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E NATAL PERDEU OUTRO PATRIMÔNIO DA VELHA RIBEIRA E DA ÉPOCA DA SEGUNDA GUERRA – CAIU UMA PARTE DO ANTIGO ARPÈGE!

Foto – Rostand Medeiros.

Hoje, 21 de junho de 2020, por volta de cinco horas da manhã, na Rua Chile, número 161, no bairro da Ribeira, caiu com certo estrondo uma grande parte do antigo prédio da Boate Arpége, um dos mais representativos locais do boêmio bairro da Ribeira e fortemente ligado ao período da Segunda Guerra Mundial e história da aviação histórica em Natal.

O edifício que caiu, aqui no início do século XX.

As últimas chuvas que caíram em Natal ajudaram a destruição desse imóvel que se encontra abandonado já faz algum tempo. A área se encontra isolada e oferece  risco de novos desabamentos e, como parece que ainda vai acontecer novas chuvas em ter os meses de junho e julho, é provável que o que sobrou venha abaixo.

Existe no local e a cena é triste para quem valoriza a história do lugar onde vive. Apesar de toda problemática com o COVID-19, tive a felicidade de encontrar o amigo German Zaunseder, com quem troquei algumas ideias sobre essa situação. Esse local histórico, tombado pelo poder público, em breve deixará de existir definitivamente.

Foto – Isa Cristina.

Em agosto de 2019 do ano passado eu lancei o meu livro “Lugares de Memória”, que nos seus capítulos apresenta informações e imagens (atuais e antigas) de 27 locais de Natal que possuem ligação com a participação de Natal no conflito, incluindo quartéis, hospitais, sedes de companhias aéreas, bares, cabarés, hotéis, clubes militares, residências de oficiais e do cônsul norte-americano, entre tantos outros pontos que ainda mantêm as características de sete décadas atrás, ou cujos prédios originais deram lugar a novas edificações em Natal.

Entre as edificações apresentadas no livro “Lugares de Memória” estava esse histórico edifício, que agora está quase totalmente destruído. Trago aos leitores do blog TOK DE HISTÓRIA o capítulo que trata do antigo Arpége.

Imagem obtida em junho de 2019 – Foto – Rostand Medeiros.

UM CABARÉ CHAMADO ARPÈGE – RUA CHILE, 161

Esse prédio, já quase completamente destruído, com dois pavimentos superiores derrubados por falta de reparos, ficou conhecido durante muitos anos por ser o local onde funcionou o prostíbulo denominado “Boate Arpège”.

Mas esse local, que em 2010 teria sido tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), possui na história de um antigo proprietário uma ligação muito forte com os períodos da aviação histórica e da Segunda Guerra Mundial na capital potiguar.

Lançado em agosto de 2019, “Lugares de memória” trás entre seus capítulo a história do edifício onde funcionou o Arpège.

O site de genealogia http://www.parentesco.com.br aponta que Enest Walter Lück, também conhecido como Ernest Luck, ou Ernesto Luck, nasceu no ano de 1883, na Alemanha. Segundo o falecido escrito e pesquisador Hypérides Lamartine, conhecido por todos em Natal como Pery Lamartine, em um trabalho que foi entregue em 2008 aos pesquisadores Rostand Medeiros e Frederico Nicolau, Enest Lück é oriundo da cidade de Gevelsberg, na antiga província alemã da Westphalian. Era de uma família de agricultores que trabalhavam também como ferreiros[1].

O trabalho de pesquisa de Pery Lamartine foi realizado por meio das informações do filho de Enest, o empresário do ramo do turismo Werner Ernest Ferdinand Lück, falecido em Recife no ano de 2002. Werner comentou que seu pai trabalhava na cidade belga de Ostende, em uma firma de importação e exportação. Quando um amigo de infância chamado Richard Robert Bürgers lhe escreve do Brasil informando que morava no estado do Rio Grande do Norte. Aqui, Bürgers fora contratado por uma firma inglesa para perfurar poços e que precisava de um auxiliar de confiança para participar dos trabalhos. Enest Lück tomou, então, o navio Karshel, que atracou no porto de Recife em 7 de outubro de 1911, seguindo para Natal em um navio costeiro. Na capital potiguar, o novo imigrante alemão soube que a firma inglesa tinha falido e começou a buscar um novo rumo para a sua vida. Lück, então com 28 anos, adquiriu uma fazenda no sertão do Rio Grande do Norte, com a intenção de criar gado, plantar algodão e mamona. Essa fazenda era localizada próxima ao Pico do Cabugi, na região central do estado. Em suas visitas a Natal, o Sr. Lück enamorou-se por uma senhorita chamada Henriqueta Green, de origem inglesa ou norte-americana, cujo romance acabou com a deflagração da Primeira Guerra Mundial (1914- 1918) e o envolvimento de seus países de origem em lados opostos.

Natal no início do século XX.

Esse conflito em muito retardou o desenvolvimento econômico do Rio Grande do Norte, mas, após o fim da Primeira Guerra, Enest Lück planejou uma mudança de vida. Assim, fundou com um amigo uma loja na Rua Chile, 161, onde se vendia muitos artigos e ficou conhecida como uma loja de “Secos e Molhados”. Além da loja eles criaram a firma de importação e comércio Gurgel, Luck & Cia., com o objetivo de importar produtos da Alemanha e exportar matérias primas produzidas no Rio Grande do Norte, como algodão, óleos, couros, etc.

Ainda segundo Pery Lamartine os sócios vão à Alemanha em 1922 em busca de contatos comerciais, no que são bem-sucedidos. Eles conseguem a representação potiguar da grande casa exportadora Theodor Wille, uma empresa criada por um alemão no Brasil em 1848, que se tornou uma verdadeira potência comercial na década de 1920, onde exportava para a Alemanha o nosso café e exportava tecidos, ferramentas, máquinas e até locomotivas.

Ainda na Alemanha os dois sócios igualmente conseguiram a representação da empresa de navegação Hamburg Sud, ou Hamburg Südamerikanische Dampfschifffahrts-Gesellschaft, também conhecida como Hamburg South America Line, até hoje uma grande empresa de navegação que faz parte da Maersk Line, a maior empresa de transporte de contêineres do mundo.

Ou seja, o alemão e seu sócio brasileiro, além de fecharem um interessante contrato de representação com uma empresa que trazia da Alemanha produtos de primeira qualidade e aceitava comprar as matérias primas produzidas em terras potiguares, também conseguiram a representação de uma grande empresa de navegação. Essa provavelmente transportava os produtos ligados a Gurgel, Luck & Cia., possivelmente com um valor diferenciado e vantajoso.

Nesse retorno de Enest Lück ao seu país, ele reencontrou uma vizinha de infância chamada Elisabeth Luise Bamberger, com quem casou. Enquanto sua vida familiar progredia na caliente Natal, na sua loja da Rua Chile, 161, Enest Lück vendia muitas mercadorias e se tornou referência na cidade. Encontramos em jornais natalenses anúncios de venda de facas, ferramentas agrícolas, talheres, tesouras, etc. Esse edifício não era o único imóvel que o  imigrante alemão possuía naquele setor da cidade. Ele era proprietário de um salão aberto na Travessa Venezuela e uma loja na Rua Dr. Barata, a de número 170, onde ali funcionou durante algum tempo a Confeitaria Savoia, de Giovani Fulco. Enest Lück cresceu como comerciante e na respeitabilidade junto ao povo de Natal, tornou-se o mais proeminente representante da pequena colônia alemã aqui radicada, representante diplomático de sua nação na cidade.

Apesar desses avanços, percebemos na leitura dos antigos jornais uma situação que, aparentemente, chamou negativamente a atenção do povo de Natal em relação às atitudes do alemão Enest Lück.

Propaganda do Sindicato Condor em jornais natalenses.

Segundo nos conta Pery Lamartine, nos primeiros anos da década de 1930, vivia-se, a nível mundial, uma acirrada disputa no que se refere ao transporte do correio aéreo e de passageiros, principalmente entre franceses e alemães. O falecido escritor e aviador potiguar informou que Enest Lück conseguiu então as representações das empresas Lufthansa e Sindicato Condor. Duas companhias de transporte aéreo que se completavam e, conforme podemos observar no capítulo dedicado a  atuação do Sindicato Condor em Natal, ficava localizada na Rua Frei Miguelinho, 119, Ribeira. Foi quando a edição de domingo, 13 de setembro de 1931, do jornal A República, apresentou com grande destaque os fatos que envolveram a tragédia de um hidroavião Dornier Wall, do Sindicato Condor.

Registrado como P-BALA e batizado como “Olinda”, o jornal aponta que, no dia anterior, um sábado, ao buscar decolar no Rio Potengi o piloto Max Christian Sauer e o copiloto Rudolf Karwat não conseguiram força suficiente, aparentemente devido ao mau funcionamento em um dos motores e a aeronave não alcançou a ascensão desejada.

Acidente no Rio Potengi do hidroavião registrado como P-BALA e batizado como “Olinda”,

Ao sobrevoar o Canto do Mangue, local de atracação de barcos de pescadores às margens do Rio Potengi, o piloto decidiu fazer uma curva à esquerda para levar o “Olinda” para o mesmo ponto de onde partiram e tentar uma nova arremetida.

Provavelmente devido à falha no motor, desconhecimento dos obstáculos que havia na área que sobrevoava, desorientação espacial, ou outras causas, o Dornier Wall chocou-se violentamente contra uma antiga barcaça utilizada para o transporte de areia e explodiu em chamas. O impacto ocorreu na outra margem do rio, defronte à administração do Porto de Natal. Os que foram entrevistados pelo jornal nada comentaram sobre o barulho de uma explosão, mas narraram quer viram uma bola de fogo que se criou após o choque.

Consta, nas páginas de A República, que entre os que testemunharam a tragédia e estavam no outro lado do Potengi estava Mestre Manoel Ciríaco, proprietário de um barco conhecido como Minerva, além dos seus tripulantes Luís Jacaré e Chico Velho. Eles rapidamente embarcam no bote e foram os primeiros a chegar ao local da tragédia.

Na barcaça abandonada, que o jornal chama de “areieiro”, Ciríaco encontrou o mecânico Paul Hein, ferido e desacordado. Próximo à barcaça, ainda dentro do que restou da cabina do “Olinda”, os brasileiros viram os restos mortais do piloto, do copiloto e do radiotelegrafista Franz Noether. Nesse momento, encostou uma lancha com vários passageiros, entre eles o alemão Enest Walter Lück e funcionários do Sindicato Condor. Mestre Ciríaco e seus ajudantes transferiram então o mecânico ferido para a lancha e este foi transportado para o cais do porto. Para a surpresa do simples barqueiro e seus tripulantes, em vez de Lück e os membros do Sindicato Condor resgatarem os corpos dos seus companheiros, esses passam a recolher as encomendas, envelopes e malas postais que flutuavam no rio. Ciríaco e seus companheiros comentaram os fatos com detalhe no principal jornal de Natal, o que aparentemente chamou atenção na cidade.

Estaríamos, então, diante da fria lógica germânica que, frente à morte de três tripulantes e da prestação inicial de assistência ao ferido, o mais importante era o recolhimento do material ao resgate dos cadáveres dos seus companheiros? Vale ressaltar que o piloto Max Christian Sauer era o diretor técnico do Sindicato Condor.

E o que haveria de tão importante nesse material que flutuava no Potengi?

O cruzador “Dauntless” entrando em um porto na década de 1930.

Ao observamos os jornais da época, um fato chama a atenção. No dia 27 de agosto de 1931, dezesseis dias antes do acidente do “Olinda”, procedente das Antilhas chegou ao porto de Natal o cruzador ligeiro Inglês H. M. S. Dauntless. Esse era um fato não muito comum na capital potiguar, sendo noticiado pelos jornais da época como “uma tranquila visita de cortesia de 400 oficiais e marinheiros da marinha de Sua Majestade”. Não faltaram inúmeras recepções que movimentaram a urbe, com um baile a bordo do cruzador e outras festividades. Ocorreu até mesmo um movimentado jogo de futebol entre a equipe do navio e o time do América Futebol Clube, que venceu os marinheiros ingleses pelo placar de 4×2. O certo é que o cruzador inglês H. M. S. Dauntless não era nenhum navio desprezível, ou que não chamasse atenção. Era uma moderna nave de combate da classe “D” de cruzadores ligeiros ingleses, estava em serviço ativo desde 1918, possuía o código D-45 e pertencia, na época, à Divisão Sul Americana da frota inglesa. Desenvolvia quase 30 nós de velocidade, com um armamento que incluía torpedos de 533 m.m., seis canhões de 152 m.m. e canhões antiaéreos. Seu peso era de 5.000 toneladas e tinha quase 150 metros de comprimento[2]. Em 1931, apesar de a Alemanha ainda não viver sob o domínio do Terceiro Reich, haviam se passado apenas treze anos do fim da Primeira Guerra Mundial, onde a Inglaterra era vista pelos alemães como um potencial inimigo. Era normal aos agentes e representantes alemães pelo mundo afora, como era o caso de Enest Walter Lück, informar as movimentações e os detalhes sobre as belonaves de guerra dos países considerados inimigos em suas viagens. Haveria então nas malas postais transportadas pelo “Olinda” alguma informação interessante sobre o cruzador H. M. S. Dauntless que teria sido enviada para a Embaixada Alemã no Rio de Janeiro?

Seria essa a razão do Sr. Enest Walter Lück ter deixado de lado o resgate dos corpos dos tripulantes do “Olinda”?

Ou seria apenas uma coincidência?

Não sabemos, mas vale ressaltar que, devido à falta de atenção do Sr. Enest Walter Lück em não ordenar o resgate dos corpos dos tripulantes do hidroavião, esses são deslocados pela maré e se perdem na noite. Só vão ser encontrados, segundo o jornal A República, a partir das dez da manhã de domingo, 13 de setembro. Eles estavam espalhados em vários pontos do rio e já em adiantado estado de putrefação. Ainda no domingo, com grande acompanhamento por parte da população local, autoridades e membros da colônia alemã, os três alemães mortos foram rapidamente enterrados no cemitério do Alecrim.

Conforme apresentamos no texto dedicado ao comerciante italiano Guglielmo Lettieri, durante a Segunda Guerra Mundial, o alemão Enest Lück e dois compatriotas foram acusados e condenados como espiões da Alemanha Nazista atuando em Natal. Clyde Smith deixa a entender em seu livro que a loja que Lück possuía na Rua Chile era uma espécie de fachada para outras atividades, pois ali “aparentemente, ninguém entrava”[3]. Mas logo após o fim do conflito todos foram soltos e, de uma forma que merece estudo complementar, foram perdoados pela sociedade natalense e continuaram a tocar suas vidas.

Rua Chile antiga Rua do Comércio.

Não conseguimos uma informação mais abrangente sobre o que aconteceu com a loja de Lück na Rua Chile, 161. Mas, segundo a dissertação de mestrado do arquiteto e urbanista Gilmar de Siqueira Costa, pouco antes da chegada dos militares norte-americanos a Natal, o dia a dia naquela edificação ficou bem movimentada.

Intitulada Reutilização de imóveis de interesse patrimonial, voltados para a habitação: Um estudo de caso na ribeira – Natal/RN e publicada em 2006, essa dissertação, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, da UFRN, aponta, nas páginas 147 a 149, que o pavimento do edifício da Rua Chile, 161, foi construído em 1904. Já em 1941, o Senhor Nestor Galhardo adquiriu parte da edificação, tendo o intuito de instalar sua própria gráfica, ocupando apenas o pavimento térreo. Porém, com o advento da Segunda Grande Guerra, muitas prostitutas e seus clientes vieram para a Ribeira. Pensando em atender ao grande número de militares e marinheiros, o Sr. Galhardo, que era amante de uma meretriz chamada Rosita, decidiu abrir um cabaré no pavimento superior, que seria administrado pela sua concubina e cuja entrada era feita pela Travessa Venezuela. Aparentemente foi nessa época que a edificação ficou conhecida popularmente como “Edifício Galhardo”.

Segundo Gilmar de Siqueira Costa, um dos aspectos mais curiosos relacionados ao Edifício Galhardo é o fato de ter sediado durante muito tempo uma das mais famosas casas de meretrício do Nordeste – o Cabaré Arpège. O autor aponta como sendo uma “casa de recursos vinculada à cultura da boemia e dos cabarés, geradora de toda uma série de mitologias e anedotas referentes a personagens destacados na vida social, no decorrer do seu tempo de atuação”. Sobre esse lugar paira a lenda que durante a visita dos Presidentes Roosevelt e Getúlio Vargas à Natal, em janeiro de 1943, esses teriam visitado discretamente as instalações do elegante lupanar.

Após a morte do seu proprietário, o seu parente Nestor Galhardo Neto assumiu a administração dos negócios contidos no imóvel. Gilmar de Siqueira Costa aponta como fato curioso que durante as gravações da película “For All”, que buscava retratar a cidade de Natal no período da Segunda Guerra, algumas cenas foram tomadas nos espaços do prédio.

NOTAS


[1]http://www.parentesco.com.br/index.php?apg=pessoa&idp=32290&c_palavra=L%C3%BCck&ori=nomes&ver=por, acessado em 17/05/2019.

[2] O H. M. S. Dauntless chegou a participar de toda a Segunda Guerra Mundial, combatendo os japoneses na região da Batavia e Singapura, além de participar dos combates a submarinos alemães no Atlântico.

[3]SMITH JUNIOR, Clyde – Trampolim Para a Vitória. 1. Ed. – Natal-RN: Ed. Universitária, 1993, página 22.

OS PESCADORES NORDESTINOS QUE ENCONTRARAM UM SUBMARINO NAZISTA E SOBREVIVERAM PARA CONTAR A HISTÓRIA

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Tal como em 2020, o ano de 1942 foi bastante sombrio para o mundo e para o Brasil. Se no atual período, em pleno século XXI, uma pandemia vindo da China que apavora e mata, nos anos 40 do século passado eram submarinos nazifascistas que assolavam os oceanos, especialmente o Atlântico, com suas ações de combate que infligiram muitas mortes e destruição.

Tal como no início de 2020, quando as primeiras notícias da expansão do COVID-19 parecia algo distante e que não afetaria tanto o nosso dia a dia, algo semelhante ocorreu no Brasil durante os momentos iniciais da Segunda Guerra Mundial. Toda a problemática parecia distante, do tamanho do mar que separa nosso país da Europa. Em minha opinião isso durou até o momento da queda da França.

Soldados alemães desfilam no Champs Élysées em 14 de junho de 1940 (Bundesarchiv) – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/Paris_in_World_War_II#/media/File:Bundesarchiv_Bild_146-1994-036-09A,_Paris,_Parade_auf_der_Champs_Elys%C3%A9e.jpg

Uma situação que realmente abalou a sociedade brasileira, até pela influência que a cultura francesa exercia em nosso país. Nessa época os alemães conquistaram vários portos franceses e passaram a utilizá-los com seus submarinos, ampliando a capacidade de ação dessas naves. Logo chegavam mais e mais notícias de ataques contra o transporte marítimo Aliado.

 O Oceano Atlântico se tornou um verdadeiro campo de lutas, que ficou marcado na História como a Batalha do Atlântico.

Foto de 1943, da ação da Marinha do Brasil na Batalha do Atlântico – Fonte – Marinha do Brasil.

Essa foi a mais longa campanha militar da guerra. Durou de setembro de 1939 até a derrota da Alemanha em maio de 1945 e durante esses seis anos navios e submarinos alemães – mais tarde com a participação de italianos – lançaram-se com eficiência e coragem para controlar as rotas marítimas e atacar os comboios aliados que transportavam equipamentos e suprimentos vitais.

A Guerra no Mar

No início os navios de guerra alemães realizaram uma série de incursões, mas tiveram sucesso limitado, levando à perda de grandes navios, incluindo os poderosos encouraçados de bolso Graf Spee e Bismarck. O foco da marinha alemã passou então a ser a escalada da guerra submarina, com a construção de várias unidades.

Os submarinistas alemães atacavam os navios mercantes inimigos de forma solitária ou em grupos, as chamadas “Alcateias de lobos”. Disparavam com destreza torpedos e tiros de canhões e depois submergiam para fugir dos contra-ataques dos navios escolta. Os alemães obtiveram muito sucesso nos primeiros anos da Guerra, chegando a afundar em 1941 um total de 875 navios Aliados. O entusiasmo dos germânicos era tão elevado, que eles classificaram esse período como “Tempos felizes”.

Mas os britânicos não fraquejaram. Eles conseguem algumas vitórias com o apoio dos canadenses e a ajuda dos Estados Unidos, através do envio de 50 destroieres seminovos, recebidos em troca do acesso a bases britânicas.

Um marinheiro mercante observa o destróier canadense HMCS Swansea em serviço de escolta no Atlântico Norte. Crédito da foto: Library Archives Canada PA-112995

Não podemos esquecer que a evolução tecnológica, trabalhou em favor dos Aliados, incluindo a colocação de radares em navios de escolta a partir de agosto de 1941. No entanto, os comboios eram ainda muito vulneráveis, principalmente em áreas onde a cobertura e a proteção oferecida pelos aviões antissubmarinos eram limitadas pelo alcance.

Em 1942 novos submarinos alemães entraram em serviço a uma taxa de vinte por mês. Embora a Marinha dos Estados Unidos tenha entrado na Batalha do Atlântico no final de 1941, estes foram incapazes de evitar o afundamento de quase 500 navios, entre janeiro e junho de 1942.

Primeiro Ministro Winston Churchill.

O caso era tão sério que o abastecimento de gasolina e comida para a Grã-Bretanha atingiu níveis criticamente baixos. Até mesmo o inquebrantável Primeiro Ministro Winston Churchill, comentou em suas memórias que durante a guerra seu maior medo em relação aos inimigos era a ação dos seus submarinos.

O Brasil no Caminho da Guerra

As primeiras notícias de algum navio brasileiro atacado pelos nazistas nada teve haver com a ação de um submarino no Oceano Atlântico, mas foi resultado de um ataque aéreo alemão no Mar Mediterrâneo.

Foi no dia 22 de março, em um trajeto entre a ilha de Chipre e a cidade egípcia de Alexandria, que o cargueiro Taubaté, de 5.099 toneladas, foi atacado com bombas e tiros de metralhadoras de um avião bimotor alemão. Nesse episódio o conferente José Francisco Fraga, quando tentava com outros colegas içar uma bandeira brasileira para que o avião cessasse o ataque a uma nave neutra, foi crivado de balas. Fraga se tornou o primeiro brasileiro morto por uma ação de combate realizada por forças nazistas. Mesmo danificado o Taubaté conseguiu chegar ao porto de Alexandria e entre os membros da tripulação que testemunharam o ataque estavam o foguista João Lins Filho, potiguar, e o 2º cozinheiro Teodoro da Silva Ramos, pernambucano. Ramos inclusive levou vários estilhaços nas costas, ocasionando feridas que deixaram grandes cicatrizes (Detalhes sobre esse ataque ver https://tokdehistoria.com.br/2018/02/01/1941-o-ataque-de-um-aviao-nazista-ao-cargueiro-taubate-e-o-primeiro-potiguar-a-testemunhar-o-horror-da-segunda-guerra/ ).

Esquadrão de caça e destruição de submarino VP-52, equipado com hidroaviões Catalina. Eles foram a primeira unidade militar dos Estados Unidos a chegar em Natal, Rio Grande do Norte, no dia 11 de dezembro de 1941. Depois se notabilizaram destruindo navios de cargas japoneses no teatro de guerra do Oceano Pacífico – Fonte – Coleção do autor.

Nesse meio tempo os brasileiros que viviam na porção nordeste do país começaram a perceber a chegada paulatina da guerra.

Em 18 de abril de 1941, uma sexta-feira, pescadores da bela praia potiguar de Rio do Fogo, ao norte de Natal, ajudaram no resgate de dezenove náufragos do cargueiro inglês Ena de Larrinaga, afundado próximo ao Arquipélago de São Pedro e São Paulo pelo submarino U-105. No dia 11 de dezembro chegava a Natal seis hidroaviões Catalina da esquadrilha VP-52, da Marinha dos Estados Unidos, que passaram a patrulhar o nosso litoral e o Atlântico Sul. No primeiro mês do novo ano de 1942, mais precisamente em 28 de janeiro, o Brasil decidiu romper relações com a Alemanha após a III Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores das Repúblicas Americanas, realizado no palácio Tiradentes, no Rio de Janeiro.

A partir desse acontecimento, a destruição de navios brasileiros por submarinos se tornou comum nos jornais. A primeira vítima ocorreu em fevereiro de 1942 e foi o navio de carga e passageiros Buarque, de 5.152 toneladas, que foi afundado na costa dos Estados Unidos no dia 12, com a morte de um tripulante. No mesmo mês se juntou ao Buarque no fundo do mar os cargueiros Olinda e o Cabedelo. O primeiro foi destruído, sem vítimas, pelo submarino alemão U-432. Já o Cabedelo desapareceu na segunda quinzena de fevereiro, sem deixar vestígios, em algum ponto do Oceano Atlântico, onde pereceu toda a tripulação. Acredita-se que esse afundamento foi uma ação do submarino italiano Da Vinci.

Lista de sobreviventes do navio de carga brasileiro Comandante Lira, transportados pelo cruzados USS Omaha, da Marinha dos Estados Unidos, após seu torpedeamento pelo submarino italiano Barbarigo, em 18 de maio de 1942.

Entre o final de fevereiro e o final de julho, outros onze barcos de bandeira brasileira foram atacados no Atlântico Norte, na costa norte-americana e no Mar do Caribe, totalizando 80 mortos e 51.728 toneladas perdidas. Somente o cargueiro Comandante Lira, danificado a 900 milhas náuticas de Natal, e o veleiro de transporte de cargas Paracury, com 265 toneladas é atingido por disparos ao sul da República Dominicana, conseguiram sobreviver para retornar ao serviço. Sobre esse último caso ver https://uboat.net/allies/merchants/ship/1745.html

Mas quando agosto chegou os alemães abriram as portas do inferno nas calientes águas do litoral nordestino.

O Submarino Alemão

Oficiais na torre do U-507.

O U-507 era um submarino do tipo IXC, comandado pelo Korvettenkapitän (capitão de corveta) Harro Schacht, um alemão de 35 anos de idade, originário de uma cidade portuária na Baixa Saxónia chamada Cuxhaven, localizada no norte daquele país. Até agosto de 1942 Schacht e seus 53 tripulantes haviam enviado para o fundo do mar nove navios mercantes e danificado um. Estas ações ocorreram em duas patrulhas de combate, ocasionando a morte de 98 pessoas e totalizando 51.543 toneladas de material flutuante perdido.

Símbolo da torre do U-507.

Segundo os dados existentes, a terceira patrulha de combate do U-507 começou no dia 4 de julho, quando os alemães partiram da cidade francesa de Lorient. Em 13 de julho Schacht passou a poucos quilômetros a leste da ilha da Ribeira Grande, no Arquipélago dos Açores, aparentemente sem chamar atenção das autoridades portuguesas. Depois seguiu em patrulha até o dia 25 de julho, onde realizou um encontro na região de Cabo Verde com o submarino U-116, para receber 28 mil litros de óleo combustível e suprimentos.

Entre 30 e 31 de julho, o U-507 se encontrava a norte/noroeste do Arquipélago de São Pedro e São Paulo e seguiu em direção a costa brasileira. Três dias depois informou que alcançou as coordenadas geográficas 03°, 27’ S 36°, 33’ W, um local a cerca de 90 a 100 milhas náuticas da costa do Ceará e do Rio Grande do Norte, algo entre 165 a 185 quilômetros de distância. Depois se afastou da costa nordestina, retornando em direção a São Pedro e São Paulo, onde no dia 8 de agosto passou ao norte desses isolados pontos rochosos. Depois manobrou em direção sudoeste, apontando novamente para a costa brasileira. Nesse trajeto esteve entre 11 e 12 de agosto a poucas milhas náuticas a noroeste de Fernando de Noronha e continuou se aproximando do nosso litoral de forma decidida. Dois dias depois estava na altura de Maceió.

Um hidroavião Consolidated PBY Catalina – Fonte – NARA. 

Aqui cabe abrir um parêntese para comentar que nessa época em Natal operava o esquadrão VP-83 da Marinha dos Estados Unidos, a US Navy, equipado com uma dezena de hidroaviões Catalina, que realizavam constantes patrulhas de vigilância nessa região. Essas aeronaves estrangeiras eram apoiadas por vários aviões e hidroaviões da Força Aérea Brasileira, que mesmo carente de materiais modernos, se desdobrava ao máximo para patrulhar o litoral. Além desse material aéreo, a US Navy, operava algumas unidades navais, onde se destacavam os cruzadores USS Omaha e USS Milwauke, além de alguns destroieres e navios de apoio. Essas naves eram subordinadas ao grupo de operações navais denominado Task Force Twenty Three (Força Tarefa 23), ou TF23, sob o comando do almirante Jonas Howard Ingram. A TF23, que futuramente se transformaria na Four Fleet, ou Quarta Frota, operava em conjunto com a Marinha do Brasil, que por sua vez se esforçava para cumprir suas missões com uma pequena e bastante envelhecida frota de navios.

Mas como ninguém se colocou na sua frente, Schacht continuou seguindo direto para o litoral brasileiro.

Inferno em Alto Mar

Segundo o interessante livro “Operação Brasil”, de Durval Lourenço Pereira, que trás informações do diário de bordo do U-571 e mostra a ação de forma intensa, às sete da noite de 15 de agosto começou o ataque do U-507 ao navio brasileiro Baependi.

O navio brasileiro Baependi – 270 pessoas mortas.

No primeiro momento dois torpedos são disparados, mas erram. Entretanto o navio segue lento e o alemão consegue reposicionar seu submarino, ultrapassando o barco brasileiro. As 19h12 abre fogo com outros dois torpedos e logo o navio vai para o fundo do mar.  Depois de tantos dias de navegação Schacht e seus homens exultam com a vitória. Já no Baependi sobrevivem apenas 36, dos seus 322 tripulantes e passageiros.

O navio brasileiro Araraquara – 131 pessoas mortas.

Logo após o ataque, Schacht segue atrás de outro alvo, que surge bastante iluminado. É o navio de passageiros Araraquara, construído na Itália em 1928 e considerado uma nave luxuosa. Pouco depois das nove da noite é disparado um torpedo que faz o Araraquara partir-se ao meio e afundar em cinco minutos. Salvam a vida apenas 11, dos seus 142 tripulantes e passageiros. Esses afundamentos, que ocorreram com uma diferença de menos de duas horas, foram em pontos defronte a divisa entre a Bahia e Sergipe.

O navio brasileiro Aníbal Benévolo – 150 pessoas mortas.

Depois, já na madrugada do dia 16, o U-507 se coloca em um setor mais ao sul da primeira carnificina, já no litoral norte da Bahia, onde um novo alvo é localizado. Depois de realizar certas manobras o alemão coloca seu submarino a apenas mil metros do novo ponto visado e as 04h13 ataca e afunda o navio de passageiros Aníbal Benévolo. O Suplício dessa nave foi extremamente rápido e extremo. Em poucos minutos ele desapareceu nas águas e das 154 pessoas a bordo, só se salvaram quatro tripulantes.

A ação do alemão foi tão contundente e destruiu seus alvos de forma tão avassaladora, que nenhum dos três navios afundados emitiu quaisquer sinais de socorro. O caçador alemão podia continuar agindo impunemente no litoral nordestino.

Farol da Barra e salvador antes da Segunda Guerra Mundial – Fonte – http://www.bahia-turismo.com/salvador/barra/barra-antiga.htm

Na sequência do dia 16 de agosto, o U-507 se aproxima de Salvador e às sete da noite Schacht avista os faróis de Itapuã e depois o de Santo Antônio da Barra, na entrada da baía de Todos os Santos, além das luzes de Salvador. Mas nada de navios.

O navio brasileiro Itagiba – 36 pessoas mortas.

Na manhã de 17 de agosto outro navio é avistado ao norte da ilha de Tinharé, próximo ao farol do Morro de São Paulo. Esse é o Itagiba, que vinha do Rio para Salvador e, quase as onze da manhã, é atingido por torpedo e afunda em 10 minutos. Morreram 36 pessoas e 145 sobrevivem pelo valoroso trabalho de resgate realizado pelo iate Aragipe, um barco costeiro de 300 toneladas, comandado por Manoel Balbino dos Santos, que passava pelas proximidades seguindo para Salvador, ou Ilhéus, segundo outras fontes.

O navio brasileiro Arará – 20 pessoas mortas.

Schacht tem tempo de observar pelo periscópio o trabalho de resgate realizado por Balbino e sua tripulação, mas logo avista outro navio, outro alvo. É o pequeno cargueiro brasileiro Arará, de apenas mil toneladas de deslocamento, que se aproxima para ajudar a recolher os náufragos. Durval Lourenço aponta corretamente que Schacht “mostrou total desprezo pela vida humana”, quando atacou um navio desarmado que recolhia náufragos e disparou sua carga de torpedos a menos de 500 metros do alvo. O ataque ao Arará ocorreu duas horas após o fundamento do Itagiba. O saldo trágico deste último afundamento foi de 20 mortos e 16 sobreviventes. Segundo uma notícia publicada em O Jornal, do Rio de Janeiro (21/08/1942, págs. 1 e 6), depois de recolher um grande número de náufragos do Itagiba o mestre do iate Aragipe, Manoel Balbino dos Santos, quis ir até o local do sinistro do Arará e ajudar os necessitados. Mas foi veementemente impedido pelos náufragos do Itagiba e seguiu para a cidade de Valença. Outras fontes apontam que na verdade o Aragipe estava mesmo era lotado e por isso teve de sair da área.

Pouco depois das cinco e meia da tarde o U-507 avista outro navio e parte para o ataque. Seria a sua terceira vitima do dia, mas dessa vez Schacht não obtém sucesso. O torpedo falhou e o navio, que seria de nacionalidade sueca, estava se movendo rápido demais para o U-507 pegá-lo antes de entrar na baía de Todos os Santos.

Catalina do VP-83, que atuou no Brasil.

Após o fracasso ele decide navegar para o sul da Bahia. No outro dia o U-507 está imóvel na superfície, com sua tripulação realizando o concerto de um tubo lança torpedo. Um serviço que deixa aquela nave de guerra vulnerável. É quase uma e vinte da tarde de 18 de agosto, quando o submarino é visto pela tripulação do Catalina do VP-83, pilotado pelo tenente John M. Lacey. Os americanos atacam com disparos de metralhadoras e o lançamento de cargas de profundidade. Após os impactos o piloto achou que havia afundado o submersível porque viu uma mancha de óleo e bolhas de ar na superfície, mas Schacht escapou com seu submarino.

Não consegui encontrar um foto identificando o Jacyra. Talvez ele fosse parecido com o barco da foto, certamente maior. Não houve mortos no afundamento do Jacyra – Fonte – TIME/LIFE

O capitão alemão continuou levando sua nave em direção sul, até as proximidades de Ilhéus. Na madrugada de 19 de agosto os alemães encontram um pequeno veleiro costeiro de transporte de mercadorias chamado Jacyra, que foi abordado. Os nazistas revistam o veleiro, mas não encontram nada de útil. A seguir ordenam a tripulação brasileira que sigam para a praia e o barco é dinamitado. Foi uma parada arriscada, realizada perto do litoral, para revistar e depois afundar um veleiro que nem ultrapassava as 100 toneladas. 

Todos esses barcos brasileiros foram atacados e afundados em posições que variam de 7 a 30 milhas náuticas de distância, algo entre 13 a 55 quilômetros das belas praias dos litorais da Bahia e Sergipe. No total morreram 607 pessoas, entre homens, mulheres e crianças e foram perdidos 14.911 toneladas em naves afundadas.

O navio sueco Hammaren – Seis pessoas mortas.

No dia seguinte após o afundamento do Jacyra, por volta do meio dia, o U-507 está novamente próximo da bela localidade de Morro de São Paulo e a noite avistam as luzes de Salvador. Schacht permanece com seu submarino na área da entrada da baía de Todos os Santos  por todo o dia 21, mas não visualizam nenhum alvo. Na madrugada do dia 22, na altura do farol de Itapuã, Schacht encontra o navio sueco Hammarem, que navega sem luzes. Mesmo trazendo no seu mastro a bandeira de um país neutro, o alemão ordena o lançamento de dois torpedos, com resultados negativos. Ele espera o dia amanhecer para disparar tiros de canhão. O Hammarem é atingido na proa e para as máquinas, Schacht então dispara seus torpedos para enviar o navio para o fundo. Seis tripulantes morrem na ação. Depois o alemão segue em direção norte. 

Guerra

Para o Brasil de 1942, aqueles afundamentos ocorridos em poucos dias foi um verdadeiro choque. Algo que abalou fortemente a população. Conforme os dias foram passando e fotos terrivelmente duras de cadáveres em decomposição nas praias sergipanas e baianas foram mostrados nos jornais e revistas, o povo brasileiro se encheu ainda mais de indignação, dor e raiva. Milhares de pessoas saíram espontaneamente às ruas de várias cidades pedindo a declaração de guerra contra a Alemanha. No entanto a ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas levou alguns dias para assinar essa declaração, fato ocorrido em 22 de agosto. Isso tudo em meio a um forte clamor popular nas ruas do Rio, algo que Vargas não tinha muita prática e experiência de lidar.

Aquela atitude popular, considerada inusitada em meio a uma das ditaduras mais terríveis e nefastas da história do Brasil, para mim não é surpreendente. Naquele tempo viajar de navios era algo extremamente normal em todo planeta e também para os brasileiros. Estes últimos viviam em um país continental com muita agricultura e poucas indústrias, com uma malha ferroviária relativamente pequena para as suas necessidades, desprovido de boas estradas, sem uma indústria automotiva que suprisse a demanda e com um transporte aéreo destinado basicamente aos mais ricos. O transporte marítimo era muito popular, até mesmo para alguém que vivia com poucos recursos no Brasil. Navegar, mesmo mal acomodados na terceira classe dos barcos de cargas e passageiros, era a única opção para seguir para rincões mais longínquos.

Além do livro de Durval Lourenço, outra maneira de visualizar a rota do que o U-503 realizou para destruir sete barcos na costa brasileira, é através do interessante site https://uboat.net/ Seguramente o melhor existente na internet, com uma enorme gama de informações sobre a ação dos submarinos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Na imagem vemos o traçado em vermelho da rota da patrulha de combate do U-507 , que durou de 4 de julho até 12 de outubro de 1942. Na imagem, os pontos em laranja são os barcos afundados na costa brasileira – Fonte – https://uboat.net/boats/patrols/patrol_1099.html

Na página 177 do livro “Operação Brasil”, encontramos um interessante mapa que mostra a rota percorrida pelo U-507 no litoral brasileiro. Após o último ataque próximo a costa baiana, o submarino navegou várias milhas mar adentro e passou longe de Aracajú. Mas quando estava na altura de Maceió, o comandante alemão começou a retornar para perto da costa nordestina. Ele planejava realizar um ataque contra o porto de Recife, Pernambuco, então um dos mais movimentados no Brasil daquela época.

Os Quatro Pescadores do Pina

Provavelmente o comandante alemão desejava atacar disparando torpedos nos vapores ali ancorados, ou utilizando o canhão de 105 m.m. que existia em sua nave para destruir estruturas portuárias. Em 23 de agosto Schacht enviou uma mensagem ao B.d.U., ou Befehlshaber der Unterseeboote, o Comandante dos submarinos alemães, cargo exercido pelo almirante Karl Dönitz, informando sobre suas intenções. Apesar de ter liberdade de ação no litoral do Brasil, no outro dia Schacht  recebeu uma resposta proibindo esse tipo de ataque por razões políticas, mas ordenava que ele e sua nave continuassem avançando para o porto e esperasse por tráfego.

Almirante Karl Dönitz

Enquanto o U-507 se aproximava do litoral pernambucano, ao meio dia de 25 de agosto na praia do Pina, uma das mais tradicionais de Recife, um grupo de pescadores se preparava para o trabalho. Eles se chamavam Elviro Izidro de Miranda, João Francisco dos Santos, Manoel Alves do Nascimento e Francisco Bezerra da Silva e aparelhavam o bote Ivo para mais uma saída para o mar. Esse barco um barco limitado, que possuía pequenas dimensões, utilizava uma única vela triangular, ou “pano”, no dizer dos pescadores, e tinha um pequeno castelo de proa. Eles faziam parte da Colônia de Pescadores do Pina, a Z-1, que nessa época tinha sede na Rua da Cabanga.

Não consegui uma foto que apontasse com clareza como era estrutura de um bote em Recife no ano de 1942. Já em Natal, o que se conhece como bote são os barcos que aparecem nessa foto de Hart Preston, atracados no cais da Tavares de Lira, as margens do Rio Potengi. Essa foto foi realizada em Natal no ano de 1941 – Fonte – TIME/LIFE

Evidentemente, como trabalhadores do mar, aqueles homens já tinham conhecimento dos ataques realizados pelo U-507 entre Sergipe e a Bahia. Certamente estavam com raiva, como a maior parte dos brasileiros e muito mais preocupados do que a maioria, pois a sua labuta era justamente no mar, onde talvez encontrassem o inimigo. Inimigo esse que destruiu navios que vez por outra frequentavam o porto de Recife.

Segundo a cópia de um depoimento existente no Arquivo Nacional, aqueles homens informaram que o bote Ivo estava equipado com gelo, o que garantia condições de permanecer mais tempo no mar com o pescado conseguido. Eles iriam pescar a cerca de 30 milhas da costa, pouco mais de 55 quilômetros de distância. Por volta de meio dia zarparam.

No livro “A Marinha do Brasil na Segunda Guerra Mundial”, de Arthur Oscar Salgada da Gama, nas páginas 29 e 30, ele informa sobre um levantamento realizado pelo Adido Naval dos Estados Unidos, que concluiu existirem mais de 73.000 pescadores associados às muitas colônias de pescadores organizadas no litoral brasileiro. Outra coisa interessante estava no fato desses homens pescarem a distâncias que podiam chegar a 120 milhas náuticas da costa, onde  poderiam denunciar quaisquer ocorrências estranha as autoridades marítimas.

Ação dos pescadores no apoio a marinha do Brasil no Ceará.

Ainda segundo esse autor, no dia 14 de julho de 1942 o CEME – Comando do Estado Maior da Armada, emitiu uma Circular aos Comandantes Navais e aos Capitães dos Portos, orientando como arregimentar os pescadores para ajudar no esforço geral da Marinha em relação a proteção do litoral. Havia também orientações de como aqueles homens simples poderiam estabelecer ligações rápidas com os Comandos Navais.

Praia do Pina e suas jangadas. Pelo depoimento que consegui, tudo indica que os quatro pescadores não utilizaram esse tipo de barcos tradicionais.

Não sabemos se os quatro pescadores da Praia do Pina receberam informações sobre esse tipo de procedimento, mas no começo da noite de 25 de agosto eles chegaram ao ponto de pesca, sendo comandados por Elviro Izidro. Logo amarraram a vela ao mastro de madeira e baixaram a âncora do bote Ivo, ou fateixa. Segundo os pescadores a fateixa alcançou 29 braças de profundidade, ou 53 metros. Desse ponto não se avistava a terra e eles então trataram de pescar.

“-É um submarino”

Os quatro pescadores relataram que “reinava um bom tempo, apenas refrescado pelos ventos de quadrante sul”, que o período de lua cheia dava uma forte claridade. Uma condição muito perigosa para um submarino de ataque, pois aumentava a possibilidade dessas naves furtivas serem facilmente observadas.

Cópia do depoimento dos quatro pescadores.

Era por volta das nove da noite e foi o pescador João, que se achava no castelo da proa, quem primeiro viu uma embarcação estranha e disse “-Vem lá uma navegação!”. Suas palavras chamaram a atenção de Manoel, que estava sentado a meia nau. Manoel observou e, de fato, na direção Leste-Oeste, isto é, do mar para terra, navegava uma embarcação não muito alta, que, aos poucos, veio crescendo na direção do bote Ivo, até passar a cerca de 100 braças, pouco mais de 180 metros dos pescadores, pelo lado sul do seu pequeno barco. Manoel não teve duvidas e disse “-É um submarino”.

Notícia da visita dos submarinos brasileiros ao Recife em 1938.

Segundo a declaração prestada ao inspetor da Polícia Marítima e Aérea quando retornaram ao Recife, os quatro pescadores foram contundentes e convictos ao afirmarem ser aquele estranho barco era um submarino. Em 1938 eles tiveram oportunidade de ver de perto os três submarinos que o Brasil havia adquirido da Itália. Esses eram os submarinos da classe Perla, de 860 toneladas cada um, batizados como S-11 Tupy, S-12 Timbira e S-13 Tamoyo e que, conforme notícia que apresentamos, estiveram em Recife em 11 de fevereiro de 1938, quando realizaram uma parada para abastecimento antes de seguir para o Rio de Janeiro.

Em relação ao misterioso submarino observado na noite de 25 de agosto de 1942, os quatros pescadores da praia do Pina comentaram algo que considerei interessante e estranho – Eles afirmaram que o submarino trazia acessas duas lâmpadas em seus bordos, ou seja nas laterais, uma na cor vermelha e outra na cor verde. Como fossem luzes normais de navegação. Mas os pescadores comentaram admirados que essas luzes só se tornaram visíveis no momento que o submarino passou por eles e a ré da nave, ou popa, como é conhecida a parte traseira de uma embarcação, ficou inteiramente visível para os tripulantes do bote Ivo.

A silhueta mais característica dos submarinos alemães.

Estariam os alemães com essas luzes utilizando alguma espécie de ardil, se passando, atalvez, por um barco de pesca? Ou seriam essas luzes de algum instrumento de combate, ou de navegação do U-507?

Para os pescadores o submarino tinha um tamanho “comum” e comentaram que viram de maneira bem visível a torre e o periscópio, mas não divisaram os tripulantes. Perceberam que a nave seguia a boa velocidade, com o mar passando sobre o convés e a luz da lua refletindo sobre o casco. Os pescadores do Pina comentaram que se haviam tripulantes na torre do submarino (e certamente eles estava lá), estes provavelmente não viram o Ivo, pois o submarino seguiu em frente sem alterações. 

Navio da TF-23 da US Navy no porto de Recife. Foto de Hart Preston– Fonte – TIME/LIFE

Naturalmente os pescadores ficaram bastante assustados e depois do submarino desaparecer da vista deles, prontamente cortaram a corda da âncora, abriram a vela e trataram de retornar. Eles declararam que aproveitaram o vento que soprava e navegaram com o bote Ivo em direção a Olinda, pois o litoral nessa área possui pouca profundidade e recifes de coral, local impróprio para se colocar um submarino. Não sabemos o grau de instrução desses homens, mas pelo que ficou descrito no depoimento prestado por eles, em termos de conhecimentos marítimos e de navegação eles eram verdadeiros mestres.

Os pescadores nunca mais viram o submarino que, segundo o livro de Durval Lourenço, conseguiu chegar próximo do porto de Recife. Harro Schacht visualizou vários navios prontos para serem destruídos, mas não desobedeceu a ordem recebida. Em seu ótimo livro Durval comenta (pág. 178) que o alemão se aproveitou de uma situação natural para chegar próximo da entrada do porto em uma noite de lua cheia. Houve um eclipse lunar que literalmente “apagou” a lua!

Quando um submarino alemão retornava vitorioso a sua base francesa, era normal a tripulação colocar essas bandeiras triangulares, onde anotavam a tonelagem de cada navio afundado durante a patrulha. Nesta foto o submarino que retornou, que não era o U-507, afundou pelo menos dez navios inimigos. Certamente a tripulação do U-507 deve ter confeccionado as bandeirolas com as tonelagens dos navios que afundou na costa brasileira.

Se a ordem do B.d.U. para a realização de um ataque fosse positiva, as consequências para a história da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial e de Recife teriam sido bem diferentes.

Quando o dia amanheceu os alemães viram aeronaves e, para evitar ser visto nas águas claras do mar nordestino, o comandante submergiu sua nave a cerca de 35 metros de profundidade e assim passou todo o dia. À noite, oito horas e trinta e seis minutos, Schacht volta até a superfície e vasculha com o periscópio o horizonte. Ele então viu um destroier iluminado pela lua, a três quilômetros de distância. Segundo Durval Lourenço o alemão não disparou devido à intensa claridade noturna, a pouca profundidade e a perda do elemento surpresa com essa ação, o que poderia lhe impedir de atacar outros navios mercantes mais ao norte.

Mas qual era esse destroier e o que ele estava fazendo fora do porto de Recife?

Talvez a resposta esteja na ação dos pescadores do bote Ivo!

Era o USS Winslow?

Na manhã de 26 de agosto, os quatro pescadores alcançaram a área do então povoado de Maria Farinha, hoje um bairro da cidade de Olinda, depois de navegarem por mais de seis horas. Depois seguiram bordejando o litoral em direção sul, até o meio-dia, quando adentarem o porto de Recife. Seguiram pelo quebra-mar, até ancorarem nas proximidades da centenária Torre Malakof, onde se localizava a sede da Capitania dos Portos. 

Torre Malakof, onde em 1942 se localizava a sede da Capitania dos Portos em Recife – Fonte – https://guia.melhoresdestinos.com.br/

Elviro Izidro de Miranda, João Francisco dos Santos, Manoel Alves do Nascimento e Francisco Bezerra da Silva prestaram depoimento ao capitão de mar e guerra Nelson Simas de Souza, então Capitão dos Portos de Pernambuco, cargo que assumiu em maio de 1942, no lugar do capitão de fragata Harold Reuben Cox.

Aparentemente o relato dos quatro pescadores chamou a atenção do capitão Simas, pois ele logo seguiu com esses homens para o gabinete do contra-almirante José Maria Neiva, na própria Torre Malakof. O almirante Neiva estava à frente do recém-criado (04/06/1942) Comando Naval de Pernambuco, que poucos dias depois seria transformado no Comando Naval do Nordeste, onde essa nova grande unidade seria o braço armado da Marinha do Brasil na defesa das águas nordestinas, em parceria com os americanos da TF-23.

O contra-almirante José Maria Neiva e Getúlio Vargas – Fonte – Arquivo Nacional.

Pelo depoimento sabemos que após a audiência com o almirante Neiva, os pescadores se dirigiram para a sede da Polícia Marítima e Aérea, localizado na  rua, atualmente avenida, Marquês de Olinda. Nessa repartição relataram o que viram para Renato Medeiros, inspetor chefe da repartição.

A partir desse ponto nada mais descobri sobre os quatro valorosos pescadores do Pina. As autoridades igualmente nada mais comentaram do caso. Nada existe nos jornais sobre o caso.

Entretanto, nos arquivos militares da Marinha dos Estados Unidos existe uma indicação de algo aconteceu no começo da noite do dia 26 de agosto e, aparentemente, o depoimento prestado pelos pescadores Elviro, João, Manoel e Francisco foi levado em consideração.

Às seis horas e sete minutos da noite zarpou do Atracadouro 5 do porto de Recife o destroier americano USS Winslow. Tinha a missão de patrulhar nas proximidades do porto e a ordem para a realização dessa missão foi transmitida verbalmente pelo comando da TF-23.

O USS Winslow nada encontrou naquela noite, mas continuou patrulhando nos dias posteriores.

Fim Trágico

Teria sido esse o navio visualizado pelo Korvettenkapitän Harro Schach no periscópio do U-507? E a ordem verbal de partida do USS Winslow, teria se originado nas informações transmitidas pelos quatro pescadores do Pina ao capitão Simas e o almirante Neiva e depois retransmitida para o almirante Ingram?   

Uss Winslow no porto do Rio de Janiro – Fonte – US Navy.

Realmente eu não tenho respostas para essas perguntas. Tudo pode ser uma coincidência. Mas o documento com o depoimento dos pescadores, que foi repassado a Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco, e o livro “Operação Brasil”, de Durval Lourenço Pereira, que considero um dos melhores já escritos sobre o tema, apontam que essa situação parece ter sido bem real.

Inclusive esse autor aponta, de maneira correta, que após os afundamentos das naves brasileiras no final de agosto de 1942, praticamente em todo nosso litoral foram relatados inúmeras visualizações de submarinos inimigos. Mas a maioria se mostrou erros gerados pelo clima tenso e o nervosismo que o povo vivia. Entretanto, eu acredito que o caso dos pescadores do bote Ivo é real!

Independente dessa questão, ao saírem da Torre Malakof os pescadores Elviro Izidro de Miranda, João Francisco dos Santos, Manoel Alves do Nascimento e Francisco Bezerra da Silva foram completamente esquecidos.

O U-507 sendo destruído em 13 de Janeiro de 1943, por um Catalina a noroeste de Fortaleza, Ceará- Fonte – NARA.

Já Harro Schacht, depois de visualizar o que parecia ser o USS Winslow sob a luz do luar, e nada poder fazer, mandou acelerar os motores e sair da área de Recife. No outro dia estava diante da cidade portuária de Cabedelo, na Paraíba. Olhou durante a noite para o porto, mas não viu nada de interessante. Depois mergulhou para evitar ser visto por aviões e logo partiu. Tempos depois o U-507 retornou ao litoral brasileiro. Mas desta vez seu capitão e sua tripulação, um total de 54 pessoas, foram atacados e destruídos em 13 de Janeiro de 1943, por um Catalina a noroeste de Fortaleza, Ceará, que utilizou cargas de profundidade nessa ação. Essa aeronave era do mesmo VP-83, que atacara esse submarino em 18 de agosto do ano anterior. Os restos do U-507 e dos seus tripulantes se encontram a grande profundidade.

OUTROS TEXTOS DO TOK DE HISTÓRIA SOBRE ESSA TEMÁTICA

O COMANDANTE DE UM SUBMARINO ALEMÃO DA SEGUNDA GUERRA QUE VIVEU NO BRASIL – https://tokdehistoria.com.br/2017/04/20/o-comandante-de-um-submarino-alemao-da-segunda-guerra-que-viveu-no-brasil/

HÁ 73 ANOS, O SUBMARINO ALEMÃO U-199 ERA AFUNDADO POR AERONAVE DA FABhttps://tokdehistoria.com.br/2016/08/11/ha-73-anos-o-submarino-alemao-u-199-era-afundado/

O NOSSO LIVRO “LUGARES DE MEMÓRIA” ENTRE OS MAIS VENDIDOS NA UFRN

Rostand Medeiros – IHGRN.

Fiquei muito feliz essa semana quando soube através de amigos e do pessoal da Livraria do Centro de Convivência do Campus Universitário, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, que nosso novo livro “Lugares de Memória – Edificações e estruturas históricas utilizadas em Natal durante a Segunda Guerra Mundial” está entre os dez mais vendidos na conhecida Livraria do Campus, uma das maiores no estado, entre os meses de novembro e dezembro de 2019.

Ainda tive a grata surpresa de ter o nome do nosso livro lembrado pelo jornalista Vicente Serejo, que na sua coluna do dia 17 de dezembro, no do jornal Tribuna do Norte publicou a seguinte nota:::

Como foi dito pela imprensa, em suas 170 páginas “Lugares de Memória” traz informações, curiosidades e imagens de edificações e estruturas existentes na capital potiguar durante a Segunda Guerra Mundial, encerrado em 1945.

O livro apresenta informações e imagens (atuais e antigas) de 27 locais de Natal que possuem ligação com a participação do Brasil no conflito, incluindo quartéis, hospitais, sedes de companhias aéreas, bares, cabarés, hotéis, clubes militares, residências de oficiais e do cônsul norte-americano, entre tantos outros pontos que ainda mantêm as características de sete décadas atrás, ou cujos prédios originais deram lugar a novas edificações.

Publicado pelo Caravela Selo Cultural, o prefácio de “Lugares de Memória” é do jornalista e escritor Carlos Peixoto e o texto abre com a palestra do ex-governador Juvenal Lamartine, proferida em 1939 – sete meses antes da deflagração da guerra – e que já previa não só o conflito, como o envolvimento da capital potiguar. Já os 27 locais foram divididos em cinco partes, conforme os bairros: Santos Reis, Rocas, Ribeira, Petrópolis e Tirol.

O livro continua sendo vendido na Livraria do Campus, ao preço de R$ 40,00.

Segue a relação dos dez livros mais vendidos na Cooperativa do Campus entre novembro e dezembro de 2019.

NOVO LIVRO – PELO BEM DA HUMANIDADE, COMO O TOTALITARISMO LEVOU O MUNDO À SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Contatos – Tel: (32) 99128-6442  

Email – contato@insightbrasil.net

A Segunda Guerra Mundial possui inúmeras faces na historiografia, mas poucas são fiéis ao fato histórico. Decorridos 80 anos do início da guerra, a sua nuance primordial continua sendo a menos conhecida: o rosto totalitário.

Apoiado em uma investigação original, este livro oferece respostas a perguntas incômodas e, em regra, ignoradas: por que o povo europeu — o mais erudito da sua época — não impediu o avanço totalitário? Por que nações esclarecidas acreditaram nas falsas promessas de ditadores, permitindo a ruína da democracia? Qual é a real origem da última grande guerra? Como a barbárie subjugou os mais elementares princípios e valores da civilização ocidental? Como foi possível o Holocausto?

Para solucionar essas questões, Pelo Bem da Humanidade esmiúça a trajetória de alguns dos principais personagens envolvidos no último conflito mundial e os eventos-chave que o precederam, revelando um semblante oculto e distinto daqueles geralmente vistos nos compêndios de História.

A obra traz à luz essa fisionomia totalitária, que, em troca da promessa de construção do paraíso terrestre, causou a maior tragédia vivenciada pela humanidade. Conhecer os traços dessa faceta obscura nos permite identificar seus reais genitores e sua prole disseminada na sociedade atual, ao descortinar o ninho dos crescentes antagonismos que assolam o Ocidente há várias décadas.

O AUTOR E SUAS OBRAS

Durval Lourenço Pereira é tenente-coronel R1 do Exército Brasileiro. Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (1990), mestre em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (1998) e graduado em Cinema, Televisão e Mídia Digital pela Universidade Salgado de Oliveira (2006).

Foi assessor militar do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.

​É membro da Academia Campineira de Letras, Ciências e Artes das Forças Armadas.

Produziu e dirigiu os documentários O Lapa Azul: os homens do III Batalhão do 11º Regimento de Infantaria na II Guerra Mundial; e Navalha: um batalhão brasileiro na Linha Gótica. É autor do livro Operação Brasil: o ataque alemão que mudou o curso da Segunda Guerra Mundial.

A VIDA DE UM SOBREVIVENTE BRASILEIRO DO HOLOCAUSTO É LEMBRADA EM MÚSICA

Freddy Glatt, sobrevivente do Holocausto. Foto: UNIC Rio/Luise Martins

‘Essas músicas nos ajudam a entender um pouco do sofrimento’ – O conto angustiante de Freddy Glatt, que cruzou o continente europeu para escapar da máquina da morte nazista, é imortalizado em música e um videoclipe.

FONTE – https://www.timesofisrael.com/a-brazilian-holocaust-survivors-life-gets-memorialized-in-song/

RIO DE JANEIRO, Brasil (JTA) – Freddy tinha cinco anos quando viu uma pedra de pavimentação quebrar a fachada da loja de seu pai em Berlim.  “-Eu era muito jovem para lembrar com detalhes, mas lembro que meu pai disse ‘Corra por dentro!’ e então corremos. Eu me senti aterrorizado”, disse ele sobre o ataque à loja. Mais tarde, assistiu aterrorizado os nazistas espancaram seu pai. Em 1933, Adolf Hitler já havia tornado a vida insuportável para a família Glatts, forçando-os a fugir para a Bélgica.

Auschwitz.

Oitenta e cinco anos depois, Freddy Siegfried Glatt agora é presidente da Associação Brasileira de Sobreviventes do Holocausto no Rio de Janeiro. Sua história de vida acaba de se tornar uma música que foi composta e cantada pelo neto brasileiro de seu primo Max, que aos 71 anos imigrou do Rio para Israel.

Wall, à esquerda, escreveu uma canção para o sobrevivente do Holocausto Freddy Glatt. 
(Marcus Gilban)

“-Contar histórias de família sobre o nazismo é extremamente importante para garantir que o Holocausto nunca mais se repita, com ninguém”, disse Lazar Wall, pseudônimo de Luis Waldmann, que decidiu colocar a história de Glatt em uma música, quando seu idoso primo publicou suas memórias intitulada Eles roubaram minha infância.

Wall, um músico de 40 anos, passou a maior parte dos feriados judaicos e encontros familiares com Freddy Glatt, a quem ele chama de “tio”. Ele intitulou a música de “101 Jerusalém”, o endereço de um dos últimos esconderijos dos Glatts.

O livro ‘Roubaram minha infância’ traz a história verídica de um sobrevivente singular da II Guerra Mundial: um menino com alguma sorte e muitos sonhos. Apesar de toda a atrocidade contra os judeus durante o Holocausto, a infância de Freddy Siegfried Glatt é permeada por momentos poéticos, singelos e inesquecíveis.

“-Esta é a minha primeira música com tema judaico, que mostrei a Glatt quando estava pronta como uma surpresa”, disse Wall ao JTA. “-Para mim, representa a resistência e unidade do povo judeu, apesar do antissemitismo que persiste até hoje”.

Com a mudança para a Bélgica, Freddy Glatt foi matriculado em uma escola pública e se juntou ao movimento juvenil sionista Maccabi Hatzair. O menino de língua alemã aprendeu flamengo, hebraico, iídiche e francês. O antissemitismo existia na Bélgica, onde crianças muitas vezes eram juradas, cuspidas e espancadas.

Desfile alemão defronte ao Palácio Real de Bruxelas, Bélgica.

Quando o primeiro ataque aéreo alemão atingiu Antuérpia, em 1940, a Bélgica já não se sentia protegida da guerra. O avanço da Alemanha nazista pedia uma nova fuga e seu “opa” – vovô em alemão – Salomon reservou quatro vagas na traseira de um caminhão de lixo que seguia para a fronteira francesa. Os dois irmãos adolescentes de Glatt, Bubbi e Heinz, deveriam viajar de bicicleta e encontrá-los na fronteira.

“-Os milhares de refugiados ao longo do caminho pareciam os hebreus fugindo do Egito”, lembrou Glatt.

Pouco depois de cruzar a fronteira da França, a família embarcou em um trem que mais tarde foi alvo de dois aviões alemães de combate JU-87 Stukas. Estilhaços atingiram a perna de Glatt, ferimento que levou meses para cicatrizar. A família se estabeleceu perto de Toulouse, na França sob domínio do governo fantoche francês de Vichy, mas seus dois irmãos nunca apareceram. Naquela época, seus pais já haviam se divorciado e ele havia se mudado para o Brasil.

Junkers Ju-87 Stuka alemães.

“-Eles me disseram que havia cobras andando nas ruas no Brasil”, disse Glatt com uma risada alta.

Outros refugiados e um conhecido recém-chegado relataram que seus irmãos foram vistos dirigido um carro abandonado de volta para a Bélgica. Voltaram para a casa de sua família e reabriram a loja de seu avô, pois a perseguição aos judeus nesse país ainda não havia começado. Em êxtase com as notícias, Salomon desejava retornar para onde estavam seus netos. O plano era recuperar as economias de toda sua vida ainda escondidas em Antuérpia e tirar a família da Europa nazista.

Eles atravessaram a França ocupada pelos alemães inicialmente em uma limusine Minerva construída na Bélgica com a ajuda de um contrabandista de pessoas, depois a pé e de trem. A família se reuniu em Antuérpia. Salomon, cujas economias estavam intactas, começou a administrar seus negócios novamente. Mas logo eles seriam obrigados a usar a estrela de David amarela em suas roupas e o terror das perseguições recomeçou.

Cartaz em língua francesa com os detalhes das leis antijudeus aplicadas na Bélgica a partir de 28 de Outubro de 1940.

Um ano depois, os judeus de Antuérpia foram obrigados a se mudar para Heusden, uma aldeia perto da fronteira com a Alemanha e a Holanda. Sua deportação para os campos de extermínio foi interrompida, já que a Alemanha estava ocupada demais transportando milhões de judeus da Europa Oriental para a morte.

Aos 13 anos, como preconiza a tradição judaica, Glatt não poderia ter seu bar mitzvah. “-Não havia rabino, nem talit, nem tefilin ou Torá em Heusden”, disse Wall. Ele so realizaria seu bar mitzvah aos 85 anos de idade, na sinagoga de Copacabana, no Rio.”

Entrada ferroviária de Auschwitz – Fonte – en.auschwitz.org

Os alemães autorizaram a família Glatts a voltar a Antuérpia, com exceção dos meninos mais velhos: Bubbi e Heinz. Estes foram enviados para trabalhar em uma mina de carvão. Em 1942, ambos foram convocados para trabalhar na Muralha do Atlântico, uma fortificação destinada a conter o esperado avanço aliado. Uma vez no trem, eles foram levados para Auschwitz.

Enquanto isso, a Gestapo, ajudada por espiões locais, como a Juventude Hitlerista flamenga, caçava ativamente os judeus que permaneciam na Bélgica. Salomon e Chawa, os avós de Glatt, foram encontrados e deportados para Auschwitz. Décadas depois, Glatt soube que Salomon, Chawa, Bubbi e Heinz foram assassinados em Auschwitz em 1942.

Judeus seguindo para um Campo de concentração – Fonte – encyclopedia.ushmm.org

“-Em um novo esforço para se esconder dos nazistas, Freddy e sua mãe mudaram-se novamente, agora para um pequeno apartamento na 101, Jerusalem Street, no distrito Schaerbeek, Bruxelas”, disse Wall. “-O banheiro era minúsculo, o que significa que Freddy teve que usar um chuveiro público, cuidadosamente escondendo sua circuncisão.”

Aos 14 anos, Freddy Glatt começou a trabalhar como assistente do dono de uma banca de jornal. À noite, ele trabalhava em uma fábrica de baterias clandestinas e, entre turnos, produzia cartões com o tema Mickey Mouse para vender em uma papelaria. Ele também roubaria trilhos de trem e os venderia como sucata.

O dinheiro apurado permitia a ele e a sua mãe visitas raras ao cinema. Os filmes eram precedidos por noticiários produzido pelos nazistas mostrando bombas da Luftwaffe em Londres e a Operação Barbarossa esmagando a União Soviética. Glatt muitas vezes entrou na arena do Palais des Sports para assistir a lutas, boxe e outros eventos esportivos.

Rei Leopoldo III e a Rainha Elizabeth da Bélgica.

Com o prosseguimento da guerra, a perseguição e a escassez se agravaram, e a mãe de Glatt, Rozalia, pediu ao rabino-chefe da Bélgica que colocasse seu filho em um lugar seguro. Com o apoio da resistência belga e judaica, e da ajuda de Elisabeth, esposa do Rei Leopoldo III, da Bélgica – cujos esforços em favor de centenas de crianças judias lhe renderam uma designação para receber o título de “Justo Entre as Nações” – Glatt partiu para uma escola para meninos católicos.

Depois, do playground, ele viu várias vezes centenas de bombardeiros americanos B-17 seguindo para a Alemanha. Tempos depois, ele viu nazistas mutilados, atacados por soldados americanos e britânicos recém-chegados da Normandia, como outro bom presságio do fim do pesadelo.

Quando os Aliados finalmente libertaram a Bélgica em setembro de 1944, Glatt se reuniu com sua mãe e ambos começaram a procurar freneticamente os parentes desaparecidos, ainda inconscientes de seu destino. Em 1947, mãe e filho se mudaram para o Brasil. O pai de Glatt encontro a ex-esposa e o filho e se casaram novamente no Rio de Janeiro.

Glatt vive no Rio desde então. Ele se casou com, Betty, sua esposa desde 1954, e eles têm três filhos, seis netos e dois bisnetos.

A música de Wall, cantada em inglês, conta a história em imagens telegráficas ao longo de uma batida insistente e melancólica, terminando com um gostinho da liberdade de Glatt e um lembrete do destino sombrio de seus irmãos.

PARA VER E OUVIR A MÚSICA CLIQUE AQUI – https://www.timesofisrael.com/a-brazilian-holocaust-survivors-life-gets-memorialized-in-song/

“-A música de Wall sobre Glatt traduz a importância desse tipo de arte como veículo para transmitir períodos históricos autoritários e principalmente mostrar o que a intolerância, o racismo e o preconceito são capazes de gerar”, comentou ao JTA a historiadora Silvia Rosa Noserk Lerner.

Nascido no Rio de sobreviventes do Holocausto que fugiram da Alemanha no final da década de 1930, Silvia Lerner é autora de um livro em português intitulado Música como uma memória de um drama: o Holocausto, para o qual ela traduziu músicas compostas e cantadas nos guetos e campos de concentração. 

Ela disse que a música de Wall é na tradição de tais músicas.

Freddy Glatt  e sua esposa.

“-Eles compunham para ocupar seu tempo, para sublimar sentimentos que eles não conseguiam entender e nem conseguiam responder”, disse Lerner. “-Essas músicas nos ajudam a entender um pouco do sofrimento que os judeus passaram nestes anos de dominação alemã, mostrando fome, saudade, esperança por dias melhores, preocupação com o futuro de seus filhos e prova que, mesmo em tempos difíceis, pode-se produzir arte”.

“-A música tem o poder de unir sentimentos, rever emoções, lembrar histórias, coexistência, memórias e perdas, e traduzir expectativas e esperanças”, disse Lerner.

Wall espera que sua música faça jus ao seu louvor.

“-Se os jovens vierem a entender o que o Holocausto foi através desta música, nosso objetivo será alcançado”, disse ele.

UM MILITAR EXEMPLAR

Tenente-brigadeiro Rui Moreira Lima
Tenente-brigadeiro Rui Moreira Lima

Herói de guerra e democrata, o brigadeiro Rui Moreira Lima soube posicionar-se nos melhores e piores momentos das Forças Armadas

Paulo Ribeiro da Cunha

Fonte – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/retrato/um-militar-exemplar

Sê um patriota verdadeiro e não te esqueças de que a força somente deve ser empregada a serviço do Direito”. Boa parte das gerações militares contemporâneas, bem como setores políticos e acadêmicos, parecem desconhecer o real significado destas palavras atualmente.

Rui Moreira Lima em fotografia de 1953, no Rio de Janeiro. O militar ganhou condecorações por sua participação na Segunda Guerra Mundial e foi torturado por se opor ao regime ditatorial de 1964. (Foto: Acervo Pedro Luiz Moreira Lima)
Rui Moreira Lima em fotografia de 1953, no Rio de Janeiro. O militar ganhou condecorações por sua participação na Segunda Guerra Mundial e foi torturado por se opor ao regime ditatorial de 1964. (Foto: Acervo Pedro Luiz Moreira Lima)

Escritas em 1939 pelo juiz de direito Bento Moreira Lima numa carta para seu filho, o cadete Rui Moreira Lima, que aos 20 anos ingressava na Força Aérea Brasileira (FAB), elas parecem ter servido como uma declaração de princípios que nortearia a vida do futuro brigadeiro.

Tenentes Rui Moreira Lima, Alberto Martins Torres e Renato Goulart Pereira
Tenentes Rui Moreira Lima, Alberto Martins Torres e Renato Goulart Pereira

Poucos anos depois, Rui Moreira Lima seria um herói de guerra. Com outros jovens aviadores brasileiros, todos voluntários, integrou o grupo de aviação da FAB, o “Senta Púa”, unidade que recebeu uma das mais altas condecorações americanas em reconhecimento pela bravura de seus membros. Ao final da Segunda Guerra, sua folha de serviços computava 94 missões, pelas quais ganhou as mais altas condecorações militares do Brasil, da França e dos Estados Unidos. 

Representação do Republic P-47 Thunderbolt com que o tenente Rui combateu na Itália - Fonte -www.militar.org.ua
Representação do Republic P-47 Thunderbolt com que o tenente Rui combateu na Itália – Fonte -www.militar.org.ua

Sempre que podia, declamava com sabor de poesia a carta recebida de seu pai. Em um dos trechos, ela aconselhava: “Obediência a seus superiores, lealdade aos teus companheiros, dignidade no desempenho do que te for confiado, atitudes justas e nunca arbitrárias”. Nada mais válido nos tempos da Guerra Fria pra lá de quente que se iniciaria em 1947. O debate em que esteve imerso o jovem oficial trazia não somente o desafio de edificar uma nação, mas principalmente o de construir e defender uma democracia. Patriota, democrata e nacionalista, Rui Moreira Lima teve uma discreta empatia à esquerda, e uma identificação sem militância com o PSB (Partido Socialista Brasileiro), agremiação que tinha entre seus membros militares históricos, compromissados com a democracia e a nação, como o almirante Herculino Cascardo (1900-1967) e o general Miguel Costa (1885-1959).

Ao retornar da guerra, como tenente, Moreira Lima foi condecorado pelas missões na 2ª Guerra Mundial pela FAB (Foto: Agência Força Aérea/Arquivo)
Ao retornar da guerra, como tenente, Moreira Lima foi condecorado pelas missões na 2ª Guerra Mundial pela FAB (Foto: Agência Força Aérea/Arquivo)

Nos anos 1950 e 1960, atuou na defesa da legalidade democrática e em causas nacionalistas, como a do Petróleo é Nosso. Na polarização entre grupos políticos e ideológicos dentro da própria FAB, condenou tentativas golpistas – como a de abortar a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek (1956) e as Revoltas de Jacareacanga (1956) e Aragarças (1959) – e apoiou a posse de João Goulart por ocasião da renúncia de Jânio Quadros (1961). “O soldado não conspira contra as instituições a que jurou fidelidade. Se o fizer, trai seus companheiros e pode desgraçar a nação”, escreveu o pai. 

Jango assiste, em 1963, à demonstração da FAB, com a presença de Rui Moreira Lima, à sua esquerda. O militar se pôs em defesa da ordem democrática e da manutenção da legalidade nos momentos de ruptura. (Foto: Acervo Pedro Luiz Moreira Lima)
Jango assiste, em 1963, à demonstração da FAB, com a presença de Rui Moreira Lima, à sua esquerda. O militar se pôs em defesa da ordem democrática e da manutenção da legalidade nos momentos de ruptura. (Foto: Acervo Pedro Luiz Moreira Lima)

A chegada de 1964 encontrou o militar no comando da Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, a mais poderosa unidade de combate da FAB no período, cuja tradição ele ajudou a forjar como piloto de caça nos campos de batalha italianos.

Rui Moreira Lima acompanhava com preocupação os desdobramentos golpistas e lamentava a imobilidade do governo em reagir naquilo que era o princípio basilar das Forças Armadas: a hierarquia e a disciplina.

Reprimiu com rigor tentativas de envolver os comandados em aventuras, chegando a prender alguns de seus jovens oficiais. Em reação à movimentação das tropas do general Mourão, em março de 1964, sobrevoou em um rasante a coluna golpista já próxima de Areal (RJ), cuja tropa foi tomada por pânico. Na volta à unidade, confabulou com seus superiores que os rebelados poderiam ser dissolvidos em um ataque de precisão, sem maiores baixas. Mas só tomaria essa iniciativa se recebesse ordens para tanto. Diante do posicionamento do presidente João Goulart em não resistir e partir para o exílio, deu-se por encerrada qualquer possibilidade de reação.

1964 - Fonte - www.ocafezinho.com
1964 – Fonte – http://www.ocafezinho.com

Ali estava encerrada sua carreira militar, bruscamente interrompida. Antes, porém, teve ainda um ato de resistência: só aceitou passar  o comando da Base Aérea se fossem cumpridas todas as formalidades, postura que constrangeu seus algozes. “A honra é, para ele [o militar], um imperativo e nunca deve ser mal compreendida”. Pouco depois, Rui Moreira Lima foi preso em casa e teve de responder a três inquéritos policiais militares. Amargou um total de 153 dias no cárcere. Em uma das prisões, nos anos 1970, chegou a ser torturado.

30-12-1964

Diante do quadro de vilania que caracterizou o regime militar, qualificou de infame e covarde a figura do torturador – que, portanto, não deveria ser contemplado com a anistia. Visão compartilhada com o pai: “O soldado nunca deve ser um delator, senão quando isso importar a salvação da pátria. Espionar os companheiros, denunciá-los, visando a interesses próprios, é infâmia, e o soldado deve ser digno”.  

Tanques em frente ao Congresso Nacional patrulham a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, após o golpe militar de 1964 - Fonte - https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ditadura_militar_no_Brasil_(1964-1985)
Tanques em frente ao Congresso Nacional patrulham a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, após o golpe militar de 1964 – Fonte – https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ditadura_militar_no_Brasil_(1964-1985)

Inegavelmente a pátria estava em perigo, e o campo de batalha passou a ser outro para o então coronel. A perseguição foi uma constante para as centenas de cassados, entre oficiais e praças das Forças Armadas e das Polícias Militares. Todos os aviadores, por portarias secretas, foram proibidos de voar.

Rui 1964 (1)Rui 1964 (2)

JORNAIS DE 1964 MOSTRAM O QUE O BRIGADEIRO RUI MOREIRA LIMA SOFREU

Por convicção, não aderiu à opção de resistência armada ao regime militar: decidiu combater a ditadura na ação política. Foi um dos que ergueram a bandeira pela anistia ampla, geral e irrestrita. Ao lado do brigadeiro Francisco Teixeira e de outros oficiais, Rui Moreira Lima foi um dos fundadores da Adnam (Associação Democrática e Nacionalista dos Militares).

O Brigadeiro Rui de novo na cabine de um P-47 - Fonte - http://www.cartacapital.com.br/sociedade/uma-mentira-que-insiste-em-sobreviver-8561.html
O Brigadeiro Rui de novo na cabine de um P-47 – Fonte – http://www.cartacapital.com.br/sociedade/uma-mentira-que-insiste-em-sobreviver-8561.html

A anistia saiu em 1979, mesmo ano em que faleceu seu pai. Mas ela veio restrita em relação aos militares cassados, inclusive o brigadeiro, a despeito de sua folha de serviços. 

À frente da Adnam, continuou intervindo na agenda política com o objetivo de aprofundar a democracia e a construção de um efetivo estado de direito. Buscava não só a ampliação da anistia como a reintegração, mas também a  reincorporação dos militares cassados. Em outra frente de luta, preocupava-se com a memória e a história. Escreveu Senta Púa e Diário de Guerra, e contribuiu com depoimentos em livros, teses e documentários. Por sua intervenção direta, o acervo da Adnam foi entregue para a guarda do Cedem – Centro de Documentação e Memória da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Acima, recebe pedido de desculpas por meio do ministro da Justiça, em 2011. (Foto: Acervo Pedro Luiz Moreira Lima)
Acima, recebe pedido de desculpas por meio do ministro da Justiça, em 2011. (Foto: Acervo Pedro Luiz Moreira Lima)

Em seus últimos anos, através de uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) patrocinada pela Adnam e pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), contestou a anistia aos torturadores e apoiou com entusiasmo a formação da Comissão Nacional da Verdade, em 2012. Segundo ele, a CNV era um instrumento necessário para aproximar os militares e a sociedade civil, e não pode ser considerada expressão de revanchismo, mas sim de justiça e de um necessário resgate da história. Inclusive a sua história. 

Já com mais de 90 anos, não se furtou a outras polêmicas. Em 2012, subscreveu pela Adnam o manifesto “Aos Brasileiros”, confrontando um manifesto de golpistas elaborado por militares da reserva do Clube Militar. No ano seguinte patrocinou a “Carta do Rio de Janeiro”, documento endereçado à Presidência da República com vistas a equacionar em definitivo a questão de uma anistia ampla para os militares cassados e perseguidos após o golpe. 

Rui Moreira Lima * 12/06/1919 + 13/08/2013 - Fonte - revistaaerolatina.blogspot.com
Rui Moreira Lima * 12/06/1919 + 13/08/2013 – Fonte – revistaaerolatina.blogspot.com

Só depois de seu falecimento, em fins de 2013, o Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa a uma ação reparatória reconhecendo seus direitos. Não viveu, portanto, para ver o epílogo de uma longa trajetória militar e política: a promoção à patente de tenente-brigadeiro, último posto da Força Aérea.

A FAB o dignificara já no enterro, com toque de silêncio e voos rasantes de aviões de caça da unidade Senta a Púa. A homenagem ao oficial cassado seria um passo importante para a decisão posterior do STF. 

Reconhecimento ainda mais cheio de significado, particularmente para os cadetes da Academia da Força Aérea, seria se a instituição de ensino reverenciasse Rui Moreira Lima em um dos painéis de sua ampla entrada onde constam pronunciamentos de várias personalidades civis e militares. Como texto, o ensinamento da carta de Bento Moreira Lima, um conselho que retrata a vida do filho ao mesmo tempo em que serve de lição aos militares e cadetes das novas gerações: “O povo desarmado merece o respeito das Forças Armadas. Estas não devem esquecer que é este povo que deve inspirá-las nos momentos graves e decisivos”.   

Paulo Ribeiro da Cunha é professor de Teoria Política na Universidade Estadual Paulista e autor de Militares e militância: uma relação dialeticamente conflituosa (Editora Unesp/Fapesp, 2014).

Saiba Mais

BONALUME NETO, Ricardo. A nossa Segunda Guerra: os brasileiros em combate, 1942 -1945. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1995.

FERRAZ, Francisco César. Os brasileiros e a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2005.

SODRÉ, Nelson Werneck. História Militar do Brasil. Rio de Janeiro/ São Paulo: Ed. Civilização Brasileira/ Expressão Popular, 2010 [1965].

Documentários

Senta a Pua! (Erik de Castro, 1999) 

A Cobra Fumou (Erik de Castro, 2003)

O Brasil na Batalha do Atlântico (Erik de Castro, 2012)

Internet

Carta de Bento Moreira Lima a Rui Moreira Lima: http://bit.ly/1I5lKCi

ENTREVISTA AO AMIGO AUGUSTO MARANHÃO NO LANÇAMENTO DO MEU LIVRO “EU NÃO SOU HERÓI-A HISTÓRIA DE EMIL PETR”

Autor – Rostand Medeiros

rostandmedeiros2@gmail.com

Hoje o Mundo celebra os 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa. Sem dúvida esta é uma data significativa e importante para todos. Já para mim essas comemorações trazem as lembranças do meu amigo Emil Anthony Petr.

O grande amigo Augusto Maranhão discursando no lançamento do nosso livro
O grande amigo Augusto Maranhão discursando no lançamento do nosso livro “Eu não sou herói-A História de Emil Petr”.

Emil nasceu em 1919, na pequena comunidade de Deweese, no estado americano de Nebraska, era católico, descendente de tchecos e durante a Segunda Guerra Mundial serviu na USAAF.

No grande conflito mundial foi primeiramente designado para o 57th Fighter Group (57º Grupo de Caça), na área de Boston. Quando estava para seguir com a sua unidade para o deserto do norte da África, ele conseguiu a aprovação para cursar a escola de formação de navegadores, em San Marco, no Texas. Em 1943, após conseguir a patente de segundo tenente, foi designado para atuar em bombardeiros B-24. Mas não era o fim de sua preparação. O tenente Petr seguiu para a base aérea de Langley, Virginia, onde se especializou na tarefa de bombardeio por radar.

Emil Anthony Petr, segundo tenente da USAAF, honra por ter escrito sua biografia.
Emil Anthony Petr, segundo tenente da USAAF, honra por ter escrito sua biografia.

Em abril de 1944 chegou a sua transferência para a 15ª Air Force (15ª Força Aérea), no sul da Itália, para atuar no esquadrão 139, do 454th Bomb Group (454 Grupo de Bombardeiros), que ficava baseado no campo de San Giovanni, próximo a cidade de Cerignola, no sul da Itália.

Durante o trajeto para a Europa o tenente Emil esteve no Brasil, mas não em Natal. Passou pelas cidades de Belém e Fortaleza, onde guardou boas lembranças. “-Não era para ter conhecido Natal na época da guerra, mas foi para cá que optei por viver e me casar”.

Material de jornais antigos foram utilizados na feitura deste livro
Material de jornais antigos foram utilizados na feitura deste livro

No 454th Bomb Group havia uma seção específica de pessoas que trabalham com sistemas de radar. Quando Emil foi escolhido para uma missão de bombardeio, ele me disse que era extremamente focado em seu trabalho. Porque ele sabia que qualquer erro poderia comprometer todo o grupo de aeronaves e suas tripulações.

De abril a setembro de 1944, Emil participou de 38 missões sobre a Europa ocupada e alcançou o posto de segundo tenente. Em uma delas, ao atacarem a fábrica da Messerschmitt, em Bad Voslau, na Áustria. O bombardeamento desta estratégica unidade fabril rendeu ao 454th Bomb Group uma citação do presidente dos Estados Unidos e o tenente Emil estava lá.

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Mas no dia 13 de setembro de 1944, quando na sua 39º missão, a de número 117 do 454th Bomb Group, cujo objetivo era uma refinaria na cidade alemã de Odertal, seu B-24 foi atingido pela artilharia antiaérea alemã. Ninguém da sua tripulação morreu, mas a maioria foi capturada, entre estes o tenente Emil.

Feito prisioneiro, Emil foi levado para o campo de prisioneiros Stag Luft III, em Sagan (atual Zagan, na Polônia) e o sofrimento foi grande.

Meses depois as tropas russas estavam avançando a partir do leste e começaram a se aproximar do campo. Segundo os livros relativos à Segunda Guerra Mundial, Adolf Hitler mandou evacuar Stalag Luft III, pois além de não querer que estes aviadores aliados fossem libertados pelos russos, havia a intenção de utilizá-los como reféns.

Em 31 de Janeiro os homens seguiram para o Stalag Luft VIIA, em Moosburg. Durante dois dias de viagem, os aviadores foram levados em vagões de transportar gado. As necessidades fisiológicas eram feitas ali mesmo, em pé e para dormir só escorados uns nos outros e a viagem durou dois dias. Moosburg era uma verdadeira pocilga, onde os alemães amontoaram mais de 140.000 prisioneiros aliados, entre estes alguns brasileiros. Finalmente os prisioneiros foram libertados pelos soldados da 14ª Divisão Blindada, do 3º Exército da U.S. Army, comandados pelo general George Patton.

Discursando junto com o meu amigo Augusto Maranhão, no lançamento do meu livro
Discursando junto com o meu amigo Augusto Maranhão, no lançamento do meu livro “Eu não sou herói-A história de Emil Petr”

Depois de retornar aos Estados Unidos, Emil tentou a universidade de Lincoln, sem sucesso e foi trabalhar em uma empresa de construção da família. Mas este americano de origem eslava, de profunda devoção católica, decidiu trabalhar como um voluntário em obras assistenciais na América Latina, através de um programa criado pelo Papa João XVIII.

O destino o trouxe a Natal em 1963, onde conheceu Dom Eugênio de Araújo Sales (na época Bispo da capital potiguar) e se incorporou no programa SAR – Serviço de Assistência Rural. Através deste trabalho manteve contatos e participou de ações em Recife junto com Dom Helder Câmara e teve oportunidade de estar ao lado da irmã Dulce, de Salvador.

Emil teve oportunidade de conhecer o sertão potiguar, os aspectos ligados aos trabalhadores rurais nordestinos e veio a ser casar com a assistente social Célia Vale Xavier, assistente social com curso de especialização na Costa Rica e Colômbia, nascida em Caicó, que havia sido indicada pelo Monsenhor Walfredo Gurgel, seu antigo mestre, para trabalhar no SAR junto com Dom Eugênio, na elaboração do pioneiro projeto de educação radiofônica através da Emissora de Educação Rural, mais conhecida como Rádio Rural de Natal.

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Eu tive a honra de escrever sua história e concluir o livro “Eu não sou herói – A história de Emil Petr”, lançado em 2012 pela editora potiguar Jovens Escribas.

Na época do lançamento deste trabalho, o meu grande amigo Augusto Maranhão, que produzia o interessante programa televisivo “Conversando com Augusto Maranhão” e gentilmente realizou uma entrevista comigo e com Emil Petr. É esta entrevista que trago agora a todos, para marcar os 70 anos do fim da guerra na Europa e lembrar meu amigo Emil.

No dia 31 de outubro de 2012, em meio a muitos convidados (inclusive com a presença de parentes de Emil que vieram dos Estados unidos), estivemos no Iate Clube de Natal para o lançamento deste nosso trabalho. Ali, em meio a muitas emoções, o nosso grande amigo Augusto Maranhão proferiu um belo discurso sobre o nosso trabalho.

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Infelizmente Emil Petr faleceu em 2013.

Por isso valorizo tanto os momentos que estive ao seu lado. Foram momentos muito agradáveis e que não deixam minha memória, pois Emil era uma pessoa maravilhosa, grande figura humana, que deixou uma marca difícil de ser apagada na memória de muita gente no Rio Grande do Norte.

Meus agradecimentos mais do que especiais a grande figura humana de Augusto Maranhão e ao amigo Leonardo Dantas pela cessão deste material.

HANS STADEN E A HISTÓRIA DE UM DOS PRIMEIROS LIVROS SOBRE O BRASIL

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Como um mercenário alemão da região de Hesse, prisioneiro entre índios canibais brasileiros conseguiu sobreviver para trazer ao público a sua grande aventura, que se tornou um best-seller na Europa

Após Cristóvão Colombo atravessar o Oceano Atlântico em 1492 algumas informações desta viagem começaram a circular na Europa, atiçando o imaginário dos habitantes do Velho Continente sobre o que havia nestes exóticos locais.

Logo, em 1502 e 1504, foram publicadas cartas do explorador e cartógrafo florentino Américo Vespúcio, onde ele apresentou curiosos e fantásticos relatos do “Mundus Novus”. Vespúcio descreveu tempestades, animais estranhos, mulheres sensuais, sexo indiscriminado e canibalismo. Este último fato presenciado pelo famoso navegador na costa potiguar, em 1501, na atual Praia do Marco.

Um tatu (ou um quati), visto e descrito por Staden quando esteve no Brasil
Um tatu (ou um quati), visto e descrito por Staden quando esteve no Brasil

“Mundus Novus” foi um dos maiores best-sellers em seu tempo. Em apenas três anos, 19 edições das cartas de Vespúcio foram publicadas somente em alemão, ajudando a denominar de Novo Mundo, tudo que estivesse do outro lado do Atlântico.

Certamente que os homens que faziam livros naquela época perceberam que ganhariam muito dinheiro com outras obras que trouxesse nas suas páginas os relatos dos navegantes e suas aventuras.

Mas quem poderia escrever algo assim?

Um Mercenário no Novo Mundo

Muito provavelmente o alemão Hans Staden, natural da cidade de Homberg, lutou como um mercenário na Guerra de Schmalkaldischen, uma das primeiras guerras religiosas entre protestantes e católicos. O nosso herói era um “Büchsenschütze”, um atirador de arma de fogo longa, um artilheiro, e, portanto, um especialista muito requisitado naquela época em que as armas de fogo ainda eram uma novidade. Consta que mercenários com esta função faziam um bom dinheiro, quase o dobro dos soldados comuns de infantaria.

Hans Staden
Hans Staden

Staden combateu por seus senhores protestantes, que derrotaram o imperador católico, mas não tinham dinheiro para pagar suas tropas. Além disso, na sequência destes acontecimentos, a região de Hesse foi ocupada pelos católicos, com tropas onde havia mercenários portugueses. Talvez nesta hora Staden tenha escutado pela primeira vez algo sobre o Brasil.

Provavelmente animado por relatos dos lusos, Staden deixou sua região e foi até a cidade de Bremen, de lá seguiu para o porto holandês de Kampen e ali subiu a bordo de um cargueiro que seguia para Península Ibérica em busca de sal. Em 29 de abril de 1547 chegou a Setúbal e depois foi para Lisboa.

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Na capital de Portugal existia uma colônia alemã de tamanho considerável. Staden encontrou hospedagem junto a um anfitrião chamado Leuhr, que mediou sua entrada para uma expedição que seguia para as “Índias”. Embarcou em uma nau lusa para Pernambuco no dia 28 de janeiro de 1548, cujo capitão chamava-se Penteado. Colocaram Staden como artilheiro do navio e ele não era o único alemão a bordo, havia ainda Hans Hausen, de Westerwald, e Heinrich Prant, de Bremen. O futuro escritor e seus companheiros foram envolvidos no sequestro de navios mouros, viu peixes voando para dentro do convés próximo a costa marroquina. Chegou ao Brasil com a missão de transportar degredados portugueses remetidos para povoar a colônia, recolher pau-brasil e atacar corsários franceses que exploravam as nossas costas. 

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Aparentemente Staden lutou contra corsários franceses na Paraíba e não esteve onde hoje é o Rio Grande do Norte. Mas se houvesse ocorrido este confronte certamente não seria uma tarefa fácil para os mercenários alemães, pois os gauleses conheciam profundamente a costa nordestina e potiguar. Constam que estes estiveram na enseada de Itapitanga (atual Praia de Pititinga), também no Rio Pequeno, ou Baquipé (depois denominado Ceará-Mirim, onde penetravam os barcos francesas, que ali iam resgatar o pau-brasil aos indígenas), no Rio Grande, ou Potengi (aonde os franceses iam muitas vezes as suas margens carregar madeiras nobres e nesta área, em 1599, os portugueses fundariam uma comunidade que ficou conhecida como Natal), no porto dos Búzios (na foz do Rio Pirangi), na enseada de Tabatinga (entre o porto dos Búzios e Itacoatiara, ou Ponta da Pipa) e na enseada de Aratipicaba (atual Baía Formosa).

Pouco depois o grupo mercenário de Staden foi requisitado pelo Governador Geral Dom Duarte da Costa para defender uma fortaleza na região de Igaraçu, Pernambuco. O local era constantemente atacado por grupos que totalizavam cerca de 8.000 indígenas, sendo defendido por aproximadamente 120 pessoas, às quais se uniram os cerca de 40 recém-chegados, incluindo Hans Staden. Depois de uma renhida luta e de um cerco prolongado no qual vieram a faltar provisões, os defensores conseguiram, afinal, vencer os indígenas. Neste embate tão desigual, foi a tecnologia das armas de fogo que fez a diferença.

Após um ano e meio ele retornou para Lisboa, aonde chegou em 8 de outubro de 1548.

O que ele viu no Brasil já seria suficiente para um livro, entretanto estes primeiros momentos em terras tropicais ocuparam apenas cinco capítulos, de 53, do seu futuro trabalho literário.

Entre Canibais

Talvez decepcionado com a falta de perspectivas de um Brasil que só tinha os produtos das suas florestas a oferecer aos aventureiros europeus, Staden foi para a Espanha para depois seguir em busca de ouro na América Espanhola.

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Em abril 1549 partiu em uma nave da armada de Diogo de Sanábria, que pretendia fundar um povoado na costa da Ilha de Santa Catarina e outro na embocadura do Rio de la Plata. Mas nesta segunda ocasião em terras tropicais ele não teve sorte, pois seu navio naufragou na costa catarinense. Os integrantes da expedição, depois de passarem dois anos na região, decidiram rumar para a cidade de Assunção, atual capital do Paraguai. Staden se juntou a um grupo que rumou para a cidade de São Vicente, no litoral paulista, onde tentaria fretar um navio capaz de chegar a Assunção. Existem informações que deste último ponto os europeus pretendiam alcançar a Bolívia e o Peru em busca de ouro.

Antes de chegar a São Vicente o navio de Staden naufragou nas imediações de Itanhaém, no litoral paulista, mas seus ocupantes conseguiram nadar até a praia. De lá, foram a pé até São Vicente, onde Staden foi contratado, inicialmente por quatro meses, como artilheiro (outras fontes apontam como comandante) do Forte de São Felipe da Bertioga.

Em 1553, ao realizar uma caçada sozinho, foi capturado por indígenas. Ele contou depois que os índios usavam pequenos gravetos no lábio inferior e nas bochechas, discos de conchas brancas no pescoço e estavam cobertos com penas. Tinham seus corpos nus e estavam com os braços pintados em vermelho e preto. Os seus captores lhe jogaram violentamente no chão, rasgaram suas roupas, lhe espancaram e o esfaquearam. Nu e sangrando, Staden foi levado para a aldeia de Ubatuba (Uwattibi, no texto original do relato de Staden), dos índios tupinambás, do chefe Cunhambebe. Segundo o historiador Capistrano de Abreu, este chefe guerreiro se encontrou com Staden na Serra de Ocaraçu, atual conjunto de morros do Cairuçu, ao Sul de Paraty, na região de Trindade, Rio de Janeiro. Ele seria pai de outro chefe chamado Cunhambebe, líder de maior autoridade dentro da coalizão indígena conhecida como Confederação dos Tamoios, que lutou bravamente contra os portugueses.

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Após a captura, Staden percebeu que a intenção dos indígenas era devorá-lo. Certas fontes apontam que, passado algum tempo, índios tupiniquins atacaram a aldeia onde ele era mantido prisioneiro. Obrigado pelos tupinambás, Staden lutou ao lado destes. Seu desejo era tentar fugir para unir-se aos atacantes. Mas, estes, vendo que a resistência dos defensores era muito forte, desistiram da luta e se retiraram. 

O alemão testemunhou o ritual do canibalismo praticado contra indígenas capturados e o descreveu com riqueza de detalhes no seu relato. Outras fontes apontam que o alemão não foi vítima de canibalismo dos tupinambás pelo fato dele não ser português, já que seus captores haviam se aliado aos franceses.

Ritual de canibalismo. Staden, o barbudo nu a direita, se coloca horrorizado diante da cena.
Ritual de canibalismo. Staden, o barbudo nu a direita, se coloca horrorizado diante da cena.

Independente desta questão o certo é que o alemão passou nove meses junto aos seus captores. Chegou a aprender a língua deles e seu livro contém 150 de suas expressões. Staden acompanhou os indígenas em suas campanhas guerreiras e chegou até mesmo a ter esposas, como era comum entre os brancos que tinha amizades com os índios. Mas Staden silenciou sobre isso mais tarde, provavelmente para não manchar a sua reputação como um cristão. Um dos costumes que o alemão vivenciou foi a participação nas festas em que bebera o cauim, uma bebida alucinógena produzida pelas mulheres da tribo para grandes rituais.

Preparo do caulim
Preparo do caulim

Durante seu cativeiro o alemão chegou pedir ajuda a um navio português e a outro francês. Ambos recusaram-se a ajudá-lo por não desejarem entrar em conflito com os índios. Um dia, em 1554, chegou à aldeia de Cunhambebe a tripulação do barco francês Catherine de Vatteville, comandado por Guillaume Moner, que manteve contato com o alemão. Consta que para libertar Staden o francês enganou os tupinambás, afirmando que “seus irmãos tinham vindo busca-lo” e ele foi trocado por facas, machados, espelhos e pentes de pouco valor. Essa troca talvez tenha sido apenas um ato de pura piedade e fé cristã, pois o tempo em que Staden passou ao lado dos tupinambás parece que pouco interessou aos marinheiros gauleses.

De Volta ao Velho Mundo

Staden viajou para Europa via o porto francês de Le Havre, depois esteve em Londres, logo após desembarcou na Antuérpia e finalmente chegou à região de Hesse. Ele estabeleceu-se na cidade de Wolfhagen e começou a trabalhar numa fábrica de pólvora.

Dois anos depois o alemão Hans Staden estava financeiramente quebrado, mas ele tinha visto coisas verdadeiramente inusitadas. Mais do que qualquer outra pessoa de sua região e tinha algo para vender; uma história para um livro.

Combate entre índios
Combate entre índios

Para sua época o que ele tinha para contar era algo tão inacreditável que poderia ser um problema para fazer os seus leitores acreditarem no que estava escrito. Mas era tudo verdade e ele tinha experimentado tudo sozinho. Já em 1556 ele teria terminado o manuscrito de seu livro.

O homem que aceitou produzir a sua obra foi Andreas Kolbe (ou Andres Colben), um respeitado gráfico que preparava principalmente folhetos religiosos. Kolbe trabalhava no ramo desde 1546, na cidade de Marburg, mas seu negócio não era particularmente lucrativo e ele precisava de um sucesso em seu programa. Como corresponsável pelo livro de Staden, Kolbe chamou Johann Eichmann, conhecido como Dr. Dryander, professor de matemática e anatomia da universidade de Marburg, considerado um dos principais médicos de seu tempo. O Dr. Dryander representava a reputação acadêmica, escreveu o prefácio, e explicou ao público alemão por que a história de Staden era “verdade”. O Dr. Dryander também afirmou que conhecia o pai de Hans Staden e atestou a reputação do escritor e aventureiro.

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E assim foi publicado em março 1557, em Marburg, um livro sobre o Brasil. Um lugar cuja existência tinha apenas 50 anos entre os Europeus ditos civilizados e da qual se tinha uma vaga ideia do que ali existia.

Dúvidas e Sucesso

Desde então tem sido muito discutido sobre qual a parte que Staden realmente escreveu? Pois ele era um soldado, com presumivelmente pouca educação para escrever um texto com 53 capítulos. Para muitos quem escreveu o livro foi o Dr. Dryander. Outros chegaram até mesmo a questionar se Staden foi realmente uma testemunha ocular e se esteve entre canibais brasileiros?

Mas Staden foi muito detalhista no seu relato e consta que o Dr. Dryander nunca deixou a Alemanha em direção ao Novo Mundo. E os fatos verificáveis ​​- na época havia muito mais, porque Staden apontou datas, nomes e eventos – levam os seus inúmeros defensores a mostrarem isso como prova da autenticidade de suas experiências.

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Críticos apontam que no texto, pelo menos ocasionalmente, Staden deve ter exagerado em seus relatos para abrir ao seu livro melhores oportunidades de mercado. 

É claro que na publicação desta obra Staden, Kolbe e o Dr. Dryander tiveram o público em mente. Pois dinheiro foi gasto na feitura de 50 xilogravuras que compõem a obra, produzidas conforme as descrições do autor. Isso certamente fez com que o livro ficasse mais atraente para leitores inseguros com a incrível história. 

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Independente destas questões, o sucesso da publicação dos relatos de Staden foi imediato. Tanto que ainda em 1557, Kolbe colocou a venda uma segunda edição, que segundo o historiador berlinense Wolfgang Neuber é estimado em 3.000 exemplares. Um número considerável para a época.

Sim, e vejam como era o título original – Wahrhaftige Historia und Beschreibung einer Landschaft der wilden, nackten, grimmigen Menschfresser Leuthen in der Newenwelt America gelegen (História Verdadeira e Descrição de uma Terra de Selvagens, Nus e Cruéis Comedores de Seres Humanos, Situada no Novo Mundo da América). Na atualidade o título desta obra parece um tanto grandioso, mas na verdade era relativamente curto para os padrões da época. Nas edições posteriores as xilogravuras de Staden seriam reproduzidas pelo belga Theodore de Bry a partir de uma técnica mais sofisticada e dispendiosa que a anterior.

Legado de Quase 460 Anos

Embora no século XVI a impressão de um livro pudesse gerar uma renda decente, aparentemente para Hans Staden o que ele não viu foi o dinheiro dos direitos autorais. E para piorar a situação, no mesmo ano do lançamento oficial foram publicadas em Frankfurt duas cópias não autorizadas da sua obra. Ou seja, piratearam descaradamente o livro do mercenário alemão!

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Entretanto historiadores germânicos apontam que o sucesso do livro ajudou a melhorar a situação do antigo prisioneiro dos tupinambás, pois o prestígio conseguido abriu as portas para um emprego na corte de um conde local. Estudos a partir de notas da época sugerem que ele se casou em Wolfhagen e desta união veio duas filhas e um filho, que morreu em decorrência de uma praga no ano de 1576. 

Ao longo dos séculos a obra de Hans Staden se firmou como um importante relato da realidade dos primeiros anos de ocupação europeia do território brasileiro. A partir de sua leitura é possível ter uma ideia, mais ou menos bem acabada dos personagens importantes do período: corsários franceses, colonos portugueses, indígenas, aliados e inimigos dos colonos estabelecidos no litoral. Os costumes dos tupinambás estão ricamente descritos no livro. 

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Hans Staden nunca mais escreveu nenhum livro. Mas sua única experiência literária é comentada há quase 460 anos, onde foram publicadas mais de 80 edições, em oito idiomas diferentes. 

Nada mal para um simples artilheiro da província de Hesse.

FONTES http://www.tagesspiegel.de/weltspiegel/sonntag/soeldner-hans-staden-bei-den-nackten-menschenfressern/8888754.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Tamoios

http://pt.wikipedia.org/wiki/Invas%C3%B5es_francesas_do_Brasil

http://www.infoescola.com/livros/duas-viagens-ao-brasil-hans-staden/

http://www.encontro2012.rj.anpuh.org/resources/anais/15/1338394115_ARQUIVO_CanibalismoTupinamba.pdf

EXTRA! LIVRO DE JOÃO BARONE SERÁ LANÇADO EM NATAL!

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MAIS UMA VEZ VENHO EM NOSSO TOK DE HISTÓRIA CONVIDAS OS AMIGOS E AQUELES QUE GOSTAM DE HISTÓRIA PARA O LANÇAMENTO NA CAPITAL POTIGUAR DO LIVRO DO AMIGO JOÃO BARONE.

CONFORME PODEMOS VER NO CONVITE ACIMA, NO PRÓXIMO DIA 5 DE SETEMBRO, PRÓXIMA QUINTA FEIRA, O GRANDE JOÃO BARONE VEM A NATAL AUTOGRAFAR SEU ÚLTIMO LIVRO.

UM ÓTIMO MOMENTO DE ENCONTRO DAQUELES QUE GOSTAM DE HISTÓRIA. ESTAREMOS LÁ LEVANDO NOSSO ABRAÇO A ESTE GRANDE PESQUISADOR!

Junto ao grande João Barone e todos os maravilhosos Paralamas
Junto ao grande João Barone e todos os maravilhosos Paralamas

Conhecido como baterista da banda Os Paralamas do Sucesso, João Barone é há muitos anos aficionado por assuntos da 2ª Guerra Mundial. Em livro publicado recentemente – “1942 – O Brasil e sua guerra quase desconhecida” –  e que será lançado em Natal nesta quinta-feira dia 5 (às 19h na Saraiva do Midway Mall),  Barone revela e analisa a participação do Brasil no conflito. O fato de ser filho de um dos mais de 25 mil pracinhas da FEB (Força Expedicionária Brasileira) que se dirigiram ao front europeu manteve aguçada sua curiosidade sobre o conflito. Na publicação, o autor dirige sua pesquisa pelo passado do pai e do país para unir dados, curiosidades e histórias emocionantes de uma campanha incrível que muitas vezes o próprio brasileiro desconhece. Especialista no assunto, ele escreve sobre a presença brasileira no conflito, desfazendo mitos e apresentando histórias surpreendentes em 1942: O Brasil e sua guerra quase desconhecida.

http://cefascarvalhojornalismo.blogspot.com.br/2013/09/joao-barone-lancara-em-natal-livro.html

Serviço: 
Lançamento do livro “1942 – O Brasil e sua guerra quase desconhecida”, de João Barone / Data:  Quinta-feira, dia 5, às 19h / Onde: Livraria Saraiva – Piso L3, Midway Mall

O LIVRO DO FOTÓGRAFO JAECI GALVÃO

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Para aqueles que gostam da história da capital potiguar (e creio que para grande parte da minha geração) certamente a maior referência quando se desejava conhecer como era Natal no passado, sempre foi contemplar o maravilhoso trabalho do fotógrafo Jaeci Galvão.

Não quero dizer que os trabalhos de Bruno Bougard, Manuel Dantas, João Alves de Melo e outros fotógrafos que clicaram a terra potiguar não merecem respeito e consideração. Longe disso. Apenas quero dizer que para mim, foi vendo o trabalho de Jaeci, que sonhei com uma Natal que não existe mais e não conheci.

O trabalho deste homem é de tal forma uma referência, que ao observarmos muitas das fotos antigas que ele realizou, contemplamos com maior nitidez a nossa história.

Agora o trabalho e a vida de Jaeci Galvão está em um maravilhoso livro, realizado pelo seu filho, o igualmente talentoso Fred Galvão.  Intitulado “JAECI, O DIVINO DA FOTOGRAFIA”, a obra possui 278 páginas, com muitas fotos do trabalho de Jaeci Galvão junto a nossa sociedade, fotos históricas da cidade de Natal e instantâneos que mostram toda a vida de um homem que trabalhou buscando o melhor ângulo de uma cidade chamada Natal.

O lançamento de “JAECI, O DIVINO DA FOTOGRAFIA” ocorre nesta quarta feira, dia 21 de agosto de 2013, ás seis da noite, no tradicional Iate Clube de Natal. O valor do livro é de R$ 50,00.

Parabéns ao amigo Fred Galvão por “JAECI, O DIVINO DA FOTOGRAFIA”!

NOVO LIVRO DO GRANDE JOÃO BARONE

A capa do novo livro de João Barone
A capa do novo livro de João Barone

João Barone, ou João Alberto Barone Reis e Silva é carioca, torcedor do Fluminense, nascido em 5 de agosto de 1962 e o consagrado baterista da banda Paralamas do Sucesso, junto com Bi Ribeiro e Herbert Vianna.

Além de grande músico, João Barone é um aficionado por assuntos da Segunda Guerra Mundial. Filho de um dos mais de 25 mil pracinhas que lutaram na Itália, afirma que as narrativas das experiências vividas pelo seu pai naquele conflito eram um assunto comum em sua casa. Com o passar do tempo Barone ampliou e aprofundou o conhecimento sobre o tema e agora está lançando o seu segundo livro sobre o maior conflito da história da humanidade. Intitulado 1942 – O Brasil e sua Guerra Quase Desconhecida, já tem lançamentos agendados nas seguintes datas e locais;

Porto Alegre: 9/5, Fnac Barra Shopping, às 19:39hrs;

Curitiba: 13/5, Saraiva Krystal Shopping, às 19:39hrs;

Recife, 16/5, Saraiva Riomar Shopping, às 19:39hrs;

Salvador: 20/5, Saraiva Salvador Shopping, às 19:39hrs;

Rio: 21/5, Livraria da Travessa Shopping Leblon, às 19:39hrs,

Além do lançamento de 1942 – O Brasil e sua Guerra Quase Desconhecida (Nova Fronteira, 288 páginas, R$ 35,90), João possui junto com seu irmão um núcleo de projetos onde estão produzindo um documentário intitulado O Caminho dos Heróis (o segundo que ele produz sobre o Brasil na guerra) e em breve vão realizar uma mini série sobre o assunto, que certamente terá extrema qualidade.

Em 1942 – O Brasil e sua Guerra Quase Desconhecida, João Barone revela e analisa a participação do Brasil no conflito que sangrou o mundo. Dirige sua pesquisa pelo passado do pai e do país para unir dados, curiosidades e histórias emocionantes de uma campanha incrível que muitas vezes o próprio brasileiro desconhece. Em um encontro que tivemos recentemente, o autor me comentou que este seu livro se destinava a apresentar interessantes informações para aqueles que não tem muito conhecimento sobre este assunto e ajudar a diminuir grande parte do desconhecimento existente sobre o tema.

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Neste tocante o novo livro de Barone vem bem a calhar, pois a participação da Força Aérea e da Força Expedicionária Brasileira nos campos da Itália, mesmo sendo forças de combate relativamente pequenas, possuí sua importância histórica, onde estes homens e mulheres representaram bem o nosso país, o único entre os Sul-Americanos a ter enviado tropas e lutado na Europa.

Entretanto as mudanças políticas ocorridas no Brasil, principalmente após 1964, fizeram com que muitos se desinteressassem pelo tema e até mesmo desprezassem aqueles que desejavam aprofundar estudos e pesquisas. No passado as pessoas que gostavam deste assunto eram facilmente taxados de belicistas, direitistas, adoradores da ditadura e por aí vai!

Eu moro na cidade Sul-Americana que teve a maior e mais efetiva participação neste conflito e anteriormente percebia claramente que aqui, afora alguns círculos específicos, não havia tanto interesse no debate mais aprofundado em relação ao tema e na produção de materiais informativos. Já no meio acadêmico local era normal uma maior carga de questionamentos por parte dos mestres e quando alunos desejavam seguir pesquisando e produzindo sobre este tema, era normal existir uma certa decepção nos rostos destes.

João ao lado de um caça P-47 da FAB que atuou na Itália
João ao lado de um caça P-47 da FAB que atuou na Itália

Felizmente nos últimos anos a visão sobre a pesquisa em relação a participação de nosso país na Segunda Guerra Mundial sofreu muitas mudanças. Foram lançados muitos livros, documentários, filmes e criados grupos de pesquisa que lutam pela preservação desta memória. Mesmo sendo questionável a qualidade de muito do que foi produzido, não podemos esquecer que foi bastante aprofundado o conhecimento do conflito humano, dos problemas, anseios e sofrimentos pelo que passaram aqueles mais de 25 mil brasileiros que estiveram na Itália. Através desta mudança se conheceu com maiores detalhes as sagas e dores dos que sofreram os ataques de submarinos nazifascistas, ou perderam parentes nos afundamentos dos navios brasileiros e o papel da Marinha do Brasil no conflito.

Sem dúvida que na história da minha cidade, a Segunda Guerra Mundial é o período no qual Natal sofreu suas maiores e mais acentuadas mudanças em sua demografia, no comportamento de sua gente, na sua cultural, em sua economia e em outras situações. E por aqui ainda existe muita coisa para se pesquisar.

Através dos materiais  sobre a Segunda Guerra Mundial que publiquei no nosso blog Tok de História, um dia recebi uma mensagem do João Barone e a partir daí iniciamos uma série de contatos, que culminou em um proveitoso encontro aqui em Natal, na última oportunidade que os Paralamas do Sucesso tocaram em nossa cidade.

João Barone o autor deste blog, após o último show dos Paralamas do Sucesso na capital potiguar
João Barone o autor deste blog, após o último show dos Paralamas do Sucesso na capital potiguar

Conheci uma pessoa muito simples, acessível e me espantou o quanto ele é extremamente conhecedor da história da participação brasileira neste conflito. Pelo devotamento que João Barone dedica ao estudo, atenção e zelo pela pesquisa deste assunto, certamente que seu novo livro 1942 – O Brasil e sua Guerra Quase Desconhecida será um sucesso e terá destaque na minha estante.

Rostand Medeiros

Natal, Rio Grande do Norte

NOVO LIVRO – BENJAMIN ABRAHÃO, ENTRE ANJOS E CANGACEIROS

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Autoridade na cultura do Nordeste do Brasil, o historiador Frederico Pernambucano de Mello nos apresenta o livro Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros (Escrituras Editora), que traz a biografia do secretário particular do padre Cícero, do Juazeiro, de 1917 a 1934, além de fotógrafo autorizado do cangaceiro Lampião, tendo acompanhado os diferentes bandos de que este dispunha em sete Estados do Nordeste, no meado de 1936, creditando-se como responsável pela mais completa documentação do cangaço jamais obtida, ao incorporar a imagem cinematográfica às velhas fotografias conhecidas.

A obra é ensaio interdisciplinar que ocupou boa parte da vida do autor, e também um livro de arte, com dezenas de fotografias e de fotogramas históricos da trajetória do sírio Benjamin Abrahão Calil Botto — um “conterrâneo de Jesus”, como se declarava, por conta do nascimento em Belém, na Terra Santa –, que desembarcou no Porto do Recife em 1915, aos 15 anos de idade, fugindo da Grande Guerra, para trilhar uma aventura extraordinária pelos sertões do Brasil setentrional.

No livro, Pernambucano de Mello, reconhecido por Gilberto Freyre, já em 1984, como “mestre de mestres em assuntos de cangaço”, apresenta pesquisa profunda, feita ao longo de 40 anos. Pela primeira vez, é divulgado o conteúdo da caderneta de campo deixada por Benjamin Abrahão, recolhida pela polícia no momento de seu assassinato com 42 punhaladas, no começo de 1938, no sertão de Pernambuco, aos 37 anos de idade. Cobrindo os anos da missão sobre o cangaço, a caderneta abrange o período 1935-1937, com lançamentos alternados em português e em árabe, assim impusesse a necessidade de sigilo sobre o assunto. O historiador trabalhou por três anos, com dois professores de árabe, traduzindo, ponto a ponto, o conteúdo averbado — muitas vezes resultante de conversas noite adentro com Lampião, Maria Bonita e outros cangaceiros — que são relatos que matam polêmicas e contestam versões atuais sobre fatos e figuras das décadas de 1910, 1920 e 1930, como o polêmico Floro Bartolomeu da Costa e a apregoada amizade entre Lampião e o padre Cícero, além de informações que dizem respeito ao real combate do Batalhão Patriótico à Coluna Prestes, para o qual traz entrevista inédita que fez com Prestes, em 1983, no Recife.

Particularmente importante, pela originalidade, é a revelação da matriz setecentista e estrangeira do pensamento social brasileiro dos anos 1930 sobre o cangaço, presente, sobretudo no chamado romance nordestino, tendente a culpar a sociedade e a desculpar os excessos dos protagonistas do fenômeno. O mesmo se diga sobre a revelação, de todo desconhecida até o presente, dos esforços de apropriação internacional do apelo épico que o tema encerra, por parte das facções travadas em luta de morte ao longo da década aludida: o Reich alemão contra o Soviete russo, Hitler contra Stalin, ao tempo em que Lampião dava as cartas na caatinga.

O livro traz ainda apêndice com a reprodução de importantes documentos, colhidos em pesquisa que contou com o apoio de muitos colaboradores e instituições, como a Fundação Joaquim Nabuco, do Recife, a Cinemateca Brasileira de São Paulo, os arquivos Renato Casimiro/Daniel Walker, do Juazeiro, e da antiga Aba-Film, de Fortaleza, ambos do Ceará, entre outros.

Frederico Pernambucano
Frederico Pernambucano

FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO possui formação em história e direito. Na Fundação Joaquim Nabuco, do Ministério da Educação, integrou a equipe do sociólogo Gilberto Freyre, de 1972 a 1987, período em que se especializou no estudo da cultura da região Nordeste do Brasil, tendo publicado os seguintes livros: Rota batida: escritos de lazer e de ofício, Recife, Edições Pirata, 1983; Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil, Recife, Editora Massangana/ Fundação Joaquim Nabuco, 1985 [ora em 5ª edição pelo selo A Girafa, de São Paulo]; Quem foi Lampião, Recife-Zürich, Stähli Edition, 1993 [ora em 3ª edição]; A guerra total de Canudos, Recife-Zürich, Stähli Edition, 1997 [ora em 3ª edição pela A Girafa]; Delmiro Gouveia: desenvolvimento com impulso de preservação ambiental, Recife, Editora Massangana/ Fundação Joaquim Nabuco-CHESF, 1998; Guararapes: uma visita às origens da Pátria, Recife, Editora Massangana/Fundação Joaquim Nabuco, 2002; Tragédia dos blindados: a Revolução de 30 no Recife, Recife, Editora Massangana/Fundação Joaquim Nabuco, 2007; Estrelas de couro: a estética do cangaço, São Paulo, Escrituras Editora, 2010, livro finalista do Prêmio Jabuti de 2011, nas categorias projeto gráfico e ciências humanas.  É membro dos Institutos Históricos de Pernambuco, Alagoas e Rio Grande do Norte, do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil, e da Academia de História Militar Terrestre, tendo sido curador internacional da Fundação Bienal de São Paulo para a Mostra do Redescobrimento – Brasil 500 Anos, São Paulo, 2000, e presidente da União Brasileira de Escritores – Seção de Pernambuco.  Na Academia Pernambucana de Letras, ocupa a cadeira 36 desde o ano de 1988. Pela originalidade de seus estudos, pelo volume da obra que produziu, e por se dedicar a aspectos de nossa história considerados ásperos e de pesquisa difícil, tem sido considerado o “historiador do Brasil profundo”, na palavra do professor Nelson Aguilar.

Prefácio: Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes. Texto das orelhas José Nêumanne Pinto
Gênero História/Cangaço e cangaceiros/Usos e costumes/Ensaio interdisciplinar. Formatobrochura, com mais de “97 imagens. Páginas “352

Fonte – http://lampiaoaceso.blogspot.com.br/2012/12/lancada-e-esperando-por-voce.html

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INFORMATIVO JOVENS ESCRIBAS – LANÇAMENTO DO LIVRO “EU NÃO SOU HERÓI-A HISTÓRIA DE EMIL PETR”

Outubro se aproxima do seu crepúsculo, mas ainda estamos a todo vapor nas atividades literárias aqui em Natal. Nesta terça começa a FLIQ (Feira de Livros e Quadrinhos de Natal), na quinta teremos lançamento de mais um livro e, no último dia do mês, fechando com chave de ouro, o 6º lançamento do mês.  # OTTO GUERRA – TRAÇOS E REFLEXOS DE UMA VIDAUma das filhas do grande pensador e humanista Otto de Brito Guerra, Dona Zélia Maria Seabra de Moura, organizou e vai lançar nesta quinta (25.10) uma reunião de textos importantes sobre seu pai que, se vivo estivesse, haveria completado 100 anos no último mês de julho. O livro será lançado pelo selo “Bons Costumes”, divisão da Jovens Escribas para publicações por encomenda.

Lançamento de “Otto Guerra – Traços e reflexos de uma vida” de Zélia Maria Guerra Seabra. Local: UNI-RN. Data: 25 de outubro de 2012 (Quinta-feira)Hora: A partir das 19h

# EU NÃO SOU HERÓI – A HISTÓRIA DE EMIL PETR. Mais um belo registro que chega às prateleiras por obra do selo “Bons Costumes” é o livro “Eu não sou herói – A história de Emil Petr”. Trata-se da biografia do filho de tchecos que nasceu nos Estados Unidos, lutou na Segunda Guerra Mundial, foi capturados pelos alemães, sobreviveu, veio a Natal e tornou-se patriarca da família Vale. Uma grande história contada pelo pesquisador Rostand Medeiros a pedido da família. A estreia do livro será no derradeiro dia do mês de outubro, no Iate Clube de Natal.

Lançamento de “Eu não sou herói – A história de Emil Petr” de Rostand Medeiros.Local: Iate Clube de Natal. Data: 31 de outubro de 2012 (Quarta-feira)Hora: A partir das 19h

NOVO LIVRO SOBRE CANGAÇO-ASSIM ERA LAMPIÃO E OUTRAS HISTÓRIAS

Novo livro do pesquisador cearense

Com satisfação recebi o convite para o lançamento do livro do amigo Ângelo Osmiro.

Logo enviei o e-mail que segue:

de:  Rostand Medeiros rostandmedeiros@gmail.com
para:  Angelo Osmiro
data:  4 de setembro de 2012 09:35
assunto:  Re: Convite Lançamento
Amigo ângelo,
Primeiramente Parabéns.

Seria possível você enviar uma pequena resenha sobre seu livro para que possamos publicar no nosso blog.

Preciso de uma foto da capa com melhor resolução.
Bem como as maneiras que as pessoas possam ter para adquirir este seu trabalho.
Um abraço.
Rostand
Então recebi a amável resposta do pesquisador e amigo;
de:  Angelo Osmiro
para:  Rostand Medeiros <rostandmedeiros@gmail.com>
data:  5 de setembro de 2012 10:11
assunto:  Re: Convite Lançamento
Caro amigo Rostand, saudações.
O livro estará a venda apartir do dia 19 de setembro.
São 238 páginas, com assuntos variados, capitulos sobre Lampião, padre Cícero, Adilia, Luiz Cazuza, Zé Saturnino, Mané Neto e outros, traremos também fotos inéditas, principalmente em relação ao estado do Ceará.
Abraço
 
Desejamos sucesso.

PIRATAS ALÉM DO CARIBE

Ricardo Barros Sayeg*

Estreou no dia 20 de maio, no Brasil, o novo filme da Disney, Piratas do Caribe: em marés estranhas. A nova película estrelada por Johnny Depp, Penélope Cruz, entre outros, certamente terá uma excelente bilheteria. O tema, entretanto, está longe de ser apenas ficção. Os piratas existiram de verdade e encheram principalmente os cofres do governo da Inglaterra, entre os séculos XVI e XVII. Muitos vieram ao Brasil, saquearam cidades como Santos e Recife e assaltaram diversos navios que carregavam riquezas da Europa para o Brasil e da colônia para o Velho Mundo.

Todavia, não era nada fácil a vida de um pirata, como mostram as aventuras do personagem Jack Sparrow na saga Piratas do Caribe, agora em sua quarta edição. Um desses saqueadores do mar foi Antony Knivet, que deixou suas memórias registradas em um livro chamado As incríveis Aventuras e os Estranhos Infortúnios de Antony Knivet.

Esse pirata saiu da Inglaterra em 1591, acompanhado por um mestre em saques e pilhagens chamado Thomas Cavendish, quando essa prática era bastante comum e inclusive incentivada pela coroa britânica. Como a região do Caribe estava infestada de piratas, resolveram partir para o Brasil, uma região até então bastante desconhecida pelos europeus. As terras brasileiras prometiam muitas surpresas e várias delas tornaram-se bastante desagradáveis.

Logo na chegada ao litoral brasileiro, Knivet foi abandonado por seu colega e foi capturado pelos portugueses que tentavam naquele momento defender a costa tupiniquim de ataques inimigos. Para piorar sua situação, quando conseguiu fugir dos portugueses, o pirata caiu nas mãos de índios canibais. Os nativos comeram quase todo mundo que acompanhava Knivet, mas o deixaram vivo, para poder contar sua história. O aventureiro conseguiu escapar novamente, fugiu para a África e novamente foi reconduzido ao Brasil. Podemos concluir que o pirata, tal como Jack Sparrow, tinha uma enorme falta de sorte e uma tendência enorme para se envolver em enrascadas.

O livro foi escrito pelo pirata em 1625 e inclui diversas ilustrações com a descrição de portos, baías e enseadas utilizadas como refúgio por muitos navegadores do século XVI. Ele sugere no texto que a corrupção no Brasil é endêmica e por diversas vezes cita alguns casos envolvendo propina paga a agentes do governo português na época.

Outro pirata da vida real foi Thomas Cavendish. Em nome da coroa britânica, ele participou da fundação da colônia da Virgínia, na América do Norte, em 1585, comandando um navio da frota de Sir Richard Grenville. Em 1586, Cavendish foi o terceiro homem a dar a volta ao mundo, retornando para a Inglaterra, em 1588.

Como corsário, Thomas Cavendish se notabilizou pelo ataque à costa paulista na época da União Ibérica, quando as duas monarquias estavam unidas por um problema envolvendo a sucessão portuguesa ao trono. Saqueou as vilas de Santos e São Vicente, em 1591, destruindo a instalação de uma indústria canavieira na província de São Paulo. Em 1592, após uma tentativa fracassada de invasão de Vitória no Espírito Santo, Cavendish seguiu sua viagem para o norte, mas acabou morrendo devido aos ferimentos da batalha.

Hoje, a pirataria tem alguns aspectos diferentes: perdeu o glamour e a aventura do passado e tornou-se uma atividade de ladrões organizados. Até maio deste ano já foram registrados mais de duzentos ataques piratas. Os dados são do IMB, sigla inglesa para o Escritório Marítimo Internacional, uma divisão da Câmara Internacional do Comércio, que combate todo tipo de crimes e más práticas relacionadas aos negócios.

Evidentemente, os piratas atuais não estão mais atrás de baús de tesouros como antigamente. Seus alvos prediletos são navios de todos os portes: desde pequenas embarcações até petroleiros! Outra inovação dos tempos atuais é o pedido de resgate feito em função do sequestro de passageiros. Um dos pontos de maior incidência desse tipo de ação é a costa da Somália, no leste da África.

Piratas do Caribe: em marés estranhas é ambientado no século XVII, entretanto, muitas das histórias contadas são baseadas em fatos reais. Naquela época, a coroa inglesa dividia o resultado dos saques com os corsários e incentivava a pirataria. Uma página não tão nobre para aquela que seria a maior potência do mundo no século XIX.

* Ricardo Barros Sayeg é Professor de História do Colégio Paulista, mestre em Educação pela Universidade de São Paulo, formado em História e Pedagogia pela mesma universidade.

-COMO DIZ UM AMIGO MEU, ESTE POST FOI “PESCADO” DO BLOG “PESQUISANDO A HISTÓRIA” ( http://uranohistoria.blogspot.com/ ), QUE EU RECOMENDO.

O PREFÁCIO DE RAIMUNDO FAGNER NO LIVRO “JOÃO RUFINO – UM VISIONÁRIO DE FÉ”

Hoje vou trazer a vocês o prefácio feito pelo cantor Raimundo Fagner em nosso livro “João Rufino, um visionário de fé”. Grande figura humana, extremamente acessível e simpático, Fagner comentou principalmente sua relação com a cidade de São Miguel, no Rio Grande do Norte, seus amigos e de como conheceu João Rufino e seu trabalho.

No início da década de 1980, praticamente todo brasileiro conhecia e cantarolava as músicas do talentoso cearense Raimundo Fagner. Músicas como “Mucuripe”, “Canteiros”, “Ave Noturna” e tantas outras se tornaram grandes clássicos da MPB.

Este formidável intérprete, nascido em Fortaleza e registrado na cidade cearense de Orós com o nome de Raimundo Fagner Cândido Lopes, o mais jovem dos cinco filhos do Senhor José Fares e de Dona Francisca, é, antes de tudo, um homem extremamente simples, que um dia conheceu e gostou da pacata cidade de São Miguel, onde seu caminho cruzou com o de João Rufino e seus filhos.

João Rufino e Fagner

No mesmo período do sucesso inicial de Fagner, circulava em Natal uma história – quase uma “lenda urbana” – dizendo que ocasionalmente o famoso cantor estava na cidade potiguar de São Miguel, na fronteira com o Ceará. Falava-se que ele caminhava pela cidade de chinelos, bermuda, camiseta, jogando bilhar e conversando despreocupadamente com os amigos; que o cantor era bem tratado pela população micaelense, mas não havia assédio à estrela da MPB e nem ele, Fagner, fazia questão de se apresentar como tal. Era apenas um cearense de Orós, cidade que fica a cerca de setenta quilômetros de São Miguel, que vinha visitar os amigos potiguares e sentir o clima ameno da serra.

Essa história se propagou muito pela capital potiguar. Certamente ela foi alimentada pelo pouco conhecimento da população natalense em relação a São Miguel e pelos mais de quinhentos quilômetros de distância que separam as duas cidades.

Mas a história não era “lenda urbana”, era real.

Antes mesmo de alcançar a fama, Fagner estudava, em Fortaleza, com os filhos do comerciante micaelense Manuel Carvalho. Em uma determinada ocasião, os rapazes trouxeram o amigo para São Miguel. Daí o cantor criou pela cidade um “amor à primeira visita”.

Mesmo com suas músicas estourando nas rádios de todo o Brasil, Fagner continuou visitando frequentemente a cidade serrana, andando pelas calçadas, conversando com amigos, tocando violão e jogando sinuca.

Para conhecerem melhor esta história, leia o que o próprio cantor escreveu no seu prefácio.

MINHA HISTÓRIA COM SÃO MIGUEL

Perto da nossa casa morava uma família da cidade de São Miguel, no Rio Grande do Norte. Os três filhos desta residência eram Vicente, Adalberto e Nenéo (Manuel Carvalho Filho), todos meus amigos de bairro. Nenéo estudava comigo, na mesma sala de aula do Colégio da Piedade, e era também meu companheiro no time de futebol.

Nesta mesma época veio morar na casa de Seu Manoel Carvalho seu conterrâneo Clovis Fernandes, que já era conhecido como um craque. Logo entre nós se criou uma forte amizade movida à bola e não demorou muito para que eles me convidassem a conhecer sua terra natal.

Na cidade, o que primeiro me chamou a atenção foi a receptividade dos micaelenses. O clima serrano era muito frio, bem diferente do que eu estava acostumado no nosso sertão nordestino, sem contar com a liberdade de ir e vir que a comunidade proporcionava a um adolescente da minha época.

Além disso, se jogava muito futebol e logo me encaixei no time local. Já no primeiro jogo ganhamos de uma equipe da cidade de Alexandria e marquei presença com o gol da vitória, fazendo meu nome junto à rapaziada.

Tudo neste primeiro encontro foi muito marcante e se estabeleceu dentro mim uma relação muito próxima com as pessoas do lugar, principalmente com Seu Manuel Carvalho, a quem todos chamavam carinhosamente de Tinéo.

Raimundo Fagner em um evento em São Miguel. A sua direita se encontra o amigo Manuel Carvalho

Com o tempo a família dele foi deixando Fortaleza, mas minha amizade com o velho continuava a mesma e, em alguns momentos, eu procurei lhe ajudar com seus negócios em Fortaleza. Passamos a ter uma relação sincera de pai e filho.

Toda a oportunidade em que eu voltava à serra me hospedava em sua casa, na Praça Sete de Setembro. Recebia toda a atenção de sua esposa Cristina e das pessoas da família – Zefinha, Maria, Manoela e seu fiel escudeiro Juarez, que igualmente nos acolhia no Sítio do Riacho Fundo.

Os meus laços com a cidade vão se estreitando, tendo como referências, além da família de Tinéo e do amigo Clovis, as famílias de Zé Torquato, de Hesíquio Fernandes e tantos outros amigos que fui fazendo na região, desde a zona urbana até as pessoas nos sítios mais distantes.

Neste ambiente, onde ainda existia muita camaradagem e diversão, havia a preocupação de todos em relação ao desenvolvimento da cidade e seu entorno. Chamavam-me a atenção principalmente as condições das estradas para encarar a subida da serra, muito difícil na época das minhas primeiras visitas. Procurava me informar sobre como poderia ajudar, junto à comunidade, na busca de soluções para este e outros problemas.  

Ao longo do tempo, já como profissional da música e conhecido em Natal, nos contatos junto aos políticos locais, não perdia a oportunidade de solicitar um olhar mais generoso para São Miguel, causando surpresa em relação à minha ligação com a cidade serrana – tão distante e desconhecida dos habitantes da capital potiguar.

Essa preocupação junto à comunidade me proporcionou um dos momentos mais felizes que tive, ao receber o título de cidadão norte-rio-grandense das mãos do então governador José Agripino Maia, que me fez a entrega da honraria na cidade de Pau dos Ferros. A solenidade, que contou com uma grande presença de deputados, vereadores e lideranças políticas, só não ocorreu em São Miguel pelas dificuldades naturais de levar toda essa gente para cima da serra.

Minha relação com São Miguel foi crescendo ao ponto de levar vários amigos para conhecerem aquele lugar que me era familiar. Apesar das grandes dificuldades, devido aos inesquecíveis atoleiros na subida da serra que ligava São Miguel à cidade de Pereiro (CE), todos voltavam com a melhor impressão daquele povo. Coincidentemente, meu parceiro musical da época, o arquiteto Ricardo Bezerra, era casado com uma filha do micaelense Wilson Dias, o que facilitou a ida de novos amigos a São Miguel.

Outro fato de grande importância foi quando levei em duas oportunidades o então governador do Ceará, Ciro Gomes, para visitar a cidade. Nestas visitas solicitei, junto com a comunidade, que ele construísse a estrada ligando Pereiro a São Miguel, um grande sonho do povo da serra. Ciro cumpriu sua palavra, realizando esta grande obra, e a população micaelense retribuiu à altura. Na primeira campanha de Ciro à presidência da República, São Miguel foi o município onde ele teve o maior número de votos em termos proporcionais de todo o Brasil, o que lhe deixou muito feliz.

Em Fortaleza me criei no bairro de Fátima. Minha família frequentava a igreja de Nossa Senhora de Fátima e eu nasci no dia 13 de outubro, dia dedicado à santa. Em São Miguel, coincidentemente, eu tomava um café chamado Nossa Senhora de Fátima, de propriedade de Seu João Rufino, a quem via passar constantemente na rua, sempre uma pessoa querida e reverenciada pela sua simplicidade, religiosidade e alto astral.

A nossa convivência na cidade era muito harmoniosa, e o trabalho que Pedro, Paulo e Vicente – “os meninos de Seu João Rufino” – faziam com o café do pai já era uma referência de seriedade na comunidade. Desde jovens eles já despertavam respeito e confiança com o compromisso de tocar aquele negócio, que naquele momento já se chamava Café Santa Clara.   

Fagner, João Rufino e José Guadêncio Torquato na época da propraganda.

Certo dia, meu compadre Zé Gaudêncio me falou sobre a possibilidade de apoiar a entrada do Café Santa Clara no estado do Ceará através de um trabalho publicitário. Não tive dúvida alguma de que era o momento adequado de retribuir o carinho e a confiança que aqueles jovens depositavam em mim. Apesar de nunca ter veiculado minha imagem a qualquer tipo de produto, o convite não me parecia especificamente um negócio, mas sim um pedido familiar, e tudo foi feito espontaneamente. Surgiu daí uma relação fraterna de amizade e parceria que mantemos até hoje e se estende à nossa Fundação Raimundo Fagner.

O início destes trabalhos era o que faltava para que eu passasse a conhecer com mais proximidade a extraordinária figura de Seu João, o nosso biografado.

O que você vai ler aqui neste livro incrível é uma história real, mas que bem poderia servir para o roteiro de um grande filme de sucesso. Se é que não será!

A vida deste ser humano sublime só nos renova a crença em Deus e na sabedoria do trabalho do homem. No caso de Seu João Rufino, devemos ressaltar a enorme capacidade de vencer com seu próprio esforço e dedicação em fazer o bem.

Se algo de excepcional aconteceu na minha vida sem que eu houvesse imaginado, está escrito neste livro, no capítulo que generosamente é dedicado a mim, me fazendo parte desta história que me enche de orgulho, tornando cada vez mais fortes os meus laços com a família Alves de Lima e a minha história com a cidade de São Miguel. 

 Raimundo Fagner

O autor, Fagner e a amiga Norlândia Souza. Esta jovem, juntamente com outros amigos, participaram da entrega de mais de 9.000, dos 10.000 exemplares impressos do livro "João Rufino-um visionário de fé", na região de São Miguel. Fato este inédito em todo Rio Grande do Norte.

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LANÇAMENTO DO LIVRO “JOÃO RUFINO – UM VISIONÁRIO DE FÉ” NA TRIBUNA DO NORTE

Reportagem na Tribuna do Norte

No último dia 22 de abril, sexta feira, o jornal natalense Tribuna do Norte publicou uma reportagem sobre o lançamento do livro de minha autoria “João Rufino, um visionário de fé”. O lançamento desta obra ocorreu nesta bela cidade serrana no último sábado, da qual detalharei em outros materiais futuros.

Segue o texto publicado com algumas fotos que consegui com a ajuda do grande Tasso…

Livro traz história do café no RN

“Era dali daquela esquina que uma chaminé incensava as manhãs enevoadas de inverno e despejava o cheiro matinal do café torrado que impregnava o ar e a fumaça se encarregava de espalhar por toda a cidade.” As palavras do arquiteto José Gaudêncio Torquato sintetizam a atmosfera que permeia a biografia “João Rufino, um visionário de fé”, criador do Café Santa Clara nos idos dos anos 1950, na pequena cidade serrana de São Miguel. O livro, escrito pelo pesquisador Rostand Medeiros, será lançado com grande festa neste Sábado de Aleluia, dia 23, naquele município localizado no extremo Oeste do RN, distante cerca de 440km da capital potiguar – lugar onde tudo começou.

Junto a Seu João e Dona Joana Rêgo.

O adjetivo ‘grande’ não é mero subterfúgio linguístico, e pode ser entendido como ‘intenso’ devido à programação agendada para o acontecimento: além do tradicional coquetel de lançamento, marcado para às 19h, com direito a sessão de autógrafos do autor; na mesma hora e local também haverá abertura da exposição fotográfica “São Miguel, minha terra”, composta de 300 imagens históricas e atuais que contextualizam a biografia. Em seguida, às 22h, no palco montado na praça Pedro Rufino, a cidade será brindada com show do cearense Raimundo Fagner, amigo pessoal do homenageado desde a mocidade (o cantor nasceu em Orós, CE, cidade situada a pouco mais de 80km de São Miguel). Fagner e Gaudêncio, igualmente amigo de infância da família, assinam o prefácio.

Com pouco mais de 22 mil habitantes (IBGE 2010), a cidade de São Miguel, distante dos principais centros regionais (Natal e Fortaleza), ganhou contornos históricos de independência. Esse isolamento geográfico deu margem para o empreendedorismo do biografado: “Na década de 1950, Seu João (Rufino) Alves de Lima ia comprar café em Minas Gerais e na Bahia e trazia para torrar em São Miguel”, disse Rostand Medeiros. “Ele torrava o café em um imóvel no centro da cidade, com as portas abertas para mostrar que não misturava nada”, complementa o pesquisador.

Junto aos prefaciadores do nosso trabalho, os grandes Raimundo Fagner e Zé Gaudêncio Torquato

Detalhe: em São Miguel não tem “pé de café nem para tirar foto”, mas a família de Seu João Rufino coordena uma das maiores empresas do ramo no mundo. Inicialmente batizada de Café Nossa Senhora de Fátima, a empresa familiar passou a se chamar Santa Clara por questões mercadológicas e, desde o início de 2010, após acertar parceria com outra empresa familiar de Israel, passou a responder pela denominação Grupo 3Corações. “O livro conta toda essa trajetória”, adianta Medeiros.

Durante os dez dias que passei em São Miguel tive o enorme prazer de assinar muito dos mais de 9.000 livros que lá foram distribuídos gratuitamente para toda população. Como na casa do amigo Eliziário Neto, no bairro de Santa Tereza. Neto é proprietário de uma pequena confecção e fez questão de chamar vários vizinhos para que eu assinasse seus exemplares. Foi tudo muito positivo e só tenho agradecimentos.

A minuciosa pesquisa de Rostand durou cerca de dois anos, e o resultado pode ser visto ao longo das 380 páginas e 270 fotografias: “A pesquisa revelou detalhes da personalidade de Seu João Rufino, que ainda mora em São Miguel, é casado com Dona Joana Rêgo e leva uma vida simples. Até hoje, apesar do êxito empresarial, é visto pelas pessoas do lugar do mesmo jeito: humilde, amiga e caridosa. É conhecida por sua religiosidade e perseverança”.

Palco do grande show de Fagner

De acordo com o autor, a biografia está sendo distribuída na cidade, um exemplar por residência. “É emocionante ver no rosto dos mais antigos a surpresa ao relembrar do passado a partir das fotos. Estou muito satisfeito com o resultado”, comemora Rostand, convidado para escrever a biografia após a publicação de seu primeiro livro “Os Cavaleiros dos Céus – A Saga do Vôo de Ferrarin e Del Prete”, lançado pela Fundação Rampa em 2009. Com tiragem inicial de oito mil exemplares, a biografia é, muito provavelmente, o livro lançado no RN em 2011 de maior edição.

Na noite do lançamento e do show de Fagner, junto com o grande João Rufino

Uma das histórias contadas em “João Rufino, um visionário de fé” remete à década de 1960, quando Rufino foi tido como louco por distribuir parte de sua produção: “Seu método estava à frente do seu tempo, era tudo uma instintiva jogada comercial. Hoje a empresa é comandada por seus filhos, possuiu sete fábricas e mais de quatro mil funcionários. Sem dúvida a história de Seu João Rufino é um exemplo de fé para qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo. Uma história universal do homem que teve um sonho e conseguiu realizá-lo”, finaliza.

Assinando o livro para os amigos de São Miguel

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MEU NOVO LIVRO – “JOÃO RUFINO – UM VISIONÁRIO DE FÉ”

Há quase dois anos, após o lançamento do meu primeiro livro “Os Cavaleiros dos Céus – A Saga do Voo de Ferrarin e Del Prete”, fui contatado sobre a possibilidade de desenvolver a biografia de um homem da cidade de São Miguel, no extremo oeste do Rio Grande do Norte. O mais interessante sobre ele foi que um dia ele teve um sonho e conseguiu realizá-lo.

Capa do nosso novo livro

O nome deste cidadão é João Alves de Lima, mais conhecido na sua região como João Rufino e seu sonho foi criar uma empresa com muita fé trabalho e luta, sempre tendo muita devoção a Deus.

A princípio, em 1959, o nome deste sonho foi “Café Nossa Senhora de Fátima, depois se transformou em “Café Santa Clara” e desde o início de 2010 passou a ser conhecido como 3Corações.

Para quem não sabe, hoje o Grupo 3Corações é tão somente a maior empresa de café do Brasil e um e das maiores neste ramo em todo o mundo. Escrever sobre João Rufino, este grande potiguar, é para mim um grande motivo de orgulho.

Tive o privilégio de conhecer um ser humano especial, que nasceu em uma região do Rio Grande do Norte tão pouco conhecida dos habitantes da capital e tão cheia de coisas positivas. Mesmo João Rufino tendo dado o pontapé inicial para a criação desta grande empresa, mesmo que este empreendimento tenha se desenvolvido em uma região onde não se encontram plantações de café, nem para serem fotografadas, este homem é basicamente lembrado e reconhecido em sua comunidade pela sua enorme capacidade de trabalhar, pelos seus gestos de bondade, pela sua religiosidade, sua caridade, pelo apoio aos necessitados, pela amizade, carinho pela natureza e, principalmente, pela enorme dedicação aos que o cercam.

Igreja matriz

Percebi que o fato de João Rufino nunca se gabar do que possui, do que construiu ou do que seus filhos desenvolveram é o que mais chama a atenção no povo da Serra de São Miguel em relação à sua pessoa, à sua família.

Para a gente do lugar, eles continuam a ser as mesmas pessoas.

Não mudaram, não alteraram seu comportamento nem a maneira de tratar a todos. João Rufino e seus familiares, apesar de todo o sucesso, de ganharem o mundo, continuam a ser simplesmente micaelenses.

E ser de São Miguel, do extremo oeste do Rio Grande do Norte, é ser diferente. Distante dos grandes centros de decisões regionais, fincado no alto de uma grande serra, o povo dessa região possui antes de tudo um forte sentido de independência, de muito orgulho do seu lugar, de suas origens, da beleza de sua terra e da sua força. Isso tudo é associado a uma grande valorização do sentido de honra, de dever cumprido, de gratidão e respeito.

Praça principal de São Miguel

Foi desta terra que veio João Rufino.

A sua vida de luta é um exemplo. Como poderemos conhecer em sua história, não faltaram coragem, determinação, força de vontade e perseverança para trabalhar e vencer.

Antes de tudo, seu maior desejo foi dar as melhores condições para que seus filhos tivessem um futuro melhor. Com exceção disso, praticamente tudo o que ele quis conquistar foi desapegado de ambição material.

João Rufino sempre teve a saudável pretensão de desenvolver um produto de qualidade. “Abençoado”, como ele diz. Um café que todos gostassem, que indicasse a sua vontade de acertar junto à sua comunidade, de se mostrar competente e ser reconhecido por isso. Era mais a motivação de proporcionar algo bom do que o simples desejo de desenvolver um produto para ter condições de “possuir”.

Essa sua falta de ambição pelos bens materiais levantou diversas críticas de concorrentes. Alguns chegaram até a lhe chamar de louco por distribuir parte do seu produto gratuitamente.

O que o povo da região não percebia era que o seu método estava à frente do seu tempo, se considerarmos as características comerciais do início da década de 1960, quando o caderninho com as contas dos clientes era a prática normal. Apesar disso, ele nunca se importou com a opinião dos outros e ainda realizava seu trabalho sempre dotado de muita fé.

Durante nossas pesquisas

Mesmo com o fato dos empreendimentos tocados pelos seus filhos estarem em um patamar que João Rufino nunca imaginou alcançar, ao visitar algumas das unidades fabris do atual Grupo 3 Corações percebe-se nitidamente que a mesma filosofia de trabalho criada por ele em 1959 é seguida até hoje pelos mais de 4.000 colaboradores da empresa.

Depois de muita pesquisa, muita estrada, muita gravação, muita digitação e muita satisfação pelo trabalho realizado, no próximo dia 23 de abril, feriado de sábado de aleluia, a cidade de São Miguel reviverá sua história de força e beleza registrada em imagens e palavras em um grande evento denominado “São Miguel, Minha Terra”.

Convite para o evento "São Miguel Minha Terra"

Às 19h, acontecerá o coquetel de lançamento do nosso livro “João Rufino, um visionário de fé”, com sessão de autógrafos. O livro conta com 270 fotos, em 382 páginas e conta com uma tiragem de 8.000 exemplares, impressos na Halley Gráfica e Editora, de Teresina, Piauí.

Sobre os trabalhos técnicos deste livro; a coordenação editorial é de José Correia Torres Neto e a revisão de textos de Kaline Sampaio de Araújo. O projeto gráfico e diagramação inicialmente foi de José Carlos Santos e depois assumido pela Promosell Comunicação da cidade de Fortaleza. Coube ainda a Promosell Comunicação a elaboração da capa (http://www.promosell.com.br/). Já o tratamento de imagens ficou a cargo do competente fotografo Cláudio Pedroso (http://claudiopedroso.fot.br/). Finalmente a consultoria editorial e gráfica ficou a cargo de Kelly Mota.

Após ocorrerá a abertura da Exposição Fotográfica “São Miguel, Minha Terra”. São mais de 300 fotos ilustrarão a história de São Miguel nesta exposição fotográfica. É um verdadeiro presente para a cidade. Inspirada no nosso livro “João Rufino, um visionário de fé”, a exposição exibe vários painéis de fotos restauradas; todas provenientes do acervo pessoal da família, de amigos e de historiadores. A exposição também estará aberta ao público durante o domingo, dia 24, das 10h às 22h.

Finalmente, para abrilhantar o evento, o grande amigo de São Miguel, o cantor Raimundo Fagner, fará um show na Praça de Shows Pedro Rufino a partir das 22h. Os micaelenses vão cantar juntos em homenagem à São Miguel e se emocionar com os versos do renomado artista. A página oficial deste cantor na web já informa sobre o show (Ver http://www.fagner.com.br/).

Durante a elaboração deste trabalho tive oportunidade de conhecer o quanto este ícone da Música Popular Brasileira gosta de São Miguel. Juntamente com José Gaudêncio Torquato, o cantor Raimundo Fagner é um dos prefaciadores deste livro.

O nosso biografado entre seus prefaciadores. Vemos Fagner, João Rufino e José Gaudêncio Torquato.

Para aqueles que lá estiverem vai ser uma grande celebração.

Como Pedro Lima coloca em relação ao seu pai João Rufino, “ele nunca perdeu a inocência nem a fé na vida e nas pessoas”.

Por esta e inúmeras outras razões, obrigado por ter tido a oportunidade de conhecê-lo e de ter tido a honra e o privilégio de escrever sobre sua vida.

Rostand Medeiros

Natal, 14/04/2011

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