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O SINDICATO DO CRIME EM CAICÓ – A NOTÍCIA DA PRISÃO DO PISTOLEIRO TONHO DO LETREIRO EM JORNAIS DE RECIFE

Houve um tempo que na bela cidade de Caicó, na região do Seridó potiguar, membros de sua sociedade resolveram seus problemas na bala. Mas alguns deles não seguravam as armas. Preferiam contratar pistoleiros utilizando os serviços de agenciadores com atuação em várias áreas do Nordeste, que formaram um grupo que ficou conhecido como Sindicato do Crime. Entre as mortes ocorridas em Caicó na época, a que alcançou maior repercussão e chegou a ser notícia na mídia nacional, foi a do médico e deputado estadual Carlindo de Souza Dantas. Um dos seus algozes foi o pistoleiro Edmar Nunes Leitão, conhecido por Tonho do Letreiro, pois tinha uma mira tão acurada que com tiros “escrevia” qualquer letra do alfabeto em uma parede. Aqui trago a transcrição e as notícias divulgadas nos periódicos recifenses Jornal do Comércio e Diário de Pernambuco dos dias 28 e 29 de abril de 1970.

AGRADECIMENTO – Ao amigo Marcelino Barbosa, verdadeira lenda da Polícia Civil do Estado do Rio Grande do Norte, com grande atuação contra o crime no sertão e grande conhecedor da História dessa instituição de segurança pública.

DIÁRIO DE PERNAMBUCO, TERÇA-FEIRA, 28 DE ABRIL DE 1970.

POLÍCIA FEDERAL SE CONCENTRA NO RIO GRANDE DO NORTE PARA DESBARATAR “SINDICATO DO CRIME”

O pistoleiro Edmar Nunes Leitão, autor de oito crimes na região nordestina, inclusive dos assassinatos dos deputados Carlindo de Souza Dantas e Francisco Miguel, ocorridos em Caicó e Sergipe, chegará às 7 horas de hoje ao Aeroporto Augusto Severo, em Natal, fortemente escoltado por quatro agentes do Departamento de Policia Federal. O delegado regional da Polícia Federal, Sr. Júlio Freire de Revoredo, viajará na manhã de hoje para a capital potiguar, a fim de presidir as investigações que serão procedidas e, inclusive, pessoalmente, fazer acareações e ouvir depoimentos no curso dos trabalhos que serão realizados. Objetiva, segundo as próprias declarações do Sr. Júlio Revoredo pôr a limpo a série interminável de crimes em Caicó e, consequentemente, a detenção de todos que, direta ou indiretamente, concorreram para o estabelecimento do “Sindicato do Crime”.

ORDEM É PRENDER

Frisou o agente federal que fará executar no Rio Grande do Norte, as determinações dadas anteriormente. Baseia-se nas prisões de todos aqueles que estejam envolvidos nos crimes ocorridos em Caicó, quer sejam os autores materiais ou intelectuais das chacinas. Razão porque, acrescentou o Sr. Júlio Revoredo, as pessoas apontadas pelo bandoleiro Edmar Leitão, no curso de seus depoimentos, serão imediatamente detidas, principalmente aqueles que têm ou tiveram ligação com o “Sindicato do Crime”.

Um detalhe que vem intrigando a Polícia Federal diz respeito à “cobertura” que um influente cidadão residente em Natal vem dando ao médico Osvaldo Lobo, acusado de mandante no crime que foi vítima o deputado Carlindo Dantas. Informou o agente Otávio Ruas que o Sr. Osvaldo Lobo é natural da Paraíba, onde foi preso numa fazenda, juntamente com o capataz conhecido por Eronildes. Na fazenda, que é de propriedade do médico, foi encontrado um verdadeiro arsenal composto de seis revólveres, três rifles e uma arma calibre 45.

PONTO OBSCURO

Posto em liberdade, após prestar depoimento na Paraíba, o médico Osvaldo Lobo dirigiu-se a Natal, a fim de homiziar-se na residência de um cidadão influente naquela capital, fugindo à responsabilidade e, inclusive, furtando-se a prestar novos depoimentos á Polícia.

Repórteres, fotógrafos e correspondentes de jornais do Sul radicados em Natal, estão sendo impedidos de entrevistar-se com o médico. Os federais, por sua vez, estão tentando descobrir o local onde se encontra o acusado. Edmar Nunes Leitão, ou “Antônio Letreiro”, como vulgarmente é conhecido, denunciou, como mandantes da morte de Carlindo Dantas, os médicos Osvaldo Lobo e Pedro Militão (assassinado no ano passado), além de um coronel da Polícia Militar do Rio Grande do Norte.

VIÚVA PRESENTE

Edmar vai para Natal, segundo deixou claro, com “a finalidade de resolver esta questão”. Além de vários interrogatórios a que será submetido, “Antônio Letreiro” será acareado com o médico Osvaldo Lobo, com o sargento Antônio Libório e com a viúva do médico Pedro Militão, que também já se encontra era Natal para prestar informações aos federais, acerca da chacina de que foi vítima o seu marido, que por sua vez foi acusado de mandar matar Carlindo Dantas. Edmar Leitão, por outro lado, voltará a avistar-se com pistoleiros e empreiteiros do “Sindicato do Crime” da Paraíba. Todos os pistoleiros e “coiteiros” dos bandidos, presos recentemente em fazendas paraibanas, serão acareados com Edmar, a fim de que seja estabelecido o elo entre os crimes praticados naquele Estado e também no Rio Grande do Norte. As acareações terão início hoje, em Natal, com a presença do delegado regional da Polícia Federal, Sr. Júlio Freire de Revoredo, além dos agentes Otávio Ruas, Mair de Oliveira, Júlio Teixeira e outros.

Antiga cadeia de Pombal, ainda dos tempos do Império. Quem desse local fugiu foi o cangaceiro Jesuíno Brilhante.

POMBAL ERA “QUARTEL GENERAL ” DO CRIME

JOÃO PESSOA (De Raimundo Carrero e Maurício Coutinho, enviados especiais) — No depoimento que prestou à Polícia Federal da Paraíba o pistoleiro Levi Olímpio, apontado como um dos principais membros do “Sindicato do Crime” tende agido, inclusive, como empresário para os crimes de Edmar Leitão, preso no Ceará, negou que tivesse até o momento praticado qualquer crime. Mas confirmou a existência do “Sindicato”.

Disse ainda que a reunião para o assassinato do médico rio-grandense, Carlindo de Sousa Dantas, realizou-se na casa de um dos coiteiros do grupo, na cidade de Pombal, não tendo precisado o nome. Negou que alguém recebesse dinheiro para os crimes. Acrescentando: “As mortes eram feitas por amizade aos mandantes ou por prazer, nunca por dinheiro”.

MORTE DO DEPUTADO

“Posso acrescentar ainda — disse — que Antônio Letreiro” foi “peitado” pelo deputado e coronel José Alves Lira, para matar o também deputado coronel Luiz de Barros”.

Na Paraíba, Edmar Leitão, por questões de segurança, fazia se passar por “Antônio”, assim como seu irmão José Maria, por “Ednaldo”; Acusou este último de ter assassinado em São Bento do Bofete, na Bahia, o cidadão conhecido por “Neném Leiteiro”.

POMBAL

Pombal, a cidade do terror, foi apontada por Levi Olímpio, como o quartel general do “Sindicato da Crime”. Na extensão dessa cidade, todo fazendeiro, pobre ou rico, colaborava com os membros do “Sindicato”, uns por cumplicidade (coiteiros), outros por medo.

 Embora Levi tenha negado que recebesse dinheiro com os crimes, a polícia acredita que ele detém em seu poder uma verdadeira máquina montada para morte contra pagamento.

CIGANO BITÓ

Entre os coiteiros apontados por Levi Olímpio, dois nomes são completamente desconhecidos da polícia, e parecem criação do pistoleiro, na esperança de esconder o nome de algum amigo seu. São eles: “Cigano Bitó” e “Dedé Boiadeiro”. “Cigano Bitó”, segundo afirmou Levi, é fazendeiro em Campina Grande, embora até bem pouco tempo fosse um “pobre diabo, não ostentasse nenhuma riqueza”.

Quanto a “Dedé Boiadeiro”, não soube acrescentar nada, afirmando apenas “uma pessoa boa, mas muito perigosa”.

FEDERAIS ADMITEM QUE BANDIDOS FORMAVAM ORGANIZAÇÃO PODEROSA

JOÃO PESSOA (De Raimundo Carrero, Maurício Coutinho e Teobaldo Landim, enviados especiais) — A descoberta de como funcionava o “Sindicato do Crime”, começa a estarrecer o povo desta cidade. A própria polícia mostra-se impressionada, pois não imaginava ser o “Sindicato” uma organização de tamanha amplitude. Os membros do “Sindicato do Crime”, não somente matavam, como ainda fabricavam dinheiro e por cima, realizavam casamentos. Dentro da organização existia até posições hierárquicas, pelo menos, por questão de segurança. O chefe maior era o mandante; depois vinha o empresário; a seguir o contato; e finalmente o assassino. O primeiro mandava eliminar o inimigo e pagava pela execução; o segundo ficava com a missão de conseguir um bom pistoleiro(o assassino), que tivesse boa pontaria: o contato, encarregava-se de saber como andavam as coisas; o último executava o crime conforme o preço que pedisse, Exigia-se muita segurança, honestidade e pouco conhecimento com a Polícia.

CASAMENTO

Até casamento o “Sindicato” fazia. O mais importante deles, foi o de Edmar Leitão (preso cm Fortaleza), também conhecido por “Zé Letreiro” e “Antônio”. Edmar vivia aperreando Levi para casar. Já tinha uma noiva; Rosa Pereira. Como gostava muito dela queria casar e abandonar sua vida de crimes. Todos os dias fazia o mesmo pedido e insistia muito. Levi Olímpio não sabia o que fazer; Edmar era muito procurado pela polícia do Estado e seria perigoso levar um padre para a fazenda. Um juiz, pior ainda. Não era nem para se pensar. O que fazer então? Mas Edmar vivia insistindo. E agora até ameaçava matá-lo se não conseguisse, imediatamente, um padre.

Um dia indo na cidade de Pombal, mandou o motorista do carro em que viajava vestir uma batina, arranjou uns papéis para servir de documento, e mais dois padrinhos e fez o casamento. Levi assegura que nem o próprio Edmar sabe disso.

EDMAR E LEVI VÃO SE AVISTAR CARA O CARA

JOÃO PESSOA (De Raimundo Carrero e Maurício Coutinho, enviados especiais) — O pistoleiro Levi Olímpio Ferreira, pessoa importante dentro do “Sindicato do Crime”, estará seguindo, hoje, para Natal, para um encontro com Edmar Leitão o “Antônio Letreiro”, que virá de Fortaleza, Ceará.

Levi Olímpio seguirá fortemente escoltado por policiais da Polícia Federal, em horário não divulgado, pois teme-se um atentado. A vida de Levi é importante para que se possa desvendar muita coisa que ainda está escondida, na existência do “Sindicato”.

DINHEIRO FALSO

A polícia paraibana continua investigando a denúncia de que os participantes do “Sindicato do Crime” teriam diversas máquinas de fabricar dinheiro. Dessas máquinas eram extraída as cédulas para pagamento aos pistoleiros. Já foram realizadas diversas batidas nas fazendas dos coiteiros apontados por Levi Olímpio Ferreira, nada sendo encontrado.

Enquanto será feito o encontro dos assassinos Levi e Edmar, em Caicó. A Polícia Federal continuará suas investigações, acreditando-se que qualquer novidade possa surgir de um instante para outro.

NECO DA IMACULADA

Noticia-se, ainda nesta cidade, que o pistoleiro Neco da Imaculada, um dos mais perigosos do Nordeste, foi preso numa cidade do interior paraibano, ninguém, no entanto, sabe precisar o local.

Neco da Imaculada é acusado de mais de 20 crimes bárbaros a serviço de poderosos donos de terras e políticos influentes. Os agentes federais admitem, por outro lado, que Neco da Imaculada esteja envolvido em cinco crimes ocorridos era Caicó. Sabe-se, até agora, que das chacinas ali ocorridas, somente as que foram vítimas Carlindo Dantas e o industrial Aníbal Macedo estão praticamente esclarecidas. Edmar Leitão seria o autor das mortes dos dois cidadãos, muito embora os crimes de que foram vítimas os médicos Onaldo Queiroz e Pedro Militão, além do jovem Aníbal, filho do industrial Aníbal Macedo, estão sem solução, admitindo-se que Neco da Imaculada seja autor de um deles.

Isto será minuciosamente investigado pelos federais, a partir do momento em que as diligencias forem prosseguindo em Caicó, principalmente agora com a presença, ali, do bandoleiro Edmar Leitão.

JORNAL DO COMÉRCIO, RECIFE, 28 DE ABRIL DE 1970

FEDERAIS CAPTURAM BANDOLEIRO QUE PRATICOU 20 ASSASSÍNIOS

JOÃO PESSOA (Sucursal) — Durante diligências realizadas ontem, na cidade de Teixeira (PB), 12 agentes do Departamento de Policia Federal efetuaram a prisão do bandoleiro Manoel Batista de Araújo, o “Neco de Imaculada”, autor de 20 assassínios no Nordeste e Juntamente com o pistoleiro Edmar Leitão, é responsável pelos últimos crimes ocorridos em Caicó.

O profissional do gatilho que é considerado um dos mais lendários e sanguinários, há alguns anos vive exclusivamente a custa de coiteiros e ricos fazendeiros a quem prestou serviços na execução de perversos crimes a exemplo do seu comparsa “Tonho do Letreiro” que se acha recolhido em Fortaleza, depois de sua captura na cidade de Icó (CE).

SADISMO

“Neco de Imaculada”, conforme afirmam os marginais que o cercam nunca esconde o enorme sadismo e para provar que é um homem mau, conta que Já eliminou 20 pessoas e cortou muito busto de mulheres, alguns somente para ver a fisionomia de quem sente dores horríveis.

De acordo com as Informações em poder das autoridades policiais a área de ação do bandoleiro sempre foi no interior do Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas e Ceará, onde cumpriu contratos mediante elevadas importâncias para eliminar inimigos dos mandantes, dependendo da posição social das vitimas e poder econômico dos contratantes dos crimes.

ESQUARTEJA, TAMBÉM

Os dois últimos homicídios por ele praticados, verificaram-se há cerca de 45 dias, no Interior cearense, onde matou e esquartejou um casal de Jovens namorados, repetindo o que anteriormente havia feito com uma amante que prometeu abandoná-lo para viver com outro homem. De conformidade ainda com as informações transmitidas pelas autoridades policiais o bandoleiro ora detido na cidade de Teixeira, formava com Edmar Nunes Leitão a dupla de bandidos mais procurada para execução de assassínios, não só pela excelente pontaria que possui, mas, sobretudo em decorrência de não deixar pista.

A ÚLTIMA PRISÃO

 A última vez que “Neco de Imaculada” esteve sendo interrogado pelas autoridades, foi no dia 30 de março do corrente ano quando sequestrou a Jovem Maria José dos Santos, no sitio Saquinho, no interior paraibano, a quem infelicitou nos arredores de Pombal.

Durante a resistência oferecida, como castigo, o bandoleiro a deixou despida diversos dias sob o sol ardente da caatinga e, além de sucessivas surras, foi arrastada sobre cardeiros e proibida de beber água, até ceder aos Intentos do sequestrador.

QUASE LOUCA

No final de suas declarações fornecidas a polícia, a jovem acrescentou que, de certa feita, ele amarrou as suas mãos com o cinturão, lhe cortou a barriga a faca e, não satisfeito, a arrastou pelo chão sobre pedras, paus e espinhos até cansar.

Foi nessa oportunidade que, pensando que a Jovem se achava morta e não desacordada, ele a abandonou e fugiu. No dia seguinte, após recobrar os sentidos, a moça, quase louca, saiu rastejando até que encontrou um casal de agricultores, o qual penalizado de sua situação a levou a um hospital, onde ela pastou diversos dias internada.

FAZENDEIRO QUERIA MATAR PISTOLEIRO

Em depoimento prestado a Polícia Federal, o fazendeiro Levi Olímpio, preso na semana passada juntamente com outros mandantes de crimes, confessou que pertencia ao Sindicato da Morte, contratou pistoleiros para eliminar Inimigos e diversas vezes tentou matar o bandoleiro Tonho do leiteiro envenenado, porque ele sabia demais. O rico agricultor, a quem é atribuída a responsabilidade por uma série de crimes, esclareceu também que há multo tempo pertence à organização que espalha o terror em diversas regiões do país, especialmente no Nordeste, onde nos últimos anos profissionais do gatilho derrubaram indefesos cidadãos.

APONTADO POR LETREIRO

O fazendeiro Levi Olímpio, em virtude de denúncias transmitidas as autoridades pelo pistoleiro profissional Edmar Nunes Leitão, o Tonho do Letreiro, como é conhecido entre os integrantes do Sindicato da Morte, foi detido na semana passada no município de Pombal, juntamente com os criadores Antônio Pereira, Zeca Mãezinha e Francisco de Assis. No transcorrer da gigantesca operação que visava desmantelar a força da organização criminosa atuante nos Estados do Ceará, Alagoas, Rio Grande do Norte e Paraíba, os agente do Departamento de Polícia Federal conseguiram também apreender numerosas arma s e farta munição principalmente na propriedade pertencente a Levi Olímpio.

SABIA DEMAIS

Por mais de uma vez, segundo revelou o fazendeiro, verificando que Tonho do Leiteiro sabia demais a respeito de sua vida e futuramente poderia complicá-lo, fato que constantemente se observa entre mandantes de crimes e profissionais do gatilho, tentou matá-lo envenenado.

Entretanto, muito hábil e desconfiado o bandoleiro sempre recusou fazer refeições e tomar bebidas em sua fazenda, fato que fez ruir todos os seus planos. Agora, em decorrência da delação do bandido, teve o seu nome ligado aos recentes acontecimentos, inclusive com provas difíceis de serem pelo menos atenuadas.

DIÁRIO DE PERNAMBUCO, TERÇA-FEIRA, 29 DE ABRIL DE 1970.

PISTOLEIRO CHEGA A NATAL ESCOLTADO POR FEDERAIS

NATAL (Gledson Oliveira e Maurício Coutinho enviados especiais) — O bandoleiro Edmar Nunes Leitão, que chegou ontem fortemente escoltado a esta capital, deverá ser acareado hoje com o coiteiro Levi Olímpio e o tenente Antônio Libório. O oficial está preso no Quartel da Polícia, em Natal, como autor intelectual da morte do medico Pedro Militão, uma das vítimas dos crimes ocorridos em Caicó.

Edmar chegou a Natal exatamente às 7 horas, escoltado por agentes federais que não permitiram o acesso de repórteres no aeroporto Augusto Severo. Nosso fotógrafo, inclusive, foi solicitado a deixar o “hall” do aeroporto, momentos antes do pouso do Boeing da VASP.

Embora discreto, o aparato policial foi dos mais rigorosos temendo se pela vida do famigerado pistoleiro.

COM MEDO

Edmar ao ser conduzido a Rural Willys da Polícia Federal, placa 2-66 85, que desde às 6 horas se encontrava na pista do Augusto Severo, mostrava-se nervoso e assustado, temendo ser assassinado pelos seus inimigos do “Sindicato do Crime” que ainda estão soltos no Rio Grande do Norte, embora já denunciados nos depoimentos do marginal.

O aparelho da VASP pousou distante a fim de possibilitar aos federais o cerco do pistoleiro. Três agentes entraram na aeronave e o algemaram, enquanto mais dois cercavam no quando desciam a escada do avião em direção a Rural Willys, estacionada frente ao aparelho, aguardando a descida de Edmar, que, propositadamente foi o ultimo passageiro a deixar o Boeing.

Em seguida ele foi levado para a sede da Polícia Federal, Rua Vigário Bartolomeu, 581, sendo de Ia transferido para o Quartel da Polícia Militar onde ficou incomunicável. Hoje, Edmar deverá avistar se com o Sr. Júlio Freire Revoredo, que se deslocou do Recife a fim de acompanhar, em Natal, as investigações que estão se processando. O delegado regional da Polícia Federal chegou a esta capital por volta das 15 horas evitando manter contato com a imprensa.

Não quis revelar, inclusive, onde Edmar será interrogado no dia de hoje, mas admite-se que os trabalhos serão realizados na Polícia Militar, Iocal mais seguro para evitar um possível atentado contra a vida do bandoleiro.

VIU SÔ

O medico e deputado Carlindo de Souza Dantas, abatido pelo pistoleiro Edmar Nunes Leitão, na noite de 28 de outubro de 1967, defronte ao Caicó Esporte Clube, vem sendo apontado como o homem que matou, sozinho, o diretor do SESP daquela cidade, médico Onaldo Pereira de Queiroz, crime ocorrido na madrugada de 28 para 29 de junho de 1968.

O doutor Onaldo, na noite do crime, após tomar alguns drinques com amigos num restaurante daquela cidade, dirigiu-se ao seus aposentos no posto de saúde, onde ficou a descansar numa rede. A noite era fria. Checou a tirar uma soneca, mas despeitou ao ouvir um tiro.

 O CRIME

Notou então que a iluminação da rua fora apagada com a quebra da luminária de um poste que ficava a uns 6 metros de onde estava. Olhou em seu redor e nada viu ou ouviu. Voltou a deitar-se. Um minuto depois ouviu outro disparo, desta vez contra a lâmpada que estava no alpendre do terraço.

Não teve tempo de levantar-se. Um terceiro tiro trespassou-lhe o crâneo, matando-o instantaneamente. Ninguém viu o criminoso, o médico estava só. No chão ficou uma poça de sangue que ia escorrendo pela calçada, enquanto a cabeça da vitima pendia da rede.

Onaldo, um jovem médico de 28 anos, gozava de grande prestígio na classe e junto à população. A sua fama corria o Estado, a ponto do ganhar o cargo de diretor do SESP. A nomeação veio estarrecer e causar inveja a muita gente, inclusive ao Dr. Carlindo Dantas, que sempre pleiteava o lugar. No dia da nomeação houve certo tumulto na cidade, provocado pelo deputado que tinha um temperamento explosivo, razão porque gostava de bebericar na cidade, onde, também, era, enormemente conceituado como bom médico e líder político.

PUNIDO

Carlindo tempos atrás, fora diretor do SESP. Algumas irregularidades afastaram-no das funções. Muito pior: trabalhando no posto subordinado ao médico Onaldo Queiroz, Carlindo voltou a cometer outros desatinos, a ponto de ser novamente por este punido. Isto inflamou os ânimos e provocou, mais ainda, a inveja.

As autoridades que investigam o crime estão propensas a admitir esta hipótese: um acerto de contas em função do orgulho profissional de Carlindo. Vão mais além, fixando-se na suposição de o deputado ter se ressentido porque tinha sido substituído por Onaldo Queiroz. E, assim, sem auxílio de pistoleiro, foi sozinho dar vasão aos recalques que lhe tomaram conta: matar o médico Onaldo friamente, utilizando-se de um revólver calibre 38 duplo.

O LÍDER

Desde tão Carlindo passou a ser visto como criminoso. Todos o apontavam como assassino do colega do SESP, por questões de ciúme e Inveja. Mesmo assim Carlindo continuou sua campanha política, enquanto prosseguiam as investigações que culminaram com a decretação sua custódia preventiva. 33 anos, moço, líder em Caicó pela maneira de tratar seus clientes, a quem, inclusive, receitava de graça. Era querido e estimado por todos. No Estado o seu nome passou a ser uma bandeira em defesa dos humildes.

No período da decretação da prisão preventiva, ele, acusado de assassino, já era visto como um virtual candidato a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. Foi preso. Conseguiu a liberdade pelo Tribunal de Justiça, saindo vitorioso nas urnas. Então abriu frente de combate contra seus acusadores e inimigos, entre os quais o médico Pedro Militão e Osvaldo Lobo.

A MORTE

Eleito deputado, Carlindo voltou a ofensiva, combatendo os que lhe acusavam e prometendo apontar os verdadeiros assassinos de Onaldo Queiroz. Isto muitas vezes, da tribuna da Assembleia, ele, prometia fazer. E fez.

No dia 28 de outubro de 1967, um ano após a morte do diretor de SESP, Carlindo de Souza Dantas, naquela noite, dirigiu-se a um bar e publicamente disse que “eles não tem para onde fugir, vou apontá-los, muito breve”. Passaram-se cinco dias. Carlindo no volante de um Aero-Willys, ia participar de uma festa no Caicó Esporte Clube. Ao entrar foi interceptado pelo pistoleiro José Maria, irmão de Edmar Leitão:

A história de Edmar Nunes Leitão foi transformada em cordel pelo poeta João Domingos da Silva. O pistoleiro seria morto em uma emboscada, anos depois, após fugir da penitenciária de Natal.

“Doutor, o Senhor deixou a luz do carro acessa. Carlindo voltou e ficou de frente para Edmar que, de um DKW passou a disparar incesantemente com dois 38, enquanto “Zé Maria” fazia a cobertura, disparando a esmo, indo três balas atingir o industrial Aníbal Macedo, que, naquela noite — eram 23 horas — acompanhava o deputado. Ambos caíram na calçada, morrendo tempos depois.

 MAIS DUAS MORTES

O jovem Nilson Macedo, filho do industrial Aníbal Macedo, em dezembro do ano passado foi assassinado. Para vingar a morte do pai e do irmão, o jovem Antônio Macedo, “Toinho”, descarregava toda a carga do seu revólver contra o médico Pedro Militão, quando este entrava na Escola Normal de Caicó, onde era professor.

Estes crimes estão impunes. A Polícia Federal investiga a possível participação de Edmar e alguns de seus comparsas nas chacinas. Até agora os federais obtiveram valiosas informações que estão sendo mantidas em sigilo, evitando-se a divulgação pela imprensa. Sabe-se que três inquéritos estão concluídos nos quais estão relacionados os matadores de Nilson Macedo e Pedro Militão.

A MILITÂNCIA E O SOFRIMENTO DO COMUNISTA MAIS FAMOSO DE NATAL

Doutor Vulpiano Cavalcanti de Araújo.

EM UMA ENTREVISTA CONCEDIDA EM 1984 AOS JORNALISTAS MARCO AURÉLIO DE SÁ, OSAIR VASCONCELOS E TICIANO DUARTE, O DR. VULPIANO LEMBROUA SUA LONGA MILITÂNCIA E O FAMOSO CASO EM QUE FOI OBRIGADO A FUGIR DE UMA MULTIDÃO EM JUAZEIRO DO NORTE, QUE ACREDITAVA QUE ELE E OUTROS COMUNISTAS ESTAVAM NA CIDADE PARA ROUBAR OS OSSOS DO PADRE CÍCERO.

Vulpiano Cavalcanti, cearense, 74 anos, médico ginecologista e obstetra, é militante do Partido Comunista Brasileiro desde os anos 20, quando se empolgou com a “Coluna Prestes” e começou a conviver nas Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro com os precursores do comunismo no Brasil. Nesses longos anos, à exceção de um curto período entre 1945 e 1946, o seu exercício político tem sido praticado sempre na clandestinidade. E por conta de suas ideias foi preso inúmeras vezes e até torturado. Neste depoimento, ele narra toda a sua trajetória política, principalmente no Rio Grande do Norte, para onde veio há mais de 30 anos, inicialmente para Areia Branca, Mossoró e Macau, e depois para Natal. Detalhes inéditos sobre a atuação do PC, revelação de sofrimento e de torturas físicas que enfrentou nos tempos de maior repressão ao comunismo, nomes de pessoas que perderam a vida em nome da causa em que acreditavam, e até nomes de alguns torturadores que agiram no Rio Grande do Norte são relembrados aqui por Vulpiano, um septuagenário que não se julga velho, mas apenas “usado e maltratado”. Confiante no processo de abertura democrática do país, nas eleições diretas para presidente da República e na legalização do PC, ele – que faz parte do Comitê dos Dirigentes Comunistas – espera que dentro em breve o partido possa levar sua mensagem às massas sem que os seus militantes estejam expostos às represálias e à violência.

MARCOS — Como e quando o sr. decidiu-se a ingressar no Partido Comunista?

VULPIANO — Isto é uma questão de gênese. Meu avô. Melo César, por parte de minha mãe, teve um irmão que morreu na revolução pernambucana, esquartejado. Meu avô por parte de pai foi nomeado comendador do Império, mas era um republicano. De maneira que ele esteve cotado para barão, mas morreu republicano. Ele era um sujeito liberal. Houve uma seca no Ceará e ele construiu um açude lá no Boqueirão de Arara, ao qual os pobres tinham livre acesso a água, que era uma coisa difícil. Por isso que eu digo: sempre fui revolucionário por uma questão de gênese, pois sou descendente de revolucionários.

OSAIR — Mas houve influências que o conduziram ao Comunismo? Os livros, os amigos. . .

VULPIANO — A principio, eu era “prestista”. E quem não era naquela época? Isso foi no tempo da “Coluna Prestes”, aí por 1922. Então, quando estudante de Medicina, eu fui da Aliança Nacional Libertadora, onde fiz grandes amigos e conheci grandes figuras. Na primeira vez que fui preso, tive notícia de que Carlos Lacerda que pertencia à “Juventude comunista” da época, chegou a chorar porque havia publicado um artigo numa revista onde ele mencionava praticamente todos os comunistas daquela época….

MARCOS — E quando foi a sua adesão?

VULPIANO — Eu passei a ler livros comunistas. Por exemplo: “O ABC do Comunismo”, de Bukarin Isso me indicou a direção. A convivência também me ajudou. Comecei a estudar Medicina na Bahia, depois me transferi para o Rio. Fiz amizade com Isnard Teixeira, com Simões de Menezes, e outros, e fui aceitando cada vez mais as ideias do Comunismo. Foi por esse tempo também que Carlos Prestes se decidiu pelo Partido. Desta forma, posso dizer que sou um militante da velha guarda.

TICIANO — O Sr. tem quantos anos de militância?

VULPIANO — Desde 1922, praticamente, até hoje. E nesse tempo todo, se o Partido passou dois anos na legalidade, foi muito!

MARCOS — Então, o Sr. formado em Medicina, militante do PC, como veio parar no Rio Grande da Norte?

VULPIANO — Eu me formei em 1929 e era um dos mais novos estudantes de Medicina, pois entrei na faculdade com apenas 17 anos. Concluído o curso, eu segui para Fortaleza, pois sou cearense. Lá procurei entrar para o Partido Comunista quando ele entrou para a legalidade, mais ou menos pelo ano de 1946. A partir daí, passei a ser membro de um partido legalizado. Depois, veio o problema do fechamento. O Presidente Dutra resolveu fazer uma tragédia por causa da prisão de um bêbado lá em Moscou. O nosso embaixador na Rússia, que era um beberrão, envolveu-se num incidente por lá e terminou sendo preso por desordem. “O Jornal”, de Chateaubriand, publicou então a fotografia do embaixador deitado no chão, apanhando dos cossacos. Isto serviu de pretexto para o nosso país cortar relações com Moscou. Mesmo na ilegalidade, continuei ainda no Partido Comunista. Foi nessa clandestinidade que eu terminei vindo para o Rio Grande do Norte, porque me perguntaram onde é que eu gostaria de servir. Como existia um parente meu — Nestor Falcão, tio do ex-ministro Armando Falcão — que me sugeriu que em Areia Branca havia uma oportunidade para mim, eu me instalei lá, onde venci como médico com uma facilidade incrível. Como Mossoró fica próximo a Areia Branca, eu ia muito até lá. E numa dessas vezes fui procurado por um dos médicos do hospital da cidade que me pediu ajuda. Ele me disse: “Colega, você é do Ceará, venha me dar aqui uma explicação. Estou com uma cliente que está perdendo muito sangue e eu não sei se o seu caso é um aborto ou se é uma gravidez”. Depois de ver o caso, eu disse que a mulher tinha de ser operada de urgência. E ele ponderou: “Mas não tem quem faca esta operação aqui!” Aí olhei para ele e respondi: “Eu faço”. “Mas toda cesariana que se faz aqui, morre mãe e filho” — afirmou o colega. Eu então disse que gostaria de tentar. E deu tudo certo. Com isso, correu logo o boato de que tinha chegado um médico em Mossoró que operava cesariana e não morria nem mãe nem filho. . . Assim foi a minha chegada em Mossoró! Porém quem fez mais propaganda minha mesmo foi o bispo Dom João Batista Porto Carrero Costa. . . Ele fez um sermão na igreja de Mossoró em que avisava às mães cristãs da cidade sobre a minha presença. Dizia ele: “Acaba de chegar a essa cidade um médico hábil, inteligente e culto, e por isto mesmo escolhido a dedo por Moscou para pregar o comunismo no Rio Grande do Norte”! Isto me deu um cartaz imenso e a minha clinica disparou. Eu já não dava vencimento à procura. Eu atendia muito em Areia Branca, mas operava em Mossoró, pois em Areia Branca não havia hospital. E interessante era o seguinte: como um automóvel era muito caro, ficava mais barato viajar de avião. Nessa época. Vieira, que era um ótimo piloto lá em Mossoró, era quem me transportava para Açu, Macau e diferentes cidades daquela área, onde eu atendia. Então, correu o boato de que “tinha chegado um médico, Dr. Vulpiano, que era enviado por Deus e que vinha voando atender as doentes”. E é verdade que eu ia mesmo voando, mas de teco-teco.

TICIANQ — E quando se deu a sua primeira prisão?

VULPIANO — Foi mais ou menos em 1952, quando eu me encontrava em Areia Branca. Chegando à cidade, fui me hospedar numa casa do Sindicato dos Salineiros. Então, por perversidade ou não, picharam na frente do prédio a frase “Viva o Partido Comunista”. Com isto, me botaram para fora do prédio. Ai houve um gesto muito bacana: os salineiros se reuniram e disseram: “Botaram o Dr. Vulpiano para fora. . . Pois a agora ele vai ser o nosso médico, o médico das nossas famílias”. E me contrataram me pagando um salário muito grande! Eu me senti reabilitado pela solidariedade. E eu atendia a todo mundo, até de graça.

MARCOS — E aí veio a prisão?. . .

VULPIANO — Eu estava em Macau… Já era o “assombro” do Rio Grande do Norte, com “a foice e o martelo na testa”, quando prepararam a minha prisão. Havia um sargentinho por lá que bebia muito… Ele reuniu o Tiro de Guerra e mandou me cercar, prendendo-me. Eu estava nessa ocasião com um plano de trabalho do Partido, onde constava exatamente uma greve dos trabalhadores das salinas. Mas eu escrevia tudo com uma letra muito miúda, que não se lia facilmente. Se letra de médico é ruim, vocês imaginem a gente querendo fazê-la ainda pior! Pegaram meus documentos.  Ai o sargento disse “Depois eu vejo. . .” e colocou-os de lado. No meio deles, estava o plano da greve. E eu fiquei pensando como tirar aquilo das mãos dele. Aí fixei os olhos em algum objeto do outro lado e ele acompanhou meu olhar. Enquanto isto eu passei a mão no papel e botei-o na boca. E foi aí que eu vi como é difícil a gente engolir papel. Lutei mas não consegui engolir. Depois, fui ao banheiro e o cuspi lá, dando descarga. Bom, essa foi a minha prisão de estreia. Eu me encontrava na companhia de Luiz Maranhão e mais dois outros companheiros de Partido.

TICIANO — Passou quanto tempo preso?

VULPIANO — Fiquei preso no Tiro de Guerra em Macau e depois me mandaram para Natal, com um pelotão de soldados me escoltando. Nesse momento eu disse a Luiz Maranhão: “Não estou gostando disto. É bem possível que sejamos mortos e digam depois que tentamos fugir”. Mas viemos sem problemas, a ponto de numa parada a meio do caminho, em João Câmara, eu informar a uma senhora que estava seguindo preso para Natal e ela dizer que não acreditava. Aí me voltei para os oficiais e perguntei “Vou ou não preso para Natal”? “Vai”. Aí a mulher acreditou e disse: “Ah, o Sr. é que é o Dr. Vulpiano? Já ouvi falar muito do seu nome e queria que o Sr. examinasse a minha filha que vai ser submetida a uma operação de fibroma. “Eu tive permissão de ir fazer o exame. Fui e vi que em vez de um fibroma, era um “filhoma”. . . E eu disse à mãe que não deixasse operar a moça, pois em três ou quatro meses o “fibroma” sairia naturalmente. . . (Risos). Então, vim para Nata! e não me lembro que tempo eu passei na prisão. Sei que estive preso aqui em Natal várias vezes. Numa das vezes um tenente da Aeronáutica — que depois foi servir no Canadá — criou um sistema de celas que tinham apenas uns quatro palmos de largura por sete de altura. E eu fui colocado numa dessas, nu, sem agasalho, com dois alto-falantes desses de rua, voltados para dentro da cela. Esses autofalantes ficavam a irradiar músicas.Não sei se vocês se lembram de uma música que imitava toda a bicharada? Que imitava o pato, o porco, o boi? Aquilo não tinha quem aguentasse ouvir três vezes, tão chata era a música. E eu tinha de ouvir aquilo dia e noite, a todo volume. A cela era de cimento armado, sem grades, e para o sujeito não morrer sufocado havia uma porta de ferro com uns furinhos que não dava para passar um dedo. Era um negócio chatérrimo. O Tenente Bravo da Câmara chegou algumas vezes a urinar por um desses buracos da porta, caindo a urina sobre meu rosto. Em me lembro de que eles aplicavam vários tipos de tortura. Um deles era o rádio relógio. Hoje, o rádio relógio é muito diferente: tem notícias, tem músicas. Naquele tempo era só aquele barulho: tum, rum, rum, tum . Tantos minutos para seis horas… tum, tum, tum. Passa um minuto de seis horas.  Tum, tum, tum . . . Aquilo era de lascar! O único momento de alívio que eu tinha ali em Parnamirim era quando eles chamavam a gente para o banho. Aquela aguazinha fria me fazia sentir retemperado para começar de novo. . . Eram proibidas as visitas. Eu ficava sem poder ver até a minha mulher. . . Havia do lado de fora um pássaro que repetia as primeiras notas da “Sonata Aurora” de Beethoven. Eu que sempre apreciei a música erudita, me deliciava com o canto da ave, mas ao mesmo tempo me revoltava mais com a prisão, vendo o pássaro em liberdade.

MARCOS — Mas o que ocasionou as suas prisões? Havia algum movimento a ser deflagrado?

 VULPIANO — Nunca houve movimento preparado aqui no Rio Grande do Norte. Se houve movimento aqui, preparado peles comunistas, foi no tempo de Getúlio, em 1935. O meu trabalho era apenas o de arregimentar. Eu, por exemplo, saía à noite com outro companheiro, para visitar algumas pessoas. Havia uma vigilância tremenda! Eu arranjei uma cabocla, filha do dono de uma casa para onde a gente ia, e saí de braço com ela, tentando despistar. Mas, quando vi, estava diante de um carro da Aeronáutica, do qual desceram os soldados para me prenderem. 0 interessante nessa ocasião foi que a Aeronáutica deu uma nota pelo jornal “tranquilizando as famílias norte-rio-grandenses” e dizendo que a Aeronáutica estava preparada para repelir qualquer movimento Comunista. Só que esse movimento nunca houve.

MARCOS — Havia que tipos de torturas físicas?

VULPIANO — Vejam com os seus próprios olhos. . . Esta grande cicatriz no meu braço esquerdo foi causada por pontas de cigarro. A água fervendo, chega a 100 graus. A chama de um cigarro vai a 600 graus. Enquanto eu era interrogado, na presença do major Hipólito da Costa, do capitão Souza Mendes e do tarado sargento Correia, eles queriam que eu dissesse os nomes da outros membros do Partido. E, diante do meu silêncio, eles encostavam o cigarro no meu braço e pelo corpo inteiro e gritavam “Responda, seu filho da… ” Como eu não nasci para ser dedo-duro, eu não falava. No auge das torturas, eu me lembrava dos nomes de alguns que já estavam presos e os citava, mas nunca denunciei ninguém, é claro! Outra tortura que eu recebi foi quando me pegaram uma vez no consultório, quando eu já morava em Natal e tinha o meu consultório numa sala ali na Avenida Rio Branco, no primeiro andar da Galeria Olímpio. Eu estava examinando uma senhora, quando chega o major Hipólito. Naquele tempo, a Aeronáutica usava uma farda caqui e eu pensei que fosse um- “mata mosquito”, um daqueles guardas da malária. Quando vi o sujeito empurrando a porta do consultório, eu disse: “Não é possível! O Sr. vai entrar aqui desta maneira?” Ele me deu voz de prisão e perguntou se eu ia reagir. Eu respondi que não e que estava ali realizando um atendimento médico a uma paciente. A mulher ficou lá tendo um ataque, fazendo o maior alarde. Então, o major Hipólito me arrastou escada abaixo e me levou preso em um jipe. Fui posto naquela mesma cela que eu já descrevi. Eu fui na ilusão de que não demoraria muito a ser liberado. Levei a minha identidade de oficial da reserva, joguei em cima da mesa com toda elegância, e o filho da mãe só fez olhar para mim, rasgar o documento e atirar na minha cara. Aí eu perdi qualquer ilusão. Essa prisão, as torturas, além dos alto-falantes, tinha uma sessão noturna de charanga, quando vinham aquelas pessoas com tambores bater nas portas das celas, para chacoalhar, acabar com os meus nervos. Mas não conseguiram não.

MARCOS — Quanto tempo o Senhor esteve preso?

VULPIANO — Eu sofri quatro prisões. A última, em 1964, me durou dois anos e dois meses. É preciso que vocês vejam o seguinte: pela legislação da época, eles só tinham direito de me prender pelo prazo de 60 dias, que era o período de averiguações. Mas isto foi esquecido! Depois de um ano e um mês, eu ouvi um boato de que ia sersolto. A empregada da minha casa ia me levar almoço no quartel e então mandei dizer à minha mulher que havia o boato da minha soltura, embora eu ainda não estivesse acreditando. São coisas que eu nunca consegui compreender. . . Eu tenho impressão de que um juiz, naquela época, queria me libertar. Eles não deixaram. Então, resolveram me botar num avião e me levaram para Pernambuco. Passei lá dois dias, fui muito bem tratado, bem alimentado e tive condições de cortar minhas unhas, fazer minha barba. Voltei de novo para cá, novinho.

TICIANO — Durante esse período o Senhor voltou a ser torturado?

VULPIANO — Não. Não digo que tenham me tratado bem, mas me trataram com respeito.

TICIANO — Mas o Senhor voltou ainda a ser preso outras vexes, não foi?

VULPIANO — Sim, a Polícia Federal. Sofri ainda duas ou três prisões pela Polícia Federal, mas não fui mais torturado. Fui bem tratado. Não sei se é porque eu sou maçon. Eu fiz os sinais maçônicos de socorro, que a gente faz sempre, e não me trataram mal. Pelo contrário!

OSAIR — Ao longo da sua trajetória profissional e política, o Senhor sofreu alguma discriminação da sociedade por ter uma ideologia diferente?

VULPIANO — Não. Jamais notei esse tipo de discriminação.

OSAIR — Embora o Senhor seja um comunista, nós estamos vendo aqui na sua biblioteca um exemplar da Bíblia.

VULPIANO — Esta Bíblia pertence à minha filha. Ê um dos maiores livros da humanidade. É um livro muito interessante. Se todo mundo lesse a Bíblia, a humanidade seria melhor, mas é um livro muito interessante.

TICIANO — Qual é a imagem que hoje você faz de Carlos Prestes?

VULPIANO — Eu já disse uma vez que tinha uma verdadeira adoração pelo “Cavaleiro da Esperança”. Eu tenho na minha biblioteca um livro de Prestes, que me foi oferecido por ele. Mas eu não gostei do livro, que é um negócio muito pessoal. O pessoal da direção do Partido chamou várias vezes Prestes para fazer crítica, autocrítica, e ele sempre recusou. Eu percebia que estava havendo alguma coisa, mas não podia imaginar que ia chegar à profundidade que chegou. Acabaram afastando, eu não diria expulsando Prestes do Partido. Ele continuou como um patrimônio histórico e não era possível expulsar um cara daquele, como os jornais geralmente afirmam. Giocondo Dias assumiu a secretario geral do Partido. Um amigo meu, Dr. Sarinho, uma vez me perguntou: “Com quem você está? Com Giocondo ou com Prestes?” Eu respondi: “Continuo com o Partido, Sarinho”.

TICIANO — E sua impressão de Giocondo?

VULPIANO — Eu conversei muito com Giocondo Dias, inclusive sobre um episódio que se comenta aqui no Rio Grande do Norte que teria ocorrido logo depois da revolução de 35, quando ele era cabo e liderou o movimento em Natal. Dizem que, depois da revolução, ele refugiou-se em Lages e lá teria tentado conquistar a mulher de um fazendeiro que o escondia. Ele nega o assunto completamente. Diz ele que naquele tempo tinha a ilusão da pureza do Partido. A mulher insistia para ter relações com ele. Com raiva da sua resistência, a mulher foi dizer ao marido que ele estava tentando conquistá-la. A coisa foi mais ou menos assim.

MARCOS — Por que o Partido Comunista nunca conseguiu um apoio popular mais amplo no Brasil?

VULPIANO — Em primeiro lugar, ainda não nos deram oportunidade de mobilização, não é? Se o Partido passou dois anos na legalidade, passou muito! E nesse curto espaço de tempo, Carlos Prestes se elegeu senador com 600 mil votos! Para fazer um proselitismo como nós desejaríamos, o tempo foi muito curto. Eu não creio que o Partido, apesar dos erros que tem — incontestavelmente tem e são sérios — não tenha capacidade de atrair o povo. Entre os maiores erros eu cito, por exemplo: o Partido Comunista, no chamado “manifesto de agosto”, preconizou o que nós chamávamos de preparação para a guerrilha, na esperança de que aqui no Brasil nós devíamos fazer como na China. Isto, mas ganhou em Natal. Natal ficou até conhecida com o “moscouzinho”.

MARCOS — Mas o que eu dizia é o seguinte; a nível nacional, talvez o PC não tenha influído na eleição de ninguém, mas a nível estadual os comunistas já deram valiosas contribuições na eleição de diversos governadores. Aqui mesmo no Rio Grande do Norte nós sabemos que em 1960, Aluízio contou com a simpatia dos comunistas.

VULPIANO — Um dia desses, até Ticiano escreveu uma história interessante, sobre o relacionamento de Aluízio com os comunistas. Quando eu estava preso em 1964, quiseram que eu informasse quanto Aluízio tinha dado ao Partido Comunista , e eu disse : “Ele até prometeu dar algum a contribuição, mas dizem que ele não gosta muito d e cumprir seus compromissos” .

MARCOS — O Senhor poderia relatar algo mais sobre sua militância comunista?

VULPIANO — Vou contar alguns episódios da época da legalidade. Uma vez eu saí de Fortaleza para o interior do Crato, de Juazeiro. Ia com Jeová Mota, Luiz Mendes e outro s companheiros. Estávamos tomando café num a pensão lá em Juazeiro quando entrou um matuto e cravou o punhal na mesa, declarando: “Quem for homem, diga que é comunista! “Quem é que ia ter coragem de dizer que era”? Nós íamos fazer um comício na cidade e mandamos distribuir uns panfletos. 0 padre então reuniu as “Filhas de Maria” dizendo-lhes que os comunistas iam roubar os ossos do Padre Cícero para mandá-los para Moscou. E insuflou-as contra nós. Nós estávamos na casa de um camarada que dizia ter muitos votos, mas terminamos vendo que ele só tinha conversa. E vimos aquela massa avançando em nossa direção. A sorte é que a casa tinha fundos para outra rua e nós tivemos tempo de correr. A massa ignara nos perseguia, entrando de casa em casa, revistando tudo , abrindo guarda-roupas . Fomos salvos por um maçon que despistou o pessoal, indicando que nós tínhamos fugido numa direção oposta à que nós realmente seguimos.

MARCOS — Com o Senhor pessoalmente está vendo essa luta da sociedade pelas liberdades, pela eleição democrática, por uma nova constituição, pelas diretas? Isto tudo pode acabar num novo fechamento do regime, ou a gente tende mesmo a encontrar uma saída democrática para o país?

VULPIANO — Incontestavelmente, o presidente é presidente só porque está cercado por alguns que o forçam a fazer certas coisas. Vejam por exemplo a saída do ministro Maximiano. Ele pediu demissão. Você s deve m ter percebido — e eu vi aqui pela televisão — a solidariedade que recebeu da própria Marinha. Quinhentos oficiais de alta patente foram recebê-lo no aeroporto. Não houve discurso, houve nada. Mas só a presença era como se eles estivessem dizendo “conte conosco”.

MARCOS — E a emenda que o governo deve estar mandando ao Congresso, propondo eleição direta para presidente só e m 1990?

VULPIANO — Eu vejo isto como uma coisa feita para atender a Figueiredo, mas não creio que isto aconteça não. Diante da campanha do país inteiro pelas eleições diretas-já , eles vão ter muita dificuldade de impor essa solução.

MARCOS — O Senhor acredita que saia a curto prazo a legalização do Partido Comunista no Brasil?

VULPIANO — Não só acredito como afirmo que não há democracia sem o funcionamento do Partido Comunista. No s Estados Unidos existe o Partido Comunista. Embora seja considerada uma entidade estrangeira, mas está lá! Vai haver a legalização no Brasil. É o povo que quer. Podem surgir ainda muitas dificuldades, mas essa luta será vitoriosa.

TICIANO — Cite uma figura importante do Comunismo no Rio Grande, do Norte, uma figura de sua admiração, a quem você atribua importância na luta pelos ideais comunistas no Rio Grande do Norte.

VULPIANO — Há quem diga que o Rio Grande do Norte teve dois mártires : Frei Miguelinho e Luiz Maranhão, sendo que este último morreu pela causa socialista.

MARCOS — O Senhor poderia enumerar alguns membros do Partido Comunista no Rio Grande do Norte que perderam a vida a o longo dessas lutas na clandestinidade?

VULPIANO — Daqui morreu bastante gente. Cito, por exemplo, aquele guerrilheiro macauense Migue l Moreira. Num livro sobre a Intentona Comunista, João Medeiros Filho conta como morreu Miguel Moreira. Ele convidou um companheiro para acompanhá-lo num assalto que ia fazer — assalto politico! — e o companheiro o seguiu, indo sempre atrás. Quando viu que ele estava a uma distância segura, matou- o pelas costas com um tiro de revólver. Tratava-se de um elemento infiltrado. Agora, dizer quem são os outros que perderam a vida, eu prefiro não dizer. Há tanta gente importante no meio disso. E o Dr. Vulpiano não é o único a saber.

ATENÇÃO – AS FOTOS AQUI APRESENTADAS FORAM REALIZADAS NO DIA 14 DE JUNHO DE 1984, NA CÂMARA MUNICIPAL DE NATAL, NA OCASIÃO EM QUE O DR. VULPIANO RECEBEU O TÍTULO DE CIDADÃO NATALENSE. INFELIZMENTE NÃO DESCOBRI A AUTORIA DESSAS FOTOS.

65 ANOS DA PRIMEIRA APRESENTAÇÃO DE LUIZ GONZAGA EM NATAL

Luiz Gonzaga e seu grupo.

O Grande Mestre da Música Nordestina Se Apresentou na Rádio Poti de Natal em 1956, Junto Com Seu Pai, O Velho Januário, Em Meio a Uma Tournée Pelo Nordeste.

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN.

Em meio as lembranças pelos 30 anos da partida do Mestre Luiz Gonzaga, achei interessante apresentar um material que encontrei nos velhos jornais sobre a primeira apresentação dessa lenda da cultura nordestina na capital potiguar. E foi a primeira de muitas!

Em 1954 Luiz Gonzaga do Nascimento, pernambucano da cidade de Exu e se encontrava no auge da carreira. Ele, suas músicas, o seu chapéu de couro e sua sanfona eram apresentados com extrema assiduidade nas principais revistas dedicadas aos artistas do rádio. Os mesmos rádios, então o principal veículo de comunicação popular existente nos lares do país naquela época, onde os brasileiros ouviam e admiravam a sua potente voz.

Luiz Gonzaga e sua alegria, registrada na Revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro-RJ, ano XXIV, nº 39, ed. 12 de setembro de 1952.

Luiz Gonzaga foi o primeiro artista musical oriundo do Nordeste a ser um grande sucesso popular. Isso pode ser comprovado em junho de 1952, no Rio de Janeiro, quando ocorreu uma festa que reuniu 60.000 pessoas para escutar o Rei do Baião e dançar xaxado. Foi durante os festejos juninos realizados no bairro de São Cristóvão, mais precisamente no antigo Campo de São Cristóvão, onde até hoje acontece a famosa feira no atual Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas. A festança foi promovida pelas Rádios Tamoio e Tupi, onde contou com ampla cobertura da Rede Tupi de Televisão, a primeira emissora de TV da América Latina e inaugurada apenas dois anos antes[1].

As câmeras da Rede Tupi de Televisão registrando a festa de 1952 em São Cristovão. Revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro-RJ, ano XXIV, nº 39, ed. 12 de setembro de 1952.

Segundo Dominique Dreyfus, escritora francesa que escreveu a biografia Vida de Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga, os anos de 1953 e 1954 foram de muitas viagens para realização de tournées pelo Brasil afora. Perto da metade do ano de 1954 teve início mais uma, com o patrocínio do Colírio Moura Brasil, onde o aclamado Rei do Baião percorreu várias cidades nordestinas.

Uma carioca de belas pernas, da equipe de dançarinas da TV Tupi, xaxando feito uma nordestina. Revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro-RJ, ano XXIV, nº 39, ed. 12 de setembro de 1952.

Pouco antes de iniciar a nova série de viagens, quando no dia 25 de maio realizou uma apresentação na Rádio Mayrink Veiga, Luiz Gonzaga recebeu um exemplar de uma asa branca em uma gaiola, ofertado pelo povo de Exu, que lhe foi entregue por Cândido Holanda Cavalcanti, oficial médico da Força Aérea Brasileira e seu conterrâneo[2].  

Na Estrada

Quando realizou uma apresentação na cidade baiana de Feira de Santana, no Campo do Gado, quem testemunhou o espetáculo foi o escritor, sociólogo e jornalista Muniz Sodré de Araújo Cabral, então com 12 anos de idade, que registrou “Era noite de céu brilhante. Enluarado, Gonzaga subiu ao palanque, com chapéu de couro cru e três estrelas na aba da frente, gibão de couro, alpercatas e sanfona prateada dependurada no pescoço. O grito de louvação do povo, longo, em uníssono, fez vibrar o madeirame do palco. Como esquecer?”[3].

Sabemos que nessa tournée Gonzaga esteve no Maranhão, no Piauí e em Campina Grande, na Paraíba. Nessa cidade fez uma apresentação na Rádio Borborema e esteve na sede do Partido Democrático Social, o PSD, uma das maiores agremiações políticas do Brasil na época, onde recebeu um abraço do então senador Rui Carneiro[4].

Luiz Gonzaga ao centro, com um grande lenço e Humberto Teixeira é o primeiro da direita para esquerda com chapéu de couro.

No Ceará também houve a mescla de show e política. Primeiramente Gonzaga realizou em Fortaleza uma apresentação no auditório da Rádio Clube do Ceará, na sequência cantou ao ar livre durante a Primeira Festa do Radialista, em evento transmitido pela Rádio Iracema[5]. Depois seguiu para apoiar politicamente o amigo Humberto Teixeira em sua terra natal, a cidade cearense de Iguatu. Formado em 1944 pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, Humberto Cavalcanti Teixeira ganhou fama como compositor em parceria com Luiz Gonzaga, principalmente a partir de 1945[6].

Logo Gonzaga, trazendo sua sanfona, apontou a bússola para a direção da capital potiguar. Segundo o jornal natalense O Poti, o Rei do Baião chegou acompanhado de uma figura ilustre; Januário José dos Santos, seu pai, o conhecido Velho Januário.

Luiz Gonzaga e seu pai, o Velho Januário, que na foto está com uma sanfona de 8 baixos – Fonte – https://fabiomota1977.wordpress.com/2006/11/21/seu-januario-o-mestre-dos-8-baixos/

Januário era da região do Pajeú, em Pernambuco, tendo nascido a 25 de setembro de 1888. Consta que premido pela estiagem chegou à Fazenda Caiçara, a doze quilômetros de Exu, acompanhado de seu irmão Pedro Anselmo, no ano de 1905. Lavrador e exímio sanfoneiro de oito baixos ficou conhecido por ser um homem dedicado à família e respeitado em toda a sua região pela sua arte. Foi casado primeiramente com Ana Batista de Jesus Gonzaga do Nascimento, a mãe de Luiz Gonzaga, conhecida na região por “Santana”, ou “Mãe Santana”, cuja união com Januário gerou nove filhos[7]. Em 1954 o Rei do Baião já havia levado seu pai para o Rio de Janeiro, mas ele decidiu voltar para Exu, próximo a Serra do Araripe. Não sei como ocorreram as circunstâncias e negociações para o Velho Januário acompanhar seu filho Luiz Gonzaga nessas apresentações pelo Nordeste há 65 anos, mas o certo é que os dois vieram juntos para Natal.

O Rei do Baião também veio acompanhado de Osvaldo Nunes Pereira, baiano de Jequié. Este era um jovem humilde, que era anão e tocava triângulo. Pela baixa estatura recebeu primeiramente o nome artístico de Anão do Xaxado e depois Salário Mínimo[8]. Além deste fazia parte do grupo que chegou a Natal o zabumbeiro conhecido como Aluízio.

Sobre esse último integrante temos um pequeno mistério!

Nas páginas 181 a 186 do livro de Dominique Dreyfus encontramos os detalhes sobre a saída do zabumbeiro Catamilho e do tocador de triângulo Zequinha como instrumentistas acompanhantes de Gonzaga em 1953. Bem como podemos ler sobre a entrada de Osvaldo Nunes Pereira e de um zabumbeiro piauiense chamado Juraci Miranda, conhecido como Cacau.

Dreyfus inclusive traz uma foto na página 187, onde Luiz Gonzaga se apresenta em um palco ao lado do Anão do Xaxado com o triângulo e de um zabumbeiro que é apontado como sendo Cacau. Ocorre que na página 29 do livro Forró – The Ecoding by Luiz Gonzaga, de autoria de Climério de Oliveira Santos e Tarcísio Soares Resende, publicado pela CEPE Editora em 2014, como parte da série Batuque Book, com edição bilíngue em português/inglês, é possível ver a mesma foto com a legenda (em inglês) que indica ser Salário Mínimo no triângulo e na zabumba o tocador era Aluízio. Como o jornal natalense O Poti também aponta que Aluízio esteve com o Rei do baião na capital potiguar, na sequência de suas apresentações em Fortaleza, creio que o trabalho de Santos e Resende parece está correto.

Independente desse pormenor, o certo é que em agosto de 1954 o Anão do Xaxado e Aluízio eram relativamente novos na parceria com Gonzaga.

No “Auditório B” da Rádio Poti de Natal

Luiz Gonzaga, seu pai e os dois tocadores que lhe acompanhavam a Natal iriam se apresentar nos auditórios da Rádio Poti.

Postal com o anteprojeto da Rádio Educadora de Natal, de autoria de Carlos Lamas e construção da empresa de Gentil Ferreira de Souza. O sonho de uma rádio em Natal se concretizava.

Essa rádio se originou a partir da Rádio Educadora de Natal – REN, a primeira emissora do Rio Grande do Norte e que entrou efetivamente no ar em 29 de novembro de 1941. Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, proprietário de um conglomerado midiático chamado Diários Associados, que nessa época abrangia jornais em várias cidades brasileiras, revistas e estações de rádio, compra m 1944 a REN e a transforma na Rádio Poti. A renovada emissora transmitia em AM (amplitude modulada), na frequência de 1.270 kHz e mantendo o tradicional prefixo da REN – ZYB-5.

Assis Chateaubriand discusando.

Essa rádio se torna um grande sucesso na cidade, pois através da ação dos Diários Associados o seu auditório passou a receber muitos cantores nacionalmente conhecidos. Um deles foi Sílvio Caldas, que ali se apresentou entre 25 e 27 de maio de 1948, sob o patrocínio do “Creme dental Nicotan”[9].

Logo Chateaubriand decidiu realizar alterações na rádio, sendo a principal ação a ampliação e modernização do chamado “palco-auditório”, na sede que a Rádio Poti possuía na Avenida Deodoro. Isso proporcionou uma maior e melhor capacidade de transmitir programas de auditório, humorísticos, jornalísticos, musicais, radionovelas e outros. A festa de inauguração do novo auditório, o conhecido “Auditório da Avenida Deodoro”, ocorreu em uma sexta-feira, 3 de novembro de 1950. O mestre da cerimônia foi o radialista Genar Wanderley e a principal atração foi uma bela e exuberante cantora de 21 anos de idade, nascida na cidade paulista de Taubaté e chamada Hebe Camargo[10].

Ao ler os jornais da época percebe-se nitidamente o estrondoso sucesso do novo “palco-auditório” da Rádio Poti, aonde as apresentações vão ocorrendo e movimentando intensamente a vida cultural de Natal.

Diante do sucesso dessas apresentações e buscando ampliar o público, a direção da Rádio Poti decidiu utilizar  o que passou a ser chamado de “Auditório B”. Este era um auditório amplo e confortável, que ficava na antiga sede do Alecrim Futebol Clube, na Avenida Presidente Bandeira, ou Avenida 2[11].

Antiga sede da Rádio Poty, a principal de Natal.

Esse era um local que, além das atividades próprias da administração dessa tradicional equipe de futebol natalense, também era um ponto de grande efervescência cultural. Ali ocorreram grandes bailes de carnaval, festas juninas, reuniões de partidos políticos, festas dançantes aos domingos e até peças de teatro. Em março de 1949, o renomado teatrólogo Inácio Meira Pires ali criou um núcleo de teatro amador chamado “Teatro do Bairro”, que utilizava o auditório do Alecrim Clube como local de apresentações[12]. Vale ressaltar que muitas dessas festas, reuniões políticas, peças de teatro e outros acontecimentos importantes eram transmitidos pela Rádio Poti.

No sábado, 31 de agosto de 1954, ocorreu a transmissão no palco do Alecrim Clube do programa “Vesperal dos Brotinhos”, sob o comando de Luiz Cordeiro e Rubens Cristino. No outro dia aconteceu no mesmo palco a comemoração do sexto aniversario do popular programa de auditório “Domingo Alegre”, apresentado por Genar Wanderley, sendo os ingressos vendidos por apenas CR$ 3,60 (três cruzeiros e sessenta centavos)[13].

Logo foi anunciada a apresentação de Luiz Gonzaga.

Sucesso em Natal

Certamente ser supersticioso era algo que o grande Luiz Gonzaga não era, pois sua primeira apresentação na capital do Rio Grande do Norte ocorreu em uma sexta-feira, dia 13, do mês de agosto. E foi um sucesso!

Sabemos que os ingressos foram vendidos ao preço de CR$ 10,00 (dez cruzeiros). Um valor não tão elevado em 1954, equivalente a uma corrida de taxi para o que era considerado naquele tempo o perímetro urbano de Natal. Pois fora dessa área tudo era mais caro. Uma corrida para a praia de Ponta Negra custava R$ 80,00 (oitenta cruzeiros). Já para o Aeroporto de Parnamirim o valor saltava para R$ 100,00 (cem cruzeiros)[14].

Luiz Gonzaga trouxe “um repertório inteiramente novo, suficiente para um espetáculo completo”. Se aconteceu como foi descrito no jornal natalense O Poti, certamente o Rei do Baião tocou no palco do Alecrim Clube os sucessos produzidos no primeiro semestre de 1954. Tais como “Feira do gado” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas), “Velho novo Exu” (Luiz Gonzaga/Sylvio M. Araújo), “Olha a pisada” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas) “Lascando o cano” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas) e outros. A estes com certeza se juntaram aos sucessos criados do ano anterior, como a fantástica música “O xote das meninas”, a bela “Algodão” (ambas as composições fruto da parceria Luiz Gonzaga/Zé Dantas) e outros grandes sucessos. Os informes jornalísticos apontam que o auditório “superlotou” para assistir o Rei do Baião, sendo muito aplaudidas as apresentações musicais.

Da esquerda para direita vemos Aluízio, Luiz Gonzaga, o Velho Januário e o Anão do Xaxado, tal como se apresentaram em Natal – Fonte – http://www.forroemvinil.com/luiz-gonzaga-e-januario-em-fortaleza/

No sábado por volta das quatro da tarde, Luiz Gonzaga realizou aparentemente sozinho, uma entrevista na Rádio Poti. À noite, por volta das oito horas, nos estúdios da mesma rádio foi realizada uma nova apresentação musical com Luiz, seu pai e os instrumentistas, que O Poti informou ter sido transmitida em “ondas médias e curtas”.

Já no domingo a tarde, 15 de agosto, Luiz Gonzaga, o Velho Januário, Anão do Xaxado e Aluízio bisaram o show no palco do Alecrim Clube. Depois, às nove horas da noite, o grupo seguiu para o Auditório da Avenida Deodoro, que se encontrava completamente lotado para a despedida de Luiz Gonzaga de Natal. Eles tocaram no âmbito do programa “Domingo Alegre”, que contou com a apresentação do radialista Genar Wanderley. Na ocasião estava presente o jornalista Edilson Varela, representante dos Diários Associados no Rio Grande do Norte, o grupo de mídia e comunicação comandado por Assis Chateaubriand. Varela era também diretor dos jornais O Poti e Diário do Natal, além de responder administrativamente pela Rádio Poti.

Luiz Gonzaga diante do microfone de uma rádio.

Show em Currais Novos e Os Vários Retornos ao Rio Grande do Norte

Sabemos que provavelmente naquele agosto de 1954 o tocador Luiz Gonzaga, acompanhado de seu pai e seus instrumentistas, também estiveram na cidade potiguar de Currais Novos.

Segundo o blog “Pimenta com Mel”, do comunicador Felipe Félix, encontramos a informação transmitida por José Nobre de Medeiros, conhecido nessa cidade como Zénobre. Nascido em 1942 na zona rural currais-novense, no Sítio Saquinho da Malhada da Areia, Zénobre informou que viu Luiz Gonzaga em sua cidade em 1954, que assistiu a apresentação do pernambucano de Exu no coreto da Praça Cristo Rei e que o Rei do Baião foi patrocinado pela fábrica de bicicletas Monark[15].

Recebemos a informação do engenheiro civil Moacir Avelino Bezerra Junior e do seu irmão Haroldo Márcio Avelino Bezerra, Professor do IFRN de Mossoró, que nesse mesmo 1954, após uma possível apresentação em Mossoró, Luiz Gonzaga foi convidado pelo rico agropecuarista Francisco das Chagas Sousa, conhecido como Chico Sousa, para cantar na cidade de Afonso Bezerra. A apresentação para a população local foi realizada na carroceria de um caminhão.

Provavelmente nessa ocasião Luiz Gonzaga tocou em outras cidades potiguares, mas infelizmente não consegui dados sobre isso.

Perto do fim do mês Luiz Gonzaga está com o seu pai e seus dois instrumentistas em Recife, Pernambuco. Na noite de sábado, 21 de agosto, ele realizou uma apresentação no tradicional Clube Internacional, na Rua Benfica, no bairro da Madalena. Foi uma ação em prol da Sociedade Pernambucana de Proteção a Lepra, onde buscavam angariar fundos para a construção da Colônia de Férias de Olinda, destinada as crianças que sofriam dessa doença naquele estado[16].

Sobre as apresentações de Luiz Gonzaga no Rio Grande do Norte, percebemos que o sucesso foi total. Nove meses depois o tocador retornava para novos shows em Natal.

No início de maio de 1955 o pernambucano de Exu retornou para as novas apresentações junto aos auditórios da Rádio Poti sem trazer o Velho Januário. Estavam ao seu lado dois instrumentistas que não foram listados. O interessante é que dessa vez o patrocínio veio da empresa italiana de bebidas Martini & Rossi, que havia desembarcado no Brasil cinco anos antes e procurava se popularizar através do Rei do Baião[17].

O Rei do Baião era artista contratado da empresa RCA Victor, sendo um dos seus campeões de vendagem.

Como no ano anterior, as apresentações de Luiz Gonzaga em Natal foram cobertas de êxito.

Luiz Gonzaga Não Gostava de Natal e do Rio Grande do Norte?

E esse sucesso se repetiu ao longo dos anos, a cada nova apresentação desse incomparável sanfoneiro na capital potiguar.

Nota em jornal natalense para novas apresentações de Luiz Gonzaga na capital potiguar, após 1954.

Mas alguns pesquisadores afirmam que Luiz Gonzaga tinha uma relação negativa com Natal e o Rio Grande do Norte. Isso teria ocorrido em razão de alguns calotes que o mesmo teria levado de empresários de shows locais. Mas para quem pesquisa as páginas dos jornais antigos isso não fica aparente, pois são inúmeras as apresentações desse artista em Natal ao longo de décadas. Creio que dificilmente Rei do Baião retornaria a Natal para continuar sendo mal tratado e vilipendiado!

Propaganda das apresentações de Luiz Gonzaga em Natal no ano de 1956.

Além das apresentações de agosto de 1954 e de maio de 1955, ele retornou em dezembro de 1956 (quando se apresentou para o povão na Praça André de Albuquerque). Depois voltou em dezembro de 1960, no final de junho de 1961 e em fevereiro de 1962. Já no ano de 1975 esse artista esteve em Natal em duas ocasiões. A primeira no mês de março, no show de inauguração solene da Avenida Bernardo Vieira, quando estiveram no mesmo palco que cantou o Rei do Baião os potiguares Ademilde Fonseca, Trio Irakitan e Fernando Luís. A segunda em 9 de agosto, quando juntamente com o Trio Nordestino realizaram um show maravilhoso, para uma Praça Gentil Ferreira completamente lotada. Esse evento aconteceu no mesmo bairro do Alecrim onde Luiz Gonzaga tocou em Natal pela primeira vez no ano de 1954. Esses grandes músicos nordestinos participavam da chamada “Caravana do Sucesso”, uma série de shows por todo o Brasil, patrocinados por uma indústria de bebidas.

Luiz Gonzaga em Natal em agosto de 1975.

Desse momento posso comentar como testemunha ocular.

Garoto de oito anos de idade, assisti a esse show pendurado no pescoço, ou no cangote, do meu pai. Recordo dos potentes holofotes que iluminavam tudo, das milhares de pessoas que lotavam a principal praça do Alecrim e, principalmente, de Luiz Gonzaga com sua sanfona branca, seu chapéu de couro cintilando na mesma cor e de sua voz forte e marcante. Desse dia nunca esqueci que meu pai, Calabar Medeiros, me disse ao sairmos de nossa velha casa na Rua Borborema, no mesmo bairro do Alecrim, para ir assistir esse grande espetáculo – “Esse homem canta a alma da nossa terra, da nossa gente”.

Anos depois, no dia 23 de agosto de 1983, eu tive a oportunidade de assistir ao grande encontro de Luiz Gonzaga e do cantor Raimundo Fagner, além de outras grandes figuras da música nordestina. Foi no atualmente esquecido show “Canta Nordeste – Vozes contra seca”, no chamado movimento “SOS Seca”, que aconteceu no atualmente estádio de futebol Castelão de Natal, sendo uma iniciativa do Instituto Varela Barca. Foi verdadeiramente delirante se encontrar naquele local e acompanhar novamente Luiz Gonzaga, em uma interessante parceria com Fagner. Encontro que renderia três ótimos discos nos anos seguintes. Quis Deus que em 2010 eu conhecesse Raimundo Fagner e ele gentilmente realizasse o prefácio do meu segundo livro João Rufino – Um visionário de fé

Meu pai deixou esse plano no último dia 9 de julho de 2019 e, como meu pai me ensinou, eu jamais deixei de escutar as músicas de Luiz Gonzaga do Nascimento e de me emocionar com sua voz.

NOTAS


[1] Ver revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro-RJ, ano XXIV, nº 39, ed. 12 de setembro de 1952, págs. 21 a 23.

[2] Ver Radiolândia, Rio de Janeiro – RJ, Rio Gráfica Editora, ed. da 1ª quinzena de junho de 1954, pág. 11.

[3] Ver Folha de São Paulo, São Paulo-SP, edição de domingo, 19 de dezembro de 2010, in https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il1912201007.htm  

[4] Ver Diário de Pernambuco, Recife-PE, edição de 25 de agosto de 1954, pág. 11.

[5] Ver Radiolândia, Rio de Janeiro-RJ, Rio Gráfica Editora, ed. 4 de setembro de 1954, pág. 18.

[6] No pleito de outubro de 1954, Humberto Teixeira candidatou-se a deputado federal pelo Ceará na legenda do Partido Social Progressista, mas obteve apenas uma suplência. Ao longo da legislatura 1955-1959, exerceu o mandato em quatro ocasiões. Como deputado federal, obteve a aprovação da chamada Lei Humberto Teixeira, que permitiu a realização de caravanas para a divulgação da música popular brasileira no exterior. Concorreu à reeleição em outubro de 1958, mas não foi bem sucedido.

[7] Em segundas núpcias Januário se uniu a Maria Raimunda de Jesus, em 5 de novembro de 1960. Detalhes sobre sua vida ver https://fabiomota1977.wordpress.com/2006/11/21/seu-januario-o-mestre-dos-8-baixos/

[8] Sobre a participação de Osvaldo Nunes Pereira ver DREYFUS, Dominique. Vida do viajante: a saga de Luiz Gonzaga. São Paulo: Ed. 34, 1996, pags. 182 a 186.

[9] Sobre esse período áureo da Rádio Poti ver http://www2.carosouvintes.org.br/radio-poti-de-natal-narrando-as-primeiras-historias/. Sobre a apresentação de Sílvio Caldas ver jornal A Ordem, Natal-RN, ed. 21 de maio de 1948, pág. 7.

[10] Sobre essa festa ver o Diário de Natal, edição de 4 de novembro de 1950, pág. 6.

[11] O Alecrim Futebol Clube foi fundado no bairro do mesmo nome no ano de 1915 e o seu primeiro goleiro foi o futuro presidente da República do Brasil, João Café Filho. O Alecrim foi campeão de futebol potiguar nos anos de 1924, 1925, 1963, 1964, 1968 (Invicto), 1985 e 1986. Mais sobre esse tradicional clube ver https://www.campeoesdofutebol.com.br/alecrim_historia.html

[12] Sobre o Teatro do Bairro, ver Diário de Natal, edição de 9 de março de 1949, pág. 6.

[13] Ver jornal O Poti, Natal-RN, edição de 1º de agosto de 1954, pág. 8.

[14] Ver jornal O Poti, Natal-RN, edição de 7 de outubro de 1954, 1ª pág.

[15] Ver http://pimentacommelcn.blogspot.com/2012/01/o-rei-do-baiao-e-recordado-com-mais.html

[16] Ver Diário de Pernambuco, Recife-PE, edição de 21 de agosto de 1954, pág. 2.

[17] Ver jornal O Poti, Natal-RN, edição de 4 de maio de 1955, pág. 6.

A GUERRA NO SERTÃO E O NOVO CANGAÇO: 86 MORTOS EM 15 BATALHAS ENTRE POLICIAIS E QUADRILHAS

Ciosac, atual Bepi: inspiração nas volantes que combateram o cangaço para enfrentar criminalidade no Sertão pernambucano – Foto: Rafael Furtado/ Folha de Pernambuco

Utilizando o levantamento realizado pelo Portal OP9, vemos uma verdadeira guerra entre policiais e assaltantes de bancos no Nordeste deixou rastro de quase 90 mortes, sendo 79 suspeitos, seis inocentes e um policial.

Fonte primária – https://www.op9.com.br/ne/noticias/novo-cangaco-86-mortos-em-14-batalhas-entre-policia-e-quadrilhas/

Fonte secundária – https://paraibaonline.com.br/2019/07/oito-envolvidos-em-assalto-sao-assassinados-no-cariri-da-paraiba-veja-imagens/

Utilizar o termo “Novo Cangaço”, como vem sendo chamado o fenômeno dos grupos criminosos fortemente armados que atacam instituições financeiras e comerciais, quase nada tem haver com o Cangaço dos tempos de Lampião. Talvez a imprensa nordestina utilize em abundância esse termo para buscar uma referência que possa enquadrar, classificar essa violência atual. Mas é uma referência que acredito ser muito pouco utilizável quando observamos o que foi o Cangaço e o que é essa bandidagem dos dias atuais. Não vejo nenhuma ligação mais expressiva, com exceção de uma coisa que para mim é bem clara – O medo que esses meliantes criam na população sertaneja, tal como acontecia na época dos cangaceiros.

E o medo é real, presente, forte e cada vez mais violento. Com certos aspectos, equipamentos, armas e números que não me fazem lembrar o combate aos cangaceiros que ocorria em tempos passados, mas algo mais próximo de uma conflagração. A situação atual é muito pior!

Talvez seja exagero de minha parte, mas tendo como base o interessante material produzido pelo Portal OP9, do Grupo Opinião de Comunicação, onde são apontados a morte de pelo menos 79 suspeitos de participação em quadrilhas de assaltos a bancos, carros-fortes e comércios, em confrontações contra forças policiais em cidades do interior do Nordeste desde setembro de 2017. O levantamento do Portal OP9 contabilizou 15 ocorrências fatais envolvendo policiais e integrantes desse chamado “Novo Cangaço”.

Seis pessoas inocentes e um soldado da PM também foram vítimas fatais da guerra contra os assaltantes.  Do total de mortes, 55 foram registradas entre 2017 e 2018, e 31 em 2019.

O último e sangrento episódio dessa verdadeira guerra ocorreu em 2 de julho de 2019, uma terça-feira, quando uma quadrilha formada por oito pessoas foram mortos durante operação conjunta das polícias militares de Pernambuco e da Paraíba.

De acordo com as autoridades o grupo era composto por seis homens, um deles um adolescente de 17 anos, e duas mulheres e faziam parte de um bando armado especializado em investidas contra bancos e comércios.

Uma parte do grupo era formada por suspeitos da participação de assaltos contra um mercadinho e uma casa lotérica na cidade pernambucana Santa Cruz do Capibaribe e do assassinato do policial militar André José da Silva. Fatos esses ocorridos na segunda-feira (1º). Já outra parte das pessoas envolvidas no caso tentava realizar o resgate dos comparsas na região. Ainda segundo as autoridades alguns integrantes desse grupo eram pessoas de uma mesma família e havia igualmente a viúva de um assaltante de banco.

Treinamento de policiais no sertão nordestino. Treinamento, capacitação, equipamentos adequados, apoio, valorização do policial, retaguarda tranquila são algumas das ações primordiais para o bom desenvolvimento da atividade – Fonte – https://www.facebook.com/ciosac.noticias/photos/pcb.343799999529916/343796366196946/?type=3&theater

A ação que culminou na morte dessas oito pessoas teve início quando os quatro suspeitos de praticarem os assaltos e o assassinato do policial em Santa Cruz do Capibaribe fugiram e se encontravam escondidos nas terras do Sítio Boi Brabo, localizado no limite entre os municípios de Riacho de Santo Antônio e Barra de São Miguel, ambos na Paraíba, e próximo a fronteira com Pernambuco. Os fugitivos foram localizados por volta das 3h30 pelos serviços de inteligência das policias estaduais, em uma área de matagal.

De acordo com o tenente-coronel Lúcio Flávio de Campos, comandante do 24° Batalhão da Polícia Militar de Pernambuco, quando outros quatro suspeitos chegaram ao local em dois carros para resgatar os demais. Nesse momento os policiais buscaram capturar o grupo, quando foram recebidos a tiros no local e se iniciou o confronto. Segundo o tenente-coronel Lúcio Flávio de Campos tentou-se a rendição, mas “Como já é uma prática desse tipo de criminosos, eles atentaram contra a vida dos policiais. Socorremos feridos para uma unidade de pronto atendimento, mas não resistiram. Eram extremamente perigosos”, afirmou o, comandante do 24° Batalhão da PM.

A Polícia Civil de Pernambuco informou que foram apreendidos com a quadrilha o dinheiro dos assaltos em Santa Cruz do Capibaribe, duas pistolas calibre 380, dois revólveres calibre 38 e uma espingarda de repetição calibre 12, além de munição. 

Viatura policial atingidas por vários disparos de arma de fogo — Foto: WhatsApp/Reprodução – Fonte – https://www.portaldiario.com.br/noticias/policial/425420/oito-suspeitos-de-envolvimento-na-morte-de-pm-sao-mortos-na-paraiba-vereador-faz-parte-do-grupo.html

Um dos mortos na operação foi o vereador da cidade pernambucana de Betânia, Andson Berigue de Lima, conhecido como Nanaca, do Partido Progressista. Ele teria ido resgatar o irmão, conhecido como Galego de Lena, suspeito de participação no crime em Santa Cruz do Capibaribe. Esse era o líder do grupo, formado ainda por um primo desses irmãos, conhecido como Edys de Gevan.

Ainda segundo a Polícia Civil de Pernambuco, além desses três, um dos mortos é um homem conhecido como Wellington Cabeludo, também da cidade de Betânia, e uma mulher identificada apenas como Jácia de Siba, que manteria um relacionamento amoroso com Galego de Lena. Wellington e Galego possuíam mandados de prisão expedidos em ações criminosas contra bancos.

Os corpos de seis homens e duas mulheres foram empilhados na caçamba de uma picape e levados pelos policiais até a UPA de Santa Cruz do Capibaribe. No caminho até a unidade de saúde, a população aplaudiu o comboio com os cadáveres enquanto os PMs respondiam acenando para os moradores. Em tom de desabafo, o comandante do 24º Batalhão chegou a discursar e foi bastante aplaudido. Ele disse que os criminosos reagiram à abordagem e que foram socorridos pelos policiais. Os corpos foram levados ao IML de Caruaru na tarde desta terça-feira (2).

A estratégia policial de atirar para matar vem dando resultados geralmente comemorados pelos secretários de Defesa Social do Nordeste. Também não é a primeira vez que os corpos dos suspeitos são empilhados em caçambas de veículos. Bastante descentralizadas e fortemente armadas, as quadrilhas de assaltos a bancos não costumam atuar no estado de origem, o que dificulta o trabalho de investigação.

Mortes em conflitos entre quadrilhas e policiais no Nordeste:

1 – Entre Janduís e Campo Grande (Rio Grande do Norte) – 03 de setembro de 2017.

As Polícias Militares da Paraíba e do Rio Grande do Norte apreenderam três fuzis, entre eles um AK-47, três espingardas calibre 12, duas pistolas, vários explosivos, sete coletes e dois carros, após um confronto que teve mais de meia hora de intensa troca de tiros, entre as cidades de Janduís e Campo Grande, Oeste do Estado do Rio Grande do Norte. Na ação, quatro criminosos que receberam os policiais a tiros foram baleados, ainda chegaram a ser socorridos pela própria PM, mas não resistiram e morreram. Eles fazem parte da quadrilha responsável por atacar, por volta das 4h40 da manhã, a agência do banco do Bradesco da cidade de Brejo do Cruz, no sertão da Paraíba.

2 – Lagoa Grande (Pernambuco) – 08 de novembro de 2017

Dois integrantes de uma quadrilha de assaltos a bancos e carros-fortes morreram em confronto com policiais da Companhia Independente de Policiamento Especializado na Caatinga (CIPE-Caatinga), da Bahia. Os suspeitos transitavam num veículo e foram interceptados na PE-555, em Lagoa Grande (PE), no Sertão do São Francisco. Durante a troca de tiros, três homens conseguiram fugir. A quadrilha vinha sendo monitorada pela Polícia Federal (PF) e a operação contou também com a participação da CIOSAC, equipe da Polícia Militar pernambucana especializada em combater a criminalidade no sertão.

Armas também foram apreendidas com suspeitos de ataques a bancos no interior de Alagoas — Foto: Ascom/Polícia Civil – Fonte – https://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/operacao-tem-mortes-e-prisoes-de-suspeitos-de-roubo-a-banco-em-agua-branca-al.ghtml

3 – Água Branca (Alagoas) – 14 de abril de 2018.

Dois homens suspeitos de envolvimento em assalto a agências bancárias morreram durante confronto com a polícia no município de Água Branca, Sertão de Alagoas. três pessoas foram presas, além disso, quatro fuzis, escopetas, dinamites e espoletas também foram apreendidos. Os detidos e o material foram levados para a delegacia em Delmiro Gouveia.-AL.

4 – Amontadas (Ceará) – 26 de julho de 2018.

Um confronto entre policiais civis e criminosos acusados de tráfico, assalto a banco, homicídios e furtos, terminou com três mortos e um agente ferido de raspão. A operação aconteceu em Amontada, Município localizado na Zona Norte do Estado do Ceará. De acordo com a Polícia Civil, a ocorrência tinha como objetivo capturar o trio, que já vinha sendo investigado pela Delegacia de Roubos e Furtos (DRF), e estava escondido na zona rural dessa cidade.

5 – Japaratuba (Sergipe) – 4 de setembro de 2018.

Uma troca de tiros entre policiais civis e um grupo suspeito de realizar assaltos em Sergipe deixou sete mortos na cidade de Japaratuba, além disso, foi apreendida uma grande quantidade de armas. A Secretaria de Segurança de Segurança Pública de Sergipe (SSP/SE), informou que ação policial tem ligação com a investigação de um assalto realizado a uma agência bancária na cidade Itabaianinha-SE, realizado no início do mês de agosto.

6 – Salgueiro (Pernambuco) – 26 de setembro de 2018.

Seis homens foram mortos e um ficou ferido quando tentavam roubar um avião de transporte de valores na pista de pouso do aeroporto de Salgueiro. O dinheiro seria utilizado para abastecer um banco da cidade. De acordo a Polícia Federal, os assaltantes invadiram a pista no momento da aterrissagem do avião e abordaram o os vigilantes dos carros-fortes que transportariam o dinheiro. Os suspeitos atiraram no piloto e o obrigaram a parar a aeronave. Com os suspeitos mortos, a polícia encontrou seis fuzis e uma metralhadora ponto 50 que estava instalada em um dos veículos utilizados. 

7 – Santana de Ipanema (Alagoas) – 8 de novembro de 2018.

Uma operação da Divisão Especial de Investigação e Capturas (Deic) de Alagoas, ocorrida na zona rural de Santana do Ipanema deixou 11 mortos.  O grupo estava envolvido em um assalto a uma agência do Bradesco, ocorrido na madrugada desta quinta-feira, em Águas Belas, no agreste de Pernambuco. Na operação, foram apreendidos explosivos, armas, dinheiro e uma caminhonete.

8 – Quixeré (Ceará) – 23 de novembro de 2018.

Uma tentativa de assalto a um carro-forte terminou com sete suspeitos mortos num confronto com a polícia em Quixeré. Seis fuzis e munições de diversos calibres, explosivos, coletes balísticos e outros artefatos foram apreendidos. O grupo criminoso estava dividido em três carros, em direção ao Rio Jaguaribe, para interceptar o carro-forte. O Gate foi ao local e foi recebido com disparos. Uma aeronave da Coordenadoria Integrada de Operações Aéreas (Ciopaer) deu apoio aos policiais em terra. A maior parte dos criminosos transitava entre São João do Jaguaribe, Limoeiro do Norte, Tabuleiro do Norte, Quixeré e Morada Nova. Dois eram potiguares.

9 – Bacabal (Maranhão) – 25 de novembro de 2018.

Um grupo de criminosos calculado em 50 homens assaltou duas agências bancárias, ateou fogo em veículos e atacou um quartel militar na noite deste domingo (25) na cidade de Bacabal (MA), que fica a cerca de 240 km de São Luís, capital do estado. Três suspeitos foram mortos no confronto com policiais, sendo um deles do Tocantins.

10 – Milagres (Ceará) – 07 de dezembro de 2018

Uma tentativa de assalto a duas agências bancárias na cidade de Milagres, distante 482 km de Fortaleza, no estado do Ceará, deixou doze mortos, sendo seis suspeitos do crime e seis reféns, cinco destes de uma mesma família. Antes da investida em Milagres, a mesma organização já tinha participado de assaltos a bancos, incluindo um em Belo Jardim e outro em Santa Cruz do Capibaribe,  ambas em Pernambuco. Esse crime foi o de maior número de mortos envolvendo civis. 

11– Arapiraca (Alagoas) – 24 de fevereiro de 2019.

Quatro suspeitos foram mortos durante confronto com a Polícia Militar na madrugada do dia 24 de fevereiro após ação criminosa na agência dos Correios no município de Arapiraca, em Alagoas. Eles são suspeitos de integrar uma quadrilha de roubo a banco em Mato Grosso com atuação em outros estados. Outros três membros da quadrilha foram presos em Maceió.

12- Lauro de Freitas (Bahia) – 13 de maio de 2019.

Três suspeitos de fazer parte da quadrilha que atacou a agência do Banco do Brasil na cidade de Barreiras, oeste da Bahia, foram mortos na tarde do dia 13 de maio em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador. A PM baiana informou que os suspeitos estavam em uma pousada e reagiram quando foram baleados.

13- Cocal (Piauí) – 5 de maio de 2019.

Seis suspeitos foram mortos em confronto com a polícia na zona rural de Cocal, no Norte do Piauí. Outros três foram localizados em um acampamento na região da cidade de Barras e o resultado foi o mesmo. Os grupo faria parte de uma quadrilha de roubos a bancos de Minas Gerais e teriam participado do assalto a duas agências bancárias que ocorreu no dia 30 de março, na cidade de Campo Maior, também no Piauí. Outros cinco membros do grupo foram presos.Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Piauí, todos foram mortos após reagirem à prisão.

14 – Lagarto (Sergipe) – 03 de abril de 2019.

O Complexo de Operações Policiais Especiais (Cope) da Polícia Civil e a Polícia Militar de Sergipe desencadearam no município de Lagarto uma operação que resultou na prisão de três integrantes de uma quadrilha baiana especializada em assaltos a banco. Seis integrantes da organização criminosa reagiram à prisão e foram mortos em confronto. Segundo investigação, eles pretendiam explodir as agências bancárias do município de Simão Dias, e se esconderam em uma casa no Povoado Açu Velho, na cidade de Lagarto, onde houve o confronto com a polícia.

15- Barra de São Miguel (Paraíba) – 02 de julho de 2019.

Um policial militar e oito suspeitos morreram durante uma ação de uma quadrilha de assaltos a bancos no Agreste de Pernambuco no dia 1º de julho. Após parte da quadrilha assassinar um soldado da PM, oito integrantes do grupo foram mortos pelas PMs da PB e de PE em Barra de São Miguel, na Paraíba.

O OP9 é o portal que integra o maior grupo de comunicação do Nordeste. Cinco emissoras de TV e uma de rádio compõem o Sistema Opinião: TV Clube/Record (Pernambuco), TV Ponta Negra/SBT (Rio Grande do Norte), TV Borborema/SBT (Campina Grande), TV Manaíra/Band e Rádio Band News FM (João Pessoa) e TV Ponta Verde/SBT (Alagoas). Esse grupo de comunicação alcança mais de 50 milhões de pessoas mensalmente, em média.

Ver – https://www.op9.com.br/

PINHEIRO MACHADO: O CHEFÃO SECRETO DA REPÚBLICA VELHA


José Gomes Pinheiro Machado

Eminência parda, mandarim e implacável, o senador, assassinado em 1915, mantém o título de homem mais poderoso da República.

Autora- Claudia Giudice

Fonte – https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/pinheiro-machado-historia.phtml?utm_source=facebook.com&utm_medium=facebook&utm_campaign=facebook&fbclid=IwAR1LJyh78P4OpXYgld65ZhH6-ruVIQVdzJSQn3gJvES0nAUGKRf2nWwfQP4

Francisco Manço de Paiva, 33 anos,entrou desapercebido pela porta da frente do Hotel dos Estrangeiros, localizadona Praça José de Alencar, Lapa, no Rio de Janeiro. Inaugurado em 1849, o hotel era considerado o melhor da cidade, logo, do Brasil. Foi um dos primeiros a ter banheiros com ducha, lavanderia, restaurante e telefone com linha exclusiva para os hóspedes ilustres. Rapidamente, se tornou ponto de encontro de empresários e políticos da capital federal. Por esse motivo, inclusive, Paiva estava lá, esperando. Escondido.

Naquela manhã de 8 de setembro, Pinheiro Machado não teve um dia bom. Estava frustrado porque não conseguiu quórum na sessão que confirmaria o ex-presidente Hermes da Fonseca, seu candidato, como senador pelo Rio Grande do Sul. Depois do almoço, deixou o Palácio do Conde dos Arcos, sede do Senado Federal, no Campo de Santana, para se reunir com o adversário político e ex-presidente paulista Albuquerque Lins. Às 16 horas e 30 minutos, conforme o combinado, chegou ao saguão do Hotel dos Estrangeiros fazendo barulho. Estava em casa. Lá era seu endereço preferido para encontros de política. Segurava o senador Rubião Júnior, do PRP (Partido Republicano Paulista) de São Paulo, pelo braço e era seguido de perto pelos deputados paulistas, Cardoso de Almeida e Bueno de Andrade. O vai e vem dos hóspedes parou quando ouviu-se o grito: “Ah, canalha. Fui apunhalado pelas costas”.

Outra imagem de Pinheiro Machado – Fonte –  Wikimedia Commons

A frase era literal. Aos 63 anos,conhecido por ser a eminência parda da República Velha e um dos mais poderosos políticos do país, o senador gaúcho José Gomes Pinheiro Machado foi ferido de morte pelo jovem Paiva, um padeiro desempregado, desertor do Exército e ex-cabo da polícia, natural do Rio Grande do Sul.

O assassino confesso não fugiu nem tentou se livrar da culpa. Entregou a faca suja de sangue nas mãos de Cardoso de Almeida e esperou a polícia. Foi condenado a 30 anos de prisão e indultado pelo presidente Getúlio Vargas em 1935. Até a morte, na década de 1960, declarou ter agido por conta própria, e não a mando de alguém.

O assassino justificou o crime como a“salvação do Brasil” e se disse inspirado pela leitura de um artigo publicado naquele dia no jornal Gazeta de Notícias. Nele, Pinheiro Machado era acusado deter “braço longo” e de querer mandar em todos os assuntos da República. O padeiro afirmou também que pretendia se vingar do fato de o senador ter sido responsável pela morte de um estudante em Porto Alegre que protestara contra a decisão dele, Machado, de eleger Hermes da Fonseca para o Senado.

Força de Pinheiro Machado – Constituição Brasileira de 1891, onde vemos na página da assinatura do documento a firma de José Gomes Pinheiro Machado (sexta assinatura). Acervo Arquivo Nacional.

Faz 103 anos que essa cena aconteceu. Faz 103 anos, também, que o advogado, general e senador previu a própria morte. Escreveu uma carta-testamento, entregue à sobrinha e afilhada Maria José Azambuja, na qual previa um fim trágico para si. Meses depois, declarou ao jornalista João do Rio, um dos mais influentes de sua época, a seguinte frase: “Morro na luta. Matam-me pelas costas, são uns pernas finas. Pena que não seja no Senado, como César”. Sim, ele era odiado por que tinha poder demais. Era famoso por fazer presidentes, realizar acordos de bastidores impublicáveis e por ser implacável com seus desafetos.

Desde a proclamação da República, nenhum outro senador ou deputado teve, por tanto tempo, igual domínio sobre a política brasileira. O ex-senador gaúcho e fundador do PMDB Pedro Simon, autor da coletânea Discursos de Pinheiro Machado, de 2005, da Editora do Senado, registra: “José Gomes Pinheiro Machado era um político afastado dos holofotes, mais voltado para a atividade de gabinete e totalmente interessado nas manobras de bastidores e na costura dos grandes acordos políticos. Era uma eminência parda. Ruy Barbosa foi o nosso grande patrono no Senado, mas como político foi um homem de derrotas. Perdeu duas vezes a eleição para presidente da República e não tinha influência no governo. Quem mandava e elegia presidentes era o Machado, um dos mais influentes políticos da República, de quem hoje ninguém fala.”


Manço, assassino de Pinheiro Machado – Fonte – Wikimedia Commons

Antes do crime que lhe tirou a vida, Machado foi alvo de protestos populares praticamente diários. O panelaço acontecia na frente do Palácio do Conde dos Arcos, prédio onde hoje funciona a Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele era o tirano-mor da República, acusado de abuso de poder, de desvio de remessas do Exército para tropas sob seu comando, contrabando, fraudes e de até manipular o câmbio. Em um dia muito turbulento, seus assessores aconselharam-no a sair pela porta dos fundos. Fez o contrário. Desceu de cabeça erguida pela escadaria da frente e ordenou ao chofer do seu coche o seguinte: “Siga em uma velocidade nem tão devagar que pareça afronta, nem tão depressa que pareça medo”.

Espada em punho

Pinheiro Machado era filho de um fazendeiro e deputado federal de Cruz Alta, RS. Truculento, cultivou desafetos vida afora e tinha orgulho dessa coleção. O perfil de homem sem limites, sem escrúpulos e de gigantesca força começou a ser desenhado na juventude.


Pinheiro Machado aos 15 anos, no Corpo de Voluntários da Pátria, como soldado do 4º Corpo de Caçadores a Cavalo, na luta às hordas paraguaias que haviam invadido o solo brasileiro.

O historiador Cyro Silva, autor da primeira biografia sobre o político, o descreve de modo quase mítico:“Desde a adolescência, deu inequívocas provas de seu mais puro amor à pátria. Aos 15 anos incompletos, aluno da Escola Preparatória, anexa à Escola Militar da Corte, abandonava seus estudos, sem consentimento das autoridades superiores e, com o desconhecimento dos seus pais, alistava-se no legendário Corpo de Voluntários da Pátria, como soldado do 4º Corpo de Caçadores a Cavalo, na luta às hordas paraguaias que haviam invadido o solo brasileiro. Durante quase três anos suportou as dificuldades de uma luta feroz, em clima insalubre,somente dela se retirando quando o seu organismo em formação não pôde resistir por mais tempo aos miasmas pestíferos dos pântanos paraguaios”.

Foi resgatado do pântano pelo pai. Depois de tratado, mudou-se para São Paulo para estudar direito no Largo de São Francisco. Lá, sucumbiu ao vírus da política, herança de família. Tornou-se fanático defensor do estabelecimento da República no país. Conquistou seu diploma em 1878 e casou-se com a paulista Benedita Brazilina da Silva Moniz, que seria sua companheira pela vida toda. Nos primeiros anos de casados, viveram no Rio Grande, onde Pinheiro Machado advogou e articulou sua futura carreira política ao lado de outros republicanos, como Venâncio Aires e Júlio Prates de Castilhos, este seu grande amigo.

O fim do Império coincidiu com sua primeira eleição para o Senado, em 1890. Nascia ali um articulador das oligarquias regionais com casaco de general. A República Velha, vale lembrar, é o período que começa com a proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, e termina com a Revolução de 1930. Ela teve 13 presidentes e é dividida pelos historiadores em dois períodos: República da Espada, dominado pelos setores mobilizados do Exército apoiados pelos republicanos, e República Oligárquica, quando o poder passou às mãos das elites regionais do Sul e Sudeste.


Hotel dos Estrangeiros, onde Pinheiro Machado foi morto – Fonte – Wikimedia Commons

Machado foi senador por 25 anos, com uma breve interrupção. Em 1893, deixou a cadeira para tomar a frente do comando da Divisão Norte e combater, em seu estado, a Revolução Federalista (1893-1895). De espada em punho, lutou pela recém-nascida República e derrotou os revolucionários monarquistas e separatistas comandados por Gumercindo Saraiva, na Batalha de Passo Fundo. Mereceu pela bravura a fama de degolador e a patente de general de brigada honorário, que lhe rendeu o título de condestável da República. Ele era da turma da espada. Tanto que em 1897 foi acusado de ordenar o atentado contra o então presidente Prudente de Morais, o primeiro civil eleito para governar o país. Ficou preso alguns dias,mas, por falta de provas, foi liberado. Nunca perdeu os modos de general de fronteira. Nas brigas com seus desafetos, era comum atiçá-los a resolver o assunto na mão, na espada ou na bala. Num desses duelos, feriu com um tiro o diretor do jornal Correio da Manhã, Edmundo Bittencourt .

O jornalista e historiador gaúcho Luiz Antônio Farias Duarte corrobora a visão do político todo-poderoso.Em sua tese de mestrado Imprensa e Poder no Brasil –1901-1915 – Estudo da Construção da Personagem Pinheiro Machado pelos Jornais Correio da Manhã (RJ) e A Federação (RS)analisa como o político foi protagonista na mídia durante os primeiros 15 anos do século passado. Por ter debutado jovem, em 1890, tem o crédito e a fama de ser um dos pais da República. A sua primeira articulação famosa foi com o presidente Deodoro da Fonseca.

A pedido de Júlio de Castilhos, Machado procurou o marechal para convencê-lo a moderar o relacionamento com os políticos, apelando em nome do Rio Grande para que não fechasse o Congresso Nacional. O diálogo não logrou sucesso, mas impressionou o então presidente. “Esse fato significou a sua emergência na vida nacional. Ele que havia lutado como voluntário da pátria aos 14 anos e quando estudante de direito fora um dos fundadores do Clube 20 de Setembro, inspirado nos ideais republicanos dos revolucionários farroupilhas de 1835-1845, iniciava no Rio de Janeiro uma influência política que se prolongaria por mais de duas décadas e meia”, descreve Farias Duarte. 

Ao se tornar vice-presidente do Senado em 1902, Pinheiro Machado descobriu sua vocação para eminência parda da República. Ele controlava a Comissão de Verificação de Poderes. A sua função era decidir quais candidatos eleitos pelo povo poderiam ou não tomar posse. Como um Nero, levantava ou abaixava o polegar para matar no berço novos mandatos parlamentares. Cultivou ódio e abusou do poder que possuía.


Marechal Deodoro da Fonseca – Fonte – Wikimedia Commons

No período da República oligárquica (1894-1930), o senador atingiu o ápice de seu poder. Ultra-articulado e visionário,em 1910 criou o Partido Republicano Conservador (PRC), que se destacou diante do Partido Republicano Paulista, o primeiro do Brasil, e do Partido Republicano Rio-Grandense, também fundado por ele, ambos com viés regionalista. Manobrava com maestria as leis, as verbas e os subsídios para acumular poder para si e enfraquecer as poderosas bancadas de São Paulo e Minas. Na época, as oligarquias dominantes eram desses dois estados, compondo a famosa política do café com leite, por causa da importância da produção de café paulista e do leite mineiro para a combalida economia agrícola e industrial da época.

Dos pampas ao Cariri

Esse poderio foi construído sempre do Senado. Pinheiro Machado investiu na constituição de uma bancada periférica que, sob sua permanente liderança, passou a ser crucial nas votações. Deu tão certo que ele estendeu a iniciativa à Câmara, o que lhe garantiu uma expressão política e um poder incomparáveis.

Outro exemplo emblemático da sua força política conecta o senador gaúcho ao Cariri de Padre Cícero Romão Batista. Líder inconteste da sua região, prefeito de Juazeiro e suspenso das ordens sacerdotais, Cícero foi aclamado pela convenção do PRC (Partido Republicano Conservador) como candidato à terceira vice-presidência do Ceará, cargo que aceitou de bom grado. As eleições aconteceriam em abril de 1912. No meio do caminho, o presidente do Ceará, seu padrinho político, Nogueira Accioly, também conhecido como Coronel Babaquara por sua fama de apalermado e roceiro, foi obrigado a renunciar por causa de um massacre de sua polícia contra uma passeata de mulheres e crianças. Parecia o fim. Não foi.

O escritor Lira Neto destaca o episódio na biografia Padre Cícero, Poder, Fé e Guerra no Sertão: “Por uma dessas circunstâncias que somente a política é capaz de explicar, um acordo de bastidores terminou por garantir a manutenção do nome de Cícero na terceira vice-presidência estadual. Foi um acerto de cúpula, firmado no Rio de Janeiro, com a bênção do chefe nacional do PRC, o senador Pinheiro Machado, considerado à época o homem mais poderoso da República e candidato declarado à sucessão de Hermes da Fonseca. Machado, que mantinha sua influência nacional à custa do apoio das oligarquias estaduais,providenciou em seu laboratório político o antídoto contra a derrocada de Accioly”. Na marra, Cícero ocupou uma das três vagas de vice-presidente doestado.

Pinheiro Machado X Ruy Barbosa

Sua influência no executivo cresceu em 1909, quando o vice Nilo Peçanha assumiu a presidência após a morte de Afonso Pena. Foi um período de conflitos e disputas. Ambos, no entanto, apoiaram a candidatura do marechal Hermes da Fonseca à Presidência da República contra o baiano Ruy Barbosa, em 1910.


Ruy Barbosa  – Fonte – Wikimedia Commons

Foi uma disputa desigual, que revelou a força do filho de Cruz Alta. Conhecido como o “Águia de Haia”, Ruy Barbosa era uma figura notável. Diplomata, jurista, jornalista, escritor, tradutor e espetacular orador, tinha tudo para ser eleito presidente não houvesse um Pinheiro Machado em seu caminho. Hermes recebeu 403 mil votos, enquanto Ruy mereceu 222 mil. Na época, essa diferença não era normal.

Quem estava na oposição recebia, no máximo, 20 mil votos. Na tribuna do Senado, as rusgas entre o Águia de Haia e o “quero-quero dos pampas”, apelido de Pinheiro Machado, eram exóticas e divertidas. Brigavam por causa do estouro do tempo das falas,trocavam ofensas infantis e se enfrentavam por causa até de conjugação verbal.Sempre que Machado atropelava o português em suas falas – como quando disse “Eu me defenderei enquanto vossa excelência se manter na tribuna” – Barbosa retrucava, professoral: “Perdão, enquanto eu me mantiver é o que o nobre senador quer dizer”.

Machado e Ruy Barbosa foram adversários notórios e permanentes. Tipo gato e cachorro, embora sempre unidos pela causa republicana. A briga, a propósito, é anterior à disputa eleitoral. Começou quando Barbosa, então ministro da Fazenda, exagerou na política de crédito em favor das elites regionais. A medida pressionou a dívida pública e gerou uma crise inflacionária. O presidente Campos Salles, quando assumiu, pediu ajuda de Machado para acalmar os descontentes com a nova política econômica de rédeas curtas.


Charge publicada pela revista O Gato Reprodução

Por essas e outras, o primeiro mandarim da república tornou-se uma figura legendária, influente e ao mesmo tempo alvo de todos os ódios e críticas. Ao assumir, o marechal Hermes da Fonseca achou que poderia livrar-se do padrinho político ao criar a política salvacionista, na qual por meio de intervenções militares cassava os governadores para nomear pessoas da sua confiança. Não deu certo. Recuou. A fraqueza do marechal, vale dizer, tinha também razões pessoais.

Em novembro de 1912, com a morte da primeira-dama, Orsina da Fonseca, Hermes passou a se mostrar alheio a questões políticas e administrativas. Apaixonado pela cantora e artista Nair de Tefé, com quem viria a se casar em 1913, encaminhou as atribuições do cargo a auxiliares diretos. O expediente burocrático ficou a cargo do mordomo oficial, Oscar Pires. Já o político caiu nas mãos de Machado. Um ano antes de passar a faixa presidencial para o mineiro Venceslau Brás, uma piada publicada pela revista O Gato resumiu e fez justiça ao poder do senador gaúcho. Na charge, Hermes da Fonseca diz ao sucessor: “Olha, Venceslau, o Pinheiro é tão bom amigo que chega a governar pela gente”.

UMA ÓTIMA NOTÍCIA – FOI LANÇADO UM LIVRO SOBRE A HISTÓRIA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL EM FORTALEZA

Livro

Foi lançado no dia 17 de agosto, às 19h, no Salão Nobre do Ideal Clube, em Fortaleza, Ceará, o livro ‘Salto sobre o Lago’, do arquiteto e urbanista cearense José Henrique de Almeida Braga.

A publicação aborda o período da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) na capital cearense, enfocando os antecedentes, fatos, personagens, lugares, as unidades militares, os Soldados da Borracha e o dia-a-dia da cidade e das pessoas nesse período.

Considero esta uma ótima notícia para conhecer os aspectos envolvendo o período da Segunda Guerra Mundial na capital cearense e, por tabela, ampliar o conhecimento sobre este conturbado período histórico na Região Nordeste. 

É fruto de uma pesquisa extensa, que exigiu muito do autor Henrique Braga, mas com um positivo e interessante resultado para aqueles que desejam conhecer mais sobre o tema. Além de tudo é uma ótima notícia para todos que desejam conhecer mais da participação do Nordeste do Brasil na Segunda Guerra Mundial. 

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Foto do dia 28 de dezembro de 1943, onde vemos membros da US Navy preparando cargas de profundidade em Pici Field, Fortaleza. Ao fundo um bimotor de patrulha PV1.

Salto sobre o Lago 

Considerada uma obra referencial para os pesquisadores que queiram conhecer mais profundamente sobre o panorama da Segunda Guerra Mundial em Fortaleza, o livro Salto sobre o Lago é resultado de pesquisas em bibliotecas, hemerotecas, depoimentos, arquivos físicos e virtuais, e outros recursos disponíveis na internet. As pesquisas trouxeram à tona, informações muito interessantes que foram verificadas em outras fontes, e contribuíram em muito para elucidar e complementar muitos fatos.

Fruto de um mapeamento, identificação e análise de registros, o livro assinala o período de 1942, quando o Brasil declara guerra à Alemanha, Itália e Japão, aliando-se aos Estados Unidos da América e a outros países na Segunda Guerra Mundial.

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A participação no conflito exigiu do País várias condições impostas por um Acordo de Cooperação Militar com os Estados Unidos, que trazia a modernização das Forças Armadas brasileiras e a permissão para a construção e o uso de bases aéreas para os Estados Unidos no Norte e Nordeste do Brasil.

Nesse cenário, a guerra e a presença dos militares estrangeiros na pacata Fortaleza trouxeram rápidas mudanças socioculturais para a cidade e seus habitantes, com a adoção de novos hábitos e comportamentos. Unidades militares foram criadas ou ampliadas, a atividade comercial foi parcialmente adaptada para o esforço de guerra, e a presença de militares, artistas e autoridades brasileiras e estrangeiras tornava a cidade mais internacional, mais cosmopolita. Há ainda a inesquecível e valorosa contribuição dos cearenses que participaram dos combates ao inimigo em solo italiano, nas praias e águas territoriais pátrios, alguns tombando e outros se ferindo nos campos de batalha.

O autor

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Henrique Braga autografando seu trabalho.

José Henrique de Almeida Braga é arquiteto e urbanista formado pela Universidade Federal do Ceará e pós-graduado pela Fundação Getúlio Vargas, em Gestão Estratégica da Tecnologia da Informação. Atuou profissionalmente como arquiteto no governo do Estado do Ceará, e como profissional liberal. Atualmente exerce atividades profissionais na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Recebeu o título de Amigo do Instituto do Ceará – Instituto Histórico, Geográfico e Antropológico do Ceará, e foi agraciado com a Medalha Amigo da Marinha.

Para comprar este livro entre em contato com o autor através do e-mail – jhenrique.braga@gmail.com

Ou através do website da Editora Premius – www.premius.com.br

Em Fortaleza, o livro também pode ser adquirido de forma presencial na Editora Premius, à rua Manoelito Moreira nº 55, bairro Benfica. Fone (85) 3214-8181.

A editora disponibilizou o livro para a venda na Livraria Leitura no Shopping Del Paseo e Shopping Rio Mar.

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL EM NATAL

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Como um simples informe sobre a venda de material militar usado pelo Exército Brasileiro e publicado logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, pode conter interessantes informações sobre este período da nossa História

Rostand Medeiros – Escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

A história é construída a partir das evidências do passado, utilizando as fontes existentes. Em um trabalho que se realiza sempre distanciado do período dos acontecimentos focados.

E em uma busca como essa os pequenos detalhes de fontes mais amplas poderiam ajudar a conhecer a história de uma região e dos acontecimentos de uma determinada época?

Com certeza!

São pequenas peças que surgem e se unem a outras informações e que ajudam a formar um interessante quebra cabeças. Tudo isso só aumenta o conhecimento.

Aqui trazemos o exemplo de um simples informe sobre a venda de material militar usado pelo Exército Brasileiro em Natal, dois anos após o fim da Segunda Guerra Mundial.

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Parnamirim Field – https://catracalivre.com.br

Na sexta-feira, 30 de maio de 1947, surgiu nos jornais da capital potiguar uma nota informando que o comando do 1° Grupo do 3° Regimento de Artilharia Antiaérea, colocava a venda em hasta pública doze caminhões da marca “Thornycroft”. O negócio seria efetuado na sede da unidade militar naquele mesmo dia, as nove da manhã. As máquinas foram consideradas “sucatas” e avaliadas em Cr$ 8.000,00 (Oito mil cruzeiros). A nota era assinada pelo 1° tenente José do Patrocínio Nogueira, da arma de Intendência.

Mas o que isso tudo significava?

Como todos nós sabemos o Brasil havia participado da Segunda Guerra Mundial, sendo Natal a cidade mais militarizada do país. Na verdade a mais militarizada da América do Sul.

Nos primeiros anos da década de 1940 o Exército Brasileiro deslocou, ou criou, algumas unidades militares para proteger a cidade e a região de algum ataque das potências do Eixo. Entre estas unidades estava o 1° Grupo do 3° Regimento de Artilharia Antiaérea, ou 1/3° RAAAe.

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Flak 88 – Fonte – http://www.goodfon.ru

Esta unidade militar do Exército Brasileiro foi criada em 1940 e tinha sua sede na cidade de Santa Cruz, Rio de Janeiro. Como principal armamento o 1/3° RAAAe possuía os canhões antiaéreos 88 mm C/56, da fábrica Krupp, de Essen, Alemanha. Esse é o conhecido e temido Flak 88 (Flugabwehrkanone 88), provavelmente a peça de artilharia mais lembrada da Segunda Guerra Mundial. 

A primeira vez que o Flak de 88 milímetros combateu foi em 1936 na Espanha, durante a Guerra Civil que arrasou aquela nação. Devido à sua alta velocidade e um projétil pesado e eficiente, esta arma provou ser não apenas uma excelente arma antiaérea, mas também um assassino de tanques. O governo de Getúlio Vargas havia adquirido dos germânicos várias destas peças, quando as nossas relações diplomáticas ainda eram normais com aquele país que se tornou nosso principal inimigo durante a Guerra.

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Flak 88 do 1/3° RAAAe , estacionada provisoriamente nas dependências do antigo 16° Regimento de Infantaria, atual 16° Batalhão de Infantaria Motorizada, no bairro do Tirol, Natal.

Em Natal o 1/3° RAAAe chegou nos primeiros meses de 1942 e tinha seu aquartelamento onde atualmente se encontra as edificações e estruturas do 17° Grupamento de Artilharia de Campanha (17° GAC), na região do atual bairro de Santos Reis e próximo a foz do rio Potengi.

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Medo da guerra em Natal – Informe dos militares publicado em fevereiro de 1942 sobre como deveria ser a ação da população de Natal no caso de um ataque aéreo.

O 1/3° RAAAe  possuía duas baterias de tiro, com quatro canhões Flak 88 cada uma. Uma destas unidades ficava protegendo Parnamirim Field de algum improvável ataque aéreo e as outras quatro ficavam na área da praia de Santa Rita, pertinho das dunas de Genipabu. Nesta última posição estes canhões protegiam a pequena área urbana da capital potiguar, a Base Naval de Natal (então em construção) e a área da base de hidroaviões da Marinha dos Estados Unidos (US Navy) no salgado rio Potengi. Esta última unidade militar era oficialmente denominada pelos americanos como Naval Air Facility-Natal (NAF-Natal), mas que se notabilizou entre os natalenses como “Rampa”, pelas rampas de acesso utilizadas para a retirada e entrada de hidroaviões no rio.

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A Rampa na época da Segunda Guerra.

Já os canhões Flak 88 desta unidade provavelmente eram rebocados pelos caminhões Thornycroft. Estes por sua vez eram caminhões de fabricação inglesa, de três toneladas, do modelo Thornycroft Tartar 6, fabricados em 1937, ou 38, pela empresa Thornycroft Steam Carriege and Van Comapany, de Basingstone, condado de Hampshire, sudeste da Inglaterra. 

O Exercito Brasileiro adquiriu doze unidades desse modelo apenas com os chassis, fabricando localmente as carrocerias de madeira. Estas máquinas robustas foram importadas para transportar originalmente doze canhões St. Chamond, de 75 mm, modelo 1922, fabricados pela empresa Sheneider-Creusot, da comuna de Le Creusot, sudeste da França.

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Caminhão Thornycroft Tartar 6 e canhão St. Chamond, de 75 mm, modelo 1922, em desfile no Rio de Janeiro- Foto – Hart Preston – Fonte – LIFE Collections

O interessante é que estes caminhões ingleses não rebocavam os canhões franceses, mas os transportavam nas carrocerias, no “lombo”, como se dizia. Por isso as suas carrocerias eram estendidas para transportar o canhão, que era relativamente pequeno, e mais seis soldados.

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Outra imagem dos caminhões Thornycroft Tartar – Fonte – webkits.hoop.la

Como esses caminhões provavelmente circularam rebocando os Flak 88 na área da praia de Santa Rita, ou na região da praia do Forte, conforme podemos ver na foto abaixo, fica muito fácil para um potiguar entender porque estes caminhões foram vendidos como “sucatas”!

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Bateria de canhões de 88 mm na paraia do Forte, Natal.

A alta salinidade existente nas águas do nosso litoral, que tanta dor de cabeça trás aos proprietários de veículos em Natal e região nos dias atuais, bem como a precariedade das estradas, devem ter deixado os caminhões ingleses só o caco.  

Infelizmente não consegui encontrar detalhes do comprador destas “sucatas”.

Para finalizar a análise deste simples anúncio de venda, eu não descobri muita coisa sobre o 1° tenente José do Patrocínio Nogueira.

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José do Patrocínio Nogueira , na foto com a patente de tenente-coronel da arma de Intendência – Fonte – haydeeferreira.blogspot.com.br

Mas através das informações do site http://haydeeferreira.blogspot.com.br, mantido pela sua sobrinha, a arquiteta piauiense Haydée Ferreira, e de outras fontes, eu soube que o tenente José do Patrocínio Nogueira iniciou sua carreira na Escola Militar Preparatória de Fortaleza, Ceará, em 1942 (Junto com o potiguar José Gurgel Guará), onde depois foi encaminhado para Natal. Na sequência serviu em Belém e Belo Horizonte, foi professor do Quadro do Magistério Militar do Exército, chegou a coronel em 1972 e faleceu em 2001 em Fortaleza.

Estas até podem não ser informações de relevo, substanciais. Mas é assim, sem nunca desprezar as pequenas peças do quebra-cabeça, que é feito o estudo da História.