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QUANDO A GRIPE ASIÁTICA ATACOU NATAL

As crianças foram as mais atingidas pela gripe asiática.

A atual Pandemia de COVID-19, o novo coronavírus, não é a primeira situação do gênero que Natal e o Rio Grande do Norte enfrentam. Talvez poucos saibam, mas em 1957 houve uma pandemia que ficou conhecida como gripe asiática, que aqui chegou causando medo e confusão.  

Veículos das Pioneiras Sociais, utilizados contra a gripe asiática. Foi uma ação do governo Juscelino Kubitschek de Oliveira .

Autor – Rostand Medeiros – IHGRN

Esse novo vírus teria se desenvolvido no norte da China e nessa época o regime comunista local era extremamente autoritário e controlava a saída de praticamente todas as informações do país para o exterior. O mundo só tomou conhecimento com maiores detalhes desse surto quando esse vírus chegou a Cingapura, onde foi relatado pela primeira vez em fevereiro de 1957. O certo é que em abril do mesmo ano a gripe avançou de Cingapura para Hong Kong e no verão alcançou as cidades costeiras do oeste dos Estados Unidos, primeiramente na Califórnia. Logo atacou a Oceania, África e Europa.

Qual era o tipo de Vírus

Através de testes o vírus foi reconhecido como sendo do tipo Influenza A e que ele era diferente de qualquer outro encontrado anteriormente em humanos. Pesquisas posteriores apontaram que a gripe asiática foi resultado de um cruzamento entre um vírus encontrado em patos selvagens na China (H2N2) e de uma cepa de vírus da gripe humana (H1N1). Convencionou-se na época denominar esse vírus como H2N2, mas ela ficou conhecida mundialmente como gripe asiática.

Pedido para não beijar a criança da foto, durante a pandemia de 1918.

Depois da gripe espanhola de 1918, a pandemia de gripe asiática de 1957 foi a segunda maior pandemia a ocorrer no mundo durante o século XX. Quando esse surto surgiu, apenas pessoas com mais de 70 anos de idade possuíam lembranças claras da experiência ocorrida quase quarenta anos antes. Apesar das advertências dos mais velhos, muitos não acreditaram na letalidade da nova gripe. Logo ficou patente que os mais jovens estavam errados.

No Reino Unido os primeiros casos foram informados no final de junho, com um surto mais grave ocorrendo na população em geral em agosto. O País de Gales e a Escócia tiveram os primeiros casos em setembro e no início de 1958 estima-se que cerca de 9 milhões de súditos da rainha Elizabeth II havia contraído a gripe asiática. Destes, mais de 5,5 milhões foram atendidos por seus médicos e cerca de 14.000 pessoas morreram devido aos efeitos imediatos do ataque. 

Foi relatado no Reino Unido que os pacientes sentiram fortes calafrios, seguido de prostração, dor de garganta, nariz escorrendo e tosse. Na sequência os relatos apontaram para membros doloridos (adultos), cabeça (crianças), seguido de febre alta (ambos os casos). Crianças pequenas, principalmente meninos, sofreram sangramentos no nariz. Cientistas ingleses observaram que a gripe asiática tinha duas ou três fases, sendo a segunda a de natureza mais grave.

Os sintomas eram geralmente leves e a maioria dos pacientes normalmente se recuperava após um período na cama, com medidas antipiréticas simples. Houve complicações em 3% dos casos, com mortalidade de 0,3%. Pneumonia e bronquite foram responsáveis ​​por 50% dos óbitos, sendo o restante por agravamento de doenças cardiovasculares já existentes. Durante a pandemia aumentou bastante a incidência de pneumonia.

Houve uma falta de uniformidade no tratamento ao surto. Alguns médicos prescreveram antibióticos para todos os casos, até os menos complicados. Mais tarde, no entanto, observou-se que o uso indiscriminado de antibióticos não era benéfico.

Na época foi possível detectar o agente com rapidez e trabalhar em novas soluções. Uma vacina para a gripe asiática foi introduzida ainda em 1957 e a pandemia diminuiu. Ocorreu uma segunda onda dessa gripe em 1958 e ela passou a fazer parte daquilo que os cientistas classificam como gripes sazonais. Em 1968 foi comprovado que a gripe asiática H2N2 havia desaparecido na população humana e acredita-se que ela tenha sido extinta na natureza. 

Apesar de praticamente desconhecida nos dias atuais, essa doença matou entre 1,4 e 2 milhões de pessoas, sendo 116.000 nos Estados Unidos. Outros cientistas apontam que esse surtou ceifou muito mais gente. Colocando a cifra em 4 milhões de mortos, principalmente no continente de onde se originou, sendo as crianças suas vítimas preferenciais.

A Gripe Chega a Natal

Juscelino Kubitschek de Oliveira e Dinarte Mariz. Respectivamente presidente do Brasil e governador do Rio Grande do Norte em 1957.

Quem governava o Brasil na época era Juscelino Kubitschek e a gripe asiática aqui chegou entre julho e agosto de 1957, com um primeiro surto no Rio Grande do Sul. No início de setembro, sua presença foi identificada no Rio de Janeiro pelo Instituto Oswaldo Cruz e pelo Instituto de Microbiologia da Universidade do Brasil – hoje, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pouco depois pandemia desembarcou em Belo Horizonte, Salvador e Belém, sempre com alta incidência em crianças.

Dinarte de Medeiros Mariz era o governador do Rio Grande do Norte em 1957 e o médico Dary de Assis Dantas o diretor do Departamento de Saúde Pública, atual SESAP – Secretaria de Estado de Saúde Pública do Rio Grande do Norte. Este último havia nascido na cidade de Serra Negra do Norte, mesmo local de nascimento do governador, se formou em medicina no Rio de Janeiro onde atuou na Santa Casa de Misericórdia e no Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI), quando foi convidado por Dinarte para assumir o cargo. Dary era pessoa de extrema confiança do governador e médico de sua família.

Eider Furtado, correspondente do Diário de Pernambuco em Natal naquela época, informou na edição de 15 de setembro daquele jornal (pág. 7) que na primeira quinzena de agosto Dary Dantas havia formado a Comissão Estadual de Defesa Contra a Gripe. Esse grupo começou a estudar medidas contra a doença que se avizinhava do Rio Grande do Norte. O diretor do Departamento de Saúde Pública também solicitou ao governador uma verba no valor de 500 mil cruzeiros para combater a gripe no estado.

Provavelmente a criação dessa comissão se deveu, ao menos em parte, a divulgação de um primeiro alarme da presença da gripe asiática entre os potiguares. Em agosto de 1957 surgiu a informação que cerca de “400 pessoas” teriam contraído a nova doença no município de Goianinha, 50 quilômetros ao sul da capital. O surto teria surgido na Usina Estivas, mas logo o caso foi negado e devidamente esclarecido pelo médico Luís Antônio dos Santos Lima. O que aconteceu foi que realmente havia naquele lugar um surto de gripe, mas de gripe sazonal. Além disso, nesse período a gripe asiática ainda se encontrava restrita ao sul do Brasil.

Após o susto inicial não demorou a surgir os primeiros casos comprovados da doença no Rio Grande do Norte, ou “Cingapura”, como a doença também ficou igualmente conhecida. NaTribuna do Norte, em O Poti e no Diário de Natal, os principais jornais que circulavam na capital potiguar na época, é possível conhecer detalhes desse acontecimento.

Em 25 de setembro de 1957, na página 6, o Diário de Natal estampou que em uma residência na Rua Apodi, na Cidade Alta, quatro pessoas estavam acamadas, com muita febre e forte gripe. Interessante comentar que esse jornal não informou a localização da casa e nem os nomes das pessoas doentes, mesmo sendo editado em uma cidade com cerca de 140.000 habitantes, onde praticamente todos se conheciam e sabiam do ocorrido.

Médicos da Saúde Pública estiveram presentes ao local. Eles aconselharam o isolamento e recolheram amostras dos pacientes, que foram enviados ao Rio de Janeiro por um avião da Força Aérea Brasileira para confirmação da doença. Esse exame ocorreu no Instituto Oswaldo Cruz, em Manguinhos, atual Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ. O resultado foi divulgado dias depois e se confirmou a existência da gripe asiática em Natal.

Mortes no Tradicional Bairro do Alecrim e Cobranças

Após a chegada da confirmação do Rio de Janeiro, Dary Dantas e os membros da Comissão pediram calma a população e informaram que ainda “não estava formado um surto epidêmico em Natal”. Pouco mais de uma semana depois aconteceram as primeiras mortes!

Nessa época o bairro do Alecrim já era considerado o maior da cidade, possuindo um forte comércio, a maior feira de alimentos, concentrando uma grande parte da população de Natal e possuindo uma característica única e marcante – suas principais artérias eram conhecidas pelo povo através de uma antiga numeração. E foi nesse bairro de características tão peculiares e marcantes para os natalenses que em 5 de outubro de 1957 duas crianças faleceram de gripe asiática em suas casas, respectivamente nas antigas Avenidas 7 e 8[1].

Consideram que, apesar das crianças estarem acometidas de forte gripe, suas famílias não tomaram as “necessárias medidas preventivas”. Os jornais só não explicaram quais eram essas medidas. Somente próximo ao final do mês de outubro é que vamos encontrar nas páginas dos jornais algum tipo de material informativo oriundo do Departamento de Saúde Pública explicando o que a população deveria fazer. Aqui trago um exemplo.

Ainda em 18 de outubro, na página 6 do Diário de Natal, é relatado que seus repórteres realizaram um levantamento que, mesmo sem confirmação oficial, indicou que mais de 100 pessoas com sintomas da gripe asiática eram transportadas diariamente pelas ambulâncias Ford F-1 do SAMDU – Serviço de Assistência Médica Domiciliar de Urgência, para o Hospital Miguel Couto, atual Hospital Universitário Onofre Lopes – HUOL. Existiam casos graves no bairro das Rocas, mais precisamente na Rua Floresta, perto do Canto do Mangue, não muito distante do rio Potengi. Ali eram as crianças as mais atingidas, algumas com relatos de expectoração de sangue do trato respiratório.

O jornal Diário de Natal foi contundente na crítica a ação governamental: “Não obstante as reiteradas e solenes afirmações das nossas autoridades sanitárias, de que o assunto da gripe asiática em Natal era objeto apenas de informações alarmistas, aí está o surto da “Cingapura” tomando conta da cidade”.

Ambulâncias Ford F-1 do SAMDU – Serviço de Assistência Médica Domiciliar de Urgência, partindo do Hospital Miguel Couto, em Natal.

Apesar da gravidade do caso, não encontrei nos jornais referências sobre aplicação de métodos de isolamento social para a contenção desse surto.

Uma Criança Morre na Calçada

Igualmente não encontramos material oriundo do Departamento de Saúde Pública da Comissão Estadual de Defesa Contra a Gripe com estatísticas sobre o alcance da gripe asiática em Natal. Por isso não temos meios de afirmar se os jornais estavam corretos ao informarem no dia 22 de outubro, que o número de vitimas da doença era “de aproximadamente 6.000 pessoas”. Por outro lado encontramos registros que os profissionais da Saúde Pública já haviam visitado mais de 800 doentes em suas residências e que em um único dia ocorreu mais de 500 notificações de atingidos por essa gripe, apontando para uma provável estagnação na capacidade de atendimento do Hospital Miguel Couto, o principal da cidade. Noutra parte da reportagem informava que famílias inteiras estavam com a gripe em suas casas.

O Instituto Oswaldo Cruz começou a enviar vacinas para Natal, mas o número foi pequeno para a demanda. Não demorou e circulou a informação que o surto atingiu 10.000 natalenses, principalmente no bairro das Rocas.

Houve uma situação trágica, que chamou atenção na cidade e o combativo advogado e jornalista Luís Maranhão Filho registrou em sua coluna no Diário de Natal de 25 de outubro de 1957. No dia anterior, na calçada do Centro de Saúde da cidade, na Avenida Junqueira Aires, atual Câmara Cascudo, foi encontrada uma criança morta. Não existem maiores detalhes sobre seu falecimento, tendo sido creditado a gripe asiática. Luís Maranhão foi extremamente contundente em sua crítica ao descaso do poder público em relação à saúde do povo natalense.  Realmente as notícias envolvendo mortes trágicas de crianças em Natal, mesmo sendo as de origem mais humilde, eram estampadas com destaque nos jornais. Mas não nesse caso. Nem Luís Maranhão foi desmentido por algum dos periódicos locais.

Anúncio Precipitado do Fim da Pandemia

Cerca de trinta dias após a chegada dessa pandemia em Natal, os jornais de 26 de outubro destacam que o número de casos começou a declinar. Realmente alguns jornalistas comprovaram um declínio dos casos nos locais de atendimento na capital. Um dos membros da Comissão Estadual de Defesa Contra a Gripe atestou a redução dos casos, tranquilizando a população. Entretanto fez questão de apontar que “o maior número de gripados foi constatado em bairros afastados, entre a pobreza”.

Mas o anúncio foi precipitado, pois uma semana depois novos casos surgiram, com pessoas tendo febres de 40 graus, fortes calafrios e vômitos. Dessa vez o foco foi principalmente na região conhecida antigamente como Alto do Juruá, no atual bairro de Areia Preta. Nessa região, na Rua 2 de novembro, hoje Major Afonso Magalhães, famílias inteiras foram duramente atingidas, sendo necessário o apoio de vizinhos para solicitar socorro junto a Saúde Pública.

No dia 5 de novembro houve um caso que mereceu bastante destaque na imprensa natalense.

Nessa época existia o bar e restaurante Flórida, que ficava localizado na Avenida Duque de Caxias, nº 45, Ribeira. Ali trabalhava um garçom chamado Antônio Domingos Filho, que devido se encontrar com uma febre muito alta, pediu ajuda ao seu colega de trabalho Abel Gomes para levá-lo ao Hospital Miguel Couto para ser atendido. Eles foram, mas lá informaram que “ali não tratavam mais casos dessa natureza e que eles fossem pra o SAMDU”. Nesse local o garçom teve novamente negado qualquer tipo de atendimento. Sem jeito de resolver a situação, Abel então levou seu amigo Antônio Domingos até a sua residência, em uma humilde casa na Travessa Primeiro de Maio, bairro de Petrópolis. Segundo declarou Abel Gomes aos jornais, devido ao agravamento do quadro, de madrugada Antônio saiu pela rua gritando tresloucadamente em busca de socorro. Mas aí quem veio não foi a Saúde Pública, mas a Polícia Militar. O pobre garçom, tido como alterado, acabou no chão frio de uma cela na 2ª Delegacia de Polícia. O resultado foi que às seis da manhã ele foi encontrado morto.

Logo o caso repercutiu na Rádio Poti e outros meios de comunicação, mas nada foi feito. Não encontrei algum pedido de abertura de inquérito, ou alguma providência por parte do Ministério Público.

Enfim, ele era apenas um pobre garçom!

Até gostaria, mas certamente a atual pandemia de COVID-19 não será a última ocasião em que Natal vai testemunhar. Mas será muito interessante que na atual conjuntura as pessoas mais humildes e necessitadas, que é grande parcela da atual população potiguar, venha ater por parte das autoridades o devido apoio para enfrentar essa situação e que o caso do garçom Antônio Domingos Filho fique restrito a memória histórica dessa terra!

NOTA


[1] Muitos imaginam até hoje que essa situação é fruto da presença das tropas norte-americanas em Natal durante a Segunda Guerra Mundial, onde as autoridades locais teriam numerado as principais vias do Alecrim para facilitar a circulação dos militares estrangeiros na área. Nada disso! Oficialmente o bairro do Alecrim foi criado em 23 de outubro de 1911, mas existem informações que já em 1903, quando a região ainda era um amplo matagal pontilhado por alguns sítios, ali foi criado um traçado numerado de futuras avenidas e ruas. Mesmo sem existir uma documentação comprobatória, acredita-se que essa delimitação foi realizada pelo arquiteto italiano Antônio Polidrelli. Este havia sido contratado pelo poder municipal para desenvolver o traçado da área denominada Cidade Nova (atuais bairros de Petrópolis e Tirol) e a ideia de criar esse traçado no Alecrim tinha o objetivo de facilitar junto a Intendência Municipal de Natal o aforamento de terrenos dos futuros moradores. As antigas Avenidas 7 e 8 são atualmente as Ruas dos Caicos e dos Pajeús. Sobre a história relativa a questão das numerações das ruas do bairro do Alecrim, ver SOUZA, Itamar de. Nova História de Natal, 2008, 2ª Ed. págs. 522 a 524. Mesmo com as numerações das antigas avenidas e ruas do Alecrim tendo sido oficialmente abolidas em 1930, até hoje uma grande parcela dos natalenses continua a utilizar as velhas numerações para se localizar no bairro, inclusive o autor dessas linhas (antigo morador do bairro, na Rua Borborema).

1872 – O MISTÉRIO DO NAVIO FANTASMA MARY CELESTE

Quadro que representa o Mary Celeste quando ainda se chamava Amazon.

Autor – Tony Pettinato[1]

Fonte – https://blog.genealogybank.com/the-mystery-of-the-ghost-ship-mary-celeste.html

Houve muitas histórias estranhas sobre navios, marinheiros e o mar, mas talvez nenhuma tão intrigante quanto à história da vida real do misterioso navio fantasma Mary Celeste. Esse caso estranho confundiu o mundo quando ocorreu em 1872, e não estamos mais perto de entendê-lo hoje. O Mary Celeste permanece um mistério, com segredos que o oceano nunca revelou.

Isso é o que se conhece. Em 5 de novembro de 1872, o navio mercante Mary Celeste estava em Staten Island, Nova York, onde embarcou na empresa Meissner Ackermann & Co. uma carga de 1.701 barris de álcool. O álcool deveria ser transportado para Gênova, na Itália, para o fortalecimento dos vinhos italianos. O navio estava em condições de navegar com um capitão experiente e uma tripulação capaz.

O capitão Benjamin Spooner Briggs – Fonte – https://en.wikipedia.org/

Um mês depois do Mary Celeste partir dos Estados Unidos, ele foi descoberto ao largo da costa do sul de Portugal. Estava com as velas armadas e em bom estado, mas completamente deserto. Todas as dez pessoas a bordo haviam desaparecido, sem nenhum sinal de violência, ou de luta, e elas nunca mais foram vistas. O que aconteceu com todos a bordo e como o navio conseguiu navegar tranquilamente por quase dez dias sem tripulação não tem respostas até hoje.

O capitão da Mary Celeste era Benjamin Spooner Briggs, de 37 anos de idade, oriundo de uma família de marítimos, que já havia comandado com sucesso outros navios e fez muitas viagens bem-sucedidas. Ele era conhecido como um homem justo e agradável, sempre apreciado por suas tripulações e também profundamente religioso.

A esposa do capitão, a Senhora Sarah Elizabeth Cobb Briggs e seu filho Arthur.

Nessa viagem fatídica, o capitão estava acompanhado por sua esposa Sarah Elizabeth Cobb Briggs, que já havia realizado várias outras viagens com ele, além de sua filha Sophia, de dois anos. Por causa da escola, o casal havia deixado em Marion, Massachusetts, com a mãe do capitão, seu Arthur filho de sete anos. As outras sete pessoas a bordo eram os tripulantes: dois americanos, um dinamarquês e quatro alemães, todos com reputação sólida.

O tempo durante a travessia do Oceano Atlântico estava bom, a tripulação harmoniosa e competente, o capitão experiente e um bom homem para comandar uma carga de álcool. Nada deveria ter dado errado nesta viagem. E, no entanto, algo terrível aconteceu.

Mary Celeste como foi encontrado abandonado – Fonte – https://en.wikipedia.org/

Em 4 de dezembro de 1872, o Mary Celeste foi descoberto pelo navio Dei Gratia, que passava em direção ao estreito de Gibraltar. O navio abandonado foi visto navegando em boas condições, ainda que suas velas estivessem um pouco desarrumadas. Depois de observar o Mary Celeste por cerca de duas horas sem ver sinais de ninguém a bordo, os homens do Dei Gratia arriaram uma baleeira e foram ao encontro do estranho navio e o encontraram deserto. Tudo o que descobriram a bordo apenas aprofundou o mistério.

Não havia sinais de luta violenta, a carga estava intacta e restavam objetos pessoais e de valor nas cabines. O relógio do capitão foi encontrado pendurado na cama. O Mary Celeste ainda tinha seis meses de suprimento de água e comida, mas o barco salva-vidas havia desaparecido e todos os documentos do navio estavam faltando – exceto o diário do capitão, que não registrava nada de anormal. Uma corda foi presa ao final do navio, cuja extremidade desgastada foi encontrada na água.

Ilustração de William Small da primeira publicação da história do Mary Celeste na The Cornhill Magazine , em janeiro de 1884.

O capitão do Dei Gratia, David Reed Morehouse, ordenou que alguns de seus homens navegassem o Mary Celeste para Gibraltar, para informar as autoridades e ser reivindicado algum valor pelo salvamento da nave. Por causa das circunstâncias suspeitas, um inquérito foi aberto pelo Tribunal do Vice Almirantado e durou três meses. No final, a tripulação do Dei Gratia foi inocentada de qualquer irregularidade e recebeu o devido prêmio pelo resgate. Quanto ao que aconteceu com Mary Celeste e sua tripulação desaparecida, nenhuma resposta foi encontrada.

Os jornais estavam repletos de especulações, como pode ser visto nos quatro artigos a seguir. Havia na época três torias principais, mas nenhuma delas suporta um exame cuidadoso.

Porto de Gibraltar – Fonte – https://en.wikipedia.org/

Uma das teorias apontou que o Mary Celeste havia sido atacado por piratas! No entanto, o que originalmente se imaginou ser gotas de sangue no passadiço, era na verdade manchas de ferrugem, conforme foi demonstrado por testes científicos. O que é mais convincente em desmascarar a teoria dos piratas é o seguinte: não havia sinais de luta, a carga de álcool estava intocada e objetos de valor foram deixados nas cabines. Você pode imaginar piratas do norte da África capturando um navio cheio de barris de álcool, com muitos objetos de valor nas cabines, e não levando nada? O Mary Celeste teria sido o prêmio dos sonhos de qualquer pirata.

A segunda teoria foi que um motim ocorreu a bordo da Mary Celeste! Mas, novamente, a falta de qualquer sinal de luta parece excluir isso. Além disso, a reputação do capitão e da tripulação faz com que seja quase certo que não houve motim.

O caso do Mary Celeste logo se tornou notícia mundial, tendo uma boa repercussão no Brasil, conforme podemos ver nesse detalhe da primeira página do Jornal do Pará, de sábado, 10 de maio de 1873.

A última teoria apontou que o Mary Celeste foi vítima de uma fraude no seguro! Mas isso parece tão implausível quanto os outros dois rumores. É inconcebível que o capitão Briggs, um homem de excelente reputação, seguisse esse esquema – especialmente aquele que implicava abandonar o navio e forçar sua esposa e sua filha a enfrentar os perigos do mar em um barco salva-vidas. Briggs também escreveu uma carta para sua mãe pouco antes da partida de Mary Celeste, comentando de maneira otimista sobre a viagem e expressando seu forte desejo de vê-la e a seu garotinho quando o navio retornasse na primavera. Dificilmente o pano de fundo para um homem que planeja cometer uma fraude de seguro pela metade e perigosa.

Nos últimos tempos foi proposta uma teoria que, a princípio, parece plausível – mas não resiste ao escrutínio melhor do que as teorias de 1872-1873. Quando a carga foi finalmente entregue aos proprietários em Gênova, nove dos 1.701 barris foram encontrados vazios. Esses nove barris – e somente esses nove – eram feitos de carvalho vermelho, uma madeira mais porosa do que o carvalho branco usado em todos os outros barris. Especula-se que os nove barris vazaram, e a tripulação ficou alarmada ao sentir o cheiro dos vapores esmagadores e temer uma explosão iminente.

Depois que foi recuperado o Mary Celeste voltou a navegar pelos sete mares, tendo inclusive visitado portos brasileiros. No detalhe do jornal O Globo, do Rio de Janeiro, edição de quinta-feira, 15 de abril de 1875, encontramos a informação que o Mary Celeste, comandado por um certo E. M. Imthile, havia deixado o porto da então capital do Império do Brasil no dia anterior.

De acordo com essa teoria, todo mundo pulou no barco salva-vidas, preso por uma corda forte à popa da Mary Celeste, para esperar um período de tempo para ver se ocorreria uma explosão. Então, por algum motivo, a corda se rompeu, o barco salva-vidas se afastou e o Mary Celeste conseguiu navegar sem a tripulação, que se perderam na imensidão do Atlântico.

Existem dois fatos importantes que contradizem essa teoria. Por um lado, quando os homens da Dei Gratia entraram no porão da Mary Celeste, menos de dez dias depois que ele foi abandonado, eles não sentiram o cheiro de nada. Se o porão cheirasse a vapores alcoólicos tão poderosos, que o experiente capitão Briggs e sua tripulação estivessem convencidos que uma explosão era iminente, certamente algum resquício de forte cheiro ainda prevaleceria.

Notícia sobre o Mary Celeste no jornal New York Times, em 26 de fevereiro de 1873 – Fonte – https://en.wikipedia.org/

Especialmente por causa do fato número dois: a escotilha principal da Mary Celeste ainda estava selada quando o navio fantasma foi descoberto. Se a tripulação temesse uma explosão devido ao acúmulo de vapores alcoólicos, eles abririam a escotilha para deixar o navio sair enquanto esperavam na segurança do barco salva-vidas. Mas eles não fizeram.

Não, a razão não pode resolver o quebra-cabeça da nave fantasma Mary Celeste, pois não há explicação. Continua sendo o que tem sido desde a sua surpreendente descoberta em 4 de dezembro de 1872: um mistério do mar.


[1] Jornalista formado pela Universidade de Berkeley, morando em Deerfield, Massachusetts, Estados Unidos, tendo atuado em seis jornais norte-americanos e em trabalhos no congresso daquele país.

DIFERENÇAS E SEMELHANÇAS ENTRE O NOVO CORONAVÍRUS COVID 19 E A GRIPE ESPANHOLA DE 1918

Influenza epidemic in United States. St. Louis, Missouri, Red Cross Motor Corps on duty, October 1918. (National Archives)

Autor – Mark Honigsbaum – Historiador médico e professor de jornalismo na City University, Londres.

Escrito em 17 de março de 2020.

Fonte – https://www.nybooks.com/daily/2020/03/17/a-once-in-a-century-pathogen-the-1918-pandemic-this-one/

Foto colorizada da pandemoa de influenza de 1918, onde vemos soldados da Força Expedicionária Americana vítimas da gripe espanhola no US Army Camp Hospital no. 45 em Aox-les-Bains, França. Calcula-se que só no Brasil morreram 300.000 pessoas devido a Gripe Espanhola, ou cerca de 10% de nossa população na época. Hoje seriam algo em torno de 20 milhões de vítimas fatais.

Há pouco mais de cem anos um novo vírus emergiu e nos meses finais da Primeira Guerra Mundial, como do nada, a infecção explodiu em vários países e continentes, mais ou menos ao mesmo tempo. Varreu como fogo desde grandes cidades, até as pequenas comunidades. De Boston à Cidade do Cabo, de Londres à Mumbai, o mundo conheceu a “influenza espanhola”, ou “gripe espanhola”. Assim chamada porque o primeiro surto amplamente relatado ocorreu em Madri, em maio de 1918,

Em meio aos carcomidos exemplares que restam dos antigos jornais natalenses na atualidade, chama a atenção um aviso publicado, pela Inspetoria de Higiene, no início de dezembro de 1918, intitulado “A influenza espanhola, conselhos ao povo”, onde entre outras coisas, solicitava “evitar aglomerações, não fazer visitas, evitar toda fadiga e excesso físico”.

Quando o vírus se esgotou, na primavera de 1919, um terço da população mundial havia sido infectada e pelo menos 50 milhões de pessoas estavam mortas. São 40 milhões a mais dos que pereceram nos campos de extermínio da Primeira Guerra Mundial e 10 milhões a mais dos que morreram de Aids, nos quarenta anos desde que essa síndrome foi reconhecida pela primeira vez na década de 1980.

Enfermaria em 1918.

No entanto, exceto aqueles que assistiram entes queridos sucumbirem às complicações pneumônicas mortais da gripe espanhola, ou aqueles que cuidaram de pacientes em enfermarias e perderam colegas devido à infecção, o vírus de 1918 deixou relativamente poucas marcas na consciência coletiva mundial. “Os americanos não perceberam a pandemia”, observou o historiador ambiental Alfred Crosby, no livro Forgotten Pandemic: The Influenza de 1918 (1989), “então rapidamente esqueceram o que notaram”. 

O jornal The Times, de Londres, ficou igualmente intrigado com o fracasso da pandemia em deixar um resíduo emocional. “Tão vasta foi a catástrofe e tão onipresente sua prevalência, que nossas mentes atormentadas pelos horrores da guerra se recusaram a percebê-la”, opinou um editorial de fevereiro de 1921. E continua –  “Veio e desapareceu, um furacão através dos campos verdes da vida. Ceifando centenas de milhares de jovens e deixando para trás um grande número de enfermos ”.

Apenas três meses após surgir, parece haver pouco risco da pandemia do novo coronavírus COVID 19 ser esquecido pelos historiadores. Até porque, no momento em que escrevo essas linhas, esse terrível problema já ceifou a vida de 6.610 pessoas, quebrou as bolsas de valores mundiais, aterrou o setor de aviação internacional e está provocando inúmeros outros problemas em todo planeta. Nesse momento a Europa está no olho da tempestade e a América do Norte se encontra na fila para sentir toda a sua força.

O Diretor geral da OMS Tedros Adhanom Ghebreyesus – Fonte Reuters

À medida que a escala completa do desafio apresentado pelo COVID 19 se torna clara para os governos em todo mundo e Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde – OMS, emite crescentes advertências sobre a necessidade dos países “tomarem ações urgentes e agressivas”, aqueles que estão familiarizados com a história e a ciência das pandemias se acham cada vez mais temerosos que a história esteja prestes a se repetir. Especialistas em saúde global vêm dizendo há anos que outra pandemia cuja velocidade e gravidade rivalizaria com a epidemia de influenza de 1918 não era questão de se, mas de quando

Cientistas do principal centro de pesquisa biomédica em doenças infecciosas da Grã-Bretanha, o Instituto Francis Crick, concordam que “Isso não é coisa normal. Isso será diferente do que alguém que já viveu. O comparador mais próximo é a gripe de 1918”.

Como alguém que estuda e escreve sobre pandemias há mais de quinze anos, compartilho dessas preocupações. 

Professor John Oxford – Fonte – http://www.oxfordmedicine.co/john-oxford.php

Meu interesse pelo assunto começou em 2005, quando entrevistei o professor de virologia John Oxford, que ministra aulas na conceituada Queen Mary and Westfield School of Medicine, em Londres. Alguns meses antes do nosso encontro, uma cepa do vírus da gripe aviária H5N1 havia provocado uma série de mortes no Vietnã e eu pedi ao professor Oxford que me desse uma ideia sobre a ecologia e virologia dessa gripe, pois tinha uma viagem a Hanói para escrever um texto sobre esse vírus para o jornal The Observer. Muito rapidamente, nossa conversa se voltou para outros notáveis ​​surtos de doenças infecciosas, incluindo a pandemia de influenza de 1918 a 1919.

Foi para mim o início de uma obsessão pela gripe espanhola e outros vírus pandêmicos que me levaram, por meio de um doutorado e uma bolsa de pesquisa, a um profundo envolvimento com a história de doenças infecciosas e pandemias.

Apesar das preocupações do professor Oxford de que o H5N1 em 2005 pudesse se combinar com uma cepa da gripe suína para criar um “Vírus do Armageddon”, a temida pandemia de gripe aviária nunca se materializou. Em vez disso, ele foi acusado de “alimentar uma pandemia” para aumentar os gastos em pesquisas sobre vírus na sua universidade. Em 2009 a OMS se encontrou negativamente no centro das atenções, quando um surto de um novo vírus da gripe suína desencadeou um alerta mundial de pandemia, apenas para que a doença não se mostrasse mais grave do que uma gripe sazonal regular. Essa é uma das razões pelas quais a OMS estava tão cautelosa ao designar o COVID 19 como uma pandemia, adiando o anúncio formal até 11 de março de 2020.

Quão mortal será o surto de COVID 19 ninguém ainda pode dizer, mas a cada hora os ecos de 1918 estão ficando mais altos. 

Para mim, a sensação de que a história pode estar prestes a se repetir veio com as primeiras imagens de Wuhan mostrando as “salas de espera” hospitalares construídas às pressas, cheias de fileiras e mais fileiras de cubículos repletos de pacientes com coronavírus. 

Atendimento dos infectados do novo coronavírus em Wuham, China – Fonte – https://www.scmp.com/news/china/society/article/3047720/chinese-premier-li-keqiang-head-coronavirus-crisis-team-outbreak

Quando o bloqueio de Wuhan e outras cidades chinesas entrou em vigor, e a contagem de baixas diminuiu, prendi a respiração. Será que as medidas draconianas de quarentena da China impediriam uma pandemia? Pensei até que, talvez, não testemunhássemos uma repetição de 1918! Mas depois veio o drama dos passageiros presos no navio de cruzeiro Diamond Princess. Confinados em suas cabines no porto de Yokohama, a maioria dos quais achou que era algo simples e logo eles teriam liberdade para retomar suas vidas. Em vez disso, após um atraso de 72 horas das autoridades japonesas em realizar ações mais efetivas após a notificação do primeiro caso, ocorreu um saldo de dois passageiros mortos e 621 infectados.

Navio de cruzeiro Diamond Princess, com seus passageiros confinados em suas cabines no porto de Yokohama, Japão – Fonte – https://www.thedailybeast.com/coronavirus-diamond-princess-cruise-ship-fiasco-points-to-possible-super-spreader

Uma semana depois o número de infectados pelo novo coronavírus em outros países excedeu os da China pela primeira vez. Surtos significativos também foram registrados na Coréia do Sul, Irã e norte da Itália. Então, sem aviso prévio, no final de fevereiro de 2020, vários casos surgiram em um lar de idosos na cidade americana de Seattle. Como em 1918, o vírus agora estava se espalhando abaixo dos radares da OMS e dos governos, fora das cadeias de contato conhecidas, tornando-se uma pandemia quase inevitável.

LOcal arejado para tratamento dos infectados pela gripe de 1918 – Fonte – https://www.history.com/news/spanish-flu-second-wave-resurgence

Uma teoria afirma que a pandemia de 1918 se iniciou no Kansas, Estados Unidos. Outra hipótese foi que se originou no norte da França. Outra linha de pensamento aponta que ela também veio da China. As evidências sugerem que, a princípio, o vírus da gripe espanhola também se espalhou silenciosamente e furtivamente pelo mundo. Isso ocorreu porque, como na atual onda de infecções por COVID 19, as doenças iniciais eram leves, com uma taxa de mortalidade de cerca de 0,5 a 1%, muito baixas para registrar a mortalidade de fundo por gripe sazonal e doenças respiratórias não relacionadas. Outros fatores em 1918 foram a ausência de sofisticados sistemas de vigilância epidemiológica em tempo real e a presença de uma imprensa compatível, em vez das mídias sociais.

Camp Fuston, Kansas, EUA, 1918.

Um dos primeiros locais a sofrer com a pandemia de gripe espanhola, cujos registros foram bem registrados, ocorreu entre o final de fevereiro e o início de março de 1918, em Camp Fuston. Este era um campo de treinamento do Exército dos Estados Unidos no estado do Kansas, onde jovens recrutas estavam sendo preparados para seguir para o norte da França e os rigores da guerra de trincheiras. O surto ali foi explosivo. Em questão de dias, cerca de mil e duzentos soldados estavam na lista de doentes, forçando os médicos a requisitarem um grande auditório adjacente ao hospital da base para atender esse pessoal. A grande maioria dos homens não sofreu nada pior do que uma febre de três dias, mas cerca de um quinto dos hospitalizados desenvolveu pneumonias agressivas e, em maio, setenta e cinco deles haviam morrido. Hoje, a fotografia de mais de duzentos soldados dispostos na enfermaria de emergência dessa base militar é uma das imagens mais conhecidas e assustadoras da pandemia de 1918.

Logo, em maio de 1918, milhões de espanhóis foram repentinamente atingidos por uma doença muito semelhante, assim como milhares de tropas americanas e francesas no norte da França.

Posto de atendimento em 1918.

No início do verão europeu de 1918, grandes surtos da influenza espanhola foram marcados por um nível incomum de mortalidade em adultos jovens, uma característica das ondas posteriores da pandemia. Também foram relatados surtos em Copenhague, Dinamarca, e outras cidades do norte da Europa. Em Manchester, Inglaterra, por exemplo, o oficial médico local da saúde, James Niven, ficou tão alarmado com a súbita doença em um grande número de crianças em idade escolar, que imprimiu às pressas 35.000 folhetos explicando os perigos da gripe e dando instruções estritas para o isolamento dos doentes.

No entanto, foi à segunda onda de gripe, no outono de 1918, que trouxe o poder humilhante do vírus. Em Londres, por exemplo, as mortes em outubro aconteceram a uma taxa de 4.500 falecimentos por semana e, em meio ao pânico, os serviços de saúde em toda a Grã-Bretanha ficaram rapidamente sobrecarregados. Como o filho de um clínico geral da cidade de Lancashire lembrou: “Muitos estavam doentes, as pessoas desabavam em suas casas, nas ruas e no trabalho. Muitos nunca recuperaram a consciência. Todo o tratamento foi inútil”.

Como na onda anterior da primavera, os pacientes mais afetados desenvolveram pneumonias agressivas em um ou mais lobos dos pulmões. Em alguns casos, essas pneumonias eram acompanhadas por uma condição chamada cianose por heliotrópio, onde os rostos dos pacientes adquiriam cor de lavanda, enquanto eles ofegavam. 

Em setembro de 1918, em Camp Devens, outro grande campo de treinamento do Exército dos Estados Unidos, na cidade de Ayer, estado de Massachusetts, a condição dos militares ali presentes era tão deplorável quanto no Camp Funston. Eram tantos os soldados prostrados em camas improvisadas, que estas tinham de ser instaladas em corredores e salas laterais. Um médico do Exército que testemunhou os piores casos comentou sobre as vítimas que “seus rostos logo vestem um tom azulado, uma tosse angustiante traz à tona o escarro manchado de sangue. De manhã, os cadáveres são empilhados no necrotério e amarrados com cordas”.

Enfermeiras em 1918 – Fonte – https://www.abc.net.au/news/2020-03-07/why-coronavirus-keeps-being-compared-to-the-1918-spanish-flu/12016782

Embora ambas as epidemias se espalhem por gotículas respiratórias através de tosses e espirros, os coronavírus não conseguem uma transmissão tão eficientemente entre humanos, como é o caso da gripe comum. De fato, acredita-se que o COVID 19 não apresenta um risco a distâncias superiores a dois metros. Em vez disso, o principal modo de propagação do vírus parece ser o contato social prolongado, como ocorre nos agrupamentos familiares.

Outra diferença é que a gripe espanhola apresentava uma taxa de mortalidade notavelmente alta para adultos entre os vinte e os quarenta anos. Já o novo coronavírus é principalmente um risco para idosos, pessoas com 60 anos ou mais, que possuam doenças subjacentes e outras condições médicas. Também não existem evidências firmes que as crianças sejam um vetor significativo de infecção, um contraste crucial com a gripe espanhola, que costumava adoecer crianças antes dos adultos.

Com máscaras no rosto, os membros da Cruz Vermelha Americana retiram uma vítima da gripe espanhola de uma casa em Etzel e Page Avenidas, St. Louis, Missouri – Fonte – National Archives.

No lado dos problemas relativos ao novo coronavírus há evidências crescentes que uma pessoa livre de sintomas, mas que esteja infectada, pode ser capaz de transmitir o vírus. Pior ainda, a taxa média de reprodução do COVID 19 – ou seja, o número de pessoas que serão atingidas por uma pessoa infectada – está em 2,2. O que é notavelmente mais alto do que a taxa da gripe espanhola, que foi de 1,8. 

Outra consideração é que em 1918 quase todo mundo já havia sido exposto a algum tipo de gripe antes, o que significa que a maioria das pessoas podia contar com certo grau de imunidade. O resultado foi que a gripe espanhola infectou apenas um terço da população mundial. Por outro lado, ninguém tem imunidade ao novo coronavírus, daí as estimativas de que até 80% da população mundial poderia ser infectada, até o momento em que a pandemia houver terminado. 

Os soldados de um hospital do exército em Nova York usavam máscaras para proteger contra a gripe de 1918 – Fonte – http://netnebraska.org/article/news/1152685/could-there-be-another-flu-pandemic-looking-back-1918-influenza

A maior razão de preocupação, no entanto, é que, até agora, o COVID 19 parece matar cerca de 2% dos casos confirmados. Essa é uma taxa de mortalidade muito semelhante a da gripe espanhola.

Mas mesmo isso não deve ser motivo de pânico ou desespero. Uma das principais lições da pandemia de 1918 é que cidades americanas como St. Louis, que agiram cedo e decisivamente para conter o vírus, proibindo grandes reuniões públicas, fechando escolas e isolando casos suspeitos ou doentes, tiveram um desempenho notavelmente melhor do que cidades como Filadélfia, que não tomaram medidas oportunas, ou não as sustentaram. 

O problema é que tais ações são extremamente perturbadoras para a economia, fato refletido na relutância das autoridades em empregar essas medidas, exceto como último recurso.

GRIPES HISTÓRICAS

Em 1918 uma pandemia de gripe varreu o mundo, infectando um terço da população mundial e matando pelo menos 50 milhões de pessoas – Fonte – https://blogs.cdc.gov/publichealthmatters/2018/05/1918-flu/

Por Álvaro Oppermann para a revista Aventuras na História (ed. 71 – junho de 2009) – https://historiablog.org/2009/09/04/gripes-historicas-a-historia-das-gripes/

VEJA TAMBÉM – https://tokdehistoria.com.br/2011/03/19/1918-quando-a-gripe-espanhola-atacou-natal/

Em setembro de 1918, o mundo descobriu, atemorizado, um inimigo mortífero. Já não bastassem os horrores da Primeira Guerra Mundial, milhões de pessoas foram dizimadas por outra causa. A humanidade estava sendo atacada pela gripe espanhola — pelo menos um quinto da população mundial contraiu a doença —, e não sabia como se defender. Os sintomas eram violentos. O doente sentia dor de cabeça e era tomado por calafrios tão intensos que os cobertores se tornavam inúteis. Depois começava a tossir sangue e os pés ficavam pretos. Quando os pulmões se enchiam de uma mistura de secreções, era o fim. E tudo isso ocorria com velocidade assustadora: da saúde ao óbito, passavam-se poucos dias, ou mesmo horas. “Pessoas saíam de manhã para trabalhar e não retornavam”, escreve a jornalista americana Gina Kolata em Gripe: a História da Pandemia de 1918. Sozinha, a gripe matou de 30 milhões a 100 milhões de pessoas. Mais que a Primeira Guerra, que deixou 10 milhões de vítimas fatais.

A cada nova pandemia o fantasma de 1918 retorna. E com bons motivos: os métodos de transmissão só foram identificados há poucas décadas. Mas a primeira referência à gripe na História foi feita por Hipócrates. O médico grego relatou em 412 a.C. que uma doença respiratória atacou de forma epidêmica a Grécia e em poucas semanas matou centenas. Foram os gregos que cunharam a palavra “epidemia” para as doenças infecciosas que se abatem sobre grande número de pessoas em uma localidade. A expressão vinha de epidemos, indivíduos que não moravam nas cidades. “O médico [Hipócrates] fez tal comparação porque as doenças infecciosas não eram da região e iam embora”, escreve o médico Stefan Cunha Ujvari em A História e suas Epidemias.

A epidemia de gripe só reapareceu em 1173 e o primeiro caso sério veio no século 16. Em 1580, uma pandemia se alastrou pela Europa a partir da Espanha. Os agentes do contágio teriam sido os soldados do rei Felipe II (1527-1598). No século 18, três novos grandes surtos provocaram o surgimento do termo “influenza”. Muitas teorias versam sobre a origem do nome, da influência dos astros à interferência do frio (já que a gripe é mais comum no inverno). Em 1837, a combinação de doença e baixas temperaturas foi tão séria em Berlim que, em janeiro, o número de mortos pela gripe excedeu o de recém-nascidos.

Fonte – https://www.smithsonianmag.com/history/how-1918-flu-pandemic-helped-advance-womens-rights-180968311/

As pandemias de gripe atravessaram o tempo, os vírus sofreram mutações e os tratamentos também mudaram muito desde a época de Hipócrates, que, no século 5, prescrevia sangrias. Adepto da teoria clássica dos humores (secreções do corpo), ele dizia que a sangria eliminaria o fluxo sanguíneo excessivo, o suposto causador da doença. Tal tratamento foi amplamente utilizado pelos médicos até o fim do século 19. Porém, ele nem de longe era o mais bizarro. No século 18, médicos franceses garantiam que a gripe era causada pelo excesso de relações sexuais e recomendavam a castidade. Em Londres, do fim do século 19 até a década de 1920, os banhos quentes e o vinho eram recomendados como tratamento certeiro. No Brasil, em 1918, ficou popular o uso do quinino e purgantes. Nem um nem outro tinham efeito algum sobre a doença. O quinino era usado para a malária, que, sabe-se hoje, é causada por protozoário, não por vírus. Os purgantes, por sua vez, só funcionavam para causar uma bela dor de barriga no doente, que já estava debilitado. A Diretoria Geral de Saúde Pública, em 1918, também indicava canja de galinha. Resultado: grandes armazéns no Rio de Janeiro e em São Paulo foram saqueados pela população em busca do frango salvador. A primeira vacina surgiria em 1945, nos Estados Unidos, feita de vírus mortos. As vacinas se popularizaram nos anos 1960, mas só em 2003 foi aprovado o uso de vírus vivos.

A descoberta do vírus

Graças ao microscópio, o estudo das causas e dos tratamentos só ganhou rigor científico no século 20. No século 19, já se conheciam as bactérias, mas o vírus da influenza A seria isolado apenas em 1933, pelos cientistas Wilson Smith, Christopher Andrews e Patrick Laidlaw. A versão B foi identificada em 1939, e a C em 1950. Essas letras, A, B e C, foram criadas nos anos 1950 para identificar os três tipos que existem: a C é a comum, a B é a típica gripe de inverno, que ataca especialmente as crianças, e a A é selvagem e perigosa — um verdadeiro peso-pesado.

O habitat natural do vírus A, causador das grandes pandemias, como a espanhola e a gripe atual, é o mesmo dos patos e de outras aves aquáticas. Ele também pode viver em mamíferos como porcos, cavalos, baleias e leões-marinhos. Isso explica por que se costuma dizer que uma gripe é “suína” ou “aviária”. O apelido indica a origem do vírus A.

Gripes do porco

Quando Smith isolou o microorganismo, na década de 1930, notou que ele tinha uma estrutura muito simples. “É constituído apenas do seu material genético, seja DNA, seja RNA. Ao contrário das bactérias, não tem o maquinário necessário para reprodução”, diz Stefan Cunha Ujvari. Por isso, precisa, necessariamente, viver dentro de um hospedeiro. Ele invade as células e lá dentro faz cópias exatas de si mesmo. É a forma de se replicar.

Os vírus têm extrema dificuldade de saltar de uma ave para um ser humano. Porém, conseguem fazer essa migração utilizando os porcos como “escala”. Foi isso que aconteceu em 1918, segundo a teoria de dois eminentes professores de virologia, Robert Webster e Kennedy Shortridge. O causador da gripe espanhola,  dizem eles, começou provavelmente em uma ave e foi transmitido a um porco, que por sua vez infectou pessoas — razão qual os sobreviventes da epidemia tinham anticorpos da gripe suína.

De acordo com Shortridge, foi na China, um milênio antes da era atual, que os plantadores de arroz começaram a criar porcos junto com patos. “Foi a oportunidade ideal para o vírus saltar para nós”, diz o cientista. Devemos ficar bravos com os porcos? Bem, se eles pudessem entender de virologia, também teriam motivo para ficar irritados conosco. Afinal, esses bichos também pegam gripe dos seres humanos. No início de maio de 2009, cientistas investigavam o caso de um fazendeiro de Alberta, no Canadá, que teria transmitido a gripe para sua criação de porcos: 200 animais foram contaminados após ele passar uma temporada no México, onde contraiu o vírus originado em outros porcos.

Vírus mortais – As cinco maiores epidemias de gripe da História

A Gripe Russa (1889-1890)

  • Sintomas: febre e pneumonia
  • Propagação: foi gcarregada pelo vento e pelas linhas de trens, como o Expresso Transiberiano. Em 15 dias atravessou aRússia inteira, da Sibéria a São Petersburgo. A epidemia atingiu toda a Europa, norte da África, a China, países do sudeste asiático, EUA, América Central e América do Sul.
  • Mortos: 1,5 milhão
  • Tratamentos usados na época: acreditava-se que banhos quentes e vinho eram remédios. Durante o surto, casas de banho ficaram populares em Londres.

A Gripe Espanhola (1918-1919)

  • Sintomas: pneumonia viral, sangramentos e calafrios
  • Propagação: a gripe atingiu todos os continentes
  • Mortes: 30 milhões a 100 milhões
  • Tratamentos: NA Europa, cidades inteiras ficaram de quarentena. No Brasil, receitava-se bromo-quinino, sulfato de quinino, limonada purgativa, chá de canela e canja de galinha.

A Gripe Asiática (1957-1958)

  • Sintomas: febre alta, dor de cabeça e cansaço
  • Propagação: alastrou-se devagar, principalmente por terra e por mar, com surtos localizados. Além da Ásia, atingiu também a Europa, a África, a Oceania e os EUA.
  • Mortos: 2 milhões
  • Tratamentos: a tecnologia da época possibilitou a fabricação de vacinas, porém em quantidade insuficiente.

A Gripe de Hong Kong (1968-1969)

  • Sintomas: febre alta, dor nas articulações e cansaço
  • Propagação: Pessoas infectadas espalharam a doença através de deslocamentos entre várias partes do mundo e a epidemia atingiu a Ásia, a Oceania, a Europa e os EUA.
  • Mortos: 1 milhão
  • Tratamentos: antibióticos e vacina

A Gripe Aviária  (1997-2004)

  • Sintomas: febre, tosse e dores na garganta
  • Propagação: em 1997, 18 pessoas foram infectadas por frangos. Depois o vírus ganhou uma mutação, o subtipo H9N2, e se espalhou através das aves. A epidemia atingiu o sudeste asiático, a Europa e a África.
  • Mortes: 300
  • Tratamentos: sacrifício de 1,5 milhões de aves em Hong Kong. O grupo farmacêutico Novartis tem um projeto de vacina contra o vírus.

AUGUSTO SEVERO, O PIONEIRO ESQUECIDO

Gilberto Freyre (1900-1987) sociólogo, historiador e ensaísta brasileiro, autor do livro Casa Grande & Senzala.

Em 1942 o Pernambucano Gilberto Freyre Recordou Augusto Severo, Trazendo Interessantes Aspectos Sobre Essa Importante Figura da História Potiguar.

Fonte – Diário de Pernambuco, 30 de junho de 1942.

Esteve um desses dias comigo um parente que só conhecia de nome; o Sr. Sérgio Severo de Albuquerque Maranhão. Reside em Natal — de onde raramente sai — mais é filho de um grande nômade Augusto Severo. Um grande nômade que sempre se deliciou em voltar ao seu nativo Rio Grande do Norte, os olhos cheios de saudade da terra querida, as malas cheias de brinquedos para os filhos e de presentes para a mulher e os amigos.

Augusto Severo – Fonte – MUSÉE DE L’AIR ET DE L’ESPACE

Durante longo tempo conversamos sobre aquela figura romântica do mil e novecentos brasileiro, meio esquecida pela gente de hoje; mesmo pela mais sensíveis aos encantos esportivos e os vantagens militares e econômicas da aviação. Quando a verdade é que Augusto Severo deveria estar hoje recolhendo homenagens tão entusiásticas como as que se dirigem a Santos Dumont.

Pois o grande romântico não era nenhum lunático de quem a mania de voar tivesse se apoderado de repente; nem um ricaço para quem o balão fosse apenas um esporte caro e snob. Era um nortista pobre, mas equilibrado e de boa saúde — um fidalgo do Norte pobre como tantos outros do seu tempo e até dos nossos dias — a quem o problema do dirigível sempre interessou: desde seus dias de adolescente. Já então, andando muito com meu tio e seu primo José Antônio Gonçalves de Mello, ele costumava dizer ao seu camarada, apontando para os urubus a voarem sobre os coqueiros pernambucanos, “seu Juca, precisamos achar um jeito de fazer o mesmo”. Parecia-lhe uma vergonha que, neste particular, o homem continuasse inferior ao urubu.

O Pax, dirigível de Augusto Severo, antes do seu acidente mortal em Paris, França.

Mas é Sérgio Severo quem agora me dá traços mais característicos da personalidade do inventor do balão Pax, ao mesmo tempo que me enriquece o material fotográfico sobre o mil e novecentos brasileiro destinado ao ensaio Ordem e Progresso, com uma serie interessantíssima de retratos de Augusto. Em todos eles, o inventor sobressai pela estatura de fidalgo eugênico pelo porte quase de oficial de exército europeu pelos olhos romanticamente negros, pelo bigode farto e magnífico de príncipe de ciganos que se tivesse desprendido dos adornos de ouro para passear pelas ruas de Paris, do Rio de Janeiro e do Recife, vestido sobriamente à moda ocidental.

No dia 12 de maio de 1952 foi lembrado o quinquagésimo ano da morte de Augusto Severo de Albuquerque Maranhão no Centro Norte-rio-grandense, no Rio de Janeiro. A solenidade foi comandada por Café Filho, então Presidente da República e contou com a presença de várias autoridades potiguares. O Centro Norte-rio-grandense ficava localizado no 8º andar do Edifício Rio Branco, na avenida homônima, número 257, no Centro do Rio de Janeiro.

Essa figura esplendida de aristocrata do Norte que nos surge de um passado ainda recente todo vermelho do próprio o sangue e não do sangue dos outros, está as merecer a atenção de um Gondim da Fonseca ou de um Francisco de Assis Barbosa — escritores a cujo talento, sensibilidade e coragem de pesquisa devemos páginas tão atraentes e lúcidas sobre Santos Dumont. Que aproveitem eles a memória ainda viva, as recordações ainda frescas, as fotografias ainda nítidas, os papeis ainda intactos, as relíquias preciosas, guardadas pelo próprio filho de Augusto Severo na sua casa provinciana da Rua Dr. Barata, em Natal. As recordações também de Gonçalves de Melo, figura ilustre de “bispo do Tesouro”, ultimamente aposentado e que foi tão camarada do primo inventor nos dias de sua mocidade.

Confesso que me deliciei o ouvindo uma tarde inteira Sérgio Severo de Albuquerque Maranhão referir, em conversa despretensiosa, mas cheia de pitoresco humedecido pela melhor das ternuras filiais, traços do quase esquecido pioneiro sul-americano da aviação. Traços que nos revelam não só a profundidade, a densidade e a autenticidade de “brasileiro velho” de Augusto como a sua meticulosidade quase medieval de artesão, sua paciência de artista, a habilidade das suas mãos de quase gigante, para realizar as tarefas mais difíceis e mais finas. Ou simplesmente as mais domésticas.

Fonte – https://manoelmauriciofreire.blogspot.com/2009/01/biografia-de-augusto-severo.html

Era homem de descer a cozinha e ele próprio preparar um molho para o peixe do almoço ou um doce tradicional para a sobremesa do jantar: de pegar de um bordado da mulher e continuá-lo ou concluí-lo com e igual esmero. Essa aptidão para trabalhos delicados de agulha e de doçaria, para artes que, em geral, são de moças caseiras ou de velhas aias pachorrentas, juntava-se nele a uma sólida e aventurosa masculinidade de nortista bem nascido. Nortista de família célebre pelos seus homens agigantados e alourados que os arianistas menos ortodoxos não hesitariam em proclamar nórdicos desgarrados no Brasil tropical, fechando os olhos a mancha magnólia que nos Albuquerque Maranhão menos louros deve recordar o sangue remoto de avôs indígenas.

UM MISTÉRIO COM QUASE 175 ANOS ESTÁ SENDO DESVENDADO – ARQUEÓLOGOS FILMARAM UM DOS NAVIOS PERDIDOS DA EXPEDIÇÃO DE SIR JOHN FRANKLIN

Agora as imagens desse naufrágio estão rodando o mundo e mais um dos mistérios que encantavam a humanidade se encerra com a pesquisa científica.

Rostand Medeiros – IHGRN, através de https://www.stuff.co.nz/world/americas/115370613/underwater-video-of-hms-terror-1845-shipwreck-could-reveal-clues

John-Franklin-Expedition-1845-Nordwestpassage-Erebus-and-Terror. Erebus and Terror – 1845

Por mais de 170 anos o HMS Terror descansou sob as águas geladas do Oceano Ártico canadense, guardando os segredos de uma expedição cientifica desaparecida e totalmente fatal para seus participantes – até um dia ensolarado no início desse mês, quando um pequeno robô mergulhou no mar para tentar encontrar seus restos.

Fonte – https://www.stuff.co.nz/world/americas/115370613/underwater-video-of-hms-terror-1845-shipwreck-could-reveal-clues

Através de um cabo elétrico com controle remoto, pesquisadores canadenses conduziram esse aparelho subaquático até o naufrágio e entraram no convés, ansiosos para ver o que o veículo poderia encontrar. Essa é a primeira grande exploração nesse antigo navio inglês condenado, desde que dezenas de homens o abandonaram depois que ele ficou preso no gelo em 1845. Era uma exploração comandada pelo inglês Sir John Franklin e objetivava mapear a chamada Passagem Noroeste. Uma ligação entre os Oceanos Atlântico e Pacifico através do Circulo Polar Ártico.

Não houve sobreviventes. O Terror e seu navio irmão, o HMS Erebus, desapareceram sob a superfície gelada, onde permaneceriam até 2014 e 2016, quando as antigas naves foram descobertos pelos canadenses.

Por décadas o único registro encontrado dessa malograda expedição foi uma única e sucinta nota, escrita em abril de 1848, rabiscada com a mão trêmula em um pedaço de papel. 

Fonte – Victory Point Note. © National Maritime Museum, London. Mensagem original escrita pelo capitão Francis Crozier .

Essa mensagem foi encontrada quinze anos depois da partida dessas naves da Inglaterra, tendo sido rascunhada pelo capitão Francis Crozier, que a deixou para trás na Ilha King William, em um recipiente protegido por um monte de pedras, antes que todos os membros da tripulação perecessem e seus corpos congelados desaparecessem. Crozier informou que 105 almas abandonaram o Terror e o Erebus e que 24 já estavam mortos, incluindo o líder da expedição, Sir John Franklin.  Essa mensagem foi descoberta por uma expedição inglesa que tentou encontrar seus compatriotas.

Em 1984 o cadáver bastante conservado do marinheiro inglês John Shaw Torrington (1825 – 1846) foi um explorador e  encontrado na Ilha Beechey. Como resultado das temperaturas árticas abaixo de zero, Torrington foi extraordinariamente bem preservado, com características identificáveis, incluindo olhos azuis claros e brilhantes e pele que ainda estava intacta, apesar de machucados e amarelados. Um membro da tripulação que morreu na mesma época e foi enterrado ao lado de Torrington também mostrou sinais mínimos de decomposição. Fonte – https://miepvonsydow.wordpress.com/2016/04/01/the-preserved-body-of-royal-navy-stoker-john-torrington-in-1984-who-had-died-138-years-earlier-of-pneumonia-in-1846-during-sir-john-franklins-lost-expedition-in-the-canadian-arctic-ca-1984/

A explicação para Crozier e um grupo de homens haver sobrevivido ainda por algum tempo, está no fato desses navios transportarem uma grande quantidade de alimentos. Mas sem capacidade de reporem seus gêneros e, certamente, diante dos rigores do inverno todos pereceram.

“-Uma história triste, contada em poucas linhas”, escreveu o explorador britânico que descobriu a nota em 1859.

Sino de bronze do HMS Terror – Fonte – ParksCanada

Os inuits, povo nativo local, possuem em sua tradição oral um rastro de histórias perturbadoras sobre homens brancos doentes, que desembarcaram no Ártico desesperados para salvar suas vidas, andando feito fantasmas sobre a neve, sucumbindo à exposição ao frio, à fome e até, possivelmente, ao canibalismo. Numerosas expedições foram realizadas nesses quase 175 anos, onde recuperaram os restos de alguns tripulantes, mas nunca os navios.

Cartaz produzido na época do desaparecimento, com uma recompensa de 100.000 dólares, uma verdadeira fortuna.

O conhecimento Inuit – ou Inuit Qaujimajatuqangit, antigo povo tradicional do Ártico, é a coleção mais completa de relatos em primeira mão sobre esses ingleses a sobreviver ao longo das décadas. Algumas dessas histórias foram registradas ainda nas décadas de 1850 e 1860. Não foi por outra razão que após o governo canadense decidir realizar mais essa expedição em busca dos naufrágios, os pesquisadores inuítes lideraram o grupo ao longo do caminho.

Uma das pinturas mais conhecidas da condenada expedição de Franklin. Título completo: “Eles criaram o último elo com suas vidas: HMS ‘Erebus’ e ‘Terror’, 1849-1850”. (W. Thomas Smith / Museu Marítimo Nacional) – Leia mais: https://www.smithsonianmag.com/science-nature/dentist-weights-in-what-really-doomed-the-franklin-expedition-180964594/#jyoVdjicEUzWaMV4.99

A National Geographic informou que o Erebus foi encontrado em 2014, quase no local exato que o testemunho dos Inuit o colocou. Dois anos depois um caçador inuit de um assentamento na ilha King William levou os arqueólogos até o Terror. Essa nave foi apropriadamente descoberta em Terror Bay, uma área que havia sido nomeada em memória do navio perdido.

Sammy Kohvik

O caçador Sammy Kohvik contou uma história notável para levar os cientistas até o local, como o jornal americano Washington Post relatou. 

Alguns anos antes Kohvik disse que ele e um amigo estavam seguindo em duas motos de neve, os famosos snowmobile, até uma área de pesca. Foi quando viram um grande poste de madeira projetando-se fora do gelo em Terror Bay ( Baía do Terror ) – era o mastro do navio. 

Kogvik tirou uma foto, mas perdeu a câmera a caminho de casa. Ele não foi procurar o local novamente, até embarcar em 2016 em uma expedição da Arctic Research Foundation, ajudando na busca. Quando a equipe de cientistas ouviu sua história, eles foram direto para a Baía do Terror.

“-O mastro alto poderia estar a metros fora da água nos últimos 150 anos, mas ninguém o viu”, disse o CEO da Arctic Research Foundation, Adrian Schimnowski, à National Geographic em 2016.

Agora ocorreu a primeira visualização do interior do HMS Terror e seus resultados são impressionantes.

Fonte – https://www.stuff.co.nz/world/americas/115370613/underwater-video-of-hms-terror-1845-shipwreck-could-reveal-clues

O governo canadense anunciou nesta quarta-feira (28/08/2019), que os pesquisadores estão mais perto de desvendar o mistério duradouro desses desastres. Dentro do HMS Terror o explorador subaquático robótico encontrou um navio tão bem preservado que seus artefatos pareciam estar essencialmente congelados no tempo.

Mergulhadores no HMS Erebus – Fonte – https://edition.cnn.com/travel/article/canada-shipwreck-franklin-scli-intl/index.html

“-A impressão que testemunhamos ao explorar o HMS Terror é de um navio recentemente abandonado por sua tripulação, aparentemente esquecido pela passagem do tempo”, disse Ryan Harris, arqueólogo do Parks Canada, que pilotou o veículo subaquático com controle remoto.

Dentro do navio os artefatos de vidro ainda estavam empilhadas ordenadamente nas prateleiras. Garrafas de vinho e jarros envoltos em lodo ainda estavam de pé em nichos de madeira e rifles ainda se encontram pendurados nas paredes, envoltos em ferrugem. Nas 20 salas separadas do navio, as gavetas das cômodas e mesas ainda estavam fechadas – a descoberta mais tentadora aos olhos dos arqueólogos. É aí que eles acreditam que encontrarão diários, registros e mapas sobreviventes, possivelmente iluminando toda a expedição.

Harris disse que eles esperam que os documentos cobiçados possam está preservados sob montes de sedimentos protetores, fixados no lugar graças às temperaturas extremamente frias.

O estado de conservação do HMS Erebus é verdadeiramente incrível.

“-Esses cobertores de sedimentos, junto com a água fria e a escuridão, criam um ambiente anaeróbico quase perfeito, ideal para preservar materiais orgânicos delicados, como têxteis ou papeis”, disse Harris à National Geographic. “-Existe uma probabilidade muito alta de encontrar roupas ou documentos, alguns deles possivelmente ainda legíveis. Gráficos enrolados ou dobrados no armário de mapas do capitão, por exemplo, podem muito bem ter sobrevivido”.

Agora as imagens desse naufrágio estão rodando o mundo e mais um dos mistérios que encantam a humanidade se encerra com a pesquisa científica.

A INCRÍVEL HISTÓRIA DO ADOLESCENTE BAIANO QUE PEDALOU DE SALVADOR A NOVA YORK 90 ANOS ATRÁS

Rubens partiu de sua cidade natal, com roupa de escoteiro, para ir pedalando rumo à que era na época a maior metrópole do mundo.

Lucas Froés – De Salvador para a BBC News Brasil

Fonte – https://www.terra.com.br/noticias/brasil/a-incrivel-historia-do-adolescente-baiano-que-pedalou-de-salvador-a-nova-york-90-anos-atras,61907d6d68637c1f48582c4e2c9b951aotwxwie7.html?fbclid=IwAR1WN_g7-Iei5MUMiohtMJcUVtnpzNDcZZ-qqSmLdRoI-9OWlWzaQYiw6Ro


Rubens Pinheiro na chegada em Nova York – Foto: Arquivo Família Pinheiro / BBC News Brasil

Rubens Pinheiro da Costa foi um sujeito inquieto desde criança, quando suas estripulias eram punidas com castigos que levavam suas mãos à palmatória.

Quando cresceu um pouco, o baiano manifestou seu anseio por liberdade com uma fuga malsucedida de casa. Depois, aos 16, resolveu ir andando de Salvador até o Rio de Janeiro. A andança abriu caminho para uma aventura ainda maior: um inédito percurso de bicicleta de Salvador a Nova York. Uma façanha que pode até não parecer tão inusitada nos dias de hoje, não fosse um detalhe: Rubens fez isso 90 anos atrás.

Era 15 de março de 1927 e faltavam cinco meses para o jovem completar 18 anos. Medindo 1,70 m e pesando 65 kg, partiu de sua cidade natal, com roupa de escoteiro, para ir pedalando até o que era na época a maior metrópole do mundo. Ele acordou cedo, despediu-se da mãe e da irmã, e foi para a porta do jornal Diário de Notícias. Com direito a fogos, curiosos e cobertura da imprensa, um grupo de mais de 100 ciclistas lhe fez companhia no início do trajeto.

Rubens Pinheiro da Costa

Entre 1927 e 1929, pedalando na sua bicicleta da marca alemã Opel, Rubens Pinheiro percorreu o continente americano num trajeto sinuoso de mais de 18 mil km, atravessando a fronteira de 11 países.

A vontade de realizar a façanha surgiu quando ele estava no Espírito Santo, andando a caminho do Rio, e cruzou na estrada com o pernambucano Mauricio Monteiro, que fazia uma viagem de bicicleta de Recife até Buenos Aires. Depois de recusar um convite para seguirem juntos, Rubens ouviu Mauricio fazer valer a rivalidade entre os dois estados e ironizar a falta de coragem dos baianos. Rubens então jurou ali mesmo que faria uma viagem ainda maior que o do seu involuntário incentivador.

Para conseguir dinheiro para a viagem, ele pediu doações a comerciantes em Salvador, conseguindo juntar dez mil réis que levou num saco de lona junto com poucas roupas, uma arma e um livro feito especialmente para a viagem, com capa de couro de cobra e páginas em branco para serem preenchidas como uma espécie de diário de bordo.


A notícia da proeza do baiano Rubens Pinheiro da Costa no jornal Standard Union, de Brooklyn, Nova York.

“Estou disposto a tudo, inclusive a passar sede e fome, sofrer aborrecimentos, raspar sustos (e que Deus me livre das sussuaranas e das jararacas!), carregar a bicicleta nas costas. Quero conhecer Nova York sem ser em fotografia”, declarou ao Diário de Notícias no dia de sua partida.

Ele seguiu para a cidade vizinha de Santo Amaro da Purificação, para despedir-se de Euthymia, sua namorada. Ela lhe deu uma foto dela para que, quando Rubens chegasse em Nova York, fosse publicada junto com a dele pela imprensa norte-americana.

Seguindo pelo interior da Bahia, Rubens colidiu com a bicicleta de um ciclista com quem apostava corrida, danificando sua Opel, que teve de ser levada de trem para ser consertada em Salvador. Ele desistiu de esperar por ela e pegou outro trem de volta para a capital, para resgatar a bicicleta. Aproveitando a Semana Santa, resolveu ficar mais uns dias com a família, o que levou as pessoas que o encontravam na rua a questioná-lo em tom de ironia: “Já voltou de Nova York?”.

Encontros com a história

Rubens retomou sua jornada e não parou mais. Para sobreviver na estrada, fazia o possível para arrecadar o dinheiro necessário para continuar. Para isso, gostava de exibir-se em praça pública fazendo manobras com sua bicicleta em cada cidade a que chegava. Aprendeu também que deveria logo visitar a imprensa local para alardear sua presença, o que rendia ajuda de políticos e comerciantes.


Rubens Pinheiro na estrada – Foto: Arquivo Família Pinheiro / BBC News Brasil

“Fiz, na praça principal de Santo Amaro, umas piruetas, umas voltas de fantasia na minha Opel que arrancaram palmas do povo. Gosto das saídas bonitas, confesso que esse é o meu fraco”, contou ao jornal carioca A Manhã, em 1929.

No caminho, ele tinha a estrada e a história à sua frente. No interior baiano, encontrou um acampamento abandonado que servira à Coluna Prestes. No Pará, ficou impressionado com a imensidão do Rio Amazonas, mas no Alto do Rio Negro teve que passar um dia em cima de uma árvore, em plena Floresta Amazônica, esperando que uma onça desistisse de querer almoçá-lo.

Ao cruzar a fronteira do Brasil, Rubens chegou à Venezuela enviando um telegrama de felicitações e uma carta pedindo ajuda ao então presidente do país, o ditador e general Juan Vicente Gómez. O mais poderoso político venezuelano da época lhe retribuiu com uma contribuição de 5 mil bolívares.


Caderno de viagem de Rubens – Foto: BBC News Brasil

No Panamá, Rubens encontrou a ocupação dos Estados Unidos na Zona do Canal, mas fez amizade com os oficiais, que lhe presentearam com uma volta de avião que mais lhe pareceu uma montanha-russa aérea. Na Nicarágua, de novo encontrou-se com tropas americanas, mas dessa vez acabou capturado temporariamente pelo fuzileiros navais, que o confundiram com um guerrilheiro.

O país vivia em estado de sítio e tentava se libertar do domínio dos Estados Unidos. Em suas memórias, Rubens garante que teve na estrada a companhia do revolucionário Augusto César Sandino, líder da luta contra os invasores e ideólogo do movimento sandinista que hoje é partido político.

Quando ele chegou à Cidade do México, em janeiro de 1929, uma grande recepção o aguardava. Centenas de ciclistas o acompanharam até a embaixada do Brasil, onde ficou hospedado. Depois, foi recebido pelo presidente Emilio Portes Gil, que lhe deu um cheque de 5 mil pesos.

Rubens pôde então partir para os Estados Unidos no fim do período conhecido como Roaring Twenties, marcado pelo jazz, pelas Melindrosas, pela emancipação feminina, além da crescente presença do rádio e do cinema. Uma época de otimismo que acabaria ainda naquele ano, com a quebra de Bolsa de Valores de Nova York e a Crise de 29. Para chegar à Big Apple, ele percorreu boa parte do leste do país, dividindo as estradas asfaltadas com enormes carretas.

Às 14 h do dia 1.º de abril de 1929, depois de passar dois anos pedalando, o ciclista Rubens Pinheiro chegou a Nova York. Ele não tinha mais a foto da namorada, que perdera no início da viagem, ainda na Bahia, desesperando-se, mas colecionou novos amores durante a viagem.

“Agora estou quebrado. É bom ver Nova York! É bonita, mas tão grande! Eu vou voltar ao Brasil tão logo eu possa rodar e ver a cidade”, disse à imprensa local, segundo contou em suas memórias.

Os brasileiros residentes no Brooklyn organizaram um banquete em homenagem a Rubens. Sem roupa adequada para a ocasião, ele teve que vestir as do atarracado cônsul-geral do Brasil, Sebastião Sampaio, o que levou a turma do Brooklyn a comprar um terno para Rubens e evitar o constrangimento. Sampaio ainda telegrafou ao ministro das Relações Exteriores, o baiano Octávio Mangabeira, solicitando uma recompensa para Rubens, mas nunca foi atendido.

Rubens passou a residir no sótão da casa de número 13 da Union Street, no Brooklyn. Ele trabalhou lavando pratos em restaurantes e depois na General Motors. Em junho, quando seu visto de permanência terminou, retornou ao Brasil.

De volta à realidade

Na volta ao Brasil, a bordo do navio Southern Cross, Rubens tinha a esperança de ser recebido com honras no porto do Rio de Janeiro, que estava preparado para uma ocasião festiva.

Mas a homenageada era uma passageira da primeira classe, a Miss Brasil Olga Bergamini de Sá, que voltava do concurso de Miss Universo em Galveston, nos Estados Unidos.

Ofuscado pela beleza alheia, Rubens tratou de buscar reconhecimento. Ele foi a uma audiência pública com o presidente Washington Luís, no Palácio do Catete. Durante sua andança de Salvador ao Rio de Janeiro, Rubens aprendera a andar de bicicleta em Macaé, cidade natal do presidente, mas nem teve tempo de lhe contar.

O último mandatário da República Velha logo o dispensou: “O Brasil mandou você fazer alguma coisa?”, disse, segundo relato de Rubens, o presidente – que seria deposto no ano seguinte pela Revolução de 30.

Na antiga capital do país, Rubens foi ajudado pelo francês Louis La Saigne, diretor das lojas Mesbla, em troca de deixar a bicicleta exposta na vitrine. Também no Rio, o jornal A Manhã publicou, em capítulos, parte das histórias da viagem, com base em entrevistas com ele e com o que registrou no livro que levou a bordo da Opel.

De volta a Salvador, uma missa na Igreja do Bonfim, organizada pelo próprio Rubens, levou uma multidão de curiosos para saudá-lo. Na saída da igreja, ele se exibiu para o público pedalando de costas na escadaria e na ladeira do Bonfim, sendo ovacionado.

Aplausos ele receberia de novo em 1934, quando um circo chegou a Salvador oferecendo um conto de réis a quem se aventurasse no globo da morte. Rubens ganhou o prêmio e seguiu com o circo, mas acidentou-se seriamente após uma sequência de loopings, três anos depois.

Legado

Durante o resto de sua vida, Rubens não obteve outros reconhecimentos pela viagem.

O único momento em que sentiu-se homenageado foi em 1979, quando a façanha completou meio século. Uma nova missa foi realizada na Igreja do Bonfim e uma comemoração na Praça Municipal teve direito a um bolo de 50 metros de altura, confeccionado por alunos da Faculdade de Engenharia, que também puseram nele 50 lâmpadas e construíram uma plataforma interna para que uma das netas de Rubens surgisse no topo do bolo.

No mesmo ano, ele contou suas memórias num livrinho azul de meras 68 páginas, vendido por ele mesmo, agora a bordo de uma cadeira de rodas que o acompanhou em seus últimos anos. No texto, queixou-se da sorte comparando-se a Ícaro, filho de Dédalo na mitologia grega, e se disse um “herói esquecido”.

Filha mais velha de Rubens, Olga Pinheiro foi batizada em homenagem à miss Brasil Olga Bergamini de Sá. Aos 87 anos, é ela quem guarda o livro de viagem com capa de couro que, além dos relatos de Rubens, leva a assinatura de presidentes, autoridades e testemunhas da viagem em bicicleta do pai.


Celebração pelos 50 anos da viagem, na Igreja do Bonfim – Foto: Arquivo Família Pinheiro / BBC News Brasil

Um dos netos, também chamado Rubens Pinheiro, é ciclista como o avô e participa de provas de resistência. “Meu avô significa tudo, ele pra mim é a representação de que nada é impossível como atleta”, define.

Passados os festejos pelo jubileu, restou o esquecimento. Rubens Pinheiro morreu em 1981, aos 71 anos, sem que sua história tivesse percorrido as mesmas distâncias que ele e sua bicicleta Opel.