A PITORESCA VIOLÊNCIA DA VELHA NATAL

Autor – Rostand Medeiros

Nos dias atuais, sem sombra de dúvidas, o crescimento da violência em Natal é uma dos principais motivos de preocupação dos seus habitantes. Todos os dias ocorrem sucessões de atos de violência, que de tão comuns, já nem chamam mais a nossa atenção. O medo passou a ser parte da rotina diária do cidadão natalense, que necessita viver na condição de prisioneiro em seu próprio lar.

Fonte:http://www.natalpress.com.br

São muros altos, cercas elétricas, vigilância 24 horas e todo um aparato que mostra as faces de um “progresso” do crime que ninguém desejaria que ocorresse. Isto tudo não é novidade e com o crescimento da cidade, as perspectivas não são nada positivas.

Vivendo na cidade e padecendo das mesmas preocupações, decidi pesquisar e conhecer como nossos antepassados, em diferentes momentos da história de Natal, viam a violência urbana.

Evidente que o pesquisador que procurar informações sobre este assunto, através das informações existentes nos jornais natalenses editados entre as décadas de 1890 e 1930, vai encontrar toda uma condição social, econômica, cultural, populacional, que não admite a mínima comparação com nosso tempo atual. Mas não deixa de ser interessante ver o que mais chamava a atenção da crônica policial da época.

O Roubo de 107 Contos de Réis

Naqueles calmos tempos a vida na pequena Natal era muito tranquila, mas isto não significa dizer que a violência não existia. Os crimes de agressões não eram incomuns, mas chamavam a atenção principalmente quando havia a motivação política e envolviam pessoas abonadas. Mais raros eram os crimes de morte, sejam motivados por vinganças, ou a chamada “defesa da honra”, eram notícias para muitos dias. Era principalmente o arrombamento, o furto, a “gatunagem”, o “lance”, ou o chamado “descuido” que mais causavam furor na população e nas autoridades policiais.

O grande acontecimento policial do início do século XX

Na antiga crônica policial, mais precisamente em junho de 1913, houve o caso de uma dupla de arrombadores estrangeiros que agiram na cidade que foi muito comentado na época. O alemão Henrique Brunner e o mexicano Emilio Zaneti chegaram à cidade, se hospedaram no Hotel Internacional, na Avenida Tavares de Lyra e de lá saiam tranquilamente pelas ruas, conhecendo os recantos e transmitindo muita simpatia na sua língua arrevesada. Diziam serem comerciantes, onde buscavam fazer amizades para abrir um negócio na cidade. Entre os novos amigos, os gringos travaram contato com Olivar Von Sohsten, caixa da casa comercial de Julius Von Sohsten, uma das maiores da cidade na época. Os meliantes descobriram onde o funcionário morava e na noite de 10 de junho entraram na sua casa e furtaram as chaves da casa comercial. A firma ficava na Rua do Comércio (atual Rua Chile), onde a dupla agiu tranquilamente.

Pela manhã foi descoberto o roubo de 107 contos de réis, uma verdadeira fortuna para época. A cidade parou, uma multidão esteve na casa comercial, até mesmo o governador Alberto Maranhão foi ao local. O Chefe de Polícia, Joaquim Soares Raposo da Câmara, juntamente com a participação do tenente João Fernandes de Almeida, conhecido como “Joca do Pará” iniciou as investigações. “Joca do Pará”, uma verdadeira lenda dentro da PM potiguar, logo pôs os olhos sobre os estrangeiros. Utilizando paciência e astúcia, conseguiu pegar o rastro dos meliantes que, apertados pelo policial, confessaram o roubo. Segundo os jornais, depois de retirarem o dinheiro, os dois ladrões foram para a “floresta negra do Monte Petrópolis”, então um local ermo e pouco habitado, onde enterraram a fortuna em um vaso de ágata. Brunner e Zaneti já eram fugitivos da polícia do Rio de Janeiro, onde aplicaram o mesmo tipo de golpe. “Joca do Pará” possuía uma determinação que granjeou respeito dos seus comandados, onde galgou o posto de capitão e chegou a comandar o esquadrão de cavalaria da polícia.

Apesar de todo o empenho da polícia, em novembro do mesmo ano Brunner e Zaneti fugiram da penitenciária de Petrópolis, mas foram capturados três dias depois nas matas das “Quintas”, por dois caçadores, que rapidamente se tornaram os heróis da cidade.

Articulista de “A Republica”, na edição de 12 de novembro de 1913, comenta a impressão que causou o retorno destes dois marginais a penitenciária. Os dois estrangeiros caminharam desde as “Quintas”, acompanhados de uma escolta policial e uma grande multidão. Eles seguiam amarrados, de cabeça baixa, com chapéus de palha, roupas de algodão grosseiro e alpercatas de couro, o traje dos prisioneiros na época. Considerados de “extremo perigo”, a sua recaptura causou alívio na cidade.

O caso destes dois estrangeiros é um exemplo raro para quem pesquisa os boletins da Chefatura de Polícia, que eram publicados diariamente nos jornais naquele período. Normalmente a passagem de estrangeiros e forasteiros não criavam muitos problemas para os habitantes da cidade.

O Astucioso “Pedro Gato”

Na maioria das vezes, eram os filhos da terra que produziam as notícias de maior impacto no meio policial. Durante certo tempo, o “terror da cidade” era um arrombador que tinha a alcunha de “Pedro Gato” e foi uma verdadeira sensação na sua época. Seu verdadeiro nome era Pedro Ignácio, consta ter nascido em Natal, morava nas Rocas, era filho de pescador, tendo ficado famoso pela astúcia e esperteza como adentrava nas casas das pessoas mais abonadas e deixava a toda a cidade sobressaltada. Era também conhecido como “Pedro Melado”, pois se dizia que escapava das frestas das casas como se estivesse “bezuntado de mel”. A ação de crimes de “Pedro Gato” foi desbaratada em 1916 pelo mesmo “Joca do Pará”, infatigável e competente nas suas funções.

As ações de Pedro Gato nos jornais

Após a captura de “Pedro Gato” este foi condenado a 10 anos de prisão e a história deste criminoso parecia ter um final. Contudo a sua carreira não havia chegado ao fim. Segundo o jornal “A Notícia”, de 16 de julho de 1921, “Pedro Gato”, mesmo estando detido na penitenciária, havia voltado às velhas práticas. Com a conivência de um sargento, um soldado e um carcereiro, “Pedro Gato” saia na calada da noite e agia com a mesma “qualidade no serviço”. Infelizmente este tipo de coisa ainda acontece.

Desta vez, entre as casas visitadas pelo meliante, estava a do comerciante Francisco Cascudo, pai do folclorista Câmara Cascudo, que teve subtraído de sua residência um relógio de ouro. Outra residência assaltada foi a do engenheiro Eduardo Parisot, então chefe do distrito de Obras Contra as Secas. O jornal comenta que durante seu depoimento ao delegado, chamou a atenção o “cinismo revoltante” como “Pedro Gato” respondia as perguntas e o teor das declarações que incriminaram os seus cúmplices.

Se atualmente uma minoria de maus policiais se aproveita do corporativismo imprudente para agir erradamente, naquele tempo os jornais mostram outra realidade.

Diante das declarações de “Pedro Gato”, chama a atenção à ação enérgica do então Chefe de Polícia na época, Sebastião Fernandes de Oliveira, que ordenou a abertura de inquéritos e apuração rigorosa dos fatos. Algum tempo depois os jornais apontam que os militares foram expulsos da polícia e o carcereiro sumariamente demitido.

Os Ladrões que Foram Presos Roubando a Casa do Delegado

Para minha surpresa, diante do que vivemos nos dias atuais, as antigas notícias da ação dos meliantes e seus atos de violência em Natal chegam a ser hilárias de tão simplórias.

Em 1932 ouve um caso que chama a atenção pelo ridículo de como dois marginais foram descobertos e a polícia conseguiu debelar uma série de furtos e roubos praticados na calada da noite. Segundo a edição de “A Republica”, de 3 de agosto, dois dias antes, Manoel Pereira de Lima, o perigoso “Manoel Jucá”, acompanhado do “célebre Manoel Belo”, foram presos ao adentrarem uma residência para roubá-la.

O problema era que a casa pertencia ao tenente Abílio Campos, então delegado do 1º distrito policial da cidade. O tenente Abílio reagiu atirando na dupla, que escapuliu. O militar então passa a persegui-los junto com a patrulha noturna e conseguem capturá-los às seis da manhã no Passo da Pátria. “Manoel Jucá” reagiu à prisão e acabou hospitalizado no Jovino Barreto, o hospital de referência da época.

O interessante é que a nossa cidade tinha pouco mais de 45.000 habitantes e apenas cinco bairros. Mesmo assim, os dois “gatunos” foram justamente roubar a casa do delegado.

Nesta foto, mesmo sem confirmação, estaria o aspecto típico do uniforme do policial militar na década de 1930 no Rio Grande do Norte. Muito marcial, mas de eficiência duvidosa.

Nesta mesma reportagem, entre os objetos utilizados pela dupla para seus “trabalhos”, não vemos materiais que seriam típicos de arrombadores, mas uma lista que parece mais servir para o ofício de um marceneiro. Constam entre outros um serrote, uma plaina, três chaves de fenda, uma talhadeira e uma marreta. Neste caso fica a pergunta; como é que esta dupla adentrava nas casas dos natalenses, utilizavam este “maquinário” e saiam sem serem ouvidos?

Outro ponto que chama a atenção no caso destes dois “perigosos ladrões”, como o jornal os definia, foi à relação de produtos encontrados com a amásia de “Manoel Jucá”. Estavam listados muitas roupas, oito baralhos, onze aparelhos de barbear, duas “cuecas de bramante”, um guarda-chuva, uma escova de dente e outras tantas quinquilharias. De objetos de luxo e dinheiro, apenas dois relógios, duas correntes de ouro e 25$600 (vinte e cinco mil e seiscentos réis).

Em seus esclarecimentos, os marginais comentaram ao tenente Abílio que revendiam todos os objetos aos que “viviam na pobreza”, não faltando fregueses. Deve-se lembrar de quem em 1932 o Brasil vivia uma acentuada crise política, econômica e social, onde esta “perigosa” dupla, ao buscar roubar coisas que hoje são básicas e baratas para o nosso tempo, aparentemente “abastecia” uma determinada parcela da sociedade de Natal, que vivia em um acentuado estado de pobreza.

Ao se estudar estes aspectos da história da nossa cidade, se abre o leque de conhecimento sobre a realidade daquele período.

Entretanto, diante da violência que vivemos hoje em dia, estas histórias do passado mostram como não deveríamos ter “evoluído” neste sentido.

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