PORTUGUESES NO CONGO: ALIANÇA E OPRESSÃO

Barcos portugueses do século XVI - Fonte - en.wikipedia.org
Barcos portugueses do século XVI – Fonte – en.wikipedia.org

No final do século XV os exploradores portugueses descobriram o poderoso Reino do Congo. Os europeus trouxeram para os africanos o cristianismo e técnicas europeias, mas também dor e opressão.

O Congo emergiu como um reino após 1350, pela força do Rei Nimi Lukeni, junto com seu povo Kongo, ou Bakongo. No início do século XVI a presença deste reino se espalhou para o norte e sul da foz do rio Congo, comportando 300.000 quilômetros quadrados de área e uma população com cerca de três milhões de pessoas. Era um estado relativamente centralizado em que a monarquia era sagrada, como no antigo Egito e na Europa do século XVII, embora de caráter eletivo. Os agricultores e comerciantes congoleses eram famosos por forja o ferro e possuíam uma produção altamente valorizada de tecidos, mineração de cobre, produção de chumbo, armas e cerâmica. Havia o culto dos antepassados, como os antigos romanos e possuíam entre suas divindades os chamados espíritos territoriais.

Guerreiros do Congo - Fonte - en.wikipedia.org
Guerreiros do Congo – Fonte – en.wikipedia.org

Enfim, o Congo, mesmo estando localizada em uma área muito atrasada em termos materiais modernos, era uma região que prosperava, com um povo relativamente evoluído, estruturado que logo iria conhecer as modernidades do seu tempo e a ganância de quem as trazia…

Viagem de Diogo Cão

Em 1483 uma caravela portuguesa comandada pelo navegador Diogo Cão seguia em direção sul, pela desconhecida costa ocidental africana, buscando abrir uma rota marítima direta para a Índia. Neste caminho o português chegou à foz do rio Congo, manteve contato com pessoas da região e o local foi marcado nas cartas de navegação lusas. Cão navegou de volta a Portugal levando um grupo de emissários do Congo. Ao chegarem a Lisboa estes emissários foram batizados e colocados em um mosteiro e só retornariam a sua terra em 1491.

Mapa antigo da região do Congo - Fonte - en.wikipedia.org
Mapa antigo da região do Congo – Fonte – en.wikipedia.org

Em sua nova jornada a região, em 1487, Cão subiu o rio a partir da costa e deixou descrito que a longa viagem pelo grande curso de água “era segura, ele era limpo, bem conservado e tinha grandes quantidades de comida”. Logo os portugueses entraram em contato com o poderoso Estado congolês. Os europeus ficaram impressionados com a “grandeza e riqueza do reino” e da capital, Mbanza Kongo.

Ma capital foram levados à presença do soberano de Mani Kongo (Rei do Congo). Este era Nzinga Nkuwu, também conhecido como Nzinga a Nkuwu (1470-1506).

Os portugueses pertante o Rei do Congo - Fonte - en.wikipedia.org
Os portugueses pertante o Rei do Congo – Fonte – en.wikipedia.org

O navegador Cão encontrou pela primeira vez o soberano negro confortavelmente sentado “em uma plataforma rica, com o peito nu, com um capuz feito de folhas de palmeira na cabeça, com um rabo de cavalo enfeitado em prata que caia nas suas costas e pulseiras de marfim em seu braço esquerdo”. Habilmente o comandante português foi muito respeitoso com o congolês, tendo reverentemente beijado a mão do africano como gesto de cortesia e estratégica aproximação.

Se o Rei do Congo soubesse o que os portugueses iriam fazer com o seu povo em um futuro próximo, teria sido melhor decapitar aquele navegador pomposo, ter exterminado sua tripulação sem nenhuma piedade e afundado seus barcos.

Primeiro contato

A partir deste primeiro contato foram estabelecidas relações diplomáticas entre os dois reinos, assinados acordos de amizade e cooperação. O rei congolês, maravilhado com a tecnologia dos europeus, pediu-lhes artesões e materiais. Logo chegaram de Portugal pedreiros e carpinteiros que se instalaram na capital. Em 1489, Nzinga Nkuwu enviou uma embaixada a Lisboa e logo enviou homens jovens de sua corte para estudar em Portugal. A ajuda militar portuguesa também foi crucial para o monarca congolês derrotar seus inimigos, como o reino Bateke. As armas de fogo europeias foram decisivas na vitória e muitos prisioneiros foram levados.

Quadro que representa o navegador Diogo Cão ordenando o chantamento de um padrão de armas português. FRonte - hispanismo.org
Quadro que representa o navegador Diogo Cão ordenando o chantamento de um padrão de armas português. FRonte – hispanismo.org

Os portugueses, que como qualquer conquistador nunca deu nada de graça a ninguém, exigiram uma contrapartida para essa cooperação: a conversão dos africanos ao cristianismo.

Em 1491 os primeiros missionários brancos construíram igrejas e escolas naquela região. O Rei Nzinga Nkuwu teve que aceitar o batismo em 3 de Maio de 1491 e tomou o nome de João I, inaugurando uma longa série de monarcas cristãos congoleses. Inicialmente, somente o rei e seus nobres foram convertidos, mas a rainha pediu para também ser batizada. Uma parte desta elite nativa se tornou aristocrata e formou um partido católico pro-português, o esicongo.

João I - Fonte - en.wikipedia.org
João I – Fonte – en.wikipedia.org

No entanto uma grande parte da população rejeitou a nova religião. Até mesmo o rei recusou-se a aceitar todos os seus princípios, como a que proibia a poligamia. Logo muitos congoleses voltaram para suas antigas crenças. “Tudo aconteceu muito rápido e mostrou que não ocorreu uma real aceitação do catolicismo”, escreve o historiador Ndaywel è Nziem.

Em 1506 João I morreu. Ele queria como seu sucessor um de seus filhos que não era cristão e era apoiado pelos tradicionalistas do reino. Mas outro filho do rei, Nzinga Mvemba, um católico convicto, com apoio e assistência dos portugueses, derrotou o escolhido de João I, ascendeu ao trono e foi batizado como Alfonso I (1506-1543).

Catolicismo e Escravidão

Alfonso I falava e escrevia bem o idioma português e esperava que isso fortalecesse o catolicismo no poder. Os portugueses não o consideraram um monarca “imposto”, mas um “rei real”, tido como “o mais poderoso e grande Rei do Congo”. Em 1512 D. Manuel I de Portugal escreveu que o nobre africano era “o mais poderoso e mais excelente rei do Congo, enviamos nossos cumprimentos por quanto nós te amamos e acreditamos, e oramos a Deus para conceder-lhe vida longa e saúde, tanto quanto você pode desejar”.

Portugueses em palestra com nobre congolês - Fonte - www.historyfiles.co.uk
Portugueses em palestra com nobre congolês – Fonte – http://www.historyfiles.co.uk

Mas Alfonso I mostrou um fervor religioso católico quase obsessivo, que surpreendeu até mesmo os portugueses. Ele estudou com os padres e conselheiros portugueses por dez anos na capital do reino. Cartas escritas por padres ao rei de Portugal mostram o futuro rei negro como um convertido entusiasmado e erudito ao Cristianismo. Ele lutou contra a religião tradicional congolesa, queimando objetos cerimoniais e proibindo a sua posse, sob pena de morte (um dos seus parentes foi executado por esta razão). Promoveu uma “arte cristã”, com cruzes e crucifixos estilizadas com motivos africanos.

Alfonso I favoreceu o ensino do da língua portuguesa, construiu numerosas igrejas e escolas dirigidas por padres europeus e destinadas aos filhos da nobreza. Não satisfeito, mudou o nome da capital de Mbanza Kongo para San Salvador. O rei enviou para estudar em Lisboa seu filho Ndodiki. Convenientemente, com apenas 23 anos de idade, este se tornou o primeiro bispo católico negro.

Mapa da região do antigo Reino do Congo - Fonte - http://www.africafederation.net/Kongo_History.htm
Mapa da região do antigo Reino do Congo – Fonte – http://www.africafederation.net/Kongo_History.htm

Os esforços de Alfonso para introduzir a cultura portuguesa no Congo se refletiram de diversas maneiras. Festas cristãs eram observadas, a aristocracia congolesa adotou nomes cristãos, títulos, brasões e estilos de se vestir europeus e jovens africanos de famílias da elite eram enviados para o Velho Continente para aprimorar sua educação.

Mas logo aqueles exploradores europeus mudariam seus pensamentos em relação aos congoleses. Sentindo-se senhores do lugar, procuraram controlar as exportações africanas e proibiram a participação comercial de outros países na região. A partir de 1505 os lusos passaram a explorar fortemente o comércio de escravos.

A escravidão já existia no Congo muito antes da chegada dos portugueses. A compra e venda de escravos ocorria no interior do país e a “matéria prima” provinha da captura de inimigos nas guerras de fronteira e nas campanhas de expansão dos congoleses. Além disso, as guerras escravistas ajudaram Alfonso I a consolidar seu poder nas regiões sul e leste do país. Logo estes cativos passaram a ser vendidos aos comerciantes portugueses.

Aspectos da elite congolesa - http://www.africafederation.net/Kongo_History.htm
Aspectos da elite congolesa – http://www.africafederation.net/Kongo_History.htm

Apesar desta situação, diante do elevado número de escravos que saiam de sua região, o rei negro temeu pelo provável despovoamento do seu território e a perda de força de trabalho cativa. Em 1526 ele enviou mensagens ao monarca português João III sobre aquela questão. Em uma de suas cartas escreveu que “Há muitos negociantes portugueses de escravos em todos os cantos do país. Nenhum dia se passa sem que não se paguem pessoas para serem escravizados. Temo que isso traga a ruína ao meu povo”.

Sem o rei africano saber, João III também tinha enormes interesses no tráfico de seres humanos.

Desentendimentos e Conflitos

A tensão entre os portugueses e congoleses foi aumentando, enquanto a marginalizada religião tradicional africana foi recuperando seu espaço. Na Páscoa de 1539, ou 1540, assassinos contratados por traficantes de escravos portugueses invadiram a igreja onde Alfonso I estava orando e atiraram no soberano. “Tentaram me matar na frente do verdadeiro Salvador do mundo”, disse ele, incrédulo.

Batalha de Mbwila (Ambuíla) - Fonte - http://muanadamba.net/article-catoliza-o-e-poder-no-tempo-do-trafico-o-reino-do-congo-da-convers-o-coroada-ao-movimento-antonian-116228721.html
Batalha de Mbwila (Ambuíla) – Fonte – http://muanadamba.net/article-catoliza-o-e-poder-no-tempo-do-trafico-o-reino-do-congo-da-convers-o-coroada-ao-movimento-antonian-116228721.html

O rei morreu no final de 1542, ou talvez no início de 1543, deixando seu filho Pedro como seu sucessor. Logo este filho foi derrubado por seu sucessor Diogo (em 1545). Desde então a história do Congo ficou marcada pela escravidão, guerras violentas com os vizinhos e a imposição do cristianismo.

O país perdeu a sua independência em 1665, na batalha de ambuíla, quando algumas centenas de portugueses, com ajuda de aliados africanos, derrotaram o exército do rei Antônio I, que foi barbaramente decapitado. Nas décadas seguintes o Congo mergulhou em uma guerra civil e longos períodos de extremo sofrimento, que só se acentuou com o desmembramento do seu território. Este último fato ocorreu na Conferência de Berlim, Alemanha.

Conferência de Berlim, Alemanha, 1884 - Fonte - http://www.africafederation.net/Berlin_1885.htm
Conferência de Berlim, Alemanha, 1884 – Fonte – http://www.africafederation.net/Berlin_1885.htm

Iniciada em 15 de novembro de 1884, reuniu os principais diplomatas europeus e foi presidida pelo chanceler alemão Otto Von Bismarck e os seus resultados iniciaram formalmente um período de intensa atividade colonial pelas potências europeias na África. Esta atividade eliminou, ou cancelou, a maioria das formas existentes de autonomia e a autogovernação por parte dos africanos. Em Berlim ficou estabelecido que o antigo Reino do Congo fosse dividido entre Portugal, Bélgica e França, situação que só mudaria na segunda metade do século XX.

Mapa de 1887, mostrando a divisão da área do antigo Reino do Congo entre as nações europeias - Fonte - http://www.africafederation.net/Berlin_1885.htm
Mapa de 1887, mostrando a divisão da área do antigo Reino do Congo entre as nações europeias – Fonte – http://www.africafederation.net/Berlin_1885.htm

Leia mais

História do Congo. È Ndaywel Nziem. Catarata, Madri, 2011.

O Congo Português (1482-1502). Peter Forbath. Edhasa, Barcelona, ​​2000.

Autor – Carlo Caranci. Historiador, Historia NG nº 136

Fonte –

http://www.nationalgeographic.com.es/articulo/historia/secciones/10157/portugueses_congo_alianza_opresion.html

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