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JUDEUS EM NATAL – A SAGA DOS PALATNIK

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Um Grupo de Judeus Que Começou Sua Vitoriosa Trajetória Empresarial Trabalhando Junto aos Mais Pobres de Natal 

Autor – Rostand Medeiros

A foto e o texto acima mostram o lugar onde os destinos administrativos de Natal, capital do Rio Grande do Norte, são traçados e executados desde 1922. Oficialmente conhecido como Palácio Felipe Camarão é um marco na cidade, mas o que importa mesmo nessa nota de jornal é um pequeno detalhe no final do texto. Ali ficamos sabendo que os móveis construídos na época da inauguração desta marcante edificação, que não sei se ainda estão por lá, foram executados pela firma “Tobias Palatnik & Irmãos”.

Os proprietários desta empresa, com um sobrenome tão diferenciado dos tradicionais nomes familiares de origem portuguesa existentes em Natal, eram os membros de uma família de judeus ucranianos, que em poucos anos foram considerados os membros mais proeminentes da comunidade judaica em Natal.

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3 de janeiro de 1947

Nada mal para estes imigrantes que haviam chegado apenas dez anos antes ao Brasil e tinham começado suas atividades na capital potiguar vendendo seus produtos diretamente nas casas dos moradores da pequena urbe. Trabalharam sem diferenciar classe nem cor, atendendo inclusive os mais humildes.

Em Busca de Novos Espaços

Segundo a historiadora Luciana Souza de Oliveira, através de sua monografia de mestrado em História “A fala dos passos: imigração e construção de espaços judaicos na cidade do Natal (1919-1968)”, a história dos judeus na capital potiguar começa a ser contada no ano de 1911, com a chegada ao Brasil de Tobias Palatnik e seus irmãos Adolfo, Jacob e José (este último com apenas 16 anos) e um tio Beinish (Brás) Palatnik. Eles deixaram para trás a fria região da Podólia, no sudoeste da Ucrânia e seguiram esperançosos para recomeçar a vida no grande país tropical.

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Judeus expulsos dos seus lares na Europa Oriental – Fonte – https://en.wikipedia.org

Para a historiadora este processo migratório dos judeus vai muito além de uma mera necessidade econômica. A questão judaica na Europa durante o século XIX até a primeira metade do século XX foi marcada por pressão e opressão, onde o espírito antissemita se manifestou nas esferas política, econômica e social, atingindo grande parte da população que hostilizava e culpava os judeus por toda sorte de mazelas. Deixar a Europa no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX representava para eles antes de tudo uma questão de sobrevivência.

Em calientes terras tupiniquins o Rio de Janeiro foi a primeira parada de Tobias Palatnik e seus parentes. Mas foi por um período curto e logo aqueles judeus seguiram para Salvador. Mas também a capital baiana não foi o melhor dos destinos e eles partiram para o norte, em direção à cidade do Recife, onde os Palatnik começaram a fazer sua clientela, em grande parte composta por operários.

Luciana Souza de Oliveira aponta que na cidade conhecida como “Veneza Brasileira” eles aprenderam que, além do comércio realizado de porta a porta, mesmo falando o português ainda de forma rudimentar, eles podiam comprar no atacado e com exclusividade. Neste período a cambraia bordada foi seu principal produto.

Recife certamente ajudou os irmãos Palatnik a assegurar alguns lucros, mas a concorrência comercial na cidade era um problema complicado, que contava naquele período com 80 judeus atuando como prestamistas. Segundo a autora estes judeus que já atuavam em Recife eram em sua maioria rapazes solteiros, provenientes da Bessarábia (região histórica da Europa Oriental, cujo território se encontra principalmente na atual Moldávia), Polônia e a Ucrânia, que batalhavam duro para poder concretizar um objetivo comum – o desejo de conseguir meios para poder se estabelecer na Palestina com os demais familiares que deixaram na Europa Oriental. 

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Tobias Palatnik – Fonte –

Foi então que Tobias Palatnik, o mais velho dos quatros irmãos, resolveu transferir-se para Natal objetivando fugir daquela concorrência.

Vencendo Onde os Outros nem Percebiam que Existiam Consumidores

Para a autora do texto a escolha de pegar o trem e seguir em direção a Natal foi a melhor decisão que Tobias tomou quando chegou ao Brasil. Nessa época Natal ainda era uma pequena capital com população inferior a 25.000 habitantes, com apenas 27 famílias formada por estrangeiros, três linhas de bondes elétricos, uma catedral, um cinema mudo e que estava começando a passar por intensas transformações. A cidade estava aos poucos desabrochando e vivenciando o início da modernidade tão desejada pela elite local.

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Navios no Rio Potengi, em Natal

Mas se por um lado a elite natalense se deleitava com os avanços e belezas da “Belle Époque”, uma grande parcela da sua população – os mais pobres – eram tratados de maneira verdadeiramente invisível.

Aqueles ucranianos, que sabiam bem o que significavam as violentas exclusões dos pogroms contra judeus na Europa Oriental, certamente perceberam que também havia exclusão em Natal. Mas esta era extremamente sutil, realizada de maneira covarde, praticada sem violência física contra uma massa morena, mas carregada de extrema hipocrisia. A exclusão em Natal diferenciava os seres humanos principalmente pela cor e condição socioeconômica.

Acredito que Tobias Palatnik percebeu de maneira muito correta que aquelas pessoas excluídas, mesmo com uma condição financeira mais limitada, apontavam para a possibilidade de um mercado consumidor extremamente promissor em Natal. Já a maioria dos seus concorrentes, membros de uma elite branca e racista, que praticavam intensos atos de exclusões sociais contra aquelas pessoas consideradas ralé, jamais iriam ate eles, bater nas portas dos seus “mocambos” para vender alguma coisa.

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Os conhecidos Mocambos, as moradias dos mais pobres de Natal

Tobias Palatnik se deparou com um espaço que estava pronto para ser explorado. Percebeu que a venda a prestação tinha futuro na cidade e que a oportunidade comercial era bem melhor que em Recife. Logo avisou aos seus irmãos e estes seguiram para o novo destino e começaram um novo investimento.

Percebi lendo o texto da historiadora Luciana Souza de Oliveira e os jornais de época, que para os Palatnik a diferenciação dos natalenses abonados com os “negos”, como os mais ricos da cidade pejorativamente chamavam os mais pobres (que nem precisavam ser claramente afrodescendentes para assim serem classificados), era algo que nada lhes importava.

O que importava mesmo era negociar, chegar até o cliente, atender o desejo das pessoas, independente de onde eles moravam, ou da cor da sua pele…

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As Rocas, área de atuação dos Palatnik em Natal

Logo na primeira investida Tobias Palatnik pôde observar que só nas Rocas, a região dos pescadores, onde viviam os mais pobres da cidade, ele poderia conquistar facilmente mais de 200 clientes. Outra coisa que certamente o judeu percebeu foi que aquelas pessoas, não obstante suas limitadas condições financeiras, possuíam um acentuado sentido de honra em relação a quitação de suas dívidas financeiras, onde poucos se davam ao papel de caloteiros.

Era tudo que um prestamista desejava!

Assim os produtos foram sendo oferecidos de porta em porta e logo se estabeleceram fortes laços econômicos. Mensalmente os irmãos passavam nas casas dos clientes, oferecendo novas mercadorias e estes pagavam as parcelas dos produtos que haviam sido anteriormente vendidos. Esse tipo de procedimento tornava a relação entre comerciante e cliente mais estreita, fazendo com que os anseios de consumo da sociedade local, mesmo dos mais humildes, fossem supridos de maneira pessoal. Segundo Luciana Souza de Oliveira os irmãos Palatnik foram os primeiros que trouxeram para a cidade essa nova maneira de comercializar.

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Natal no início do século XX

Com arrojo e garra, aliado ao desejo de trabalhar e de prosperar em Natal, Tobias e seus irmãos alcançaram seus objetivos iniciais em menos de seis meses, quando conseguiram conquistar cerca de mil clientes.

Boa Relação Com os Natalenses, Mas Mantendo as Tradições

A prosperidade econômica veio logo, rápida mesmo.

A historiadora Luciana Souza de Oliveira aponta que 1915 os Palatnik puderam adquirir uma fazenda com uma usina de açúcar, álcool e aguardente. Mas o forte daqueles judeus era o comércio e foi com ele que a família Palatnik escreveu uma história de prosperidade na cidade.

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Familia Palatnik – Em pé, a partir da esquerda: Adolfo Palatnik, Jacob Palatnik, Brás Palatnik, Tobias Palatnik, José Palatnik, Tobias Prinzak, Moisés Kaller e Horácio Palatnik. Sentadas: Cipora Palatnik, Dora Palatnik (com Chimonit Palatnik no colo), Rivca Palatnik, Olga Palatnik (com Ester Palatnik no colo), Sônia Palatnik, Dora Kaller e Augusta Palatnik.

Com a estruturação e o crescimento econômico daqueles judeus em Natal, esses jovens tiveram a oportunidade de ir à Palestina algumas vezes visitar seus parentes. Foi nessas poucas visitas que os jovens Palatnik constituíram suas famílias com as moças que residiam na chamada “Terra Santa”.

Mesmo construindo as suas vidas em Natal, mesmo aqui sendo a cidade que esses judeus escolheram para desenvolverem suas famílias, a cidade não poderia lhes oferecer alguns elementos responsáveis pela continuidade de sua identidade.

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O escritor Luís da Câmara Cascudo participou da festa do Yom Kippur junto aos judeus de Natal e descreveu a visita em um interessante artigo – Fonte – Jornal ” A República” 12/11/1933

Faltavam-lhes garotas que professasse a mesma fé e que tivesse os mesmos conceitos e valores para manter uma identidade judaica em seus lares. Vale ressaltar que aqueles jovens judeus conseguiram se relacionar muito bem com as pessoas em Natal, mesmo criando essa delimitação de não envolvimento de caráter íntimo e pessoal com aqueles que eram diferentes a sua cultura.

Ocorreram então várias uniões a partir de 1920. Com esses casamentos, muitos outros familiares, entre eles primos, irmãos, pais, tios e outros membros, decidiram deixar seus países e foram atraídos para a capital potiguar.

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Jose e Sonia Palatnik

Essas ramificações e parentescos foram os elementos principais para que a família Palatnik se destacasse, tornando-se os membros proeminentes para o estabelecimento de uma comunidade judaica na cidade, pois o número de pessoas que gravitavam em torno deles crescia com o passar dos anos.

Preocupações Com Coisas da Vida e da Morte

Segundo informa o site judaismohumanista.ning.com, em 1925 foi fundado na capital potiguar o Centro Israelita, que funcionava também como uma sinagoga.

Ainda na década de 1920 os judeus natalenses foram os primeiros a construir um jardim de infância, que até aquele período não havia sido estabelecido na cidade de Natal. Esta escola para crianças começou a funcionar, junto a um programa de educação judaica complementar e uma de suas professoras foi a Sra. Sara Branitzak, que teria vindo da Palestina e, segundo a historiadora Luciana Souza de Oliveira, chegou em 1927, mas ela passou pouco tempo neste trabalho.

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Jardim de Infância Palatnik – A partir da esquerda, em pé: Eliachiv Palatnik, Sofia Kaller, Ester Palatnik, David Fassberg, Ester Palatnik (filha de Elias) e Moisés Palatnik. Sentados: Aron Horovitz, Aminadav Palatnik, professora Sarah Branitzky, Sarita Volfzon, Raquel Horovitz, Nechama Kaller e Simon Masur. Na frente: (?), Nechama Palatnik, Achadam Masur e Genita Volfzon.

Muitas crianças judias que nasceram em Natal participavam não apenas da vida judaica, também se relacionavam com as outras crianças da cidade sem, no entanto, esquecer que mesmo sendo Potiguares, eram acima de tudo judeus, guardando e seguindo as tradições que eram ensinadas pelos seus pais. Uma destas crianças foi Uma das crianças judias nascidas em Natal, mais precisamente em 19 de fevereiro de 1928, foi Abrahan Palatnik.[1]

Ainda segundo o site judaismohumanista.ning.com, um censo oficial da cidade de Natal em 1940 registrou um total de 54.836 habitantes e 109 eram judeus.

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Túmulo de Rosinha Palatnik no Cemitério Público do Alecrim – Foto do autor.

Com o natural crescimento da comunidade local, que passou a contar com mais de trinta famílias de judeus, logo não eram apenas os aspectos ligados a vida terrena que preocupavam esta comunidade, as questões de morte também se tornou uma preocupação.

Em 10 de janeiro de 1931, através de contatos entre os líderes da comunidade e a Prefeitura de Natal, cujo prefeito a época era o Sr. Gentil Ferreira de Souza, foi doada uma quadra murada no Cemitério Público do Alecrim para que os membros da comunidade judaica fossem enterrados mediante seus rituais tradicionais. Igualmente foi fundada uma sociedade funerária chamada Chevra Kadisha.

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Rosinha Palatnik

Até hoje existe este espaço exclusivo no Cemitério do Alecrim e entre os vários judeus natalenses enterrados está a lápide de Rosinha Palatnik. Ela faleceu no dia 7 de agosto de 1936, com apenas 20 anos de idade, depois de uma permanência no hospital de um mês e quinze dias em razão de uma apendicite. Rosinha era carioca, nascida Rosinha Tendler, filha de Boris e Anna Tendler e era casada com Horácio Palatnik (ver jornal “A República”, edição de domingo, 9 de agosto de 1936).

Crescimento dos Negócios

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O trabalho dos Palatnik prosperou ao longo dos anos e foi se diversificando.

De prestamistas eles abriram uma fábrica e uma loja de móveis chamada Casa Sion, sendo localizada a rua Dr. Barata, número 6, no bairro da Ribeira, uma das principais artérias comerciais da cidade na época.

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Brás Palatnik

Já Brás Palatnik surge com uma casa comercial na década de 1920, que inclusive era batizada com o seu nome e ficava localizada igualmente na rua Dr. Barata, nos números 204 e 205 e ali parece que ele vendia de tudo um pouco. Anúncios no jornal “A República”, o principal da cidade, mostra uma propaganda onde se oferecia guarda-chuvas, cobertas para camas, calçados para homens, tolhas, tecidos de cambraia e muitas outras coisas. Tempos depois esta loja mudou para a rua Ulisses Caldas, na esquina com a rua Felipe Camarão, no Centro da cidade, muito próximo, ou mesmo vizinho, ao Centro Israelita.

Em 1931 os irmãos Tobias e Braz Palatnik estão com uma fábrica de mosaicos
na rua Extremoz e uma loja destes produtos na rua Dr. Barata, mas no número 190. Tinham também uma serraria na rua Ulisses Caldas e mantinham a Casa Sion para vender os móveis por eles fabricados.

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5 de fevereiro de 1937

Em 1936 o antigo e marcante cinema Polytheama, referência da sétima arte na história da cidade e localizado na Praça Augusto Severo, 252, se torna a Casa Palatnik. Como em outros comércios destes judeus a diversificação e a variedade de produtos é a tônica da casa comercial. Ali se vendia desde camas de ferro, passando por móveis de vime e junco e até mesmo pedras para túmulos.

Conforme os Palatnik vão prosperando, eles vão participando de atividades junto à sociedade natalense. José Palatnik, por exemplo, se torna conselheiro da Associação Comercial de Natal e do conselho fiscal do Banco Industrial Norte-rio-grandense S.A.

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25 de janeiro de 1939

Além da diversificação de negócios, pesquisando nos jornais antigos fica patente como os Palatnik investiram forte na aquisição de imóveis por toda a área de Natal. Nessa época era normal que os documentos emitidos pela prefeitura da cidade nas negociações ligadas a imóveis, com exceção de valores, fossem divulgados nos jornais locais. Neste aspecto, principalmente no início da década de 1940, os Palatnik estão sempre presentes com pagamentos de impostos referente a muitas aquisições e venda de imóveis. Provavelmente perceberam que, mesmo de forma lenta, a cidade se expandia e a compra de imóveis era outra nova oportunidade de negócios a ser trabalhada.

A Jerusalém do Brasil

O jornal Tribuna do Norte, na sua edição de 22 de novembro de 2013, informa que os irmãos Palatnik investiram na construção civil em Natal. Eles foram pioneiros na construção de conjuntos habitacionais: as primeiras casas da Ponta do Morcego (numa delas veraneava o governador Juvenal Lamartine) e a famosa Vila Palatnik, pegando a avenida Deodoro, rua Ulisses Caldas (em frente ao Colégio da Conceição) e rua coronel Cascudo.

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Região da Ponta do Morcego, em Natal

Durante a Segunda Guerra Mundial o Rio Grande do Norte sediou uma das maiores bases de aviação dos Aliados no hemisfério ocidental, a famosa Parnamirim Field. Este fato, ocorrido antes mesmo da declaração formal de guerra do Brasil contra os países do Eixo, proporcionou a chegada de muitos militares estadunidenses a Natal. Logo alguns soldados judeus servindo as forças armadas dos Estados Unidos começaram a participar e animar a vida comunitária dos judeus em Natal.

Em agosto de 1942 era o próprio Brasil que entrava na Segunda Guerra Mundial. Em Natal e a população foi chamada para participar do esforço de guerra, com ações da defesa passiva. A tradicional comunidade sírio-libanesa de Natal, tendo a frente Neif Habib Chalita e Kalil Abi Faraj, participou deste processo junto com outras colônias de estrangeiros que viviam na cidade, entre estas os judeus. Nestas atividades eles eram liderados por José Palatnik e Leon Volfzon. Não sabemos em que grau ocorreu a participação destas comunidades no processo de defesa passiva de Natal, nem como foi a interação de sírio-libaneses e judeus neste objetivo, mas tudo leva a crer que transcorreu sem maiores alterações em razão da inexistência de notícias apontando problemas.

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Participação da tradicional comunidade sírio-libanesa de Natal no processo de defesa passiva da cidade durante a Segunda Guerra Mundial, juntamente com a comunidade judaica.

Com a chegada dos estadunidenses houve um aporte financeiro muito intenso na capital potiguar. Consequentemente a cidade se encheu de forasteiros em busca dos preciosos dólares e este aumento populacional trouxe consequências para Natal. Entre estes figuram o aumento da carestia e a falta de moradias e esse ultimo fato motivou os Palatnik a abrir um novo negócio – Uma loja de material de construção para abastecer um mercado que construía novas casa.

Mas a pequena e calma cidade, que crescia a olhos vistos, já não atraia os judeus como no passado.

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Vila Palatnik

Após a Segunda Guerra Mundial tem início a migração dos judeus natalenses para outros centros urbanos como Rio de Janeiro e Recife, mas alguns seguiram para o recém-criado Estado de Israel. Assim, com o número de judeus extremamente reduzidos em Natal, as atividades do Centro Israelita foram encerradas em novembro de 1968.

Segundo a historiadora Luciana Souza de Oliveira a história da presença dos judeus em Natal foi algo expressivo. Eles foram os responsáveis por construir na capital Potiguar uma das comunidades judaicas mais atuantes do Brasil, que chegou a ser conhecida na Palestina como a Jerusalém do Brasil.

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Irmãos Palatnik

As famílias judias que se estabeleceram na cidade mudariam não apenas a história dos judeus em Natal, mas o próprio espaço urbano e cultural. Foi na capital potiguar que eles tiveram a oportunidade de (re)construir as suas vidas oferecendo a cidade o que eles tinham de melhor: o trabalho e suas mercadorias. Em contrapartida a cidade os recebeu consumindo os seus produtos importados e dando a eles uma condição de vida digna na qual puderam oferecer a suas famílias o suprimento de suas necessidades.

A imigração deste grupo de judeus para Natal representou mais que um simples evento, foi a importante inserção de um povo, de uma cultura, uma religião, uma economia, organização espacial e social, bem como a (re)construção do “seu lugar” na capital Potiguar.

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REFERÊNCIAS

CASCUDO, Luís da Câmara. Yom Kippur em Natal. Jornal A República, Natal, n. 881, p.7, 12 nov. 1933.

OKSMAN. Sérgio (dir.). Irmãos de Navio: Histórias da Imigração Judaica no Brasil. São Paulo: Documenta Filmes, 1996. DVD (60 min), son., color.

ROZENCHAN, Nacy. Os judeus de Natal: Uma comunidade segundo o registro de seu fundador. Revista Herança Judaica, n. 106, abr. 2000. São Paulo: B´nai B´rith 2000.

SCHEINDLIN, R. História ilustrada do povo judeu. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

WOLFF, Egon; WOLFF, Frieda. Natal, uma comunidade singular. Rio de Janeiro: Cemitério Comunal Israelita, 1984.


NOTA

[1] Abrahan Palatnik é filho de Tobias e Olga Palatnik e com apenas quatro anos de idade imigrou de natal para a região onde, atualmente, se localiza o Estado de Israel. Entre 1942 e 1945, frequenta a Escola Técnica Montefiori, em Tel Aviv, e se especializa em motores a explosão. Só retorna ao Brasil, para o Rio de Janeiro, em 1948. Por volta de 1949, inicia estudos no campo da luz e do movimento, que resultam no Aparelho Cinecromático, exposto em 1951 na 1ª Bienal Internacional de São Paulo, onde recebe menção honrosa do júri internacional. Desenvolve a partir de 1964 os Objetos Cinéticos, um desdobramento dos cinecromáticos, mostrando o mecanismo interno de funcionamento e suprimindo a projeção de luz. O rigor matemático é uma constante em sua obra, atuando como importante recurso de ordenação do espaço. É considerado internacionalmente um dos pioneiros da arte cinética. Abraham Palatnik é consagrado pioneiro, o primeiro que explorou as conquistas tecnológicas na criação de vanguarda brasileira, tornando as máquinas aptas a gerarem obras de arte. Ver – https://www.escritoriodearte.com/artista/abraham-palatnik/

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1862 – O ESTRANHO DESFILE DOS DEMÔNIOS NEGROS DA NOITE DE SÃO BARTOLOMEU

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Foliões no Bloco Carnavalesco Os Cão, na praia da Redinha,em Natal. Na foto, os foliões saem de dentro do mangue, onde se pintaram com a lama característica do local – FOTO ED FERREIRA/AE – Fonte – http://gilvandejacana.blogspot.com.br/2014/03/bloco-os-cao-completa-50-anos-pelas.html

Que Estranho Cortejo Percorria as Ruas da Cidade do Natal, Com Homens Pintados de Negro, Imitando Demônios e Realizando uma Comemoração? Teria algo Haver Com Um Moderno Bloco Carnavalesco da Redinha? 

Autor – Rostand Medeiros

Tradição é tradição e, quer você goste, ou não, uma das manifestações mais tradicionais, autênticas e originais do moderno carnaval de Natal é o irreverente bloco “Os Cão”.

Em 2016 “Os Cão” (no singular mesmo) comemorou 52 anos de tradição e muita folia na região da Praia da Redinha, na Zona Norte da capital potiguar. Segundo Francisco Ribamar de Brito, Seu Dodô, um dos criadores do bloco, tudo começou quando ele, Zé Lambreta, Chico Baé e mais dois amigos brincaram a festa de Momo de 1964 em um bloco chamado “Brasinhas”, que só saia nas ruas até a segunda-feira de carnaval. Eles resolveram esticar a festa até a terça, mas não tinham nenhuma fantasia para usar naquele último dia de folia!

Enquanto pensavam em como resolveriam esta questão, os rapazes resolveram pegar camarões para servir de tira gosto em um local conhecido como Porto D’água, na área de mangue do estuário do Rio Potengi. Quando lá estavam Chico Baé melou seus cabelos de lama, querendo estirar o cabelo crespo. Todos acharam idéia engraçada e igualmente melaram o corpo de lama. Completaram a fantasia com pedaços de galhos e saíram se divertindo pelo mercado e ruas da Redinha.

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Logo quem passava, ou se recusassem a dar cachaça ao grupo, eles assustavam e as pessoas diziam – “Lá vem os cão!”. Nos anos seguintes eles repetiram a brincadeira e o grupo foi crescendo.

É patente que o “Grand Monde” natalense jamais teve maiores simpatias por este bloco carnavalesco da Redinha. No máximo eles e sua lambuzada festa são vistos como “exóticos” e aturados, pois os políticos da cidade dos Reis Magos não podem ficar indiferentes a uma festa que arrasta mais de 2.000 pessoas para as ruas. Mesmo com pouco apoio os “Os Cão” vão resistindo com sua festa original. Sempre brincando pela Redinha, acompanhados por uma legião de demônios usando como fantasia basicamente a lama do mangue do Potengi, muitos portando tridentes, chifres de animais e galhos de árvores. Sempre pedindo cachaça nas terças-feiras de Momo e com muita irreverência.

O interessante é que descobri uma nota de jornal onde temos a informação que há quase um século e meio, de uma maneira diferenciada e bem distinta, já circulou pelas velhas ruas de Natal algumas pessoas que se fantasiaram de demônios enegrecidos em meio a um festejo religioso, mas que estranhamente parece possuir algumas similaridades com o moderno bloco “Os Cão”.

O Correspondente

Em setembro de 1862 o Brasil ainda era um imenso Império com vastas extensões de terras quase virgem, com forte economia agrícola, tocada pela mão de obra escrava, poucas modernidades e grande número de analfabetos. Apesar de todas as deficiências já existiam muitos jornais nas capitais das Províncias, que hoje chamamos de Estados.

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Antônio Carlos Mariz e Barros, comandante da corveta Belmonte em 1862, que visitou Natal e foi morto na Guerra do Paraguai.

Este era um dos principais meios de circulação de informações, onde os melhores jornais contratavam correspondentes nas Províncias vizinhas para reproduzirem notícias regionais. Este era o caso do “Jornal de Recife”, um dos principais jornais de Pernambuco na época, que em Natal tinha como correspondente Joaquim Ignácio Pereira Junior, um súdito português, que também era o Vice-Cônsul honorário de seu país no Rio Grande do Norte. Este informava de Natal, principalmente os eventos sociais e políticos. Notícias do interesse de uma pequena parcela de potiguares, membros da elite local, que tinham negócios, ou estudavam na capital pernambucana.

Há quase 154 anos, na edição do “Jornal de Recife” de quinta-feira, dia 17 de setembro de 1862, Joaquim Ignácio, como era de costume, iniciou sua coluna informando que na manhã do dia 24 de agosto, Pedro Leão Veloso, então Presidente da Província do Rio Grande do Norte, recebeu no Palácio do Governo o jovem primeiro tenente Antônio Carlos Mariz e Barros, comandante da corveta Belmonte, da Marinha do Brasil, que se encontrava no porto para concertar uma pequena avaria na hélice. O encontro protocolar ocorreu no sobrado localizado no bairro da Ribeira, na então Rua do Comércio, atual Rua Chile, a mais imponente e alta edificação (com apenas dois andares) existente em Natal na época[1].

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Nota da edição do “Jornal de Recife” de quinta-feira, dia 17 de setembro de 1862.

Então na sequência do seu informativo, até com certa surpresa, o correspondente Joaquim Ignácio apresentou uma outra notícia que não tinha nenhum caráter oficial.

O Estranho Cortejo

Cerca de vinte “marmanjões” haviam desfilado pelas ruas de terra da pequena Natal, trajando muito pouca roupa, pintados completamente de preto (seria de lama do mangue?) e figurando demônios. Durante o desfile estes homens eram “açoitados” por um figurante vestido de São Miguel, o santo guerreiro, que protegia uma pobre alma vestida de branco da ação dos pretensos membros da legião do mal.

Mesmo estando com a presença de São Miguel, aquele estranho cortejo fazia parte de uma comemoração pelo dia de São Bartolomeu, um dos doze primeiros apóstolos de Cristo.

Consta que São Bartolomeu nasceu em Caná, a quatorze quilômetros de Nazaré, na Galiléia, tendo sido apresentado a Jesus pelo apóstolo Filipe, seu maior amigo. Assim como o apóstolo Tomé, Bartolomeu foi um grande viajante e teria passado por locais no Irã, Síria, Índia, Armênia e por algum tempo na Grécia, com Filipe, especialmente na região da Frigia. Na Índia o apóstolo Bartolomeu pregou a verdade do Senhor Jesus, segundo o Evangelho de São Mateus, onde conseguiu converter muitas pessoas naquela região. Já na Armênia ele conseguiu converter o rei Polímio, sua esposa e muitas outras pessoas em mais de doze cidades. Essas conversões, no entanto, provocaram uma enorme inveja dos sacerdotes locais, que, por meio do irmão do rei Polímio, conseguiram a ordem de tirar a sua pele e depois decapitá-lo[2].

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Imagem de São Bartolomeu.

Apesar daquele cortejo em Natal glorifica a figura de um santo católico, percebemos na pequena e, para tristeza deste pesquisador, econômica nota, que aquele ato público causava estranheza em pessoas da comunidade. Tanto que o correspondente do “Jornal de Recife” apontou que ele estava na função de “transmitir factos, que demonstrem o progresso” e, após informar sobre este estranho evento religioso-teatral pelas ruas da urbe, completava afirmando em tom jocoso se aquilo “É, ou não, civilização!”.

Personagens Estranhos  

Segundo Luís da Câmara Cascudo, em seu livro “História da Cidade do Natal” (Edição do IHG-RN, 1999, páginas 122 a 124), ninguém soube lhe dizer como começou aquele estranho cortejo, mas soube que ele não era autorizado pela igreja católica, tinha um aspecto um tanto macabro e havia sido iniciado por pessoas do povo.

O evento ocorria sempre pela tardinha do dia 24 de agosto, na medida que as ruas estreitas da cidade começavam a ficar no escuro[3].

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Entre hurros, gritos, risadas histéricas, pulos, guinchos e outras diabruras, os jovens surgiam pintados de preto, com chifres na cabeça, estirando suas línguas cobertas de tecidos vermelhos feitos de baeta e trazendo pequenas asas. Fico imaginando o choque dos natalenses daqueles tempos coloniais.

Mas o Mestre Cascudo aponta algumas diferenças entre o que ele registrou através da memória dos mais velhos que assistiram estes desfiles e o relato de Joaquim Ignácio. Entre estas estava a que existia uma pessoa fantasiada como o próprio demônio, comandando a sua legião de diabos negros e um homem vestido com um larguíssimo hábito de monge, com cordões de São Francisco na cintura, grande capuz que escondia seu rosto e afugentava os “filhos do cão” com chicotadas cênicas.

Outra diferença apontada e que fazia o medo se estampar tanto na cara dos pequenos, quanto dos marmanjões, era a figura da morte.

O ator que interpretava a figura que lembra o fim de todos os seres viventes apresentava-se andando em pernas de pau, com uma roupa alva, que arrastava pelo chão. Mas os textos nada trazem sobre alguma foice estilizada levada pelo pretenso ator.

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Uma outra representação da morte em um jornal carioca no fim do século XIX.

Independentemente disso ele parecia realizar sua função com esmero, pois a figura sinistra era temida e batiam-lhe portas e janelas na cara. Como resposta a afronta, a morte então riscava no ar uma cruz latina e bradava a plenos pulmões “Vá se preparando! Vá se preparando! Eu volto em breve para vim buscá-lo…” Daí a pouco o cortejo parava em frente a alguma outra casa e, se recebesse porta na cara, vinha nova praga rogada. Pelos escritos de Cascudo, essa era a parte mais “terrível” do cortejo[4].

Certamente aquele cortejo fazia muita criança natalense daquele tempo se mijar de medo e seria desaprovada pelas modernas técnicas e normas da psicologia infantil.

Não nós esqueçamos que esta era uma época de medicina limitadíssima, onde morrer por doenças variadas era algo comum e uma sentença dessas proferida na porta de casa, mesmo por brincadeira, certamente deixaria muitos se benzendo, se ajoelhando diante de seus oratórios e declamando benditos.[5]

Estranhamente o fim do cortejo acontecia diante da Igreja Matriz, na antiga Rua Grande, atual Praça André de Albuquerque, com todos os integrantes rezando uma solene ave maria.

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Antiga Rua Palha em festa – Fonte – http://mediocridade-plural.blogspot.com.br/2011/09/natal-antiga.html

Para Cascudo o fim desta estranha manifestação popular ocorreu com um fato pitoresco e bastante hilário…

Não sabemos a data exata, mas entre os anos de 1836 e 1838, o capitão Antônio José de Moura exercia o cargo de primeiro comandante do recém criado Corpo Policial, atual Polícia Militar, e tinha a sua residência na Rua da Palha (atual Rua Vigário Bartolomeu, no Centro). Durante um destes anos, quando o cortejo de 24 de agosto passou em frente à casa do policial, dois cachorros de sua propriedade ficaram extremamente agoniados com a gritaria, pularam a janela da residência e partiram para cima dos integrantes do desfile. Foi literalmente um Deus nos acuda, com satanás e sua legião de demônios fugindo para todos os lados, gente caindo no chão, o capitão Moura no meio da rua apenas vestido de chambre (um roupão caseiro comprido) e com muito trabalho para segurar os seus endiabrados mastins. Paradoxalmente quem mais sofreu foi à morte, pois o ator despencou das pernas de pau e foi mordido “na parte mais carnuda do corpo”.

Ainda segundo Câmara Cascudo o cortejo caiu em desgraça diante do escárnio pelo ocorrido, perdeu força e sumiu.

Eterna Estranheza

Mas diante da nota publicada pelo correspondente do “Jornal de Recife”, vinte anos depois do ataque dos cães do capitão Moura na Rua da Palha, mesmo sendo vistos com estranheza, como algo diferente e burlesco, o desfile do dia de São Bartolomeu em Natal resistiu e continuou de alguma forma.

Nada sabemos quem eram seus participantes, apenas que eram pessoas “conhecidas de todos”. Mas acredito que provavelmente não pertenciam as classes privilegiadas da provinciana cidadela e não existe nada sobre a presença feminina no desfile.

O desfile foi esquecido e São Bartolomeu em Natal é lembrado atualmente na comunidade de Vila Paraíso, na Zona Norte, por uma capela que inclusive desabou devido a chuvas em julho de 2013. Não sei se esta pouca lembrança nos dias atuais seria devido ao desfile do dia de São Bartolomeu no século XIX, mais que festejar o santo, servir para que uma parte da população, de maneira alegre e irreverente, afrontasse indiretamente a elite e as instituições da cidade?

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Fonte – http://www.substantivoplural.com.br/os-cao-baiacu-na-vara-outros-blocos-tradicionais-tem-48h-para-se-habilitarem-participar-carnaval-de-natal/

Em tempo – Nada encontrei que ligasse o desfile do dia de São Bartolomeu, com seus demônios pintados de negro, ao moderno bloco carnavalesco “Os Cão”.

A não ser uma estranheza da elite de outrora e atual, com tudo que é espontaneamente criado pelo povo de Natal, que parece nunca acabar e onde se percebe muito preconceito.

NOTAS


Fontes – http://www.nominuto.com/noticias/cultura-e-lazer/os-cao-bloco-segue-a-tradicao-de-52-anos-nesta-terca-feira/136643/

http://www.vntonline.com.br/2015/02/bloco-os-cao-reune-centenas-de-folioes.html

[1] Quatro anos depois este mesmo tenente Mariz e Barros se tornaria um dos grandes heróis da Marinha do Brasil, quando no comando do encouraçado Tamandaré em plena Guerra do Paraguai, morreu no combate travado contra o forte Itapiru.

[2] O dia de São Bartolomeu é bastante festejado em Portugal, possuindo extensa tradição. Em vários locais deste país este dia é dedicado àquele que é conhecido como padroeiro das crianças, fazendo reviver tradições que se misturam com a fé e devoção. Na foz do rio Douro, no Porto, norte de Portugal, ainda hoje se acredita que o banho de mar tomado no dia 24 de Agosto serve para a cura e prevenção contra o mal, sendo todo malefício exorcizado pela ação da água tornada miraculosa nesse dia por parte de São Bartolomeu. Nesta região além do banho ritual existe a tradição do cortejo de São Bartolomeu, também conhecido como Cortejo do Traje de Papel. Trata-se de um desfile, com centenas de figurantes com trajes feitos de papel crepe de diversas cores, onde ao final os participantes se juntam para um banho coletivo.

[3] Pesquisando nos jornais antigos eu descobri que o evento de 1862 ocorreu no início da lua nova do mês de agosto, quando provavelmente as velhas ruas natalenses, que não tinha mesmo muita iluminação pública, estavam bem escuras. 

[4] Provavelmente a propagação da sentença final ocorria defronte a casa de alguém que recusava dar aos integrantes do cortejo algum alimento, ou uma bebida.

[5] Joaquim Inácio, o correspondente do “Jornal de Recife”, na mesma nota sobre o cortejo do dia de São Bartolomeu, descreveu que naquele agosto de 1862 a cólera não apareceria em Natal, que havia se extinguido na Penha, atual Canguaretama, mas grassava no engenho “Estrella”, próximo à comunidade de Flores.

O ATAQUE DOS CANGACEIROS DE LAMPIÃO A ANTÔNIO MARTINS – RN

4-Lampião gostava de mostrar-se um homeme inteligente perante as câmeras
Lampião

E o Exemplo De Uma Cidade Potiguar na Preservação de Um Dia Intenso

Autor – Rostand Medeiros

1927 foi um ano bem intenso na história do Rio Grande do Norte. Enquanto os sobrevoos de aeronaves vindas da Itália, Portugal, Estados Unidos e França faziam com que a capital potiguar marcasse presença em jornais de circulação mundial com, o nosso sertão era “visitado” pelo maior bandoleiro da história do Brasil, o cangaceiro pernambucano Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião.

Seu ataque às terras potiguares, junto com um numeroso e feroz bando de cangaceiros, aconteceu em junho daquele ano e tinha como principal objetivo a progressista cidade de Mossoró. Mas ao longo do trajeto algumas comunidades e muitas propriedades foram invadidas, ultrajadas, roubadas e saqueadas. Em um imemoriável frenesi de medo, terror, gritos, sangue e mortes.

O ataque de Lampião ao Rio Grande do Norte jamais foi esquecido nestas comunidades e em alguns destes locais existe uma luta muito interessante e louvável para preservar a memória daqueles dias estranhos e intensos.

Um destes locais é a cidade de Antônio Martins.

A Chegada dos Celerados

Em 2010 eu percorri pela primeira vez o caminho de Lampião no Rio Grande do Norte, passando pelos territórios de dezenove municípios potiguares, como parte de uma pesquisa para o SEBRAE-RN[1].

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Cidade de Antônio Martins

Quando estive em Antônio Martins eu conheci e recebi o apoio do escritor Chagas Cristóvão, que na época exercia o cargo de Secretário Municipal de Turismo e Cultura daquela cidade.

Competente pesquisador da história da sua comunidade, Cristóvão comentou que na época da invasão dos cangaceiros a atual cidade de Antônio Martins tinha a denominação de Boa Esperança. Era então uma pequena concentração de casas, onde viviam cerca de 350 a 400 habitantes, sendo parte do território da cidade serrana de Martins[2].

Em 11 de junho de 1927, dia da chegada do bando de cangaceiros a localidade, coincidiu com as celebrações da festa do padroeiro local, Santo Antônio.

De certa maneira esta situação de comemoração, novenas e alegria do povo do lugarejo foi muito útil para o grupo de celerados, pois pegou a todos na comunidade bastante desprevenidos, sendo a pequena urbe rapidamente ocupada. Aquela localidade era o primeiro núcleo urbano invadido pelo bando de cangaceiros de Lampião no Rio Grande do Norte.

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Justino Ferreira de Souza, fundador do povoado de Boa Esperança.

Naquele mesmo 11 de junho, o povo de Boa Esperança aguardava a chegada de uma banda de música da cidade paraibana de Catolé do Rocha. Mas por atraso da saída destes músicos da cidade fronteiriça, não ouve o encontro da banda musical com os cangaceiros. Para Cristóvão esta também é outra das razões para a população da cidade ter sido pega totalmente de surpresa quando da entrada do bando. Vale ressaltar que durante a entrada dos bandidos na vila, um deles fazia a função de corneteiro, tocando um destes instrumentos que havia sido capturado dos policiais batidos no combate da Caiçara[3].

Neste período o fundador do lugar e líder político era Justino Ferreira de Souza. Ele foi avisado da chegada do grupo, mas diante do fato consumado decidiu esperar e ver o que acontecia.

Logo o bando adentra a rua principal. Ao perceberem quem eram os cavaleiros o pânico se instalou. Pessoas correram para todo lado. Os cangaceiros atiravam para o alto, gritavam, urravam, batiam e galopavam invadindo e saqueando as casas do lugarejo.

Lampião estava particularmente raivoso. Entre as sandices cometidas em Boa Esperança temos o suplício de Vicente Teixeira de Lira.

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Aqui vemos Vicente Teixeira de Lira, que escapou por milagre de morrer nas garras de Lampião e dos seus homens.

O caso começou quando Lira deu uma resposta que o chefe cangaceiro pernambucano considerou insolente e foi “convocado” por Lampião. O humilde potiguar foi então obrigado a seguir à frente do bando, segurando na correia da alimária de Lampião. Em dado momento Lira escorregou no chão de terra e o cavalo do chefe dos bandidos quase lhe colocou no chão. Foi o que bastou para o pobre aldeão levar uma extensa cutilada de punhal. Para piorar sua situação, em frente à igreja de Santo Antônio, outros bandoleiros fizeram pouco caso de sua má sorte e o obrigaram a beber cachaça. Ele quase morreu.

Entre os locais de comércio que foram atacados estava a mercearia e a casa de Francisco Justino, onde os homens armados se abasteceram de vários gêneros e beberam muita cachaça. Com muita conversa, jeito, extremo tato, este pequeno negociante conseguiu que Lampião demovesse os seus seguidores de continuarem na sinistra depredação.

Alguns reféns anteriormente capturados pelos cangaceiros na passagem por propriedades que ficavam localizadas antes desta comunidade conseguiram fugir em meio a toda confusão reinante.

Na vila não faltaram ameaças, espancamentos e roubos de produtos em casas comerciais.

Uma Novaes no Rio Grande

Outro caso que ficou famoso foi no momento em que Sabino, o braço direito de Lampião na empreitada por terras potiguares, saqueava a loja e a residência de Augusto Nunes de Aquino. Sabino se preparava para levar a mulher do comerciante, Dona Rosina Novaes, como refém.

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Dona Rosina Novaes, mulher do comerciante Augusto Nunes de Aquino. O sobrenome desta pernambucana do Pajeú fez Lampião diminuir o ímpeto do ataque de seu bando a pequena vila.

No momento de ser colocada em um cavalo e seguir com a turba encourada, Dona Rosina desabafou com o perigoso Sabino, comentando detalhes de sua procedência e a origem do seu nome de família.  Sabino, ao escutar o relato da mulher, chamou o chefe na mesma hora.

Lampião descobriu, naquele longínquo lugarejo potiguar, estar diante de uma parenta de Elias e Emiliano Novaes, da cidade de Floresta, na época conhecida como Floresta do Navio, na mesma região do Pajeú. Emiliano Novaes era comerciante, membro de uma proeminente família, tido como amigo e coiteiro de Lampião. Consta que chegou a cavalgar de arma na mão ao lado de cangaceiros[4].

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Para muitos habitantes da região, a situação na vila de Boa Esperança durante a invasão do bando só não foi mais grave devido a Dona Rosina Novaes. Pelo fato dela possuir laços familiares com pessoas que Lampião respeitava e temia em Pernambuco, fez com que o ímpeto destrutivo do chefe em relação ao lugar fosse claramente abrandado. 

Lampião era muito valente, mas era antes de tudo inteligente. Evidentemente ele percebeu que quando retornasse para Pernambuco trazendo consigo a responsabilidade por algo negativo ocorrido a Dona Rosina Novaes, a temida e glorificada capacidade vingativa da família Novaes se faria sentir contra ele e seu bando. O melhor era deixar aquela mulher em paz.

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O comerciante Augusto Nunes de Aquino.

Diante da nova situação o chefe refreou os ímpetos violentos tanto dele, quanto do seu bando. Lampião chega ao ponto de se desculpar com Dona Rosina pelo ocorrido. Alegava desconhecer ser o lugar habitado por uma legítima representante do temido clã dos Novaes[5].

Desfeito o “mal entendido”, para Lampião o clima ficou mais tranquilo e ele chega a solicitar que Dona Rosina prepare algo para eles jantarem. Mais adiante, tranquilamente sentado na mesa, mais para se justificar diante dos seus atos e do seu bando, o cangaceiro comenta “o porquê de estar nesta vida” – Comenta aos presentes estar naquela vida bandida como fruto das perseguições que sofria, destilou seu ódio contra a polícia e outras razões.

Diante da esperada respeitabilidade que Lampião passou a demonstrar por Dona Rosina e seu marido Augusto Nunes de Aquino, este último assume o papel de protetor dos habitantes de Boa Esperança.

Por volta das sete e meia da noite, o chefe prepara seu bando e seguem viagem.

Cangaceiros Rezando na Igreja de Santo Antônio

Da época do ataque de Lampião a Boa Esperança, poucos são os locais que se encontram preservados atualmente.

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A primeira residência do atual município de Antônio Martins.

Um destes pontos invadidos pelos membros do bando de Lampião é uma interessante residência localizada na Rua Aureliano Saraiva, número 109. Construída em 1898, esta casa pertenceu a Justino Ferreira de Souza e na época servia como uma pousada para os viajantes que trafegavam na região. A casa se mantém original, sendo continuamente habitada e considerada a residência mais antiga e precursora da povoação de Boa Esperança.

Mário de Andrade e Luís da Câmara Cascudo no sertão, 1929
O potiguar Luís da Câmara Cascudo e o paulista Mário de Andrade em foto no sertão nordestino.

Ainda sobre este local, segundo Chagas Cristóvão, um ano e sete meses depois da passagem do bando pelo lugar, no dia 19 de fevereiro de 1929, ali chegava um carro transportando quatro homens que visitavam a região sertaneja. Entre estes estavam o folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo e o poeta e escritor paulista Mário de Andrade.

A passagem de um dos criadores do movimento modernista no Brasil pela Região Oeste Potiguar tinha como objetivo a observação dos costumes, das manifestações culturais e as características do povo do sertão nordestino. Mesmo passado quase dois anos do ataque de Lampião, chamou atenção do escritor paulista as marcas do medo da população de Boa Esperança diante da terrível “visita” de Lampião[6].

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Igreja de Santo Antônio.

Vizinho a esta antiga habitação se encontrava a igreja de Santo Antônio. Construída 1901, este pequeno templo religioso era no dia 11 de junho de 1927 o principal local de realização dos festejos relativo ao padroeiro local.

Até hoje nesta festa religiosa é tradicional a realização das chamadas “trezenas”, onde durante treze dias anteriores ao dia 13 de junho, a data consagrada a Santo Antônio, são realizadas missas, cantos de benditos, encontros e outras participações da comunidade neste templo católico.

Segundo Chagas Cristóvão havia algumas pessoas da comunidade reunidas no local quando os cangaceiros chegaram a Boa Esperança. Logo alguns cangaceiros ficaram diante do templo e, visivelmente embriagados, proibiram a saída dos fiéis do local. De dentro da igrejinha essas pessoas assistiram horrorizados os suplícios do jovem Vicente Lira, que apunhalado e sangrando abundantemente, era obrigado a engolir talagadas de cachaça.

Cristóvão comentou ainda que existe uma versão onde diante da igreja aberta, outros cangaceiros adentraram respeitosamente o local, se ajoelharam, rezaram, se benzeram e depois saíram sem perturbar os atônitos presentes[7]. 

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Velha casa do extinto sítio Alto da Ema, atualmente um bairro da cidade de Antônio Martins.

Na saída da zona urbana do atual município de Antônio Martins, temos a velha casa do sítio Alto da Ema, que então pertencia a um senhor conhecido como “Coqueiro” e hoje dá nome a um dos bairros da cidade. Neste ponto os comandados de Lampião procuraram adentrar residência assobradada, que se encontrava desocupado devido à fuga dos seus moradores. Eles utilizaram as coronhas dos seus fuzis na tentativa de derrubar a porta. Entretanto, fosse pela pressa em seguir adiante, ou pelo excesso de álcool, ou outra razão desconhecida, os cangaceiros não alcançaram seu intento e seguiram adiante no seu caminho de saque e terror. 

A Memória da Passagem de Lampião

Em 2007, durante a passagem dos oitenta anos do ataque de Lampião ao Rio Grande do Norte, a prefeitura local decidiu promover toda uma programação destinada a marcar este momento dentro da comunidade. Em uma bela praça de eventos localizada no centro da cidade foi fixada uma placa de bronze com a relação dos trinta e um habitantes da antiga vila de Boa Esperança que sofreram violências ao longo da passagem do bando.

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Placa comemorativa ao 80º aniversário da passagem de Lampião por Antônio Martins. Na placa de bronze estão inscritos os nomes de 31 pessoas que foram atacadas em 11 de junho de 1927.

Aos descendentes dos que foram atacados pelos cangaceiros, a Prefeitura Municipal de Antônio Martins outorgou uma insígnia honorífica, personalizada, no formato de uma pequena placa de acrílico, , alusiva aos fatos ocorridos. Esta condecoração foi entregue a alguns dos descendentes em praça pública, no dia 11 de junho de 2007.

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Insígnia entregue em 11 de junho de 2007, aos descendentes dos que estavam na povoação de Boa Esperança e sofreram com o ataque do bando de Lampião.

Igualmente nesta mesma data, passava pela cidade de Antônio Martins a cavalgada comemorativa aos 80 anos do ataque a Mossoró, onde foi repetido o mesmo ato simbólico ocorrido na zona rural de Marcelino Vieira, com o descerramento de outra placa comemorativa em relação à resistência ocorrida em Mossoró, quando da passagem do bando pelo Rio Grande do Norte.

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Placa da cavalgada dos 80 anos da resistência ao bando de Lampião em Mossoró, fixada em Antônio Martins.

Segundo Chagas Cristóvão a prefeitura de Antônio Martins desenvolveu um projeto visando a criação de um museu destinado a apresentar os principais aspectos da história municipal, onde seria inserido a história do ataque do bando de lampião aquela comunidade.

O museu estaria direcionado para um público local e regional, tendo como outros pontos focais a valorização das raízes locais e o desenvolvimento do turismo regional. Pessoalmente não tive mais informações se este museu foi inaugurado.

Mas louvo todas as iniciativas ali realizadas em relação a memória destes acontecimentos.

NOTAS


[1] Sobre este trabalho e o caminho de Lampião no Rio Grande do Norte veja – https://tokdehistoria.com.br/2015/04/11/pelos-caminhos-de-lampiao/

[2] O número da população de Boa Esperança na década de 1920 aqui apresentado é uma dedução feita a partir do texto existente sobre a história desta cidade existente no site http://www.wikipédia.org (https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B4nio_Martins), onde lemos que em 1920 havia “81 casas, com 327 moradores já estavam permanentes em Antônio Martins”. Esse número mostra que houve um aumento exponencial na população local, pois vinte e dois anos antes do ataque de Lampião a Boa Esperança, temos a informação que moravam neste lugar cerca de sessenta “fogos”, ou pessoas. Informação contida na mensagem do governador potiguar Augusto Tavares de Lyra, lida na Assembleia Legislativa em 1905 e publicada no ano seguinte, em um interessante detalhamento sobre o município de Martins, Ver “Mensagens lidas perante o Congresso Legislativo do Estado do Rio Grande do Norte”. Tipografia A República. Pág. 116, Natal-RN, 1906. Atualmente, utilizando as modernas rodovias BR-226 e RN-117, a distância entre Antônio Martins e Martins é de uns 35 quilômetros.

[3] Sobre este combate ver – https://tokdehistoria.com.br/2011/10/25/o-grande-fogo-da-caicara-inicio-da-resistencia-ao-bando-de-lampiao-no-rn/

[4] Um pouco sobre Emiliano Novaes, veja em https://tokdehistoria.com.br/2014/09/12/cangaceiros-atras-das-grades-fim-da-ilusao/

[5] Não é muito difícil na região do Oeste Potiguar encontrar inúmeras referências de famílias cujos antepassados eram provenientes do sertão do Pajeú, ou de outras áreas do sertão Pernambuco. Acreditamos que esse processo tem haver com o trânsito de pessoas e mercadorias, que seguiam principalmente em direção a Mossoró, em comboios de cargas transportados por mulas e jegues.

[6] O resultado desta empreitada sertaneja subsidiaria Mário de Andrade a escrever a obra “O turista aprendiz”.

[7] Durante todo nosso percurso pesquisando a passagem do bando de Lampião no Rio Grande do Norte em 2010 e em três outras viagens por este caminho em 2012, 2014 e 2015, esta foi a única informação que consegui sobre a presença de que alguns cangaceiros do bando teriam adentrado um templo católico com o intuito de rezar.

RAÍZES DO CANGAÇO – LIGEIRAS CONSIDERAÇÕES SOBRE AS POSSÍVEIS ORIGENS DO CANGAÇO

Fonte - http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Canga%C3%A7o+&ltr=c&id_perso=308
Fonte – http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Canga%C3%A7o+&ltr=c&id_perso=308

Paulo Nunes Batista (*)

A Editora Delta S. A – responsável pela publicação em português da Grande Enciclopédia Delta Larousse – contou em seu Conselho Consultivo, entre outras sumidades, com eminentes vultos do saber brasileiro, como: Manoel Diegues Júnior, professor de antropologia cultural da P.U.C.; diretor do Centro Latino Americano de Pesquisas Sociais; Paulo Marques Pires de Amorim, antropologista, ex-assessor técnico do Instituto de Ciências Sociais da U. F.R.J., em que serviu como auxiliar no departamento de antropologia. Como colaboradores especiais: Ariano Suassuna, escritor premiado e uma das maiores autoridades em temas nordestinos; Édison Carneiro, escritor e etnólogo baiano; Pedro Calmon, historiador, da ABL.
Na edição de 1970 da famosa enciclopédia, à pág. 1289, vol. 3, lemos: “cangaceiro s.m. Salteador, criminoso errante do Nordeste brasileiro. Isolados ou em grupo, os cangaceiros viveram perseguidos e perseguindo, em luta contra tropas policiais ou outros bandos.

Fonte - http://revistalingua.com.br/textos/63/artigo249015-1.asp
Fonte – http://revistalingua.com.br/textos/63/artigo249015-1.asp

-ENCICL. Motivos múltiplos concorreram para o aparecimento dos cangaceiros: problemas de ordem social, tais como fortes desigualdades da distribuição de bens e de desenvolvimento, marginalização funcional crônica dos operários rurais e também o uso de sicários pelos grandes proprietários rurais, vinganças pessoais ou familiares, messianismo carismático, fama irradiante dos grandes cangaceiros etc. Muitos jovens passaram a viver “debaixo do cangaço”, protegidos por políticos e senhores de terras, ocultos por coiteiros, que lhes davam informações sobre os movimentos dos macacos policiais. “Famosos cangaceiros foram Jesuíno Brilhante, Lampião e Cabeleira. O sertão sempre desculpou e compreendeu tais figuras, porque os tinha como justiceiros sociais.” (Grifamos).

Fonte - http://www.cangacoemfoco.jex.com.br/
Fonte – http://www.cangacoemfoco.jex.com.br/

A mesma obra define cangaço como sendo “conjunto de armas e objetos usados pelos cangaceiros; o gênero de vida desses bandoleiros” (p.seg.).

Dezenas de livros se publicaram sobre o assunto. Citemos apenas alguns dos mais relevantes: Heróis e bandidos (1917) e Almas de lama e de aço (1930), de Gustavo Barroso; Beatos e cangaceiros (1920), de Xavier de Oliveira; Lampião (1934), de Ranulfo Prata; Cangaceiros do Nordeste (1929), de Pedro Batista; Prestes e Lampião (1926), de Adauto Castelo Branco; Bandoleiros das caatingas (1940), de Melchíades da Rocha; Lampião: memórias de um oficial ex-comandante de forças volantes (1963), de Optato Gueiros; Cangaceiros (1959), de G. Augusto Lima; Capitão Virgulino Ferreira Lampião (1962) e Sinhô Pereira, o comandante de Lampião (1975), de Nertan Macedo; Cangaceiros e Fanáticos, (1963), de Rui Facó; Lampião e suas façanhas (1966), de Manuel Bezerra e Silva; O mundo estranho dos cangaceiros (1965), de Estácio de Lima; Antonio Silvino: capitão de trabuco (1971), de Mário Souto Maior; Fanáticos e Cangaceiros (1973), de Abelardo F. Montenegro; Fatos reais sobre o cangaço (1975), de Aldemar de Mendonça; Fatores do cangaço (1934), de Manuel Cândido; A derrocada do cangaço no Nordeste (1976), de Felipe Borges de Castro; Nordeste (1951), de Gilberto Freyre; Como dei cabo de Lampião (1983), de João Bezerra da Silva; Guerreiros do sol: o banditismo no Nordeste do Brasil (1985) e Quem foi Lampião (1933), de Frederico Pernambucano de Mello. Este último, um dos mais completos estudos sobre o cangaço já levados a efeito.

Fonte - www.onordeste.com
Fonte – http://www.onordeste.com

Cabeleira é cronologicamente o mais antigo cangaceiro cuja vida e façanhas motivaram livros (o romance “O Cabeleira”, de Franklin Távora, escritor cearense, é de 1876) e folhetos de cordel.

Há uma contradição de datas: Luís da Câmara Cascudo, em seu “Dicionário do Folclore Brasileiro” (INL, Rio, 1954, p. 133) dá como sendo 1776 o ano do enforcamento do Cabeleira, “no Largo das Cinco Pontas, no Recife, ante grande multidão”, e o chama de Joaquim Gomes, e não José Gomes como o faz Pernambucano de Mello.

Fonte - ozildoroseliafazendohistoriahotmail.blogspot.com
Fonte – ozildoroseliafazendohistoriahotmail.blogspot.com

A seguir vem Jesuíno Brilhante (1844-1879), norte-riograndense Robin Hood, “adorado pela população pobre, defensor dos fracos, dos anciãos oprimidos, das moças ultrajadas, das crianças agredidas”, “o cangaceiro gentil-homem, o bandoleiro romântico” que “morreu lutando em Santo Antônio, águas do riacho de Porcos, Brejo do Cruz, Paraíba, em fins de 1879.” (Op. Cit. 326). Motivou o romance Os Brilhantes (1895) de Rodolfo Teófilo (1853-1932). Diz Câmara Cascudo que “uma rixa de sua família com a família dos Limões, em Patu, valentões protegidos pelos políticos, tornou-o de pacato agricultor em chefe de bando invencível em 1871” (p. 326). Grifamos.

O cangaceiro Antônio Silvino
O cangaceiro Antônio Silvino

Antônio Silvino (Manuel Batista de Morais, 1875-1944), cognominado “o rei do cangaço, rifle de ouro, governador do sertão, de Pernambuco ao Ceará, “valente, atrevido, arrojado, com gestos generosos e humanos, foi ferido e preso no lugar Lagoa de Lajes” (28-11-1914), “cumpriu sentença na Penitenciária do Recife, sendo indultado pelo Governo Federal em 1937”. Faleceu em Campina Grande, em agosto de 1944. (Op. Cit. 52). Foi o cangaceiro mais famoso de seu tempo e o mais decantado na poesia popular. “Era branco, alto de 1.83m. Usava bigode e não sabia ler ou escrever”. (Pernambucano, 1993, 61).

Quando esteve no Rio em 1938, houve um encontro entre Antônio Silvino e Getúlio Vargas
Quando esteve no Rio em 1938, houve um encontro entre Antônio Silvino e Getúlio Vargas

O poeta popular Francisco das Chagas Baptista, meu pai (1882-1930), que, segundo alguns, era ainda parente de Antônio Silvino, publicou diversos folhetos de cordel de sua lavra sobre a vida e as façanhas de Silvino. No “Interrogatório de Antônio Silvino – Cognominado –o Leão do Norte” (Rio, s/d.) Chagas fala das “declarações ao Chefe de Polícia do Recife” feitas pelo bandoleiro, e, à pag. 4, põe estas sextilhas:

“Enquanto eu era pequeno/

aprendi a trabalhar, /

chegando aos 14 anos /

dediquei-me a vaquejar /

abracei aos vinte anos /

a profissão de matar.

Disse-me o chefe: –

 

Silvino /

diga-me por qual razão /

você ainda tão moço /

abraçou tal profissão? /

foi por um motivo justo /

ou foi por inclinação?


Não foi tanto por instinto, /

mas, sim, por uma vingança/

porque mataram meu pai /

minha única esperança /

e eu vingar a sua morte /

para mim era uma herança.

No ano noventa e seis /

meu pai foi assassinado /

pela família dos Ramos /

sendo sub-delegado /

um deles, o José ramos, /

já sendo nosso intrigado.

Para a punição do crime /

ninguém se apresentou; /

a justiça do lugar /

também não se interessou /

eu inda tenho em suspeita/

que ela ao crime auxiliou.

E eu vi a justiça /

mostrar-se de fora à parte /

murmurei com meus botões /

também eu hei de arrumar-te /

não quero código melhor /

do que seja o bacamarte. 


Eu chamei pela justiça /

esta não quis me escutar /

me vali do bacamarte /

vi este me auxiliar /

nele achei todas as penas /

que um código pode encerrar.

No bacamarte eu achei Leis que decidem questão /

que fazem melhor processo /

do que qualquer escrivão /

as balas eram os soldados /

com que eu fazia prisão.


Minha justiça era reta /

para qualquer creatura, /

sempre prendi os meus réus /

em casa muito segura, /

pois nunca se viu ninguém /

fugir duma sepultura”.
Sem maiores comentários. Na cadeia Antônio Silvino tornou-se evangélico (batista), lia também obras espíritas (era médium vidente etc) e, por seu bom comportamento, recebeu indulto do Presidente Vargas, que chegou a lhe dar emprego numa estrada de rodagem do Paraná, como apontador. (Gr. Enc. Delta Larousse, Rio, 1970, vol. 11, p. 6330).

Fonte - sebovermelhoedicoes.blogspot.com
Fonte – sebovermelhoedicoes.blogspot.com

Pedro Batista (meu Tio, 1890-1938), em seu livro Cangaceiros do Nordeste (Pb, 1929) conta a saga do cangaceiro Liberato, que vinha a ser nosso parente. Tudo começou quando Liberato, sendo primeiro suplente de delegado e ainda segundo Juiz Distrital na então Vila do Teixeira – Pb, aí por volta de 1859/60, teve de enfrentar as tropelias dos facínoras irmãos Guabirabas, protegidos pelos famigerados Dantas do Teixeira, denominados Os Terríveis, grandes latifundiários protetores de bandidos e que eram chefes do Partido Liberal, dirigidos pelo “Grande Capitão” e por sua irmã, a tarada Biluca, mandante de muitos crimes, a quem todos temiam e que, segundo a lenda, conservava em seu poder um rosário de orelhas humanas dos inimigos que mandava matar. Esses Dantas “coronéis” de baraço e cutelo, habitavam a chamada Vila dos Feras, porque, na realidade, não passavam de feras humanas.

Cidade de Teixeira, Paraíba - Fonte - www.cidade-brasil.com.br
Cidade de Teixeira, Paraíba – Fonte – http://www.cidade-brasil.com.br

Os bandidos Guabirabas, com as costas largas e quentes pelo prestígio dos fazendeiros Dantas, “faziam correrias pelas adjacências, infligindo aos pobres matutos um sem número de vexames e humilhações”. (Batista, 1929, 49). O velho Terrível jurara vingar-se de Liberato que, do Partido Conservador, se opusera aos Dantas nas últimas eleições. Demos a palavra ao escritor e historiador Pedro Batista: “Certo dia de Fevereiro, quando se realizava a feira semanal, foi a população sobressaltada com a presença de quatro facínoras armados de pistolas, bacamartes, facas do Pajeú, cingidos de cartucheiras, ameaçadores, cavalgando fogosos animais. Em carreiras desabridas e insultuosas, proferindo impropérios, detonando armas a esmo, os quatro homens, assenhorearam-se do terreno, e minutos após, blasonadores e vitoriosos, mesmo sem ter havido luta, espalhavam o terror…

“Dissolvida a feira, os pobres sertanejos buscam esconderijos, enquanto as autoridades recolhidas em suas casas, servem-se das armas de que podem dispor para, em caso de ataque próprio, vender caro a vida e a inviolabilidade do lar. Oculto, Liberato ouvia os insultos, os tiros e o seu nome proferido escarnecedoramente. A família o prende, e, mais que a família, acovarda-o no momento a falta de munição e de homens para ajudar”.

O Sertão paraibano do alto da Pedra do Tendó, na Serra de Teixeira - Foto de  Eduardo Vessoni - Fonte - oglobo.globo.com
O Sertão paraibano do alto da Pedra do Tendó, na Serra de Teixeira – Foto de Eduardo Vessoni – Fonte – oglobo.globo.com

“Os Guabirabas, entusiasmados com semelhante prova de fraqueza daquela população sobressaltada, redobram as práticas de misérias, invadem lares indefesos, depredam e arrasam tudo!… Ninguém lhes veio ao encontro, e eles depois de prolongarem pelo tempo que lhes aprouve aquelas cenas selvagens, decidem ir-se embora”. (p. 50/1)

E prossegue o historiador-cronista: “Abandonada a vila pelos bandidos foram aparecendo as autoridades para resolverem o que deviam fazer. Uns apoiaram Liberato, – que queria formar uma escolta e na noite daquele dia cercar o Jatobá e dispersar os criminosos se não os pudessem prender; e outros, entre estes o detentor do exercício de delegado – Delfino, – opinaram se despachasse um próprio para a capital, pedindo urgente uma força bem municiada para dar combate em regra”. (p. 52)

Aquele Delfino, “primeiro suplente de Juiz, que se constituíra pela brandura de caráter, competência e inteligência compenetração do cargo”, assinava-se Delphino Baptista de Mello e era meu parente. O narrador prossegue: “Dois dias depois, na sexta-feira, chegou à vila um moleque, trazendo um recado de Cyrino (um dos irmãos Guabirabas) para Liberato: – que no dia seguinte viria à feira, e ele ficasse avisado para não se desculpar” (p. 60) Delfino, a quem Liberato havia passado antes o cargo, não quis reassumi-lo. “Por volta de meio dia, chegou o cabra. Atrevido, cavalgando um fogoso quartau, em galope acintoso, o bandido contornou a feira, percorreu a povoação e foi blasonar e beber aguardente na primeira venda”. (p.62)

Antiga Cadeia Pública de Teixeira - Fonte - pt.db-city.com
Antiga Cadeia Pública de Teixeira – Fonte – pt.db-city.com

Liberato, então delegado, para não sacrificar os moradores da vila do Teixeira, resolveu ir prender Cyrino Guabiraba em seu regresso ao Jatobá, esperando-o com homens armados “num agudo cotovelo da estrada”. Mas, ao dar-lhe voz de prisão, o celerado reage disparando o bacamarte, indo o projetil atingir o ombro esquerdo de Joaquim Caboclo, “tipo franzino e ágil que servia de admiração e paradigma naquela redondeza”, um dos homens de Liberato. Cyrino visara-lhe o coração, mas Caboclo se desviou na hora exata, atirando com sua garrucha no ventre do malfeitor.

Outro homem, José do Carmo, fere Cyrino no rosto. O cavalo dispara, o bacamarteiro cai de garrucha engatilhada visando Moreira, que, desviando-se, dá-lhe o tiro de misericórdia, matando-o. O animal do homicida, com sangue deste nos arreios dirigiu-se ao valhacouto dos Guabirabas, levando aos seus irmãos o aviso do ocorrido. Antônio, João e José Guabiraba, com mais Jovino e Manoel Rodrigues, em 21 de abril de 1862 tomam de assalto o vilarejo, trucidam na entrada a Antônio Tavares, “humilde suplente de Juiz, um pobre roceiro esforçado, continuamente, para se fazer amigo de todos”, o qual, ferido de morte, “surpreso, arregalou os olhos nevoentos, caindo sobre um fardo de lã, sem forças”. Um dos monstros tentou sugar o sangue da vítima, lambendo os beiços. O padre Vicente, “um bom velhinho”, com a imagem de Jesus Crucificado nas mãos, implorou piedade aos sanguinários matadores. “Nesse instante, Delfino aparecia lá no alto da estrada, e, em vez de fugir, se apresentava, visto estar inocente”. Disparo de clavinote pegou-o no coração, prostrando-o a meio caminho. Os covardes caíram-lhe em cima com punhais e coices de armas. Abriram-lhe o peito e arrancando o coração, levantaram-no um troféu, na ponta dos punhais. “O padre retrocedeu e as feras continuaram na faina maldita. Não satisfeitos atacaram os frangalhos da carne humana a corda, e arrastando-os, voltaram para o centro da rua”. (Pp.72 segs.)

Fonte - www.overmundo.com.br
Fonte – http://www.overmundo.com.br

Liberato, sem forças suficientes para enfrentar os apadrinhados dos Dantas, e tudo assiste de longe. Perde o cargo e, perseguido pelos Terríveis, abraça o cangaço. Tempos depois, preso numa cilada, evade-se da cadeia. Depois cercado e de novo preso, levado para o cárcere na capital do estado, durante meses sofreu “diversos e pesados castigos, não muito dissemelhante aos infligidos, às vítimas, no sertão, pelos senhores feudais…” (p. 233).

Antes do mais famoso de todos os cangaceiros, Lampião, temos Sinhô Pereira, vulgo Sebastião Pereira da Silva, que, solidarizando-se com seu primo Luiz Padre, abraçou o cangaço forçado ela força da lei, de justiça nos sertões nordestinos.

Sempre as mesmas causas originadoras desse fenômeno sócio-econômico-cultural denominado cangaço: o sistema injusto, uma sociedade baseada no poder do mais forte, na prepotência dos senhores feudais, no predomínio do latifúndio, com seus “coronéis” mandando em tudo e em todos…

Fonte - pt.wikipedia.org
Fonte – pt.wikipedia.org

O cangaceiro é uma vítima do arbítrio dos chefes políticos, da ausência de segurança por parte das autoridades constituídas, do capitalismo feroz e desumano, que tem por bases a anticristã exploração do homem pelo homem, concentrando a riqueza e o poder em mãos de poucos, enquanto a maioria do povo vive na miséria. Falta de cultura, falta de equidade, falta de meios de sobrevivência digna, corrupção, protecionismo, compadrismo, filhotismo, proteção a bandidos, vendas de armas por policiais aos próprios cangaceiros, ferocidade e impunidade dos “macacos” (soldados) policiais, que, estes sim, cometiam as maiores atrocidades e covardias contra a população sertaneja indefesa, extorquindo dinheiro, estuprando mulheres, humilhando homens honestos e trabalhadores, sob o pretexto de combater o cangaço…

Muitos dos integrantes das chamadas forças volantes não passavam de bandidos fardados, pagos pelo povo para cometer crimes contra esse mesmo povo…

Diversos cangaceiros, condenados a penas de reclusão, provaram ser homens simples, honestos, respeitadores e laboriosos, a quem, em vez de trabalho decente, obrigaram a pegar em armas para não serem mortos pelos poderosos senhores feudais do Nordeste.

Conheci, pessoalmente, em Saco da Onça, município de Urandi, Bahia, em 1945/6, o ex-cangaceiro de Lampião, Criança, que ali vivia pacificamente, sem roubar, assaltar nem ofender a ninguém. Aliás, virara “autoridade”: o engenheiro-residente nomeara-o Guarda do DNEF, na 5a. Residência, e Criança era respeitado por todos. Baixinho, calado, de olhar firme e voz metálica, era dono de coragem indiscutível… De cangaceiro, passara a representante e defensor da lei!…

Anápolis, 18-2-1997

(*) Paulo Nunes Batista é poeta e escritor paraibano, radicado em Anápolis-GO.

Publicado originalmente em 20/03/2005 – http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=35638&cat=Artigos&vinda=S

1937 – O DIA EM QUE UM VIOLINISTA RUSSO E UM FORD V8 ESTIVERAM NO PALCO DO PRINCIPAL TEATRO DE NATAL

Harry Brounstein, gerente da Ford no Rio, no palco do Teatro Carlos Gomes, atual Teatro Alberto Maranhão, abrindo o recital ao lado de um Ford V 8.
Harry Brounstein, gerente da Ford no Rio de Janeiro, no palco do Teatro Carlos Gomes, atual Teatro Alberto Maranhão, abrindo o recital ao lado de um Ford V 8. CLIQUE NAS IMAGENS PARA AMPLIAR

Autor – Rostand Medeiros 

Dizem que Natal é uma cidade onde seu povo tem uma adoração intensa pelos veículos motorizados. Se observarmos nos dias atuais o número de carros de passeio bastante novos circulando pelas nossas atravancadas ruas, provavelmente deve ser verdade. Fala-se que por mês mais de 2.000 veículos novos, 0 km, são desovados nas congestionadas vias de circulação da capital potiguar.

Ainda se comenta que este gosto surgiu durante a Segunda Guerra Mundial, com a presença de tropas estadunidenses em nossas terras.

Teatro Carlos Gomes,no bairro da Ribeira
Teatro Carlos Gomes,no bairro da Ribeira

Existe a ideia que após o conflito, as tropas de Tio Sam despejaram nas nossas ruas potentes e reluzentes Lincons e Studebakers que não quiseram levar de volta para casa e isso ficou nas mentes dos natalenses. Até já tratei disso em nosso TOK DE HISTÓRIA (Ver em – https://tokdehistoria.com.br/2013/11/30/o-prazer-nosso-pelo-carro-novo-sao-os-militares-americanos-os-responsaveis-por-isso/ ).

Provavelmente a intensa adoração dos natalenses por veículos movidos a gasolina surgiu bem antes da Segunda Guerra e tudo aponta que se deveu muito mais a bem planejadas ações de propaganda desenvolvidas pelos fabricantes de veículos, do que uma pretensa ação das tropas americanas por aqui. 

Nova Forma de Propagandas 

Na segunda metade da década de 1930 os dois principais agentes que vendiam veículos em Natal eram a M. Martins & Cia., pela Ford, cujo um dos seus sócios era José Alves dos Santos e pela Chevrolet a empresa de Severino Alves Bila.

José Alves dos Santos, da M. Martins e Cia.
José Alves dos Santos, da M. Martins e Cia.

Como a Natal daquele tempo tinha pouco mais de 50.000 habitantes, onde praticamente toda elite se conhecia, é provável que os proprietários destas firmas tivessem amizade (ou quem sabe até parentesco pelo sobrenome comum). Mas nas páginas amareladas dos velhos periódicos temos uma verdadeira “guerra” de propagandas destes fabricantes de veículos sendo apresentada ao público natalense.

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Não é incomum encontrarmos anúncios de página inteira, que eram publicadas por semanas, com maravilhosos desenhos de novos e potentes veículos. E vale ressaltar que a propaganda de carros nos jornais era bem diferente das atuais. Enquanto hoje não faltam produções suntuosas para gerar fotos fantásticas, muita imagem trabalhada no computador, participação de modelos fenomenais e pouca informação prática (normalmente só umas letrinhas miudinhas no final da propaganda), naquelas priscas eras a coisa era muito mais informativa.

Mas em 1937 houve uma mudança nesta estratégia de propaganda que chamou muita atenção em Natal.

The Cherniavsky Trio 

Em fins de 1936 o experiente violinista Leo Cherniavsky estava realizando concertos em Nova York, no prestigiado Carnegie Hall, quando foi contratado pela Ford Motors Company para se apresentar no início de abril de 1937 em Fortaleza, Natal, Recife e Salvador. A ideia destes recitais era comemorar 25 milhões de veículos da marca Ford manufaturados.

Leo Cherniavsky teria durante suas apresentações na região a companhia do pianista pernambucano Alberto Figueiredo, do Conservatório de Recife. Já quem comandava o grupo era Harry Brounstein, da Associação Comercial do Rio de Janeiro, membro do Touring Club do Brasil e gerente da Ford no Rio.

Leo Cherniavsky nasceu em 1890, na grande comunidade judaica da cidade de Odessa, na época parte do Império Russo (atualmente pertencente à Ucrânia). Sua família possuía uma grande tradição musical e junto com seus irmãos Jan (piano) e Mischel (violoncelo) formaram um trio de jovens músicos e realizaram sua primeira apresentação em 1901, quando o mais jovem do grupo tinha apenas dez anos de idade.

O primeiro show fora da Rússia foi realizado três anos depois em Berlim, Alemanha, onde os garotos receberam críticas mistas. Ainda naquele ano, sob o patrocínio das abastardas famílias judaicas Rothchild e Sassoon, o trio fez sua estreia britânica no Aeolian Hall, em Londres, onde as opiniões dos críticos foram mais animadoras. Chegaram a realizar uma turnê por outros países da Europa com relativo sucesso e tiveram proveitosos encontros com personalidades musicais famosas e respeitadas da época (além de serem pessoas bem mais velhas que os três garotos) – incluindo o russo Misha Elman, o francês Eugène Ysaÿe, o tcheco David Popper e o húngaro Joseph Joachim.

Mischel, Jan e Leo, “The Cherniavsky Trio”.
Mischel, Jan e Leo, “The Cherniavsky Trio”.

Em 1905, diante das tensões contra os judeus em Odessa, que levou a realização de uma perseguição que resultou na morte de 400 pessoas, a família Cherniavsky se mudou para a Áustria e de lá os jovens seguiram para o Canadá, onde conseguiram a cidadania neste país. Depois começaram a atuar nos Estados Unidos, onde o grupo ficou conhecido como “The Cherniavsky Trio”.

Os jovens músicos ganharam experiência, desenvolveram um conjunto musical de primeira classe e se apresentaram em cinco continentes. Continuaram realizando apresentações e produzindo discos até 1934, quando cada um seguiu seu rumo. Assim Leo Cherniavsky chegou a Natal em abril de 1937. 

Um Gringo Tocar Rabeca 

O paquete “Pará” veio de Fortaleza trazendo a Caravana Ford para a Natal. Na capital cearense o músico estrangeiro e o pianista pernambucano se apresentaram no Teatro José de Alencar. Cherniavsky foi recebido no desembarque no cais da Tavares de Lira pelo maestro Valdemar de Almeida, diretor do Instituto de Música, Edgar Barbosa, então diretor da Imprensa Oficial, José Alves dos Santos, da M. Martins e Cia., Moyses Wanistain, representando a comunidade judaica que então existia em Natal, Carlos Lamas, Cônsul do Chile na cidade, além de Luís da Câmara Cascudo, Sérgio Severo e outros membros da comunidade natalense.

Propagando sobre o recita de Lei Cherniavsky  publicado em jornais natalenses.
Propagando sobre o recita de Lei Cherniavsky publicado em jornais natalenses.

Como era comum na época, apesar de existirem hotéis, algumas pessoas ilustres que visitavam Natal, principalmente estrangeiros, normalmente ficavam hospedados no palacete da rica comerciante Amélia Duarte Machado, a conhecida Viúva Machado. Com Leo Cherniavsky não foi diferente e ele estava ali acomodado junto com os outros membros da Caravana Ford.

O palco escolhido foi o melhor que Natal poderia oferecer – o Teatro Carlos Gomes, no bairro da Ribeira e atual Teatro Alberto Maranhão. Os jornais da época informam que desde o momento do anúncio do recital do violinista de Odessa, a elite local buscou avidamente a agência M. Martins e Cia. atrás dos 300 ingressos postos a disposição dos futuros compradores de carros novos.

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Certamente deve ter chamado atenção dos trabalhadores braçais do cais do porto, dos comerciários da Ribeira, dos que trabalhavam nos depósitos de algodão da Rua Chile, dos pescadores das Rocas e outras pessoas do povo, a intensa movimentação na Rua Frei Miguelinho, nº 133, sede da M. Martins e Cia. Eram muitas “pessoas gradas”, da mais fina flor da sociedade potiguar, com sobrenomes consagrados, agitados atrás de conseguirem um ingresso para ver “um gringo tocar rabeca”. 

Quem Não foi ao Recital Não Era Gente em Natal! 

E o tradicional teatro ficou lotado na noite de 2 de abril de 1937, uma sexta-feira. Natal, por não possuir uma rádio ativa na época, foi a única das capitais nordestinas que não transmitiu o recital pelas ondas do éter.

Leo Cherniavsky, Alberto Figueiredo e o Ford V 8, modelo Tudor sedam de luxo, de quatro portas no palco do principal teatro de Natal.
Leo Cherniavsky, Alberto Figueiredo e o Ford V 8, modelo Tudor sedam de luxo, de quatro portas no palco do principal teatro de Natal.

Uma situação interessante e peculiar ocorreu nesta apresentação – eu não sei como foi feito, mas as fotos aqui apresentadas (apesar da baixa qualidade) provam que, de alguma forma, os organizadores colocaram no palco do tradicional Carlos Gomes um veículo Ford V 8, modelo Tudor sedam de luxo, de quatro portas. Os músicos teriam de tocar ao lado da possante máquina e não foram registrados problemas no teatro. Mas eu duvido que hoje isso acontecesse novamente!

Quando foi exatamente as 21:00, quem subiu ao palco foi Harry Brounstein, seguido de várias personalidades locais com seus longos discursos, situação essa que nunca deixava de acontecer nestes eventos. Depois o violinista nascido em Odessa e o pianista pernambucano subiram no palco do Teatro Carlos Gomes e iniciaram a sessão musical.

Público natalense no recital de 2 de abril de 1937
Público natalense no recital de 2 de abril de 1937

Infelizmente os jornais da época aos quais tive acesso, tanto o A República de Natal, quanto o Diário de Pernambuco de Recife, nada informaram do que foi apresentado nos recitais apresentados no Teatro Alberto Maranhão e nem no principal teatro da capital pernambucana, o Santa Izabel.

Mas é inegável o evento foi um grande sucesso. Vamos encontrar varias referências sobre o recital de Leo Cherniavsky e de Alberto Figueiredo no jornal A República durante vários dias. Causou enorme impressão a versatilidade dos músicos, da participação da sociedade no evento e, evidentemente, da beleza do novo Ford V 8 no palco.

Foto de um modelo Ford V 8 de 1937 e preservado na Alemanha
Foto de um modelo Ford V 8 de 1937 e preservado na Alemanha

O burburinho foi tanto que parece até que quem não foi ao recital não era gente em Natal!

Pessoalmente nunca acreditei que esta dita “adoração por carros” seja uma exclusividade dos natalenses. Como o texto e as fotos apontam, certamente foram as ações de propaganda como as apresentadas em 2 de abril de 1937 que ajudaram a criar na mente da maioria dos brasileiros o gosto pelo carro.

E é um gosto bem estranho e um prazer bem esquisito. Já que até hoje a maioria dos brasileiros não se importa de pagar financiamentos exorbitantes e nem reclamam de impostos gigantescos que são cobrados por um bem que se desvaloriza em até 30% após sair da loja.

CANGACEIROS & CANGACEIRISMOS

Fonte - www.luciodiaenoite.com.br - CLIQUE NAS IMAGENS PARA AMPLIAR
Fonte – http://www.luciodiaenoite.com.br – CLIQUE NAS IMAGENS PARA AMPLIAR

O primeiro cangaceiro a assombrar o Nordeste foi o Cabeleira, nascido em Gloria do Goitá, no interior de Pernambuco, presumivelmente no ano de 1751, conforme o seu biografo, Luís da Câmara Cascudo. O Cabeleira morreu enforcado, no Largo das Cinco Pontas – em Recife – em 1776 – “A sua figura de homem belo, de cabeleira loura – escreveu José Lins do Rego – passaria a figura de ninar nos cantos das pretas velhas. – Seria um dos modelos para a figura de Aparício Vieira, protótipo dos bandidos do sertão brasileiro” (conforme a definição de Antônio da Cunha, no seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa), que o romancista paraibano levanta nos livros Pedra Bonita e Cangaceiro. José Lins mostra com força dramática, nos seus romances sertanejos, esse mundo “dos santos e dos cangaceiros, dos que matam e rezam com a mesma crueza e humanidade”.

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A figura de Jose Gomes já aparecera, muito romantizada, no livro de Franklin Távora O Cabeleira. O cangaceiro e seu bando aterrorizavam as populações, “estripando mulheres a punhal, incendiando casas, depredando tudo, espalhando a morte”, no dizer de Cascudo. O Cabeleira, como ocorria com Jesuíno Brilhante, Antônio Silvino e, claro, Lampião, o mais célebre e temível de todos os cangaceiros, cujo sobrenome chegou a adjetivar-se, como sinônimo e arquétipo – seria também personagem dos poetas populares e cordelistas. Silvio Romero registra seu nome em Cantos Populares do Brasil. Pereira da Costa trata dele no Folclore Pernambucano e Leonardo Mota escreveu um drama sobre suas façanhas, intitulado Cabeleira vem aí, cujo título se origina, certamente, dessas quadrinhas populares – citadas por José Lins e Cascudo, com algumas variações – hoje praticamente esquecidas na memória popular nordestina:

 

Fecha a porta gente

Cabeleira aí vem

Ele não vem só

Vem seu pai também.

 

Fecha a porta gente

Cabeleira aí vem

Vem matando menino

E velho também.

 

Fonte - http://www.onordeste.com/
Fonte – http://www.onordeste.com/

Cascudo o descreve como um tipo forte, alto, airoso, com extensa cabeleira anelada que lhe cobria a nuca, dizendo que madrugou nas tropelias e violências, guiado por seu pai, Joaquim Gomes, e em companhia do mameluco Teodósio. José Bernardo Fernandes Gama, nas Memórias Históricas da Província de Pernambuco, registrou as façanhas do Cabeleira, confundido o apelido que atribui ao pai do cangaceiro: fala de um celerado, a quem chamavam de Cabeleira, um filho deste (sic), e “um pardo, de nome Teodósio, ladrão mui astuto”, que aterrorizavam esta província com seus enormes crimes. Entretanto, como ocorreria com a maioria dos cangaceiros célebres, o Cabeleira encontrou simpatias populares. Cascudo explica: “Sua mocidade, beleza física, a graça de maneiras, as lágrimas de arrependimento, as evocações constantes a figura da mãe e aos conselhos, sua arte de tocar viola, horas e horas encantando os soldados (sic) e assistentes, foram modificando a impressão corrente, e o Cabeleira começou a encontrar defensores e mesmo simpatias”.

Mais ou menos nesta mesma linha José Lins do Rego escreve sobre José Gomes, o Cabeleira: “Apesar de toda crueldade, ainda chegou a impressionar a massa sobre a qual afligia tamanha servidão. Contava-se que morreu por amor. Apaixonado por uma linda moça, o seu coração ficou terno e não resistiu ao mágico poder da mulher, deixando-se enfeitiçar para morrer na forca”.

José Lins do Rego - Fonte - www.vacatussa.com
José Lins do Rego – Fonte – http://www.vacatussa.com

Um dos episódios sinistros do Cabeleira reporta que ele matou a tiros de bacamarte umas crianças que se haviam refugio com temor de seu bando em uma árvore, numa estrada de Vitória de Santo Antão, em Pernambuco (para alguns, local de nascimento do cangaceiro). Outra versão sustenta que a vítima foi um adulto, que, por estar defendendo-se com um galho de árvore, o cangaceiro compara a um grande macaco guariba – um guaribão -, daí a denominação de “macacos” para as volantes de soldados que se opunham aos cangaceiros e os enfrentavam nas caatingas nordestinas. Silvio Romero colocou em versos, que imitam o ritmo do cordel, o episódio de “guaribão”. Na peça fala o próprio Cabeleira, lembrando seus feitos mais heroicos:

 

Lá na minha terra

la em Sant’ão

encontrei um homem

feito um guaribão.

Botei o bacamarte,

Foi pá – pí no chão.

 

No ensaio Presença do Nordeste na Literatura Brasileira, José Lins do Rego aborda o tema do cangaço nordestino, assinalando que está intimamente ligado à história social do patriarcalismo, à vida de uma região dominada pelo mandonismo do senhor da terra e de homens, como se fossem barões de feudos.

José de Alencar - Fonte - www.seuhistory.com
José de Alencar – Fonte – http://www.seuhistory.com

Já em O Sertanejo, – livro que influenciou a obra, de Euclides da Cunha – José de Alencar retratava esses “barões sertanejos”, tão poderosos e autossuficientes nos tempos coloniais do Brasil, que “só nominalmente rendiam preito e homenagem ao rei de Portugal, seu senhor e suserano”. José Lins mostra, ainda em nosso século, “o chefe que continuava a mandar de baraço e cutelo, na família, nos aderentes e nos eleitores”; por isso, precisando muitas vezes de “uma força acima da lei, para impor-se a dominar sem limites”. Assim o chefe sertanejo cria um poder que nem o estado – pelo menos durante algum tempo – seria capaz de enfrentar, pois “o chefe era, no sertão, mais que o estado”.

Desenho de Ronald Guimarães - Fonte - http://marvel-nat.forumeiros.com/t186-trama-base-do-forum
Desenho de Ronald Guimarães – Fonte – http://marvel-nat.forumeiros.com/t186-trama-base-do-forum

Para firma-se de pé e impor sua lei – para “pré-firmasse suseranamente”, conforme as palavras de José Lins, ele próprio neto de um desses poderosos das terras nordestinas, conforme conta em livros como Menino de Engenho e Meus Verdes Anos – o chefe recorria aos seus “homens dispostos, aos cabras de olho virado, aos que matavam sem dor na consciência”. Assim, a função do cangaceiro, em certa medida, a de uma espécie de “gendarmeria às avessas”. Como, nessa inversão, o crime adquiria um poder corretivo (a lá Esquadrão da Morte de nosso passado recente e urbano), surgiram cangaceiros que, revoltando-se contra o senhor a cujas terras literalmente pertenciam, fizeram trabalhar por sua conta, tornando-se chefes de bandos e passando eles próprios a ditar as leis do sertão. É a estrutura social que determina o aparecimento do cangaceiro, conforme nos mostram em seus romances, um José Lins do Rego, mais recentemente, um Adonias Filho. 

FONTE – Jornal da Paraíba, Campina Grande-PB, 2 de fevereiro de 1983, pág. B-5 

Edilberto Coutinho, escritor e jornalista - Fonte - www.onordeste.com
Edilberto Coutinho, escritor e jornalista – Fonte – http://www.onordeste.com

AUTOR – JOSÉ EDILBERTO COUTINHO  – Nasceu em 28 de setembro de 1938, em Bananeiras, Paraíba. Advogado, jornalista, professor e escritor dedicado ao folclore nordestino. Diplomado pelo World Press Institute, escreveu nos principais jornais e revistas do Brasil e durante algum tempo, foi correspondente, na Europa, do Jornal do Brasil e da Revista Manchete e, nos Estados Unidos, dos Diários Associados (O Jornal e O Cruzeiro). Em 1970, transferiu-se, definitivamente, para o Rio de Janeiro. Pela atuação nos meios intelectuais e literários, conquistou vários prêmios, tanto no Brasil como no exterior, entre os quais, destacamos: “Ensaios de Jornalismo Literário e de Ficção”, conferido pela Academia Brasileira de Letras; “Crítica Literária”, da Associação Paulista de Críticos de Arte; “Estudos Brasileiros de Ficção”da Fundação Cultural de Brasília-Conselho Federal de Cultura; “Ensaio Biográfico”, da Associação Brasileira de Crítica Literária e o primeiro brasileiro a ganhar o prêmio “Casa de Las Americas”, de Havana, com o livro Maracanã, adeus: onze histórias de futebol (1980). Ingressou na Academia Paraibana de Letras, em 28/05/1982. Principais livros publicados: Onda boiadeira e outros contos (1954), Erotismo no romance brasileiro, anos 30 a 60 (1967), Rondon e a integração amazônica (1968), Um negro vai à forra (1977), Sangue na praça(1979), 1979; Criaturas de papel (1980), Erotismo no conto brasileiro (1980),Memória  demolida (1982), O jogo terminado (seleta de contos), (1983), A imaginação do real, (1983). Sua última publicação foi a obra póstuma: Bar Savoy. Faleceu em 1995. 

Fonte – http://www.tirodeletra.com.br/biografia/EdilbertoCoutinho.htm

LEMBRANÇAS DE ANNA MARIA CASCUDO BARRETO

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Recentemente estava viajando de férias com a minha família, bem distante do nosso Rio Grande do Norte, quando tomei conhecimento do falecimento da escritora Anna Maria Cascudo Barreto.

Para mim foi uma triste notícia.

No momento da passagem de amigos para o plano espiritual eu não sou bom em escrever palavras de conforto. Prefiro registrar as lembranças que tenho destas pessoas especiais.

Eu já admirava Anna muito antes de conhecê-la pessoalmente, principalmente através de seus escritos. Gostei imensamente de um texto publicado em uma revista onde ela descrevia emocionada o amor e a admiração que tinha pelo seu pai Luís da Câmara Cascudo. Particularmente neste texto me chamou atenção a descrição que ela fez de visitas que realizou a terreiros de candomblé junto com seu pai, quando o Mestre Cascudo desenvolvia pesquisas para seus livros. Ela contou com singular clareza como Câmara Cascudo se entregava com abnegação ao seu trabalho e como era respeitado pelos Mestres da cultura popular.

Na época da Fundação Rampa, junto com Frederico Nicolau e Anna Maria Cascudo
Na época da Fundação Rampa, junto com Frederico Nicolau e Anna Maria Cascudo

Nós conhecemos em 2008, na época em que atuava na Fundação Rampa desenvolvendo em parceria com Frederico Nicolau o livro “Os Cavaleiros dos céus – A saga do voo de Ferrarin e Del Prete”. Respeitosamente a chamava de “Dona Anna Maria”, mas ela foi logo simplificando tudo e passei a chamá-la apenas de Anna.

Ocorreram entre nós memoráveis encontros, sempre regados a muita conversa sobre a história da aviação potiguar e do passado da nossa terra. Diante da ansiedade do lançamento do meu primeiro trabalho, me chamou atenção a sua simplicidade, o seu desprendimento em ajudar-nos, sua paciência e a sua extrema boa vontade em ensinar.

Um dia ela perguntou a mim e a Frederico se poderia escrever o prefácio do nosso livro. Daí surgiu um maravilhoso texto intitulado “A invenção do Azul”. Aquele gesto foi algo que jamais esquecerei.

Anna Maria Cascudo e seu marido Camilo Barreto
Anna Maria Cascudo e seu marido Camilo Barreto

Recordo-me com alegria de uma viagem que realizamos a Recife, a convite do brigadeiro Telles Ribeiro, então comandante do II Comando Aéreo (II COMAR). Naquela ocasião tive a oportunidade de conhecer o seu marido, o engenheiro Camilo de Freitas Barreto, uma pessoa extremamente espirituosa e alegre.

Na sequência deixei a Fundação Rampa e segui meu próprio rumo. Fui para a cidade de São Miguel, na região Oeste Potiguar, onde realizei a biografia de João Alves de Lima, fundador do grupo de torrefação de café Santa Clara/3 Corações. Coincidentemente foi nesta mesma região, na noite de 21 de dezembro de 1894, que Francisco de Oliveira Cascudo, avô de Anna, então alferes do Batalhão de Segurança do Corpo Policial, combateu e matou o terrível cangaceiro Moita Brava. Neste período ela estava muito empolgada realizando a biografia de seu avô e procurei ajudá-la no que foi possível com dados históricos coletados em São Miguel. Tempos depois foi lançado o livro “Coronel Cascudo – O Herói Oculto”.

Anna Maria junto aos autores de “Os Cavaleiros dos céus - A saga do voo de Ferrarin e Del Prete”, no lançamento na Livraria Saraiva, Natal.
Anna Maria junto aos autores de “Os Cavaleiros dos céus – A saga do voo de Ferrarin e Del Prete”, no lançamento na Livraria Saraiva, Natal.

Nesta troca de informações estive em várias ocasiões na sua casa, onde sempre fui extremamente bem recebido por esta mulher que possuía no mesmo patamar classe e simplicidade.

Continuei minha trajetória, mas sempre recordando com enorme satisfação esta amiga tão inteligente, que me presenteou com maravilhosos diálogos sobre seu pai, sobre o passado da nossa terra e da nossa gente.

Anna me disse uma vez para jamais deixar de ler, pois a falta da leitura “atrofiava a mente”. Procuro seguir este seu ensinamento religiosamente, todo santo dia.

Desejo a todos seus filhos e netos conforto nesta hora de tristeza.