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DOM JOÃO VI – QUE REI SOU EU?

 

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Rei Dom João VI – Fonte – http://acoroaportuguesanobrasil.blogspot.com.br

O monarca era medroso, inseguro, solitário e deprimido. Mas conseguiu passar a perna em Napoleão Bonaparte, o maior gênio militar de todos os tempos

Laurentino Gomes

Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/personagem/dom-joao-vi—que-rei-sou-eu.phtml#.WQNyGIjytnJ

As pessoas fazem a história, mas elas nem sempre se dão conta do que estão fazendo”, escreveu o escritor britânico Christopher Lee, autor de uma famosa série de televisão sobre a história da Inglaterra. A frase, que usei como epígrafe do meu livro 1808, resume perfeitamente o papel desempenhado por dom João VI na história do Brasil e de Portugal. Esse rei solitário, medroso, inseguro e deprimido governou Portugal e o Brasil em meio a um dos períodos mais turbulentos na história da humanidade. Enfrentou pressões poderosas a vida inteira. Apesar disso, foi o único soberano que enganou Napoleão Bonaparte, o maior gênio militar de todos os tempos. Preservou a coroa e a independência de Portugal e transformou o Brasil, de uma colônia atrasada e proibida em um país independente. Conseguiu tudo isso menos por méritos pessoais do que pela força das circunstâncias que enfrentou. Quase nada em sua biografia é fruto de um plano premeditado. É mais uma combinação de acasos. Dom João se deixou levar pela correnteza da história e sobreviveu a ela. Esse é o lado mais fascinante desse personagem que tanto me encantou ao escrever 1808.

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Cena do filme Carlota Joaquina – Princesa do Brasil – Fonte – http://www.deolhonailha.com.br

Apesar de sua importância histórica, dom João é, até hoje, uma figura polêmica. No filme Carlota Joaquina – Princesa do Brasil, de Carla Camurati, em que é interpretado pelo ator Marco Nanini, aparece como um monarca abobalhado, gordo, preguiçoso e glutão, que passa seus dias a comer franguinhos assados. O historiador mineiro Pandiá Calógeras definiu-o como um rei “querido, mas também carinhosamente e tolerantemente desprezado por sua fraqueza e sua covardia”. Um perfil oposto é traçado pelo historiador pernambucano Manuel de Oliveira Lima no clássico D. João VI no Brasil. Nesse livro, Oliveira Lima o apresenta como “o verdadeiro fundador da nacionalidade brasileira”, um governante astuto que soube tomar medidas corajosas na hora certa.

Monarca por acaso

Seu nome completo era João Maria José Francisco Xavier de Paula Luís Antônio Domingos Rafael de Bragança. Foi o último monarca absoluto de Portugal e o primeiro e único de um reino cuja existência não durou mais do que cinco anos: o Reino Unido do Brasil, Portugal e Algarves. Chegou ao poder por acaso depois que sua mãe, a rainha Maria I, enlouqueceu, e o irmão mais velho, dom José, herdeiro natural do trono, morreu de varíola. Em 1792, quando se confirmou que a mãe estava irremediavelmente louca, assumiu o poder régio em caráter provisório, apoiando-se no Conselho de Estado, composto por nobres, militares e representantes da Igreja. Sete anos mais tarde, em 1799, passou à condição de príncipe regente, o que, na prática, fazia dele um rei ainda sem coroa. A aclamação, com o nome de dom João VI, só aconteceu em 1816, dois anos após a morte da mãe e oito depois da chegada ao Rio de Janeiro.

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Aclamação do rei Dom João VI no Rio de Janeiro – Fonte – http://www.wikiwand.com/en/United_Kingdom_of_Portugal,_Brazil_and_the_Algarves

Dom João era, sim, medroso, tímido, supersticioso, feio e indeciso. Espremido entre grupos de opiniões conflitantes, relutava até o último momento a fazer escolhas. Detestava atividades esportivas, festas e celebrações em geral. “Criou-se longe dos homens ativos e alegres, fortes e sangüíneos, que melhor amam a vida”, escreveu o historiador Pedro Calmon. Sofria crises periódicas de depressão. No primeiro grande surto, relatado em 1805, afastou-se totalmente da vida pública e do convívio da corte. Achando que o marido ficara demente, como a mãe dele, dona Maria I, a princesa Carlota Joaquina tentou afastá-lo do poder e assumir ela própria a regência de Portugal. Alertado pelo seu médico particular, Domingos Vandelli, dom João retornou a Lisboa a tempo de abortar o golpe. A partir daí, marido e mulher viveram separados.

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Carlota Joaquina de Bourbon, foi a esposa do rei D. João VI e Rainha Consorte do Reino de Portugal e Algarves de 1816 até 1826, e também Rainha Consorte do Reino do Brasil até 1822. Era filha do rei Carlos IV da Espanha e sua esposa a rainha Maria Luísa de Parma.

No palácio de Mafra, onde passou a viver desde então, o príncipe regente estava sempre cercado de padres, que também o haviam educado quando criança. Profundamente religioso, adorava música sacra, ia à missa todos os dias e era muito influenciado pela Igreja. O general Jean-Andoche Junot, comandante das tropas francesas que invadiram Portugal em 1807, ano da fuga da corte portuguesa para o Brasil, definiu-o da seguinte forma em carta ao seu ministro das Relações Exteriores, Charles Maurice de Talleyrand: “É um homem fraco, que suspeita de tudo e de todos, cioso de sua autoridade, mas incapaz de fazer-se respeitar. É dominado pelos padres e só consegue agir sob a coação do medo”.

Homem de hábitos

Dom João referia-se a si mesmo sempre na terceira pessoa: “Sua majestade quer dormir”, “Sua majestade quer passear”, “Sua majestade quer comer”. Era também um homem metódico, que tinha a mania de repetir sua rotina diária de forma rigorosa. “Era um homem de hábitos”, relatou o pintor Manuel Porto Alegre. “Se uma vez dormia em um lugar, jamais queria dormir em outros, levando isto a ponto de não admitir que o leito ficasse mais ou menos aproximado à parede do que junto dela. Qualquer mudança que experimentasse, desconfiava dela e aborrecia-se com quem a fizesse.”

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Quadro de Henrique Bernardelli mostrando Dom João ouvindo o padre José Maurício ao cravo – Fonte – https://readtiger.com/wkp/en/John_VI_of_Portugal

A aversão às mudanças incluíam sua própria indumentária. Ao contrário dos reluzentes reis da França e da Espanha que o precederam, dom João vestia-se mal. Repetia a mesma roupa todos os dias e recusava-se a trocá-la mesmo quando já estava suja e rasgada. Era descuidado com a própria higiene. Não há relatos de que tomasse banho regularmente. “Sua roupa habitual era uma vasta casaca sebosa de galões velhos, puída nos cotovelos”, contou Pedro Calmon. Na algibeira dessa casaca, o rei levava os famosos franguinhos assados na manteiga, sem ossos, que devorava no intervalo das refeições. “Tendo horror a roupas novas, enfiava El-Rei as mesmas que tinha vestido na véspera e a cada dia resistiam menos à pressão de suas nádegas e coxas espantosamente gordas”, acrescentou Tobias Monteiro. “Os criados notavam os rasgões, mas nada ousavam dizer-lhe. Aproveitavam-lhe as horas de sono, durante a sesta, para então costurar-lhe os calções sobre o corpo.”

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Fonte – http://kuentro.weblog.com.pt/arquivo/DJOAOVIKUE.jpg

Sua vida amorosa foi medíocre. Casou-se por obrigação com Carlota Joaquina, com quem teve nove filhos e viveu pouco tempo sob o mesmo teto. Seu único caso de amor verdadeiro entrou para a história como uma tragédia obscura. Aos 25 anos, morando em Portugal e já casado, dom João teria se apaixonado por Eugênia José de Menezes, dama de honra da própria princesa Carlota Joaquina. Eugênia era neta de dom Pedro, quarto Marquês de Marialva, e filha de dom Rodrigo José Antônio de Menezes, primeiro conde de Cavaleiros, mordomo-mor de Carlota. Nascera no Brasil, em 1781, quando o pai era governador de Minas Gerais. Em maio de 1803, ainda solteira, apareceu grávida. As suspeitas recaíram sobre dom João, que manteria encontros amorosos com ela com a ajuda de um padre da corte e do médico João Francisco de Oliveira, físico-mor do Exército, que era casado e tinha filhos.

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Imagem da cerimônia da beija-mão na corte brasileira de Dom João. O rei manteve um costume dos monarcas portugueses e esta imagem mostra, mesmo de forma subjetiva, de onde surgiram muito de nossos erros que até hoje assolam o Brasil – Fonte – https://readtiger.com/wkp/en/John_VI_of_Portugal

Logo que se descobriu que Eugênia estava grávida, Oliveira teria decidido sacrificar sua própria reputação para salvar a do príncipe regente: deixou a mulher e os filhos em Lisboa e fugiu com Eugênia para a Espanha, mas abandonou-a logo depois de atravessar a fronteira, na cidade de Cadiz. Eugênia foi recolhida pelas freiras do convento de Conceição de Puerto de Santa Maria, onde teve sua filha. Dali, mudou-se para outros dois conventos religiosos. Morreu num deles, na cidade de Portalegre, em 21 de janeiro de 1818, quando dom João já tinha sido coroado rei no Rio de Janeiro. Durante esse período, todas as suas despesas foram pagas pelo monarca. Quanto ao médico Oliveira, depois de deixar Eugênia na Espanha, fugiu para os Estados Unidos e, em seguida, para a Inglaterra, onde, segundo o historiador português Alberto Pimentel, teria se reencontrado com a família que deixara em Portugal. Em 1820, por decisão de dom João VI, Oliveira foi agraciado com a comenda da Ordem de Cristo e nomeado encarregado de negócios de Portugal em Londres.

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Estátua equestre de Dom João Vi no Rio – Fonte – https://readtiger.com/img/wkp/en/Est%C3%A1tua_Equestre_de_Dom_Jo%C3%A3o_VI.jpg

Esse teria sido o único caso extraconjugal conhecido de dom João. No Brasil, revelou-se um monarca ainda mais solitário do que já era em Portugal. Havia rumores de que, até por falta de alternativa, manteria um relacionamento homossexual com Francisco Rufino de Souza Lobato, um dos camareiros reais, mais tarde agraciado com o título de visconde de Vila Nova da Rainha. Historiadores e viajantes da época relatam que, entre suas inúmeras fobias, o rei tinha medo de siris, caranguejos e trovões. O prussiano Theodor von Leithold, que chegou ao Rio de Janeiro em 1819, confirma em seus relatos que dom João tinha medo de trovões. “Se o rei não se sente bem, se adormece ou se sobrevém uma tempestade, o que produz sobre ele forte impressão, encerra-se em seus aposentos e não recebe ninguém”, escreveu, ao explicar o cancelamento de uma das cerimônias do beijão-mão no Palácio de São Cristóvão.

Tudo, menos covarde

Por trás dessa aparente fragilidade, havia uma grande virtude até hoje pouco explorada nos livros de história. Ao escolher seus auxiliares, dom João era sensível aos conselhos e pressão do grupo que o cercava. Mais importante do que isso, sabia delegar aos escolhidos as decisões cruciais do governo que era incapaz de enfrentar sozinho. Observado 200 anos depois, esse traço na personalidade do rei, que o permitiu sobreviver com relativo sucesso às temíveis pressões exercidas sobre ele e a corte portuguesa, também mostra que dom João não pode ser confundido com um rei covarde. Em situações de desvantagem, a fuga pode ser uma atitude inteligente e até corajosa. E foi exatamente isso que ele fez em 1807, quando embarcou para o Brasil com toda a sua corte.

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Embarque da família real para o Brasil em 1810.

A mudança da corte para o Brasil era um plano antigo em Portugal. Já era discutido dois séculos e meio antes, durante o período conhecido como União Ibérica, em que o trono português passou para o rei da Espanha, depois do desaparecimento de dom Sebastião na guerra contra os mouros no Marrocos. Era, portanto, uma decisão de caráter estratégico, longamente pensada e discutida – ainda que, em 1807, tenha sido executada às pressas, diante da pressão avassaladora de Napoleão.

Na véspera do embarque para o Rio de Janeiro, dom João não tinha escolha: ou fugia ou, muito provavelmente, seria preso e deposto por Napoleão, como aconteceu alguns meses mais tarde com a monarquia espanhola. O príncipe regente estava encurralado entre as duas maiores potências econômicas e militares de sua época, França e Inglaterra, e tinha pela frente alternativas amargas e excludentes. A primeira era ceder às pressões de Napoleão e aderir ao bloqueio continental, que proibia o acesso dos ingleses ao mercado europeu. A segunda, aceitar a oferta dos aliados britânicos e fugir para o Brasil. Aparentemente, era uma oferta generosa. Na prática, tratava-se de uma chantagem. Se dom João optasse pela primeira escolha e se curvasse às exigências de Napoleão, a Inglaterra repetiria em Portugal o que já havia feito, meses antes, na também relutante Dinamarca. Na manhã de 1º de setembro de 1807, os habitantes de Copenhague, a capital dinamarquesa, acordaram sob uma barragem de fogo despejada pelos canhões dos navios britânicos ancorados diante do seu porto. O bombardeio durou quatro dias e quatro noites. Ao final, 2 mil pessoas estavam mortas. No dia 7, Copenhague capitulou. Os ingleses apoderaram-se de todos os navios, materiais e munições, deixando a cidade sem defesas.

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Napoleão

No caso de Portugal, as consequências poderiam ser ainda piores. Se o príncipe regente aderisse a Napoleão, os ingleses não só bombardeariam Lisboa e sequestrariam a frota portuguesa como muito provavelmente tomariam suas colônias ultramarinas, das quais o país dependia para sobreviver. Com o apoio dos ingleses, o Brasil, a maior e mais rica dessas colônias, declararia sua independência mais cedo do que se esperava, seguindo o exemplo dos Estados Unidos e de seus vizinhos territórios espanhóis. E, sem o Brasil, Portugal não seria nada.

Decisões importantes, como a fuga para o Brasil, devem-se menos à coragem pessoal do príncipe regente do que à sabedoria dos ministros e auxiliares. Três ministros exerceram um papel fundamental na história de dom João VI: dom Rodrigo de Souza Coutinho, o conde de Linhares; Antonio de Araújo e Azevedo, o conde da Barca; e Thomaz Antônio Vilanova Portugal. Foram esses três homens que, em diferentes momentos de sua vida, o ajudaram a superar o medo, a timidez, a insegurança e as crises de depressão e o orientaram na tomada de decisões que haveriam de marcar profundamente seu conturbado reinado. Foram eles que contribuíram para salvar a biografia de dom João, aparentemente condenada ao fracasso, caso dependesse apenas dos traços de sua própria personalidade.

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Em quadro de 1802, de Domingos Sequeira, Dom João aponta para o busto de sua mãe, Dona Maria I, cognominada “A Louca” – Fonte – https://readtiger.com/wkp/en/John_VI_of_Portugal

Graças à capacidade de escolher seus auxiliares e delegar a eles as tarefas do governo, dom João passou para a história como soberano relativamente bem-sucedido, especialmente quando comparado aos seus pares da época, todos destronados, exilados, presos ou mesmo executados pela onda revolucionária francesa. “A verdade é que, apesar do período de convulsões sem paralelo em que reinou, dom João viveu e morreu como rei, enquanto a maioria das cabeças coroadas da Europa sucumbiu sob Napoleão Bonaparte”, avaliou o historiador paranaense Jurandir Malerba. Ele pode também ser considerado a primeira grande figura da história brasileira, uma vez que, graças a suas decisões, o Brasil passou a existir mesmo como país a partir de 1808.

Os homens fortes de João – Os condes de Linhares, da Barca e da Palma estiveram presentes em todas a decisões importantes do rei

Os ministros-escudeiros de dom João formavam uma espécie de três mosqueteiros da política portuguesa. Essa trinca de notáveis, provavelmente, não desempenharia tão bem seu papel se servissem a outro monarca da Europa. O príncipe regente, apesar de indeciso e supersticioso, tinha sagacidade para ouvir conselheiros, até por causa de sua índole relutante. Mas, além do mérito de considerar outras opiniões, a história tem de lhe creditar a capacidade de saber escolher seus auxiliares.

Os condes de Linhares, da Barca e da Palma eram os mais influentes integrantes do Conselho de Estado português. Estiveram presentes em todas as decisões políticas importantes. O primeiro tornou-se o maior defensor da mudança da corte para o Brasil. O segundo promoveu a vinda da Missão Artística Francesa, embrião da primeira escola de belas-artes brasileira. E o terceiro ajudou a moldar os costumes do novo país ao incentivar a vinda de imigrantes.

Dom Rodrigo de Sousa Coutinho, o conde de Linhares, era encarregado das secretarias das Guerras e Negócios Estrangeiros e sempre apoiou a união com a Inglaterra. Vitorioso no jogo de influências em torno de dom João VI, acabou se tornando seu ministro mais influente no Brasil e inimigo declarado da Espanha – o que equivalia a dizer inimigo dos planos conspiratórios de Carlota Joaquina. Organizou a máquina administrativa da corte e desenvolveu, sem sucesso, projetos expansionistas em relação às colônias espanholas na América do Sul.

Antônio de Araújo de Azevedo, o conde da Barca, era o grande rival de dom Rodrigo. Defendia o entendimento com a França, motivo pelo qual teve sua carruagem apedrejada durante o embarque da família real em Lisboa. Apaixonado por estudos científicos, trouxe ao Rio de Janeiro uma tipografia completa, que seria usada na Impressão Régia, além de vários livros e uma rica coleção mineralógica. O conde da Barca era considerado o homem mais culto da corte e promoveu a vinda da famosa Missão Artística Francesa – que trouxe ao Brasil nomes como o do pintor francês Jean-Baptiste Debret. Foi ministro da Marinha (1814) e ministro de Negócios Estrangeiros e da Guerra (1816).

Thomaz Antonio de Villanova Portugal, o conde da Palma, era o menos brilhante dos três assessores de dom João. Na definição do historiador Oliveira Lima, era a “imagem do velho Portugal, de calçados, capote e chapéu redondo, recuando diante do novo Brasil, que avançava de botas de montaria e de chicote”. Como desembargador do Paço, estava sempre próximo ao monarca, o que provocava ciúmes nos outros ministros. O rei nomeou-o ministro e secretário de estado dos negócios do reino, em 1818. Foi também ministro da Fazenda e incentivou a imigração européia.

Saiba mais
História do Império, Tobias Monteiro, Itatiaia, 1981
1808, Laurentino Gomes, Planeta, 2007
 

O COMANDANTE DE UM SUBMARINO ALEMÃO DA SEGUNDA GUERRA QUE VIVEU NO BRASIL

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Autores – Rostand Medeiros & German Zaunseder[1]

A frota de submarinos de Hitler foi uma arma naval utilizada operacionalmente de maneira brilhante durante a Segunda Guerra Mundial, obtendo uma justificada reputação de eficiência e de criar um verdadeiro terror nos sete mares durante aqueles dias difíceis.

Apesar de existirem inúmeras estatísticas, sabe-se que mais de 3.000 navios aliados foram afundados pelos submarinos alemães em várias partes do mundo e isso gerou algo em torno de 30.000 pessoas mortas nestes afundamentos. Esses ataques totalizaram cerca de 13 milhões e meio de toneladas de navios e de mercadorias perdidos para o fundo do mar e desse total quase 12 milhões foram afundadas apenas no Atlântico Norte. 

Foram estes submarinos, chamados de U-boot (do alemão: Unterseeboot), a arma que mais perto colocou o Terceiro Reich como vencedor do conflito. Até o próprio Winston Churchill admitiu que os submarinos alemães foram seu maior temor para uma possível derrota da Grã Bretanha na Segunda Guerra. [2]

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Apesar de suas retumbantes vitórias, os membros da arma submarina do Terceiro Reich sofreram perdas enormes. Segundo Anthony A. Evans e David Gibbons, autores de “A compacta história da Segunda Guerra” (Universo dos livros, 2016), durante o conflito foram produzidos 1.170 U-boots, dos quais 1.000 entraram em operação e 781 foram perdidos (uma taxa próxima a 80%), com 25.870 tripulantes (63% dos 40.900 envolvidos) tendo apenas o mar como tumba. Já outros 5.338 tripulantes se tornaram prisioneiros de guerra.

Apesar de suas elevadíssimas perdas, é indiscutível que essas naves de guerra, comandadas por um seleto grupo de 1.058 homens, marcaram de maneira indelével a História do maior conflito já ocorrido.

E um desses comandantes de U-boot veio viver no Brasil!

Aristocracia e a Guerra no U-18

Heinz von Hennig nasceu em Berlim, era filho de vice-almirante Heinrich Georg Julius von Hennig e de Ilse Leder von Hennig. Seu pai era membro de uma aristocrática família prussiana dedicada a política, mas ele preferiu seguir a carreira naval e entrou em 1902 na Marinha Imperial (Kaiserliche Marine). Com a deflagração da Primeira Guerra Mundial o tenente de navio (Kapitänleutnant) Heinrich von Hennig assumiu o comando do submarino U-18.

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Submarino U-18 em Kiel, 1914 – Fonte – http://www.bundesarchiv.de

A participação do pai de Heinz von Hennig neste conflito foi breve, mas marcante sob alguns aspectos. Em 23 de novembro de 1914 o U-18 conseguiu passar furtivamente pela Hoxa Sound, a entrada principal ao sul da baía de Scapa Flow, nas ilhas Orkney, norte da Escócia, onde nas duas guerras mundiais se localizou a principal base naval da Marinha Real Britânica (Royal Navy).

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Heinrich Georg Julius von Hennig – Fonte – http://alifrafikkhan.blogspot.com.br/2010/11/daftar-konteradmiral-kriegsmarine.html

O comandante Heinrich superou as barreiras de contenção e as minas explosivas, auxiliado pela forte maré. Ele também seguiu bem próximo a um cargueiro que entrou na área. Quando estava perto do ancoradouro Heinrich levantou periscópio e, para sua decepção, percebeu que a baía se encontrava praticamente vazia. Infelizmente nesse dia os principais navios de guerra inimigos se encontravam espalhados por várias localidades da Grã-Bretanha.

Chateado e sem ter alvos que valessem os disparos de seus torpedos ele ordenou o retorno para mar aberto. Mas o U-18 foi localizado pela tripulação da traineira Dorothy Gray, um barco de pesca desarmado, que provisoriamente servia a Marinha Real como dragador de minas. Valentemente os ingleses arremeteram sua pequena nave contra o submarino e o Dorothy Gray bateu contra o periscópio e o casco do U-boot. Logo dois destroieres se uniram a caçada e, sem ter como fugir, o comandante Heinrich decidiu pela rendição, salvando a sua vida e a de seus comandados. As autoridades britânicas mantiveram todos os detalhes da captura em segredo, pois esperavam que os alemães acreditassem que o U-18 tinha sido afundado pelas formidáveis defesas da base naval.[3]

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Notícia do afundamento do U-18 no jornal carioca “A Noite”, mas sem muito detalhamento.

O comandante Heinrich bem que tentou contar aos seus comandantes o que havia acontecido com seu submarino. Em agosto de 1915, juntamente com mais dois companheiros, escapou da prisão militar onde era mantido. Mas perderam o encontro que havia sido previamente organizado com um submarino na costa inglesa, que deveria trazê-los de volta para Alemanha. O futuro almirante Heinrich só saiu do cativeiro após o fim da guerra. 

Um Novo e Futuro Submarinista 

Apesar de ter ficado em combate apenas por quatro meses e perder seu submarino, a ação do pai de Heinz von Hennig  foi considerada exitosa e sua tentativa de fuga posterior lhe valeu elogios[4].

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Berlim na década de 1920 – Fonte – http://www.bilderbuch-berlin.net

Ele permaneceu na Marinha alemã, sendo designado inicialmente para o comando de uma fortaleza localizada em uma ilha perto da fronteira com a Holanda e depois seguiu uma carreira mais burocrática naquela força. Foi adido naval em países europeus, chegou ao posto de contra-almirante (Konteradmiral) e teve passagens por Berlim. Em uma destas ocasiões, em 17 de março de 1922, nasceu seu filho Heinz.

Na capital alemã os Hennigs viveram no aprazível distrito de Friedenau, um lugar com ruas residenciais tranquilas, onde uma classe média educada se estabeleceu e fez a região se tornar um local especial[5]. Mas nada sabemos sobre a infância e a adolescência de Heinz von Hennig e nem o grau de envolvimento de sua família com o Nacional Socialismo.

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O orgulhoso Heinz von Hennig – Fonte – http://www.uboat.net/men/commanders/460.html

Sabemos, entretanto, que o jovem Heinz entrou na Marinha do Reich (Kriegsmarine) em setembro de 1940 e em 1 de janeiro de 1943 seguiu para a cidade de Danzig (atual Gdańsk, na Polônia), para se incorporar a tripulação do submarino U-421 e realizar seu treinamento de combate no frio mar Báltico.[6]

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Reprodução artística de um submarino alemão Tipo VIIC, o mesmo modelo do U-421 – Fonte – https://laststandonzombieisland.files.wordpress.com/2015/10/type-vii.jpg

Este submarino era do modelo VIIC, o verdadeiro cavalo de batalha da força de U-boots alemã na Segunda Guerra Mundial, dos quais foram construídos um total de 568 submersíveis a partir de 1941. Embora seu raio de ação não fosse tão grande como o do tipo IX, o VIIC foi uma máquina de combate eficaz, segura e que atuou em quase todas as áreas onde a força de U-boots operou. O U-421 era comandado pelo alferes de navio (Oberleutnant zu See) Hans Kolbus, que nos seus 22 anos incompletos estreava na função. Aquele submarino transportava de 50 tripulantes, levava quatorze torpedos, tinha um canhão de 88 m.m. no convés.[7]

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Comando do U-421. Ao centro o comandante Hans Kolbus, a sua direita Heinz von Hennig e a sua esquerda vemos provavelmente Hans-Heinrich Barschkis, que chegaria a comandar um U-boot Tipo XXIII e afundaria um cargueiro britânico no fim da guerra – Fonte – http://www.uboat.net/boats/patrols/patrol_677.html

Durante dez meses a tripulação do U-421 treinou duro no mar Báltico para realizar plenamente suas missões e logo a nave seguiu para o porto alemão de Kiel para os últimos preparativos, onde Heinz von Hennig foi promovido a alferes de navio (Oberleutnant zur See ). Finalmente, em 1 novembro de 1943, aquele submarino partiu para sua primeira missão de combate como integrante da 9ª Flotilha (9. U-Flottille, ou 9. Unterseebootsflottille), com base em Brest, na França, para onde o submarino deveria seguir, caso sobrevivesse ao final desta patrulha.

Patrulha Fracassada

O moral da tripulação estava alto, mas já havia preocupação no ar. Aquela era uma época difícil, a maré das perdas estava virando a favor dos Aliados e já não existiam os chamados “Tempos felizes”, quando os submarinos alemães afundavam navios mercantes aliados em quantidades incríveis. Em novembro do ano anterior os U-boots afundaram 142 navios (entre estes os brasileiros Porto Alegre e Apalóide) e perderam apenas treze submarinos. Mas um ano depois seriam dezesseis navios aliados destruídos, para dezenove submersíveis afundados. Os novos equipamentos de busca e destruição de submarinos que os Aliados estavam utilizando ajudavam nessa mudança.

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Um submarino em um porto alemão – Fonte – http://www.bundesarchiv.de

Durante um período de 64 dias este submarino patrulhou uma vasta região do Atlântico Norte, tomando parte da chamada Batalha do Atlântico, a mais longa campanha militar da Segunda Guerra Mundial. Mas a primeira missão da nave onde se encontrava Heinz von Hennig não foi nada exitosa durante aqueles mais de dois meses.

O U-421 navegou de Kiel para o Mar do Norte, seguindo próximo ao sul da Noruega, contornando as Ilhas Britânicas a uma distância prudente, passando entre as Ilhas Faroé e o sudeste da Islândia e chegando finalmente na sua região de atuação.

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Tripulação de submarino alemão fazendo uso do canhão – Fonte – http://www.bundesarchiv.de

No primeiro mês o submarino não atacou ninguém e nem foi atacado. Circulou e circulou por uma grande área e nada aconteceu. Durante o segundo mês de patrulha a nave se incorporou a seis distintos grupos de busca e destruição de barcos mercantes dos aliados. Estes grupos eram as famosas “Matilhas de lobos”, ou “Wolfpacks”, que utilizavam as táticas de ataque em massa de submarinos alemães contra comboios de navios.

Os britânicos tinham organizado a navegação mercante na forma de comboios, onde desenvolveram um perímetro de defesa com escoltas armadas ao redor destes navios e assim tentavam chegar inteiros aos seus destinos com preciosos materiais para a guerra. 

Para contrabalançar essa situação o comando dos submarinos (denominado BdU – Befehlshaber der Unterseeboot) desenvolveu uma tática de ataque surpresa, formando grupos de U-boots organizados via rádio, que buscavam sobrepujar as escoltas. O primeiro submarino a fazer contato com um comboio informava ao BdU e acompanhava discretamente o grupo de navios, relatando a posição dos inimigos sempre que necessário. Então, por ordem do BdU, vários submarinos convergiam ao encontro do comboio e receberia ordem para atacar. A partir deste momento cada comandante era livre para usar qualquer tática por ele escolhida.[8]

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Visão a partir de um periscópio de um submarino – Fonte – http://www.spiegel.de/

Os seis grupos de ataque que o neófito U-421 participou naquele mês de dezembro de 1943 buscaram formar uma verdadeira barreira de submersíveis entre a Terra Nova, no Canadá, e as Ilhas Britânicas, circulando por uma área com grande movimentação de comboios. Estas Wolfpacks variaram muito no número de participantes, aonde uma chegou a ter 21 naves e outra patrulhou com apenas quatro submarinos. Mas apesar dos esforços deu tudo errado para os submarinos participantes e eles não conseguiram afundar um único navio aliado.

Se a situação para o U-421 naquela primeira patrulha era ruim, ela quase se tornou trágica na sua finalização!

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Quadro representando um B-24 do Comando Costeiro da RAF atacando um submarino

Após a passagem do ano novo o U-421 recebeu ordens de seguir para Brest e assim procedeu. Mas no dia 3 de janeiro de 1944 foi atacado por um avião bombardeiro quadrimotor B-24 Liberator britânico, pertencente ao Esquadrão 224 do Comando Costeiro da Royal Air Force (RAF). O oficial Ethan Allen atacou com oito cargas de profundidade, mas os danos não foram expressivos e a tripulação do U-421 realizou um excepcional trabalho com as armas de defesa antiaéreas. O submarino escapou mergulhando e chegou a Brest no dia 8 sem maiores alterações e sem nada para comemorar.

Novo Porto e o Fim do U-421 

Talvez por sua boa conduta em combate Heinz von Hennig foi elevado a condição de segundo oficial mais importante a bordo do U-421, que levaria mais de um mês para o sair novamente ao mar.

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Oficial observando em um periscópio – Fonte – http://www.spiegel.de/

Na verdade aquela sua segunda patrulha, que se iniciou em 19 de fevereiro, nada mais foi do que a realização do percurso entre Brest e a cidade francesa de Toulon, no Mar Mediterrâneo, local da nova base deste submarino. O problema é que no meio do caminha havia o Esteiro de Gibraltar.[9]

Para evitar ter seu submarino localizado e destruído nesta área extremamente complicada, o comandante Hans Kolbus percorreu grande parte do caminho até o Estreito navegando muito lentamente e próximo aos litorais da Espanha e de Portugal. Esta tática de avanço estava funcionando positivamente, mas isso não impediu que eles fossem novamente atacados por um avião do Comando Costeiro da RAF.

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Um bombardeiro britânico Vickers Wellington – Fonte – http://www.wardrawings.be

Eram três e dez da madrugada de 2 de março e o submarino se encontrava navegando na altura do Cabo de São Vicente, quando um bombardeiro britânico Vickers Wellington Mk XIV, pertencente ao Esquadrão 179, sob o comando do oficial Ronald George Knott surgiu inesperadamente[10].

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O U-421 seguia pela superfície quando foi localizado no radar do avião bimotor que partiu para o ataque. Apesar de terem sido iluminados por um holofote de alta potência, o pessoal das armas antiaéreas do submarino reagiu e acertou vários impactos na aeronave. Foram danificados o motor de estibordo e o radar, fazendo assim com que o comandante Knott não acertasse suas quatro cargas da profundidade e deixasse a área de combate. A tripulação do avião inglês foi até mesmo obrigada a descartar todo o equipamento supérfluo para continuar voando com um só motor, incluindo o radar danificado. Conseguiram alcançar sua base após três horas de voo bem atribuladas.

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Apesar das expectativas a passagem do submarino pelo Estreito de Gibraltar seguiu depois sem maiores problemas e o U-421 chegou ao porto de Toulon no dia 1 de abril, após 43 dias de navegação. A nave se incorporou a 29ª Flotilha de submarinos, mas o problema foi que nessa época o estratégico porto vinha sendo severamente bombardeado pelas aeronaves aliadas.  

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O U-421 destruido no porto de Toulon – Fonte – http://www.brendtandbrendt.com

 

Entre novembro de 1943 e agosto do ano seguinte aconteceram doze grandes ataques ao local, com a destruição de vários vasos de guerra franceses e nove submarinos alemães, entre estes o barco de Heinz von Hennig. O fato aconteceu às onze e meia de 29 de abril de 1944, menos de um mês após o U-421 chegar a Toulon. A nave estava sendo preparada para uma nova missão de patrulha e se encontrava no Cais Missiessy, quando aviões quadrimotores da 15ª Força Aérea dos Estados Unidos bombardearam fortemente a área e o destruíram.  

Comandante de U-boot 

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Submarinos em Neustadt – Fonte – http://www.spiegel.de/

Enquanto seu país seguia desmoronando cada vez mais, Heinz von Hennig foi enviado por ordem superior para a 3ª Divisão de Treinamento de Submarinos (3. ULD – 3. Unterseeboots-Lehrdivision), na cidade portuária alemã de Neustadt, em Holstein, no mar Báltico. Depois seguiu para a 23ª Flotilha visando a realização do treinamento KSL (Kommandantenschiesslehrgang) para ser comandante de um submarino. Em fevereiro de 1945, dez meses depois da destruição do U-421, Heinz assume o comando do submarino U-2361, um dos novos modelos tipo XXIII, seguramente um dos mais avançados submersíveis da Segunda Guerra Mundial.

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Submarino Tipo XXIII – Fonte – http://www.bundesarchiv.de

Estas naves tinham um formato exterior bastante aerodinâmico, muito avançado, além de uma ponte de comando relativamente pequena e foram os primeiros submarinos do mundo a usar um projeto de casco único. O tipo XXIII provou ser um barco excelente e mortal se fosse manuseado por bons profissionais, sendo altamente manobrável na superfície e abaixo dela. Dos 280 submarinos ordenados apenas 61 entraram em serviço, dos quais apenas seis realizaram efetivamente alguma patrulha de guerra, o que resultou em cinco navios aliados afundados e sem perdas para os submersíveis atacantes. Em 7 de maio de 1945 coube a um tipo XXIII, o U-2336, afundar o último navio mercante inimigo durante a Batalha do Atlântico. [11]

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A República Federal da Alemanha recuperou um submarino do Tipo XXIII (o antigo U-2367) e o rebatizou de S-171 – Fonte – http://www.bundesarchiv.de

O comandante Heinz von Hennig foi um dos comandantes de submarinos desta época que não realizou nenhuma patrulha de combate com o seu novo U-2361, tendo largado para o mar apenas para treinamentos, quando chegou a notícia que a guerra acabou. Em 9 maio 1945 ele entregou sua nave aos Aliados em Kristiansand Süd, na Noruega, juntamente com outros dezesseis submarinos alemães de vários tipos. O U-2361 foi levado ainda em maio para Loch Ryan, na Escócia, e em novembro daquele ano foi afundado no Atlântico Norte por tiros de canhões disparados pelos destroieres HMS Onslow (inglês) e ORP Blyskawica (polonês).

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O destróier polonês ORP Blyskawica, que afundou o U-2361, conservado até os dias atuais e transformado em museu na Polônia – Fonte – http://www.muzeummw.pl (polonês)

Juntamente com muitos outros comandantes de submarinos, Heinz foi enviado para o Campo de Prisioneiro 18, em Featherstone, no condado de Northumberland, norte da Inglaterra e ali recebeu a designação de prisioneiro B.105727. As atividades deste campo foram encerradas em 1948, quando acreditamos que Heinz retornou para Alemanha.

 No Novo Mundo 

No seu retorno soube do falecimento do seu pai em 1947 e, aparentemente, seguiu atividades na área comercial. Sabemos também que ele casou, mas não sabemos com quem e quando. Entretanto sabemos que em 21 de maio de 1957, o recifense Jorge Kirchhofer Cabral, Cônsul do Brasil em Frankfurt am Main, assinou para Heinz von Hennig, cidadão da República Federal da Alemanha, a sua ficha consular de admissão de entrada no Brasil em caráter permanente.  Heinz declarou que nesta época vivia na cidade de Fellbach, a nordeste de Stuttgart, no estado de Baden-Wuerttemberg, sul da Alemanha. Informou que era comerciante, não registrou nome de algum filho menor de dezoito anos e tinha na ocasião 35 anos de idade.[12]

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Heinz von Hennig atravessou o Atlântico a bordo do navio de passageiros S.S. Conte Biancamano, da companhia Italia di Navegazione S.p.A., tendo partido provavelmente de Gênova, ou Nápoles, e desembarcou no porto de Santos em 18 de julho de 1957. Na sua ficha encontramos a informação que ele ficou no Hotel Santos, na Praça Barão do Rio Branco, onde atualmente fica o prédio da Justiça Federal de Primeiro Grau daquela cidade, vizinho a secular Igreja do Convento do Carmo. Este hotel era pertinho do porto de Santos e muito procurado por imigrantes que chegavam de todo o mundo a bordo dos navios. 

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Foto do Hotel Santos e da Praça Rio Branco, Santos, São Paulo. Esse local foi demolido -Foto: Arquivo Novo Milênio – http://www.novomilenio.inf.br/santos/fotos057.htm

A partir do desembarque em Santos, por maiores que fossem nossos esforços em buscar informações que mostrasse os passos de Heinz von Hennig no Brasil, somente conseguimos algo dezoito anos depois de sua chegada, através da publicação oficial de uma ata de reunião societária de uma empresa privada.  No Diário Oficial do Estado de São Paulo de 7 de agosto de 1975, na sua página quatorze temos a reprodução da reunião da Assembleia Geral ordinária, para prestação anual de contas da empresa Indústria e Comércio Nova Técnica S.A., localizada no número 4651, da via denominada na época como “Estrada Circuito Itapecerica para Santo Amaro”, no município de Itapecerica da Serra, São Paulo. Consta que a reunião foi presidida por Heinz von Hennig, com a presença de mais outros treze participantes, sendo nove destes pessoas nascidas na Alemanha, ou, devido a natureza teutônica de seus nomes e sobrenomes, claramente descendentes de pessoas que nasceram neste país. 

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Sabemos que a antiga Estrada Circuito Itapecerica para Santo Amaro, ou Estrada de Itapecerica, é um local histórico. Em 1908 ali se realizou a primeira corrida oficial de automóveis da América Latina, em um circuito de 75 quilômetros, que reuniu mais de 10.000 espectadores ao longo das vias e teve largada no Parque Antártica em São Paulo. Hoje a via onde se localizava a empresa Indústria e Comércio Nova Técnica S.A. se chama Rodovia Armando Salles e no número 4651, próximo a ponte sobre o rio M’boi Mirim, existe uma fábrica de embalagens plásticas denominada “Plasfan”, que não sabemos se possui alguma relação com o antigo comandante de U-boot. 

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Heinz von Hennig em 1957.

Não é surpresa que a reunião presidida por Heinz von Hennig tivessem tantos alemães, ou seus descendentes, e que ele estivesse presidindo uma reunião de uma empresa com endereço nesta região do estado de São Paulo. Para quem conhece um pouco de colonização alemã no Brasil, sabe que ainda nas últimas décadas do século XIX existiram colônias de imigrantes alemães na região de Santo Amaro e Itapecerica da Serra. Certamente era uma interessante área para um alemão se estabelecer no Brasil em 1957. 

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Os autores deste artigo Rostand Medeiros (E) e German Zaunseder (D), pesquisando sobre a II Guerra em uma praia potiguar.

Os autores deste artigo, que moram em Natal, Rio Grande do Norte, nada mais encontraram sobre Heinz von Hennig em buscas através de arquivos digitais espalhados pela internet. Esperamos que este nosso texto publicado no blog TOK DE HISTÓRIA possa servir como ferramenta para novas buscas sobre este comandante.

Se vivo for o Sr. Hennig terá 95 anos e será, talvez, o único comandante de submarinos alemães a viver nas Américas.


NOTAS

[1] Rostand Medeiros é brasileiro de Natal, Rio Grande do Norte, autor de quatro livros, sendo um delas a biografia de Emil Anthony Petr, veterano da USAAF na Segunda Guerra Mundial que viveu em Natal e intitulado “Eu não sou herói – A História de Emil Petr” (Jovens Escribas-2012). É membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN.

German Zaunseder é argentino de Buenos Aires, descendente de alemães e seu bisavô serviu a Wehrmacht durante a Segunda Guerra Mundial, é um grande entusiasta do estudo sobre este conflito e domina quatro idiomas .

[2] Algumas fontes estatísticas aqui utilizadas estão em: https://www.navyhistory.org.au/british-and-german-submarine-statistics-of-world-war-ii/ e ver também http://www.uboat.net

[3] O ardil deu tão certo que somente em 1918 foi que outro submarino alemão tentou um novo ataque contra Scapa Flow.

[4] Apesar do resultado pouco proveitoso do comandante Heinrich na Primeira Guerra, sabe-se que anos depois um filho de um juiz que havia se tornado comandante de submarino estudou a ação do antigo comandante do U-18 na grande baía de Scapa Flow em 1914. Seu nome era Ghünter Prien, sua nave era o U-47 e ele fez história quando em 14 de outubro de 1939 afundou naquele local o encouraçado inglês Royal Oak. Sua ousada ação provocou a morte de 833 ingleses, criou um considerável efeito no moral nos alemães e mostrou, pouco mais de um mês após o início da Segunda Guerra Mundial, o poder e alcance da arma submarina alemã.

[5] Ainda sobre o contra-almirante Heinrich Georg Julius von Hennig é interessante comentar que ele foi um grande jogador e afamado campeão de xadrez, jogo que aprendeu durante as horas de folga nos navios da Marinha Imperial. Heinrich criou uma jogada que leva seu nome e de outro enxadrista, incentivou o esporte por onde passou e seus embates mais importantes são criteriosamente analisados até hoje por aficionados do xadrex.

[6] Heinz von Hennig era o terceiro em comando nesta nave e nesta época tinha a patente de alferes de fragata (Leutnant zu See).

[7] O U-421 foi um dos 42 modelos VIIIC lançados ao mar pelo estaleiro Danziger Werft AG, da própria cidade de Danzig.

[8] Normalmente estes ataques aconteciam após o crepúsculo, onde a pequena silhueta dos U-boots tornava a detecção difícil. Logo as Wolfpacks provaram ser uma ameaça séria ao transporte aliado.

[9] Separação natural entre a África e a Europa e passagem obrigatória entre o Atlântico e o Mediterrâneo, o Estreito de Gibraltar era uma local muito patrulhado contra os submarinos do Eixo nos dias da Segunda Guerra. Por possuir uma largura mínima de apenas quatorze quilômetros, boa cobertura aérea e naval, não era a toa que várias carcaças destruídas de U-boots jaziam no leito marinho daquela região.

[10] Este piloto chegaria ao posto de vice-marechal do ar na RAF e OTAN na década de 1970.

[11] Apesar da construção destas naves enfrentarem grandes pesadelos logísticos, com muitas interrupções causadas pelos avanços terrestres aliados, bombardeios aéreos constantes, escassez de material e de mão-de-obra, o primeiro Tipo XXIII saiu da linha de montagem em 17 de abril de 1944 e foi batizado como U-2321. Era daquele tipo de arma excepcional, mas que chegou tarde demais para o Terceiro Reich de Hitler.

[12] Não sabemos as razões da vinda do ex-comandante de U-boot para o Brasil, mas conseguimos a informação que seu pai, entre janeiro de 1943 e maio de 1945, foi adido naval alemão em Lisboa, Portugal. Teria de alguma forma essa permanência de seu pai em terras lusas contribuído para sua vinda ao Brasil?

NÃO FOI COLOMBO – OS VIKINGS FORAM OS PRIMEIROS A PISAR NO CONTINENTE. O MISTÉRIO É COMO E POR QUE ELES O ABANDONARAM

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Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/idade-media/nao-foi-colombo.phtml#.WPi-t4jyuFd

Texto Fabio Marton

Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/idade-media/nao-foi-colombo.phtml#.WPi-t4jyuFd

Após semanas perdidos no Atlântico, Bjarni Herjólfsson e sua tripulação desembarcaram na Groenlândia, aos trapos. Ele procurava pelos pais, que haviam embarcado com Eric, o Vermelho, para colonizar a ilha. Entre reclamações dos infortúnios da viagem, na qual ficaram perdidos em meio a nevoeiros e foram jogados para cima e para baixo por tempestades, Bjarni tinha uma revelação: havia descoberto a América. 

Para além de pilhagens e conquistas, perder-se no mar era um dos esportes favoritos dos vikings. A própria Groenlândia havia sido descoberta algumas décadas antes por outro viking perdido no Atlântico e explorada por Eric, o Vermelho, enquanto curtia um exílio de três anos por assassinato. Eric então batizou a ilha de “Terra Verde” (Groenland) para atrair colonos. A publicidade não era tão enganosa: no verão, nasce musgo e capim nos fiordes (braços de mar). E havia peixes, renas, morsas, focas e ursos polares por perto, que era o que interessava aos vikings.

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Bjarni não desceu à terra em nenhum ponto da viagem e não fazia ideia da importância da descoberta. Tampouco os outros vikings: nem então, nem pelos séculos que viriam, eles entenderam que aquelas terras eram um continente desconhecido do resto do mundo. De tudo o que Bjarni falou, só uma palavra chamou a atenção: “árvores”. Ele avistou árvores nas terras a sudoeste da Groenlândia. Os navios dependiam de madeira e os vikings dependiam dos navios. Não havia árvores na Groenlândia – e foi como se ele houvesse encontrado petróleo. Assim, o filho mais velho de Eric, Leif, comprou o navio do explorador acidental e partiu para o sudoeste com 35 homens. Era o ano de 999, e começava a primeira tentativa europeia de colonização da América. 

Morte e vida americana 

O primeiro local avistado, a Ilha de Baf-fin, no Canadá, não pareceu muito promissor. Só havia gelo e pedras. Leif desceu do navio, só para garantir que fosse o primeiro a pôr os pés no local, e batizou a ilha de Hellulland, “terra da pedra chata”. Continuando a viagem, chegou à península de Labrador, onde achou as prometidas árvores, e batizou o lugar de Markland, “terra da floresta”. Na Ilha de Newfoundland, fizeram um acampamento permanente, com casas grandes de pedra e madeira, e continuaram a exploração. Um dia, um escravo de Eric apareceu com um achado surpreendente: uvas, coisa que os vikings só conheciam de países do sul da Europa. Eram da espécie Vitis labrusca (as conhecidas uvas niágara), ruins para vinho, boas para comer. Leif batizou o lugar de Vinland – terra da uva – e, na volta, carregou seu navio com as frutas. Em sua primeira viagem à América, os vikings acharam uvas, árvores, salmões, clima temperado e belas paisagens canadenses. Era um começo promissor.

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Quando Leif retornou à Groenlândia, seu irmão, Thorvald, preparou a segunda viagem, que começou em 1004. Após dois anos sem incidentes, Thorvald explorava um fiorde quando topou com uma visão inesperada: três botes de pele, cada um com três homens, se aproximando do navio. Era o primeiro contato entre europeus e nativos da América, e não acabou melhor que os posteriores: os vikings capturaram oito dos nove homens e os mataram (sem explicar o motivo). O sobrevivente fugiu. Os europeus continuaram a exploração e toparam com o que pareciam habitações. Não tiveram tempo de se certificar. Dezenas de botes surgiram no fiorde e começaram a disparar flechas contra eles. 

Thorvald foi atingido embaixo do braço e morreu pouco depois. Seu último pedido foi que marcassem sua sepultura com duas cruzes, pois era cristão. Mesmo com a baixa, os nórdicos chamaram os nativos de skraeling, algo como “fracotes”. Sobre a identidade dos skraeling, Hans Christian Gullov, do Museu Nacional da Dinamarca, afirma que poderiam tanto ser índios beothuk quanto paleo-esquimós da cultura Dorset, ambos extintos por outros povos americanos. 

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Fora as matanças, as notícias não pareceram ruins para o comerciante Thorfinn Karlsefni. Ele se casou com a viúva de Thorvald, Gudrid, e organizou a terceira expedição. Karlsefni também encontrou os skraeling, desta vez no acampamento em Vinland. Os nativos espalharam objetos sobre o chão, dando a entender que queriam comércio. As mulheres trouxeram queijo e manteiga, o negócio foi aceito, e os grupos se separaram sem incidentes. Apesar da promessa de paz, Karlsefni construiu paliçadas em volta do acampamento. Durante o inverno, chegou o filho do casal, o primeiro descendente de europeus a nascer na América. Na outra estação, os índios reapareceram. Um deles tentou roubar uma arma de um servo de Karlsefni, que reagiu à moda viking, com a espada – o incidente deu início a uma batalha, mas os vikings conseguiram expulsar os nativos e se bandear de volta para a Groenlândia. 

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Houve uma quarta e última expedição. Dessa vez, os vikings não precisaram de ajuda dos skraeling para morrer. A filha de Eric, Freydis, se desentendeu com os integrantes de uma equipe rival, dizendo que só ela podia usar os prédios do acampamento, propriedade de seu irmão. Os rivais se conformaram em fazer mais casas. Após outra discussão, Freydis resolveu matar todo mundo – quando seus subalternos recusaram-se a executar as mulheres, ela pediu um machado e resolveu a situação sozinha. Matar índios não merecia comentário, mas, dessa vez, o relato não ignorou que o ato foi visto como um grande mal na Groenlândia, uma mancha na reputação dos descendentes de Freydis. Assim, entre serem mortos pelos nativos ou por eles mesmos, os nórdicos deixaram a colonização do Novo Mundo para outros europeus, séculos depois. Mas não foi o fim de sua presença na América. 

Das sagas para a História 

Tudo o que você leu até agora vem da Saga dos Groenlandeses, livro escrito na Islândia por volta de 1200. A mesma história é contada na Saga de Eric, o Vermelho, com alguns detalhes distintos. Durante os séculos 18 e 19, as sagas começaram a ser traduzidas para línguas nórdicas modernas e depois para o inglês, francês e alemão, dando origem a uma certa “vikingmania”. Os feitos nórdicos foram saudados por gente como o escritor norueguês Henrik Ibsen (Os Guerreiros em Helgeland, 1857) e o compositor alemão Richard Wagner (O Anel dos Nibelungos, 1874). Na época surgiu o estereótipo do viking de elmo chifrudo – que existiu entre nórdicos na Antiguidade, mas já abandonado na Idade Média. 

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Em 1837, o historiador dinamarquês Carl Christian Rafn escreveu Antiquaes America, primeiro trabalho acadêmico desbancando a primazia de Colombo. No livro, Rafn apontava uma torre de pedra em Rhode Island (EUA) como uma igreja de vikings cristãos. Em 1898, uma pedra rúnica foi encontrada no Minnesota, a milhares de quilômetros do litoral canadense. A pedra era uma fraude e a torre, depois de escavada, só rendeu artefatos do século 17. No início do século 20, a maioria dos historiadores estava cética em relação às narrativas das sagas. Os amadores não desistiram. Em 1914, o empresário William F. Munn, de Newfoundland, escreveu artigos apontando o extremo norte da ilha como o local onde os vikings aportaram. 

Após várias escavações que encontraram apenas vestígios indígenas, em 1960 o casal de arqueólogos noruegueses Helge e Anne Ingstad acharam o que parecia ser o contorno de prédios nórdicos sob a grama, em L¿Anse aux Meadows, uma vila de pescadores. O anúncio da descoberta, no ano seguinte, foi recebido com ceticismo – mas um estudo mais aprofun-dado do local, nos anos 60 e 70, trouxe resultados surpreendentes. Em L¿Anse aux Meadows havia, sim, uma vila nórdica, construída por volta do ano 1000, que foi habitada por não mais de 20 anos. O local não tinha os elementos de um povoamento definitivo, como cemitério ou igreja. Em vez disso foram encontrados forjas, serralherias e armazéns. A conclusão: era o acampamento de Leif Ericsson. As sagas estavam certas. “As histórias sobre as viagens são muito rea-listas e nunca foram consideradas mitológicas”, afirma o historiador Gísli Sigurdsson, da Universidade da Islândia. “As sagas contêm memórias sobre personagens e eventos reais, apesar de que isso pode não ter ocorrido exatamente como contado.”

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Cristianismo 

A Saga de Eric, o Vermelho, deixa claro que a razão do abandono do acampamento eram os skraelings hostis. Mas isso não quer dizer que eles abandonaram a América completamente. “Temos indícios que os nórdicos da Groenlândia mantiveram contato com a América. Encontramos no povoamento ocidental fibras de pelo de bisão e urso marrom, provavelmente da América, datados de depois de 1200”, diz a arqueóloga Jette Arneborg, do Museu Nacional da Dinamarca. A colonização da América ocorreu no mesmo período em que os vikings deixavam de ser vikings. Um dos primeiros prédios construídos na Groenlândia foi uma igreja – pela mulher cristã de Eric. Antes de ir ao Canadá, Leif Ericsson havia se convertido e recebido a missão de converter a Groenlândia. Os nórdicos foram absorvidos na diplomacia, política e cultura europeia – houve até sagas em latim. 

Se os nórdicos fugiram dos skraeling ao sul, logo tiveram de se entender com eles na Groenlândia – que, vale lembrar, é parte da América. Os esquimós modernos, ou inuítes, começaram a se expandir a partir do Alasca perto do ano 1000. Por volta de 1200, estavam na Ilha de Ellesmere, e logo depois montaram acampamento na Groenlândia, ao norte de áreas habitadas por vikings. A relação deve ter ido bem, ao menos no começo: mais de 200 artefatos nórdicos foram encontrados em ruínas inuítes, além de esculturas que parecem representar europeus. “Os dois grupos tiveram contato por séculos. Mas viviam suas próprias vidas e se encontravam apenas em locais de comércio”, diz Gullov. O número de artefatos inuítes em ruínas nórdicas é muito menor, o que parece mostrar que os nórdicos exportavam tudo o que compravam dos inuítes – marfim de morsa e peles. 

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Os nórdicos continuaram na Groenlândia até o século da descoberta de Colombo. Se Markland e Vinland eram terras mais habitáveis, havia razões econômicas para permanecerem naquele ambiente hostil: o comércio de marfim de morsa e peles de foca e rena (ou caribu). Quando chegaram, a região era 1º C mais quente que hoje, já que vivia-se o Período Quente Medieval. Eles trouxeram gado, cavalos, ovelhas e cabras, que alimentavam com a grama da tundra, no verão, ou feno, estocado para o inverno. Em anos bons, era possível plantar cevada e trigo, o que não durou muito. Em 1250, o livro norueguês O Espelho Real descrevia a Groenlândia como “o lugar onde ninguém nunca viu pão”. 

O clima começou a esfriar no século 13, na Pequena Era do Gelo, que duraria até o começo do atual aquecimento, no século 19. O legista Niels Lynnerup, da Universidade de Copenhague, estudou esqueletos nórdicos encontrados na Groenlândia: “No começo, eles tinham uma dieta diversificada, de gado e ovelhas. Mais tarde, dependiam de foca”. O frio não era o único problema. Após a Primeira Cruzada, em 1096, foram abertos caminhos para a Ásia e a África, que permitiram a entrada de marfim de elefante na Europa. O marfim de morsa, bem menor, foi se tornando cada vez menos interessante. Em 1361, o bispo Ivar Bardson visitou as ruínas do povoamento ocidental, que chegou a abrigar 20% da população da Groenlândia (no auge, 5 mil pessoas). Ele culpou os skraeling – os inuítes, neste caso – pela destruição. No fim, ninguém mais ouviu falar de nórdicos na ilha. 

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Historiadores apontam o fim da colonização viking por volta de 1450 – se eles foram mortos ou incorporados pelos inuítes, ou simplesmente partiram, ainda é um mistério. Segundo o historiador Thomas McGovern, da Universidade da Cidade de Nova York, eles desperdiçaram uma chance ao não copiar o estilo de vida dos inuítes, com tecnologias adequadas para o inverno e a neve. “Os groenlandeses decidiram evitar a inovação, enfatizar suas tradições e morrer pelo que consideravam seus valores”, escreveu McGovern, em The Demise of Norse Greenland (O Fim da Groenlândia Nórdica). 

O resgate 

Em 1492, Colombo chegou ao Caribe pelo meio do Atlântico, uma rota que os escandinavos não seriam capazes de fazer. Oito anos depois, o português Gaspar Corte Real chegou à Groenlândia pelo Atlântico Sul, batizando uma ilha de Terra Nova (daí o inglês “Newfoundland”). Um mapa português de dois anos depois já mostrava a Groenlândia como possessão portuguesa, pois ficava a leste da Linha de Tordesilhas. Isso ficou só no papel. 

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Em 1604, o rei Cristiano IV da Dinamarca enviou uma “expedição de resgate” – ele acreditava que ainda havia nórdicos morando na Groenlândia. Foi um fracasso, com os navios bloqueados pelo gelo. Em 1721, com Hans Egede, os dinamarqueses conseguiram tomar posse do país novamente, mas só encontraram inuítes, que mostraram a eles as ruínas nórdicas. Hoje, 89% dos 59 mil groenlandeses são inuítes. Desde 2009, a Groenlândia é um país semiautônomo. A maioria da população apoia a independência total da Dinamarca. Um plebiscito vai resolver a questão em 2017. 

As sagas 

Sagas são relatos épicos em prosa, presentes nas culturas nórdica e germânica, sobre as viagens dos vikings. A maioria foi escrita depois da conversão ao cristianismo, com base na tradição oral pagã.

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Objetos do cotidiano 

Os vikings não usavam chapéu com chifres nem bebiam em canecas feitas de caveira – mas canecas de chifre eram comuns. Seu drinque favorito era a cerveja – o vinho era visto como um produto de luxo vindo do sul. Eles usavam roupas de lã, adornadas com abotoaduras e joias decoradas com motivos animais. Entre seus passatempos favoritos estavam dados e xadrez, com peças de marfim de morsa. Do mesmo material, ou de osso, faziam instrumentos musicais, como flautas. 

As mulheres 

As mulheres vikings desfrutavam de muito mais liberdade em relação a outros povos europeus do período. Podiam ser donas de propriedade, como navios, e tinham a alternativa de pedir divórcio. 

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Homens do mar 

As embarcações vikings tinham por volta de 20 m e uma tripulação de 40 pessoas, mas podiam ser maiores, com até 32 m em alguns navios de propriedade real. Com vento de popa, podiam chegar a 15 nós (27 km/h) de velocidade – o dobro da velocidade de uma caravela da época de Colombo. Sua construção simples deixava um bom espaço para carga. As desvantagens ficavam por conta da precária navegação: eles não tinham mapas ou bússolas, usavam apenas o Sol, estrelas e pontos de referência para se guiar. Bastava um nevoeiro para ficarem perdidos – o que, como vimos, às vezes se transformava em vantagem. Os barcos vikings usavam cascos trincados – cada tábua era presa às tábuas adjacentes, diferente de uma caravela, em que as tábuas são paralelas e presas ao esqueleto. Elas, assim, se tornavam parte da estrutura de sustentação, dispensando um esqueleto pesado – era a razão de sua grande velocidade e maior capacidade de carga. Antes do uso do velame triangular das caravelas, remar era a única solução quando o vento era contrário. Os remadores costumavam ser poupados se o plano era atacar – não adiantaria nada ter um exército exausto. Como os demais europeus medievais, os nórdicos achavam que o mundo era um círculo com centro em Jerusalém, cercado por oceanos cheios de monstros. Sem aceitar que havia um novo continente, acreditavam que a Groenlândia era uma península da Europa, e Vinland, uma península saída da África. 

Os inuítes 

Também conhecidos como esquimós pelos americanos, os inuítes são uma tribo da região Ártica, com ramificações no Canadá, Estados Unidos, Sibéria (Rússia) e Groenlândia. 

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Colombo na Islândia 

Segundo a biografia de Cristóvão Colombo escrita por seu filho Ferdinando, o pai visitou a Islândia em 1477. Nem a biografia ou qualquer coisa que ele tenha dito indicam que ouviu falar das sagas, mas Ferdinando informa que Colombo ficou intrigado com a localização da região, mais a oeste do que os antigos mapas baseados em Ptolomeu sugeriam. O historiador Paolo Taviani (1912-2001) acreditava que Colombo ouviu histórias da colonização. De qualquer forma, morreu dizendo que havia chegado à Ásia – foi outro italiano, Américo Vespúcio, quem primeiro afirmou que se tratava de outro continente, após visitar a região com portugueses e espanhóis. O cartógrafo alemão Martin Waldseemüller trocou tudo e achou que Vespúcio era o descobridor – batizando a América em homenagem ao navegador errado. De qualquer forma, Vespúcio merece o crédito por ter sido o primeiro a entender o contexto das terras americanas – um continente, um Novo Mundo. 

Saiba mais 

Livros 

Vikings, the North Atlantic Saga, vários autores, 2000, Smithsonian Books 

The Vinland Sagas, autor desconhecido, 2008, Penguin Books 

Internet 

Icelandic Saga Database, http://sagadb.org/

GUERRA DO PACÍFICO: O MARTÍRIO DA BOLÍVIA

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Feriado mais importante no país é exigir o mar de volta ao Chile

TEXTO – Fábio Marton

FONTE – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/guerras/guerra-do-pacifico-o-martirio-da-bolivia.phtml#.WNux64WcHIV

Todo dia 23 de março, celebra-se na vizinha Bolívia o Dia do Mar. É uma espécie de Carnaval patriótico, em que adultos e crianças se vestem de marinheiro ou usam fantasias com chapéu de barco, ondas ou qualquer outro tema “oceânico” e desfilam rumo à plaza Eduardo Albaroa. Também valem roupas de soldado ou os trajes tradicionais dos povos de língua quéchua e aimará, etnias da maioria da população do país. O presidente faz um discurso. Acontecem salvas de canhões e paradas militares, inclusive da Marinha boliviana.

A Bolívia não tem mar. E esse é o ponto do Dia do Mar.

Um pedaço de Marte

A Guerra do Pacífico, como ficou conhecida, colocou Chile contra Bolívia e Peru de 1879 a 1883. Em números absolutos, foi mais modesta que a Guerra do Paraguai, envolvendo cerca de 70 mil combatentes, contra 350 mil.

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As Perdas territoriais da Bolívia desde a sua independência.

Mas suas consequências e seus ressentimentos seriam bem mais dramáticos. “Como a maioria dos conflitos no que posteriormente seria conhecido como Terceiro Mundo, a Guerra do Pacífico foi um grande momento para os povos envolvidos, mas acabou largamente ignorada fora da região”, afirma o historiador Bruce W. Farcau em The Ten Cents War.

Historicamente, a região não valia nada. Era um pedaço de terra seca, sem rios, no deserto mais inclemente do mundo – o Atacama, onde o período entre duas chuvas se mede em décadas. E uma precipitação anual 20 vezes menor que nas partes mais secas do deserto do Saara. Não há nenhuma vida vegetal ou animal ali, exceto no litoral, onde nevoeiros oferecem alguma umidade a líquens e cactos. A região é comumente usada por equipes de filmagem quando querem recriar o ambiente de Marte, como na série Space Odissey (2004), da BBC. (Perdido em Marte, de 2015, não; esse foi filmado na Jordânia).

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Fronteiras tensas

O Atacama é o deserto mais letal do mundo, mas não só por falta de água. Alguém tentando cruzar a fronteira entre Peru e Chile, ao norte de Arica, vai se deparar com uma “atração” inusitada: campos minados, marcados por placas em espanhol, inglês e aimará. 113 121 minas antipessoal e antitanque foram plantadas na fronteira pelo governo Pinochet (1973-1993) e vem sendo removidas desde 2000, mas apenas 9,34% do total foi desativado, segundo dados do governo chileno.

As encrencas do Chile não se limitaram ao norte. Em 1978, quando ditaduras militares dominavam ambos os países, Chile e Argentina quase entraram em guerra por causa de três ilhas minúsculas no canal de Beagle, que faz a passagem do oceano Atlântico para o Pacífico e corta os dois países.

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Batalha de Tarapacá, em 27 de novembro de 1879.

A Argentina chegou a preparar uma invasão militar das ilhas, que considerava suas, mas desistiu na última hora. Até o papa teve de intervir: com o fim do regime militar argentino, o presidente Raúl Alfonsín assinou no Vaticano um acordo com Pinochet, entregando as ilhas ao Chile. Pinochet, de seu lado, plantou também minas na fronteira com a Argentina.

Mas mesmo um tirano como Pinochet teve seu momento de iluminação – ou, quem sabe, solidariedade a outros ditadores militares. Em 1972, quando a Bolívia estava sob a ditadura do general Hugo Banzer e o Peru sob a do general (de esquerda) Juan Velasco Alvarado, ele propôs entregar uma faixa de terra à Bolívia, ligando o país à cidade de Arica.

Os bolivianos deveriam entregar uma faixa equivalente ao Chile, incluindo aí o território da faixa marítima. Os bolivianos ficaram exultantes, mas, como Arica originalmente era parte do Peru, não da Bolívia, os acordos com o Chile exigiam a consulta ao Peru antes da entrega. O ditador peruano não gostou e propôs que os três países dividissem Arica. Acabou ficando tudo como estava – e está.

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No conturbado processo de independência das colônias da América do Sul, o deserto acabou dividido entre o Peru, que conquistou a independência, em 1821, e a Bolívia, liberada em 1825. Os países, que eram simplesmente o “Peru” na época colonial, unificaram-se em 1833, e isso levou a uma primeira guerra com o Chile, entre 1836 e 1839, separando-os novamente.

O Chile não queria um vizinho gigante ao norte, mas não levou nenhum território – e nem estava interessado. Isso mudaria radicalmente na década de 1840, quando começou a se explorar um recurso inusitado: o guano, excremento de aves marinhas que, sem chuvas para removê-lo e ressecado pelo sol, forma morros brancos em rochas perto do mar. “Os chilenos nunca se incomodaram com a questão de fronteiras até a descoberta do guano”, afirma o cientista político Waltraud Q. Morales em A Brief History of Bolivia.

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O guano tem em sua composição o nitrato de sódio, ou salitre, que começava a ser usado em fertilizantes e era matéria-prima na produção de explosivos. Não apenas nas pedras brancas mas também enterrado no solo, havia enormes depósitos de salitre no Atacama. Isso tornou, da noite para o dia, o terreno morto em um dos pontos mais importantes da Terra.

A princípio, o Chile não precisou tomar territórios para se favorecer com isso. Com instituições privadas e governamentais bem mais sólidas que as dos vizinhos, foram as indústrias chilenas, fomentadas por capitais britânico, francês e americano, que rapidamente se instalaram na região, com mão de obra dos próprios chilenos e migrantes do mundo todo, inclusive da China.

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Acordo secreto

A situação mudou em 1878, quando o Congresso boliviano tornou nulo um acordo que isentava de impostos a chilena Compañia de Salitres y Ferrocarril de Antofagasta (ferrocarril é “ferrovia” em espanhol e Antofagasta era a cidade mais ao sul do litoral boliviano, na fronteira com o Chile). A Compañia deveria pagar 10 centavos de peso para cada 100 kg de salitre extraídos. A empresa se recusou, e o Congresso boliviano votou por confiscar suas propriedades, marcando o início do processo para 23 de fevereiro de 1879. No dia da execução, 500 soldados chilenos desembarcaram em Antofagasta para proteger a empresa – foram recebidos com festa, já que 95% da população da cidade era chilena.

A princípio, os bolivianos decidiram contornar a situação com eufemismos. A declaração de guerra contra o Chile foi aprovada pelo Congresso em 27 de fevereiro, mas não foi anunciada. Em vez disso, o presidente, Hilárion Daza, preferia falar em “estado de guerra”. Em 1º de março, anunciou a expulsão dos chilenos do país. Com ou sem declaração, os chilenos se mexeram. Em 23 de março, 554 soldados chilenos avançaram pelo deserto, rumo à cidade de Calama. Lá enfrentaram e massacraram 135 civis e soldados, comandados pelo engenheiro Eduardo Albaroa – que se tornou o mártir do Dia do Mar e herói na Bolívia.

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O Peru também tentou evitar o pior. Desde 1872, tinha um acordo de defesa secreto firmado com a Bolívia, que exigia que honrasse o compromisso. Os peruanos tentaram sediar um congresso de paz em seu país, mas o Chile, tomando conhecimento do acordo de defesa, preferiu declarar guerra a ambos os países em 4 de abril de 1879.

Ofensiva brutal

Avançar pelo deserto era complicado. O Chile preferiu, então, fazer uma guerra focada em combates navais e invasões anfíbias. O país tinha 7 navios, e o Peru, 6 – a maioria comprada dos americanos após a Guerra Civil que funcionavam a vapor e eram modernos para a época.

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Em 5 de abril, os chilenos bloquearam o porto peruano de Iquique. Após uma troca de tiros, o Peru conseguiu expulsar os navios chilenos da cidade e afundar um dos 7 navios da Marinha chilena, mas a um enorme preço: o Independencia, um de seus dois navios mais bem armados, bateu em uma rocha e afundou. Com a retirada chilena, o segundo navio peruano mais poderoso, o Huáscar, passou a circular pelas guarnições costeiras chilenas e fazer ataques esporádicos, atrasando seu avanço. Em 8 de outubro, os chilenos conseguiram capturar o Huáscar, na Batalha de Angamos, e o usaram contra as forças peruanas. Depois disso, ficaram praticamente livres para desembarcar tropas. Em 2 de novembro, baixaram em Pisagua, 500 km ao norte de Antofagasta. Em 19 de novembro, conquistaram Iquique. Com um tanto de excesso de confiança, levaram o que foi seu maior revés na guerra: em 27 de novembro, na Batalha de Tarapacá, uma coluna chilena de 2,3 mil homens enfrentou 4,5 mil peruanos e bolivianos e foi massacrada. Apesar disso, os peruanos não conseguiram manter a posição e recuaram para Arica, e as notícias causaram uma enorme turbulência política. Em 23 de dezembro, um golpe de estado depôs o presidente peruano, Mariano Ignazio Prado, e o boliviano Hilárion Daza fugiu para a Europa no dia 27. Em 26 de fevereiro de 1880, os chilenos invadiram Ilo, isolando as tropas de reforços via Peru. Em 26 de maio, na Batalha de Tacna, destruíram a maioria do que restava do exército, fazendo com que a Bolívia se retirasse do conflito. Em 7 de junho, liquidavam a fatura na Batalha de Arica, em que 5 mil chilenos venceram 1 903 peruanos, deixando o inimigo sem exército.

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Em 23 de outubro, numa conferência mediada pelos americanos no navio USS Lackawanna, em Arica, tentou-se uma solução de paz sem resultados. Os chilenos decidiram ir até o fim. Em 17 de janeiro, 23 mil militares chilenos invadiam a cidade de Lima, defendida por 18 mil civis recrutados às pressas e por sobreviventes do exército. A cidade foi saqueada, as mulheres, estupradas, e mesmo a Biblioteca Nacional teve seu conteúdo transferido para o Chile – 3 778 livros, só devolvidos em 2007.

Paz ressentida

Aos peruanos, restou fazer uma campanha de guerrilha e revolta civil até 1883, quando o Tratado de Ancón encerrou as hostilidades. A Bolívia assinou uma trégua em 1884, e um tratado definitivo de “amizade”, cedendo todo seu litoral, em 1904, em troca de livre acesso ao porto de Arica e a construção de uma ferrovia ligando-a à capital, La Paz.

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O boom do guano durou pouco: no início do século 20, os alemães criaram formas sintéticas de nitrato e a região perdeu interesse comercial. Mas o Chile aproveitou: “Antes de o nitrato de potássio ser produzido sinteticamente, o Chile já havia explorado fontes naturais de nitratos por muitos anos, à custa das regiões ocupadas da Bolívia e do Peru”, afirma o historiador Cesar Augusto Barcellos Guazzelli, da UFRGS. Em 1929, quando os bolsões de guano não tinham mais valor comercial, a região de Tacna, no extremo norte, foi devolvida ao Peru. Na década seguinte, o cobre seria descoberto na região. Hoje, o Peru é o segundo maior produtor do mundo, atrás do Chile. Talvez por isso o ressentimento lá sejam um pouco menor que na Bolívia.⇨ 

Todo mundo levou um naco da Bolívia, até o Brasil! 

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Campo minado no Peru na atualidade.

Os bolivianos nunca se esqueceram. Depois da guerra, perderam ainda territórios para o Brasil – o Acre, em 1903 – e para o Paraguai – a região do Chaco, em 1935, após outra guerra tola e sangrenta -, além de outros nacos para Chile e Argentina. A soma é cruel: em 1825, a Bolívia tinha 2,36 milhões de km2. Hoje sua área é pouco maior que 1 milhão de km2. Ou seja, o país perdeu mais da metade de suas terras. Essas regiões ainda aparecem nos discursos nacionalistas, mas o litoral é o topo das prioridades. Por todo o país, há murais e estátuas apontando para o mar, ilustrando os massacres da guerra, pedindo a devolução.

De 2002 a 2005, esse sentimento voltou a aflorar na “Guerra do Gás”, uma série de protestos e greves iniciada pela proposta de exportar gás natural através de uma linha até o Chile, em que sentimentos antichilenos se misturaram a anticapitalistas e antiamericanos. Evo Morales, que vinha de uma carreira em defesa dos plantadores de coca, liderou protestos pela nacionalização do gás e acabou eleito presidente, em 2005, fazendo reformas que incluíram uma nova Constituição.

A atual Constituição boliviana anuncia com todas as letras que “o Estado boliviano declara seu direito irrenunciável ao território que dá acesso ao oceano Pacífico e seu espaço marítimo”, a seguir toma o cuidado de acrescentar que isso se dará por “vias pacíficas”.

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Cerimônia realizada em tempos recentes, de transladação de restos mortais de combatentes boliviano mortos no Peru durante a Guerra do Pacífico

O Chile considera isso um entrave à retomada das relações diplomáticas dos países, paradas desde 1978. É fácil entender por quê: os departamentos ao norte do Chile têm a maior renda per capita e Índice de Desenvolvimento Humano do país graças ao cobre, e o metal responde por metade das exportações chilenas. “Além de uma questão de soberania nacional, isto faria da Bolívia um país competidor com o Chile pelo mercado aberto pelo Pacífico, o que é impensável nos termos atuais da economia latino-americana. Controlando as exportações que passam pelo seu país, os chilenos precisariam de compensações econômicas de vulto para ceder tais direitos”, afirma Guazzelli. Os tempos mudam, mas nem tanto.

O caso está no Tribunal de Haia desde 2013. A Bolívia está confiante na vitória. 

 

Saiba mais

The Ten Cents War: Chile, Peru, and Bolivia in the War of the Pacific, 1879-1884, Bruce W. Farau, Greenwood Publishing Group, 2000
Andean Tragedy: Fighting the War of the Pacific, 1879-1884, William F. Sater, University of Nebraska Press, 2007

OS CRIPTO JUDEUS NO BRASIL

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Fonte – https://www.shutterstock.com/video/clip-720313-stock-footage-fire-david-star-with-alpha-channel.html

O povo Judeu se estabeleceu pela primeira vez na Península Ibérica (a região hoje conhecida como Espanha e Portugal), antes da chegada dos fenícios, em cerca de 900 AC.

Comerciantes judeus se estabeleceram ao longo da costa da Espanha durante o tempo do rei Salomão, quando esta região era chamada de Tarso, ou Társis. Mais judeus emigraram após a destruição do Primeiro Templo em Jerusalém. Quando o rei babilônico Nabucodonosor conquistou Jerusalém, já havia grandes assentamentos judaicos bem estabelecidos em toda a Península Ibérica.

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Soldados romanos carregando os despojos das guerras judaicas. A destruição de Jerusalém aconteceu em 70 D.C., quando as legiões romanas saquearam Jerusalém e retornaram a Roma com os despojos, daquela que era considerada a cidade mais rica no Império Romano – Fonte – http://www.bible-history.com/archaeology/rome/arch-titus-menorah-1.html.

A primeira perseguição registrada contra os judeus na Espanha começou há cerca de 490 D.C., quando os judeus foram proibidos de se casar com não judeus, ou ocupar cargos públicos e seus os filhos nascidos de casamento entre judeus e católicos foram forçosamente batizados na Igreja Católica.

A partir deste momento em diante, os judeus ibéricos foram periódica e progressivamente submetidos à pior perseguição. Entre os anos de 653 a 672 muitos foram decapitados, queimados vivos, ou apedrejados até a morte pelo crime da prática do judaísmo. Durante o período de 489 a 711, quando a Península Ibérica ficou sob o domínio franco e visigótico, surgiram pela primeira vez os cripto judeus (judeus secretos) como um grande grupo.

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Uma vista geral do interior da mesquita em Córdoba – do livro “Antiguidades árabes na Espanha”, de James Cavanah Murphy, publicado em 1816 – Fonte – http://islamic-arts.org/2012/islamic-architecture-of-andalusia-2/.

Em 711 os mouros do norte da África conquistaram a Península Ibérica e ficaram por cerca de 300 anos, o que é conhecido como a “Idade de Ouro da Tolerância”. Para muitos pode parecer aos dias atuais algo estranho, mas nesta época os governantes muçulmanos coexistiram com os judeus e cristãos com muita tolerância e de forma extremamente edificante. Pessoas não muçulmanas foram autorizadas a ter grande liberdade religiosa e social, desde que eles pagassem um imposto especial, algo que os judeus acordaram de bom grado.

Judeus floresceram em relativa paz e abundância, apreciando a Idade de Ouro e a livre troca de ideias, em meio a um nível relativamente alto de educação, aproveitando os benefícios de viver entre os estudiosos do Torá e do Talmude. Cidades como Lucena, Granada e Tarragona eram povoadas por judeus magnificamente ricos em bens de cultura e materiais.

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Era de ouro do Islã na Espanha. Abd-ar-Rahman III, califa de Córdoba, e sua corte em Medina Azahara , por Dionisio Baixeras Verdaguer – Fonte – http://newjacksonianblog.blogspot.com.br/2016/06/israel-islam-and-clash-of-civilizations.html.

A arte, música, medicina, educação e estudo religioso judaico floresceram. A população judaica aumentou consideravelmente, prosperou e muitos judeus se tornaram fabulosamente ricos e famosos. Durante a Idade de Ouro a Espanha se tornou o centro mundial de estudos talmúdicos, onde existiram algumas das mais famosas academias rabínicas do mundo. Alguns dos maiores estudiosos judeus viveram na Espanha moura. O rabino Abraham Ben Meir Ibn Ezra nasceu em Tudela, Espanha, em 1089, sendo considerado em seu tempo um grande poeta, matemático, gramático, astrônomo, comentarista da Torá e filósofo. Já o rabino Moshe ben Maimôn nasceu em Córdoba, Espanha, em 1135, e ganhava a vida como um médico, sendo famoso por sua codificação da lei judaica, intitulado Mishne Torá. O rabino Moshe ben Nachman nasceu em 1194 e como Maimôn era um médico respeitado e estudioso, sendo o primeiro a incorporar a cabala, ou misticismo judaico, no ensinamento da Torá.

No entanto a chamada Idade de Ouro na Espanha também foi marcada por revoltas violentas ocasionais e turbulência política. Isso afetou os judeus e os cripto judeus, que estavam sujeitos aos caprichos dos governos que mudavam frequentemente. Por exemplo, a violência eclodiu em 1002, quando dois ricos e politicamente poderosos muçulmanos lutaram para governar Granada; infelizmente, os judeus tinham apoiado o perdedor e sofreram depois. Em 1066 um ministro-chefe judeu de Granada foi crucificado, seguido do ataque a mais de 1.500 famílias judias.

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A crucificação é um dos métodos de execução mais conhecidos devido à crucificação de Jesus Cristo. É uma execução deliberadamente lenta e dolorosa, onde o condenado é amarrado ou pregado em uma grande cruz de madeira e deixado para pendurar até morrer, o que geralmente leva dias. Judeus foram crucificados na Espanha. – Fonte – http://deliciavita.com/most-horrifying-torture-techniques-through-history/

Depois a dinastia moura original na Península Ibérica foi dominada por grupos fanáticos. Em 1149 os muçulmanos da península se fragmentaram em cerca de doze pequenos reinos. A falta de controle centralizado causou logo constantes lutas pelo poder entre os reinos vizinhos.

Embora os judeus tenham coexistido relativamente pacificamente com os muçulmanos, os católicos se ressentiam amargamente da perda de controle cristão da península desde 711 e frequentemente realizavam distúrbios e revoltas de forma mais limitada, mas em 1212 começou a rebelião aberta. A reconquista de toda a região foi considerada como uma obrigação sagrada para os cristãos. Infelizmente os judeus foram identificados negativamente pelos cristãos como ligados a morte de Cristo e aos governantes muçulmanos sob o qual os judeus tinham desfrutado privilégios e poder.

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Vítimas da peste negra.

Também durante este período a peste negra assolou a Europa, matando como um em cada quatro pessoas, mas a população judaica foi muito menos atingida e, talvez por causa de uma melhor higiene, relativamente poucos judeus morreram por causa da praga. Judeus lavavam as mãos antes de comer pão, banhando-se semanalmente antes do Shabat e antes dos feriados, lavando suas roupas regularmente, mantendo fortes regras de higiene (especialmente na cozinha e nas instalações sanitárias), consumindo apenas carnes frescas e de animais saudáveis. Eles eram obrigados a ficar distantes do esgoto e de outras formas de impurezas e enterravam seus mortos dentro de vinte e quatro horas. Todas essas práticas dos judeus forneciam alguma medida de proteção contra a peste, embora não a imunidade total. Já os católicos da época não observaram tais estilos de higiene e raramente se lavavam e tomavam banho. Consequentemente os católicos odiavam os judeus pela sua aparente imunidade à praga.

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Pogrom em Barcelona no ano de 1391 – Fonte – http://factsanddetails.com/world/cat55/sub351/item1381.html

Nesse meio tempo os católicos se uniram contra os muçulmanos e lentamente, assumiram a maioria dos pequenos reinos, um por um. Mas as regras católicas não foram gentis aos judeus. Os “pogroms”, ou perseguições, se generalizaram a partir de 1391 e resultou na morte de cinquenta mil judeus. O medo era tal que dezenas de milhares se converteram ao catolicismo. Essas pessoas eram chamadas de “conversos” (convertidos), “cristãos novos”, e “Marranos” (um termo depreciativo que significa “porco”).

Em 1412 leis excluíram os judeus de qualquer intercâmbio econômico com os cristãos. A partir deste momento até o Édito de Expulsão de 1492, os judeus foram estritamente limitados aos guetos e tiveram que usar uma espécie de crachá de identificação proeminente no lado de fora de suas roupas, algo que voltaria a acontecer na Alemanha a partir de 1933.

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Expulsão dos judeus da Espanha

Duramente pressionados para sobreviver, muitos judeus, talvez mais de 600.000, se converteram forçadamente ao cristianismo até o final do século XV. Muitos dos cristãos novos eram na realidade cripto judeus. Cristãos por fora, mas interiormente praticando secretamente o judaísmo.

O Édito espanhol de expulsão de 1492 afirmou que todos os judeus deveriam deixar o país. Aqueles que ficaram enfrentariam a Inquisição. Um pequeno número fugiu para a Itália, Amsterdã e nas Américas descoberta por Colombo. Mas a maioria foi para o vizinho Portugal. Quando a Inquisição chegou a Portugal em 1496, os judeus foram forçados a sair, converter ou morrer. Desses conversos que não optaram por emigrar, muitos, se não a maioria, foram assassinados pela “Santa” Inquisição. Por volta de 1500 estimativas apontam que entre 40.000, a mais de 200.000 judeus foram forçados a deixar a Península Ibérica. Os números exatos não estão disponíveis porque muitos dos nomes de famílias cripto judaica foram alterados após os pogroms dos anos 1300, em antecipação as perseguições do futuro.

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A Expulsão dos Judeus, de Roque Gameiro.

As Inquisições espanhola e portuguesa continuaram por trezentos e cinquenta anos. Ficaram relativamente bem gravados e de forma precisa os nomes, números, datas e punições que foram promulgadas pelos oficiais da Inquisição contra todos aqueles que atingiram. Daqueles judeus e cripto judeus que escolheram não deixar, ou não podiam dar ao luxo de deixar a Península Ibérica, perceberam que para viver só comprando uma passagem em um barco que seguisse para destinos mais seguros. De preferência, o mais longe possível dos escritórios da Inquisição.

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Pelo mar, para sobreviver! – Fonte – http://aquilazica.blogspot.com.br/2010/11/navios-para-tarsis.html

Alguns compraram a documentação adequada para viagens de negócios “temporários” (que muitas vezes tornou-se permanente) para a Itália ou a Alemanha. Ao passo que as pessoas mais pobres fugiram para o norte, através das montanhas, e daí para a França. Comunidades inteiras de “cristãos portugueses” foram documentadas no sul da França, enquanto outros continuaram para o norte. Seguira para a Holanda, Inglaterra, Escandinávia e para o leste. Em direção da Alemanha, Áustria, Hungria e Polônia. Na maioria destes destinos europeus, esses “cristãos portugueses” finalmente revelavam sua verdadeira identidade como judeus e posteriormente se uniam as populações judaicas estabelecidas; Assim, como voltaram a assumir sua verdadeira condição religiosa, não encontramos uma longa história de cripto judaísmo na Europa.

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Obra mostra cena de expulsão de judeus da Espanha em 1492. Muitos deixaram o país, mas outros optaram por ficar e se converter ao catolicismo. (Xilogravura, Michaly von Zichy, 1880, posteriormente colorizada)

Mas do outro lado do Atlântico a situação foi bem diferente. Muitos judeus e cripto judeus emigraram para o Novo Mundo, agora conhecidos como as Américas, ou Hemisfério Ocidental. Mas suas escolhas ficaram limitadas basicamente às colônias de Espanha e Portugal nesta região.

No caso do Brasil, após a chegada dos cripto judeus, muito se tornaram exportadores de madeira e desenvolveram com largo sucesso o plantio de cana-de-açúcar. Este sucesso atraiu muitos outros conversos da Espanha. Em Recife, a maior cidade no nordeste do Brasil, os cripto judeus prosperaram significativamente. De acordo com registros oficiais, durante o século XV, estes compreendiam 2/3 dos moradores brancos da região.

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Rua dos Judeus e seu mercado de escravos. Quadro Rua dos Judeus – Slavenmarkt, de Zacharias Wagener – 1641 – Fonte – http://bairrodorecife.blogspot.com.br/2014/02/a-rua-do-bode-dos-judeus-da-cruz-e-do.html

Em 1630 a Holanda conquistou a colônia portuguesa do Brasil. Pelos próximos 24 anos a cidade de Recife viveu um renascimento judaico. A primeira sinagoga das Américas foi ali fundada. Até mesmo uma rua foi nomeada “dos Judeus” e muitos conversos voltaram abertamente ao judaísmo.

No entanto, os bons tempos não duraram muito. 

Não apenas por isso, mas é bem verdade que os Judeus no Brasil se tornaram tão poderosos que a Igreja Católica pressionou Portugal para reconquistar sua ex-colônia dos “conversos judeus que agora operam suas sinagogas, causando grande humilhação para Igreja”. Assim, em 1654, Portugal mais uma vez ganhou o controle do Brasil. Logo um decreto de expulsão foi emitido contra os judeus para deixar o Brasil em menos de três meses. 

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Pessoas queimadas através da Inquisição em Portugal, que depois chegou no Brasil 

Em meio a isso a renovada Inquisição se espalhou por todo sul dos Estados Unidos da América, México, América Central e América do Sul, as ilhas do Caribe e Cuba. Nenhum judeu, ou “Converso”, estava a salvo de suspeita, acusação e perseguição. Assim, o número de cripto judeus cresceu para abranger quase todas as pessoas de ascendência judaica.

Para evitar essa situação muitos judeus, os “conversos” ou “cristãos-novos”, foram obrigados a apresentar-se ao catolicismo. Eles são referidos em hebraico como os “anussim”, ou “aqueles que foram forçados” e tiveram que continuar a esconder as suas crenças religiosas. Os membros da família não revelaram sua herança judaica, até mesmo para os seus filhos, filhas, irmãos e irmãs, tudo por medo de perseguição.

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Judaísmo no Âmbito Familiar. Nem assim havia total segurança – Fonte – http://www.coisasjudaicas.com/2011/11/cripto-judaismo.html

O certo é que a experiência dos judeus cripto no Hemisfério Ocidental foi uma litania de sofrimento, medo contínuo, supressão social e política, profissional e religiosa e de assassinatos. E foi algo que durou muito. Somente no final dos anos de 1850 a Inquisição oficialmente terminou no México e em outros lugares um pouco mais cedo; no entanto, a discriminação ostensiva e os incidentes aleatórios de linchamento e assassinatos continuaram até meados da década de 1950 no que hoje chamamos de América Latina.

Voltando a 1654, sabe-se que uma parcela substancial de judeus que viviam no Nordeste do país escolheu se esconder no interior, no sertão, misturando-se entre os moradores locais. Aí surge a dúvida – Quantos descendentes de judeus se converteram ao catolicismo? As estimativas variam de milhares a milhões.

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Anita Waingort Novinsky da Faculdade de Filosofia, letras e Ciências Humanas da USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Anita Novinsky, historiadora da Universidade de São Paulo, afirma que não sabe quantos descendentes dos judeus permanecem em todo o Brasil, mas acredita que a muitos judeus com variados níveis de consciência no Brasil. Para ela o Brasil moderno foi fundado por judeus e Só no Brasil estima-se que 10 a 25% do total da população são crpto judeus, que se traduz em 15 a 40 milhões de pessoas.

Embora nem todas as pessoas de linhagem crypto judaica estão são preparados neste momento para aceitar o desafio de voltar a viver uma vida plenamente judaica, tem havido um impulso incrível de voltar ao Judaísmo nos últimos anos. Existem milhares, se não milhões de pessoas que estão com fome de aprender e de se reconectar como judeus.


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FONTES DO TEXTO

http://cryptojew.org/the-history-of-the-crypto-jewshispanic-sephardi

http://www.nationalgeographic.com/hidden-history/

http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-3319972,00.html

ZÉ CARIOCA ERA PAULISTA

O tocador de cavaquinho do interior de São Paulo que inspirou o malandro carioca de Walt Disney e a história de um caça P-47 batizado com o nome do brasileiríssimo personagem

Em 1942, ao ser apresentado a Walt Disney nos Estados Unidos, o músico José do Patrocínio Oliveira logo emendou uma conversa usando seu inglês carregado de sotaque. Ao ouvi-lo, o desenhista recomendou: “Não tente ser americano, já temos americanos suficientes aqui. Seja brasileiro”. Isso Oliveira sabia fazer muito bem. Inspirado nele, Disney criou seu personagem brasileiro: o Zé Carioca (“Joe Carioca”, no original). Só que o homem por trás do papagaio era… paulista!

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Nascido na cidade de Jundiaí em 1904, o violonista e cavaquista Oliveira, chamado pelos amigos de Zezinho, tinha um bocado de trejeitos. “Ele era todo rapidinho, não parava de se mexer nem de falar”, conta o diretor de TV José Amâncio, que foi muito próximo do músico. “Não é que Zezinho tivesse um jeito parecido com o do personagem. Ele simplesmente era o Zé Carioca!” No Brasil, a estreia do papagaio verde e amarelo viria ainda em 1942, com Alô, Amigos (bizarramente batizado de “Saludos Amigos” em inglês), uma pioneira mistura de filme e desenho animado. Nele, Zé Carioca – dublado pelo próprio Zezinho – recebe o Pato Donald em terras brasileiras.

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Além de ser sucesso de público, Alô, Amigos também agradou às autoridades americanas. Afinal, o filme dos Estúdios Disney se encaixava perfeitamente na Política da Boa Vizinhança, lançada na década de 30 pelo presidente americano Franklin Roosevelt com o objetivo de manter toda a América alinhada com os Estados Unidos – e afastada da influência de comunistas e fascistas. O responsável pela doutrina era o OCIAA (sigla em inglês para “Escritório do Coordenador de Assuntos Interamericanos”), que usava a cultura como um dos principais meios para manter a influência americana. O órgão encomendou a Disney – uma espécie de “embaixador não-oficial” da Política da Boa Vizinhança – personagens que conquistassem a simpatia da América Latina.

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Walt Disney filmando em uma praia no Rio de Janeiro, Brasil, 1941 – Fonte – Hart Preston-Time & Life / Getty Images

Para agradar os mexicanos, Disney criou o galo Panchito. Na hora de homenagear o Brasil, o desenhista decidiu usar um papagaio. Há diferentes versões de como isso ocorreu. A mais aceita é contada pelo escritor Ezequiel de Azevedo em O Tico-Tico: Cem Anos de Revista. Segundo ele, durante uma visita a nosso país em 1941, Disney ganhou do cartunista J. Carlos o desenho de um papagaio abraçando o Pato Donald. Pronto, estava escolhido o animal – faltava só dar personalidade a ele. Então, no ano seguinte, Disney foi apresentado a Zezinho. E seu papagaio ganhou chapéu de malandro, gravata borboleta, um guarda-chuva para usar como bengala e uma fala temperada por ginga e malandragem.

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“Muita gente pensa que o Zezinho fez aquela voz do Zé Carioca especialmente para os desenhos. Não fez, era a voz dele mesmo”, diz José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, diretor da TV Vanguarda, que conheceu Zezinho por intermédio do pai, na infância. Em 1957, aos 22 anos, Boni reencontrou o músico e manteve com ele uma amizade que durou 30 anos – em que não faltavam “causos” sobre como era a vida de personagem de desenho animado. “Disney dizia que o Zezinho tinha até nariz de papagaio. E o levava para o estúdio, botava um chapéu nele, dava um guarda-chuva na mão dele e pedia para ele andar, sambar, rebolar… Os desenhistas ficavam assistindo para fazer o papagaio se mexer do mesmo jeito. E o Zezinho dizia: ‘Mas eu não sei rebolar, sou paulista!’”

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José do Patrocínio e Disney – Fonte – http://jornalggn.com.br/blog/laura-macedo/ze-nem-tao-carioca-eis-jose-do-patrocinio-oliveira

Antes e acima de ser o Zé Carioca, Zezinho era um grande músico. Desde a década de 30, acompanhava as cantoras Aurora e Carmen Miranda, quando as duas cumpriam agenda pré-carnavalesca diariamente às 19h30, na Rádio Record do Rio de Janeiro. Em Carmen – Uma Biografia, o escritor Ruy Castro conta que Aurora e sua irmã mais famosa se encantaram por Zezinho, graças a sua personalidade peculiar. O músico, por exemplo, era ex-funcionário do Instituto Butantan de São Paulo, conhecido pelo estudo de animais peçonhentos. “Quando se empolgava, falava das cobras pelos nomes delas em latim”, escreve Ruy Castro. O amigo José Amâncio relembra que outra coisa não saía da cabeça de Zezinho: todos os pontos das linhas de trem de São Paulo. “Ele tinha mania de citar um por um, na ordem certa.”

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Fonte – http://opontodosmusicos.blogspot.com.br/2014_02_01_archive.html

A incrível memória de Zezinho permitiu que ele decorasse praticamente todas as músicas de Carnaval já feitas até então. “A gente dizia o ano, e ele então enumerava cada marchinha e samba. Se a gente pedia, ele cantava”, conta Boni. Além de violão e cavaquinho, Zezinho era um ás no bandolim e em mais de dez instrumentos. Foi para os Estados Unidos no fim dos anos 30, no rastro do sucesso de Carmen Miranda. Lá, gravou três discos com Aurora e, em 1942, passou a fazer parte do Bando da Lua, o conjunto de músicos que costumava acompanhar as duas irmãs.

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Em 1942, Zezinho estreou no cinema tocando com o Bando da Lua no filme Minha Secretária Brasileira, estrelado por Carmen Miranda. Logo depois, em Alô, Amigos, ele fez mais do que dublar Zé Carioca: apareceu tocando “Na Baixa do Sapateiro” e “Os Quindins de Iaiá”, de Ary Barroso. Em 1944, ele voltou a dar voz a Zé Carioca e a atuar em mais uma combinação de filme e desenho animado produzido pelos Estúdios Disney: o clássico Você já Foi à Bahia?. Lá, ao lado de Aurora, ele tocou “Aquarela do Brasil”, também de Ary Barroso, e “Tico-Tico no Fubá”, de Zequinha de Abreu.

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Carmem Miranda e O Bando da Lua em Los Angeles, 1942. José do Patrocínio é o primeiro a esquerda – Fonte – https://pt.wikipedia.org/wiki/Z%C3%A9_Carioca_(m%C3%BAsico)#/media/File:Carmen_Miranda_com_o_Bando_da_Lua,_Los_Angeles_1942.jpg

A música brasileira, que tinha conquistado os Estados Unidos com Carmen Miranda, ganhava ainda mais espaço com o empurrão dado por Disney no cinema. Após a estréia de Você já Foi à Bahia?, Zezinho tocou com Aurora no México. Segundo Ruy Castro, apesar da fama da cantora, o nome dela era o segundo nos cartazes dos shows. Vinha logo abaixo de “Joe Carioca” – Zezinho tinha assumido o nome do papagaio por causa de sua popularidade. O músico tocou samba até os 75 anos, em vários estados americanos. Apresentava-se quase todas as noites em hotéis de luxo, restaurantes, cassinos e na própria Disneylândia, na Califórnia. Sua primeira aparição por lá foi na inauguração do parque temático, em 1955 – entrou no palco anunciado pelo próprio Disney.

Assim como Zé Carioca em Alô, Amigos, Zezinho era um caloroso anfitrião: fazia questão de manter as portas de sua casa nos Estados Unidos sempre abertas, transformando-a numa espécie de embaixada informal do Brasil. Segundo Boni, o músico se tornou cicerone de diretores que, tempos depois, se destacariam na TV brasileira, como Daniel Filho e Augusto César Vanucci. “Os amigos queriam conhecer melhor Hollywood, ver como as coisas eram feitas lá. Eu combinava com Zezinho e ele nos levava para todos os estúdios. Todo mundo por lá o conhecia”, diz.

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Fonte – http://www.violaobrasileiro.com/dicionario/visualizar/zezinho-jose-do-patrocinio-oliveira

Certa vez, o amigo José Amâncio foi testemunha de como a fama do músico se perpetuou. No início dos anos 80, o diretor de TV visitava a Disneylândia pela primeira vez, acompanhado por Zezinho. Assim que chegou ao parque, espantou-se ao ver todos os funcionários cumprimentando o músico, acenando e dizendo: “Hey, Joe Carioca”. “Eu sabia que ele era o homem por trás do Zé Carioca, mas não imaginava que era reconhecido desse jeito. Descobri naquele dia como ele era querido”, diz. Zezinho já tinha quase 80 anos quando a cena aconteceu – e o filme de estreia do personagem já tinha mais de 40 anos.

Em 1987, depois de muita boemia, Zezinho morreu. E saiu de cena no melhor estilo Zé Carioca. “Na lápide dele está escrito: ‘Demais!’ Porque para ele tudo era ‘demais’”, diz o empresário José do Patrocínio Oliveira Júnior, o filho do papagaio. Ou melhor, do músico.

A EPOPEIA DO CAÇA P-47 “ZÉ CARIOCA”

Ao ler este texto de Flávia Ribeiro, eu me recordei que na Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) existiu um avião de caça bombardeio P-47 D Thunderbolt que foi batizado como “Carioca Joe” e que possuía um desenho do personagem baseado no paulista José do Patrocínio Oliveira.

P-47D da USAAF na Europa.
P-47D Thunderbolt da USAAF na Europa.

Este P-47D era uma aeronave do 315th Fighter Squadron (315º Esquadrão de Caça). Este esquadrão foi criado em 6 de julho de 1942, inicialmente com aviões P-40, tendo participado de intensas ações de combate e apoio a tropas terrestres no Egito, no setor do Mar Mediterrâneo, na invasão da ilha italiana da Sicília, do desembarque nas praias de Anzio e do avanço Aliado na península italiana, com especial participação nos combates em Monte Cassino e na queda de Roma.

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Foto da página do relatório do acidente do P-47 n”Carioca Joe”, ocorrido na manhã do dia 18 de março de 1945

A partir de junho de 1944 este grupo passou a voar os P-47, que ficaram imortalizados no Brasil por terem sido os mesmos aviões utilizados pelo 1º Grupo de Caça da FAB que participou de ações de combate na Itália. Após receber os novos aviões o 315th Fighter Squadron apoiou as ações de desembarque no sul da França e seguiu com o US Army até a Alemanha. Entre as aeronaves estava o P-47 D “Carioca Joe” (42-76609).

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Obtuário do 2º tenente Everett Fenton Gidley Jr.

Infelizmente, conforme se pode ver na foto da página do relatório do seu acidente, na manhã do dia 18 de março de 1945, a menos de dois meses para o fim dos combates na Europa, o “Carioca Joe” foi derrubado pela ação de artilharia antiaérea nazista, a cerca de seis a oito quilômetros a oeste da cidade alemã de Pforzheim, a sudeste da cidade de Karlsruhe, sul da Alemanha. Era pilotado pelo 2º tenente Everett Fenton Gidley Jr., de Kinderhook, estado de Nova York, que morreu em combate. O 315th Fighter Squadron retornou aos Estados Unidos entre outubro e novembro de 1945.

Autora do texto sobre José do Patrocínio Oliveira – Flávia Ribeiro

Autor do texto sobre o P-47D “Carioca Joe” – Rostand Medeiros

Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/terra-brasilis/ze-carioca-era-paulista-434986.phtml#.WM5seYWcHIV

COMO FAZÍAMOS SEM… ESPELHO?

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Quadro de 1632, quando o espelho era raridade | Crédito: Paulus Moreelse

No século 16, o objeto custava mais caro que obras de pintores renascentistas

Vinicius Rodrigues

http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/como-faziamos-sem-espelho.phtml#.WJUbdYWcHIX

Provavelmente você dá uma olhada no espelho antes de sair de casa. Dentro de um elevador de paredes espelhadas, é certo que aproveita para ajeitar a roupa ou o cabelo. As superfícies que refletem a luz são tão fáceis de ser encontradas no ambiente urbano que é difícil imaginar o quanto elas foram disputadas no passado.

Tudo indica que a primeira vez que o ser humano viu seu reflexo foi na água. Isso deve ter mudado em cerca de 3000 a.C., quando povos da atual região do Irã passaram a usar areia para polir metais e pedras. Esses espelhos refletiam apenas contornos e formas. Mas imagens não eram nítidas e o metal oxidava com facilidade, perdendo a função. 

Dessa forma, por quase toda a história, todo mundo tinha apenas uma vaga noção de como se parecia. Assim foi até o fim do século 13, quando, em Veneza, alguém teve a ideia de unir vidro e chapas de metal. “Os espelhos dessa época têm uma pequena camada metálica na parte posterior do vidro. Assim, a imagem ficava nítida, e o metal não oxidava por ser protegido pelo vidro”, diz Claudio Furukawa, pesquisador do Instituto de Física da USP. Esse já era o espelho como o conhecemos até hoje: o metal reflete e o vidro protege.

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Quadro do italiano Ticiano, mulher com um espelho, de 1514, Óleo sobre tela, 93 x 76 cm, Musée du Louvre, Paris.

Mas o espelho veneziano era um produto raro e caro. Chegavam a ser mais valiosos que navios de guerra ou pinturas de gênios como o renascentista italiano Rafael (1483-1520). A democratização do artigo começou em 1660, quando o rei da França Luís XIV (1638-1715) ordenou que um de seus ministros subornasse artesãos venezianos para obter o segredo deles. O resultado pode ser conferido na sala dos espelhos do palácio de Versalhes.

Com o advento da Revolução Industrial, o processo de fabricação ficou bem mais barato e o preço caiu. “Mesmo assim”, afirma o antropólogo da PUC-RJ José Carlos Rodrigues, “o espelho só se popularizou e entrou nas casas de todos a partir do século 20.” Só então nos tornamos familiares com nossa própria cara.