O MEU NOVO LIVRO – EU NÃO SOU HERÓI, A HISTÓRIA DE EMIL PETR

Na vida da gente é uma grande satisfação quando nosso planos se realizam.

E eu me sinto assim neste momento, quando se aproxima o lançamento do meu quarto livro.

Em 2009 eu fui um dos realizadores do livro “Os cavaleiros dos céus – A saga do vôo de Ferrarin e Del Prete”, que narra a história da primeira travessia sem escalas entre a Europa e America do Sul, realizada pelos pilotos italianos Arturo Ferrarin e Carlo Del Prete, em 1928. Emil, um grande leitor sobre aviação teve acesso a este trabalho e gostou do livro.

Um dia foi contatado por um familiar, que me contou que em Natal morava um veterano norte-americano da II Guerra Mundial, que estava me procurando através de seus familiares e desejava me conhecer para contar a sua história. No principio achei tudo meio estranho e um tanto fantasioso, mas nada era mentira.

Conheci uma figura humana incrível e iniciamos nosso trabalho.

Emil Anthony Petr é natural da cidade de Deweese, no estado de Nebraska. Católico, descendente de tchecos, nasceu em 1919 e aos 22 anos, em janeiro de 1942, Emil buscou um local de alistamento para se engajar lutar contra os nazifascistas, este filho de simples agricultores tinha certeza que “-Não queria lutar em trincheiras, mas no ar”.

Foi primeiramente designado para o 57º Grupo de Caça, na área de Boston. Quando estava para seguir com a sua unidade para o deserto do norte da África, ele conseguiu a aprovação para cursar a escola de formação de navegadores, em San Marco, no Texas. Em 1943, após conseguir a patente de segundo tenente, foi designado para atuar em bombardeiros B-24. Mas não era o fim de sua preparação. O tenente Petr seguiu para a base aérea de Langley, Virginia, onde se especializou na tarefa de bombardeio por radar.

Em abril de 1944 chegou a sua transferência para a 15ª Air Force, no sul da Itália, para atuar no esquadrão 139, do 454th Bomb Group, baseado no campo de San Giovanni, próximo a cidade de Cerignola.

Durante o trajeto para a Europa o tenente Emil esteve no Brasil, mas não em Natal. Seu trajeto passou pelas cidades de Belém e Fortaleza, onde guardou boas lembranças. “-Não era para ter conhecido Natal na época da guerra, mas foi para cá que optei por viver e me casar”.

No 454th Bomb Group havia uma seção específica de pessoas que trabalham com sistemas de radar. Quando Emil foi escolhido para uma missão de bombardeio, ele me disse que era extremamente focado em seu trabalho. Porque ele sabia que qualquer erro pode comprometer todo o grupo de aeronaves e suas tripulações.

De abril a setembro de 1944 o tenente Emil participou de 38 missões sobre a Europa ocupada. Em uma delas, ao atacarem a fábrica da Messerschmitt, em Bad Voslau, na Áustria. O bombardeamento desta estratégica unidade fabril rendeu ao 454th Bomb Group uma citação do presidente dos Estados Unidos e o tenente Emil estava lá.

Mas no dia 13 de setembro de 1944, quando na sua 39º missão, a de número 117 do 454th Bomb Group, cujo objetivo era uma refinaria na cidade alemã de Odertal, seu B-24 foi atingido pela artilharia antiaérea alemã. Ninguém da sua tripulação morreu, mas a maioria foi capturada, entre estes o tenente Emil.

Sobre a derrubada de sua aeronave, conseguimos contatar dois veteranos alemães que estavam nas baterias antiaéreas que protegiam a cidade de Odertal e trouxeram interessantes detalhes sobre aquele dia.

Jovens alemães pertencentes ao Luftgal 8, FLAK-Gruppe Oberschlesiem-West, FLAK-Untergruppe Odertal, responsáveis pela derrubada da B-24 do tenente Emil em 1944

Feito prisioneiro, Emil foi levado para o campo de prisioneiros Stag Luft III, em Sagan (atual Zagan, na Polônia) e o sofrimento foi grande.

Meses depois as tropas russas estavam avançando a partir do leste e começaram a se aproximar do campo. Segundo os livros relativos à Segunda Guerra Mundial Adolf Hitler mandou evacuar Stalag Luft III, pois além de não querer que estes aviadores aliados fossem libertados pelos russos, havia a intenção de utilizá-los como reféns.

A ficha do prisioneiro Emil Petr em Stalag Luft III

Em 31 de Janeiro os homens seguiram para o Stalag Luft VIIA, em Moosburg. Durante dois dias de viagem, os aviadores foram levados em vagões de transportar gado. As necessidades fisiológicas eram feitas ali mesmo, em pé e para dormir só escorados uns nos outros e a viagem durou dois dias. Moosburg era uma verdadeira pocilga, onde os alemães amontoaram mais de 140.000 prisioneiros aliados, entre estes alguns brasileiros.

O dia da libertação

Finalmente os prisioneiros foram libertados pelos soldados da 14ª Divisão Blindada, do 3º Exército da U.S. Army, comandados pelo general George Patton.

Para o veterano residente em Natal, a lição mais importante da guerra foi a “Falta de justificativas para a violência”, que no seu entendimento ainda não foi aprendida pela humanidade.

Depois de retornar aos Estados Unidos, Emil tentou a universidade de Lincoln, sem sucesso e foi trabalhar em uma empresa de construção da família. Mas este americano de origem eslava, de profunda devoção católica, decidiu trabalhar como um voluntário em obras assistenciais na América Latina, através de um programa criado pelo Papa João XVIII.

Dom Eugênio e Emil

O destino o trouxe a Natal em 1963, onde conheceu Dom Eugênio de Araújo Sales (na época Bispo da capital potiguar) e se incorporou no programa SAR – Serviço de Assistência Rural. Através deste trabalho manteve contatos e participou de ações em Recife junto com Dom Helder Câmara e teve oportunidade de estar ao lado da irmã Dulce, de Salvador.

Natal-1963

Emil me comentou que já tinha ouvido falar sobre Natal, principalmente durante o seu trajeto aéreo para combater na Europa. Mas na época de sua passagem, devido ao grande trânsito de aviões no famoso “Parnamirim Field”, o seu caminho para a Itália foi através de Fortaleza. Mas, para ele, a hora certa de estar em Natal foi em 1963, onde conheceu uma pessoa que mudou sua vida.

Emil e Célia

Emil teve oportunidade de conhecer o sertão potiguar, os aspectos ligados aos trabalhadores rurais nordestinos e veio a ser casar com a assistente social Célia Vale Xavier, assistente social com curso de especialização na Costa Rica e Colômbia, nascida em Caicó, que havia sido indicada pelo Monsenhor Walfredo Gurgel, seu antigo mestre, para trabalhar no SAR junto com Dom Eugênio, na elaboração do pioneiro projeto de educação radiofônica através da Emissora de Educação Rural, mais conhecida como Rádio Rural de Natal.

Ela e Emil Petr se uniram oficialmente em 1967 e passaram a morar no bairro de Petrópolis. Na capital potiguar Emil criou fortes laços de amizade no seio de nossa sociedade. Viajou a serviço do PAVLA pelo Brasil, conheceu do interior do Nordeste a floresta amazônica. Após o fim do PAVLA, o nativo de Nebraska trabalhou em Natal junto à escola de línguas SCBEU, a Emater, no INPE e prestou serviço junto a UFRN.

Em 1969, com o apoio de sua esposa Célia, comprou uma propriedade na cidade de São Gonçalo do Amarante, próxima a Natal, a qual denominou “Sítio Nebraska”. Neste local, junto com as comunidades rurais da região, desenvolveu a primeira experiência de agricultura sem agrotóxicos no Rio Grande do Norte. Mesmo com dificuldades ele conseguiu escoar a produção para restaurantes que trabalhavam com comida natural em Natal e junto a consumidores individuais.

O casal Emil Petr e Célia Vale não tiveram filhos. Eles adotaram Maria Isabel, a querida Mabel, que havia nascido com um a grave doença cerebral, mas isto não foi problema para o casal dedicar a esta criança muito amor e carinho durante 11 anos. Apesar dos esforços dos pais, Maria Isabel deixou este plano terreno em meio a muitas saudades.

Emil levando sua filha Mabel para ser consultada no navio hospital “Hope”

Homem de extrema sensibilidade e preocupação com a natureza, a preservação do meio ambiente, o uso sustentável da terra e o consumo correto de produtos agrícolas, decidiu junto com o professor Waldson Pinheiro, o Embaixador Nestor Lima, o Dr. Otto Guerra, o ex-governador Cortez Pereira e outras pessoas, criar uma entidade de preservação da natureza, a primeira do gênero oficialmente estabelecida no Rio Grande do Norte. Esta ONG é a conhecida ASPOAN – Associação Potiguar Amigos da Natureza, que tantos trabalhos realizou (e realiza) em prol do meio ambiente potiguar. Foi um momento que Emil considera fantástico, onde surgiram muitas ideias e projetos ligados a área ambiental, a maioria deles ações inéditas no Rio Grande do Norte.

Em meio a muitas atividades, Emil teve a tristeza de saber que sua amada Célia fora acometida do Mal de Azheimer. Durante seis anos Emil e a família de Dona Célia, que ele considera sua família no Brasil, buscaram dar o melhor para esta caicoense de fibra. Em 14 de julho de 2010, Célia Vale Petr seguiu para um plano superior em meio a muito carinho.

Durante a luta em prol da saúde de sua amada esposa, surgiu na mente de Emil o desejo de contar sua história de vida para as gerações futuras.

Desde o primeiro semestre de 2010 iniciamos a fase de entrevistas, daí seguimos para fazer contato com pessoas e entidades nos Estados Unidos e na Eslováquia. Depois partimos para a análise de suas cartas e de sua esposa, Célia Vale Petr. Outras fontes são seus apontamentos compilados em um diário, muitas fotos, além do livro da sua formatura como oficial navegador, o livro oficial do seu esquadrão (publicado em 1946), análise de material vindo do Arquivo Nacional dos Estados Unidos, da família Petr e da família Vale.

Chegamos a reta final deste nosso trabalho e o resultado é “Eu Não Sou Herói, A História de Emil Petr”.

Contamos com o empenho do editor e escritor Carlos Fialho e dos profissionais da Editora Jovens Escribas, que realizaram um trabalho magistral. O resultado é um livro com mais de 300 páginas e um vasto acervo fotográfico. Tudo em um belo formato, repleto de histórias interessantes.

O autor e seu biografado

No dia 31 de outubro, no Iate Clube de Natal, quarta-feira, a partir das 19:00 horas, estarei junto com Emil, seus familiares e amigos, autografando este novo trabalho.

Um forte abraço a todos.

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12 comentários em “O MEU NOVO LIVRO – EU NÃO SOU HERÓI, A HISTÓRIA DE EMIL PETR”

      1. Caro Rostand, desejo muito sucesso no lançamento do seu novo livro. Os jovens de hoje precisa de pessoas igual a você, que pesquisa sobre a cultura e os acontecimentos históricos que marcaram o nosso RN e o Brasil. Ainda quero prestigiar um lançando de livro seu sobre a história do cangaço, sei que você é capaz e também merece esse feito devido o seu grande conhecimento sobre esses acontecimentos que marcaram com sangue o nosso nordeste.

        Att,
        Neto – Natal

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  1. TIVE A OPORTUNIDADE DE TRABALHAR COM EMIL PITER NOS ANOS 80 E MUITAS VEZES ELE ME CONFIDENCIAVA PARTE DE SUA HISTÓRIA QUE HOJE VEJO PUBLICADA PELO SEU LIVRO. COM CERTEZA É UM GRANDE HOMEM QUE MERECE TODAS AS HOMENAGENS. PARABÉNS PELO LIVRO AMIGO ROSTAND!

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  2. Prezado Rostand,
    Estive em viagem de férias a João Pessoa e a Natal até ontem (23/01/2013) e no último domingo ainda em Natal assisti ao programa de TV sobre o seu livo “Eu não sou herói”. Apreciei imensamente o programa na TV e considero a estória de Emil Petr simplesmente espetacular. Trabalho em aviação desde 1987 e atualmente trabalho para o órgão de regulação da aviação civil dos EUA, ou o FAA (Federal Aviation Administration) cujo escritório funciona na Embaixada dos EUA em Brasília. Já trabalhei também para o escritório dos Adidos militares dos EUA no Brasil e há alguns anos trabalhamos em um caso de um avião militar dos EUA da II Guerra que caiu em algum lugar de um pântano no Amapá. Gostaria de me colocar á disposição e saber se o livro está á venda em toda rede da livraria Saraiva. Queira por gentileza entrar em contato caso lhe possa ser útil. Atenciosamente,

    João R. Silva

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    1. Amigo João,

      Eu é que agradeço seu contato e suas gentis considerações.
      Em relação a venda, eu lhe peço humildes desculpas, mas houve um erro. Na verdade o nosso trabalho está a venda nas lojas da livrarias Saraiva e Nobre de Natal, fato este já devidamente corrigido no nosso blog.
      Para adquirir o livro, sugiro que você entre em contato com a Editora Jovens Escribas, que está comercializando o nosso trabalho através do site http://jovensescribas.com.br/
      Com certeza vamos entrar em contato, pois sozinhos em termos de pesquisas não conseguimos nada.
      Mais uma vez te agradeço pela sua mensagem.

      Forte abraço.

      Rostand

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  3. Caro Rostand,

    Obrigado pela pronta resposta. Informo ainda que através de um tio meu em Natal já consegui adquirir o livro “Eu não sou herói” e de imediato iniciei a leitura. Aguardo seu contato.

    João R. Silva

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