mais diferentes e insólitos cenários. Para o romanceiro popular a morte não matou Lampião. Transportou-o para outros mundos, deixando uma macabra saudade na alma do povo, como mostra o poeta em seus versos:

“A viola tá chorando

tá chorando com razão

soluçando de saudade

gemendo de compaixão

degolaram Virgulino

acabou-se Lampião”

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Fonte – canalcienciascriminais.com.br

Aquele que passou vinte anos saqueando, roubando e matando, pondo em sobressalto as populações sertanejas foi elevado a condição de herói pelo fato de ter incorporado, personificado, a revolta dos pobres do sertão. Embora as forças reacionárias não queiram admitir, Lampião foi um monstro gerado pela injustiça social.

Com sua morte, desaparecendo o perigo real, os poetas do povo, interpretando e liberando a contida admiração que as camadas pobres lhe tinham, as feiras e os alpendres sertanejos se encheram de versos que transformavam o bandido em herói.

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Lampião – Fonte – http://www.itribuna.com.br

E a imaginação dos poetas do povo não tem limites. Assim, Lampião, cansado de enfrentar batalhões de polícia e valentões pelos sertões a fora, foi parar na porta do céu. Claro que lá não entrou. Foi expulso por São Pedro e um batalhão de santos armados com paus e pedras. Em “A chegada de Lampião no céu e a discussão com São Pedro”, o poeta Manoel Camilo dos Santos empresta a seus personagens as cores de seu próprio ambiente e cultura, criando um céu deveras prosaico:

“Chegou no céu Lampião

a porta estava fechada

ele subiu a calçada

ali bateu com a mão

ninguém lhe deu atenção

ele tornou a bater

ouviu São Pedro dizer:

demore-se lá quem é

estou tomando café

só depois vou atender”.

Cópia de 13- Recompensa oferecida pelo cangaceiro
O já conhecido anúncio de recompensa por Lampião, pretensamente oferecido pelo governo baiano.

Expulso do céu por um São Pedro humano e pachorrento, Lampião, conduzido pelas mãos e pela pena do poeta José Pacheco, foi parar nas profundas do inferno, atanazando o próprio Satanás. Lá também não ficou. Depois de uma renhida luta com um batalhão de diabos soldados de Lúcifer, onde, feito Sansão contra os filisteus, chegou a usar como arma uma queixada de boi, o cangaceiro deixou o inferno em péssima situação:

“Houve grande prejuízo

no Inferno nesse dia

queimou-se todo o dinheiro

que Satanás possuía

queimou-se o livro de ponto

perdeu-se vinte mil contos

somente em mercadoria”

Reclamava Lúcifer:

“Horror maior não precisa

os anos ruins de safra

agora mais essa pisa

se não houver bom inverno

tão cedo aqui no inferno

não se compra uma camisa”.

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Armas de fogo, munições e armas brancas encontradas em grutas que serviram de abrigo aos cangaceiros na Batalha da Serra Grande, em 1926, na zona rural de Serra Talhada.

Lampião vive na imaginação do povo que o transformou nesse estranho herói. Isso no plano da cultura popular. Já no terreno da cultura erudita, a dita cultura de elite, o tema está ainda á espera de um grande escritor, como mereceu Canudos. Segundo Hermilo Borba Filho, o aventuroso amor de Maria Bonita pelo Rei do Cangaço é muito mais rico em situações dramáticas do que a traição sofrida pelo noivo de “Bodas de Sangue”. Mas, enquanto não aparece um Lorca, um Euclides da Cunha ou mesmo um Mario Vargas Llosa, o mito de Lampião voa solto pelas caatingas desafiando os talentos como desafiou o poder. É verdade que sobre ele muitos

escreveram, mas muito pouco disseram. Pois, mais uma vez lançando mão de Carlos Pena Filho…

“… dele mesmo não sabem

e nem nunca saberão,

pois ele nunca viveu,

não era sim, era não,

como essas coisas que existem

dentro da imaginação.

Quem puder que invente outro

Virgulino Lampião”.

SOBRE RACINE SANTOS 

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É um homem de teatro. Autor, produtor, diretor e editor. Tem toda uma vida dedicada ao teatro. Na juventude foi ator, mas um acidente de automóvel o afastou da cena, não do palco.

Nasceu em Natal (RN), em 1948. Boa parte de sua infância passou na pequena cidade de Macaíba (25 Km de Natal), onde teve seus primeiros e marcantes contatos com a cultura do povo, assistindo as brincadeiras de boi-de-reis, pastoril, João-redondo e lendo seus primeiros folhetos de poesia popular. De 1961 a 1965 estudou no Recife, onde conheceu Ariano Suassuna, Hermilo Borba Filho e o artista plástico Abelardo da Hora, pessoas que considera importante para sua formação cultural e maneira de ver o Nordeste e sua gente.

De volta a  sua cidade liga-se ao Teatro de Amadores de Natal, grupo criado e dirigido por Sandoval Wanderley. Em 1976 escreve e dirige sua primeira peça: A Festa do Rei. Onde já se percebe um autor que trabalha a tradição popular assentada em bases eruditas.

Sua preocupação com o teatro da região o leva a fundar em 1992, juntamente com Luís Marinho, Luís Maurício Carvalheira, Altimar Pimentel, Tácito Borralho, Romildo Moreira e outros, a Associação dos Dramaturgos do Nordeste, da qual foi o presidente.

Autor de mais de uma dezena de peças, tem na cultura popular do Nordeste sua grande fonte, não para reproduzi-la, mas como meio de entender sua gente  e falar para ela de maneira direta, clara e viva. 

Além da três peças publicadas neste volume, são de sua autoria, entre outras: A Festa do Rei, A Farsa do Poder, Elvira do Ypiranga, A Ópera do Malazarte, Maria do Ó, Chico Cobra e Lazarino, O Voo do Cavalo do Cão, Bye Bye Natal ( Musical), O Autor do Boi de Prata e a infantil, O Congresso das Borboletas.

FONTE – http://www.ubern.org.br/canal.php?codigo=807

UMA REVOLUÇÃO PELO VOTO – A CAMPANHA PARA GOVERNADOR DE 1960 NO RIO GRANDE DO NORTE

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Propaganda eleitoral de Aluízio Alves – Fonte – https://juscelinofranca.blogspot.com.br/2013/05/7-anos-sem-aluizio-alves-o-homem-da.html

Rostand Medeiros – Membro da Diretoria do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

No ano de 1960 era governador no Rio Grande do Norte o caicoense Dinarte de Medeiros Mariz, da União Democrática Nacional – UDN. Neste seu último ano de mandato o governador buscava consolidar os candidatos à sua sucessão.

Dinarte Mariz discursando.

Paralelamente as bases oposicionistas, representados pelo Partido Social Democrático – PSD se organizavam para eleger o então deputado federal Aluízio Alves, tendo como vice-governador monsenhor Walfredo Dantas Gurgel.

As limitadas bases do PSD no Rio Grande do Norte começaram a apoiar a candidatura e as definições de apoio ao candidato oposicionista se avolumavam. Foi então deflagrada a campanha “Cruzada da Esperança”, com o apoio da maioria dos deputados federais potiguares, inclusive dois da UDN e o apoio de vários partidos anteriormente conflitantes que se uniram para assegurar a vitória dos candidatos da “Cruzada”.

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Aluízio Alves e Monsenhor Walfredo Gurgel na campanha de 1960 – Fonte – http://www.moradadamemoria.com.br/aluizio-alves/

Sob muitos aspectos a campanha de Aluízio Alves ao governo potiguar de 1960 foi revolucionária, onde contou, por exemplo, com a participação de um profissional que havia estudado marketing político nos Estados Unidos e até mesmo participado naquele país da vitoriosa campanha presidencial de Dwight David “Ike” Eisenhower.

Este homem era Roberto Albano e esta era uma situação até então inédita em uma campanha eleitoral no Rio Grande do Norte.

Albano havia participado em 1958 da vitoriosa campanha de governador do pernambucano Cid Sampaio e em terras potiguares ele repetiu de forma inédita por aqui o uso do sistema de pesquisas eleitorais e o uso de material propagandístico como adesivos, cartazes e foram criadas músicas que contagiavam as multidões. Uma destas músicas que chamou muita atenção durante a campanha foi a “Marcha da Esperança” e o slogan principal foi “A esperança e a fé salvarão o Estado”.

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Ponte sobre o Rio Potengi na década de 1960. Era uma época onde o Rio Grande do Norte carecia de obras estruturantes.

Logo Aluízio Alves chegou do Rio de Janeiro e a campanha “Cruzada da Esperança” começou para valer.

Começa a Campanha

Segundo o jornal Tribuna do Norte estampa, no dia 22 de maio de 1960, um domingo à noite, Aluízio desembarcou de um avião do Loyde Aéreo no extinto Aeroporto Augusto Severo. Era por volta das sete e meia da noite e Aluízio já desembarcou direto nos braços do povo. Foi realizada uma grande carreata com mais de 400 veículos até a Praça Gentil Ferreira, onde se realizou um comício que foi classificado como o primeiro grande evento de sua campanha no Rio Grande do Norte, com mais de 15.000 pessoas presentes.

No Rio Grande do Norte a campanha de Aluízio pegava fogo. Foram muitas as vigílias, passeatas de longa e de curta distância, mas sempre com muitas pessoas presentes. Foi criado o “Caminhão da Esperança”, onde os principais candidatos percorriam bairros da capital e as cidades do interior do Estado. O “Caminhão da Esperança” percorreu todos os quadrantes do Rio Grande do Norte.

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Trem da Esperança – Fonte – http://www.moradadamemoria.com.br/aluizio-alves/

Na busca para alcançar o maior número de adeptos foram utilizamos outros meios disponíveis existentes na época, como o “Trem da Esperança”. Que saiu de Natal até a cidade de Nova Cruz, realizando muitas paradas e comícios ao longo do percurso.

A convenção que homologou os nomes dos candidatos se realizou no dia 11 de agosto de 1960, uma quinta feira, dia do aniversário de Aluízio Alves. Segundo o jornal Tribuna do Norte primeiramente aconteceu pela manhã uma missa comemorativa do aniversário de Aluízio na antiga Catedral. Depois ocorreu uma reunião nos jardins da residência do empresário Rui Moreira Paiva, na Avenida Rodrigues Alves, com a presença dos principais candidatos e lideranças políticas, onde Aluízio leu o esboço do seu programa de governo.

Depois todos seguiram para a Praça André de Albuquerque, no centro da cidade, onde se realizou uma grande concentração popular, formada por pessoas de todas as partes da cidade que para lá se dirigiam em numerosas passeatas, destacando-se em número de pessoas e animação a passeata que veio do popular bairro das Rocas. Em meio a muito entusiasmo foi realizada a parte programática da convenção, onde foram homologados os nomes dos candidatos da “Cruzada da Esperança”. Foram escolhidos os seguintes candidatos.

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Campanha nas ruas. Aluízio na carroceria do “Caminhão da Esperança” – Fonte – http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/50-anos-do-governo-da-esperanca-a-campanha-da-esperanca/171456

Para governador – Aluízio Alves;

Para vice-governador – Monsenhor Walfredo Gurgel;

Para prefeito da capital – Djalma Maranhão;

Para vice-prefeito – Luiz Gonzaga dos Santos.

Em praça pública Aluízio e Djalma Maranhão anunciaram ao povo seus respectivos planos de governo.

A Campanha no Interior

Já logo no início Aluízio e o monsenhor Walfredo Gurgel seguiram para o interior do Rio Grande do Norte para levar a “Cruzada da Esperança”. Um destes casos ocorreu em uma grande movimentação política no Seridó.

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Fonte – http://www.moradadamemoria.com.br/aluizio-alves/

No dia 13 de agosto Aluízio e seus companheiros de campanha saíram de Natal, seguindo para Currais Novos, onde o candidato deu uma entrevista na Rádio Brejuí e depois o destino para a cidade de Jucurutu.

No outro dia, domingo, dia de feira em Acari, houve uma grande concentração dos aluizistas. Onde foi realizado um grande comício na antiga Praça Presidente Vargas, hoje Cipriano Pereira, diante da Igreja de Nossa Senhora do Rosário.

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Monsenhor Walfredo Gurgel em Caicó, atuando como educador, anos antes da campanha de 1960. A primeira jovem a esquerda é Dona Célia Vale, esposa do norte-americano Emil A. Petr e biografado em 2012 pelo autor deste texto.

O palanque foi o tradicional e ainda existente coreto. Ali, no começo da noite, em meio a uma multidão expressiva falaram várias lideranças. No momento de Aluízio falar ele então elencou várias metas que pretendia executar no seu governo para a Região do Seridó e, antes de encerrar o discurso, informou a multidão o apoio que recebeu para a sua candidatura do líder seridoense José Augusto Bezerra de Medeiros, ex-governador potiguar que nesta época vivia no Rio de Janeiro. A multidão aplaudiu de maneira entusiástica e ensurdecedora o teor da missiva e esse acontecimento tiveram muita repercussão em toda a região.

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Aluízio Alves em Macau – Fonte – http://www.obaudemacau.com/?page_id=30330

Um dos maiores eventos foi a caminhada da capital até a cidade de Macaíba, a maior manifestação em prol de Aluízio que ocorreu naquela campanha de 1960.

O povo seguiu seu líder a pé, chamou atenção a quantidade de pessoas, de bandeiras e todos percorrendo o velho caminho que passava pelos Guarapes. Era gente de todos os cantos da capital e dos sítios vizinhos. Havia homens, mulheres, jovens, velhos, crianças, ricos, pobres, enfim o povo potiguar se fez presente nesse dia.

As Eleições

Segundo as páginas da Tribuna do Norte e do Diário de Natal as eleições ocorreram em uma segunda-feira, 3 de outubro, onde foi decretado feriado nacional em todo o país. Tropas federais foram convocadas para conter os ânimos de uma campanha onde, infelizmente, ocorreram excessos decorrentes do radicalismo que marcou a mesma.

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Aluízio Alves e Monsenhor Walfredo Gurgel – Fonte – http://www.moradadamemoria.com.br/aluizio-alves/

Entretanto, as manifestações ocorridas na capital no sábado e no domingo antes da eleição foram intensas, mas sem problemas.

Houve muita previsão de violências, mas elas não aconteceram. Os eleitores dos dois candidatos, cada um ao seu modo, chegaram ao último momento da luta eleitoral em um clima de normalidade. Desde cedo muita gente foi para as ruas com suas bandeiras verdes dos aluizistas e vermelhas dos seguidores de Djalma Marinho. Havia em Natal um clima de verdadeiro carnaval, com a improvisação de blocos, de passeatas e de pequenos comícios, com pessoas de todas as idades participando.

Na segunda as eleições foram tranquilas, com um amplo comparecimento do eleitorado aos locais de votação e com abstenção mínima. Não se registraram maiores ocorrências nas inúmeras seções eleitoras espalhadas pelo Rio Grande do Norte. Soube que muitas destas terminaram a votação cedo devido ao comparecimento maciço de eleitores assim que as mesmas foram abertas. Às cinco da tarde encerrou-se o pleito.

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Juscelino Kubitschek e Aluízio Alves – Fonte – http://www.moradadamemoria.com.br/aluizio-alves/

O grupo aluizista em Natal manteve uma equipe bem organizada para coordenar os trabalhos da “Cruzada da Esperança” no dia da eleição. À frente estava o ex-governador Silvio Pedroza, o seu cunhado Graco Magalhães Alves e o candidato a prefeito Djalma Maranhão.

O Resultado

Naquele tempo as apurações eram mais lentas, pois eram manuais. Mas na terça-feira, 4 de outubro, já estava consolidada a vitória de Jânio Quadros em todo o país, de Aluízio Alves no Estado e de Djalma Maranhão como prefeito de Natal.

Para se tenha uma ideia da vantagem de Aluízio na eleição para governador, o jornal Tribuna do Norte aponta que em todas as urnas das 1ª e 2ª Zonas Eleitorais de Natal e em 12 urnas da 3ª Zona Eleitoral da Capital, Aluízio obteve 12.499 votos, contra 6.424 de Djalma Marinho, ou seja, o dobro da votação do candidato governista. Nas ruas o povo dizia com razão – “Aluízio ganhou na capital e Djalma perdeu no interior”.

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Discuso da vitória – Fonte – http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/50-anos-do-governo-da-esperanca-o-tempo-das-mudancas/171453

Os festejos foram muitos com o sucesso de Aluízio, mas os ecos da campanha ainda mantinham os ânimos bem acirrados. O jornal Diário de Natal de 8 de novembro de 1960 trás os detalhes de um caso que chamou a atenção no Rio Grande do Norte.

Tiros na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte

Mas a vitória de Aluízio Alves por si só não evitou o desarmamento dos ânimos bastante radicalizados pela campanha política de 1960. E isso se refletiu em todas as áreas, até dentro de locais onde o decoro exigia mais tranquilidade. 

No dia 7 de novembro, uma segunda-feira, aconteceu uma seção extremamente tensa na Assembleia Legislativa e com desdobramentos violentos. O deputado estadual Carvalho Neto, que apoiou a eleição de Aluízio, denunciou nesta sessão o deputado Moacir Duarte de forma bastante agressiva. Moacir era genro de Dinarte Mariz e líder de seu governo na Assembleia Legislativa.

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Segundo Carvalho Neto o líder udenista teria pedido uma contribuição financeira “por fora” ao empresário italiano Cornélio Giordanetti, proprietário do “Moinho Mobrasa”, na Ribeira. O dinheiro seria uma contribuição para ser utilizada na campanha política daquele ano.

Na mesma hora Moacir repeliu a insinuação e exigiu provas das acusações contra ele, na sequência foi para frente da tribuna e perguntou a Carvalho Neto se realmente era sobre ele que o deputado estava falando. Diante da resposta positiva Moacir Duarte partiu para cima do seu acusador tomando o microfone e o conflito começou.

Moacir então puxou um revólver e disparou contra Carvalho Neto, que aparentemente percebeu o que iria ocorrer tentou se baixar, mas escorregou e caiu. Se não fosse essa sua ação teria levado dois tiros, que inclusive vararam a tribuna feita de madeira de lei.

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Aí, segundo a versão estampada no jornal,  mesmo caído no chão Carvalho Neto puxou a sua arma e atirou.

De cinco a seis tiros foram disparados, mas logo a sua arma engasgou. Inclusive uma das balas atingiu uma janela do velho Palácio Amaro Cavalcanti, onde a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte tinha a sua sede e hoje se encontra o Tribunal de Contas do Rio Grande do Norte.

O Deputado Garibaldi Alves, irmão de Aluízio Alves, ao buscar apaziguar os ânimos entre os dois deputados levou um tiro na perna. Quem desarmou Carvalho Neto foi o deputado Valdemar Veras, então 1° Secretário da Mesa, que lhe tomou uma pistola calibre 45.

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Foi quando José Varela, então Presidente da Assembleia Legislativa e vice-governador, entrou na confusão aos gritos e de revólver na mão. Mandou de maneira forte que os dois deputados que se agrediram baixar as armas, se não “Quem atirava neles dois era ele”.

Varela desarmou a todos e pôs ordem na casa. Em seguida Garibaldi foi levado ao Hospital Miguel Couto, atual Hospital Universitário Onofre Lopes e depois seguiu para Recife.

Essa situação extrema na Assembleia Legislativa mostrou um dos aspectos negativos resultantes desta campanha política e do acirramento do clima entre a classe política do Rio Grande do Norte na década de 1960.

1987 – EDUARDO GOMES VOLTA A SER PARNAMIRIM

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Parnamirim, a terceira maior cidade do Rio Grande do Norte na atualidade – Fonte – http://canindesoares.com/site/wp-content/gallery/natal31014/_MG_2263.JPG

Publicada originalmente no jornal Tribuna do Norte, Natal, 28 de junho de 1987, página 11.

Trago a vocês através das páginas da TRIBUNA DO NORTE, um pouco do que foi a polêmica em relação ao retorno do nome original da cidade de Parnamirim no ano de 1987, cujo nome tradicional havia sido casuisticamente alterado para Eduardo Gomes em 1973. Eduardo Gomes foi um grande aviador, homem idealista, com uma extensa folha de serviços prestadas ao nosso País e cujas ações marcaram profundamente a História do Brasil. Entretanto ele mesmo, segundo se informa no texto, nunca quis a homenagem e sequer esteve presente na cerimônia de alteração da toponímia.

Esse registro deixa claro o quanto é importante ouvir a população de uma comunidade sobre a importância de sua identidade e de sua memória.

Após cinco anos de luta dos moradores da cidade de Eduardo Gomes para a volta do nome original da cidade Parnamirim, os 48 mil habitantes tiveram na noite de quinta-feira e na manhã de ontem motivos para comemorar a aprovação na Assembleia Legislativa do retorno ao nome original. O exemplo da resistência da população pode ser facilmente constatado pela comerciante Júlia Pinheiro de Paiva. A sua loja de material de ferragens em geral há 20 anos continuou durante o período de mudança do nome como “Casa Parnamirim”.

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Casa da antiga estação de Parnamirim – Fonte – Tribuna do Norte

Segundo o vereador de Parnamirim, João Maria Beduíno “a rejeição da população em relação ao nome de Eduardo Gomes foi uma questão de determinação do então deputado Moacir Duarte mudar o nome de uma cidade sem consultar as bases e, além disso, em 1973 apesar de estar vivo, Eduardo Gomes não compareceu a cidade para receber a homenagem e mandou um representante”. A nossa esperança é que o governador Geraldo Melo sancione a lei o mais rápido possível para a comemoração da cidade.

As praças, os muros dos prédios totalmente pichados mostraram a campanha geral da comunidade pelo retorno do nome de Parnamirim como, por exemplo, o prédio da Caixa Econômica Federal tem o seguinte grafite “volte Parnamirim”. Na praça central as faixas mostravam o contentamento da população e os grupos que circulam na cidade não falavam outra coisa. O motorista de táxi, Luiz Alves de Medeiros declarou que nunca entendeu a transformação da cidade porque a prefeitura gastou recursos na construção de um monumento em homenagem a Eduardo Gomes em detrimento de problemas da cidade.

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As primeiras edificações do Campo de Parnamirim.

Apesar da mudança do nome a cidade permaneceu com um centro social, conjunto residencial, lojas e algumas placas de carros com o nome de Parnamirim que segundo Jozias Alves de Medeiros, é uma forte demonstração da insatisfação da população pelo desrespeito de Moacir Duarte para com a população da cidade.

Com um sorriso largo, Luiz Gomes da Silva declarou que apesar dos vários anos de residência na cidade, o seu veículo de marca jipe até pouco tempo atrás tinha a placa identificada como Parnamirim, mas o Detran chegou um momento que não renovava o emplacamento se a identificação do carro não mudasse para Eduardo Gomes.

Mas não são apenas os moradores antigos que cultivaram as esperanças de voltar a cidade de Parnamirim. Margarete Saraiva de Carvalho, 23 anos de idade, afirma que a cidade merecia ter seu nome de origem de volta. O povoado, a vila e a cidade de Parnamirim têm uma história inicial de Rio Pequeno porque suas terras eram banhadas pelo rio Pitimbu que banha a cidade.

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Inauguração do açougue público de Parnamirim na década de 1950 

Os vereadores Ivan Bezerra e Walmir Dantas, da Câmara Municipal de Eduardo Gomes, deram início ao trabalho de mobilização da população para que voltasse o nome original e culminou com o projeto apresentado pelo deputado Rui Barbosa na Assembleia Legislativa com aprovação unânime. Na noite da festa, em Parnamirim, o deputado esteve presente participando com a população da vitória. Apesar de toda a luta e do envolvimento da cidade pela conquista, dona Júlia, evangélica, disse que não participou da festa, mas tem um trabalho na igreja e que todos ficaram felizes.

O exemplo do motorista de taxi, as palavras do vereador — representante do povo — os depoimentos dos novos e velhos moradores da cidade, serão o reforço para que Geraldo Melo sancione a lei num espaço de tempo pequeno como forma de uma população inteira voltar a ser parnamiriense.

Parnamirim ou Eduardo Gomes?

Afinal permanece o nome de Eduardo Gomes ou retorna o de batismo, Parnamirim? Uma fatia da comunidade defende bairrísticamente o mais breve retorno do nome original, enquanto uma mais nova geração admite que deve mesmo persistir o nome do Brigadeiro Eduardo Gomes. Lá se vão treze anos que o nome de Eduardo Gomes encontra-se emprestado para este município de futuro promissor e uma parte de sua sociedade afirma que é mais digno mantê-lo da forma como se encontra, outros, porém, arraigados à tradição e ao sentimento ufanista, debatem-se esperançosamente para que as autoridades façam jus merecimento devolvendo-lhes o nome real, que lhes fora tomado inadvertidamente por um projeto governamental, sem que ao menos fossem consultados. E a questão prossegue.

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Eduardo Gomes, o patrono que não queria ser patrono.

Depois de inúmeras tentativas por parte de alguns políticos, surge ultimamente o nome do Dep. Rui Barbosa que, ao que parece, levará a sério a vontade popular, acreditando nos apelos constantes de vereadores e lideranças locais clamando por um projeto que revogue o atual nome, fazendo renascer o primogênito, Parnamirim. Mas, Eduardo Gomes ou a antiga Parnamirim é caracterizada por peculiaridades mil, a ver: é uma Cidade da Grande Natal e muito privilegiada por sua proximidade da Capital, senão já quase geminada por completo a esta. E detentora de aproximadamente

35 (trinta e cinco) indústrias, macro e micro empresas, justaposta mente por ter tido a felicidade em poder ser servida por duas BRs que lhe dividem respectivamente a BR-101 e a BR-304, além da linha férrea e o aeroporto internacional que lhe fez o ninho de seu nascimento. É uma Cidade plana e possuidora de um lençol d’água invejável por sua composição mineral, pureza e cristalinidade. Abraça uma população hoje de aproximadamente 45.000 (quarenta e cinco mil habitantes), sendo um forte contribuinte ao Estado pela invejável arrecadação de tributos.

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2002, Aeroporto Augusto Severo, Parnamirim, hoje pertencente exclusivamente a FAB.

É a segunda cidade que mais se comunica no Rio Grande do Norte com a TELERN, orgulhando-se deste desempenho. Mas, o que destaca Eduardo Gomes (ou Parnamirim) é o seu potencial estudantil apresentando em proporções consideráveis, um exemplar e notável número de estudantes universitários e formados reconhecida estatisticamente como a cidade universitária do Rio Grande do Norte. Rica em valores culturais e talentos artísticos, destaca-se prioritariamente nos esportes principalmente futebol de campo e de salão, cujos jovens estudantes e atletas a orgulham-na por sua jovialidade de cidade-mãe tão recente. Com apenas 28 (vinte e oito) anos de emancipação e vigor de uma crescente pequena grande metrópole, possuidora de encantáveis praias como Cotovelo e Pirangi e honrada por abrigar em seu solo a Barreira do Inferno, inspiração nacional.

História

Natal, abençoada por seu nome e pelos desígnios da divindade que ela própria traduz, nascera predestinada geograficamente para desempenhar papel importantíssimo no desenvolvimento da aeronáutica sul-americana por sua estratégica localização. Como esquina do continente, os pilotos de companhias internacionais utilizavam o Rio Potengi (quando em seus hidroaviões) ou do TABOLEIRO DE PARNAMIRIM em seus “raids” intercontinentais.

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Em uma área de 800m2, onde foi preparada uma pista de pouso de terra ao custo de U$600, no dia 14 de outubro de 1927 aterrissou o famoso avião francês batizado “Nungesser et Coli” da Latecoère, pilotado por Dieudonné Costes e Joseph Le Brix, inaugurando o Campo de Parnamirim. Tendo sido sido voada a rota São Luiz do Senegal – Natal na primeira travessia leste-oeste, de continente a continente, através do Atlântico Sul. Na foto a chegada dos tripulantes franceses.

Foi assim que Paul Vachet, piloto francês da Aeropostale, companhia que substituía a Latecoére, após um pouso na Praia da Redinha em 17 de julho de 1927, decolava sobrevoando a área do Taboleiro Parnamirim deslumbrando-se com a sua planície que mais tarde viera a ser o local escolhido para instalação da Base Aérea de Natal, reconhecida como a cabeça de linha transatlântica ou transoceânica da América do Sul o que veio a se tornar uma das bases mais importantes do mundo pelos milhões de bombardeiros que de lá se lançavam para a África e Ocidente. Parnamirim já era um campo conhecido, pois margeando a linha de ferro construída pela Great Western que ligava Natal a Recife que se estabelecera definitivamente o local de construção da pista de pouso e Base. Em 1941 os governos brasileiros e americanos firmaram compromisso recíproco de defesa utilizando-se da citada área para fixação da Base Aérea que veio dar a Parnamirim fama internacional.

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A respectiva Base Aérea veio ser criada através do Dec. Lei n° 4.142 (Pres. Getúlio Vargas), com a chegada pouco tempo depois das conquistas L.A.T.I. (italiana) e Air France e, seguida da guerra que trouxe os americanos instalando-se para a construção da base americana e campo Parnamirim Field.

E a comunidade crescia em suas adjacências criando os famosos mocambos que viera, por determinações supostas do então Brig. Eduardo Gomes, serem queimados, havendo duas versões populares: — a primeira, de que a ordem da queima fora efetuada no sentido de se evitar o surto de epidemias que ameaçavam contagiar a unidade e a segunda, pelo fato da incômoda presença dos flagelados e propagação do aspecto da miséria naquela área. Em 1946, no dia 24 de outubro era inaugurado o aeroporto com o nome de Estação de Passageiros da Base Aérea de Natal com o tenente coronel Rube Canabarro Lucas proferindo a importância do feito:

“Este aeroporto é o Gibraltar da navegação aérea transoceânica e, portanto, uma das mais importantes encruzilhadas do mundo”.

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Base de Parnamirim Field em jornal dos Estados Unidos após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Mais tarde em 24 de novembro de 1951 o governo federal elevou a categoria do aeroporto para internacional, tendo em 1980 sido efetuados os trabalhos de reforma e ampliação. E a cidade, abençoada por sua própria índole crescia para receber também a instalação de outra Base: A Barreira do Inferno que em junho de 1964, através do capitão Raimundo Soares Bulcão recebia os primeiros atos e sendo em 15 de dezembro de 1965, com a presença do Brig. Eduardo Gomes e demais autoridades inaugurada com o lançamento do Nike-Apache, pequeno foguete que atingiu 128 Km em apenas sete minutos.

Era o grande marco do Brasil na era espacial e cujo ninho destas novas e modernas águias, mais uma vez, seria o solo de Parnamirim.

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E a vila de Parnamirim criada em 1943 crescente viera a se transformar em Distrito em 23 de dezembro de 1948 no Governo Dinarte Mariz estabelecendo-se também os seus limites. Parnamirim (que em linguagem Potiguar indígena significa Lago ou Rio Pequeno) reconhecida internacionalmente pelo que a história da II Guerra lhe pode proporcionar em sua feliz posição estratégica viera mais tarde ter o seu nome submisso através de um projeto de lei de autoria do dep. Moacir Duarte que lhe retirada a toponímia colocando-lhe Eduardo Gomes. Em 1973, Projeto n° 4.278 de 06 de dezembro durante o governo Cortez Pereira.

Plebiscito

As pessoas mais antigas são unânimes em afirmar que a atitude de troca do nome Parnamirim não passou de casuísmo. O povo não foi consultado e esta mágoa dos tradicionais filhos de Parnamirim se arrasta até o presente.

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Délio Jardim de Matos, Ministro da Aeronáutica na época afirmou antes do plebiscito – “Ele (Eduardo Gomes) não queria tal homenagem mas, mas uma vez já feita e diante de tantos anos não se pode fazer tal desonra à Força Aérea pois se trata de nosso Patrono”.

Em agosto de 1984, no dia 8 às 10:15hs, em Brasília, uma comissão de Vereadores composta por Cláudio Gomes, Manoel Anúbio e João Maria era recebida pelo então ministro Délio Jardim de Matos, da Aeronáutica, participado do quadro e intrigado pela falta de sensibilidade e respeito pela memória do Patrono da Aeronáutica afirmava: “Ele (Eduardo Gomes) não queria tal homenagem mas, mas uma vez já feita e diante de tantos anos não se pode fazer tal desonra à Força Aérea pois se trata de nosso Patrono”.

A população continua clamando e seus legítimos representantes tentam a todo custo retribuir os compromissos assumidos. Ivan Bezerra e Walmir, Cláudio e João Maria, os principais batalhadores do movimento que em forma inicial de requerimento foi encaminhado uma primeira vez ao prefeito Fernando Bandeira que não o encaminhou à Assembleia Legislativa como teria que fazê-lo. Depois uma segunda e com o aprovo dos nove vereadores (Cláudio Gomes, Walmir Dantas, João Maria, Marconi Severo, Ivan Bezerra, José Felipe, Teodomiro Barbosa, Valério Felipe e Laércio de França, sendo contrário apenas o Vereador Manoel Anúbio e a matéria de 9×1 (nove votos contra um) foi reencaminhada ao prefeito municipal que mais uma vez deu o calado como resposta, e uma segunda via fora entregue ao deputado estadual Rui Barbosa que assumiu a responsabilidade pela luta no retrocesso do nome de Parnamirim.

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José Siqueira de Paiva participou do movimento contra projeto que mudou nome de Parnamirim – Fonte – http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/o-comerciante-que-a-lutou-contraa-eduardo-gomes/313969

Política

O governador Geraldo Melo em dias de campanha política discursou usando o antigo nome da cidade, recordando os tempos idos em que trabalhou como funcionário civil do reembolsável da Base Aérea, hoje CATRE. Na oportunidade via-se a sua simpatia ao retorno do nome, enquanto na Assembleia, muitos deputados que obtiveram votos no último pleito, deverão estar em concordância com as suas lideranças ao que indica uma maioria absoluta de votos no projeto citado.

Festa

Organizadores anônimos, filhos da cidade, já preparam uma monumental manifestação popular pelas ruas da cidade, caso venha este Projeto a ser aprovado. Outro movimento de jovens estudantes picharam os muros reclamando o retorno de Parnamirim. Outras versões indicam que um projeto federal proíbe o duplo nome de Parnamirim, registrando o já existente em Pernambuco e alguns admitem que será um prejuízo incalculável o processo burocrático para as instituições públicas, comerciais e industriais etc, com a troca do nome.

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Base de Parnamirim Field em plena atividade durante a Segunda Guerra Mundial – Fator de crescimento inicial da cidade de Parnamirim.

Méritos

Mesmo diante da expressiva vontade do povo pela volta do nome de Parnamirim, os entrevistados sempre referiram-se com respeito e admiração pela memória do Brig. Eduardo Gomes, pelo brilhante idealista que foi e pela passagem dinâmica com que desempenhou suas funções militares, sendo pioneiro na formação do Correio Aéreo Nacional, obra de vulto para a nação e que até hoje vislumbra o seu glorioso intento atingido com tamanho sucesso. Reconhece-se que Eduardo Gomes, sem dúvida, contribuiu decisivamente para o progresso, do país, participando, inclusive politicamente, quando de sua candidatura à Presidência e somando feitos memoráveis por suas atividades. Um perfil de seriedade e abnegação: um homem cuja vida fora total e integralmente emprestada à defesa do patrimônio nacional resguardando exclusivamente o nosso potencial aéreo. Um Brigadeiro no sentido literal e um herói por consagração e em especial caráter por ter tido ainda em vida a plena convicção de seus méritos através das mais diversas homenagens que recebera sempre de todos os quadrantes do país. Homenageado pelo prefeito Antenor Neves, portador da comenda em forma de Projeto por intermédio do dep. Moacir Duarte, o Brig. Eduardo Gomes não quisera aceitar o propósito já convalescente no hospital do Rio, vindo a falecer bem pouco tempo depois.

NORDESTE À SOMBRA DO PASSADO – QUESTÕES FAMILIARES: CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS

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Fonte – http://evans1309.blogspot.com.br/2012/12/a-cruz-da-estrada-castro-alves.html

Autor – ADAUTO GUERRA FILHO

Publicado originalmente no jornal Tribuna do Norte, Natal-RN, edição de domingo, 20 de agosto de 1982, página 12. 

A defesa da honra e moral da família é tão antiga quanto a própria história. O interesse pelo crescimento da família desde os primórdios dos tempos, não é apenas um fator ligado ao trabalho. Paralelo a isso, a honra e proteção de bens e pessoas. Então as questões familiares marcaram presença no Nordeste do Brasil a partir de sua organização social e política até os nossos dias. Essas questões não deixaram como consequências apenas larga margem de mortandade, em ambos os lados e quase extinção de algumas delas, mas deram origem a bandidos famosos. Folheando as páginas da história do cangaço no Nordeste ou conversando com os mais velhos, vendo o s nomes dessas famílias repetidas vezes:

ALVES E LIMÕES: PATU-RN; FERREIRAS E SATURNINOS DE BARROS – VILA BELA (SERRA TALHADA-PE); CARVALHOS E PEREIRAS – PE; ROCHAS E PEREIRAS – SÃO GONÇALO-PB; NITÕES LACERDAS E GINIPAPOS: ITAPORANGA-PB; e as mais badaladas nos dias atuais (1982), SARAIVAS E ALENCAR – EXU-PE.

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Professor Adauto Guerra – Foto: Melina Soares – Fonte – http://correiodoserido.com.br/legado-literario-do-professor-adauto-guerra-sera-lancado-nesta-quinta-em-caico/

Quando não eram causas políticas, eram sociais, porém o fim era sempre o mesmo — crime de vindita.

O binômio viuvez e orfandade se associavam para se equacionarem com extinção de dinastia. A figura venerável e heroica de Jardelina, esposa de Chico Pereira, viúva desde os 17 anos vem comprovar a veracidade dos fatos:

— Estado civil? — Viúva.

— Pai? — Assassinado.

— Esposo? — Assassinado.

— Sogro? — Assassinado.

— Cunhado? — Assassinado.

E meio a tantas cordilheiras de inimizades que floresciam, tornava-se quase impossível a vida no sertão. E o povo lamentava: aqui no sertão, quando não é ano de seca é ano de Cangaço. Numa região em que a vingança era um dever sagrado, o homem era infeliz mais pelo próprio homem que pela natureza, (livro Vingança não – P. Pereira Nóbrega).

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Lampião em seu aparato de guerra | Crédito: Reprodução – Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/brutal-lampiao.phtml#.WWwJ3ojyvXP

Bem no início da segunda década do século (07/05/1921) cresce o expoente máximo de todos os conflitos: Lampião. Foi um tipo que se encarnou perfeitamente nessa era (Vingança Não – P. Pereira Nóbrega). “Assassinou mais de mil vidas, incendiou umas quinhentas propriedades, matou mais de cinco mil rezes, violentou a mais de duzentas mulheres e tomou parte em mais de duzentos combates. E assim é que só em Pernambuco, foram mortos e presos mais de mil cangaceiros, pertencentes às hordas de Virgulino”. (LAMPIÃO – OPTATO GUEIROS 4° EDIÇÃO – PÁG. 16).

Não se podia esperar paz e prosperidade nos sertões nordestinos onde o rifle e o punhal eram sempre as respostas às agressões e o luto era substituído pela indumentária do cangaço.

A reportagem vai a Patu e procura um sobrinho de 2° grau de Jesuíno Brilhante.

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A característica serra que rodeia a cidade de Patu e a Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores.

Sentado na calçada de um armarinho, o vereador Antonele Rodeiro cumprimenta os que passam. Depois, levanta-se e vai até o carro atendendo ao chamado. Conta toda história do conflito ALVES X LIMÕES desde o início, como o garoto sabido repete a lição. O repórter ouve com atenção e faz anotações. No final o Alves diz: Olha; vá a Janduís-RN, que lá você encontra Chico Alves sobrinho legítimo de Jesuíno Brilhante e converse com ele, pois ele sabe mais a história de que eu. O carro já ia partir quando o repórter lembra-se de uma pergunta importante:

— Ei, espere aí, e os Limões?

— Ah! Não existem mais; Jesuíno acabou com todos.

Depois, coçou a cabeça e falou surpreso: Ah! Sim; ainda tem um descendente deles por aqui. Dioclécio Barbeiro.

Mas não ficou só por aí. Após a morte de Jesuíno na fazenda Santo Antônio, município de Brejo do Cruz-PB, a viúva foi para o Amazonas com os cinco filhos e nunca mais se teve notícias. A fazenda Tuiuiu não deixou marcas da passagem da influente família Alves de Melo Calado. Até o casarão foi derrubado.

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Neste local, na fazenda Tuiuiú, zona rural de Patu, ficava a casa de Jesuíno Brilhante.

Quanto ao Camucá onde moravam os Limões a 3 km. do Tuiuiú — Os Limões do Camucá — assim conhecidos, não se tem notícias. A reportagem interrogou várias pessoas e ninguém dá notícias. Uma habitante assim falou: Quem sabe, talvez seja o Pelego. Se assim o é, significa que até o nome da fazenda mudou.

As causas mais simples trouxeram graves consequências. Uma simples reclamação do velho João Alves pai de Jesuíno ao garoto empregado dos Limões por está com o pé em cima de uma cadeira, provocou uma resposta do “moleque atrevido”. Depois, a surra dada por Jesuíno no “moleque” para aprender a respeitar os mais velhos.

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1879-Jesuíno Brilhante ataca a fazenda Curvelo, em Catolé do Rocha, Paraíba, e mata um estudante de direito.

Depois o desaparecimento de uma cabra do alpendre da fazenda dos Alves, atribuído aos Limões. Depois a represália dos Limões a ofensa. Vem a surra do Honorato Limão em Lucas Alves, irmão de Jesuíno numa festa em Patu. Enfim, a vingança de Jesuíno matando Honorato Limão. Agora, Jesuíno Cangaceiro.

Para o sertanejo, o herói dos cinco irmãos, pois o herói não é aquele que perdoa, mas sim aquele que se vinga. Agora não é mais Jesuíno Alves de Melo Cardoso, o poeta romântico, agricultor, boiadeiro, hábil equestre e sim Jesuíno Brilhante (homenagem a seu tio, o Cangaceiro José Brilhante de Alencar, avô do falecido Padre cearense Antônio Alves de Alencar, conhecido por Pe. Brilhante).

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Interior da Casa de Pedra de Patu, ou Casa de Pedra de Jesuíno Brilhante, local utilizado por esse cangaceiro como esconderijo.

Os Alves de Melo tinham uma coisa contra si; pertenciam ao desprestigiado Partido Liberal e, enquanto os Limões pertenciam ao Partido Conservador, que lhe dava ampla cobertura. A perseguição ao Alves era intensa.

A história não muda se repete. O que muda são as datas e os personagens. Na segunda década do século, o desaparecimento de uns bodes da família Ferreira, na fazenda Passagem das Pedras, em Vila Bela (Serra Talhada-PE), atribuído a um morador de José Saturnino de Barros, trouxe de início apenas pequenas represálias; — troca de palavras e vingança em animais. Depois tiroteios, incêndio e grandes emboscadas.

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Ruínas a casa de José Ferreira, no Sítio Passagem das Pedras, década de 1970.

Depois, o assassinato do velho José Ferreira pelo Zé Lucena, tenente da polícia alagoana, em Piraconhas – AL (22/04/1920). O resto foi citado. E as mortes serviram de inspiração para o poeta Zabelê que fazia parte do bando. 

No lugar por onde passa,

o bando de Virgulino;

o sacristão da igreja,

vai logo bater no sino.

 

O rifle de Lampião,

dá cem tiros num minuto;

já fez aqui no sertão,

muita gente botar luto.

 

A Bahia está de luto,

Pernambuco de sentimento;

Sergipe de porta aberta,

e Lampião sambando dentro.

 

Querendo fazer sapato,

inté sou bom sapateiro;

querendo entrar no cangaço,

inté sou bom cangaceiro;

qui esse negócio de matar gente,

é serviço mais maneiro.

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Notícia do ataque do bando de Lampião a fazenda Tapera, em Floresta, Pernambuco.

Lá na Tapera alguém às vezes sente dificuldades em dormir.

O ódio e o desejo de vingança parece que aproveita o silêncio das caladas da noite para perturbá-lo. É Cassimiro de Gilo, único sobrevivente de uma família assassinada por Lampião e seus cabras. O fato passou-se assim: O cangaceiro Horácio Novais tinha uma inimizade com Manoel de Gilo por conta de uns burros. Escreveu uma carta com assinatura de Manoel de Gilo a Lampião, cobrindo-o de desaforos e concluindo que estava disposto a recebê-lo à bala. O chefe do banditismo descansava com os cabras em Floresta do Navio e ao ler a carta, seguiu com o bando para Tapera.

Cercou a casa e abriu fogo. Manoel de Gilo resistia ao cerco e pedia explicação. Lampião mostrava a carta. Gilo negava. Quando parecia convencer Lampião foi tarde. Estava ferido mortalmente por uma bala de Horácio Novais. No final, 14 inocentes corpos estendidos ao solo Lampião ao saber não gostou e expulsou imediatamente Horácio Novais do bando. Hoje ele é fazendeiro em Goiás.

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Entrada do cemitério da Fazenda Gilo – Foto – Sérgio Azol

Começou a terceira década do século. E naquela fatídica tarde-noite de 11 de setembro de 1922, Zé Mutuca, Zé Dias, Chico Dias e um Campineiro armaram uma cilada e assassinaram o Coronel João Pereira na sua venda em Nazarezinho-PB. Apenas um filho estava presente: Aproniano viera em defesa de seu pai com Nobilino e seu irmão João Fernandes.

Só Nobilino morreu. Quando aos inimigos, Zé Dias escapou ileso, Chico Dias desapareceu com o ventre de fora, o Campineiro e Zé Mutuca faleceram depois. O verdadeiro assassino entre os quatro foi Zé Mutuca. No final da luta, ferido, fingiu-se morto. O coronel confiante passou por ele julgando-o cadáver. Ele aproveitou-se e disparou uma arma ferindo-o mortalmente. O coronel caiu por cima dele. Veio a falecer na fazenda Jacu ao lado da esposa e de seus filhos pedindo para não se vingarem.

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Fazenda Jacu, Nazarezinho, Paraíba.

Mas os comentários do povo incomodavam o filho mais velho Chico Pereira, que trabalhava na construção do açude São Gonçalo-PB. Siziam “Ô vingança demorada!”. “Fosse meu pai não ficava por isso mesmo”. “Chico? Abdon? Abdias? Aproniano? “De que vale a pena quatro homens dentro de casa”. “Era melhor vestir saia”. Como a polícia se omitisse, Chico Pereira foi atrás de Zé Dias, uma vez que Chico Dias era figura apagada e pouco interessava. Chegaram a Delegacia, Zé na frente, Chico Pereira atrás e o revólver no meio (Livro Vingança Não). Não foi preciso muito tempo para Zé Dias estava perambulando pela rua, livre desimpedido.

E agora?

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Chico Pereira

Chico Pereira preferia as palavras do pai “Não se vinguem”. Mas não queria ficar desmoralizado, era uma questão de oportunidade. Armou a emboscada. Zé Dias, parecia adivinhar tudo e deixou o esconderijo apontando do outro lado da serra. Chico Pereira, porém, era bom na canhota de modo que a distância não era problema. Não acabou-se apenas o pobre Zé Dias que nada tinha a ver com a encrenca. Acabou-se também o almocreve, o conquistador, o dançarino, o romântico, o hábil cavaleiro, o herdeiro da fazenda Jacu, o comerciante (Chico comprava cal no Rio Grande do Norte e vendia na Paraíba). Agora, Chico Pereira, Cangaceiro, despatriado, considerado fora de ordem pelas autoridades, que só tinham a lhe oferecer uma dura perseguição e até a morte.

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Um típico cangaceiro nordestino na década de 1920

Zé Dias, guarda do IFOCS, (hoje DNOCS), morreu sem descobrir o autor intelectual da sua morte. Mas fica sem duvidar que um dos autores indiretos fosse João Rocha, ligado ao Dr. Otávio Mariz. Uma vez João Rocha fora a venda do Cel. João Pereira e não o encontrando, destratou Aproniano. A simpatia do Cel. João Pereira, ameaçara o prestígio político de João Rocha. Já o Dr. Otávio Mariz, por sua vez, era um homem temperamental, tinha uma grande dívida para com os Pereiras. A inimizade com a família o fez surrar impiedosamente o pobre Chico Lopes, comerciante de Nazarezinho, no meio da rua de Souza – PB. No final falou: Agora vá chamar os Pereiras para apanhar também.

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Foto da parede da grande barragem de São Gonçalo, local onde a desgraça da família de Chico Pereira teve início.

Chico Lopes era protegido do falecido Cel. João Pereira. Chico Lopes foi mesmo chamar Chico, mas também alguém mais forte, que estava escondido numa serra em Pernambuco, se curava de um ferimento provocado por uma bala: Lampião: Este não podendo vir mandou 40 cangaceiros liderados pelos seus irmãos. Faltava unir-se ao bando de Chico Pereira, Ele chamou sua mãe aflita e falou; Mamãe, os irmãos de Lampião estão aí. Este é Antônio Ferreira, este é Levino.

— Meu filho! O bando de Lampião em minha casa?

— Não fui eu quem chamei, mas também não vou botar pra fora. (Livro Vingança Não).

Aproniano incentivava: Vá Chico; pegar Otávio Mariz. Esta surra estava preparada para você.

Logo o bando que desaparecia nos cordões da Serra cantando: Olé muié Rendeira, olé muié Rendá (composição feita por Lampião em homenagem a sua avó paterna, a velha Jacosa Lopes que fazia renda). Dona Maria Egilda, por sua vez, ficava amargurada: — Meu Deus! Que horror! Meu filho no bando de Lampião! Que vergonha! Ontem eu era esposa de um coronel pacato, hoje, mãe e tia de cangaceiros. Eu bem que dizia que depois que João morreu a desgraça entrou nesta casa (Livro Vingança Não).

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Se Chico pereira queria vingança, os cangaceiros de lampião queriam matar, assaltar e roubar moça. O cangaceiro “Meia Noite” estava mais interessado em joias. Paizinho tinha uma rixa com o Juiz e se regozijava com a oportunidade de matá-lo. E dizia: o juiz de direito não mais vai condenar ninguém.

O resultado foi um ataque que marcou a História de uma das principais cidades da Paraíba e toda a culpa do episódio recaiu sobre Chico Pereira, que nunca mais encontrou paz e anos depois foi assassinado no Seridó Potiguar, em um fato vergonhoso para a História da Polícia Militar do Rio Grande do Norte e do então governador Juvenal Lamartine.

TOK DE HISTÓRIA NAS PÁGINAS DA TRIBUNA DO NORTE

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Hoje tivemos a satisfação de ver estampado nas páginas da TRIBUNA DO NORTE, o principal jornal do Rio Grande do Norte uma interessante reportagem sobre algumas fotos produzidas pelo fotógrafo lituano Ivan Dimitri, que esteve em Natal em 1944. O material produzido por este fotógrafo, de maneira bastante interessante, mostra em vivas cores o que foi o impacto daqueles dias em Natal e Parnamirim Field. 

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A reportagem foi feita pelo jornalista Yuno Silva, a quem demos uma pequena declaração sobre a importância deste material e, principalmente, a importância da democratização histórica de imagens como estas para o público em geral, principalmente no Rio Grande do Norte. 

Recentemente estas fotos bombaram em alguns blogs pela internet, alcançou picos de visualização muito positivos, batendo todos os recordes do TOK DE HISTÓRIA (Ver o link – https://tokdehistoria.com.br/2014/06/23/fotos-coloridas-dos-americanos-em-natal-durante-a-segunda-guerra-mundial/ ).

Temos a clara convicção, mesmo com fortes críticas que recebo com certa frequência, que a nossa ideia de democratizar a informação histórica é extremamente válida. 

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Este tipo de informação é um gerador de várias coisas positivas, até mesmo na questão da formação da identidade de um povo. Acredito que material histórico guardado por poucos ditos “doutos”, ou dentro de muros de instituições monolíticas que só olham para o próprio umbigo, ou entre pessoas que esperam que governos criem instituições com a ideia exclusiva de geração de recursos próprios e vantagens políticas, é algo verdadeiramente nefasto e complicado.

Estas 22 fotos de alta qualidade, coloridas, com ótima resolução, que mostram Natal e Parnamirim Field, foram conseguidas através do site http://www.buzfeed.com, a quem agradecemos por haver publicado este material tão interessante para a história de Natal. 

A publicação destas fotos foi possível através da dica da amiga Andreza Diniz. Mais uma vez valeu amiga!

O MARCO NO MORRO DO NAVIO, EM PIUM, NÍSIA FLORESTA, RIO GRANDE DO NORTE

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Autor – Rostand Medeiros

Uma situação que pessoalmente me deixa muito feliz é encontrar, trocar ideias e fazer amizade com pessoas que gostam de história. Mas esta situação se torna mais interessante é quando encontro pessoas interessadas em também proteger o nosso patrimônio histórico, tão vilipendiado e dilapidado que faz pena.

Bem, no último mês de março recebi um e-mail de um cidadão de nome Flávio Gameleira, um dentista, que curiosamente está terminando o curso de Gestão Ambiental. Em sua mensagem ele me trazia a notícia da existência de um estranho objeto de concreto, tombado no alto de uma duna no nosso litoral sul e que poderia ter haver com a Segunda Guerra Mundial.

Ele me enviou um link de um filme postado no You Tube em janeiro último e com pouco mais de um minuto de duração. Para evitar muita escrita, vejam o material clicando no link abaixo;

http://www.youtube.com/watch?v=q0KbAVM1Ln0

Então marcamos um encontro em minha casa, onde conheci Flávio e seu amigo Keber Kennedy e juntos trocamos ideias e teorias sobre aquele artefato.

Ligação com a Guerra

Flávio Gameleira me comentou que esteve no local com seus amigos Keber Kennedy e Március Vinícius no dia 4 de janeiro de 2013. Para chegar ao local ele contratou os serviços do Guia de Turismo chamado Marcelo.  Ele me revelou que havia um marco de concreto que havia sido fincado inicialmente no alto do morro e atualmente se encontrava cerca de 50 metros abaixo do local original. O Guia Marcelo lhe relatou que pessoas da região haviam informado que havia um ano gravado no marco: 1942 ou 1943.

No marco no Morro do Navio vemos Keber Kennedy (com a cãmera), Flávio Gameleira e Március Vivícius em janeiro de 2013
No marco no Morro do Navio vemos Keber Kennedy (com a cãmera), Flávio Gameleira e Március Vinícius em janeiro de 2013

Neste encontro Flávio me afirmou que ele e seus amigos tentaram desenterrar o marco, mas aquilo era uma tarefa muito pesada para ser realizada apenas com as mãos. Ele me comentou, e eu também achei o fato intrigante, saber que em um local de dificílimo acesso existia algo como aquilo e que a maioria das pessoas de nada saiba.

Para Flávio era importante saber quem, quando e porque foi colocado aquele marco naquele local , pois poderia se tratar de um patrimônio histórico.

Morro do Navio em abril de 2013, agora completamente desenterrado
Morro do Navio em abril de 2013, agora completamente desenterrado

O marco está na duna conhecida como Morro do Navio, ou Morro Vermelho, próximo a localidade de Pium, zona rural do município de Nísia Floresta a poucos quilômetros ao sul de Natal. Em meio a uma zona litorânea com ausência significativa de elevações naturais, este acidente geográfico se destaca na paisagem por possuir cerca de 350 metros de altitude. Ele é um pouco mais elevado que o famoso Morro do Careca, na Praia de Ponta Negra, este com uma altitude próxima de 340 metros.

Mas além da altitude o Morro do Navio é extremamente interessante para quem estuda a Segunda Guerra Mundial pela sua localização.

E como se encontrava em janeiro de 2013
E como se encontrava em janeiro de 2013

O morro fica exatamente entre o Aeroporto Internacional Augusto Severo/Base Aérea de Natal e o litoral. Evidentemente que durante a guerra muitos dos aviadores aliados que decolavam do movimentado Parnamirim Field tiveram oportunidade de ver este morro de suas aeronaves. Mas o Morro do Navio também é um ponto de localização muito visível para qualquer hidroavião que levantasse voo a partir da Lagoa do Bonfim.

Mas a questão era saber o porquê daquele objeto está ali no Morro do Navio?

Indicações

Para Flávio Gameleira uma das indicações estava no livro “Cartas da Praia”, do escritor potiguar Hélio Galvão.

Nesta obra o autor aponta que alguns morros mais altos na região de Tibau do Sul possuíam bases de concreto que eram utilizadas por geógrafos militares para comunicação com a utilização de espelhos, transmitindo sinais entre eles e chegando até a torre da igreja de São José de Mipibu.

Se este fato existiu realmente, este sistema de comunicação só poderia ser a conhecida heliografia e o dispositivo utilizado para enviar mensagens ópticas com a ajuda de luz solar era um heliógrafo.

A utilização da heliografia remonta à antiguidade, em que inúmeras culturas utilizavam a luz solar refletidas em materiais apropriados para enviar mensagens ou sinais através de distâncias consideráveis, além de inúmeras outras funções. Já o dispositivo de emissão de sinais consiste de um objeto brilhante montado sobre um suporte. Para usá-lo, o objeto pode ser girado ou fechado a fim de criar uma série de explosões de luz que podem ser lidas por um observador. Essas transmissões eram comumente feitas em código Morse, que utiliza uma série de transmissões longas e curtas para repassar informações.

Seria então o tal marco, quando se encontrava no alto do Morro do Navio, utilizado para a transmissão de informações através de um heliógrafo? Ou teria outra utilidade?

Em meio a estas conjecturas, na mesma semana que me encontrei com o Flávio, me encontro casualmente com o jornalista Luiz Gonzaga Cortez na mais importante casa da memória potiguar, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Neste momento me recordei que Gonzaga Cortez estava realizando uma pesquisa sobre antigos marcos de memória relativos a Segunda Guerra Mundial e decidi lhe relatar o fato.

Morro do Navio ou Morro Vermelho
Morro do Navio ou Morro Vermelho

Ele gostou da informação de Flávio e propôs realizarmos uma visita ao Morro do Navio.

Na hora confesso que fiquei muito surpreso, pois aqui em Natal é difícil as pessoas que trabalham com assuntos históricos realizarem pesquisas em conjunto. Além do mais sempre tive um extremo respeito pelo trabalho de Cortez. Lembro-me que ainda garoto, em 1985, por ocasião do cinquenta anos da Intentona Comunista, o jornal O Poti, edição dominical do periódico Diário de Natal, publicou uma série de reportagens assinadas por Cortez sobre este tema. Depois ele reuniu este material e publicou o livro ”A Revolta Comunista de 35 em Natal”, do qual fui ao lançamento e tenho uma edição autografada do autor.

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No domingo (07/04/2013) seguimos para o morro. Junto com o autor deste artigo e Gonzaga Cortez, seguiram seu filho Cleando e seu neto. Flávio Gameleira foi contatado, convidado, mas não pode ir.

Visitando o Local

Ao chegarmos no local tivemos que deixar o carro a cerca de dois quilômetros de distância pela possibilidade do mesmo atolar na areia fofa. O problema é que chegamos tarde e nossa caminhada começou depois das onze da manhã, de um dia plenamente ensolarado e sem nenhuma nuvem no céu.

Neste ponto da trilha, a diferença no solo poderia indicar utilização de um trator para abrir este caminho em tempos passados?
Neste ponto da trilha, a diferença no solo poderia indicar utilização de um trator para abrir este caminho em tempos passados?

A trilha é larga, com muitas marcas de passagens de veículos tipo 4×4. Percebi que em alguns pontos parecia que aquele caminho havia sido aberto por um trator equipado com uma lâmina de terraplanagem.

Finalmente chegamos ao marco.

Primeiramente fomos surpreendidos diante do fato da peça em questão está totalmente desenterrada em relação ao vídeo realizado por Flávio Gameleira em janeiro último. Também vimos na área muitas e muitas marcas de pneus de veículos tracionados.

O marco totalmente desenterrado
O marco totalmente desenterrado

Mais interessante era que comparando com o vídeo, o marco parecia ter sido movido. Só não sabíamos para que e por quem?

Em relação ao marco propriamente dito, este possui um orifício na ponta, tem em torno de 1,50 m, sendo 40 centímetros só na base. Em uma de suas laterais encontram-se as inscrições  “1942”, “S.G.H.E.” e “45”.

Certamente aquele era um marco histórico relacionado com alguma missão militar realizada na década de 1940, provavelmente destinado a utilização na heliografia, ou com a área de levantamento geográfico e cartográfico do Serviço Geográfico do Exército.

Algumas marcas estranhas no marco
Algumas marcas estranhas no marco parecendo que ele havia sido amarrado por algum cabo e acabou deixando marcas de soltura no início da peça e na lateral

Como na área de pesquisa histórica ninguém faz nada sozinho, busquei ajuda de um historiador militar, possuidor de um enorme e sólido conhecimento nesta área e que não nega ajuda a quem lhe busca informações.

Na foto um marco geodésico impkantado na década de 1930, localizado na Trilha do Travessão, na Serra do Cipó, em Minas Gerais. Apontando que que o marco do Morro do navio deve ter possuído uma destas peças informativas de bronze, que se encaixavam no orifício que agora está vazio. isso mostra que o vandalismo contra este marco histórico é bem antigo
Na foto um marco geodésico localizado na Trilha do Travessão, na Serra do Cipó, em Minas Gerais. Apontando que o marco do Morro do Navio deve ter possuído uma destas peças informativas de bronze, que se encaixavam no orifício que agora está vazio. Isso mostra que o vandalismo contra este marco histórico é bem antigo – Fonte – http://www.clubedosaventureiros.com

Ao responder nossa consulta ele acredita que provavelmente este marco foi colocado há mais de 70 anos pelo Serviço Geográfico do Exército (SGEx). Em sua opinião este material está ligada a missão de um grupo de cartógrafos/topógrafos militares que realizou o levantamento de parte do litoral nordestino (de Pernambuco ao Ceará, incluindo o arquipélago de Fernando de Noronha), mediante a necessidade de operações de guerra que iriam se desenvolver naquela região.

Djalma Polly Coelho, que comandou o trabalho topográfico no litoral nordestino em 1941. Nasceu em 17 Outubro de 1892, em Curitiba, Paraná, sentou praça em 1911 e chegou a Aspirante Oficial em 1914. Chegou ao generalato em 1946. Foi Diretor do Serviço Geográfico Militar, posteriormente Serviço Geográfico do Exército e promoveu a criação do Curso de Topografia da Escola Técnica do Exército, hoje Instituto Militar de Engenharia. Foi Presidente da Comissão para a localização da nova Capital do Brasil (1946 a 1948) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Faleceu em 18 Out 1954 na cidade do Rio de Janeiro - Fonte - http://portal.dgp.eb.mil.br/
Djalma Polly Coelho – Fonte – http://portal.dgp.eb.mil.br/

Para cumprir tal missão foi organizado, em meados de 1941, o Destacamento Especial do Nordeste (DEN), chefiado pelo então Tenente Coronel Djalma Polly Coelho, contando com um número superior a trinta oficiais engenheiros e sargentos topógrafos.

O Serviço Geográfico mobilizou o curso de geodesia da Escola Técnica do Exército (atualmente Instituto Militar de Engenharia, IME), convocando seus oficiais e alunos, juntos com os da 1ª Divisão de Levantamento, para inclusão no Destacamento, assim como seis primeiros-tenentes da reserva e engenheiros civis possuidores do curso complementar da Escola de Engenheiros Geógrafos Militares.

Na foto vemos um C-47 Dakota em Parnamirim Field. Certamente este marco ajudou na construção desta grande base aérea
Na foto vemos em destaque um bimotor de transporte C-47 Dakota, em Parnamirim Field. Certamente este marco ajudou na construção desta grande base aérea

Entre estes levantamentos estava a da região onde seria construída a Base Aérea de Natal. O fato do marco estar num ponto dominante serve justamente para a realização deste tipo de trabalho com base no movimento dos astros.

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Possivelmente a equipe que colocou o marco veio de Recife. Ainda segundo este nosso amigo historiador, é possível que na 3ª Divisão de Levantamento, com sede na capital pernambucana, ainda existam as coordenadas desse marco em algum documento antigo.

Protegidos Por Lei Federal…

Esses materiais são protegidos pelo DECRETO-LEI N° 243, DE 28 DE FEVEREIRO DE 1967, que fixa as diretrizes e bases da cartografia brasileira.

É interessante a leitura de um dos seus artigos:

CAPÍTULO VII

Dos Marcos, Pilares e Sinais Geodésicos

Art. 13 – Os marcos, pilares e sinais geodésicos são considerados obras públicas, podendo ser desapropriadas, como de utilidade pública, nas áreas adjacentes necessárias à sua proteção.

§ 1º – Os marcos, pilares e sinais conterão obrigatoriamente a indicação do órgão responsável pela sua implantação, seguida da advertência: “Protegido por lei” (Código Penal e demais leis civis de proteção aos bens do patrimônio público). .

§ 2° – Qualquer nova edificação, obra ou arborização, que, a critério do órgão cartográfico responsável, possa prejudicar a utilização de marco, pilar ou sinal geodésico, só poderá ser autorizada após prévia audiência desse órgão.

§ 3° – Quando não efetivada a desapropriação, o proprietário da terra será obrigatoriamente notificado, pelo órgão responsável, da materialização e sinalização do ponto geodésico, das obrigações que a lei estabelece para sua preservação e das restrições necessárias a assegurar sua utilização.

§ 4° – A notificação será averbada gratuitamente, no Registro de Imóveis competente, por iniciativa do órgão responsável.

Art. 14 – Os operadores de campo dos órgãos públicos e das empresas oficialmente autorizadas, quando no exercício de suas funções técnicas, atendidas as restrições atinentes ao direito de propriedade e a segurança nacional, têm livre acesso às propriedades públicas e particulares.

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Ou seja, este tipo de material é protegido por LEI FEDERAL e isso implica em problemas com o Ministério Público Federal, através da Procuradoria da República no Rio Grande do Norte.

Bem, o objeto no alto do Morro do Navio aparenta ter sido um dos marcos iniciais de construção de uma das maiores bases aéreas fora dos Estados Unidos em toda a Segunda Guerra Mundial e a importância de Natal e Parnamirim Field foi tremenda para a vitória Aliada, onde seus símbolos deveriam ser motivo de preservação e proteção do Estado, ao abrigo da ação de pessoas despreparadas.

Na busca de maiores informações busquei um contato pela manhã sobre este objeto com o amigo Edgard Ramalho Dantas. Este é geólogo, professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, me comentou que a importância histórica da Base de Parnamirim não está apenas em saber detalhes de esquadrões, pilotos e aviões, mas está também nos marcos de fundação e de desenvolvimento da referida obra.

Neste ponto, o mais elevado do Morro do Navio, ficava este marco
Neste ponto, o mais elevado do Morro do Navio, ficava este marco. Ao fundo os edifícios de Natal e Parnamirim

Diante de toda esta situação, na condição de cidadãos preocupados com a questão, o autor deste artigo e o jornalista Luiz Gonzaga Cortez decidiram procurar o jornal Tribuna Do Norte, que acolheu a nossa informação e publicou a seguinte matéria.

Morro do Navio é alvo de degradação ambiental

Publicação: 10 de Abril de 2013 às 00:00

Localizado na Área de Proteção Ambiental (APA) Bonfim-Guaraíra, o Morro do Navio, também conhecido como Morro Vermelho, nas dunas pertencentes ao município de Nísia Floresta, passa por um processo de degradação  por bugueiros e praticantes de rally. O gestor da APA Bonfim-Guaraíra do  Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do RN (Idema), Fábio de Vasconcelos Silva, confirmou que recebeu denúncia da situação na semana passada. Apesar de informar que a prática na área é proibida, o gestor da APA admitiu que não há um Plano de Manejo para a região.

Fábio de Vasconcelos Silva informou que o Conselho Gestor da APA Bonfim-Guaraíra vai se reunir no dia 16 de abril, às 9h, no auditório do Ecoposto da APA, em Nísia Floresta, para tratar do Plano de Manejo. De maneira provisória, vamos  identificar quais locais onde as trilhas podem ser feitas de maneira a minimizar ao máximo os impactos na área. Há locais que são mais sensíveis que outros, explicou.

A APA Bonfim-Guaraíra não possui um estudo que permita definir o Zoneamento Ecológico e Econômico, que regulamenta as áreas que podem ser utilizadas de maneira a minimizar os impactos no local. Por esse motivo, segundo Fábio de Vasconcelos Silva, qualquer atividade deve ser comunicada ao Idema e autorizada pelo órgão e pelo Conselho Gestor da APA.

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As pessoas estão fazendo ralis de forma clandestina. Durante o monitoramento, me deparei com uma empresa de turismo que faz passeios de quadriciclos.  Esses passeios são ilegais, afirmou. Os organizadores de passeios turísticos e os praticantes de rally que forem surpreendidos pela Polícia Ambiental no local estarão sujeitos a sanções penais. Quem estiver fazendo passeios no local terá o carro apreendido, disse o gestor da APA.

A situação de degradação da Área de Proteção Ambiental também se confirma no relato de pesquisadores que foram ao local para identificar um marco de concreto que teria importância histórica. Ao averiguarem o objeto, que poderia ter servido de alicerce para a utilização de um equipamento militar do Exército Brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial, o jornalista e membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN (IHG-RN) Luiz Gonzaga Cortez, e o pesquisador e escritor Rostand Medeiros verificaram diversas marcas de pneus no Morro do Navio.

Morro pode ter marco histórico da II Guerra

A possibilidade de que o Morro do Navio seja um ponto que conserva a história do Rio Grande do Norte durante a Segunda Guerra Mundial reforça a importância da preservação da Área de Proteção Ambiental (APA) Bonfim-Guaraíra.

A Lagoa do Bonfim vista do alto do Morro do Navio
A Lagoa do Bonfim vista do alto do Morro do Navio

O marco tem 1,55 metros de altura e 47 centímetros de largura. Nele está gravado o número 1942, que segundo os pesquisadores  Rostand Medeiros  e Luiz Gonzaga Cortez poderia representar a data de instalação do equipamento. Também há no objeto a sigla SGHE.

De acordo com Rostand Medeiros, é possível que o marco tenha sido instalado por um grupo de cartógrafos e topógrafos que estariam fazendo o levantamento da região, provavelmente para a construção da Base de Natal (Parnamirim Field). O fato do marco estar num ponto dominante pode ter servido para este tipo de levantamento com base no movimento dos astros, explicou.

Outra possibilidade ventilada pelos pesquisadores é que o marco tenha servido de alicerce para a utilização de um heliógrafo, equipamento militar que pertenceria ao Exército Brasileiro, de uso manual, para fins de orientação e comunicação.

Acreditamos que esse marco também poderia ter servido de base para esse aparelho, que teria a função de enviar sinais com a luz do sol por código morse, evitando assim a interceptação das mensagens, disse Rostand Medeiros.

Conclusão 

Mas enfim, vale a pena tanto papel, tanta digitação por um pedaço velho de concreto e que está largado no alto de uma duna?

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Com certeza, pois é um marco de nossa história.

Qualquer museu que trabalhe a memória de forma séria, gostaria de ter uma peça original que ajudou na construção de uma das maiores bases Aliadas fora dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial.

Mas qualquer museu sério, ou qualquer entidade que trabalhe com o tema da memória de forma séria em terras potiguares, deve seguir todos os trâmites legais para possuir este material. O desejo de preservação da memória não deve jamais se sobrepor a ideia de realizar as ações de maneira correta.

Certamente na questão relativa a este marco, em minha opinião ele deve ir para um museu.

Mas com a devida anuência de pessoas ligadas ao Exército Brasileiro, o Ministério Público Federal e Estadual, certamente o IDEMA e IBAMA. Não podemos esquecer da participação dos agentes do meio turístico, além das entidades de preservação da memória como o Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Norte e as entidades de preservação da memória na cidade de Nísia Floresta, onde territorialmente o marco foi fincado a mais de setenta anos.

A união destes atores deve dar um destino correto a esta peça histórica.

P.S. – Quero agradecer a Flávio Gameleira, Keber Kennedy e Március Vinícius pela divulgação deste material, pois sem isso não saberíamos da existência deste marco histórico. Logicamente estendo estes agradecimentos a Luiz Gonzaga Cortez, ao seu filho e ao seu neto, por terem me convidado para visitar o local.

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LANÇAMENTO DO LIVRO “JOÃO RUFINO – UM VISIONÁRIO DE FÉ” NA TRIBUNA DO NORTE

Reportagem na Tribuna do Norte

No último dia 22 de abril, sexta feira, o jornal natalense Tribuna do Norte publicou uma reportagem sobre o lançamento do livro de minha autoria “João Rufino, um visionário de fé”. O lançamento desta obra ocorreu nesta bela cidade serrana no último sábado, da qual detalharei em outros materiais futuros.

Segue o texto publicado com algumas fotos que consegui com a ajuda do grande Tasso…

Livro traz história do café no RN

“Era dali daquela esquina que uma chaminé incensava as manhãs enevoadas de inverno e despejava o cheiro matinal do café torrado que impregnava o ar e a fumaça se encarregava de espalhar por toda a cidade.” As palavras do arquiteto José Gaudêncio Torquato sintetizam a atmosfera que permeia a biografia “João Rufino, um visionário de fé”, criador do Café Santa Clara nos idos dos anos 1950, na pequena cidade serrana de São Miguel. O livro, escrito pelo pesquisador Rostand Medeiros, será lançado com grande festa neste Sábado de Aleluia, dia 23, naquele município localizado no extremo Oeste do RN, distante cerca de 440km da capital potiguar – lugar onde tudo começou.

Junto a Seu João e Dona Joana Rêgo.

O adjetivo ‘grande’ não é mero subterfúgio linguístico, e pode ser entendido como ‘intenso’ devido à programação agendada para o acontecimento: além do tradicional coquetel de lançamento, marcado para às 19h, com direito a sessão de autógrafos do autor; na mesma hora e local também haverá abertura da exposição fotográfica “São Miguel, minha terra”, composta de 300 imagens históricas e atuais que contextualizam a biografia. Em seguida, às 22h, no palco montado na praça Pedro Rufino, a cidade será brindada com show do cearense Raimundo Fagner, amigo pessoal do homenageado desde a mocidade (o cantor nasceu em Orós, CE, cidade situada a pouco mais de 80km de São Miguel). Fagner e Gaudêncio, igualmente amigo de infância da família, assinam o prefácio.

Com pouco mais de 22 mil habitantes (IBGE 2010), a cidade de São Miguel, distante dos principais centros regionais (Natal e Fortaleza), ganhou contornos históricos de independência. Esse isolamento geográfico deu margem para o empreendedorismo do biografado: “Na década de 1950, Seu João (Rufino) Alves de Lima ia comprar café em Minas Gerais e na Bahia e trazia para torrar em São Miguel”, disse Rostand Medeiros. “Ele torrava o café em um imóvel no centro da cidade, com as portas abertas para mostrar que não misturava nada”, complementa o pesquisador.

Junto aos prefaciadores do nosso trabalho, os grandes Raimundo Fagner e Zé Gaudêncio Torquato

Detalhe: em São Miguel não tem “pé de café nem para tirar foto”, mas a família de Seu João Rufino coordena uma das maiores empresas do ramo no mundo. Inicialmente batizada de Café Nossa Senhora de Fátima, a empresa familiar passou a se chamar Santa Clara por questões mercadológicas e, desde o início de 2010, após acertar parceria com outra empresa familiar de Israel, passou a responder pela denominação Grupo 3Corações. “O livro conta toda essa trajetória”, adianta Medeiros.

Durante os dez dias que passei em São Miguel tive o enorme prazer de assinar muito dos mais de 9.000 livros que lá foram distribuídos gratuitamente para toda população. Como na casa do amigo Eliziário Neto, no bairro de Santa Tereza. Neto é proprietário de uma pequena confecção e fez questão de chamar vários vizinhos para que eu assinasse seus exemplares. Foi tudo muito positivo e só tenho agradecimentos.

A minuciosa pesquisa de Rostand durou cerca de dois anos, e o resultado pode ser visto ao longo das 380 páginas e 270 fotografias: “A pesquisa revelou detalhes da personalidade de Seu João Rufino, que ainda mora em São Miguel, é casado com Dona Joana Rêgo e leva uma vida simples. Até hoje, apesar do êxito empresarial, é visto pelas pessoas do lugar do mesmo jeito: humilde, amiga e caridosa. É conhecida por sua religiosidade e perseverança”.

Palco do grande show de Fagner

De acordo com o autor, a biografia está sendo distribuída na cidade, um exemplar por residência. “É emocionante ver no rosto dos mais antigos a surpresa ao relembrar do passado a partir das fotos. Estou muito satisfeito com o resultado”, comemora Rostand, convidado para escrever a biografia após a publicação de seu primeiro livro “Os Cavaleiros dos Céus – A Saga do Vôo de Ferrarin e Del Prete”, lançado pela Fundação Rampa em 2009. Com tiragem inicial de oito mil exemplares, a biografia é, muito provavelmente, o livro lançado no RN em 2011 de maior edição.

Na noite do lançamento e do show de Fagner, junto com o grande João Rufino

Uma das histórias contadas em “João Rufino, um visionário de fé” remete à década de 1960, quando Rufino foi tido como louco por distribuir parte de sua produção: “Seu método estava à frente do seu tempo, era tudo uma instintiva jogada comercial. Hoje a empresa é comandada por seus filhos, possuiu sete fábricas e mais de quatro mil funcionários. Sem dúvida a história de Seu João Rufino é um exemplo de fé para qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo. Uma história universal do homem que teve um sonho e conseguiu realizá-lo”, finaliza.

Assinando o livro para os amigos de São Miguel

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ASAS ALEMÃS SOBRE O RIO POTENGI

Hidroavião Dornier DO-26, batizado “Seefalk” (Falcão do Mar), da empresa aérea alemã Lufthansa, pousado na margem do Rio Potengi, na chamada Paraia da Limpa.

A Presença Germânica Em Natal Antes da Segunda Guerra Mundial

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Publicado originalmente no jornal TRIBUNA DO NORTE.

A importância de Natal como ponto estratégico para a aviação mundial já foi apontada de diversas formas, principalmente no período da Segunda Guerra Mundial. Entretanto no período anterior ao conflito, mas especificamente sobre a atuação da aviação comercial alemã na nossa cidade, a sua base e os motivos da sua implantação e desativação, são fatos hoje pouco conhecidos.

Durante a segunda metade da década de vinte do século passado, se desenrolava uma forte disputa comercial entre estrangeiros pelo Mundo afora. Competia-se por vantagens no novo e promissor negócio do transporte do correio aéreo e de passageiros. No Rio Grande do Norte, inicialmente os primeiros atores envolvidos foram franceses e alemães, sendo seguidos pelos norte-americanos e italianos.

Os franceses iniciaram suas atividades em 1927, com um serviço de transporte de cartas e encomendas que ligava a França e a Argentina. Nesta operação, aviões partiam de Paris em direção a Dacar, capital da então colônia francesa do Senegal, na costa africana. Os malotes com correspondências, eram então embarcados em navios pequenos e bastante velozes, conhecidos como os “Avisos Rápidos”, que atravessavam o oceano até Natal. Daqui, outros aviões transportavam o correio aéreo até Buenos Aires. Antes deste novo  serviço, uma carta transportada em linhas de navegação normais, poderia demorar até trinta dias entre a França e a Argentina. Com a mala postal aérea francesa, este tempo caiu para no máximo 8 dias.

Os Alemães em Natal e a sua “Rampa

Já os alemães, através da empresa “Sindicato Condor”, que desde janeiro de 1927 operava no Brasil, logo perceberam o enorme potencial que Natal possui como ponto estratégico para a aviação comercial. Em setembro de 1928 eles realizam visitas a cidade, planejando a instalação de uma “hidro-base” na região, mas somente em janeiro de 1930, com irrestrito apoio do então governador Juvenal Lamartine de Faria, esta base de operações e uma linha aérea que transportava cargas e alguns poucos passageiros, passou a funcionar com regularidade semanal. O local escolhido pelos alemães para construírem suas instalações era conhecido como “Praia da Limpa”, as margens do rio Potengi. Ali foram erguidos dois grandes hangares, com rampa de acesso para hidroaviões, alojamento para tripulantes, sala de leitura, e uma estação de rádio. Os hidroaviões eram trazidos para os hangares através de uma rampa, onde uma espécie de carroça puxada por um cabo era colocada no rio, sendo esta colocada embaixo da aeronave, então através de um sistema de trilhos a aeronave era puxada para fora do rio. Este sistema de retirada e acesso de aeronaves, através de uma rampa as margens do Potengi, precede a famosa “Rampa americana”, que seria construída algum tempo depois ao lado da base alemã. Os jornais da época apontam que a população de Natal, passou a denominar o local como “Base da Condor” ou “Base da Limpa”.

Já em relação às cargas vindas da Europa, primeiramente os alemães desenvolveram uma operação trabalhosa e perigosa; um hidroavião saia de Natal em direção a Fernando de Noronha, amerissava ao largo da ilha, encontrando-se com um navio de passageiros e cargas, de forma arriscada eram passadas mercadorias e malotes em meio às ondas. O hidroavião então decolava para Natal, reabastecia e seguia em direção ao sul do país. Durante algum tempo esta operação continuou, mas na noite de 11 de setembro de 1931, um destes hidroaviões do “Sindicato Condor”, batizado como “Olinda”, após retornar de Fernando de Noronha, sofre uma pane na tentativa de decolagem para Recife e explode na margem esquerda do rio Potengi, ocasionando a morte de todos os três tripulantes. Percebendo os riscos e as desvantagens desta operação, os alemães decidem desenvolver novos meios para que a ligação aérea entre a Alemanha e os países sul-americanos fossem mais segura, prática e rentável.

Em 1933, com uma concepção audaciosa para a época, a empresa alemã “Lufthansa”, que controlava administrativamente o “Sindicato Condor”, decide utilizar dois “navios-catapulta”, como ponto de apoio e reabastecimento de hidroaviões. Chamados “Schwabenland” e “Westfalen”, estas naves se revezavam em uma posição no meio do Oceano Atlântico, entre a costa africana e o Brasil, onde a idéia básica seria receber um hidroavião vindo da Europa, para que suas malas postais fossem repassadas para um outro aparelho, que seria catapultado para Natal e depois esta carga seguiria em outras aeronaves em direção sul. O hidroavião que havia chegado da Europa, era então reabastecido e catapultado para o Velho Continente com as cartas vindas do sul.

O Incremento do Transporte Aéreo Alemão

Este revolucionário serviço é inaugurado no dia 3 de fevereiro de 1934, quando uma aeronave decolou de Stuttgart, no norte da Alemanha, para a Espanha, transportando 100.000 cartas. Um outro aparelho transportou as malas postais em direção à cidade africana de Bathurst, na então colônia britânica da Gâmbia e finalmente um dos hidroaviões seguiu por 1.500 km até o “Westfalen”. No dia 7 de fevereiro a tripulação deste navio catapultou com sucesso um hidroavião modelo “Dornier Wal”, batizado “Taifun”. Este aparelho possuía dois motores, montados sobre asas altas, tinha 23,20 metros de envergadura, 18,20 metros de comprimento, raio de alcance de 2.000 mil quilômetros e desenvolvia uma média de 225 km/h. A tripulação alemã era formada pelo comandante Joachim Blankenburg, co-piloto Walter Blume, mecânico de vôo Otto Gruschwitz e o rádio-operador Guenther Fechner. Após um cansativo voo o arquipélago de Fernando de Noronha é sobrevoado e o comandante Blankenburg amerissa na baía da ilha.

Hidroavião alemão pousado no Rio Potengi, em uma área onde atualmente se encontra o quartel do 17º GAC, do Exército Brasileiro.

Neste local um segundo hidroavião da empresa aguarda o “Taifun”. Algum tempo depois os dois aparelhos decolam em direção ao território potiguar. Segundo os jornais da época, eram duas horas da tarde em Natal, quando os dois hidroaviões sobrevoaram o rio Potengi. Autoridades potiguares e um grande número de populares aguardavam na praia da Limpa a chegada do vôo histórico, mas para surpresa de todos, o racionalismo técnico dos alemães, entrou em ação; dez minutos após o pouso, antes mesmo de serem iniciadas as diversas homenagens previstas, as malas postais foram prontamente passadas para um hidroavião modelo Junkers trimotor, batizado como “Tietê”, que rapidamente seguiu em direção ao sul do país. Se para os natalenses a chegada das aeronaves era quase uma festa, para os alemães tudo não passava de negócios.

Mesmo depois de voarem quatorze horas sobre o oceano, a tripulação que havia decolado do “Westfalen”, participou do evento, onde foi coberta de atenções pelo povo de Natal e tratados como heróis. Autoridades visitaram o “Taifun”, foram erguidos brindes pela realização do vôo e a banda da Polícia Militar tocava para os presentes.

A Influência Alemã na Cidade

Com o passar do tempo, à chegada e a partida de hidroaviões alemães no rio Potengi, se tornou mera rotina. Todas as sextas-feiras havia aeronaves amerissando ou decolando no tranquilo rio que banha a capital potiguar. Em meio ao crescimento do movimento aviatório em Natal, aumenta o número de germânicos vivendo na pequena urbe de 35.000 habitantes. O expoente mais importante desta comunidade, além de ser um dos alemães que há mais tempo viviam em Natal, era o empresário Ernest Walter Lück.

Base alemã em Natal.

Nascido em 1883, na cidade de Gevelsberg, estado da Westfalia,  Alemanha, Lück chegou a Natal em 1911, em companhia de um amigo chamado Richard Bürgers, vinham com a intenção de trabalhar em uma firma inglesa que efetuava perfurações no interior do Rio Grande do Norte. Ao desembarcarem descobriram que a firma havia falido, mesmo assim permaneceram na região. Em 1922 Lück e um outro sócio fundaram a empresa “Gurgel, Lück & Cia. Ltda”, com a intenção de importarem produtos alemães e exportarem matérias-primas potiguares para aquele país. Logo os horizontes se ampliaram e a empresa tornou-se representante de linhas de navegação alemã, bem como das empresas aéreas “Lufthansa” e do “Sindicato Condor”. O empresário Lück foi designado cônsul alemão na cidade e coube a ele a ligação entre empresas e o governo da Alemanha, junto às autoridades potiguares.

A comunidade germânica cresce. Logo uma “Escola Alemã” foi fundada sob os cuidados do professor Alonso Meyer. Funcionando na antiga “rua do Norte”, esta escola informava através dos jornais, que oferecia o curso primário completo e o curso de língua alemã, sempre com “Disciplina, ordem e respeito garantidos”. Na ocasião da chegada do hidroavião “Taifun”, o hino alemão entoado pelas crianças desta escola, emocionou a experiente tripulação do comandante Blankenburg.

A partir de 1933, a nova ideologia nazista implantada com a ascensão de Adolf Hitler ao governo alemão, chega à colônia germânica no Rio Grande do Norte. Segundo a edição do jornal “A Republica”, de 25 de abril de 1934, quatro dias antes, em uma festa ocorrida pela dupla comemoração do aniversário de Hitler e da morte de Tiradentes, na chácara pertencente a Richard Bürgers, esteve presente a totalidade da colônia alemã em Natal. Entre estes o Sr. Lück e o diretor da base da Condor, Sr. Neulle. Este último era veterano da Primeira Guerra Mundial e estava na festa com suas medalhas de combate e o traje tradicional nazista. O ponto alto ocorreu às vinte horas, quando após serem entoados os hinos alemão e brasileiro, os participantes postaram-se solenemente diante de um rádio de ondas curtas, para através da emissora de rádio oficial da Alemanha, escutarem um discurso proferido por Joseph Goebbles, o todo poderoso ministro da propaganda do governo de Hitler. Este discurso era destinado especificamente às comunidades alemãs existentes na América do Sul. A importância dessa festa pode ser medida pelo fato de estarem presentes altos membros do governo e da sociedade potiguar da época, entre estes o chefe do executivo estadual, o Interventor Mario Câmara.

Apesar de toda esta movimentação cívica, de forma geral, o comportamento dos membros da colônia alemã em Natal, era extremamente discreto.

O fim da “Base da Condor”

A operação aérea da base alemã em Natal continuou ativa e rotineira até o início da Segunda Guerra Mundial. Foram efetuadas quase 500 travessias utilizando os “navios catapulta” como ponto de apoio entre a Europa e a América do Sul. Grandes pilotos germânicos trabalharam nesta travessia e estiveram na capital potiguar, como Richard Heinrich Schimacher, que por possuir muita experiência nas travessias oceânicas, entre 1938 e 1939 é convocado para participar da grande expedição cientifica alemã a Antártica. Em um “Dornier-Wal” batizado como “Borea”, este aviador realizou diversos voos pioneiros, no praticamente inexplorado continente gelado. Outro piloto foi Ernst-Wilhelm Modrow, que durante a guerra se tornou um às da aviação de caça noturna da “Luftwaffe” (Força Aérea Alemã), onde abateu 34 aviões aliados.

Hidroaviões da marinha dos Estados Unidos baseados no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial

Com o crescimento do conflito, o afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães e a entrada oficial do Brasil na guerra, a “Base da Condor” e a comunidade alemã na cidade foram igualmente afetados pela conflagração. O local foi primeiramente ocupado por forças navais norte-americanas.

Segundo o jornalista Roberto Sander, autor do livro “O Brasil na mira de Hitler”, após a chegada das forças norte-americanas a Natal, Ernst Walter Lück, Richard Bürger e um outro alemão de nome Hans Weberlig, foram formalmente acusados e presos pelo FBI, como agentes de espionagem alemães.

Com o fim do conflito, a Marinha Norte-americana entregou grande parte das antigas instalações aéreas ao Exército Brasileiro. Atualmente a área é ocupada pelas instalações do Iate Clube de Natal e pelo 17º Grupamento de Artilharia de Campanha e quase nada mais resta da antiga base alemã na velha praia da Limpa.

* Como em relação à pesquisa histórica nada é realizado sem a fraternal ajuda de outras pessoas, o autor deste artigo gentilmente agradece ao pesquisador Luiz G. M. Bezerra pela seção de fotos e informações.