Arquivo da tag: CEARÁ

CHAPÉU DE COURO NORDESTINO – INDENTIDADE DE UMA REGIÃO

DSC_4533
AS FOTOS QUE ILUSTRAM ESTE TEXTO SÃO DE ORGULHOSOS NORDESTINOS QUE CONHECI EM VÁRIOS LOCAIS DA NOSSA REGIÃO, JUNTO COM OUTROS AMIGOS, NOS ÚLTIMOS SEIS ANOS. SÃO PESSOAS QUE NÃO SE ENVERGONHAM DE USAR O CHAPÉU DE COURO – Fazenda Colônia – Carnaíba – Pernambuco – Foto – Solón Almeida Netto – 2008.

Autor – Rostand Medeiros

Este é um artefato que funciona como verdadeiro distintivo do Nordeste e do nordestino. Creio que talvez não existe um material com um aspecto tão forte em termos de identidade, tão representativo do nosso sertão do que o belo e tradicional chapéu de couro.

Um Material Com Fins Práticos 

A pecuária, a criação de gado no interior da atual Região do Nordeste do Brasil foi o primeiro grande fator de geração de renda e permanência do homem nesta região árida. Da atividade de criar o gado se obtinha a carne para alimentação, o leite e em seguida o couro, que era utilizado de diversas maneiras nas propriedades rurais. Em algumas fazendas se desenvolveram rústicos curtumes, que serviram para transformar o couro em mais um meio de geração de renda. Certamente foi nestes locais que se iniciou a tradição da manufatura dos chapéus de couro.

Este tradicional artefato nordestino inicialmente serviu basicamente para fins práticos, principalmente como parte da indumentária de proteção dos vaqueiros.

DSC_0650
Jeremoabo – Bahia – Foto – Rostand Medeiros – 2012

Além de primariamente servirem para proteger a cabeça dos sertanejos do inclemente sol e das chuvas temporárias, igualmente era utilizado para proteger seus usuários das ervas espinhosas da vegetação de caatinga, juntamente com o gibão e a perneira.

Mas apesar da designação comum, os chapéus de couro não possuíam um formato único. Variavam imensamente conforme a localidade do vaqueiro, servindo até mesmo como um identificador de sua proveniência.

Muitos acreditam que o tradicional chapéu de couro nordestino foi criado pelos cangaceiros. Mas isso não é verdade!

A (197)
Distrito de Nazaré, município de Floresta – Pernambuco – Foto – Rostand Medeiros – 2016

Entretanto devemos a estes bandoleiros das caatingas a transformação deste material em uma peça característica extremamente marcante na história deste movimento. Os cangaceiros faziam questão de colocar várias moedas (talvez para mostrar o apurado dos saques?), santinhos, cruzes, estrelas e outros símbolos, criando peças únicas em termos de estética e simbologia.

Fabricação Nada Fácil

Fabricar os tradicionais chapéus de couro nordestinos não é nada fácil. Primeiramente o couro do animal é levado para o curtimento vegetal. Lá ele é tratado, onde pode permanecer cru, com ou sem pelo, ser tingido, ou não.

DSCF7011
Barro – Ceará – Foto – Rostand Medeiros – 2015

Na segunda parte do processo o couro é cortado, dependendo das medidas determinadas, sendo tudo geralmente produzido à mão por jovens artesões.
Depois do corte o couro é molhado para ficar mais elástico e assim ser colocado em moldes. É lá que eles ganham forma e vão para a secagem. Esse processo depende da temperatura ambiente e pode durar de duas horas ou mais. Como chove pouco no sertão nordestino, isso não é um grande problema.

IMG_20141114_161713121
Serra Talhada – Pernambuco – Foto – Rostand Medeiros – 2014

Em seguida o chapéu ganha a aba que vai proteger o rosto do vaqueiro. As oficinas fazem o tamanho das abas de acordo com o gosto do comprador, mas na Paraíba elas se caracterizam por serem curtas, já em algumas regiões da Bahia ela costuma ser maior.
A última etapa é a costura. Primeiro o material vai para a máquina de costura reta receber o acabamento. Mas os desenhos e aplicações ficam por conta da máquina manual, que apesar de ser mais trabalhosa é quem vai dar riqueza de detalhes ao chapéu de couro.

Todo esse trabalho, realizado por abnegados artesões, no meu entendimento o que mais valoriza este rico material.

Identidade Cultural

No meu entendimento foi a partir do sucesso de Luís Gonzaga no Sudeste, que utilizava vários modelos de chapéu de couro em suas apresentações, como marca de sua origem nordestina, estes acessórios passaram gradativamente a ser utilizado como símbolo da vida sertaneja e do homem nordestino. Alem do Velho Lua, estas verdadeiras coroas nordestinas foram, e ainda são, utilizadas por gente do nível de Dominguinhos, Santana e tantos outros verdadeiros cantadores nordestinos.

DSCF7176
Vaqueiro depois de retornar da caatinga – Barro – Ceará – Foto – Rostand Medeiros – 2015

Entretanto, artistas que atualmente se dizem “forrozeiros”, que infelizmente são oriundos do próprio Nordeste, não utilizam mais em suas apresentações estes artefatos característicos.

Que eles não queiram usar estes símbolos nos grandes palcos é problema deles. Até aí tudo bem, gosto não se discute!

Mas o que se lamenta aqui é esse pessoal, travestidos de “modernos”, menosprezarem não apenas o velho e autêntico chapéu de couro, mas toda uma secular e tradicional cultura criada na região.

DSCF1157 - Copia
Fazenda Barreiras, região da Serra Grande – Serra Talhada – Pernambuco – Foto – Rostand Medeiros – 2013

No meu entendimento o pior é que estes “artistas”, junto com a sua perniciosa e maciça “indústria cultural”, tentam de todas as formas mostrar a cultura tradicional nordestina como algo decadente, ultrapassada, sem serventia e em desuso. Estes seguem propagando músicas de extremo mau gosto, baixo nível e cantadas por gente que no máximo deveria utilizar suas vozes para vender jerimum na feira (com todo respeito aos feirantes).

A coisa é tão forte e o jogo é tão sujo que cheguei a ponto de perceber que aqueles que decidem utilizar um chapéu de couro em algumas regiões do próprio sertão nordestino são vistos de forma jocosa e com um olhar que fica entre o espanto e o mais completo escárnio. Interessante que há tempos atrás eu percebia isso apenas nas capitais.

Apesar desta questão, o bom e velho chapéu de couro está firme e forte na cabeça daqueles nordestinos que valorizam a cultura tradicional de sua terra. Até mesmo como símbolo de resistência cultural.

A (559)
Loja em Caruaru – Pernambuco – – Foto – Rostand Medeiros – 2016

E a melhor notícia é que a produção destes belos artefatos está tendo continuidade.

Resistência e Continuidade

Certamente que a maioria destes “artistas” não possuem capacidade mental de perceberem a beleza da arte que está por trás das tradicionais vestimentas e acessórios dos nossos vaqueiros. Verdadeiras obras de arte produzidas com maestria, por quem abraça um artesanato digno de exportação.

DSCF7015
Barro – Ceará – Foto – Rostand Medeiros – 2015

Não posso negar que em toda a região não são muitos os artesões envolvidos no processo de fabrico do tradicional chapéu de couro. Mas, para a sorte dos que valorizam a autêntica cultura nordestina, temos verdadeiros Mestres produzindo e ensinando a sua arte aos seus filhos e netos pelo Nordeste afora.

Este é o caso dos descendentes de Antônia Maria de Jesus, a conhecida “Totonha Marçal”, que continuam a manter a tradição no trabalho com chapéus de couro no Distrito da Ribeira, no município de Cabaceiras, Paraíba. Inclusive este município do Cariri Paraibano, situado a 180 Km de João Pessoa, capital da Paraíba, é atualmente o maior produtor de chapéus de couro do Brasil.

13342933_10153623031416935_7682445868292812101_n
Fino trabalho de Mestre Aprígio, de Ouricuri, Pernambuco, fotografado na Loja do Vaqueiro, em Caruaru – PE – Foto – Sérgio Azol – 2016.

Temos em Salgueiro, Pernambuco, mais precisamente na Fazenda Cacimbinhas (a 14 quilômetros do centro da cidade), o exemplo de uma família que há um século perpetua o ofício de transformar pedaços de couro em peças artesanais que conquistaram personalidades do mundo artístico e da política brasileira. Tudo começou em 1909 com Mestre Luiz, depois passou o oficio para seu filho, o conhecido Zé do Mestre. Este chegou a fabricar vestimentas (só gibões) para o amigo Luiz Gonzaga, o ex-presidente Médici, o rei Juan Carlos da Espanha e até para o Papa João Paulo II, em sua última visita ao Brasil. Atualmente a arte está preservada e nas mãos de seu filho Irineu Batista, mais conhecido como Irineu do Mestre.

Já em Ouricuri, também em Pernambuco, temos o Mestre Aprígio e o seu filho Romildo, que trabalham juntos mantendo a tradição. Mestre Aprígio tem orgulho em exibir pelas paredes de sua oficina, que outro denominam acertadamente de ateliê, as fotos que contam a história do artesão que começou a trabalhar aos 24 anos de idade. Já são mais de 50 anos de profissão e criatividade produzindo chapéus de couro, gibões e bolsas personalizados.

XImagem 001 (304)
Governador Diz Sept Rosado – RN – Foto – Rostand Medeiros – 2010

Evidentemente que não posso esquecer de Espedito Velozo de Carvalho, o Mestre Espedito Seleiro, de Nova Olinda, no Ceará. Ele tinha oito anos de idade quando começou a ajudar o pai em sua oficina. As histórias que ouvia quando criança eram célebres: foi o pai quem criou as sandálias do cangaceiro Lampião. Com o passar dos anos Mestre Espedito só cresceu na qualidade do seu trabalho, chamando a atenção de estilistas do Sudeste do país e foi ele que assinou as peças que o ator Marcos Palmeira usou no filme “O Homem que Desafiou o Diabo”, de 2007.

Eu acho muito bonito quem, mesmo que se abra para outras culturas, tem orgulho de sua terra e de sua identidade cultural. Para mim, junto com a bondade ao próximo e a humildade, é o tipo de situação que torna um outro ser humano verdadeiramente digno de respeito.

DSCF1080
Renovação, Fazenda Barreiras – Serra Talhada – Pernambuco – Foto – Rostand Medeiros – 2014

Sendo assim, não posso negar que fico muito feliz quando vejo alguém utilizar o bom e velho chapéu de couro nordestino. Quando eu encontro uma pessoa utilizando este tipo de material, penso que a cultura da minha terra ainda resiste em meio a um mar de muita mediocridade.

Eu também tenho os meus chapéus de couro (3) e tenho muito orgulho de utilizá-los, pois tenho a sorte de ser nordestino e amar minha região.

 
FONTES………………………………………………………………………………………………. 

INTERNET

http://sg10.com.br/noticia/colunasespeciais/2014/9/artesao-salgueirense-mantem-tradicao-secular.html

http://tecendotexto.blogspot.com.br/2010/07/chapeu-de-couro-o-capacete-do-vaqueiro.html

http://ribeiradoriotaperoa.blogspot.com.br/2012/02/o-couro-ontem-e-hoje-na-ribeira.html

http://www.lilianpacce.com.br/e-mais/espedito-seleiro/

LIVROS

FREYRE, G. Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX. Recife: Artenova, 1977.

PERICÁS, L. B. Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica. São Paulo: Boitempo, 2010.

VIANNA, L. C. R. Bezerra da Silva, produto do morro: trajetória e obra de um sambista que não é santo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

500 ANOS DA CACHAÇA NO BRASIL

cachaca (1)
Fonte – http://revistasaboresdosul.com.br/quem-descobriu-a-cachaca/

A cachaça é testemunha das transformações sociais e econômicas por que o Brasil passou

Ela praticamente nasceu junto com o Brasil e tornou-se a mais nacional das bebidas. Em cinco séculos de História, serviu como combustível para os bandeirantes suportarem as longas e insalubres viagens aos sertões, foi utilizada como moeda de troca de escravos na África, desencadeou revoltas contra a Coroa portuguesa e tornou-se símbolo de nacionalidade em momentos políticos e culturais importantes, como a Independência do país e a Semana de Arte Moderna de 1922. Sim, estamos falando da cachaça, que completa 500 anos este ano.

Os documentos são esparsos, mas, de acordo com os especialistas, os primeiros goles da branquinha foram dados a partir de 1516 em algum engenho construído na feitoria de Itamaracá, em Pernambuco. A cana-de-açúcar já tinha chegado ao país alguns anos antes, em 1504, pelo fidalgo português Fernando de Noronha, que recebeu a concessão da ilha, batizada posteriormente com o seu nome, para a exploração do pau-brasil.

foto_fazenda
Um antigo engenho no Nordeste do Brasil – Fonte – http://www.aguadoce.com.br

“A cachaça foi uma das protagonistas da civilização do açúcar, que marcou um dos mais importantes períodos do desenvolvimento econômico do Brasil Colônia, principalmente no tempo das capitanias hereditárias. Pode-se dizer que, historicamente, a cachaça foi testemunha ocular das transformações econômicas vivenciadas pelo Brasil”, diz o engenheiro Jairo Martins Costa, especialista no assunto e autor do livro Cachaça – O Mais Brasileiro dos Prazeres. Segundo ele, a cultura do açúcar, e por consequência da cachaça, começou bem antes da expedição do colonizador Martim Afonso de Souza no litoral paulista, em 1532.

Além de pesquisas arqueológicas conduzidas por universidades na Bahia e Pernambuco em antigos engenhos de açúcar, um documento da alfândega de Lisboa aponta o pagamento de imposto sobre um carregamento de açúcar, vindo de Pernambuco, datado de 1526. “É a prova de que a produção começou muito antes de São Vicente.

cachaca
Escravos moviam as moendas que produziam o caldo que, fermentado, gerava a cachaça, um dos principais produtos de exportação do Brasil colonial. – Fonte – www2.uol.com.br

O que aconteceu a partir de 1532 foi a forte expansão da civilização do açúcar”, diz Costa, lembrando uma frase do folclorista Câmara Cascudo no seu livro Prelúdio da Cachaça: “onde mói o engenho, destila o alambique”.

CACHAZA

Alguns mitos se esvaem ao estudar a história da branquinha. Um deles é que a bebida teria sido descoberta por acaso por escravos durante o processo de fermentação da canade-açúcar. A evaporação do caldo teria condensado ao bater no teto do engenho e daí teria nascido o nome “pinga”.

Segundo os estudiosos, não foi bem assim. As primeiras produções foram planejadas pelos colonizadores. Uma evidência é que o nome mais aceito para cachaça vem do espanhol “cachaza”, uma bagaceira de baixa qualidade produzida pelos ibéricos a partir das borras de uva. “Os europeus já dominavam as técnicas de destilação havia muito tempo, produzindo bebidas como a bagaceira. Como não tinham uvas aqui, improvisaram uma bebida com o resíduo da cana”, explica Silva.

curiosidades-historia-cachaca-middas-cachaca
Fonte – http://www.middascachaca.com.br/news/curiosidades-historia-cachaca.html

A bagaceira, junto com o vinho português, foi um dos motivos para uma rebelião de produtores de cachaça ocorrida no Rio de Janeiro no século 17. Com a Popularização da bebida, em 1635 a Coroa baixou uma lei proibindo o comércio de aguardente, para não concorrer com a bagaceira e o vinho portugueses. A lei não pegou muito e a pinga continuou sendo produzida em larga escala, inclusive para o mercado externo. Em Angola, que também era uma colônia portuguesa, chegou a ser utilizada durante muito tempo como moeda de troca pelos traficantes de escravos. 

Em 1647 foi criada a Companhia Geral de Comércio, uma empresa portuguesa que passou a ter o monopólio da venda de diversos produtos nas colônias, inclusive asbebidas alcoólicas. Por aqui, porém, a cachaça continuava fazendo enorme sucesso, mesmo sendo vendida clandestinamente. Os fazendeiros, longe de agir por debaixo dos panos, não escondiam sua atividade e eram, inclusive, respeitados na sociedade em quer viviam.

REVOLTA E PAZ

A relativa paz durou até 1659, quando o governo português fechou novamente o cerco, dessa vez com repressão e destruição de alambiques. No ano seguinte, vereadores do Rio de Janeiro propuseram liberar a bebida.

curiosidades-historia-cachaca-middas-cachaca-2
Fonte – http://www.middascachaca.com.br

Diante da recusa, alambiqueiros lideraram uma rebelião – que ficaria conhecida como Revolta da Cachaça – e tomaram o poder da cidade durante cinco meses. A Coroa conseguiu acabar com a rebelião e retomar o poder no Rio de Janeiro, mas os revoltosos conseguiram uma importante vitória: em 1661, a rainha de Portugal, a regente Luísa de Gusmão, autorizou a produção e o comércio da aguardente no Brasil, mediante o pagamento de impostos. Nessa época, o açúcar brasileiro começava a sofrer forte concorrência com o produzido pelos holandeses nas Antilhas, de qualidade superior.

Além do açúcar, a cana levada pelos holandeses após sua expulsão do Brasil, em 1654, deu origem a uma bebida que é considerada “filha” da cachaça: o rum.

Depois da liberação pela rainha, surgiram várias regiões produtoras de aguardente, de norte a sul do Brasil. A cidade de Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro e um dos principais portos do Brasil Colônia, chegou a concentrar mais de cem alambiques a partir de 1700. Parte da produção seguia para Minas Gerais pela Estrada Real, durante o Ciclo do Ouro. Outra parte era escoada para o resto do Brasil e outros países da Europa e África.

04
Fonte – http://velhobarreirodiamond.com.br/mobile/historia

“Se você falar da história de Paraty, vai ter de citar a cachaça. E se falar da história da cachaça, vai ter de citar Paraty”, diz Lúcio Gama Freire, 43 anos, presidente da Associação dos Produtores e Amigos da Cachaça de Paraty. A bebida da região era tão famosa que, durante muito tempo, era comum as pessoas pedirem uma “parati” quando queriam um simples copo de aguardente, tanto na Colônia como na Corte.

UFANISMO

“Com o aprimoramento da produção a partir do século 17, aumentou o número de consumidores, e a cachaça passou a ter importância econômica. O ápice do prestígio ocorreu no século 19, quando se transformou em símbolo de brasilidade”, diz o empresário Leandro Dias, CEO da Middas Cachaça, marca que atende o segmento de luxo.

“Deixar de bebê-la era considerado atitude antipatriótica, pois o Brasil vivia o período das lutas da Independência”, completa Leandro. Um brinde com a caninha passou a ser sinônimo de nacionalismo. Diz-se que dom Pedro I teria brindado a Independência do Brasil com um cálice de cachaça artesanal.

Main
Fonte – http://www.bestday.com.br/Editorial/Cachaca-Patrimonio-Cultural/

Um século depois, em 1922, jovens intelectuais repetiriam o gesto na Semana da Arte Moderna, em São Paulo. Os modernistas consideravam a bebida um símbolo líquido do país. O casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral gostava de divulgar a culinária brasileira e a cachaça em Paris. Levavam a bebida em frascos de perfume na mala para não haver problemas ao entrarem na França. Nas reuniões oferecidas a amigos parisienses, costumavam servir caipirinha e feijoada.

BEBIDA FINA

Após vencer o estigma de “bebida barata servida em balcão de botequim”, a cachaça voltou às altas rodas nas últimas décadas, em especial por causa da produção de cachaças artesanais. Além das de Paraty, ganharam fama as bebidas produzidas em estados como Pernambuco, Ceará e, principalmente, Minas Gerais. Nas montanhas de Minas, a cachaça ganhou status principalmente pelas cachaças produzidas em cidades como Januária e Salinas, no norte do Estado.

capa-post-blog
Os rótulos das garrafas de cachaça são um caso à parte no design brasileiro e, principalmente, para a história do país, que contavam a personalidade da bebida e o cotidiano da época – Fonte – http://kiwipropaganda.com/blog/2013/01/21/rotulos-de-cachaca-e-a-historia-do-brasil/

Salinas, que até hoje abriga várias destilarias de qualidade, é terra natal de um dos grandes personagens da história da cachaça brasileira, Anísio Santiago. Produtor da cachaça mais famosa do país, a Havana, Anísio era um tipo excêntrico que raramente saía de sua fazenda. Até morrer, em 2002, costumava pagar seus empregados e outras despesas com garrafas de sua preciosidade, disputadas por apreciadores e colecionadores da bebida. Os descendentes de Anísio, morto em 2002, assim como outros produtores em todo o Brasil, continuam a produzir e escrever a história da bebida brasileira que, como registrou o historiador Gilberto Freyre, “vem dos mais velhos dias do Brasil”.

LIVROS

Cachaça – O Mais Brasileiro dos Prazeres, Jairo Martins da Silva, Editora Anhembi-Morumbi, R$ 59

Prelúdio da Cachaça, Luis da Câmara Cascudo, Global Editora, R$ 42

AUTOR – Marcus Lopes

FONTE – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/terra-brasilis/500-anos-da-cachaca-no-brasil.phtml#.V2WbLvqZH3M

O WOODSTOCK NORDESTINO

Cartaz Feira N Jerusalém
Cartaz do evento

Texto – Rostand Medeiros

Em uma quinta-feira comum na capital pernambucana, mais precisamente no dia 9 de novembro de 1972, o tradicionalíssimo Diário de Pernambuco publicava no Segundo Caderno, na quinta página, uma pequena nota que em muitos aspectos era diferenciada e um tanto inusitada.

Explicava que no sábado, dia 11 de novembro, aconteceria no palco de Nova Jerusalém, no distrito de Fazenda Nova, município de Brejo da Madre de Deus, a 200 quilômetros de Recife, o evento denominado “Feira Experimental de Música”.

Carneirinho Nova Jerusalém2
Grupo Nuvem 33 entre as colunas do palco de Nova Jerusalém em 11 de novembro de 1972 – Fonte – http://cabelosdesansao.blogspot.com.br/2008/09/um-cearense-na-lira-paulistana_10.html

Segundo os organizadores a ideia tinha o objetivo de mostrar o trabalho de vários conjuntos musicais fora do âmbito comercial que despontavam em Recife e outras cidades do Nordeste. O horário seria “do pôr, ao nascer do sol”, com entrada gratuita, participação de vários artistas, sem premiação, nem jurados e com o pensamento de “ouvir o som do cara que toca berimbau no Mercado de São José e também o som de Laílson, com uma guitarra que tem tanto botão que parece uma central elétrica”.

E como foi esta intensa noite no agreste pernambucano!!!

Tempos Nebulosos

Os primeiros anos da década de 1970 no Brasil foram momentos bem complicados.

Golpe 1964
Golpe de Militar em 1964, 30/04/1964. Tropas do Exercito saem as ruas e tomam o Palácio do Campo das Princesas em ação rápida. Credito: Reprodução / Petrônio Lins/Arquivo/DP.

Havia a Ditadura Militar, que apertava o garrote contra a sociedade brasileira de várias maneiras e uma forte repressão. Na área artística eram censurados filmes, peças teatrais, músicas e discos.

Na provinciana e caliente Recife, então a terceira maior metrópole do país, o momento conturbado foi sentido de muitas maneiras. Logo após a deflagração do Golpe Militar, em 31 de março de 1964, a capital pernambucana foi um dos lugares que mais sofreu atrocidades dos golpistas, tendo civis agredidos e mortos em passeatas que protestavam a favor da democracia. Tempos depois, em 25 de julho de 1966, opositores da ditadura explodiram uma bomba no saguão do Aeroporto Internacional do Recife.

No início da década de 1970 a barra estava pesadíssima. Até mesmo um núcleo do famigerado Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, o conhecido DOI-CODI, local de tortura aos opositores do Regime Militar, foi instalado na cidade e ficava localizado ao lado do antigo quartel do 4º Exército.

ph_fot_5609_9
Fonte – cpdoc.fgv.br

A capital pernambucana vivia um momento pesado, nebuloso, cinzento. Mas por outro lado, chegavam do exterior as luzes de uma nova cultura.

Nos anos 1960 muitos jovens passaram a contestar, a nível mundial, a sociedade e a pôr em causa os valores tradicionais e o poder econômico. Seguindo esses movimentos de contestação, muita gente buscou várias alternativas a uma sociedade repressora e “careta”. Descontentes com a sociedade de consumo jovens começaram a formar grupos pelo mundo afora, desenvolvendo interessantes comunidades alternativas, celebradas por variados músicos e artistas, em meio a uma intensa explosão criativa.

Woodstock-poster-sml
Poster oficial do festival.

 

A celebração popular mais significativa daqueles dias sem dúvida aconteceu em 1969, com o grande encontro de três dias de música, paz e amor no Festival de Woodstock, no Estado de Nova York.

Em terras tupiniquins, em meio ao clima cinzento e pesado, a interessante experiência de viver em comunidades afastou muitos jovens dos diplomas universitários, dos planos familiares de um “futuro garantido” e da ideia de uma profissão tradicional e segura. Entretanto, foi entre os músicos que o ideal de levar uma vida longe da pressão do sistema vigente nas grandes cidades prosperou com mais sucesso.

page-98
Recife na década de 1970.

No Recife, o mesmo espírito mobilizou vários músicos e algum tempo depois aconteceria um evento que seria definido pelo jornalista Celso Marconi como “Uma espécie de Woodstock cabra da peste”.

Figuras Especiais

Muitos dos jovens músicos que tocavam nas grandes cidades brasileiras durante a década de 1960 geralmente se apresentavam com suas bandas em bailes, onde tanto tocavam covers de grupos estrangeiros, como os sucessos populares que eram executados nas rádios. Mas em meio a toda inquietação política, a crescente efervescência cultural, influências musicais do exterior, muitos destes jovens desejavam apresentar um material próprio e diferenciado.

Em Recife esta situação é amplificada pela existência de uma congregação de músicos com extremo talento, que estavam dispersos e buscavam ampliar os horizontes musicais.

2e69fd9831be701c2fe13e44770e8d08659
Laílson Cavalcanti, ilustrador, cartunista, músico e pesquisador – Fonte – http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Lailson&ltr=l&id_perso=278

Um deles era Laílson de Holanda Cavalcanti. Membro de uma família considerada abastada de Recife fez intercâmbio nos Estados Unidos, mais precisamente em Arkansas. Musicalmente ativo nos “States”, Laílson chegou a montar por lá uma banda onde tocavam músicas do guitarrista Jimi Hendrix e do grupo Creedence Clearwater Revival. Voltou a Pernambuco com mil ideias na cabeça.

Outro destes jovens era Luiz Augusto Martins Côrtes, mais conhecido como Lula Côrtes. Filho de militar, nascido na Base Aérea de Recife, havia morado no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, mas voltou à cidade natal ainda adolescente. Consta que, em razão do trabalho do pai, conseguiu uma maior aproximação com estrangeiros e informações privilegiadas sobre os acontecimentos musicais de fora – gostava de Rolling Stones e Bob Dylan, e ficou sabendo de Jimi Hendrix bem antes de seus conterrâneos. Mesmo sendo oriundo de uma família abastada, resolveu largar tudo quando ainda era moleque, deixou o cabelo crescer e foi morar na rua. Era um hiperativo que dividia seu tempo entre o desenho e o seu inseparável (e legendário) tricórdio.

Lula Cortes
Lula Côrtes e seu tricórdio.

Outra figura importante deste contexto foi Marco Polo Guimarães, um ex-acadêmico de Direito e poeta. Com 16 anos atreveu-se a mostrar seus poemas a Ariano Suassuna e a Cesar Leal. Foi aprovado pelos dois e lançou seu primeiro livro em 1966. Dois anos depois começou no jornalismo e depois seguiu de carona para o Rio de Janeiro e na sequência São Paulo. “Na cidade que nunca dorme” Marco Polo conheceu o conterrâneo Fernando Portela, um dos editores do Jornal da Tarde, o JT, e conseguiu trabalho. Mas acabou voltando para a capital fluminense, onde vivia de trabalhos freelance para a editora Bloch. Logo virou hippie, trabalhando como artesão na desbundada Praça General Osório, em Ipanema. Consta que nessa temporada no sul maravilha, Marco Polo escreveu e compôs muito. Quando retornou a Recife, no final de setembro de 1972, encontrou uma cena musical efervescente, cheia de gente criativa e talentosa, prontos para despejar energia em suas composições.

2bdbc67ab7402b24b3dc3f072a51e79b272
Marco Polo, jornalista, poeta, escritor e compositor – Fonte – http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?id_perso=1051&ltr=m&titulo=Marco+Polo+Guimar%C3%A3es

Uma banda da época, Os Selvagens, era formada por jovens de classe média baixa – entre eles, o magricela estudante de engenharia Almir de Oliveira, o percussionista Agrício Noya e o talentoso guitarrista Ivson Wanderley, o Ivinho, além de Bira e Rafles. Anos antes, Almir já havia sido apresentado a Marco Polo por Rafles, amigo que era “tipo um imã, agregava todos ao redor dele”, como lembra o jornalista. O mesmo Rafles que, por volta de 1968, era considerado o “pirado” de plantão do Recife. Entre suas maluquices nunca esquecidas está a de enviar, pelo correio, um reforçado baseado, em legítimo papel Colomy, para Paul McCartney. Meses depois, ele recebeu a resposta do Beatle: uma foto autografada como agradecimento.

A aproximação foi inevitável e logo foi criada uma banda, ainda sem nome e cuja estreia ainda não tinha data marcada.

Mas logo esse dia iria chegar.

Os Cabeludos em Nova Jerusalém 

Enquanto isso, no início do mês de novembro de 1972, no teatro ao ar livre de Nova Jerusalém, o “sonho de pedra” idealizado pelo gaúcho Plínio Pacheco, estava sendo preparada a encenação da peça Calígula, do francês Albert Camus. Dirigida pelo teatrólogo e ator José Pimentel, tendo como atores os mesmos que realizavam a já famosa encenação da “Paixão de Cristo”.

2
Encenação da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém na década de 1970.

A apresentação aconteceu no sábado, 4 de novembro, foi um sucesso, com público estimado em três mil pessoas e contou até com a presença do cônsul francês no Recife, o Monsieur Jacques Boizet, que declarou que a peça realizada por aqueles atores brasileiros do agreste nordestino “superava as montagens francesas que ele havia assistido”.

Bem, depois de uma apresentação como essa, tão bem comentada pela imprensa recifense da época, era de se esperar outras atrações no mesmo estilo. Entretanto a Sociedade Teatral de Morada Nova, responsável pelo grande teatro ao ar livre, cedeu Nova Jerusalém para a realização de um festival de música ao ar livre, que seria igualmente produzido pelos diretórios acadêmicos dos cursos de medicina, geologia, arquitetura e engenharia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

1 (3)

Eu não descobri como rolou a negociação e nem como se desenvolveu a parceria entre os responsáveis por Nova Jerusalém e a galera do DCE. Mas sei que para a coordenação do festival foi convidado Laílson Cavalcanti, então com apenas 19 anos de idade.

Evento teria dois dias de música, com entrada franca, onde a produção tinha o intuito terminantemente categórico da abertura de um espaço para o pessoal que fazia música alternativa, fora do circuito comercial. Estava aberto tanto para a rapaziada de Recife, como músicos de outras cidades do Nordeste.

O evento foi oficialmente intitulado “I Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém” e tinha como lema “Abrir os portões do teatro e as portas da percepção”.

Os artistas convidados, em sua grande maioria, tinham a ideia de produzir uma música aberta às referências do rock estrangeiro e das especificidades das músicas produzidas no Brasil. Laílson Cavalcanti comentou anos depois “Era a música pela música, a expressão criativa pelo prazer de criar e apresentar uma proposta original”.

Flaviolira
Flávio Lira, o Flaviola, uma das atrações.

O “Woodstock nordestino” iria começar na noite de 11 de novembro de 1972.

Woodstock Cabra da Peste

Dentre os sites na internet, livros, trabalhos acadêmicos e outras fontes que comentam sobre este evento, consta que na Feira Experimental de Música participaram o próprio Laílson, Lula Côrtes, Marconi Notaro, Marco Polo e seus companheiros, Flávio Lira (cujo nome artístico era Flaviola) e o grupo Nuvem 33, onde um dos seus membros era Otávio Teremim e outro era o cearense Tiago Araripe. Araripe possuía uma forte vivência sertaneja, tinha morado até 1968 no Crato, Ceará e trazia sua experiência musical para a feira. Foram convidados pessoas como Jorge Mautner e Hermeto Pascoal (que não vieram). Da Paraíba foi convidada a cantora Katia de França.

1 (1)

No Diário de Pernambuco (10/11/1972, pág. 7, Segundo Caderno), a organização do festival prometia que a música apresentada seria ouvida por “34 caixas de som, 10 amplificadores delta e transmitida por 16 microfones”.

No site http://cristianojeronimo.blogspot.com.br/A encontramos como foi a aventura de Marco Polo, Almir de Oliveira, Agrício Noya, Ivson Wanderley para tocar na feira –

A turma foi à Nova Jerusalém de ônibus, na sexta, dia anterior ao festival, para ajudar nos preparativos. Passaram a noite toda trabalhando e fazendo farra – quando amanheceu, estavam todos cansadíssimos, não haviam dormido. O único que tinha conseguido pegar no sono era Ivinho – que, na manhã de sábado, acordou com um dos olhos vermelho-sangue, por causa de um inoportuno derrame na vista. O show de estreia da recém-formada banda estava marcado para as 3h da madrugada. Almir de Oliveira mal se aguentava de sono e pediu que Laílson, o organizador, mudasse o horário para meia-noite. O pedido foi negado. “Eu sei que, quando deu uma, duas horas da manhã, eu arriei, fui dormir. E aí, quando deu três horas, acordei com Laílson e Ivinho me chamando”, lembra o baixista. A banda subiu ao palco com ele bêbado de sono e Ivinho tocando de costas para a plateia, de óculos escuros, por causa dos olhos sensibilizados.
Apesar do sufoco, foi ali que o grupo ganhou forma e nome: Tamarineira Village. Tamarineira era o nome de um hospício famoso na época em Recife, e o Village (que é pronunciado “Világe”) fazia referência à vila de comerciários da cidade, de onde vinham a maioria dos integrantes
”.

Sobre o show Marco Polo comentou que a banda fazia uma fusão da música tradicional do Nordeste com o rock. “Era uma coisa chocante na época ter uma banda influenciada por Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Beatles, Rolling Stones e Led Zeppelin”, comentou o músico e jornalista.

Já o Diário de Pernambuco (13/11/1972, pág. 5, Segundo Caderno) enviou um repórter para cobrir o evento e esta foi a sua visão.

1 (5)

HIPPIES” INVADEM A NOVA JERUSALÉM E REALIZAM FESTIVAL
FAZENDA NOVA

(Do enviado especial) – As ruelas e palácios de Nova Jerusalém foram invadidos, sábado ao entardecer, por “hippies” e estudantes que, entre os sons de guitarras e a estridência “desordenada” de baterias, realizaram o primeiro festival de música de vanguarda de Pernambuco, com a denominação de I Feira Experimental de Música. O espetáculo, que começou às 17h30m do sábado terminando às 4 horas do domingo, reuniu cerca de duas mil pessoas.
A Banda de Música de Fazenda Nova e a Banda de Pífanos de Nova Jerusalém abriram a parada musical em meio a um entusiasmo sem precedentes dos jovens aglomerados ante o imponente Palácio de Pilatos. Seguiu-se a apresentação do conjunto Tamarineira Village, culminando com a exibição do Nuvem 33 e Flaviola. Os promotores do certame distribuíram questionários a fim de colher as impressões dos participantes do espetáculo, qualificado pelos observadores como “o primeiro grande passo para a completa renovação da música popular regional.

Carneirinho Nova Jerusalém
Nuvem 33 entre as colunas do palco de Nova Jerusalém em 11 de novembro de 1972 – Fonte – http://cabelosdesansao.blogspot.com.br/2008/09/um-cearense-na-lira-paulistana_10.html

E como não poderia deixar de ser em um evento com esta finalidade, em termos de “viagens astrais” o “Woodstock cabra da peste” não deixou nada a dever para o original californiano: lendas dão conta que a plateia divertia-se tomando ácido dissolvido em baldes de Q-suco. “O ácido era distribuído ao público, cerca de duas mil pessoas, dissolvido num balde com K-suco”, testemunhou depois Marco Polo numa entrevista ao jornalista pernambucano José Telles (autor de Do Frevo ao Manguebeat, Editora 34).

Uma Ilustre Espectadora

Ao realizar a pesquisa sobre aquela noite “mutcho loka” no agreste pernambucano, eu descobri que entre os presentes na plateia estava uma senhora de 66 anos de idade, educadora, escritora e membro da honorável Academia Pernambucana de Letras. Estamos falando de Maria Dulce Chacon de Albuquerque Nascimento, mais conhecida por Dulce Chacon.

dulce-chacon (1)
Maria Dulce Chacon de Albuquerque Nascimento – Fonte – http://www.fernandomachado.blog.br/novo/?p=143723

Não tenho a mínima ideia das circunstâncias que levaram àquela senhora a Nova Jerusalém naquela noite. É possível que a presença de Dona Dulce Chacon se devesse a sua própria maneira de ser, que tinha muito de revolucionária.

Nascida no Recife em 8 de janeiro de 1906, era filha, sobrinha e neta de perseguidos políticos. Conviveu com a profusão de ideias e discussões sobre política, democracia e direitos do cidadão. Foi aluna da turma inaugural da Escola Normal de Pernambuco, onde liderou nesta Instituição uma das primeiras greves de estudantes no Brasil. Escolheu a carreira de professora por opção, por reconhecer nesta atividade um campo de atuação que lhe permitia colocar em prática suas ideias de uma nova educação; mais integradora e inclusiva. Paralelamente as sua atividades de educadora escreveu livros, quase todos voltados para sua área de interesse profissional e social.

No Diário de Pernambuco (17/11/1972, pág. 4, Primeiro Caderno), em um pequeno texto intitulado “A 1º Feira Experimental do Som”, a acadêmica Dulce Chacon comentou que assistiu “Um espetáculo espichando pela noite adentro”.

1 (4)
Texto de Dulce Chacon no Diário de Pernambuco

Chamou-lhe atenção a desinibição dos rapazes e moças, todos a vontade, deitados e usando suas mochilas como travesseiros. Informou que muitos dos estudantes vinham de Recife, mas havia gente de João Pessoa, Maceió, Fortaleza e alguns da Pontifícia Universidade Católica (PUC) da Bahia, “com um conjunto de timbales”.

Para ela os grupos que se apresentaram foram dezessete, com nomes como Banda Quebra Resguardo, Bandavoou, Transa Geral, os já citados Nuvem 33 e o Tamarineira Village, que lembrou a acadêmica um grupo de hippies do Greenwich Village, de Nova York. 

Frutos

Mas certamente o melhor resultado da “I Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém” foram as parcerias surgidas entre os músicos, que gerou marcantes maravilhas para a música nordestina e brasileira e alguns dos discos mais cultuados da psicodelia brasileira.

satwa_capa
Capa de Satwa, de 1973 – Fonte – http://mimisdiscos.blogspot.com.br/2013/07/lula-cortes-e-lailson-satwa-1973.html

Interessante ressaltar que o festival aconteceu pouco tempo antes de um momento muito propício para aqueles músicos, pois pouco tempo depois – entre o final de 1973 e o início de 74 – a MPB estremeceu quando surgiram hippies-roqueiros como os Novos Baianos e os Secos e Molhados. As gravadoras do Sudeste descobriram que os jovens cabeludos e desbundados também podiam vender discos e gerar grana.

Foi neste festival que Laílson Cavalcanti conheceu Lula Côrtes e a sintonia foi total. Tanto que dois meses depois, em janeiro de 1973, eles lançavam “Satwa”, considerado um dos primeiros, se não o primeiro, LP independente do Brasil. Era uma mistura do som do Oriente com o do Ocidente, principalmente do blues. Um disco instrumental, para não ter que levar as letras à Polícia Federal.

Para ouvir “Satwa” clique aqui – https://www.youtube.com/watch?v=evmo6UC9rvo

3
Desenho de Laílson Cavalcanti, publicado no Diário de Pernambuco, tendo como tema o grupo Phetus.

Depois do lançamento deste disco, Laílson e Lula seguiram caminhos distintos. Laílson criou o Phetus, grupo mais progressivo e barroco, com o guitarrista Paulo Rafael e Zé da Flauta. “Seria o que hoje a gente chama de world music”, ele afirmou anos depois.

Já Lula Côrtes se aproximou de um jovem paraibano que conheceu no festival. Era um magricela de 23 anos, natural de Brejo do Cruz, chamado José Ramalho Neto, mas conhecido como Zé Ramalho. Em Nova Jerusalém eles foram apresentados por um amigo comum, o artista plástico Raul Córdula.

Zé Ramalho e Lula Côrtes
Zé Ramalho e Lula Côrtes

Zé estava de saco cheio de tocar em bandas de iê-iê-iê, animando bailes em de João Pessoa e Campina Grande e desejava novos voos. Isso ele conseguiu com Lula Côrtes.

A amizade, as viagens e a parceria musical entre os dois se ampliou. Foi quando Raul Córdula convocou os jovens músicos para rasgar a trilha seca que partia de Ingá do Bacamarte, a 85 quilômetros de João Pessoa, rumo a Pedra do Ingá, um misterioso monólito, ornado com representações datadas de três a seis mil anos e considerado o maior sítio arqueológico de gravuras rupestre da América Latina.

DSCF9304
Pedra de Ingá – Foro – Rostand Medeiros

Naquele lugar a “viagem” dos dois músicos foi total e intensa. Dois anos depois do festival de Nova Jerusalém eles lançavam o LP “Paêbirú-Caminho da montanha do sol”, um clássico psicodélico do pós-tropicalismo que, além de acústicos destacam-se músicas como: “Nas paredes da pedra encantada”, “Pedra templo animal” e “Trilhas de Sumé”, todas dedicadas à Pedra do Ingá.

Paêbirú é das coisas mais malucas e assombrosas que já se fez na música brasileira, mas eu me surpreenderia muito se eu tiver mais de dois leitores que a conheçam. O nome é escrito assim mesmo, com a combinação agramatical de acentos. Foi gravado na Fábrica de Discos Rozenblit, em Afogados, Recife (empresa fundamental para a história da música pernambucana) e lançado imediatamente. Mas na terrível enchente de julho daquele ano no Recife, as águas do Capibaribe invadiram a fábrica e destruíram praticamente toda a prensagem do disco, com a exceção de 300 cópias que haviam sido levadas para a casa de Lula.

Lula Cortês e Zé Ramalho - Paêbirú Caminho da Montanha do Sol-1975
Capa de Paêbirú Caminho da Montanha do Sol-1975

Dessas 300 cópias nasceu o mito, que é tão incrível que há gente que não acredita.

Basicamente este disco de vinil é o mais caro de toda discografia brasileira, onde um dos exemplares em bom estado pode alcançar cifras que giram em torno de R$ 5.000,00. Hoje é possível encontrar “Paêbirú” em CD, lançado pela Shadoks, um obscuro selo alemão. Em 2008 o selo inglês Mr. Bongo lançou este trabalho nas terras da rainha.

Para ouvir “Paêbirú” clique aqui – https://www.youtube.com/watch?v=uUyvtwSV6A8

12573810_877946672325305_5512511061387760003_n
Lula Côrtes e Alceu Valença.

Lula Côrtes continuou produzindo músicas, tocando, lançando livros de poesia, até a madrugada do dia 26 de março de 2011 quando faleceu aos 61 anos, vítima de um câncer na garganta, no Hospital Barão de Lucena, Recife.

Já Zé Ramalho se tornou um dos maiores nomes da música brasileira.

O pessoal da banda Tamarineira Village saiu de Nova Jerusalém para começar uma caminhada que paulatinamente foi alargando horizontes em Recife. Segundo o vocalista Marco Polo, durante uma dessas viagens pelo Nordeste, eles encontraram com uma cigana no sertão paraibano, que sugeriu a mudança a mudança de nome da banda para Ave Sangria, pois sua música era livre e forte.

Ave Sangria Na frente Marcopolo, Agrício Noya, Almir Oliveira, Ivinho. Atrás Paulo Rafael e Israel Semente Proibhida.
Ave Sangria com a formação após a Feiras Experimental – Na frente Marco Polo, Agrício Noya, Almir Oliveira, Ivinho. Atrás Paulo Rafael e Israel Semente Proibhida.

Logo as apresentações do grupo chamaram a atenção do público, com um formato nada convencional dos seus shows.

O grupo Ave Sangria chegou a vir ao Rio para gravar um disco, cujo destaque foi o samba de breque “Seu Waldir”. O disco foi pouco divulgado pela gravadora, mas conseguiu relativo sucesso e vendeu bem no Nordeste e no Sudeste. Mas a música “Seu Waldir” acabou considerada uma apologia ao homossexualismo, quando não passava de uma brincadeira do irreverente grupo. Reza a lenda que a mulher de um general ouviu a música, achou um absurdo, e ela foi censurada. Pouco depois disso, a banda acabou. Interromperam as atividades em uma apresentação histórica em 1974, com o show Perfumes & Baratchos, no Teatro Santa Izabel, em Recife.

ave-sangria-lp-vinil-reedico-usado-740511-MLB20551972812_012016-F
Capa do LP do Ave Sangria.

Para ouvir o LP do Ave Sangria clique aqui – https://www.youtube.com/watch?v=ddDmEKE8ADU

Um dos membros do Ave Sangria, o guitarrista Ivson Wanderley Pessoa, o Ivinho, possui o mérito de ter sido o primeiro brasileiro a se apresentar no palco do 12º Festival Internacional de Jazz de Montreux, na Suíça, em 1978. Nesta época estava sendo formado um grupo de artistas brasileiros para se apresentar em Montreux, do qual faziam parte Gilberto Gil, Pepeu Gomes e o grupo A Cor do Som. Naquele ano Ivinho estava no Rio, onde realizou apresentações que chamaram à atenção do pessoal ligado a música na Cidade Maravilhosa e acabou convidado para ir para Suíça.

13095944_934534286666543_8469776803065280774_n
Ivinho mandando ver em Montreux.

Foi para a Europa com apenas 25 anos, 50 dólares no bolso e uma viola de 12 cordas surrada. Mas ele surgiu no palco surpreendente, empunhando com galhardia seu instrumento e levando o público presente ao delírio. Com sua técnica e ‘feeling’ particular, Ivinho transformou sonoridades regionais em peças totalmente jazzísticas e psicodélicas. O show foi registrado em disco e lançado no Brasil, com excelente repercussão junto aos ouvintes de MPB e também à juventude ligada em rock and roll.

Ivinho capa

Ivinho foi considerado por muitos como um dos maiores guitarristas da história do rock brasileiro, mas nunca conseguiu o devido reconhecimento. Faleceu em junho de 2015, de hemorragia digestiva, em decorrência de uma cirrose, no Hospital Otávio de Freitas, Tejipió, Recife.

Para ouvir Ivinho ao vivo em Montreux clique aqui – https://www.youtube.com/watch?v=iIpQyphKtG4

Houve outras histórias de parcerias, de discos lançados e shows alucinantes.

Mas ficou algum legado?

Com certeza!

Creio que o maior deles tenha sido esses músicos terem influenciado muitos outros jovens ao longo dos anos. Como um certo Francisco de Assis França Caldas Brandão, um rapaz que morava em Rio Doce, um bairro do subúrbio de Olinda. Graças aos amigos, com quem trocava discos e fitas K7, além da psicodelia setentista aqui tratada, ele conheceu o hip hop, a black music e se tornou Chico Science.

chico1-1024x683
Chico Science

O interessante é que muitos dos atuais fãs daqueles que estiveram no palco da “I Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém” é formada por jovens brasileiros e também por estrangeiros. O interesse por estas músicas e seus protagonistas voltou a ganhar força nos dias atuais com a internet, que facilita a circulação da informação do que rolava naqueles loucos anos da década de 1970.


FONTES

http://www.senhorf.com.br/revista/Edicao_41_nova/web/revista/Materias_editadas_41/ivinho.htm

http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2015/06/13/internas_viver,581040/morre-ivinho-guitarrista-do-ave-sangria.shtml

http://www.lailson.com.br/music.html

http://www.lailson.com.br/Senhor%20F%20-%20A%20Revista%20do%20Rock_arquivos/lailson.htm

http://blogs.diariodepernambuco.com.br/diretodaredacao/2016/03/22/quando-a-vaia-reinou-em-nova-jerusalem/

http://super.abril.com.br/cultura/paz-amor-e-baioneta

http://extra.globo.com/tv-e-lazer/a-psicodelia-pernambucana-revivida-no-palco-12023290.html

http://blogdovavadaluz.com/noticias-da-terrinha/ze-ramalho-na-pedra-de-inga-jornal-correio-desta-sexta-feira-11-de-setembro

http://cabelosdesansao.blogspot.com.br/2008/09/um-cearense-na-lira-paulistana_10.html

VIAGEM AO SERTÃO DOS MISSIONÁRIOS DO NORDESTE: PADRES ROLIM, IBIAPINA E CÍCERO

a cruz da estrada
Fonte – http://evans1309.blogspot.com.br/2012/12/a-cruz-da-estrada-castro-alves.html

Foi num sábado de primavera que de Natal partimos em direção ao sertão do padre Cícero Romão Batista. Na tripulação de quatro amigos (DaMata, Abimael, Homero e Antonio Medeiros), nenhum beato ou devoto do Padim Ciço.

Desde pequeno ouvimos nossos pais e avós falarem das romarias ao Juazeiro do Norte – A Meca do Nordeste. Sempre desejei fazer essa viagem assim como quem tem uma dívida com a sua cultura. Das promessas feitas e das graças alcançadas em tempos de privações e doenças por muitos familiares e amigos. Até os dias atuais essas romarias não arrefeceram e milhares de pessoas continuam fazendo a mesma peregrinação em direção ao Juazeiro onde está situado grande monumento do famoso padre do nordeste brasileiro.

A viagem ao cariri cearense foi feita via Caicó-RN, passando por Brejo do Cruz e Catolé do Rocha, na Paraíba. Terras-origens-cantadas pelos paraibanos Zé Ramalho e Chico César. Depois Sousa – terra dos Dinossauros – e, Cajazeiras. Viagem por um sertão profundo, cheio de mistérios e arcanos indecifráveis. Reserva cultural de um povo atencioso e pronto para qualquer informação. O Cariri Novo, de grandes engenhos de açúcar, beatos, cangaceiros, coronéis e rica cultura popular.

EHT_8946
Vale dos Dinossauros, Sousa, Paraíba – Fonte – gestao.patrimoniodetodos.gov.br

O Vale dos Dinossauros

Indo ao nordeste do Brasil e passando em Sousa ( Pb), é obrigatória a visita ao Lajedo da Passagem de Pedras, onde fica situado o famoso “Vale dos Dinossauros” com as pegadas deixadas por dinossauros que habitavam essa região alagada. A visita é melhor ainda se for acompanhada pelo guia Robson Araújo Marques, o “Velho do Rio”. Robson é um norte-rio-grandense, nascido em Florânia e há 35 anos trabalhando nesse importante sítio arqueológico que precisava ser melhor preservado e estudado. Seu avô Anísio Fausto da Silva indo em busca de animais perdidos, descobriu essas importantes pegadas e denominou “Rastro do Boi e da Ema”. Analisada depois por paleontólogos descobriu-se que aqueles rastros que impregnaram os lajedos da “Passagem das Pedras” eram fabulosos rastros de gigantes dinossauros que por ali passeavam e caçavam há milhões de anos.

A Cajazeiras do Padre Rolim

Em Cajazeiras o encontro marcado com o amigo e historiador Francisco Pereira. Um grande estudioso do Cangaço e da cultura nordestina. A paixão de Pereira por esses temas o levou a colecionar e comercializar livros referentes ao Cangaço, Canudos e cultura nordestina. Conversar com o simpático amigo professor Pereira é uma viagem por essa rica cultura de beatos, coronéis e cangaceiros. Já o conhecia via internet e foi uma alegria conversar pessoalmente com ele e comprar uma dezena de livros sobre o nordeste profundo, seus costumes e crenças.

cajazeiras_geral
Cajazeiras, Paraíba – Fonte – cajazeiras.pb.gov.br

Pergunto ao Pereira sobre o filme “O Sonho de Inacim”, e ele diz que não gostou. Não gostou das liberdades do filme que poderia ser um belo documentário, e não é. Não gostou do pai do menino como cantor brega e achou – como historiador- que o filme presta um péssimo serviço à memória historiográfica nacional ao filmar o padre Rolim num colégio num colégio diferente daquele criado e mantido pelo pioneiro educador Rolim.

“O Sonho de Inacim” – O filme sobre o Padre Rolim

Duzentos anos após o nascimento do padre Ignácio de Sousa Rolim, nascido em 22 de agosto de 1800, o filme o “Sonho de Inacim” resgata a história desse “Educador do Sertão” que viveu na cidade de Cajazeiras, Pb, onde fundou um colégio. O menino Inacim sonha tendo contato com o Pe Botânico e sofre muitas discriminações. Expulso da escola vai para o psicólogo, médico, lançadora de Búzios e deixa a todos perplexos com os seus poderes para-normais. O menino vira celebridade na pequena cidade de cajazeiras já dominada por traficantes. Todas as revelações do menino Inacim são depois confirmadas pelo biógrafo do Pe Rolim, Padre Heliodoro Pires, que escreveu o importante “Padre Mestre Ignácio Rolim”, onde narra o pioneirismo do Pe Rolim no ensino da região da Paraíba. Rolim foi o melhor professor de Grego em seu tempo e a Paraíba teve que lutar para não perder o mestre para Olinda- PE.

folder_1
Fonte – http://rpscom1.blogspot.com.br/2010/11/eliezer-rolim-sobrinho-do-monsenhor-ze.html

O naturalista Pe Rolim de descendência francesa escreveu os importantes livros “Extracto de Gramática Grega” e “Noções de História Natural”, onde descreve a fauna e flora do Sertão. Do colégio fundado pelo Pe Sábio saíram alguns dos maiores sacerdotes e personalidades do Brasil: O controvertido Padre Cícero Romão Batista, o Cardeal Arcoverde (Primeiro cardeal da América Latina), Peregrino de Araújo (Governador da Paraíba 1900-1904), Irineu Joffily (historiador, jornalista e advogado Paraibano) e outros.

Um belo filme dirigido por Eliezer Filho que resgata a fundação da cidade de Cajazeiras na Paraíba (terra do diretor). A importância na nossa formação e cultura dos padres que aqui chegaram. Um belo elenco, fotografia e a música do Chico César. O som das vozes (mesmo em Dolby) não está muito bom.

padre rolim 1
Fonte – http://noticiasdecajazeiras-claudiomar.blogspot.com.br/2011/08/uma-homenagem-significativamente-ao.html

José Wilker (sempre o mesmo) fez o Pe Rolim. Completa o elenco a excelente Marcelia Cartaxo, como mãe do menino Inacim (Gabriel Batistuta). E o excelente (meu voto de melhor ator) José Dumont – o Miguel do Jegue – toma uma cachaça amuada. O cantor brega Zé das Antas (Fubá) – o pai do menino – deixa a sua mãe e é suspeito de envolvimento com drogas.

Onde estão os restos mortais do padre Rolim, querem saber as autoridades da cidade para comemorar em grande estilo o seu bicentenário em 2000. Ninguém sabe. Inacim diz que o Padre está vivo. Claro, ele está sempre vendo o sacerdote professor e fala com o padre. Vê seu belo museu, etc.

Padre Ibiapina – o “Taumaturgo da Caridade”

Padre Ibiapina nasceu na cidade de Sobral (Ceará) em cinco de Agosto de 1806, seis anos após o nascimento do padre Rolim. Foi um grande peregrino do sertão nordestino e criador de inúmeras casas de caridade. Multidões seguiam seus ensinamentos de amor ao próximo, Mulheres eram acolhidas em suas 22 casas de caridades (dez só na Paraíba) deixadas por ele no Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Piauí e Ceará.

Ibiapina
José Antônio Maria Ibiapina, o Padre Ibiapina – Fonte – http://3.bp.blogspot.com/-dSexDaPLkGw/T7uHtOENRbI/AAAAAAAACN0/y7tug6IKBbc/s1600/Ibiapina.JPG

O padre Ibiapina foi o precursor de um catolicismo popular, inspirador de Antonio Conselheiro, Padre Cícero e de muitos outros padres, beatos ( Gedeões) e missionários. Um grande educador do nordeste deixou marcas profundas num séquito de fiéis seguidores, Nas casas de caridades as mulheres abrigadas aprendiam a ler, a contar, Aprendiam cozinhar, artesanar e recebiam também uma educação religiosa e moral. Quantos recém-nascidos não foram deixados na “ Roda dos Enjeitados” ou Expostos e abrigados pelas caridosas do padre educador da Paraíba e de todo nordeste brasileiro.

Padre Ibiapina realizou missões, organizou o povo humilde pólvora dos coronéis, conciliou intrigas, levantou e restaurou igrejas e capelas. Construiu em mutirões, o refrigério do nordeste: açudes, cacimbas e barragens.

O escritor e amigo Bartolomeu ganhou de herança e forneceu a um amigo uma bandeira daquelas usadas nas missões evangelizadoras do grande padre Ibiapina.

No dia 19 de fevereiro de 1883 falece o apostolo Ibiapina e seu tumulo está situado em Santa Fé, Paraíba.

Padim Ciço

O destino motivador da nossa viagem era o Juazeiro do padre Cícero Romão. Juazeiro, árvores que abriga o nordestino do sol inclemente, Já do hotel avistávamos a grande estátua do nosso Padim Ciço. A chegada ali foi coberta de grande emoção e sentimentos que amolecem o coração mais empedernido. Centenas e centenas de ônibus trazem os penitentes numa segunda feira imprensada, véspera do feriado da padroeira do Brasil. Tudo na cidade vive em função do padre Cícero e de suas pregações seguidas por uma multidão de fieis de todo o Brasil. Nordestinos eternamente pregados na cruz de uma terra seca e um sol inclemente.

IMG_20150903_152728347
Padre Cícero Romão Batista

Subimos a serra do horto cheio de penitentes e vendedores da fé, Imagens, fitas do padim Santo e velas para acender e rezar. Ouvem-se muitas rezas e loas em homenagem ao santo do nordeste.

Na casa de orações – ao lado – muitos ex-votos de madeira e fotos, A estátua do padre Cícero ao lado da beata Maria de Araújo, que em 1891 deixou a todos estupefatos quando a hóstia ficou vermelha em sua língua.

Romeiros com suas túnicas marrons, A ordem dos penitentes com seus costumes medievais e seguidores que se flagelam e entoam benditos. Tudo isso compõe um cenário de fé e de uma cultura viva, para alem das discussões acadêmicas sobre a beatitude e comportamento coronelístico do padre Cícero.

Multidões sobem as escadas para chegar mais perto da estátua do padre. Estátua que olha e abençoa o Cariri e seus devotos. Subo também e fico comovido com tanta fé e adorações. Assino meu nome no pé da estátua gigante. Muitos outros assinam formando um manto de letras e preces abençoadas pelo sacerdote nordestino.

Desço e digo para os meus amigos que ficaram em baixo que me sinto purificado. Um responde que estar cansado. Outro diz que tem sede.

É hora de voltar. Promessa cumprida. Muitos pedintes aproveitam para receber um dízimo dos beatos que rezam, pagam promessas e pedem pelos seus entes vivos e mortos.

Autor – João Da Mata

Professor de Física da UFRN. Amante da Literatura, dos Livros das Artes.

Fonte – http://www.substantivoplural.com.br/viagem-ao-sertao-dos-missionarios-do-nordeste-padres-rolim-ibiapina-e-cicero/

 

ALGODÃO – A SUPREMACIA DO ALGODÃO MOCÓ NAS LAVOURAS SERIDOENSES

COTTON (40)
Ouro Branco – Imagens deste tesxto são meramente ilustrativa 

Texto – Alzira Soares

Fonte – http://papjerimum.blogspot.com.br/2013/05/algodao-supremacia-do-algodao-moco-das.html

“Ouro branco que faz nosso povo feliz / Que tanto enriquece o país / um produto do nosso sertão”

A minha curiosidade de saber um pouco mais sobre algodão foi aguçada na minha infância, de tanto ouvir meu pai cantar a música Algodão – era uma das suas preferidas do nosso Rei do Baião. A música é uma crônica sobre o dia-a-dia do sertanejo na lida com o algodão. Meu pai fazia questão de frisar: Algodão Mocó – é o melhor algodão produzido no Brasil e é plantado aqui nas lavouras do Seridó. Tem outros tipos de algodão, dizia com orgulho de bom sertanejo que era: “Mocozinho”, “Quebradinho”, “Rim de Boi”, mas bom mesmo é o Mocó – esse sim é o Ouro Branco que o Luiz Gonzaga fala na música!.”

COTTON (7)
Usina de beneficiamento de algodão.

Planta   da família das Malváceas, espécies nativas  das áreas tropicais da África, Ásia e Américas. O algodão é a matéria fibrosa que envolve as sementes  algodoeiro, e embora macia, suas fibras apresentam boa resistência a esforços de tração, o que permitiu sua utilização na confecção de tecidos.

COTTON (26)

A palavra algodão deriva de  al-qu Tum, na língua árabe, porque foram oa árabes que, na qualidade de mercadores, difundiram a cultura do algodão pela Europa. Ela gerou os vocábulos cotton, em inglês, coton em francês e cotone, em italiano.

O algodoeiro é uma planta dotada de raiz principal cônica, profunda, e com pequeno número de raízes secundárias grossas e superficiais. O caule herbáceo ou lenhoso, tem altura variável e é dotado de ramos vegetativos  e ramos frutíferos

As folhas são pecioladas, inteiras ou recortadas (3 a 9 lóbulos). As flores são hermafroditas,. Elas se abrem a cada 3-6 dias entre 9-10 horas da manhã. Os frutos (chamados “maçãs” quando verdes e “capulhos” pós abertura) são capsulas de abertura longitudinal, com 3 a 5 lojas cada uma, encerrando 6 a 10 sementes.

COTTON (18)

As sementes são revestidas de pêlos mais ou menos longos, de cor variável, (creme, branco, avermelhado, azul ou verde) que são fibras (os de maior comprimento) e linter (os de menor comprimento e não são retirados pela máquina beneficiadora. As fibras provém das células da epiderme da semente e tem, como características comerciais, comprimento, finuramaturidade, resistência, entre outras.

HISTÓRIA DO ALGODÃO NO MUNDO

As primeiras referências históricas do algodão estão no Código de Manu, do século VII a.C., considerado a legislação mais antiga da Índia.Há cinco mil anos antes de Cristo  escavações arqueológicas feitas no Paquistão, encontraram-se vestígios de tecidos de algodão. No Peru, na mesma época foram encontrados vestígios da cultura e utilização do algodão para suprir as necessidades humanas.

COTTON (31)

Os escritos antigos, de antes da era Cristã, apontavam que as Índias eram a principal região de cultura e que o Egito, o Sudão e toda a Ásia menor já utilizavam o algodão como produto de primeira necessidade.

Na Europa, o algodão se tornou conhecido através dos árabes. Foram eles os primeiros a fabricar tecidos e papeis com essa fibra. Em 1736 iniciou-se na Inglaterra a manufatura de fios de algodão com linho. No século XVIII, com o desenvolvimento de novas maquinas de fiação, a tecelagem passou a dominar o mercado mundial de fios e tecidos.

COTTON (5)
Durante as colheitas havia uma grande participação das sertanejas.

Nos Estados Unidos, quando Eli Whitney inventou os descaroçadores de serra deflagrou-se uma verdadeira revolução na industria de beneficiamento de algodão, tornando então os Estados Unidos o maior produtor mundial de algodão. Tempos depois, outros países, aproveitando as novas técnicas de plantio e beneficio, passaram também a ser grandes produtores em escala comercial, como Rússia, China, Índia, Paquistão, Egito e Brasil.

HISTÓRIA DO ALGODÃO NO BRASIL

No Brasil, na época do descobrimento, os indígenas já cultivavam o algodão e usavam os fios na confecção de redes e cobertores. Usavam também o caroço esmagado e cozido para fazer mingau e com o sumo das folhas curavam feridas. Os primeiros colonos chegados ao Brasil, logo passaram a cultivar e utilizar o algodão nativo. Os jesuítas do padre Anchieta introduziram e desenvolveram a cultura do algodão (confecção de suas roupas e vestir os índios).

Nessa época o algodão tinha pequena expressão no comércio mundial. A lã e o linho dominavam como tecidos. A cultura era feita em pequenas “roças” em volta das habitações, e o artesanato têxtil era trabalho de mulheres (índias e escravas). Foi só pelos meados do século XVIII com a revolução industrial, que o algodão foi transformado na principal fibra têxtil e no mais importante produto das Américas.

COTTON (11)

A cultura de algodão no Brasil começou no Norte e no Nordeste. O primeiro grande produtor foi o Maranhão que em 1760 exportou para a Europa suas primeiras sacas do produto. Ao Maranhão seguiu-se todo o Nordeste tornando-se a primeira grande região produtora do pais com as produções do Rio Grande do Norte, Piauí, Ceará, Pernambuco, Paraíba, Alagoas e Bahia que se dedicavam ao plantio do algodão arbóreo perene, de fibras mais longas.

Mais tarde, São Paulo se firma como grande centro produtor. Imigrantes norte-americanos que se localizaram na região de Campinas e Santa Bárbara D`Oeste, trouxeram com eles sementes de algodão herbáceo, de fibra mais curta que os do Nordeste, porém, muito mais produtivos e que são plantados anualmente.

COTTON (43)

De São Paulo o algodão expandiu para o Paraná, Mato Grosso e Goiás formando a zona meridional, responsável pela grande produção algodoeira do Brasil.

Hoje o centro algodoeiro brasileiro é composto, principalmente, por Mato Grosso, Goiás e algumas partes da Bahia. Essa nova fronteira algodoeira possibilitou o ressurgimento do algodão no nosso país, quase que por verdadeiro milagre, pois, de grande exportador o Brasil passou a ser importador de grandes quantidades oriundas dos Estados Unidos, Rússia e África. Atualmente voltamos a exportar, e a nossa Industria Têxtil vem tendo a opção de se abastecer tanto no mercado interno quanto no mercado externo.

COTTON (16)

HISTÓRIA DO ALGODÃO NO RIO GRANDE DO NORTE

A partir de 1905 o cultivo do algodão ocupa lugar de destaque na economia do Rio Grande do Norte. Embora prioritariamente voltado para o mercado interno, em favor das indústrias têxteis nacionais, o algodão norte-rio-grandense também encontrava colocação no mercado estrangeiro, principalmente o algodão “mocó”, de fibra longa, posto que se destinasse à confecção de tecidos finos.

Duas variedades de algodão eram plantadas no Rio Grande do Norte: o arbóreo (“mocó” ou “Seridó”) e o herbáceo. O algodão “mocó” foi a variedade que melhor se adaptou aos sertões: por suas raízes profundas, era mais resistente às secas; por seu vigor, era uma variedade mais infensa às pragas e ,por outro lado, produzia até por 8 anos. Em suma, era muito mais vantajoso que o herbáceo, que tinha um ciclo vegetativo muito curto – geralmente um ano e, além disso, mais suscetível a pragas. O cultivo do algodão arbóreo “mocó” alimentava um grande número de usinas de beneficiamento. Além da fibra de excelente qualidade, tinha como subprodutos óleo vegetal e ração animal ( torta de algodão). Por ser na época fonte segura de renda para o produtor foi chamado de “ouro branco”.

COTTON (37)
A produção do algodão era muito importante no aspecto econômico no Rio Grande do Norte e igualmente movimentava as principais cidades das áreas de produção. Na foto temos um registro da escolha da “Rainha do Algodão”, na cidade de Currais Novos, em 1954, durante um congresso. Da esquerda para direita vemos Maria Lourdes Medeiros (Representando a cidade de Jardim do Seridó), Deise Trindade (De Caicó e vencedora do concurso) e Nazareth Cortez (Currais Novos).

Durante muito tempo o algodão do Seridó deteve a reputação de algodão de primeira qualidade. O Dicionário Geográfico do Brasil em 1922 registrava: O produto é de ótima qualidade. Na exposição Nacional de 1908,o da zona do Seridó obteve o grande prêmio e o de toda região sertaneja alcança sempre cotações superiores nos mercados internos e externo”.

COTTON (28)

No entanto, o algodão nordestino foi perdendo paulatinamente,  sua posição hegemônica como principal matéria-prima consumida pela indústria têxtil brasileira. As crises de oferta da fibra nordestina estariam ligadas, por um lado, às devastadoras secas que atingiam impiedosamente as lavouras sertanejas. Por outro lado, com a chegada do bicudo (nos anos 80), praga de difícil controle e depois com a abertura do mercado nacional às importações subsidiadas de países da Ásia nos anos 90, a cultura, que  nos anos 80 chegou a ser plantada em mais de 2 milhões de hectares no Nordeste, entrou em declínio e hoje a área cultivada está em torno de 1.300 hectares.

COTTON (34)
Resultado da colheita de algodão guardada em um armazém.

 

FONTES:

  • Antonio Fagundes – Leituras Potyguares – Editora Sebo Vermelho-Natal/2009 ( Edição original/1933)
  • Algodão – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) – Brasília / 1981
  • Breve História do Algodão no Nordeste do Brasil – EMBRAPA Algodão – Brasília / 2003
  • Algodão – Semira Adler Vainsencher –  Fundação Joaquim Nabuco- Recife/PE
  • Pesquisas Google  – Sites:
  1. http://www.cnpa.embrapa.br/produtos/algodão/apresentacao.html
  2. http://www.noticiasagricolas.com.br/noticias.php?id=28594
  3. http://www.cnpa.embrapa.br./publicacoes/2003/DOC117.PDF
  4. http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar
  5. http:??noticiasdeontem.net/materias/anoIV/XXVII/0_algodao_moco_do_serido.html

IMPRENSA E CANGAÇO – A REPORTAGEM QUE REINVENTOU LAMPIÃO

Imagem que fez história – A foto das cabeças decepadas de Lampião e seu bando foi estampada nas páginas centrais de A Noite Ilustrada pouco mais de uma semana depois do massacre de Angicos e correu o mundo ao longo do século 20 - Fonte - http://brasileiros.com.br/2013/07/a-reportagem-que-reinventou-lampiao/
Imagem que fez história – A foto das cabeças decepadas de Lampião e seu bando foi estampada nas páginas centrais de A Noite Ilustrada pouco mais de uma semana depois do massacre de Angicos e correu o mundo ao longo do século 20 – Fonte – http://brasileiros.com.br/2013/07/a-reportagem-que-reinventou-lampiao/

A revista carioca A Noite Ilustrada publicou a maior cobertura da imprensa sobre a morte do mais famoso cangaceiro, fato que evidenciava sua importância como notícia e lenda.

A capa da edição da quarta-feira 9 de agosto de 1938, da revista A Noite Ilustrada, lançada 11 dias depois do massacre na Fazenda Angicos, município de Piranhas, entre Alagoas e Sergipe, onde morreram Virgulino Ferreira da Silva (1898-1938), o Lampião, Maria Bonita e mais nove pessoas, é emblemática. Em vez de estampar o mais famoso e temido cangaceiro do País, a imagem trazia em destaque outro bandoleiro, Corisco, conhecido pela polícia e pela imprensa como Diabo Louro. A mensagem parecia clara: sem Lampião, o cangaço sobreviveria pelo herdeiro e compadre de seu antigo chefe. Rei morto, rei posto? Não. A legenda explicava que aquela foto havia sido encontrada entre muitas outras em um dos bolsos do famoso criminoso, quando os soldados da “volante” foram saquear seus bolsos, em busca de joias e dinheiro, no momento em que seu corpo jazia, cravado de balas.

Em 28 páginas sobre o massacre, a revista, comandada pelos jornalistas Gil Pereira e Vasco Lima, trazia a primeira grande reportagem sobre o assunto, que se tornou aula e marco do jornalismo na época. Motivo: a publicação tinha conseguido mandar uma equipe – fotógrafo e repórter – do Rio de Janeiro até o local, a dois mil quilômetros de distância, em pouco mais de 24 horas. Ao que parece, foi uma operação de guerra. Tão logo as primeiras notícias da morte de Lampião chegaram às redações do Rio de Janeiro, via telegrama, nenhum jornal ou revista teria se interessado em mandar equipes.

Segundo o site blogdomendesemendes.blogspot.com.br, no dia 2 de agosto de 1938 a revista A Noite Ilustrada também publicou outra reportagem sobre a morte de Lampião e Maria Bonita - Fonte - http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/
Segundo o site blogdomendesemendes.blogspot.com.br, no dia 2 de agosto de 1938 a revista A Noite Ilustrada também publicou outra reportagem sobre a morte de Lampião e Maria Bonita – Fonte – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/

Por mais de dez anos, a grande imprensa acompanhou as muitas caçadas a Lampião, promovidas pela polícia de pelo menos seis estados do Nordeste por onde ele e seu bando circularam e “aterrorizaram” – Bahia, Sergipe, Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. A viagem dos jornalistas de A Noite Ilustrada só foi possível porque eles conseguiram embarcar antes do meio-dia em um voo internacional da Pan American, que fazia a rota Miami-Rio de Janeiro-Buenos Aires. As escalas eram feitas em Montes Claros (MG), Barreiras (BA) e Carolina (MA).

Os jornalistas desceram em Barreiras, no cerrado baiano, e de lá cruzaram de carro ou de trem boa parte do território baiano, até chegar à cidade de Piranhas. Na manhã seguinte, eles se depararam com a tropa de 49 homens do tenente João Bezerra na pequena cidade de Pedras, no meio do caminho até Santana do Ipanema, onde ficava o batalhão que realizou a operação militar.

Os enviados se tornaram a primeira equipe de jornalistas a visitar a “gruta” de Angicos, depois do massacre. Acabaram por fazer fotos que se tornaram famosas ao longo dos 75 anos seguintes e foram reproduzidas incontáveis vezes por jornais, revistas e livros sobre o tema. São imagens que chocaram os leitores. Logo na página três, aparecia a cabeça decepada quase em tamanho real da mulher mais famosa do cangaço e um pequeno texto dizia: “Companheira de Lampião, fotografada em Pedra, durante o regresso da ‘volante’ (tropa) do tenente João Bezerra, quando ainda conservava a regularidade dos traços e a serenidade da expressão. Mesmo depois da morte violenta, justificando a alcunha, a cabeça da bandoleira mostra vestígios de tranquila beleza”.

lampiao-1

Nas páginas centrais, como pôster de 43 cm x 86 cm, A Noite Ilustrada estampava a foto mais famosa da história do banditismo no Brasil, que se tornou símbolo do grau de selvageria que dominava mocinhos e bandidos nos confins da caatinga brasileira: as cabeças decepadas dos mortos de Angicos, arrumadas na escadaria de uma igreja, identificadas com uma etiqueta ao lado de cada uma. Apareciam, pela ordem de cima para baixo, da esquerda para a direita: Diferente, Desconhecido, Cajarana, Enedina, Caixa de Fósforos, Mergulhão, Elétrico, Luis Pedro, Maria Bonita e, sozinha na parte de baixo, Lampião.

Ao redor, parte dos pertences recolhidos – armas e balas em quantidade, embornais e uma máquina de costura aparentemente da marca Singer. No local do tiroteio, há uma foto que mostra com números e setas como tudo aconteceu: onde estavam os soldados e em que ponto Lampião foi mortalmente atingido, sem ter chance de qualquer reação.

A notícia tinha corrido o Brasil como fogo em pólvora. Todos os grandes jornais destacaram o fato na primeira página. Por 18 anos, Lampião e seu bando atacaram, principalmente, pequenas e miseráveis localidades em que a população vivia sob o chicote e o domínio eleitoreiro das dinastias dos coronéis. A imprensa das regiões Sul e Sudeste sempre se interessou pelo assunto, destacava a crueldade de Lampião e de seus comparsas e o heroísmo da polícia em sua captura. Ficaram famosos nomes como do sargento Odilon Flor que, por oito anos caçou e perseguiu o cangaceiro, e o do tenente Campos de Menezes, que o perseguia desde a década anterior – por diversas vezes, Menezes e seus homens trocaram tiros com Lampião. Mas a glória coube ao desconhecido tenente Bezerra, transformado em herói nacional literalmente da madrugada para o dia.

A revista A NOITE ILUSTRADA de 02 de agosto de 1938 - Fonte - http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/
A revista A NOITE ILUSTRADA de 02 de agosto de 1938 – Fonte – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/

Não havia qualquer discussão na imprensa sobre as intenções do cangaceiro que eram apenas roubar e saquear a partir de uma índole criminosa natural, como aconteceu depois e o transformou em herói para muitos, por contestar o poder dos coronéis – Lampião seria fruto do inconformismo de um mundo injusto e sem lei. “Ido desta capital de avião, o serviço dos enviados especiais de A Noite Ilustrada ao sertão e à capital de Alagoas trouxe a lume o sensacional acontecimento por todas as suas faces mais empolgantes, acumulando uma sucessão de documentos que se encontram em parte nesta edição”, explicou a revista, em seu editorial. Para seus editores, a publicação havia feito algo extraordinário. Tanto da parte de seus repórteres quanto da polícia, mostrada como heroica. Dizia o título: “O sensacional acontecimento do sertão alagoano”.

Prosseguiram eles, na apresentação. “Releva notar o acervo de fotos feitas no próprio local do combate entre a polícia alagoana e o bando do ‘Rei do Cangaço’, a grota situada na fazenda Angicos, das quais se encontram na última página da revista, e testemunham não apenas a coragem, mas a temeridade dos nossos auxiliares.” No mesmo texto, destacou o pequeno vidro encontrado no corpo de Lampião, cheio de um pó amarelo, que, “verificou-se nesta capital, por experiência feita no laboratório de Pesquisas Científicas da Polícia, ser um veneno poderoso. É também um pormenor de sensível interesse”, porque se sabia, “por informações anteriores”, que era uma prevenção para não cair com vida em mãos das autoridades.

A revista A NOITE ILUSTRADA de 02 de agosto de 1938 - Fonte - http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/
A revista A NOITE ILUSTRADA de 02 de agosto de 1938 – Fonte – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/

“Consciente da enormidade de seus crimes, o cangaceiro não suportava a ideia de expiá-los. Pode suceder, também, que um amor próprio a seu modo lhe fizesse intolerável à possibilidade de vir a ser dominado pelos que considerava inimigos odiosos.” Ou seja, sua decisão era de jamais se deixar prender vivo pela política. Cometeria suicídio antes. “Verificou-se ainda que Lampião foi colhido por uma rajada de balas, pois seu famoso punhal, de cabo trabalhado a ouro e marfim, foi atingido numa das lâminas, e a própria cartucheira do bandido, onde o ímpeto de uma das balas que recebeu detonou outra da própria cartucheira do antigo ‘Terror do Nordeste’, que o atingiu mortalmente.”

O que se nota em toda a edição de A Noite Ilustrada é que em nenhum lugar são ditos os nomes do repórter e do fotógrafo, embora eles aparecessem em duas fotos e fossem assim identificados. Em uma delas, o fotógrafo, de óculos, posava à frente dos voluntários e soldados, sorrindo para a câmera. Em outra, o jornalista cumprimentava o aspirante Ferreira, cercados de soldados que apoiavam as mãos nos ombros dos dois. Uma legenda informava: “O corpo do bandoleiro foi identificado e fotografado por um dos enviados de A Noite Ilustrada na grota de Angicos, sendo que outros ali voltaram, ainda, depois, a fim de minudenciar o terreno fotograficamente, facilitando uma reconstituição do choque entre a polícia e os bandoleiros”. A edição trazia também o primeiro episódio de uma série em quadrinhos sobre a vida do cangaceiro, roteirizada e ilustrada por Euclides L. Santos. Com dez quadrinhos cada página, iniciava uma série que seria publicada duas vezes por semana no jornal A Noite, nos cinco meses seguintes.

A revista A NOITE ILUSTRADA de 02 de agosto de 1938 - Fonte - http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/
A revista A NOITE ILUSTRADA de 02 de agosto de 1938 – Fonte – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/

Singularmente ingrato

Lampião jamais imaginou que poderia ser morto em Angicos. Aquele era seu esconderijo havia muitos anos e ele acreditava, mesmo se traído, uma volante não conseguiria chegar ali. O terreno, no dizer de um geógrafo entrevistado pela revista, contou que o local era “singularmente ingrato”. E explicou que ficava “entalado entre a margem do rio e a montanha pedregosa e íngreme que da mesma margem começa logo a erguer-se, apertada entre gargantas e pequenas contraescarpas de serra, e ingrato, estéril e árido, ostentando rochedos de granito e penhascos inacessíveis. Essa topografia era da conveniência para os cangaceiros que, por isso mesmo, sempre procuravam Angicos, nas imediações de Piranhas, quando se sentiam inseguros e acossados”. Mas a força policial, comandada pelo tenente João Bezerra, reunia veteranos combatentes do cangaço, não teve dificuldades alcançar aquele ponto.

Os cangaceiros haviam chegado a Angicos no dia anterior, 27 de julho, exaustos, famintos. Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas. O aguaceiro, em vez de dificultar a aproximação de alguma volante, ajudou, graças ao barulho da água que caía. Tanto que nem os cães de Maria Bonita pressentiram. Bezerra relatou depois que o bombardeio ainda não tinha começado, por volta das 5h15 do dia 28, e teve de ser precipitado. No momento em que os cangaceiros levantaram para rezar o ofício, de acordo com o ritual estabelecido pelo Rei do Cangaço, e se preparavam para tomar café, um cangaceiro deu o alarme. Tarde demais. Bezerra gritou: “Fogo”. Os soldados dispararam suas metralhadoras portáteis, que cuspiram dezenas de balas por minuto, por cerca de 20 minutos. Corisco e os outros que estavam mais distantes, e acabaram protegidos pelos rochedos, conseguiram se arrastar e fugiram.

lampiao-2

Lampião foi um dos primeiros a morrer. Dentro dos costumes da época, Maria Bonita, gravemente ferida, teve sua cabeça decepada – fizeram o mesmo com o marido, em seguida. Na euforia que se seguiu, sem se preocupar se alguém tinha escapado, os policiais saquearam os cadáveres e os mutilaram com selvageria. Também foram degolados vivos Quinta-Feira e Mergulhão que estavam  feridos. Um dos policiais, com ódio de Lampião, deu um golpe de coronha de fuzil na cabeça do cangaceiro tão forte que a deformou. Afirmou-se depois que todas as cabeças foram salgadas e colocadas em latas de querosene, com aguardente e cal, enquanto os corpos foram abandonados e devorados por urubus. Para evitar a disseminação de doenças, dias depois foi colocada creolina sobre os corpos. Como alguns urubus morreram intoxicados pela substância, esse fato ajudou a difundir a crença de que eles haviam sido envenenados antes do ataque, com alimentos entregues pelo coiteiro traidor. Outra versão dava conta de que as cabeças não passaram por qualquer processo de conservação nas 48 horas que se seguiram ao massacre. E mesmo inchadas – como se vê nas fotos –, foram vistas por milhares de curiosos nas cidades onde o pelotão passou.

Em Pedra, ao alcançar a volante, a equipe de A Noite Ilustrada conseguiu reunir 47 dos 49 homens que estiveram em Angicos para uma foto histórica. Duas outras mostravam a multidão que se concentrou em uma praça em Maceió para ver as cabeças dos 11 cangaceiros. “Em Piranhas, as tropas chegaram inesperadamente, quando terminara a feira ali erguida, e quando, portanto, ninguém imaginava a possibilidade de acontecimento de tal monta. A polícia alagoana, conduzindo os troféus do sangrento encontro, foi recebida por aclamações populares intensas, mais vivas e constantes, à medida que os populares se inteiravam do êxito completo do combate com o bando de cangaceiros. Ferido, embora sem gravidade maior, o Tenente Bezerra, cuja valentia é conhecida em todo sertão circundante, era visado particularmente nos aplausos do povo aglomerado”.

A revista A NOITE ILUSTRADA de 02 de agosto de 1938 - Fonte - http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/
A revista A NOITE ILUSTRADA de 02 de agosto de 1938 – Fonte – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/

O mesmo espetáculo foi verificado pela equipe da revista em Pedra e Água Branca, “onde as populações, vítimas durante tantos anos dos sustos constantes pelo perigo de incursões dos cangaceiros, mal podiam acreditar no extermínio do monstro da caatinga”. Em todas essas localidades, o chefe dos volantes determinou a exposição das cabeças. “Visava principalmente evitar alguma lenda de negação do fato, coisa muito natural em face da crença, alimentada pelos próprios acontecimentos, durante tantos anos, da intangibilidade do chefe do cangaço. Os soldados jubilosos pelo resultado da sortida, e sua alegria se misturava à do povo, compondo um espetáculo expressivo da sensação de libertação que pairou sobre aqueles recantos da civilização sertaneja.”

Em Santana do Ipanema, “esse jubilo popular atingiu maiores proporções”. Segundo o repórter, as cabeças dos cangaceiros, que haviam sido fotografadas em Pedra, foram novamente expostas à curiosidade pública “e numerosas pessoas reconheceram a cabeça decepada de Lampião e de outros seus comparsas do crime”. O espetáculo bizarro prosseguiu em Maceió. No Instituto Médico Legal de Aracaju, as cabeças foram medidas, pesadas e examinadas pelo médico Carlos Menezes. Suas observações fizeram com que os criminalistas mudassem a teoria de que um homem bom não viraria um cangaceiro, e este deveria ter características sui generis.

Lampião conversa com Benjamin Abrahão - Fonte - http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/literatura/noticia/2012/12/13/frederico-pernambucano-de-mello-lanca-biografia-de-benjamin-abrahao-66680.php
Lampião conversa com Benjamin Abrahão – Fonte – http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/literatura/noticia/2012/12/13/frederico-pernambucano-de-mello-lanca-biografia-de-benjamin-abrahao-66680.php

Diferentemente do que acreditavam, as cabeças não apresentaram qualquer sinal de degenerescência física, anomalias ou displasias, apesar da decomposição avançada. Acabaram classificadas como de indivíduos normais. Do sudeste do País, apesar do péssimo estado, seguiram para Salvador. Ali, permaneceram por seis anos na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal da Bahia. Nenhuma patologia foi encontrada após novos exames. Por mais de três décadas, ficaram expostas no Museu Antropológico Estácio de Lima, no prédio do IML Nina Rodrigues, no Terreiro de Jesus, em Salvador. Atraíam milhares de curiosos todos os anos, que queriam ver, principalmente, as cabeças de Lampião e Maria Bonita.

Enquanto isso, as fotos de A Noite Ilustrada corriam o Brasil e o mundo. Sem autorias definidas, perderam sua identidade, ao mesmo tempo que se tornavam documento de uma época. Por mais que a revista chamasse Lampião de facínora, o resultado de seu esforço jornalístico mantinha a força de uma história e não conseguiu evitar que de suas páginas nascesse uma lenda que, como tal, ainda fascina. Suas fotos e textos, enfim, por mais que se tenha feito um trabalho de reportagem louvável, não evitou que Lampião continuasse a andar pela caatinga, mesmo como um fantasma, cada vez mais vivo na imaginação das pessoas pela coragem de cabra macho que era em enfrentar os poderosos. Que se publique a lenda.


Porta Voz de Vargas

A redação de A Noite Ilustrada funcionava na Praça Mauá, 7, centro do Rio de Janeiro, e onde ficavam redações de jornais e revistas, e emissoras de rádio importantes. Lançada em 1930, a publicação surgira como um marco por sua qualidade de impressão, graças ao moderno sistema de rotogravura. Pertencia ao jornal A Noite, mesmo diário fundado por Irineu Marinho e Geraldo Rocha. A Noite sobrevivera ao longo da década de 1930 sob o duro castigo de ter apoiado o grupo derrotado pela Revolução de 1930.

Getúlio Dornelles Vargas (1883 – 1954) - Fonte - http://www.culturabrasil.pro.br/vargas.htm
Getúlio Dornelles Vargas (1883 – 1954) – Fonte – http://www.culturabrasil.pro.br/vargas.htm

Na ocasião, sua redação foi saqueada e incendiada e Rocha se refugiou em Minas Gerais. O diário sofreu intervenção do governo. Pressionado, Rocha reconheceu em cartório que tinha dívidas e abriu mão de seus bens para os bancos do governo, inclusive de A Noite. O jornal se tornou, então, uma espécie de órgão a serviço de Vargas e radicalizou seu oficialismo com a decretação do Estado Novo, em novembro de 1937, quando assumiu a mesma postura nazifascista do ditador brasileiro. Essa orientação editorial dava o tom na cobertura do massacre de Angicos e no modo de como a tropa do Exército foi tratada.

Lampião Lia “A Noite Ilustrada”

Pelo acaso, Lampião acabou por se tornar garoto propaganda de A Noite Ilustrada. Dois anos antes de morrer, ele aparecia em uma de suas mais famosas fotos, feita pelo fotógrafo e caixeiro viajante Benjamin abraão (1890-1938), mostrando um exemplar da famosa revista carioca, ao lado de maria Bonita, que aparecia sentada, acariciando os cães Ligeiro e Guarany. A edição, de 27 de maio de 1936, trazia na capa a nadadora americana Anna Evers, uma das promessas da olimpíada de Berlim daquele ano. 

Casal bem informado – Lampião com um exemplar de A Noite Ilustrada, de 1936, ao lado de Maria Bonita. O casal gostava de acompanhar pelas revistas as novidades do Brasil e do mundo
Casal bem informado – Lampião com um exemplar de A Noite Ilustrada, de 1936, ao lado de Maria Bonita. O casal gostava de acompanhar pelas revistas as novidades do Brasil e do mundo

Na legenda, lia-se: “a sereia e sua rede… Anna Evers exibindo um formoso modelo praiano em Santa Mônica, Califórnia”. Segundo depoimentos das cangaceiras Aristéia e Dadá, as fotos foram feitas entre junho e julho de 1936, portanto um mês ou dois depois do lançamento da revista. Abrahão seria morto pouco mais de dois meses antes de Lampião, em serra talhada, no dia 10 de maio de 1938. De origem sírio-libanês-brasileira, ele se tornou o responsável pelo registro iconográfico do cangaço e de seu líder, Lampião.

Fonte - acordacordel.blogspot.com
Fonte – acordacordel.blogspot.com

Para fugir do serviço militar em seu país, durante a Primeira Guerra Mundial (1914- 1918), ele veio para o Brasil. chegou em 1915. Foi mascate em Recife e Juazeiro do Norte, atraído pela frequência de romeiros em busca do Padre Cícero, de quem se tornou secretário e conheceu Lampião, em 1926, quando foi à cidade receber a bênção do célebre vigário e a patente de capitão, para auxiliar na perseguição da coluna prestes. Anos depois, obteve do cangaceiro autorização para acompanhar o bando na caatinga e realizar as imagens que o imortalizaram. Foi assassinado com 42 facadas e o crime nunca foi esclarecido.


Autor – Gonçalo Junior

Fonte – http://brasileiros.com.br/2013/07/a-reportagem-que-reinventou-lampiao/

AVIAÇÃO – TRÊS ESTADOS DO NORDESTE DISPUTAM A TAM

Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte tentam atrair o hub, que também oferecerá rotas internacionais - Fonte - JF Diorio/Estadão Conteúdo
Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte tentam atrair o hub, que também oferecerá rotas internacionais – Fonte – JF Diorio/Estadão Conteúdo

Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte estão na briga pelo novo centro de distribuição de voos da TAM, investimento de 4 bilhões de reais

Carlos Drummond — Fonte – http://www.cartacapital.com.br/revista/861/pouse-aqui-por-favor-5174.html

Em um ano de escassos investimentos e queda brusca na atividade econômica, o projeto de um novo centro de distribuição de voos do Grupo Latam Airlines, formado pela brasileira TAM e a chilena Lan, tem mobilizado as forças econômicas e políticas de três estados do Nordeste: Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Uma das capitais será escolhida para sediar o hub ainda neste ano. Desde abril, quando a Latam anunciou o investimento de cerca de 4 bilhões de reais que vai gerar 10 mil empregos diretos e indiretos, a agenda dos governadores e dos prefeitos foi tomada por contatos e ações em um esforço de preparação e busca de apoio. 

O projeto deve consumir 40% dos investimentos previstos pela Latam em 2015 e 2016. O estudo de viabilidade deverá ser concluído em dezembro, mês em que a sede será anunciada. Os hubs são utilizados mundialmente para racionalizar trajetos, economizar custos para as empresas e tempo para os usuários, com eventuais reduções de tarifas. O efeito combinado dessas melhorias é o aumento do fluxo de passageiros e cargas, das receitas das empresas envolvidas e da arrecadação de impostos. A atividade do turismo repercute no dinamismo de 53 setores da economia, segundo a Embratur. Está prevista a abertura de postos de trabalho para engenheiros e mecânicos, pessoal de atendimento e recepção de passageiros, manejo de bagagem, serviços de táxi, fornecimento de alimentação e hotelaria, entre outros segmentos. 

“O maior objetivo do primeiro hub doméstico e internacional do Nordeste é ampliar a atuação e a capilaridade das operações das empresas do Grupo Latam Airlines na América do Sul e no mercado internacional, aumentando, principalmente, os destinos atendidos na Europa”, afirma a presidente da empresa, Claudia Sender. Fosse este o único aspecto importante, Natal, localizada no ponto da costa americana mais próximo da Europa e da África, seria a escolhida, mas há outros requisitos. Entre eles destacam-se a existência de uma boa infraestrutura aeroportuária, com potencial de desenvolvimento, e o oferecimento de “melhor experiência ao cliente”.

Natal, Recife e Fortaleza oferecem redução de impostos e investimentos em infra-estrutura urbana. Créditos:Marcelo D. Sants/ Futura Press
Natal, Recife e Fortaleza oferecem redução de impostos e investimentos em infra-estrutura urbana. Créditos:Marcelo D. Sants/ Futura Press

Em relação ao último aspecto, conta favoravelmente o fato de os aeroportos de Fortaleza e do Recife se localizarem praticamente dentro dessas cidades, enquanto o de Natal fica a 18 quilômetros. O aeroporto do Recife foi eleito pelos passageiros o melhor do Brasil no Prêmio Aeroportos + Brasil 2015, promovido pela Secretaria de Aviação Civil.

A disputa de vantagens é contínua e os governadores empenham-se em destacá-las. “Temos um projeto de uma linha de veículo leve sobre trilhos para o aeroporto e este tem espaço para ampliação. Sediamos a refinaria Clara Camarão, que produz querosene de aviação e garante o suporte necessário à demanda”, diz o governador Robinson Faria, do Rio Grande do Norte. “Nosso aeroporto entrou no pacote de concessões anunciado pelo governo federal, um investimento de 1,8 bilhão de reais, o que garantirá modernização e mais agilidade para o equipamento”, observa Camilo Santana, do Ceará. “A nossa infraestrutura logística é diferenciada, especialmente numa integração com o Porto de Suape. Com o hub, haverá uma complementaridade de modais, destacando-se o transporte de cargas”, argumenta Paulo Câmara, de Pernambuco.

Fonte - aerodejlle.blogspot.com
Fonte – aerodejlle.blogspot.com

Entre os fatores relevantes para a escolha sobressaem os incentivos fiscais, especialmente a redução na alíquota do ICMS sobre o querosene utilizado na aviação. A base de cálculo desse imposto no Rio Grande do Norte foi reduzida de 17% para 12% e cairá para 9% no caso de novos voos internacionais. No Ceará, a diminuição da base de cálculo de 25% para 12% beneficia rotas futuras para o exterior e aeronaves de 80 assentos de companhias com linhas regulares nas regiões Norte e Nordeste. Em Pernambuco, a base de cálculo é de 25%. 

Outro fator de competição é a rede hoteleira. Há 27,5 mil leitos em Fortaleza. O total é levemente superior aos 27,4 mil de Natal. Recife fica para trás neste quesito, com 15,5 mil.  

A importância do investimento para as economias mobilizou as lideranças empresariais. A implantação do hub em Fortaleza alavancará a economia e “dinamizará o turismo e a exportação de produtos como flores, frutas e hortaliças”, destaca Beto Studart, presidente da Federação das Indústrias estadual. Será a melhor oportunidade de consolidar o Rio Grande do Norte como polo de atividades logísticas, serviços avançados de comércio exterior, atração turística e atividades industriais associadas ao funcionamento do aeroporto, “inclusive uma Zona de Processamento de Exportações”, destaca Amaro Sales, presidente da Federação das Indústrias local. “O estado tem um ambiente de negócios muito bom, vocação para o comércio e a indústria, uma posição incomparável em relação aos demais da região. É inquestionável também a posição geográfica ímpar”, diz o empresário Paulo Sales, presidente-executivo do Grupo Moura, de Pernambuco.

Fonte - www.suacidade.com
Fonte – http://www.suacidade.com

O setor de viagens mostra um vigor oposto à estagnação da economia, no Brasil e no mundo. O turismo mundial deverá crescer 5% em 2015, segundo prevê a OMT, organização mundial do setor. O Brasil saltou da 51ª para a 28ª posição no ranking de competitividade em viagens e turismo do Fórum Econômico Mundial, entre 2013 e 2015. O efeito combinado da redução da renda provocada pelo aumento do desemprego neste ano com a alta do dólar levou a uma alta das viagens internas, principalmente rumo ao Nordeste. A pesquisa mensal do Ministério do Turismo realizada em junho apontou o maior índice de intenção de viagem para destinos nacionais dos últimos quatro anos. Entre os entrevistados, 73,3% planejam ao menos um tour até dezembro para destinos do País, acima dos 70,9% do mesmo mês no ano passado. O Nordeste, com 43,2% das escolhas, é o destino predileto, seguido pelo Sudeste, com 26,2%. 

Beneficiado na última década e meia pela política de transferência de renda do governo e pelo aumento do salário mínimo, o Nordeste terá uma atividade econômica mais fraca em relação aos anos anteriores, mas permanecerá acima do desempenho nacional, segundo projeções do economista-chefe do Banco Santander, Mauricio Molan. “Os segmentos que mais sofrem são os de bens de capital e de automóveis, mas a produção agrícola aumentará nos próximos anos. Há a expectativa de um crescimento forte nas culturas de soja e milho, além de um avanço de 30% no setor industrial relacionado ao ramo alimentício, que na crise sofre menos e é uma base importante da indústria da região.”

Aeroporto de São Gonçalo - Fonte - www.copa2014.gov.br
Aeroporto de São Gonçalo – Fonte – http://www.copa2014.gov.br

O projeto para o Nordeste toma por base a experiência da Latam no aeroporto internacional de Guarulhos, em São Paulo, principal hub internacional do grupo, importante para o seu papel de liderança no setor na América Latina. Um total de 15 milhões de passageiros da companhia transitam pelo terminal anualmente. As conexões internacionais são centrais para a Latam e o hub no Nordeste oferecerá “um tempo significativamente menor de voos na ligação entre a Europa e o Brasil, na comparação com São Paulo e Rio de Janeiro, e gerará uma distribuição melhor de conexões e horários”, afirma Claudia Sender. O grupo planeja acrescentar 14 voos diários para a Europa e 46 para a América do Sul a partir do Nordeste. O hub “proporcionará melhor aproveitamento das aeronaves, aumento da produtividade e opções em maior número e mais vantajosas para o passageiro”. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 861 de CartaCapital, com o título “Pouse aqui, por favor”