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FEITICEIROS NA ILHÉUS SETECENTISTA

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O amigo Urano Andrade, de Salvador, Bahia, publicou uma interessante história ocorrida em junho de 1761, na bela cidade baiana de Ilhéus, onde dois homens negros foram presos como “feiticeiros”, resistiram a prisão e na sequência do processo do processo houve algo bem diferenciado.

Além das informações contidas no texto, é interessante ver a forma como estes documentos oficiais eram elaborados há 255 anos, os termos utilizados na época, mas preocupações dos membros da justiça. Vale frisar que os documentos produzidos em terras potiguares no período setecentista não diferem em nada da forma aqui apresentado.

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Dou parte a Vossa Majestade em como a esta Villa vieram conduzidos por Ignácio Fernandes de Souza, morador nesta Villa, dois pretos feiticeiros, os quais entraram a curar publicamente de feitiços a várias pessoas, usando de arte diabólica com alguidares de água em que faziam aparecer figuras, e para isso se punham a falar com galos pretos, sapos e outras visagens semelhantes, em que diziam adivinhar, pondo preços exorbitantes dinheiro para a paga das ditas curas, que mais parecia furtos que curas, levando vinte mil réis, e dali para cima a cada pessoa sem que tivessem estas vigor, antes alguns pioraram, e morreram e era tudo uma confusão nesta Villa com estas artes diabólicas, e vendo o Reverendo Vigário da Vara estas feitiçarias de que usavam os ditos pretos, os mandou prender valendo-se para isso do socorro da justiça secular pedindo-me ajuda, e foi o que logo fiz mandando pelos oficiais [diante de] mim prendessem os ditos pretos, e indo se executar a dita prisão em o dia 25 do mês de março, achando-me eu também presente, se puseram estes em resistência puxando por facas de pontas, armas proibidas pela Lei por andarem estes para esse efeito preparados, e com elas feriram perigosamente a um dos oficiais, e a outro que ia em socorro a mesma justiça, sendo seu maior empenho o maltratarem-me que se não fora o defender-me o fariam; e sendo com efeito presos prossegui a devassa pela resistência feita a Justiça a armas por editais fazendo-lhe prontamente sequestro em uma caixinha pequena com duas fechaduras em que se lhe achou sessenta e tantos mil réis em dinheiro, roupas e algumas peças de ouro que se lhe havia dado em penhor de algumas curas, e muito por praticas de feitiçarias em que entravam algumas coisas sagradas das quais tomou entrega o mesmo Reverendo Vigário da Vara, que presente se achava, e também procedeu a devassa e sequestro, cujos pretos os fiz remeter com a devassa, seguros com ferros a cadeia dessa cidade ao Doutor Ouvidor Geral do Crime, por José Luiz Pinto, mestre e dono de uma lancha, morador este na Villa do Camamu por levar também em sua companhia os escravos que foram dos Padres da Companhia cujos ia a entregar ao Desembargador Chanceler, e Juiz Comissário da Inconfidência, e por ser público e notório nesta Villa que o dito José Luiz Pinto não entregara os ditos presos nem a devassa pelos haver postos em liberdade por dadivas de dinheiro que lhe haviam dado, mandou prender o Doutor Corregedor da Comarca na Villa do Camamu, onde se acha por causa do dito José Luiz lhe não apresentar recibo de uns e outros presos por correr naquela Villa a mesma fama de que os havia soltados, nem menos mandou entregar em esta Villa os ferros em que foram seguros os ditos presos uns e outros, e como o Juiz Ordinário desta Villa dou conta a Majestade para a nenhum tempo me prejudicar. Villa dos Ilhéus, e de Junho 10 de 1761. Vossa Majestade. 
Vassalo o mais obediente;
Antonio José Martins.           

Correções: J.J.R.
Fonte: Arquivo Público do Estado da Bahia, seção colonial, maço: 201. 

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Urano Andrade é Graduado em História, Pós Graduado em História Social e Econômica do Brasil Colônia, mas para mim é um caçador de histórias interessantes da Bahia colonial. Histórias que ele disponibiliza, em um interessante trabalho de democratização da informação histórica e do seu trabalho como pesquisador no blog “Pesquisando a História” ( https://uranohistoria.blogspot.com.br/ ), onde vale a pena a visita.

 

UM HOMEM DE DEUS E DA HISTÓRIA

 

Geraldo Batista dos Santos
Geraldo Batista dos Santos

Autor – Rostand Medeiros

Um amigo em comum me comunicou o recente falecimento de uma pessoa que me fascinou pelo seu amor e dedicação pela história.

No último dia 14 de novembro de 2014, no município pernambucano de Macaparana, seguiu para o plano superior o Professor, Historiador e Pastor evangélico Geraldo Batista dos Santos.

Homem de extrema sensibilidade para a importância da preservação e democratização da informação histórica, não mediu esforços na busca de documentos, objetos e informações sobre o passado de sua terra natal, a cidade pernambucana de Macaparana, na região da Zona da Mata Norte. Mestre Geraldo, sem nenhum apoio, chegou mesmo a criar um museu em sua própria casa.

Mestre Geraldo em sua casa, recebendo, entre outras pessoas, Fernando leitão de Moraes, seu filho Hermano Moraes e o autor deste artigo.
Mestre Geraldo em sua casa, recebendo, entre outras pessoas, Fernando leitão de Moraes, seu filho Hermano Moraes e o autor deste artigo.

Entre 2011 e 2012 eu tive oportunidade de conhecê-lo no lugar Pirauá, um pequeno e belo distrito de Macaparana. Fui ao seu encontro na companhia de Fernando Leitão de Moraes, nativo desta região, que desde a década de 1960 vive em Natal, onde se integrou a nossa sociedade, trabalhou no BNB e criou seus filhos. Na época eu havia sido contratado pelo Deputado Estadual Hermano Moraes, um dos filhos de Seu Fernando, para produzir a biografia do seu pai, em comemoração ao seu 80º aniversário.

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De Pirauá e Macaparana eu não conhecia absolutamente nada! Mas além de me encantar com uma região serrana particularmente bela, conheci maravilhosos detalhes de sua história na companhia de Mestre Geraldo. Ele contou-me sobre os primeiros engenhos de cana de açúcar, da ocupação dos brancos naquela área, das lendas, dos escravos e das passagens dos cangaceiros de Antônio Silvino por aquele pedaço de Pernambuco no início do século XX.

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Ele me mostrou com enorme satisfação o calhamaço de seu livro “Macaparana Centenária”, que conta grande parte da história local e não foi publicado. Segundo ele por falta de apoio.

Além do amplo conhecimento histórico, do seu belo trabalho de conduzir as ovelhas em direção ao evangelho, Mestre Geraldo mostrava com intenso entusiasmo o museu que criou em sua casa.

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Para mim aquele contato, totalmente aberto e tranquilo por parte daquele pernambucano maravilhoso, me abriu a mente e me mostrou o caminho para produzir “Da serra dos canaviais à cidade do sol”, meu terceiro livro.

Talvez para algum membro de alguma universidade, com um extenso currículo na Plataforma Lattes, o que Mestre Geraldo tinha era um “ajuntamento de peças”. Mas aquele homem estava muito distante do sectarismo rombudo e ignorante em relação à democratização do conhecimento, que infelizmente permeia muitas Academias. Para ele o maior prazer em possuir seu museu era receber os jovens  estudantes da região, para difundir e apresentar as histórias do seu lugar.

Rifle Winchester 44 que teria pertencido a um dos cangaceiro do grupo de Antonio Silvino.
Rifle Winchester 44 que teria pertencido a um dos cangaceiro do grupo de Antonio Silvino.

Entre as peças do seu simples museu havia uma que particularmente me chamou atenção – um rifle Winchester, calibre 44, cano sextavado, que havia sido deixado (ou perdido) por um dos cangaceiros de Antônio Silvino em um combate perto de Macaparana.

Como Geraldo Batista dos Santos, existem inúmeras pessoas que possuem uma enorme abnegação pela história. É gente espalhada por vários rincões deste Brasil, que muito faz para manter a memória de seus lugares e quase nada de apoio recebem. Isso quando não são taxados de doidos e excêntricos!

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Agora o mais interessante que vejo em relação a estes “guardadores inúteis de história”, como assim me definiu um professor da UFRN, após realizarmos uma visita a um destes abnegados na região do Oeste Potiguar, é que na hora que os “Mestres” e “Doutores” da Academia necessitam de informações, não raramente recorrem a estas maravilhosas pessoas.

Igualmente, após sugarem o conhecimento destas pessoas boas e honestas, quase nada fazem por elas e pela sua luta pela história.

E no meu caso, que também bebi da fonte, o que deixei para Geraldo Batista dos Santos?

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Quando lá retornei para uma segunda e última visita, lhe deixei apenas duas coisas; meus livros e um material produzido pelo IBRAN – Instituto Brasileiro de Museus, onde estava o Estatuto dos Museus e as regras e caminhos para conseguir apoios e financiamentos para a instituição destes locais de memória.

Não sei se Mestre Geraldo utilizou este material ou leu meus livros!

Mas jamais poderia deixar de louvar uma pessoa com uma vida dedicada a Deus e a preservação da memória local. Que difundiu, expôs e preservou a cultura da região do seu jeito, fazendo os mais jovens conhecerem e se emocionarem com o passado. 

UMA NOVA ERA DA HISTÓRIA

Fonte - http://www.adiberj.org/portal/2014/05/23/viciado-em-tecnologia/
Fonte – http://www.adiberj.org/portal/2014/05/23/viciado-em-tecnologia/

Todo mundo aprende na escola que a História divide-se em:

1 – Pré-história: do macaco até o aparecimento da escrita, por volta de 4000 ou 5000 antes de Cristo;

2 – Antigüidade: do aparecimento da escrita até a queda de Roma – e do Império Romano do Ocidente -, derrotada pelos bárbaros, em 476 depois de Cristo;

3 – Idade Média: da queda de Roma até a queda de Constantinopla  – e do Império Romano do Oriente – pelos turcos otomanos, em 1453;

4 – Idade Moderna: da queda de Constantinopla até a queda da Bastilha – e a deflagração da Revolução Francesa – pelos rebeldes jacobinos, em 1789;

5 – Idade Contemporânea: da Revolução Francesa até os dias atuais.

Essa classificação tem lá seus defeitos. O eurocentrismo é um deles. Tudo que mudava na Europa, mudava o mundo, como se uma coisa conduzisse à outra. O extremo oriente, por exemplo, onde o Japão e principalmente a China aprontavam das suas e inventavam onze em cada dez invenções posteriormente atribuídas aos europeus é solenemente ignorada nessa escala de tempo.

Ok. Mas, de um modo geral, a divisão das eras da História é aceita pelos historiadores. Ninguém discute a importância histórica e a mudança de sentido do mundo após cada um desses eventos. Discute-se apenas se não houve outros acontecimentos igualmente relevantes que poderiam justificar uma mudança na classificação das eras, até mesmo criando mais delas.

E é justamente aí em que quero chegar. A meu ver, nós já estamos em uma nova era da História: a Idade Tecnológica. E ela começou há não muito tempo. Mais exatamente em 1989, quando caiu o Muro de Berlin.

De fato, a Idade das Revoluções – nome que daria à atual Idade Contemporânea, inspirado em Hobbsbwan – teria durado 200 anos, de 1789 a 1989. Com a eclosão da Revolução Francesa, ganhou impulso a formação de estados nacionais fundados na democracia e na liberdade em geral, especialmente a liberdade negocial.

Estimulados por suas classes mercantis, os Estados Nacionais – europeus, principalmente – foram à guerra e colonizaram meio mundo, África e Ásia inclusive. Essa disputa por novos mercados foi tão forte que acabou levando a guerras entre as próprias potências coloniais, levando o mundo a experimentar as duas maiores e mais sanguinárias guerras de sua história (I e II Guerras Mundiais).

Depois disso, com o advento de duas novas superpotências, Estados Unidos e União Soviética, a coisa mudou um pouco de figura, mas, na essência, permaneceu mais ou menos a mesma: duas potências duelando em escala global por zonas de influência.

Mas quando o Muro de Berlin caiu, isso se acabou. A ascenção de uma única superpotência mundial – os Estados Unidos – deflagrou uma nova onda de supremacia, baseada no livre fluxo de capital e na expansão formidável da tecnologia.

Essa mudança, claro, trouxe conseqüências. O terrorismo cometido contra os americanos e seus aliados é um deles. Não fossem os Estados Unidos a Roma dos tempos atuais, dificilmente seriam os alvos preferenciais dos terroristas (o que não justifica a violência, para deixar bem claro).

A financeirização do mundo, também. Com o desenvolvimento tecnológico, o livre fluxo de capitais alcançou uma escala jamais vivenciada pela humanidade. O que conduziu no limite a uma cópia de um estilo de vida baseado no consumismo desenfreado.

Creio, portanto, que os historiadores deveriam repensar a classificação das Eras e perguntar-se se o mundo em que vivemos pode ainda ser comparado como uma continuação da Revolução Francesa. A meu ver, essa fase já foi ultrapassada.

Ps: Possivelmente algum historiador já deve ter defendido essa mesma tese, mas devo ressaltar que não li nada sobre isso. Portanto, os erros e acertos devem correr por conta exclusiva do autor.

Fonte – http://blogdomaximus.com/2012/03/09/uma-nova-era-da-historia/

MITOS NA BERLINDA

O Brasil coleciona personalidades que inspiram liderança.
Mas os heróis de hoje podem não ser os de amanhã

Vivi Fernandes de Lima

O paulistano Benedito Eliseu dos Santos foi um dos mais de 25 mil brasileiros que lutaram na Segunda Guerra Mundial. Ele não ostentava as divisas dos oficiais militares em sua farda – era soldado – e não pôde ver a calorosa recepção que a população e o governo brasileiro prepararam para a chegada dos pracinhas, vindos da Itália em 1945. Benedito morreu na guerra, como outros 456 expedicionários, e é reconhecido como um herói pela Força Expedicionária Brasileira (FEB). Afinal, “é melhor morrer em combate do que ver ultrajada a nossa nação”, já dizia o primeiro-ministro britânico Winston Churchill.

Três pracinhas do 11.º RI. na FEB - ACERVO FAMÍLIA NALVO
Três pracinhas da FEB. A guerra é um ótimo palco para se criar heróis, que muitas vezes só desejavam voltar vivos e inteiros para suas casas – ACERVO FAMÍLIA NALVO

Hoje, Benedito dá nome à rua de um colégio que homenageia todos os combatentes da Segunda Guerra: a Escola Estadual Heróis da FEB, no Parque Novo Mundo, em São Paulo. A escola e seu endereço não estão sozinhos na homenagem a esses homens: o bairro inteiro tem ruas com nomes de expedicionários. Cristiane Matos, professora de História do colégio, levou o tema para a sala de aula: “Fizemos um projeto em que os alunos saíram à caça de documentos de ex-combatentes. Foi ótimo; eles buscaram a história de cada um que dá nome às ruas”.

A atividade fez com que os estudantes se interessassem pela guerra, o que nem sempre é fácil. “Normalmente, os alunos não têm facilidade em relacionar os heróis com os fatos históricos. Sobre Tiradentes, por exemplo, a maioria sabe que ele morreu enforcado e que se parecia com Jesus. Só isso”, diz a professora. A distância entre a figura do líder e a sua causa está presente até no caso de Che Guevara, apontado por professores como o personagem histórico mais popular para a juventude. Aqui, “muitos vestem a camisa com a foto do Che e não têm noção da história dele. O que atrai o interesse dos jovens é mais o poder de comando e de liderança do personagem do que a sua causa”, afirma Cristiane.

Em um primeiro olhar, todos sabem quem é o personagem da foto. Mas nem todos sabem que ele é seguramente o argentino mais famoso no Brasil, mais até do que Maradona, seus pais eram oriundos de famílias pertencentes a classe alta argentina, seu nome era Ernesto Guevara de la Serna e nasceu na cidade de Rosário, em 1928 - Fonte - http://www.havana-cultura.com/
Em um primeiro olhar, todos sabem quem é o famoso personagem da foto ligado a história cubana. Mas nem todos sabem que ele é seguramente o argentino mais famoso no Brasil (mais até do que Maradona), seus pais eram oriundos de famílias pertencentes a classe alta do seu país de origem e nasceu em 1928 na cidade de Rosário  – Fonte – http://www.havana-cultura.com/

O professor de História da Escola Estadual Tiradentes, em Umuarama (PR), Ângelo Alves, concorda com a colega de profissão paulista. Mesmo estudando no colégio que tem o nome do mais famoso inconfidente, muitos de seus alunos não reconhecem Tiradentes como um herói. “Atualmente, a historiografia vem desmitificando muitos nomes. O próprio Tiradentes se diluiu bastante. Já Che Guevara chama muito a atenção dos jovens. Eles se encantam com seu espírito aventureiro e por ter entrado numa luta que parecia impossível. E, claro, com o grande marketing que é feito com sua imagem”, explica o professor.

Mas, afinal, o que faz um personagem histórico ser reconhecido como herói? O poeta espanhol Reinaldo Ferreira (1922-1959), em sua “Receita para fazer um herói”, menciona alguns passos para a construção desse personagem mítico: “Tome-se um homem,/ feito de nada, como nós/ (…) Depois, perto do fim,/agite-se um pendão,/e toque-se um clarim”. Para arrematar a receita, uma dica fundamental: “Serve-se morto”.

Nesse ponto, as definições de herói e mártir se assemelham. Mas a permanência do heroísmo de quem sofreu por uma causa depende de muitas circunstâncias. “A construção de um herói é, ao mesmo tempo, um processo político e histórico. Ou seja, um protagonista da História delineia, simultaneamente à sua atuação, uma memória de si mesmo e de seus atos”, explica a historiadora Cecília Helena Lorenzini de Salles Oliveira, diretora do Museu Paulista da USP. A memória a que ela se refere pode ser enaltecida ou difamada, durante ou após sua vida. Isso depende dos objetos e documentos deixados, mas também da vontade de outras pessoas e de segmentos sociais que interpretem este protagonista como um representante do que desejam. “Assim, um protagonista que, para seus contemporâneos, não mereceu consideração pode vir a se tornar posteriormente uma referência na compreensão de certos eventos”, esclarece Cecília.

Já Tiradentes só foi reconhecido herói quase 100 anos após a sua morte
Já Tiradentes só foi reconhecido herói, com direito a um feriado, 100 anos após a sua morte

Esse reconhecimento pode demorar muitos anos, décadas e até séculos. No caso de Tiradentes, a primeira celebração do 21 de abril ocorreu em 1881, 89 anos após sua morte. A data só virou feriado nacional em 1890, no mesmo ano em que o 15 de novembro também passou a ser comemorado. Coincidência? Nem um pouco. Os republicanos estavam ávidos por lançar um herói para o novo regime. E esta era uma tarefa difícil, já que a Proclamação teve quase nenhuma participação popular e, como o historiador José Murilo de Carvalho escreveu, “a pequena densidade histórica do 15 de novembro (uma passeata militar) não fornecia terreno adequado para a germinação de mitos”.

Enquanto tentavam exaltar a imagem do marechal Deodoro, de Benjamim Constant e Floriano Peixoto – que sequer foram heróis militares –, Tiradentes vinha aparecendo na literatura e nas artes. O poeta Castro Alves chegou a se referir ao inconfidente como “o Cristo da multidão”. Sua simpatia pela república – nos moldes norte-americanos, e não nos da que foi implantada aqui – e a memória de seu martírio couberam como uma luva na vaga de herói daquele momento político. A proliferação de estudos sobre o personagem chegou a levantar a hipótese de que Tiradentes teria escapado da forca, teoria desmentida posteriormente.

Em 1965, quando o país estava novamente sob o regime militar, Tiradentes foi proclamado patrono cívico da nação brasileira. O mesmo governo também decretou que todas as repartições públicas do país afixassem o retrato do inconfidente, o que era impensável no Império, quando se aclamava D. Pedro I como herói da Independência, ou melhor, o neto da rainha que mandou executar Tiradentes. A divulgação da imagem do imperador estava fortemente ligada à atuação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado em 1838 para criar uma história nacional.

A figura de Luís Alves de Lima e Silva, dependendo do grupo que ocupa a liderança máxima do Brasil, pode ser cultuada como um grande herói nacional, a um cruel exterminador de membros de movimentos libertários
A figura de Luís Alves de Lima e Silva, dependendo do grupo que ocupa a liderança máxima do Brasil, pode ser cultuada como um grande herói nacional, a um cruel exterminador de paraguaios e de brasileiros membros de movimentos libertários

Outro exemplo de herói a serviço do governo é o duque de Caxias, que já era reconhecido pelos políticos do Partido Conservador, do qual fazia parte, durante a Guerra do Paraguai (1864-1870). “Ele havia tomado decisões em campo de batalha que dirigiram os combates a favor do Império. Foi essa situação que fez com que sua biografia se engrandecesse e que sua atuação anterior – no combate às revoluções que ocorreram no Brasil nas décadas de 1830 e 1840 – fosse interpretada de modo positivo”, explica Cecília Oliveira. Mas durante a ditadura, a historiografia marxista atacou o herói militar, considerando-o um assassino, por ter liderado o Brasil na guerra mais sangrenta da América Latina.

Essa discussão sobre quem são os heróis, expondo versões sobre “o outro lado” do senso comum, pode parecer uma tentativa de derrubar os grandes personagens. Mas a questão não é assim tão simplória. “Os estudos históricos, desde os anos 1920, têm procurado desmistificar os heróis para evidenciar como foram projetados. Para o historiador, o fundamental não é descobrir ou destruir  heróis, mas reconstituir uma época, um evento, uma situação, para entendê-los por inteiro, nas suas várias facetas e contradições”, elucida Cecília.

Já este personagem seguramente foi um grande líder para aqueles que o seguiam, estrategista e conhecer a sua história ajuda muito a compreender o nosso atual flagelo da violência no Brasil. Infelizmente se perde muito tempo na quase eterna discussão se ele foi herói ou bandido!
Seguramente este homem foi um grande líder para aqueles que o seguiam, um inteligente estrategista e muito valente. Conhecer a sua história ajuda muito a compreender o nosso atual flagelo da violência no Brasil. Infelizmente se perde muito tempo na quase eterna discussão se ele foi herói ou bandido!

E contradição é o que não falta quando ao assunto é um grande personagem. Além de suas biografias terem diferentes versões com o passar do tempo, há também casos em que o indivíduo é endeusado e demonizado num mesmo período. Assim é Lampião: alguns batem palmas para sua origem humilde e para o discurso de que ele entrou no cangaço para fazer justiça; outros têm repugnância por quem talvez tenha sido o mais cruel dos bandidos do Nordeste. Já o padre Cícero é ainda uma personalidade muito popular na região, onde nem sempre o senso comum está de acordo com a historiografia acadêmica. Sua biografia não deixa escapar uma possível aliança com o cangaço para combater a Coluna Prestes, liderada por outro herói nacional, Luiz Carlos Prestes.

Como se vê, há heróis para todos os lados. E se eles refletem, de certa forma, as transformações das sociedades, é natural que novos heróis surjam a cada época. Decretar um feriado em homenagem a Zumbi e à Consciência Negra, como ocorre hoje em mais de 200 cidades brasileiras, só foi possível quatro séculos depois do fim do Quilombo dos Palmares. Nesse caso, novamente a memória e a política se unem. Desta vez, como resultado do crescente movimento em defesa dos direitos dos negros.

Além de Zumbi, o quilombola Malunguinho foi bastante perseguido em Pernambuco no século XIX e é reverenciado como herói. “Hoje, este líder é muito comemorado no catimbó, no meio da mata, com festas”, conta o historiador pernambucano Marcus de Carvalho. Em 1827, tropas do governo enfrentaram o quilombo de Malunguinho, mas muitos negros conseguiram fugir, inclusive o líder. Uma recompensa de 100 mil-réis foi oferecida por sua captura ou morte. “Para se ter uma ideia do temor que ele provocava, foi a maior quantia proposta pela captura de alguém vivo ou morto em Pernambuco até a Cabanada (1832-1835)”, diz o historiador. Atualmente, o quilombola é, inclusive, nome de uma lei estadual que criou a Semana Estadual da Vivência e Prática da Cultura Afro Pernambucana, em 2007.

O marinheiro João Cândido
O marinheiro João Cândido

O líder da Revolta da Chibata, João Cândido, é outro personagem que foi ainda mais valorizado com o movimento negro. Sua vida não para de despertar a curiosidade de pesquisadores, que volta e meia encontram uma novidade sobre o Almirante Negro. Aliás, enquanto ainda se investiga esse mito, a historiografia recente traz a existência de outro líder da Revolta. Os historiadores Marco Morel e Sílvia Capanema de Almeida publicaram recentemente descobertas sobre Adalberto Ferreira Ribas (1891-1963), que provavelmente foi quem escreveu o manifesto com as reivindicações do movimento contra os castigos corporais aplicados aos marinheiros.

A descoberta de novos heróis e a revisão dos antigos pode estar também associada ao aumento de estudos biográficos. Durante muito tempo – aproximadamente até a década de 1970 –, a biografia não era considerada História por se tratar de uma investigação sobre um indivíduo, e não sobre acontecimentos coletivos. Mas o próprio Karl Marx, que é referência para a história social, já dizia que não via os indivíduos como elementos isolados… Se a historiografia muda, os heróis também podem mudar. Enquanto isso, a juventude brasileira veste camisetas com estampas do argentino Che Guevara.

Saiba Mais – Bibliografia

CARVALHO, José Murilo. A Formação das Almas: O Imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

RÉMOND, René (org.). Por uma História política. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003.

MALERBA, Jurandir (org.). A independência brasileira: novas dimensões. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006.

Fonte – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/mitos-na-berlinda

VISITA DO HISTORIADOR FRANK D. McCANN A NATAL

VISITANDO O PRÉDIO DA RAMPA
VISITANDO O PRÉDIO DA RAMPA

Amigos e amigas, Na última quinta feira eu tive o privilégio de receber em nossa cidade o historiador norte-americano Frank McCann, professor da universidade de New Hampshire, um dos mais respeitados brasilianistas e profundo conhecedor da história do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial.

JUNTO COM O Cb GOMES NO ANTIGO HANGAR DE NARIZ DA USAAF
FRANK McCANN JUNTO COM O Cb GOMES NO ANTIGO HANGAR DE NARIZ DA USAAF NA BASE AÉREA DE NATAL

Este diálogo começou em fevereiro último, quando ele visitou um dos posts aqui nosso TOK DE HISTÓRIA e gostou do material (Veja o texto que ele leu e na parte dos comentários está o primeiro contato com Frank McCann – https://tokdehistoria.wordpress.com/2012/11/17/4341/).

FRANK FOTOGRAFADO JUNTO AO HANGAR DE NARIZ DA US NAVY
FRANK FOTOGRAFADO JUNTO AO HANGAR DE NARIZ DA US NAVY

Daí começou uma intensa troca de e-mails e ele apontou a sua intenção de vir a Natal e me coloquei a disposição. Esta viagem ao Brasil possui o principal objetivo de coletar dados para futuros trabalhos e rever Natal, o prédio da Rampa e a Base Aérea de Natal, que ele teve oportunidade de conhecer em 1965.

AQUI FRANK JUNTO A UM DOS CAÇAS DA NOSSA MARINHA DE GUERRA, QUE ESTÁ TEMPORARIAMENTE NA BASE AÉREA DE NATAL
AQUI FRANK JUNTO A UM DOS CAÇAS DA NOSSA MARINHA DE GUERRA, QUE ESTÁ TEMPORARIAMENTE NA BASE AÉREA DE NATAL

Esta foi uma visita muito positiva e extremamente proveitosa. Onde conheci uma pessoa muito simples, prática, sincera, aberta ao diálogo e participativa no quesito de dividir informações. Apesar do tempo curto, deu para levar o amigo Frank para uma típica casa de forró. Foi muito bom.

JUNTO A UM DOS AVIÕES HISTÓRICOS DA BANT
JUNTO A UM DOS AVIÕES HISTÓRICOS DA BANT

FRANK D. McCANN é Professor Emérito de História na Universidade de New Hampshire, onde ele é membro do corpo docente desde 1971. Recebeu sua educação em Niagara University (AB cum laude, 1960), Kent State University (MA, 1962), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (Fulbright, 1965), e da Indiana University (Ph.D., 1967). Antes de ingressar na faculdade de Nova Hampshire, ele ensinou na Universidade de Wisconsin-River Falls (1966-1968), e, quando em serviço militar ativo, na Academia Militar dos EUA em West Point (1968-1970). Ele estava Visiting Research Fellow na Universidade de Princeton (1970-1971) e um “guest scholar” no Wilson Center, em Washington (1978).

NA ENTRADA DO SETOR DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA BASE AÉREA DE NATAL, JUNTO AO Cb. (SMU) RUI EDSON GOMES DE MELO, QUE COM EXTREMA COMPETÊNCIA E ATENÇÃO APRESENTOU ESTA GRANDE UNIDADE MILITAR DA FAB. DEIXO IGUALMENTE MEUS SINCEROS AGRADECIMENTOS AO 1º Sgt. (BFT) PAULO ALVES CORREIA PELO APOIO A ESTA VISITA
NA ENTRADA DO SETOR DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA BASE AÉREA DE NATAL, JUNTO AO Cb. (SMU) RUI EDSON GOMES DE MELO, QUE COM EXTREMA COMPETÊNCIA E ATENÇÃO APRESENTOU ESTA GRANDE UNIDADE MILITAR DA FAB. DEIXO IGUALMENTE MEUS SINCEROS AGRADECIMENTOS AO 1º Sgt. (BFT) PAULO ALVES CORREIA PELO APOIO A ESTA VISITA

Ele foi professor visitante na Universidade de Nova Iorque (1979-1980) e na Universidade do Novo México (1983), e Fulbright Professor na Universidade de Brasília (1976-1977) e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (1991).  Em 1998 foi Professor Visitante no Programa de Especialização em Estudos de Fronteira, Universidade Federal de Roraima (Boa Vista).

FRANK CONCEDENDO UMA ENTREVISTA A REPÓRTER MARÍLIA ROCHA, DA TRIBUNA DO NORTE, NO PRÉDIO DA RAMPA
FRANK CONCEDENDO UMA ENTREVISTA A REPÓRTER MARÍLIA ROCHA, DA TRIBUNA DO NORTE, NO PRÉDIO DA RAMPA

As suas pesquisas tem-se centrado em política externa brasileira, sobre as relações com os Estados Unidos, a cultura brasileira, e sobre o exército brasileiro.  Isso resultou em quatro livros publicados: Aliança Brasil – Estados Unidos, 1937-1945 (Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1995); A Nação Armada: Ensaios sobre a História do Exército Brasileira (Recife: Editora Guararapes, 1982).  Ele e Michael L. Conniff editaram a obra Modern Brasil: Elites and Masses in Historical Perspective (Lincoln: University of Nebraska Press, 1989 e 1991); Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro, 1889-1937 (São Paulo: Companhia das Letras 2007 e co-Edição Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora 2009).

NO PRÉDIO HISTÓRICO DA RAMPA
NO PRÉDIO HISTÓRICO DA RAMPA

Além disso, ele tem escrito muitos artigos, ensaios, resenhas e comentários publicados. Ele detém o honra de Comendador da Ordem do Rio Branco e recebeu a Medalha do Pacificador do Exército Brasileiro.

Mais detalhes desta visita, veja matéria do jornal Tribuna do Norte deste sábado, 29/06/2013 – http://tribunadonorte.com.br/noticia/memoria-esquecida-e-abandonada/254270

E COMO NINGUÉM É DE FERRO E EU VALORIZO A MINHA CULTURA E AS MINHAS RAÍZES, NADA MELHOR QUE TERMINAR A VISITA EM UMA CASA DE FORRÓ. FRANK ME PEDIU E LEVOU MAIS DE 500 MÚSICAS (EM MP3) DE AUTÊNTICO FORRÓ, XOTE, BAIÃO, XAXADO, MÚSICA DE RABEQUEIROS, QUINTETO ARMORIAL E POR AÍ VAI!
E COMO NINGUÉM É DE FERRO E EU VALORIZO A MINHA CULTURA E AS MINHAS RAÍZES, NADA MELHOR QUE TERMINAR A VISITA EM UMA CASA DE FORRÓ. FRANK ME PEDIU E LEVOU MAIS DE 500 MÚSICAS (EM MP3) DE AUTÊNTICO FORRÓ, XOTE, BAIÃO, XAXADO, MÚSICA DE RABEQUEIROS, QUINTETO ARMORIAL E POR AÍ VAI!

AGRADECIMENTOS – NA BASE AÉREA DE NATAL NÃO POSSO DEIXAR DE AGRADECER AO Cb. (SMU) RUI EDSON GOMES DE MELO, QUE COM EXTREMA COMPETÊNCIA E ATENÇÃO APRESENTOU ESTA GRANDE UNIDADE MILITAR DA FAB. VAI MEUS AGRADECIMENTOS AO 1º Sgt (BFT) PAULO ALVES CORREIA, AO PESSOAL DO CECOMSAER (CENTRO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA AEREONÁUTICA) EM BRASÍLIA E ESPECIALMENTE AO Sub. Of. (BIMFA DE NATAL) JAIR PAULO PELAS ORIENTAÇÕES, APOIO E TORCIDA PARA QUE ESTA VISITA FOSSE POSITIVA. A TODOS O MEU MUITO OBRIGADO.