A VIDA DOS LEGIONÁRIOS ROMANOS

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Fonte – http://www.wikiwand.com/

Durante os mais de vinte anos que durava seu serviço militar, os legionários viviam em áreas de fronteira, sujeitos a uma disciplina severa. Muito do aconteceu com estes combatentes no passado, faz parte da rotina de vários quartéis pelo mundo afora.

Rostand Medeiros

“Um homem que se alista no exército muda de vida completamente. Para de ser alguém que toma suas próprias decisões e embarca numa nova vida, deixando para trás a anterior”.

O grego Artemidoro de Daldis, também conhecido como Artemidoro de Éfeso, que viveu na segunda metade do século II D.C., explicou em seus escritos a mudança drástica da sua vida quando se tornou um legionário romano.

Naqueles tempos muitos queriam seguir por esse caminho, pois além da demanda por soldados ser intensa em meio a tantas guerras, a carreira oferecia muitos incentivos aos candidatos. Roma precisava a cada ano de 7.500 e 10.000 novos recrutas e a vida no exército garantia comida, abrigo e um salário que, se não fosse bem superior ao de um trabalhador livre, tinha a vantagem de ser corrigido.

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Reconstituição de uma fração de uma Legião Romana – Fonte – http://www.wikiwand.com/

Havia também atendimento de saúde, oportunidades de promoção interna, bem como certos privilégios ao lidar com processos judiciais.

Durante o serviço o combatente romano poderia aprender uma profissão, aprender a ler e escrever e receber uma melhor assistência médica do que a média dos outros romanos. Além disso, o graduado receberia uma quantia de dinheiro ou terras ao fim da carreira.

Naturalmente não faltavam exigências: o legionário devia obedecer às ordens sem contestação, onde suas faltas eram punidas com fortes castigos corporais e a pena de morte era aplicada sem grandes opções de defesa. Também eles não podiam se casar legalmente, embora na prática muitos soldados tivessem mulheres e filhos não reconhecidos oficialmente.

A vida no campo

Tal como hoje em qualquer exército, para um homem entrar numa Legião Romana (Romana Legio, em latim) tinha de cumprir uma série de requisitos verificados pelos oficiais de recrutamento. Como o serviço durava cerca de vinte e cinco anos, o candidato tinha de ser jovem, com não mais de vinte anos de idade. Era dada preferência aos homens do campo, porque eles viviam em condições duras e eram naturalmente preparados ​​para aguentar mais facilmente os rigores da vida militar.

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Fonte – http://www.bbc.co.uk

A altura ideal de um recruta para infantaria, ou cavalaria, variou entre 1,72 e 1,77 metros de altura, embora não eram rejeitados aqueles mais baixos, mas tinham que ser fortemente constituídos. No final do Império a exigência de altura caiu para 1,65.

Uma certa simplicidade e ignorância também eram necessários a este militar, com vista as fileiras não terem homens que questionassem as ordens recebidas. Mas, para ocupar cargos administrativos, isso não excluía alguns recrutas que tivessem educação em letras e números.

Era muito valioso para as Legiões aqueles que trouxessem da vida civil uma profissão e habilidades úteis para a vida nos acampamentos, como ferreiros, carpinteiros e caçadores. Alguns fizeram uso de cartas de recomendação escritas por pessoas influentes, em que as suas competências foram exaltadas.

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Fonte – http://romanmilitary.net/strategy/structure/

Após o recrutamento o legionário estava destinado a sua unidade, inicialmente em um pequeno quartel localizado nas brenhas do Império Romano, onde o novo militar viveria de uma forma totalmente diferente do ambiente civil.

Estes aquartelamentos tinham uma estrutura comum, embora cada um pudesse apresentar as suas próprias particularidades.

Normalmente sua forma era retangular e sua extensão cobria cerca de vinte ou vinte e cinco hectares. Havia duas ruas principais: a via principalis, que ficava no centro e nas laterais do campo; e a via praetoria, que era a entrada principal, que seguia até o coração do acampamento. No centro geralmente ficava a sede administrativa da unidade militar, o comando. No mesmo ponto poderia haver uma grande praça, um pórtico, ou um templo. Este último era o espaço mais prestigiado, onde altares, estátuas e bustos de imperadores ficavam expostos e mantidos, além dos padrões e a águia que representava a Legião.

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Reprodução do uniforme de um legionário. http://romanmilitary.net/strategy/structure/

Ao lado destas dependências normalmente ficava a residência do comandante, sempre de qualidade superior, onde este vivia com sua família e sua comitiva de escravos. Aos centuriões e legionários sobravam as dependências comuns e coletivas do quartel.

O hospital (do latim “hospes”, que significa hóspede, dando origem a “hospitalis” e a “hospitium”) era um edifício essencial.

Ali era comum a presença dos soldados atingidos por ferimentos de combate ou, mais comumente, por doenças e acidentes da dura rotina diária. O hospital costumava ter um pátio central, em torno do qual os alojamentos para os enfermos estavam prontos. Os militares eram assistidos por médicos militares com certo grau de profissionalismo. As descobertas de instrumentos médicos e informações de receitas criadas por médicos militares indicam uma maior qualidade de cuidados que os militares recebiam em relação a um civil que não tinham recursos para pagar um médico particular.

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Fonte – Getty Images

Muitos soldados viviam em longos barracões, onde era normal serem alojados cerca de cinquenta homens, que por sua vez eram subdivididos em grupos de dez. Cada um desses grupos, chamados Contubérnio, tinha duas pequenas salas, com cerca de cinco metros quadrados cada: uma para a guarda de bens pessoais e armas e outra que servia como dormitório.

Embora possa parecer um pequeno lugar para viver, era muitas vezes melhor do que as condições de habitação que viviam os civis romanos de baixa renda. Mas também na maioria das vezes os soldados estavam sempre em suas tarefas diárias fora do quartel.

O centurião tinha o seu alojamento em quartos mais espaçosos, em uma extremidade da unidade militar e sua missão era comandar. Muitos centuriões buscavam uma positiva convivência com seus homens nos quarteis, mas muitos agiam duramente e com muita brutalidade e arbitrariedade. Alguns centuriões utilizavam pedaços de madeira para punir adequadamente as faltas dos soldados, ou durante os treinamentos. O historiador Públio Cornélio Tácito, ou simplesmente Tácito, deixou escrito a história de um centurião chamado Lucílio, extremamente cruel com seus comandados. Este costumava quebrar fortes pedaços de pau nas costas dos subordinados como forma de disciplinar. Era tão cruel que foi morto em um motim.

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Fonte – http://www.visitwales.com/

Um suborno no momento certo poderia fornecer benefícios, como uma folga desejada, expandir uma já concedida, ou fazer com que o soldado recebesse tarefas mais confortáveis. Em uma carta de um soldado chamado Claudio Terenciano Mauro, atestava que no exército “nada era conseguido sem dinheiro”.

Tarefas e manobras

Ficaram cuidadosamente registradas para a posteridade as atividades diárias da Terceira Legião. Este grupo militar ficava baseado na região da Cirenaica, na costa oriental da moderna Líbia e as informações que chegaram até nossos dias consistia das atividades dos soldados durante os primeiros dez dias de um mês de outubro, no final do primeiro século D.C..

Tal como nos atuais quarteis pelo mundo afora, era dada muita importância aos turnos de guarda, aos componentes da vigilância do aquartelamento, da disposição dos homens na área, etc.

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Treinamento dos legionários – Fonte – http://www.bbc.co.uk

Havia legionários que eram responsáveis ​​pela manutenção dos calçados, armas, latrinas e banheiros. Outros realizavam escoltas de oficiais, em tarefas fora do acampamento, ou executando patrulhas nas estradas.

Além de tarefas individuais os soldados treinavam muito, tanto de maneira individual, ou em grupo. Realizavam pesadas marchas de desempenho e formação de grupos de ataque e defesa. Os vários exercícios e manobras eram realizados com tal rigor que no primeiro século D.C., o historiador judeu Flávio Josefo comentou admirado que os exercícios pouco diferissem da própria guerra, onde cada soldado se exercitava todos os dias, com a maior intensidade possível.

Comida, entretenimento e religião.

Legionários faziam duas refeições por dia: café da manhã (prandium) e jantar (jantar), o principal, no final do dia. A dieta básica de um legionário consistia basicamente de cereais (principalmente trigo), carne, verduras, legumes, lentilha e feijão. A caça e a pesca realizadas próximo aos acampamentos poderiam contribuir para uma melhor alimentação. Às vezes os soldados pediam nas cartas aos seus familiares que estes lhes enviassem comida extra. Os oficiais tinham uma maior variedade, qualidade e quantidade de alimentos. Para beber havia água, cerveja e vinho azedo. O fato de cozinhar e comer juntos proporcionava muita camaradagem entre os soldados romanos.

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Fonte – http://www.romansociety.org

O legionário tinha várias opções para aproveitar seu tempo livre. Uma delas era os locais de banho, como as fontes, rios e lagos próximos aos acampamentos. Eram locais adequados não só para a higiene e descanso, mas também para a vida social e jogos de azar.

Eles poderiam ir para as comunidades que surgiam na sombra dos grandes aquartelamentos, que foram chamados canabae. Havia sempre os comerciantes ansiosos para aliviar os bolsos dos legionários, tabernas para beber, jogar e até os prostíbulos. Mas nestas comunidades também viviam as famílias dos legionários, embora pareça que estes também pudessem ter habitado dentro dos acampamentos.

Estes locais tornaram-se ao longo do tempo as vici (aldeias) e deram origem a cidades. Alguns acampamentos possuíam um anfiteatro, como em Caerleon (ao norte da cidade de Newport, Gales do Sul, Grã-Bretanha), em que, além de lutas de gladiadores, ou caçar animais selvagens, eram realizadas paradas militares e exibições de lutas pelos próprios legionários.

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Fonte – http://www.onesixthwarriors.com/

O exército romano não negligenciava a vida religiosa de seus soldados, o que servia como um aglutinador entre as pessoas de diversas origens e favorecia o equilíbrio pessoal. Cerimônias religiosas em honra dos deuses e divindades oficiais, como Júpiter, eram incentivadas. Os feriados religiosos eram também uma válvula de escape para a rotina diária e permitia alguma flexibilização dos costumes. Oficiais, ao lado dos simples soldados, podiam adorar os deuses em particular harmonia.

A fim de alcançar a adesão e lealdade dos legionários a Roma e ao imperador que estava no poder, eram comuns as festas pela ocasião do aniversário do imperador, ou a celebração da fundação de Roma.

Como um incentivo em sua vida militar o legionário romano tinha um salário regular, que sob o Imperador Augusto ascendeu a 225 pence por ano. Este montante que aumentou gradualmente à medida que o avanço do Império Romano foi acontecendo. Embora neste pagamento houvesse deduções ocasionadas pela alimentação, manutenção de equipamentos e outras despesas, aparentemente muitos soldados conseguiam economizar até vinte e cinco por cento do salário anual. Além disso, o aumento no efetivo do exército implicou em um aumento considerável no dinheiro circulante nos quartéis salário, fazendo com que um centurião pudesse ganhar mais com subornos pagos pelo maior número de soldados.

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Reprodução de grupamento militar romano na Inglaterra – Fonte – http://janaruzena.blogspot.com.br/

Como a renda adicional os legionários tinham ocasionalmente contribuições extraordinárias pagas pelos imperadores. Isso acontecia por vontade dos mandatários romanos, por vitórias, ou em ocasiões especiais. Nestas ocasiões as tropas foram pagas proporcionalmente, de acordo com a patente militar.

O prêmio de uma vida de serviço

Afora a morte, que não era algo nada excepcional naqueles tempos, existiam três maneiras do militar de deixar a sua Legião.

O primeiro era resultado de uma grave doença, ou lesão que deixava o combatente inútil para o exército. A chamada (missio causaria). Nesse caso, tal como hoje, o legionário era licenciado após um rigoroso exame de sua condição.

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Fonte – http://janaruzena.blogspot.com.br/

O segundo caso era por haver cometido atos criminosos que provocavam a sua dispensa desonrosa e desqualificação de qualquer serviço imperial. Conhecida como (missio ignominiosa).

Por fim havia os legionários, cerca de metade do efetivo, que conseguiram sobreviver aos vinte e cinco anos, ou mais, de serviço e eram licenciados com honra (missio honesto).

Uma vez licenciados estes homens tinham uma série de direitos e privilégios como cidadãos e veteranos.

Eles estavam isentos de muitos impostos e recebeiam um tratamento preferencial em relação à justiça. Se quisessem eles também poderiam legalizar seu estado civil. Estes combatentes recebiam um documento escrito, que declarava a sua dispensa. Alguns destes militares se destacavam tanto que recebia um diploma de bronze, com o detalhamento do seu status legal como soldado veterano.

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Fonte – http://janaruzena.blogspot.com.br/

O licenciamento permitia aos legionários “voltarem para suas casas”. Mas muitos não voltavam para lugar algum, pois durante a sua vida aquilo que significava “casa” sempre foram seus quartéis.

Muitos receberam terras perto de seus acampamentos, ou na região onde eles tinham servido. As parcelas de terras reservadas para cada licenciado eram delimitadas por técnicos agrários, em um processo chamado centuriação. Isso era interessante, especialmente se eles tinham casado com mulheres das regiões dos aquartelamentos.

Aqueles que tinham sido centuriões poderiam desfrutar de uma boa posição na cidade onde eles decidiram fixar sua residência e até atingir os mais altos escalões do judiciário local. Outros investiam suas economias visando abrir um negócio; por exemplo, a venda de cerâmica, ou espadas.

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Fonte – http://janaruzena.blogspot.com.br/

Mas diferentemente dos centuriões, os legionários veteranos, mesmo com certos reconhecimentos por parte do Império, normalmente tinha uma vida muito dura no fim de sua existência. Na maioria dos casos muitos terminavam com o corpo mutilado pelas feridas, com saúde limitada, recebendo salários miseráveis ​​que recebiam em troca de uma vida de dedicação e lutas. Mas, por incrível que possa parecer, estes soldados viviam melhor do que muitos civis pobres do Império Romano.

LEIA MAIS

Legionário. O (não oficial) manual do legionário romano. Philip Matyszak. Akal, Madri, 2011.

O Exército Romano. Adrian Goldsworthy. Akal, Madri, 2010.

A legião. Livro X da Quinta Licinio Cato. Simon Scarrow. Editorial Edhasa, Barcelona, ​​2012.

Texto produzido a partir de – http://www.nationalgeographic.com.es/historia/grandes-reportajes/legiones-de-roma-la-vida-en-el-campamento_6358

 

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