UM BARÃO NEGRO, SEU PALÁCIO E SEUS 200 ESCRAVOS

Francisco Paulo de Almeida, primeiro e único Barão de Guaraciaba
Francisco Paulo de Almeida, primeiro e único Barão de Guaraciaba – CLIQUE NAS IMAGENS PARA AMPLIAR

Autor – CAIO BARRETTO BRISO

RIO – Algumas páginas poderiam se desfazer em mãos descuidadas. São documentos guardados a sete chaves há mais de um século. Embora esmaecidas, as folhas mancham de tinta os dedos de quem as manuseia. “Aqui está a história da nossa família”, diz Mônica de Souza Destro, de 44 anos, na sala de sua casa, em Juiz de Fora. Ela tem muitas pastas empilhadas na sua frente, onde guarda fragmentos de uma história tão esquecida quanto fascinante.

Revirar esses papéis é voltar ao tempo do tataravô de Mônica, o mineiro Francisco Paulo de Almeida, primeiro e único Barão de Guaraciaba (Lagoa Dourada, 10 de janeiro de 1826 – Rio de Janeiro, 9 de fevereiro de 1901), foi proprietário rural e banqueiro brasileiro.um dos mais importantes barões do café do segundo reinado. Titulado como Barão de Guaraciaba pela própria princesa Isabel, acumulou um enorme patrimônio no Vale do Paraíba fluminense. Suas fazendas estendiam-se pelos estados do Rio e também de Minas Gerais, somando um vasto território estimado em 250 quilômetros quadrados — e uma fortuna de quase 700 mil contos de réis, coisa de bilionário. Mas um detalhe tornava o barão diferente dos outros nobres. Ele era negro em um país escravocrata. Reinou em um mundo dominado por brancos.

— Foi um gênio das finanças. Seu patrimônio era colossal, nem a queda do café o fez quebrar. As sedes de suas fazendas eram belíssimas, ele vivia no extremo luxo. Tinha investimentos diversificados, aplicava em ações, fundou bancos. Foi sócio fundador do Banco Territorial de Minas Gerais e do Banco Crédito Real de Minas Gerais. Por isso se tornou um dos homens mais ricos de seu tempo — afirma o historiador José Carlos Vasconcelos, especialista no passado do Vale do Paraíba.

Mônica de Souza Destro
Mônica de Souza Destro

Filho de António José de Almeida e de sua primeira esposa, Galdina Alberta do Espírito Santo. Foi casado com Brasília de Almeida (1844-1889).

Iniciou sua vida como ourives, especializado na confecção de botões de colarinho. Era exímio violinista e suplementava sua renda tocando em enterros. Depois tornou-se tropeiro e em 1860 comprou sua primeira fazenda no Arraial de São Sebastião do Rio Bonito.

Mônica é a guardiã dos documentos históricos que reconstroem a história do barão. Com a ajuda de Vasconcelos, ela está montando a árvore genealógica de sua família. É um trabalho hercúleo. Em um software de genealogia instalado em seu computador, já cadastrou 580 nomes de parentes. A lista começa com os 15 filhos que o barão teve com a mulher, dona Brasília, e chega até Marina, de 10 anos, caçula de Mônica. Quem começou a organizar o arquivo da família foi seu avô, o engenheiro Antônio Augusto de Almeida e Souza. Até os 98 anos, idade em que morreu, cuidou com esmero de todas as fotos, inventários, testamentos e certidões de nascimento e óbito dos parentes. Cada filho e neto do barão possui uma minibiografia, escrita à mão por seu Antônio.

rip baron

Embora fosse negro, o aristocrata estava longe de ser um abolicionista. Quando a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, tinha cerca de 200 escravos na fazenda Veneza, em Conservatória, onde possuía mais de 400 mil pés de café. Mesmo com a abolição, a maioria continuou trabalhando para o barão, e alguns foram incluídos no testamento — caso de Isabelinha, que trabalhava na sede da fazenda e ganhou, na divisão da herança, o mesmo valor em dinheiro que os filhos homens: quase 2.000 contos de réis.

Palácio Amarelo, Petrópolis, Rio de Janeiro, antiga residência do barão de Guaraciaba
Palácio Amarelo, Petrópolis, Rio de Janeiro, antiga residência do barão de Guaraciaba

Para desenvolver a árvore genealógica da família, Mônica, que trabalha como secretária em um consultório médico, foi atrás dos primos mais distantes. Conheceu diversos parentes de quem nunca ouvira falar, vários deles encontrados no Facebook — nem todos se interessaram em ajudá-la. Dos 13 filhos do barão, 12 casaram e aumentaram a família — a exceção é Serbelina, a primogênita, que só viveu até os 2 anos. Com a morte do patriarca, em 1901, em uma mansão no Catete — para onde se mudou após vender o Palácio Amarelo, em Petrópolis, à Câmara dos Vereadores —, sua família se espalhou por cidades do Rio e de Minas. A maioria dos descendentes não se parece mais nem de longe com o barão. Alguns, como Mônica, têm olhos claros — as filhas de Guaraciaba se casaram com portugueses, e os filhos, com mulheres brancas.

Barão de Guaraciaba
Barão de Guaraciaba

Familiares e historiadores acreditam que o barão tenha começado a vida como ouvires, especialista na confecção de abotoaduras de ouro. Também ganhava dinheiro tocando violino em enterros. Mas foi ao tornar-se tropeiro que ele teria lucrado o bastante para comprar sua primeira fazenda, em meados do século XIX.

O que ainda não se sabe sobre o barão, a tataraneta Mônica está tentando descobrir. Seu sonho é escrever um livro contando a saga do negro que conquistou o império.

— O ramo da minha família é um dos que possuem menos recursos. Mas a história está conosco. Para mim, é o que importa — afirma.

Fonte – http://oglobo.globo.com/rio/um-barao-negro-seu-palacio-seus-200-escravos-14573740#ixzz3dK1QNDVo

http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S25.0718.pdf

https://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Paulo_de_Almeida

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3 comentários em “UM BARÃO NEGRO, SEU PALÁCIO E SEUS 200 ESCRAVOS”

  1. O livro já existe: “Barão de Guaraciaba – Francisco Paulo de Almeida: um negro no Brasil Império – Escravagista”. Ferreira, Carlos Alberto Dias. São Paulo. All Print Editora, 2015.

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  2. Querendo saber mais sobre a nossa família Almeida, acessamos e encontramos aqui algo sobre o Barão de Guaraciaba, que segundo nosso pai sr. José Lopes de Almeida, já falecido, eles eram primos. Conhecemos parte dos Guaraciaba, os de que moravam em Três-Rios, o Silvio e Nilo e que eram nossos primos. Segundo o Sr. José. o barão se tornou mais afortunado ainda por trazer para o Brasil a patente da telha francesa, tendo sido o maior fabricante fluminense com suas inúmeras cerâmicas no vale do Paraiba. Nossa irmá Sônia passava ferias na fazenda do Pocinho. Conheci o seu avô o engenheriro ” Tona” como papai o tratava o primo. Somos descendentes do Sr. Pedro Policarpo de Almeida, nosso bisavô paterno, proprietário da Fazenda do Belmonte no munipicio de Matias Barbosa. Seria o Sr. Pedro, primo ou algo mais do Barão? Conte aí. ( Marcelo Neves de Almeida, morador na granja 7 (castelo) na estrada do Joazal ou Estrada Real sendo também chamada de Caminho do Ouro, Matias. Tenho fotos dos primos Silvio e Nilo Guaraciada.

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    1. Marcelo, meu bisavô trabalhou na fazenda Belmont de Pedro Policarpo de Almeida. Estou a procura do registro de nascimento dele na Italia e nao acho a certidao de nascimento. Vcs tem dados dos imigrantes Italianos? Posso te add no Facebook para falarmos?
      Cristiane de Farias

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