Arquivo da categoria: Brasil

NO PRÉDIO HISTÓRICO DA RAMPA COM O SR. WILLIAM POPP, EMBAIXADOR INTERINO DOS ESTADOS UNIDOS NO BRASIL

Foto – Ana Paula Andrade , SETUR

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Através de um convite feito pela Secretaria de Turismo do Estado do Rio Grande do Norte – SETUR, eu estive hoje no prédio histórico da RAMPA para acompanhar a visita do Sr. Willian W. Popp, encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, o segundo no escalão dessa representação diplomática.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Como os Estados Unidos ainda não indicaram quem vai ser o titular do cargo de Embaixador em nosso país, o Sr. Popp é o atual responsável pelo comando do posto.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Estiveram acompanhando essa visita os membros do Consulado dos Estados Unidos em Recife o diplomata Daniel A. Stewart e Stuart Alan Beechler, funcionário desse consulado.

Com Daniel A. Stewart e Stuart Alan Beechler – Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Daniel e Stuart são dois bons amigos, que juntamente com o Cônsul Geral dos Estados Unidos em Recife, o Sr. John Barret, acompanham com atenção e possuem enorme interesse em nossa história comum.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Uma história que une durante a Segunda Guerra Mundial a antiga estação de hidroaviões da Rampa, juntamente com Parnamirim Field, Natal, o Rio Grande do Norte, o Brasil e os Estados Unidos.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Recentemente estive junto com Daniel, Stuart e o Sr. Barret no trabalho de resgate histórico e homenagens aos aviadores da Marinha dos Estados Unidos que pereceram em 10 de maio de 1944, na área rural do município potiguar de Riachuelo, em um acidente com um hidroavião Consolidated PBY-5A Catalina.

Mais detalhes sobre os eventos acontecidos em Riachuelo, veja esses links:

https://tokdehistoria.com.br/2019/03/30/membros-do-corpo-diplomatico-dos-estados-unidos-no-brasil-visitaram-a-cidade-de-riachuelo-p

https://tokdehistoria.com.br/2019/07/04/a-guerra-chega-ao-agreste-potiguar-a-queda-de-um-catalina-em-riachuelo/

https://tokdehistoria.com.br/2019/04/09/sobrevoos-e-historias-vividas-na-guerra/

Carlos Ribeiro Dantas explicando o projeto – Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Coube ao arquiteto da SETUR Carlos Ribeiro Dantas, que trabalha com denodo e especial atenção na recuperação desse patrimônio histórico, conduzir os visitantes.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Carlos apresentou os serviços que estão sendo realizados e apontou as necessidades para a conclusão da obra. Posso testemunhar que os trabalhos estão sendo muito bem conduzidos e a entrega desse patrimônio ao povo potiguar se dará em breve.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Também esteve nessa visita Ana Paula Andrade, da comunicação da SETUR, bem como Hyvirng Ferreira, a Vivi, minha amiga da bela cidade de Patu e assessora técnica da EMPROTUR.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

A minha participação nessa visita foi apoiar, quando necessário, os visitantes e os membros da SETUR com informações históricas.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Nessa visita, que durou quase duas horas, muito me chamou a atenção o fato do Sr. Willian Popp buscar informações sempre detalhadas sobre os aspectos técnicos da obra. Ele igualmente buscou conhecer as informações de caráter histórico sobre a utilização do prédio da Rampa pela aviação comercial dos Estados Unidos antes da Segunda Guerra e pelos militares da marinha do seu país durante o conflito.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

O Sr. Popp comentou ser um fato que a existência do complexo militar americano no Rio Grande do Norte durante a Segunda Guerra é praticamente desconhecido nos Estados Unidos, bem como sobre os episódios aqui ocorridos. Mas informou que a história aqui existente é muito rica e interessante para o povo norte-americano e que a atuação conjunta da representação diplomática do seu país no Brasil e do Governo do Estado do Rio Grande do Norte pode ampliar essa informação e o conhecimento sobre Natal na Guerra.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Da minha parte recebi dos membros da SETUR total liberdade para expor ao Sr. Willian Popp meus pensamentos sobre esse período histórico.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Enalteci a importância histórica, social e cultural dos eventos aqui ocorridos, o fato dessa história comum ser algo que permeia todas as camadas da nossa sociedade, que em minha opinião os potiguares gostam e desejam aprender mais sobre esses fatos e outros aspectos que considerei pertinente.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Sob todos os aspectos foi um momento extremamente positivo e que possa gerar bons frutos para o turismo e para o conhecimento da história potiguar pelo seu povo.

Antes de chegar ao Brasil o diplomata William Popp foi conselheiro político da Embaixada dos Estados Unidos em Nairóbi, no Quênia, e atuou ainda em missões na Colômbia, Angola e Nicarágua.

Possui mestrado em Estratégia de Segurança Nacional pela Escola Superior de Guerra dos Estados Unidos, em Washington, mestrado em Artes em Assuntos Internacionais, pela Universidade George Washington, e bacharelado em Estudos Internacionais e Ciências Políticas pelo Westminster College.

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65 ANOS DA PRIMEIRA APRESENTAÇÃO DE LUIZ GONZAGA EM NATAL

Luiz Gonzaga e seu grupo.

O Grande Mestre da Música Nordestina Se Apresentou na Rádio Poti de Natal em 1956, Junto Com Seu Pai, O Velho Januário, Em Meio a Uma Tournée Pelo Nordeste.

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN.

Em meio as lembranças pelos 30 anos da partida do Mestre Luiz Gonzaga, achei interessante apresentar um material que encontrei nos velhos jornais sobre a primeira apresentação dessa lenda da cultura nordestina na capital potiguar. E foi a primeira de muitas!

Em 1954 Luiz Gonzaga do Nascimento, pernambucano da cidade de Exu e se encontrava no auge da carreira. Ele, suas músicas, o seu chapéu de couro e sua sanfona eram apresentados com extrema assiduidade nas principais revistas dedicadas aos artistas do rádio. Os mesmos rádios, então o principal veículo de comunicação popular existente nos lares do país naquela época, onde os brasileiros ouviam e admiravam a sua potente voz.

Luiz Gonzaga e sua alegria, registrada na Revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro-RJ, ano XXIV, nº 39, ed. 12 de setembro de 1952.

Luiz Gonzaga foi o primeiro artista musical oriundo do Nordeste a ser um grande sucesso popular. Isso pode ser comprovado em junho de 1952, no Rio de Janeiro, quando ocorreu uma festa que reuniu 60.000 pessoas para escutar o Rei do Baião e dançar xaxado. Foi durante os festejos juninos realizados no bairro de São Cristóvão, mais precisamente no antigo Campo de São Cristóvão, onde até hoje acontece a famosa feira no atual Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas. A festança foi promovida pelas Rádios Tamoio e Tupi, onde contou com ampla cobertura da Rede Tupi de Televisão, a primeira emissora de TV da América Latina e inaugurada apenas dois anos antes[1].

As câmeras da Rede Tupi de Televisão registrando a festa de 1952 em São Cristovão. Revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro-RJ, ano XXIV, nº 39, ed. 12 de setembro de 1952.

Segundo Dominique Dreyfus, escritora francesa que escreveu a biografia Vida de Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga, os anos de 1953 e 1954 foram de muitas viagens para realização de tournées pelo Brasil afora. Perto da metade do ano de 1954 teve início mais uma, com o patrocínio do Colírio Moura Brasil, onde o aclamado Rei do Baião percorreu várias cidades nordestinas.

Uma carioca de belas pernas, da equipe de dançarinas da TV Tupi, xaxando feito uma nordestina. Revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro-RJ, ano XXIV, nº 39, ed. 12 de setembro de 1952.

Pouco antes de iniciar a nova série de viagens, quando no dia 25 de maio realizou uma apresentação na Rádio Mayrink Veiga, Luiz Gonzaga recebeu um exemplar de uma asa branca em uma gaiola, ofertado pelo povo de Exu, que lhe foi entregue por Cândido Holanda Cavalcanti, oficial médico da Força Aérea Brasileira e seu conterrâneo[2].  

Na Estrada

Quando realizou uma apresentação na cidade baiana de Feira de Santana, no Campo do Gado, quem testemunhou o espetáculo foi o escritor, sociólogo e jornalista Muniz Sodré de Araújo Cabral, então com 12 anos de idade, que registrou “Era noite de céu brilhante. Enluarado, Gonzaga subiu ao palanque, com chapéu de couro cru e três estrelas na aba da frente, gibão de couro, alpercatas e sanfona prateada dependurada no pescoço. O grito de louvação do povo, longo, em uníssono, fez vibrar o madeirame do palco. Como esquecer?”[3].

Sabemos que nessa tournée Gonzaga esteve no Maranhão, no Piauí e em Campina Grande, na Paraíba. Nessa cidade fez uma apresentação na Rádio Borborema e esteve na sede do Partido Democrático Social, o PSD, uma das maiores agremiações políticas do Brasil na época, onde recebeu um abraço do então senador Rui Carneiro[4].

Luiz Gonzaga ao centro, com um grande lenço e Humberto Teixeira é o primeiro da direita para esquerda com chapéu de couro.

No Ceará também houve a mescla de show e política. Primeiramente Gonzaga realizou em Fortaleza uma apresentação no auditório da Rádio Clube do Ceará, na sequência cantou ao ar livre durante a Primeira Festa do Radialista, em evento transmitido pela Rádio Iracema[5]. Depois seguiu para apoiar politicamente o amigo Humberto Teixeira em sua terra natal, a cidade cearense de Iguatu. Formado em 1944 pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, Humberto Cavalcanti Teixeira ganhou fama como compositor em parceria com Luiz Gonzaga, principalmente a partir de 1945[6].

Logo Gonzaga, trazendo sua sanfona, apontou a bússola para a direção da capital potiguar. Segundo o jornal natalense O Poti, o Rei do Baião chegou acompanhado de uma figura ilustre; Januário José dos Santos, seu pai, o conhecido Velho Januário.

Luiz Gonzaga e seu pai, o Velho Januário, que na foto está com uma sanfona de 8 baixos – Fonte – https://fabiomota1977.wordpress.com/2006/11/21/seu-januario-o-mestre-dos-8-baixos/

Januário era da região do Pajeú, em Pernambuco, tendo nascido a 25 de setembro de 1888. Consta que premido pela estiagem chegou à Fazenda Caiçara, a doze quilômetros de Exu, acompanhado de seu irmão Pedro Anselmo, no ano de 1905. Lavrador e exímio sanfoneiro de oito baixos ficou conhecido por ser um homem dedicado à família e respeitado em toda a sua região pela sua arte. Foi casado primeiramente com Ana Batista de Jesus Gonzaga do Nascimento, a mãe de Luiz Gonzaga, conhecida na região por “Santana”, ou “Mãe Santana”, cuja união com Januário gerou nove filhos[7]. Em 1954 o Rei do Baião já havia levado seu pai para o Rio de Janeiro, mas ele decidiu voltar para Exu, próximo a Serra do Araripe. Não sei como ocorreram as circunstâncias e negociações para o Velho Januário acompanhar seu filho Luiz Gonzaga nessas apresentações pelo Nordeste há 65 anos, mas o certo é que os dois vieram juntos para Natal.

O Rei do Baião também veio acompanhado de Osvaldo Nunes Pereira, baiano de Jequié. Este era um jovem humilde, que era anão e tocava triângulo. Pela baixa estatura recebeu primeiramente o nome artístico de Anão do Xaxado e depois Salário Mínimo[8]. Além deste fazia parte do grupo que chegou a Natal o zabumbeiro conhecido como Aluízio.

Sobre esse último integrante temos um pequeno mistério!

Nas páginas 181 a 186 do livro de Dominique Dreyfus encontramos os detalhes sobre a saída do zabumbeiro Catamilho e do tocador de triângulo Zequinha como instrumentistas acompanhantes de Gonzaga em 1953. Bem como podemos ler sobre a entrada de Osvaldo Nunes Pereira e de um zabumbeiro piauiense chamado Juraci Miranda, conhecido como Cacau.

Dreyfus inclusive traz uma foto na página 187, onde Luiz Gonzaga se apresenta em um palco ao lado do Anão do Xaxado com o triângulo e de um zabumbeiro que é apontado como sendo Cacau. Ocorre que na página 29 do livro Forró – The Ecoding by Luiz Gonzaga, de autoria de Climério de Oliveira Santos e Tarcísio Soares Resende, publicado pela CEPE Editora em 2014, como parte da série Batuque Book, com edição bilíngue em português/inglês, é possível ver a mesma foto com a legenda (em inglês) que indica ser Salário Mínimo no triângulo e na zabumba o tocador era Aluízio. Como o jornal natalense O Poti também aponta que Aluízio esteve com o Rei do baião na capital potiguar, na sequência de suas apresentações em Fortaleza, creio que o trabalho de Santos e Resende parece está correto.

Independente desse pormenor, o certo é que em agosto de 1954 o Anão do Xaxado e Aluízio eram relativamente novos na parceria com Gonzaga.

No “Auditório B” da Rádio Poti de Natal

Luiz Gonzaga, seu pai e os dois tocadores que lhe acompanhavam a Natal iriam se apresentar nos auditórios da Rádio Poti.

Postal com o anteprojeto da Rádio Educadora de Natal, de autoria de Carlos Lamas e construção da empresa de Gentil Ferreira de Souza. O sonho de uma rádio em Natal se concretizava.

Essa rádio se originou a partir da Rádio Educadora de Natal – REN, a primeira emissora do Rio Grande do Norte e que entrou efetivamente no ar em 29 de novembro de 1941. Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, proprietário de um conglomerado midiático chamado Diários Associados, que nessa época abrangia jornais em várias cidades brasileiras, revistas e estações de rádio, compra m 1944 a REN e a transforma na Rádio Poti. A renovada emissora transmitia em AM (amplitude modulada), na frequência de 1.270 kHz e mantendo o tradicional prefixo da REN – ZYB-5.

Assis Chateaubriand discusando.

Essa rádio se torna um grande sucesso na cidade, pois através da ação dos Diários Associados o seu auditório passou a receber muitos cantores nacionalmente conhecidos. Um deles foi Sílvio Caldas, que ali se apresentou entre 25 e 27 de maio de 1948, sob o patrocínio do “Creme dental Nicotan”[9].

Logo Chateaubriand decidiu realizar alterações na rádio, sendo a principal ação a ampliação e modernização do chamado “palco-auditório”, na sede que a Rádio Poti possuía na Avenida Deodoro. Isso proporcionou uma maior e melhor capacidade de transmitir programas de auditório, humorísticos, jornalísticos, musicais, radionovelas e outros. A festa de inauguração do novo auditório, o conhecido “Auditório da Avenida Deodoro”, ocorreu em uma sexta-feira, 3 de novembro de 1950. O mestre da cerimônia foi o radialista Genar Wanderley e a principal atração foi uma bela e exuberante cantora de 21 anos de idade, nascida na cidade paulista de Taubaté e chamada Hebe Camargo[10].

Ao ler os jornais da época percebe-se nitidamente o estrondoso sucesso do novo “palco-auditório” da Rádio Poti, aonde as apresentações vão ocorrendo e movimentando intensamente a vida cultural de Natal.

Diante do sucesso dessas apresentações e buscando ampliar o público, a direção da Rádio Poti decidiu utilizar  o que passou a ser chamado de “Auditório B”. Este era um auditório amplo e confortável, que ficava na antiga sede do Alecrim Futebol Clube, na Avenida Presidente Bandeira, ou Avenida 2[11].

Antiga sede da Rádio Poty, a principal de Natal.

Esse era um local que, além das atividades próprias da administração dessa tradicional equipe de futebol natalense, também era um ponto de grande efervescência cultural. Ali ocorreram grandes bailes de carnaval, festas juninas, reuniões de partidos políticos, festas dançantes aos domingos e até peças de teatro. Em março de 1949, o renomado teatrólogo Inácio Meira Pires ali criou um núcleo de teatro amador chamado “Teatro do Bairro”, que utilizava o auditório do Alecrim Clube como local de apresentações[12]. Vale ressaltar que muitas dessas festas, reuniões políticas, peças de teatro e outros acontecimentos importantes eram transmitidos pela Rádio Poti.

No sábado, 31 de agosto de 1954, ocorreu a transmissão no palco do Alecrim Clube do programa “Vesperal dos Brotinhos”, sob o comando de Luiz Cordeiro e Rubens Cristino. No outro dia aconteceu no mesmo palco a comemoração do sexto aniversario do popular programa de auditório “Domingo Alegre”, apresentado por Genar Wanderley, sendo os ingressos vendidos por apenas CR$ 3,60 (três cruzeiros e sessenta centavos)[13].

Logo foi anunciada a apresentação de Luiz Gonzaga.

Sucesso em Natal

Certamente ser supersticioso era algo que o grande Luiz Gonzaga não era, pois sua primeira apresentação na capital do Rio Grande do Norte ocorreu em uma sexta-feira, dia 13, do mês de agosto. E foi um sucesso!

Sabemos que os ingressos foram vendidos ao preço de CR$ 10,00 (dez cruzeiros). Um valor não tão elevado em 1954, equivalente a uma corrida de taxi para o que era considerado naquele tempo o perímetro urbano de Natal. Pois fora dessa área tudo era mais caro. Uma corrida para a praia de Ponta Negra custava R$ 80,00 (oitenta cruzeiros). Já para o Aeroporto de Parnamirim o valor saltava para R$ 100,00 (cem cruzeiros)[14].

Luiz Gonzaga trouxe “um repertório inteiramente novo, suficiente para um espetáculo completo”. Se aconteceu como foi descrito no jornal natalense O Poti, certamente o Rei do Baião tocou no palco do Alecrim Clube os sucessos produzidos no primeiro semestre de 1954. Tais como “Feira do gado” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas), “Velho novo Exu” (Luiz Gonzaga/Sylvio M. Araújo), “Olha a pisada” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas) “Lascando o cano” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas) e outros. A estes com certeza se juntaram aos sucessos criados do ano anterior, como a fantástica música “O xote das meninas”, a bela “Algodão” (ambas as composições fruto da parceria Luiz Gonzaga/Zé Dantas) e outros grandes sucessos. Os informes jornalísticos apontam que o auditório “superlotou” para assistir o Rei do Baião, sendo muito aplaudidas as apresentações musicais.

Da esquerda para direita vemos Aluízio, Luiz Gonzaga, o Velho Januário e o Anão do Xaxado, tal como se apresentaram em Natal – Fonte – http://www.forroemvinil.com/luiz-gonzaga-e-januario-em-fortaleza/

No sábado por volta das quatro da tarde, Luiz Gonzaga realizou aparentemente sozinho, uma entrevista na Rádio Poti. À noite, por volta das oito horas, nos estúdios da mesma rádio foi realizada uma nova apresentação musical com Luiz, seu pai e os instrumentistas, que O Poti informou ter sido transmitida em “ondas médias e curtas”.

Já no domingo a tarde, 15 de agosto, Luiz Gonzaga, o Velho Januário, Anão do Xaxado e Aluízio bisaram o show no palco do Alecrim Clube. Depois, às nove horas da noite, o grupo seguiu para o Auditório da Avenida Deodoro, que se encontrava completamente lotado para a despedida de Luiz Gonzaga de Natal. Eles tocaram no âmbito do programa “Domingo Alegre”, que contou com a apresentação do radialista Genar Wanderley. Na ocasião estava presente o jornalista Edilson Varela, representante dos Diários Associados no Rio Grande do Norte, o grupo de mídia e comunicação comandado por Assis Chateaubriand. Varela era também diretor dos jornais O Poti e Diário do Natal, além de responder administrativamente pela Rádio Poti.

Luiz Gonzaga diante do microfone de uma rádio.

Show em Currais Novos e Os Vários Retornos ao Rio Grande do Norte

Sabemos que provavelmente naquele agosto de 1954 o tocador Luiz Gonzaga, acompanhado de seu pai e seus instrumentistas, também estiveram na cidade potiguar de Currais Novos.

Segundo o blog “Pimenta com Mel”, do comunicador Felipe Félix, encontramos a informação transmitida por José Nobre de Medeiros, conhecido nessa cidade como Zénobre. Nascido em 1942 na zona rural currais-novense, no Sítio Saquinho da Malhada da Areia, Zénobre informou que viu Luiz Gonzaga em sua cidade em 1954, que assistiu a apresentação do pernambucano de Exu no coreto da Praça Cristo Rei e que o Rei do Baião foi patrocinado pela fábrica de bicicletas Monark[15].

Recebemos a informação do engenheiro civil Moacir Avelino Bezerra Junior e do seu irmão Haroldo Márcio Avelino Bezerra, Professor do IFRN de Mossoró, que nesse mesmo 1954, após uma possível apresentação em Mossoró, Luiz Gonzaga foi convidado pelo rico agropecuarista Francisco das Chagas Sousa, conhecido como Chico Sousa, para cantar na cidade de Afonso Bezerra. A apresentação para a população local foi realizada na carroceria de um caminhão.

Provavelmente nessa ocasião Luiz Gonzaga tocou em outras cidades potiguares, mas infelizmente não consegui dados sobre isso.

Perto do fim do mês Luiz Gonzaga está com o seu pai e seus dois instrumentistas em Recife, Pernambuco. Na noite de sábado, 21 de agosto, ele realizou uma apresentação no tradicional Clube Internacional, na Rua Benfica, no bairro da Madalena. Foi uma ação em prol da Sociedade Pernambucana de Proteção a Lepra, onde buscavam angariar fundos para a construção da Colônia de Férias de Olinda, destinada as crianças que sofriam dessa doença naquele estado[16].

Sobre as apresentações de Luiz Gonzaga no Rio Grande do Norte, percebemos que o sucesso foi total. Nove meses depois o tocador retornava para novos shows em Natal.

No início de maio de 1955 o pernambucano de Exu retornou para as novas apresentações junto aos auditórios da Rádio Poti sem trazer o Velho Januário. Estavam ao seu lado dois instrumentistas que não foram listados. O interessante é que dessa vez o patrocínio veio da empresa italiana de bebidas Martini & Rossi, que havia desembarcado no Brasil cinco anos antes e procurava se popularizar através do Rei do Baião[17].

O Rei do Baião era artista contratado da empresa RCA Victor, sendo um dos seus campeões de vendagem.

Como no ano anterior, as apresentações de Luiz Gonzaga em Natal foram cobertas de êxito.

Luiz Gonzaga Não Gostava de Natal e do Rio Grande do Norte?

E esse sucesso se repetiu ao longo dos anos, a cada nova apresentação desse incomparável sanfoneiro na capital potiguar.

Nota em jornal natalense para novas apresentações de Luiz Gonzaga na capital potiguar, após 1954.

Mas alguns pesquisadores afirmam que Luiz Gonzaga tinha uma relação negativa com Natal e o Rio Grande do Norte. Isso teria ocorrido em razão de alguns calotes que o mesmo teria levado de empresários de shows locais. Mas para quem pesquisa as páginas dos jornais antigos isso não fica aparente, pois são inúmeras as apresentações desse artista em Natal ao longo de décadas. Creio que dificilmente Rei do Baião retornaria a Natal para continuar sendo mal tratado e vilipendiado!

Propaganda das apresentações de Luiz Gonzaga em Natal no ano de 1956.

Além das apresentações de agosto de 1954 e de maio de 1955, ele retornou em dezembro de 1956 (quando se apresentou para o povão na Praça André de Albuquerque). Depois voltou em dezembro de 1960, no final de junho de 1961 e em fevereiro de 1962. Já no ano de 1975 esse artista esteve em Natal em duas ocasiões. A primeira no mês de março, no show de inauguração solene da Avenida Bernardo Vieira, quando estiveram no mesmo palco que cantou o Rei do Baião os potiguares Ademilde Fonseca, Trio Irakitan e Fernando Luís. A segunda em 9 de agosto, quando juntamente com o Trio Nordestino realizaram um show maravilhoso, para uma Praça Gentil Ferreira completamente lotada. Esse evento aconteceu no mesmo bairro do Alecrim onde Luiz Gonzaga tocou em Natal pela primeira vez no ano de 1954. Esses grandes músicos nordestinos participavam da chamada “Caravana do Sucesso”, uma série de shows por todo o Brasil, patrocinados por uma indústria de bebidas.

Luiz Gonzaga em Natal em agosto de 1975.

Desse momento posso comentar como testemunha ocular.

Garoto de oito anos de idade, assisti a esse show pendurado no pescoço, ou no cangote, do meu pai. Recordo dos potentes holofotes que iluminavam tudo, das milhares de pessoas que lotavam a principal praça do Alecrim e, principalmente, de Luiz Gonzaga com sua sanfona branca, seu chapéu de couro cintilando na mesma cor e de sua voz forte e marcante. Desse dia nunca esqueci que meu pai, Calabar Medeiros, me disse ao sairmos de nossa velha casa na Rua Borborema, no mesmo bairro do Alecrim, para ir assistir esse grande espetáculo – “Esse homem canta a alma da nossa terra, da nossa gente”.

Anos depois, no dia 23 de agosto de 1983, eu tive a oportunidade de assistir ao grande encontro de Luiz Gonzaga e do cantor Raimundo Fagner, além de outras grandes figuras da música nordestina. Foi no atualmente esquecido show “Canta Nordeste – Vozes contra seca”, no chamado movimento “SOS Seca”, que aconteceu no atualmente estádio de futebol Castelão de Natal, sendo uma iniciativa do Instituto Varela Barca. Foi verdadeiramente delirante se encontrar naquele local e acompanhar novamente Luiz Gonzaga, em uma interessante parceria com Fagner. Encontro que renderia três ótimos discos nos anos seguintes. Quis Deus que em 2010 eu conhecesse Raimundo Fagner e ele gentilmente realizasse o prefácio do meu segundo livro João Rufino – Um visionário de fé

Meu pai deixou esse plano no último dia 9 de julho de 2019 e, como meu pai me ensinou, eu jamais deixei de escutar as músicas de Luiz Gonzaga do Nascimento e de me emocionar com sua voz.

NOTAS


[1] Ver revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro-RJ, ano XXIV, nº 39, ed. 12 de setembro de 1952, págs. 21 a 23.

[2] Ver Radiolândia, Rio de Janeiro – RJ, Rio Gráfica Editora, ed. da 1ª quinzena de junho de 1954, pág. 11.

[3] Ver Folha de São Paulo, São Paulo-SP, edição de domingo, 19 de dezembro de 2010, in https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il1912201007.htm  

[4] Ver Diário de Pernambuco, Recife-PE, edição de 25 de agosto de 1954, pág. 11.

[5] Ver Radiolândia, Rio de Janeiro-RJ, Rio Gráfica Editora, ed. 4 de setembro de 1954, pág. 18.

[6] No pleito de outubro de 1954, Humberto Teixeira candidatou-se a deputado federal pelo Ceará na legenda do Partido Social Progressista, mas obteve apenas uma suplência. Ao longo da legislatura 1955-1959, exerceu o mandato em quatro ocasiões. Como deputado federal, obteve a aprovação da chamada Lei Humberto Teixeira, que permitiu a realização de caravanas para a divulgação da música popular brasileira no exterior. Concorreu à reeleição em outubro de 1958, mas não foi bem sucedido.

[7] Em segundas núpcias Januário se uniu a Maria Raimunda de Jesus, em 5 de novembro de 1960. Detalhes sobre sua vida ver https://fabiomota1977.wordpress.com/2006/11/21/seu-januario-o-mestre-dos-8-baixos/

[8] Sobre a participação de Osvaldo Nunes Pereira ver DREYFUS, Dominique. Vida do viajante: a saga de Luiz Gonzaga. São Paulo: Ed. 34, 1996, pags. 182 a 186.

[9] Sobre esse período áureo da Rádio Poti ver http://www2.carosouvintes.org.br/radio-poti-de-natal-narrando-as-primeiras-historias/. Sobre a apresentação de Sílvio Caldas ver jornal A Ordem, Natal-RN, ed. 21 de maio de 1948, pág. 7.

[10] Sobre essa festa ver o Diário de Natal, edição de 4 de novembro de 1950, pág. 6.

[11] O Alecrim Futebol Clube foi fundado no bairro do mesmo nome no ano de 1915 e o seu primeiro goleiro foi o futuro presidente da República do Brasil, João Café Filho. O Alecrim foi campeão de futebol potiguar nos anos de 1924, 1925, 1963, 1964, 1968 (Invicto), 1985 e 1986. Mais sobre esse tradicional clube ver https://www.campeoesdofutebol.com.br/alecrim_historia.html

[12] Sobre o Teatro do Bairro, ver Diário de Natal, edição de 9 de março de 1949, pág. 6.

[13] Ver jornal O Poti, Natal-RN, edição de 1º de agosto de 1954, pág. 8.

[14] Ver jornal O Poti, Natal-RN, edição de 7 de outubro de 1954, 1ª pág.

[15] Ver http://pimentacommelcn.blogspot.com/2012/01/o-rei-do-baiao-e-recordado-com-mais.html

[16] Ver Diário de Pernambuco, Recife-PE, edição de 21 de agosto de 1954, pág. 2.

[17] Ver jornal O Poti, Natal-RN, edição de 4 de maio de 1955, pág. 6.

GRANDE HOTEL – UM MARCO DE NATAL NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Um verdadeiro ícone do período da Segunda Guerra Mundial em Natal – Foto – Rostand Medeiros.

ROSTAND MEDEIROS – INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE -IHGRN

Antes mesmo de Natal se consolidar na segunda metade da década de 1920 como um importante ponto para a aviação mundial, o governador Juvenal Lamartine de Faria, que exerceu seu mandato entre 1928 a 1930, percebeu a necessidade de construir um hotel amplo e moderno, que atendesse as intensas transformações que o transporte aéreo projetava para o Rio Grande do Norte.

Planta original do Grande Hotel.

Na edição do jornal Diário de Natal, de 25 de novembro de 1948, na segunda página, encontramos um interessante relato da história do Grande Hotel, onde soubemos que o governador Lamartine chegou mesmo a adquirir um terreno na Ribeira para a construção de um hotel. Mas a sua deposição, como parte dos desdobramentos da Revolução de 1930 no Rio Grande do Norte, abortou essa ideia. Coube então ao Interventor Mário Leopoldo Pereira da Câmara a compra de um outro terreno. Este era localizado na esquina das Avenidas Duque de Caxias com Tavares de Lira, sendo fechado o negócio no dia 15 de outubro de 1935, quatorze dias antes desse político deixar o poder executivo estadual. O novo governador Rafael Fernandes de Gurjão deu prosseguimento a esse projeto. Vale ressaltar que por essa época algumas empresas aéreas já utilizavam a capital potiguar como escala em suas viagens ligando a Europa e os Estados Unidos até a América do Sul. Sendo constantes os pousos de hidroaviões no estuário do Rio Potengi e no Campo de Parnamirim, a vinte quilômetros do centro de Natal.

A partir de 1935 o arquiteto francês Georges Henry Mournier realizou os estudos e o projeto do Grande Hotel de Natal. Mournier chegou ao Brasil no dia 26 de outubro de 1927 e marcou sua carreira com inúmeras obras pelo Nordeste. Além do nosso Grande Hotel, esse francês foi o responsável em 1939 pelo projeto arquitetônico da Catedral Metropolitana de Fortaleza e do Cineteatro Pax, de Mossoró, construído no estilo Art déco. Coube a ele o projeto do Grande Hotel de Recife, do prédio da Prefeitura de Campina Grande, da urbanização do Parque Sólon de Lucena em João Pessoa, do Seminário de Garanhuns e outros mais[1].

Projeto da Escola de Aplicação do Instituto de Educação, em João Pessoa, Paraíba. Autoria de Georges Henry Mournier: Fonte – Revista O Cruzeiro, edição de 10 de dezembro de 1938, página 61.

Através do Decreto estadual nº 431, de 22 de fevereiro de 1938, o governador Rafael Fernandes contraiu um empréstimo para a conclusão da obra e o prédio foi inaugurado em maio de 1939. O total gasto na obra, segundo Itamar de Souza, foi de “1.607.856,500”. Mas o empreendimento só começou efetivamente a funcionar em setembro daquele ano[2].

Antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, o bairro comercial mais importante de Natal era a Ribeira. Era nessa região que se concentravam os principais órgãos de governo, onde estavam as estações ferroviárias e o porto. As avenidas Duque de Caxias, Tavares de Lira, largas e arborizadas e as praças José da Penha e Augusto Severo compunham o quadro, que mudou radicalmente com a inauguração do Grande Hotel.

O hotel, que possuía 76 apartamentos, foi então arrendado ao comerciante Theodorico Bezerra, proprietário da empresa Theodorico Bezerra & Cia., e membro da Associação Comercial. Segundo relatos da época Theodorico era uma das pessoas que mais entendia de hotelaria em Natal. Em uma reportagem do Diário de Natal de 23 de janeiro de 1985, página 3, ao rememorar quase 50 anos de atividade do Grande Hotel, Theodorico Bezerra informou que fora proprietário do Hotel dos Leões, do Hotel Independência, do Palace Hotel e do Hotel Internacional.

Theodorico Bezerra no Congresso Nacional, quando exercia o cargo de deputado federal na década de 1950.

Na edição de 1938 do Almanak administrativo, mercantil, e industrial do Rio de Janeiro, ou Almanak Laemmert, um ano antes da inauguração do Grande Hotel, na sua página 762, encontramos a informação que Natal possuía nessa época oito estabelecimentos de hospedagem. Eram estes o Hotel Avenida (Rua Nísia Floresta, 223), o Hotel Internacional (de propriedade do Sr. David França, localizado na Avenida Tavares de Lira, 115), o Palace Hotel, (também de David França, na Rua Chile, 106), a Pensão Brasil (na Rua Senador José Bonifácio, ou Rua das Virgens, nº 168), a Pensão Familiar (de Maria Cabral, na Rua Junqueira Aires, 417), a Pensão Moderna (na Rua Senador José Bonifácio), Pensão Rio Branco (de Olívio Gonçalves Guerra, Avenida Rio Branco, 456) e a Pensão Natal (Avenida Rio Branco).

Em 1942 Newton Tornaghi, então oficial da Marinha do Brasil com o posto de Capitão-tenente e imediato da corveta Jaceguai, publicou na edição de 05 de maio do Jornal do Brasil um interessante texto sobre a Natal que ele conheceu antes e durante a Guerra. Mesmo com a localização privilegiada, Tornaghi apontou que já na época de sua inauguração surgiram dúvidas entre os natalenses do sucesso do Grande Hotel. Achavam que o movimento do porto e das aeronaves que por Natal passavam “não comportavam tão avançado empreendimento”. O oficial naval percebeu o hotel como “bem organizado, com construção moderna”, mas “um pouquinho menor que o nome apontava e um pouquinho maior do que a cidade se acostumou a vê-lo”.

Esse relato do Capitão Tornaghi foi confirmado em 1970 pelo jornalista Djair Dantas, que publicou em uma interessante reportagem a decadência do Grande Hotel naquele período. Ao entrevistar o antigo funcionário José Santana Sobrinho esse narrou que os dois primeiros anos foram difíceis, pois “o homem do interior, por exemplo, não queria nunca hospedar-se aqui”[3].

Mas tudo mudou quando os primeiros norte-americanos chegaram à cidade. Estes foram os técnicos da ADP, com a função especifica de trabalhar no desenvolvimento de Parnamirim Field e foi para o Grande Hotel que eles se dirigiram em busca de algum conforto. Para Newton Tornaghi, com a chegada da guerra o Grande Hotel transformou-se em um local interessante, onde “falava-se todos os idiomas”.

Engenheiros americanos e, talvez, militaresamericanos, no Grande Hotel: Fonte –http://macauemdia.blogspot.com/2012/03/natal-no-tempo-da-2-guerra.html

E o movimento no local era intenso. Em um artigo sem autor conhecido, encontramos o comentário que diante do surpreendente movimento de estrangeiros na cidade, o “Grande Hotel hoje deveria ser em duplica, ou triplicata, para atender aos hóspedes”. Logo o inglês, depois do português, passou a ser o idioma mais falado nas dependências do hotel, bem como nos bares, restaurantes, boates e no comércio local[4]. Para Lenine Pinto o lugar era o “Espelho da Ribeira”. Do seu mezanino, que se abria sobre o restaurante, uma pequena orquestra tocava valsinhas na hora das refeições. Além dos estrangeiros, grandes figuras de projeção nacional e da máquina governamental de Getúlio Vargas se hospedavam no Grande Hotel, inclusive altas autoridades militares como os Generais Eurico Gaspar Dutra e João Batista Mascarenhas de Morais. O Almirante Ary Parreiras, construtor da Base Naval de Natal, só se hospedava com a família e o General Gustavo Cordeiro de Farias ficava sempre no quarto 216[5].

Ao rememorar no Diário de Natal de 23 de janeiro de 1985 seus momentos no Grande Hotel, Theodorico lembrou que instalou no hotel um cassino “com todo tipo de jogo” e cravou que foi “nessa época que ganhei mais dinheiro aqui no hotel”. José Santana Sobrinho comentou a Djair Dantas que o nome da casa era Casino Natal e que para abrir esse negócio Theodorico fez uma parceria com um “italiano chamado Bianchi”. Esse não era outro se não Alberto Quatrini Bianchi, descendente de italianos nascido em Rio Claro, São Paulo, proprietário, ou arrendatário, de casinos e hotéis no Rio de Janeiro, Guarujá, Recife, Poços de Caldas, Ouro Preto, São Luís do Maranhão, Niterói e outros lugares. Para o ex-fotógrafo da Marinha dos Estados Unidos John R. Harrison, em seu livro Fairwing Brazil – Tales of South Atlantic in World War Two (Schiffer Publishing, 2014, Atglen, PA, USA) , na página 200, o Grande Hotel estava sempre cheio e seu proprietário utilizou de considerável perspicácia política para obter uma licença que permitisse o funcionamento de um cassino naquele local. Provavelmente foi Bianchi que conseguiu essa liberação junto aos políticos, pois conhecia bem “o caminho das pedras” entre essas pessoas. 

Para Clyde Smith o hoteleiro Theodorico Bezerra quase perdeu a concessão que possuía para gerir o principal hotel de Natal. E a investida partiu do General Antônio Fernandes Dantas, caicoense de nascimento, que substituíra Rafael Fernandes à frente do executivo potiguar em 9 de junho de 1943, mas Clyde não explica a razão. Esse autor norte-americano comentou que realmente Theodorico ganhou muito dinheiro com os militares do seu país naqueles anos e, apesar do Observador Naval da Marinha dos Estados Unidos haver conseguido informações que apontavam tendências pró-germânicas por parte de Theodorico, os norte-americanos sempre foram tratados corretamente naquele estabelecimento[6].     

Uma visita que verdadeiramente marcou o Casino Natal foi a do ator hollywoodiano ‎Humphrey Bogart. Ele passou por Natal entre novembro e dezembro de 1943 e esteve no casino na noite de 30 de novembro, uma terça-feira, na companhia de um coronel chamado Wallace Ford e outras autoridades americanas[7]. Santana lembrou que no Cassino Natal o pianista Paulinho Lyra dedilhava um piano novo em folha, que foi comprado ao médico Januário Cicco.

Após sua passagem por Natal, o ator Humphrey Bogart realizou uma apresentação para as tropas americanas estacionadas no Norte da África: Fonte – https://humphreybogartestate.tumblr.com/post/51455706393/humphrey-bogart-on-stage-during-an-uso-event-in

Protásio Melo comentou que ao redor do Grande Hotel, que ele denominava “Quartel General dos americanos”, podia-se ver todo tipo de comércio improvisado, vendendo todo tipo de coisa aos estrangeiros. Havia desde saguis, papagaios, corujas, periquitos, rendas do Ceará, facas de ponta vindas de Campina Grande e toda uma “cavalaria” de alimárias para serem alugados para passeios e fotos. Protásio narrou também que viu nas mesinhas do bar do hotel artistas cinematográficos como Joel McCrea, Buster Crabbe, Bruce Cabot e Martha Raye, nomes famosos de Hollywood nas décadas de 1930 e 1940[8].

Para José Santana Sobrinho o Grande Hotel era uma das grandes referências para os visitantes da cidade, se não a principal. Pessoas ilustres, mesmo sem se hospedarem, por ali passavam para tomar uma bebida. Foi o caso da Madame Chiang Kai-Shek, ou de Oswaldo Aranha, então Ministro das Relações Exteriores do Brasil.

Oswaldo Aranha, Ministro das Relações Exteriores do Brasil em grande parte do período da Segunda Guerra Mundial, esteve no Grande Hote. Fonte: – http://www.chumbogordo.com.br/13817-oswaldo-aranha-e-o-tempo-de-gigantes-na-politica-por-cesar-maia/

Por viver lotado, Santana lembrou que teve gente como o famoso jornalista David Nasser, ou Paschoal Carlos Magno, então diretor de teatro e futuro Chefe de Gabinete do Presidente Juscelino Kubitschek, que foram obrigados a dormir mal acomodados em sofás, ou embaixo de escadas, quando estiveram no Grande Hotel.

Devido a lotação Theodorico Bezerra, que ficou conhecido no Rio Grande do Norte como “o majó”, alugou apartamentos nas proximidades, principalmente nos Edifícios Bila e Varela, na Avenida Duque de Caxias. Para José Santana Sobrinho, devido a sua categoria, não dava para o Grande Hotel hospedar náufragos de navios torpedeados que apareciam “nus da cintura para cima” e eles eram enviados para esses anexos. Nesses locais também ficavam os passageiros dos hidroaviões Boeing 314 Clipper, da Pan American Airways, que pernoitavam em Natal, seguindo viagem para ou sul do Brasil, ou em direção aos Estados Unidos.

Os passageiros dos hidroaviões Boeing 314 Clipper, da Pan American Airways que pernoitavam em Natal se hospedavam no Grande Hotel, ou em seus anexos.

Se a vinda dos militares norte-americanos trouxe reais benefícios a membros da elite social natalense, seguramente um destes, ou o principal, foi Theodorico Bezerra.

Após o fim da Segunda Guerra, mesmo com o declínio econômico e financeiro que Natal sentiu com a saída das tropas estrangeiras, a projeção e referência do Grande Hotel na vida do povo natalense atingiu níveis interessantes. Um desses casos é o da praça diante do estabelecimento, que se tornou durante muitos anos uma espécie de rodoviária informal da cidade. Chamada de Praça José da Penha, antiga Leão XIII, era um local de muito movimento e central em relação ao comércio da época. Ali se concentravam pelo menos quatro linhas de ônibus para o interior. De quarta aos sábados, a partir das cinco da manhã, partia um veículo para Caicó. Já para Macaíba havia duas viagens por dia, todos os dias da semana. No caso de Nova Cruz a linha funcionava de quarta aos domingos, a partir de duas da tarde. Já para Ceará-Mirim tinha ônibus todos os dias às quatro da tarde[9].  

Theodorico Bezerra continuou como arrendatário por 48 anos, até 1987, quando não apenas seu antigo hotel, mas todo o bairro da Ribeira já viviam um franco declínio.

Nos dias atuais o prédio do Grande Hotel é utilizado pelo Juizado Especial Central da Comarca de Natal, antes conhecido como Juizado de Pequenas Causas. Mas existe a informação que em um futuro breve a justiça potiguar deixar de utilizar esse local.

E o que acontecerá com o velho Grande Hotel?

NOTAS



[1] Ver A Ordem, Natal, 26/12/1947, pág. 7.

[2] Souza, Itamar. Nova História de Natal, 2. Ed. – Natal-RN: Departamento Estadual de  – Imprensa, 2008. Páginas 306 e 307.

[3] Ver Diário de Natal, ed. 30/11/1970, pág. 3.

[4] Ver A Ordem, Natal ed. 15/06/1944, pág. 4.

[5] Pinto, Lenine. Natal, USA. 2. Ed – Natal-RN: Edição do autor, 1995. Páginas 135 e 136.

[6] Smith Junior, Clyde – Trampolim Para a Vitória. 2. Ed. – Natal-RN: Ed. Universitária, 1999, Páginas 107 e 108.

[7] Ver O Diário, Natal, Ed. 01/12/1943, pág. 2

[8] Revista Século, Fundação Cultural Padre João Maria, ano IV, nº 4, dez. 1999, pág. 23.

[9] Ver A Ordem, Natal, Ed. 22/05/1948, pág. 9.

A GUERRA NO SERTÃO E O NOVO CANGAÇO: 86 MORTOS EM 15 BATALHAS ENTRE POLICIAIS E QUADRILHAS

Ciosac, atual Bepi: inspiração nas volantes que combateram o cangaço para enfrentar criminalidade no Sertão pernambucano – Foto: Rafael Furtado/ Folha de Pernambuco

Utilizando o levantamento realizado pelo Portal OP9, vemos uma verdadeira guerra entre policiais e assaltantes de bancos no Nordeste deixou rastro de quase 90 mortes, sendo 79 suspeitos, seis inocentes e um policial.

Fonte primária – https://www.op9.com.br/ne/noticias/novo-cangaco-86-mortos-em-14-batalhas-entre-policia-e-quadrilhas/

Fonte secundária – https://paraibaonline.com.br/2019/07/oito-envolvidos-em-assalto-sao-assassinados-no-cariri-da-paraiba-veja-imagens/

Utilizar o termo “Novo Cangaço”, como vem sendo chamado o fenômeno dos grupos criminosos fortemente armados que atacam instituições financeiras e comerciais, quase nada tem haver com o Cangaço dos tempos de Lampião. Talvez a imprensa nordestina utilize em abundância esse termo para buscar uma referência que possa enquadrar, classificar essa violência atual. Mas é uma referência que acredito ser muito pouco utilizável quando observamos o que foi o Cangaço e o que é essa bandidagem dos dias atuais. Não vejo nenhuma ligação mais expressiva, com exceção de uma coisa que para mim é bem clara – O medo que esses meliantes criam na população sertaneja, tal como acontecia na época dos cangaceiros.

E o medo é real, presente, forte e cada vez mais violento. Com certos aspectos, equipamentos, armas e números que não me fazem lembrar o combate aos cangaceiros que ocorria em tempos passados, mas algo mais próximo de uma conflagração. A situação atual é muito pior!

Talvez seja exagero de minha parte, mas tendo como base o interessante material produzido pelo Portal OP9, do Grupo Opinião de Comunicação, onde são apontados a morte de pelo menos 79 suspeitos de participação em quadrilhas de assaltos a bancos, carros-fortes e comércios, em confrontações contra forças policiais em cidades do interior do Nordeste desde setembro de 2017. O levantamento do Portal OP9 contabilizou 15 ocorrências fatais envolvendo policiais e integrantes desse chamado “Novo Cangaço”.

Seis pessoas inocentes e um soldado da PM também foram vítimas fatais da guerra contra os assaltantes.  Do total de mortes, 55 foram registradas entre 2017 e 2018, e 31 em 2019.

O último e sangrento episódio dessa verdadeira guerra ocorreu em 2 de julho de 2019, uma terça-feira, quando uma quadrilha formada por oito pessoas foram mortos durante operação conjunta das polícias militares de Pernambuco e da Paraíba.

De acordo com as autoridades o grupo era composto por seis homens, um deles um adolescente de 17 anos, e duas mulheres e faziam parte de um bando armado especializado em investidas contra bancos e comércios.

Uma parte do grupo era formada por suspeitos da participação de assaltos contra um mercadinho e uma casa lotérica na cidade pernambucana Santa Cruz do Capibaribe e do assassinato do policial militar André José da Silva. Fatos esses ocorridos na segunda-feira (1º). Já outra parte das pessoas envolvidas no caso tentava realizar o resgate dos comparsas na região. Ainda segundo as autoridades alguns integrantes desse grupo eram pessoas de uma mesma família e havia igualmente a viúva de um assaltante de banco.

Treinamento de policiais no sertão nordestino. Treinamento, capacitação, equipamentos adequados, apoio, valorização do policial, retaguarda tranquila são algumas das ações primordiais para o bom desenvolvimento da atividade – Fonte – https://www.facebook.com/ciosac.noticias/photos/pcb.343799999529916/343796366196946/?type=3&theater

A ação que culminou na morte dessas oito pessoas teve início quando os quatro suspeitos de praticarem os assaltos e o assassinato do policial em Santa Cruz do Capibaribe fugiram e se encontravam escondidos nas terras do Sítio Boi Brabo, localizado no limite entre os municípios de Riacho de Santo Antônio e Barra de São Miguel, ambos na Paraíba, e próximo a fronteira com Pernambuco. Os fugitivos foram localizados por volta das 3h30 pelos serviços de inteligência das policias estaduais, em uma área de matagal.

De acordo com o tenente-coronel Lúcio Flávio de Campos, comandante do 24° Batalhão da Polícia Militar de Pernambuco, quando outros quatro suspeitos chegaram ao local em dois carros para resgatar os demais. Nesse momento os policiais buscaram capturar o grupo, quando foram recebidos a tiros no local e se iniciou o confronto. Segundo o tenente-coronel Lúcio Flávio de Campos tentou-se a rendição, mas “Como já é uma prática desse tipo de criminosos, eles atentaram contra a vida dos policiais. Socorremos feridos para uma unidade de pronto atendimento, mas não resistiram. Eram extremamente perigosos”, afirmou o, comandante do 24° Batalhão da PM.

A Polícia Civil de Pernambuco informou que foram apreendidos com a quadrilha o dinheiro dos assaltos em Santa Cruz do Capibaribe, duas pistolas calibre 380, dois revólveres calibre 38 e uma espingarda de repetição calibre 12, além de munição. 

Viatura policial atingidas por vários disparos de arma de fogo — Foto: WhatsApp/Reprodução – Fonte – https://www.portaldiario.com.br/noticias/policial/425420/oito-suspeitos-de-envolvimento-na-morte-de-pm-sao-mortos-na-paraiba-vereador-faz-parte-do-grupo.html

Um dos mortos na operação foi o vereador da cidade pernambucana de Betânia, Andson Berigue de Lima, conhecido como Nanaca, do Partido Progressista. Ele teria ido resgatar o irmão, conhecido como Galego de Lena, suspeito de participação no crime em Santa Cruz do Capibaribe. Esse era o líder do grupo, formado ainda por um primo desses irmãos, conhecido como Edys de Gevan.

Ainda segundo a Polícia Civil de Pernambuco, além desses três, um dos mortos é um homem conhecido como Wellington Cabeludo, também da cidade de Betânia, e uma mulher identificada apenas como Jácia de Siba, que manteria um relacionamento amoroso com Galego de Lena. Wellington e Galego possuíam mandados de prisão expedidos em ações criminosas contra bancos.

Os corpos de seis homens e duas mulheres foram empilhados na caçamba de uma picape e levados pelos policiais até a UPA de Santa Cruz do Capibaribe. No caminho até a unidade de saúde, a população aplaudiu o comboio com os cadáveres enquanto os PMs respondiam acenando para os moradores. Em tom de desabafo, o comandante do 24º Batalhão chegou a discursar e foi bastante aplaudido. Ele disse que os criminosos reagiram à abordagem e que foram socorridos pelos policiais. Os corpos foram levados ao IML de Caruaru na tarde desta terça-feira (2).

A estratégia policial de atirar para matar vem dando resultados geralmente comemorados pelos secretários de Defesa Social do Nordeste. Também não é a primeira vez que os corpos dos suspeitos são empilhados em caçambas de veículos. Bastante descentralizadas e fortemente armadas, as quadrilhas de assaltos a bancos não costumam atuar no estado de origem, o que dificulta o trabalho de investigação.

Mortes em conflitos entre quadrilhas e policiais no Nordeste:

1 – Entre Janduís e Campo Grande (Rio Grande do Norte) – 03 de setembro de 2017.

As Polícias Militares da Paraíba e do Rio Grande do Norte apreenderam três fuzis, entre eles um AK-47, três espingardas calibre 12, duas pistolas, vários explosivos, sete coletes e dois carros, após um confronto que teve mais de meia hora de intensa troca de tiros, entre as cidades de Janduís e Campo Grande, Oeste do Estado do Rio Grande do Norte. Na ação, quatro criminosos que receberam os policiais a tiros foram baleados, ainda chegaram a ser socorridos pela própria PM, mas não resistiram e morreram. Eles fazem parte da quadrilha responsável por atacar, por volta das 4h40 da manhã, a agência do banco do Bradesco da cidade de Brejo do Cruz, no sertão da Paraíba.

2 – Lagoa Grande (Pernambuco) – 08 de novembro de 2017

Dois integrantes de uma quadrilha de assaltos a bancos e carros-fortes morreram em confronto com policiais da Companhia Independente de Policiamento Especializado na Caatinga (CIPE-Caatinga), da Bahia. Os suspeitos transitavam num veículo e foram interceptados na PE-555, em Lagoa Grande (PE), no Sertão do São Francisco. Durante a troca de tiros, três homens conseguiram fugir. A quadrilha vinha sendo monitorada pela Polícia Federal (PF) e a operação contou também com a participação da CIOSAC, equipe da Polícia Militar pernambucana especializada em combater a criminalidade no sertão.

Armas também foram apreendidas com suspeitos de ataques a bancos no interior de Alagoas — Foto: Ascom/Polícia Civil – Fonte – https://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/operacao-tem-mortes-e-prisoes-de-suspeitos-de-roubo-a-banco-em-agua-branca-al.ghtml

3 – Água Branca (Alagoas) – 14 de abril de 2018.

Dois homens suspeitos de envolvimento em assalto a agências bancárias morreram durante confronto com a polícia no município de Água Branca, Sertão de Alagoas. três pessoas foram presas, além disso, quatro fuzis, escopetas, dinamites e espoletas também foram apreendidos. Os detidos e o material foram levados para a delegacia em Delmiro Gouveia.-AL.

4 – Amontadas (Ceará) – 26 de julho de 2018.

Um confronto entre policiais civis e criminosos acusados de tráfico, assalto a banco, homicídios e furtos, terminou com três mortos e um agente ferido de raspão. A operação aconteceu em Amontada, Município localizado na Zona Norte do Estado do Ceará. De acordo com a Polícia Civil, a ocorrência tinha como objetivo capturar o trio, que já vinha sendo investigado pela Delegacia de Roubos e Furtos (DRF), e estava escondido na zona rural dessa cidade.

5 – Japaratuba (Sergipe) – 4 de setembro de 2018.

Uma troca de tiros entre policiais civis e um grupo suspeito de realizar assaltos em Sergipe deixou sete mortos na cidade de Japaratuba, além disso, foi apreendida uma grande quantidade de armas. A Secretaria de Segurança de Segurança Pública de Sergipe (SSP/SE), informou que ação policial tem ligação com a investigação de um assalto realizado a uma agência bancária na cidade Itabaianinha-SE, realizado no início do mês de agosto.

6 – Salgueiro (Pernambuco) – 26 de setembro de 2018.

Seis homens foram mortos e um ficou ferido quando tentavam roubar um avião de transporte de valores na pista de pouso do aeroporto de Salgueiro. O dinheiro seria utilizado para abastecer um banco da cidade. De acordo a Polícia Federal, os assaltantes invadiram a pista no momento da aterrissagem do avião e abordaram o os vigilantes dos carros-fortes que transportariam o dinheiro. Os suspeitos atiraram no piloto e o obrigaram a parar a aeronave. Com os suspeitos mortos, a polícia encontrou seis fuzis e uma metralhadora ponto 50 que estava instalada em um dos veículos utilizados. 

7 – Santana de Ipanema (Alagoas) – 8 de novembro de 2018.

Uma operação da Divisão Especial de Investigação e Capturas (Deic) de Alagoas, ocorrida na zona rural de Santana do Ipanema deixou 11 mortos.  O grupo estava envolvido em um assalto a uma agência do Bradesco, ocorrido na madrugada desta quinta-feira, em Águas Belas, no agreste de Pernambuco. Na operação, foram apreendidos explosivos, armas, dinheiro e uma caminhonete.

8 – Quixeré (Ceará) – 23 de novembro de 2018.

Uma tentativa de assalto a um carro-forte terminou com sete suspeitos mortos num confronto com a polícia em Quixeré. Seis fuzis e munições de diversos calibres, explosivos, coletes balísticos e outros artefatos foram apreendidos. O grupo criminoso estava dividido em três carros, em direção ao Rio Jaguaribe, para interceptar o carro-forte. O Gate foi ao local e foi recebido com disparos. Uma aeronave da Coordenadoria Integrada de Operações Aéreas (Ciopaer) deu apoio aos policiais em terra. A maior parte dos criminosos transitava entre São João do Jaguaribe, Limoeiro do Norte, Tabuleiro do Norte, Quixeré e Morada Nova. Dois eram potiguares.

9 – Bacabal (Maranhão) – 25 de novembro de 2018.

Um grupo de criminosos calculado em 50 homens assaltou duas agências bancárias, ateou fogo em veículos e atacou um quartel militar na noite deste domingo (25) na cidade de Bacabal (MA), que fica a cerca de 240 km de São Luís, capital do estado. Três suspeitos foram mortos no confronto com policiais, sendo um deles do Tocantins.

10 – Milagres (Ceará) – 07 de dezembro de 2018

Uma tentativa de assalto a duas agências bancárias na cidade de Milagres, distante 482 km de Fortaleza, no estado do Ceará, deixou doze mortos, sendo seis suspeitos do crime e seis reféns, cinco destes de uma mesma família. Antes da investida em Milagres, a mesma organização já tinha participado de assaltos a bancos, incluindo um em Belo Jardim e outro em Santa Cruz do Capibaribe,  ambas em Pernambuco. Esse crime foi o de maior número de mortos envolvendo civis. 

11– Arapiraca (Alagoas) – 24 de fevereiro de 2019.

Quatro suspeitos foram mortos durante confronto com a Polícia Militar na madrugada do dia 24 de fevereiro após ação criminosa na agência dos Correios no município de Arapiraca, em Alagoas. Eles são suspeitos de integrar uma quadrilha de roubo a banco em Mato Grosso com atuação em outros estados. Outros três membros da quadrilha foram presos em Maceió.

12- Lauro de Freitas (Bahia) – 13 de maio de 2019.

Três suspeitos de fazer parte da quadrilha que atacou a agência do Banco do Brasil na cidade de Barreiras, oeste da Bahia, foram mortos na tarde do dia 13 de maio em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador. A PM baiana informou que os suspeitos estavam em uma pousada e reagiram quando foram baleados.

13- Cocal (Piauí) – 5 de maio de 2019.

Seis suspeitos foram mortos em confronto com a polícia na zona rural de Cocal, no Norte do Piauí. Outros três foram localizados em um acampamento na região da cidade de Barras e o resultado foi o mesmo. Os grupo faria parte de uma quadrilha de roubos a bancos de Minas Gerais e teriam participado do assalto a duas agências bancárias que ocorreu no dia 30 de março, na cidade de Campo Maior, também no Piauí. Outros cinco membros do grupo foram presos.Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Piauí, todos foram mortos após reagirem à prisão.

14 – Lagarto (Sergipe) – 03 de abril de 2019.

O Complexo de Operações Policiais Especiais (Cope) da Polícia Civil e a Polícia Militar de Sergipe desencadearam no município de Lagarto uma operação que resultou na prisão de três integrantes de uma quadrilha baiana especializada em assaltos a banco. Seis integrantes da organização criminosa reagiram à prisão e foram mortos em confronto. Segundo investigação, eles pretendiam explodir as agências bancárias do município de Simão Dias, e se esconderam em uma casa no Povoado Açu Velho, na cidade de Lagarto, onde houve o confronto com a polícia.

15- Barra de São Miguel (Paraíba) – 02 de julho de 2019.

Um policial militar e oito suspeitos morreram durante uma ação de uma quadrilha de assaltos a bancos no Agreste de Pernambuco no dia 1º de julho. Após parte da quadrilha assassinar um soldado da PM, oito integrantes do grupo foram mortos pelas PMs da PB e de PE em Barra de São Miguel, na Paraíba.

O OP9 é o portal que integra o maior grupo de comunicação do Nordeste. Cinco emissoras de TV e uma de rádio compõem o Sistema Opinião: TV Clube/Record (Pernambuco), TV Ponta Negra/SBT (Rio Grande do Norte), TV Borborema/SBT (Campina Grande), TV Manaíra/Band e Rádio Band News FM (João Pessoa) e TV Ponta Verde/SBT (Alagoas). Esse grupo de comunicação alcança mais de 50 milhões de pessoas mensalmente, em média.

Ver – https://www.op9.com.br/

A INCRÍVEL HISTÓRIA DO ADOLESCENTE BAIANO QUE PEDALOU DE SALVADOR A NOVA YORK 90 ANOS ATRÁS

Rubens partiu de sua cidade natal, com roupa de escoteiro, para ir pedalando rumo à que era na época a maior metrópole do mundo.

Lucas Froés – De Salvador para a BBC News Brasil

Fonte – https://www.terra.com.br/noticias/brasil/a-incrivel-historia-do-adolescente-baiano-que-pedalou-de-salvador-a-nova-york-90-anos-atras,61907d6d68637c1f48582c4e2c9b951aotwxwie7.html?fbclid=IwAR1WN_g7-Iei5MUMiohtMJcUVtnpzNDcZZ-qqSmLdRoI-9OWlWzaQYiw6Ro


Rubens Pinheiro na chegada em Nova York – Foto: Arquivo Família Pinheiro / BBC News Brasil

Rubens Pinheiro da Costa foi um sujeito inquieto desde criança, quando suas estripulias eram punidas com castigos que levavam suas mãos à palmatória.

Quando cresceu um pouco, o baiano manifestou seu anseio por liberdade com uma fuga malsucedida de casa. Depois, aos 16, resolveu ir andando de Salvador até o Rio de Janeiro. A andança abriu caminho para uma aventura ainda maior: um inédito percurso de bicicleta de Salvador a Nova York. Uma façanha que pode até não parecer tão inusitada nos dias de hoje, não fosse um detalhe: Rubens fez isso 90 anos atrás.

Era 15 de março de 1927 e faltavam cinco meses para o jovem completar 18 anos. Medindo 1,70 m e pesando 65 kg, partiu de sua cidade natal, com roupa de escoteiro, para ir pedalando até o que era na época a maior metrópole do mundo. Ele acordou cedo, despediu-se da mãe e da irmã, e foi para a porta do jornal Diário de Notícias. Com direito a fogos, curiosos e cobertura da imprensa, um grupo de mais de 100 ciclistas lhe fez companhia no início do trajeto.

Rubens Pinheiro da Costa

Entre 1927 e 1929, pedalando na sua bicicleta da marca alemã Opel, Rubens Pinheiro percorreu o continente americano num trajeto sinuoso de mais de 18 mil km, atravessando a fronteira de 11 países.

A vontade de realizar a façanha surgiu quando ele estava no Espírito Santo, andando a caminho do Rio, e cruzou na estrada com o pernambucano Mauricio Monteiro, que fazia uma viagem de bicicleta de Recife até Buenos Aires. Depois de recusar um convite para seguirem juntos, Rubens ouviu Mauricio fazer valer a rivalidade entre os dois estados e ironizar a falta de coragem dos baianos. Rubens então jurou ali mesmo que faria uma viagem ainda maior que o do seu involuntário incentivador.

Para conseguir dinheiro para a viagem, ele pediu doações a comerciantes em Salvador, conseguindo juntar dez mil réis que levou num saco de lona junto com poucas roupas, uma arma e um livro feito especialmente para a viagem, com capa de couro de cobra e páginas em branco para serem preenchidas como uma espécie de diário de bordo.


A notícia da proeza do baiano Rubens Pinheiro da Costa no jornal Standard Union, de Brooklyn, Nova York.

“Estou disposto a tudo, inclusive a passar sede e fome, sofrer aborrecimentos, raspar sustos (e que Deus me livre das sussuaranas e das jararacas!), carregar a bicicleta nas costas. Quero conhecer Nova York sem ser em fotografia”, declarou ao Diário de Notícias no dia de sua partida.

Ele seguiu para a cidade vizinha de Santo Amaro da Purificação, para despedir-se de Euthymia, sua namorada. Ela lhe deu uma foto dela para que, quando Rubens chegasse em Nova York, fosse publicada junto com a dele pela imprensa norte-americana.

Seguindo pelo interior da Bahia, Rubens colidiu com a bicicleta de um ciclista com quem apostava corrida, danificando sua Opel, que teve de ser levada de trem para ser consertada em Salvador. Ele desistiu de esperar por ela e pegou outro trem de volta para a capital, para resgatar a bicicleta. Aproveitando a Semana Santa, resolveu ficar mais uns dias com a família, o que levou as pessoas que o encontravam na rua a questioná-lo em tom de ironia: “Já voltou de Nova York?”.

Encontros com a história

Rubens retomou sua jornada e não parou mais. Para sobreviver na estrada, fazia o possível para arrecadar o dinheiro necessário para continuar. Para isso, gostava de exibir-se em praça pública fazendo manobras com sua bicicleta em cada cidade a que chegava. Aprendeu também que deveria logo visitar a imprensa local para alardear sua presença, o que rendia ajuda de políticos e comerciantes.


Rubens Pinheiro na estrada – Foto: Arquivo Família Pinheiro / BBC News Brasil

“Fiz, na praça principal de Santo Amaro, umas piruetas, umas voltas de fantasia na minha Opel que arrancaram palmas do povo. Gosto das saídas bonitas, confesso que esse é o meu fraco”, contou ao jornal carioca A Manhã, em 1929.

No caminho, ele tinha a estrada e a história à sua frente. No interior baiano, encontrou um acampamento abandonado que servira à Coluna Prestes. No Pará, ficou impressionado com a imensidão do Rio Amazonas, mas no Alto do Rio Negro teve que passar um dia em cima de uma árvore, em plena Floresta Amazônica, esperando que uma onça desistisse de querer almoçá-lo.

Ao cruzar a fronteira do Brasil, Rubens chegou à Venezuela enviando um telegrama de felicitações e uma carta pedindo ajuda ao então presidente do país, o ditador e general Juan Vicente Gómez. O mais poderoso político venezuelano da época lhe retribuiu com uma contribuição de 5 mil bolívares.


Caderno de viagem de Rubens – Foto: BBC News Brasil

No Panamá, Rubens encontrou a ocupação dos Estados Unidos na Zona do Canal, mas fez amizade com os oficiais, que lhe presentearam com uma volta de avião que mais lhe pareceu uma montanha-russa aérea. Na Nicarágua, de novo encontrou-se com tropas americanas, mas dessa vez acabou capturado temporariamente pelo fuzileiros navais, que o confundiram com um guerrilheiro.

O país vivia em estado de sítio e tentava se libertar do domínio dos Estados Unidos. Em suas memórias, Rubens garante que teve na estrada a companhia do revolucionário Augusto César Sandino, líder da luta contra os invasores e ideólogo do movimento sandinista que hoje é partido político.

Quando ele chegou à Cidade do México, em janeiro de 1929, uma grande recepção o aguardava. Centenas de ciclistas o acompanharam até a embaixada do Brasil, onde ficou hospedado. Depois, foi recebido pelo presidente Emilio Portes Gil, que lhe deu um cheque de 5 mil pesos.

Rubens pôde então partir para os Estados Unidos no fim do período conhecido como Roaring Twenties, marcado pelo jazz, pelas Melindrosas, pela emancipação feminina, além da crescente presença do rádio e do cinema. Uma época de otimismo que acabaria ainda naquele ano, com a quebra de Bolsa de Valores de Nova York e a Crise de 29. Para chegar à Big Apple, ele percorreu boa parte do leste do país, dividindo as estradas asfaltadas com enormes carretas.

Às 14 h do dia 1.º de abril de 1929, depois de passar dois anos pedalando, o ciclista Rubens Pinheiro chegou a Nova York. Ele não tinha mais a foto da namorada, que perdera no início da viagem, ainda na Bahia, desesperando-se, mas colecionou novos amores durante a viagem.

“Agora estou quebrado. É bom ver Nova York! É bonita, mas tão grande! Eu vou voltar ao Brasil tão logo eu possa rodar e ver a cidade”, disse à imprensa local, segundo contou em suas memórias.

Os brasileiros residentes no Brooklyn organizaram um banquete em homenagem a Rubens. Sem roupa adequada para a ocasião, ele teve que vestir as do atarracado cônsul-geral do Brasil, Sebastião Sampaio, o que levou a turma do Brooklyn a comprar um terno para Rubens e evitar o constrangimento. Sampaio ainda telegrafou ao ministro das Relações Exteriores, o baiano Octávio Mangabeira, solicitando uma recompensa para Rubens, mas nunca foi atendido.

Rubens passou a residir no sótão da casa de número 13 da Union Street, no Brooklyn. Ele trabalhou lavando pratos em restaurantes e depois na General Motors. Em junho, quando seu visto de permanência terminou, retornou ao Brasil.

De volta à realidade

Na volta ao Brasil, a bordo do navio Southern Cross, Rubens tinha a esperança de ser recebido com honras no porto do Rio de Janeiro, que estava preparado para uma ocasião festiva.

Mas a homenageada era uma passageira da primeira classe, a Miss Brasil Olga Bergamini de Sá, que voltava do concurso de Miss Universo em Galveston, nos Estados Unidos.

Ofuscado pela beleza alheia, Rubens tratou de buscar reconhecimento. Ele foi a uma audiência pública com o presidente Washington Luís, no Palácio do Catete. Durante sua andança de Salvador ao Rio de Janeiro, Rubens aprendera a andar de bicicleta em Macaé, cidade natal do presidente, mas nem teve tempo de lhe contar.

O último mandatário da República Velha logo o dispensou: “O Brasil mandou você fazer alguma coisa?”, disse, segundo relato de Rubens, o presidente – que seria deposto no ano seguinte pela Revolução de 30.

Na antiga capital do país, Rubens foi ajudado pelo francês Louis La Saigne, diretor das lojas Mesbla, em troca de deixar a bicicleta exposta na vitrine. Também no Rio, o jornal A Manhã publicou, em capítulos, parte das histórias da viagem, com base em entrevistas com ele e com o que registrou no livro que levou a bordo da Opel.

De volta a Salvador, uma missa na Igreja do Bonfim, organizada pelo próprio Rubens, levou uma multidão de curiosos para saudá-lo. Na saída da igreja, ele se exibiu para o público pedalando de costas na escadaria e na ladeira do Bonfim, sendo ovacionado.

Aplausos ele receberia de novo em 1934, quando um circo chegou a Salvador oferecendo um conto de réis a quem se aventurasse no globo da morte. Rubens ganhou o prêmio e seguiu com o circo, mas acidentou-se seriamente após uma sequência de loopings, três anos depois.

Legado

Durante o resto de sua vida, Rubens não obteve outros reconhecimentos pela viagem.

O único momento em que sentiu-se homenageado foi em 1979, quando a façanha completou meio século. Uma nova missa foi realizada na Igreja do Bonfim e uma comemoração na Praça Municipal teve direito a um bolo de 50 metros de altura, confeccionado por alunos da Faculdade de Engenharia, que também puseram nele 50 lâmpadas e construíram uma plataforma interna para que uma das netas de Rubens surgisse no topo do bolo.

No mesmo ano, ele contou suas memórias num livrinho azul de meras 68 páginas, vendido por ele mesmo, agora a bordo de uma cadeira de rodas que o acompanhou em seus últimos anos. No texto, queixou-se da sorte comparando-se a Ícaro, filho de Dédalo na mitologia grega, e se disse um “herói esquecido”.

Filha mais velha de Rubens, Olga Pinheiro foi batizada em homenagem à miss Brasil Olga Bergamini de Sá. Aos 87 anos, é ela quem guarda o livro de viagem com capa de couro que, além dos relatos de Rubens, leva a assinatura de presidentes, autoridades e testemunhas da viagem em bicicleta do pai.


Celebração pelos 50 anos da viagem, na Igreja do Bonfim – Foto: Arquivo Família Pinheiro / BBC News Brasil

Um dos netos, também chamado Rubens Pinheiro, é ciclista como o avô e participa de provas de resistência. “Meu avô significa tudo, ele pra mim é a representação de que nada é impossível como atleta”, define.

Passados os festejos pelo jubileu, restou o esquecimento. Rubens Pinheiro morreu em 1981, aos 71 anos, sem que sua história tivesse percorrido as mesmas distâncias que ele e sua bicicleta Opel.

SOBREVOOS E HISTÓRIAS VIVIDAS NA GUERRA

A queda Catalina PBY-5A de uso da Marinha dos Estados Unidos em Riachuelo, nos anos 1940, é apenas um episódio dentre muitos marcantes e curiosos sobre a Segunda Guerra, nas pequenas cidades do Rio Grande do Norte. O historiador Rostand Medeiros reuniu boa parte delas no livro “Sobrevoo: Episódios da Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte”, Por conta da pesquisa os diplomatas americanos Daniel Stewart e Stuart Beechler, vieram ao RN conhecer essas e outras histórias ocorridas há 75 anos

Ramon Ribeiro repórter.

Publicado originalmente no jornal TRIBUNA DO NORTE, no Caderno VIVER, primeira página.

Em 1944 não era comum se ver aviões no céu de Riachuelo, no agreste potiguar. Na época a cidade pertencia ao município de São Paulo do Potengi. O número de habitantes era pequeno e os moradores viviam nas fazendas espalhadas pela região. O vaqueiro Chico Inácio era um deles. No dia 10 de maio daquele ano, esse trabalhador realizava as atividades habituais em suas terras quando avistou uma aeronave cruzar o céu. A novidade chamou sua atenção, mas havia algo estranho. A aeronave – um hidroavião PBY-5A de uso da Marinha dos Estados unidos soltava fumaça. O vaqueiro não só notou que havia algum problema como assistiu subitamente a aeronave vir ao chão, um pouco mais à frente de onde estava, levantando uma bola de fogo. Chico Inácio cavalgou até o local do acidente. Foi o primeiro a chegar. E o que encontrou o marcou para sempre.

Um Catalina sobrevivente da Segunda Guerra, em um museu da Flórida, Estados Unidos.

O acidente deixou dez mortos, todos americanos e integrantes do Esquadrão de Patrulha VP-45, da Marinha dos EUA. Com a explosão da aeronave os corpos dos oficiais ficaram aos pedaços. Mas os moradores da região tiveram a sensibilidade de reunir as partes das vítimas e dar o devido sepultamento no cemitério da cidade, onde lá permaneceram até 1947, quando houve a transferência para os EUA dos restos mortais dos 214 militares americanos  enterrados em solo potiguar.

A história da queda do Catalina em Riachuelo foi resgatada com detalhes pelo historiador Rostand Medeiros no seu mais novo livro: “Sobrevoo: Episódios da Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte”. A obra integra a coleção “A participação do Rio Grande do Norte na Segunda Guerra Mundial” lançada na semana passada pela editora Caravela Selo Cultural.

O Senhor José Lourenço comprimenta os visitantes norte-americanos para narrar fatos sobre o acidente.

Em razão da pesquisa do historiador potiguar, os diplomatas americanos Daniel Stewart e Stuart Beechler, do Consulado Geral dos Estados Unidos em Recife, foram até Riachuelo para conhecer as histórias locais sobre o acidente. A visita aconteceu no final de março e na ocasião ficou acertada com a Prefeitura do município a realização de um evento de caráter educativo em memória dos militares mortos e em homenagem aos riachuelenses pela sensibilidade de enterrar seus corpos.

Com membros do Consulado Geral dos Estados Unidos em Recife visitando a área da queda da aeronave.

Segundo Rostand, o evento irá ocorrer no próximo dia 10 de maio, exatamente 75 anos depois da tragédia. Além de representante do consulado americano, estará presente a Banda de Música do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil. Na ocasião será feito o descerramento de uma placa com o nome dos dez militares mortos.

Região do desastre.

“O pessoal da cidade teve uma boa atitude em relação aos que morreram. Foi o que mais chamou a atenção dos americanos, a forma como aquele povo humilde cuidou da situação. Por isso eles querem vir à Riachuelo enaltecer esse fato”, diz Rostand em entrevista ao VIVER. “Riachuelo era uma cidade muito pequena, com poucos habitantes. Mas a população se uniu para encontrar os pedaços dos corpos e levar até o cemitério percorrendo uma distância de 20 km de carro de boi, para dar um enterro digno à tripulação”.

Segunda Guerra para além da capital potiguar

Por ter assistido aqueda do avião e ter sido o primeiro a chegar no local da tragédia, o vaqueiro Chico Inácio foi durante muito tempo uma das principais fontes de informação sobre o fato. Mas, já falecido, suas memorias são contadas pelos riachuelenses que nunca deixaram essa história ser esquecida.

No entanto, ainda há na cidade testemunhas vivas do acidente, como Seu José Lourenço Filho, de 90 anos. Foi uma das fontes principais da pesquisa de Rostand, que ainda contou com fontes bibliográficas e acesso a documentos oficiais da Marinha Americana.

Documentos originais da Marinha dos Estados Unidos foram utilizados na pesquisa.

De acordo com o historiador potiguar, a história referente a participação potiguar na Segunda Guerra Mundial é muito centrada em Natal e em Parnamirim. Nesse sentido ele buscou com o livro narrar fatos que aconteceram nas cidades do interior.

Uma das funções principais do hidroavião Catalina durante a Segunda Guerra era a caça e destruição de submarinos inimigos.

“Quedas de aviões aconteceram várias. Uma notória foi em Ipanguaçu, com um avião inglês, em que morreram três pessoas. No local do acidente a população colocou um cruzeiro que até hoje existe. Mas é fato que a maioria das quedas era no mar. Na praia de Muriú, por exemplo, caiu uma B-17”, lembra Rostand, que atenta para como cada localidade trata dessas memórias. “Em Natal e Parnamirim, como são cidades que se desenvolveram muito, essas histórias perderam um pouco de força. No interior, não. Você indo lá você vê que elas permanecem e são lembradas até pelos jovens”.   

Nas 366 páginas de “Sobrevoo: Episódios da Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte”, o leitor vai se deparar com vários outros tipos de histórias. O autor detalha o fim da guerra a partir da ótica dos mossoroenses; traça o perfil do motorista do presidente Roosevelt em visita à Natal; descreve as manifestações políticas durante o período da Guerra. “As manifestações de rua eram muito expressivas. Luiz Maranhão era um dos mais inflamados”, diz Rostand. Outra história, uma das mais curiosas, é a de “Jock”, um papagaio potiguar adotado como mascote pelos americanos, chegando inclusive a voar nos combates nos céus da Europa. “Sobrevoo: Episódios da Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte” está a venda na livraria Cooperativa Cultural, na UFRN, e pode ser encontrado no valor de R$ 60,00.          

MEMBROS DO CORPO DIPLOMÁTICO DOS ESTADOS UNIDOS NO BRASIL VISITARAM A CIDADE DE RIACHUELO PARA CONHECER A HISTÓRIA DO DESASTRE DE UM HIDROAVIÃO CATALINA OCORRIDO DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

VIERAM IGUALMENTE DEBATER SOBRE AS HOMENAGENS À TRIPULAÇÃO DESSA AERONAVE, QUANDO ESSE EPISÓDIO HISTÓRICO COMPLETARÁ 75 ANOS EM 10 DE MAIO PRÓXIMO.  

Foto de um hidroavião PBY-5A Catalina, do VP-45, junto com militares desse esquadrão de patrulha aérea da Marinha dos Estados Unidos – Fonte – NARA – através do pesquisador Rostand Medeiros.

Fonte – Prefeitura Municipal de Riachuelo-RN

Em 29 de março de 2019, estiveram em Riachuelo o diplomata Daniel A. Stewart e funcionário do Consulado Geral dos Estados Unidos em Recife Stuart Alan Beechler.

A Prefeita Mara Cavalcanti junto ao diplomata americano Daniel A. Stewart, do Consulado Geral dos Estados Unidos em Recife- Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Entre os objetivos da visita estava um encontro com a prefeita Mara Cavalcanti para conhecer aspectos gerais o município e buscar detalhes sobre o acidente de um hidroavião modelo PBY-5A Catalina da Marinha dos Estados Unidos, ocorrido em 10 de maio de 1944, em pleno período da Segunda Guerra Mundial.

Nesse dia a quase 75 anos, em um dia bastante nublado, por volta das 3 da tarde, antigos membros da nossa comunidade testemunharam a queda e destruição dessa aeronave a cerca de 20 quilômetros da pequena Riachuelo, onde então viviam cerca de 200 habitantes.

Foto da época da Segunda Guerra Mundial de um hidroavião Catalina, igual ao que se acidentou próximo a Riachuelo– Fonte – NARA – através do pesquisador Rostand Medeiros.

No desastre pereceram dez aviadores navais americanos, entre eles o oficial Calder Atkinson, Comandante do esquadrão de patrulha antissubmarino VP-45, que nesse período tinha base em Belém, estado do Pará. Nessa época as forças armadas brasileiras lutavam em conjunto com militares dos Estados Unidos contra as ações beligerantes dos submarinos alemães e italianos no Oceano Atlântico, que atacaram e destruíram vários navios mercantes brasileiros e de outros países. O Catalina do VP-45 que caiu próximo a nossa cidade era uma das aeronaves que participavam das ações de combate.

Outra visão de um Catalina– Fonte – NARA – através do pesquisador Rostand Medeiros.

Em meio aos destroços foram encontrados os corpos desfigurados do Comandante Calder Atkinson e nove outros tripulantes. Mesmo diante do quadro sinistro, os nossos antepassados tiveram todo o cuidado para trazer esses restos mortais para o cemitério da cidade, onde foram enterrados com todo o respeito, dignidade e atenção.

Foto do Comandante Calder Atkinson, que pereceu na queda do Catalina em 10 de maio de 1944– Fonte – NARA – através do pesquisador Rostand Medeiros.

Essa atitude honrada do povo riachuelense chamou à atenção de Daniel Stewart e Stuart Beechler, que informaram que o Consulado Geral dos Estados Unidos em Recife vai participar das homenagens planejadas pela nossa administração municipal para marcar os 75 anos desse episódio. Nessa ocasião estará presente em nossa cidade o Sr. John Barrett, atual Cônsul Geral dos Estados Unidos na capital pernambucana.

Os visitantes que estiveram em Riachuelo. Da esquerda para a direita vemos os Srs.
Stuart Alan Beechler e Daniel A. Stewart , do Consulado Geral dos Estados Unidos em Recife, seguido de Rostand Medeiros , escrito e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e o Capitão de Mar e Guerra Fuzileiro Naval (R.R.) Edison Nonato de Faria
– Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Além dos membros dessa representação diplomática e do executivo municipal, vão participar das homenagens a Marinha do Brasil, que estará presente com a Banda de Música do Corpo de Fuzileiros Navais e uma representação oficial do Terceiro Distrito Naval de Natal. Apoiando esse importante intercâmbio entre a Marinha e a Prefeitura de Riachuelo, contamos com a inestimável participação do Capitão de Mar e Guerra Fuzileiro Naval (R.R.) Edison Nonato de Faria, que também esteve junto aos americanos na visita a nossa cidade.

Reunião dos visitantes junto com a Prefeita Mara Cavalcanti – Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Esse episódio histórico é bastante conhecido dos habitantes da nossa comunidade. Mas recentemente o escritor e pesquisador Rostand Medeiros, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN esteve em Riachuelo em busca de maiores informações sobre o acidente. Esse pesquisador desejava conseguir mais subsídios para o desenvolvimento de um livro sobre a Segunda Guerra no Rio Grande do Norte. Na realização dessa pesquisa Rostand Medeiros contou com o apoio de Aílton de Freitas Macedo, Secretário de Administração de Riachuelo, que buscou ajudar com todas as informações possíveis.

O Secretário de Administração Aílton Freitas apresentando um dos possíveis locais para a realização do evento dia 10 de maio– Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Uma das últimas testemunhas diretas desse episódio é o Sr. José Lourenço Filho, que foi entrevistado, como também moradores da zona rural e sítios da região. O resultado dessa pesquisa é um dos capítulos do livro “Sobrevoo – Episódios da Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte”, lançado em 2 de abril do corrente na sede estadual do SEBRAE-RN, que apoiou a confecção dessa obra.

Livro onde está inserido o episódio da queda dessa aeronave próximo a Riachuelo em 1944. Segundo Rostand Medeiros esse livro faz parte da coleção “A participação do Rio Grande do Norte na Segunda Guerra Mundial”, coleção de três livros produzida pela editora Caravela Selo Cultural e apoio do SEBRAE-RN. Fazem parte dessa coleção os livros “A engenharia norte-americana em Natal na Segunda Guerra Mundial”, de Leonardo Dantas de Oliveira, Osvaldo Pires de Souza e Giovanni Maciel de Araújo Silva., além da obra “Observações sobre a Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte”, reunindo artigos científicos e organizados pelo escritor e editor da Caravela José Correia Torres Neto .

Rostand Medeiros igualmente esteve acompanhando Daniel Stewart e Stuart Beechler nessa visita.

Por volta de oito da manhã eles chegaram à sede da prefeitura, onde mantiveram uma reunião preliminar com a Prefeita Mara Cavalcanti, Secretário de Administração Aílton Freitas e Sara Gardênia, Secretária Adjunta. Nesse contato ficou definido como será a realização do evento de caráter histórico/educativo do próximo dia 10 de maio e foram tratados aspectos como a localização da cerimônia e a participação das entidades envolvidas. Depois os visitantes percorreram vários locais da cidade, seguindo para um encontro com o Sr. José Lourenço Filho, que bastante emocionado recebeu a todos e narrou alguns fatos relativos ao episódio corrido em maio de 1944.

O Sr. José Lourenço Filho rememorando para os americanos o episódio de 10 de maio de 1944
– Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Depois a comitiva seguiu para o Cemitério Municipal, onde os funcionários americanos desejaram conhecer o local onde foram depositados pelos Riachuelenses os restos mortais dos dez aviadores navais. A cova coletiva ficava na área antiga dessa necrópole, junto ao muro da parte posterior desse local. Um dado interessante narrado pelo pesquisador Rostand Medeiros é que na atualidade esses aviadores navais se encontram sepultados em um cemitério militar no estado de Illinois, Estados Unidos, onde seus despojos estão reunidos em um único túmulo, tal como em Riachuelo. 

O grupo de visitantes, tendo à frente o Secretário Aílton Freitas visitando o local onde os aviadores navais do seu país foram enterrados em 1944 – Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Antes do grupo seguir para o local onde a aeronave Catalina caiu, de forma surpreendente eles puderam conhecer um objeto original oriundo dos destroços: uma colher de prata com o símbolo da Marinha dos Estados Unidos e bastante conservada. Essa verdadeira relíquia histórica atualmente está de posse de uma família riachuelense, que tem enorme respeito pela peça e a preserva da melhor maneira possível.

Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Na sequência todos seguiram por estradas da zona rural, circulando por áreas que estão recebendo boas chuvas neste ano de 2019. O grupo foi até a área da queda do Catalina, onde debateram aspectos históricos do episódio.

Daniel Stewart , Stuart Beechler, Aílton Freitas e Rostand Medeiros na área do desastre do Catalina – Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

No retorno a sede de nossa prefeitura, houve um novo encontro com a Prefeita Mara Cavalcanti e ficaram acertadas várias deliberações para o evento que ocorrerá em 10 de maio próximo.

A Prefeita Mara Cavalcanti recebendo um presente do diplomata Daniel A. Stewart
– Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Com essa atividade a Prefeitura Municipal de Riachuelo honrará de forma digna a memória dos militares aliados que sacrificaram suas vidas em prol da liberdade, bem como a dos nossos antepassados que souberam com extrema dignidade e atenção conceder a esses aviadores navais o descanso em solo riachuelense.