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LAMPIÃO ENTRE DEUS E O DIABO NA MÚSICA POPULAR

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Racine Santos, diretor de teatro.

Publicado originalmente no jornal TRIBUNA DO NORTE, Natal-RN, Domingo, 07 de Agosto de 1988.

No último dia 28 de julho fez cinquenta anos da morte de Virgulino Ferreira da Silva, o famigerado Lampião. O bandido, o facínora, o malaventurado cangaceiro que durante vinte anos espalhou medo e morte pelos caminhos do sertão. Há cinquenta anos foi degolado aquele que semeou o terror e se fez dono de um reino de fogo, rei de um mundo pardacento, povoado por cascavéis e gaviões, miséria e Injustiça.

Barreira Cangaceiro (2)

Mas, afinal, quem foi esse senhor da vida e da morte? Esse terror do Nordeste? Um Atila, em Espártaco, ou um assassino frio e covarde indigno do mito que hoje o envolve? A verdade é que, cometendo todas as atrocidades que cometeu, ele tornou-se depois de morto uma legenda, uma coisa viva na imaginação popular. Personagem maior no fabuloso romance popular nordestino. Matéria de cinema, ficção, poesia e teatro. Um símbolo do Nordeste, como o mandacaru, o sol e a caatinga. Presente no artesanato, na música, no folclore, e em todas as manifestações artísticas da região. Seu chapéu, “um céu de couro à cabeça com três estrelas fincadas”, no dizer de Carlos Pena Filho, é hoje símbolo de uma cultura.

Curiosamente é que o mesmo povo que dele fugia com medo, inconscientemente o tinha como herói. Não um herói medieval, cheio de virtudes e princípios, mas um herói diferente, com as cores da miséria e da ignorância de um povo que solenemente mastiga areia, pedras e sol enquanto os eternos coronéis se alimentam de seu trabalho mal pago. O medo que o povo conscientemente tinha de Lampião, transformava-se em admiração â nível do inconsciente. Isso a partir de uma identificação: a contida revolta do povo contra a miséria e injustiça, com a insurreição de Lampião contra a polícia, os coronéis e tudo que cheirasse ao poder massacrante. Lampião gritou o grito preso na garganta de muita gente.

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Desenho de Ronald Guimarães – Fonte – http://marvel-nat.forumeiros.com/t186-trama-base-do-forum

A revolta do cangaceiro contra o poder, representado pela polícia, os coronéis, os latifundiários, os políticos, os grandes comerciantes, incorporava o sonho sonhado do povo. Quando ele “botava prá correr” as volantes da polícia, os pobres do Nordeste que sofriam na pele a arbitrariedade policial, exultavam de alegria. Quando seu grupo incendiava uma fazenda, achavam ruins os moradores explorados? Claro que Lampião não tinha a menor consciência do que representava ou significava. Mas ele era a personificação da revolta da gente pobre do campo, do explorado, do faminto, do sem terra, do sem eira nem beira.

Lampião foi uma das mais brutais e primitivas formas de revolta ocorrida no país. Como, por outros caminhos, fora Canudos de Antônio Conselheiro.

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Quadro de Sérgio Azol – Fonte – http://www.lilianpacce.com.br/e-mais/o-cangaco-mais-alegre-e-colorido-por-azol/

Entre o céu e o Inferno

Depois de morto Lampião virou mito, lenda, história. Senhor do sonho e da imaginação popular. Mexeu tanto com a imaginação do povo que o romanceiro popular, cansado de cantar suas bravuras e bravatas pelos sertões a fora, pelo chão dos penitentes, passou a cantá-lo nos mais diversos lugares, oferecendo-lhe os mais diferentes e insólitos cenários. Para o romanceiro popular a morte não matou Lampião. Transportou-o para outros mundos, deixando uma macabra saudade na alma do povo, como mostra o poeta em seus versos:

“A viola tá chorando

tá chorando com razão

soluçando de saudade

gemendo de compaixão

degolaram Virgulino

acabou-se Lampião”

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Fonte – canalcienciascriminais.com.br

Aquele que passou vinte anos saqueando, roubando e matando, pondo em sobressalto as populações sertanejas foi elevado a condição de herói pelo fato de ter incorporado, personificado, a revolta dos pobres do sertão. Embora as forças reacionárias não queiram admitir, Lampião foi um monstro gerado pela injustiça social.

Com sua morte, desaparecendo o perigo real, os poetas do povo, interpretando e liberando a contida admiração que as camadas pobres lhe tinham, as feiras e os alpendres sertanejos se encheram de versos que transformavam o bandido em herói.

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Lampião – Fonte – http://www.itribuna.com.br

E a imaginação dos poetas do povo não tem limites. Assim, Lampião, cansado de enfrentar batalhões de polícia e valentões pelos sertões a fora, foi parar na porta do céu. Claro que lá não entrou. Foi expulso por São Pedro e um batalhão de santos armados com paus e pedras. Em “A chegada de Lampião no céu e a discussão com São Pedro”, o poeta Manoel Camilo dos Santos empresta a seus personagens as cores de seu próprio ambiente e cultura, criando um céu deveras prosaico:

“Chegou no céu Lampião

a porta estava fechada

ele subiu a calçada

ali bateu com a mão

ninguém lhe deu atenção

ele tornou a bater

ouviu São Pedro dizer:

demore-se lá quem é

estou tomando café

só depois vou atender”.

Cópia de 13- Recompensa oferecida pelo cangaceiro
O já conhecido anúncio de recompensa por Lampião, pretensamente oferecido pelo governo baiano.

Expulso do céu por um São Pedro humano e pachorrento, Lampião, conduzido pelas mãos e pela pena do poeta José Pacheco, foi parar nas profundas do inferno, atanazando o próprio Satanás. Lá também não ficou. Depois de uma renhida luta com um batalhão de diabos soldados de Lúcifer, onde, feito Sansão contra os filisteus, chegou a usar como arma uma queixada de boi, o cangaceiro deixou o inferno em péssima situação:

“Houve grande prejuízo

no Inferno nesse dia

queimou-se todo o dinheiro

que Satanás possuía

queimou-se o livro de ponto

perdeu-se vinte mil contos

somente em mercadoria”

Reclamava Lúcifer:

“Horror maior não precisa

os anos ruins de safra

agora mais essa pisa

se não houver bom inverno

tão cedo aqui no inferno

não se compra uma camisa”.

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Armas de fogo, munições e armas brancas encontradas em grutas que serviram de abrigo aos cangaceiros na Batalha da Serra Grande, em 1926, na zona rural de Serra Talhada.

Lampião vive na imaginação do povo que o transformou nesse estranho herói. Isso no plano da cultura popular. Já no terreno da cultura erudita, a dita cultura de elite, o tema está ainda á espera de um grande escritor, como mereceu Canudos. Segundo Hermilo Borba Filho, o aventuroso amor de Maria Bonita pelo Rei do Cangaço é muito mais rico em situações dramáticas do que a traição sofrida pelo noivo de “Bodas de Sangue”. Mas, enquanto não aparece um Lorca, um Euclides da Cunha ou mesmo um Mario Vargas Llosa, o mito de Lampião voa solto pelas caatingas desafiando os talentos como desafiou o poder. É verdade que sobre ele muitos

escreveram, mas muito pouco disseram. Pois, mais uma vez lançando mão de Carlos Pena Filho…

“… dele mesmo não sabem

e nem nunca saberão,

pois ele nunca viveu,

não era sim, era não,

como essas coisas que existem

dentro da imaginação.

Quem puder que invente outro

Virgulino Lampião”.

SOBRE RACINE SANTOS 

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É um homem de teatro. Autor, produtor, diretor e editor. Tem toda uma vida dedicada ao teatro. Na juventude foi ator, mas um acidente de automóvel o afastou da cena, não do palco.

Nasceu em Natal (RN), em 1948. Boa parte de sua infância passou na pequena cidade de Macaíba (25 Km de Natal), onde teve seus primeiros e marcantes contatos com a cultura do povo, assistindo as brincadeiras de boi-de-reis, pastoril, João-redondo e lendo seus primeiros folhetos de poesia popular. De 1961 a 1965 estudou no Recife, onde conheceu Ariano Suassuna, Hermilo Borba Filho e o artista plástico Abelardo da Hora, pessoas que considera importante para sua formação cultural e maneira de ver o Nordeste e sua gente.

De volta a  sua cidade liga-se ao Teatro de Amadores de Natal, grupo criado e dirigido por Sandoval Wanderley. Em 1976 escreve e dirige sua primeira peça: A Festa do Rei. Onde já se percebe um autor que trabalha a tradição popular assentada em bases eruditas.

Sua preocupação com o teatro da região o leva a fundar em 1992, juntamente com Luís Marinho, Luís Maurício Carvalheira, Altimar Pimentel, Tácito Borralho, Romildo Moreira e outros, a Associação dos Dramaturgos do Nordeste, da qual foi o presidente.

Autor de mais de uma dezena de peças, tem na cultura popular do Nordeste sua grande fonte, não para reproduzi-la, mas como meio de entender sua gente  e falar para ela de maneira direta, clara e viva. 

Além da três peças publicadas neste volume, são de sua autoria, entre outras: A Festa do Rei, A Farsa do Poder, Elvira do Ypiranga, A Ópera do Malazarte, Maria do Ó, Chico Cobra e Lazarino, O Voo do Cavalo do Cão, Bye Bye Natal ( Musical), O Autor do Boi de Prata e a infantil, O Congresso das Borboletas.

FONTE – http://www.ubern.org.br/canal.php?codigo=807

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CANGACEIROS “MÃO FOVEIRA” E “PASSO PRETO”

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Cangaceiro Mão Foveira, também alcunhado como Serra do Umã preso em Recife – Fonte – https://tokdehistoria.com.br/2014/09/12/cangaceiros-atras-das-grades-fim-da-ilusao/

AUTOR – Sálvio Siqueira

Naquele tempo, tempo do cangaço lampiônico, as considerações entre aqueles que participaram dos bandos cangaceiros resumia-se em acordos e poderes. Não havia, de fato, uma determinação de alguém dar sua vida pela do outro. A confiança era somente entre quantias em dinheiro e favores recíprocos. Por isso que os líderes, ou mesmo o cangaceiro mor, sempre tinha, dentre seus algozes, aqueles que deveriam ser mais ‘chegados’, mesmo por que a traição e a covardia andam juntas e em todo lugar desde os primórdios da vida humana no planeta terra.

Quando Lampião consegue levar seus ‘meninos’ as terras dominadas pelo coronel Izaías Arruda, no reduto cearense, esse lhe apronta uma das maiores arapucas que já se tenha ouvido falar. Tudo estava certo para que a cabroeira fosse almoçar na casa sede da fazenda, no momento em que se dirigiam para ela, Virgolino resolve acampar debaixo de algumas árvores na beira da vargem onde havia um canavial. O coronel, sabendo do fracassado ataque a Mossoró, RN, e tendo sido um dos mentores do plano, tinha que dar sumiço naquele que sabia de tudo… Em Lampião, o “Rei do Cangaço”.

4-Lampião gostava de mostrar-se um homeme inteligente perante as câmeras
Lampião

Pois bem, o coronel, outrora grande coiteiro, ordena que se coloque veneno na comida da cabroeira. Em seguida, manda que se coloque fogo no canavial, formando assim uma barreira de fogo intransponível, por fim distribui seus jagunços, que não eram poucos, juntamente com o contingente de uma Força Volante cearense cercando o restante do local para que aqueles que escapassem do veneno e do fogo fossem abatidos pelas balas dos homens dispostos em lugares estratégicos. Nessa emboscada o bando de Lampião sofre a maior de suas baixas. Morreram alguns envenenados, outros, com o veneno a lhes cortarem as entranhas caem sobre as chamas vigorosas do fogo na palha da cana e outros foram abatidos pelas armas. Dentre os mais distintos pesquisadores/historiadores não há uma narrativa ‘cristalina’ de como Lampião conseguiu escapar com vida de tamanha armadinha, além de salvar a vida de alguns de seus subordinados.

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Lampião em Mossoró – Fonte –  http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br

No longo e árduo caminho, com certeza tendo o “Rei do Cangaço” vinha queimando vários e vários milhares de neurônios procurando encontrar, ou tentando achar, respostas para o que aconteceu em território dominado pelo aliado cearense. Por que o coronel que o chamou e o incumbiu da missão sobre Mossoró estava a ponto de acabar com sua vida? Por que aquele que lhe fornecera abrigo, munição e armas acabara por lhe armar tamanha arapuca? Mais um, dentre os grandes ‘coronéis’ coiteiros caem fora do ‘negócio’ armando para ele. Primeiro havia sido o coronel José Pereira, de Princesa Isabel, PB, que vendo a maneira como os homens de Lampião haviam se portado na cidade de Souza, PB, enquanto Virgolino se restabelecia de um ferimento no pé direito, em território dominado pelo coronel, manda que um exército de jagunços seja lançado sobre a cabroeira para extermina-la. Com esse ato Zé Pereira consegue, ou pensava conseguir, eliminar dois coelhos com um só disparo: acabar com a suspeita de ser acoitador de Lampião e não saldar a dívida com ele, que, segundo o próprio Virgolino, não era pouca. Agora o grande coronel Izaias Arruda também o trai e quase acaba com a vida dele.

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Fotos de cangaceiros presos na Casa de Detenção de Recife, estampada na primeira página de um jornal da capital pernambucana

Já em terras pernambucanas, a horda perambula e avança aos solavancos rumo ao território onde encontrariam abrigo nos município de Triunfo, Vila Bela e Floresta. A cabroeira estava pra lá de desanimada, sobre tudo por ainda estarem com eles alguns companheiros feridos e/ou envenenados. Dentre os envenenados havia o ‘cabra’ “Mão Foveira”, sertanejo Domingos dos Anjos, que pede permissão ao chefe para ficar na estrada por estar sentindo muitas dores no abdome. Esse cangaceiro também era conhecido pela alcunha de Serra do Umã. Em vez de dar permissão, Virgolino manobra a alavanca do mosquetão e eleva a arma ao ombro dizendo que só o deixaria se fosse morto. Apesar de também ser cangaceiro, “Mão Foveira” pede pela vida, no que, naquele momento não parecia ser com o que Lampião concordava. Insistindo em não deixar com vida seu assecla, o cangaceiro mor é colocado à prova pelo restante dos homens. Todos tomam o partido do companheiro envenenado e falam em sua defesa. A pressão é alta e Lampião sabia que se matasse “Mão Foveira” naquele instante, seria morto pelos outros. Não tinha outra saída, tinha que deixa-lo na beira da estrada com suas dores a espera da morte.

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Cangaceiros presos – Fonte – tokdehistoria.com.br

As contrações dolorosas na altura do intestino delgado se intensificam e o cangaceiro, lá deixado no meio do nada, prossegue esperando sua hora chegar. Mais tarde, quando o sol já havia pendido para o poente um cidadão da família Pereira, o sertanejo Zuza Conrado vem viajando por aquela estrada e encontra o homem agonizante, o carrega par sua própria casa. Lá chagando, foi até a ‘panela’ onde estava o leite das vacas, e o faz beber bastante. “Mão Foveira” começa a sentir-se melhor. As dores quase que acabam por completo. Restabelecido e tendo feito um detalhado relato ao seu salvado, esse o leva até Vila Bela onde é colocado no xilindró. Naquela época os cangaceiros presos eram transferidos para os grandes presídios nas capitais dos Estados. Dentre outras coisas, para evitar um ataque do restante do bando e soltá-los.

Na região de Floresta do Navio havia uma família com cinco irmãos: Francisco Miguel do Nascimento, Pedro Miguel do Nascimento, Domingos Miguel do Nascimento, João Miguel do Nascimento e José Miguel do Nascimento. Todos dessa família viviam do trabalho nos roçados e vaqueijando gado dentro das brenhas da caatinga. Eram conhecidos nas redondezas como “os Miguel”.  O jovem Francisco Miguel do Nascimento, que era um dos bons vaqueiros daquela região, cai em desgraça e a saída para continuar vivendo foi entrar para o cangaço e ir viver da espingarda junto a Virgolino. Daí por diante seu nome passa a ser o cangaceiro “Passo Preto”.

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Seus irmãos em vez de seguirem essa ‘trilha escura’, tomam outra, totalmente oposta. Entram na Força Pública e vão dar combate ao banditismo rural que assolava o Sertão do Pajeú das Flores.

Segundo o pesquisador/historiador/ex volante, tenente João Gomes de Lira, no seu “Lampião – Memórias de um Soldado de Volante” – 1ª edição, pg 389, de 1990, nos combates em que os irmãos estavam a se digladiarem, o cangaceiro “Passo Preto”, dono de poderosa voz, começava a chamar pelo nome dos irmãos começando uma prosa, mesmo naquelas condições, tentando relembrarem passagem de suas vidas quando jovens. O saudoso tenente da Briosa pernambucana nos diz ainda que: antes de partir para dentro da Mata Branca, em busca de abrigo, “Passo Preto” soltava um longo e penoso aboio se despedindo dos irmãos.

Pedro e Domingos foram promovidos a cabo da PMPE por merecimento. Já o irmão Francisco, o cangaceiro “Passo Preto”, depois de uma vida sangrenta no cangaço, se entrega e vai cumprir sua pena na Detenção de Fernando de Noronha. Liberto, Francisco Miguel, depois de perambular por vários lugares, pega o rumo do distrito de Nazaré do Pico, município de Floresta, PE, onde procura o capitão da PM Euclides Flor e lhe solicita trabalho. O capitão Euclides Flor lhe dar emprego e ele passa a conviver e trabalhar junto as pessoas de quem tanto fugiu e o perseguiu. Porém, se sentia seguro e protegido… Nas quebradas do Pajeú das Flores.

Fonte “Lampião – Memórias de um Soldado de Volante” – LIRA, João Gomes de. 1ª edição. Recife, 1990

Foto TOK de HISTÓRIA

BRASIL, 1838: SACRIFÍCIOS HUMANOS

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Seita no Sertão brutalizava pessoas para trazer de volta Dom Sebastião

Marcelo Testoni

Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/brasil-1838-sacrificios-humanos.phtml#.WWZ69ojyvXM

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Batalha de Alcácer-Quibir (1578), Museu do Forte da Ponta da Bandeira, Lagos, Portugal. A imagem mostra o detalhe da única representação conhecida da batalha de Alcácer-Quibir publicada por Miguel Leitão de Andrade na obra “Miscelânea” (1629): nele está ilustrado o exército português, numericamente inferior, prestes a ser cercado pelas forças islâmicas – Fonte – https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Alc%C3%A1cer-Quibir

No dia 24 de junho de 1578, um Exército de 24 mil portugueses, comandado pelo seu rei dom Sebastião I, partiu de Lisboa e após quase um mês navegando pelo Atlântico em 847 embarcações chegou a Tânger, no Marrocos. Dali marchou por sete dias até a cidade de Alcácer-Quibir. O objetivo era atacar, com seus cavaleiros, lanças, espadas, arcabuzes e canhões, o rei marroquino Abd al-Malik. A vitória mataria dois coelhos: afastaria as ameaças dos muçulmanos ao litoral português e o país seria o protagonista de um processo de cristianização e colonização do norte da África.

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Foto realizada no atual Marrocos e realizada no início do Séulo XX e mostra a região de Alcácer-Quibir, Rio Lucos. Foi entre este rio e o rio Mekhazen que se deu a Batalha em 1578 – Fonte – https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Alc%C3%A1cer-Quibir

Mas o desastre foi total para os portugueses. Abd al-Malik também tinha cavaleiros, lanças, espadas, arcabuzes e canhões. E a vantagem de um Exército de 60 mil homens. Três marroquinos para cada português. Metade do Exército lusitano foi morto na batalha e a outra metade, presa.

O corpo de dom Sebastião nunca seria encontrado. Aos 24 anos, o rei não deixou herdeiro ao trono e Portugal seria governado pela Espanha por 60 anos. Do fim misterioso de dom Sebastião surgiu o sebastianismo, a crença mística de que ele voltaria para afastar o domínio estrangeiro ou para livrar dos seus opressores os pobres e infelizes.

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Rei Dom Sebastião de Portugal, pintura de Jakob Seisnegger datada de 1530.

O mais popular divulgador do sebastianismo foi o sapateiro da vila portuguesa de Trancoso Gonçalo Annes Bandarra, que previu, em poemas, a volta de dom Sebastião,“o Desejado”.Suas Trovas fizeram enorme sucesso. Foram proibidas pela Inquisição, mas continuaram circulando clandestinamente por décadas, mesmo após sua morte. A lenda se espalhou por Portugal e, 260 anos mais tarde, tornou-se realidade no alto de uma montanha próxima à cidade de São José do Belmonte, sertão de Pernambuco, transformando-se em um dos episódios mais bizarros e sinistros da história brasileira.

Primeiro Reinado

Tudo começou em 1838, na Pedra Bonita (hoje, Pedra do Reino) – um platô encimado por dois rochedos paralelos, cada um com 30 m de altura –, quando João Antônio Vieira dos Santos começou a abordar os habitantes mostrando-lhes duas pepitas, as quais ele dizia serem preciosas. João Antônio afirmava que as havia conseguido graças ao rei dom Sebastião, que o conduzia todos os dias em sonho a seu esconderijo.

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O rei português ainda lhe teria indicado que o desencanto e a revelação de seu reino estariam próximos e, assim que isso acontecesse, ele retornaria ao mundo como o Messias. Para dar fundamento, digamos, acadêmico a seus argumentos, o profeta levava consigo, além das pedrinhas, os textos de As Trovas do Bandarra, que tanto sucesso haviam feito em Portugal.“Esse fato demonstra a perspicácia do falso profeta, que, conhecendo o nível de esclarecimento de seus ouvintes, apropriou-se de uma narrativa de convencimento”, diz Marcio Honorio de Godoy, da PUC-SP e autor de O Desejado e o Encoberto, sobre o sebastianismo.

Moradores de sítios vizinhos começaram a aderir à crença e visitar o complexo rochoso encantado, onde dom Sebastião dormia, segundo suas pregações. Com a popularidade crescendo, o profeta foi coroado rei de Pedra Bonita, cargo provisório enquanto dom Sebastião não despertava. Mas a agitação atraiu os olhares das autoridades.

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O movimento provocava o esvaziamento da mão de obra rural e disseminava uma seita pagã. Enfim, um caso de polícia e de Igreja. O padre Francisco José Correia, respeitado na região, foi acionado. “O embusteiro João Antônio então se apresentou ao sacerdote, arrependeu-se de sua conduta e devolveu-lhe as falsas pedras”, conta Belarmino de Souza Neto, historiador e autor de Flores do Pajeú: História e Tradições.

O que deveria ser o fim do sebastianismo sertanejo gerou uma crença ainda mais fanática e perigosa. João Antônio assumiu a farsa e saiu da cidade, mas antes passou a coroa para o cunhado João Ferreira. O segundo rei de Pedra Bonita também dizia ter visões de dom Sebastião e intensificou a divulgação da profecia. Carismático, ganhou muita popularidade e conseguiu aumentar o número de seguidores para 300. Eles o chamavam de “Sua Santidade El-Rei” e beijavam-lhe os pés. Decidiu estabelecer sua corte ali mesmo, junto às duas grandes rochas de Pedra Bonita – local de rituais de desencantamento que permitiram ao outro rei, o desaparecido em Alcácer-Quibir, e que no momento dormia, voltar ao mundo real.

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Segundo Reinado

É nesse momento que as coisas começaram a degringolar. Ferreira decidiu estabelecer sua casa em um dos blocos de rocha. Nela, eram promovidos festejos e beberagens entre seus associados, que se drogavam com manacá e jurema, ervas com propriedades alucinógenas, para conseguir “entrar” no reino de dom Sebastião. Na segunda torre de pedra, foi escavado o santuário – que servia de refeitório e para os rituais de desvirginamento, nos quais, após cerimônias de casamento, as noivas eram oferecidas em primeira mão ao monarca.

O que o novo rei pregava foi registrado, em 1875, por Antônio Attico de Souza Leite, do Instituto Arqueológico da Província de Pernambuco. “Um iluminado ali congregou toda a população para o advento do reino encantado do rei dom Sebastião, que irromperia castigando, inexorável, a humanidade ingrata”, escreveu. O dia a dia dos sebastianistas era ocupado por rezas e cantorias. Na rotina não entravam a preocupação com vestimentas ou com a higiene. Também não se tomava o cuidado de cultivar vegetais ou criar animais. Caravanas de jagunços de confiança do rei eram despachadas para recolher doações ou saquear fazendas vizinhas e, se possível, buscar novos adeptos.

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Jornal maranhense repercutindo a tragédia da Pedra Bonita. Em uma nação com tantos problemas de comunicação nesta época, chama atenção como os fatos ocorridos no interior de Pernambuco alcançaram tremenda repercussão.

Ferreira tinha ideias próprias de quais seriam os rituais exigidos para promover o desencantamento de dom Sebastião. “Era necessário banhar as pedras e regar todo o campo vizinho com sangue dos velhos, dos moços, das crianças e dos irracionais”, registrou Antônio Attico.

A loucura começaria para valer na manhã de 14 de maio de 1838. Ferreira anunciou que, numa visão, dom Sebastião lhe garantira que o sangue dos seguidores o traria de volta. Durante três dias, os fiéis, embalados por gritos, danças hipnóticas, música e bebidas alcoólicas, mataram 30 crianças, 12 homens, 11 mulheres e 14 cães. Pais e mães traziam como oferendas partes do corpo dos filhos. Aos pés do rei, arrancavam orelhas, língua, dedos dos pés, das mãos ou genitais, relata Antônio Attico, baseado em testemunhas.

Os cadáveres amontoavam-se e eram colocados na base das duas pedras de maneira simétrica, separados por sexo, idade e “qualidade”, esta última determinada de acordo com o tipo de promessa e da entrega de entes queridos ao sacrifício que eles houvessem feito. Quem se recusava ao sacrifício era tido como infiel e desprezível. “Os mais fanáticos entendiam tal recusa como uma quebra na continuidade do ritual de desencanto”, afirma Honorio de Godoy.

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Terceiro Reinado

A loucura assassina de Sua Santidade El-Rei fez surgir um terceiro personagem. Pedro Antônio Viera dos Santos, irmão do primeiro rei, João Antônio, resolveu frear o ritual. Tomou a palavra e fez um discurso carismático anunciando que ele também tinha uma mensagem de dom Sebastião para divulgar. “Ele anunciou que dom Sebastião lhe apareceu em uma visão cobrando o sangue do segundo rei para o desencantamento ser concluído”, afirma o historiador Belarmino de Souza.

Os fiéis apoiaram imediatamente a sugestão e começaram a gritar: “Viva El-Rei dom Sebastião! Viva nosso irmão Pedro Antônio!” Deposto do seu título e na condição de um simples súdito, João Ferreira, o amalucado messias, foi arrastado ao sacrifício. Seu crânio foi esmigalhado e o corpo amarrado, pés e mãos, ao tronco de duas árvores grossas. Ao vencedor, Pedro Antônio, foi passada a coroa. Era ele, agora, o terceiro regente de Pedra Bonita. Sua primeira medida foi decretar a suspensão imediata dos assassinatos.

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 A Batalha Final

Mas tamanho horror não poderia escapar às autoridades. Enquanto no alto do morro a transição entre os dois reinados acontecia, as denúncias dos sacrifícios humanos chegavam ao conhecimento do major Manuel Pereira da Silva, autoridade militar de São José do Belmonte.

Um vaqueiro, José Gomes, fugido de Pedra Bonita, relatou as barbaridades. Curiosamente, o delator destacava a frustração dos integrantes por terem sacrificado inocentes em vão, já que dom Sebastião não havia desencantado.

O major partiu no dia seguinte rumo à Pedra Bonita. Liderava um grupo formado por dois de seus irmãos, Cypriano e Alexandre, e 26 soldados. Após um dia de caminhada, e ainda distante do local da seita, a caravana fez uma pausa embaixo de alguns umbuzeiros. A poucos metros do abrigo, no entanto, encontrou-se de frente com o novo rei dos sebastianistas, Pedro Antônio, acompanhado de um séquito numeroso de pessoas armadas com porretes e facões.O rei e sua corte haviam deixado Pedra Bonita fugindo do cheiro dos cadáveres insepultos.

O encontro pegou os dois grupos de surpresa. Os militares, em campo aberto, pareciam em desvantagem diante dos sebastianistas. Mas estes estavam exaustos. Na batalha que se seguiu, o major ganhou a guerra, mas pagou caro pela vitória. O rei, Pedro Antônio, e 16 de seus seguidores foram mortos. Do lado dos militares, cinco vítimas fatais, inclusive os dois irmãos do major. Ali, debaixo dos umbuzeiros, terminava, em 17 de maio de 1840, o sangrento reinado dos sebastianistas da Pedra Bonita, sem que dom Sebastião acordasse para socorrê-los. O messianismo não se extinguira no imaginário brasileiro. Grupos semelhantes surgiram. Um dos maiores, no interior da Bahia, em 1896, foi liderado por Antônio Conselheiro e gerou a Guerra de Canudos.

Saiba mais

No Reino do Desejado: A Construção do Sebastianismo em Portugal nos Séculos XVI e XVII, Jacqueline Hermann, 1998. 

Flores do Pajeú: História e Tradições, Belarmino de Souza Neto, 2004.

 

A TRILHA DO CANGAÇO NO RN: CIDADES GUARDAM MARCAS DA PASSAGEM DE LAMPIÃO PELO ESTADO

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Lampião, o Rei do Cangaço

Reportagem percorreu mais de 600 quilômetros por onde passou Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

Por Ivanúcia Lopes e Hugo Andrade, G1 RN – Fonte – http://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/a-trilha-do-cangaco-no-rn-cidades-guardam-marcas-da-passagem-de-lampiao-pelo-estado.ghtml

O povo falava que Lampião tinha passado por aqui e tinha umas armas guardadas…”. Foi assim que dona Ilma de Oliveira começou a contar a história que sempre ouviu dos mais velhos. A senhora de cinquenta e poucos anos mora na casa que serviu de apoio aos cangaceiros em 10 de junho de 1927. Naquele dia de madrugada Lampião e seu bando entravam em terras potiguares. Eles chegaram pela Paraíba, cruzaram a divisa dos estados e apearam-se bem na casa onde dona Ilma criou os três filhos. A estrutura é quase a mesma: paredes largas, teto alto, tornos de madeira e caritós para guardar objetos. “Até um tempo desse os familiares do antigo dono ainda vinha aqui olhar e recordar”, conta.

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Foi nessa casa que Lampião se abrigou ao entrar no RN em 1927 (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

A casa que fica no sítio baixio, no pé da Serra de Luís Gomes, pertencia a familiares dos cangaceiros Massilon Leite e Pinga-fogo. Massilon era ‘os olhos e ouvidos’ do líder pelas bandas do sertão potiguar. Era ele o responsável por guiar os homens do cangaço no plano de atacar a cidade próspera de Mossoró.

A recepção durou pouco. Quando amanheceu os cangaceiros se embrenharam na caatinga. Galoparam por veredas, saquearam fazendas e fizeram prisioneiros. Na Fazenda Nova, onde hoje é o município de Major Sales, até o padrinho de Massilon, coronel Joaquim Moreira, foi sequestrado. Na fazenda vizinha de Aroeira, onde hoje é a cidade de Paraná, eles fizeram mais uma refém: a senhora Maria José foi levada pelo bando que seguia despistando a polícia e invadindo propriedades.

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“A passagem do bando de Lampião pelo RN está qualificada como banditismo, pois tem casos de assalto, assassinato e uma novidade que até então não tinha aqui que era o sequestro”, explicou o pesquisador Rostand Medeiros que já fez o mesmo trajeto de Lampião no RN algumas vezes. “Depois desses ataques na manhã do dia 10, o bando continuou subindo e praticando todo tipo de desordem”, lembrou.

Para seguirem sem alardes os cangaceiros evitavam a passagem por centros urbanos mais desenvolvidos e desviavam de estradas reais, aquelas por onde passava o gado e o movimento era maior. O objetivo era evitar confrontos para não desperdiçar munição e nem perder homens, já que ainda tinha muito caminho até Mossoró.

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Mapa mostra o percurso feito por Lampião em terras potiguares (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

Mais ataques 

Na tardinha do dia 10 de junho de 1927 o grupo chegava na Vila Vitória, território que hoje pertence ao município de Marcelino Vieira. No povoado ainda é possível encontrar casas remanescentes da época, e algumas até com sinais da violência praticada pelo bando. Na casa de dona Maria Emília da Silva, por exemplo, eles deixaram marcas de boca de fuzil. Era comum bater com as armas na madeira para assustar os donos da casa. “Eles só foram embora quando viram o retrato de Padre Cícero. Onde tinha retrato de Padre Cícero ele não fazia nada”, contou.

Na comunidade vizinha os cangaceiros saquearam a casa onde mora dona Terezinha de Jesus. A casa é antiga, do ano de 1904, mas ainda mantém a estrutura da época. A aposentada conta que o pai avistou de longe quando o bando chegava, mas não teve tempo de fugir. Na casa, eles procuraram joias, armas e dinheiro. “Eles iam a cavalo e armados. Papai dizia que para montar era um serviço grande porque estavam pesados com armas”, disse Dona Terezinha ao mostrar o quarto dos fundos onde ficam guardados os baús alvos dos cangaceiros. “Deixavam as roupas tudo no chão. Jogavam tudo atrás de dinheiro. Aí dinheiro não tinha. Naquela época era difícil, né? Mas se achassem podiam levar. Era o que diziam”, contou dona Terezinha enquanto acendia a lamparina para mostrar os objetos preservados.

Depoimentos de testemunhas e vítimas da vila Vitória compõem o processo contra Lampião que tramitou na Comarca de Pau dos Ferros.

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Em 1927 os pertences dos moradores eram guardados em baús (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

Fogo da Caiçara: O primeiro combate militar contra Lampião no RN 

A notícia de que o bando estava invadindo propriedades na Vila Vitória mobilizou a força militar. A polícia juntou homens para enfrentar os cangaceiros. O combate aconteceu no local onde hoje é o açude de Marcelino Vieira. “Por conta da seca é possível ver exatamente onde ocorreu o primeiro combate militar contra a invasão do bando no estado. Essas plantas que estavam cobertas de água ainda podem testemunhar esse fato”, disse o historiador Romualdo Carneiro ao mostrar as marcas de tiros que ficaram nos pés de canafístulas. 

Quando o combate começou a caatinga se acinzentou com a queima da pólvora dos rifles e espingardas dos dois grupos em guerra. O agricultor Pedro Felix ouviu o pai contar como foi: “Muito tiro. Muito tiro. Chega assombrava o povo que só pensava em fugir”.

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O antigo mausoléu mudou de local em 1989 quando o açude foi construído (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

O escritor Sergio Dantas, conta em seu livro “Lampião e o Rio Grande do Norte: a história da grande jornada”, que o tiroteio durou trinta minutos. Os cangaceiros, em maior número e treinados na guerrilha da caatinga, puseram a frota militar ao recuo.

No confronto morreram o soldado José Monteiro de Matos e um cangaceiro conhecido como Azulão.

 Os moradores da região até hoje se referem ao soldado como sendo um herói.

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O monumento atual fica próximo a capela onde é celebrada a tradicional missa do soldado (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

“Quando acabou a munição os outros foram embora, mas ele disse ‘eu morro, mas não corro!’ e morreu lutando.” contou seu Pedro ao apontar para os restos de tijolos do antigo monumento construído em homenagem ao soldado. “Era bem aqui que tinha uma cruz pra ele, mas quando fizeram o açude levaram lá pro outro lado”, explicou. 

Ainda hoje o local onde está o monumento recebe visitações. Todo dia 10 de junho a figura do soldado é homenageada pelos moradores que fazem celebrações. A missa do soldado virou um evento no povoado.

Fim da festa, não do medo 

Não demorou para o bando chegar ao povoado de Boa Esperança, local onde hoje é o município de Antônio Martins. O ataque aconteceu em frente a igrejinha da comunidade onde acontecia a festa de Santo Antônio. “Em vez de recepcionar a banda de música para a novena do padroeiro os devotos foram surpreendidos com a chegada dos cangaceiros que bagunçaram as casas, saquearam o comércio, quebraram melancia na cabeça do dono e acabaram com a festa”, contou o historiador Chagas Cristovão.

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O ataque aconteceu no pátio dessa capelinha construída em 1901 (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

O principal comércio da época ficava ao lado da Igrejinha. O prédio ainda guarda as características de antigamente. Relatos dão conta de que na tarde do ataque o bando só foi embora depois que uma senhora implorou. “Atendendo ao pedido de Rosina Maria, que era da mesma terra de Lampião, o bando deixou o vilarejo e seguiu rumo a Mossoró.”, concluiu o historiador.

Mesmo depois que os cangaceiros se debandaram o medo permaneceu entre os moradores. Houve até quem fizesse promessa para não sofrer as maldades do bando. Hoje dá pra avistar no alto da serra, uma capelinha construída para agradecer a proteção.

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Capelinha em homenagem a São Sebastião fica na Serra de Veneza (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

O massacre 

Eram altas horas da noite do dia 11 de junho quando o bando entrava na Vila de Lucrécia. Uma das casas invadidas na Fazenda Serrota continua preservada. Na janela estão as marcas de tiros e nas paredes os retratos daqueles que estiveram frente a frente com Lampião. “Quem morava aqui eram meus avós Egídio Dias e Donatila Dias. Eles amarraram Egídio Dias e levaram ele lá pro Caboré.”, contou o aposentado Raimundo Leite, que mora ao lado da antiga casa dos avós.

Caboré é um sítio que fica a poucos quilômetros da Fazenda. O prisioneiro teria sido levado por uma estrada de terra onde hoje é a RN 072. Os cangaceiros pediram dez contos de reis para poder soltar o fazendeiro. “Um grupo de mais de dez homens foi até lá pra tentar salvar Egídio, mas foi surpreendido por uma emboscada. Três homens acabaram mortos.”, relatou a pedagoga Antônia Costa.

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Fonte – canalcienciascriminais.com.br

No local do massacre foi construído um monumento em homenagem aos homens. Em Lucrécia eles são reconhecidos como heróis. “Todo dia 11 de junho tem programação na cidade em memória de Francisco Canela, Bartolomeu Paulo e Sebastião Trajano”, enfatizou a pedagoga.

Egídio Dias fugiu. Permaneceu várias horas no mato. Só depois que o bando foi embora ele conseguiu voltar para o convívio da família.

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Fonte – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br

O bando seguiu desafiando a caatinga. Os rastros de destruição ficavam pelas propriedades. Na manhãzinha do dia 12 eles entraram na Fazenda Campos, onde hoje é território de Umarizal. Na casa grande, que estava abandonada pelos donos amedrontados, eles ficaram pouco tempo até pegarem a estrada de novo. Uma marcha que parecia não ter fim.

Horas depois eles chegaram ao povoado de São Sebastião, hoje Governador Dix Sept Rosado. “Meu pai conta que Lampião passou na Estação de Trem e fez muita bagunça. Aí o povo do sítio era tudo no mato com medo. Meu pai mesmo dormiu muitas noites no mato, com medo”, relembra seu Maurilio Virgílio, aposentado de 75 anos que hoje mora pertinho da Estação alvo dos ataques.

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A estação foi alvo dos cangaceiros no povoado de São Sebastião (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi)

Os cangaceiros ainda saquearam o comércio, queimaram os vagões do trem e destruíram o telégrafo. Mas antes disso, um agente da Estação conseguiu mandar uma mensagem para Mossoró informando que o bando estava a caminho.

Foi o tempo de Mossoró se preparar para a luta. E a cidade tava mesmo preparada. Quando receberam o recado que Lampião e seu bando estava por vir, autoridades e outras personalidades da época se uniram, chamaram os moradores e começaram a montar as estratégias de defesa. Essas pessoas que venceram o combate 90 anos atrás são conhecidos como heróis da resistência.

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Tive a oportunidade de contribuir com este trabalho, junto com outros maravilhosos amigos. Parabéns as equipes da InterTV Cabugi de Mossoró e de Natal. Resultado maravilhoso.

“Foi um feito heroico de um grupo de cidadãos e cidadãs, que se juntou pra defender a cidade. Quando eu olho para a resistência ao bando de lampião, eu não vejo uma individualidade, vejo um ato de cidadania, de coragem que esse grupo frente à sua vida, à sua cidade”, diz o historiador Lemuel Rodrigues.

Noventa anos depois, os resistentes já se foram, mas ficou o legado. Ter um herói na família é motivo de orgulho para muitos mossoroenses. Algumas figuras estavam na linha de frente e lideraram a defesa da cidade contra o bando de Lampião. Tenente Laurentino, por exemplo, organizou as trincheiras e montou o plano de resistência com o apoio dos civis, todos liderados pelo prefeito Rodolfo Fernandes.

De acordo com os registros da época, o confronto entre os moradores e o bando de lampião durou cerca de quarenta minutos. Quase 170 homens participaram da defesa da cidade e ficaram espalhados em 23 trincheiras no centro de Mossoró. Uma delas teve papel fundamental para o sucesso do combate: a torre da capela de São Vicente que era o ponto mais alto de Mossoró. Do local, os resistentes tinham uma visão privilegiada. Três homens ficaram na torre e surpreenderam os cangaceiros.

“Manoel Felix, Tel Teófilo e Manoel Alves eram os três homens que estava no Alto da Torre. A partir daí, eles começaram a informar que os cangaceiros estavam vindo do lado de cá, na lateral da capela. E nesse momento, eles passam a ser revidados e deixam de ser atiradores para se tornarem alvos”, explicou o historiador Kydelmir Dantas.

Os homens que ficaram lá em cima não foram atingidos, mas as marcas dos tiros ainda permanecem no alto da torre. A capela que serviu de trincheira e guarda um dos maiores símbolos do combate de 13 de junho de 1927, dia em que Lampião e seu bando bateram retirada de Mossoró.

A DESINFORMAÇÃO! MAIS UMA ESTRATÉGIA USADA POR “LAMPEÃO”

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O início da divisão do bando em subgrupos

Por Sálvio Siqueira

Longe de nós leitores, estudantes, pesquisadores e escritores do tema cangaço fazermos apologia ao crime nem a criminosos. Pelo contrário. Pesquisamos, estudamos e lemos obras sobre o Fenômeno Social que existiu desde meados do século XVIII até seu desaparecimento no início dos anos 1940, quase meados do século XX.

No decorrer dos estudos nos são apresentados os fatos, com os atos ocorridos e suas personagens, os quais estão afixados nas barreiras do riacho permanente da história. Sendo a imaginação humana por demais fértil, principalmente em prol de si própria, logicamente que a narração desses acontecimentos foram, e são, alterados ao longo do tempo, para mais ou para menos, e até foram algumas fantasias, causos, lutas e combates, criadas por alguns. Infelizmente, dentre os próprios escritores, pesquisadores e historiadores vemos em suas entre linhas, inúmeras criações fantasiosas sobre o tema cangaço.

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Os grandes inimigos dos cangaceiros – Grupo de volantes comandados por Manoel Neto, que está de óculos na extrema direita.

Cada um tem sua ‘maneira’ de ver a história. Muitas vezes ela segue para determinado ponto, e esses só a vem em outra direção.

Uma das coisas ocorridas no desenrolar desse Fenômeno Social que nos chama por demais a atenção, referindo a era lampiônica, são as artimanhas, táticas e estratégias planejadas, montadas e executadas por um sertanejo nascido no Pajeú das Flores, região do sertão pernambucano, que pouco frequentou escola alfabetizadora, na infância, e nunca, jamais, esteve em uma escola militar. No entanto, usou práticas de guerrilhas em sua guerra particular contra as Forças Militares de vários Estados da Região Nordeste que o perseguia que são por demais admiráveis.

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Memorial da Resistência em Mossoró, Rio Grande do Norte – Foto – Rostand Medeiros

Lampião e seu bando estão ‘curando’ as feridas da derrota sofrida em Mossoró, RN, na cidade cearense de Limoeiro do Norte. Seu bando a partir daí, já bastante desfalcado, começa a desmantelar-se por inteiro. Nos dias vindouros, após a estada naquela metrópole cearense, muitos são pegos e presos, outros são mortos e vários debandam, tendo ainda aqueles que resolvem se entregarem. Por fim, resta apenas cinco ‘cabras’ e ele. Decidido a continuar no ‘trono’, resolve o “Rei dos Cangaceiros” transpor as águas do Velho Chico e, em terras baianas, dá sequência a seu reinado. Esse ocorre no ano de 1928. Lá estando, entra em contato direto com Corisco, cangaceiro que atuou em seu grupo em terras pernambucanas.

Mais ou menos um ano que estavam no Estado da Bahia, Lampião resolve recomeçar suas extorsões, roubos e mortes, só que, dessa vez, ele muda seu modo de agir. Em determinadas cidadelas baianas, ele não permite que seus homens façam alguma ‘travessura’, já em outras, a coisa coloca-se como uma verdadeira carnificina.

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Após estarem juntos, o grupo de Lampião e o pequeno grupo do “Diabo Louro”, fazendo um só bando, isso já no ocaso de 1929, o chefe mor dos cangaceiros dá instruções a seu, agora, lugar tenente, Corisco, para ele ir com parte do bando para determinada região do sertão baiano, comece a fazer muitas estripulias por lá, usando  a rapidez nos ataque e, principalmente, nas retiradas, sem nem mesmo terem o tempo de roubarem algo, só com o intuito de chamar a atenção das autoridades estaduais. Começando assim, a ação dos subgrupos, propriamente dito.

“(…) a atuação do subgrupo por ele (Corisco), comandado, naquele momento, tem a finalidade exclusiva de confundir a polícia e nisso o récem-nomeado ‘chefe’ vem obtendo sucesso (…).” (“CORISCO – A Sombra de Lampião” – DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. 1ª Edição. Natal, RN. 2015)

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A ação é muito bem praticada por Corisco. Além de atacar determinados povoados e pequenas cidades, ele manda ‘avisos’ que atacará outros (as). Com isso são formadas, às pressas, defesas para as mesmas e as autoridades são informadas. O plano dá resultado positivo, tanto que a própria imprensa também cai nele, e sabedora do conteúdo dos boletins militares, publica notícias de por onde estão os cangaceiros atuando.

O Diabo Louro ataque Rio do Peixe, depois segue pra Vila de Saúde, aí trava combate com volantes, solta a ‘notícia’ que atacará Caem, depois que irá até Jacobina… E assim Corisco vai cumprindo a missão determinada pelo “seu capitão”. Segue fazendo destino a Vila de Riachuelo, nessa é formada uma tropa de combate que vai para a mata, de encontro o bando que está vindo. Mas, mais uma vez, são boatos. A turba segue para outra ‘freguesia’. Em 16 de outro de 1929.  Corisco está as portas da cidade de Miguel Calmon. Muda de rumo e seguindo de noite adentro, cai em um piquete armado pela polícia baiana, isso já no município de Morro do Chapéu, em um povoado chamado Tábuas. Em pouco tempo, dias apenas, há notícias de Corisco vinda de uma estação ferroviária em um Distrito denominado Barrinha. São comunicadas as autoridades de Jaguarari e Bonfim e a imprensa começa a cobrar mais participação da Força. E assim seguiram aqueles cangaceiros chamando atenção, muito mesmo, por onde passara.

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Lampião e seu bando

Com todos os olhares das autoridades, imprensa e população voltadas para as ações praticadas por Corisco e seus cangaceiros, Lampião está prestes a cumprir uma promessa que fizera aos trabalhadores de uma estrada rodagem num lugar chamado Carro Quebrado. Virgolino, anteriormente havia prevenido que, se retornasse a ver homens trabalhando na construção da dita estrada, a qual ligaria Juazeiro a Santo Antônio da Glória, mataria todos, aqueles que estivessem trabalhando bagariam com a vida. No dia 18 de outubro de 1929, Lampião executa a tiros e sangrados, nove trabalhadores que trabalhavam na construção da estrada. O crime é bárbaro e desnecessário. Chama bastante atenção. Após mais outras investidas do “Rei Vesgo”, a imprensa começa e as autoridades começam a desconfiar do porquê do ‘furacão’ que Corisco andou levantando bem distante de onde começava agir seu chefe. Ocorrem ataques, roubos, extorsões e mortes em lugares muito distantes e ao mesmo tempo.

““ Convencida, agora, de que os bandidos se acham, efetivamente, divididos em dois grupos, do que lhe deu certeza terem ocorrido, quase nas mesmas horas, o tiroteio de Morro do Chapéu a a façanha de Carro quebrado, a chefia da Polícia, ao que sabemos, vai mudar de plano, já tendo, nesse sentido, telegrafado aos comandantes das forças volantes dando as necessárias instruções”. (Diário de Notícia, outubro de 1929)”(Ob.Ct.)

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Corisco e seus cachorros

Mas, para as autoridades começarem a agirem dividindo as tropas, se faz necessário algum tempo para adaptação. Enquanto isso, os dois grupos continuam agindo em pontos longínquos.

No mês seguinte a chacina dos trabalhadores, novembro de 1929, Lampião faz visitas amigáveis as cidades de Nossa Senhora das Dores e Capela, no Estado sergipano. De volta a terras baianas, já em dezembro do mesmo ano, Lampião ataca a vila de Cansanção e, em seguida pratica mais uma chacina na de Queimadas, onde executam sete militares, execuções essas que até os dias de hoje, não sabemos seu significado, razão ou motivos. Em Queimadas, uma pequena vila na época, Lampião dá prosseguimento ao plano anteriormente arquitetado, soltando para os quatro ventos, que matou Corisco por ele estar querendo tomar seu poder. Se pesquisarmos as datas das ações cometidas pelos dois grupos, veremos que haverá delas, terem ocorridos fatos no mesmo dia, e até mesma hora, ou próxima a essa, só que muito distante uma da outra.

“(…) fora uma ação planejada com intuito de confundir a polícia. O intento, claro, fora conseguido (…).” (Ob. Ct.)

Com as ações executadas com total êxito pelos dois bandos, de repente, todos os cangaceiros somem do ‘mapa’. Todos se refugiam dentro da imensidão do Raso da Catarina, e por lá permanecem por vários e vários dias… Nas quebradas do Sertão baiano.

Fonte “CORISCO – A Sombra de Lampião” – DANTAS, Sérgio Augusto de Souza.

DE NÓS, PRA VOCÊ – SALVE O DIA DO NORDESTINO

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FONTE – https://medium.com/@basepropaganda/se-oriente-fc01dc8dfa2d#.ru8msgkp4

08/10/2016 — Dia do Nordestino

Durante a construção deste projeto, conversamos com alguns amigos que são do Nordeste e vivem em outras regiões do país para que juntos analisássemos e ilustrássemos algumas situações nas quais o preconceito, mesmo polido ou acompanhado de algum tipo de elogio, machuca e ajuda a perpetuar estereótipos.

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Estamos sempre em busca do nosso lugar no mundo. E, por onde quer que a gente vá, carrega em si um universo próprio, cheio de coisas que só a gente sabe realmente como são. Aquela tal de experiência de vida, não é?

O simples fato de termos nascido em uma região específica não nos torna especiais ou ~diferentões~, mas é claro que temos prazer em externar a nossa origem. Afinal, são palavras e expressões que nos lembram os amigos de infância, sabores e canções que nos levam imediatamente aos encontros de família, dificuldades que costumamos associar a quem sofre como nós.

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Porque sim, sofremos. Algumas vezes como qualquer um sofre, claro. Mas, outras, simplesmente por sermos de “lá”, do Nordeste. Um sofrimento que pode surgir a partir do que você pensa da gente, de como você imagina a nossa história ou do que você nem se interessa em saber se é verdade, ou não.

Você pode estar por perto, esbarrar com a gente na rua, pode ser um amigo do peito ou um ilustre desconhecido. Mas, em qualquer uma dessas possibilidades, vai sempre nos enxergar como uma xilogravura, um sotaque ou uma reprodução satírica de características engraçadas, exóticas, bizarras…

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Sim. É possível que você consiga identificar qualidades em nós, mas quase sempre elas serão suprimidas pela ideia que você tem da nossa origem.

Talvez você até encontre uma forma que acredita ser mais polida para mostrar que nunca seremos como você. Mas não adianta; viemos de um mundinho como qualquer outro, porém completamente nosso e presente em cada parte do que somos.

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A sua tentativa de provar que consegue ver algo bom em nós não suprime o fato de que esse “mundinho” continua sendo diminutivo pra você.

Por isso, no dia em que comemoramos mais uma vez o fato de sermos NÓS, deixamos o recado: Se oriente! Elogio não anula preconceito.

 ORGULHO DE SER NORDESTINO!

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FONTE – http://nordeste304.blogspot.com.br/

PROFESSOR DE HISTÓRIA TEM MUSEU DO NORDESTE DENTRO DE CASA, NA PARAÍBA

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Professor transformou a própria casa em um museu regional do Nordeste (Foto: Artur Lira / G1)

Adonhiran Ribeiro adota conceito de ‘museu casa’ e faz resgate cultural.
Local tem peças de até 200 anos usadas no semiárido paraibano.

Um professor do curso de história da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), em Campina Grande, transformou a própria residência em um “Museu Vivo do Nordeste”. Adotando um conceito de “museu casa”, ele faz a recomposição de moradias e ambientes típicos do semiárido nordestino. As peças expostas têm de 50 a 200 anos. O local existe há quase 10 anos, no bairro Bodocongó, na zona oeste da cidade. Para visitar o museu é necessário fazer agendamento, mas a entrada é gratuita.

O professor Adonhiran Ribeiro dos Santos explica que o museu surgiu por meio de um projeto de extensão da UEPB. No local é possível encontrar móveis, armas, medicamentos, acessórios, ferramentes, instrumentos musicais e até um fogão a lenha que ainda é usado por ele, além de outros objetos e utensílios. Ao todo, são cerca de 600 peças. A viagem no tempo começa logo na entrada, onde o visitante precisa balançar um chocalho bovino que serve como campainha.

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Museu conta com peças de 50 anos até 200 anos de fabricação artesanal (Foto: Artur Lira / G1)

“Quem entra no museu tem a sensação de estar num lugar verdadeiro daquela época, típico do Nordeste. Uma das vantagens desse conceito de museu é que as peças ficam expostas e o visitante pode pegar e até usar a maior parte delas, diferente de outros museus onde as peças ficam protegidas por vidros e alarmes”, disse o professor.

Com agendamentos para visitas, o museu conta com apresentações de trios de forró pé-de-serra, emboladores de coco e outras atrações artistas da cultura regional.

No museu casa, o professor Adonhiram mora com a esposa e a filha mais nova. Neste mesmo local ele criou outros dois filhos, que atualmente são casados e moram em outras casas. Apesar da transformação na residência e necessidade do cuidado com as peças, a família do professor gosta da ideia.

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Prensa artesanal era usada em produção no Brejo paraibano, diz historiador (Foto: Artur Lira / G1)

“No início, minha esposa ficou um pouco chateada. São muitas peças pela casa, mas, todos já se acostumaram”, disse.

A maior parte das peças que o museu conta foram adquiridas pelo próprio professor, outra parte foi doada por outros professores e alunos da UEPB, por meio de um projeto de extensão, e uma pequena parte foram de peças encontradas perdidas.

“Sempre que eu viajo para o interior, eu tenho o cuidado de passar com calma pelas estradas vicinais. Vez ou outra encontro peças jogadas em cantos de cercas, ou terrenos abandonados. Muitas vezes os antigos donos jogam, sem saberem o valor histórico que aquela peça tem”, explicou ele.

Pilão de 200 anos

Uma das peças mais antigas que museu tem é um pilão com cerca de 200 anos. O professor explica que ele foi usado por famílias da cidade de Gurjão, no Cariri, para amassar grãos. A peça foi encontrada em 2006. “Outro pilão bastante raro que eu encontrei foi o ‘pilão deitado’. Essa peça estava jogada do lado de uma árvore sendo usada como banco para as pessoas sentarem”, lembrou Adonhiran.

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Espaço ‘Meu Cariri” tem várias plantas do semiárido nordestino (Foto: Artur Lira / G1)

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Além dos objetos, ferramentas e utensílios, o museu conta com dois ambientes composto de plantas da região.

No espaço batizado de “Meu Cariri” são encontrados mamonas, arrudas, espadas de São Jorge, comigo-ninguém-pode, mandacarú, cacto e a dama da noite, além de outras espécies trepadeiras e medicinais.

“São plantas que ainda hoje muitos moradores da zona rural cultivam em suas casas. Algumas para serem usadas em chás e medicações caseiras, como também por conta de algumas crenças, como o exemplo de plantas que eles acreditam afastar energias negativas da casa”, contou Adonhiran.

Cozinha do século 20

Outro ambiente que chama a atenção dos visitantes é a recomposição de uma cozinha típica do Nordeste brasileiro, no início do século 20. Nela existe um fogão a lenha com panelas de barro que ainda são usadas pelo professor.

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Cozinha do museu tem fogão a lenha funcioandoe panelas de barro (Foto: Artur Lira / G1)

“Geralmente, no São João, a gente acende o fogão e faz comida. Me reúno com familiares e amigos e aqui a gente revive os festejos juninos da época de nossa infância”, destacou o professor.

Ainda na cozinha, são encontradas garrafas de cachaças e outras bebidas alcoólicas antigas. Para não perder a tradição, ao passar pela cozinha do museu, não é difícil encontrar cascas de laranjas jogadas na estrutura que sustenta o telhado. “Antigamente as mulheres tinham a crença de que se jogassem a casca da laranja no teto e ela ficasse presa na madeira que sustenta o telhado, seria sinal de um bom casamento”, contou Adonhiran.

Agendamento de visitas

Para visitar o local é necessário fazer um agendamento por meio do telefone (83) 3333-1936. A visita pode ser feita também por grupos de estudantes. O museu fica na Rua Manoel Joaquim Ribeiro, 239, Bodocongó, em Campina Grande.