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LAMPEÃO É BALEADO NA FAZENDA TIGRE

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Foto colorizada de cangaceiros. Realizada a partir de um original em preto e branco, é uma arte do professor Rubens Antônio, que realiza um primoroso trabalho nesta área.

Por Sálvio Siqueira

É sabido por todos que estudam o tema cangaço, fase lampiônica, que o mesmo sempre procurava andar a pé e próximo a alguma elevação natural para, se preciso fosse, subir e ficar em posição que lhe desse vantagem sobre seus inimigos, assim como ser mais fácil apagar os vestígios de sua passada, pois os mesmos andavam em fila indiana.

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Vaqueiros do sertão do Pajeú – Foto Rostand Medeiros

Porém, em certos planos idealizados por ele, quando tinha, por algum motivo, se locomover com maior rapidez, usava animais como montaria. Temos de lembrar como era o sertão nordestino naqueles tempos, sem quase estradas de rodagem, e quando havia, era ligando uma cidade a outra, nunca uma sítio ou uma fazenda a outra, e, em muito lugares, só havia mesmo uma vereda, trilha por onde muitos da região passavam para fazerem a viagem mais rápida.

Lampião, na segunda metade do ano de 1926, com mais de uma centena de homens, todos montados em cavalos, burros e jumentos, entram na região do Pajeú das Flores com uma meta planejada. Antes da execução das suas missões, após vários estudos sobre como ocorreram, notamos que ele assim procedia, o chefe mor dos cangaceiros, além de seu principal ‘alvo’, conhecedor como era do terreno, sempre tentou fazer uma espécie de ‘arrastão’, para melhor se sair financeiramente, já que tinha que esconder-se e deixar a poeira baixar antes de praticar nova incursão.

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Sempre de olho, mesmo tendo um só, via mais que os dois dos outros, ele calculava tudo que pudesse dar errado. Estudava as vias de escape assim como as vias por onde poderiam surgir inimigos. Sempre mantinha alguns mais informados do que os restantes, e esses, escolhidos a dedos, tinham que o defender até mesmo se alguém dentre eles quisesse eliminá-lo, o eu poderia acontecer.

Como sempre, Virgolino usa seus colaboradores para suas ações. Dessa vez ele chega com seu bando completo na fazenda Monte Sombrio. Propriedade do seu amigo Xandinho, Alexandre Gomes de Sá. Tem uma pequena prosa com ele e parte em direção ao destino escolhido. Antes, porém, chama um dos cangaceiros  de confiança, dessa feita foi o cangaceiro Moita Braba, passa algumas ordem e deixa com ele, alguns cabras da cabroeira, afim de, se ocorresse algum imprevisto, o mesmo deveria levar os homens e atacar o inimigo pela retaguarda.

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Lampião seguia em direção a fazenda Tigre, sendo alto sustentável, de propriedade da viúva Santinha Gomes de Sá, conhecida em toda a região por “Santinha do Tigre”. Mulher forte, que ao perde o marido, não esmoreceu e tomou as rédeas da administração da grande fazenda.

Mesmo tomando todas as precações possíveis, Lampião e sua horda não passam despercebidos. Um dos moradores da fazendo, estava cuidando da lida em algum recanto da propriedade e avista aquele ‘exército’ de cangaceiros rumando na direção da sede da fazenda. Sabendo onde se encontrava, ele encurta o caminho, pega um e chega muito antes, e dá à notícia a patroa. Essa fica preocupada, está apenas com um de seus filhos em casa, e, é mesmo pensando nele, que a preocupação aumenta.  Ela então ordena que Miguel, seu filho, vá para a casa, fazenda, dos vizinhos e deixa-se que ela toparia o “Rei dos Cangaceiros”. Pois bem, em vez de seguir as ordens da mãe, ele faz que vai, da uma volta e escolhe um local alto e com mato, esconde-se e fica a observar o que aconteceria.

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O tempo passa, mas para aquela senhora, parece estar parado. Muitos pensamentos vinham e iam, iam e vinham, tornando angustiante aquela situação. Por fim, já quando o sol inclemente não deixa que plantas e objetos façam sombra, surge no terreiro da sua casa um bando de terríveis cangaceiros. A nata dos mais falados cangaceiros estavam diante dela, tais como Esperança, Sabino Gomes, Corisco, Sabiá, Jararaca, Luiz Pedro, chá Preto, Pai Véio e mais uma ruma deles, além, é claro, do mais temido, Virgolino Ferreira, o Lampião.

Um cavaleiro cutuca as esporas na barriga da montaria, se adianta dos outros e se apresenta. Era Lampião. Após se apresentar, o ‘Capitão’ diz:

“ “- Dona Santinha, quero uma coisa da senhora.”

“- Diga, pois não, o que é que o senhor quer?” (respondeu perguntando a viúva)

“- Eu quero um arrancho aqui, quero descansar meu pessoal, botar abaixo aqui, demorar, fazer almoço e passar o resto do dia.” (esclarece o chefe cangaceiro)

“- Tudo bem, não tem problema nenhum. A casa tá às ordens, passe  o tempo que você quiser. O cercado taí, bote os cavalos na roça, tem legumes nos vasos pra fazer almoço, tudo bem, mas eu quero garantia pra minha casa e pra meu povo.” (diz corajosamente a dona da fazenda)

“- Num se preocupe, Dona Santinha, que aqui num se bole com ninguém. Tá garantido, aqui ninguém mexe com a senhora, pode ficar despreocupada.” (termina por dizer o “Rei Vesgo”) (“AS CRUZES DO CANGAÇO – Os fatos e personagens de Floresta – PE” –  SÁ, Marcos Antônio de (Marcos de Carmelita) e FERRAZ, Cristiano Luiz Feitosa (Cristiano Ferraz). 1ª Edição. Floresta, 2016)

A situação nos faz dizer e fazer determinadas coisas, que nós mesmos, depois que passa o momento, não acreditamos. Creio que foi o passou pela mente daquela senhora. Em seguida ela passa a dar ordens para as mulheres da ‘casa’ cuidarem em aprontar comida para todo o bando. Satisfeito com aquela receptividade, Lampião e seu ‘Estado Maior’, na ocasião, Antônio seu irmão, Sabino Gomes, Luiz Pedro e outros, ficam arranchados na própria sede, os demais vão se acomodando aonde achavam melhor.

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Por coincidência, ou ironia do destino, uma volante sob o comando do cabo Domingos Cururu, Domingos de Souza, estava dando uma batida próximo àquela região por ordens do Capitão Antônio Muniz de Farias, e a mesma encontrava-se nas terras da fazenda Laje, propriedade de um dos filhos de Dona Santinha, conhecido por Yoyô do Tigre, Sério Corrêa,  não distando mais que 1/5 de quilômetro da sede onde se encontravam os cangaceiros. Como a fazenda Tigre era muito extensa, definiu-se, acreditamos que pela Matriarca, que uma faixa de terra passava a ‘pertencer’ ao filho. A volante era formada pelo comandante, dois Aspeçadas e trinta soldados. A tropa estando acampada no riacho que leva o mesmo nome da fazenda de Yoyô, e estando tão próxima a sede, dois homens da volante são incumbidos de irem até a casa e se abastecerem com água e, ao mesmo tempo, tentar saber de alguma informação sobre cangaceiros. Era de praxe, todo volante andar com cuidado aos sinais deixados no solo árido da caatinga. Assim, os dois homens seguem, mas em silencio e em busca de algum vestígio quando de repente notam a movimentação dos bandidos pra lá e pra cá no terreiro da casa sede. Abaixam-se, e retornam para junto do restante da tropa, relatando em seguida o que notaram ao comandante, o qual traça um plano e ordena que avancem cautelosamente formando um semicírculo em direção a casa grande.

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Lampião parece se sentir em casa. Tranquilo, abre um dos bornais, retira alguns papéis, senta-se numa cadeira da mesa e começa a rabiscar alguma coisa nos ditos papéis. Tudo isso é meticulosamente observado pela dona da fazenda. Com certeza o que escrevia o chefe cangaceiro seria cartas, ou bilhetes, extorsões endereçadas (os) aos homens que tinham dinheiro na região. De repente, ele estanca com o que está fazendo, levanta-se e vai em direção aporta da sala. Retorna e, de repente, solta a goela no mundo dando o alarma aos seus homens que estavam cercados pelos ‘macacos’.

A partir desse momento, tendo perdido o fator surpresa, pois não estavam totalmente posicionados, os soldados procuram responder os tiros que vinham de várias direções onde se encontravam os cabras de Lampião. Lampião, dentro da casa, escolhe uma janela e começa a manda bala dali. O interessante é que não dando tempo de cercar totalmente a casa sede, a coluna do cabo Domingos Cururu, fica exclusivamente diante da frente, com isso, a parte de trás, fica totalmente sem ter ataque, no entanto, alguns cangaceiros que lá estavam, danam bala para o alto com a nítida intenção de afugentarem a tropa.

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Trabalho de colorização de Rubens Antônio.

O tempo se fecha e o tiroteio se acirra a cada minuto. Dona Santinha e as outras mulheres procuram a todo custo um local para se protegerem. Notando a agonia delas, Lampião grita vendo que elas adentravam em um dos quartos da casa:

“- Dona Santinha fique ai e num se preocupe que aqui ninguém bole cum a senhora.” (Ob. Ct.)

Escutando o barulho dos disparos, moita Brava grita para seus homens e, junto ao dono da fazenda, seguem para tentarem pegar a volante pela retaguarda como previra seu chefe.

Um dos soldados no meio ao tiroteio, nota que um dos cangaceiros não muda de posição. Atira e depois se abaixa. Tornando a atirar e repetindo  aquele movimento. Espera um instante e faz fogo. Nota quando o cabra tomba e desaparece.

Lampião não muda de lugar e, atirando feito um alucinado, dá, de quando em vez ordens aos seus cabras incentivando-os a briga. Só saindo da linha de tiro na janela, quando se faz necessário recarregar seu fuzil. De repente, ao recarregar sua arma, ergue-se e sente uma dor horrível na altura do peito, do lado direto do tórax. A força do projétil é imensa e o atira no chão da casa.

A bala vinda do fuzil do soldado acerta o ‘batente’ da janela, perde um pouco sua velocidade, desvia e atingi o “Rei dos Cangaceiros”.

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Lampião está estendido no chão da casa sede da fazenda Tigre e seu irmão corre para tentar socorre-lo. O ferimento parece ser grave e Virgolino começa a perder bastante sangue. Nesse momento, aqueles que estavam dentro da casa se apavoram um pouco pensando seu chefe estar morrendo. O “Rei Vesgo”, devido a grande perda de sangue, começa a ficar pálido e perde os sentidos deixando mais apavorados ainda seu Estado Maior.

“(…) Se por acaso Lampião morresse ali, Antônio sabia que tudo acabaria. Sem o comando, a astúcia e a genialidade de Virgulino, além do seu conhecimento com os poderosos Chefes Políticos e Coronéis do Sertão, seria o começo do fim (…).” (Ob. Ct.)

Os homens apressam-se a pegarem bastante panos e envolveram o corpo do chefe para que, além de aquecê-lo, não permitisse que o sangue caísse no piso da casa deixando a prova que alguém teria sido alvejado dentro dela.

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A FOTO DE ANTÔNIO FERREIRA – O CANGACEIRO ESPERANÇA

Moita Brava chega já atirando e o amigo de Lampião, Xandinho, mostra-se um combate arrojado, conseguindo chegar a casa e entrar nela. Vai direto para onde se encontra seu amigo desmaiado e se agacha junto dele. Lampião vai recobrando os sentidos e, já com seu cérebro em pleno funcionamento, pedem ao amigo para retira-lo daquela arapuca, principalmente por ele conhecer bem a região. Em seguida, diz a seu irmão para tomar as rédeas do grupo, saltar para fora da casa e apertasse o tiroteio até colocar a tropa em fuga. Para que ele pudesse ser levado dali.

Desse momento em diante a cangaceirama parece ter ingerido alguma droga, pois ficaram como que alucinados e o fogo aumentou consideravelmente. Xandinho salta para fora de casa e se mostra um dos mais valentes homens que esse sertão já pisou. Parecia que ele iria topar sozinho toda tropa atacante. Por fim, sentido o desesperado ataque dos homens de Lampião, os militares resolvem recuar. Lascam os pés no meio da mata e somem na caatinga.

Lampião chama a dona da fazenda e lhe faz um pedido. Que ela não comentasse com ninguém o ferimento que sofrera, pois se assim procedesse, ele voltaria e mataria todos que pudesse. Xandinho chega perto do amigo e pergunta para onde ele que ser levado. Lampião diz querer ir para a fazenda Caraíbas, onde pretendia restabelecer-se.

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Formando duas filas com os animais, os homens de Lampião o colocam-no no meio. Assim ele estaria protegido se algum ataque ocorresse e ninguém o veria naquelas condições. Xandinho leva o chefe mor do cangaço, o cangaceiro Lampião por entre os tabuleiros, serras e baixios do Pajeú das Flores… Até chegarem aos limites da fazenda pretendida.

Fonte/foto “AS CRUZES DO CANGAÇO – Os fatos e personagens de Floresta – PE” –  SÁ, Marcos Antônio de (Marcos de Carmelita) e FERRAZ, Cristiano Luiz Feitosa (Cristiano Ferraz). 1ª Edição. Floresta, 2016

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MOSSORÓ EXPULSOU O BANDO DE LAMPIÃO A BALA – DISSE NÃO À EXTORSÃO DO CANGACEIRO – UM GRANDE FATO NA HISTÓRIA DO NORDESTE – FATOS E FOTOS!

 

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Mossoró nos dias atuais – Em destaque a Catedral Diocesana de Santa Luzia
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Igreja São Vicente de Paula – Construída por retirantes na Seca de 1915 Uma das trincheiras para impedir que Lampião invadisse Mossoró

Dia 13 de junho de  1927, após dizer não a Lampião, que cobrou 400 contos de reis (em moeda da época 400  milhões de reis – atualmente uns 20 milhões de reais) para não invadir a cidade, começava um tiroteio entre moradores da cidade e os cangaceiros, que se dividiram em 03, forçando a cidade a levantar várias trincheiras, sendo as principais: a  Estação Ferroviária, hoje uma casa de cultura; a sede da prefeitura, hoje Palácio da Resistência e a trincheira no Campanário da Capela de São Vicente de Paula, que Lampião denominou de “ Igreja da Bunda Redonda” .

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Igreja São Vicente de Paula – Construída por retirantes na Seca de 1915 Marcas de bala no campanário = onde ficaram mossoroenses

Do Jornal o Mossoroense sobre a história da Igreja:

“Aquele templo é uma dádiva de suor, sangue e lágrimas dos retirantes de 1915. Merece um poema à memória de um êxodo forçado”. E o próprio professor Barreto faria esse poema, quando apelava: 

“Mossoroenses, quando passardes diante da Igreja de São Vicente de Paula, prestai o vosso culto, não só ao orago do templo, como aos seus construtores, quase todos desaparecidos já, porém, ainda mais rendei o vosso preito àqueles humildes grandes, que fabricaram, de graça, o material para o citado templo”.

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Igreja São Vicente de Paula – Construída por retirantes na Seca de 1915 Marcas de balas no campanário – onde ficou a resistência de Mossoró

Findando com a expulsão dos cangaceiros, a morte de alguns deles e a prisão do temível Jararaca, enterrado vivo no cemitério da cidade, após cavar sua própria cova. O interessante é que hoje é visto como santo pelo povo, devido a crueldade com que foi morto. Recebendo o seu túmulo visita de milhares de pessoas em dias de finado e ao longo de todo ano. Na verdade mais prestigiado que o túmulo de muitos políticos famosos nacionalmente, enterrados no mesmo cemitério e ao longo do ano utilizado pelos gatos e outros animais como abrigos. Mostrando que nem sempre o séquito que em vida rodeia os poderosos permanece uma vez morto. Ironicamente ao contrário do cangaceiro.

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Igreja São Vicente de Paula – Construída por retirantes na Seca de 1915 Marcas de balas no campanário = onde ficaram mossoroenses

Mossoró, depois de Natal, é a maior cidade do Rio Grande do Norte. Tem  quase 300.000 habitantes e uma economia poderosa, baseada sobretudo no petróleo e na produção de sal marinho. Uma das grandes e poderosas cidades da Região Nordeste. A origem do nome Mossoró está ligada  ao rio, à beira do qual floresceu, Rio Mossoró, nascido na chapada do Apodi, que rasga a terra com vigor, criando seu leito, rompendo-a, por isso tendo o nome ligado à ruptura, que em Tupi Guarani é Mossoró. O que rompe, o que rasga poderosamente. 

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Placa de homenagem aos heróis que expulsaram Lampião de Mossoró em 13/06/1927

Num lugar assim, Lampião deveria ter pensado duas vezes antes de tentar invadir e ser expulso de forma humilhante, assim historicamente a cidade ligou seu nome ao famoso personagem Virgulino Ferreira da Silva, Lampião, a exemplo de Juazeiro do Norte, que jamais ousou invadir, pois temia Padre Cícero com seu poder religioso e político. Bom destacar também que Mossoró foi a primeira cidade do Rio Grande do Norte a libertar seus escravos, a exemplo de Redenção no Estado do Ceará.

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Placa de homenagem aos heróis que expulsaram Lampião de Mossoró em 13/06/1927

Anualmente, em frente  à igreja que funcionou como trincheira é encenado um musical chamado: CHUVA DE BALA NO PAÍS DE MOSSORÓ, que remonta todo o fato histórico e mantém viva a memória. 

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Prefeitura de Mossoró – Palácio da Resistência – uma das Principais Trincheiras

O cordelista Zé Lacerda, no Cordel: JARARACA – O CANGACEIRO ARREPENDIDO.  

(link: http://www.cordelnarua.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=2765774  ) falou assim de Jararaca:

Já falei da Jararaca

Num cordel anterior

Disse que esse cangaceiro

Em santo se transformou

Sua vida e desacato

Mas não expliquei o fato

Que o povo o beatificou.

 

A injustiça o transformou

Num terrível cangaceiro

Aliou-se a Lampião

Se tornando um desordeiro

Os cantos que ele passou

E os crimes que praticou

Contei no cordel primeiro

 

Naquele grande entrevero

Que Massilom projetou

De assaltarem Mossoró

Jararaca se animou

Afoito, sempre na frente,

Mas a coisa ficou quente

Pois Mossoró revidou. 

Abaixo fotos do Memorial ao Cangaço e à Resistência:

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Monumento ao Cangaço e à Resistência de Mossoró
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Placa com fotos dos heróis da Resistência de Mossoró Único caso em que Lampião foi derrotado numa invasão MEMORIAL DO CANGAÇO E DA RESISTÊNCIA
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Aviso de possível invasão a Mossoró – cidade já rica em 1927 MEMORIAL DO CANGAÇO E DA RESISTÊNCIA
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Mossoroense capturado por Lampião manda aviso que Mossoró Deve pagar o resgate de 400 contos de reis O equivalente a 400 milhões de reis da época MEMORIAL DO CANGAÇO E DA RESISTÊNCIA
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Bilhete do Próprio Lampião ao prefeito de Mossoró Ameaçador – Foi invadir e houve o conflito e bateu em retirada
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MEMORIAL DO CANGAÇO E DA RESISTÊNCIA Paineis de Cangaceiros

Um mistério fica no ar: POR QUE O SANTIFICADO É UM CANGACEIRO E NÃO UM DOS RESISTENTES? POR  QUE NÃO SANTIFICARAM O PREFEITO DE MOSSORÓ QUE LIDEROU A RESISTÊNCIA?  POR QUE AS FOTOS DOS HERÓIS DA RESISTÊNCIA SÃO TÃO PEQUENAS E A DOS CANGACEIROS PAINEIS ENORMES? PARECE QUE O POVO DE MOSSORÓ NÃO SE IDENTIFICOU MUITO COM OS HERÓIS DA RESISTÊNCIA! Que interesses realmente defenderam??? De toda forma foram bravos sim! Com a palavra os historiadores.  Abaixo fotos do túmulo do Cangaceiro Jararaca, ou melhor São Jararaca:

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Foto do Túmulo do cangaceiro Jararaca Santificado pelo Povo – Enterrado Vivo
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Foto do Túmulo do cangaceiro Jararaca Santificado pelo Povo – Enterrado Vivo Túmulo mais visitado em dia de finados e ao longo do ano inteiro
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Foto do Túmulo do cangaceiro Jararaca Santificado pelo Povo – Enterrado Vivo Túmulo mais visitado em dia de finados e ao longo do ano inteiro

OBRE A FAMOSA SANTIDADE DO JARARACA DIZ A MÍDIA, que é fato: 

O jornal Gazeta do Oeste em 12 de junho de 1994 publicou uma entrevista com o bioquímico, e hoje Assessor de Comunicação da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), Paulo Medeiros Gastão, onde o Jornal perguntava sobre o fato da devoção hodierna à Jararaca quando muitas pessoas acham que ele obra milagres e a visão do pesquisador, respondeu: “A história do milagre se confunde muito com o misticismo, com a conduta cultural de um povo. Jararaca, apenas foi consagrado, por conta de sua bravura. O povo sempre busca o menor para enaltecê-lo. Nós sentimos isso no próprio cemitério, quando o túmulo de Rodolfo Fernandes, não recebe o mesmo número de visitas correspondentes ao túmulo onde está Jararaca”.

Link:  http://www.osultimoscangaceiros.com.br/blog/?id=33


Fonte do texto e das fotos – http://valdecyalves.blogspot.com.br/2011/12/mossoro-expulsou-o-bando-de-lampiao.html

1927 – UM INTERESSANTE ARTIGO DE TÉRCIO ROSADO MAIA SOBRE O CANGAÇO

PUBLICADO NA IMPRENSA PERNAMBUCANA TRÊS DIAS APÓS O ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ, O TEXTO NADA COMENTOU SOBRE ESTE GRAVE EPISÓDIO!

Autor – Rostand Medeiros

Tércio Rosado Maia foi um potiguar nascido no dia 19 de agosto de 1892, em Mossoró, sendo o terceiro filho do farmacêutico paraibano Jerônimo Ribeiro Rosado e de Maria Amélia Henriques Maia, que faleceu justamente durante o parto de Tércio. Seu pai, como era o costume comum na época, logo contraiu matrimônio com Isaura Henriques Maia, sua cunhada.

Tércio Rosado Maia - (1892 - 1960)
Tércio Rosado Maia – (1892 – 1960)

O patriarca Jerônimo inicia a partir do nascimento de Tércio uma tradição singular na família Rosado de Mossoró. Tércio em Latim significa terceiro e seus irmãos que nasceram posteriormente foram batizados com números. Alguns em latim, mas a maioria com numeração existente no idioma francês.

Tércio se mostrou um homem de extrema capacidade, onde buscou ampliar muito dos seus conhecimentos através dos estudos. Já nos primeiros anos da década de 1910 concluiu o curso de farmácia na Escola de Medicina da Bahia. Dinâmico e atuante foi um dos pioneiros do cooperativismo no Rio Grande do Norte, responsável em 1915 pela criação da primeira cooperativa potiguar; a Sociedade Mossoró Novo. Consta que passou um tempo trabalhando na Estrada de Ferro de Mossoró e em 1925 deixou este emprego e passou a morar na capital pernambucana [1]. Ainda em Recife concluiu o curso de odontologia em 1929, o de Direito em 1940 e chegou até o 4º ano de medicina.

Mossoró, primeira metade do século XX - Fonte - blogdetelescope.blogspot.com
Mossoró, primeira metade do século XX – Fonte – blogdetelescope.blogspot.com

Mas voltando para a segunda metade da década de 1920, ao realizarmos uma pesquisa na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, descobrimos que nesta época Tércio Rosado estava em Recife não apenas aprendendo sobre dentes, ele igualmente começou a escrever na imprensa do Recife e a participar ativamente da vida intelectual da cidade.

Não sei quando e em qual periódico ele começou a escrever na capital pernambucana, mas vamos encontrá-lo assinando em 10 de abril de 1927 um interessante artigo sobre a chegada do hidroavião português “Argos” a Recife. O trabalho foi publicado na primeira página do Diário de Pernambuco, um dos mais respeitados jornais do Brasil naquela época[2].

Na sequência o nome de Tércio Rosado Maia começa a aparecer ocasionalmente na coluna “Estudos e opiniões”, onde trazia principalmente temas que iam desde o folclore nordestino, até mesmo assuntos internacionais. Quase sempre esta coluna era publicada nas primeiras páginas do Diário de Pernambuco.

Recife, Ponte da Boa Vista, primeira metade do século XX - Fonte - www.luizberto.com
Recife, Ponte da Boa Vista, primeira metade do século XX – Fonte – http://www.luizberto.com

Junto com sua atuação nos periódicos, Tércio também começou a fazer parte do Cenáculo Pernambucano de Lettras, uma das várias associações literárias que congregavam grupos de intelectuais em Recife. Nesta época também fazia parte desta associação o médico potiguar Abelardo Calafange.

Na continuidade das minhas pesquisas, encontrei na edição do Diário de Pernambuco de quinta-feira, 16 de junho de 1927, na segunda página, um interessante e pouco conhecido artigo escrito por Tércio Rosado Maia sobre os cangaceiros nordestinos.

O bando de Lampião. Foto realizada após a derrota em Mossoró, em Limoeiro do Norte-CE.
O bando de Lampião. Foto realizada após a derrota em Mossoró, em Limoeiro do Norte-CE.

Intitulado “A magistratura e a prophilaxya do cangaceirismo”, inicialmente clamava por uma ação mais ativa da magistratura contra os sobas das localidades interioranas, os portentosos coronéis que tanto contribuíam para a formação e a existência dos grupos de cangaceiros. Apesar da sua formação acadêmica em Direito só haver ocorrido treze anos após o famoso ataque de Lampião a Mossoró, Tércio Rosado escreveu este interessante texto com extrema segurança e desenvoltura em relação as suas opiniões.

Também trazia a sua visão sobre os fatores que determinavam a criação dos cangaceiros, classificando-os “por índole, degenerados e perversos”. Ainda sobre os cangaceiros no texto chama atenção quando Tércio Rosado apontou a ação positiva da magistratura potiguar no combate ao cangaço. Mas confesso que desconheço completamente a qual caso ele fez referência, que envolveu a ação de magistrados no combate a cangaceiros no Rio Grande do Norte.

Fonte - cariricangaco.blogspot.com
Fonte – cariricangaco.blogspot.com

O texto de Tércio Rosado Maia suscita muitos outros questionamentos e o mais importante estava no fato dele ter sido publicado apenas três dias após o ataque de Lampião e de seus homens a cidade de Mossoró. Mas no material publicado não existe uma única referência sobre este famoso ataque, ocorrido no dia 13 de junho de 1927.

Diário de Pernambuco, primeira página, 19 de junho de 1927.
Diário de Pernambuco, primeira página, 19 de junho de 1927.

Vale ressaltar que a primeira notícia do Diário de Pernambuco sobre o ataque a cidade natal de Tércio Rosado só foi publicada no dia 19 de junho, seis dias após a ocorrência dos episódios. Era uma pequena nota na primeira página, onde a empresa Leite Bastos & Cia. informou ter recebido um telegrama de Ramiro Queiroz comentando sobre o ataque, o pavor da população mossoroense, a morte do cangaceiro Colchete e a prisão do temido cangaceiro Jararaca.

Jornal do Brasil, edição de quarta-feira, 15 de junho de 1927, página cinco.
Jornal do Brasil, edição de quarta-feira, 15 de junho de 1927, página cinco.

Apesar dos sistemas de comunicação existentes no Nordeste brasileiro em 1927 não serem tão modernos, a notícia do ataque de Lampião a Mossoró logo alcançou locais muito mais distantes do que Recife. O periódico carioca Jornal do Brasil, edição de quarta-feira, 15 de junho de 1927, na página cinco, trazia uma nota intitulada “Audácias do Banditismo” e resumia o ataque dos cangaceiros a cidade potiguar.

Apesar de não ter descoberto quer era o Sr. Ramiro Queiroz, é inquestionável o atraso do conceituado periódico Diário de Pernambuco em publicar tão grave acontecimento ocorrido em uma cidade nordestina.

Sem mais delongas o leito poderá ler o artigo de Tércio Rosado Maia na íntegra, aqui reproduzido com a escrita original. As palavras marcadas em negrito seguem o padrão original do texto conforme foi publicado em 16 de junho de 1927.

Boa leitura!

Diário de PE-26-07-1927 (1)
Diário de PE-26-07-1927 (1)

“ESTUDOS & OPINIÕES”

A MAGISTRATURA E A PROPHILAXYA DO CANGACEIRISMO

Sobre os hombros do magistrado impende a tarefa principal de sanear o Nordeste da epidemia do Cangaço.

Este acerto cathegorico, tout court[3], nasce de um exame preciso da singular instituição que tanto estorva o progresso e a estabilidade da vida regional.

E tem a sua contra-prova, decisiva, fulminante, num exemplo irretorquível e brilhantíssimo: o caso do Rio Grande do Norte.

O magistrado, aqui no Nordeste quando não é, por sua incapacidade, fraqueza, e desorganização, o principal gerador do cangaceiro, significa o melhor prophylatico de que o governo, possa lançar mão para exterminar a praga do cangaço, ao nascedouro.

O magistrado, agindo dentro das normas estrictas do Dever e conscio de suas responsabilidades, representará no organismo da Região o papel de um phagocyto, insulando e eliminando os elementos tornados deletérios, e immunizando o meio de forma a faze-lo refractario a população de taes vírus de ruina e decomposição.

A dupla interrogação supra lançada, vou tentar uma resposta, procurando de caso passado, fazer abstração e idéias e conceitos todo-formados sobre o assunpto e atirados em circulação com a impertinência de dogmas.

Norteio meu esforço em ver com meus próprios olhos, e analysar com meu proprio senso analytico o problema do cangaço. E vejo afina, desvanecido e satisfeito, que as minhas conclusões em alguns pontos coincidem, e noutras se aproximam das idéias de outros que, reputadamente, souberam distinguir claro, no confuso phenomeno pathologico que é o banditismo no Nordeste.

O cangaceiro – o profissional do Cangaço, póde ser levado a este meio extremo de vida por diversos motivos. Ora, é a explosão destruidora de latentes instictos de ferocidade sanguinaria, conduzindo ao primeiro assassinato, elo inicial de uma cadeia maldita que acrescerá continuamente até o fim da vida. Dessa forma, surge a escoria do cangaço, a mais perigosa e perversa camada da classe.

São os seus componente criminosos-natos, individuos degenerados a quem o momento sobrevindo, aproveitam gostosamente a ensancha de se encarreirarem no crime.

Um outro grupo, esquerdo e apagado, exercendo a contragosto a singular profissão com um fatalismo melancholico e resignado, é formado pelos criminosos ocasionais, de diferentes matizes, os que por uma circumstancia fortuita, inesperada, uma fatalidade, emfim, bruscamente incidiram nas disposições punitivas do Codigo; e, sem coragem para enfrentarem a perda de liberdade ou os azares do jury, abrigam-se á impunidade aleatoria do cangaço…

Uma outra divisão ainda; a dos revoltados: se os dois primeiros grupos proliferam com a responsabilidade directa do magistrado, por que os meio de acção de este dispõem nem sempre permittem reduzir á obediencia das leis os elementos recalcitantes: os revoltados constituem uma reacção directa da magistratura viciosa e indigna.

O revoltado é o homem a quem a Sociedade, pela boca expressiva de seu magistrado, negou Direito, faltou justiça. Indignado, elle tenta fazer justiça por suas mãos, justiça que não é justiça, por que esta só póde ser impessoal e equânime. Dado o primeiro passo, o revoltado segrega-se do contacto social, homisiando-se em alguma fazenda distante, sua ou de algum amigo. Se não o incommodam, elle recobrará mais tarde sua anterior personalidade. De alcateia, porém, durante algum tempo, elle, sendo perseguido reage, lucta. Aggrega companheiros – parentes e asseclas, mantem o pequeno grupo em pá de guerra, no cangaço emfim; o trabalho descurado, intermitente, quasi ineficaz, já não repara as brechas feitas nas pequenas economias. Os recursos se exgottam; surge então os expedientes de pedidos de dinheiro, verdadeiras extorsões que a pequena tropa nomade vae fazendo sertão em fóra. Mais tarde as depredações e tropelias. Ou então o grupo cae sob o patrocinio de um potentado, senhor de engenho, dono de grandes latifundios, az ou rei no baralho da politica local. Este dá aos protegidos, muitas vezes, uma occupação pacifica; outras vezes os utiliza nas suas pazzias[4], ou emprezas políticas e… financeiras. Porque atingiu em zonas do interior, v. g.[5] nos Cariris cearenses, á perfeição de uma verdadeira exploração industrial.

O potentado sertanejo é um remanescente do feudalismo medieval; negue, embora, Sylvio Romero a verdade é que o desenvolvimento da colonia recapitula, atravez de formas fustes e camufladas; a história da metropole, e assim não há que extranhar em reconhecer no grande proprietário matuto, o neto do barão feudal.

Com a preoccupação de ostentar força e prestigio, a vaidade dos chefes sertanejos leva-os a acolher e amparar esta escumalha do crime, garantindo-lhe a manutenção e a impunidade. E timbram em afrontar os balbuciantes reclames da justiça local.

Esta, desamparada do poder central, assombrado pelo prestigio politico do temido coronel, reduz-se, annulla-se, dobrando, subserviente, ao capricho dos poderosos.

Vê-se, portanto, que geralmente, de tres fontes recruta-se o exercito do cangaço: os criminosos por indole, degenerados e perversos; os assassinos occasionaes em que se incorporam os criminosos passionaes e, por ultimo, os revoltados, os que torturados pela fome e pela sêde de justiça arvoram contra a Sociedade – emulos de Miguel Kohlhaos, herói citado por Ihering[6] – bandeira sangrenta da rebellião.

Enquadrando o conjuncto, fornecendo ao meio de cultura de taes germens os elementos nutritivos substanceais. A figura bastarda de juiz pulsilaneme e desmoralizado, e a catadura bronca do despota sertanejo, chefe politico ou magnata da roça. Cabe, indiscutivelmente, á Policia Militar de todos os Estados interessados, e actuando combinadamente, como já esta se fazendo[7], a destruição de nucleos de bandidos que, exacerbados pela passagem das hordas de Prestes, e dellas tendo recebido admiraveis licções de uma tactica irreprehensivel, mostram agora uma audacia e mobilidade espantosas[8]. E tambem a esta policia impede a vigilancia manu miltari[9], sem condescendencias, e por um largo tempo ainda, de certas paragens mal afamadas que a experiencia historica assignalou como outros tantos locais habituaes de formação cangaceira.

Mas é a magistratura, que devidamente apparelhada, se antolha, principalmente, a grande e nobilitadora tarefa de sanear o Nordeste, esterilizando o ambiente social sertanejo, de maneira a tornar antecipadamente inviaveis, essas larvas monstruosas do Crime: os cangaceiros.

Pode a magistratura realizar este ambicionado desideratum[10]? Póde; dil-o com segurança, o Rio Grande do Norte.

Ouçamol-o, um pouco em sua historia.

Recife 14-6-927

Tercio Rosado Maia. 

Diário de PE-26-07-1927
Diário de PE-26-07-1927

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Mesmo tendo sido escrito no dia 14 de junho de 1927 e publicado dois dias depois, não tenho como afirmar se o motivo de Tércio escrever este texto foi devido ao ataque de Lampião a Mossoró, ou outra razão. Encontrei uma referência sobre este artigo no livro “Lampião, senhor do sertão: vidas e mortes de um cangaceiro”, da francesa Elise Grunspan-Jasmin, na página 223 (EDUSP, 2006).

Considerado um dos maiores intelectuais mossoroenses, Tércio Rosado foi também professor em Mossoró, onde lecionou na Escola Normal e no Ginásio Diocesano Santa Luzia, onde seus cursos práticos de agricultura marcaram época. Já no Recife exerceu o magistério na Faculdade de Comércio, Escola Politécnica, Escola Normal Pinto Júnior, Ateneu Pernambucano, Faculdade de Farmácia da Universidade do Recife, Ginásio Pernambucano, Colégio Santa Margarida e Colégio Vera Cruz.

Tércio Rosado Maia faleceu em 8 de novembro de 1960, aos 68 anos de idade.


NOTAS

[1] Ver Diário de Pernambuco, edição de 27 de junho de 1926, página 10.

[2] Ver Diário de Pernambuco, edição de 10 de abril de 1927, 1ª página. O hidroavião português “Argos” havia realizado naquela época a primeira travessia noturna do Oceano Atlântico, era pilotado pelo militar Sarmento de Beires e havia amerissado no Rio Potengi, em Natal, poucos dias antes.

[3] Tout court – Expressão francesa que significa – sem mais nada, simplesmente, tal qual, sem nada a acrescentar. De um modo geral era comum nas primeiras décadas do século passado o uso de expressões em língua estrangeira, principalmente em francês, nos textos publicados pelos intelectuais brasileiros. Tal como acontece atualmente com o inglês.

[4] Pazzias – Em italiano, no plural, significa – loucuras, demências, insanidades.

[5] V.g. – Abreviatura da expressão em Latim verbi gratia, que significa – por exemplo.

[6] Quase certamente nesta parte deste texto houve um erro de transcrição do alemão para o português. Tércio Rosado Maia não comenta sobre uma pessoa, mas sobre um livro intitulado “Michael Kohlhaas” e escrito pelo dramaturgo, poeta e contista alemão Heinrich von Kleist (1777 – 1811). Neste livro Kleist conta a história do negociante de cavalos Michael Kohlhaas, que se engaja contra uma injustiça praticada contra ele. A história do livro se passa em meados do século XVI e a obra foi escrita em 1810, porém, apesar dos mais de 215 anos, é considerado um livro muito atual. As discussões que suscita vão desde os meios que são permitidos na busca da justiça até questões mais amplas como o ideal subjetivo versus a realidade mundana, a liberdade individual versus a opressão governamental, o povo versus o poder. Trata-se de uma história de impotência. Tanto o tema da busca fanática pela justiça quanto o estilo, espécie de crônica longa, são surpreendentemente modernos. Ver – http://www.sul21.com.br/jornal/a-necessidade-de-justica-e-a-solidao-de-michael-kohlhaas/ 

[7] Em 12 de dezembro de 1926, o advogado Estácio Coimbra assume o mais alto cargo no Poder Executivo de Pernambuco. Neste novo governo foi designado como Chefe de Polícia (cargo equivalente atualmente ao de Secretário de Segurança) o também advogado Eurico Souza Leão. Este era filho de tradicional família de plantadores de cana do litoral, morava no Rio de Janeiro, mas não recusou o pesado trabalho. Logo marcou uma reunião para promover convênios com os estados vizinhos, visando uma ação contra o cangaço, contando com o apoio do governador Coimbra. É sobre esta ação combinada entre os Estados que comenta no texto Tércio Rosado. Além desta ação conjunta, ocorreram nos primeiros meses de 1927 outras ações referentes a ação da segurança pública contra os cangaceiros no interior pernambucano que logo trouxeram resultados positivos. Quando completava seis meses a frente do cargo, no dia 11 de junho de 1927, através da imprensa pernambucana, Eurico Sousa Leão divulgou uma lista com o nome, alcunha e fatos ligados a captura ou morte de 100 cangaceiros de diversos bandos que infestavam o sertão.

[8] Acredito que se os cangaceiros receberam algumas das “admiraveis licções de uma tactica irreprehensivel” dos membros da famosa Coluna Prestes, só se foi à distância. Inexistem informações de contatos amistosos entre cangaceiros e membros da famosa coluna de revolucionários comandados por Luís Carlos Prestes, quando estes percorreram vários estados nordestinos em 1926. Neste mesmo, na cidade cearense de Juazeiro do Norte e com o beneplácito do Padre Cícero, Lampião recebeu a famosa e controversa patente de capitão. Junto com a deferência vieram muitas armas modernas, munições e fardamentos para o bando do famoso cangaceiro. O objetivo do Padre Cícero e de outras autoridades era de contar com o reforço dos cangaceiros no combate aos revolucionários de Prestes. Ao perceber o nível de comprometimento e preparo dos homens que compunham a coluna de revoltosos, de forma matreira Lampião evitou o confronto com os revolucionários e voltou à vida errante de cangaceiro, mas agora muito melhor armado e municiado. Este último fato é o que, apesar de toda repressão sofrida, tornou os cangaceiros de Lampião mais audaciosos na primeira metade de 1927.

[9] Manu militari é uma locução latina que significa, literalmente, “com mão militar”, ou seja, “com uso de força militar”. Usa-se a propósito de ações cumpridas mediante o uso da força das armas ou com emprego de força policial ou força armada.

[10] Desideratum – Palavra do Latim que significa aquilo que é objeto de desejo, aspiração, pretensão.