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LADY BE GOOD – O AVIÃO FANTASMA

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Em Meio a Uma Série de Erros e Descobertas, Surgiu Uma das Mais Fortes Histórias de Luta Pela Sobrevivência Durante a II Guerra. E Uma Pergunta – A Lady Be Good Esteve em Natal?

Rostand Medeiros – Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN. 

No início de novembro de 1958, uma equipe de exploração de petróleo da Grã-Bretanha estava sobrevoando o deserto da Líbia, quando inesperadamente descobriram no meio de um verdadeiro mar de areia os destroços de um avião da época da Segunda Guerra Mundial. Estava encerrado o mistério do desaparecimento ocorrido quinze anos antes do bombardeiro quadrimotor B-24 D Liberator conhecido como Lady Be Good.

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Primeira visão da Lady Be Good pelas equipes de exploração de petróleo em 1958.

Nome de Musical

Lady Be Good era o musical da Broadway apresentado em 1924, sendo o primeiro musical de sucesso dos irmãos George e Ira Gershwin. A música com o mesmo nome foi gravada por Fred Astaire com George Gershwin no piano. Não se sabe quem batizou este quadrimotor B-24 D, um dos aviões mais reconhecidos da Segunda Guerra Mundial, com o nome deste sucesso musical. Talvez um dos membros dos grupos de mecânicos ou do pessoal de apoio.

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A Lady Be Good – Fonte – http://wp.scn.ru/en/ww2/b/327/3/2

O B-24 D Lady Be Good recebeu o número de série 41-24301 e foi fabricado no outono de 1942, na Divisão de San Diego da Consolidated Aircraft Company. A aeronave foi transportada para a Base da Força Aérea do Exército na cidade de Topeka, estado do Kansas, onde começou o treinamento da sua tripulação nos primeiros meses de 1943, para envio a frente de luta no exterior. 

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Tripulação da Lady Be Good – Fonte – http://www.armyaircorps-376bg.com

Sua tripulação era composta do Piloto – 1º Tenente William Joseph Hutton, Copiloto – 1º Tenente Robert F. Toner, Navegador – 2º Tenente David Peter (D. P.) Hays, Bombardeador – 2º tenente John Stanley Woravka, Engenheiro de voo – Harold J. Ripslinger, Operador de rádio – Robert Edwin LaMotte, Atirador – Guy Ewood Shelley Jr., Atirador – Vernon L. Moore, Atirador – Samuel R. Adams.

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Foto de uma B-24 do 376th Bombardment Group – Fonte – Time-Life

Ao final do treinamento o Lady Be Good  e sua tripulação foram designados para a seção B do 514th Squadron (514º Esquadrão), da 376th Bombardment Group (376° Grupo de Bombardeiros), da 9th Air Force (9º Força Aérea), em Soluch, Líbia. Seu número dentro do esquadrão estava identificado por um grande “64” de cada lado de seu nariz. 

O B-24 D Liberator era um avião robusto e destinado a se tornar o bombardeiro americano mais produzido na história, onde 18 mil foram construídos durante a Segunda Guerra.

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Uma B-24 do 376th Bombardment Group em foto colorida no norte da África – Fonte Time-Life

Os pilotos desse avião tinham reputação de ter grandes bíceps iguais aos dos lutadores de boxe, pois voavam realizando muito esforço físico para manter esse avião sobre controle. Mas o B-24 também tinha bons atributos: uma velocidade máxima superior à dos B-17, maior alcance de combate, uma carga de bomba mais pesada e um teto de serviço superior 9.200 metros de altitude. Era um avião robusto, que aguentou situações muito complicadas em combate. Mesmo bastante danificado, em muitas ocasiões este tipo de aeronave trouxe de volta para suas bases muitos dos seus aviadores.

A Missão Fracassada e as Buscas 

A tripulação havia chegado à Líbia no dia 18 de março de 1943.

O Lady Be Good  e sua tripulação receberam ordens de voar pela primeira vez em uma missão de bombardeio atacando a Itália no dia 4 de abril de 1943. O alvo era o movimentado porto de Nápoles, com os atacantes decolando a luz do dia e sem escolta de caças, para chegar ao alvo apenas ao pôr do sol. O objetivo era impedir que os navios alemães atracassem naquele porto e continuassem com seu avanço pela Europa. Com a destruição do porto de Nápoles, o abastecimento das forças do Eixo seria seriamente comprometido. 

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O B-24 D Liberator era um avião robusto  durante a Segunda Guerra. – Fonte – Time-Life

Da decolagem para a Nápoles até o retorno, os B-24 D Liberators do 376th Bombardment Group levariam nove horas de voo, estando com combustível para doze horas dentro dos tanques. Finalizado o bombardeio eles deveriam girar suas aeronaves para o retorno a Soluch, atravessando o Mediterrâneo na mais completa escuridão. 

Durante o voo o silêncio no rádio era total. Os aviões não podiam se comunicar por medo de atrair aviões de caça nazistas, que nessa época ainda possuindo alguma capacidade de combate naquela região.

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Duas B-24 do 376th Bombardment Group

Mas as condições não foram favoráveis ​​desde o início. Devido aos fortes ventos e tempestades de areia no deserto da Líbia, os aviões foram obrigados a decolar em pequenos grupos. Um dos últimos a partir foi o Lady Be Good, num grupo com dois outros aviões. Mas esses aviões tiveram problemas de areia em seus motores e tiveram que retornar, deixando o Lady Be Good sozinho e bem atrás dos outros B-24 a caminho de Nápoles. No total nove dos vinte e quatro aviões abortaram a missão, mas os motores do Lady Be Good  pareceram não ter nenhum dos problemas apontados pelos que deixaram a missão.

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Porto de Nápoles, o alvo nunca atingido.

Tudo isso fez com que a tripulação do Tenente William J. Hutton mudasse a sua rota para Nápoles, com uma aproximação mais para leste. Quando o Lady Be Good  alcançou a vizinhança do alvo, às 19h50, a uma altitude de 7.600 metros, os outros aviões já haviam deixado cair as suas bombas e estavam voltando para Soluch. Sob Nápoles a tripulação encontrou a visualização do alvo atrapalhado pelo mau tempo e o Tenente Hutton decidiu virar e retornar para a base. A tripulação então lançou suas bombas no Mediterrâneo e agora eles estavam sozinhos!

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Mapa do trajeto da Lady Be Good entre 4 e 5 de abril de 1943.

A meia noite e doze minutos de 5 de abril, o piloto alertou a base de Soluch para realizarem uma assistência direcional, afirmando que o buscador automático de direção da aeronave já não funcionava. Acredita-se que esta aeronave voou sobre, ou muito perto, de Soluch e continuou para o sudeste sobre o deserto líbio. Tinham chamado sua base para ajudar, mas em algum lugar nesta conjuntura erros críticos ocorreram e esse foi oficialmente o último contato com Lady Be Good. 

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Os militares da Base de Soluch buscaram a Lady Be Good e sua tripulação durante alguns dias – Fonte – Time-Life

Há uma história que ele fez contato com outra aeronave exatamente quando como essa aeronave estava prestes a pousar. No momento em que várias B-24 acabaram de aterrissar na base de Soluch e os tripulantes deixavam suas aeronaves com o apoio do pessoal de terra, vários destes afirmaram que ouviram um B-24 voar sobre o aeródromo. O consenso geral de opinião era que esta aeronave era o Lady be Good. Sinais luminosos foram disparados, mas em vão, o avião misterioso continuou no seu curso para o interior do deserto.

Dos vinte e quatro B-24 que participaram da missão, apenas o Lady be Good não conseguiu retornar a Soluch. 

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O piloto da Lady Be Good o 1º Tenente William Joseph Hutton em um momento de folga no norte da África, montado em um dromedário – Fonte – https://www.history.com/.

Os militares então iniciaram buscas pelo avião desaparecido. Acreditavam inicialmente que o avião tinha caído no Mar Mediterrâneo, depois de sofrer um mau funcionamento ou uma possível desorientação pela inexperiência de sua tripulação. Os registros oficiais no momento alegaram que esta conclusão baseou-se na premissa que a tripulação desaparecida enviou mensagens de rádio perto da costa. Mas eles não estavam no mar.

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O copiloto da Lady Be Good o 1º Tenente Robert F. Toner- Fonte – https://www.history.com/.

Ao mesmo tempo, tendo em mente que vários militares estavam cientes do avião misterioso que voou sobre a base de Soluch na mesma noite do desaparecimento e que o Lady Be Good tomou rumo sul, várias aeronaves foram despachadas a buscar a B-24 sumida no interior do deserto da Líbia. Na verdade alguns dos B-24 dessa busca chegaram a percorrer áreas que alcançou pontos a cerca de 600 km ao sul de Soluch. Mas foi tudo sem proveito. Alguns quilômetros a mais de buscas ao sul e o final desse episódio seria diferente!

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O engenheiro de voo da Lady Be Good, Harold J. Ripslinger – Fonte – https://www.history.com/.

Lady Be Good tornou-se uma estatística de guerra, assim como sua tripulação. E as estatísticas são surpreendentes. Só os Estados Unidos perderam 43.583 aeronaves no exterior, das quais 22.918 foram perdidas em combate. Outros 13.872 aviões foram destruídos nos Estados Unidos em missões de treinamento e quase 1.000 aviões desapareceram enquanto viajavam para destinos no exterior, vários deles na rota que utilizava Natal e Parnamirim Field como ponto de apoio. 

Durante o auge da guerra, uma média de 200 aviadores americanos, os “flyboys”, morreram por dia e quase 12.000 foram e ainda estão desaparecidos. Fácil de entender por que Lady Be Good e sua equipe de nove homens se tornou uma mera nota de rodapé da guerra aérea. 

Um Avião Fantasma Perdido no Deserto

Mais de quinze e meio depois, em maio de 1958, uma equipe britânica de exploração de petróleo da D’Arcy Oil Company descobriu destroços de uma aeronave quadrimotor, enquanto realizavam uma pesquisa aérea sobre o deserto da Líbia, perto da borda do Mar da Areia de Calanscio. A posição da equipe de exploração era de aproximadamente 708 km ao sul de Soluch, Líbia. 

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O avistamento foi reportado às autoridades americanas na Base Aérea de Wheelus, na costa de Trípoli, mas nenhuma tentativa foi feita para inspecionar os destroços, uma vez que não havia registro de algum avião americano perdido nessa área. Apesar disso a posição dos destroços foi marcada nos mapas do time de exploração de petróleo, uma vez que outra missão de pesquisa do petróleo estava agendada para o ano seguinte no Calansio. Em junho daquele ano outro avião envolvido no trabalho de pesquisa de petróleo realizou outro avistamento da misteriosa aeronave sinistrada. 

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Pouco depois, em 27 de fevereiro de 1959, um topógrafo britânico e dois geólogos avistaram os destroços e traçaram as coordenadas. Finalmente os americanos enviaram uma equipe de recuperação para o local em 26 de maio do mesmo ano. Era um grupo pequeno, do Exército dos Estados Unidos, auxiliada pelo pessoal da Força Aérea da Base Aérea de Wheelus. No local essa equipe de pesquisa terrestre confirmou as palavras pintadas à mão na parte dianteira da fuselagem: Lady Be Good. 

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Para o espanto de todos, a Lady Be Good estava em condições surpreendentemente boas. Seu rádio funcionava perfeitamente, uma garrafa térmica se encontrava totalmente conservada e o café em seu interior ainda mantinha o aroma característico. Havia recipientes de água ainda intactos dentro do avião e uma metralhadora de calibre .50 disparou no primeiro aperto do gatilho.

As condições do deserto preservaram e protegeram de alguma forma os restos da Lady Be Good. Mas e a tripulação? Não havia restos humanos dentro, ou diretamente fora, da aeronave.

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A conclusão da inspeção inicial foi que a tripulação havia saltado para fora da B-24, uma vez que a escotilha de escape traseira e as portas da área de bombas estavam abertas. Não foram encontrados paraquedas e nenhum sinal da tripulação em qualquer lugar perto dos destroços. 

A questão era então – Onde eles haviam saltado? 

As equipes de pesquisa exploraram a área que cercava o local do acidente. Seguiram algumas trilhas que conduzia a noroeste do local, descobriram alguns itens que aparentemente foram deixados pelos tripulantes e que formavam marcadores de seta para ajudar o serviço de resgate aéreo a localizá-los.

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A mais ou menos 30 km ao norte do local do acidente, um par de botas de voo foram encontradas formando uma flecha apontando para o norte. Então, uma série de paraquedas foi encontrada, apoiados por pedras para marcar a rota utilizada pela equipe. Mas como nenhum resíduo humano foi encontrado pela equipe e a missão foi cancelada devido à falha de equipamentos e às condições severas no deserto. Igualmente concluiu-se que provavelmente quaisquer restos humanos e de equipamentos pessoais haviam sido cobertos pelo vento e pela areia do deserto. Os especialistas estimaram que os aviadores teriam viajado não mais que 40 a 50 km a pé, naquelas duras condições.

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Paraquedas encontrados  – Fonte – https://www.history.com/.

Não muito tempo depois esses militares se surpreenderiam com o que aconteceu aos homens da Lady Be Good no árido deserto líbio.

Descobertas

Em 11 de fevereiro de 1960, quase dois anos após os destroços da B-24 terem sido encontrados, equipes da British Petroleum se depararam com os restos de cinco dos nove tripulantes da Lady Be Good. O local era um planalto no deserto, em pleno Mar de Areia de Calanscio, a uma distância de 137 quilômetros ao norte do local do acidente. 

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Local onde foram encontrados os cinco corpos – Fonte – https://www.history.com/.

Eles estavam caídos próximos uns dos outros. Eram os Tenentes Willian J. Hatton, Robert F. Toner, D. P. Hays e os Sargentos Robert E. LaMotte e Samuel R. Adams. Os restos foram encontrados agrupados e nas proximidades foram descobertos equipamentos pessoais como cantis, lanternas e jaquetas de voo. 

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Fonte – https://www.history.com/.

Além destes materiais foi encontrado um diário com as anotações do Tenente Robert Toner. Nele estavam a informação que o grupo havia pulado de paraquedas por volta das duas horas da madrugada de 5 de abril, enquanto o B-24 seguia para seu pouso final. Ali está registrada de forma dramática uma história de verdadeira coragem e heroísmo que se prolongou para aqueles cinco homens até o dia 12 de abril de 1943.

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O cadáver do navegador da Lady Be Good, o 2º Tenente David Peter (D. P.) Hays, foi um dos cinco descobertos pelos trabalhadores da BP. Sobre D. P. Hays pesou as maiores acusações de erros que culminaram na tragedia desta aeronave.

De acordo com o diário a tripulação imaginava cair na água do Mar Mediterrâneo, mas para surpresa de todos bateram no assoalho do deserto. Oito membros da tripulação então se reuniram na escuridão, mas não havia nenhum sinal do nono tripulante, o tenente John Woravka. Chamaram por ele na escuridão, mas este não estava em nenhuma parte.

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Cadáver como foi encontrado, tendo ao seu lado uma lanterna – Fonte – https://www.history.com/.

Na sequência imaginaram (corretamente) que tinham ultrapassado sua base no voo, mas que ela tinha de estar próximo (errado). Tinham pouca água e nenhum alimento, mas decidiram que andariam para o noroeste e logo encontrariam Woravka. E o melhor era começar antes que o sol surgisse acima de suas cabeças – então onde eles estava se transformaria em um verdadeiro inferno.

Diário de Co-Pilot Robert F. Toner
Diário de copiloto Robert F. Toner

Os oito homens, apesar das temperaturas que teriam atingido até 54° C e sem nenhuma sombra para protegê-los, caminharam oito dias no mais mortal deserto da face da Terra com apenas metade de um cantil de água para compartilhar entre eles. Percorreram 137 quilômetros até o local onde os restos de cinco deles foram encontrados. Para o leitor do Rio Grande do Norte ter uma ideia, à distância entre as cidades de Natal e Lajes, pela rodovia federal BR-304, é de 128 km.

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 Fonte – https://www.history.com/.

Ao alcançarem a distância de 137 quilômetros, os tripulantes Hatton, Toner, Hays, Adams e LaMotte não puderam continuar devido ao esgotamento e ficaram para trás, enquanto os sargentos Shelley, Moore e Ripslinger continuaram em busca de ajuda. Esse fato contrariava a todas as expectativas dos experientes conhecedores de sobrevivência no deserto, que não acreditavam que eles aguentariam caminhar mais do que 45 ou 50 quilômetros naquele ambiente.

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O Operador de rádio da Lady Be Good, Robert Edwin LaMotte

As equipes de busca também encontraram algumas revistas com alguns dos membros da tripulação, que derramaram mais luz sobre os últimos dias e horas dos membros da Lady Be Good. As inscrições nestas revistas revelaram que estavam enfrentando condições extremamente difíceis, com um suprimento muito curto de água. Mesmo assim continuaram a caminhar o mais longe possível, desidratando lentamente e ficando muito fracos para continuar, até que pereceram na imensidão do deserto. 

Operação Clímax 

Depois que os restos dos cinco tripulantes foram descobertos, a imprensa dos Estados Unidos deu novamente uma intensa cobertura para o fato e a história do último voo da Lady Be Good ressurgiu nas manchetes.

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Sargento cinegrafista da Operação Clímax – Fonte – https://www.history.com/.

Então o Exército e a Força Aérea dos Estados Unidos lançaram um extenso esforço conjunto para localizar os quatro tripulantes restantes e a chamada “Operação Clímax” foi criada. Numerosos militares, veículos terrestres, helicópteros de reconhecimento Bell 47, aviões de transporte Hércules C-130 e outros materiais foram utilizados na operação.

Mas tal como aconteceu das outras vezes, foram os geólogos e pesquisadores da British Petroleum que descobriram no dia 12 de maio de 1960 os restos do tripulante Guy E. Shelley. Ele foi encontrado a 34 km a noroeste do local onde foram achados os corpos dos cinco primeiros tripulantes.  

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Fonte – https://www.history.com/.

No dia 17 de maio, agora por helicópteros do Exército dos Estados Unidos, seria a vez do corpo do Sargento Técnico Harold J. Ripslinger ser encontrado 42 km ao norte do tripulante Shelley. Seus restos foram achados em uma área pontilhada com dunas de areia que possuem até 180 metros de altura e a uma incrível distância de 212 km do local onde pousou de paraquedas. Certamente Shelley e Ripslinger passaram bem mais de 10 dias para completar seus trajetos e tombarem sem vida. Em tempo – 212 km é a distância equivalente entre as cidades de Natal e Acari (215 km).

Com o achado deste corpo a “Operação Clímax” foi concluída, mas sem encontrar os dois outros aviadores desaparecidos – Tenente John S. Woravka e o Sargento Vernon L. Moore.

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Corpo do Tenente John S. Woravka – Fonte – https://www.history.com/.

Mas em agosto de 1960, mais uma vez outra equipe de operários da British Petroleum encontraram o corpo do tenente Woravka. Os seus restos estavam vestidos com a roupa para proteção do frio a alta altitude e ele ainda estava amarrado em seu paraquedas. Este corpo estava a 25 km ao norte dos restos da Lady be good. Em uma inspeção mais próxima do corpo, descobriu-se que Woravka morreu por impacto contra o solo quando seu paraquedas não conseguiu se desdobrar corretamente.

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A Força Aérea dos Estados Unidos foi informada e enviaram uma pequena equipe para recuperar o cadáver. Quando o time de recuperação fez uma busca superficial da área local, eles ficaram surpresos ao encontrar uma pilha de cintas de paraquedas, roupa para proteção do frio a alta altitude, cordas e capas a menos de 800 metros ao norte do corpo de Woravka. Esta área, obviamente, foi o ponto de reunião original da tripulação da Lady be good que sobreviveu ao salto de paraquedas. De muitas maneiras, considerando o que o resto da tripulação sofreu, Woravka era possivelmente o membro mais afortunado da equipe.

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O Sargento Vernon L. Moore.

O Sargento Vernon L. Moore nunca foi encontrado, sendo o único tripulante da Lady be good a permanecer desaparecido até hoje e a descansar em paz no deserto do Saara.

Resumo da Tragédia

Conectando os pontos entre o local do acidente e os restos dos membros da tripulação, os pesquisadores foram capazes de juntar as circunstâncias que cercaram o misterioso desaparecimento da Lady be good .

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Em 4 de abril de 1943 essa B-24 partiu para sua primeira e última missão de combate com seus nove membros da tripulação.  O tenente Hatton decidiu continuar com sua missão apesar do mau tempo, o que acabou por ser um erro fatal para todos a bordo. A visibilidade era quase zero e as nuvens grossas fizeram com que o avião se afastasse mais do alvo pretendido. Sem sucesso na missão eles retornaram para a sua base.

A equipe tentou fazer contato de rádio com a base, mas devido a falha de comunicação, seu pedido de localização não foi abordado. Passaram sobre a base de Soluch e não perceberam.

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Confiando somente nos instrumentos básicos e em um sinal emitido pela torre da base de Bengazi, também na Líbia, piloto e navegador continuaram o voo rumo à Soluch. A base, porém, nunca apareceu.

Por duas horas a Lady Be Good  voou desde a sua base e foi ficando sem combustível. O pior é que a tripulação, certamente em meio ao despreparo e desespero, imaginava que ainda estavam sobre o Mar Mediterrâneo.

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Tripulação da Lady Be Good.

Então a tripulação decidiu abandonar o avião e os nove membros saíram r usaram seus paraquedas. Eles ficaram surpresos quando pousaram na areia em vez da água. Um membro da tripulação, John S. Woravka, que era o bombardeador, estava desaparecido. Os sobreviventes decidiram então caminhar para o norte em direção à base, que eles estimavam estar a 160 km de distância. 

Com pouco para sustentá-los e com o sol sugando suas vidas, os aviadores esforçaram-se para o norte por vários dias e foram perecendo. Os restos mortais de um dos membros da tripulação foram encontrados a mais de 200 km de onde pousaram. Os restos de Woravka foram encontrados perto do local do acidente. 

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Situação dos destroços da Lady Be Good da Líbia, antes da recente Guerra Civil Líbia de 2011, que resultou na morte do ditador Muammar al-Gaddafi.

Todos os corpos dos oito membros da tripulação do Lady Be Good  que foram achados foram trazidos para os Estados Unidos, enquanto os destroços do avião foram mantidos na Líbia. 

A história da Lady Be Good  e sua valente tripulação, mesmo sem ter havido um final feliz, é um grande exemplo de coragem e resistência em condições extremamente difíceis e infernais. É sem dúvida uma ótima demonstração de resiliência e bravura humana.

Uma Última Questão – Eles estiveram em Natal?

Sem maiores dados, sem maior quantidade de fontes, é praticamente impossível concordar totalmente com essa pergunta. Entretanto é certo afirmar que no seu caminho através do Oceano Atlântico para a África, é quase impossível que a Lady Be Good  não tenha passado por Natal, no Rio Grande do Norte.

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Um C-87, variante de transporte de passageiros do B-24, na pista de Parnamirim Field.

Primeiramente a rota ligando os Estados Unidos até a África, entre 1942 e 1943, passava basicamente pelo Norte e Nordeste do Brasil e pela base de Parnamirim Field, em Natal.

Em segundo lugar consta que as primeiras aeronaves B-24 do 376th Bombardment Group começaram a voar a caminho de sua primeira base no exterior, a de Lydda, na Palestina, entre maio e junho de 1942 e está registrado no site do 376th Bombardment Group (http://www.armyaircorps-376bg.com ) que basicamente as aeronaves do e seus quatro esquadrões de combate (512°, 513°, 515° e o 514th Squadron, do qual fazia parte a Lady Be Good) passaram por Natal. Neste site se encontram inúmeros relatos sobre essas passagens com interessantes informações e fotos dos aviões e tripulantes do 376th Bombardment Group.

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É certo que a Lady Be Good e sua novata tripulação só se incorporaram ao 514th Squadron em abril de 1943, por serem uma aeronave de complementação de perdas anteriormente sofridas e é muito difícil eles não terem seguido para seu destino utilizando a rota anteriormente feita por seus companheiros de esquadrão.

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B-24 do Sargento artilheiro Albert Story, que passou por Natal – Fonte – http://www.armyaircorps-376bg.com

Agora saber o que eles fizeram em Natal é outra conversa.

Na maioria dos casos esse pessoal chegava aqui e no outro dia já estava cruzando o Atlântico. Como foi o caso do Sargento artilheiro Albert Story, que desembarcou junto com seus companheiros do B-24 número 41-11601 em Parnamirim Field no final de uma tarde para passar a noite e na próxima tarde já voavam sobre o Atlântico em caminho da África.

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O Sargento artilheiro Albert Story – Fonte – http://www.armyaircorps-376bg.com

Mas ocorreram exceções, como foi o caso do B-24 número 41-11642, pilotado pelo tenente Francis E. Nestor, que só chegou com seu pessoal em Lydda após uma demora de dezessete dias em Natal por problemas em um dos motores de sua B-24.

Certamente a tripulação do Tenente Francis aproveitou bem o nosso sol, nossas praias e outras coisas interessantes que tínhamos por aqui na época. Quem sabe se com o pessoal do Lady Be Good não aconteceu o mesmo?

FONTES 

http://www.fubarlegion.org/reviews/articles/ladybegood/ladybegood.html

https://b24ladybegood.wordpress.com/2010/10/27/14/

http://news.monroelocal.org/the-ghost-liberator-lady-be-good/

https://www.warhistoryonline.com/military-vehicle-news/b-24-bomber.html

http://www.armyaircorps-376bg.com

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O NAZISMO DE HAVAIANAS

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Nazismo no Brasil | Crédito: Domínio Público

A confortável vida dos nazistas no Brasil – antes e depois da Segunda Guerra

AUTOR – Leandro Narloch

FONTE – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/a-trajetoria-do-nazismo-no-brasil.phtml#.WkLlC9-nHXN

No dia 20 de abril de 1940, Adolf Hitler completava seus 51 anos. Para comemorar o aniversário do Führer, que nos dois meses seguintes dominaria Holanda, Bélgica e Dinamarca e, em junho, descansaria à sombra da Torre Eiffel, em Paris, o ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels preparou uma festa. Desde a manhã milhões de pessoas foram às ruas e curtiram o feriado ouvindo discursos inflamados ou seguindo desfiles nas principais cidades alemãs.

Longe de sua terra natal, 456 alemães preferiram uma festa reservada, mas também animada. No salão social do Clube de Atiradores de Blumenau, em Santa Catarina, eles se reuniram para um almoço típico, brindaram e deram vivas a Hitler. Na véspera, os 815 alunos entre 7 e 15 anos da Escola Alemã da Vila Mariana, em São Paulo, chegaram às 7 da manhã, como todos os dias. Como todos os dias, saudaram a chegada dos professores em coro: “Heil, Hitler”. Na mesma época, no Rio de Janeiro, uma enorme bandeira vermelha com a suástica preta podia ser vista hasteada, tremulando no alto do morro de Santa Tereza.

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O salão social do Clube de Atiradores de Blumenau

A existência de simpatizantes nazistas no Brasil, nos anos 30 e 40, nunca foi novidade. Porém, a partir de 1997, quando se tornaram públicos os arquivos da Delegacia de Ordem Política e Social (Deops) do governo Getúlio Vargas, os pesquisadores não passavam um dia sem descobrir algo novo e surpreendente sobre o nazismo no país.

É o caso da historiadora Ana Maria Dietrich, professora da Universidade de São Paulo, que durante anos pesquisou os milhares de documentos entre inquéritos, fotos, panfletos, depoimentos e relatórios do Dops. Segundo Ana Maria, os documentos revelaram um nível surpreendente de influência do nazismo na sociedade brasileira, detalhando não apenas atividades partidárias e de propaganda, mas de espionagem e fraudes, além da conivência, e até da simpatia, com que essa ideologia contou entre as autoridades brasileiras.

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Interessante livro da historiadora Ana Maria Dietrich sobre o tema. Recomendo!

Amigos, amigos

Para entender o fenômeno do nazismo entre nós, é preciso lembrar como era o Brasil nos anos 30. Vivíamos sob a ditadura do Estado Novo, de Getúlio Vargas. Partidos haviam sido proibidos, políticos foram cassados, jornais e revistas que não fossem simpáticos ao governo eram perseguidos. A Constituição imposta pelo getulismo era praticamente uma cópia da carta do ditador fascista italiano Benito Mussolini, de quem Getúlio não escondia ser admirador.

Uma sofisticada máquina publicitária que incluía centenas de emissoras de rádio propagava a imagem do presidente e fomentava o sentimento ultranacionalista. Dito assim, não parece um ambiente tão impróprio para o surgimento de ideais totalitários. E não era. No Brasil ainda circulavam ideias de dominância racial formuladas no século 19 e defendidas por intelectuais como Sílvio Romero. Jovens que se tornariam figurões da nossa cultura, como o poeta Vinicius de Moraes e o folclorista Câmara Cascudo, declaravam-se integralistas – a corrente de ultra direita que queria um Brasil totalitário e cujos membros se metiam em espancamentos de negros, estrangeiros e judeus.

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Grupo Integralista

“A política e a sociedade brasileiras refletiam as influências internacionais”, afirma Priscila Ferreira Perazzo, historiadora da USP e autora de O Perigo Alemão e a Repressão Policial no Estado Novo. De fato, mundo afora os ideais fascistas vicejavam. “Entre 1918 e 1920, dois Estados europeus fecharam seus parlamentos e implementaram governos absolutistas. Nos anos 1920 foram seis, e na década seguinte mais nove países sucumbiram a governos ditatoriais”, afirma o historiador britânico Eric Hobsbawm, em Era dos Extremos. “Na América, a lista de países não-autoritários incluía apenas Canadá, Colômbia, Estados Unidos, Costa Rica e Uruguai.”

Além de compartilhar ideais autoritários, o Brasil de Vargas mantinha relações para lá de amistosas com a Alemanha Nazista. Na década de 30, os alemães viraram o segundo maior mercado consumidor de produtos brasileiros, saltando de 10% para 22% de nossas exportações.

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Olga Benário – Fonte – https://pcb.org.br/portal2/12608/mulheres-revolucionarias-olga-benario-prestes

Em 1936, policiais e militares brasileiros visitaram a Alemanha, onde treinaram com a Gestapo, a polícia política de Hitler. Em retribuição, o governo brasileiro entregou aos nazistas comunistas e judeus alemães residentes no Brasil, como Olga Benário, Erna Krüger, Elise e Arthur Ewert. Dito assim, parece que Getúlio estava muito mais próximo de apoiar o Eixo que os Aliados, na guerra que se aproximava.

Nazismo legal

Datam de 1924 os primeiros registros sobre um grupo chamado genericamente de Landesgruppe Brasilien (“o grupo do país Brasil”), que pode ser identificado como um partido nazista no Brasil. Segundo Ana Maria Dietrich, desde o início a organização não era uma célula isolada e integrava uma rede mundial com outras filiais do partido presentes em 83 países, com 29 mil integrantes. Quando foi oficializado, em 1928, seu líder, Hans Henning von Cossel, estava apenas a dois degraus hierárquicos do próprio Hitler. “O partido chegou a ter 2,900 integrantes e era, de longe, um dos maiores entre os partidos nazistas que operavam fora da Alemanha”, diz Ana Maria.

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Em dez anos de atuação, o partido teve estatuto, uma sede nacional em São Paulo, escritórios regionais em Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, então capital federal, e sedes municipais. Dos quase 3 mil membros, 785 estavam em São Paulo, 528 em Santa Catarina, 447 no Rio de Janeiro. Havia “agentes de divulgação” em Pernambuco e Bahia.

Alguns de seus líderes, como o chefão Von Cossel e o tesoureiro Otto Braun, receberam treinamento especial em Munique, na Alemanha, para se tornarem “agentes políticos”. Os membros também se organizavam em associações, como a Juventude Hitlerista, a Associação de Professores e a Associação de Mulheres Nazistas.

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Hitler durante o desfile comemorando o retorno da Legião Condor da Espanha. À direita está Julius Schaub – Fonte – http://thirdreichcolorpictures.blogspot.com.br/2011/09/legion-condor-in-color.html

Ao contrário do que se pensa, o tipão mais comum de um nazista no Brasil tinha pouco a ver com os colonos alemães que chegaram no século 19. Geralmente, eram técnicos e empresários urbanos que viam o Brasil como uma gastland ” “terra de hospedagem”, um abrigo temporário. “A principal missão dos membros era difundir o nazismo entre os alemães longe da Alemanha”, diz Ana Maria. “Professores foram enviados de Berlim para lecionar em escolas alemãs e pregar o nazismo para os alunos.”

Foi o que ocorreu na Escola Alemã da Vila Mariana, hoje Escola Benjamin Constant, em São Paulo. Ali, as crianças estudavam em alemão, davam vivas a Hitler e entoavam canções nazistas como a patriótica Alemanha Acima de Tudo, que começava assim: “Levanta a bandeira da luta e da liberdade,/ as fileiras bem unidas,/ e marcha com os passos calmos e firmes”. No Colégio Visconde de Porto Seguro, também em São Paulo, o na época diretor Gustaf Hoch foi denunciado pelo pai de um aluno em carta ao próprio Goebbels por não defender o nazismo.

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“Tudo indica que o nazismo no Brasil se difundiu, pelo menos no início, para os alemães e entre os alemães. Eles não queriam saber da política interna, de tomar o poder do Brasil ou convencer mestiços e não-arianos a adotarem as ideias de Hitler”, diz Priscila Perazzo. O partido trabalhava de olho nos problemas da Alemanha e dos alemães que viviam no exterior. Sequer estavam registrados no Tribunal Superior Eleitoral, e descendentes nascidos no Brasil eram proibidos de entrar. “Não acredito e não há indício confiável de que os nazistas pretendessem influenciar drasticamente a política brasileira”, afirma Priscila.

No entanto, um estudo do historiador Francisco Teixeira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, baseado em documentos do Arquivo Federal da Alemanha, mostra que diante da iminência da guerra, entre 1936 e 1939, o partido recebeu do III Reich a missão de paquerar a opinião pública brasileira. Para isso, os nazistas controlavam pelo menos 15 emissoras de rádios espalhadas pelo país que transmitiam noticiários em português feitos em Berlim. Notícias da rádio Tupy, de São Paulo, em outubro de 1936, diziam que a Alemanha estava uma maravilha sob o comando do Führer. A produção industrial crescia, os alimentos abundavam, o perigo semita estava sendo afastado e, em breve, a raça alemã estaria toda reunida.

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Os ideais nazistas chegavam ao grande público brasileiro ainda em panfletos, livros e pelo jornal Deutscher Morgen (“Aurora Alemã”), que custava 200 réis e publicava na capa trechos de discursos de Hitler como esse, de junho de 1934: “Devemos assegurar a permanência da nossa raça e de nosso povo, o alimento de nossos filhos, preservar a pureza do sangue, a liberdade e independência da pátria”. Editado no bairro da Mooca, em São Paulo, o jornal convidava os leitores a participar de reuniões sobre o nazismo e para tomar um chope Antarctica na Gruta Alemã, bar na avenida São João que estampava uma suástica atrás do balcão.

Em abril de 1938, no auge da onda nacionalista, o governo Vargas restringiu a participação política partidária aos brasileiros natos e o Partido Nazista – tanto quanto o Comunista – foi extinto. Mas não acabou. Documentos encontrados no arquivo do Itamaraty pela historiadora Ana Maria Dietrich mostram que, antes de o decreto começar a valer, o presidente recebeu o embaixador alemão no Brasil, Karl Ritter, para uma conversa. “Getúlio disse ao diplomata que a medida não era punitiva aos alemães, à Alemanha ou ao Partido Nazista”, afirma Ana Maria.

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Como compensação pela proibição, o embaixador aceitou a doação de sacas de café, para ajudar no Programa de Auxílio Alemão de Inverno. O que não se sabe se ficou combinado entre Getúlio e o embaixador foi a garantia de que os nazistas não seriam perseguidos. Mas o fato é que, pelo menos nos primeiros anos após a proibição, o governo nada fez para reprimir as atividades dos nazistas. “Até a entrada do Brasil na guerra, em agosto de 1942, mesmo ilegal o partido seguiu funcionando numa boa”, diz a historiadora. Na embaixada alemã no Rio, uma bandeira nazista permaneceu hasteada até outubro de 1941. Em abril de 1942, uma passeata reuniu cerca de 2 mil nazistas uniformizados à luz do dia, no centro de Florianópolis.

Agora é guerra

Em janeiro de 1942, após o ataque dos japoneses a Pearl Harbor, o Brasil rompeu relações diplomáticas com o Eixo. E em 31 de agosto, depois de seis navios brasileiros serem afundados por submarinos alemães em quatro dias, Getúlio declarou guerra. “Não há como negar que a Alemanha e a Itália praticaram atos de guerra, criando uma situação de beligerância que seremos forçados a reconhecer, em defesa de nossa soberania, da nossa segurança e da América, e a repelir, na medida de nossas forças”, discursou o presidente.

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A declaração pôs fim à pendular atuação de Vargas, que ora adulava os alemães – num discurso em 1940, no dia em que os nazistas tomaram Paris, ele elogiou as “nações fortes que se impõem pela organização baseada no sentimento da pátria e sustentando-se na convicção da própria superioridade –, ora sorria para os aliados, de olho nos investimentos que os americanos prometiam fazer por aqui.

De um dia para o outro, alemães, italianos e japoneses viraram inimigos da pátria. Os alemães residentes ou de passagem pelo Brasil foram convidados a deixar o país e intimados a comparecer à delegacia mais próxima. Alguns foram presos acusados de “falar alemão em público”. Como mostra o filme Cinema, Aspirinas e Urubus, do cineasta Marcelo Gomes (2005), empresas alemãs como a Bayer, que difundia pelo país as pílulas para dores de cabeça, sofreram intervenção federal. Mas, se por um lado a perseguição policial causou vítimas inocentes, também revelou uma bem organizada rede de espionagem.

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Hitler durante discurso na sessão do Reichstag, em Kroll Opera House, Berlim, 1939 – Fonte – http://www.jornalciencia.com/fascinio-e-terror-colorem-fotos-raras-da-alemanha-nazista/

Uma das primeiras pessoas detidas pelo Deops, em setembro de 1942, se tornaria um dos mais famosos espiões nazistas no Brasil. Era o alemão Otto Braun, tesoureiro e membro da direção nacional do Partido Nazista Brasileiro. Nos sete meses em que ficou preso, Braun não pôde falar com a família nem com amigos, permanecendo, como diz seu prontuário, “em regime de rigorosa incomunicabilidade”.

Em seus mais de 200 depoimentos aos agentes do Dops, ele nomeou, um a um, todos os integrantes do partido, inclusive os que ocupavam cargos de direção. “Morando no Brasil desde 1924, Braun conhecia tudo e revelou detalhes de ações de espionagem e fraudes cambiais”, conta Ana Maria. Funcionário do Banco Alemão Transatlântico, Braun coordenava uma série de transações proibidas de câmbio. O dinheiro de alemães residentes no Brasil era enviado para cofres na Suíça e de lá chegava à Alemanha e às mãos do III Reich. Pelo menos 12 funcionários do banco eram membros do partido ou ligados a ele. Acabaram presos.

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Reunião dos membros do Partido Nazista no Paraná antes da Segunda Guerra Mundial – Fonte – http://historiaemerson.blogspot.com.br/2015/07/partido-nazista-brasileiro.html

Otto Braun declarou também que o partido era “uma instituição conhecida pelas autoridades brasileiras, que muitas vezes compareceram às reuniões e festejos da mesma”. Era verdade. O governo brasileiro monitorava os nazistas havia dez anos. Os policiais estavam infiltrados em igrejas luteranas e clubes como o Germânia, no Rio de Janeiro, e enviavam relatórios às vezes semanais, descrevendo de animadas perseguições de suspeitos, no melhor estilo James Bond, a tediosas tocaias, que só servem para quem quer conhecer o cotidiano de pessoas supostamente nazistas e falam de fins de semana na praia, partidas de biriba e aniversários de família.

“Esses relatos mostram que grande parte das fontes de informação do serviço de espionagem nazista era composta por amadores. Gente comum que falava o que sabia ou ouvia dizer aos informantes do III Reich”, diz a historiadora Priscila Perazzo. Entre esses faladores havia operários, comerciantes e industriais, gente que, às vezes, ocupava cargos importantes e até estratégicos em empresas brasileiras. Frederico Weissflog, dono da Companhia Melhoramentos de São Paulo, ouviu de alguns amigos americanos que os Estados Unidos preparavam um golpe para derrubar Getúlio. Tudo bobagem, é claro, mas, em vez de informar o governo brasileiro, Weissflog contou o boato para Niels Christian Christensen.

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Se isso fosse verdade, gente como Gustav Engels, um pacato pai de família que chegara ao Rio de Janeiro nos anos 20 para trabalhar na Siemens, estaria pronto a ajudar. Em 1939, Engels passou um tempo na Alemanha. Voltou com um codinome – Alfredo – e a missão de proliferar espiões, estações clandestinas e códigos telegráficos pela América do Sul. Durante três anos, ele coordenou uma extensa rede que contava com informantes em companhias aéreas, funcionários do governo, jornalistas, executivos de empresas de energia, num total de mais de 50 pessoas, entre elas o engenheiro Ludwig Weber e o mecânico Alberto Hofstetter, ambos funcionários da Vasp.

No fim de 1942, a polícia interceptou uma série de mensagens enviadas por Engels via rádio que surpreenderam as autoridades pela precisão e diversidade. Há dados sobre o trânsito de aviões norte-americanos nas bases aéreas do Nordeste, informações sobre a capacidade dos depósitos de gasolina nos portos e o comprimento das pistas dos aeroportos brasileiros. Além de transmitir o que sabia para a Alemanha, Engels compartilhava tudo com colegas no Chile, Argentina e Equador. Para saber se uma mensagem havia chegado à Alemanha, ele pedia sinais pelo noticiário da rádio alemã: “Como confirmação mandar tocar algumas passagens da marcha “Fridericus” ao terminar o programa em ondas curtas às 22 horas hora do Rio”, telegrafou “Alfredo” em janeiro de 1942. Preso em novembro, foi condenado a 14 anos e cumpriu cinco.

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Gustav Engels

Outro suposto chefão da espionagem nazista foi revelado em 1983 (bem antes, portanto, de os arquivos do Deops serem abertos), quando o historiador americano Stanley Hilton lançou A Guerra Secreta de Hitler no Brasil. Nele, Hilton apontava o alemão Hans Curt Werner Meyer-Clason como líder da rede que funcionava no Rio Grande do Sul. Foi um espanto. Não tanto para os historiadores, mas para os literatos brasileiros. É que Meyer-Clason, quando vivo, foi o maior tradutor de literatura brasileira para a língua alemã.

Caça aos nazistas

Quando foi declarada guerra entre Brasil e Alemanha, houve em São Paulo e no Rio uma debandada de empresários alemães rumo ao país natal. Já os imigrantes alemães do Sul não tiveram a mesma chance. Em 1942, espionagem era – e ainda é – crime no Brasil. Segundo o Código Penal Militar (pela convenção de Genebra, de 1929, espiões são criminosos de guerra), o acusado pode ser condenado de quatro a 20 anos de prisão. Mas a aplicação da lei no Brasil, já naquele tempo, teve excessos de um lado e “jeitinhos” do outro.

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Espiões Nazistas que agiam em Santos, São Paulo – Fonte – http://atdigital.com.br/historiasdesantos/?p=94

Numa tarde, no verão de 1942, o estudante Max Will, então com 12 anos, voltava da escola em Agrolândia, em Santa Catarina. “Em casa, encontrei todo mundo chorando. Os policiais tinham invadido nossa casa e levado meu pai”, lembra. O pai de Max, o agricultor Leopoldo Will, viera da Alemanha quando criança e jamais aprendera o português. Na praça da cidade, os policiais obrigaram-no a beber óleo de rícino com diesel e defecar em público. “Enfiaram-lhe o fuzil na boca e passaram o diesel por ali”, conta Max.

Com medo de atos assim, um grupo de 12 marinheiros alemães fez uma tentativa desesperada durante o Carnaval de 1942. Em São Vicente, litoral de São Paulo, eles tentaram fugir, atravessando o Atlântico num barco de 10 metros de comprimento. “No segundo dia no mar, depois de uma tempestade, vimos que era preciso voltar à terra para consertar o barco. Acabamos naufragando pouco antes de atingir o litoral de Praia Grande”, diz Heinz Lange em relato. “A polícia nos pegou e fomos direto para a cadeia.”

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Reunião de nazistas no Brasil – Fonte – http://www.cartacapital.com.br/

Heinz e os amigos faziam parte da tripulação do Windhuk, um navio de turismo que zarpou da Alemanha em julho de 1939 rumo à África com cerca de 650 pessoas a bordo. Quando a guerra estourou, a maioria resolveu ficar na África, mas cerca de 250 resolveram permanecer a bordo e tentar voltar à Alemanha. No caminho, para fugir de navios de guerra britânicos, o Windhuk teve que mudar de rumo e virar à esquerda. “Eles chegaram ao Porto de Santos em dezembro de 1939 e ficaram morando no barco até 1942”, conta Peter Böhme, filho de um tripulante do Windhuk.

Os tripulantes do Windhuk chegaram a trabalhar em Santos como carpinteiros, mecânicos e cozinheiros, mas depois da entrada do Brasil na guerra acabaram em campos de prisioneiros acusados de “nazismo leve”. De 1942 a 1945, cerca de 3 mil alemães, japoneses e italianos foram presos pelo governo em 13 campos de concentração em oito estados.

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Pequeno resultado de toda loucura Nazista – Prisioneiros alemães capturados por tropas norte americanas, em junho de 1944

Em Santa Catarina foram 200 presos num hospício desativado de Joinville. Em Curitiba e Porto Alegre foram colocados em presídios comuns. Em Recife, o campo de Chã de Estevam abrigou os funcionários da Companhia Paulista de Tecidos (que depois viraria Casas Pernambucanas), cujos donos, os Lundgren, eram alemães. “Quase ninguém ali tinha nada a ver com nazismo”, diz a historiadora Susan Lewis, da Universidade Federal de Pernambuco.

Os maiores campos foram montados em Pindamonhangaba e Guaratinguetá, em São Paulo, para abrigar a turma do Windhuk. No primeiro, os prisioneiros criaram um grupo de teatro e a orquestra do navio seguiu tocando todas as noites. Heinz Böhme escreveu em seu diário: “Domingo fizemos jogo de futebol entre os com camisa e sem camisa. Consegui ler um jornal contando que uma bomba caiu em Berlim”.

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O Windhuk – Fonte – http://www.sixtant.net/2011/artigos.php?cat=the-saga-of-liner-windhuk&sub=voyage-to-captivity&tag=1)liner-windhuk

Em 1945, com a rendição alemã, a coisa esfriou e, quando a guerra acabou, muitos processos foram abandonados e a maioria dos detidos foi simplesmente libertada. Do campo de Pindamonhangaba todos os presos saíram andando, pela porta da frente. A maioria ficou pelos arredores, outros partiram atrás de parentes, alguns não deixaram pistas.

O cozinheiro do Windhuk, Kurt Brenneck, foi trabalhar num hotel em Campos do Jordão. Três de seus colegas se casaram com moças da região. Os espiões graúdos, presos em Ilha Grande, também foram libertados. Niels Christensen, condenado a 30 anos, saiu em 1947. O carpinteiro Heinz Lange só voltou a sua terra no fim da década de 1950. Encontrou um país transformado, bem diferente daquele que tinha deixado em 1939 a bordo do Windhuk. “Não gostei nem um pouco. Eu já estava acostumado com o Brasil”, diz. Sem pensar duas vezes, ele preferiu voltar e se aposentar. 

Saiba mais

Inventário Deops: Alemanha, Ana Maria Dietrich, Eliane Alves e Priscila Perazzo, 1997

A Guerra Secreta de Hitler no Brasil, Stanley Hilton, 1983

O Perigo Alemão e a Repressão Policial no Estado Novo, Priscila Perazzo, 1999

TESOUROS SUBMERSOS – AS PROFUNDEZAS DOS OCEANOS GUARDAM SEGREDOS INCRÍVEIS

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Fonte – http://wjhl.com/2015/07/28/more-than-1-million-in-gold-found-off-treasure-coast/

AUTOR – Franklin Albagli

A história dos barcos e navios, assim como das navegações estão intimamente ligadas às aventuras da humanidade, sejam elas expedições de guerra, busca incessante pelo desconhecido ou mesmo, operações comerciais.

Seria impossível, totalmente infrutífero e sobretudo enfadonho, que aqui tivéssemos a pretensão de discorrer sobre a evolução das embarcações e das incursões cada vez mais audazes do bicho homem, arrostando a imensidão e fúria dos oceanos.

Todos nós já vimos nos livros de história, as façanhas das frotas mercantes e guerreiras da Grécia antiga, Roma e Cartago, remando e mais tarde velejando, cada centímetro do Mar Mediterrâneo, apropriadamente denominado pelos romanos de Mare nostrum, tal a familiaridade que tinham com o mesmo.

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Fonte – http://www.sfora.pl/polska/Polak-odkryl-warty-miliony-skarb-na-dnie-Baltyku-Zobacz-jak-tego-dokonal-g45763-48148

A história tem registros que por volta de 340 A.C, o navegador grego Píteas de Massália, aventurou-se pelo desconhecido, saindo do mar egeu, penetrando no mediterrâneo, passando pelas “Colunas de Hércules”, adentrou no Atlântico, chegando até a Europa ocidental e à Inglaterra.

Quem não foi tomado por grande admiração ao saber das longas viagens empreendidas pelos vikings através do tempestuoso atlântico norte, comprovando-se hoje a descoberta da Groenlândia por Erik o Vermelho e pouco mais tarde, a descoberta da América, mais precisamente da Ilha de Baffin pelo descobridor acidental Berjani Herjölfsson que buscava desesperadamente os seus pais que faziam parte da expedição de Erik, o Vermelho.

Na península do Labrador, Ilha de Newfoundland, foi erigida na primeira colônia da América, pasmem, cinco séculos antes de Cristóvão Colombo pisar em terras americanas, supostamente nas areias da Ilha de Guanahani, nas Bahamas!

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Fonte – http://www.dailymail.co.uk/news/article-2090125/HMS-Victory-recovered-sea-bed-300-years-sank-carrying-treasure-worth-500m.html

A título de ilustração, cabe registrar que os historiadores, até hoje não conseguiram decifrar qual a razão que levou os vikings a abandonarem aquela colônia rica em madeiras e caça, apenas decorridos cinquenta anos da sua implantação.

Depois vieram os suecos, holandeses, ingleses, espanhóis e portugueses, todos eles hábeis navegadores, ávidos pelo comércio e sobretudo pelas pilhagens em novas terras assim como nos saques dos navios inimigos, não raro, carregados de riquezas.

É impossível avaliar os tesouros perdidos no fundo dos oceanos, resultado de naufrágios das embarcações que os transportavam, seja em razão da fúria da natureza, seja por atos de guerra de inimigos.

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Fonte – https://www.haaretz.com/archaeology/1.777473

Impossível porque quase sempre não existem registros a respeito. Aqui e ali, pesquisadores de documentos antigos encontram pistas, seguem-nas com persistência e são recompensados com valiosíssimos achados.

Riquezas incalculáveis foram pilhadas pelos espanhóis quando subjugaram os povos das civilizações pré-colombianas. Claro, tudo isso era reunido, embarcado em galeões e enviado para a corte espanhola numa longa e perigosa viagem, sujeita a todo tipo de perigos.

Alguns restos de naufrágios de navios espanhóis daquela época, já foram descobertos na região da Flórida, enriquecendo empresas, pessoas e também provocando intermináveis batalhas judiciais.

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Dobrões de ouro espanhóis – Fonte – http://picclick.ca/Gold-Doublon-Coin-Pirates-Treasure-Spanish-Armada-Coin-291468851789.html

Um dos mais famosos naufrágios que se tem notícia é o do navio Nuestra Señora de Atocha, que transportava para a Europa, tesouros resultantes das pilhagens espanholas. Naufragou no dia 6 de setembro de 1622, quando cruzou com um furacão na altura do arquipélago Flórida Keys. Em 1985, o americano Mel Fischer conseguiu encontrar parte do carregamento, permanecendo ainda embaixo d’água, encobertos pelos sedimentos, dezessete toneladas de prata, vinte e sete quilos de esmeraldas, 128 mil moedas de ouro e trinta e cinco caixas contendo lingotes de ouro.

Recentemente, o governo colombiano anunciou a descoberta dos destroços do galeão espanhol San José que naufragou em 1708, no litoral de Cartagena, sendo integrante da frota do rei Felipe V que lutou contra a Inglaterra na Guerra da Sucessão Espanhola enquanto tentava escapar de uma batalha naval travada com navios britânicos, certamente interessados na pilhagem de tesouros existentes.

Os registros descobertos, indicam que o San José transportava seiscentos tripulantes, certamente soldados, dos quais só onze sobreviveram e seiscentas toneladas de ouro, prata e esmeraldas que estavam sendo levada da Nicarágua para a Espanha, fortuna essa avaliada em US$ 17 bilhões.

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Ricas porcelanas recuperadas em naufrágio – Fonte – http://www2.uol.com.br

Comprovadamente, os destroços são mesmo do San José, confirmação esta efetuada pela gravação existente nos canhões. Antes, porém das providencias para resgate do tesouro, há a necessidade de definir a quem pertence toda a riqueza.

A Colômbia alega que o achado está em suas águas, exatamente no Parque natural de Corales de San Bernardo, sítio incluído pela UNESCO na Seaflower MarineA Espanha por seu turno, reivindica o tesouro, alegando que a nau era do estado espanhol e, por conseguinte, a sua carga.

Em sentido contrário, a empresa Sea Search Armada (SSA), cujos acionistas são poderosos empresários e políticos americanos”, segundo a revista colombiana Semana, reivindica parte do tesouro com o argumento de ter localizado o navio antes e ter fornecido as coordenadas ao Serviço Arqueológico da Colômbia.

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Fonte – http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-3251868/Return-Antikythera-Shipwreck-divers-unearth-50-new-treasures-board-game-pieces-THRONE.html

Claro está que muita briga ainda rolará e inúmeros tribunais estarão envolvidos.

Dentro dessa mesma linha, não há como omitir a disputa existente entre a Odissey Marine Explorer dos Estados Unidos com o governo espanhol, sobre os achados no galeão Nuestra Señora de La Mercedes.

O naufrágio foi localizado na costa de Algarves em Portugal e resgatados em 2007 cerca de € 500 milhões em ouro e prata, fortuna essa que a Odissey Marine Explorer, levou de Gibraltar para os Estados Unidos através de avião fretado.

Felizmente para os proprietários, nem sempre os tesouros transportados por via marítima se perdem.

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Fonte – http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-3251868/Return-Antikythera-Shipwreck-divers-unearth-50-new-treasures-board-game-pieces-THRONE.html

Em junho de 1940, no auge da blitzkrieg alemã, quando a derrocada da França ameaçava a Grã-Bretanha com iminente invasão, Winston Churchill, recentemente empossado como premier, reuniu o seu gabinete em sessão secreta e decidiu numa cartada desesperada, transportar mais de £1.800.000.000 em ouro e títulos para o Canadá.

Os embarques deveriam atravessar o atlântico norte infestado de submarinos alemães e uma vez a salvo no Canadá, seriam utilizados para pagar mercadorias de guerra e víveres tão necessários na Inglaterra e que eram pagos numa base à vista pois nessa época ainda não vigorava a Lend lease.

Todo esse tesouro atravessou o oceano em viagens sucessivas, entre junho e setembro de 1940, sujeito aos azares da guerra, não se perdendo uma moeda de ouro sequer, sendo importante salientar, que somente no mês de junho de 1940, quando os transportes tiveram início, foram postos a pique no atlântico norte 57 navios totalizando 350.000 toneladas!

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Fonte – http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-3251868/Return-Antikythera-Shipwreck-divers-unearth-50-new-treasures-board-game-pieces-THRONE.html

Essa fortuna representava todo o ativo líquido da Grã-Bretanha, equivalendo em valores brutos a todo o ouro e prata saqueados por Cortez e Pizarro no México e no Peru e mais todo o ouro extraído nas corridas da Califórnia e Klondike no Alasca.

Outros transportes, porém, não foram tão afortunados. A partir do outono de 1941, a Rússia se batia contra os exércitos alemães e recebia ajuda dos aliados anglo-americanos, através de comboios que partiam de portos ingleses até o porto de Murmansk.

No percurso de ida, os comboios tinham a denominação PQ seguida de numeração. Levavam tanques, aviões, caminhões motores, canhões munições, tudo o que exigia o esforço de guerra, tão necessários aos exércitos de Josef Stalin, regressando com a nomenclatura QP, geralmente, apenas com lastro e, eventualmente, transportando valores correspondendo aos pagamentos das mercadorias entregues, normalmente mediante lingotes de ouro bolchevique.

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HMS Edinburgh – Fonte – http://www.naval-history.net/xGM-Chrono-06CL-Edinburgh.htm

No dia 30 de abril de 1942, o cruzador ligeiro H.M.S. Edinburgh, fazia parte da escolta do comboio QP- 11, levando nos seus compartimentos £ 45 milhões em ouro, um dos pagamentos efetuados pelos russos.

Recebeu dois torpedos do submarino alemão U-452, ficando danificado, sendo mais tarde atacado por destróieres alemães, foi a pique com a perda de sessenta homens da tripulação e todo o ouro.

Em 1981, um antigo mergulhador nas plataformas petrolíferas do Mar do Norte, Keith Jessop, constituiu pequena empresa de salvamento denominada Gessop Recovery Marine Ltd., formou um consórcio com três outras empresas de resgate, a Wharton Williams Ltd, que lidou com as operações de mergulho; a Offshore Supply Association, que forneceu o navio de salvamento e tripulação; e a Racal Decca Survey Ltd, que forneceu o equipamento hidrográfico.

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Local do afundamento do HMS Edinburgh

Naturalmente, a operação foi dificílima, consistindo no resgate mais profundo já realizado, numa região de muitos complicadores pois o Mar de Barents é uma das porções de oceano mais pavorosas que existem, geralmente tempestuoso e sujeito a baixíssimas temperaturas.

A operação foi financiada por uma série de investidores privados que colocaram cerca de £ 2 milhões na operação.  A Jessop Marine não forneceu os nomes dos investidores pois os mesmos colocaram o dinheiro na condição estrita do anonimato, seja porque eles não queriam se associar a “a imagem da caça ao tesouro”, ou eles estavam preocupados em estarem envolvidos na “profanação de túmulos de guerra”.

O resgate foi um sucesso retumbante, encorajando a Jessop Marine a outras incursões.

As possibilidades de resgates milionários são enormes não só nas antigas rotas dos galeões espanhóis, mas também nos mares no entorno da Grã-Bretanha. No entanto, as opções podem ser reduzidas pois o forte de Jessop é o trabalho em profundidades anteriormente consideradas inatingíveis.

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O Almirante Nakhimov em 1893 – Fonte – https://laststandonzombieisland.com/tag/admiral-nakhimov/

Mais ao gosto da Jessop Marine, são os soberanos de ouro e os lingotes de platina existentes no cruzador tzarista Almirante Nahkhimov afundado pelos japoneses nas frias águas do estreito de Tsushima durante a guerra russo-japonesa em 1905. As estimativas são de que este tesouro esteja na faixa de £16 milhões. Mas qualquer tentativa de salvamento nessa vertente, entretanto,  envolveria Jessop em um cabo de guerra entre o Japão e a Rússia, ambos reivindicando o tesouro.

Existem também várias toneladas de ouro no naufrágio de um navio de carga alemão torpedeado pelos britânicos durante a Primeira Guerra Mundial em 1917, e cerca de £ 20 milhões a bordo da fragata Lutine que afundou, também na costa holandesa, em 1799.

Contudo, a operação mais provável da empresa de Jessop talvez seja a exploração dos destroços do famoso transatlântico Lusitânia, afundado por um submarino alemão em 1915 em Old Head of Kinsale, na Irlanda. Os rumores dão conta de que nos seus porões pode existir tesouro no valor de £12 milhões. A localização do naufrágio é conhecida com exatidão e a profundidade onde eles repousam, atualmente não representa problemas para a tecnologia disponível.

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Foto do navio SS Porta, navio irmão do SS Minden – Fonte – http://icelandmonitor.mbl.is/news/news/2017/04/11/german_shipwreck_minden_s_cargo_partly_owned_by_bri/

O Minden, navio alemão afundado em setembro de 1939, teria sido identificado no primeiro semestre do ano em curso, quase 80 anos após seu afundamento, a cerca de 190 km de distância do litoral islandês, graças às atividades da empresa britânica especializada em recuperação de navios afundados Advanced Marine Services.

Ele estaria carregado com cerca de quatro toneladas de ouro, equivalendo a cerca de £ 110 milhões de euros (cerca de R$ 407 milhões). Pouco antes de eclodir a Segunda Guerra Mundial, o ouro tinha sido retirado do Banco Germânico, uma filial brasileira do banco alemão Dresden.

Quando estava se aproximando da Europa, o Minden foi identificado e abordado por cruzadores da marinha britânica HMS Calypso e HMS Dunedin. Adolf Hitler em pessoa ordenou ao capitão que afundasse o navio para não permitir que os britânicos obtivessem a carga. A tripulação do Minden foi resgatada pelo HMS Dunedin e levada para a base naval de Scapa Flow, nas Ilhas Órcades, um arquipélago no norte da Escócia.

Nem todos os historiadores concordam se o ouro ainda está a bordo do navio, mas as elevadas despesas já realizadas pela Advanced Marine Services para recuperar os restos do Minden seriam indícios da presença de algo muito valioso a bordo.

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O navio SS Gairsoppa – Fonte – http://www.dailymail.co.uk/news/article-2176025/SS-Gairsoppa-US-company-recovers-48-tons-silver-British-wartime-shipwreck.html

Um naufrágio milionário, sobre o qual não podemos deixar de falar refere-se ao do navio SS Gairsoppa.

Gairsoppa, fazia parte do comboio SL-64 na rota  Calcutta – Freetown  – Galway – Londres. Transportava  2600 toneladas de ferro gusa, 1765 toneladas de chá, 2369 toneladas de carga geral e 240 toneladas de lingotes e moedas de prata , valendo aproximadamente £ 150 milhões. Por volta da meia noite do dia 17 de fevereiro de 1941, o navio estava escoteiro , isto é, sozinho,desgarrado do comboio por conta da sua baixa velocidade e do tempo tempestuoso, quando foi torpedeado e afundado pelo submarino U-101. Dos 86 homens da tripulação, apenas um sobreviveu. O navio foi localizado a cerca de 480 km da costa irlandesa, a uma profundidade de 4900 metros, o que vale dizer, região abissal mais profunda que aquela  onde repousa o RMS Titanic.

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Local do naufrágio do SS Gairsoppa.

Após a confirmação da descoberta, o Reino Unido , através de certame específico, selecionou empresa para ficar incumbida do resgate, esse especial, levando-se em conta a profundidade e somente exequível com utilização de submersíveis não tripulados. Sagrou-se vencedora do certame a americana Odyssey Marine Exploration, aquela mesma que resgatou o tesouro do galeão Nuestra Señora de las Mercedes, na costa de Algarves em Portugal e trava intensa batalha jurídica com o Governo espanhol. Nesse salvamento, entretanto, todas as cláusulas foram acertadas com o Governo britânico, ficando a Odissey Marine com substancial parcela de 80% do tesouro e os restante 20% para o erário público inglês.

Não poderíamos deixar de fazer referência também ao navio tipo Liberty Ship e batizado como John Barry torpedeado pelo submarino U-858 no litoral da Arábia Saudita em 28 de agosto de 1944. Fazia a rota Philadelphia – Áden e transportava, além de 8200 toneladas de carga geral, 2000 toneladas de prata em lingotes e moedas, equivalendo a US$ 26 milhões. Da tripulação de 68 homens, dois pereceram e 66 foram salvos e levados para Koramshar no Irã.

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O navio SS John Barry – Fonte – https://uboat.net/allies/merchants/ships/3340.html

Um grupo comprou os direitos de salvatagem e a partir de uma complicada tecnologia, conseguiu recuperar boa parte das moedas de prata que foram cunhadas na Filadélfia e enviadas à Arábia Saudita desde 1943, como meio circulante para aquele jovem país

Naquele tempo, estava ativa a ARMCO – Arabian American Oil Company, um poço promissor fora descoberto em Dahrein, o SS John Barry, levava, além da carga de moedas e presumíveis lingotes, muitos veículos, equipamentos Caterpillar, tubulações etc. destinados que seriam à construção de uma nova refinaria.

Pois bem, conforme dissemos mais atrás, a operação de resgate foi bem sucedida no tocante ao resgate das moedas de prata, mas nenhum lingote foi encontrado, permanecendo o mistério pois informações oficiais, evidentemente secretas, davam conta do transporte de lingotes de prata.

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Local do afundamento do John Barry

De inúmeras partidas de moedas da Filadélfia até a Arábia Saudita, somente o carregamento do SS John Barry, perdeu-se, sendo recuperado meio século depois.

Fontes da pesquisa:

https://en.wikipedia.org/wiki/HMS_Edinburgh

http://www.shipwreck.net/ssgairsoppahistoricaloverview.php

http://www.naval-history.net/xGM-Chrono-06CL-Edinburgh.htm

https://uboat.net/allies/merchants/ships/3340.html

http://archive.aramcoworld.com/issue/199702/the.silver.ship.htm

Super interessante

Imagens – Internet

 

 

O DIA EM QUE ILHÉUS FOI (QUASE) BOMBARDEADA

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Aeroporto de Ilhéus, na Bahia. (Foto: Reprodução/Infraero)

AUTOR – Franklin Albagli.

Quase todos aqueles que se interessam por aviação, já ouviram referências aos perigos que representam os pousos e decolagens no aeroporto de Ilhéus, destino turístico do litoral baiano.

Tido por muitos como o Saint Martin brasileiro, este aeroporto lembra em muito o caribenho, ambas as cabeceiras iniciando ou terminando na água – de um lado o oceano atlântico e do outro o rio cachoeira – possui uma pista curta de apenas 1.577 m, sendo batido constantemente com fortes ventos de través, prejudicando assim os pousos e decolagens.

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Pouso no Aeroporto de Ilhéus – Fonte – http://www.panoramio.com/photo/9450170

Não é sem motivo, que o prestigioso site Aeroflap, considera o aeroporto de Ilhéus como o terceiro mais perigoso do Brasil.

A despeito disso e do razoável tráfego que tem, felizmente nenhum acidente fatal ali aconteceu.

Implantado em 1939, talvez por esta localização desfavorável, durante a WWII, no planejamento estratégico objetivando a implantação de pistas de pouso alternativas no apoio à campanha anti-submarina então levada a cabo no Atlântico Sul, o aeroporto de Ilhéus não foi contemplado com melhorias, tendo sido escolhida a cidade de Caravelas.

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Cidade de Ilhéus na década de 1940 – Fonte – https://www.ilheus.blog.br/antigas/

Esse preâmbulo, um tanto extenso, reconhecemos, tem por objetivo oferecer uma ilustração sobre o tema, buscando que os leitores fiquem familiarizados com o mesmo antes de enveredarmos pelo assunto principal.

Naqueles difíceis tempos de 1943, a pista do aeroporto de Ilhéus não era muito diferente, conforme relata o oficial aviador Ivo Gastaldoni, envolvido na época, em missões de patrulha do nosso litoral, conforme se segue: (1) 

     ….. O campo de Ilhéus tinha duas pequenas pistas gramadas: a pista 09, com 700 metros de comprimento e a pista 12 com 600 metros. O cruzamento das duas pistas acontecia bem no meio da pista 12 e a 100 metros da cabeceira da pista 09. É claro que o campo não era adequado para o Hudson, mas no dia 21 de abril de 1943, o A-28 n° 30, pousou lá. (2)

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O A-28A Hudson da FAB, em um site russo – Fonte – http://wp.scn.ru/en/ww2/b/550/26/0

Às 14h00PM desse dia, eu havia decolado para uma missão de busca em uma área cujo ponto central ficava a 60 milhas ao largo de Garcia D’Ávila. Faziam parte da tripulação, o sargento mecânico Ávila, o sargento radiotelegrafista Galvão e o cabo artilheiro Jackson. É que uma hora antes, houvera uma transmissão de rádio partindo daquele ponto, onde não havia registro de navio algum e há dias vínhamos tendo como missão secundária, buscar um veleiro branco de três mastros arvorando uma bandeira argentina. Suspeitava-se que esse veleiro andasse abastecendo submarinos inimigos e se o encontrássemos deveríamos ordenar que aproasse para o porto mais próximo, ou ataca-lo se não fôssemos obedecidos.

Depois de executado um cuidadoso e infrutífero plano de busca tipo quadrado crescente, estava a ponto de regressar quando recebi uma mensagem cifrada que, decodificada, dizia mais ou menos o seguinte: “Navio não identificado atacou Ilhéus a tiros de canhão. Verifique o seu combustível e, se possível, investigue. Liberdade de ação”.

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De onde estava, rumei para Ilhéus e à medida que avançava fui ficando tenso e preocupado. Para aliviar a tensão comecei a raciocinar quase dialogando com os meus botões. Droga, pensava eu: há duas semanas ataquei um submarino e não fiquei tão tenso como agora. Porque haveria de ficar preocupado? Ou seria medo que estava sentindo?

– É claro, responderam os meus botões. Você estava treinando para aquela missão. Você conhecia e sabia utilizar o seu equipamento, você sabia o que estava enfrentando, você conhecia os procedimentos técnicos e táticos, conhecia o inimigo e sabia o comportamento dele, você já havia feito simulações semelhantes, tratava-se, pois, de uma mera rotina. Agora é diferente, você está indo para o desconhecido. Mas não se preocupe e comece a formular hipóteses bem como prepare um procedimento para cada hipótese. Era pura verdade. Eu não sabia se o “agressor” era um navio de guerra ou mercante, se era de grande porte ou pequeno porte, se havia ou não armamento antiaéreo e onde estaria localizado este armamento.

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Vários A 28 foram vistos alinhados em uma base na costa brasileira – Fonte – http://www.sixtant.net/2011/artigos.php?cat=brazilian-air-force-*-&sub=fab-(31-pages–100-images)&tag=17)lockheed-a-28-a-hudson

Enquanto voava, fui montando o meu esquema. Caso seja um navio de guerra, ficarei distante e manterei contato permanente com a base, transmitindo tudo o que puder observar. Se for mercante, deverá ser de grande porte e os canhões estarão na popa, portanto não poderão atirar na direção da proa e assim por diante. Tão logo atravessamos uns bancos de chuva ao largo de Maraú, divisamos Ilhéus e um enorme navio com a proa voltada para o norte a 3 ou 4 milhas da costa. Iniciei uma aproximação pela proa, descendo para 150 metros, pois queria ficar em ângulo morto para os canhões da popa. Próximo do navio, com as metralhadoras do nariz armadas e o olho grudado no visor, o Ávila, que sentado na banqueta do copiloto observava pelo binóculo, pediu que não abrisse fogo porque os tripulantes, de peito nu, agitavam as suas camisas no ar em sinal de boas–vindas.

Travei as metralhadoras e circulei o navio, enquanto o Galvão tentava estabelecer comunicação por meio da lâmpada Aldis. Nenhuma resposta, mas tive a sensação de que o navio estava com problemas de governabilidade. Só havia um jeito, ou seja, pousar em Ilhéus e verificar o que tinha ocorrido. Informei à base a minha avaliação e disse que estava manobrando para pousar e logo depois informei: “no solo às 16h35min PM”.

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Fonte – http://www.sixtant.net/2011/artigos.php?cat=brazilian-air-force-*-&sub=fab-&tag=17)lockheed-a-28-a-hudson

Primeiro acorreram dois pilotos do aeroclube e depois uma verdadeira multidão. Em resumo, acontecera o seguinte: Ilhéus não fora atacada e os tiros de canhão foram disparados sim, mas para chamar a atenção, pois se fosse usado o radiotelegrafo estaria sendo violado o silencio de rádio, ou o que seria pior, estaria atraindo submarinos. Portanto a minha suposição inicial estava certa: o navio estava avariado e corria o risco de ser jogado contra o litoral.

Informei tudo para a base, e em resposta, Major Aquino de saudosa memória disse: “inaugurar um campo de pouso para Hudson é privilégio desse comando, neste caso está justificado. Alivie a carga, retire as bombas ou proceda como entender”.

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Foto de uma página do Diário de Guerra da 4ª Frota dos Estados Unidos, cujo comando tinha base em Recife, informando que o navio de guerra brasileiro JAGUARÃO partia de Ilhéus para Salvador, que normalmente nestes relatórios os militares americanos denominavam Bahia. Ilhéus consta em várias referências neste tipo de documentação – Arquivo do Tok de História.

O avião estava com apenas 500 galões de gasolina nos tanques e tinha no compartimento de bombas, duas MK 17 A e duas bombas de treinamento enchidas com água. Considerando que o peso do avião já estava reduzido, resolvi descarregar as bombas. Tomada a decisão, olhei para as pistas de pouso e veio-me a ideia de iniciar a decolagem na pista 12 e no cruzamento, deixar que a tendência própria do avião fizesse uma mudança de proa de 30° para a esquerda e o levasse para a pista 09, onde continuaria a correr pelos 600 metros restantes dessa pista. Optei por esta decolagem “em curva” e assim foi feito. O sol já se tinha posto no horizonte, quando o Hudson alçou do chão.

Nessa mesma noite, o Comando Naval do Leste despachou um rebocador para socorrer o navio. Tratava-se do mercante alemão Vindhuck, que apresado no porto de Santos, estava sendo levado para os Estados Unidos por tripulação norte americana. Acontecera que, antes de entregar o navio, a tripulação alemã sabotara suas máquinas. (3)

A melhor consequência desse episódio foi que o próprio aeroclube de Ilhéus coordenou os serviços de aterro e reorientou a pista de pouso a fim de torna-la perfeitamente utilizável pelos nossos aviões. (4)


NOTAS

  • Extraído com a devida autorização, do livro Memórias de um Piloto de Patrulha, de autoria do Brigadeiro Ivo Gastaldoni.
  • A falta de campos de pouso alternativo para Hudson, no trecho Salvador-Caravelas era a grande preocupação dos pilotos que faziam patrulhas anti submarinas partindo da base de Salvador.
  • Quando o Brasil rompeu relações diplomáticas com o Eixo, o Windhuck, esplêndido navio lançado ao mar pouco antes da guerra, vinha de Capetown na Africa do Sul e ao chegar em Santos fez-se passar pelo navio japonês Santos Marú. Não deu certo e ele foi apresado. Muito dos seus tripulantes após a internação, depois da guerra por aqui permaneceram, constituíram famílias e abriram negócios. Isso, porém, será outra história
  • Lockheed A-28 Hudson
  1. Ficha Técnica
2.    Fabricante 3.    Lockheed Aircraft Company
4.    Modelo 5.    A-28 Hudson
6.    Ano Entrada Serviço 7.    1939
8.    Produzidos 9.    2.000 (estimado)
10. Motor 11. Dois Wright Cyclone GR-1820-G205A radiais a pistão de 1.200 hp cada.
12. Envergadura 13. 19,98 m
14. Comprimento 15. 13,50 m
16. Altura 17. 3,32 m
18. Área da Asa 19. n/d
20. Peso Vazio 21. 5.276 kg
22. Peso Máximo 23. 7.938 kg
24. Tripulação 25. 6
26. Armamento 27. Sete metralhadoras .30 (nariz, torre dorsal e cauda) e 597Kg de bombas
28. Velocidade Máxima 29. 357 km/h
30. Velocidade Cruzeiro 31. n/d
32. Teto 33. 6.401 m
34. Alcance 35. 3.154 km
  1. História
  2. Designação da RAF (Royal Air Force) para os A-28 e A-29. O “Hudson” foi a versão militar do Lockheed 14 Super Electra. Não se mostrou apropriado como bombardeiro médio, mas foi utilizado em grande número como avião ASW (anti-submarine war). O “Hudson” foi uma encomenda de guerra do governo britânico, e, mais tarde, utilizado nas linhas de abastecimento do Commonwealth (Comunidade Britânica – associação de 54 ex-colônias britânicas tais como Austrália e Canadá) e em outros serviços. A família de aviões desenvolvida a partir do Electra foi desde o Hudson, Lodestar e Ventura até o Harpoon. O Super Electra voou pela primeira vez em 1937 e era muito popular entre as companhias aéreas, sendo que o milionário e aviador Howard Hughes deu a volta ao mundo em 1938 num deles. A produção do “Hudson” alcançou 2.941 unidades em quatorze versões.

O VERDADEIRO AMON GOETH – O CRUEL E SÁDICO COMANDANTE NAZISTA DO TERCEIRO REICH

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Amon Leopold Goeth em uniforme com insígnias de SS-Untersturmführer, equivalente a de segundo tenente – Fonte – https://rarehistoricalphotos.com/amon-goeth/

Fontes – https://rarehistoricalphotos.com/amon-goeth/

https://www.scrapbookpages.com/Poland/Plaszow/Plaszow03A.html

Nascido em Viena, Amon Leopold Goeth (ou Göth) foi um oficial austríaco nazista e comandante do campo de concentração de Płaszów, na região da Cracóvia, na Polônia ocupada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial e retratado pelo ator Ralph Fiennes no filme “A Lista de Schindler”.

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Goeth juntou-se a um grupo de jovens nazistas aos dezessete anos, mudou-se para um grupo paramilitar nacionalista aos dezenove anos e, em 1930, quando ele tinha vinte e dois anos, se juntou ao então partido nazista austríaco que fora proscrito. Ele foi designado n° 510 964, e no mesmo ano ingressou na SS

Amon Goeth fugiu para a Alemanha quando foi perseguido por autoridades austríacas por crimes envolvendo explosivos. Seus oficiais superiores admiram sua devoção, deram-lhe avaliações pessoais brilhantes e transferiram-no para a SS. Um filho nasceu em 1939 e morreu de causas inexplicadas menos de um ano depois. Amon Goeth era um oficial modelo e sua recompensa foi uma publicação, em agosto de 1942, com Aktion Reinhard, a operação da SS para liquidar mais de dois milhões de judeus poloneses.

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Comandante Amon Goeth segurando um rifle militar – Fonte – https://rarehistoricalphotos.com/amon-goeth/

Em fevereiro de 1943, Goeth recebeu uma promoção e tornou-se o terceiro oficial da SS a ocupar o cargo de comandante do campo de trabalho de Plaszow. Enquanto ele era o comandante de Plaszow, Goeth foi designado para supervisionar a liquidação do gueto Podgorze em 13 de março de 1943, e mais tarde o campo de trabalho em Szebnie. A liquidação do gueto de Podgorze em Cracóvia é exibida no filme, a “A Lista de Schindler”. As cenas do gueto no filme foram filmadas em Kazimierz, outro gueto em Cracóvia.

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Amon cavalgando no Campo de Plaszow – Fonte –  https://www.scrapbookpages.com/Poland/Plaszow/Plaszow03A.html

Em 3 de setembro de 1943, Goeth supervisionou a liquidação do gueto Tarnow, uma cidade polonesa próximo a Cracóvia. Durante a liquidação desses guetos, Goeth aproveitou a situação roubando algumas das propriedades que foram confiscadas dos judeus, incluindo peles e móveis. Ele guardou alguma dessas propriedades em um apartamento em Viena, onde sua esposa morava com seus dois filhos.

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Amon Leopold Goeth foi o comandante de campo do campo de concentração de Plaszow desde fevereiro de 1943 até setembro de 1944. Na fotografia, ele pode ser visto de pé em sua varanda, preparando-se para atirar prisioneiros – Fonte – https://rarehistoricalphotos.com/amon-goeth/

Em Plaszow, Amon Goeth passava suas manhãs usando seu rifle de alta potência e escopo para atirar em crianças que jogavam no campo. Rena Finder, um dos judeus de Schindler com 14 anos de idade, mais tarde se lembrou de Goeth como “… o homem mais vicioso e sádico …”. Outro Schindler-judeu, Poldek Pfefferberg, lembrou: “Quando você viu Goeth, você viu a morte”.

Um sobrevivente, Arthur Kuhnreich, disse mais tarde sobre Amon Goeth em suas Memórias do Holocausto: “Eu vi Goeth colocar seu cão em um prisioneiro judeu. O cão rasgou a vítima. Quando ele não se moveu mais, Goeth disparou contra ele”.

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Amon foi designado para o SS-Totenkopfverbände (unidade “Deaths-head”, serviço de campo de concentração) – Fonte – https://rarehistoricalphotos.com/amon-goeth/

Seus dois cães, Rolf e Ralf, foram treinados para destruir os presos até a morte. Ele disparou contra as pessoas da janela do escritório se eles pareciam estar se movendo muito devagar ou descansando no quintal. Ele matou com um tiro na cabeça um cozinheiro judeu porque a sopa estava muito quente.

Para a menor infração das regras, ele dava um golpe sobre o rosto do infeliz impotente, e observaria com satisfação como a bochecha de sua vítima se inchava e ficava roxa, como os dentes caíam e os olhos se enchiam de lágrimas.

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A casa original de Goeth no campo de Plaszow nos dias atuais. Da sacada ele abria fogo contra seus prisioneiros. Puro sadismo – Fonte – https://rarehistoricalphotos.com/amon-goeth/

Qualquer um que estava sendo chicoteado por ele era forçado a contar em voz alta, cada golpe do chicote e, se cometesse um erro, era forçado a começar a contar novamente. Durante os interrogatórios, que foram conduzidos em seu escritório, ele soltava seu cachorro no acusado, que estava amarrado pelas pernas em um gancho colocado no teto.

No caso de uma fuga do campo e posterior recaptura, ele ordenava que todo o grupo de companheiros do barracão que servia de alojamento para o fugitivo formarem uma fila e ordenava que o fujão contasse até dez, então atirava na cabeça dessa décima pessoa e depois urinava sobre ela. Uma vez ele pegou um menino doente de diarreia e não conseguiu se conter. Forçou-o a comer todos os excrementos e depois atirou nele “.

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Fotos do prontuário de Amon, tomadas em 8 de agosto de 1945. Ele tinha perdido peso porque sofria de diabetes – Fonte – https://www.scrapbookpages.com/Poland/Plaszow/Plaszow03A.html

Algumas fontes apontam que um total de 35 mil prisioneiros passaram pelo campo de Plaszow durante os dois anos e meio de sua operação. Mas a Comissão Principal para a Investigação de Crimes Nazistas na Polônia estimou que 150 mil prisioneiros estiveram em Plaszow e 80 mil deles morreram como resultado de execuções em massa ou epidemias. 

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Amon Goeth (o mais alto) seguindo para o tribunal onde seria condenado à morte – Fonte – https://www.scrapbookpages.com/Poland/Plaszow/Plaszow03A.html

Após a Segunda Guerra Mundial, o exército norte-americano entregou Amon Goeth para o governo polonês para ser processado como criminoso de guerra. Ele foi levado perante o Supremo Tribunal Nacional da Polônia em Cracóvia. Seu julgamento ocorreu entre 27 de agosto de 1946 e 5 de setembro de 1946. Goeth foi encarregado de ser membro do partido nazista e membro do Waffen-SS, o exército de elite de Hitler, ambos designados como organizações criminosas pelo Aliados após a guerra. Seus crimes incluíram as acusações de que ele havia participado das atividades dessas duas organizações criminosas. 

Durante seu julgamento, Goeth mostrou indiferença provocativa. Ele aceitou a responsabilidade pelo que aconteceu em Plaszow. Ele havia recebido autoridade e permissão para fazer tudo o que tinha feito, disse ele, e estava apenas realizando ordens e instruções recebidas de seus superiores. Ele também afirmou que as penalidades que ele estava infligindo aos presos, incluindo matá-los, estavam dentro de sua jurisdição disciplinar como comandante do campo e estavam de acordo com a regulamentação alemã vigente.

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Amon Goeth durante seu julgamento, 1946 – Fonte – https://rarehistoricalphotos.com/amon-goeth/

Goeth foi considerado culpado e condenado pelos assassinatos de dezenas de milhares de pessoas. Ele pediu piedade ao presidente do Conselho Nacional do Estado. Depois que o presidente decidiu não se aproveitar de sua prerrogativa de perdão, a sentença foi realizada.

Amon Goeth foi enforcado por seus crimes em 13 de setembro de 1946, não muito longe de seu campo. E mesmo que ele esteja sendo enforcado, Amon Goeth ainda saúda seu Fuhrer em um último ato.

Seu nome ficará sempre associado ao desprezo total pela vida humana.

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Ruth Irene Kalder, a “Majola”, a namorada de Goeth, segurando seu cachorro, Rolf – Fonte – https://rarehistoricalphotos.com/amon-goeth/

Um detalhe final!

Ruth Irene Kalder, a amante de Goeth, permaneceu leal a ele e manteve uma fotografia de Amon na sua mesa de cabeceira até o dia de sua morte. Em uma entrevista a um jornalista britânico em 1983, ela descreveu Goeth como um homem encantador com modos impecáveis ​​de mesa. Ela disse que nunca se arrependeu, por um segundo, de seu relacionamento com Amon, que começou quando tinha 25 anos. 

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Amor entre nazistas – Goeth e sua amante, Majola. Ela conheceu Goeth em 1942, ou no início de 1943, quando trabalhou como secretária na fábrica de esmaltes de Oskar Schindler, em Cracóvia. Ela logo mudou-se para viver com Goeth e os dois tiveram um caso e uma filha chamada Monika. Ela incorporou o sobrenome Goeth logo após de seu companheiro e sempre defendeu a sua terrível memória – Fonte – https://rarehistoricalphotos.com/amon-goeth/

Kalder cometeu suicídio no dia seguinte à sua entrevista em 1983. Alegadamente, ela ficou perturbada quando soube que o documentário de 82 minutos, que a jornalista estava fazendo, não era apenas sobre Oskar Schindler, mas incluiria um retrato negativo de seu ex-amante Amon Goeth, que também era o pai de sua criança amorosa, Monika, nascida em novembro de 1945.

Ruth Irene Kalder era uma mulher jovem e linda com uma figura esbelta, uma ex-atriz e uma secretária experiente; Por que ela escolheu viver com um monstro como Amon Goeth continua a ser um mistério até hoje.

UMA ÓTIMA NOTÍCIA – FOI LANÇADO UM LIVRO SOBRE A HISTÓRIA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL EM FORTALEZA

Livro

Foi lançado no dia 17 de agosto, às 19h, no Salão Nobre do Ideal Clube, em Fortaleza, Ceará, o livro ‘Salto sobre o Lago’, do arquiteto e urbanista cearense José Henrique de Almeida Braga.

A publicação aborda o período da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) na capital cearense, enfocando os antecedentes, fatos, personagens, lugares, as unidades militares, os Soldados da Borracha e o dia-a-dia da cidade e das pessoas nesse período.

Considero esta uma ótima notícia para conhecer os aspectos envolvendo o período da Segunda Guerra Mundial na capital cearense e, por tabela, ampliar o conhecimento sobre este conturbado período histórico na Região Nordeste. 

É fruto de uma pesquisa extensa, que exigiu muito do autor Henrique Braga, mas com um positivo e interessante resultado para aqueles que desejam conhecer mais sobre o tema. Além de tudo é uma ótima notícia para todos que desejam conhecer mais da participação do Nordeste do Brasil na Segunda Guerra Mundial. 

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Foto do dia 28 de dezembro de 1943, onde vemos membros da US Navy preparando cargas de profundidade em Pici Field, Fortaleza. Ao fundo um bimotor de patrulha PV1.

Salto sobre o Lago 

Considerada uma obra referencial para os pesquisadores que queiram conhecer mais profundamente sobre o panorama da Segunda Guerra Mundial em Fortaleza, o livro Salto sobre o Lago é resultado de pesquisas em bibliotecas, hemerotecas, depoimentos, arquivos físicos e virtuais, e outros recursos disponíveis na internet. As pesquisas trouxeram à tona, informações muito interessantes que foram verificadas em outras fontes, e contribuíram em muito para elucidar e complementar muitos fatos.

Fruto de um mapeamento, identificação e análise de registros, o livro assinala o período de 1942, quando o Brasil declara guerra à Alemanha, Itália e Japão, aliando-se aos Estados Unidos da América e a outros países na Segunda Guerra Mundial.

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A participação no conflito exigiu do País várias condições impostas por um Acordo de Cooperação Militar com os Estados Unidos, que trazia a modernização das Forças Armadas brasileiras e a permissão para a construção e o uso de bases aéreas para os Estados Unidos no Norte e Nordeste do Brasil.

Nesse cenário, a guerra e a presença dos militares estrangeiros na pacata Fortaleza trouxeram rápidas mudanças socioculturais para a cidade e seus habitantes, com a adoção de novos hábitos e comportamentos. Unidades militares foram criadas ou ampliadas, a atividade comercial foi parcialmente adaptada para o esforço de guerra, e a presença de militares, artistas e autoridades brasileiras e estrangeiras tornava a cidade mais internacional, mais cosmopolita. Há ainda a inesquecível e valorosa contribuição dos cearenses que participaram dos combates ao inimigo em solo italiano, nas praias e águas territoriais pátrios, alguns tombando e outros se ferindo nos campos de batalha.

O autor

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Henrique Braga autografando seu trabalho.

José Henrique de Almeida Braga é arquiteto e urbanista formado pela Universidade Federal do Ceará e pós-graduado pela Fundação Getúlio Vargas, em Gestão Estratégica da Tecnologia da Informação. Atuou profissionalmente como arquiteto no governo do Estado do Ceará, e como profissional liberal. Atualmente exerce atividades profissionais na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Recebeu o título de Amigo do Instituto do Ceará – Instituto Histórico, Geográfico e Antropológico do Ceará, e foi agraciado com a Medalha Amigo da Marinha.

Para comprar este livro entre em contato com o autor através do e-mail – jhenrique.braga@gmail.com

Ou através do website da Editora Premius – www.premius.com.br

Em Fortaleza, o livro também pode ser adquirido de forma presencial na Editora Premius, à rua Manoelito Moreira nº 55, bairro Benfica. Fone (85) 3214-8181.

A editora disponibilizou o livro para a venda na Livraria Leitura no Shopping Del Paseo e Shopping Rio Mar.

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL EM NATAL

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Como um simples informe sobre a venda de material militar usado pelo Exército Brasileiro e publicado logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, pode conter interessantes informações sobre este período da nossa História

Rostand Medeiros – Escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

A história é construída a partir das evidências do passado, utilizando as fontes existentes. Em um trabalho que se realiza sempre distanciado do período dos acontecimentos focados.

E em uma busca como essa os pequenos detalhes de fontes mais amplas poderiam ajudar a conhecer a história de uma região e dos acontecimentos de uma determinada época?

Com certeza!

São pequenas peças que surgem e se unem a outras informações e que ajudam a formar um interessante quebra cabeças. Tudo isso só aumenta o conhecimento.

Aqui trazemos o exemplo de um simples informe sobre a venda de material militar usado pelo Exército Brasileiro em Natal, dois anos após o fim da Segunda Guerra Mundial.

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Parnamirim Field – https://catracalivre.com.br

Na sexta-feira, 30 de maio de 1947, surgiu nos jornais da capital potiguar uma nota informando que o comando do 1° Grupo do 3° Regimento de Artilharia Antiaérea, colocava a venda em hasta pública doze caminhões da marca “Thornycroft”. O negócio seria efetuado na sede da unidade militar naquele mesmo dia, as nove da manhã. As máquinas foram consideradas “sucatas” e avaliadas em Cr$ 8.000,00 (Oito mil cruzeiros). A nota era assinada pelo 1° tenente José do Patrocínio Nogueira, da arma de Intendência.

Mas o que isso tudo significava?

Como todos nós sabemos o Brasil havia participado da Segunda Guerra Mundial, sendo Natal a cidade mais militarizada do país. Na verdade a mais militarizada da América do Sul.

Nos primeiros anos da década de 1940 o Exército Brasileiro deslocou, ou criou, algumas unidades militares para proteger a cidade e a região de algum ataque das potências do Eixo. Entre estas unidades estava o 1° Grupo do 3° Regimento de Artilharia Antiaérea, ou 1/3° RAAAe.

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Flak 88 – Fonte – http://www.goodfon.ru

Esta unidade militar do Exército Brasileiro foi criada em 1940 e tinha sua sede na cidade de Santa Cruz, Rio de Janeiro. Como principal armamento o 1/3° RAAAe possuía os canhões antiaéreos 88 mm C/56, da fábrica Krupp, de Essen, Alemanha. Esse é o conhecido e temido Flak 88 (Flugabwehrkanone 88), provavelmente a peça de artilharia mais lembrada da Segunda Guerra Mundial. 

A primeira vez que o Flak de 88 milímetros combateu foi em 1936 na Espanha, durante a Guerra Civil que arrasou aquela nação. Devido à sua alta velocidade e um projétil pesado e eficiente, esta arma provou ser não apenas uma excelente arma antiaérea, mas também um assassino de tanques. O governo de Getúlio Vargas havia adquirido dos germânicos várias destas peças, quando as nossas relações diplomáticas ainda eram normais com aquele país que se tornou nosso principal inimigo durante a Guerra.

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Flak 88 do 1/3° RAAAe , estacionada provisoriamente nas dependências do antigo 16° Regimento de Infantaria, atual 16° Batalhão de Infantaria Motorizada, no bairro do Tirol, Natal.

Em Natal o 1/3° RAAAe chegou nos primeiros meses de 1942 e tinha seu aquartelamento onde atualmente se encontra as edificações e estruturas do 17° Grupamento de Artilharia de Campanha (17° GAC), na região do atual bairro de Santos Reis e próximo a foz do rio Potengi.

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Medo da guerra em Natal – Informe dos militares publicado em fevereiro de 1942 sobre como deveria ser a ação da população de Natal no caso de um ataque aéreo.

O 1/3° RAAAe  possuía duas baterias de tiro, com quatro canhões Flak 88 cada uma. Uma destas unidades ficava protegendo Parnamirim Field de algum improvável ataque aéreo e as outras quatro ficavam na área da praia de Santa Rita, pertinho das dunas de Genipabu. Nesta última posição estes canhões protegiam a pequena área urbana da capital potiguar, a Base Naval de Natal (então em construção) e a área da base de hidroaviões da Marinha dos Estados Unidos (US Navy) no salgado rio Potengi. Esta última unidade militar era oficialmente denominada pelos americanos como Naval Air Facility-Natal (NAF-Natal), mas que se notabilizou entre os natalenses como “Rampa”, pelas rampas de acesso utilizadas para a retirada e entrada de hidroaviões no rio.

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A Rampa na época da Segunda Guerra.

Já os canhões Flak 88 desta unidade provavelmente eram rebocados pelos caminhões Thornycroft. Estes por sua vez eram caminhões de fabricação inglesa, de três toneladas, do modelo Thornycroft Tartar 6, fabricados em 1937, ou 38, pela empresa Thornycroft Steam Carriege and Van Comapany, de Basingstone, condado de Hampshire, sudeste da Inglaterra. 

O Exercito Brasileiro adquiriu doze unidades desse modelo apenas com os chassis, fabricando localmente as carrocerias de madeira. Estas máquinas robustas foram importadas para transportar originalmente doze canhões St. Chamond, de 75 mm, modelo 1922, fabricados pela empresa Sheneider-Creusot, da comuna de Le Creusot, sudeste da França.

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Caminhão Thornycroft Tartar 6 e canhão St. Chamond, de 75 mm, modelo 1922, em desfile no Rio de Janeiro- Foto – Hart Preston – Fonte – LIFE Collections

O interessante é que estes caminhões ingleses não rebocavam os canhões franceses, mas os transportavam nas carrocerias, no “lombo”, como se dizia. Por isso as suas carrocerias eram estendidas para transportar o canhão, que era relativamente pequeno, e mais seis soldados.

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Outra imagem dos caminhões Thornycroft Tartar – Fonte – webkits.hoop.la

Como esses caminhões provavelmente circularam rebocando os Flak 88 na área da praia de Santa Rita, ou na região da praia do Forte, conforme podemos ver na foto abaixo, fica muito fácil para um potiguar entender porque estes caminhões foram vendidos como “sucatas”!

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Bateria de canhões de 88 mm na paraia do Forte, Natal.

A alta salinidade existente nas águas do nosso litoral, que tanta dor de cabeça trás aos proprietários de veículos em Natal e região nos dias atuais, bem como a precariedade das estradas, devem ter deixado os caminhões ingleses só o caco.  

Infelizmente não consegui encontrar detalhes do comprador destas “sucatas”.

Para finalizar a análise deste simples anúncio de venda, eu não descobri muita coisa sobre o 1° tenente José do Patrocínio Nogueira.

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José do Patrocínio Nogueira , na foto com a patente de tenente-coronel da arma de Intendência – Fonte – haydeeferreira.blogspot.com.br

Mas através das informações do site http://haydeeferreira.blogspot.com.br, mantido pela sua sobrinha, a arquiteta piauiense Haydée Ferreira, e de outras fontes, eu soube que o tenente José do Patrocínio Nogueira iniciou sua carreira na Escola Militar Preparatória de Fortaleza, Ceará, em 1942 (Junto com o potiguar José Gurgel Guará), onde depois foi encaminhado para Natal. Na sequência serviu em Belém e Belo Horizonte, foi professor do Quadro do Magistério Militar do Exército, chegou a coronel em 1972 e faleceu em 2001 em Fortaleza.

Estas até podem não ser informações de relevo, substanciais. Mas é assim, sem nunca desprezar as pequenas peças do quebra-cabeça, que é feito o estudo da História.