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TRATANDO SOBRE O CANGAÇO NA FUNDAÇÃO JOSÉ AUGUSTO

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Uma tarde muito produtiva e positiva junto a Isaura Amelia Rosado Maia, Presidente da Fundação José Augusto (FJA), além da amiga Dione Maria Caldas Xavier, Iaperi Araujo e o nobre Sergio Azol, que veio de São Paulo conversar sobre projetos ligado ao tema Cangaço. Na ocasião foi tratado sobre a doação de duas imagens alusivas ao Cangaço – criadas por Azol – e atualmente expostas em São Paulo, que serão colocadas pela FJA no Memorial da Resistência, em Mossoró. 

O DRAMA DE SANGUE ENTRE A PROSTITUTA E O CANGACEIRO EM CAMPINA GRANDE

AMÉLIA E O CANGACEIRO SERROTE


Autor – Rostand Medeiros

As primeiras décadas do século XX foram tempos bem difíceis para qualquer mulher no Brasil. Era um período estranho, insatisfatório, cheio de aspirações ingratas em meio a uma sociedade dominada pelos homens.

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Era um tempo onde a mulher era vista como uma criatura diferente, onde se ofuscou suas qualidades e habilidades, onde o padrão duplo de moralidade privilegiava os homens no que se referia a absolutamente tudo[1].

Quem ainda tinha pais que se esmeravam em dar as suas filhas alguma educação, proporcionada por uma melhor condição financeira e social, poderia fazer esta jovem sonhar em ser uma professora, praticamente a única profissão aceita para as moças ditas de boa família.

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Já quando uma mulher vinha de uma classe menos abastarda e a educação e os recursos eram limitados, ela poderia almejar ser uma empregada doméstica, trabalhando em condições desprezíveis e com salários miseráveis. Isso quando recebiam salário![2]

Permanecer solteira era considerado uma verdadeira desgraça e aos trinta anos uma mulher que não fosse casada já era chamada de velha solteirona.

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Foto ilustrativa que mostra a diferença do padrão de vestuários entre homens e mulheres no início do século XX no Brasil. Percebemos que até na vestimenta as mulheres seguiam rígidas normas – Fonte – José Valdir Nogueira, de Belmonte-PE

E estando nesta condição, como essas mulheres sobreviviam depois que seus pais morriam? O que elas podiam fazer? Para onde poderiam ir?

Se tivessem um irmão, ou uma irmã com um cunhado benevolente poderia viver em suas casas, como hóspedes permanentes e indesejados. Ou então se tornavam freiras, o que às vezes nem era tão simples.

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A típica filha de “boa família” – Fonte – – Fonte – Enciclopédia Nosso Século, Livro 1 – 1900/1910, Editora Abril, 1980, pág. 29.

Diante da pouca importância social dada as mulheres naquela sociedade arcaica, cedo as jovens brasileiras compreendiam que a instituição do casamento era única porta aberta para uma vida que fosse respeitável, pretensamente mais segura e menos difícil. 

Seguindo essa linha de pensamento, muitos pais acreditavam que uma educação séria para suas filhas era algo supérfluo. Sendo assim os bons modos, prendas domésticas e saber cuidar dos filhos e do marido seriam o suficiente para elas. Este era um pensamento comum, onde aprender aritmética não ajudava as filhas a encontrar um bom partido[3].

O cotidiano dessas mulheres então se baseava quase que totalmente nos afazeres domésticos. Muitas delas não tinham interesse para a instrução e a consciência de mudança através do conhecimento era quase inexistente.

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Prostituta do início do século XX no Brasil – Fonte – Enciclopédia Nosso Século, Livro 1 – 1900/1910, Editora Abril, 1980, pág. 29.

Mas está casada por si só não era garantia alguma de estabilidade e uma vida sem privações. Neste contexto certamente não poderia haver nada de pior, de mais terrível, se algumas destas mulheres casadas fossem abandonadas pelos seus companheiros[4].

Nesse caso, se a mulher abandonada não tivesse uma estrutura familiar preparada para lhe apoiar, ficaria exposta à miséria. Mas é bom lembrar que naquela época a maioria das mulheres abandonadas pelos companheiros era terrivelmente discriminada pela família e pela sociedade.

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Em 1912 o fotógrafo americano John Ernest Joseph Bellocq se aventurou por Storyville, o distrito da “luz vermelha” de New Orleans. Mas ele estava lá apenas pelo trabalho. Bellocq nunca conseguiu publicar as imagens, que só foram descobertas muito tempo após a sua morte. Lee Friedlander foi quem as encontrou em uma pasta empoeirada no velho estúdio do fotógrafo. Ele cuidou para que eles fossem impressos e liberados ao público – Fonte -https://www.ideafixa.com/as-prostitutas-de-new-orleans-em-1900/

Para muitas mulheres então a única maneira de não passar fome naqueles tempos duros era a prostituição (do latim “prostituere”: “colocar diante”, “à frente”, “expor aos olhos”)[5].

Os homens acreditavam (e muitos ainda acreditam) que as prostitutas vendiam seus corpos em um ato livre de busca pelo prazer, apenas para satisfazer seus desejos carnais, suas taras. Esquecendo que estas mulheres eram (e ainda são na maioria dos casos), impulsionadas à prostituição devido a elementos de diversas ordens.

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Marinheiros norte-americanos negociando com prostitutas em um prostíbulo do Rio de Janeiro no início do século XX – Fonte – Fonte – Enciclopédia Nosso Século, Livro 1 – 1900/1910, Editora Abril, 1980, pág. 28.

Entre outras causas estavam as deficiências no meio familiar (era comum o fato de muitas mulheres terem sido violentadas pelos membros da sua própria família), ou uma gravidez inesperada com a consequente expulsão de casa e a falta de capacitação para desenvolver uma profissão que lhe sustentasse. Assim a prostituição em troca de favores, de sobrevivência, revelou-se uma opção[6].

A Mulher Livre de Campina Grande

Estudiosos e pesquisadores acreditam que as características de como se apresenta nos dias atuais aquela que é considerada “a profissão mais antiga do mundo”, é um resultado direto do desenvolvimento urbano. E o Brasil do início do século XX, não obstante ainda possuir sua economia atrelada basicamente a produção rural, começou a viver uma nova fase de sua história econômica.

Décadas antes havia sido extinta a estrutura escravista e as primeiras práticas capitalistas tornavam-se presentes no meio econômico do país. Logo essas mudanças ocasionavam profundas alterações nas relações sociais em algumas regiões do Brasil, modificando substancialmente muitos núcleos urbanos[7].

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Luz elétrica em Campina Grande no ano de 1912 – Fonte – http://karinamariahistoria.blogspot.com.br/2012/05/luz-eletrica-na-paraiba.html

E uma cidade chamada Campina Grande, localizada no interior da Paraíba, aproveitou soberbamente as mudanças que surgiram no horizonte econômico do país e mudou para sempre a sua história, tornando-se uma referência no Nordeste do Brasil.

A história desta urbe possui características similares a criação de muitas localidades nordestinas no final do século XVII – Uma pequena propriedade agropecuária que gradativamente vai ampliando sua população na medida em que ocorre o seu desenvolvimento econômico. Mas no caso de Campina Grande a sua criação certamente foi acompanhada de uma interessante percepção geográfica dos seus criadores, pois o lugarejo estava fadado a se tornar um grande entreposto comercial da região.

Conforme o lugarejo crescia ele tornou-se um ótimo ponto de apoio para pessoas que se deslocavam entre o litoral e o interior da província, além de ser um bom ponto de parada para aqueles que negociavam produtos como carne, roupas de algodão e farinha. Campina Grande começou a ter em 1790 um governo formal, constituído por um conselho da cidade e um cartório.

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Imagem de Procissão em 1912 na Rua Maciel Pinheiro, em Campina Grande – Fonte – Acervo do Museu Histórico e Geográfico de Campina Grande / http://www.ufcg.edu.br/~historia/ppgh/index.php/processo-seletivo/category/14-dissertacoes-2012?download=109:joao-paulo-franca-cidade-e-imagens-cronicas-visuais-das-ruas-de-campina-grande-pb-1900-1950

Embora existisse muita atividade comercial, havia muito pouca construção real de casas e prédios do governo, tanto que no final do século XIX a cidade só possuía cerca de 500 habitações. O desenvolvimento da localidade foi estimulado pelo crescimento da indústria regional de algodão e a introdução da ferrovia, tanto como via de escoamento deste produto agrícola, como via de chegada de produtos manufaturados mais baratos e variados que impactaram a economia local de forma radical. Isso tudo causou a transformação de uma pequena aldeia com cerca de 2.800 pessoas em 1872, para uma movimentada cidade com 38.303 habitantes em 1900[8].

E é em meio a essa cidade pulsante, em franco crescimento em uma região pobre, onde o dinheiro é presente e circulante, que vamos encontrar no ano de 1915 a jovem Amélia Mendes da Silva.

Esta é uma mulher que naquele ano tinha 28 anos de idade, nasceu na localidade de Serraria, a cerca de 80 quilômetros ao norte de Campina Grande, e para sobreviver proporcionava prazer aos homens da terra com seu corpo e seus atributos sexuais[9].

Atacada Por Um Cangaceiro

Sabemos que Amélia era separada de João Bento da Silva, mas não sabemos a razão de sua separação e nem a razão da sua entrada no ramo da prostituição. Mas em 1915 ela aparentemente estava conseguindo tocar sua vida naquela atividade com certa garantia de sobrevivência.

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Isso fica um tanto claro na única foto existente de Amélia. Ela mostra uma mulher com traços faciais interessantes e proporcionais, com belos lábios carnudos, utilizando um chapéu típico das mulheres urbanizadas da época. Vemos igualmente Amélia utilizando uma roupa com um interessante bordado e dois grandes colares em volta do pescoço. Sendo estes colares de ouro (o que infelizmente não consegui nenhuma indicação), apontaria claramente que Amélia não fazia seu trabalho em um prostíbulo, os populares cabarés. A jovem paraibana era uma prostituta independente, ou isolada, aparentemente sem ter a sombra de um cafetão para ditar regras, que habitava na sua própria casa, escolhia com quem teria as suas relações sexuais, quanto ganharia por cada programa. Assim ela poderia atender um menor número de homens e consequentemente ter uma renda melhor.

Assim Amélia evitava viver em uma casa normalmente com sérios problemas de higiene, onde as mulheres que ali trabalhavam eram obrigadas a receber todos aqueles que frequentavam o bordel e tinham pouco repouso proporcionado pelas donas dos prostíbulos. Além de estarem mais próximas da violência devido à alta rotatividade dos clientes.

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Prostituta em 1900 – Foto de John Ernest Joseph Bellocq – Fonte – https://www.ideafixa.com/as-prostitutas-de-new-orleans-em-1900/

Mesmo assim a forma como Amélia praticava a sua profissão não lhe isentava de sofrer alguma violência. E foi isso que lhe aconteceu de forma contundente em maio de 1915, quando dois homens lhe aplicaram uma terrível surra em sua casa e lhe estupraram com extrema violência.

Esse ataque bestial teria sido realizado, segundo comentaram seus algozes, a mando de um cliente enciumado com a prostituta paraibana. Existe outra versão que afirma que a violência teria sido realizada a mando de uma rica senhora da sociedade de Campina Grande, que percebeu que seu marido se afastava cada vez mais em direção a cama de Amélia e direcionava seus carinhos a uma mulher que era tida como “descaída”.

O problema para Amélia é que um dos homens, o que comandava a dupla, prometeu que onde a encontrasse em outra ocasião lhe mataria[10].

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Antônio Silvino

E o homem em questão não era alguém de promessas vazias. Ele havia sido um cangaceiro do bando de Antônio Silvino.

Um Cabra Complicado Até Para Outros Cangaceiros

Seu nome era José Maria de Oliveira, sua alcunha Serrote e teria nascido em algum local na Paraíba. Era conhecido por já ter praticado diversos crimes, entre estes assassinatos. Sempre agindo com requintada malvadeza na região do interior do estado onde nasceu. Ele foi descrito pelos jornais da época como tendo “estatura regular, preto, cabellos carapinhos, olhos grandes, nariz chato, orelhas grandes, pés e mãos pequenas, dentadura perfeita”.

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Um jornal recifense aponta que em agosto de 1909, após Antônio Silvino retornar do Ceará, ele e seus homens foram vistos na região rural da cidade paraibana de Cabaceiras e na mesma nota é informado que Serrote estava com um pequeno bando de quatro membros, um “subgrupo” de Silvino, agindo de forma independente para atrair a atenção das volantes da polícia[11].

Entretanto outro periódico mostra que Serrote não havia deixado o bando de Silvino comandando um subgrupo, ele havia sido expulso pelo chefe, com mais outros cabras da sua laia, por Silvino não confiar nessa gente. Nesta nota ele foi tido como “Trahidor” e “perverso ao extremo” pelos seus próprios companheiros de cangaço.

Ainda em relação às andanças de Serrote como chefe de bando em 1909, ele parece não ter ido muito longe nesta função que requeria astúcia, companheirismo, uma boa rede de apoiadores e enorme capacidade de combate. Pois uma nota na segunda página do Jornal do Recife, edição do dia 4 novembro de 1909, aponta que Serrote havia sido preso no lugar denominado Bonita, próximo a Cabaceiras, ficando lá recolhido. É desta época a foto que trago deste cangaceiro[12].

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Sobre o hiato de sete anos entre a prisão de Serrote a o ataque contra Amélia em Campina Grande eu não consegui nenhuma informação. Mas se este cabra safado, que possuía tão terrível fama e uma extensa ficha criminal, estava vivendo tranquilamente na rica cidade do interior da Paraíba, é que certamente era protegido de alguém muito poderoso. Onde provavelmente Serrote era utilizado, junto com outros de sua estirpe, para variados serviços violentos, como a surra e o estrupo cometidos contra Amélia.

Para esse bandido, que um dia se ombreou com Antônio Silvino, certamente a cidade de Campina Grande, com sua larga circulação monetária, proporcionava uma condição de ação muito mais facilitada do que andar de arma na mão no meio da caatinga.

Além disso, diante das sempre comuns querelas politicas e dos muitos conflitos sociais, um elemento com o seu nível de “expertise” não era de todo descartável e poderia ser sempre útil para abonados de baixo caráter. E certamente que sua fama de antigo companheiro do chefe cangaceiro Antônio Silvino só lhe ajudava nestas nefandas atividades em Campina Grande.

Luta na Noite de Campina Grande

Não tenho dúvida que diante das lesões provocadas em seu corpo e igualmente pelo medo daquele homem perverso e do seu companheiro de atividades criminais, Amélia passou um tempo escondida. Para não dizer acuada[13].

Mas ela não tinha ninguém para lhe proteger e precisava sair para se sustentar. Fugir certamente não estava nos seus planos, pois tinha seu local de repouso em Campina Grande, tinha clientela e ir embora significava viver em algum fedorento cabaré perdido no interior do Nordeste, com todas as incertezas que esta decisão acarretaria.

Foi então que Amélia passou a andar com um punhal e foi para rua para sua triste e dura luta de vender o seu corpo para sobreviver.

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A imagem de violências praticadas contra as mulheres era muito comum no início do século XX – Fonte – http://www.pinterest.com

Mas o seu encontro com o antigo cangaceiro não demorou.

Eram por volta das seis da noite de uma terça-feira, 11 de maio de 1915, quando a jovem Amélia seguia por um beco que desembocava em uma avenida denominada Lauritzen. Neste momento, na esquina, ficou frente a frente com seu algoz[14].

Logo Serrote partiu para o ataque e desferiu pesada cacetada com um porrete na cabeça da mulher, que baqueou, mas suportou a pancada. Nesse momento, quando Serrote se preparava para desferir o segundo golpe, para sua total surpresa Amélia cravou-lhe com coragem e segurança o punhal no peito do cangaceiro.

Através da dissertação de Mestrado em História “Cidade e Imagens: Crônicas visuais das Ruas de Campina Grande? PB (1900-1950)”, do historiador João Paulo França, descobri a obra “Abrindo o livro do passado”, publicada em 1956, e de autoria do escritor e historiador campinense Cristino Pimentel. Ele afirmou em seu livro que o ferimento no cangaceiro foi embaixo do peito esquerdo e nem sangue saiu.  Para o falecido cronista Pimentel o conflito se deu em um beco que era conhecido pelo sugestivo nome de “Beco dos Paus Grandes”, atual Rua João Alves de Oliveira[15].

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O antigo “Beco dos Paus Grandes”, local da luta – Fonte – http://www.ufcg.edu.br/~historia/ppgh/index.php/processo-seletivo/category/14-dissertacoes-2012?download=109:joao-paulo-franca-cidade-e-imagens-cronicas-visuais-das-ruas-de-campina-grande-pb-1900-1950

Segundo os jornais da época o perigoso Serrote saiu cambaleando e não fez uso de um revólver carregado com seis munições que trazia na cintura e que depois foi encontrado com ele. O violento ex-cangaceiro andou um pouco mais e foi cair na calçada, defronte ao comércio de Elias Montenegro[16].

Amélia por sua vez, ao ver que Serrote se afastava cambaleando e por não ver seu inimigo sangrando, decidiu sair discretamente do palco dos acontecimentos. Certamente acreditava que espantara aquele verdadeiro “encosto” de sua vida.

Dali seguiu tranquilamente para um hotel onde jantava com frequência. Lá soube por algumas pessoas que nas proximidades o temido cangaceiro estava morto na calçada e entendeu que aquilo foi o resultado de sua certeira estocada.

Do jeito que ela estava no hotel, ela continuou e não se abalou. Certamente com uma sensação positiva, ela não fez a mínima ação de evadir-se do local e jantou tranquilamente aguardando o seu destino. Ainda bem tranquila ela comentou com todos os presentes no hotel que ela era a responsável pela morte do cangaceiro e explicou a causa do assassinato.

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Após encerrar seu jantar Amélia Mendes da Silva, certamente acompanhada de muitos curiosos e quero crer de cabeça erguida, se dirigiu para se entregar a polícia de Campina Grande. Junto à autoridade policial ela relatou o ocorrido e as razões do seu ato. Ficou presa.

No outro dia os jornais comentam que a cidade entrou em transe com os acontecimentos, exultando a morte deste perigoso elemento. Muitos foram ver o cadáver do homem que um dia andou junto a Antônio Silvino e depois seguiram para cadeia ver a mulher que o matou.

Mesmo sem haver encontrado nenhuma outra referência sobre violências praticadas pelo antigo cangaceiro Serrote em Campina Grande e região, é perceptível pelos jornais a descrição de um certo alívio pela morte do celerado.

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Clementino Gomes Procópio, que ajudou na defesa de Amélia – Fonte – http://digitalizacao.fundaj.gov.br/fundaj2/modules/visualizador/i/ult_frame.php?cod=5412

Diante do que ocorreu Amélia recebeu apoios. O ilustre educador Clementino Gomes Procópio se prontificou a patrocinar a causa pela defesa da prostituta[17].

Fugindo Para Sobreviver

Segundo bem observou o historiador João Paulo França em sua tese de Mestrado, os códigos de comportamento da sociedade campinense de então reconheceram a “legítima defesa” de Amélia e a absorveram por unanimidade “aquela mulher da vida”. É plausível que o passado de “cangaço”, e os espancamentos feitos por Serrote, muito contribuíram para que seu assassinato fosse visto como um “alívio” para a sociedade. Todavia, Amélia a partir de então “deixava” de ser “Amélia Mendes da Silva”, para carregar pelo resto da vida a alcunha de “Amélia de Serrote”.

O historiador nós trás em seu trabalho acadêmico as palavras do cronista Cristino Pimentel, que em seu livro de 1956 comentou sobre o destino de Amélia de Serrote – “vítima da má sorte e dos homens, perseguida pelo destino, tomou o caminho dos ignorados, pois não se sabe como, nem onde foi ficar depois de absolvida pelo crime”.

Estando correta a afirmação do ilustre Cristino Pimentel, mesmo com a absolvição do seu crime, mesmo com toda a repercussão positiva em relação ao caso, é provável que Amélia de Serrote tenha decidido deixar Campina Grande pelas ligações que o antigo cangaceiro possuía junto a poderosos da cidade. Isso provavelmente fazia dela um elemento de risco para alguém. Enfim ela já tinha levado uma baita surra ordenada por alguém poderoso e algo pior poderia advir contra ela a qualquer momento.

O certo é que nenhuma referência mais eu encontrei sobre esta valente mulher paraibana, que um dia matou um cangaceiro.

Em tempo – E porque não pensar em um final feliz?

Talvez diante do feito de Amélia ao matar o cangaceiro, quem sabe se algum homem não lhe propôs uma união estável?

Ela então deixou a prostituição, saiu de cena e viveu uma vida tranquila e feliz!


NOTAS

[1] Sobre as mudanças nas relações de gênero na passagem do século XIX para o século XX, ver “A MULHER URUGUAIA E A MULHER BRASILEIRA NO INÍCIO DO SÉCULO XX”, de Marcos Emílio Ekman Faberhttp://www.historialivre.com/contemporanea/amemulher.htm

[2] Ver “A CONSTRUÇÃO DO PAPEL SOCIAL DA MULHER NA PRIMEIRA REPÚBLICA”, de Aline Tosta dos Santos – http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300669106_ARQUIVO_TEXTOOLIVIAANPUH.pdf

[3] Sobre a problemática do processo de escolarização que se realizou no Brasil desde a chegada dos jesuítas até a Revolução de 1930, sob a ótica do gênero ver “UM OLHAR NA HISTORIA: A MULHER NA ESCOLA (BRASIL: 1549 – 1910)”, de Maria Inês Sucupira Stamatto, do Programa de Pós-Graduação em Educação – UFRN – http://www.sbhe.org.br/novo/congressos/cbhe2/pdfs/Tema5/0539.pdf Ver també “MULHER E EDUCAÇÃO CATÓLICA NO BRASIL (1889-1930): DO LAR PARA A ESCOLA OU A ESCOLA DO LAR?”, de Michelle Pereira Silva, Geraldo Inácio Filho, Universidade Federal de Uberlândia – http://www.histedbr.fe.unicamp.br/revista/revis/revis15/art14_15.pdf

[4] Sobre o cotidiano das mulheres neste período ver “MULHER, MÃE, TRABALHADORA, CIDADÃ…: CONDIÇÃO FEMININA NAS TRÊS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX”, de Simone da Silva Costa, Doutora em História e Professora da  Prefeitura Municipal de Santa Rita – PB – file:///C:/Users/Isa%20Bezerra/Downloads/23811-47870-2-PB.pdf

[5] Ver “PROSTITUIÇÃO – CORPO COMO MERCADORIA”, de Paulo Roberto Ceccarelli, Psicólogo / Psicanalista, in: Mente & Cérebro – Sexo, v. 4 (edição especial), dez. 2008 – http://ceccarelli.psc.br/pt/?page_id=157

[6] Ver “O FENÔMENO DA VIOLÊNCIA PATRIMONIAL CONTRA A MULHER: PERCEPÇÕES DAS VÍTIMAS”, de Rita de Cássia Bhering Ramos Pereira, Maria das Dores Saraiva de Loreto, Karla Maria Damiano Teixeira, Junia Marise Matos de Sousa – http://www.seer.ufv.br/seer/oikos/index.php/httpwwwseerufvbrseeroikos/article/viewFile/89/156

[7] Ver “ANÁLISE DA PRIMEIRA FASE DO PROCESSO DE SUBSTITUIÇÃO DE IMPORTAÇÕES SOBRE A ECONOMIA DO NORDESTE”, de Alessandro Alves dos Santos Silva (PPGECON-UFPE) e Adelson Santos Silva (UAST/UFRPE) – http://www.bnb.gov.br/documents/160445/781488/3M3_art_1.pdf/72c361f4-5f4c-420d-9c72-039d1fcdf1a5

[8] Sobre a história de Campina Grande ver “CAMPINA GRANDE A CIDADE SE CONSOLIDA NO SÉCULO XX”, de Júlio César Mélo de Oliveira – http://www.geociencias.ufpb.br/~paulorosa/gema/images/stories/monografias/2007/mono_julio e “CIVILIZANDO OS FILHOS DA “RAINHA”, CAMPINA GRANDE: MODERNIZAÇÃO, URBANIZAÇÃO E GRUPOS ESCOLARES (1935 A 1945)” de Maria Raquel Silva – http://www.cchla.ufpb.br/ppgh/2011_mest_maria_silva.pdf

[9] Ver “AS DECAÍDAS: PROSTITUIÇÃO EM FLORIANÓPOLIS (1900 – 1940)”, de Silvia Maria Fávero Arend – file:///C:/Users/Isa%20Bezerra/Downloads/6175-18860-1-SM.pdf

[10] Ver “JORNAL DE RECIFE”, Recife-PE, edição de quinta-feira, 1 de julho de 1915, pág. 3.

[11] Essa tática de criar subgrupos entre os integrantes de Antônio Silvino não era novidade, sendo um dos mais famosos era o subgrupo do cangaceiro Cocada, cujo nome verdadeiro, segundo o cangaceiro Rio Preto, era Manoel Marinho, sendo natural de Guarita, vila localizada a menos de dez quilômetros da cidade paraibana de Itabaiana e teria cerca de 40 anos em 1906.  Mário Souto Maior comenta, sem informa datas, que Cocada morreu em combate no lugar chamado Serrinha, na Paraíba. No seu local de morte, o povo ergueu um cruzeiro. O folclorista Evandro Rabelo, ao passar pelo local, viu depositado na base da cruz, alguns ex-votos de pessoas que obtiveram graças por intermédio deste cangaceiro. Ver https://tokdehistoria.com.br/2011/12/04/a-saga-do-cangaceiro-rio-preto/

[12] Ver “JORNAL DE RECIFE”, Recife-PE, edição de quinta-feira, 1 de julho de 1915, pág. 3.

[13] Eu não consegui nenhuma informação sobre que era o homem que ajudou Serrote na violência contra a prostituta Amélia.

[14] Essa suposta avenida, da qual não encontrei referências, seria alusiva a figura de Christian “Cristiano” Lauritzen. Este foi um imigrante dinamarquês nascido em 1847 e que chegou ao Brasil, mais precisamente em Recife, aos 21 anos de idade. Por volta de 1880 se estabeleceu em Campina Grande, quando a cidade tinha pouco mais de três mil habitantes. Em 1883 casou-se com a senhora Elvira Cavalcanti, filha do comerciante Alexandrino Cavalcanti, então Presidente da Câmara Municipal de Vereadores, com quem teve dez filhos. Lauritzen foi prefeito municipal durante 19 anos ininterruptos e durante sua longa gestão ocorreu a chegada do primeiro trem na cidade, marco histórico para o desenvolvimento econômico da região. Em 1922 fundou o Jornal Correio de Campina Grande e faleceu no ano seguinte, ainda exercendo o mandato de prefeito.

[15] Ver PIMENTEL, Cristino. Abrindo o livro do passado. 1ª Edição. Campina Grande: Editora Teone, 1956, p. 46. Sobre a dissertação de mestrado “Cidade e Imagens: Crônicas visuais das Ruas de Campina Grande? PB (1900-1950)”, do historiador João Paulo França acesse http://www.ufcg.edu.br/~historia/ppgh/index.php/processo-seletivo/category/14-dissertacoes-2012?download=109:joao-paulo-franca-cidade-e-imagens-cronicas-visuais-das-ruas-de-campina-grande-pb-1900-1950

[16] Já para Cristino Pimentel, em seu atualmente raro livro, o cangaceiro Serrote não sentiu que estava ferido e foi tombar, para morrer, no “Beco de seu Lindolfo”. Ainda sobre Elias Montenegro eu descobri que naquele mesmo ano de 1915, poucos meses antes da morte de Serrote, mais precisamente no dia 12 de abril, o comerciante havia sido um dos sócios fundadores do time de futebol Campinense Clube, uma das mais tradicionais equipes de futebol da Paraíba e conhecido como o “aristocrático”. Ver – http://cgretalhos.blogspot.com.br/2009/09/campinense-clube-1-parte.html#.V-B_1_ArLIU

[17] Nascido na fazenda Chéus, no município pernambucano de Bom Jardim, em 1855, Clementino Gomes Procópio foi seminarista aos quinze anos, mas não concluiu os estudos para ser padre. Depois de uma breve passagem pela cidade de Batalhão, hoje Taperoá, na Paraíba, onde fundou uma escola, seguiu para Campina Grande em 1877. Foi político, jornalista e fez da educação seu ofício maior. Fundou o Instituto São José, uma escola particular que funcionava como internato e externato, no bairro de São José. Consta que a caridade era um traço forte de sua personalidade, talvez aí se explique se colocar ao lado de Amélia na sua defesa jurídica no caso do assassinato de Serrote. Faleceu aos 80 anos, em 1935. Ver http://cafecomresenhas.blogspot.com.br/2013_08_01_archive.html

 

UM POUCO DA GENEALOGIA DE MANOEL DE SOUSA NETO – UM DOS GRANDES INIMIGOS DE LAMPIÃO

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Manoel Neto está de óculos na extrema direita.

Por Sálvio Siqueira

Manoel de Sousa Neto foi um marco entre aqueles que combateram o banditismo nos sertões nordestinos, no tempo do cangaço, mais especificamente na fase lampiônica, 1919/1938.

Mané Neto, como era chamado por muitos, fez parte de uma ‘tropa’ de combatentes vingada dos filhos da região de Nazaré do Pico, distrito de Floresta, no Sertão do Pajeú pernambucano, chamados de “Os Nazarenos”.

Na verdade, as coisas começaram a ficar bem apertadas para o “Rei dos Cangaceiros” depois que foi formada essa Força Volante, que era composta por Praças e voluntários, contratados, que se dispusera a caírem no ‘mundo da caatinga’, em perseguição aos bandos de cangaceiros.

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Antes da formação da mesma, o governo pernambucano envia várias colunas da Capital com a missão de combater o banditismo no interior do Estado. Porém, a formação desses soldados nada tinha haver com a realidade do particular que consiste o bioma caatinga. Muitos ficaram fora de ação sem nem mesmo entrarem em combate contra os inimigos… Bem, isso é um assunto extenso que carece não uma, mas, várias matérias sobre o mesmo.
Manoel de Souza Neto nasceu na fazenda Algodões, no município de Floresta, PE, no dia 1º de novembro de 1901. Era primogênito de oito irmãos, “Auta, Amerina, Filomena; Alonso, Afonso, Ancilon e Arcôncio”, filho do Sr. Gregório Nogueira do Nascimento e de dona Maria Mendes de Sá. Tendo como avós paternos o casal Manoel de Souza Ferraz e dona Florência Filismina de Sá, e maternos o Sr. José Vitoriano de Sá e dona Ana Mendes de Sá.

Seu avô materno, José Vitoriano de Sá, ver-se envolvido em uma séria intriga, lá pelos idos de 1865, quando o mesmo morava na beira do “Velho Chico”, e acaba sendo preso. Seus inimigos eram tão ferrenhos e sanguinários que arrobam a cadeia e o arrancam de lá. Depois o sangram por vingança.

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Quando se inicia a década de 1920, mais precisamente no ano de 1922, segundo a escritora Marilurdes Ferraz, Mané Neto viaja para a cidade de Rio Branco, hoje Arcoverde, PE,levando peles de animais para serem vendidas. No entanto, ele estende sua ida até a Capital do Estado e, seguindo o exemplo de Arcôncio de Sousa Ferraz, terceiro filho do casal Gregório Nogueira e Maria Mendes, seu irmão, se alista na Força Pública.

Participou de vários combates contra cangaceiros tais como o da Caraíba, da Tapera, da Favela, da Serra Grande, da Maranduba… entre tantos outros. Ficando na história do Fenômeno Social como um dos mais ferrenhos perseguidores de Lampião. Aposenta-se como coronel da PM-PE. Foi Delegado e Prefeito.

Manoel Neto não casou, mas, deixou filhos com a senhora Otacília Gomes de Sá, que segundo o escritor Leonardo Gominho, em seu livro “Floresta – uma terra, um povo”, Vol. 15 da Coleção Tempo Municipal (FIAM – Governo do Estado de Pernambuco), foram Margarida Maria Siqueira Campos e Manoel Gomes de Souza. Ela constitui família e gera oito filhos, ele, casa-se com Josefa Ester de Araújo, tendo onze herdeiros que são “Maria Cícera Araújo Souza Marques (casada com Rinaldo Leite Marques de Sá, é a mãe de Raniere,de Krausia e de Rinaldo Júnior), João Gomes de Araújo, Sandra Araújo Souza Torres, Olga Maria Gomes Araújo Pires (mãe de Washington e de Letícia), Margarida Gomes Araújo,Filomena Gomes de Araújo, Carlos Vital Gomes de Souza, José Gomes Araújo, FranciscaAraújo Gomes Nunes, Emílio Gomes de Souza e Maria das Dores Araújo Souza.”

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“Às 7 horas e 45 minutos do dia 3 de novembro de 1979, no Hospital da Polícia Militar, no Derby (Recife). Seu corpo foi levado para sua terra natal, sendo sepultado no cemitério de Nazaré.”

Fonte “Floresta – uma terra, um povo”, Vol. 15 da Coleção Tempo Municipal (FIAM – Governo do Estado de Pernambuco) – Leonardo Gominho
araujo.eti.br

Foto lampiãoaceso.com
Grupo de Estudos “Canganceiros”- Facebook
Marcos De Carmelita Carmelita

EXPEDIÇÃO ANGICO – UM GRUPO DE PESQUISADORES BUSCA COMPREENDER COMO FORAM MORTOS O CANGACEIRO LAMPIÃO, MARIA BONITA E SEUS COMPANHEIROS NA GROTA DO ANGICO

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Da esquerda para a direita: Giovane Macário, José Lopes Tavares, Cristiano Ferraz, Richard Torres Pereira, Sálvio Siqueira, Maria Oliveira, Sargento Romilson e Vaneildo Bispo.

78 Anos Depois do Ataque da Polícia Contra o Esconderijo dos Cangaceiros de Lampião na Grota do Angico, Um Grupo de Pesquisadores Nordestinos Pernoitam no Local Buscando Compreender o que Aconteceu. E Lá se Depararam com um Sério Ato de Vandalismo!

 Autor – Rostand Medeiros

As questões que envolvem a morte de Lampião, Maria Bonita e outros cangaceiros na famosa Grota do Angico, em 1938, sempre foi algo muito espinhoso entre os que estudam o tema Cangaço.

Para muitos o chefe cangaceiro Lampião foi pego de surpresa, com a guarda baixa e pagou com a vida. Para outros essa surpresa existiu porque ele e demais membros do bando foram envenenados.

Já logo após as mortes em Angico começaram a surgir uma série de conjecturas, dúvidas e debates sobre como se desenrolaram os acontecimentos relativos àquele combate, as razões das mortes dos cangaceiros e muitas outras questões.

Para ter uma ideia, apresento-lhes uma das muitas narrativas existentes na Internet sobre o fim de Lampião.

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Lampião, o Rei do Cangaço.

“No dia 27 de julho de 1938, o bando acampou na fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe, esconderijo tido por Lampião como o de maior segurança. Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas. A volante chegou tão de mansinho que nem os cães pressentiram. Por volta das 5:15 do dia 28 de julho, os cangaceiros levantaram para rezar o oficio e se preparavam para tomar café; quando um cangaceiro deu o alarme, já era tarde demais.

Não se sabe ao certo quem os traiu. Entretanto, naquele lugar mais seguro, o bando foi pego totalmente desprevenido. Quando os policiais do Tenente João Bezerra e do Sargento Aniceto Rodrigues da Silva abriram fogo com metralhadoras portáteis, os cangaceiros não puderam empreender qualquer tentativa viável de defesa.

O ataque durou uns vinte minutos e poucos conseguiram escapar ao cerco e à morte. Dos trinta e quatro cangaceiros presentes, onze morreram ali mesmo. Lampião foi um dos primeiros a morrer. Logo em seguida, Maria Bonita foi gravemente ferida. Alguns cangaceiros, transtornados pela morte inesperada do seu líder, conseguiram escapar. Bastante eufóricos com a vitória, os policiais apreenderam os bens e mutilaram os mortos. Apreenderam todo o dinheiro, o ouro e as jóias.

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Lampião, Maria Bonita e seus cangaceiros.

A força volante, de maneira bastante desumana para os dias de hoje, mas seguindo o costume da época, decepou a cabeça de Lampião. Maria Bonita ainda estava viva, apesar de bastante ferida, quando foi degolada. O mesmo ocorreu com Quinta-Feira, Mergulhão (os dois também tiveram suas cabeças arrancadas em vida), Luis Pedro, Elétrico, Enedina, Moeda, Alecrim, Colchete (2) e Macela. Um dos policiais, demonstrando ódio a Lampião, desfere um golpe de coronha de fuzil na sua cabeça, deformando-a; este detalhe contribuiu para difundir a lenda de que Lampião não havia sido morto, e escapara da emboscada, tal foi a modificação causada na fisionomia do cangaceiro.” 

Sobre este texto ver – http://www.meionorte.com/blogs/josefortes/a-morte-de-lampiao-e-seu-bando-174209

Uma Ideia Muito Interessante

Atualmente, como em muitas áreas de pesquisa, as pessoas que se debruçam sobre o tema do Cangaço se dividem em dois grupos majoritários – Os que pesquisam basicamente em documentos, livros, jornais, bibliotecas e outros locais que lhes tragam informações e pouco vão a campo. Além destes temos os que buscam seguir com maior ênfase “comendo poeira” nas estradas do sertão em busca da tradição oral e dos registros existentes nas memórias coletivas das comunidades distantes do Nordeste e utilizando em menor proporção material documental.

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E, como é normal neste ramo de atividade, as duas vertentes possuem bons e maus trabalhos resultantes destas pesquisas e sempre novas produções estão sendo publicadas.

Mas uma nova tendência parece haver surgido nas pesquisas do Cangaço – A dos pesquisadores que se unem para passar algum tempo em locais onde os fatos mais intensos relativos a este tema aconteceram – Os locais de combate.

E o local onde, aparentemente, isso ocorreu pela primeira vez foi na controversa Grota do Angico. Um grupo de pesquisadores nordestinos realizou recentemente uma interessante empreitada de permanência neste local.

Sempre fui uma pessoa que admiro as iniciativas de pesquisadores que buscam conhecer mais a fundo aquilo que estudam e acreditam. E confesso que fico mais entusiasmado com pessoas que desenvolvem novas e interessantes iniciativas em prol do conhecimento.

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Recebi informações que essa idéia surgiu por dois caminhos distintos, mas com os mesmos objetivos.

Em maio de 2016, na companhia do artista plástico Sérgio Azol, eu estive na cidade pernambucana de Floresta, onde conhecemos e fomos recepcionados pelos escritores e pesquisadores Marcos Antonio de Sá, conhecido como “Marcos De Carmelita” e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, que recentemente lançaram o interessante livro “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE”. Durante nossa visita Marcos me comentou que em diálogo com os irmãos Francisco e Washington Rodrigues Correa, proprietários do Restaurante Angico, às margens do Rio São Francisco, surgiu a ideia de pernoitar na Grota e ele recebeu apoio desses irmãos.

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1938 – Um dia após o combate na Grota do Angico, policiais e curiosos contemplam o cadáver decapitado de Maria Bonita.

Tanto Marcos como Cristiano são agentes da Polícia Civil do Estado de Pernambuco e atuam na área de caatinga, mostrando que pernoitar naquele local não seria algo problemático e seria algo muito positivo, pois existiam mais perguntas do que respostas aos chamados “Mistérios de Angico”. Marcos desejava com esta permanência contrapor informações e realizar uma pesquisa que poderia ampliar as discussões envolvendo os fatos que se deram na Grota do Angico.

Infelizmente, por problemas de saúde, não houve condições da participação de Marcos de Carmelita na empreitada ocorrida recentemente e que descrevemos neste texto. Felizmente o mesmo se encontra em plena recuperação.

Outro que teve o mesmo pensamento e igualmente desejou realizar uma empreitada nos mesmos moldes foi Sebastião Giovane Gomes de Sá. Ele é conhecido como “Giovane Macário”, é natural da cidade pernambucana de Floresta e a idéia surgiu após entrevistar Manoel Cavalcanti de Souza, um antigo membro das forças volantes que perseguiram os cangaceiros e ficou conhecido como “Neco de Pautilia”. Este faleceu em 29 de maio de 2014, aos 101 anos de idade, mas antes de sua partida Giovane lhe prometeu, em meio a um interessante diálogo sobre o tema, que um dia buscaria pernoitar na área da Grota do Angico, com o objetivo de ter uma idéia bem real de como se desenrolaram os episódios envolvendo a morte do maior chefe cangaceiro e sair de lá com muitas respostas. Ou com muito mais perguntas!

Seguindo para a Grota do Angico

Entre preparativos e inúmeros contatos via Internet, nomes foram sendo incluídos e depois retirados por razões diversas. Mas ficou definido que o grupo seguiria para a Grota do Angico no dia 27 de julho de 2016, pernoitando no local e só deixando a área no dia seguinte.

Para reunir os participantes do grupo de pesquisa, além do significado óbvio da data, foi aproveitado a ocorrência do evento Cariri Cangaço, que aconteceria entre os dias 28 a 30 de julho, na cidade de Piranhas, Alagoas. Aonde diversas pessoas de todo Brasil que pesquisam, tem interesse, ou mera curiosidade pelo tema Cangaço, estariam reunidas na região.

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Vista da Grota do Angico. Foto realizada pelo autor deste texto, em uma recente visita junto com o artista plástico Sérgio Azol.

Além do Cariri Cangaço estava marcado no dia 28 de julho, na própria Grota do Angico, a 19ª edição da Missa do Cangaço. Este é um evento organizado pela jornalista Vera Ferreira, neta de Lampião, e integrantes do Museu do Cangaço, com apoio logístico da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do Estado de Sergipe (SEMARH). 

Salvo alguma informação em contrário e que desconheço, os integrantes deste grupo teriam a honra de serem os primeiros a pernoitar na área com o objetivo de pesquisa, estando no local do combate no dia em que o episódio completava 78 anos de sua ocorrência.

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Outra foto do grupo que pernoitou no local.

Este grupo foi formado por Sálvio Siqueira (de São José do Egito, Pernambuco), Cristiano Luiz Feitosa Ferraz e Giovane Macário (ambos de Floresta, Pernambuco), José Lopes Tavares (de Verdejante, Pernambuco, mas residente na cidade do Recife), Romilson Santos (de Aracaju, Sergipe), Vaneildo Bispo (de Canindé do São Francisco, Sergipe), Maria Oliveira (de Poço Redondo, Sergipe) e Richard Torres Pereira (de Serra Talhada, Pernambuco).

Eles se deslocaram ao local via Poço Redondo, até a sede administrativa do Monumento Natural Grota do Angico. Esta é uma unidade de conservação criada pelo governo do Estado de Sergipe, através do Decreto número 24.992, de 21 de dezembro de 2007. Está situada no Alto Sertão Sergipano, a cerca de 200 km de Aracaju, entre os municípios de Poço Redondo e Canindé de São Francisco, às margens do conhecido “Velho Chico”. A área de preservação possui um total de 2.183 hectares, em uma região que abriga remanescentes florestais da Caatinga hiperxerófila densa e foi criado com objetivo de preservar o sítio natural da Grota do Angico e elementos culturais associados, mantendo a integridade dos ecossistemas naturais da Caatinga, para o desenvolvimento de pesquisa científica, educação ambiental, ecoturismo e visitação pública. Desde a sua criação, a unidade é administrada pela SEMARH, recebe visitantes de várias partes do Brasil e do exterior, sendo a única unidade de conservação estadual de Sergipe inserida do bioma caatinga.

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Outra imagem da área da Grota do Angico, realizada pelo autor deste texto.

Neste belo local o grupo de pesquisadores deixou a sede administrativa por volta das quatro e quinze da tarde, percorrendo a trilha em cerca de trinta minutos, sendo acompanhados pelo guia do parque James Cardozo.

Ao chegarem a Grota do Angico o grupo encontrou Cícero Rodrigues (de Maceió, Alagoas), que havia feito o roteiro através deslocamento de barco via Entremontes (um distrito de Piranhas).

Foi nesse momento que o grupo percebeu que algo não estava correto.

Triste Vandalismo

Eles notaram que a cruz e a placa em memória da morte do soldado Adrião não estavam mais no seu local original.

Até recentemente quem chegava a Grota do Angico encontrava encravada nas rochas três cruzes que homenageavam aqueles que tombaram no combate de 28 de julho de 1938.

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Foto da ocasião em que o autor deste texto esteve na Grota do Angico e fotografou o local com as três cruzes.

Duas das cruzes, uma ao lado da outra, são dedicadas aos cangaceiros e uma outra, menor e localizada mais à esquerda destas duas, era dedicada ao soldado Adrião Pedro de Souza, o único policial morto no combate. Junto desta cruz havia uma placa chantada pelos membros de grupos ligados a pesquisa do Cangaço no Nordeste e que, infelizmente, também havia desaparecido. Tanto a cruz quanto a placa haviam sido colocadas na área em 2013.

Diante deste nefasto ato de depredação e vandalismo a indignação dos membros do grupo foi geral.

Giovane Macário assim descreveu a sua revolta:

Descemos  para a Grota do Angico, aonde chegamos ás 16:40 e nos deparamos com uma cena triste e revoltante, pois a Cruz e a placa em homenagem ao Soldado Adrião Pedro de Souza tinham sido furtadas por vândalos. Ficamos indignados com a cena e perguntamos ao guia quem tinha sido o responsável. Ele respondeu que da madrugada de domingo para segunda-feira, dia 25 de julho de 2016, teria acontecido o ato de vandalismo. Embora sabemos que esse ato criminoso partiu de alguém poderoso, não podemos acusar ninguém sem provas concretas, mais uma coisa eu tenho certeza – quem fez, isso a mando de alguém, não tem nenhum conhecimento histórico e fez a sociedade olhar para aquela cruz. Pois foi um ato criminoso da pior espécie e pedimos das autoridades competentes providências cabíveis”.

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Detalhe da cruz do soldado Adrião.

Já Cristiano Ferraz assim expôs suas impressões sobre a chegada do grupo a Grota do Angico, o ato de vandalismo ali praticado e a montagem do acampamento.

A última semana (especificamente os dias 27 a 30 de julho de 2016) foi de grande atividade para todos nós. Era chegada a hora de nos deslocar a Piranhas onde se realizaria mais uma edição do evento Cariri Cangaço. Alguns dos participantes do evento planejaram pernoitar no conhecido “Coito do Angico” no município de Poço Redondo, no Estado de Sergipe. Dois grupos foram formados. Um deles se deslocaria durante o dia, via Poço Redondo e outro seguiria durante a noite, de barco, via Piranhas, Alagoas (Este segundo grupo chegou à Grota do Angico por volta de uma e meia da madrugada).

Este grupo chegou à grota do Angico por volta das quatro e quarenta da tarde onde encontrou o companheiro Cícero Rodrigues. Foi nesse momento que percebi imediatamente a ausência da cruz do soldado Adrião.

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O grupo em progressão na caatinga.

Fiquei surpreso e preocupado com o fato e perguntei ao funcionário que nos acompanhou até o local sobre o destino da cruz, tendo ele explicado que fora retirada, usando a palavra “vandalismo”. Ele explicou que fora confeccionado um boletim de ocorrência do fato.

Inconformados e preocupados nós passamos a organizar o local do pernoite, armando as barracas e redes (cobertas com lonas) para prevenir das chuvas finas que têm caído no local este ano. Estes preparativos terminaram no início da noite quando, após comer algo (café, biscoitos, pão, etc.), decidimos descer para o local das Cruzes onde acendemos velas pelos mortos e passamos a estudar o local.

À noite, no escuro, o local dá a impressão de ser totalmente diferente do que vemos durante o dia….

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Como ficou o local depois do ato de vandalismo.

Uma Interessante Análise do Que Aconteceu em 1938

Por sua vez o amigo Sálvio Siqueira enviou um interessante texto onde ele faz várias análises do que viu naquela madrugada. Ele também trouxe no seu texto vários questionamentos sobre o fim do “Rei do Cangaço” em 1938.

E, para o bem do debate, os questionamentos devem continuam a existir!

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O grupo durante a noite na Grota do Angico.

“No dia 27 de julho de 1938, uma quarta-feira, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, está acoitado no leito do riacho Tamanduá, na fazenda Angico, fincado no município de Poço Redondo, Sergipe.

Ao romper da aurora do dia vindouro, segundo historiadores, do dia 28 de julho, ou seja, na quinta-feira, uma tropa militar, comandada pelo então tenente João Bezerra, é dividida em quatro, ou cinco frentes e ataca os cangaceiros no coito. 

Após o ataque, sabe-se da morte de onze cangaceiros, dentre eles o “Rei dos Cangaceiros”, sua companheira a “Rainha dos cangaceiros”, Maria Gomes de Oliveira, conhecida como Maria Bonita, e uma baixa militar, o soldado Adrião Pedro de Sousa, SD Adrião.

No momento do ataque, uma das colunas, a do Sargento Aniceto, perde-se, não encontrando o local previamente combinado. Com isso, abre uma rota de fuga para aqueles que estavam encurralados sob forte fogo dos soldados.

Pois bem, há duas versões, uma já nem tanto citada sobre o ocorrido, que seria a que ocorreu, com o auxílio de um coiteiro o envenenamento do grupo. A outra versão é que simplesmente a tropa chegou e mandou bala matando os cangaceiros. 

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As cruzes dos cangaceiros durante a noite.

Sobre o envenenamento, não há sustentáculo, pois o veneno teria atingido, se não mortalmente, parcialmente o restante do grupo.

Parte de nossos estudos, na ocasião, era conhecer o local na escuridão noturna, procurar saber as dificuldades que enfrentou a tropa para se aproximarem, como conseguiram tamanha façanha sem chamarem a atenção dos cangaceiros, e qual hora, aproximadamente, conseguia-se vislumbrar a silhueta de um corpo humano dando condições de ser alvejado.

O tempo, na noite do dia 27 de julho de 2016 para o clarear do dia 28, se comparado as condições climáticas, segundo o que relatam os historiadores, estava diferente da noite do dia 27 de julho de 1938. Não choveu.

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Fiz uma análise de como a tropa chegaria sem ser notada até ter visão e posição para atirarem. Usamos o mesmo dia da data do embate, só diferenciando na fase do quarto da lua, da época com a atual, um foi no minguante e a outra na fase crescente.

O calendário lunar nos diz que na noite do dia 27 de julho de 1938, a fase da Lua estava em Crescente. Já na noite do dia 27 de julho de 2016, a fase da Lua estava em Quarto Minguante.
(Fonte: http://www.vercalendario.info/…/portugal-mes-julho-2016.html)

Quarto minguante é uma das fases da Lua. Ocorre quando o ângulo Terra-Lua-Sol é aproximadamente reto, de modo que vemos apenas cerca da metade do disco lunar, no período em que a parte iluminada está diminuindo progressivamente. Já a fase da Lua no Quarto Crescente ocorre quando o Sol e a Lua estão em signos que se encontram a 90° de distância entre si, formando uma quadratura.

Fizemos essa pesquisa para vermos a qualidade de visão noturna, a olho nu, que tiveram mais ou menos os soldados, quando da sua aproximação ao acampamento alvo.

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A coisa não foi moleza não. Hoje, com as degradações causadas pelo tempo e homem, notamos a dificuldade de locomoção. Além disso, temos as trilhas, coisa que não acreditamos que tinha naquele tempo.

Após esses fatos pesquisados, esperamos o romper do dia. Lento e preguiçoso, ele começa a clarear vagarosamente…

Em direção ao Rio São Francisco, nós começamos a notar uma grande sombra, como se fosse um monstro deitado, dormindo. É à sombra de uma serra. Do lado contrário, ou seja, lado que se encontrava o bando acoitado, ainda não dava para divisar nada. Com o passar do tempo, começamos a vislumbrar imagens, vultos, sem termos a certeza do que seria… Mais um pouco de tempo e, aí sim, já se consegue ver bem uma pessoa. Quando registramos essas imagens, estávamos do lado, mais ou menos em que estavam os soldados que fizeram parte da coluna do tenente Bezerra.

Visão, só com a clarear do dia, pois o mato e localidade em que se encontravam aqueles que estavam dentro da grota, no leito do riacho, ainda estavam protegidos pelas ultimas sombras da noite. E mesmo pela mata e profundidade, impedindo um clarear definido.

Quanto à linha propícia de fogo, ou para fogo, posição de tiro, que foi de cima para baixo, só se consegue ter essa posição estando bem em cima, no topo da barreira. Com 30 metros de distância da beira da barranca não se consegue ver o fundo da grota. Nem com 20 metros, nem 15 metros, nem com 10 metros. Em fim, só há essa possibilidade, posição de tiro, estando com 5 metros ou menos em cima da barreira. 

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O acampamento.

78 anos depois do ataque, sem claridade ainda, tentamos nos aproximar sem fazermos barulho. Qualquer som, no silêncio da madrugada é escutado ao longe. Claro que a mata está diferente, mais para devastada, ou seja, na época do ataque, a mata era mais fechada causando mais dificuldades para se locomover dentro dela sem fazer barulho, principalmente se a pessoa estiver com bornais, facas, facões e fuzis nas mãos, aumentando o volume, é lógico que se necessita de mais espaço para se mover. Lembremos que a tropa contava com 50 praças, dividida e quatro ou cinco colunas.

A quantidade de cangaceiros é incerta. Não se sabe com exatidão o número dos que estavam ali acoitados.

Para saber-se da margem direita e esquerda de um rio, ou riacho, posicione-se no centro do leito e procure ficar de frente para onde as águas seguem, nessa posição, saberá a margem direita e a esquerda do rio, ou riacho, mesmo este sendo temporário.

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Cristiano Ferraz e membros do grupo. Agradeço a este nobre amigo, bem como a Sálvio Siqueira e Geovani Macário pelo apoio com os textos remetidos e revisão. O meu muito obrigado pelo apoio ao TOK DE HISTÓRIA.

Em nossa pesquisa, lá, no local, notamos que parte do grupo, o chefiado por Zé Sereno, ficou na margem esquerda do riacho. Fora do leito do riacho. Junto ao chefe mor só o seu Estado Maior. Dentro da grota.

A volante era composta por homens acostumados no mato, no entanto, os grupos de cangaceiros também eram formados por homens que conviviam desde que nasceram dentro do mato. Homens que tinham os sentidos muito bem aguçados, pois, dependiam deles para sobreviverem. 

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1938 – Curiosos diante dos corpos dos cangaceiros.

Caso imprevisto por nós, mas, que serviu muito bem como pesquisa, foi a chegada de seis outros pesquisadores entre 01:00 e 02:00 horas da madrugada já do dia 28. Nosso amigo, pesquisador Richard Pereira, escutou ruídos, sons que “informavam” a aproximação de pessoas. E eles estavam longe, muito distantes do acampamento, do outro lado do riacho ainda, por onde seguiu a coluna com o tenente Bezerra. E nós não estávamos com nossos sentidos alertas, com cuidado e medo de sermos atacados por volantes.

Bem, mesmo não sabendo a quantidade exata dos cangaceiros, mas, que se eleva ao número de trinta pessoas, sabemos ser ilógico que todos, exatamente todos eles, tenham se embriagado, coletivamente. E a ponto de não notarem algo suspeito? Lembremos, também, que eram pessoas foragidas, o que as deixava mais cuidadosas ainda. Com seus sentidos em alerta o tempo todo, mesmo inconscientes desse sentido, sentido causado pelo medo, medo de morrer. Mesmo assim, ninguém se deu conta de nada?

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1938 – A barraca de Lampião

Ainda tem a declaração de remanescentes que citaram que foram rezar o ofício e retornaram para as toldas. Mais uma linha de que já estavam acordados.

Bem, meus amigos, eu acredito que alguém, algum conhecido, bem chegado ao “Rei dos Cangaceiros”, tenha feito algum trato para se aproximar, e, com isso, a guarda fora totalmente baixada para que se desse a aproximação. Além de ter alguém, do próprio grupo de Lampião, tê-lo traído internamente. 

Zé Sereno, seus homens e outros estavam na parte de cima, em cima da barreira, um pouco mais recuados, em relação à posição de Lampião, com maiores possibilidades de escutarem, notarem, a aproximação da coluna que tomava chegada com o tenente Bezerra. Se acharmos que a cavidade em que se encontravam Lampião e outros cangaceiros, dificultada a propagação do som.

No entanto, partiram em oposição, e isso é mais uma prova do lugar em que estavam, em que se encontravam, contrária à correnteza e ao avanço da coluna que chegava no sentido noroeste do acampamento. E, por incrível que pareça o grupo parte em sentido sudoeste, e, é mesmo nesse sentido que o sargento Aniceto se perde com a sua coluna, deixando uma via de fuga.

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1938 – Morte de Lampião, Maria Bonito e seus companheiros em jornal do Rio de Janeiro.

Ao romper do dia, um dos pesquisadores do grupo, disparou vários tiros. Esses disparos faziam parte da pesquisa. Não se sabe de onde o tiro parte exatamente, pois, lá, naquele emaranhado de elevações e extensão do terreno, forma-se um eco constante. Não deixando ter-se, exatamente, a noção da posição exata do disparo. Lembremos que os pesquisadores que chegaram mais tarde, ao desembarcarem na margem direita do ri São Francisco, dispararam uma arma. Porém, só viemos saber quando eles chegaram e nos disseram. Mesmo no silêncio da madrugada, o tiro disparado as margens do “Velho Chico”, mesmo as água e os contrafortes das serras produzirem um eco, o som não chegou ao acampamento onde estávamos.

Como, então, parte do grupo tomou o rumo certo? 

O sentido exato da brecha deixada por um sargento que se perdera com seus homens?
Não falo de ouvi dizer, mais, de estar lá, naquele local, amanhecendo o dia, e escutando o eco de vários disparos as margens do riacho. A guarda do Capitão foi baixada, isso é correto afirmar.

Mas, por quê?

Como cito acima, acredito que tenha vindo um pedido de aproximação, não de uma tropa militar, é claro, mas, de uma pessoa, coiteira, que o fez ficar, ou continuar, à vontade.” 

No Exterior Esse Tipo de Ação é Normal 

Como tudo que envolve o Cangaço e Lampião sempre existem controvérsias, eu não duvido que muitos dos que venham a ler este texto talvez torçam o nariz diante desta empreitada.

<> on June 4, 2014 in Sainte Mere Eglise, France.
A pessoa com uniforme militar, apresentando um fuzil semiautomático Garand M1, na verdade é membro de um grupo de pesquisa e preservação histórica dos combatentes estadunidenses que participaram do famoso Dia D – Fonte Getty Images

Talvez vejam como uma grande perda de tempo e de esforço madrugar no meio do mato, onde foram mortos vários bandidos. Isso tudo em um país que tem um quadro atual de violência associado a uma verdadeira praga.

Mas é fato que o episódio da Grota do Angico é antes de tudo História.

Nos Estados Unidos e na Europa, regiões com um amplo histórico de confrontos bélicos e com inúmeros locais onde se desenrolaram terríveis combates, a presença de pesquisadores nestas áreas históricas é algo bem comum e aceito, inclusive pelas universidades.

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Membros de um grupo de pesquisa da Guerra Civil Americana apresenta as armas utilizadas pelos exércitos do sul.

Diversos grupos ampliam suas pesquisas a ponto de existirem interessantes reencenações de episódios históricos, com forte afluência de público desejosa de conhecer mais sobre estes conflitos.

Esses grupos, para realizar seu trabalho dedicam muito tempo pesquisando e debatendo como deve ocorrer uma reencenação, ampliando muitas vezes a informação histórica com o surgimento de interessantes detalhas.

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Reconstituição de um acampamento das tropas sulistas da Guerra Civil Americana, sendo apresentado no Texas.

Nos Estados Unidos predominam grupos que pesquisam e realizam reencenações sobre episódios da Guerra da Independência, da Guerra Civil Americana, de fatos da Segunda Guerra Mundial. Na Europa, principalmente na Inglaterra, Alemanha, Itália e Suécia, estes grupos pesquisam e reencenam episódios que abrangem fatos ligados desde os conflitos entre as Legiões Romanas e os Bárbaros, até a Segunda Guerra Mundial.

O grupo de nordestinos que estiveram na Grota do Angico, salvo informação em contrário, não pensa em uma reencenação histórica. O paralelo que faço com o que é realizado lá fora tem haver com a INICIATIVA de pessoas em conhecer a História de sua região.

E como dizem por aí que nós brasileiros somos tidos como um povo que não se importa muito com a sua História, então só tenho a louvar a empreitada deste grupo de nordestinos.


FONTES

http://joaodesousalima.blogspot.com.br/2016/07/cariri-cangaco-de-piranhas-nos-78-anos.html

http://g1.globo.com/se/sergipe/noticia/2016/07/78-aniversario-da-morte-de-lampiao-e-tema-de-celebracao.html

http://www.semarh.se.gov.br/biodiversidade/modules/tinyd0/index.php?id=11

http://www.utpa.edu/news/2015/03/making-history-utpa-launches-rio-grande-valley-civil-war-trail.htm

http://www.semarh.se.gov.br/biodiversidade/modules/tinyd0/index.php?id=11

O PREFÁCIO DE FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO PARA O LIVRO “AS CRUZES DO CANGAÇO – OS FATOS E PERSONAGENS DE FLORESTA-PE”

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Em um momento pouco produtivo no cenário de lançamentos de obras sobre o Cangaço, eis que surge um trabalho diferenciado e que merece esta chancela.

Texto inicial de Rostand Medeiros

Recentemente eu tive a oportunidade de retornar aos sertões de Pernambuco e Alagoas, onde segui os antigos rastros dos cangaceiros nos municípios de São José de Belmonte, Serra Talhada, Floresta (PE) e Piranhas (AL). Nesta jornada eu tive a grata companhia do artista plástico Sérgio Azol, potiguar radicado em São Paulo, que realiza um interessante e diferenciado trabalho artístico utilizando o Cangaço como tema.

Na bela cidade de Floresta fomos recebidos pelos escritores e pesquisadores Marcos Antonio de Sá, conhecido como “Marcos De Carmelita”, e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, ambos autores do livro “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE”, recentemente lançado.

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Os autores Cristiano Luiz Feitosa Ferraz (E) e Marcos Antonio de Sá (D), conhecido como “Marcos De Carmelita”.

Em um clima de extrema fidalguia, cordialidade e parceria, estes dois pesquisadores procuraram mostrar vários aspectos da bela cidade de Floresta e dos fatos relativos ao Cangaço na região. Além deste maravilhoso exemplo de cordialidade sertaneja, através do contato com Marcos e Cristiano eu pude adquirir o resultado de um interessante e valoroso trabalho de pesquisa sobre o Cangaço.

O livro eu recomendo sem nenhuma ressalva aos amigos e amigas que gostam deste tema, pois antes de tudo é resultado de muita pesquisa de campo e de muitas horas de diálogos com os guardiões da memória na região. Tudo conduzido de maneira séria e objetiva.

Em minha opinião as páginas de “As cruzes do Cangaço” possuem várias virtudes. Mas a que mais me chamou atenção foi a deste livro não se perder em uma abrangência geográfica e histórica desnecessária, de focar a história do Cangaço em uma área específica – Floresta. Os autores competentemente dissecaram interessantes pormenores ali ocorridos, que por sua vez se ligam a inúmeros outros episódios da história do Cangaço em outras partes do Nordeste.

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Marcos Antonio de Sá comentando aspectos de sua obra.

A obra é tão dinâmica e envolvente que me fez refletir que talvez tivéssemos conhecido a história do Cangaço de uma forma muito diferente se existissem mais pesquisadores como Marcos e Cristiano. Fiquei imaginando o que ganharíamos em termos de conhecimentos se, em um passado nem tão distante assim, quando inúmeras testemunhas daqueles dias difíceis ainda estavam neste plano, existissem mais pessoas focadas e dispostas a correr atrás da história como estes dois florestanos.

Não é a toa que “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE” recebeu uma deferência rara nos dias atuais – O prefácio de Frederico Pernambucano de Mello.

Acredito que o respeito por quem palmilha o solo duro e poeirento do sertão atrás da história, além do resultado de uma pesquisa séria e objetiva, foram alguns dos fatores que fizeram um intelectual do porte de Frederico Pernambucano de Mello realizar o prefácio deste livro.

A meu ver Frederico é um homem muito consciente da sua história acadêmica, da sua obra e do peso do seu nome. Ele não chancela qualquer trabalho sobre este tema, usa de muitos critérios e neste aspecto ele está certo.

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Os autores entregando um exemplar do seu trabalho aos descendentes da família Gilo, na fazenda Tapera dos Gilo, local do maior massacre da história do cangaço, fato extensamente narrado no livro.

Até mesmo porque atualmente sobram muitas obras sobre o Cangaço são realizadas sem nenhuma pesquisa ao sertão. Muitos destes trabalhos são produzidos no conforto de cadeiras reclináveis, em ambientes extremamente assépticos, refrigerados por potentes aparelhos de ar condicionado e com objetivos muitas vezes distintos do resultado de uma pesquisa histórica e focados em alvos bem escusos.

Mesmo assim, não posso negar que algumas destas obras me despertam certo interesse. Mas eu conto nos dedos os exemplos positivos!

Afora isso ainda temos pessoas que são ligados a este tema e que parecem possuir sérios problemas de diversos matizes e que só criam problemas para os que querem produzir de verdade. E estes não são poucos!

Existem os que nos seus devaneios interiores se acham “Mestres da História do Cangaço” e se sentem sumamente injuriados por uma pequena crítica, principalmente no âmbito da internet. Ou aqueles que por conta de uma vírgula mal colocada, ou de uma referência na imprensa realizada de forma incorreta por um jornalista medíocre, criam ódio mortal a um pobre interlocutor. Tem os que se sentem “donos” da história do Cangaço em suas cidades, que criam toda ordem de obstáculos para os pesquisadores vindos de fora, mas também não produzem nada de interessante sobre os acontecimentos ligados ao tema em seus rincões. Temos as interessantes figuras advindas das Academias, que por serem laureados por obras acadêmicas, muitas delas medíocres e criadas apenas para “engordar” os inócuos currículos inseridos na plataforma de Currículos Lattes, colocam-se na posição de verdadeiramente exigir o resultado do trabalho daqueles que apaixonadamente rodam muito pelo sertão para conseguir uma pequena informação. Ou ainda aqueles que se acham “pesquisadores” apenas por se fazerem presentes aos muitos encontros de admiradores do tema, ou por baterem fotos de um túmulo de alguém ligado ao Cangaço. Os exemplos negativos destas figuras são bem amplos para este espaço.

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Antigo quartel da Força Pública em Floresta. Atualmente em ruínas, mas merecendo uma recuperação pela sua impotância histórica.

Talvez eu não seja a pessoa mais correta para comentar sobre estes “doutos” autores que realizam o que denomino “Livros de Cangaço de Gabinete”. Mesmo sendo autor de quatro livros, nenhum deles foi sobre o tema. Mas eu não vou me escusar de comentar, pois já produzi e democraticamente já divulguei muita coisa sobre o Cangaço aqui no TOK DE HISTÓRIA.

Seria interessante que estes autores de gabinete copiassem o belo exemplo de Marcos Antonio de Sá e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz em relação à obra “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE” – Deveriam tentar realizar mais seus trabalhos sentindo o que é realmente o sertão!

Talvez isso não ocorra atualmente com tanta frequência porque, mesmo com todas as facilidades logísticas, aparentemente são poucos os que desejam realizar seus trabalhos escritos após encararem as estradas pedregosas do sertão, a poeira, os quase sempre normais 40 graus positivos na canícula e outras situações desconfortáveis.

Mas ao passar por estes possíveis desconfortos, estes autores teriam então a oportunidade de conhecer em profundidade uma região ímpar no território brasileiro. Uma área cheia de contrastes interessantes, comida saborosa, natureza diferenciada e, principalmente, pessoas incríveis e maravilhosas.

Além disso, poderiam receber algo muito interessante e diferenciado dos que realmente gostam e estudam este tema da história nordestina – Respeito.

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Ao centro vemos Frederico Pernambucano de Mello, tendo a sua direita Cristiano Luiz Feitosa Ferraz e a sua esquerda Marcos Antonio de Sá, conhecido como “Marcos De Carmelita”. Marcos e Cristiano são os autores do livro “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE”, cujo prefácio é de autoria de Frederico.

PREFÁCIO DE FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO

AS CRUZES DO CANGAÇO – Os fatos e personagens de Floresta-PE, por Frederico Pernambucano de Mello. Uma verdadeira aula de História, por quem entende de História e sociologia:

Floresta: bravura e talento

Floresta, velho município pernambucano de território outrora imenso, encravado no vale doPajeú, a 433 km do Recife, tem o privilégio de aliar dois primores bem acima da média: o das armas e o da pena. Seus homens de guerra, de um lado e do outro da lei, notabilizaram-se pela valentia desde o período colonial, cultivada ao longo de toda a madrugada de sangue da conquista da terra ao tapuia guerreiro, no afã de assentar os currais de gado civilizadores, vindo a dar vida a uma crônica de passagens épicas não raro inacreditáveis, não contassem os fatos por si com o abono de documentação copiosa.

É nesse ponto que se encarta o segundo dos primores a que aludimos, que tem por fonte a produção intelectual dos filhos da terra, entregues ao empenho de colocar a pena a serviço da per-petuação dos acontecimentos mais quentes da ribeira do riacho do Navio. E nos dando, do mesmo modo, as ocorrências amenas daquele cotidiano que sedimenta a história, a partir dos assentos sociais, econômicos, políticos, religiosos ou apenas ligados à natureza do lugar, de chãs imensas, ipueiras generosas e serras férteis. 

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Cemitério onde vários membros da familia Gilo foram enterrados após serem massacrados pelo bando de Lampião.

Sem se deter por aí, a pena florestana vai além das coisas pas-sadas no universo da caatinga, ofertando estudos de interesse nacional relevante. Quantas vezes não ouvimos de Gilberto Freyre, nosso mestre por quinze anos, elogios ao trabalho de investigação antropológica conduzido por Álvaro Ferraz, médico da então Brigada Militar de Pernambuco, e por seu assistente, Andrade Lima Júnior, intitulado A Morfologia do Homem do Nordeste. Estudo que Gilberto tratou de editar em livro de 1939, convertendo-o em marco da disputada Coleção Documentos Brasileiros, da Livraria José Olympio, de que era diretor com carta branca. Vitória florestana por excelência. Como vitória igualmente notável nos vem da contribuição do militar e professor Carlos Antônio de Souza Ferraz, com o seu Floresta do Navio: Capítulo da História Sertaneja, de 1992, timbrando na mesma tecla a que já se dedicara, em outro livro, o admirável Doutor Álvaro. 

Como esquecer nesse arrolamento o estudo de história política denominado Liberais & liberais, da professora Maria do Socorro Ferraz Barbosa, da Universidade Federal de Pernambuco, vindo à luz em 1996, ponto alto de bibliografia concebida, toda ela, com rigor digno de nota. Ou a contribuição de Leonardo Ferraz Gominho, com o seu Floresta: uma Terra, um Povo, também de 1996. Ou ainda os estudos da professora Bartira Barbosa acerca do rio São Francisco, desde quando possuía apenas o nome indígena de Opara.

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Marcos mostra uma antigas estaca de uma das casas atacadas e destruidas pelos cangaceiros no ataque a Tapera dos Gilo.

No plano do memorialismo, oriundo de vivência direta ou de recolha da história oral que se refugia em nichos de família, seria imperdoável deixar de mencionar os livros de Marilourdes Ferraz, O Canto do Acauã, de 1978, com várias reedições, hino de amor de uma filha ao pai guerreiro, que foi o coronel Manuel de Souza Ferraz, o Manuel Flor, da nossa Polícia Militar, a se bater contra o chamado banditismo rural por muitos anos, em todo o Nordeste. Mesmo tema no qual despontou, já com os primeiros cabelos brancos a circundar a calva, o tenente João Gomes de Lira, filho do lendário Antônio Gomes Jurubeba, um dos braços fortes da resistência heroica de Nazaré – vilazinha perdida em meio ao oceano de caatingas que se estendia até o beiço do rio São Francisco – contra o império de terror implantado pelo maior de todos os cangaceiros, o lendário Capitão Lampião. E ele próprio, o então juveníssimo soldado Joãozinho, a passar a cartucheira na cintura, cingir o punhal, embarbelar o chapelão e acompanhar a força volante do parente Manuel de Souza Neto pelos carrascais de Pernambuco e da Bahia.

Foi por lá, às voltas com águas de presença incerta nos anos de seca, que todos esses memorialistas se fizeram testemunhas dos fatos do lugar, tomando contato com a crônica dos homens de sangue no olho que se entregavam à “vida da espingarda”, sem deixar de ter as vistas abertas para a ação duramente civilizadora dos coronéis chefes políticos sertanejos, comandantes de terras e de homens por todo o Brasil Colônia. Com trânsito pelo Império, chegando à República e ultrapassando até mesmo o regime temperado ao calor das brasas da Revolução de 1930. Coronéis que lançavam luz, a seu modo, sobre o universo rural brasileiro, para o que não se eximiam do emprego do baraço e do cutelo, assim lhes ditasse a circunstância. Protagonistas no processo social desdobrado em nossa terra, em qualquer caso. Afinal, Gilberto Freyre já proclamou que o Brasil não foi colonizado pela Coroa ou pelo Altar, mas pela família patriarcal. 

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Marcos explica com o se deu o atque da Tapera dos Gilo.

A base humana do coronel foi essencialmente o patriarca, às voltas com a agricultura e a pecuária em suas terras sem-fim, raramente se abrindo o espaço social para a figura da matriarca, a exemplo de Fideralina Augusto Lima, das Lavras da Manga-beira, Ceará; ou para um religioso, caso do Padre Cícero, do Juazeiro, no mesmo estado; ou para um autocrata modernizador, como se viu com o industrial Delmiro Gouveia, na Vila da Pedra, Alagoas, ou com Veremundo Soares, em Salgueiro, Pernambuco. 

Já tivemos ocasião de dizer que a civilização dos campos do Nordeste recaiu sobre os chamados homens bons da linguagem de época, os principais da terra, capitães e sargentos-mores de Ordenanças, corporação de origem portuguesa datada de 1569 e introduzida no Brasil em 1575, que se converterá em Guarda Nacional a partir de 1831. A existência legal da nova corporação se estendendo até 1918, quando vem a ser extinta por decreto presidencial. 

Os integrantes das corporações de Ordenanças ou da Guar-da Nacional, metidos nas fardas vistosas que saíam do guarda-roupa nas eleições e nas solenidades, nada mais eram que os indivíduos mais bem sucedidos no empreendimento colonial por sua face privada, cedo cooptados em instâncias de poder público local – a um tempo, militar e político – pela habilidade de uma Coroa que se reconhecia pobre de capitais e de agentes, mas certamente não de astúcia. Não daquele pragmatismo eficiente que tantos proclamam ter permeado os dois primeiros séculos da colonização. 

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Os autores junto com um dos gtuardiões da memória do Cangaço em Floresta e na companhia de Sérgio Azol e Rostand Medeiros.

Vitoriosamente hábil, essa Coroa com os pés no chão, sobretudo no modo de desbravar um território gigantesco como o nosso e de se fazer presente em todos os rincões que o integram. Eis aí conquistas difíceis de explicar pelo intérprete da história ainda hoje. 

O passar dos anos, aprimorando a administração pública, vai permitir ao estado ir mostrando o rosto nos mais diferentes lugares, da pancada do mar ao grotão mais arredado. A morte do coronel da Guarda Nacional estaria fadada a ocorrer, pela perda natural da utilidade, ainda no final do Império. Morte por inanição. Lenta. Inexorável. 
Não foi que aconteceu. A partir de 1898, o que se vê é o presidente da República, à época Campos Sales, delegar poder político quase absoluto aos governantes estaduais, estes, aos chefetes municipais, quase todos graduados da Guarda Nacional, nas patentes de alferes a coronel. Compromisso sagrado, dessa que ficou conhecida como Política dos Governadores: votar com o presidente. Sem perguntas. E a República Velha vira pasto dos chefes políticos militarizados pela Guarda Nacional, a se espalharem, livres de canga e corda, até 1930, quando sentem o primeiro golpe com o movimento revolucionário que toma conta do país naquele ano. Aguentam. Adaptam-se. Fingem-se de mortos, em alguns casos. Trocam o couro, imitando as cobras. E lá estão de volta com a Constituição de 1934, que põe fim ao Governo Provisório de Getúlio Vargas com uma das mãos, e o devolve ao poder, com a outra, ungindo-o presidente constitucional por mais quatro anos.

Mandato que o gaúcho de São Borja findaria por espichar em quinze anos de reinado absoluto, graças às mil astúcias de que era capaz, conhecedor profundo da alma humana como sempre se mostrou ser, especialmente das fraquezas que a sombreiam. 

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Aspecto de Floresta.

O paraíso do coronel do interior era aquele Brasil anterior a 1930: um país de 35 milhões de habitantes, 70% morando no campo, 60% de analfabetos, em que o presidente da República era eleito por menos de 3% dos eleitores. Em que o voto não era secreto nem feminino. E as eleições, uma farsa. 

Eis aí o caldo de cultura que permitiu a disseminação do fenômeno do cangaço por todos os rincões do Nordeste rural, bafejado pela indevassabilidade da fronteira entre os estados e pela inviolabilidade da fazenda-feudo do coronel que estivesse de cima na política.

Fenômeno que não se detinha diante da fronteira estadual, reprimido ironicamente por polícias que não possuíam ação regional. É claro que, com o tempo, foram surgindo encontros entre governadores ou seus chefes de polícia, no intuito de subtrair o trunfo aos bandidos. Mas o prejuízo já estava feito. O cangaço se espalhava por todas as ribeiras da região, subindo de endêmico a epidêmico nos períodos de seca. Na de 1879, porventura a maior de que se tem notícia, um dos mais antigos cantadores-repentistas do Nordeste, Joaquim Jaqueira, talento que alguns dão como cearense, outros, como alagoano, nobilitado, em qualquer caso, por cantar na Pitombeira, para o barão do Pajeú, traçava o quadro da geografia do punhal em início de expansão:

Aí foi que os cangaceiros
Caíram no gado sem dó:
Calango, no Cariri,
Sereno, no Piancó,
Barbosa, lá no Navio,
Antõi Grande, em Moxotó.

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Rostand Medeiros no antigo Quartel.

Nos sertões do Nordeste, palco do livro que se vai ler, intitulado As Cruzes do Cangaço, escrito, em coautoria harmoniosa, por Marcos Antonio de Sá e por Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, jovens florestanos que não mediram esforços no afã de levantar e detalhar ao máximo os acontecimentos verificados no território atual da província de berço, o poder do cangaço atingiu níveis alarmantes, desapropriando, de facto, áreas inteiras do município de Floresta. Tempo de inversão de papéis, em que o soldado se escondia do cangaceiro, como disse o sargento volante Optato Gueiros, em rasgo de sinceridade acerca do ano de 1919.

A partir dos Anos 1910, foi comum que bons jornais recifenses, como o Jornal Pequeno e o Jornal do Recife, para não falar de A Província, de O Pernambuco e do Diário de Pernambuco, trouxessem seções fixas sob as manchetes “Questão da Vila Bela” e “Questão de Floresta”, tratando dos lances qua-se diários da disputa sangrenta entre as famílias Pereira e Carvalho, e do ajuste de contas entre os cangaceiros Cassimiro Honório e Zé de Souza, respectivamente. Toda uma geração abriu os olhos nas ribeiras do Pajeú e do Navio vendo a terra de seus pais pegar fogo, em meio às correrias do cangaço. E precisou adestrar-se no uso das armas brancas e de fogo, como requisito de sobrevivência.
Marcos e Cristiano não inauguram a crônica da guerra social florestana, é certo, que já dispunham das contribuições re-levantes de Marilourdes e de João Gomes, entre outros, mas vão além no detalhamento, por vezes correção, de episódios emblemáticos ocorridos em seu chão de berço, a exemplo da formação do povoado de Nazaré, das primeiras lutas do futuro Lampião e de sua família, da tragédia incrível da fazenda Tapera, da questão entre Horácio Novaes e Tibúrcio Gomes, do fogo do Tigre, do grande combate da Favela, do choque de parentes no riacho do Mundé, da Revolução de 1930 na cidade, do desforço cruel da fazenda Gravatá, do ataque à fazenda Barra da Forquilha pelo bando de Moreno, em meio à crônica de sangue da passagem desse carrasco de Lampião pelo município, todo o sumário servido com o molho dos diálogos refertos de regionalismos, das pabulagens, dos chamados ditos de mofa, dos pregões de valentia. 

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A Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no município de Floresta, estado de Pernambuco, surgiu a partir de um antigo oratório da Fazenda Grande, dedicado ao Senhor Bom Jesus dos Aflitos.

Como resultado do esforço que sabemos ter sido grande, os jovens autores nos permitem saborear o êthos e o páthos de uma ribeira pernambucana de imensa riqueza cultural, dando-nos, do mesmo passo, a satisfação de uma leitura aliciante, com o risco do leitor somente se deter para as refeições, como foi o caso deste prefaciador.

A Marcos Antonio de Sá e a Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, sem esquecer o revisor Leonardo Gominho e o consultor em genealogia Nivaldo Carvalho, os cumprimentos de quem, padrinho da obra, já se investe do privilégio de cobrar novos estudos à dupla de primos, ampliados a fim de abranger todas as ocorrências da Grande Floresta de outrora.

Frederico Pernambucano de Mello
Historiador da Academia Pernambucana de Letras


SERVIÇO – Valor do livro – R$ 50,00, mais o valor da postagem.

Contato para adquirir o livro – CRISTIANO FERRAZ – 87 – 99918 1728

LAMPIÃO EMPRESÁRIO

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Fonte – http://www.itribuna.com.br

Parece estranho falarmos de Cangaço e termos que recorrer a conceitos próprios do ambiente empresarial moderno; mas, nos aprofundando um pouco mais na história intrigante de Virgulino Ferreira, não nos parece exagero considerar que já naquela época o engenhoso bandido das caatingas conhecia muito bem o valor do Marketing Pessoal, da Política da Boa Vizinhança, Lobby e Tráfico de Influência, até mesmo noções de Logística Empresarial; na verdade não conseguimos conceber um reinado tão extenso de uma vida fora da lei em circunstâncias tão adversas, sem que boa parte desses conceitos não fizesse parte da mente prodigiosa de Lampião.

Desde cedo pela própria profissão da família; eram almocreves; Virgulino e os irmãos passaram a conhecer toda a região e fazer um grande ciclo de relacionamentos, que mais tarde, unido a ingredientes como o medo e o favor, seriam de muita valia. Sem falar que essa espetacular rede de “apoiadores” ou coiteiros, formada de gente miúda e graúda, foi fundamental para a sobrevivência por tanto tempo do famoso grupo.

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Fonte – canalcienciascriminais.com.br

As condições inóspitas e hostis da caatinga exigiam, além da extrema capacidade física, um exagerado instinto de sobrevivência. Comida, água, descanso, dormida, eram luxos muitas vezes esperados por dias a fio. Andanças intermináveis, muitas vezes em círculos, passando por vários estados em poucos dias carecia de um mínimo de organização e senso de direção, sem falar na constante perseguição por parte da policia volante, de sete estados nordestinos.

Um líder sempre atento à seus próprios movimentos.

Outro fator preponderante era o acesso à munição. Até os mais próximos do grande chefe do grupo, não sabiam de onde vinha tamanha carga de armamento, inclusive recebendo o que havia de mais moderno na época, exclusividade que nem as forças policiais recebiam.

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Penso que o maior de todos os diferenciais entre Lampião e os outros grandes chefes do cangaço, como Jesuíno Brilhante, Antonio Silvino e mesmo Sinhô Pereira, sem dúvidas era o seu cérebro privilegiado. Mesmo compreendendo a posição de amigos pesquisadores quando defendem a desconstrução do mito de que Lampião não tinha nada de estrategista militar e que seu sucesso e longevidade na vida cangaceira se deveu a uma “mistura de incompetência e corrupção, por parte dos governos, e instinto de sobrevivência da parte dele, Lampião”; as espetaculares técnicas desenvolvidas para a “guerrilha” na caatinga, muitas vezes foram determinantes para salvar vidas e vencer batalhas, muitas delas beirando ao absurdo do desequilíbrio de forças, como a de Serra Grande onde uma força volante de perto de 400 homens não conseguiu dá cabo do grupo cangaceiro com pouco mais de 70 cabras, que se valiam desde o ousado enfrentamento em nítida desvantagem, à retirada estratégica quando lhe era conveniente, muitas vezes o bando simulava o abandono do embate e voltava pela retaguarda e encontrava a força volante totalmente desprevenida, fatos confirmados por exemplo nos combates do Serrote Preto e Maranduba… 

No cangaço de Virgulino, cada peça se encaixava em seu lugar…

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Fonte – http://www.onordeste.com

Na verdade, o próprio estilo de vida cangaceira; uma espécie de nômade das caatingas, o profundo conhecimento da região e suas sólidas redes de apoio logístico, lhes conferiam um grande poder de mobilidade, como também maiores condições de escaparem da polícia. 

Um dos maiores cuidados do grupo era evitar o movimento pelas estradas, e mesmo dentro da caatinga tomavam cuidados excessivos com relação aos rastros. O ato de andar em fila indiana, todos seguindo na mesma pegada, até o mito de calçar alpercatas com o salto na frente e o último do grupo apagar as pegadas com galhos de plantas eram providências costumeiras para dificultar o trabalho dos rastreadores das volantes, o cuidado em acender o fogo para a comida e até mesmo em enterrar os restos de animais sacrificados e restos de comida eram costumais, além do uso de cães para a sentinela e um entrançado de fios e chocalhos ligados entre si pela catinga, para denunciar a presença indesejada. Ao invadir os lugarejos o primeiro alvo eram sempre os fios do telégrafo.

Um líder consciente do poder de sua própria imagem e mito…

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Manoel Severo Barbosa, Curador do Cariri Cangaço

Outra tática que visava confundir o trabalho das volantes era não deixar os corpos de seus companheiros abatidos em combate, quando era inevitável, cortavam as cabeças dos mesmos para evitar que fossem identificados. O grupo também possuía o hábito de para os novos membros adotar a alcunha ou apelido de outro companheiro morto, também na intensão de confundir a polícia, perpetuando o personagem abatido. 

Dessa forma não seria exagero nenhum, declinar Virgulino Ferreira como um dos cérebros mais privilegiados de sua época, razão sem dúvidas que permitiu seu “reinado” por quase vinte anos; de sua simpática Vila Bela em 1918 até o fatídico julho de 1938, em Angico. 

TEXTO – Manoel Severo Barbosa – Curador do Cariri Cangaço

Fonte – https://www.facebook.com/manoelsevero?pnref=friends.search

CANGAÇO

 

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Fonte – http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Canga%C3%A7o+&ltr=c&id_perso=308

O cangaço já foi estudado de trás pra frente e da frente pra trás. Está nos livros de história, nas enciclopédias e dicionários, no cordel, no cinema, na televisão, na cantoria, nos inúmeros estudos publicados por pesquisadores do tema. Contudo, mesmo sendo tratada à exaustão, a fonte parece não estar esgotada.

E a fonte cangaceira nunca se esgota porque vai surgindo, a cada dia, uma nova tese, um novo ponto de vista, um novo e acirrado debate. Cite-se, por exemplo, os seminários e encontros sobre o tema, onde novos estudos são apresentados, abrindo novas perspectivas de conhecimento e de discussão. Contudo, abordagens mirabolantes, muitas vezes.

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Fonte – http://tvbrasil.ebc.com.br/caminhosdareportagem/episodio/a-rota-do-cangaco

Os debates se ampliam pela própria instigação que o cangaço produz. Logo chega um pesquisador com novas conclusões sobre o que aconteceu na Gruta de Angico, a 28 de julho de 1938, quando Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros foram chacinados pela volante comandada pelo Capitão João Bezerra. Mas outro logo rebate o estudo, afirmando, também com elementos novos, que a dita chacina de Angico não passou de uma grande armação da genialidade de Virgulino.

Já outro diz que determinada batalha entre cangaceiros e volantes jamais poderia ter ocorrido naquela data e naquele lugar. E por isso, por isso e mais isso. Há o que defende a amizade havida entre os dois capitães, Lampião e João Bezerra, o que, por si mesma, já derrubaria a tese de a chacina ter acontecido naqueles moldes. Se realmente aconteceu. E ainda outro sustenta, jurando por pai e mãe, que o grande cangaceiro morreu centenário lá pelas bandas não sei de onde.

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Subgrupo do cangaceiro Pancada na rendição à volante, em 1938 – Fonte – https://www.google.com.br/search?q=CANGA%C3%87O&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwj-o82Bg7XMAhUFRiYKHQEECj4Q_AUIBygB&biw=1066&bih=440#imgrc=UYs2jWDWFw8R3M%3A

E tudo isso vai virando livro, sendo repassado como verdade. Entretanto, enquanto pesquisa, a grande maioria tende a ser refutada mais tarde, com o surgimento de novos estudos cangaceiros e a convalidação cada vez maior de outros já desenvolvidos. Tais fatos, contudo, ao invés de enriquecer a história do cangaço, acabam empobrecendo-a, vez que grande parte dos estudos surgidos não deveria nem ser publicada se os seus escritores tivessem um pouco mais de senso de responsabilidade com fenômeno tão sério e tão marcante na história nordestina e brasileira.

E talvez me inclua entre os irresponsáveis da história, vez que já desenvolvi um trabalho ficcional (ainda não publicado) dentro da possível realidade cangaceira. Nesta obra, crio situações inexistentes, brinco com o acontecido, acrescento elementos fantasiosos entremeando os fatos históricos. Mas irresponsável até certo ponto, pois não escrevi a ficção para que passasse como verdade. Pelo contrário, quem lê minhas histórias e relatos logo sente que tudo não passa de uma criação literária na fonte profícua do cangaço. Diferencia-se, pois, da irresponsabilidade premeditada, como vem ocorrendo em algumas publicações estapafúrdias.

antonio silvino (ao centro), entre os seus captores, foto publicada no jornal de recife em 02 de dezembro de 1914
Prisão de Antonio Silvino – Fonte – beradeirocurioso.blogspot.com

Voltando às pesquisas e novos escritos, urge acrescentar que muitos trilham uma nova opção de estudo, e esta baseada em fatos particulares dentro da amplitude contextual. Entretanto, o destrinchamento da história, ou a opção por analisar fatos particulares, acaba ofuscando o contexto geral do cangaço. Ora, o cangaço não é só a Gruta do Angico, o Fogo da Maranduba, o Raso da Catarina, a suposta traição do coiteiro, as vestimentas e costumes cangaceiros, os conchavos coronelistas. Mas a junção disso tudo e muito mais. Ao particularizar demais a história, terminam incorrendo no erro de não possibilitar uma visão mais geral sobre o fenômeno.

Obra prima ou não, verdade é que Billy Jaynes Chandler trilhou pelo caminho do todo, ainda que devesse ter abordado também outros temas dentro do mesmo contexto. Buscou as afluências cangaceiras através da história de Lampião. Outros autores, ainda que pretendam possibilitar uma visão geral do fenômeno, acabam priorizando fatos e, o que é pior, tomando partido, procurando analisar a crueza a partir de ideologias próprias. Proliferou-se ainda uma história particularizada, onde personagens do cangaço ou do contexto cangaceiro têm suas vidas narradas em tom biográfico.

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Exposição macabra de cangaceiros do bando de Lampião que foram mortos por civis liderados por Antonio Manuel Filho, o Tenente Antonio de Amélia, que cumpriu a promessa de vingar a morte de um amigo.Em pé amarrados a troncos de madeira estão os corpos dos quatro cangaceiros: Suspeita, Limoeiro, Fortaleza, Medalha e no caixão abaixo o corpo de Félix Alves, um civil que morreu durante o combate – Fonte – http://beradeirocurioso.blogspot.com.br/2014/08/10-fotos-marcantes-e-as-historias-por_24.html

Talvez evitando destrinchar minuciosamente aquela imensa colcha de retalhos nordestina, com labirintos e veredas até hoje desconhecidas, optam por cuidar do tema através de seus personagens, de episódios ou de aspectos. Neste sentido, livros sobre o perfil de Lampião, de Maria Bonita e demais cangaceiros, sobre soldados da volante, sobre a estética cangaceira e até sobre a sexualidade daqueles viventes das caatingas.

Tudo isso é válido e de inestimável valor como objeto de pesquisa, ainda que muitas obras não passem de arremedo literário ou de puro enojamento e cinismo, como ocorreu com o famigerado livro “Lampião – O Mata Sete”, de um autor sergipano. Do mesmo modo, não creio que mereça um justo reconhecimento obras que apenas procuram citar os estudos já desenvolvidos por outros autores, sem que os autores desenvolvam uma linha de raciocínio própria e jamais tenham conhecido de perto qualquer trilha cangaceira, ou mesmo bebido na fonte dos acontecimentos. Voltam-se demasiadamente para as pesquisa bibliográfica e abdicam do estudo de campo e outras técnicas e fontes de investigação.

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Após o massacre de Angicos, muitos cangaceiros entregaram-se.O contexto das entregas teve início com o aparecimento espontâneo de cangaceiros, que se apresentaram, em 12 de outubro de 1938, quando de uma pregação dos freis capuchinhos Francisco e Agostinho de Loro Piceno, em terras de Jeremoabo. Este, dirigindo-se aos cangaceiros, convidou-os à se entregarem, oferecendo-se como intermediário. – Fonte – http://beradeirocurioso.blogspot.com.br/2014/08/10-fotos-marcantes-e-as-historias-por_24.html

Ademais, forçoso é admitir a falta de um fôlego maior entre os estudiosos e pesquisadores, principalmente os mais jovens. Para se ter uma ideia, os livros essenciais sobre o cangaço já datam de muito tempo. Antes mesmo de Chandler – e mesmo depois -, alguns autores brasileiros produziram textos profundos sobre o tema. E dentre eles Maria Isaura Pereira de Queiroz, Melchiades da Rocha, Ranulfo Prata, Rui Facó, Frederico Bezerra Maciel e Frederico Pernambucano de Mello. Só para citar alguns.

Na verdade, existem muitas obras que realmente procuram adentrar no cerne do fenômeno para compreendê-lo e explicá-lo. Mas há um porém nisso tudo. Por que, até o presente, não há um entendimento mais generalizado e mais coerente sobre o cangaço? Ora, não se trata de uma história que possa ser contada segundo o desejo ou a tendência do pesquisador. No cangaço, ou foi ou não foi, e está acabado. O problema todo reside no fato da desconstrução do conhecido para forjar o surgimento do duvidoso.

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A senhora da foto acima é a dona de casa Maria Marques. Na época do Cangaço Lampião e seu bando marcavam mulheres no rosto, seja para mostrar propriedade ou como punição por comportamento indevido. As letras no rosto de Maria Marques são: “JB” pertencentes ao cangaceiro José Baiano. – Fonte – http://beradeirocurioso.blogspot.com.br/2014/08/10-fotos-marcantes-e-as-historias-por_24.html

Mas devemos reconhecer que não é tarefa fácil empreender um estudo mais aprofundado sobre o cangaço. O próprio conceito, até hoje, ainda não foi delimitado, ainda não se chegou a um consenso sobre o que realmente foi, o que objetivou e qual o seu significado. Para se ter uma ideia, basta folhear alguns livros ou enciclopédias para encontrar conceitos ora afirmando ter sido o cangaço um movimento social, ora um tipo de reles banditismo, ou ainda um virulento grupo de homens armados, dentre outras acepções.

Um destes conceitos diz que o cangaço foi um fenômeno social ocorrido no Nordeste brasileiro, de fins do século XIX até 1940, motivado pelas condições político-sociais peculiares da região, tais como a estrutura feudal da propriedade agrária e o atraso econômico. Caracterizou-se pelo aparecimento de grupos de bandoleiros errantes, que percorriam o sertão saqueando fazendas e cidades e lutando contra bandos rivais e polícia. Assim está no verbete da Enciclopédia Universal Gamma.

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Fonte – http://www.blogdodidi.com.br/sao-s-do-umbuzeiro/fato-que-virou-noticia-passagem-dos-cangaceiros-em-sao-sebastiao-do-umbuzeiro/

Outra conceituação recorrente diz que o cangaço é fruto do cenário de seca, fome, concentração de terras e mandonismo instalados no Nordeste brasileiro. E cita que as lutas entre famílias poderosas motivo o uso de armas, fato que ficou conhecido como cangaço temporário. No passo seguinte, a violência deixa de ser gerada por guerras particulares para se transformar no que se tem por cangaço permanente. Contudo, não vejo com correção que se pretenda dividir o cangaço em temporário e permanente, ou mesmo noutras divisões. E também errôneo, vez que as rixas entre famílias poderosas não devem ser vistas como gestação cangaceira. A não ser pelo uso do jagunço sertanejo para resolver os problemas de sangue.

Já outra conceituação, esta voltada para a origem do termo cangaço, afirmando que este é o conjunto de armas que costumam conduzir os bandoleiros nordestinos. Sinônimo de banditismo, de celeramento, de atrocidade, o nome cangaço vem de canga, porque o bandoleiro antigo se enchia de armas, trazendo o bacamarte passado sobre os ombros como uma canga; e, assim, se dizia que andava debaixo do cangaço.

Há ainda definições colocando o cangaço como sendo um movimento social ocorrido no sertão nordestino durante o fim do século XIX e início do século XX; como um fenômeno nordestino integrado por nômades que usavam violência para cometer crimes na região; como um bando de homens armados conhecidos como cangaceiros; como um fenômeno social, caracterizado por atitudes violentas por parte dos cangaceiros, que andavam armados e espalhando o medo pelos sertões.

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Cangaceiros presos – Fonte – tokdehistoria.com.br

E, ainda, a concepção do cangaço como um tipo de luta armada ocorrida no sertão nordestino até os anos 40 do século passado, contando com grupos de homens armados que vagueavam pela região em busca de meios de sobrevivência e enfrentando poderosos com o uso de armas e desmedida ferocidade.  Por fim, como um tipo específico de banditismo que se desenvolveu no sertão nordestino, levado a efeito por cangaceiros – bandos de malfeitores, ladrões, assassinos, bem armados, conhecedores da região -, que assolavam e destruíam, impunemente, tudo por onde passavam.

Concepções desse tipo, aproximadas ou muito distantes da realidade, somente surgem pela falta de uma conceituação geral e consensualizada proporcionada pelos próprios pesquisadores e estudiosos. Mas não, o que se verifica são abordagens tão diferenciadas que acabam permitindo interpretações as mais contraditórias possíveis. E muitas, infelizmente, tratando o cangaço sob a ótica do puro banditismo ou da sangrenta marginalidade. Ora, há muito mais nessa teia que a aranha sedenta de sangue. Não se pode esquecer o casulo das injustiças alimentando a prática.

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Lampeão (primeiro da esq.p/dir.) em Pombal – 1928 – Fonte – marcosnogueira-2.blogspot.com

Creio que a conceituação do cangaço, pois, deve alcançar, em primeiro lugar, a sua visualização como um caso peculiar de força maior. Um inevitável acontecimento. Ou eclodia ou eclodia. Não foi movimento porque não nasceu organizado; não surgiu como fenômeno porque já estava enraizado. E também não foi uma reles expressão do banditismo, a não ser que se tenha como bandido comum o sertanejo que se embrenha nas caatingas para lutar, ainda que não saiba realmente contra quem ou o que.  É, pois, na sua raiz que o cangaço deve ter o seu conceito iniciado. Ora, não se encontra outra motivação para o seu surgimento senão como um inevitável acontecimento, e fruto de uma força maior.

A força maior que serviu como estopim já estava semeada no sertão nordestino. E com grãos diferenciados. Foi a junção desses grãos, então denominados perseguições, injustiças sociais, rixas particulares e indignações contra o sistema estabelecido, que acendeu a chama do pavio. E na mão de um condutor, um homem vitimado por tais mazelas, a chama logo se transformou em fogueira. E isto desde o seu início nos tempos de antanho, pois quando Lampião entrou na luta, lá pelos inícios da década de 20 do século passado, a estrada já havia sido percorrida por outros bandos. No caso do Capitão, à persistência daquelas mazelas se somaram rixas familiares e acusações crimonosas. Outro estopim, e o mais violento de todos.

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Xilogavura de J. Miguel, famoso artista popular nordestino – Fonte – http://marcosnogueira-2.blogspot.com.br/search?q=Pombal

Desse modo, tem-se até aqui o estopim ou a força maior diante da insuportabilidade frente às mazelas de então como fato gerador e suas motivações. E se daí em diante a vida dos rebeldes passou a ser no meio do mato, de vez em quando fazendo investidas nas povoações e propriedades, sendo perseguidos pela polícia, revidando e fugindo de novos ataques, tem-se então o terceiro ponto da conceituação: a vida errante em meio a perseguições e ataques.

Nesse entremeio, contudo, muitos outros fatores poderiam ser observados, tais como as características da liderança cangaceira, os pactos firmados entre os ditos bandoleiros das caatingas e poderosos, a arregimentação de novos elementos ao bando, as estratégias e planos, as influências na vida sertaneja, as ações cangaceiras em si. Mas não serviriam num conceito sintético, e sim num estudo mais aprofundado.

Tais entremeios devem dar lugar, pois, ao modo como se manifestou durante sua existência. E as consequências enfrentadas pelos rebeldes das caatingas todo mundo conhece. O que aconteceu em 38 na Gruta do Angico é o exemplo mais célebre do fim do ciclo cangaceiro. Os primeiros grupos cangaceiros, ou rebeldes primitivos, no dizer de Hobsbawn, também não suportaram a continuidade da luta e tiveram o seu inexorável fim.

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Xilogravura para a literatura de cordel – Fonte – http://marcosnogueira-2.blogspot.com.br/search?q=Pombal

O terceiro e último aspecto que não pode faltar numa conceituação diz respeito ao seu significado. O que a armada rebeldia sertaneja representou historicamente? Qual a contextualização do cangaço dentro da vida social e política brasileira? O cangaço refletiu, ao menos em parte, as veladas contestações sociais de então? A existência do cangaço foi importante ou não, e a que serviu? Por que a realidade cangaceira é tantas vezes transformada em substrato mítico?

Logicamente que tais respostas não caberiam numa síntese conceitual. Mas podem ser sintetizadas para possibilitar uma visão geral do seu significado. Então, sinteticamente, qual o significado do cangaço? Eis a questão. Com uma resposta, porém. E tal resposta no sentido de afirmar que o significado maior do cangaço foi ter se contraposto ao sistema vigente com o auxílio do próprio sistema, e este representado pelas autoridades e poderosos.

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Volante policial – http://marcosnogueira-2.blogspot.com.br/2011/01/os-cangaceiros-de-verdade.html

Nesse passo, não há que se negar que a rebeldia cangaceira se manteve atuante por tanto tempo, com as vitórias e reveses próprios de toda luta, porque teve a colaboração de uma rede de poder então estabelecida. Eis que o cangaço foi amigo do coronel, do latifundiário, da autoridade política, de gente com grande influência no sistema dominante. E dizem que até mancomunado com o seu algoz perseguidor, que era a volante, através de seu comando. Daí o seu poder de continuidade de luta em situações tão adversas e em meio tão inóspito.

O cangaço, pois, principalmente o bando de Lampião, foi auxiliado por gente muito poderosa. Inegável que o Capitão possuía uma rede de influência de inestimável valia. O próprio Padre Cícero Romão, o Padim Ciço de Juazeiro, havia, em nome da Guarda Nacional e com a pretensão de combater a Coluna Prestes (o que jamais aconteceu), lhe outorgado a patente que ostentava. Mantinha contatos, através dos seus amigos coronéis, com as lideranças governamentais e políticas. Não se pode negar que o poder também agia com cumplicidade na questão cangaceira.

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Lampião, o primeiro a esquerda, e seus cangaceiros – Fonte – tokdehistoria.com.br

Logicamente que era uma relação das mais perigosas, entremeada de falsidades e delações, num verdadeiro jogo de proteção e espionagem. Mas nem todos agindo com traição, ainda que muitos fizessem o jogo duplo. Na verdade, Lampião possuía um pacto tão forte com a oligarquia que bastava enviar uma missiva por um dos coiteiros e tudo o que desejava era providenciado. Quando a coisa era pouca, logo chegava um carregamento de armas e munições, dinheiro vivo e tudo mais que o bando precisasse. Mas se a urgência era pra resolver problema maior, então o coronel passava a interceder perante as outras autoridades.

Não há como pensar diferente. O grupo comandado por Virgulino não era pequeno e nem vivia sempre escondido nas brenhas sertanejas, de modo que não pudesse ser encontrado e dizimado pelas forças policiais. Por mais que trilhassem veredas de difícil descoberta, certamente que os seus perseguidores conheciam seus coitos e esconderijos. Neste aspecto, também se diga que o sertanejo amedrontado também delatava o bando. Havia os amigos fiéis e as falsidades em cada canto.

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Fonte – marcosnogueira-2.blogspot.com

Desse modo, se o bando de Lampião, por exemplo, não teve o seu fim antecipado, isto se deve à proteção que possuía das autoridades e poderosos. Ora, numa estrutura hierárquica de mando, bastava que um coronel dissesse que na sua região não admitia perseguição ao bando do Capitão que toda força policial freava o seu passo. Sem esquecer também da possível amizade havida entre o líder perseguidor e o líder dos perseguidos. Acho tal hipótese pouco provável, principalmente diante do ocorrido em Angico naquela madrugada sangrenta. Mas enfim.

No conceito do cangaço, entretanto, certamente seria descabido afirmar acerca do cotidiano da luta por entre veredas espinhentas, em meio às armadilhas da mataria, debaixo da lua bonita e do sol inclemente. A vida cangaceira em si era muito mais difícil do que se possa imaginar. É fantasioso pretender caracterizar um cotidiano de perseguições, ataques, defesas, contra-ataques, temores, absoluta vigilância e desconfiança de tudo, como algo romântico e atrativo. Muito pelo contrário, a realidade vivenciada era de extremo espanto, ainda que a vida de vez em quando encontrasse espaço para a cantiga matuta, a celebração da existência e os amores escondidos.

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Estes são os cangaceiros Pancada, Maria Jovina, sua esposa e Atividade. Este último foi assassinado pelo seu companheiro Barreira em troca da liberdade – Fonte – http://blogdomendesemendes.blogspot.com

Mas até quando iria essa luta inglória? Até quando o bando de Lampião continuaria, ao modo do preá e do bicho afoito do mato, correndo de lado a outro, trilhando veredas catingueiras e fugindo das arapucas para sobreviver? Muitos estudiosos afirmam, e também vejo como verdade, que o Capitão já estava cansado disso tudo. Não desistido, não derramado o balaio de sonhos impossíveis, mas simplesmente compreendido que já estava na hora de descansar. Talvez de vez em quando olhasse para os seus, para os tantos meninos e meninas ainda na flor da idade, e pensado quanto era injusto e cruel continuar naquela vida de contínuo desassossego. Era demasiada inquietação em tudo que se fazia. Um sofrimento infindo.

Talvez também o Capitão soubesse que jamais sairia vivo da mata sertaneja, que jamais poderia ter outra vida senão de arma na mão, de olho atento à moita adiante, na desenfreada correria pela sobrevivência. E, se assim pensou, também percebeu que não adiantava mais sair de um refúgio a outro. Pressentindo que o seu fim estava próximo, vez que os céus sertanejos pressagiam as coisas da vida e da morte, ali na Gruta do Angico permaneceu esperando a vela ser acesa. Foi acesa, deu estampidos e se apagou. E também o Lampião.

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Fonte – http://www.jvicttor.com.br/liquidificordel/wp-content/photos/matriz_ant_silv_detalhe_1.jpg

Mas voltemos ao problema da justa e abrangente conceituação do cangaço. Foi dito que a conceituação deve envolver alguns aspectos essenciais para a compreensão do seu contexto. Apontei, dentre outros fatores, algumas premissas que devem ser observadas, e que foram o fato gerador ou o ponto de nascedouro do cangaço, as motivações para o seu surgimento e existência, e, por último, o seu significado no contexto histórico brasileiro.

Do mesmo modo, foi observado que o fato gerador foi a eclosão no sertanejo de sua força de indignação e revolta. Chegou ao ponto de insuportabilidade, e daí em diante se deu o início da luta armada. Contudo, foram as motivações que levaram à insuportabilidade. E tais motivações foram apontadas como sendo, dentro outras,  as perseguições, as injustiças sociais, rixas particulares e indignações contra o sistema estabelecido. Por último, na tentativa de estabelecer o seu significado, foi dito que o cangaço, diante das relações que manteve com o poder, alcançou a relevância histórica que mantém até hoje.

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Cangaceiros mortos em Angicos. Foto colorida por Rubens Antônio – Fonte – http://www.jeremoabo.com.br/web/index.php/noticias/21-politica/1866-semana-do-cangaco-de-piranhas-sera-de-24-a-27-de-julho

Mas se não foi nem movimento nem fenômeno, o que teria sido o cangaço? Se não deve ser caracterizado como banditismo nem como um reles covil de brutais assassinos, qual a melhor feição a lhe ser dada? Difícil asseverar com precisão, mas creio que uma insurgência armada levada adiante por rebeldes sertanejos contra o sistema estabelecido. Tanto diante do poder pessoal, gerador de disputas internas, como do poder governamental. Este injusto e escravizador.

Mas que não se tenha como conceito. Esta missão confiarei aos estudiosos e pesquisadores. Sou incapaz de fazê-lo com precisão. Sou apenas um matuto de Poço Redondo, filho de um caipira também de lá, de Alcino Alves Costa, o Caipira de Poço Redondo. Este sim, este soube refletir e analisar com maestria o mundo cangaceiro.

AUTOR – Rangel Alves da Costa

Advogado e escritor

blograngel-sertao.blogspot.com

Fonte – http://www.substantivoplural.com.br/