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A HISTÓRIA DA EMPREGADA DOMÉSTICA QUE DESCOBRIU 10.000 ESTRELAS

A Nebulosa da Cabeça de Cavalo - Fonte - apod.nasa.gov
A Nebulosa da Cabeça de Cavalo – Fonte – apod.nasa.gov – CLIQUE NAS FOTOS PARA AMPLIAR…

Empregada do diretor do Observatório de Harvard virou peça-chave para a astrofísica quando comandou um grupo de mulheres que descobriu milhares de astros celestes. Neste grupo havia uma moça com um nome bem português

“Até minha empregada faria um trabalho melhor!”, mas o professor Pickering jogava com cartas marcadas quando dirigiu essas palavras de encorajamento a seus assistentes em Harvard. Diante deles acumulavam-se chapas fotográficas com os espectros estelares mais detalhados até aquele momento. As primeiras chapas de uma enorme série que, posteriormente, seriam a chave com a qual a antiga astronomia daria lugar a uma nova ciência: a astrofísica.

Como é a vida; um dia você tem 19 anos e sente o tempo voar. Começa a correr sem rumo, provocando o destino, decide se casar, vai para longe e, em menos de dois anos, está sozinha, na rua, grávida e a 5.000 quilômetros de casa. Esses pensamentos deviam rodopiar na mente de Mina Fleming na primavera de 1879, enquanto se adaptava aos imprevistos da vida e deixava de lado seus seis anos de magistério para procurar um trabalho urgente como empregada doméstica. Sua velha cidade natal, Dundee, não era, claro, lugar para uma mente inquieta, oferecendo apenas um difícil, mas estável futuro na crescente indústria têxtil de juta ou nas fábricas de geleia.

Williamina Paton Stevens Fleming - Fonte - en.wikipedia.org
Williamina Paton Stevens Fleming – Fonte – en.wikipedia.org

Nem seu marido, James Fleming, um contador bancário, viúvo e 15 anos mais velho, era, provavelmente, seu companheiro de viagem ideal. De qualquer forma, a Mrs. Fleming encontrou refúgio e trabalho como empregada doméstica na casa do diretor do Observatório da Universidade de Harvard (Harvard College Observatory), o professor Edward Charles Pickering.

Williamina Paton Stevens Fleming tinha uma personalidade magnética e um rosto atraente, com olhos brilhantes e vivos que aumentavam o efeito encantador, e que, ao entrar, deixava no ar uma saudação alegre, embalada com sotaque escocês. Pickering, cujas habilidades incluíam a de identificar talentos, não duvidou em nenhum momento que, além de todas as outras qualidades, a nova empregada tinha uma educação e inteligência claramente superiores.

Edward Charles Pickering - Fonte - takenote.chs.harvard.edu
Edward Charles Pickering – Fonte – takenote.chs.harvard.edu

Por isso, esperou que ela voltasse da Escócia, para onde Williamina havia retornado para dar à luz a seu filho, e, assim que pisou novamente em Boston, em abril de 1881, ofereceu-lhe um emprego no Observatório. No início, como assistente em tarefas administrativas e para fazer cálculos de rotina para os quais, em sua visão na época, uma mulher teria uma habilidade especial. Pelo menos, mais do que seus assistentes do sexo masculino.

Pickering era um professor de Física no comando de um observatório astronômico, o que não foi facilmente aceito pela velha guarda de Harvard. Acreditava que era hora de introduzir novos métodos. Deixar para trás a antiga astronomia de posição e movimentos e abrir caminho para a fotometria e estudos espectrais. E, embora ainda sem a base física que permitisse compreender a natureza dos objetos, estava certo de que o caminho era a coleta e classificação da maior quantidade de dados.

O Harvard College Observatory em 1899 - Fonte - www.bshs.org.uk
O Harvard College Observatory em 1899 – Fonte – http://www.bshs.org.uk

Para isso, assim como fez Piazzi Smyth em sua campanha pioneira em Tenerife, na Espanha, colocou a técnica à frente do carro da ciência. Com o apoio de seu irmão mais novo, William Henry, começou a adotar o método de obtenção de espectros estelares colocando um prisma na lente do telescópio, para então continuar aperfeiçoando as técnicas espectroscópicas ao longo da década de 1880.

Como sempre na ciência, Pickering foi precedido por gigantes em sua empreitada. Antes dele, as primeiras descrições dos espectros de Sirius e Arturo foram reveladas por William Herschel (1798); a classificação das linhas espectrais do Sol, por Joseph von Fraunhofer (1814); a identificação de elementos químicos na atmosfera solar, por Gustav Kirchhoff e Robert Bunsen (1861); as primeiras chapas e classificações de espectros estelares, por Lewis Rutherfurd (1862); e, finalmente, o trabalho meticuloso do Padre Angelo Secchi (outro jesuíta) durante a década de sessenta (sempre no século XIX), que resultou na primeira classificação de estrelas por sua distribuição de linhas espectrais, ou seja, pelos componentes químicos de suas atmosferas (1867).

As Computadores de Harvard, cerca de 1890. A terceira moça, sentada da esquerda para direita, com uma lupa, era Antônia Caetana de Paiva Pereira Maury, nascida em Cold Spring, Nova York, em 1866. Sua mãe era de descendência portuguesa, de uma família que havia primeiramente imigrado para o Brasil e depois seguiu para os Estados Unidos. Na foto, sentada ao centro, vemos Williamina Fleming - Fonte - https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5a/Astronomer_Edward_Charles_Pickering%27s_Harvard_computers.jpg
As Computadores de Harvard, cerca de 1890. A terceira moça, sentada da esquerda para direita, com uma lupa, era Antonia Caetana de Paiva Pereira Maury, nascida em Nova York, em 1866. Sua avó havia nascido no Brasil, de uma família portuguesa que havia imigrado para o nosso país. Na foto, sentada ao centro, vemos Williamina Fleming – Fonte – https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5a/Astronomer_Edward_Charles_Pickering%27s_Harvard_computers.jpg

Em 1886, chegou o dinheiro da viúva de Henry Draper, um pioneiro na obtenção de fotografias de espectros de estrelas. Em memória de seu marido e para a realização de seu sonho de criar um grande catálogo, interrompido por uma morte prematura, Mary Draper decidiu financiar os trabalhos de Pickering. Fiel ao seu pragmatismo e sem complicar as coisas diante das novidades, Pickering não perdeu tempo. Sua experiência com Williamina Fleming não poderia ter sido melhor, por isso contratou outras nove mulheres para realizar os cálculos de rotina e a classificação dos espectros nas chapas fotográficas.

Era uma equipe de calculadoras humanas que ficariam conhecidas como “computadores de Harvard” ou “o harém de Pickering”, dependendo das intenções. Um grupo de mulheres que continuaria aumentando nos anos seguintes e do qual surgiram algumas representantes da astrofísica mais importantes da história. E, no final das contas, foi uma verdadeira pechincha para o pragmático Pickering, que conseguiu uma brilhante equipe de 10 especialistas ao preço de cinco assistentes homens. Como responsável nomeou Nettie Farrar, que poucos meses depois abandonaria a carreira para se casar. Uma decisão tomada há 130 anos e cujas consequências no presente nos levam a refletir. Pickering não teve dúvidas: Mrs. Fleming iria substituí-la.

Pickering e as senhoras que eram os
Pickering e as senhoras que eram os “Computadores de Harvard, em pé na frente do edifício do C, no Observatório de Harvard College, 13 de maio, 1913 – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/Edward_Charles_Pickering#/media/File:Edward_Charles_Pickering%27s_Harem_13_May_1913.jpg

Trabalhadora, incansável e corajosa o suficiente para defender seus resultados, Williamina Fleming identificou e classificou os espectros de mais de 10.000 estrelas. Ampliou a classificação de quatro grupos de Secchi e introduziu um novo esquema baseado em 16 tipos, usando como referência as linhas de absorção do hidrogênio, identificados alfabeticamente de A a N (pulando a letra J), mais as letras O para estrelas com linhas brilhantes de emissão, P para nebulosas planetárias, e Q para as estrelas que não se encaixam nos grupos anteriores. Essa primeira parte do catálogo Draper, em compensação pelo financiamento recebido, foi publicada por Pickering em 1890, sem citar Fleming como autora (embora seja citada na parte interna e, posteriormente, não tenha hesitado em reconhecer publicamente sua autoria), e é a base da classificação espectral utilizada atualmente (classificação de Harvard).

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As “Computadores de Harvard” em 1891 – Fonte – historyinphotos.blogspot.com

A chegada de espectros de resolução cada vez maior e a instalação de um telescópio em Arequipa, no Peru, no Hemisfério Sul, permitiram que a equipe liderada por Fleming e Pickering avançasse a classificação, especialmente com as importantes contribuições de duas outras “calculadoras”, Antônia Caetano de Paiva Pereira Maury e Annie J. Cannon, que reorganizaram os grupos espectrais e aumentaram o número de estrelas classificadas. Na publicação das ampliações do catálogo Draper lideradas por Maury (1897) e Cannon (em 1901 e várias outras até sua morte, em 1941) seus nomes já constam como autoras do trabalho. No total, as classificações de estrelas realizadas por essas mulheres somaram mais de 400.000.

A contribuição de Fleming poderia ser considerada decisiva e invejável para qualquer astrônomo atualmente, mas também deve ser atribuída a ela a descoberta de 10 supernovas e mais de 300 estrelas variáveis, tendo medido a posição e magnitude de 222 delas (1907), como parte da linha de trabalho que seria conduzida por outro eminente “computador de Harvard”, Henrietta Swan Leavitt, que realizaria uma das descobertas fundamentais da astrofísica: a relação período-luminosidade das Cefeidas, com base na medição de distâncias no Universo. Finalmente, 59 nebulosas, entre as quais se encontra um dos objetos mais belos e fotografados do espaço, a nebulosa Cabeça de Cavalo, na constelação de Orion (1888). Apenas uma descoberta dessa importância serviria para compensar os sacrifícios de qualquer astrônomo. Antes de uma pneumonia matar Mina aos 54 anos, ela ainda teve tempo de publicar uma última classificação de um tipo de estrelas com um espectro particularmente especial e de cor branca, que posteriormente seriam chamadas de “anãs brancas”.

Foto que mostra a Nebulosa da cabeça do Cavalo feita em 1888 - Fonte - freescruz.com
Foto que mostra a Nebulosa da cabeça do Cavalo feita em 1888 – Fonte – freescruz.com

O sucesso no desempenho de suas tarefas e capacidade de trabalhar acabaram sobrecarregando-a com tarefas mais simples que a afastavam, a contragosto, da ciência. Mrs. Fleming foi nomeada curadora da coleção fotográfica do Observatório, sendo o primeiro cargo organizacional ocupado por uma mulher. Mas também passou inúmeras horas, por exemplo, em trabalhos de edição e revisão dos Relatórios Anuais do Observatório. Seu salário “de mulher”, muito inferior ao de seus colegas do sexo masculino, outro motivo de insatisfação e de protesto permanente, pode ser parcialmente compensado, por outro lado, pelo reconhecimento e honras que recebeu de numerosas sociedades astronômicas.

A mesma nebulosa em fotografia recente e com tecnologia mais avançada - Fonte - www.bt-images.net
A mesma nebulosa em fotografia recente e com tecnologia mais avançada – Fonte – http://www.bt-images.net

Em alguma tarde de domingo, talvez perto de um estádio de futebol americano depois de ver o Harvard Crimson, com seus pensamentos vagando livremente entre preocupações diárias e cuidados de mãe, pode ser que em sua mente rodopiassem novamente reflexões sobre os meandros da sorte e de como é a vida.


Antonia Maury - Fonte - https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/90/Antonia_maury.jpg
Antonia Maury – Fonte – https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/90/Antonia_maury.jpg

COMPLEMENTO SOBRE ANTÔNIA CAETANA PAIVA PEREIRA MAURY

Como comentamos anteriormente, sabemos que ela nasceu no estado de Nova Iorque em 1866 e recebeu esse nome em homenagem a sua avó materna, Antonia Caetana de Paiva Pereira (1814-1870), que pertencia a uma família nobre que fugiu de Portugal para o Brasil por conta das guerras de Napoleão Bonaparte. Antonia nasceu no Rio de Janeiro, era filha de Daniel Gardner, médico da corte de Dom João VI e de Carlota Joaquina de Bourbon. Existe uma disputa quanto à identidade da mãe de Antonia. Por volta de 1830, ela foi enviada com o seu irmão Daniel para viver com a sua tia em Londres. Na capital da Inglaterra Antonia casou, em 13 de setembro de 1831, com o cientista John Willian Draper e depois o casal emigrou para os Estados Unidos.

Já Antonia Maury estudou no Vassar Colege, graduando-se em 1887 com honras em física, astronomia e filosofia. Depois de completar seu trabalho de graduação, Maury foi trabalhar em Havard, onde observou espectros estelares e publicou um importante catálogo de classificações em 1897.

Sua obra mais famosa é uma análise espectroscópica da estrela binária Beta Lyrae, publicado em 1933. Em 1943 ela foi agraciada com o Annie J. Cannon Award in Astronomy pela American Astronomical Society (AAS)

Antonia Maury faleceu aos 85 anos, no dia 8 de janeiro de 1952, nos Estados Unidos.


AUTOR – Julio A. Castro Almazán é físico e membro do SkyTeam do Instituto de Astrofísica de Canárias (IAC), especialista em Caracterização de Observatórios Astronômicos e Ótica Atmosférica.

FONTE – http://brasil.elpais.com/brasil/2015/10/28/ciencia/1446051155_519282.html

AFUNDAMENTO DO LUSITÂNIA – 100 ANOS DE MISTÉRIO

O Lusitânia, unindo pelo mar a Grã-Bretanha e os Estados Unidos
O Lusitânia, unindo pelo mar a Grã-Bretanha e os Estados Unidos – CLIQUE NAS FOTOS PARA AMPLIAR

ROSTAND MEDEIROS

Ele era inconfundível com seu enorme tamanho e suas quatro chaminés. Era rápido, luxuoso, confortável, motivo de orgulho dos britânicos e foi considerado supremo na sua categoria; mas afundou em apenas 18 minutos. E não estamos falando do transatlântico Titanic!

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Esta é a história do transatlântico Lusitânia, que no próximo dia 7 de maio completa 100 anos do afundamento deste monstro de aço de 44.000 toneladas, que guarda enormes semelhanças com a tragédia do Titanic (incluindo compartilhar histórias semelhantes de coragem e covardia de alguns passageiros). Ambos foram considerados como “inafundáveis”, em arrogante e imprudente desafio ao destino e ambos acabaram no fundo do mar, arrastando com eles grande parte de sua tripulação e seus passageiros.

Conspiração? 

Em 15 de abril de 1912, o RMS Titanic afundou algumas horas depois de colidir com um gigantesco iceberg, causando 1.514 mortes, gerando rios de tintas em páginas de jornais e de livros (e muita celuloide) para contar sua história. Já o RMS Lusitânia afundou três anos depois, em 7 de maio de 1915, matando 1.195 pessoas, incluindo 128 passageiros norte-americanos e 121 crianças e bebês que estavam a bordo.

Afundamento do Lusitânia em 7 de maio de 1915
Afundamento do Lusitânia em 7 de maio de 1915

O Lusitânia soçobrou perto da costa sul da Irlanda, depois de ser atingido por um único torpedo disparado do submarino alemão U-20, em um episódio que, de acordo com algumas evidências, pode-se ver o lado negro de uma possível trama orquestrada pelo Almirantado Britânico, ansioso para trazer o relutante povo dos Estados Unidos para entrar no banho de sangue da Primeira Guerra Mundial.

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Uma das pessoas que suspeitam da existência deste enredo é o escritor Erik Larson, autor do livro “In the Garden of Beasts”, que acaba de lançar na Espanha o livro “Lusitania” (Editora Ariel), uma reconstrução histórica extraordinária e emocionante da última viagem do transatlântico que pertencia a companhia de navegação Cunard Lines, de Liverpool. Larson coloca uma luz sobre a tragédia, trazendo as histórias dos passageiros, sobre quem era William Thomas Turner, o capitão do Lusitânia, a personalidade de Walther Schwieger, comandante do submarino e muito mais.

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O autor aponta que se não houve uma conspiração neste caso, a ação do Almirantado Britânico foi muito negligente e quase criminosa. As autoridades britânicas não conseguiram (ou não quiseram) proteger o navio. Mas se houve alguma trama em relação ao afundamento do Lusitânia, esta estratégia não funcionou, pois os Estados Unidos só entraram de fato na Primeira Guerra Mundial dois anos após o naufrágio. Inclusive quando o presidente Wooldrow Wilson fez seu famoso discurso ao Congresso americano, pedindo uma declaração de guerra, nem sequer mencionou o caso Lusitânia.

O então Primeiro Lorde do Almirantado, Winston Churchill, seria o vilão oculto da história do afundamento do Lusitânia?

LOcal do afundamento do Lusitânia
Local do afundamento do Lusitânia

Para o autor do livro “-É difícil dizer. Nenhum documento aponta diretamente a culpa para Churchill, ou para o Almirantado”. No entanto, permanece o mistério do porque as autoridades navais britânicas permitiram que o Lusitânia seguisse seu rumo sem escolta (embora destróieres estivessem disponíveis em um porto próximo), sabendo que os alemães estavam com um submarino caçando na área da rota do transatlântico e sem tentar desviar o navio para outra rota mais segura?

A carnificina da Primeira Guerra Mundial só veria a participação americana em 1917.
A carnificina da Primeira Guerra Mundial só veria a participação americana em 1917.

O autor comenta que “-As provas de negligência são irrefutáveis, mas não é uma prova absoluta de alguma conspiração”.

18 Minutos

Sabemos que três meses antes da tragédia os alemães tinham declarado qualquer embarcação como um alvo legítimo e estabelecido um bloqueio com seus submarinos em torno de Grã-Bretanha e Irlanda.

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Mas o Lusitânia era um belo e magnífico navio, capaz de navegar a 25 nós (50 mph) e deixar para trás, em princípio, qualquer submarino da época que buscasse persegui-lo submerso. Aparentemente esta situação criou um certo excesso de segurança e conforto por parte do seu capitão William Thomas Turner.

Em 17 de abril de 1915, o Lusitânia deixou o porto de Liverpool em sua viagem transatlântica de número 201, chegando a Nova York no dia 24 de abril sem nenhum problema. 

O aviso oficial emitido Pela Embaixada da Alemanha imperial sobre a viagem em Lusitânia .
O aviso oficial emitido Pela Embaixada da Alemanha imperial sobre a viagem em Lusitânia .

Nesta ocasião a Embaixada da Alemanha Imperial decidiu avisar aos passageiros do transatlântico para não navegarem de retorno a Europa naquela nave, diante da possibilidade de afundamento por ataque de um submarino do seu próprio país. Foram colocados anúncios com este aviso em 50 jornais americanos, incluindo os de Nova York. O alerta levou a alguma agitação na imprensa e preocupou os passageiros do navio e a tripulação. Mas o Lusitânia partiu em 1 de maio de 1915, do Pier 54, porto de Nova Iorque. 

Por volta das 13:40 da tarde de 7 de maio de 1915, em meio a um mar liso e com a costa sul da Irlanda à apenas 11 milhas de distância, o Kapitänleutnant Walther Schwieger viu por meio do periscópio do U-20 um grande navio transatlântico de passageiros a vapor que avançava diretamente para seu ponto de disparo.

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A partir de uma distância estimada em cerca de 700 a 800 metros, Schwieger reconheceu navio como sendo o Lusitânia e disparou um único torpedo. Vários passageiros viram o torpedo deslizar na água, como um letal peixe prateado seguindo para o barco. Houve reações que foram do extremo alarme a total descrença. Este bateu no lado estibordo, quase diretamente abaixo da ponte. Após explosão inicial houve uma segunda e poderosa explosão, possivelmente causada pela concentração de pó de carvão, ou uma explosão de caldeira, ou de munições. Na ocasião o Lusitânia transportava em seus porões 1.250 caixas de granadas de artilharia e 4.200 caixas de munição para fuzis do exército britânico.

O certo é que a segunda explosão foi tão grande que Schwieger ficou surpreso, pois dificilmente um único dos seus torpedos poderia arrastar para o fundo algo das dimensões do Lusitânia.

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Todos a bordo do navio atingido foram inevitavelmente afetados, principalmente pela segunda e mais poderosa explosão. De um buraco na lateral do navio, descrita como tendo o tamanho de uma casa, surgiu uma enorme nuvem de fumaça. O Lusitânia estava condenado.

O escritor Erik Larson descreve o caos que foi para os passageiros embarcarem nos botes salva-vidas, muitos dos quais não puderam ser utilizados, enquanto outros, ou por negligência, ou pânico, desceram para o mar descontrolados, vazios, ou sobrecarregadas. As pessoas caiam na água e tentavam nadar para agarrar-se ao que podiam. Ao todo, apenas seis dos 48 botes salva-vidas foram lançados com sucesso.

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O comandante Schwieger observava a tragédia de maneira privilegiada através do seu periscópio. A cena era tão chocante que ele decidiu sair do local, recusando-se a lançar um segundo torpedo que teria amplificado a carnificina. A sua tripulação, porém, ficou exultante ao saber que tinham afundado o Lusitânia, um símbolo de poder britânico no mar.

Diferentemente do Titanic, no caso do Lusitânia não houve uma orquestra tocando para acalmar a todos até o momento final e o fim foi bem rápido. Depois de 18 minutos do torpedeamento o Lusitânia desapareceu completamente. No ponto onde o orgulhoso navio havia desaparecido ficou para trás um rastro de corpos humanos, incluindo muitos que flutuavam com coletes salva-vidas e pereceram pela hipotermia.

Cartão postal sobre o afundamento do Lusitânia
Cartão postal sobre o afundamento do Lusitânia

Mesmo o afundamento tendo ocorrido de forma tão rápida, sinais de rádio pedindo socorro foram emitidos. Entretanto a ajuda demorou muito para chegar ao local. Vele ressaltar que (e esse é outros dos pontos que apontam para uma conspiração) o cruzador britânico HMS Juno captou a mensagem de socorro e deixou sua ancoragem em Cork Harbour para prestar assistência. Apenas uma hora após partir para o local do naufrágio, o vaso de guerra deu meia-volta para seu porto de origem: o governo britânico informou depois que não queria correr o risco de perder qualquer um de seus navios de guerra.

Dos 1.959 passageiros e tripulantes do Lusitânia sobreviveram apenas 764. Mais de 600 corpos de vítimas jamais foram encontrados.

O Lusitânia navegando na mesma área onde seria afundado em 1915
O Lusitânia navegando na mesma área onde seria afundado em 1915

Segundo o escritor Erik Larson a história dos passageiros é extremamente rica e diversificada, que incluiu desde um médium espírita, uma atriz, o Rei de Champagne francês, um representante da rica família Vanderbilt (que o destino havia sido salvo da morte no Titanic e que morreu afogado no Lusitânia depois de oferecer seu colete salva-vidas para uma mulher) e até mesmo três espiões alemães! Estes últimos viajavam como passageiros clandestinos, mas foram descobertos e trancados em uma cabine (onde morreram miseravelmente).

Uma sobrevivente em estado de choque
Uma sobrevivente em estado de choque

Entre os passageiros que cancelaram a viagem de última hora no Lusitânia (e eles sempre existem nestas tragédias) uma foi Lady Cosmo Duff-Gordon, que sobreviveu ao naufrágio do Titanic.

A tragédia não deixou de ter um fino traço da mais pura ironia britânica; diferentemente dos dias atuais, quando tragédias aéreas geram milionários processos judiciais pelas mortes ocorridas, em 1915 a empresa Cunard concedeu aos sobreviventes da tragédia, “pelo resto de suas vidas”, 25% de desconto em futuras viagens nos navios da empresa.

Artefatos de Guerra

O naufrágio causou um clamor internacional, especialmente na Grã-Bretanha e em todo o Império Britânico, assim como nos Estados Unidos, considerando que 128, de 139, cidadãos norte-americanos a bordo do navio perderam suas vidas.

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Em 8 de maio um porta-voz alemão, publicou uma declaração na qual o ataque ao Lusitânia “foi realizado porque havia contrabando de artefatos de guerra”, e também porque o navio “foi classificada como um cruzador auxiliar”. Nesta lógica tirana a Alemanha tinha o direito de destruí-lo, independentemente de quaisquer passageiros a bordo. O porta-voz alemão disse ainda que as advertências dadas pela Embaixada da Alemanha antes de sua viagem informavam a existência de “zonas de guerra”, aliviado Alemanha de quaisquer responsabilidades pelas mortes dos cidadãos americanos a bordo. O porta-voz finalizou referindo-se as munições e materiais de guerra declarados no manifesto de carga do Lusitânia e disse que “navios desse tipo” poderiam ser apreendidos e destruídos ao abrigo das regras de Haia.

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O Lusitânia foi de fato oficialmente listado como um navio de guerra auxiliar. Sua carga tinha incluído material de guerra, que foi abertamente listadas como tal em seu manifesto de carga. No dia seguinte ao naufrágio, o conceituado jornal “The New York Times” publicou detalhes completos de carga militar do navio. Um membro da Cunard Lines, negou a acusação de que ela carregava munições pesadas, mas admitiu que o navio estava carregando apenas “munição de armas de pequeno calibre”. O fato é que o material bélico transportado pelo Lusitânia não foi informado aos passageiros e nem dado conhecimento ao público britânico na época. 

Os britânicos, muito através de sua imprensa, pressionaram os americanos a declararem guerra contra a Alemanha. No entanto, o presidente norte-americano Wooldrow Wilson se recusou a agir.

Pour le Mérite

No inquérito pós-naufrágio o capitão William Thomas Turner recusou-se a responder algumas perguntas alegando “sigilo em tempo de guerra”. Até hoje o governo britânico continua a manter secretos alguns documentos relativos aos últimos dias da viagem, incluindo sobre alguns dos sinais transmitidos entre o Almirantado e o Lusitânia . Os registros que estão disponíveis ao público se encontram muitas vezes faltando páginas que são consideradas pelos pesquisadores como críticas para a solução desta questão.

O homem que afundou o Luzitânia, o  Kapitänleutnant Walther Schwieger - Fonte - www.advanceddivermagazine.com
O homem que afundou o Luzitânia, o Kapitänleutnant Walther Schwieger e sua Blue Max no pescoço – Fonte – http://www.advanceddivermagazine.com

O Kapitänleutnant Walther Schwieger continuou sua carreira como comandante de submarinos e afundou outro transatlântico quatro meses depois da tragédia do Lusitânia. Neste caso a nova vitima foi o britânico RMS Hesperian, que por um toque macabro do acaso transportava um caixão contendo o corpo de um rico passageiro canadense que morreu afogado no afundamento do Lusitânia e a família desejava enterrá-lo em Montreal…

O capitão alemão foi condecorado com a medalha Pour le Mérite, a famoso “Blue Max”, mas não sobreviveu à guerra. Ele e sua tripulação pereceram a bordo do submarino U-88, em 5 de setembro de 1917, quando bateram em uma mina marítima.  Já o famoso U-20, que sob o comando de Schwieger conseguiu afundar 37 navios e danificar dois, acabou sua carreira encalhado na costa dinamarquesa por um erro na bússola e o capitão foi obrigado a destruir parte da nave com explosivos.

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Para o escritor Erik Larson o que tornam as histórias de barcos tão especiais é porque existe algo muito romântico sobre o mar e os perigos de viajar por todo o oceano. Comenta que “-Essas histórias nos levam de volta a um momento em que viagens deste tipo nunca deixavam de ser uma aventura, com um elevado risco de catástrofe, como no caso do Titanic”. 

Na atualidade o naufrágio do Lusitânia encontra-se tombado para estibordo,em um ângulo de aproximadamente 30 graus, submerso a 91 metros de profundidade, a 11 milhas (18 km) ao sul do farol em Kinsale. 

FONTES – Texto produzido a partir da reportagem realizada pelo jornalista de Jacinto Antón, do jornal espanhol El Pais e disponível em – http://cultura.elpais.com/cultura/2015/04/04/actualidad/1428141723_569128.html

http://en.wikipedia.org/wiki/RMS_Lusitania

FOTOS, SALVO QUANDO INDICAÇÃO EM CONTRÁRIO – http://www.photoship.co.uk/

O POUSO DO “BUENOS AIRES” EM BARRA DE CUNHAÚ

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Autor – Rostand Medeiros 

No dia 24 de maio de 1926, decolava da base aeronaval americana de Miller Field, em Nova York, um hidroavião Savoia-Marchetti S 59, pintado com as cores azul e branco, sendo conduzido por três ocupantes e seguindo em direção sul, estava decolando o “Buenos Aires”. 

O Projeto de um Herói da Aviação na Primeira Guerra Mundial 

A ideia desta viagem tivera início em 1925 e tinha como objetivo abrir uma rota aérea para futuros voos com passageiros. Os autores desta ideia foram os pilotos Eduardo Olivero, e Bernardo Duggan.

Eduardo Olivero
Eduardo Olivero

Olivero nasceu em 2 de novembro de 1892, em Tandil, uma cidade argentina localizada na província de Buenos Aires, a cerca de 350 km da capital do país. Ele era filho de italianos emigrados para o país platino e durante a Primeira Guerra Mundial utilizou-se de sua segunda nacionalidade para lutar entres as tropas italianas, atuando na função de piloto de combate. Ascendeu ao posto de tenente na denominada “Esquadrilha Baracca” e completou 553 voos de combate. Destes voos 156 foram missões de caça, 262 patrulhas de combate, 61 escoltas de reconhecimento e de aviões de bombardeio. 11 missões de reconhecimento estratégico, 14 missões de ataque terrestre contra concentrações de infantaria austríacos e uma missão para derrubar um balão de observação do tipo Draken. Documentos apontam que Olivero participou de 25 combates aéreos, em que derrubou nove aviões inimigos. No fim da guerra é promovido a capitão.

Julio Campanelli, Eduardo Olivero e Bernardo Duggan
Julio Campanelli, Eduardo Olivero e Bernardo Duggan

Entre o fim da Primeira Guerra e o ano de 1924 Olivero participa de diversos raids aéreos na Argentina e experiências de voo em grande altitude, visando um melhor aproveitamento aéreo sobre a Cordilheira do Andes. Em uma delas sofreu um grave acidente que lhe deixou sequelas. Em 1924 realiza diversas experiências com radiofonia aérea. Em 1925 inicia os preparativos, junto com Duggan, do Raid aéreo Nova York – Buenos Aires.

Por aqueles dias a incipiente rota Nova York – Buenos Aires era uma das mais difíceis, recheada de inconvenientes e problemas, principalmente diante das características técnicas dos aviões existentes na época. Olivero e Duggan, concluíram que, para terem um melhor êxito deveriam tentar repetir o trajeto realizado pelo tenente do Corpo de Aviadores dos Estados Unidos, Walter Hinton. Vale lembrar que Hinton, junto com o brasileiro Euclides Pinto Martins, haviam partido, em 1922, da mesma Nova York, em direção ao Rio de Janeiro, no hidroavião Curttis, batizado como “Sampaio Correa”, sendo esta a primeira aeronave a voar sobre o território potiguar. O americano, o brasileiro e mais três tripulantes conseguiram realizar o seu intento, mesmo com muitos problemas.

Na foto vemos o norte americano Walter Hilton e o cearense Euclides Pinto Martins, que possuía forte ligação com o Rio Grande do Norte – Fonte – Coleção do autor
Na foto vemos o norte americano Walter Hilton e o cearense Euclides Pinto Martins, que possuía forte ligação com o Rio Grande do Norte – Fonte – Coleção do autor

Com os dados das viagens de Hinton, os argentinos começaram a traçar a sua rota. Decidiram, como a maioria dos aviadores da época, por utilizar um hidroavião. Concluíram que a aeronave ideal seria o Savoia-Marchetti S 59.

Na Itália, acompanham a construção e entrega de sua aeronave que contava com motores de 400hp de potência, a portentosa velocidade máxima de 176 km/h, autonomia de 1.400 km e uma carga de total de 900 litros de combustível. Isso tudo sem rádio e outras máquinas de apoio ao voo.

Finalmente o hidroavião é completado com as tradicionais cores nacionais argentinas e despachado através de navio para Nova York. Neste momento junta-se aos dois argentinos Julio Campanelli, executando o trabalho de mecânico. 

Partindo da Terra do Tio Sam 

Nos Estados Unidos são tratados com honras, recebendo apoio incondicional das autoridades locais, inclusive com liberação de aterrissagem em bases americanas durante o trajeto.

O hidroavião Buenos Aires
O hidroavião Buenos Aires

Realizam várias provas e no dia 24 de maio de 1926, decolam em direção sul, com a primeira parada será em Chaleston, no estado da Carolina do Sul, depois Miami, seguindo para Havana, em Cuba. Neste país passam ainda pelas cidades de Cienfuegos e Guantanamo. Depois seguem para Porto Príncipe, no Haiti, aonde são ovacionados por grandes multidões, depois Santo Domingo, na Republica Dominicana, seguindo na seqüência para San Juan (Porto Rico), Ilhas Virgens, Montserrat, Guadalupe, Martinica e Trinidad e Tobago. Neste ponto deixam de sobrevoar as paradisíacas ilhas caribenhas e atingem a América do Sul pela Guiana Inglesa (atual Guiana), chegando a capital Gorgetown, depois Paramaribo, na Guiana Holandês (atual Suriname), em seguida Caiena, na Guiana Francesa. A partir deste ponto ocorreria o incidente mais grave de todo o trajeto.

Barca paraense "Juruna", vendo sentados, da esquerda para direita, Duggan, Olivero, Mestre Josino Campos (comandante do barco) e Campanelli, no porto de Belém em 1926.
Barca paraense “Juruna”, vendo sentados, da esquerda para direita, Duggan, Olivero, Mestre Josino Campos (comandante do barco) e Campanelli, no porto de Belém em 1926.

Existem duas versões para o que aconteceu com o hidroavião ao sobrevoar o trecho Caiena – Belém.

Uma delas afirma que o “Buenos Aires” teve um problema no motor e teve que pousar no Oceano Atlântico, de frente as costas brasileiras, sendo resgatados por um pequeno barco pesqueiro, o “Juruna”, que os reboca para uma ilha, na qual o mecânico Camapanelli pode concertar a aeronave e seguirem para Belém.

A outra versão afirma que as faltas de mapas detalhadas da região para uma melhor navegação, além de chuvas torrenciais, fazem a tripulação do “Buenos Aires”, aparentemente, perder seu rumo, pois os mesmos se vêm com uma completa falta de combustível, tendo que pousar em um rio da região aonde os pilotos são resgatados pelo mesmo “Juruna”. O certo é que durante alguns dias o mundo desconhece o paradeiro dos três argentinos, preocupando todos que acompanhavam o raid, Após os sete dias de parada eles seguem para Belém e lá são recepcionados como heróis.

Visão atualizada do que os aviadores do Buenos Aires observaram de Natal
Visão atualizada do que os aviadores do Buenos Aires observaram de Natal

Na continuidade do seu trajeto no Brasil seguiram a costa norte brasileira em direção ao Rio Grande do Norte e no dia 11 de julho de 1926 pousam no Rio Curimataú, na região da Praia de Barra de Cunhaú. Mas apenas sobrevoaram Natal as 11:20 da manhã, do dia 11 de julho de 1926. 

A Segunda Aeronave em Céus Potiguares 

Qual teria sido a razão dos argentinos terem ido direto para Barra de Cunhaú e não para a capital?

Natal (30.000 habitantes na época) possuía razoáveis serviços de apoio e o Rio Potengi era uma ótima opção para pouso, mas provavelmente neste ponto de uma viagem já bem atrasada, os aviadores tenham decidido utilizar os mesmos locais de pouso e trajeto realizados no mês de janeiro do mesmo ano, pela tripulação espanhola do Dornier Val “Plus Ulta”, que concluirá seu raid Espanha – Argentina, em 10 de fevereiro de 1926. Apesar de Olivero e Duggan não estarem na Argentina no momento da chegada dos espanhóis, foi repassado a eles o roteiro dos pousos do aeroplano espanhol em terras brasileiras. Nesse caso Recife, e não Natal, era o destino normal após a decolagem do Ceará. Outra razão poderia ser creditada a falta de um conhecimento mais apurado das qualidades de Natal como destino. Recife, por ser uma cidade mais desenvolvida e conhecida no exterior naquele período, era o destino mais correta para os pioneiros aviadores. Vale lembrar que o raid dos aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral, mesmo após os acidentes ocorridos no trajeto, seguiram direto para Recife.

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Quem tem a oportunidade de voar sobre a costa potiguar, entre a Natal e a fronteira da Paraíba, percebe que além do Rio Potengi e da Lagoa de Guaraíras, o Rio Curimataú, que desemboca em Barra de Cunhaú, é um dos melhores pontos para o pouso de um hidroavião. Devido a estes fatos, parece-nos razoavelmente possível acreditar que, neste período (primeira metade do ano de 1926), Natal ainda não gozava de todo reconhecimento e prestígio no meio aviatório mundial. Fato que mudaria consideravelmente já no ano de 1927.

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Na bela região de Barra de Cunhaú os aviadores receberam total apoio do coronel Luiz Gomes, chefe político da cidade mais próxima, Canguaretama, e só seguiram viagem na manha de 13 de julho. Eles partiram para Cabedelo, na Paraíba, depois Recife, Maceió e Aracaju. Na sequência realizaram um percurso mais longo até a cidade litorânea de Prado, na Bahia, pousando no rio Jucuruçu. De Prado, seguem para o Rio de Janeiro, Santos, Cananéia, Florianópolis e Porto Alegre.

Na capital gaúcha Olivero recebe a notícia que fora promovido a major do exército italiano. Apenas outra jogada de marketing do histriônico ditador italiano Benito Mussolini, aproveitando as manchetes mundiais sobre este voo.

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Depois do Brasil, os argentinos seguem para Montevidéu e depois a Buenos Aires. São escoltados na chegada pelo hidroavião espanhol Dornier Val “Plus Ultra”, orbitam sobre a capital Argentina e pousam com suavidade no Rio da Prata, tendo percorrido 14.856 km, em 114 horas de voo efetivo. A cidade parou para receber os seus heróis, tendo muitas bandeiras nos edifícios e muitas autoridades presentes no desembarque dos aviadores.

Atualmente o Museu do Forte Independência, em Tandil, guarda peças históricas do mais importante raid argentino de longa duração. 

– Dedico este texto ao amigo German Zaunseder, compatriota dos aviadores do “Buenos Aires” e um grande pesquisador da aviação potiguar e da Segunda Guerra Mundial em Natal, cidade em que decidiu viver com muita satisfação.

DA ITÁLIA AO BRASIL SEM ESCALAS

População de Touros (RN) empurra o S.64 até a vila de pescadores
População de Touros , Rio Grande do Norte, empurra o S.64 até a vila de pescadores no ano de 1928

EM 1928, A AVIAÇÃO VIVIA O FINAL DA ERA DAS GRANDES TRAVESSIAS. A BORDO DE UM S.64, OS ITALIANOS FERRARIN E DEL PRETE QUEBRAM O RECORDE DE VOO EM DISTÂNCIA, CRUZANDO O MEDITERRÂNEO E O ATLÂNTICO SUL ATÉ O LITORAL POTIGUAR

O ano de 1927 prometia ser grandioso para a Itália e sua aviação. Com a missão de promover os avanços tecnológicos de seu país – e o regime de Benito Mussolini –, o coronel Francesco de Pinedo, da Regia Aeronautica, a força aérea italiana, recebeu a incumbência de liderar o que foi chamado de “Raide das Duas Américas”. Na companhia dos colegas de farda Carlo del Prete, engenheiro, e Vitale Zacchetti, mecânico, comandou um Savoia-Marchetti S.55, bimotor hidroavião de casco duplo, batizado de Santa Maria em homenagem à nau capitânia de Cristóvão Colombo. Foi uma jornada impressionante. Partindo da Itália, o Santa Maria chegou ao porto de Natal, no Rio Grande do Norte, em 24 de fevereiro, em uma travessia via Senegal, Cabo Verde e Fernando de Noronha. Depois, em uma série de escalas, a expedição passou pelo Rio de Janeiro, Buenos Aires, Assunção, Manaus e Belém, seguindo pelo Caribe até os Estados Unidos. Mesmo com a destruição do avião, atingido por um incêndio durante um reabastecimento no estado do Arizona, em 6 de abril, a missão prosseguiu com o Santa Maria II, que voltou à Itália via Terra Nova, Açores e Lisboa. A missão de longa duração foi o primeiro voo da história a cruzar o oceano em ambos os sentidos, feito que acabou ofuscado pelo voo solitário de Charles Lindbergh entre Nova York e Paris, entre 20 e 21 de maio daquele ano.

Em 2009 o responsável pelo blog TOK DE HISTÓRIA foi um dos co-autores do livro "Os cavaleiros do céus-A saga do voo de Ferrarin e Del Prete", com lançamentos em Brasília (DF), Touros e Natal (RN)
Em 2009 o responsável pelo blog TOK DE HISTÓRIA foi um dos co-autores do livro “Os cavaleiros do céus-A saga do voo de Ferrarin e Del Prete”, com lançamentos em Brasília (DF), Touros e Natal (RN)

Frustrado, o ministro da Aeronáutica da Itália, o aviador militar e político Ítalo Balbo, tinha a necessidade de buscar novos recordes que provassem ao mundo inteiro a supremacia da indústria aeronáutica sob suas ordens. Para tanto, encomendou ao projetista-chefe da Savoia-Marchetti, Alessandro Marchetti, um avião que voasse mais longe e por mais tempo que os existentes. Em uma ação combinada, no Brasil a Câmara de Comércio Italiana de São Paulo criou o Prêmio De Pinedo, que daria 500.000 liras aos primeiros pilotos que alcançassem o Brasil até 31 de dezembro de 1928, no menor tempo de voo possível, vindos da Itália, em uma aeronave projetada, fabricada e motorizada naquele país. O incentivo criava uma boa oportunidade para o estabelecimento de uma rota na qual o recorde de voo contínuo poderia ser quebrado. Havia uma razão prática para a inclusão do Brasil na rota. O percurso entre a África Ocidental e o extremo Nordeste do país é a rota mais curta para a travessia do Atlântico (cerca de 2.800 km).

Novo avião, novo desafio

No final de 1927, a Savoia-Marchetti recebeu um contrato para o fornecimento de dois S.64, a um custo de 1,1 milhão de liras. Livre de qualquer exigência operacional padrão, fruto de um projetista brilhante e inovador, era um monoplano monomotor com asas cantiléver de alto aspecto, grandes, elegantes e afuniladas, que carregavam pouco mais do que o essencial. A pequena fuselagem frontal de placas de compensado leve foi instalada quase dentro das asas, com os pilotos sentados lado a lado e com uma pequena cama afixada no sentido longitudinal na parte traseira (para ser ocupada nos períodos de descanso), próxima de uma vigia para navegação celestial. Em termos estruturais, as asas possuíam três longarinas de madeira revestidas por compensado e dotadas de ailerons. Os cones de cauda duplos em V, de madeira leve e com amarrações de arame, sustentavam a deriva e os estabilizadores. O motor, um Fiat A22T V-12, refrigerado a água, em configuração pusher, foi afixado acima e atrás da cabine, em uma carenagem de aço, a fim de proporcionar máxima eficiência à hélice de duas pás de madeira. Todas as superfícies móveis do estabilizador vertical e do leme eram ajustáveis em voo. O trem de pouso, com pneus Pirelli, tinha as rodas protegidas por carenagens.

O S.64 em voo.
O S. 64 em voo

A cabine dupla exígua contava com instrumentos avançados para a época, incluindo três bússolas, um radiotransmissor (sem recepção) e um horizonte artificial de fabricação alemã, o primeiro a ser instalado em uma aeronave italiana. A tripulação dispunha de aquecedores, macacões de voo para baixas temperaturas e um poderoso holofote para auxiliar na orientação noturna em baixa altitude, se fosse necessário. Uma característica curiosa do S.64 era o ângulo de incidência das asas em relação ao solo, o que exigia uma longa pista para decolagem. O primeiro dos dois aparelhos, designado MM.93, foi concluído no início de 1928, voando pela primeira vez em 3 de abril, no aeródromo de Cameri, com Arturo Ferrarin, Carlo del Prete e o mecânico Gino Cappannini.

Atrasos e testes

Arturo Ferrarin era um dos pilotos mais famosos da Itália. Nascido em 1895, foi instrutor de voo e piloto de caça na Primeira Guerra. Em 1920, ganhou fama no raide Roma-Tóquio com dois biplanos Ansaldo SVA, as primeiras aeronaves a chegarem ao Japão partindo da Europa. Cappannini também participou desta aventura de 106 dias. Ferrarin também participou de duas edições do Troféu Schneider, uma prestigiosa corrida aérea de hidroaviões. Em 1926, em Hampton Roads (EUA), com um Macchi M.39, e, em 1927, em Veneza, com um Macchi M.52, que sofreu problemas mecânicos. Nesta época, Ferrarin era piloto de testes da Fiat, ainda que formalmente fosse oficial da Regia Aeronautica. Já Carlo del Prete, nascido em 1897, era um oficial da marinha que se transferiu para a força aérea e se tornou piloto em 1922, ganhando fama como copiloto de Pinedo no “Raide das Duas Américas”.

Ferrarin, Mussolini e Del Prete
Ferrarin, Mussolini e Del Prete

Em 19 de abril, Ferrarin decolou de Montecelio (Guidonia, a 24 km de Roma), onde a pista foi construída em declive, a fim de que o S.64 pudesse ganhar mais velocidade na decolagem. O voo para o Brasil estava marcado inicialmente para fevereiro, quando as condições climáticas na Itália e no Brasil seriam mais adequadas. Porém, a conclusão da pista sofreu atrasos, o que também adiou o primeiro voo. A travessia teria de ser realizada durante o outono do Hemisfério Norte, já com temperaturas mais elevadas na Itália, e tempo instável no Brasil, no Hemisfério Sul. Durante os voos preparatórios, o S.64 decolou com diferentes pesos em busca da melhor configuração, o que determinou a instalação de uma hélice maior, com três metros de diâmetro.

Em 31 de maio de 1928, com tempo favorável, Ferrarin e Del Prete decolaram para o primeiro desafio. Com 3.486 litros de combustível a bordo, tinham o objetivo de bater o recorde mundial de distância em circuito fechado, entre Montecelio, Torre Flavia e Anzio. O trecho foi assinalado por holofotes para permitir o voo noturno. O pouso ocorreu em 2 de junho, com 7.666 km percorridos em 58 horas e 43 minutos. O novo recorde superava a marca anterior dos americanos Stinson e Haldeman. Nos dias que se seguiram os italianos preparam o voo para o Brasil, esperando alcançar o Rio de Janeiro, distante nove mil km de Montecelio. Antes da partida, os aviadores ganharam uma bandeira nacional do embaixador brasileiro em Roma para ser levada a bordo. Com a matrícula I-SAAV, o S.64 decolou na tarde de 3 de julho, com 3.632 kg de combustível, 168 kg a menos que o previsto, em função da alta temperatura em solo. O pouso estava previsto para algum local no litoral da Bahia, a 8.200 km de distância.

Raide recorde

Após uma corrida de decolagem de quase dois mil metros, o S.64 decolou, iniciando seu longo voo via Sardenha, Argélia, mantendo-se sobre o mar até Gibraltar, a partir de onde seguiriam a costa da África.

O S. 64 decolando
O S. 64 decolando

Ferrarin e Del Prete permaneceram acima de nuvens baixas, avistando o solo sobre Villa Cisneros (hoje Dakhla, no Saara Ocidental), onde havia um aeroporto operado pela companhia francesa Latécoère. Sobre o oceano, foram atingidos por uma tempestade, o que forçou o motor acima dos limites. O marcador de RPM quebrou, mas o motor se manteve firme e os pilotos precisaram estimar as rotações de ouvido Durante o resto do voo ambos precisaram estimar as rotações de ouvido. No dia seguinte atingem Rio de Oro, mudam a rota para cruzar sobre as ilhas de Cabo Verde, iniciando a travessia do Atlântico, o trecho mais perigoso. Neste trecho, o consumo de combustível permitiu ao avião subir até 800 metros de altitude. Mensagens foram enviadas para os navios que cruzavam a área.

Recentemente tive a oportunidade de trabalhar com os jornalistas Claudia Perroni Mello e Luiz Carlos Daniel, da TV CIDADE, de Taubaté (SP), onde mostramos vários aspectos do Rio Grande do Norte. Um deles foi a nossa antiga e tradicional Coluna Capitolina. Com 2.000 anos, foi um presente do governo italiano ao povo potiguar, para honrar a nossa receptividade quando da passagem dos aviadores Ferrarin e Del Prete pelo nosso estado.
Recentemente tive a oportunidade de trabalhar com os jornalistas Claudia Perroni Mello e Luiz Carlos Daniel, da TV CIDADE, de Taubaté (SP), onde mostramos vários aspectos do Rio Grande do Norte. Um deles foi a nossa antiga e tradicional Coluna Capitolina. Com 2.000 anos, foi um presente do governo italiano ao povo potiguar, para honrar a nossa receptividade quando da passagem dos aviadores Ferrarin e Del Prete pelo nosso estado. Foto – Luiz Claudio Daniel

Na tarde de 5 de julho, avistaram a costa do Brasil. Saudações enviadas por rádio são captadas em Pernambuco. Após sobrevoarem Natal, seguem rumo sul, porém o mau tempo os impede de alcançar a Bahia, só lhes restando dar meia-volta.  Com o combustível acabando e o céu fechado, a dupla decide pousar na areia a cerca de meio quilômetro da praia, 70 km ao norte de Natal, perto da então vila de pescadores de Touros, bem onde o litoral do Brasil faz uma curva de quase 90º, lembrando uma esquina no mapa.

Placa em italiano no largo onde se encontra a Coluna Capitolina
Placa em italiano no largo onde se encontra a Coluna Capitolina – Foto – Luiz Carlos Daniel

Com um curto pouso sem danos mais sérios do que um trem de pouso quebrado e um rombo na fuselagem, o S.64 e seus tripulantes estabeleceram o novo recorde mundial de distância em voo contínuo, com 7.188 km percorridos em 49 horas e 15 minutos (conforme reconhecido pela FAI, a Federação Aeronáutica Internacional; já o Aeroclube do Brasil considera 7.163 km). A marca superou o recorde de distância dos americanos Chamberlin e Levine, com o Bellanca “Miss Columbia”, no voo entre Nova York e Eisleben, Alemanha, em junho do ano anterior.

Foto - Luiz Claudio Daniel
Foto – Luiz Claudio Daniel

Antes de Ferrarin e Del Prete, poucos haviam cruzado o Atlântico Sul, sempre fazendo escalas: os portugueses Sacadura Cabral e Gago Coutinho, a bordo de um Fairey III-D MkII, em 1922; o espanhol Ramón Franco e tripulação, no Dornier Do J Wal Plus Ultra, em 1926; o brasileiro João Ribeiro de Barros e tripulação, no Savoia-Marchetti S.55 Jahú; Pinedo, Del Prete e Zacchetti, no Savoia-Marchetti S.55 Santa Maria; o português Sarmento de Beires e tripulação, no Dornier Wal Argus (primeira travessia noturna); os franceses Joseph Le Brix e Dieudonné Costes, em um Breguet 19, todos em 1927. Detalhe: Del Prete foi o primeiro a cruzar o Atlântico três vezes.

Morte no Rio

Os italianos foram calorosamente recebidos em Touros. A primeira pessoa com quem conseguiram conversar foi o padre local, Manuel da Costa, que os hospedou na primeira noite. No dia seguinte, voaram para Natal em um Breguet da Latécoère, pilotado pelo francês André Depecker, que conseguiu pousar em uma faixa firme e plana de areia.

Depecker aguardava a chegada do S.64 e, assim que soube onde eles estavam, partiu da pista de Parnamirim. Entre os anfitriões repentinos, consta que Ferrarin apreciou muito a atenção do governador potiguar, Juvenal Lamartine, e do capitão da marinha Djalma Petit. O oficial Petit conhecia o italiano desde que testara aeroplanos Ansaldo adquiridos pelo governo brasileiro. Com carinho, Ferrarin guardaria uma foto com a assinatura infantil de Neuza, a garotinha da família que os hospedou na primeira noite.

Cortejo fúnebre de Del Prete no Rio de Janeiro
Cortejo fúnebre de Del Prete no Rio de Janeiro

Nos dias que se seguiram, uma barcaça carregou o S.64 danificado para Natal, onde foi reparado por um mecânico italiano que havia chegado de São Paulo, auxiliado por colegas franceses e brasileiros. A etapa seguinte seria um voo de propaganda para o Rio de Janeiro. Porém, em 30 de julho, o voo teve de ser cancelado abruptamente na corrida de decolagem, depois que panfletos jogados da cabine entupiram o radiador. Erroneamente, a imprensa francesa chegou a noticiar um catastrófico acidente. Ferrarin decolou novamente com um mecânico francês a bordo para um voo de teste de uma hora e meia sobre Natal e Parnamirim. Os italianos tiveram de ir à Bahia e, finalmente, em 2 de agosto, ao Rio, em aviões da Latécoère.

Na capital, a sorte de todos mudaria. Em 7 de agosto, Ferrarin e Del Prete decolaram da base da marinha na Ilha do Governador em um hidroavião biplano monomotor S.62. Adquirida pelo piloto argentino Eduardo Olivero, a aeronave havia permanecido desmontada em caixotes por seis meses. Infelizmente, o hidroavião, talvez danificado durante o transporte ou estocagem, caiu logo após a decolagem. Ferrarin e um mecânico brasileiro foram resgatados dos destroços sem grandes ferimentos, porém Del Prete sofreu uma grave fratura em uma perna. Levado a um hospital, esteve sob os cuidados dos melhores cirurgiões disponíveis e até o presidente do Brasil, Washington Luís, o visitou algumas vezes. Del Prete morreu em 16 de agosto, sem jamais ter reclamado da sorte. Seus únicos assuntos eram religião e aviões. Após o velório no Rio, seu corpo foi enviado à Itália, desembarcando em Gênova em 30 de agosto. Ele foi enterrado em sua cidade natal, Lucca.

O S.64 danificado no pouso em Touros também foi embarcado de volta à Itália, mas seu destino é desconhecido. Seu irmão, chamado de S.64 bis, ganhou uma nova hélice metálica, mas teve pior sorte. Pilotado por Umberto Maddalena e Fausto Cecconi, decolou de Montecelio em 29 maio de 1930 para quebrar novamente o recorde mundial de distância em um circuito fechado, pousando em 2 de junho, após ter voado 8.188,8 km em 67 horas e 13 minutos. Em 19 de março de 1931, em um voo de traslado entre Cinisello e Montecelio, um acidente matou Maddalena, Cecconi e o mecânico.

Novos tempos

Arturo Ferrarin foi recebido como herói em seu retorno a Roma, com o ministro Italo Balbo desfilando ao seu lado pelas ruas. Nos dias que se seguiram, o piloto recebeu de Benito Mussolini e do rei da Itália a Medalha de Ouro do Valor Aeronáutico. Del Prete foi condecorado postumamente.

Arturo Ferrarin, o S. 64 e Carlo Del Petre
Arturo Ferrarin, o S. 64 e Carlo Del Prete

Todavia, o ministro havia mudado de opinião. Balbo acreditava que havia chegado ao fim a era dos voos arrojados e dos protagonistas que atraíam as atenções para si, como De Pinedo e Ferrarin. O novo plano de Balbo era difundir as qualidades técnicas destes pioneiros entre os pilotos da Regia Aeronautica. Se o negócio era vender aviões, seria melhor fazê-lo por meio de grandes formações. Assim seria possível demonstrar não a singularidade, mas a regularidade da aviação, que saia em definitivo da fase pioneira. Para tanto, Balbo lançou o raide de hidroaviões S.55 que fez a travessia do Atlântico em janeiro de 1931. O S.55 foi um sucesso, com mais de 240 unidades vendidas.

Prestigiado, Ferrarin deixou a Regia Aeronautica em 1930, seguindo na arriscada atividade de piloto de testes. Em 1934, voando outro hidroavião, um S.80, sofre um acidente de pouso que mata Eduardo Agnelli, filho de Giovanni Agnelli, fundador e proprietário da Fiat. Ferrarin continuaria voando até perder a vida, em 18 de julho de 1941, quando testava um protótipo do caça leve Ambrosini SAI. 107. Em plena Segunda Guerra, o tempo dos raides que atraíam multidões havia passado há uma década.

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Características Técnicas do Avião Savoia-Marchetti S.64

Tipo Monomotor para quebra de recordes
Tripulação 2
Projetista Alessandro Marchetti
Fabricante Savoia-Marchetti
Primeiro voo 3 de abril de 1928
Produção 2 unidades
Comprimento 9 m
Envergadura 21,50 m
Altura 3,68 m
Área alar 60 m²
Carga alar 117 kg²
Peso vazio 2.689 kg
Peso máximo na decolagem 6.530 kg
Motor 1 Fiat A.22T de 550 a 590 hp
Desempenho 235 km/h, com alcance máximo de 11.505 km
Usuário Itália
Recordes Mundiais Voo em circuito, percorrendo 7.666 km em 58 horas e 43 minutos, perfazendo 51 voltas entre a Torre Flavia, em Ladispoli, a cidade de Anzio, e o campo de pouso de Montecelio (hoje Guidonia, a 24 km de Roma), entre 31 de maio e 2 de junho de 1928; de distância sem escala e permanência no ar, percorrendo 7.188 km, em 49 horas e 15 minutos, entre Montecelio e o litoral de Touros, no Rio Grande do Norte, entre 3 e 5 de julho de 1928.

Por Roberto Gentilli, editor da revista JP4 Aeronautica / Tradução e edição André Vargas / Fotos: acervo Regia Aeronautica – Artigo originalmente publicado na revista AERO Magazine, edição 233

O FUZILEIRO DE TAIPU QUE MORREU EM NOVA YORK

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O encouraçado Minas Gerais, a nave de Luiz Leite

Autor – Rostand Medeiros

Hoje é até raro, mas no início do século XX a coisa mais normal para um jovem que desejava sair pelo mundo para conhecer outros povos, cidades e culturas, era seguir a bordo de algum navio. Natal tinha até mesmo uma Escola de Aprendizes de Marinheiros, onde rapazes, muitos deles vindos do sertão, adentravam nesta unidade de ensino da Marinha do Brasil para aprender a arte da marinharia, ter uma profissão digna e sair singrando os sete mares.

Foi o que aconteceu com o jovem Luiz Leite da Câmara, nascido em 1902, na cidade de Taipu. Luiz Leite provinha de uma família de certo prestígio na comunidade, visto ser sobrinho do então Presidente da Intendência de Taipu (cargo atualmente equivalente ao de prefeito), o fazendeiro Rozendo Leite da Fonseca, dono da propriedade Maracajá.

Não consegui apurar como se deu a entrada do jovem Luiz Leite na Marinha. Não sei se ele passou pela antiga Escola de Aprendizes de Marinheiros de Natal, centro de ensino extinto na década de 1940. O certo é que no ano de 1920, quando tinha apenas 18 anos, ele foi servir no chamado Batalhão Naval, o atual Corpo de Fuzileiros Navais, tradicional unidade de elite da nossa força naval.

Se o sonho do jovem de Taipu era conhecer o mundo, ele então se realizou, pois neste mesmo ano ele seguiu como tripulante do encouraçado Minas Gerais, em uma missão para os Estados Unidos, mais precisamente, a cidade de Nova York.

Um Poderoso Monstro de Aço

Para Luiz Leite ser um dos membros do Batalhão Naval nesta grande belonave, em uma missão no exterior, mostra que provavelmente ele deve ter se sobressaído entre seus companheiros, pois fazer parte da tripulação daquele navio era uma verdadeira honra.

Os grandes canhões de 305 mm

Ao ser concluido no estaleiro Elswick Shipyard, em Newcastle-on-Tyne, nordeste da Inglaterra, em janeiro de 1910, o Minas Gerais era considerado por analistas norte-americanos, junto com o encouraçado São Paulo, os dois mais poderosos navios de guerra do mundo. Tanto que a aquisição destas duas naves pelo Brasil desencadeou uma corrida armamentista naval entre nosso país, a Argentina e o Chile.

No mesmo ano que a Marinha do Brasil recebeu o grande Minas Gerais, ele foi palco no dia 22 de novembro da conhecida Revolta da Chibata, quando marinheiros se amotinaram contra os vergonhosos maus tratos ainda existentes nas nossas naves de guerra, que incluíam chicotadas nos marujos.

Líderes da Revolta da Chibata

O Minas Gerais deslocava 19.280 toneladas, tinha 165 metros de comprimento e sua velocidade alcançava 21 nós. Possuía blindagens de proteção que tinha uma espessura que variava de 102 a até 305 milímetros (mm). Seu armamento principal eram 12 canhões de 305 mm, montados em seis torres de tiro independentes. Além destas armas o encouraçado possuía 22 canhões de 120 mm e 8 de 37 mm. Tal poder de fogo fez com que o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Argentina afirmasse que os dois encouraçados brasileiros  tinham poder de fogo suficiente para  destruírem sozinhos as frotas de guerra do seu país e do Chile.

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No dia 15 de julho de 1920, quando o poderoso navio zarpou do Rio de Janeiro em direção aos Estados Unidos, o potiguar Luiz Leite Câmara era um dos cinquenta fuzileiros do Batalhão Naval a bordo, em meio a uma comunidade flutuante de quase mil homens.

Na Terra do Tio Sam

Onze anos depois de construído, o Minas Gerais seguia para a sua primeira modernização, cuja ordem de envio do navio fora assinada pelo então Ministro da Marinha, Joaquim Ferreira Chaves, que por duas ocasiões havia sido governador do Rio Grande do Norte.

Como o Brasil, país na época essencialmente agrícola, não possuía um estaleiro com capacidade para o reparo deste tipo de máquina, a solução foi seguir para o estaleiro da marinha norte-americana (U.S. Navy), localizado no bairro do Brooklyn, em Nova York.

Em 22 de agosto, lentamente o grande e poderoso Minas Gerais deslizava pelas águas do Rio Hudson e logo passava ao lado da Estátua da Liberdade. Depois a sua proa apontou para um trecho do East River, onde se encontrava o seu destino, o estaleiro conhecido na cidade como Brooklyn Navy Yard.

Deve ter sido muito interessante para o jovem da pequena Taipu chegar a esta metrópole com mais de cinco milhões e meio de habitantes no início da década de 1920.

A tripulação do Minas Gerais e ao fundo a sombra da Estátua da Liberdade

O destino da sua nave de aço ficava próximo a Manhattan e a ponte do Brooklyn. Uma posição extremamente privilegiada para quem se encontrava nesta grande cidade.

A função do fuzileiro Luiz Leite e de seus companheiros era a guarda interna do navio. Para todos os efeitos, o Minas Gerais era tecnicamente território brasileiro e sua segurança cabia a guarnição do Batalhão Naval.

Os dias e meses foram passando. Conforme se aproximava o final do ano, a cidade esfriou e finalmente caiu a neve. Com o novo ano de 1921 os trabalhos de restauração e modernização continuaram no Minas Gerais a todo vapor. Entre as modernizações foram instalados armas antiaéreas e novos equipamentos de controle de fogo das baterias de canhões.

Durante o período em que o fuzileiro potiguar esteve em Nova York, ele participou da tropa que representou o Brasil na inauguração da estátua equestre do herói latino americano Simon Bolívar. Este evento, que durou mais de três horas, ocorreu no dia 19 de abril de 1921, no Central Park  e contou com a participação de Warren G. Harding, então presidente dos Estados Unidos.

O Fim

Em 25 de junho de 1921, na primeira página do jornal “A Republica”, aparece uma nota intitulada “A morte de um marinheiro nacional”, onde os fuzileiros Augusto Teixeira de Oliveira e Melchidesech Silva Relly solicitam que o redator do jornal, Eloy de Souza, publique uma nota sobre a morte do fuzileiro Luiz Leite da Câmara.

Nota do jornal “A Republica”, edição de 25 de junho de 1921

Eloy não se nega e o epitáfio é acompanhado de dados sobre o ocorrido e uma pequena biografia do potiguar de dezenove anos.

Eles informam que Luiz Leite faleceu no dia 26 de maio, no hospital naval de Navy Yard, sem ser especificada a causa. Dois dias depois o corpo foi encaminhado para o Cemitério de Cyprus Hill, na Avenida Jamaica, Brooklyn, onde seus restos estão até hoje no túmulo de número 83.

O Cemitério de Cyprus Hill na atualidade

Grande parte da tripulação do Minas Gerais esteve presente. O comandante do Brooklyn Navy Yard, o Contra almirante John C. MacDonald ordenou que para o simples praça do Batalhão Naval brasileiro, fosse realizado um enterro com todas as formalidades de praxe. Uma guarnição armada e a banda do encouraçado Pensilvânia, da marinha americana , se fez presente para prestar as últimas homenagens.

Augusto Teixeira de Oliveira e Melchidesech Silva Relly afirmaram que o fuzileiro potiguar, apesar da pouca idade, era muito respeitado e querido pelo resto da guarnição do Minas Gerais , tanto fuzileiros, quanto os marinheiros.

Em outubro daquele mesmo ano o encouraçado Minas Gerais retornou para o Brasil. Ele seria desmontado na década de 1950.

Em uma recente visita a cidade de Taipu, a cerca de 50 quilômetros, ao buscar resolver outras situações, aproveitei para tentar encontrar algum vestígio desta história. Infelizmente, e talvez por não conhecer ninguém, não descobri nenhuma informação, foto e nem ninguém que soubesse algo sobre este jovem fuzileiro que jamais voltou para casa.

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P.S. – Quem quiser ver os dados do túmulo do fuzileiro potiguar Luiz Leite da Câmara, por favor acesse http://www.interment.net/data/us/ny/kings/cypressnat/index_cach.htm onde encontrarão a seguinte informação – “Camara, Luiz L, d. 05/21/1921, PVT BRAZILIAN NAVY, Plot: POST 83″

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